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Timestamp: 2018-07-18 05:43:41+00:00
Document Index: 113710013

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Relatório simulação de impressão by thiago almada - Issuu
RELATÓRIO DA AÇÃO DE FISCALIZAÇÃO DOS ÓRGÃOS PÚBLICOS DO ESTADO DE SANTA CATARINA Parâmetros mínimos para o exercício profissional da Psicologia no SUS e SUAS
RELATÓRIO DA AÇÃO DE FISCALIZAÇÃO DOS ÓRGÃOS PÚBLICOS DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Parâmetros mínimos para o exercício profissional da Psicologia no SUS e SUAS
Plenário responsável pela publicação Alexandre Donisete Aleixo, CRP-12/13582 Elisa Rita Ferreira de Andrade, CRP-12/08076 Ematuir Teles de Sousa, CRP-12/12502 Fabricio Antônio Raupp, CRP-12/08012 Jaira Terezinha da Silva Rodrigues, CRP-12/01706 Joice Danusa Justo, CRP-12/07017 Joseane de Oliveira Luz, CRP-12/10914 Juliana Lima Medeiros, CRP-12/08651 Junior Cesar Goulart, CRP-12/11136 Marcos Henrique Antunes, CRP-12/11069 Marivete Gesser, CRP-12/05091 Nasser Haidar Barbosa, CRP-12/06609 Pâmela Silva dos Santos, CRP-12/09493 Paulo Roberto Wovst Leite, CRP-12/13601 Rodrigo Gomes Ferreira, CRP-12/14178 Simone Vieira de Souza, CRP-12/01489 Tatiane Cristine da Silva, CRP-12/08607
Equipe responsável pelo desenvolvimento da Ação de Fiscalização Comissões de Orientação e Fiscalização implicadas na Ação Gestão 2013-2016 Ana Maria Pereira Lopes, CRP-12/01423 Anderson Luís Schuck, CRP-12/10082 Juliana Lima Medeiros, CRP-12/08651
Gestão 2016-2019 Anderson Luís Schuck, CRP-12/10082 Helena Berton Eidt, CRP-12/04689
Juliana Lima Medeiros, CRP-12/08651 Junior Cesar Goulart, CRP-12/11136
Marcos Henrique Antunes, CRP-12/11069 Thais Wachholz, CRP-12/04705
Equipe Técnica implicada na Ação Iramaia Ranai Gallerani, CRP-12/14108 Letícia Just Guerra, CRP-12/06403
Lucila de Castro Neves, CRP-12/04801
Michele Gabardo Machado, CRP-08/19469 (transferida do CRP-12) Priscila de Abreu, CRP-12/14033
Conselho Editoral Marcos Henrique Antunes, CRP-12/11069 Lucila de Castro Neves, CRP-12/04801 Projeto Gráfico e Diagramação Apex Comunicação Estratégica
Objetivos da Ação de Fiscalização dos Órgãos Públicos
Estratégia de Orientação e Fiscalização
Qualificação e planejamento
Parceria com a FECAM
Contato com as Prefeituras Municipais
Sorteio dos municípios
Execução das fiscalizações propriamente ditas
Notificações e acompanhamentos
Estágios em Psicologia
Condições mínimas para o trabalho da/o psicóloga/o
Preservação do sigilo profissional
Presença de estímulos incompatíveis com o trabalho realizado
Dimensões e mobiliário
Recursos específicos: instrumentos psicológicos e materiais lúdicos
Relação com o território: segurança e transporte
Registro documental do trabalho
Inserção da Psicologia nas políticas públicas
Disponibilidade de profissionais
Equipe multiprofissional: compreensão do papel específico da Psicologia em cada equipamento e da atuação em conjunto.
Atuação na rede de serviços
Relação com o Sistema de Justiça
Apontamentos sobre os eventos
Às/aos psicólogas/os
Às/aos gestoras/es municipais
Apresentação A Psicologia foi regulamentada como profissão por meio da Lei n° 4.119 de
19621, sendo que a criação do Conselho Federal de Psicologia e dos primeiros
Conselhos Regionais de Psicologia ocorreu através da Lei nº 5.766 de 19712. Essas entidades são autarquias delegadas pelo Estado para fazer a regulação
da profissão frente à sociedade, tendo como funções precípuas a orientação, a disciplina e a fiscalização do exercício profissional, visando zelar pela fiel observância dos princípios éticos e técnicos da categoria.
