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Timestamp: 2017-01-19 21:32:17+00:00
Document Index: 73132596

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Guidance paper PO by Diálogos Setoriais - issuu
COMUNICAÇÕES ORIUNDAS DAS INSTITUIÇÕES E DOS ÓRGÃOS DA
Comunicação da Comissão — Orientação sobre as prioridades da Comissão na aplicação do
artigo 82.o do Tratado CE a comportamentos de exclusão abusivos por parte de empresas em
1. O artigo 82.o do Tratado que institui a Comunidade Europeia («artigo 82.o») proíbe o abuso de posição dominante.
De acordo com a jurisprudência, a posição dominante não
é, por si só, ilegal e uma empresa nessa situação tem o
direito de concorrer no mercado com base nos seus
méritos. No entanto, a empresa em causa tem uma especial
responsabilidade de não permitir que a sua conduta obste a
uma concorrência efectiva e não falseada no mercado
interno. O artigo 82.o é a base jurídica de um dos
elementos essenciais da política de concorrência e a sua
eficaz aplicação ajuda ao bom funcionamento do mercado
em benefício das empresas e dos consumidores. No
contexto do objectivo mais global da realização de um
mercado interno integrado, este facto reveste-se de especial
II. OBJECTIVO DO DOCUMENTO
2. O presente documento apresenta as prioridades que irão
orientar a acção da Comissão na aplicação do artigo 82.o
aos comportamentos de exclusão por parte de empresas em
posição dominante. O objectivo é, juntamente com as decisões de execução específicas da Comissão, tornar mais claro
e previsível o quadro geral utilizado pela Comissão na
análise e decisão quanto à abertura de processos relativamente a diferentes formas de comportamentos de exclusão
e ajudar as empresas a avaliarem melhor se um determinado comportamento pode dar azo a uma intervenção por
parte da Comissão ao abrigo do artigo 82.o.
3. O presente documento não pretende constituir doutrina
jurídica, devendo ser considerado sem prejuízo da interpretação do artigo 82.o por parte do Tribunal de Justiça das
Comunidades Europeias ou do Tribunal de Primeira
Instância das Comunidades Europeias. Além disso, o quadro
geral apresentado neste documento aplica-se sem prejuízo
da possibilidade de a Comissão rejeitar uma queixa quando
considerar que determinado caso não é prioritário devido a,
por exemplo, ausência de interesse para a Comunidade.
4. O artigo 82.o aplica-se a empresas que detêm uma posição
dominante em um ou mais mercados relevantes. Esta
posição pode ser detida por uma só empresa (posição
dominante individual) ou por duas ou mais empresas
(posição dominante colectiva). O presente documento
aborda apenas abusos cometidos por empresas que detêm
uma posição dominante individual.
5. Na aplicação do artigo 82.o ao comportamento de exclusão
por parte de empresas em posição dominante, a Comissão
irá privilegiar os tipos de conduta mais prejudiciais para os
consumidores. Os benefícios que a concorrência proporciona aos consumidores são preços mais baixos, melhor
qualidade e maior variedade de bens e serviços novos ou
melhorados. Assim, a Comissão pretende orientar a aplicação da lei no sentido de assegurar o bom funcionamento
dos mercados e o benefício por parte dos consumidores da
eficiência e produtividade resultantes de uma concorrência
efectiva entre as empresas.
6. A intervenção da Comissão no âmbito dos comportamentos de exclusão tem sobretudo em vista a salvaguarda
da concorrência no mercado interno e a garantia de que as
empresas que detêm uma posição dominante não excluirão
os seus rivais através de outros meios que não sejam a
concorrência com base no mérito dos bens ou serviços que
fornecem. Neste contexto, a Comissão reconhece que o
mais importante é a protecção de um verdadeiro processo
de concorrência e não a mera protecção dos concorrentes.
Isso poderá significar que os concorrentes que tenham um
desempenho inferior para os consumidores em termos de
preço, gama da oferta, qualidade e inovação poderão desaparecer do mercado.
7. Qualquer conduta que represente uma exploração dos
consumidores (por exemplo, a aplicação de preços excessivos) ou que mine os esforços com vista à realização de
um mercado interno integrado, é igualmente passível de
infringir o artigo 82.o. A Comissão poderá decidir intervir
nos casos em que se registam tais comportamentos, nomeadamente quando a defesa dos mesmos e o bom funcionamento do mercado interno não possam ser adequadamente
assegurados por outra via. No contexto do objectivo de
formulação de orientações relativamente às suas prioridades
na aplicação da lei, a Comissão limitar-se-á, na presente
fase, a abordar os comportamentos de exclusão e, em especial, determinados tipos de comportamentos de exclusão
que, de acordo com a sua experiência, parecem ser mais
8. A Comissão terá em consideração os factos e circunstâncias
específicos de cada caso ao aplicar os princípios gerais de
aplicação apresentados nesta Comunicação. Por exemplo,
nos casos que envolvam mercados regulamentados, a
Comissão terá em consideração o enquadramento regulamentar específico na sua análise (1). Consequentemente, a
Comissão poderá adaptar a abordagem definida na presente
Comunicação, na medida em que tal seja razoável e
adequado para o caso em apreço.
III. ABORDAGEM GERAL AO COMPORTAMENTO DE
9. A primeira fase da aplicação do artigo 82.o é avaliar se a
empresa tem uma posição dominante e qual o grau de
poder de mercado que detém. Em conformidade com a
jurisprudência, a detenção de uma posição dominante
confere uma responsabilidade particular à empresa, cujo
âmbito depende das circunstâncias concretas em apreço (2).
10. A posição dominante foi definida ao abrigo da legislação
comunitária como sendo uma posição de poder económico
de que goza determinada empresa e que lhe permite evitar
uma concorrência efectiva em determinado mercado ao
dar-lhe o poder de ter uma conduta, em larga medida, independente dos seus concorrentes, dos seus clientes e mesmo
dos consumidores (3). Esta noção de independência está
relacionada com o grau de pressão competitiva a que a
empresa em causa está sujeita. A posição dominante faz
com que esta pressão concorrencial não seja suficientemente eficaz e, como tal, a empresa goza de um poder de
mercado considerável e duradouro. Consequentemente, as
decisões da empresa são em grande medida insensíveis às
acções e reacções dos concorrentes, dos clientes e mesmo
dos consumidores. A Comissão poderá considerar que não
existe uma pressão concorrencial efectiva, mesmo que
(1) Ver, por exemplo, o ponto 82.
(2) Processo 322/81, Nederlandsche Banden Industrie Michelin (Michelin I)/
/Comissão, Col. 1983, p. 3461, ponto 57; processo T-83/91, Tetra Pak/
/Comissão (Tetra Pak II), Col. 1993, p. II-755, ponto 114; processo
T-111/96, ITT Promedia/Comissão, Col. 1998, p. II-2937, ponto 139;
processo T-228/97, Irish Sugar/Comissão, Col. 1999, p. II-2969,
ponto 112; e processo T-203/01, Michelin/Comissão (Michelin II),
Col. 2003, p. II-4071, ponto 97.
(3) Ver processo 27/76, United Brands Company e United Brands
Continental/Comissão, Col. 1978, p. 207, ponto 65; processo 85/76,
Hoffmann-La Roche & Co./Comissão, Col. 1979 p. 461, ponto 38.
subsista um certo grau de concorrência real ou potencial (4).
Em geral, uma posição dominante resulta de uma combinação de vários factores que, isoladamente, não são necessariamente determinantes (5).
11. A Comissão considera que uma empresa que seja capaz de
aumentar os preços acima do nível da concorrência, de
forma rentável, por um período de tempo significativo, não
está sujeita a uma pressão concorrencial efectiva e suficiente
e, como tal, pode ser considerada como estando em posição
dominante (6). Na presente Comunicação, a expressão
«aumentar os preços» inclui o poder de manter os preços
acima do nível da concorrência e é utilizada para referir as
diferentes formas de influenciar os parâmetros da concorrência — tais como, preços, produtividade, inovação, variedade ou qualidade dos bens e serviços — em benefício da
empresa em posição dominante e em detrimento dos
consumidores (7).
12. A avaliação da posição dominante terá em consideração a
estrutura concorrencial do mercado e, nomeadamente, os
— pressões resultantes dos fornecimentos de concorrentes
actuais e da sua posição no mercado (a posição no
mercado da empresa em posição dominante e dos seus
concorrentes),
— pressões resultantes de um risco credível de uma futura
expansão dos actuais concorrentes ou de entrada de
concorrentes potenciais (expansão e entrada),
— pressões resultantes da capacidade de negociação dos
clientes da empresa (poder negocial dos compradores).
a) Posição no mercado da empresa dominante e dos concorrentes
13. As quotas de mercado dão à Comissão uma primeira indicação útil quanto à estrutura do mercado e à importância
relativa das várias empresas que nele operam (8). No
entanto, a Comissão interpretará as quotas de mercado à
luz das condições específicas e, especialmente, da dinâmica
(4) Ver processo 27/76, United Brands Company e United Brands
Continental/Comissão, Col. 1978, p. 207, pontos 113-121; processo
T-395/94, Atlantic Container Line e Outros/Comissão, Col. 2002,
p. II-875, ponto 330.
(5) Processo 27/76, United Brands e United Brands Continental/Comissão,
Col. 1978, p. 207, pontos 65 e 66; processo C-250/92, Gøttrup-Klim
e.a. Grovvareforeninger/Dansk Landbrugs Grovvareselskab, Col. 1994,
p. I-5641, ponto 47; processo T-30/89, Hilti/Comissão, Col. 1991,
p. II-1439, ponto 90.
(6) A definição de período de tempo significativo irá depender do produto
e das circunstâncias do mercado em questão, mas normalmente um
período de dois anos será considerado suficiente.
(7) A rentabilidade contabilística não passa em muitos casos de um indicador de fraca qualidade do exercício de um poder de mercado. Ver a
este respeito, o processo 27/76, United Brands Company e United
Brands Continentaal/Comissão, Col. 1978, p. II-1439, ponto 90.
(8) Processo 85/76 Hoffmann-La Roche & Co./Comissão, Col. 1979,
p. 461, pontos 39-41; processo C-62/86 AKZO/Comissão, Col. 1991,
p. I-3359, ponto 60; processo T-30/89, Hilti/Comissão, Col. 1991,
p. II-1439, pontos 90, 91 e 92; processo T-340/03, France Télécom/
/Comissão, Col. 2007 p. II-107, ponto 100.
do mercado e do grau de diferenciação dos produtos. Em
mercados voláteis ou por adjudicação, poderá ser também
tida em consideração a evolução das quotas de mercado e a
sua alteração ao longo do tempo.
