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Timestamp: 2020-02-24 20:38:26+00:00
Document Index: 75118607

Matched Legal Cases: ['artigo 833', 'artigo 529', 'artigo 833', 'artigo 649', 'artigo 7', 'artigo 833', 'artigo 649', 'artigo 833', 'artigo 100', 'artigo 649', 'artigo 649', 'artigo 833', 'artigo 529', 'ARTIGO 833', 'ARTIGO 529', 'artigo 833', 'artigo 529', 'artigo 833', 'artigo 833', 'artigo 529', 'artigo 529']

Tribunal Superior do Trabalho TST - RECURSO ORDINARIO TRABALHISTA : RO 3367320185100000
Tribunal Superior do Trabalho TST - RECURSO ORDINARIO TRABALHISTA : RO 3367320185100000 - Inteiro Teor
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GMEMP/rnb
RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. ATO COATOR PRATICADO NA VIGÊNCIA DO CPC/2015. PENHORA SOBRE PARTE DOS SALÁRIOS. LEGALIDADE. ATO AMPARADO NOS ARTIGOS 529, § 3º, E 833, § 2º, DO CPC DE 2015. A jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de considerar legal a ordem de penhora parcial sobre salários, vencimentos e proventos de aposentadoria quando determinada na vigência do CPC de 2015. O § 2º do artigo 833 do CPC/2015 ressalva da regra de impenhorabilidade de tais parcelas a penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem - da qual faz parte o crédito trabalhista, por sua natureza alimentar -, desde que observado o limite de 50% estabelecido no § 3º do artigo 529, também do CPC/2015. Em tais casos, não tem aplicação o entendimento contido na Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-2. Na hipótese dos autos, o ato impugnado determinou a penhora sobre 30% dos salários brutos recebidos mensalmente pelo Impetrante, até o limite do crédito exequendo. Considerando que o Executado paga pensão alimentícia no montante aproximado de 30% de seus rendimentos, deve ser parcialmente concedida a segurança para limitar a penhora a 30% dos salários, deduzidos os valores dos descontos legais e da pensão alimentícia descontada em folha de pagamento, em observância aos princípios da proporcionalidade, razoabilidade e dignidade da pessoa humana.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Ordinário nº TST-RO-336-73.2018.5.10.0000, em que é Recorrente LUIZ EDUARDO LIRA RIBEIRO PIMENTA, Recorrida RENATA DOS SANTOS MIRANDA e Autoridade Coatora JUIZ TITULAR DA 4ª VARA DO TRABALHO DE BRASÍLIA.
O Eg. TRT da 10ª Região, pelo acórdão de fls. 56/61, 88/91 e 103/105 do sequencial nº 3, denegou a segurança pleiteada.
O Impetrante interpõe recurso ordinário (fls. 110/121 do sequencial nº 3).
Admitido o apelo pelo despacho de fl. 125 do sequencial nº 3.
Sem contrarrazões, conforme certificado à fl. 127 do sequencial nº 3.
A D. Procuradoria Geral do Trabalho manifestou-se pelo não provimento do apelo (sequencial nº 6).
Presentes os requisitos extrínsecos de admissibilidade recursal: tempestivo o apelo (fls. 109 e 128 do sequencial nº 3), regular a representação processual (fl. 15 do sequencial nº 3) e dispensado o recolhimento de custas processuais (fl. 60 do sequencial nº 3).
Cuida-se de mandado de segurança impetrado por LUIZ EDUARDO LIRA RIBEIRO PIMENTA, com pedido de liminar, contra ato do Exmo. Sr. Juiz da 4ª Vara do Trabalho de Brasília-DF, o qual, nos autos da Reclamação Trabalhista nº 0001174-77.2013.5.10.0004, determinou o bloqueio de 30% (trinta por cento) dos salários brutos recebidos mensalmente pelo ora Impetrante, a ser cumprido diretamente pela fonte pagadora (fl. 16 do sequencial nº 3).
