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Timestamp: 2018-12-15 13:36:00+00:00
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DIREITO À SAÚDE DOS REFUGIADOS
PERSPECTIVAS DO DIREITO PORTUGUÊS
PORTUGUESE LAW PERSPECTIVES
Número 7, 2016
e-Pública Vol. 3 No. 7, Abril 2016 (207-229)
RICARDO FILIPE RODRIGUES DE OLIVEIRA1
Resumo: O presente artigo debruça-se sobre o direito à saúde dos refugiados
no ordenamento jurídico português. Apesar de contributos de estudos de outros
Estados, inclusivamente de fora da União Europeia, o principal objecto de
interesse foi o binómio entre a legislação e os meios humanos, científicos e
materiais disponíveis em Portugal para acolher e cuidar, de um ponto de vista
clínico, dos deslocados, tendo em vista as condições higiénico-sanitárias em
que são usualmente transportados. Após uma introdução genérica da premissa
da investigação, passa-se directamente à análise da tutela, que se divide numa
componente estatística situacional, num desenvolvimento da legislação nacional
nos diversos estádios da recepção destas populações e numa verificação
das capacidades pública e privada de cumprir o dispositivo normativo. Nas
conclusões, retoma-se o significado deste direito humano e fundamental, bem
como se elabora um balanço da realidade portuguesa nesta matéria sensível.
Abstract: The present paper leans over the right to health of refugees in the
Portuguese legal order. Despite the contributions from other States, even outside
the European Union, the main object of interest was the duality between legislation
and human, scientific and material resources available in Portugal to shelter and
care, from a clinical viewpoint, of the displaced, knowing the sanitation and
hygiene conditions they usually endure when are carried. Following a general
introduction of the investigation’s premise, an analysis of the legal umbrella
straightly ensues, divided in a situational statistic analysis, on the unfolding of
national ruling in the different stages of reception of these populations and on an
examination of the public and private capacities to abide the legal provisions. For
the conclusion, the meaning of this human and fundamental right is retaken, as
well as the Portuguese reality is scaled on this sensitive issue.
Palavras-chave: Acolhimento; direito à saúde; doença; refugiado; SNS
Key-words: Hosting; right to health; sickness; refugee; NHS
1. Mestrando em Direito Penal e Investigador do Centro de Investigação em Direito Público da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Jurista-Relator do Observatório dos
Direitos Humanos. [email protected]
208 e-Pública
Sumário: Introdução; Protecção nacional: i) Base jurídica; ii) Preparação local;
Summary: Introduction; National protection: i) Legal basis; ii) Local preparation;
e-Pública 209
Em face das condições de sobrevivência em que se encontra a maioria
dos refugiados, nomeadamente dos que fogem ao conflito na Síria (2), quer na
deslocação quer no acolhimento, e perante o facto de que as doenças provocam
mais mortes do que o terrorismo e a guerra (3), é mister apurar da extensão do
direito humano e fundamental à saúde na recepção para, por um lado, compreender
a sua posição na agenda da segurança nacional e, por outro, conseguir cumprir o
limiar de respeito pela dignidade humana enunciado no artigo 1.º da Constituição
da Organização Mundial de Saúde (OMS), que define como seu objectivo “the
attainment by all peoples of the highest possible level of health” (4).
Esta entidade identificou como problemas de saúde mais frequentes
dos refugiados que têm chegado à Europa (5) as lesões acidentais, hipotermia,
queimaduras, eventos cardiovasculares, diabetes e hipertensão (6). As mulheres
2. Vejam-se, a título de exemplo, Ana Pereira, Amnistia: UE devia ter vergonha por fechar
as portas a refugiados sírios, Lisboa, Público (13 de Dezembro de 2013), em http://www.publico.pt/mundo/noticia/amnistia-diz-que-ue-deveria-ter-vergonha-por-continuar-aos-fechar-portas-a-refugiados-sirios-1616178, e João Duarte, Fotografa isto por mim e mostra ao mundo
o que se passa aqui, Hungria, Expresso (8 de Setembro de 2015), em http://expresso.sapo.pt/
internacional/2015-09-08-Fotografa-isto-por-mim-e-mostra-ao-mundo-o-que-se-passa-aqui,
ambos consultados a 18 de Outubro de 2015.
3. Colin McNinnes, Health, in Security Studies. An introduction, parte II, 2.ª ed., Oxon,
2008, p. 325. E, na página seguinte, os diferentes significados que a saúde pode ter no discurso
da segurança pública hodiernamente.
4. Este documento foi adoptado por 61 representantes de Estados reunidos na Conferência
Internacional da Saúde que teve lugar na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos da América,
entre 19 de Junho e 22 de Julho de 1946, e entrou em vigor a 7 de Abril de 1948. O seu texto
completo consta do sítio http://apps.who.int/gb/bd/PDF/bd47/EN/constitution-en.pdf, consultado a 18 de Outubro de 2015.
5. Apesar de a autoridade da União Europeia (UE) em matéria de saúde pública ser hoje
reconhecida pelo seu surgimento paulatino e pela rede de estratégias globais, posições comuns
e políticas de saúde que tem vindo a negociar em diversas plataformas internacionais, nomeadamente no sentido da reforma da OMS, a alínea a) do artigo 6.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia apenas lhe concede competência partilhada ao aferir que a UE
“dispõe de competência para desenvolver acções destinadas a apoiar, coordenar ou completar
a acção dos Estados-Membros [no domínio da] protecção e melhoria da saúde humana”, em
virtude da desconfiança daqueles na gestão dos sistemas de saúde por um organismo exterior,
segundo Samantha Battams / Louise van Schaik / Remco van de Pas, The EU as a global health
actor: policy coherence, health diplomacy and WHO reform, European Foreign Affairs Review,
volume 19, número 4, 2014, pp. 541 e 560 ss. Também no sentido do “EU ‘One voice’ challenge
on global health”, Peter Chang / Vincent Rollet, Is the European Union a global health actor?
An analysis of its capacities, involvement and challenges, European Foreign Affairs Review,
volume 18, número 3, 2013, pp. 325 ss.
6. Que acrescem a problemas insuficientemente combatidos nos países em desenvolvimento e que, através dos refugiados, podem verter para os países desenvolvidos de acolhimento,
contrariando tendências de despistagem e controlo. Isto sucede, por exemplo, no caso de infecções iatrogénicas pelos “blood-borne viruses” das Hepatites B e C e do VIH provocadas por
práticas desadequadas dos estabelecimentos e agentes de saúde dos locais de origem, segundo
as conclusões do estudo de Paul Goldwater, Iatrogenic blood-borne viral infections in refugee
children from war and transition zones, Emerging Infectious Diseases, volume 19, número 6,
2013, pp. 896 ss. Donde, é altamente recomendável a realização de exames médicos de despistagem a refugiados sintomáticos, sendo que algumas destas doenças, bem como a Tuberculose,
devem constar da lista de prioridades de diagnóstico, no entender da investigação de Barbara
210 e-Pública
encontram igualmente desafios específicos, tais como complicações associadas
à gravidez e ao parto, parca saúde dos seus recém-nascidos e crianças e ainda
outros problemas de saúde sexual e reprodutiva. Acontece também que os
refugiados estão mais vulneráveis aos riscos de Doenças Não Comunicáveis
(DNC), resultantes do contexto de deslocamento e de contacto com grandes
massas humanas (7), e a sofrerem de desordens psicológicas, mal nutrição,
alcoolismo, abuso de estupefacientes e complicações associadas. As diversas
condições crónicas que podem gerar — como problemas cardiovasculares,
diabetes, cancros ou doenças das vias respiratórias — elevam os custos do
seu tratamento, exigindo usualmente, de outro tanto, cuidados continuados,
medicamentos e assistência por tecnologia médica ao longo da vida, num quadro
clínico de vigilância por cuidadores e eventual prestação de cuidados paliativos.
Já as crianças têm propensão a infecções agudas (comummente de natureza
respiratória), a episódios de diarreia e a doenças dermatológicas pelas fracas
condições de salubridade e higiene dos meios usados para viajar (8). Convém,
por fim, referir que os números de feridos e mortos têm vindo a aumentar e que,
nos primeiros 10 meses do ano de 2015, 3 100 pessoas morreram afogadas ou
desapareceram no Mar Mediterrâneo, segundo dados do Alto Comissariado das
Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) (9).
De acordo com o Gabinete Regional para a Europa da OMS, o foco
primordial de cada sistema de saúde deverá ser a capacitação para uma resposta
rápida e eficaz (10) à chegada de grandes grupos de pessoas em cenários de
Eckstein, Primary care for refugees, American Family Physician, volume 83, número 4, 2011,
p. 432, em http://www.aafp.org/afp/2011/0215/p429.html#afp20110215p429-c1, consultado a
7. Sem surpresa, todos os inquéritos e estudos realizados desde o ano 2000 demonstram
que os migrantes, deslocados e refugiados, maioritariamente provindos de países em desenvolvimento, apresentam sistematicamente piores condições de saúde do que os nacionais dos
países de acolhimento, como sublinhado por Alexis Spire, Ces étrangers qui renoncent à leurs
droits, Plein Droit, volume 3, número 106, 2015, p. 4. Os menores, com enfoque nos não acompanhados, tendem a ser dos que apresentam cenários de saúde mais preocupantes, no entender
dos trabalhos conduzidos por Angélina Étiemble, Quelle protection pour les mineurs isolés en
France?, Journal du Droit des Jeunes, volume 3, número 243, 2005, p. 18.
8. Análises sistemáticas e meta-análises confirmam igualmente que os refugiados (e certos
grupos de migrantes) apresentam um risco substancialmente mais elevado do que as populações de acolhimento de sofrerem de desordens do foro psiquiátrico e de stress pós-traumático.
Ademais, a passagem por campos de refugiados com parcos recursos e violência endémica e
os fenómenos de racismo e discriminação apenas contribuem para agravar a situação clínica
mental destas pessoas, nomeadamente em termos de depressão e condições associadas. A este
respeito, Guzder, Jaswant et al., Common mental health problems in immigrants and refugees:
general approach in primary care, Canadian Medical Association Journal, volume 183, número
12, 2011, pp. 961 ss.