14. A Comissão considera que as quotas de mercado pequenas
dão geralmente uma boa indicação da ausência de poder de
mercado significativo. A experiência da Comissão sugere
que, quando a quota da empresa é inferior a 40 % no
mercado relevante, é pouco provável que exista posição
dominante. No entanto, poderão existir casos específicos de
empresas abaixo deste limiar em que os concorrentes não
tenham capacidade de pressionar de forma eficaz a conduta
da empresa dominante, nomeadamente quando têm graves
limitações de capacidade. A Comissão poderá interessar-se
também por casos deste tipo.
15. A experiência sugere que quanto mais elevada for a quota
de mercado e quanto mais longo for o período de tempo
durante o qual esta é mantida, maior será a probabilidade
de esse facto constituir um sinal preliminar importante da
existência de posição dominante e, em determinadas circunstâncias, de possíveis efeitos graves derivados de uma
conduta abusiva que justificam uma intervenção por parte
da Comissão ao abrigo do artigo 82.o (1). No entanto, regra
geral, a Comissão não chegará a uma conclusão final sobre
se deve ou não prosseguir o caso, sem primeiro analisar
todos os factores que podem ser suficientes para limitar o
b) Expansão ou entrada
16. A concorrência é um processo dinâmico e a avaliação das
pressões concorrenciais a que está sujeita determinada
empresa não pode basear-se exclusivamente na situação de
mercado existente. Também é importante o potencial
impacto da expansão dos concorrentes actuais ou a entrada
de potenciais concorrentes, incluindo a ameaça dessa
expansão ou entrada. Uma empresa pode ser dissuadida de
aumentar os preços se uma expansão ou entrada de um
novo operador for provável, susceptível de se produzir rapidamente e for suficiente. Para que a Comissão considere
uma expansão ou entrada como provável esta tem de ser
suficientemente lucrativa para o concorrente ou para o
novo operador, tendo em consideração factores como as
barreiras à expansão ou à entrada, as reacções prováveis da
empresa alegadamente em posição dominante e dos outros
concorrentes e os riscos e custos de fracasso. Para que a
expansão ou a entrada seja considerada atempada tem de
ser suficientemente rápida para dissuadir ou impedir o exercício de um poder de mercado significativo. Para que a
expansão ou a entrada seja considerada suficiente não pode
ser uma simples entrada de pequena escala, por exemplo
num nicho de mercado, devendo ser de tal magnitude que
dissuada qualquer tentativa de aumento dos preços por
parte da empresa alegadamente em posição dominante no
(1) Relativamente à relação entre o grau de posição dominante e a constatação de abuso ver os processos apensos C-395/96 P e C-396/96 P,
Compagnie Maritime Belge Transports, Compagnie Maritime Belge e
Dafra-Lines/Comissão, Col. 2000, p. I-1365, ponto 119; processo
T-228/97, Irish Sugar/Comissão, Col. 1999, p. II-2969, ponto 186.
17. As barreiras à expansão ou à entrada podem assumir diferentes formas. Podem ser barreiras jurídicas, tais como
direitos aduaneiros ou contingentes pautais, ou assumir a
forma de vantagens específicas da empresa em posição
dominante, tais como economias de escala e de gama,
acesso privilegiado a meios de produção ou recursos naturais essenciais, tecnologias importantes (2) ou uma rede
estabelecida de distribuição e venda (3). As barreiras podem
incluir igualmente custos e outros entraves, resultantes
designadamente de efeitos de rede, com que se deparam os
clientes ao mudarem para um novo fornecedor. O próprio
comportamento da empresa em posição dominante pode
criar barreiras à entrada, por exemplo quando realizou
investimentos significativos que os concorrentes ou as
novas empresas teriam de igualar (4) ou quando celebrou
contratos de longo prazo com os seus clientes que têm
efeitos apreciáveis de encerramento do mercado. Quotas de
mercado persistentemente elevadas podem ser indicadoras
da existência de barreiras à entrada e à expansão.
c) Poder negocial dos compradores
18. A pressão concorrencial pode ser exercida não apenas por
concorrentes actuais ou potenciais, mas também pelos
clientes. Mesmo uma empresa com uma elevada quota de
mercado pode não ser capaz de agir de forma significativamente independente face a clientes com suficiente poder de
negociação (5). Este poder negocial dos compradores pode
ser resultado da dimensão dos clientes ou do seu peso
comercial para a empresa em posição dominante e da sua
capacidade para mudar rapidamente para fornecedores
concorrentes, de promoverem novas entradas ou de se integrarem verticalmente e de serem credíveis na ameaça de o
fazerem. Se o poder negocial for suficientemente forte
poderá dissuadir ou inviabilizar uma tentativa por parte da
empresa de aumentar os preços. O poder dos compradores
poderá, no entanto, não ser considerado uma pressão suficientemente eficaz se apenas assegurar protecção contra o
poder de mercado da empresa em posição dominante a um
determinado segmento ou a um segmento limitado dos
B. Encerramento do mercado com prejuízo para o
consumidor («encerramento anticoncorrencial do
mercado»)
19. O objectivo da aplicação da lei por parte da Comissão no
âmbito do comportamento de exclusão é assegurar que as
empresas em posição dominante não prejudicam uma
concorrência efectiva através do encerramento do mercado
aos rivais de uma forma anticoncorrencial e tendo, assim,
um impacto adverso no bem-estar dos consumidores, quer
sob o efeito de preços mais elevados do os que de outra
forma prevaleceriam, quer pela limitação da qualidade, ou
ainda pela redução do leque de escolha para os
(2) Processo T-30/89, Hilti/Comissão, Col. 1991, p. II-1439, ponto 19.
(3) Processo 85/76, Hoffmann-La Roche/Comissão, Col. 1979, p. 461,
ponto 48.
(4) Processo 27/76, United Brands/Comissão, Col. 1978, p. 207, ponto 91.
( ) Ver processo T-228/97, Irish Sugar/Comissão, Col. 1999, p. II-2969,
pontos 97-104, em que o Tribunal de Primeira Instância analisa se a
alegada falta de independência da empresa face aos seus clientes deverá
ser vista como uma circunstância especial que impede a constatação de
uma posição dominante, apesar de a empresa ser responsável por uma
elevada percentagem das vendas registadas no mercado de açúcar
industrial da Irlanda.
consumidores. No presente documento a expressão «encerramento anticoncorrencial do mercado» é utilizada para
designar as situações em que o comportamento da empresa
em posição dominante restringe ou impede o acesso efectivo dos concorrentes actuais ou potenciais às fontes de
abastecimento ou aos mercados, o que irá provavelmente
permitir a esta última aumentar de forma rentável o
preço (1) cobrado aos consumidores. A identificação de um
prejuízo provável para o consumidor pode basear-se tanto
em provas qualitativas como, sempre que possível e apropriado, em provas quantitativas. A Comissão irá também
abordar este tipo de encerramento anticoncorrencial do
mercado que cause (provável) prejuízo tanto a nível intermédio como dos consumidores finais, ou a ambos os
níveis (2).
20. Normalmente, a Comissão intervirá ao abrigo do artigo 82.o
sempre que, com base em provas sólidas e convincentes,
seja provável que o comportamento alegadamente abusivo
conduza a um encerramento anticoncorrencial do mercado.
A Comissão considera que os seguintes factores são geralmente relevantes numa tal avaliação:
— a posição da empresa dominante: em geral, quanto mais
forte for a posição dominante maior será a probabilidade de um comportamento de protecção dessa posição
levar a um encerramento anticoncorrencial do mercado,
— as condições no mercado relevante: nelas se incluem as
condições de entrada e expansão tais como a existência
de economias de escala e/ou de gama e efeitos de rede.
Por economias de escala entende-se que os concorrentes
terão menor tendência a entrar ou a permanecer no
mercado se a empresa em posição dominante encerrar
uma parte significativa do mercado relevante. Igualmente, o comportamento poderá permitir à empresa
em posição dominante «fazer pender» a seu favor um
mercado caracterizado por efeitos de rede ou consolidar
ainda mais a sua posição num tal mercado. Da mesma
forma, se as barreiras à entrada no mercado a montante
e/ou a jusante forem significativas, isto significa que
poderá ser oneroso para os rivais ultrapassarem um
possível encerramento do mercado através da integração
— a posição dos concorrentes da empresa dominante: trata-se de
avaliar a importância dos concorrentes na manutenção
de uma concorrência efectiva. Um rival específico pode
desempenhar um papel concorrencial significativo
mesmo com uma quota de mercado pequena comparativamente a outros concorrentes: pode, por exemplo,
ser o concorrente mais próximo da empresa em posição
dominante, ser um concorrente especialmente inovador
ou ter a reputação de diminuir sistematicamente os
preços. Na sua apreciação, a Comissão pode igualmente
examinar, se for caso disso e com base nas informações disponíveis, se existem contra-estratégias realistas,
(1) Para o significado da expressão «aumentar o preço» ver ponto 11.
(2) O conceito de «consumidores» engloba todos os utilizadores directos e
indirectos dos produtos afectados pelo comportamento, incluindo os
produtores intermédios que utilizam os bens como meios de produção,
assim como os distribuidores e os consumidores finais tanto do
produto imediato como dos produtos disponibilizados pelos produtores intermédios. Sempre que os utilizadores intermédios sejam
concorrentes actuais ou potenciais da empresa dominante, a avaliação
centrar-se-á nos efeitos do comportamento em utilizadores mais a
eficazes e rápidas que os concorrentes possam provavelmente adoptar,
— a posição dos clientes ou fornecedores de meios de produção:
este aspecto poderá incluir a análise da possível selectividade da conduta em questão. A empresa em posição
dominante poderá aplicar o comportamento apenas a
clientes ou fornecedores de meios de produção seleccionados, que poderão ser de especial importância para a
entrada ou expansão dos concorrentes, aumentando
assim a probabilidade de encerramento anticoncorrencial do mercado (3). No caso dos clientes, podem ser,
por exemplo, os que têm maior tendência a reagir a
ofertas de fornecedores alternativos, os que representam
um meio particular de distribuição do produto que seria
adequado para uma empresa nova, os que estão localizados numa área geográfica que reagiria bem a novas
entradas ou os com maior tendência a influenciar o
comportamento de outros clientes. No caso de fornecedores de meios de produção, aqueles com quem a
empresa em posição dominante celebrou acordos exclusivos de fornecimento poderão ser os com maior probabilidade de responder à procura de clientes que sejam
concorrentes da empresa em posição dominante, num
mercado a jusante, ou de produzir um tipo específico
do produto — ou produzir em determinado local —
especialmente propício a novas empresas. Qualquer
estratégia ao alcance dos clientes ou fornecedores de
meios de produção que possa ajudar a contrariar o
comportamento da empresa em posição dominante será
igualmente tido em consideração,
— a amplitude do alegado comportamento abusivo: geralmente,
quanto mais elevada for a percentagem das vendas
totais ano mercado relevante, afectadas pelo comportamento, quanto mais longa for a sua duração e quanto
maior for a regularidade com que foi aplicado, maior
será a probabilidade de efeito de encerramento do
— eventuais provas do encerramento efectivo do mercado: se o
comportamento já existir há um período de tempo suficiente, o desempenho de mercado da empresa em
posição dominante e dos seus concorrentes pode constituir uma prova directa de encerramento anticoncorrencial do mercado. Por razões imputáveis ao alegado
comportamento abusivo, a quota de mercado da
empresa em posição dominante poderá ter aumentado,
ou a diminuição da sua quota de mercado poderá ter
desacelerado. Por razões semelhantes, os concorrentes
actuais poderão ter sido marginalizados ou podem ter
abandonado o mercado ou concorrentes potenciais
poderão ter fracassado na sua tentativa de entrada,
— provas directas de qualquer estratégia de exclusão: entre estas
incluem-se os documentos internos que contenham
provas directas de uma estratégia para excluir os
concorrentes, tais como um plano pormenorizado para
adoptar determinado comportamento com o intuito de
excluir um rival, de impedir a entrada ou de prevenir o
surgimento de um mercado ou ainda provas de ameaças
concretas de uma acção de exclusão. Estas provas
directas poderão ser úteis na interpretação do comportamento da empresa em posição dominante.