O processo de institucionalização da profissão emergiu face às
transformações da sociedade brasileira, como resultado de resistências e
enfrentamentos ao processo ditatorial transcorrido entre os anos 1960 a 1980.
As lutas estabelecidas nessa época culminaram na elaboração e aprovação da
Constituição Federal que, intitulada de cidadã, estabeleceu responsabilidades ao Estado em diferentes áreas sociais, como o campo da saúde que é
de particular interesse à Psicologia. Nesse sentido, tais lutas ocorreram direcionadas à constituição do direito à saúde integral (DA ROS, 2000), de modo que os cuidados à saúde passaram a ser considerados para além dos fornecidos pelo modelo médico centrado na doença.
De igual maneira, a Carta Magna indicou que o País, por meio de políticas
sociais e econômicas, deveria estabelecer modos de atenção a vulnerabilidades
e políticas de equilíbrio no âmbito de direitos. Assim, tal Carta tornou possível o desenvolvimento, posteriormente, de políticas públicas de assistência social, cujo modelo deveria romper com as práticas assistencialistas dos tempos da ditadura.
Frente a essa trajetória, julga-se pertinente retomar os principais marcos
que são potencializadores da Psicologia, tanto no contexto da saúde, quanto
da assistência social. Primeiramente, cabe retomar que, a partir da década ¹ Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/L4119.htm ² Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5766.htm
de 1990, após a Constituição de 1988 (BRASIL, 1988)3, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi instalado, tendo como base norteadora os princípios
de integralidade, universalidade e equidade. Porém, somente em 2006 o
País teve destacado um modelo centrado na atenção primária em saúde.
A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB)4 foi estabelecida como “um
conjunto de ações, de caráter individual ou coletivo, situadas no primeiro
nível de atenção básica dos sistemas de saúde, voltadas para a promoção da saúde, a prevenção de agravos, o tratamento e a reabilitação”. Já em 2011, foi definitivamente instalado o Núcleo de Atenção à Saúde da Família (NASF)5 cuja
função passou a ser a de “[...] apoiar a inserção da ESF na rede de serviços e ampliar a abrangência, a resolutividade [...]”. No espaço da atenção básica foi
colocado como diretriz a consideração do “[...] sujeito em sua singularidade, na complexidade, na integralidade e na inserção sócio-cultural e busca a promoção da saúde, a prevenção e tratamento de doenças e a redução de danos ou de sofrimentos que possam comprometer suas possibilidades de viver de modo saudável”.
Com o SUS, a Psicologia passou a ser pensada como campo de atuação em
áreas destinadas a políticas públicas de saúde que, até então, não se constituíam tradição para essa profissão. Chama a atenção que tais políticas, uma vez articu-
ladas com o princípio da integralidade do SUS, colocam definitivamente, no plano da Lei, a subjetividade como fenômeno a ser considerado no contexto da saúde. Foi nesse mesmo processo que a Lei n° 10.216 de 20016 passou a es-
tabelecer direitos da pessoa portadora de transtorno mental, tais como: ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas ne-
cessidades; ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos
possíveis e ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde ³ Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm 4
Atualmente regulamentada pela Portaria GM/MS nº 2.488, de 21/10/2011. Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_atencao_basica.pdf 5
Instituídos pela Portaria GM/MS nº 154 de 24/01/2008 os Núcleos de Atenção à Saúde da Família são atualmente regulamentados pela Portaria GM/
MS nº 2.488, de 21/10/2011.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm
mental. Essa Lei, posteriormente, levou à criação de outras determinações do Ministério da Saúde que, ao longo dos anos, foi instalando o que se tem esta-
belecido como Rede de Atenção Psicossocial Especializada (RAPS), por meio da Portaria (MS) 3.088 de 20117, a qual foi criada visando ao atendimento das pessoas com transtornos mentais, contando com diferentes componentes e dispositivos, dentre eles os Centros de Atenção Psicossocial.
Observe-se, então, que as políticas para a atenção primária e para a atenção
psicossocial destacadas distam de uma ideia de saúde apenas centrada no corpo ou órgão doente das pessoas atendidas. Nesses espaços, os fenômenos
da ordem da subjetividade passam a ser considerados, no plano da Lei, como fenômenos a serem alvo de trabalho por meio das políticas de saúde. A partir
dessas novas práticas, a Psicologia passa a ser profissão estratégica para a consecução das políticas.
