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Timestamp: 2018-06-25 01:53:07+00:00
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Matched Legal Cases: ['artigo 225', 'artigo 225', 'artigo 5', 'artigo 59', 'artigo 3', 'artigo 225', 'In casu', 'artigo 3']

Apontamentos sobre a Lei Federal 12.651/12 - Novo Código (anti) Florestal - GNMP
Apontamentos sobre a Lei Federal 12.651/12 - Novo Código (anti) Florestal
Por Carlos Alberto Valera, membro do MP-MG, Mestre em Direito Público e membro do GNMP; Mauro da Fonseca Ellovicht, membro do MP-MG
APONTAMENTOS SOBRE A LEI FEDERAL Nº 12.651/12 - NOVO CÓDIGO (ANTI) FLORESTAL
Mauro da Fonseca Ellovitch[1]
Carlos Alberto Valera[2]
O presente trabalho visa apresentar, sucintamente, uma análise crítica, notadamente sob os aspectos constitucional e principiológico, das principais alterações trazidas pela Lei n° 12.651, de 25 de maio de 2012, em relação aos institutos da Reserva Legal e da Área de Preservação Permanente e suas consequências sobre o meio ambiente ecologicamente equilibrado.
This paper presents a brief critical analysis, especially focusing the constitutional aspects of the main changes introduced by Law no 12.651 of May 25, 2012, regarding the institutes of Legal Reserve and Permanent Preservation Area and its effects on ecologically balanced environment.
Direito Ambiental. Código Florestal. Meio Ambiente. Constituição Federal.
Environmental Law. Forest Code. Environment. Constitution.
O projeto de Lei 1.876/1999 tramitou por mais de 12 (doze) anos nas Casas Legislativas Federais. Não obstante tão longo trâmite, seu andamento efetivo e aprovação se deram de forma açodada, desconsiderando as manifestações técnicas das principais instituições científicas do Brasil e a própria normatização constitucional acerca do tema. Conseguiu-se criar uma falsa polarização entre ruralistas e ambientalistas, desenvolvimento e defesa do meio ambiente, exigências da lei ambiental e produção de alimentos, com intenções claramente mercantis que atendessem a interesses políticos e lobbys econômicos específicos. O resultado foi a promulgação da Lei Federal 12.651, de 25 de maio de 2012, chamado de "Novo Código Florestal".
Guilherme José Purvin de Figueiredo sumariza bem o cenário político que determinou o resultado final do Novo Código Florestal:
Estava aberta a porta para os ruralistas conquistarem o Congresso Nacional. Agora eles contavam com um político de esquerda disposto a extirpar de nossa memória todas as referências reacionárias conexas à campanha pela revogação do Código Florestal: um patriota comunista... E este foi o quadro político que se manteve no Congresso Nacional ao longo dos últimos anos e que culminou, às vésperas da Conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável (Rio + 20), com a aprovação da lei sob comento pela Câmara dos Deputados e pela sua quase integral sanção pela Presidência da República. Gestado pelo "consenso de Brasília", a lei sob comento passa por cima da Constituição Federal, notadamente sobre o art. 5º, que afirma que "todos são iguais perante a lei" e sobre o art. 225, que confere a todos o "direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado".[3].
O aludido diploma legal trouxe inúmeras e preocupantes alterações que fragilizaram a proteção ambiental brasileira. O referido diploma legal inovou, anote-se para pior, o regime de proteção de dois institutos extremamente importantes para o meio ambiente ecologicamente equilibrado, quais sejam, a reserva legal e a área de preservação permanente. Além disso, introduziu novos conceitos tecnicamente falhos e imprecisos, além de agregar outros alheios à sistemática ambiental.
Nesse trabalho, sem a pretensão de exaurirmos o tema, procuraremos trazer as principais alterações legislativas introduzidas pela Lei Federal 12.651/12 e suas interfaces com a Constituição Federal e outros princípios constitucionais que tratam do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, evidenciando o desacerto e o descalabro da mudança legislativa.
2) MEIO AMBIENTE COMO DIREITO FUNDAMENTAL
A questão ambiental recebeu realce na Assembleia Nacional Constituinte, a qual incluiu no texto da Carta o artigo 225. Foi a primeira vez que a Lei Maior destinou artigo exclusivo sobre o meio ambiente em seu texto.
Essa novidade não passou imune às discussões doutrinárias e jurisprudenciais, redundando atualmente na assertiva unânime que o artigo 225 traz em seu bojo direito fundamental, mesmo estando fora do rol do artigo 5º, do mesmo diploma legal.
O Egrégio Supremo Tribunal Federal em Mandado de Segurança da Relatoria do Ministro Celso de Mello envolvendo desapropriação de imóvel rural para fins de reforma agrária já nos advertia nos idos de 1995:
O direito à integridade do meio ambiente - típico direito de terceira geração - constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao individuo identificado em sua singularidade, mas num sentido verdadeiramente mais abrangente, à própria coletividade social. Enquanto os direitos de primeira geração (civis e políticos) - que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais - realçam o principio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) - que se identifica com as liberdades positivas, reais ou concretas - acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade.[4].
Firmada tal premissa que deve servir de alicerce para nossa análise reclama-se agora aferirmos os conceitos fundamentais para compreendermos os institutos tratados pelo novo Código "Florestal"[5], antes de apresentarmos as mudanças legislativas propriamente ditas.
3) CONCEITOS FUNDAMENTAIS DO NOVO CÓDIGO "FLORESTAL"
A) FUNÇÕES ECOSSISTÊMICAS
Uma análise técnica adequada das Reservas Legais e das Áreas de Preservação Permanente, implica, necessariamente, em considerar as finalidades destes institutos e o papel que desempenham para o ecossistema e para o bem estar das populações humanas. Para tal desiderato, precisamos incorporar ao discurso jurídico o conhecimento das funções ecossistêmicas das APPs e Reservas Legais, afinal:
A compreensão da definição de funções ecológicas ou ecossistêmicas é relevante porque, por meio delas, dá-se a geração dos chamados serviços ecossistêmicos, ou seja, dos benefícios diretos e indiretos obtidos pelo ser humano a partir dos ecossistemas, como, por exemplo, a provisão de alimentos, a regulação climática, a formação do solo[6].