(3) Processo T-228/97, Irish Sugar/Comissão, Col. 1999, p. II-2969,
ponto 188.
21. No âmbito de um processo, a Comissão realizará uma
análise dos factores gerais mencionados no ponto 20, assim
como os factores mais específicos, que irão ser seguidamente descritos nas secções que abordam determinados
tipos de comportamento de exclusão, e quaisquer outros
factores que considerar apropriados. Esta análise será
normalmente realizada através da comparação da situação
actual ou da provável situação futura no mercado relevante
(mercado no qual se desenrola o comportamento da
empresa em posição dominante) com um cenário contrafactual adequado, tal como a simples ausência do comportamento em questão ou outro cenário alternativo realista relativamente às práticas empresariais estabelecidas.
22. Poderão existir circunstâncias em que não seja necessário
para a Comissão realizar uma avaliação pormenorizada
para chegar à conclusão de que é provável que o comportamento em causa resulte num prejuízo para os consumidores. Se ficar claro que o comportamento só levanta
obstáculos à concorrência e não dá origem a quaisquer
ganhos de eficiência, poderá inferir-se que tem um efeito
anticoncorrencial. Será o caso se, por exemplo, a empresa
em posição dominante impedir os seus clientes de testarem
produtos de concorrentes ou se der incentivos financeiros
aos clientes sob condição de estes não testarem tais
produtos ou ainda se pagar a um distribuidor ou cliente
para atrasar a introdução no mercado do produto de um
C. Comportamento de exclusão com base no preço
23. As considerações apresentadas nos pontos 23 a 27
aplicam-se ao comportamento de exclusão baseado no
preço. Uma forte concorrência de preços é em geral benéfica para os consumidores. A Comissão normalmente só
intervirá para evitar o encerramento anticoncorrencial do
mercado quando o comportamento em causa tenha já
impedido ou seja susceptível de impedir a concorrência
desenvolvida por concorrentes, que são considerados tão
eficientes como a empresa em posição dominante (1).
24. Não obstante, a Comissão reconhece que em determinadas
circunstâncias um concorrente menos eficiente poderá
igualmente exercer uma pressão que deverá ser tida em
consideração quando se avalia se determinado comportamento baseado no preço leva ao encerramento anticoncorrencial do mercado. A Comissão terá uma perspectiva dinâmica desta pressão visto que, na ausência de prática abusiva,
um tal concorrente poderá beneficiar de vantagens relacionadas com a procura, designadamente efeitos de rede e
de aprendizagem, que terão tendência a melhorar a sua
25. Para determinar se até um concorrente hipotético, de eficiência igual à da empresa em posição dominante, se depararia com o encerramento do mercado devido ao comportamento em questão, a Comissão analisará a informação
económica relativa aos preços de custo e de venda
(1) Processo 62/86, AKZO Chemie/Comissão, Col. 1991, p. I-3359,
ponto 72: relativamente à definição de preços abaixo do custo total
médio (CTM), o Tribunal de Justiça declarou: «Tais preços podem fazer sair
do mercado empresas que são talvez tão eficientes quanto a empresa em posição
dominante, mas que, devido ao facto de possuírem menores recursos financeiros,
são incapazes de fazer face à concorrência que lhes é feita». Ver também o
acórdão de 10 de Abril de 2008 no processo T-271/03, Deutsche
Telekom/Comissão (ainda não publicado), ponto 194.
e, especialmente, se a empresa dominante está a praticar
preços abaixo do custo. Para tal será necessário que esteja
disponível informação fiável suficiente. Sempre que
possível, a Comissão utilizará a informação sobre os custos
da empresa em posição dominante. Se não estiver disponível informação fiável sobre estes custos, a Comissão
poderá decidir utilizar informação sobre os custos dos
concorrentes ou outra informação fiável comparável.
26. Normalmente, os custos de referência que a Comissão
utiliza são o custo evitável médio (CEM) e o custo marginal
médio a longo prazo (CMMLP) (2). A incapacidade de cobrir
o CEM indica que a empresa em posição dominante está a
sacrificar os lucros a curto prazo e que um concorrente
com o mesmo grau de eficiência não consegue servir os
clientes em causa sem sofrer perdas. O CMMPL é normalmente superior ao CEM porque, ao contrário deste último
(que só inclui os custos fixos se estes tiverem ocorrido
durante o período em análise), inclui os custos fixos específicos do produto ocorridos antes do período durante o qual
se registou o comportamento alegadamente abusivo. A
incapacidade de cobrir o CMMLP indica que a empresa em
posição dominante não está a cobrir todos os custos fixos
(imputáveis) à produção do bem ou serviço em causa e que
um concorrente igualmente eficiente poderia ser excluído
do mercado (3).
27. Se a informação sugerir claramente que um concorrente de
igual eficiência consegue efectivamente concorrer com as
práticas de preços da empresa em posição dominante, a
Comissão assumirá, em princípio, que não é provável que
as práticas de preços da empresa em posição dominante
tenha um impacto negativo na concorrência efectiva e,
consequentemente, nos consumidores. Nesse caso, será
pouco provável que intervenha. Se, pelo contrário, a informação sugerir que o preço cobrado pela empresa em
posição dominante tem o potencial de encerrar o mercado
aos concorrentes de igual nível de eficiência, então a
Comissão irá integrar este facto na avaliação geral sobre
encerramento anticoncorrencial do mercado (ver secção B),
tendo em consideração outras provas quantitativas e qualitativas relevantes.
(2) O custo evitável médio representa a média dos custos que poderiam ter
sido evitados se a empresa não tivesse produzido uma unidade
adicional (suplementar), neste caso a quantidade alegadamente objecto
do comportamento abusivo. Na maioria dos casos, o CEM e o custo
variável médio (CVM) serão iguais, visto que frequentemente só se
conseguem evitar os custos variáveis. O custo marginal médio a longo
prazo representa a média de todos os custos (fixos e variáveis) em que
uma empresa incorre para produzir um determinado produto. O
CMMLP e o custo total médio (CTM) são bons indicadores recíprocos e
são iguais no caso de empresas com um só produto. Se empresas com
vários produtos realizarem economias de gama, o CMMLP será inferior
ao CTM para cada um dos produtos, visto os verdadeiros custos
comuns não serem tidos em consideração no CMMLP. No caso de
vários produtos, nem todos os custos que poderiam ter sido evitados
com a não produção de um determinado produto ou de uma gama
específica são considerados custos comuns. Nas situações em que os
custos comuns são elevados, poderão ter de ser tidos em consideração
na avaliação da capacidade de encerramento do mercado a concorrentes com o mesmo grau de eficiência.
( ) Para aplicar os custos de referência poderá ser igualmente necessário
analisar as receitas e os custos da empresa em posição dominante e dos
seus concorrentes num contexto mais lato. Poderá não ser suficiente
avaliar apenas se o preço ou as receitas cobrem os custos do produto
em questão. Poderá ser necessário analisar as receitas marginais, no
caso de o comportamento da empresa em posição dominante afectar
negativamente as receitas noutros mercados ou de outros produtos.
Igualmente, no caso de mercados bilaterais, poderá ser necessário
analisar simultaneamente as receitas e os custos de ambos os lados.
D. Necessidade objectiva e ganhos de eficiência
28. Na aplicação do artigo 82.o, a Comissão pretende analisar
igualmente as alegações apresentadas pela empresa em
posição dominante de que o seu comportamento é justificado (1). Uma empresa em posição dominante pode fazê-lo,
quer demonstrando que o seu comportamento é objectivamente necessário, quer demonstrando que o seu comportamento produz ganhos de eficiência substanciais, que
compensam qualquer efeito anticoncorrencial a nível dos
consumidores. Neste contexto, a Comissão irá avaliar se o
comportamento em questão é indispensável e proporcionado ao objectivo alegadamente pretendido pela empresa
em posição dominante.
29. A questão de saber se o comportamento é objectivamente
necess��rio e proporcional deverá ser determinada com base
em factores externos à empresa em posição dominante. O
comportamento de exclusão pode, por exemplo, ser considerado objectivamente necessário por razões de saúde ou
de segurança relacionadas com a natureza do produto em
questão. No entanto, a prova de que tal comportamento é
objectivamente necessário deverá ter em consideração de
que compete normalmente às autoridades públicas definir e
aplicar as normas de saúde e de segurança. Não é tarefa da
empresa em posição dominante tomar medidas por sua
própria iniciativa para excluir produtos que considera, com
razão ou não, perigosos ou inferiores ao seu próprio
produto (2).
30. A Comissão considera que uma empresa em posição dominante pode igualmente justificar um comportamento que
leve ao encerramento do mercado aos concorrentes, invocando ganhos de eficiência que são suficientes para tornar
pouco provável um prejuízo para os consumidores. Neste
contexto, a empresa em posição dominante deve normalmente demonstrar, com um grau de probabilidade suficiente e com base em provas verificáveis, que estão preenchidas as seguintes condições cumulativas (3):
— os ganhos de eficiência concretizaram-se, ou é provável
que se concretizem, em consequência do comportamento. Podem incluir, por exemplo, melhorias técnicas
na qualidade dos bens ou a redução do custo de
produção ou distribuição,
— o comportamento é indispensável para a concretização
dos ganhos de eficiência: não podem existir alternativas
menos anticoncorrenciais do que o comportamento que
permitam produzir os mesmos ganhos de eficiência,
(1) Ver processo 27/76, United Brands/Comissão, Col. 1978, p. 207,
ponto 184; processo 311/84, Centre Belge d'études de marché —
Télémarketing (CBEM)/Compagnie luxembourgeoise de télédiffusion
(CLT) e Information publicité Benelux (IPB), Col. 1985, p. 3261,
ponto 27; processo T-30/89, Hilti/Comissão, Col. 1991, p. II-1439,
pontos 102-119; processo T-83/91, Tetra Pak International/Comissão
(Tetra Pak II), Col. 1994, p. II-755, pontos 136 e 207; processo
C-95/04 P, British Airways/Comissão, Col. 2007, p. I-2331, pontos 69
( ) Ver, por exemplo, processo T-30/89, Hilti/Comissão, Col. 1991,
p. II-1439, pontos 118-119; processo T-83/91, Tetra Pak International/
/Comissão (Tetra Pak II), Col. 1994, p. II-755, pontos 83-84 e 138.