Já no tocante ao enfrentamento das desigualdades sociais, a Política
Nacional de Assistência Social conseguiu ser delineada apenas no final da década de 2000, por meio do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Tal
política advém da Constituição Federal de 1988, tendo sido definitivamente regulamentada por meio da Lei n° 12.435, de 20118, a qual indica serem
objetivos da assistência social: a proteção social, que visa à garantia da vida, à redução de danos e à prevenção da incidência de riscos, junto à família, à
maternidade, à infância, à adolescência e à velhice, bem como a promoção da integração de pessoas ao mercado de trabalho.
Na esfera da assistência social, o trabalho da/o psicóloga/o é fortemente
relacionado à prevenção ao rompimento dos vínculos familiares e à violência, bem como apoio, orientação e acompanhamento a famílias e indivíduos
em situação de ameaça ou violação de direitos. No SUAS, a atuação da 7
Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt3088_23_12_2011_rep.html
A Lei nº 12.435, de 06/07/2011, altera a Lei no 8.742, de 7/12/1993, que dispõe sobre a organização da Assistência Social cuja versão atualizada está
disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/leis/L8742.htm
Psicologia está sendo construída a partir de uma permanente reflexão crítica sobre seu potencial e papel, tendo como desafio principal contribuir para os
processos subjetivos de emancipação e autonomia dos sujeitos em situação de violação de direitos (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2007).
Face a esse contexto, ressalta-se que, embora tais políticas de saúde e de
assistência tenham sido delineadas por Gestões Federais, o desenho de sua
execução e a manutenção orçamentária ficam a cargo de governos municipais.
Estes, por seu turno, comumente apresentam dificuldades no tocante à
constituição de projetos técnicos para as suas ações, sendo que, diante desse cenário de políticas públicas recentemente assumidas pelos municípios, a
atuação das/os psicólogas/os pode ser colocada em vilipendiamento de roldão em face de difíceis realidades de gestão. Isso ocorre, até mesmo, em razão de que a/o psicóloga/o é uma/um profissional que, não raras vezes, tem inaugurado práticas que até então não eram disponibilizadas à população.
Assim sendo, para além das áreas tradicionais como clínica, educação e
trabalho, o Conselho Regional de Psicologia (CRP-12) compreende que as
políticas do SUS - sobretudo na atenção básica e saúde mental - e do SUAS
são fundamentais para a promoção da condição de cidadania da população brasileira e, em esferas mais amplas, para o processo de democratização do País. Considera-se que a inserção da Psicologia nesses campos é estratégica para a garantia de direitos à saúde e para
proteção social, demarcada
legalmente com a participação efetiva da militância de psicólogas/os.
Em face da complexidade da atuação nesse contexto e a necessidade
de potencializar os avanços conquistados, entendeu-se que essas políticas careciam de consideração criteriosa sobre o modo por meio do qual se faz
presente o trabalho da/o psicóloga/o, observando devidamente o Código
de Ética Profissional do Psicólogo, bem como o conjunto de legislações da profissão.
Analisando os aspectos acima apontados, o CRP-12, por meio de sua
Comissão de Orientação e Fiscalização (COF), planejou e executou uma
Ação de Fiscalização dos Órgãos Públicos no Estado de Santa Catarina. Este relatório apresenta e discute os principais dados encontrados a partir de tal
Ação nesse Regional, com a finalidade de subsidiar parâmetros mínimos para o exercício profissional da Psicologia no SUS e SUAS e provocar o debate sobre as possibilidades de melhorias aos serviços ofertados.
Objetivos da Ação de Fiscalização dos Órgãos Públicos 2.1.	Objetivo Geral Valorizar e potencializar o trabalho da/o psicóloga/o em consonância com
as diretrizes e perspectivas de atenção nos âmbitos do SUS e do SUAS, e, principalmente, no tocante aos direitos das/os munícipes de receber um serviço/atendimento psicológico ético e qualificado. 2.2.	Objetivos Específicos - Averiguar as condições de trabalho de psicólogas/os e a relação com os parâmetros éticos e técnicos da profissão.