Somente avaliando as funções ecossistêmicas, esclarecemos seus processos ecológicos essenciais e os atributos que justificam sua proteção, definidas pela ciência e incorporadas expressamente na própria lei, teremos uma visão adequada da constitucionalidade ou não das alterações trazidas pela Lei n° 12.651/12.
B) ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE (APP)
Pode ser definida como área protegida em local de elevada fragilidade e/ou importância ambiental (como margens de nascentes, riachos, rios e lagos; entorno de nascentes e reservatórios d água; topos de morros e áreas de alta declividade, etc), coberta ou não por vegetação nativa, com a função de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas.
A definição legal das funções ecossistêmicas prestadas pela APP já era trazida pela Lei n° 4771/65 e foi mantida no art. 3°, II da Lei n° 12.651/12.
Paulo Affonso Leme Machado sempre compreendeu que as funções ecossistêmicas das áreas de preservação permanente são intrínsecas às suas consequências jurídicas:
A vegetação, nativa ou não, e a própria área são objeto de preservação não só por si mesmas, mas pelas suas funções protetoras das águas, do solo, da biodiversidade (aí compreendendo o fluxo gênico de fauna e flora), da paisagem e do bem estar humano. A área de preservação permanente - APP não é um favor da lei, é um ato de inteligência social e é de fácil adaptação às condições ambientais[7].
Área localizada no interior da propriedade ou posse rural, que deve ser mantida com a sua cobertura vegetal nativa, por ser a necessária à manutenção representativa do bioma, ao abrigo e proteção da fauna e flora, à conservação da biodiversidade, à reabilitação dos processos ecológicos e também para viabilizar o uso sustentável dos recursos naturais. A ideia ínsita à Reserva Legal é a da preservação de uma parte do bioma original em cada propriedade rural, mantendo um equilíbrio ecológico (flora nativa, abrigo da fauna nativa, microorganismos, equilíbrio de predadores naturais, estoque de carbono, potencialização da polinização, regulação climática) que seria prejudicado com a exploração total da área.
A definição legal das funções ecossistêmicas prestadas pela Reserva Legal também foi feita pela Lei n° 4771/65 e mantida no art. 3°, III da Lei n° 12.651/12.
Assim como a proteção às áreas de preservação permanente, a delimitação, proteção, restauração e manutenção de percentual mínimo de vegetação nativa em cada imóvel rural também é um ato de inteligência social¸ para utilizarmos a feliz expressão do Mestre Paulo Affonso Leme Machado. Isso possibilita a conservação do equilíbrio ecossistêmico originário, antes da intervenção humana significativa, contribuindo para um balanço sustentável de microorganismos, prezas, predadores, agentes polinizadores, manutenção climática, infiltração de água, alimentação do lençol freático, entre outros que são potencialmente afetados pela intervenção antrópica e podem gerar consequências imprevisíveis.
Por outro lado, numerosos são os estudos que apontam para a importância da manutenção e recuperação das reservas legais, notadamente em regiões de fitofisionomias não florestais, para a sobrevivência de muitíssimas espécies animais. Praticamente todas as estratégias públicas de recuperação de ecossistemas se apoiam na existência da RL para sua implementação (MMA, 2003), cientes que são da ineficiência na conservação de grandes blocos de vegetação nativa se no restante da paisagem não houver qualquer tipo de conectividade entre eles.[8]
Percebe-se claramente que áreas de preservação permanente e de reserva legal desempenham funções diversas, porém complementares. Junto com as Unidades de Conservação, compõem o mosaico de dispositivos que mais garantem a proteção florestal no Brasil.
Apresentados sucintamente os processos ecológicos essenciais das APPs e Reservas Legais, compreendemos o alerta de José Rubens Morato Leite e Patrick de Araújo Ayala:
Um Código Florestal que não consegue demostrar a sua capacidade de proteger as pessoas e os processos ecológicos essenciais para que a vida possa se desenvolver e que não consegue veicular uma relação de indivisibilidade entre as liberdades econômicas e a conservação dos recursos naturais, propõe, de forma ostensiva, que os recursos naturais não poderão ser explorados de forma duradoura.[9]
Agora continuemos com os conceitos fundamentais, passando à análise do Módulo Fiscal, esta unidade até então estranha ao Direito Ambiental.
D) MÓDULO FISCAL
Unidade de medida agrária criada pela Lei 6.746/79, para fins de cálculo do Imposto Territorial Rural (ITR). A extensão é definida pelo INCRA, por Instrução Especial, para cada Município. Pode variar de 05 (cinco) a 110 (cento e dez) hectares. Jamais foi objeto de utilização direta pela legislação ambiental, até o advento da Lei n° 12.651/12. O tamanho da propriedade rural em módulos fiscais não possui qualquer relação direta com os institutos que passou a regulamentar.
A Lei n° 12.651/12 dá diversos tratamentos diferenciados conforme o tamanho da propriedade rural em módulos fiscais, sem qualquer preocupação com a condição social do proprietário ou com a possibilidade de desmembramento dos imóveis. O parágrafo único do art. 3° equipara qualquer propriedade com até 04 (quatro) módulos fiscais que desenvolva atividades agrossilvipastoris à pequena posse ou propriedade rural familiar.
A utilização do módulo fiscal como parâmetro para tratamento diferenciado para recuperação de áreas de preservação permanente e de reservas legais causará uma enorme insegurança jurídica, pois a política ambiental brasileira ficará condicionada a um ato normativo infralegal do Presidente do INCRA. Não há disposições claras sobre casos de alteração superveniente do tamanho dos módulos fiscais.