(3) Ver no contexto diferente do artigo 81.o a comunicação da Comissão
— Orientações relativas à aplicação do n.o 3 do artigo 81.o do Tratado
(JO C 101 de 27.4.2004, p. 97).
— os prováveis ganhos de eficiência gerados pelo comportamento compensam qualquer eventual efeito negativo
sobre a concorrência e o bem-estar dos consumidores
nos mercados afectados,
— o comportamento não elimina uma concorrência efectiva através da supressão de todas ou parte das fontes
actuais ou potenciais de concorrência. A rivalidade entre
empresas é um motor essencial da eficiência económica,
nomeadamente dos ganhos de eficiência dinâmicos sob
a forma de inovação. Na sua ausência, a empresa em
posição dominante não terá os incentivos adequados
para continuar a criar e a repercutir ganhos de eficiência. Quando não existe concorrência residual nem
ameaça provável de entrada, a protecção da rivalidade e
do processo de concorrência sobrepõe-se a possíveis
ganhos de eficiência. Na opinião da Comissão, o
comportamento de exclusão que mantém, cria ou
reforça uma posição de mercado próxima do monopólio não pode normalmente ser justificado por criar
também ganhos de eficiência.
31. É da responsabilidade da empresa em posição dominante
apresentar todas as provas necessárias para demonstrar que
o comportamento em causa é objectivamente justificado.
Compete depois à Comissão fazer a avaliação final sobre se
o comportamento em questão é ou não objectivamente
necessário e se, com base na análise dos efeitos anticoncorrenciais aparentes e dos ganhos de eficiência alegados ou
demonstrados, é provável que resulte num prejuízo para os
IV. FORMAS ESPECÍFICAS DE ABUSO
A. Acordos exclusivos
32. Uma empresa dominante pode tentar excluir empresas
concorrentes impedindo-as de vender a clientes através da
utilização de acordos exclusivos de descontos ou de obrigação de compra, práticas denominadas em conjunto como
acordos exclusivos (4). Esta secção define as circunstâncias
que poderão desencadear uma intervenção por parte da
Comissão em matéria de acordos exclusivos celebrados por
empresas dominantes.
a) Acordo de compra exclusiva
33. Uma obrigação de compra exclusiva exige que um cliente
num determinado mercado compre produtos, exclusivamente ou em grande parte, apenas a uma empresa
(4) A noção de acordo exclusivo inclui igualmente obrigações exclusivas de
fornecimento ou incentivos que produzam o mesmo efeito, através
das quais a empresa dominante tenta excluir os concorrentes,
impedindo-os de comprar aos fornecedores. A Comissão considera que
este tipo de encerramento do mercado dos meios de produção pode,
em princípio, ter como efeito um encerramento anticoncorrencial, se a
obrigação ou o incentivo de fornecimento exclusivo vincular a maior
parte dos clientes e fornecedores eficientes, concorrentes da empresa
dominante, impossibilitando-os de encontrar fontes alternativas
eficientes dos meios de produção fornecidos.
dominante. Outras obrigações como a obrigação de armazenagem, que pareçam não ser um acordo de compra
exclusiva propriamente dito, podem na prática produzir o
mesmo efeito (1).
34. Com o objectivo de convencer os clientes a aceitarem os
acordos de compra exclusiva, a empresa dominante pode
ter de os indemnizar, total ou parcialmente, pela perda de
concorrência resultante da exclusividade. Sempre que tal
indemnização existir, pode ser do interesse do cliente celebrar um acordo de compra exclusiva com a empresa dominante. No entanto, não seria correcto concluir, de forma
automática, que todas as obrigações de compra exclusiva,
analisadas no seu conjunto, são em geral benéficas para os
clientes, incluindo os que não compram actualmente à
empresa dominante, e para os consumidores finais. A
Comissão centrará a sua atenção nos casos em que seja
provável que os consumidores em geral não recolham benefícios. Esta situação verificar-se-á, sobretudo, se existirem
muitos clientes e se as obrigações de compra exclusiva à
empresa dominante, tomadas no seu conjunto, tiverem por
efeito impedir a entrada ou o crescimento de empresas
35. Para além dos factores mencionados no ponto 20, os
seguintes factores serão particularmente relevantes para
determinar se a Comissão irá intervir ou não em matéria de
acordos de compra exclusiva.
36. As obrigações de compra exclusiva fazem incorrer no risco
de um encerramento anticoncorrencial, sobretudo quando,
na sua ausência, seriam exercidas restrições significativas
sobre os concorrentes que ainda não estão presentes no
mercado, aquando da celebração desses acordos, ou que
não se encontrem em posição de concorrer para o fornecimento completo dos clientes. As empresas concorrentes
podem não ter a capacidade para concorrer para o
conjunto da procura de um cliente porque a empresa dominante é um parceiro comercial inevitável para, pelo menos,
parte da procura existente no mercado devido a, por
exemplo, a sua marca ser um «produto incontornável»
preferido por parte significativa dos consumidores finais ou
por as restrições de capacidade sobre outros fornecedores
serem de tal ordem que uma parte significativa da procura
pode apenas ser satisfeita pelo fornecedor dominante (2). Se
os concorrentes puderem concorrer em condições de igualdade para o conjunto da procura de um cliente, é improvável que as obrigações de compra exclusiva possam ser
um entrave a uma concorrência efectiva, a menos que a
mudança de fornecedor pelos clientes seja dificultada
devido à duração do período da obrigação de compra
exclusiva. Em geral, quanto maior for o prazo da obrigação,
maior é a probabilidade de existência de um efeito de encerramento. No entanto, se a empresa dominante for um
parceiro comercial incontornável de todos ou de parte
significativa dos clientes, mesmo uma obrigação de compra
de curto prazo pode ter por efeito o encerramento anticoncorrencial.
(1) Processo T-65/98, Van den Bergh Foods/Comissão, Col. 2003,
p. II-4653. Neste processo, a obrigação de utilização de arcas congeladoras para armazenar exclusivamente os produtos fornecidos pela
empresa dominante foi considerada como uma prática conducente à
exclusividade do ponto de venda.
(2) Processo T-65/98, Van den Bergh Foods/Comissão, Col. 2003,
p. II-4653, pontos 104 e 156.
b) Descontos condicionais
37. Os descontos condicionais são descontos concedidos a
clientes para os recompensar por um comportamento de
compra específico. A natureza habitual de um desconto
condicional consiste em ser concedido um desconto ao
cliente cujas compras efectuadas durante um período
previamente definido ultrapassem um determinado limiar,
sendo o desconto concedido sobre a totalidade das compras
(descontos retroactivos) ou apenas sobre os produtos
comprados acima do limiar (descontos progressivos) Os
descontos condicionais não são uma prática pouco
corrente. As empresas podem oferecer este tipo de desconto
para atraírem os clientes e, desta forma, podem estimular a
procura e beneficiar os consumidores. Contudo, este
tipo de desconto — quando oferecido por empresas
dominantes — pode produzir efeitos efectivos ou potenciais
de encerramento semelhantes aos das obrigações de compra
exclusiva. Os descontos condicionais podem produzir esses
efeitos sem constituírem necessariamente um sacrifício para
a empresa dominante (3).
38. Para além dos factores mencionados no ponto 20, os
seguintes factores serão particularmente relevantes para que
a Comissão considere que um determinado sistema de
descontos condicionais pode ter por efeito o encerramento
anticoncorrencial e, por conseguinte, ser incluído nas prioridades de execução da Comissão.
39. À semelhança das obrigações de compra exclusiva, a probabilidade de existir um encerramento anticoncorrencial é
superior quando os concorrentes não podem competir em
condições de igualdade para a totalidade da procura de cada
cliente. Um desconto condicional pode permitir-lhe a utilização da parte «não contestável» da procura de cada cliente
(isto é, a quantidade que o cliente compraria, de qualquer
maneira, à empresa dominante) como uma alavanca para
diminuir o preço pago pela parte «contestável» da procura
(isto é, a quantidade para a qual o cliente pode preferir e
pode encontrar produtos substitutos) (4).
40. Em geral, os descontos retroactivos podem encerrar o
mercado de forma significativa, na medida em que podem
tornar menos atractiva para os clientes a possibilidade de
transferirem pequenas quantidades da procura para um
fornecedor alternativo se esta decisão tiver como consequência a perda de descontos retroactivos (5). O potencial
efeito de encerramento produzido pelos descontos retroactivos tem, em princípio, mais peso na última unidade de
produto comprado antes de se ultrapassar o limiar. No
entanto, a Comissão considera que o factor relevante para a
avaliação do efeito de reforço da fidelização produzido por
um desconto não é apenas o efeito sobre a última unidade
individual, mas o efeito de encerramento do sistema de
(3) Neste caso, a análise de descontos condicionais é diferente da das
práticas predatórias, que pressupõem sempre um sacrifício.
(4) Ver processo T-203/01, Michelin/Comissão (Michelin II), Col. 2003,
p. II-4071, pontos 162 e 163. Ver, igualmente, processo T-219/99,
British Airways/Comissão, Col. 2003, p. II-5917, pontos 277 e 278.
(5) Processo 322/81, Nederlandsche Banden Industrie Michelin/Comissão
(Michelin I), Col. 1983, p. 3461, pontos 70-73.
descontos sobre os concorrentes (existentes ou potenciais)
do fornecedor dominante. Quanto maior for o desconto em
forma de percentagem sobre o preço total e quanto maior
for o limiar definido, maior será a incitação abaixo do
limiar e, por conseguinte, maior será a probabilidade de
exclusão de concorrentes actuais ou potenciais.
41. Ao aplicar a metodologia exposta nos pontos 23 a 27, a
Comissão pretende investigar, na medida em que estejam
disponíveis dados e estes sejam fiáveis, se o sistema de
descontos pode impedir a expansão ou mesmo a entrada
no mercado de concorrentes igualmente eficientes, dificultando-lhes a capacidade de fornecer uma parte da procura
de um cliente. Neste contexto, a Comissão procederá à estimativa do preço que uma empresa concorrente teria de
oferecer, por forma a compensar o cliente pela perda do
desconto condicional no caso de este último transferir uma
parte da sua procura («a fracção relevante») em detrimento
da empresa dominante. O preço real com o qual a empresa
concorrente tem de se alinhar não é o preço médio da
empresa dominante, mas o preço normal (tabela) menos o
desconto perdido pelo cliente por ter procedido à transferência, calculado sobre a fracção relevante das vendas e o
período pertinente. A Comissão tomará em consideração a
margem de erro que poderá existir devido a determinadas
incertezas inerentes a este tipo de análise.