9. Informações constantes do documento Gabinete Regional para a Europa da OMS,
Frequently asked questions on migration and health, [sem editor, localização ou data], em
http://www.euro.who.int/en/health-topics/health-determinants/migration-and-health/news/
news/2015/09/population-movement-is-a-challenge-for-refugees-and-migrants-as-well-as-forthe-receiving-population/frequently-asked-questions-on-migration-and-health, consultadas a
10. A eficácia do ponto de vista clínico é essencial, pelo que importa igualmente apostar
nas comunicações entre Estados no sentido da reinstalação de refugiados com necessidades
médicas caso o país de acolhimento não tenha as condições suficientes de tratamento e acome-Pública 211
contingência, que vai exigir tanto coordenação e colaboração intra e inter
Estados como, especialmente, a criação de grupos locais multidisciplinares bem
preparados (11) em termos de planeamento e distribuição de tarefas, robustez
e adequação epistemológicas, conhecimento da situação social, cultural e
linguística (por pessoal bilingue ou através de intérpretes auxiliares, por via
telefónica ou presencial) dos deslocados (12), treino específico para situações
reactivas e adesão aos princípios de direitos humanos (13). Importa processar as
panhamento. Com esse propósito, para estabelecer a ponte entre os critérios do ACNUR e do
Direito Internacional e as práticas locais, terminando com recomendações para capacitação
nacional nesta área, veja-se Conselho Português para os Refugiados, Programa nacional de
reinstalação: reflexões sobre a sua operacionalização, Lisboa, [sem editor] (Novembro
de 2008), em http://refugiados.net/1cpr/www/reinstalacao/programa_nacional_reinstalacao_
reflexoes_operacionalizacao_refugiados_necessidades_medicas_cpr_11_2008.pdf, consultado
a 30 de Outubro de 2015. Igualmente, Stephen Lubkemann, Refugees and forced migrants, in
World at risk. A global issues sourcebook, parte I, 2.ª ed., Washington, 2010, pp. 56 ss.
11. Uma compilação australiana de estudos de identificação de modelos de cuidados de
saúde primários para refugiados nos países de acolhimento e do seu impacto no acesso, coordenação e qualidade dos tratamentos prestados apontou que “refugees need to be able to access
the same primary care services as the local population” e sugeriu que o mais adequado seria
que alguns serviços fossem repensados no sentido de atender de forma mais específica às necessidades dos refugiados, muito embora, a prazo, “clients of refugee-specific services need
to be able to transition into ongoing mainstream PHC [Primary Health Care]”. Foram dados
como exemplos principais de boas práticas “increasing awareness and health literacy in using
health services with interventions involving media and health education; outreach to facilitate
registration or clinic attendance; improving acceptability and appropriateness through the use
of interpreters and bilingual workers; coordinating service networks (often facilitated by refugee health nurses) to improve access to range of services and to transport [e] reducing cost
to clients by use of pro bono providers or not using co-payments”. Ademais, de relevo para a
qualidade dos cuidados e consequente cautela pelo exercício do direito à saúde, à luz das políticas internacionais, têm sido sublinhados a interacção entre serviços governamentais e entidades
privadas, a comunicação entre os profissionais clínicos e os utentes refugiados, o planeamento
da força útil de trabalho aliado ao desenvolvimento cognitivo e científico (cuja educação e
treino necessários permanecem, actualmente, reduzidos em muitos países), particularmente do
pessoal de enfermagem, e o denominado “case management” (embora com limitações pelos
potenciais custos que acarreta e pela necessidade de especialização adicional dos profissionais
dispensados), nas palavras de Margaret Alston et al., A narrative synthesis of the impact of
primary health care delivery models for refugees in resettlement countries on access, quality
and coordination, International Journal for Equity in Health, volume 12, número 88, 2013,
pp. 11 ss., em http://www.equityhealthj.com/content/12/1/88, consultado a 23 de Dezembro
12. De facto, como avança Vanna Boffo, La comunicazione e la formazione linguistica, in
L’inclusione sociale e il dialogo interculturale nei contesti europei: strumenti per l’educazione,
la formazione e l’accesso al lavoro, parte II, Florença, 2008, p. 111, o exercício da comunicação na língua do acolhido e o facto do “personale sanitario [estar] in grado di dialogare con
i propri pazienti [são essenciais para que] possa pienamente essere esercitato il diritto alla
salute”. Mais, “comunicare la salute è importante per dare a ogni soggetto migrante [e, por
consequência, refugiado, requerente de asilo ou deslocado, de forma geral,] il diritto di poter
star bene nell’ambiente di immigrazione e, contemporaneamente, far sì che le competenze del
personale sanitario possano svilupparsi per accogliere, spiegare, comprendere la condizione
della separatezza e della lontananza dal proprio luogo di origine”.
13. Para tal, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) criou recentemente um Grupo
de Trabalho para a Agenda Europeia da Migração que, de acordo com Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Nota à comunicação social - Reunião do Grupo de Trabalho para a Agenda
Europeia da Migração, Lisboa, [sem editor] (20 de Outubro de 2015), em http://www.sef.pt/
portal/v10/PT/aspx/noticias/Noticias_Detalhe.aspx?id_linha=6909, consultado a 30 de Outu212 e-Pública
situações com o mínimo impacto para o sistema, orientando doentes e recursos de
modo a que cada unidade não seja sobrecarregada e o conjunto in totum mantenha
a sua resiliência. Isto com particular atenção para: (i) os grupos mais vulneráveis
(14); e (ii) para infecções cuja sintomatologia possa passar despercebida aos
mecanismos rotineiros de despistagem e que tenham potencial para criar uma
situação problemática de saúde pública (15). No entanto, quanto à possibilidade
de deflagrar um surto ou do surgimento de eventuais agentes patogénicos raros,
a OMS aconselha a vigilância mas está confiante nos equipamentos, instalações
e formação humana e científica dos diversos Estados-Membros da UE pela
resposta que têm demonstrado na última década, inter alia, à febre de Lassa,
aos vírus Ébola e Marburg e ao coronavírus MERS (que provoca a Síndrome
Respiratória do Médio Oriente).
Importa realçar que, a 22 de Março de 2011, precisamente aquando do
início dos protestos em favor da democracia na cidade de Deera, na Síria (16), foi
bro de 2015, já se reuniu no sentido de proceder ao “mapeamento de recursos disponíveis
para o acolhimento dos requerentes de protecção internacional que serão recolocados em
território nacional nos próximos dois anos”, nomeadamente em relação aos instrumentos de
saúde existentes. A informação disponibilizada pelo grupo será “sujeita a actualizações periódicas, tendo por base os recursos da administração central, municípios (63 actualmente), entidades do sector social e solidário, bem como da sociedade civil. Existe, assim, disponibilidade
imediata para iniciar o processo de acolhimento, devendo o mesmo ter por base uma integração
descentralizada e de base comunitária”, e que incidirá primacialmente sobre 100 requerentes.
O apontamento continua aferindo que o SEF “procederá à distribuição dos requerentes de
protecção internacional, com base no seu perfil e nos recursos disponíveis que melhor
correspondem à satisfação das necessidades existentes”, entre as quais o acesso ao Sistema
Nacional de Saúde (SNS). O SEF assinou ainda com a Plataforma de Apoio aos Refugiados
(PAR), a Comissão Permanente do Sector Social e Solidário e com a Associação Nacional
de Municípios Portugueses “memorandos de entendimento relativos ao acolhimento e à integração de refugiados e de indivíduos objecto de protecção internacional em território
nacional”, tendo o Alto-Comissariado para as Migrações criado o portal www.refugiados.acm.
gov.pt para permitir “o registo das disponibilidades de instituições e de cidadãos que desejem
participar nesta resposta humanitária”, que apenas aguardam a libertação e consequente distribuição de refugiados pelas autoridades italianas e gregas.
14. Sendo de destacar os refugiados menores (nomeadamente, não acompanhados e débeis
em termos de estado de saúde), que alguns estudos têm indicado como sendo uma faixa da
população especialmente afectada pela pobreza e pela consequente degradação das condições
sanitárias e de acesso à saúde. Vejam-se as referências aos trabalhos de Matthew Hodes (2000),
Mónica Ruiz-Casares et al. (2010) e Mina Fazel et al. (2012) em Gunter Graf / Gottfried
Schweiger, A philosophical examination of social justice and child poverty, Hampshire, 2015,
p. 116. No mesmo sentido, Frédérique van Houcke, La violence à l’égard des enfants: synthèse
de l’étude des Nations Unies, Journal du Droit des Jeunes, volume 5, número 265, 2007, p. 12.
15. Para Josephine Meister, Neglected Tropical Diseases (NTDs) in women and children,
in Maternal-Child health. Interdisciplinary aspects within the perspective of global health, Göttingen, 2013, p. 425, especialmente relevantes são as designadas Doenças Tropicais Negligenciadas cujo impacto em cenários de conflito é bastante severo, sendo que os refugiados e os
deslocados, no geral, podem ser reservatórios de agentes patogénicos que se tornam um risco
para si e para o pessoal, inter alia, clínico, que com eles possa entrar em contacto. A situação
agrava-se com o atraso na prestação de cuidados de saúde pela aumento em rede do potencial
quantitativo de contágio e pela proporcionalmente inversa redução da capacidade de vigilância,
controlo e contenção das doenças associadas, por vezes com um período de incubação
16. No seguimento da notícia, Lucy Rodgers et al., Syria: the story of the conflict, Londres,
e-Pública 213
apresentada no Parlamento Europeu a Declaração europeia dos profissionais de
saúde contra a discriminação no acesso ao serviço de saúde (17) pela organização
Médicos do Mundo, pelo Comité Permanente dos Médicos Europeus e pelas
euro-deputadas Antonyia Parvanova e Edite Estrela (18). Este documento
resultou de uma campanha iniciada em 2010 de apelo aos Estados-Membros
e às instituições da UE para que permitam ao pessoal clínico administrar
tratamento a todos os utentes, especialmente deslocados sem documentos,
através dos respectivos sistemas de saúde, à luz dos princípios éticos do foro
e em contraponto às criticadas (19) leis restritivas (20) e barreiras burocráticas
que persistem e que poderão representar o principal obstáculo à obtenção de
cuidados, mesmo primários, pelos refugiados.