O Impetrante alega ofensa a seu direito líquido e certo, ao fundamento de que os salários são impenhoráveis por disposição legal. Invoca o disposto no artigo 833, inciso IV, do NCPC (artigo 649, inciso IV, do CPC de 1973), no artigo 7º, inciso X, da Constituição Federal e o teor da Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-2 do TST. Sucessivamente, sustenta que o bloqueio de 30% incidente sobre o salário bruto inviabiliza o seu sustento e de sua família, para pleitear a limitação a 20% do salário líquido.
O Tribunal de origem denegou a segurança pleiteada, por entender pela legalidade de penhora parcial sobre salários. Adotou a seguinte fundamentação:
"EXECUÇÃO. PENHORA DE SALÁRIO.
O impetrante informou o bloqueio de 30% de seu salário bruto, por ordem do Juiz Denilson Bandeira Coelho, titular da 4ª Vara do Trabalho de Brasília/DF, conforme demonstra pelos documentos de fls. 12 e 19/22.
A Exma. Desembargadora Presidente Maria Regina Machado Guimarães exarou decisão de fls. 30/32, nos seguintes termos:
Saliento inicialmente que comungava do entendimento da Exma. Desembargadora Presidente, porquanto considerava possível a aplicação extensiva da OJ 153/SDI1/TST ao artigo 833/CPC, nos mesmos moldes da interpretação dada ao artigo 649 do antigo CPC.
Porém, após diversas discussões acerca do tema perante a Segunda Seção Especializada, migrei meu posicionamento para concluir pela inaplicabilidade da OJ 153/SDI1/TST, pois o § 2º do artigo 833 do novo CPC, excepciona a impenhorabilidade absoluta dos salários e proventos diante da inequívoca natureza alimentar dos créditos trabalhistas, nos moldes do artigo 100, § 1º, da Constituição Federal.
Para corroborar as razões expostas, colaciono as eméritas razões da Procuradora do Trabalho Daniela Costa Marques, nos seguintes termos:
'O ato de penhora impugnado foi praticado já na vigência do Código de Processo Civil de 2015, devendo a controvérsia ser apreciada à luz da disciplina conferida pelo novel código (CPC/2015, art. 14).
Na vigência do Código de Processo Civil anterior, o Tribunal Superior do Trabalho, interpretando o comando do artigo 649, inciso IV e § 2º, do CPC de 1973, entendia pela ilegalidade a penhora de créditos de natureza salarial, independentemente do percentual ou montante.
Com o atual código, entretanto, entende-se pela necessidade de uma nova exegese.
A norma processual civil em vigor, conquanto tenha mantido a regra da impenhorabilidade de salários e proventos, passou a excepcioná-la expressamente nas hipóteses d e 'penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem':
'Art. 833. São impenhoráveis:
IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2o; (...)
§ 2o O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8o, e no art. 529, § 3o.' (Grifamos)
Ao acrescentar a expressão 'independentemente de sua origem', cuidou o legislador infraconstitucional de reforçar a amplitude do conceito de prestação alimentícia.
Não fosse essa sua intenção, despicienda seria qualquer alteração do texto legal, bastando reproduzi-lo, como o fez em relação a diversos outros dispositivos do Código de 1973.
Entende-se, portanto, que o crédito trabalhista detém natureza alimentícia e é destinado à subsistência do obreiro, enquadrando-se no conceito de prestação alimentícia.
Na verdade, mesmo à luz do regramento anterior (CPC/1973, art. 649, IV), figurava-se como plausível esse entendimento.
Afinal, os créditos trabalhistas, alinhados numa sentença já alcançada pela coisa julgada, equivalem a valores que manteriam a subsistência do empregado e sua família. Tutela-se, pois o mesmo direito numa relação adversária: o direito à preservação do salário e o direito ao pagamento do salário.