42. A fracção relevante para a qual se deve calcular o preço real
num caso específico depende dos factos específicos de cada
caso e do facto de o desconto ser progressivo ou retroactivo. No que diz respeito aos descontos progressivos, o
conjunto relevante é normalmente constituído pelas
compras adicionais. No que se refere aos descontos retroactivos, em geral, é relevante avaliar no contexto do mercado
específico que quantidade dos pedidos de compra de um
cliente pode ser, de forma realista, transferida para uma
empresa concorrente («quota contestável» ou «parte contestável»). Se for provável que os clientes estejam dispostos e
sejam capazes de transferir relativamente depressa uma
parte significativa da procura para uma (potencial) empresa
concorrente, então é provável que a fracção relevante seja
relativamente grande. Se, por outro lado, for provável que
os clientes queiram ou apenas sejam capazes de transferir
progressivamente pequenas quantidades, o conjunto relevante será relativamente pequeno. No que diz respeito às
empresas concorrentes existentes, a sua capacidade de
expansão das vendas a outros clientes, bem como a
flutuação nestas vendas ao longo do tempo pode, igualmente, fornecer uma indicação acerca da fracção relevante.
No que se refere aos potenciais concorrentes, poderá
proceder-se, quando possível, a uma avaliação da medida
em que um novo concorrente pode realmente entrar no
mercado. É possível utilizar a estrutura de crescimento
histórico de novas entradas no mesmo mercado ou em
mercados semelhantes como uma indicação de qual será a
quota de mercado realista de uma nova empresa no
mercado (1).
(1) O conjunto de produtos relevante é calculado com base em dados que
podem ter níveis de precisão diferentes. A Comissão terá em conta este
factor ao retirar conclusões sobre a capacidade da empresa dominante
de excluir concorrentes igualmente eficientes. Poderá, igualmente, ser
útil calcular a quota média da procura dos clientes que a nova empresa
no mercado deverá captar, no mínimo, para que o preço efectivo seja,
pelo menos, tão elevado como o CMMLP da empresa dominante. Em
determinados casos, o valor desta quota, quando comparada com as
quotas de mercado efectivas dos concorrentes e a sua quota da procura
dos clientes, pode esclarecer se o sistema de descontos é passível de ter
um efeito de encerramento anticoncorrencial.
43. Quanto mais baixa for a estimativa do preço efectivo da
fracção relevante em comparação com preço médio do
fornecedor dominante, maior será o efeito de aumento da
fidelização. No entanto, desde que o preço real permaneça
de forma consistente acima do CMMLP da empresa dominante, tal permitirá, em princípio, que um concorrente com
o mesmo grau de eficiência concorra de maneira lucrativa,
não obstante a existência do desconto. Em princípio, nestas
circunstâncias, o desconto não é passível de produzir um
efeito de encerramento anticoncorrencial.
44. Em geral, quando o preço real é inferior ao CEM, a aplicação do desconto pode excluir mesmo empresas concorrentes com o mesmo grau de eficiência. Quando o preço
real se encontrar entre o CEM e o CMMLP, a Comissão
investigará se outros factores indiciam que a entrada ou
expansão de um concorrente com o mesmo grau de eficiência pode ser afectada. Assim, a Comissão investigará
se, e em que medida, as empresas concorrentes possuem
contra-estratégias realistas e eficazes à sua disposição como,
por exemplo, a capacidade de utilizar igualmente uma parte
«não contestável» da procura do comprador como uma
alavanca para reduzir o preço da fracção relevante. Quando
os concorrentes não tiverem tais contra-estratégias à
sua disposição, a Comissão concluirá que o sistema de
descontos é susceptível de produzir o efeito de encerramento do mercado, mesmo para concorrentes com o
mesmo grau de eficiência.
45. Tal como referido no ponto 27 supra, esta análise será
incluída na avaliação geral, tomando em consideração
outros indícios quantitativos e qualitativos relevantes. Em
princípio, é importante ter em conta se o sistema de
descontos é aplicado com um limiar personalizado ou
normalizado. O limiar personalizado — limiar que tem por
base uma percentagem sobre o total de pedidos do cliente
ou o objectivo de volume individualizado — permite ao
fornecedor dominante fixar o limiar num nível que dificulta
a mudança de fornecedor, criando-se, assim, um efeito
máximo de reforço da fidelização (2). Pelo contrário, o
limiar de volume normalizado — quando o limiar é igual
para todos os clientes ou para um mesmo grupo de
clientes — pode ser demasiado elevado para alguns clientes
de menores dimensões e/ou demasiado baixo para clientes
de maiores dimensões para criar o efeito de aumento da
fidelização. No entanto, se puder ser estabelecido que o
limiar do volume normalizado aproxima as necessidades de
uma parte apreciável de clientes, a Comissão considerará
normalmente que um sistema de descontos normalizado
desta natureza pode produzir efeitos de encerramento
anticoncorrencial.
c) Ganhos de eficiência
46. Se as condições indicadas na secção III D supra forem
preenchidas, a Comissão analisará as alegações apresentadas
pelas empresas dominantes segundo as quais os sistemas de
descontos dão origem a vantagens a nível dos custos e de
outra natureza, que são transferidas para os clientes (3). Em
geral é mais fácil obter vantagens ligadas ao preço da
transacção através de objectivos por volume normalizados
(2) Ver processo 85/76, Hoffmann-La Roche & Co./Comissão, Col. 1979,
p. 461, pontos 89 e 90; processo T-288/97, Irish Sugar/Comissão,
Col. 1999, p. II-2969, ponto 213; processo T-219/99, British Airways/
/Comissão, Col. 2003, p. II-5917, pontos 7-11 e 270-273.
(3) Por exemplo, em matéria de descontos ver processo C-95/04 P, British
Airways/Comissão, Col. 2007, p. I-2331, ponto 86.
do que através de objectivos por volume individualizados.
De igual modo, os sistemas de descontos progressivos são
em geral mais susceptíveis de incentivar os vendedores a
produzir e vender um volume mais elevado do que os
sistemas de descontos retroactivos (1). Ao aplicar estas
mesmas condições, a Comissão analisará as provas que
demonstram que os acordos de venda exclusiva beneficiam
clientes específicos, se estes acordos forem necessários para
que a empresa dominante realize determinados investimentos específicos a essa relação, por forma a estar em
condições de abastecer esses clientes.
B. Vendas subordinadas e agrupadas
47. Uma empresa dominante pode tentar excluir os seus
concorrentes do mercado através de práticas de subordinação e agrupamento das vendas. Esta secção define as
circunstâncias que poderão determinar a intervenção da
Comissão quando estiver a analisar práticas de vendas
subordinadas e agrupadas adoptadas pelas empresas dominantes.
48. A «subordinação» refere-se geralmente a situações em que
os clientes que compram um produto (produto subordinante) são obrigados a comprar igualmente outro produto
da empresa dominante (produto subordinado). A subordinação pode assentar numa base técnica ou contratual (2). O
«agrupamento» de vendas refere-se normalmente à forma
como os produtos são oferecidos e tarifados pela empresa
dominante. No caso do agrupamento puro, os produtos são
apenas vendidos em conjunto e em proporções fixas. No
caso do agrupamento misto, frequentemente referida como
desconto multi-produtos, os produtos são igualmente
disponibilizados separadamente, mas a soma total dos
preços dos produtos vendidos em separado é superior ao
preço do grupo.
49. A subordinação e o agrupamento são práticas correntes e
têm por objectivo fornecer melhores produtos ou ofertas
mais rentáveis aos clientes. No entanto, uma empresa que
tenha uma posição dominante num (ou mais) mercado(s)
de produtos de uma venda subordinada ou agrupada
(referido como o mercado subordinante) pode prejudicar os
consumidores através de práticas de subordinação ou do
agrupamento ao encerrar o mercado em relação a outros
produtos que fazem parte da subordinação ou agrupamento
(referido como mercado subordinado) e, indirectamente, o
mercado subordinante.
50. Em princípio, a Comissão adoptará medidas ao abrigo do
artigo 82.o quando uma empresa tiver uma posição dominante no mercado subordinante (3) e quando, para além
disso, se registarem as seguintes condições: i) os produtos
subordinantes e subordinados são produtos diferentes e
(1) A este respeito, ver processo T-203/01, Michelin/Comissão (Michelin II),
Col. 2003, p. I-4071, pontos 56 a 60, 74 e 75.
(2) Existe subordinação técnica quando o produto subordinante é concebido de tal forma que só funciona de maneira adequada em conjunto
com o produto subordinado (e não com produtos alternativos oferecidos pelos concorrentes). A subordinação contratual ocorre quando o
comprador do produto subordinante fica obrigado a comprar igualmente o produto subordinado (e não produtos alternativos oferecidos
pelos concorrentes).
(3) A empresa deve ser dominante no mercado subordinante embora não
necessariamente no mercado subordinado. Em situações de agrupamento, a empresa tem de ser dominante num dos mercados agrupados.
Na situação específica de subordinação em mercados pós-venda, o
critério utilizado é o de que a empresa deve ocupar um lugar dominante
no mercado subordinante e/ou no mercado pós-venda subordinado.
ii) é provável que a prática de subordinação possa ter um
efeito de encerramento anticoncorrencial (4).
a) Produtos distintos
51. A decisão de a Comissão considerar os produtos como
sendo distintos depende da procura do cliente. Dois
produtos são considerados como sendo distintos se, na
ausência de subordinação ou agrupamento, um número
substancial de clientes comprar ou tivesse comprado o
produto subordinante sem comprar igualmente o produto
subordinado ao mesmo fornecedor, permitindo, desta
maneira, uma produção autónoma para ambos os produtos
(subordinante e subordinado) (5). A prova de que os dois
produtos são distintos poderá incluir provas directas de
que, quando existe essa possibilidade, os clientes compram
os produtos subordinantes e subordinados em separado a
fontes de fornecimento diferentes, ou provas indirectas,
designadamente a presença no mercado de empresas especializadas no fabrico ou venda do produto subordinado
sem o produto subordinante (6) ou de cada um dos
produtos agrupados pela empresa dominante. Poderá ainda
passar por provas de que as empresas com pouco poder de
mercado, em especial em mercados competitivos, têm
tendência a não subordinar ou agrupar produtos.
b) Encerramento anticoncorrencial do mercado subordinado e/ou
52. As práticas de subordinação e ou de agrupamento podem
produzir efeitos anticoncorrenciais no mercado subordinado, no mercado subordinante ou em ambos os mercados
ao mesmo tempo. No entanto, ainda que o objectivo da
prática de subordinação e/ou agrupamento seja proteger a
posição da empresa dominante no mercado subordinante,
este objectivo é realizado, de forma indirecta, através do
encerramento do mercado subordinado. Para além dos
factores já mencionados no ponto 20, a Comissão considera que, em geral, os seguintes factores se revestem de
particular importância para a identificação de casos de
encerramento anticoncorrencial, provável ou efectivo.