Convém reter que o direito à saúde é um poliedro complexo que abarca
diferentes dimensões e que exige o contributo verdadeiramente holístico de
factores paralelos como a educação, o emprego, a segurança social e a habitação
para que se alcance um estado de bem-estar e conforto de cada indivíduo, visto
que saúde não significa a mera ausência de doença (21). Antes de se ser refugiado
é-se ser humano (22), pelo que deverá ser a base da dignidade comum e não
uma categoria incidental a orientar as políticas públicas quanto à manutenção do
direito à saúde destas pessoas, à luz dos princípios multiníveis da universalidade
e da tendencial gratuitidade. Especialmente perante um número de refugiados
tão diminuto que não perturba quaisquer estruturas económicas, sociais e
demográficas nacionais, de acordo com as avaliações da extensão e diversidade
BBC (9 de Outubro de 2015), em http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26116868,
consultado a 18 de Outubro de 2015.
17. Texto integral disponível em https://mdmeuroblog.files.wordpress.com/2014/01/european-declaration-health-professionals.pdf, consultado a 18 de Outubro de 2015.
18. Segundo informação veiculada pelo sítio electrónico da Ordem dos Médicos
https://www.ordemdosmedicos.pt/?lop=conteudo&op=b3967a0e938dc2a6340e258630febd5a&id=4c144c47ecba6f8318128703ca9e2601&print=1, consultado a 18 de Outubro de 2015.
19. Işık Kulu-Glasgow, Quality of asylum decisions: uses and limitations of surveys of
asylum case files, in International migration in Europe. New trends and new methods of analysis, parte IV, Amesterdão, 2008, p. 313.
20. Veja-se o exemplo retirado do periódico The Guardian apresentado por Franck Düvell, Report from the United Kingdom, in Modes of migration regulation and control in Europe, Amesterdão, 2008, p. 190.
21. Como firmado no ponto I da Declaração de Alma-Ata, adoptada pelos representantes
da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde reunidos naquela cidade da
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (actual Cazaquistão), entre 6 e 12 de Setembro de
1978, conforme relembram David Bloom / David Canning / Jennifer O’Brien, Health, in World
at risk. A global issues sourcebook, parte IV, 2.ª ed., Washington, 2010, p. 369. O texto completo está acessível em http://www.who.int/publications/almaata_declaration_en.pdf, consultado a
18 de Dezembro de 2015. Veja-se igualmente Neil Arya, Peace through health, in Handbook
of peace and conflict studies, parte IV, Oxon, 2007, p. 368. Com um entendimento diferente,
em que “a good definition is the ability and the opportunity to utilize one’s natural endowments
to achieve the potential to live a full and satisfying life”, Isabella Bakker / Solomon Benatar
/ Stephen Gill, Making progress in global health: the need for new paradigms, International
Affairs, volume 85, número 2, 2009, p. 358.
22. O princípio da universalidade informa o direito à saúde pela sua qualidade de direito
humano, à luz do brocardo “todos os direitos humanos são de todos”, conforme recorda Tiago
Barra, Breves considerações do direito à protecção da saúde, O Direito, ano 144.º, número 2,
2012, p. 430.
214 e-Pública
da população deslocada, ao contrário do que muitas vezes sucede com grandes
agregados de pessoas com raízes tão marcadamente distintas (23).
Segundo um relatório do SEF (24), o ano de 2014 foi marcado, em
matéria de protecção internacional, por “uma redução do número de pedidos de
asilo face ao ano anterior (-11,8%) [apesar da] tendência de consolidação de
um volume de pedidos de asilo superior ao verificado na última década” (25),
resultante da instabilidade político-social na Ucrânia, em certas regiões africanas
e na Síria. Foram apresentados “477 pedidos em 2014, reconhecidos 20 estatutos
de refugiado e [decididas] 91 concessões de autorização de residência por razões
humanitárias” (26).
Segundo a Comissão Europeia, Portugal deverá receber por volta de
4 574 refugiados (27) na pendência dos próximos 2 anos (28). Isto representa ≃
23. Joan Font / Mónica Méndez, Introduction: the methodological challenges of surveying
populations of immigrant origin, in Surveying ethnic minorities and immigrant populations.
Methodological challenges and research strategies, prefácio, Amesterdão, 2013, pp. 12 ss.
24. Documento acessível em http://sefstat.sef.pt/Docs/Rifa_2014.pdf, consultado a 28 de
25. Sendo que a movimentação de refugiados, requerentes de asilo e semelhantes para a
Europa ocidental sofreu um aumento abrupto no final do século XX, particularmente com a
queda da denominada “cortina de ferro”. Isso tem levado a uma menor vontade das sociedades ocidentais em aceitar e legalizar estas pessoas nos seus países, no entendimento de Arjen
Leerkes, in Illegal residence and public safety in the Netherlands, parte II, Amesterdão, 2009,
p. 129. Mister analisar igualmente os gráficos em Marie Duflo et al., L’asile en chiffres, Plein
Droit, volume 2, números 65 e 66, 2005, pp. 53 ss. Já colocando o momento de inflexão legislativa somente na altura do atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001 à cidade de Nova
Iorque, nos Estados Unidos da América, e citando Marie-Sophie Devresse para o relatório
em causa, Christine Allison, Le droit et l’administration de la justice face aux instruments
managériaux. Présentation du dossier, Droit et Société, volume 2, número 84, 2013, p. 287.
26. Embora o número de pedidos de asilo tenha sempre sido relativamente diminuto no
século XXI, segundo dados de Maria Baganha, Portugal, in Statistics and reality. Concepts
and measurements of migration in Europe, parte IV, Amesterdão, 2009, p. 276.
27. Este valor era originalmente de cerca de 3 000 refugiados mas foi elevado pela “aplicação do plano de recolocação de 40 mil pessoas com necessidade de protecção internacional”,
segundo informação noticiosa da página do Ministério da Administração Interna (MAI), de
22 de Setembro de 2015, acessível em http://www.portugal.gov.pt/pt/os-ministerios/ministerio-da-administracao-interna/mantenha-se-atualizado/20150922-mai-refugiados.aspx, consultada a 24 de Outubro de 2015.
28. Dados divulgados por Ana Cordeiro, Primeiro grupo de refugiados chega a Portugal
em Outubro, Lisboa, Público (28 de Setembro de 2015), em http://www.publico.pt/sociedade/
noticia/primeiros-refugiados-chegam-a-portugal-em-outubro-1709410, consultado a 21 de Outubro de 2015. Não obstante, actualmente o valor de pessoas que, de facto, virão é incerto,
nomeadamente quanto a valores parcelares, tanto pela falta de uma fonte oficial como pela
incerteza nos meios de comunicação social, como se constata pela disparidade informativa em
VV., Refugiados em Lisboa: “Que encontrem em Portugal um porto seguro”, Lisboa, Público (7 de Novembro de 2015), em http://www.publico.pt/sociedade/noticia/refugiados-em-lisboa-que-encontrem-em-portugal-um-porto-seguro-1713691, Pedro Nunes, Portugal vai receber 130 refugiados “brevemente”, Lisboa, Expresso (12 de Novembro de 2015), em http://
e-Pública 215
4,4 % dos circa 10 374 822 portugueses que residiam no país a 31 de Dezembro
de 2014 e demonstra que não se agravará significativamente: (i) o número de
médicos (29) e de enfermeiros por cada mil habitantes, indicadores que têm vindo
a subir ao longo dos anos (estando agora pelos 450 e 638, respectivamente); e,
inversamente, (ii) o quantum de habitantes por médico e por enfermeiro (que
rondam os 223 e 157, respectivamente) (30) (31). Aliás, um dos argumentos
comummente avançados em termos de estatística populacional a favor do
acolhimento dos refugiados consiste na sua idade média e, de facto, segundo um
relatório de estatísticas de asilo do Eurostat, de 21 de Maio de 2015, quase 4 em 5
(mais precisamente, 79%) das pessoas que fizeram pedidos de asilo a um dos 28
países da UE tinha ⋜ 35 anos, sendo que os menores de 18 anos representavam
26% e pouco mais de 23 000 pedidos referiam-se a menores não acompanhados
por um adulto (32) (33). Ora, considerando que, de acordo com os Censos: (i)
em 2001, a população com ⋝ 65 anos de idade ultrapassou o quantitativo de
pessoas com idade até aos 14 anos; (ii) que, em 2011, havia 2 010 064 seniores
para 1 572 329 crianças; e (iii) que a taxa de crescimento anual médio nesse
período foi de apenas 0,197 (portanto, abaixo dos 2% necessários para renovação
sustentável das gerações), esta adição à população nacional em idade activa
representa uma quasi bóia de sustentação a breve e médio termo tanto para os
índices demográficos como, se se mantiverem por cá, para o esquema de pensões
do sistema da Segurança Social (34).
expresso.sapo.pt/sociedade/2015-11-12-Portugal-vai-receber-130-refugiados-brevemente, ou
Mónica Silvares, Portugal não muda acolhimento de refugiados, Lisboa, Sapo Económico (17
de Novembro de 2015), em http://economico.sapo.pt/noticias/portugal-nao-muda-acolhimento-de-refugiados_234968.html, todos consultados a 5 de Dezembro de 2015.
29. Excluídas as especialidades de médico-dentista e odontologista.
30. Números retirados das várias bases de dados do sítio pordata.pt, consultado a 21 de Outubro
31. Seja como for, são de lamentar as incertezas quanto à atribuição de médicos de família
aos agregados familiares de refugiados a nível das unidades básicas de saúde (especialmente
em face do diminuto número acolhido até agora no país e do vazio legislativo na matéria) por
parte da Direcção Geral da Saúde (DGS) e do Grupo de Trabalho para a Agenda Europeia para
as Migrações, segundo VV., DGS garante que refugiados vão ter acesso a cuidados de saúde,
Lisboa, TVI24 (4 de Novembro de 2015), em http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/saude/refugiados-terao-medico-de-familia-numa-semana, consultado a 5 de Dezembro de 2015.