- Enfatizar os parâmetros mínimos para o exercício profissional da Psicologia no SUS e no SUAS, evidenciando a realidade encontrada regionalmente na Ação
de Fiscalização e provocando o debate sobre as possibilidades de melhorias aos serviços ofertados.
- Problematizar com gestoras/es das políticas públicas os efeitos de condições destoantes da ética e da técnica para o trabalho da/o psicóloga/o sobre o direito da/o usuária/o e as responsabilidades constitucionais do Estado.
- Compartilhar experiências e formas de enfrentamento às condições destoantes às necessidades ou exigências mínimas para o exercício profissional.
- Identificar e pactuar alternativas e estratégias para melhoria do cenário
institucional/legal que sustenta tais políticas públicas, buscando possibilidades para a autonomia profissional.
Estratégia de Orientação e Fiscalização 3.1.	Levantamento da demanda A partir do levantamento dos trabalhos realizados em anos anteriores pelo
CRP-12, em resposta às demandas apresentadas pela categoria, evidenciouse considerável número de queixas e dúvidas de profissionais quanto à atuação nas políticas de Saúde e Assistência Social. Assim sendo, no início de 2015,
a Comissão de Orientação e Fiscalização do CRP-12 sistematizou dados referentes à atuação das/os psicólogas/os nessas políticas públicas, os quais subsidiaram a proposta de intervenção descrita neste Relatório. 3.2.	Qualificação e planejamento Com a finalidade de planejar e se qualificar para a efetivação desse projeto,
a equipe técnica e as/os conselheiras/os membros da COF mobilizaram-se em direção ao levantamento do histórico desta temática no CRP-12, localizando
referências e legislações específicas, assim como debatendo em espaços de
discussão e formação com as temáticas do SUS e SUAS. Nesse sentido, o processo de fiscalização a ser desenvolvido foi pensado com base no diálogo
que deveria ser instituído principalmente com as/os gestoras/es municipais, tendo em vista que as questões a serem investigadas, em muitos casos,
ultrapassavam o limiar de decisão das/os profissionais e se direcionavam a questões estruturais de como tais politicas eram organizadas em cada
município. Para tanto, foram construídos instrumentos específicos para esta Ação, que visavam averiguar aspectos básicos da atuação profissional nos
contextos da saúde e da assistência, quais sejam: roteiro e Termo de Visita aos Órgãos Públicos e modelo de Ofício às/aos Gestoras/es Municipais. 3.3. Parceria com a FECAM Reconhecendo a importância da Federação Catarinense dos Municípios
de Santa Catarina (FECAM) e de sua articulação com as Associações de
Municípios, o CRP-12 realizou parceria com essa instituição, a qual consistiu em:
- Realizar articulação com as Associações de Municípios para que as/os gestoras/es fossem sensibilizadas/os a participar das atividades; - Promover a participação das/os profissionais do SUS e SUAS;
- Realizar inscrição, credenciamento e certificação das/dos participantes nos eventos a serem efetivados;
- Auxiliar na comunicação e na mobilização de gestoras/es para fornecer os dados de lotação das/dos psicólogas/os.
3.4.	Contato com as Prefeituras Municipais Em meados de 2015, foram encaminhados ofícios às Prefeituras e Secretarias
de Saúde e Assistência Social dos 295 municípios de Santa Catarina9 com esclarecimentos sobre as condições necessárias para o exercício profissional
da Psicologia nas políticas públicas, focando no contexto do Sistema Único de Saúde e no Sistema Único de Assistência Social. Em tais documentos foram realizados apontamentos com base nas principais irregularidades observadas
por este Conselho em ações desenvolvidas em período anterior, as quais foram 9
Com base no Censo do IBGE realizado em 2015: https://cidades.ibge.gov.br/
compiladas através de um levantamento específico. As temáticas abordadas foram: habilitação profissional; condições mínimas para o atendimento em
Psicologia; registro documental do trabalho; estágios em Psicologia; relação com sistema de justiça (vide anexo A). Para além disso, através deste ofício, o
CRP-12 informou as/os gestoras/es acerca do início da Ação de Fiscalização aos Órgãos Públicos, considerando que os municípios que são condescendentes com realidades aviltantes à prática profissional da/o psicóloga/o estão na contramão do direito à Saúde e Assistência Social. 3.5.	Sorteio dos municípios O CRP-12 coletou junto às/aos gestoras/es municipais, por meio de
formulário online, dados básicos de identificação das/dos psicólogas/os lotadas/dos nos serviços públicos municipais de Saúde e Assistência Social.