Nessa perspectiva, ante a notória natureza alimentar e superprivilegiada do crédito trabalhista (CTN, art. 186; CLT, art. 449), evidente enquadrar-se tal crédito na definição de prestação alimentícia de qualquer origem, não havendo mais espaço para qualquer interpretação restritiva.
Frise-se: por imperativo legal expresso, a exceção à impenhorabilidade não depende da origem do direito de alimentos, pouco importando, para tal finalidade, que eles sejam derivados da relação familiar, casamento ou união estável, verbas trabalhistas lato sensu e/ou oriundos de ato ilícito.
Dessa forma, r e p u t a - s e legal a constrição realizada.' (fls. 50/51).
Por tais razões, casso a liminar concedida, conheço da ação mandamental e denego a ordem pretendida." (fls. 57/60 do sequencial nº 3).
"Quanto ao percentual a ser observado, realmente o acórdão é omisso ao não estabelecer o percentual.
Considerado o limite estabelecido no art. 529, § 3º, do CPC/2015, considerado o valor do salário bruto do reclamante em maio/2018 (R$10.817,64, fl. 19), considerados a quantidade e os valores dos descontos alusivos a adiantamentos, tenho por razoável e compatível a fixação da penhora sobre 30% do salário bruto mensal." (fl. 90 do sequencial nº 3).
Em suas razões de recurso ordinário, o Impetrante insiste na existência de violação de direito líquido e certo do Impetrante a ensejar a concessão integral da segurança. Diz ser absoluta a impenhorabilidade dos valores recebidos a título de salários e proventos de aposentadoria, renovando os argumentos expendidos na inicial, inclusive no tocante ao pedido sucessivo de redução do valor a ser bloqueado.
O comando contido no artigo 649 do CPC/73, por seu inciso IV, era expresso ao considerar absolutamente impenhoráveis os salários, vencimentos, soldos, remunerações, proventos de aposentadoria, pensões, ou quantias percebidas e destinadas ao sustento do devedor e de sua família.
Sob a vigência do CPC anterior, este Colegiado firmou entendimento no sentido de que a exceção prevista no § 2º do referido dispositivo de lei - pagamento de prestação alimentícia - não englobava o crédito trabalhista.
Todavia, com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, a controvérsia assumiu novos contornos, em razão das alterações feitas pelo legislador sobre a matéria.
O artigo 833, inciso IV, do novo CPC disciplina que são impenhoráveis - não mais absolutamente impenhoráveis como constava no Código anterior - os salários e proventos de aposentadoria.
Eis o teor da norma:
"Art. 833. São impenhoráveis:
IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º;"
Já o § 2º do CPC de 2015 contém a seguinte ressalva, verbis:
"§ 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º, e no art. 529, § 3º." (grifei).
Em razão do contido no citado dispositivo, a jurisprudência desta Corte inclinou-se no sentido de considerar que a ressalva à impenhorabilidade de salários, vencimentos e proventos de aposentadoria inclui também o pagamento de débito trabalhista, devido à sua natureza alimentar e a expressa previsão legislativa de que a prestação alimentícia, independentemente de sua origem, afasta a impenhorabilidade de tais parcelas, desde que observado o limite de 50% previsto no § 3º do artigo 529 do CPC de 2015.
A matéria não mais comporta discussão no âmbito deste Colegiado, restando pacificada com a alteração da Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-2 pela Resolução nº 220/2017, já revisada e atualizada em decorrência do CPC de 2015, limitando a sua incidência apenas para o caso de ordem de penhora proferida ainda na vigência do CPC de 1973, verbis:
"MANDADO DE SEGURANÇA. EXECUÇÃO. ORDEM DE PENHORA SOBRE VALORES EXISTENTES EM CONTA SALÁRIO. ART. 649, IV, DO CPC DE 1973. ILEGALIDADE (atualizada em decorrência do CPC de 2015).