32. Acessível através do endereço online http://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/
index.php/Asylum_statistics, consultado a 21 de Outubro de 2015.
33. Sendo que, em Portugal, nesse ano, dos 440 pedidos de asilo, 18% eram referentes a
menores (valor, porém, muito abaixo da média europeia de 26%), 57% a cidadãos com idades
compreendidas entre os 18 e 34 anos (ligeiramente acima da média europeia, que rondava os
54%), 24% a pessoas entre 35 e 64 anos de idade (acima da média da UE de 20%) e apenas 2%
pedidos eram endereçados por refugiados com 65 ou mais anos (cuja média europeia se ficava
em 1%). Convém ainda referir que 81% dos menores vinham acompanhados (o que fica abaixo
dos 85% da União).
34. Veja-se a dualidade correlativa entre condições económicas e estado de saúde em Elena Gross / Stephan Klasen, Linkages between economic and health outcomes: options for
interventions for better health, in Global health. A challenge for interdisciplinary research,
Göttingen, 2012, pp. 39 ss.
216 e-Pública
A Constituição da República Portuguesa (CRP), como ‘chapéu’ de
protecção global, iguala, no artigo 15.º, os estrangeiros e apátridas aos cidadãos
portugueses em termos de direitos e deveres (35), sendo que nenhum dos
pormenores dos números 2 a 5 interessam in casu. E o princípio da igualdade,
consagrado no seu artigo 13.º, defende que todos têm igual dignidade social, são
equiparados (ou equiparáveis) perante a lei e que não podem ser discriminados
(tanto positiva como negativamente) em razão, por exemplo, da sua ascendência,
raça, língua, território de origem, situação económica e condição social, que
serão, provavelmente, as principais diferenças entre os refugiados e os demais
utentes do SNS. Ora, tendo o direito à saúde, rectius, à protecção da saúde,
conforme plasmado no número 1 do artigo 64.º da CRP (36), uma “feição típica
de direito social” (37), estende-se a ele a referida dignidade social de natureza
prestacional (38) que a todos cabe. Mais, exige a CRP uma actuação positiva para
ser assegurado (39) e todo o artigo elenca um conjunto de deveres que recai tanto
sobre os particulares como, com especial incidência, sobre o Estado no sentido
de se prever a defesa da saúde de todos, nomeadamente através de um “serviço
nacional de saúde universal e geral” (alínea a) do número 2). O exercício e
respeito deste direito é essencial na cristalização de uma ideia de integridade
condigna da pessoa latente no texto constitucional, sem discriminação por força
da condição de refugiado mas sim, pelo contrário, com redobrados esforços e
cautela em favor da saúde pelo sofrimento dos circunstancialismos pelos quais
estas pessoas passam.
Segundo o comunicado “Acesso ao sistema de saúde por cidadãos
estrangeiros com estatuto de refugiado ou direito de asilo em Portugal” do
Sistema de Apoio à Gestão de Mobilidade de Doentes, de 9 de Abril, “nos termos
da legislação em vigor, é reconhecido aos requerentes de asilo ou de protecção
subsidiária e respectivos membros da família o acesso ao Serviço Nacional de
Saúde” (40) (41) e confere-se especial enfoque para aqueles com “necessidades
35. De notar que nem sequer se distingue entre refugiado e requerente de asilo no artigo
33.º da CRP, possivelmente pela semelhança material em termos de estatuto, e que, para efeitos de direito à protecção da saúde, ainda menos se obsta à equiparação, segundo Margarida
D’Oliveira, O refugiado no direito internacional e no direito português, in Estudos em homenagem ao professor doutor Martim de Albuquerque, separata, Lisboa, 2010, p. 274.
36. Mantendo a versão original, lê-se que “Todos têm direito à protecção da saúde e o dever
de a defender e promover”.
37. Marcelo Rebelo de Sousa / José de Melo Alexandrino, Constituição da República
Portuguesa comentada, Lisboa, 2000, pp. 172 ss.
38. João Loureiro, Direito à (protecção da) saúde, in Estudos em homenagem ao professor
doutor Marcello Caetano no centenário do seu nascimento, volume I, Lisboa, 2006, p. 674.
39. Acórdãos n.º 39/84, de 11 de Abril, n.º 330/89, de 11 de Abril, e n.º 731/95, de 14 de
Dezembro, todos do plenário do Tribunal Constitucional.
40. Disponível no sítio electrónico http://mobilidade.dgs.pt/cidadaosestrangeiros/Paginas/
Acesso-sistema-saúde-cidadãos-estrangeiros-estatuto-refugiado-ou-direito-de-asilo-em-Portugal.aspx, consultado a 18 de Outubro de 2015.
41. Inicialmente por imposição do artigo 53.º da Lei n.º 15/98, de 26 de Março, com o
acrescento para os requerentes de asilo do artigo 15.º da Lei n.º 20/2006, de 23 de Junho, embora ambos os documentos estejam actualmente revogados.
e-Pública 217
especiais”. Ademais, esclarece-se que “os requerentes de asilo têm acesso
gratuito ao sistema de saúde para efeitos de cuidados de urgência, incluindo
diagnóstico e terapêutica, e de cuidados de saúde primários, bem como assistência
medicamentosa, a prestar pelos serviços de saúde da sua área de residência”,
tendo direito, inter alia, a cuidados de tipo ambulatório de clínica geral,
materno-infantil, planeamento familiar, escolar (42) e geriátrico, atendimento de
especialidade (como oftalmologia, estomatologia, otorrinolaringologia e saúde
mental), internamento sem cuidados diferenciados e a serviços de enfermagem,
incluindo visitação domiciliária.
Os refugiados, definidos anteriormente segundo a Lei n.º 20/2006 (43),
e hoje com mais pormenor pela Lei n.º 27/2008, de 30 de Junho (44), alterada
pela Lei n.º 26/2014, de 5 de Maio, que estabelece, de forma pouco restritiva (45),
as condições e procedimentos de concessão de asilo ou protecção subsidiária
e os estatutos de requerente de asilo, de refugiado e de protecção subsidiária
através da transposição das Directivas n.º 2011/95/UE, do Parlamento Europeu
e do Conselho, de 13 de Dezembro (46), n.º 2013/32/UE, do Parlamento Europeu
e do Conselho, de 26 de Junho (47), e n.º 2013/33/UE, do Parlamento Europeu
42. Aliás, o meio escolar é um dos ambientes mais indicados para aplicar intervenções
multimodais relativas à saúde, nomeadamente mental, de refugiados menores e para acompanhar a sua evolução inclusiva de forma sistemática, a par com o contexto familiar e social
de inserção, mesmo com profissionais não clínicos especificamente treinados, nas conclusões
de Mina Fazel / Rebecca Tyrer, School and community-based interventions for refugee and
asylum seeking children: a systematic review, Public Library of Science ONE, volume 9, número 2, 2014, p. 10. Sem expressão visível em Portugal por ora mas bastante positivo é o recurso
a outros refugiados e deslocados para providenciar assistência básica, na extensão dos seus
conhecimentos certificados, como arguido por Katherine Center, Training and deployment of
lay refugee/internally displaced persons to provide basic health services in camps: a systematic
review, Global Health Action, número 7, 2014 [sem página para efeitos de citação].
43. Por remissão, segundo a alínea e) do artigo 2.º, o refugiado seria “a pessoa que preenche
os requisitos estabelecidos no artigo 1.A da Convenção de Genebra”.
44. Sendo refugiado, agora de forma crassamente mais densificada, nos termos da alínea
ac) do número 1 do artigo 2.º, “o estrangeiro ou apátrida que, receando com razão ser perseguido em consequência de actividade exercida no Estado da sua nacionalidade ou da sua residência habitual em favor da democracia, da libertação social e nacional, da paz entre os povos, da
liberdade e dos direitos da pessoa humana ou em virtude da sua raça, religião, nacionalidade,
convicções políticas ou pertença a determinado grupo social, se encontre fora do país de que
é nacional e não possa ou, em virtude daquele receio, não queira pedir a protecção desse país
ou o apátrida que, estando fora do país em que tinha a sua residência habitual, pelas mesmas
razões, não possa ou, em virtude do referido receio, a ele não queira voltar, e aos quais não se
aplique o disposto no artigo 9.º” — que elenca as situações (em jeito de critérios negativos ou
de exclusão) pelas quais alguém não pode beneficiar do estatuto de refugiado, nomeadamente
por ter praticado ou ser suspeito de ter praticado crimes contra a humanidade ou ser uma ameaça à segurança interna ou externa dos Estados. Veja-se também Kenneth Iserson, Tackling the
global challenge: humanitarian catastrophes, Western Journal of Emergency Medicine, volume
15, número 2, 2014, p. 233.
45. Andreia Oliveira, O novo direito do asilo português, in Estudos em homenagem ao
professor doutor Sérvulo Correia, volume I, Lisboa, 2010, p. 174.
46. Que estabelece normas relativas às condições a preencher pelos nacionais de países
terceiros ou por apátridas para poderem beneficiar de protecção internacional, a um estatuto
uniforme para refugiados ou pessoas elegíveis para protecção subsidiária e ao conteúdo da
protecção concedida.
47. Relativa a procedimentos comuns de concessão e retirada do estatuto de protecção
218 e-Pública
e do Conselho, de 26 de Junho (48), vêem a sua situação de acesso a cuidados
de saúde modificar-se sucessivamente de iure a partir do momento em que
chegam às fronteiras de Portugal. Esta Lei n.º 27/2008 veio renovar o estatuto
de refugiado (49) e, no que concerne à saúde, cada etapa do processo vê, de certo
modo, assegurada a concretização deste direito fundamental.