A equiparação indistinta também pode repercutir no próprio crédito agrícola, gerando uma interpretação analógica completamente descabida de que qualquer proprietário ou possuidor rural que detenha até 04 (quatro) módulos fiscais e que jamais foi agricultor familiar ou pertenceu a comunidades tradicionais poderia, por equiparação, pleitear os recursos financeiros destinados a este seguimento, agravando a já combalida política creditícia rural.
Continuando nosso propósito de conceituação, trataremos agora de dois instrumentos centrais da nova sistemática de controle ambiental inovada pela Lei 12.651/12: O Cadastro Ambiental Rural e o Programa de Regularização Ambiental.
E) CADASTRO AMBIENTAL RURAL (CAR)
Registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, com a finalidade de integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico e combate ao desmatamento (art. 29 da Lei n° 12.651/12).
A ideia do CAR era a de concentrar, em base de dados única, informações sobre todas as propriedades rurais, com identificação das coordenadas geográficas e da localização das APPs, Áreas Públicas, Áreas de Uso Restrito, Reservas Legais, remanescentes de vegetação e áreas "consolidadas" em cada propriedade.
Após o efetivo registro da reserva legal no CAR, fica dispensada a Averbação da Reserva Legal no Registro do Imóvel (art. 18, §4° da Lei n° 12.651/12).
Já existe um Cadastro Ambiental Rural previsto pelo Decreto Presidencial n° 7029/09 que instituiu o "Programa Mais Ambiente". Segundo o próprio Ministério do Meio Ambiente, este cadastro ainda não cumpre as finalidades da Lei n° 12.651/12. O novo CAR foi regulamentado pelo Decreto n° 7830/12, mas ainda não foi implantado (art. 21 do Decreto).
F) PROGRAMA DE REGULARIZAÇÃO AMBIENTAL (PRA)
Programa estatal para "regularizar" situação de proprietários autuados por infração ambiental ou réus em processos por crime ambiental cometidos até 22 de julho de 2008. Foi regulamentado pelos artigos 9° a 19 do Decreto n° 7830/12. O artigo 59, caput,da Lei n° 12651/12 dá o prazo de 01 (um) ano, prorrogável por mais um ano, para União e Estados implementá-lo.
A ideia do PRA, na teoria, era possibilitar a anistia de multas e a extinção de punibilidade por crimes ambientais como forma de estimular a regularização das propriedades rurais com intervenções ilícitas em áreas protegidas. O órgão do SISNAMA celebraria Termo de Compromisso com proprietário para adequar e recuperar áreas ilegalmente utilizadas.
Contudo, servirá também como instrumento para "consolidação" de atos ilícitos e permissão para continuidade de atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural (ranchos e resorts) em áreas que eram protegidas pela legislação (na forma dos artigos 61-A a 68 da Lei n° 12.651/12).
Além disso, será instrumento para anistia de multas e crimes ambientais cometidos até 22 de julho de 2008. Viola os princípios da isonomia, da separação dos Poderes, da tríplice responsabilidade ambiental (art. 225, §3° da Constituição Federal), da prevenção geral e da prevenção especial.
G) CONSOLIDAÇÃO DE INTERVENÇÕES ILÍCITAS
A Lei n° 12.651/12 cria o instituto da "consolidação" de intervenções antrópicas ilícitas, ou seja, o direito à manutenção de atividades ilegalmente instaladas em áreas ambientalmente protegidas, desde que anteriores a uma data aleatoriamente definida. Para as áreas rurais foi estabelecido o marco de 22 de julho de 2008; para as áreas urbanas o marco de 31 de dezembro de 2007. Os conceitos de área rural consolidada e de área urbana consolidada são dados, respectivamente, pelos incisos IV e do art. 3° da lei n° 12.651/12.
O Novo Código Florestal permite a "consolidação" para minimizar a recuperação de áreas de preservação permanente degradadas (arts. 61-A a 65), bem como para evitar a recuperação de vegetação nativa e diminuir o percentual de áreas para constituição de Reserva Legal (arts. 67 e 68).
Abordados os conceitos básicos, passemos a algumas considerações sobre as principais alterações legislativas trazidas pelo "Novo Código Florestal".
4) PRINCIPAIS ALTERAÇÕES TRAZIDAS PELA LEI N° 12.651/12:
A) PRINCIPAIS ALTERAÇÕES EM RELAÇÃO ÀS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE
- As áreas de preservação permanente às margens dos cursos de água passaram a ser medidas a partir da borda da calha do leito regular e não do seu nível mais alto:
Art. 4 Considera-se Área de Preservação Permanente, em zonas rurais ou urbanas, para os efeitos desta Lei:
I - as faixas marginais de qualquer curso de água natural perene e intermitente, excluídos os efêmeros, desde a borda da calha do leito regular, em largura mínima de:
Embora a Lei n° 12.651/12 tenha mantido as metragens de APP da Lei n° 4771/65, a alteração do parâmetro para sua medição acarreta redução substancial de áreas protegidas. Afinal, um rio que tenha alteração significativa do leito em períodos de cheias (como acontece muito em Minas Gerais e na Amazônia) terá boa parte (senão toda) a área de preservação permanente periodicamente inundada. Assim, essas APPs não cumprirão seus processos ecológicos essenciais e a ocupação das áreas de várzea poderão acarretar situações de graves riscos a bens e vidas humanas.
- APP no entorno dos reservatórios d água artificiais será definida na licença ambiental e será dispensada se o reservatório (natural ou artificial) tiver menos de 01 hectare.
III - as áreas no entorno dos reservatórios d água artificiais, decorrentes de barramento ou represamento de cursos d água naturais, na faixa definida na licença ambiental do empreendimento;
§ 4° Nas acumulações naturais ou artificiais de água com superfície inferior a 1 (um) hectare, fica dispensada a reserva da faixa de proteção prevista nos incisos II e III do caput, vedada nova supressão de áreas de vegetação nativa, salvo autorização do órgão ambiental competente do Sistema Nacional do Meio Ambiente - Sisnama.