Paralelamente a isso, foram elencados os municípios de Santa Catarina por
mesorregião10 (Oeste, Norte, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis, Serrana e Sul) e por porte de município, conforme apresentado na Tabela 01. 10
Foram adotadas as mesorregiões estipuladas pelo IBGE 2010 e utilizadas pela Fecam (http://indicadores.fecam.org.br/indice/
mesorregioes/ano/2018 )
Tabela 01: Divisão dos municípios por porte de população
Pequeno Porte 1
Pequeno Porte 2
De 20.001 até 50.000
De 100.001 até 900.000
De posse desses dados, foram sorteados três (03) municípios de cada
mesorregião, sendo que para execução desta Ação foram considerados os três portes principais (pequeno, médio e grande porte). Após isso, foram levantados e listados os diversos equipamentos públicos da Saúde e Assistência Social
disponíveis em cada um desses municípios, tendo como base os dados do CNES11 e do CadSUAS12. Mediante tais informações, realizou-se um novo sorteio, identificando quais equipamentos de cada política pública (SUS e
SUAS) seriam visitados em cada um dos municípios já selecionados. Ou seja,
em síntese, foi sorteado um município por mesorregião, considerando o porte do mesmo e, em cada município, fiscalizou-se um equipamento referente à cada política pública. A Figura 02 foi elaborada com a finalidade de ilustrar o contexto de fiscalização desta Ação a partir dos equipamentos e portes dos municípios participantes.
Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (http://cnes.datasus.gov.br)
Cadastro Nacional do SUAS (http://aplicacoes.mds.gov.br/cadsuas)
Figura 01: Sistematização da seleção de municípios (por porte) e equipamento de política pública (por campo de atuação – SUS ou SUAS)
6 MESORREGIÕES NORTE
EM CADA MESORREGIÃO
1 - Município de pequeno porte (1 e 2) 1- Município de médio porte 1- Município de grande porte
EM CADA MUNICÍPIO 1- Equipamento SUS
1- Equipamento SUAS
Total: 36 equipamentos fiscalizados
3.6.	Execução das fiscalizações propriamente ditas As fiscalizações foram desenvolvidas pela equipe técnica do CRP-12, a qual
é composta por Psicólogas Assistentes Técnicas e/ou Agentes Fiscais, sendo todas trabalhadoras concursadas da instituição. A metodologia empregada
na fiscalização de cada equipamento consistiu na inspeção presencial não agendada, que contemplou: entrevista com profissionais e estagiárias/
os da Psicologia e análise sobre a adequação dos ambientes destinados aos serviços e aos prontuários psicológicos. Para a inspeção, utilizou-se de Termo previamente padronizado que serviu como roteiro e meio de registro.
Os pontos contemplados no Termo foram: identificação do estabelecimento,
equipe multiprofissional, projetos e atividades com a Psicologia, público-alvo, registro documental, ambiente de trabalho, desafios/dificuldades do serviço e estratégias de enfrentamento (vide Anexo B).
Reitera-se que as análises e pontuações foram realizadas a partir da
observação e entendimento das Psicólogas Assistentes Técnicas e/ou Agentes
Fiscais frente às realidades encontradas. Ou seja, a partir dos dados relatados pelas/os profissionais das políticas públicas, as Psicólogas Técnicas e/ou Agentes Fiscais tomavam nota dos aspectos verbalizados sobre as atividades
realizadas e o método empregado para a efetivação das mesmas, registrando seus apontamentos sobre a adequação, ou não, da infraestrutura ofertada.
As inspeções iniciaram em 2015, quando foram realizadas as fiscalizações
estipuladas na Grande Florianópolis, no Oeste Catarinense, no Meio Oeste Catarinense e em parte da região Serrana. Em 2016 prosseguiu-se com tais
atividades, continuando na outra parte da região Serrana, no Norte Catarinense, no Vale do Itajaí e no Sul Catarinense.