Assim que chegam ou são detectados nas fronteiras, independentemente
da via de acesso (50), devem ser retidos brevemente e os seus dados introduzidos
em sistema para dar conhecimento às autoridades competentes e entidades
interessadas. Nos termos do número 1 do artigo 61.º daquela Lei, “compete
ao ministério responsável pela área da administração interna garantir aos
requerentes de asilo ou de protecção subsidiária que se encontrem retidos nos
postos de fronteira as condições de (…) acesso a cuidados de saúde (…) até
decisão quanto à admissibilidade do pedido, podendo aquelas ser asseguradas
por outras entidades públicas ou particulares sem fins lucrativos, nos termos
definidos em protocolo”. Este conjuga-se com o número 2 do artigo 56.º, quiçá
vago, mas que prevê que aos “requerentes de asilo ou de protecção subsidiária
e membros da sua família particularmente vulneráveis e aos requerentes de
asilo ou de protecção subsidiária que se encontrem nos postos de fronteira são
igualmente [assegurados] cuidados de saúde apropriados”. Permanece é a dúvida
da extensão destes cuidados clínicos, sendo que “apropriados” pode significar
uma atenção menos rigorosa que, v.g., “necessários”, especialmente em atenção
à vulnerabilidade dos sujeitos.
Ora, os princípios gerais em matéria de saúde no acolhimento estão
consagrados nos artigos 52.º, epigrafado “assistência médica e medicamentosa”,
e 56.º, atinente ao “apoio social” (51). Segundo o número 1 do artigo 52.º, como
mencionado alhures, “é reconhecido aos requerentes de asilo ou de protecção
Saúde, nos termos a definir por portaria dos membros do Governo responsáveis
pelas áreas da administração interna e da saúde”, leia-se, actualmente, as Portarias
n.º 30/2001, 17 de Janeiro, e n.º 1042/2008, de 15 de Setembro (52). Não são feitos,
48. Que estabelece normas em matéria de acolhimento dos requerentes de protecção internacional.
49. Complementada, de certo modo, por restante acervo legislativo presente no Decreto-Lei (DL) n.º 176/2003, de 2 de Agosto, alterado pelo DL n.º 133/2012, de 27 de Junho.
50. É mister lembrar que, durante o trânsito marítimo, o mais comum e propenso a problemas na actual crise de refugiados, há forte probabilidade de se terem de proceder a manobras
de evacuação dos meios de transporte por “motivos de saúde de tripulantes ou de passageiros”,
o que obriga “os organismos da Administração Pública e as pessoas responsáveis por embarcações [no] especial dever de informar” da sua existência e condição de saúde (alínea b) do
número 3 do artigo 214.º da Lei n.º 23/2007, de 4 de Julho, alterada pela Lei n.º 29/2012, de
9 de Agosto, que define as condições e procedimentos de entrada, permanência, saída e afastamento de cidadãos estrangeiros do território português, bem como o estatuto de residente de
longa duração).
51. Inseridos no capítulo VI, sobre o “estatuto do requerente de asilo e de protecção subsidiária”.
52. A Portaria n.º 1042/2008 completa a primeira ao estender, nas “diferentes fases do
procedimento de concessão do direito de asilo, desde a apresentação do respectivo pedido até à
e-Pública 219
de forma rotineira ou sistemática (número 4), análises e exames de verificação
do comprometimento da saúde mas, nos termos do número 3, “as autoridades
sanitárias podem exigir, por razões de saúde pública, que os requerentes sejam
submetidos a um exame médico, a fim de que seja atestado que não sofrem de
nenhuma das doenças definidas nos instrumentos aplicáveis da Organização
Mundial de Saúde ou de outras doenças infecciosas ou parasitárias contagiosas
objecto de medidas de protecção em território nacional, cujos resultados são
confidenciais e não afectam o procedimento de protecção internacional”, salvo
no limite de que na pendência do resultado a entrada não está autorizada.
A recusa de estrangeiros em território nacional, consoante a alínea d)
do número 1 do artigo 32.º da Lei n.º 23/2007, terá de se basear na consideração
fundamentada de que constituem “perigo ou grave ameaça para (…) a saúde
pública”, nos termos referidos pela OMS na Lei n.º 27/2008 (segundo o
número 3) (53). Mas atenção a que: (i) a recusa de entrada só pode ser aplicada
se houverem mecanismos de contingência e combate internos semelhantes
que recaiam sobre os nacionais, sob pena de se tratar de uma discriminação
encapotada dos estrangeiros; (ii) a norma não é extensível a situações especiais
de vigilância transfronteiriça para os que estejam apenas em trânsito, visto que
incide especificamente sobre a entrada; e (iii) perante a confirmação de porte
de doença, a verificação da possibilidade de transmissão e o afastamento do
país devem, a todo o momento, processar-se sem risco para o afectado e demais
interessados e após levadas a cabo as diligências mínimas de tratamento possível
(54). Desde logo, no número 5 do artigo 52.º da Lei n.º 27/2008, assegura-se que
“aos requerentes particularmente vulneráveis é prestada assistência médica ou
outra que se revele necessária”, mesmo que sob medidas de prevenção e controlo
epidémicos (55). Já o número 1 do artigo 56.º dispõe que “aos requerentes de asilo
decisão final que recair sobre o mesmo”, a protecção médica e medicamentosa aos “requerentes
de protecção subsidiária e respectivos membros da família”, visto que, originalmente, apenas
se tutelavam os “requerentes de asilo”.
53. E bem assim a recusa de emissão de visto de residência, de estada temporária e de curta
duração, conforme esclarecem os números 4 do artigo 52.º, 2 e 3 do artigo 77.º e 4 do artigo
119.º da Lei n.º 23/2007, cujas referências e requisitos de outra índole constam alhures nesse
diploma. Uma excepção fundamental de apontar à necessidade de visto para autorização de
residência é a constante da alínea g) do número 1 do artigo 122.º dessa Lei que prevê que não
carecem de visto os nacionais de Estados terceiros que “sofram de uma doença que requeira
assistência médica prolongada que obste ao retorno ao país, a fim de evitar risco para a saúde
do próprio” (que já estava, igualmente nestes termos, na alínea d) do número 1 do artigo 87.º
do DL n.º 4/2001, de 10 de Janeiro, que alterava o DL n.º 244/98, de 8 de Agosto, sobre as
condições de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros do território nacional,
depois transferido para o mesmo número do DL n.º 34/2003, de 25 de Fevereiro, que alterou
este regime, no uso da autorização legislativa concedida pela Lei n.º 22/2002, de 21 de Agosto.
Nenhum destes documentos se encontra em vigor no ordenamento jurídico nacional, porém).
54. Júlio Pereira / José Cândido de Pinho, Direito de estrangeiros: entrada, permanência,
saída e afastamento (Lei n.º 23/2007, de 4 de Julho, e legislação complementar). Anotações,
comentários e jurisprudência, Coimbra, 2008, pp. 130 ss.
55. Estando garantidos os canais de comunicação entre entidades para eficaz dispersão de
potenciais surtos, de acordo com o esclarecimento Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, O
Serviço de Estrangeiros e Fronteiras mantém activos canais de articulação com as entidades
competentes, designadamente Direcção Geral de Saúde e companhias aéreas, no sentido de
activar os mecanismos considerados necessários em caso de eventuais surtos, Lisboa, [sem edi220 e-Pública
ou de protecção subsidiária e respectivos membros da família, que não disponham
de meios suficientes para permitir a sua subsistência, são [assegurados] cuidados
de saúde (…), tendo em vista a garantia da satisfação das suas necessidades
básicas em condições de dignidade humana” (56).
Pelo disposto no número 2 do artigo 35.º-A deste documento, os
“requerentes apenas podem ser colocados ou mantidos [de forma coagida] em
centro de instalação temporária [CIT], por motivos de (…) saúde pública (…),
com base numa apreciação individual e se não for possível aplicar de forma
eficaz outras medidas alternativas menos gravosas” (57), sendo que tal não pode
ser através de estabelecimentos prisionais ou “em regime de detenção”, por força
do número 1. Ademais, não se pode prolongar de forma desnecessária, tendo 60
dias por limite, salvo prorrogação devidamente justificada (número 1 do artigo
35.º-B). Nestes centros de instalação ou acolhimento temporário (58), às “pessoas
tor] (9 de Abril de 2014), em http://www.sef.pt/portal/v10/PT/aspx/noticias/Noticias_Detalhe.
aspx?id_linha=6545, consultado a 30 de Outubro de 2015.
56. O critério é de difícil apuramento mas como ficou consagrado pode levar a leituras
desfavoráveis na apreciação administrativa dos pedidos pois que, pelo número 3, considera-se
de forma bicéfala “não dispor de meios suficientes o requerente que careça de recursos de qualquer natureza ou de valor inferior ao subsídio de apoio social apurado nos termos da legislação
aplicável”, sendo que, caso demonstre ter esses meios, “pode ser-lhe exigida uma contribuição,
total ou parcial, para a cobertura das despesas” (número 4), ou ser-lhe, a posteriori, exigido “o
respectivo reembolso” (número 5).
57. As quais dificilmente serão preferidas nos casos de saúde pública pois que, segundo o
número 4, consistem, de forma taxativa, na apresentação periódica no SEF e na obrigação de
permanência na habitação com utilização de meios de vigilância electrónica.