- A proteção dos topos de morro e montes só existirá se tiver altura mínima de 100 (cem) metros e inclinação média maior que 25.
IX - no topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 (cem) metros e inclinação média maior que 25°, as áreas delimitadas a partir da curva de nível correspondente a 2/3 (dois terços) da altura mínima da elevação sempre em relação à base, sendo esta definida pelo plano horizontal determinado por planície ou espelho d água adjacente ou, nos relevos ondulados, pela cota do ponto de sela mais próximo da elevação;
- Retira a proteção de olhos d água intermitentes:
IV - as áreas no entorno das nascentes e dos olhos d água perenes, qualquer que seja sua situação topográfica, no raio mínimo de 50 (cinquenta) metros;
- Permite Depósitos de Resíduos (aterros, depósitos de lixo, centrais de tratamento e reciclagem) e Áreas para Atividades Esportivas (estádios de futebol, pistas de motocross, etc) em Áreas De Preservação
- Permite a "consolidação" de intervenções ilícitas em APPs, com redução substancial das áreas a serem recuperadas.
a) Nas APPs de cursos d água na zona rural (art. 61-A e 61-B):
· Imóvel com área de até 1 módulo fiscal = deve recuperar 5 m de APP, desde que APP não ultrapasse 10% da área do imóvel.
· Imóvel com área superior a 1 até 2 módulos fiscais = deve recuperar 8 m de APP, desde que APP não ultrapasse 10% da área do imóvel.
· Imóvel com área superior a 2 até 4 módulos fiscais = deve recuperar 15 m, desde que APP não ultrapasse 20% da área do imóvel
· Imóvel com mais de 4 até 10 módulos fiscais = deve recuperar 20 m p/ cursos d água de até 10m
· Demais casos = deve recuperar área correspondente à metade da largura do curso d água, em patamar mínimo de 30m e máximo 100m.
b) No entorno de lagos ou lagoas naturais (art. 61-A e 61-B):
· Imóvel com área de até 1 módulo fiscal = deve recuperar 5 m desde que APP não ultrapasse 10% da área do imóvel.
· Imóvel com área superior a 1 a 2 módulos fiscais = deve recuperar 8 m, desde que APP não ultrapasse 10% da área do imóvel.
· Imóvel com área de mais de 4 módulos fiscais = deve recuperar 30m
c) No entorno de Nascentes = deve recuperar 15m
d) Na zona urbana "ao longo dos rios ou de qualquer curso d água, será mantida faixa não edificável de15 m" (art. 65 §2°)
e) Em reservatórios artificiais de água destinados a geração de energia ou abastecimento público que foram registrados ou tiveram seus contratos de concessão ou autorização assinados anteriormente à Medida Provisória no 2.166-67, de 24 de agosto de 2001, a faixa da Área de Preservação Permanente será a distância entre o nível máximo operativo normal e a cota máxima maximorum. (art. 62)
B) PRINCIPAIS ALTERAÇÕES EM RELAÇÃO À RESERVA LEGAL
- Dispensa a existência de Reserva Legal em propriedades utilizadas para empreendimentos para abastecimento de água, para tratamento de esgoto, para reservatórios de água para geração de energia, para linhas de transmissão e subestações de energia, para instalação e ampliação de rodovias e ferrovias (art. 12, §§ 6°, 7° e 8°).
§ 6 Os empreendimentos de abastecimento público de água e tratamento de esgoto não estão sujeitos à constituição de Reserva Legal.
§ 7 Não será exigido Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas por detentor de concessão, permissão ou autorização para exploração de potencial de energia hidráulica, nas quais funcionem empreendimentos de geração de energia elétrica, subestações ou sejam instaladas linhas de transmissão e de distribuição de energia elétrica.
§ 8 Não será exigido Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas com o objetivo de implantação e ampliação de capacidade de rodovias e ferrovias.
- Dispensa a recuperação de Reserva Legal degradada em imóveis de até 04 Módulos Fiscais.
- Permite "recomposição" de Reserva com Espécies Exóticas ou Compensá-las em outra Bacia Hidrográfica ou Estado, desde que no mesmo bioma (art. 66, §3° e 5°)
§ 1 A obrigação prevista no caput tem natureza real e é transmitida ao sucessor no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural.
§ 2 A recomposição de que trata o inciso I do caput deverá atender os critérios estipulados pelo órgão competente do Sisnama e ser concluída em até 20 (vinte) anos, abrangendo, a cada 2 (dois) anos, no mínimo 1/10 (um décimo) da área total necessária à sua complementação.
§ 3 A recomposição de que trata o inciso I do caput poderá ser realizada mediante o plantio intercalado de espécies nativas com exóticas ou frutíferas, em sistema agroflorestal, observados os seguintes parâmetros:
§ 4 Os proprietários ou possuidores do imóvel que optarem por recompor a Reserva Legal na forma dos §§ 2o e 3o terão direito à sua exploração econômica, nos termos desta Lei.
§ 6 As áreas a serem utilizadas para compensação na forma do § 5o deverão:
§ 7 A definição de áreas prioritárias de que trata o § 6o buscará favorecer, entre outros, a recuperação de bacias hidrográficas excessivamente desmatadas, a criação de corredores ecológicos, a conservação de grandes áreas protegidas e a conservação ou recuperação de ecossistemas ou espécies ameaçados.
§ 8 Quando se tratar de imóveis públicos, a compensação de que trata o inciso III do caput poderá ser feita mediante concessão de direito real de uso ou doação, por parte da pessoa jurídica de direito público proprietária de imóvel rural que não detém Reserva Legal em extensão suficiente, ao órgão público responsável pela Unidade de Conservação de área localizada no interior de Unidade de Conservação de domínio público, a ser criada ou pendente de regularização fundiária.
§ 9 As medidas de compensação previstas neste artigo não poderão ser utilizadas como forma de viabilizar a conversão de novas áreas para uso alternativo do solo.