53. Prevê-se que o risco de encerramento anticoncorrencial será
maior quando a empresa dominante confere à sua estratégia
de subordinação ou agrupamento um carácter duradouro,
como, por exemplo, através da prática de subordinação
técnica cuja inversão é onerosa. A subordinação técnica
reduz igualmente a possibilidade de revenda de componentes isolados.
54. No que diz respeito ao agrupamento, a empresa pode deter
uma posição dominante em um ou mais produtos do
grupo. Quanto maior for o número de produtos do grupo,
maior será a probabilidade de existência de um encerramento anticoncorrencial. Esse será o caso se um concorrente tiver dificuldade em reproduzir esse grupo, seja de
forma isolada ou em combinação com outros.
55. A subordinação pode conduzir a uma menor concorrência
para os clientes interessados em comprar o produto subordinado, mas não o produto subordinante. Se não existir um
número suficiente de clientes que comprem o produto
subordinado isoladamente para manter os concorrentes da
empresa dominante no mercado subordinado, a subordinação poderá resultar em preços mais elevados para os
clientes desse produto.
(4) Processo T-201/04, Microsoft/Comissão, Col. 2007, p. I-3601, em
especial os pontos 842, 859-862, 867 e 869.
(5) Processo T-201/04, Microsoft/Comissão, Col. 2007, p. I-3601, em
especial os pontos 917, 921 e 922.
(6) Processo T-30/89, Hilti/Comissão, Col. 1991, p. II-1439, ponto 67.
56. Se o produto subordinante e o produto subordinado
puderem ser utilizados em proporções variáveis como
componentes de um processo de produção, os clientes
podem reagir a um aumento do preço do produto subordinante através do aumento da procura do produto subordinado, diminuindo, ao mesmo tempo, a procura do produto
subordinante. Ao associar os dois produtos a empresa
dominante pode tentar evitar esta substituição e, consequentemente, ter capacidade para aumentar os preços.
57. Se os preços que a empresa dominante puder praticar no
mercado subordinante forem regulados, a subordinação
poderá permitir que a empresa dominante aumente os
preços no mercado subordinado de forma a compensar a
perda de receitas provocada pela regulação no mercado
58. Se o produto subordinado for um produto complementar
importante para os clientes do produto subordinante, a
diminuição de fornecedores alternativos do produto subordinado e, por conseguinte, a menor disponibilidade deste
produto no mercado, pode tornar mais difícil uma entrada
apenas no mercado subordinante.
c) Descontos multi-produtos
59. A prática de um desconto multi-produtos pode ser considerada anticoncorrencial nos mercados subordinado e subordinante se o desconto for tal que impeça os concorrentes
com o mesmo grau de eficiência, que oferecem apenas
alguns dos componentes, de concorrer com o grupo de
produtos que beneficia do desconto.
60. Em teoria, seria ideal se o efeito do desconto pudesse ser
calculado, averiguando se a receita marginal cobre os custos
marginais de cada produto do agrupamento da empresa
dominante. No entanto, na prática, a avaliação da receita
marginal constitui um exercício complexo. Por conseguinte,
na sua prática, a Comissão utilizará na maior parte das
situações o preço adicional como um valor indicativo
razoável. Se o preço adicional pago pelos clientes por cada
um dos produtos do grupo da empresa dominante permanecer acima do seu CMMLP após inclusão deste produto no
grupo, a Comissão, regra geral, não intervirá, uma vez que
um concorrente com o mesmo grau de eficiência poderá,
em princípio, ter capacidade para concorrer de forma
rentável com o grupo de produtos. Contudo, se o preço
adicional for inferior ao CMMLP, poderá ser imposta uma
medida coerciva porque nesse caso poder-se-á impedir a
expansão ou entrada no mercado mesmo de um concorrente com o mesmo grau de eficiência (1).
61. Se as provas sugerirem que os concorrentes da empresa
dominante vendem grupos de produtos semelhantes, ou
poderiam fazê-lo rapidamente sem serem dissuadidos por
eventuais custos adicionais, a Comissão considerará, em
geral, que se está perante uma situação de concorrência
entre grupos de produtos. Nesse caso, a questão relevante
não é a de verificar se as recitas marginais cobrem os custos
marginais de cada produto do grupo, mas se o preço do
grupos de produtos constitui no seu conjunto um preço
(1) Em princípio, nestes casos, o indicador do CMMLP é relevante em
relação aos custos, na condição de que os concorrentes não tenham
também capacidade para vender grupos de produtos (ver pontos 23
a 27 e 61).
d) Ganhos de eficiência
62. Se as condições estabelecidas na secção III D estiverem
pelas empresas dominantes segundo as quais as práticas de
subordinação e agrupamento podem conduzir a economias
na produção ou distribuição, em benefício dos clientes. A
Comissão poderá ainda analisar se tais práticas reduzem os
custos de transacção para os consumidores, que, caso
contrário, seriam obrigados a comprar os componentes
individualmente, e se permitem aos fornecedores realizar
economias significativas em termos de custos de embalagem e distribuição. A Comissão poderá igualmente
examinar se a combinação de dois produtos independentes,
por forma a transformá-los num novo produto único, pode
tornar mais rentável a entrada mercado de um tal produto
no mercado em benefício dos consumidores e se as vendas
subordinadas ou agrupadas permitem ao fornecedor repercutir os ganhos de eficiência resultantes da produção ou
compra de grandes quantidades do produto subordinado.
C. Comportamento predatório
63. De acordo com as suas prioridades a nível da aplicação das
regras, a Comissão intervirá, regra geral, sempre que existirem provas de que uma empresa dominante adopta um
comportamento predatório, suportando deliberadamente
perdas ou prescindindo deliberadamente de ganhos a curto
prazo (comportamento designado a seguir por «sacrifício»),
por forma a excluir ou poder vir a excluir um ou mais dos
seus concorrentes, existentes ou potenciais, com o objectivo
de reforçar ou manter o seu poder de mercado e prejudicando desta forma o consumidor (2).
64. A Comissão considerará um comportamento como
comportando um sacrifício quando a empresa dominante,
em resultado da aplicação de um preço inferior à totalidade
ou a uma parte específica da sua produção durante o
período de tempo relevante ou em resultado do desenvolvimento da sua produção durante o período de tempo relevante, tiver registado ou estiver a registar perdas que poderiam ter sido evitadas. A Comissão basear-se-á no CEM para
avaliar se a empresa dominante regista ou registou perdas
evitáveis. Se fixar um preço inferior ao CEM para a totalidade ou parte da sua produção, a empresa dominante não
está a cobrir os custos que poderiam ter sido evitados sem
esta produção: está assim a registar uma perda que poderia
ter evitado (3). A Comissão considerará, na maior parte dos
(2) A Comissão poderá, igualmente, analisar práticas predatórias realizadas
pelas empresas dominantes em mercados secundários onde ainda não
são dominantes. Este tipo de prática abusiva é mais provável em
sectores onde as actividades estão protegidas por um monopólio legal.
Ainda que a empresa dominante não necessite de exercer práticas
predatórias para proteger a sua posição dominante no mercado protegido pelo monopólio legal, pode utilizar os ganhos obtidos no mercado
do monopólio para financiar, através de subsídios cruzados, as suas
actividades noutros mercados e, desta forma, ameaçar excluir a concorrência efectiva nesse mercado.
( ) Na maior parte dos casos o custo evitável variável médio (CVM) e o
CEM serão idênticos, na medida em que normalmente só é possível
evitar os custos variáveis. No entanto, quando o CVM e o CEM são diferentes, o CEM reflecte melhor a possível existência de um sacrifício: por
exemplo, se a empresa dominante teve de aumentar a capacidade de
forma a poder ter um comportamento predatório, então os preços mais
baixos resultantes desta capacidade alargada devem ser levados em
consideração durante a análise das perdas da empresa dominante. Estes
custos reflectem-se no CEM mas não no CVM.
casos, a fixação de preços abaixo do CEM como um indício
claro de um sacrifício (1).
65. No entanto, o conceito de sacrifício não inclui apenas a
prática de preços abaixo do CEM (2). Para demonstrar a
existência de uma estratégia predatória, a Comissão poderá,
igualmente, ter de investigar se o alegado comportamento
predatório conduziu, a curto prazo, à obtenção de receitas
líquidas inferiores às que poderia obter se a empresa tivesse
adoptado um comportamento diferente razoável, isto é, se
a empresa dominante registou uma perda que poderia ter
sido evitada (3). A Comissão não procederá à comparação
do comportamento efectivo com comportamentos alternativos, hipotéticos ou teóricos, que poderiam ter sido mais
rentáveis. Apenas serão analisados os comportamentos
racionais e exequíveis do ponto de vista económico que,
tendo em conta as condições do mercado e as realidades
comerciais com que se depara a empresa dominante,
podem, de forma realista, ser consideradas como mais
66. Em determinados casos será possível o recurso a provas
directas, constituídas por documentos da empresa dominante, que demonstram de forma inequívoca a existência de
uma estratégia predatória (4), como, por exemplo, um
plano pormenorizado que preveja um sacrifício, com o
objectivo de excluir um concorrente, evitar a entrada de um
concorrente ou de evitar o surgimento de um novo
mercado, bem como provas de ameaças concretas de acções
predatórias (5).
b) Encerramento anticoncorrencial
67. Se existirem dados fiáveis suficientes, a Comissão utilizará a
chamada análise do concorrente com o mesmo grau de
eficiência, tal como descrito nos pontos 25 a 27, para
determinar se esse comportamento pode ser prejudicial
para os consumidores. Em princípio, só a fixação de preços
abaixo do CMMLP é susceptível de excluir do mercado
concorrentes com o mesmo grau de eficiência.
68. Para além dos factores já descritos no ponto 20, a
Comissão investigará, regra geral, se, e em que medida, a
alegada prática reduz a probabilidade de as empresas
concorrentes exercerem uma concorrência. Por exemplo, se
a empresa dominante dispuser de melhores informações
sobre os custos ou outras condições de mercado, ou puder
(1) No processo 62/86, AKZO Chemie/Comissão, Col. 1991, p. I-3359,
ponto 71, o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias deliberou o
seguinte em matéria de fixação de preços abaixo do custo variável
médio (CVM): «uma empresa dominante não tem nenhum interesse em aplicar
esses preços excepto se tiver por objectivo eliminar concorrentes de maneira a
poder, posteriormente, aumentar os seus preços aproveitando a sua posição de
monopólio, uma vez que cada venda gera uma perda …».