58. Actualmente, Portugal conta com três Organizações Não Governamentais (ONG) a
assegurar oficialmente a instalação e mediação de cuidados de saúde dos refugiados: (i) o Conselho Português para os Refugiados (CPR), que coordena a representação nacional junto da
Rede Europeia de Reinstalação (RER) e que, através do Protocolo de adesão da Câmara Municipal de Lisboa, assinado a 15 de Dezembro de 2014, almeja à “criação de sinergias entre
autarquias e entidades da sociedade civil dedicadas à protecção e à integração de refugiados
reinstalados” (de acordo com http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/protocolos-promovem-inclusao-social, consultado a 24 de Outubro de 2015) e ao reforço dos apoios às suas
instalações, nomeadamente o Centro de Acolhimento para Refugiados, na Bobadela, o Centro
de Acolhimento para Crianças Refugiadas, na Belavista, e o Espaço «A Criança», em Lisboa;
(ii) o Serviço Jesuíta aos Refugiados (SJR) que, a 22 de Junho de 2015, estabeleceu um Protocolo para o reforço do acolhimento através da cedência de espaços municipais para habitação,
do acesso a serviços e equipamentos para actividades consideradas importantes, da concertação de acções e eventos a desenvolver com vista à promoção da integração das populações
refugiadas e do desenvolvimento de iniciativas de formação e educação (previsto em cpr.pt e
http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/protocolo-com-o-servico-jesuita-aos-refugiados, consultados a 24 de Outubro de 2015). O SJR é a única destas instituições com valência
supra-nacional, o que lhe permite supervisionar, inter alia, os centros de detenção e produzir
relatórios atestando da regularidade das suas práticas, conforme Dennis Broeders / Godfried
Engbersen, Immigration control and strategies of irregular immigrants: from light to thick fog,
in Foggy social structures. Irregular migration, european labour markets and the welfare State,
parte III, Amesterdão, 2011, p. 183; e (iii) a PAR que, no dia 14 de Setembro deste ano, igualmente nos Paços do Concelho, assinou um Protocolo para a cedência de um espaço não habitacional no Bairro do Rego, na freguesia das Avenidas Novas, em Lisboa, o qual vai servir de
sede aos voluntários desta associação (acessível em http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/
article/lisboa-apoia-acolhimento-aos-refugiados, consultado a 24 de Outubro de 2015). Acontece, porém, que a capacidade de acolhimento destas entidades é reduzida face às necessidades
futuras, salvo no caso da PAR visto que congrega vários agentes individuais e colectivos, na
e-Pública 221
vulneráveis deve ser assegurado o acompanhamento regular e apoio adequado,
tendo em conta a situação concreta, incluindo o seu estado de saúde” (número 8).
Retomando, na chegada, deve ser garantido pelos representantes dos
centros protocolados e do SEF (59) (60) a referenciação de cada refugiado ao SNS
para inscrição, marcação de consultas e, se necessário, agendamento de exames
(61). Os serviços do SNS devem “assegurar o acesso dos requerentes (…) e
membros da sua família a cuidados de saúde, nos termos da legislação aplicável”
(número 3 do artigo 61.º da Lei n.º 27/2008). E há, de igual modo, a possibilidade
de apoio psicológico desde o início do processo de acolhimento (62), v.g. através
do Centro de Apoio a Vítimas de Tortura - Portugal (CAVITOP) (63).
Tanto os refugiados como os requerentes de asilo e os seus cônjuges
ou equiparados e descendentes directos estão isentos do pagamento de taxas
moderadoras, não obstante as frequentes actualizações dos valores e de
beneficiários em anos recentes (64), nos termos da alínea n) do número 1 do artigo
4.º do DL n.º 113/2011, de 29 de Novembro, conforme as alterações pelo DL
n.º 128/2012, de 21 de Junho, pelas Leis n.º 66-B/2012, de 31 de Dezembro, e
n.º 51/2013, de 24 de Julho, e pelo DL n.º 117/2014, de 5 de Agosto, que regula
o acesso às prestações do SNS por parte dos utentes no que respeita ao regime
das taxas moderadoras e à aplicação de regimes especiais de benefícios. Não
sua maioria Instituições Particulares de Solidariedade Social, ONG e representações locais da
Igreja Católica Apostólica Romana, que se disponibilizaram, por todo o país, a acolher famílias
59. Cuja estrutura orgânica e atribuições foram definidas pelo DL n.º 252/2000, de 16 de
Outubro, alterado pelos DL n.º 290-A/2001, de 17 de Novembro, n.º 121/2008, de 11 de Julho,
e n.º 240/2012, de 6 de Novembro.
60. Sendo que são os agentes do SEF quem tem competência para “recorrer aos meios de
identificação civil previstos na lei e nos regulamentos comunitários aplicáveis” e para identificar “doenças que constituam perigo ou grave ameaça para a saúde pública” (parágrafo i) da
alínea d) do número 2 do artigo 212.º da Lei n.º 23/2007).
61. Constante do documento Conselho Português para os Refugiados, Bem-vindo a Portugal, [sem editor, localização ou data], em http://refugiados.net/1cpr/www/reinstalacao/welcome_to_portugal_19jul_2012final.pdf, consultado a 24 de Outubro de 2015.
62. Os refugiados, requerentes de asilo e mesmo os migrantes económicos estão expostos
a uma miríade de formas de violência, nomeadamente tortura e situações de extrema gravidade, com consequências potencialmente permanentes para a sua saúde, bem-estar e vida, sendo
que nos cenários pós-migratórios em países de acolhimento de matriz ocidental, ao contrário
do que se poderia expectar, também se têm verificado graves violações dos direitos humanos
destas populações. No entanto, a parcimónia nos estudos e produção de dados estatísticos desta
realidade podem ocultar “ongoing risks and needs” e uma latente carência de reavaliação das
políticas de saúde, com particular ênfase em situações de detenção e recusa do pedido, como
alertam Mazeda Hossain et al., Asylum seekers, violence and health: a systematic review of
research in high-income host countries, American Journal of Public Health, volume 103, número 3, 2013, p. 40.
63. Aliás, para as “pessoas que tenham sido vítimas de actos de tortura, de violação ou de
outros actos de violência grave é assegurado [nos termos do artigo 80.º] tratamento especial
adequado aos danos causados pelos actos referidos, nomeadamente através da especial atenção
e acompanhamento por parte do respectivo centro distrital do Instituto de Segurança Social, I.
P., e serviços de saúde ou das entidades que com este tenham celebrado protocolos de apoio”.
64. Sofia Crisóstomo, O sistema nacional de saúde em Portugal, in Políticas públicas para
a reforma do Estado, tema IV, Coimbra, 2013, p. 269.
222 e-Pública
obstante, a RER refere, quanto aos serviços portugueses de integração e apoio,
que depois da saída dos CIT os refugiados reinstalados auferem benefícios da
Segurança Social para cobrir algumas despesas, entre as quais médicas, mas que,
em consequência das complicações económicas, os serviços sociais têm vindo a
reduzir os valores de reembolso e as verbas orçamentais alocadas à integração e
apoio, de uma forma mais geral (65).
Se conferido o estatuto de refugiado ou de beneficiário de protecção
subsidiária, nos termos do número 1 do artigo 73.º da Lei n.º 27/2008, estas
pessoas e as suas famílias terão acesso ao SNS, nas mesmas condições que os
cidadãos nacionais. E, além disso, são especialmente protegidos aqueles que
“se integrem nos grupos de pessoas particularmente vulneráveis”, sendo-lhes
assegurados “cuidados de saúde adequados, incluindo tratamento de perturbações
mentais, quando necessários” (número 2 e com nova referência no número 1 do
artigo 77.º), inserindo-se naquele grupo “as grávidas, os deficientes, as vítimas
de tortura, violação ou outras formas graves de violência física, psicológica ou
sexual, como as vítimas de violência doméstica e as vítimas de mutilação genital
feminina, [e] os menores que sofreram qualquer forma de abuso, negligência,
exploração, tortura, tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes ou os efeitos
de um conflito armado” (número 3 do artigo 73.º) (66).
A recusa do pedido de protecção internacional e consequente não
concessão do estatuto de refugiado cessa o apoio social que pudessem receber,
nos termos do número 1 do artigo 60.º da Lei n.º 27/2008, mas “não prejudica
o acesso aos cuidados de saúde urgentes, ao tratamento básico de doenças e de
perturbações mentais graves e aos cuidados médicos ou outro tipo de assistência
necessária aos requerentes com necessidades de acolhimento especiais, incluindo
assistência psicológica adequada, se necessário” (número 7). Isto no âmbito mais
geral do número 1 do artigo 40.º da Lei n.º 23/2007, que tutela os direitos do
estrangeiro não admitido no sentido de que, “durante a permanência na zona
internacional do porto ou aeroporto ou em centro de instalação temporária ou
espaço equiparado, o cidadão estrangeiro a quem tenha sido recusada a entrada
em território português [beneficia] de cuidados de saúde, incluindo a presença
de médico, quando necessário, e todo o apoio material necessário à satisfação
das suas necessidades básicas” (67). Seja como for, importa atentar no facto que,
nestes termos, a Lei n.º 27/2008 parece vir, infelizmente, revogar parcialmente,
de modo tácito, esta disposição da Lei n.º 23/2007 pois que estreita (pela inclusão
de referências aos tratamentos) a atenção clínica dispensável aos refugiados
http://www.resettlement.eu/country/portugal#strengths-and-challenges, consultada a 24 de Outubro de 2015.
66. Um aspecto importante que constava do número 6 do artigo 16.º da Lei n.º 20/2006
dispunha que “a redução ou cessação dos benefícios [das condições de acolhimento] não prejudica o acesso aos cuidados de saúde urgentes”, ou seja, garantia-se que a tutela sancionatória do
refugiado que tivesse incumprido as condições de recepção e estadia nunca atingiria o âmago
do direito à saúde, desde a recusa de entrada à estada efectiva.
67. Por demais garantido no comunicado de esclarecimento Serviço de Estrangeiros
e Fronteiras, Na sequência de notícias vindas a público, Lisboa, [sem editor] (16 de Junho de 2011), em http://www.sef.pt/portal/v10/PT/aspx/noticias/Noticias_Detalhe.aspx?id_
linha=5939, consultada a 30 de Outubro de 2015.
e-Pública 223
(68). Igualmente recusado pode ser o pedido de reagrupamento familiar, o que
é incomum visto Portugal ter um histórico de preferência por integração de
famílias em detrimento de requerentes individuais e de facilitação do processo de
reagrupamento (69). Como seria expectável, uma das razões de recusa prende-se
com a ameaça à saúde pública pela “presença do membro da família em território
nacional” — alínea c) do número 1 do artigo 106.º da Lei n.º 23/2007 — e o
interessado na autorização de residência familiar deverá já ser membro do SNS
ou ter um seguro de saúde válido, por força da alínea c) do número 4 do artigo
118.º (70). Mas atenção que, ex ante, se “a presença do nacional de um Estado
terceiro em território nacional constituir uma ameaça para a (…) saúde pública”,
pode-lhe ser, desde logo, recusado o trânsito aeroportuário, segundo a alínea e)
do número 2 do artigo 175.º.