- Permite, como regra geral, o cômputo da área de APP no percentual de Reserva Legal.
Art. 16 § 6 Será admitido, pelo órgão ambiental competente, o cômputo das áreas relativas à vegetação nativa existente em área de preservação permanente no cálculo do percentual de reserva legal, desde que não implique em conversão de novas áreas para o uso alternativo do solo, e quando a soma da vegetação nativa em área de preservação permanente e reserva legal exceder a:
III - vinte e cinco por cento da pequena propriedade definida pelas alíneas "b" e "c" do inciso I do § 2o do art. 1o
II - a área a ser computada esteja conservada ou em processo de recuperação, conforme comprovação do proprietário ao órgão estadual integrante do Sisnama;e
- Desobriga a averbação da Reserva Legal no Registro do Imóvel depois de inscrita no CAR.
C) ANISTIA A INFRAÇÕES ADMINISTRATIVAS E A CRIMES AMBIENTAIS
§ 1 Na regulamentação dos PRAs, a União estabelecerá, em até 180 (cento e oitenta) dias a partir da data da publicação desta Lei, sem prejuízo do prazo definido no caput, normas de caráter geral, incumbindo-se aos Estados e ao Distrito Federal o detalhamento por meio da edição de normas de caráter específico, em razão de suas peculiaridades territoriais, climáticas, históricas, culturais, econômicas e sociais, conforme preceitua o art. 24 da Constituição Federal.
§ 2 A inscrição do imóvel rural no CAR é condição obrigatória para a adesão ao PRA, devendo esta adesão ser requerida pelo interessado no prazo de 1 (um) ano, contado a partir da implantação a que se refere o caput, prorrogável por uma única vez, por igual período, por ato do Chefe do Poder Executivo.
§ 3 Com base no requerimento de adesão ao PRA, o órgão competente integrante do Sisnama convocará o proprietário ou possuidor para assinar o termo de compromisso, que constituirá título executivo extrajudicial.
§ 4 No período entre a publicação desta Lei e a implantação do PRA em cada Estado e no Distrito Federal, bem como após a adesão do interessado ao PRA e enquanto estiver sendo cumprido o termo de compromisso, o proprietário ou possuidor não poderá ser autuado por infrações cometidas antes de 22 de julho de 2008, relativas à supressão irregular de vegetação em Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito.
§ 5 A partir da assinatura do termo de compromisso, serão suspensas as sanções decorrentes das infrações mencionadas no § 4° deste artigo e, cumpridas as obrigações estabelecidas no PRA ou no termo de compromisso para a regularização ambiental das exigências desta Lei, nos prazos e condições neles estabelecidos, as multas referidas neste artigo serão consideradas como convertidas em serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do meio ambiente, regularizando o uso de áreas rurais consolidadas conforme definido no PRA.
Art. 60. A assinatura de termo de compromisso para regularização de imóvel ou posse rural perante o órgão ambiental competente, mencionado no art. 59, suspenderá a punibilidade dos crimes previstos nosarts. 38,39 e48 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, enquanto o termo estiver sendo cumprido.
§ 1° A prescrição ficará interrompida durante o período de suspensão da pretensão punitiva.
§ 2 Extingue-se a punibilidade com a efetiva regularização prevista nesta Lei.
5) LEI FEDERAL 12.651/12 E SUAS VIOLAÇÕES ÀS NORMAS E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS
As várias (e não exaustivas) mudanças legislativas introduzidas, em sua esmagadora maioria, importam em grave ameaça e atentado à proteção ambiental brasileira comprometendo direta e imediatamente o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Afere-se, com clareza solar, que o "Novo Código Florestal" mesmo mantendo os conceitos científicos nas definições de APP e Reserva Legal de seu artigo 3º, permite e estimula, em diversas disposições, que tais conceitos sejam "flexibilizados" ou ignorados, como se a produção legislativa tivesse o condão de mudar as regras naturais.
Cientes dos conceitos fundamentais abordados, ao cotejar as normas acima transcritas percebemos graves violações ao artigo 225, da Constituição Federal, a outros dispositivos da mesma estatura e a uma série de princípios, os quais enumeraremos a seguir sem a pretensão de exaurirmos o tema.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu os deveres de preservação e RECUPERAÇÃO dos processos ecológicos essenciais (art. 225, §1°, I), de VEDAÇÃO DE UTILIZAÇÃO dos espaços territoriais especialmente protegidos (APPs, Reservas Legais, Unidades de Conservação) DE FORMA A COMPROMETER SEUS ATRIBUTOS (art. 225, §1°, III) e de REPARAÇÃO DO DANO AMBIENTAL, independentemente de sanções penais ou administrativas (art. 225, §3°):
I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; (grifo nosso)
III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; (grifo nosso)
§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. (grifo nosso)
Os artigos da Lei n° 12.651/12 que implicam em "consolidação" com base em data arbitrariamente estabelecida impedem a recuperação de processos ecológicos essenciais, acarretam a utilização de Áreas de Preservação Permanente e de Reservas Legais comprometendo os atributos que justificam sua proteção e excluem a obrigação de reparar os danos ambientais causados. Portanto, padecem de flagrante inconstitucionalidade.
Uma área de preservação permanente de 05 (cinco) metros pode ser qualquer coisa menos um ecossistema que cumpra os atributos que justificam sua proteção. Qual a biodiversidade em uma fila única de árvores? Isso é suficiente para fluxo gênico de fauna e flora? Uma fila única de árvores espaçadas dentro do leito maior de um rio conseguirá manter a estabilidade geológica das margens? É evidente que processos ecológicos essenciais contidos na definição legal e científica da APP não foram integralmente restaurados nesta hipótese. Insistem nossos legisladores em negar o óbvio, ou seja, que os parâmetros definidos em 1965 permanecem respaldados pelas mais relevantes instituições científicas atuais (SBPC, ABC, ESALQ).