Assim sendo, informa-se que, no total, foram vistoriados 36 serviços
públicos, dentre os quais inclui-se:
Tabela 02: Equipamentos vistoriados por política pública
Equipamentos SUS 06 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS do tipos I, II e infanto juvenil);
01 Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP);
11 Equipamentos de Atenção Básica de Saúde (Unidades Básica de Saúde e Núcleos de Atenção à Saúde da Família);
10 Centros de Referência Assistência Social (CRAS);
01 Policlínica.
Equipamentos SUAS
04 Centros de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS); 03 Unidades de Acolhimento Institucional para crianças e adolescentes.
Cabe mencionar que, em razão da identificação de situações irregulares
nos equipamentos, foram realizadas, ainda, outras atividades presenciais adicionais de fiscalização, cujos dados não serão apresentados neste relatório
para a preservação do resultado específico da Ação de Fiscalização que este documento visa apresentar.
3.7.	Notificações e acompanhamentos Após a realização das visitas de fiscalização, as Psicólogas Assistentes
Técnicas e/ou Agentes Fiscais apresentaram para a COF o conjunto das informações levantadas através da Ação. A situação de cada equipamento
público foi analisada individualmente, visando observar, em pormenores, quais as demandas presentes naquele contexto específico, correlacionando com normativas da profissão e das políticas públicas. Mediante tais averiguações,
foram emitidos ofícios de notificação às Secretarias Municipais responsáveis por cada equipamento, apontando as inadequações e as providências necessárias para regularização dos espaços e processos de trabalho, com
estipulação de prazo de retorno de 30 dias (vide anexo C). Cabe referir que o acompanhamento foi planejado para ser contínuo, assim, não se tratam de
ações únicas e pontuais, mas da abertura de diálogo com as/os gestoras/ es e psicólogas/os dessas políticas, assim como do acionamento, quando
necessário, de outros agentes como Conselhos Profissionais de outras áreas de conhecimento, Ministério Público, Vigilância Sanitária, entre outros.
Inclusive, em um dos municípios fiscalizados, para além do diálogo com
a Prefeitura Municipal, visualizou-se a necessidade de elaborar ofício à Promotoria de Justiça responsável pela jurisdição, a fim de que fossem apuradas situações que impactavam a continuidade de um determinado serviço público.
A previsão de notícia às autoridades competentes foi alertada em todos os comunicados com os/as gestores/as municipais desde o início da Ação. 3.8.	Eventos Como forma de contribuir com a qualidade dos serviços municipais, o CRP-
12, com o apoio da Federação Catarinense dos Municípios de Santa Catarina (FECAM), realizou “Eventos de Esclarecimento: Ação de Fiscalização dos Órgãos Públicos”, nas 06 mesorregiões do estado. O objetivo dos eventos foi enfatizar os parâmetros mínimos para o exercício profissional da Psicologia no SUS e SUAS, evidenciando a realidade encontrada regionalmente na Ação de
Fiscalização e provocando o debate sobre as possibilidades de melhorias aos
serviços. Em cada evento participaram: uma Psicóloga Assistente Técnica e/ou
Agente Fiscal e, pelo menos, uma/um Conselheira/o integrante da Comissão de Orientação e Fiscalização do CRP-12. Foram convidadas/os as/os gestoras/
es municipais e Psicólogas/os lotadas/os em serviços públicos municipais de Saúde e Assistência Social.
Foram realizados 10 eventos, abrangendo as 06 mesorregiões do estado
supracitadas, os quais estavam organizados da seguinte forma:
Tabela 03: Planejamento das etapas dos eventos
1° Etapa Participação de gestoras/es e psicólogas/os
Tempo previsto: 1h30
Apresentação da ação de fiscalização, dos objetivos e da metodologia do evento; Exposição dos parâmetros mínimos: Destaques do CRP-12 sobre aspectos que devem ser observados por gestoras/ es e profissionais para que as condições mínimas para o exercício profissional daPsicologia sejam respeitadas no contexto das políticas públicas municipais; Apresentação dos dados encontrados regionalmente e proposição de formas de enfrentamento às condições destoantes à ética profissional; Espaço para dúvidas das/dos gestoras/es presentes.
2° Etapa Participação de psicólogas/os
Identificação e problematização, com a categoria de psicólogas/os, de situações envolvendo condições de trabalho e a relação com os parâmetros éticos e técnicos da profissão; Troca de experiências e de formas de enfrentamento às condições destoantes ao mínimo para o exercício profissional; Construção de uma carta conjunta de intenções da categoria que pactue saídas possíveis ao cenário institucional/legal, buscando possibilidades para a autonomia profissional.