Se chegar a suceder, embora se tenha demonstrado raro e difícil na
prática (71), o afastamento coercivo do território nacional deve processar-se do
modo mais humano e familiar possível, sendo que os estrangeiros devem manterse ou regressar aos centros de acolhimento temporários onde ficarão detidos até
à execução da decisão. No entretanto, o número 3 do artigo 146.º-A assegura
o “direito à prestação de cuidados de saúde urgentes e ao tratamento básico de
doenças, devendo atribuir-se especial atenção à situação das pessoas vulneráveis,
em especial menores, menores não acompanhados, pessoas com deficiência,
idosos, grávidas, famílias com filhos menores e pessoas que tenham sido vítimas
de tortura, violação ou outras formas graves de violência psicológica, física
ou sexual” (72). E sucede que os relatórios Becoming vulnerable in detention,
elaborado pelo SJR, e Detention of third-country nationals in return procedures,
preparado pela Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, dão
conta que, em alguns casos, os “CIT tem também contribuído para melhorias na
saúde e na condição física dos detidos” (73).
68. Embora desconheçamos como tenha sido interpretada esta cláusula na prática à altura e
se, quiçá, a nova legislação apenas veio pôr em texto as práticas médicas e de enfermagem em
situação de recusa do pedido, independentemente do alcance desta actuação.
69. Por oposição a alguns países até da Europa ocidental, como França, segundo Jean-Luc
Rongé, Les observations du Comité des droits de l’enfant sur le respect des droits de l’enfant
par la France, Journal du Droit des Jeunes, volume 7, número 287, 2009, p. 47.
70. Sendo que para ser residente de longa duração terá necessariamente de possuir um
seguro de saúde (alínea c) do número 1 do artigo 126.º), que lhe atribui igualdade de tratamento
face aos demais cidadãos (alínea g) do artigo 133.º).
71. Masja van Meeteren, Irregular migrants in Belgium and the Netherlands, Amesterdão,
2014, p. 64.
72. O mesmo sucedendo na pendência do prazo para a partida voluntária (número 5 do
artigo 160.º da Lei n.º 23/2007).
73. Informação disponibilizada nas páginas 24 e 28 do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Relatório de 2014 - O uso da detenção e as alternativas à detenção no contexto das políticas
de imigração, [sem editor, localização ou data], em http://rem.sef.pt/PagesPT/DocsPT/EstudosNacionais/2014%20-%20Detenção%20e%20Alternativas%20à%20Detenção%20nas%20
Pol%C3%ADticas%20de%20Imigração.pdf, consultada a 30 de Outubro de 2015, como resposta ao quesito europeu “Please identify any good practices in relation to the implementation
of assessment procedures”. Noutro passo deste documento, respondendo-se à questão “Have
evaluations or studies been conducted in your (Member) State on the impact of detention and
alternatives to detention on the fundamental rights of the third-country nationals concerned
(…)?”, as autoridades nacionais deram conta dos cuidados com a saúde global e bem-estar
224 e-Pública
Até Agosto deste ano, o representante regional da OMS para a Europa
encetou avaliações conjuntas com os ministros da saúde de vários países do Sul
do continente (74), Portugal incluído, através da ferramenta Toolkit for assessing
health system capacity to manage large influxes of migrants in the acute phase,
no sentido de compreender a capacidade dos sistemas locais para lidar com o
fenómeno complexo, transversal, politicamente sensível e exigente em termos de
recursos que é a situação dos refugiados e aqueles em situação similar. Deveria
basear-se num estudo de avaliação geral da recepção e integração dos requerentes
de asilo e dos refugiados reinstalados do Instituto da Segurança Social, I.P., de
2012 mas este ainda não foi publicado (75).
Desde 2011, é incumprido o disposto legal já que os refugiados com
especiais necessidades médicas não são uma prioridade na integração nacional
(76). E apesar de não haver nenhuma inspecção médica na chegada, como
dos detidos, refugiados ou outros, em instalações temporárias e nos espaços equiparados dos
aeroportos de Faro, Funchal, Lisboa, Ponta Delgada e Porto, ao aferirem que o relatório de uma
avaliação do Provedor de Justiça a estes locais “demonstrou existir, por parte das autoridades
portuguesas, uma forte preocupação com a garantia dos direitos fundamentais. De acordo com
o mesmo, foram observadas diversas situações positivas, tais como: a existência de quartos
próprios para as famílias, garantindo a sua privacidade; (…) alas femininas e alas masculinas,
dotadas de instalações sanitárias exclusivas e suficientemente equipadas; prestação de cuidados
de saúde básicos e assistência aquando de doença; registo e administração da medicamentação
prescrita; apoio psicossocial; alimentação adaptada a crianças, a pessoas doentes ou por questões religiosas; cuidados especiais prestados a grávidas ou outras pessoas com vulnerabilidades; boas condições de higiene; existência de medidas de segurança e de protecção à vida”.
Não obstante, apontam-se “alguns aspectos que devem ser melhorados, como as condições de
acesso às instalações por parte de pessoas com mobilidade reduzida (…) e o acesso a mais refeições (lanche e ceia). Os espaços equiparados dos aeroportos do Funchal e de Ponta Delgada
oferecem menos condições, em grande medida devido à quase inexistência de situações de
detenção nos mesmos. (…) Por último, no plano internacional, são de considerar os contributos do estudo do Serviço de Jesuítas aos Refugiados [em que] uma vez mais, é salientado o
facto de em Portugal não ser permitida a detenção de menores e de os detidos beneficiarem de
apoios sociais e cuidados de saúde”.
74. Bulgária, Chipre, Espanha, Grécia, Itália, Malta e Sérvia.
75. Se por um lado, particularmente em Estados descentralizados, as autoridades regionais
e municipais têm maior conhecimento e capacidade para aplicarem políticas mais ‘personalizadas’ de integração social e de estruturação de serviços em face da diversidade e dispersão territorial dos refugiados — o que se apresenta como uma solução positiva na esteira do princípio da
subsidiariedade —, por outro, haver uma coordenação dos esquemas de segurança social e entidades a nível supra-nacional apresenta vantagens claras quanto à troca de informações, meios
e experiências para assegurar a saúde das populações deslocadas. A este propósito, Magdalena
Lesińska, Migration policy matters. A comparative analysis of policy recommendations, in European immigrations. Trends, structures and policy implications, Amesterdão, 2012, pp. 251
ss. Donde, o atraso nesta publicação torna-se preocupante porque, como mencionado antes,
na UE ainda não há uma política de integração de saúde única. Por conseguinte, as decisões
clínicas são influenciadas pelas características sistémicas específicas do “welfare system” de
cada Estado-Membro e só com documentos nacionais é que será possível asseverar do balanço
de capacidades e fracassos de cada sistema e agir no sentido da distribuição proporcional dos
recursos disponíveis no espaço eurocomunitário.
76. Ao que agora apenas se continuam a inserir em categorias de necessidades especiais
aqueles sob o “Regional Protection Programme”, nomeadamente mulheres em risco ou grávie-Pública 225
referido, para as situações que se submetam a este critério ou que envolvam a
administração imediata de cuidados clínicos à chegada a Portugal (número 5
do artigo 52.º da Lei n.º 27/2008), é primeiramente requerida de forma urgente
informação específica pelo SEF ao Ministério da Saúde para se determinar se
a condição diagnosticada pode ser tratada de forma eficaz na janela temporal
concedida mas, infelizmente, as respostas têm demorado a chegar cerca de um
mês (77), o que levanta a questão da prestação de cuidados e, quiçá, de respeito
pelos direitos humanos na pendência desse período.
De facto, a burocracia no local é dos principais obstáculos ao
processamento e atendimento dos estrangeiros, no geral, e dos refugiados, em
especial (que deveria ser o mais célere e credível possível), especialmente pela
situação do pedido e do procedimento complexo subsequente serem essenciais
para a decisão de concessão de asilo, matéria sensível em face dos problemas
de origem sentidos, particularmente, pelas populações deslocadas da Síria.
Aliás, já a RER apresenta como ‘desafios’ em Portugal, inter alia, os atrasos
e complicações na selecção e transferência ou reinstalação de refugiados e a
falta de coordenação inclusiva ao nível governamental que crie uma política de
oferta, uma orientação operacional e um envolvimento das partes interessadas
relevantes, o que apresenta potencial para criar situações insustentáveis a breve
trecho na área da saúde. Acontece, felizmente, de outro tanto, que o mediatismo
conferido à guerra civil na Síria e à crise dos refugiados irá, provavelmente,
acelerar a expedição dos pedidos em matéria probatória que ver com as razões de
perseguição e, consequentemente, a tramitação global dos processos individuais.
Também as restrições orçamentais em termos de prestação de cuidados
clínicos podem representar um entrave ao benefício do direito à saúde (78) como
está plasmado nos documentos legais mencionados, à luz do discurso da reserva
do possível, sendo as posições políticas de matriz legislativa e administrativa e
os condicionalismos financeiros de futuro (visto a situação estar relativamente
estável por ora) que ditarão tanto a operacionalidade técnica dos instrumentos
de saúde como a prestação de cuidados aos refugiados. Mister apostar em
metodologias epistemológicas simples de recolha de dados, nomeadamente
demográficos, in loco nos pontos de acesso clínico, para contornar as necessidades
de contenção nos serviços, desenhar políticas públicas satisfatórias e identificar
padrões de (ausência de) saúde com base, por exemplo, na proveniência, faixa
etária e género, de modo a se criarem mapas de tratamento especializados e
eficazes (79).
das, portadores de deficiência, sobreviventes de tortura e violência e menores não acompanhados ou desamparados.
77. Em consonância com a análise mais profunda da realidade nacional explanada no Resettlement Handbook do ACNUR, constante da ligação http://www.unhcr.org/4e92a0cc9.html,
consultada a 25 de Outubro de 2015.