Da fundamentalidade do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado decorrem o princípio da proibição da proteção insuficiente, que significa que ao Estado não é lícito atuar de forma deficiente na proteção e promoção de direitos fundamentais, e o princípio da proibição do retrocesso dos direitos fundamentais, que implica uma obrigação negativa do Estado, no sentido de se abster de normatizar condutas que acarretem a redução da incidência de direitos fundamentais consagrados.
Uma vez que a Constituição Federal estabelece o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental (art. 225 c.c. art. 5°, caput, e §2°), ele integra o núcleo de conquistas sociais que não estão sujeitas a retrocesso, sob pena de violar um "patrimônio político-jurídico consolidado ao longo do percurso histórico civilizatório"[10]. Essa é, resumidamente, a ideia do princípio constitucional implícito da PROIBIÇÃO DO RETROCESSO DOS DIREITOS SÓCIOAMBIENTAIS.
O núcleo dos direitos fundamentais é resultado de uma gradual evolução da sociedade e implica em uma caminhada gradativa que não está sujeita aos humores de determinada legislatura. O princípio da proibição do retrocesso dos direitos socioambientais fulmina qualquer norma que implique em fragilização do núcleo essencial de um direito fundamental. Sarlet e Fensterseifer nos explicam que:
O legislador (assim como o Poder Público em geral) não pode, portanto, uma vez concretizado determinado direito social ou ecológico no plano da legislação infraconstitucional, mesmo com efeitos meramente prospectivos, voltar atrás e, mediante uma supressão ou mesmo relativização (no sentido de uma restrição), afetar o núcleo essencial legislativamente concretizado de determinado direito socioambiental constitucionalmente assegurado.[11]
O Mestre Canotilho nos ensina que:
[...] é razoável convocar o princípio da proibição do retrocesso no sentido de que as políticas ambientais - desde logo as políticas ambientais do Estado - são obrigadas a melhorar o nível de proteção já assegurado pelos vários complexos normativo-ambientais (Constituição, tratados internacionais, direito comunitário europeu, leis e diretivas).[12]
Sobre o tema a inestimável lição do Ministro Herman Benjamin do Egrégio Superior Tribunal de Justiça, após discorrer longamente sobre o tema, conclui que:
Retroceder agora, quando mal acordamos do pesadelo da destruição ensandecida dos processos ecológicos essenciais nos últimos 500 anos, haverá de ser visto, por juízes, como privatização de inestimável externalidade positiva (= os serviços ecológicos do patrimônio natural intergeracional), que se agrega à também incalculável externalidade negativa (= a destruição de biomas inteiros), que acaba socializada com toda a coletividade e seus descendentes.
Fica a lição com jeito de alerta: no universo da proteção jurídica do ambiente, o antiprogresso e, pior, o retrocesso legislativo, este sim, tem custos para as presentes e futuras gerações, provavelmente irreversíveis.
É a degradação da lei levando à degradação ambiental.[13]
O ExcelentíssimoMinistro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, chegou a reconhecer expressamente a existência do princípio da vedação do retrocesso,"segundo o qual seria inconstitucional a redução arbitrária do grau de concretização legislativa de um direito fundamental" em seu célebre voto na ADI 4.578/DF.
A proteção às Áreas de Preservação e às Reservas Legais garantida pela Lei n° 4771/65 e pelas Resoluções CONAMA que a regulamentaram foram o ápice de um longo processo social e científico para estabelecer um núcleo mínimo de normas para dar efetividade ao direito constitucional ao Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado.
Este âmago essencial, historicamente desenvolvido, revela-se nas disposições que definiram metragens, percentuais e obrigações de proteção, conservação e recuperação das Áreas de Preservação Permanente e das Reservas Legais, de modo a garantir os processos ecológicos essenciais, a biodiversidade e a proteção da flora e da fauna. Portanto, alijar o Estado Brasileiro deste patamar mínimo de preservação ambiental implica em retrocesso e em prestação insuficiente de proteção ao direito constitucional fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Caso ignoremos o Princípio da Proibição do Retrocesso, estaremos efetivamente tolerando o fim da proteção ambiental no Brasil. Afinal, se deputados e senadores da bancada ruralista puderem anistiar e consolidar danos ambientais pelo estabelecimento de uma data aleatória (22 de junho de 2008), como se propõe, nada impede que advenha nova lei prorrogando a "consolidação" até 2018, depois até 2028 e assim sucessivamente, até não restar nada do Direito Constitucional ao Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado para as futuras gerações.
Mais do que uma construção meramente doutrinária, entendemos que os aludidos princípios possuem suporte normativo nos princípios constitucionais da prevalência dos direitos humanos e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade (art. 4°, II e IX) e na própria eficácia negativa das normas constitucionais que redundam em ofensa clara as "cláusulas pétreas"[14].
A alteração de situações jurídicas concretamente constituídas sob a égide da Lei 4771/65 pela incidência do novel diploma legal afrontam também a segurança jurídica resultante do direito adquirido difuso (art. 5°, XXXVI) ao patamar mínimo de proteção às florestas. Nos idos do Código Civil anterior Clóvis Bevilaqua, quando tratava da razão e importância de assegurar o direito adquirido, já asseverava que:
o respeito aos direitos adquiridos é uma necessidade imposta pelo instituto de conservação da sociedade, que não teria organização estável, nem base para o seu natural desenvolvimento, se a ordem jurídica e os direitos, que ela assegura, se dissolvessem com as sucessivas reformas sucessivas da legislação.[15]
Não são apenas os direitos individuais que merecem a proteção pétrea do direito adquirido, mas também os direitos difusos fundamentais. Em recente decisão o Egrégio Superior Tribunal de Justiça em voto da Relatoria do Ministro Herman Benjamin assim se posicionou:
PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. NOVO CÓDIGO FLORESTAL (LEI 12.6510/2012). REQUERIMENTO. PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO CONTRA ACÓRDÃO. INVIABILIDADE. PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE. RECEBIMENTO COMO EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VIOLAÇÃO AO ART. 535 DO CPC NÃO APONTADA. AUTO DE INFRAÇÃO. IRRETROATIVIDADE DA LEI NOVA. ATO JURÍDICO PERFEITO. DIREITO ADQUIRIDO. ART. 6º, CAPUT, DA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO.