(2) Se a estimativa do custo se basear no custo directo de produção (tal
como evidenciado nas contas da empresa), isso pode não reflectir
adequadamente a existência ou ausência de um sacrifício.
( ) No entanto, as empresas não devem ser penalizadas por sofrerem
perdas ex post, quando a decisão ex ante de assumir esse comportamento
foi adoptada de boa fé, isto é se puderem apresentar provas determinantes de que seria razoável esperarem que a actividade fosse rentável.
(4) Ver processo T-83/91, Tetra Pak International/Comissão (Tetra Pak II),
Col. 1994, p. II-755, pontos 151 e 171, e processo T-340/03, France
Télécom/Comissão, Col. 2007, p. II-107, pontos 198 a 215.
( ) No processo 62/86, AKZO Chemie/Comissão, Col. 1991, p. I-3359, o
Tribunal aceitou a existência de provas claras de a AKZO ter proferido
ameaças à ECS, no decorrer de duas reuniões, afirmando que praticaria
preços abaixo do custo se esta empresa não se retirasse do mercado de
peróxidos orgânicos. Para além disso, existia um plano pormenorizado,
com dados quantificados, que descrevia as medidas que a AKZO aplicaria se a ECS não se retirasse deste mercado (ver pontos 76-82, 115
e 131-140).
distorcer os sinais do mercado relativamente à rentabilidade,
pode ter um comportamento predatório com vista a
influenciar as expectativas de possíveis novos operadores e,
por conseguinte, dissuadi-los da sua entrada no mercado
visado. Se o comportamento e as suas consequências prováveis se fizerem sentir em vários mercados e/ou numa fase
posterior, na eventualidade de novas entradas, poderá
demonstrar-se que a empresa dominante está a tentar
adquirir a reputação de ser uma empresa predatória. Se o
concorrente visado estiver dependente do financiamento
externo, reduções significativas dos preços ou outras
práticas predatórias da empresa dominante podem afectar
negativamente o desempenho do concorrente, o que poderá
comprometer seriamente o seu acesso a financiamento no
69. A Comissão não considera que seja necessário demonstrar
que os concorrentes foram excluídos do mercado para
poder demonstrar que existiu um encerramento anticoncorrencial. Não pode excluir-se a possibilidade de a empresa
dominante poder preferir impedir os seus concorrentes de
lhe moverem uma concorrência agressiva e fazer com que
estes alinhem os seus preços com os preços fixados pela
empresa dominante em vez de os excluir totalmente do
mercado. Esse comportamento evita o risco inerente ao
desaparecimento de concorrentes, sobretudo o risco de que
os seus activos sejam vendidos a baixo preço e permanecerem no mercado, permitindo o aparecimento de um novo
concorrente cujos custos seriam baixos.
70. Em geral, é provável que os consumidores sejam prejudicados se a empresa dominante puder razoavelmente esperar
que o seu poder de mercado, após o termo das práticas
predatórias, seja superior ao que teria se não tivesse adoptado essas práticas, isto é, se é susceptível de retirar um
benefício do seu sacrifício.
71. Isto não significa que a Comissão intervirá apenas em situações onde seja provável que a empresa dominante aumente
os preços acima do nível existente no mercado antes da
prática predatória. Por exemplo, é suficiente que a prática
possa impedir ou atrasar uma baixa nos preços que, caso
contrário, teria ocorrido. A identificação do prejuízo para o
consumidor não é feita mediante um mero cálculo mecânico de ganhos e perdas e não é necessária a prova de existência de ganhos globais. O possível prejuízo para o consumidor pode ser demonstrado através da avaliação da probabilidade de existência de um efeito de encerramento devido
às práticas adoptadas, em conjunto com a análise de outros
factores, nomeadamente as barreiras à entrada (6). Neste
contexto, a Comissão procederá igualmente a uma análise
das possibilidades de reentrada.
72. Poderá ser mais fácil para a empresa dominante a adopção
de um comportamento predatório se seleccionar grupos-alvo de consumidores específicos para aplicar os preços
baixos, na medida em que esta iniciativa permitirá limitar
as suas perdas.
(6) Este argumento foi confirmado pelo processo T-83/91, Tetra Pak/
/Comissão (Tetra Pak II), Col. 1994, p. II-755, sustentado em recurso no
processo C-333/94 P, Tetra Pak International/Comissão, Col. 1996,
p. I-5951, em que o Tribunal de Primeira Instância declarou não ser
necessária a prova da recuperação real das perdas (ponto 150 in fine).
De maneira mais geral, como a prática predatória pode revelar-se mais
difícil do que o esperado aquando do início da prática, os custos totais
incorridos pela empresa dominante devido ao comportamento predatório podem contrabalançar os ganhos posteriores, tornando, assim, a
recuperação real impossível, ainda que possa continuar a ser racional
adoptar a decisão de prosseguir a estratégia predatória que teve início
há algum tempo. Ver, igualmente, COMP/38.233, Wanadoo Interactive,
decisão da Comissão de 16 de Julho de 2003, pontos 332-367.
73. É menos provável que a empresa dominante adopte um
comportamento predatório se o preço baixo for aplicado de
maneira geral e durante um longo período de tempo.
74. Em princípio, é pouco provável que a prática predatória dê
origem a ganhos de eficiência. No entanto, desde que as
condições descritas na secção III D estejam preenchidas, a
Comissão analisará as alegações apresentadas pelas
empresas dominantes segundo as quais esta fixação de
preços baixos permite à empresa atingir economias de
escala ou ganhos de eficiência ligados à expansão do
D. Recusa de fornecimento e compressão de margens
75. Ao definir as suas prioridades em matéria de aplicação das
regras, a Comissão parte do princípio que cada empresa,
dominante ou não, deve ter o direito a escolher os seus
parceiros comerciais e dispor livremente dos seus bens. Por
conseguinte, a Comissão considera que intervenções na área
do direito da concorrência devem ser cuidadosamente analisadas sempre que a aplicação do artigo 82.o conduza à
imposição de uma obrigação de fornecimento por parte da
empresa dominante (1). A verdade é que a existência dessa
obrigação, mesmo contra uma remuneração justa, poderá
dissuadir a empresa de investir e de inovar e, por conseguinte, poderá prejudicar os consumidores. O conhecimento de que poderá existir uma obrigação de fornecimento contra a sua vontade pode conduzir as empresas
dominantes — ou empresas que prevêem tornar-se
dominantes — a não investirem ou investirem menos na
actividade em questão. Os concorrentes poderão sentir-se
igualmente tentados a aproveitar os investimentos feitos
pela empresa dominante em vez de serem eles os investidores. A longo prazo, nenhuma destas consequências seria
benéfica para os consumidores.
76. Em geral, ocorrem problemas de concorrência quando as
empresas dominantes concorrem com o comprador a quem
se recusam a vender num mercado «a jusante». Entende-se
por «mercado a jusante» o mercado no qual o componente
cuja venda é recusada é essencial para a produção de um
produto ou para o fornecimento de um serviço. A presente
secção aborda apenas este tipo de recusas.
77. Outros tipos de recusa de fornecimento potencialmente
ilícitos, que consistem em subordinar o fornecimento à
aceitação, por parte do comprador, de limites ao seu
próprio comportamento, não serão tratados na presente
secção. Assim, a interrupção de um fornecimento efectuada
a fim de punir os clientes por se terem dirigido a
concorrentes ou a recusa de aprovisionar clientes que
não aceitam vendas subordinadas, por exemplo, serão
examinadas pela Comissão à luz dos princípios enunciados nas secções relativas aos acordos exclusivos e
às vendas subordinadas e agrupadas. Do mesmo modo,
a recusa de fornecimento que tenha em vista impedir
(1) Processos apensos C-241/91 P e C-242/91 P, Radio Telefis Eireann
(RTE) e Independent Television Publications Ltd (ITP)/Comissão
(Magill), Col. 1995, p. I-743, ponto 50; processo C-418/01,
IMS Health/NDC Health, Col. 2004, p. I-5039, ponto 35; processo
T-201/04, Microsoft/Commission, Col. 2007, p. II-3601, pontos 319,
330, 331, 332 e 336.
o comprador de exercer um comércio paralelo (2) ou de
baixar o seu preço de revenda não serão tratados na
presente secção.
78. O conceito de recusa de fornecimento abrange um leque
alargado de práticas, como a recusa de fornecimento de
produtos a clientes novos ou já existentes (3), a recusa de
licenciamento de direitos de propriedade intelectual (4),
incluindo os casos em que é indispensável o licenciamento
para fornecer informações sobre uma interface (5), ou a
recusa de concessão de acesso a uma instalação ou a uma
rede essencial (6).
79. A Comissão não considera necessário que o produto recusado já tenha sido comercializado: é suficiente que exista
uma procura por parte de potenciais compradores e que se
possa identificar um mercado potencial para o produto em
questão (7). De igual forma, não é necessário a existência de
uma recusa efectiva por parte da empresa dominante, sendo
suficiente a existência de uma «recusa implícita». A recusa
implícita pode, por exemplo, revestir a forma de atrasos
indevidos ou outras práticas que levem a uma degradação
do fornecimento do produto, bem como envolver a
imposição de condições não razoáveis em troca do
80. Por último, Em vez de recusar o fornecimento, uma
empresa dominante pode cobrar um preço pelo produto no
mercado «a montante» que, em comparação com preço
cobrado no mercado «a jusante» (8), não permite que
mesmo um concorrente com o mesmo grau de eficiência
exerça de uma forma rentável e duradoura actividades no
mercado a jusante (denominado por «compressão das
margens»). Nos casos de compressão das margens, a
Comissão utiliza o CMMLP do departamento a jusante da
empresa dominante integrada (9) como indicador comparativo para determinar os custos de um concorrente com o
81. A Comissão irá analisar prioritariamente estas práticas no
âmbito da aplicação das regras de concorrência, desde que
estejam cumulativamente reunidas as seguintes circunstâncias:
— a recusa incide num produto ou serviço objectivamente
necessário para uma concorrência efectiva num
mercado a jusante,
(2) Ver acórdão de 16 de Setembro de 2008 nos processos apensos
C-468/06 a C-478/06, Sot. Lélos kai Sia e outros/GlaxoSmithKline,
(3) Processos apensos 6/73 e 7/73, Istituto Chemioterapico Italiano e
Commercial Solvents/Comissão, Col. 1974, p. 223.
(4) Processos apensos C-241/91 P e C-242/91 P, Radio Telefis Eireann
(Magill), Col. 1995, p. 743; processo C-418/01, IMS Health/NDC
Health, Col. 2004, p. I-5039. Estes acórdãos mostram que, em circunstâncias excepcionais, a recusa de licenciamento de direitos de propriedade intelectual, pode ser abusiva.