78. Joan Benach et al., Recortes profundos que hay que cortar por lo sano: crisis económica, políticas sociales y daños en la salud, Papeles, número 113, 2011, p. 108.
79. Andrew Block et al., A cross-sectional survey of the mental health needs of refugees
and asylum seekers attending a refugee health clinic: a study protocol for using research to
inform local service delivery, BMC Psychiatry, volume 14, número 1, 2014, p. 9.
226 e-Pública
A saúde e as suas implicações político-sociais (80) são matérias sensíveis
para a condução, geral e de segurança, de qualquer Estado, especialmente para
os países com preocupações de respeito pelos direitos humanos, como é o caso
português, e em face do flagelo do terrorismo e da depredação das condições
existenciais de tantos seres humanos nas mais diversas áreas do globo.
Portugal está habilitado em termos legais para aceder à recepção de
refugiados, independentemente da sua origem, como tem feito no passado e
continua diariamente a fazer, em linha com os direitos humanos, as exigências
humanitárias in casu e os direitos fundamentais constitucionalmente consagrados.
Aliás, após a leva de europeização do Direito Português, surgiu um emaranhado
legal que, por um lado, consagra um “amplo conjunto de direitos, (…) reforçando
[, por exemplo,] o estatuto jurídico dos titulares de autorização de residência”
(81), mas que, por outro, ainda poderá ser novamente revisto e sintetizado no
sentido de se tornar mais claro o estatuto do refugiado, nomeadamente em termos
de acesso à saúde, e de se evitarem repetições que obstam, de certa maneira,
à clareza jurídica do tratamento deste direito, tanto na leitura dos potenciais
destinatários como dos próprios agentes nacionais (82).
Ademais, parece que o SNS está informado para processar os
refugiados, a nível de diagnóstico e de tratamento de infecções comuns e DNC,
entre outras. Mas é necessário colocar de forma pragmática a disseminação de
doenças infecto-contagiosas e a defesa da saúde pública entre as necessidades e
prioridades do sistema de segurança interna à luz dos riscos geográficos e sociais
do acolhimento e, crítica por vezes assacada por parte da população e empolada
pela comunicação social, não são claras a flexibilidade e robustez do SNS e
de organismos conexos na gestão e administração da saúde (83), nomeadamente
80. Augusto Correia / Maria Rocha, Os riscos e as ameaças no sector da saúde: as pandemias e o seu impacto na estratégia europeia de segurança, Segurança e Defesa, número 10,
2009, p. 45.
81. Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Balanço de um ano de vigência da nova Lei de
entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros de território português, Lisboa, [sem
editor] (11 de Julho de 2008), em http://www.sef.pt/portal/v10/PT/aspx/noticias/Noticias_Detalhe.aspx?id_linha=5098, consultado a 30 de Outubro de 2015.
82. Sendo que, por exemplo, o sítio electrónico do SEF permanece desactualizado ao
manter a referência aos documentos revogados sem anotação nesse sentido, como se confirma
em http://www.sef.pt/portal/v10/PT/aspx/legislacao/index.aspx?id_linha=4212&menu_position=4134#0, consultado a 29 de Outubro de 2015.
83. Considerando que o SNS surgiu na esteira do National Health System (NHS) britânico,
seria salutar a discussão pública que desse lugar em Portugal a um processo de revisão interna
semelhante ao surgido desde 2008 com a criação da Academy for Large Scale Change do NHS’
Institute for Innovation and Improvement. Este tem aliviado a influência política dos centros de
decisão administrativos e clínicos, dirimido a “revolving door between business and politics”
e contrariado os esquemas mecanicistas de reformas radicais em favor de estratégias de gestão
com base no paradigma de complexidade em que assenta todo o sistema, tornando-o mais maleável quer ao aumento ordinário da população que recorre à saúde pública quer a flutuações
atípicas, no estudo de Robert Geyer / Samir Rihani, Complexity and public policy. A new
approach to twenty-first century politics, policy and society, Oxon, 2010, pp. 100 ss.
e-Pública 227
quanto ao número de profissionais (84) destacados para a triagem e acolhimentos
destes indivíduos e no que concerne aos tempos de espera dos utentes perante
injecções rápidas e volumosas de refugiados nas unidades de saúde, seja na
realização dos exames de despistagem na chegada, na obtenção de resultados de
diagnóstico (85) ou aquando de situações posteriores de doença (86).
Num documento informal de enfoque das principais dificuldades sentidas
no contexto de acolhimento elaborado por refugiados junto do CPR, os cuidados
de saúde foram uma das áreas indicadas como deficientes (87) pois que são quase
totalmente gratuitos e a medicação é parcialmente coberta para os refugiados
hospedados nas instalações do CPR, seja por esta entidade seja pela Santa Casa
da Misericórdia, mas, por exemplo, foram referenciadas algumas situações
de: (i) falta de confidencialidade entre médico e doente pela disseminação de
informações e resultados dos exames médicos a terceiros; (ii) atraso na realização
de diagnósticos de rotina para despistagem de doenças infecto-contagiosas
no Instituto de Higiene e Medicina Tropical — particularmente problemático
perante o facto de que a maioria dos refugiados partilha camaratas; e (iii) falta
de competências na avaliação e acompanhamento culturais e linguísticos nos
hospitais, centros de saúde e serviços ou gabinetes municipais relacionados com
condições de acesso à saúde por parte de estrangeiros.
Da perspectiva do ordenamento jurídico, o direito cívico básico (88) e
humano à (protecção da) saúde dos refugiados deve ser respeitado e assegurado
na máxima extensão das capacidades do sistema e dos seus agentes e recursos.
Portugal tem demonstrado uma forte resiliência da sociedade civil mas os
poderes públicos têm ficado aquém quanto à criação de uma rede de apoio estatal
(89), o que é particularmente de lamentar para os refugiados que não tenham
84. Que poderiam, quiçá, ser recrutados especificamente para esta função, de forma alternada ou rotativa.
85. A acrescer aos atrasos decorrentes da desactualização tecnológica.
86. Note-se, com curiosidade, a informação lacunarmente sucinta e sem soluções conseguintes da Circular Informativa n.º 34/DSPCS, de 11 de Julho de 2003, emitida pelo DirectorGeral e Alto Comissário da Saúde e publicada no sítio http://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/
orientacoes-e-circulares-informativas/circular-informativa-n-34dspcs-de-11072003.aspx, consultado a 30 de Outubro de 2015, que refere, já nesta altura, terem sido “apresentadas a esta
[Direcção Geral da Saúde] algumas dificuldades sobre o assunto em epígrafe”, leia-se, sobre o
acesso ao SNS pelos requerentes de asilo.
87. Diana Tomás, De objecto humanitário a cidadão: subjectividade e agência dos ‘refugiados’ em Portugal, Diss. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa, Lisboa (2012), Anexo 3 “Lista dos principais desafios que os refugiados enfrentam em
Portugal (levado pela Associação a um encontro do ECRE em Junho de 2011)”, disponível em
http://run.unl.pt//handle/10362/8656, consultada a 29 de Outubro de 2015.
88. Rainer Bauböck, Citizenship and migration – concepts and controversies, in Migration
and citizenship. Legal status, rights and political participation, Amesterdão, 2006, p. 23.
89. Com o risco colateral de défice democrático na prestação de serviços públicos identificado
por Trudie Knijn / Peter Selten, The rise of contractualisation in public services, in Policy,
people, and the new professional. De-professionalisation and re-professionalisation in care
and welfare, parte I, Amesterdão, 2006, p. 22. E para Devi Sridhar, Millennium development
goals: caring about health, The World Today, volume 66, números 8 e 9, 2010, p. 28, o sector
público deve assumir a liderança na concessão e coordenação dos serviços, bem como deve
ser o país de acolhimento, ao nível local, o responsável pelas políticas, programas e serviços,
228 e-Pública
uma rede de contactos no local de acolhimento (90). E apesar de surgir como
um dos primeiros exemplos de criação de mesas redondas para a resolução
sustentável dos conflitos e problemas associados à mobilidade de populações
vindas do exterior (91), é urgente a discussão pública e informada da temática dos
refugiados em todas as suas vertentes, nomeadamente quanto ao direito à saúde,
para se perceber o que ainda é necessário construir para assegurar, de iure e de
facto, que os refugiados são tratados conforme a dignidade que lhes é inerente e
inalienável (92).
especialmente no sentido de que “health must be integrated across all sector”.
90. Normalmente baseadas em ligações familiares e étnicas e de vital importância, especialmente quando as entidades privadas de apoio apresentam elas próprias ‘sinais de exaustão’,
na expressão de Joanne van der Leun, Looking for loopholes. Processes of incorporation of
illegal immigrants in the Netherlands, Amesterdão, 2003, pp. 49 ss.
91. Haleh Chahrokh / Radoslaw Stryjewski / Brigitte Suter, Conference report, in Innovative concepts for alternative migration policies. Ten innovative approaches to the challenges
of migration in the 21st century, Amesterdão, 2007, pp. 138 ss.
92. Atente-se na proposta sintetizada de Patrick Hayden, The human right to health and the
struggle for recognition, Review of International Studies, volume 38, número 3, 2012, p. 579,
de uma “recognition approach” deste direito na esfera interpessoal como atribuição de subjectividade relevante que pretende explicar como erradamente se considera “less-than-human” os
refugiados através de concepções erradas do ‘outro’, vis-à-vis critérios de preconceito e inferioridade. Não tendo sucedido em Portugal até hoje, igualmente o critério da etnicidade pode
ser um factor de vulnerabilidade e influenciar os padrões de repovoamento pelos refugiados, no
entendimento de Graeme Hugo / Janet Wall, Climate change and environmental influences on
Australia’s population distribution, in Health of people, places and planet. Reflections based
on Tony McMichael’s four decades of contribution to epidemiological understanding, parte III,
Acton, 2015, p. 190.
e-Pública 229
City of Brampton mobilizing to support Syrian refugees A Cidade de
O REINO UNIDO e os REFUGIADOS
ACNUR - abaco
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