1. Trata-se de requerimento apresentado pelo recorrente, proprietário rural, no bojo de "ação de anulação de ato c?c indenizatória", com intuito de ver reconhecida a falta de interesse de agir superveniente do Ibama, em razão da entrada em vigor da Lei 12.651/2012 (novo Código Florestal), que revogou o Código Florestal de 1965 (Lei 4.771) e a Lei 7.754/1989. Argumenta que a nova legislação "o isentou da punição que o afligia", e que "seu ato não representa mais ilícito algum", estando, pois, "livre das punições impostas". Numa palavra, afirma que a Lei 12.651/2012 procedera à anistia dos infratores do Código Florestal de 1965, daí sem valor o auto de infração ambiental lavrado contra si e a imposição de multa de R$ 1.500, por ocupação e exploração irregulares, anteriores a julho de 2008, de Área de Preservação Permanente nas margens do rio Santo Antônio.
3. Precedente do STJ que faz valer, no campo ambiental-urbanístico, a norma mais rigorosa vigente à época dos fatos, e não a contemporânea ao julgamento da causa, menos protetora da Natureza: O "direito material aplicável à espécie é o então vigente à época dos fatos. In casu, Lei n. 6.766/79, art. 4º, III, que determinava, em sua redação original, a faixa non aedificandi de 15 (quinze) metros de cada lado do arroio (REsp 980.709/RS, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 2.12.2008).
4. Ademais, como deixa claro o novo Código Florestal (art. 59), o legislador não anistiou geral e irrestritamente as infrações ou extinguiu a ilicitude de condutas anteriores a 22 de julho de 2008, de modo a implicar perda superveniente de interesse de agir. Ao contrário, a recuperação do meio ambiente degradado nas chamadas áreas rurais consolidadas continua de rigor, agora por meio de procedimento administrativo, no âmbito de Programa de Regularização Ambiental - PRA, após a inscrição do imóvel no Cadastro Ambiental Rural - CAR (§ 2°) e a assinatura de Termo de Compromisso (TC), valendo este como título extrajudicial (§ 3°). Apenas a partir daí "serão suspensas" as sanções aplicadas ou aplicáveis (§ 5°, grifo acrescentado). Com o cumprimento das obrigações previstas no PRA ou no TC, "as multas" (e só elas) "serão consideradas convertidas em serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do meio ambiente".
6. Pedido de reconsideração não conhecido.[16] - sem destaques no original
Além disso, o Brasil é signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos (1969) e da Convenção Americana de Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988), que preveem, respectivamente, os deveres de desenvolvimento progressivo dos direitos sociais e o melhoramentodo meio ambiente.
Importante anotar que na linha da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal mesmo os pactos e tratados assinados e ratificados antes da edição da Emenda 45 são incorporados em nosso ordenamento como normas supralegais, as quais se sobrepõe ao processo legislativo ordinário[17].
Destarte, todos os dispositivos da Lei n° 12.651/2012 que diminuem a proteção de áreas de preservação permanente e de reservas legais, bem como onde estabelece anistias à recuperação com base em critério temporal aleatório são absolutamente inconstitucionais. Cumpre ressaltar que o posicionamento aqui defendido foi o mesmo adotado integralmente pela Procuradoria Geral da República, que ajuizou três ações diretas de inconstitucionalidade contra os artigos em foco no dia 21 de janeiro de 2013[18].
Há necessidade, neste ponto, de superar o que temos denominado de "crise de legalidade"[19] e retornar a aplicação irrestrita do Direito Ambiental Constitucional. O professor José Afonso da Silva acentua:
Essa normatividade que se forma e se desenvolve em torno do fenômeno ambiental já tem merecido a atenção de doutrinadores, que empreendem um trabalho de sua sistematização e de busca de soluções possíveis para os diversos problemas que se apresentam, mas ainda não se fez uma teoria do Direito Ambiental, nem o faremos nós aqui. Talvez seja ainda cedo para se discutir sobre sua autonomia e sua natureza. Pode-se, não obstante isso, dizer que se trata de uma disciplina jurídica de acentuada autonomia, dada a natureza específica de seu objeto - ordenação da qualidade do meio ambiente com vista a uma boa qualidade de vida -, que não se confunde, nem mesmo se assemelha, com o objeto de outros ramos do Direito. Pode-se declarar também que o Direito Ambiental é hoje um ramo do Direito Público, tal é a forte presença do Poder Público no controle da qualidade do meio ambiente, em função da qualidade de vida concebida como uma forma de direito fundamental da pessoa humana; especialmente o é o Direito Ambiental Constitucional.
Como todo ramo do Direito, também o Direito Ambiental deve ser considerado sob dois aspectos:
a)Direito Ambiental objetivo, que consiste no conjunto de normas jurídicas disciplinadoras da proteção da qualidade do meio ambiente;
b)Direito Ambiental como ciência, que busca o conhecimento sistematizado das normas e princípios ordenadores da qualidade do meio ambiente.[20]
Não pode o operador do Direito (seja Promotor de Justiça, Procurador, Advogado, Delegado, Defensor Público ou Magistrado) aceitar bovinamente o vilipêndio e o esvaziamento da proteção constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado por uma legislação pontual, falha e voltada ao atendimento de setor específico da sociedade, em detrimento do bem comum.
Não estamos aqui sugerindo qualquer forma de recusa a cumprir a Lei ou a prática de algum ato de desobediência civil. Defendemos apenas que o jurista atenda à hierarquia constitucional e volte sua atuação ao direito ambiental constitucional ao invés da aplicação míope e isolada de apenas um diploma legal. Questionar a constitucionalidade de Lei é prerrogativa democrática e instrumento legítimo do sistema de freios e contrapesos entre os Poderes.