Como no caso em exame o ato coator foi proferido na vigência do CPC de 2015, em 13/04/2018 (fl. 16 do sequencial nº 3), é legal a ordem de penhora sobre salários, vencimentos e proventos de aposentadoria, desde que observado o limite percentual a ser descontado mensalmente previsto na lei.
Na hipótese dos autos, foi determinada a penhora de 30% dos valores brutos recebidos mensalmente pelo Impetrante a título de salários, até o limite do crédito exequendo.
Logo, o Impetrante não tem o direito líquido e certo de não serem penhorados os seus salários, porque observado pela autoridade apontada como coatora o limite de 50% estabelecido no CPC atual.
Em idêntico sentido, cito os seguintes precedentes desta SBDI-2/TST:
"RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. BLOQUEIO DE 20% (VINTE POR CENTO) SOBRE PROVENTOS DE APOSENTADORIA. DECADÊNCIA. CONVOLAÇÃO EM PENHORA DE VALORES BLOQUEADOS SOBRE PROVENTOS DE APOSENTADORIA. AUSÊNCIA DE OFENSA A DIREITO LÍQUIDO E CERTO DO IMPETRANTE. 1 - Hipótese em que o mandado de segurança foi impetrado para impugnar o ato que convolou em penhora os depósitos oriundos do órgão previdenciário e determinou a notificação do impetrante, na qualidade de sócio executado, para complementar o valor total da execução, sob pena de liberação dos valores já constritos. 2 - Constatação de que, desde maio de 2017, pelo menos, era realizado bloqueio pelo INSS de 20% (vinte por cento) sobre os proventos de aposentadoria do impetrante. Como o mandado de segurança foi impetrado em 28/6/2018, já havia sido ultrapassado o prazo decadencial de 120 (cento e vinte) dias, nos termos do art. 23 da Lei 12.016/2009. 3 - Quanto à convolação em penhora dos depósitos oriundos do órgão previdenciário, não se observa ofensa a direito líquido e certo do impetrante, pois foram efetuados bloqueios no percentual de 20% (vinte por cento) sobre os proventos de aposentadoria, consoante determina o art. 833, § 2º, do CPC de 2015, ao impor exceção à regra geral da impenhorabilidade dos proventos de aposentadoria. Assim sendo, não há nenhuma restrição acerca da convolação em penhora dos depósitos realizados em estrito respeito à lei vigente. Recurso ordinário conhecido e não provido." (TST-RO-784-84.2018.5.05.0000, Rel. Ministra Delaíde Miranda Arantes, DEJT 01/03/2019);
"RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. ATO IMPUGNADO PRATICADO NA VIGÊNCIA DO CPC/15. DETERMINAÇÃO DE PENHORA DE 20% DO SALÁRIO DA IMPETRANTE. LEGALIDADE. INAPLICABILIDADE DA ORIENTAÇÃO JURISPRUDENCIAL Nº 153 DA SBDI-2. ABUSIVIDADE NÃO DEMONSTRADA. PREVISÃO LEGAL. ARTIGOS 529, § 3º, E 833, § 2º, DO CPC/15. Trata-se de recurso ordinário em mandado de segurança interposto pela executada contra o v. acórdão proferido pelo Eg. TRT da 5ª Região que denegou a segurança, mantendo o bloqueio de 20% (vinte por cento) dos seus proventos de aposentadoria determinado pelo ato apontado como coator. A penhora foi operada já na vigência do CPC de 2015, o que impõe a observância do disposto nos seus arts. 833, IV e § 2º, e 529, § 3º, do referido Código. Dessa forma, conforme a nova disciplina processual estabelecida, a impenhorabilidade dos vencimentos não se aplica nos casos em que a constrição seja para fins de pagamento de prestação alimentícia" independente de sua origem ", como é o caso das verbas de natureza salarial devidas ao empregado. Ressalta-se que o Tribunal Pleno dessa Corte Superior alterou a redação da Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-2/TST (Res. 220/2017, DEJT divulgado em 21, 22 e 25.09.2017) para deixar claro que a diretriz ali contida aplica-se apenas