(5) Ver processo T-201, Microsoft/Comissão, Col. 2007, p. II-3601.
(6) Ver Decisão 94/19/CE da Comissão, de 21 de Dezembro de 1993, no
processo IV/34.689, Sea Containers/Stena Sealink-Medidas Provisórias
(JO L 15 de 18.1.1994, p. 8) e Decisão 92/213/CEE da Comissão, de
26 de Fevereiro de 1992, no processo IV/33.544, British Midland/Era
Lingus (JO L 96 de 10.4.1992, p. 34).
(7) Processo C-418/01, IMS Health/NDC Health, Col. 2004, p. I-5039,
(8) Tal é o caso, nomeadamente quando uma empresa integrada que vende
um «sistema» de produtos complementares recusa a venda de um dos
produtos complementares numa base desagregada a um concorrente
que produz os outros produtos complementares.
(9) No entanto, em determinados casos, o CMMLP de um concorrente a
jusante não integrado pode ser utilizado como critério de referência,
designadamente quando não é possível atribuir os custos incorridos
pela empresa dominante a operações a jusante e a montante.
— a recusa pode ter como resultado a eliminação da
concorrência efectiva no mercado a jusante,
— a recusa é susceptível de conduzir a um prejuízo para o
82. Em alguns casos específicos, pode ser evidente que a imposição da obrigação de fornecimento não terá, manifestamente, efeitos negativos sobre os incentivos do proprietário
do produto e/ou de outros operadores para investirem e
inovarem a montante, seja de forma ex ante ou ex post. A
Comissão considera que tal ocorre, nomeadamente quando
uma regulamentação compatível com o direito comunitário
já impõe à empresa dominante a obrigação de fornecimento
e quando é evidente, a partir das considerações subjacentes
a essa regulamentação, que o necessário equilíbrio em
matéria de incentivos já foi atingido pela autoridade pública
aquando da imposição da obrigação. Tal poderá ocorrer
igualmente quando a posição da empresa dominante no
mercado a montante foi desenvolvida ao abrigo da
protecção de direitos especiais ou exclusivos ou foi financiada por recursos estatais. Nessas circunstâncias, não
existem razões para que a Comissão se desvie da sua norma
geral de aplicação podendo demonstrar o provável efeito de
encerramento anticoncorrencial sem verificar se as três
condições referidas no ponto 81 estão reunidas.
84. Os critérios descritos no ponto 81 aplicam-se tanto a casos
de interrupção de um fornecimento anterior como a
recusas de fornecimento de um bem ou serviço que a
empresa dominante não forneceu anteriormente a outros
(recusa de fornecimento de novo). No entanto, o facto de ser
posto termo a um acordo de fornecimento existente será
considerado, na maioria dos casos, mais abusivo que uma
recusa de fornecimento de novo. Assim, se, por exemplo, a
empresa dominante tiver fornecido anteriormente a
empresa requerente e esta tiver realizado investimentos
específicos destinados a essa relação comercial, por forma a
poder utilizar posteriormente o meio de produção cujo
fornecimento veio a ser posteriormente recusado, é mais
provável que a Comissão considere o produto em questão
como indispensável. De igual modo, o facto de o proprietário do meio de produção indispensável ter considerado
no passado que era do seu interesse fornecê-lo indica que
este fornecimento não acarreta o risco de se vir a traduzir
numa remuneração insuficiente do investimento inicial do
proprietário. Por conseguinte, incumbe à empresa dominante demonstrar em que medida se verificou uma alteração das circunstâncias a ponto de a manutenção do
fornecimento passar a comprometer uma remuneração
b) Eliminação da concorrência efectiva
a) Necessidade objectiva do meio de produção
83. Ao analisar se uma recusa de fornecimento deve ser objecto
de uma atenção especial, a Comissão avaliará se o fornecimento do produto recusado é, de forma objectiva, indispensável para que os operadores possam concorrer de maneira
efectiva no mercado. Isto não significa que, sem o produto
recusado, nenhum concorrente pode sobreviver no
mercado a jusante (1). Pelo contrário, um meio de produção
é indispensável quando no mercado a jusante não existe
nenhum substituto real ou potencial que possa ser utilizado
pelos concorrentes para contrabalançar — pelo menos a
longo prazo — as consequências negativas da recusa (2).
Assim, a Comissão irá, regra geral, proceder a uma
avaliação para verificar se os concorrentes poderiam reproduzir com eficácia o meio de produção produzido pela
empresa dominante num futuro previsível (3). A noção de
reprodução significa a criação de uma fonte alternativa de
fornecimento eficiente, que permita os concorrentes exercerem uma pressão competitiva sobre a empresa dominante
no mercado a jusante (4).
(1) Processo T-201/04, Microsoft/Comissão, Col. 2007, p. I-3601,
pontos 428 e 560-563.
(2) Processos apensos C-241/91 P e C-242/91, Radio Telefis Eireann (RTE)
e Independent Television Publications (ITP)/Comissão (Magill),
Col. 1995, p. 743, pontos 52 e 53; processo 7/97, Oscar Bronner/
/Mediaprint Zeitungs- und Zeitschriftenverlag, Mediaprint Zeitungsvertriebsgesellschaft e Mediaprint Anzeigengesellschaft, Col. 1998,
p. I-7791, pontos 44 e 45; processo T-201/04, Microsoft/Comissão,
Col. 2007, p. II-3601, ponto 421.
(3) Em geral, é provável que seja impossível reproduzir um meio de
produção quando este envolve um monopólio natural devido às economias de escala ou de gama, quando existem efeitos de rede significativos
ou quando dizem respeito à denominada «fonte de informação única».
No entanto, em todos os casos deve-se ter em conta a natureza dinâmica do sector e, sobretudo, se o poder de mercado pode ou não ser
rapidamente dissipado.
(4) Processo 7/97, Oscar Bronner/Mediaprint Zeitungs- und Zeitschriftenverlag, Mediaprint Zeitungsvertriebsgesellschaft e Mediaprint Anzeigengesellschaft, Col. 1998, p. I-7791, ponto 46; processo C-418/01,
IMS Health/NDC Health, Col. 2004, p. I-5039, ponto 29.
85. Desde que os requisitos enunciados nos pontos 83 e 84
estejam preenchidos, a Comissão considera que, regra geral,
a recusa de fornecimento pela empresa dominante pode
eliminar, imediatamente ou a prazo, a concorrência efectiva
no mercado a jusante. A probabilidade de a concorrência
efectiva ser eliminada é, em geral, tanto maior quanto maior
for a quota de mercado da empresa dominante no mercado
a jusante; quanto menor for a capacidade de pressão da
empresa dominante em relação aos concorrentes no
mercado a jusante; quanto maior for a possibilidade de
substituição do componente da empresa dominante e a dos
seus concorrentes no mercado a jusante; quanto maior for
a proporção de concorrentes afectados no mercado a
jusante e quanto maior for a probabilidade de a procura,
que poderia ser satisfeita pelos concorrentes excluídos,
reverter em proveito da empresa dominante.
c) Prejuízo para o consumidor
86. Ao analisar o impacto provável de uma recusa de fornecimento no bem-estar dos consumidores, a Comissão irá
examinar se as consequências negativas para os consumidores resultantes da recusa de fornecimento no mercado
relevante compensam a prazo as consequências negativas
prováveis da imposição de obrigação de fornecimento. Se
for esse o caso, a Comissão irá provavelmente prosseguir o
87. A Comissão considera que o prejuízo ao consumidor pode,
por exemplo, surgir quando os concorrentes excluídos pela
empresa dominante são, em resultado da recusa, impedidos
de introduzir bens ou serviços inovadores e/ou quando é
provável que a inovação subsequente venha a ser
travada (5). Esta situação poderá ocorrer se a empresa que
requer o fornecimento não tenciona limitar-se apenas à
reprodução de bens ou serviços já oferecidos pela empresa
(5) Processo T-201/04, Microsoft/Comissão, Col. 2007, p. II-3601,
pontos 643, 647, 648, 649, 652, 653 e 656.
dominante no mercado a jusante, mas tenciona produzir
bens e serviços novos ou melhorados para os quais existe,
potencialmente, uma procura por parte do consumidor ou
que é provável que contribuam para o desenvolvimento
técnico (1).
88. A Comissão considera igualmente que a recusa de fornecimento pode resultar em prejuízo para o consumidor
quando o preço do meio de produção no mercado a
montante é regulado, ao contrário do preço no mercado a
jusante, que não é regulado, e a empresa dominante, ao
excluir concorrentes no mercado a jusante através da recusa
de fornecimento, é capaz de obter mais ganhos no mercado
a jusante não regulado, do que se essa recusa não ocorresse.
investimento que é essencial para desenvolver a actividade
de fornecimento dos meios de produção, gerando, assim,
incentivos para continuar a investir no futuro, levando
também em consideração o risco de projectos falhados. A
Comissão analisará igualmente as alegações apresentadas
pela empresa dominante segundo as quais a sua própria
capacidade de inovação será comprometida pela obrigação
de fornecimento ou pelas alterações estruturais nas condições de mercado que poderão surgir como consequência
desta obrigação, incluindo o prosseguimento da inovação
no futuro por parte dos concorrentes.
89. A Comissão analisará as alegações apresentadas pela
empresa dominante segundo as quais a recusa de fornecimento é necessária para obter um retorno adequado do
90. No entanto, ao analisar essas alegações, a Comissão irá
garantir que as condições descritas na secção III D estão a
ser respeitadas. Cabe, sobretudo, à empresa dominante
demonstrar o impacto negativo que a obrigação de fornecimento poderá ter sobre os seus níveis de inovação (2). Se
uma empresa dominante tiver fornecido anteriormente o
meio de produção em questão, isso pode ser relevante para
a avaliação de argumentos que tendem a justificar a recusa
de fornecimento por motivos de eficiência.
(1) Processo C-418/01, IMS Health/NDC Health, Col. 2004, p. I-5039,
ponto 49; processo T-201/04, Microsoft/Comissão, Col. 2007,
p. I-3601, ponto 658.
(2) Processo T-201/04, Microsoft/Comissão, Col. 2007, p. I-3601,
ponto 659.
Guidance paper PO
4. Oartigo82. o aplica-seaempresasquedetêmumaposição dominante em um ou mais mercados relevantes. Esta posição pode ser detida por uma só empresa (posição dominante individual) ou por duas ou mais empresas (posição dominante colectiva). O presente documento abordaapenasabusoscometidosporempresasquedetêm umaposiçãodominanteindividual. II. OBJECTIVODODOCUMENTO (2009/C45/02) (TextorelevanteparaefeitosdoEEE) I. INTRODUÇÃO II (Comunicações) PT Published on issuu