Partimos do estudo dos conceitos técnicos fundamentais do Código Florestal para, após verificar as principais alterações legislativas trazidas pela Lei no 12.651/12, avaliar seus reflexos diante do disposto na Constituição Federal. Percebemos que, longe de proporcionar a tão desejada "segurança jurídica", o "Novo Código Florestal" fragilizou sensivelmente a proteção ambiental no Brasil e trouxe inúmeras situações casuísticas e de difícil definição.
O Parlamento Federal, com o beneplácito do Poder Executivo, legislou de maneira contrária ao disposto na Constituição Federal, produzindo legislação esdrúxula que reduz e potencialmente esvazia a proteção ao direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, cláusula pétrea.
O "Novo Código Florestal" viola os deveres constitucionais de preservação e recuperação dos processos ecológicos essenciais (art. 225, §1°, I), de vedação de utilização dos espaços territoriais especialmente protegidos (apps, reservas legais, unidades de conservação) de forma a comprometer seus atributos (art. 225, §1°, III) e de reparação do dano ambiental, independentemente de sanções penais ou administrativas (art. 225, §3°). A Lei 12.651/12 também ofende os princípios da proibição do retrocesso dos direitos socioambientais e da proibição da proteção insuficiente, além de gerar situações de possível ataque a direito difuso adquirido.
Diante desse quadro, defendemos que os operadores do direito atuem tecnicamente em defesa do direito constitucional ambiental, de maneira incansável e questionadora - ao invés de conformar-se com a fragilização inconstitucional da proteção ao Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado trazida pela Lei nº 12.651/12 - a fim de cumprir sua finalidade primordial de busca da Justiça.
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[1] Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais. Coordenador Regional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente das Bacias Hidrográficas dos Rios Velhas e Paraopebas. Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM) - Unidade Regional Colegiada Central. Contato: mauro@mpmg.mp.br.
[2] Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais. Coordenador Regional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente das Bacias Hidrográficas dos Rios Paranaíba e Baixo Rio Grande. Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM) - Unidade Regional Colegiada Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Mestre em Direito Público. Contato: carlosvalera@mpmg.mp.br.
[3] FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. In: MILARÉ, Edis; MACHADO, Paulo Affonso Leme (Coord.). Novo Código Florestal- Comentários à Lei 12.651 de 25 de maio de 2012 e à MedProv 571 de 25 de maio de 2012. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 32.
[4] Brasília, STF. MS 22164/SP, Rel. Ministro Celso de Mello, 1995.
[5] Colocamos a expressão entre aspas, pois a mudança legislativa foi extremamente prejudicial as nossas florestas.
[6] Nesse sentido, ver: DAILY, Gretchen C. (Org.). Natures Services: Societal Dependence on Natural Ecosystem. Washington: Island Press, 1997. Ver também: DE GROOT, Rudolf. S.; WILSON, Matthew. A.; BOUMANS, Roelof. M. J. A Tipology for the Classification, decription and Valuation of Ecosystem Functions, Goods and Services.Ecologycal Economics. v. 41, n. 3, junho de 2002, p. 393-408. Ver ainda: CONSTANZA, R. et al.The Value of Worlds Ecosystem Services and Natural Capital. Nature Magazine. v. 387. p. 253-260.1997.
[7] MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro.15. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 735.
[8] VALLE, Raul Silva Telles do. Código Florestal: mudar é preciso. Mas para onde ? In: SILVA, Solange Teles da; CUREAU, Sandra; LEUZINGER, Márcia Dieguez (org.). Código Florestal- Desafios e Perspectivas.São Paulo: Fiuza, 2010. p. 360
[9] LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patrick de Araújo. Dano Ambiental- Do individual ao Coletivo Extrapatrimonial. Teoria e Prática.5. Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 375/376
[10] SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago.Direito Constitucional Ambiental. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 916.
[11] SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago.Dano Ambiental na Sociedade de Risco. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 158
[12] CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato (org,). Direito Constitucional Ambiental Brasileiro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 07
[13] BENJAMIN, Antônio Herman. Princípio da Proibição de Retrocesso Ambiental. Senado Federal. 2012, pp. 55-72.
[14] Art. 60,§4º, inciso IV, da CR/88.
[15] BEVILAQUA, Clóvis. Código Civil. Ed. Francisco Alves. São Paulo. 1940, Vol. I, p. 101.
[16] PET no RECURSO ESPECIAL Nº 1.240.122 - PR (2011/0046149-6). Disponívelwww.stj.jus.br. Acesso em 22 de julho de 2013.
[17] STF. Recurso Extraordinário 349.703-1. Relator Ministro Gilmar Mendes.
[18] Ações Diretas de Inconstitucionalidade 4901, 4902 e 4903 todas sob a Relatoria do Ministro Luiz Fux.
[19] Há enorme esforço em "adequar" a Constituição Federal a inúmeras normas infraconstitucionais que carregam a inegável macula da inconstitucionalidade, ou seja, busca-se interpretar a legislação infraconstitucional de "baixo para cima" subvertendo toda lógica jurídica notadamente as ideais de Kelsen. É imperativo que se restabeleça o movimento do Direito Ambiental Constitucional que imponha ao Operador do Direito e aos demais Poderes a interpretação que tem como marco o texto da Carta Magna e não o contrário. Nessa perspectiva se a ciência assevera que o percentual mínimo para que a área de reserva legal cumpra seu mister e suas funções é de 20%, o artigo 3º, inciso III, da Lei Federal 12.651/12 jamais pode comportar fracionamento ou "consolidações" que reduzam o percentual abaixo daquele índice sob pena de manifesta inconstitucionalidade pelo mais variados argumentos (retrocesso, cláusula pétrea, direito adquirido, dentre outros já mencionados em tópicos próprios).
[20] SILVA, Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 9. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2011, p. 43/44.