para penhoras sobre salários realizadas quando ainda em vigor o revogado CPC de 1973, o que não se verifica na espécie. No que tange ao valor do bloqueio efetuado, constata-se que o percentual determinado pelo TRT, 20%, encontra-se adstrito ao limite autorizado pelos dispositivos legais supratranscritos. Nesse aspecto, não constato nenhuma ilegalidade ou abusividade no ato apontado como coator pela executada sendo inaplicável ao caso a modulação de efeitos estabelecida na OJ 153 desta eg. SBDI-2. Não se há de falar, portanto, em afronta a direito líquido e certo, tampouco em violação de dispositivo de lei na determinação da penhora. Precedentes específicos desta eg. SBDI-2. Recurso ordinário conhecido e não provido." (TST-RO-835-32.2017.5.05.0000, Rel. Ministra Maria Helena Mallmann, DEJT 01/03/2019);
"RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PENHORA INCIDENTE SOBRE PERCENTUAL DOS SALÁRIOS PERCEBIDOS PELOS IMPETRANTES. DETERMINAÇÃO EXARADA NA VIGÊNCIA DO CPC DE 2015. ARTIGO 833, IV E § 2º, DO CPC DE 2015. OJ 153 DA SBDI-2 DO TST. LEGALIDADE. MAJORAÇÃO DO PERCENTUAL DE 10% PARA 20%. PERCENTUAL COMPATÍVEL COM OS DITAMES DO § 3º DO ARTIGO 529 do NCPC. 1. A Corte Regional concedeu parcialmente a ordem postulada no mandado de segurança, impetrado contra ato judicial, exarado sob a égide do CPC de 2015, para limitar a ordem de bloqueio de valores ao percentual mensal de 10% dos salários dos executados. 2. Com o advento do CPC de 2015, o debate sobre a impenhorabilidade dos salários, subsídios e proventos de aposentadoria ganhou novos contornos, pois, nos termos do § 2º do artigo 833 do CPC de 2015, tal impenhorabilidade não se aplica"à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais". Em conformidade com a inovação legislativa, a par de viável a apreensão judicial mensal dos valores remuneratórios do executado que excederem 50 (cinquenta) salários mínimos mensais, tratando-se de execução de prestação alimentícia, qualquer que seja sua origem, também será cabível a penhora, limitado, porém, o desconto em folha de pagamento a 50% (cinquenta por cento) dos ganhos líquidos do devedor, por força da regra inserta no § 3º do artigo 529 do NCPC, compatibilizando-se os interesses legítimos de efetividade da jurisdição no interesse do credor e de não aviltamento ou da menor gravosidade ao devedor. A norma inscrita no referido § 2º do artigo 833 do CPC de 2015, ao excepcionar da regra da impenhorabilidade as prestações alimentícias, qualquer que seja sua origem, autoriza a penhora de percentual de salários e proventos de aposentadoria com o escopo de satisfazer créditos trabalhistas, dotados de evidente natureza alimentar. De se notar que foi essa a compreensão do Tribunal Pleno desta Corte ao alterar, em setembro de 2017, a redação da OJ 153 da SBDI-2, visando a adequar a diretriz ao CPC de 2015, mas sem interferir nos fatos ainda regulados pela legislação revogada. À luz dessas considerações, é de se concluir que a impenhorabilidade prevista no inciso IV do artigo 833 do CPC de 2015 não pode ser oposta na execução para satisfação do crédito trabalhista típico, devendo ser observado apenas que o desconto em folha de pagamento estará limitado a 50% (cinquenta por cento) dos ganhos líquidos do devedor, na forma do § 3º do artigo 529 do mesmo diploma legal. 3. No caso, a constrição sobre os salários dos Impetrantes deu-se em percentual razoável (10%), de modo a assegurar o bom resultado da atividade executória, sem comprometer a subsistência digna dos devedores. Recurso ordinário conhecido e não provido." (TST-RO-515-45.2018.5.05.0000, Rel. Ministro Douglas Alencar Rodrigues, DEJT 22/02/2019);
"RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PENHORA DE 30% DOS PROVENTOS DA APOSENTADORIA. ATO IMPUGNADO PRATICADO NA VIGÊNCIA DO CPC/15. ORIENTAÇÃO JURISPRUDENCIAL Nº 153 DA SBDI-2 INAPLICÁVEL. ABUSIVIDADE NÃO DEMONSTRADA. PREVISÃO LEGAL. ARTIGOS 529, § 3º, E 833, § 2º, DO CPC/15. Conquanto não houvesse previsão legal no Código de Processo Civil de 1973, o novo Código de Processo Civil, em seu art. 833, ao prever a impenhorabilidade dos vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações, proventos de aposentadoria, pensões, pecúlios e montepios, expressamente estabelece ressalva no § 2º relativamente"à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem", no que se incluem, portanto, os créditos de natureza trabalhista. O art. 529, § 3º, também do CPC/15, por seu turno, limita o percentual de penhora a 50% do ganho líquido do executado, revelando, dessa forma, a preocupação do legislador em também não desprover o devedor de quantia minimamente necessária a sua subsistência. Diante da inovação legislativa trazida com o CPC/15, e com o fim de evitar aparente antinomia, o Tribunal Pleno, por meio da Resolução 220, de 18/9/2017, alterou a redação da Orientação Jurisprudencial nº 153 da SBDI-2, de modo a adequá-la, limitando sua aplicação aos atos praticados na vigência do CPC/73, o que não é o caso dos autos, haja vista que o ato inquinado de coator ocorreu em 30/08/2017 (pág. 14), na vigência, portanto,do CPC/15. No caso concreto, a constrição ficou limitada a 30% do valor da aposentadoria, muito aquém do limite máximo previsto no já referido dispositivo. Assim, não há ilegalidade ou abusividade no ato impugnado a justificar a ação mandamental. Recurso ordinário conhecido e desprovido." (TST-RO-80311-48.2017.5.22.0000, Rel. Ministro Alexandre de Souza Agra Belmonte, DEJT 15/02/2019).
Relativamente ao percentual dos salários a serem atingidos pela penhora, considerando que há desconto de pensão alimentícia no valor aproximado a 30% dos ganhos do Impetrante, aliado ao princípio da dignidade da pessoa humana, considero proporcional e razoável a limitação do ato impugnado a 30% dos salários, deduzidos os descontos legais e o valor da pensão alimentícia descontada em folha de pagamento, o que resulta, inclusive, na observância da limitação imposta no § 3º do artigo 529 do CPC atual.
Assim, deve ser parcialmente reformado o acórdão recorrido, uma vez que o ato impugnado determinou a penhora de 30% do salário bruto, a fim de resguardar a observância à limitação fixada em lei.
Pelo exposto, dou parcial provimento ao recurso ordinário para conceder, em parte, a segurança a fim de limitar a penhora a 30% do salário do Impetrante, deduzidos os valores dos descontos legais e da pensão alimentícia descontada em folha de pagamento. Oficie-se a autoridade coatora, com urgência, cientificando-a do inteiro teor desta decisão.
ACORDAM os Ministros da Subseção II Especializada em Dissídios Individuais do Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade, conhecer do recurso ordinário e, no mérito, dar-lhe parcial provimento para conceder, em parte, a segurança a fim de limitar a penhora a 30% dos salários do Impetrante, deduzidos os valores dos descontos legais e da pensão alimentícia descontada em folha de pagamento. Oficie-se a autoridade coatora, com urgência, cientificando-a do inteiro teor desta decisão.
PROCESSO Nº TST-RO-336-73.2018.5.10.0000
Disponível em: https://tst.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/747904372/recurso-ordinario-trabalhista-ro-3367320185100000/inteiro-teor-747904391