Nos 10 eventos realizados, observou-se significativa participação da
categoria nas atividades, o que possibilitou, inclusive, que se mantivesse contato posterior para acompanhamento das situações averiguadas e também de outras denúncias que não foram alvo da metodologia de fiscalização
desta Ação. A participação de gestoras/es, por sua vez, não foi expressiva,
motivo pelo qual, na maioria das vezes, algumas etapas dos eventos foram sintetizadas. A Tabela 04 apresenta dados sobre o número de participantes por categoria e evento.
Tabela 04: Dados sobre as/os participantes dos Eventos
Maravilha Concórdia Blumenau Itajaí Lages Tubarão Mafra Joinville
Psicólogas(os) Gestão Outros Total
25/02/2016 26/02/2016 11/03/2016 11/03/2016
02/06/2016 03/06/2016
A metodologia caracterizou-se pela apresentação expositiva dos resultados
encontrados regionalmente, bem como dos parâmetros desejados para a prática profissional. Houve, também, espaço para debate, orientação e construção de possibilidades frente ao contexto e realidade de cada região.
Neste item estão contabilizadas/os as/os estudantes de psicologia e as/os profissionais com formação em outras áreas de conhecimento.
Resultados da fiscalização Os resultados que serão apresentados a seguir estão organizados em
categorias temáticas que foram constituídas relacionando os objetivos e os resultados alcançados através da Ação de Fiscalização. Nessa medida, serão discutidos os seguintes temas: Habilitação profissional, Estágios em Psicologia,
Condições mínimas para o trabalho da/o psicóloga/o, Relação com o sistema de justiça e Inserção da Psicologia nas políticas públicas. 4.1	Habilitação profissional O Conselho Regional de Psicologia – 12ª Região, CRP-12, autarquia federal
de Direito Público regulamentada pelo Decreto Federal n° 79.822/197714, tem
por finalidade disciplinar, orientar, fiscalizar o exercício da profissão de Psicólogo
e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da categoria. A Lei Federal nº 4.119/62 cria a profissão de Psicólogo e a inscrição profissional é
requisito legal para o exercício da profissão, conforme expressado no Decreto 79.822/1977: “Art. 43 A inscrição do psicólogo será efetuada no conselho regional da jurisdição, de acordo com a resolução do conselho federal”.
Igualmente, no caso da/o psicóloga/o ocupar um cargo comissionado ou
de coordenação técnica, para qual a/o profissional obteve sua contratação em decorrência de sua habilitação profissional de nível superior, esta/e deve estar inscrita/o e manter sua inscrição ativa.
Informa-se que é dever da/o psicóloga/o portar a Carteira de Identidade
Profissional em ambiente de trabalho, bem como é esperado por parte da/o contratante a exigência da apresentação e manutenção de cópia do referido 14
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1970-1979/D79822.htm
documento no ato da contratação. A consulta da habilitação profissional pode ser efetuada através do site do Conselho Federal de Psicologia, disponível em: http://cadastro.cfp.org.br/cfp/.
Figura 02: Ilustração relativa ao site do CFP no qual consta o Cadastro Nacional de Psicólogas/os
das salas podia ser ouvido externamente mesmo com a porta fechada. Em algumas situações foi possível presenciar a comunicação da própria equipe,
cada qual em sua sala, sendo esse um exemplo que evidencia a ausência de
vedação acústica adequada para proteger as informações dos usuários dos equipamentos.
Outro ponto observado refere-se ao fato de que em 14 dos 36 equipamentos
percebeu-se a falta de vedação visual, ou seja, os atendimentos eram realizados
em salas com paredes de vidro ou janelas sem cortinas. Nessa linha, destacase que esses espaços não respondem à necessidade de proteção de usuárias/
os, sobretudo por possibilitarem a visualização, por parte de terceiras/os, das atividades e acontecimentos decorrentes dos serviços psicológicos, o que pode incluir, por exemplo, situações de mobilização emocional.
Para além disso, em 11 dos 36 equipamentos vistoriados, a equipe de
fiscalização observou situações e dinâmicas de trabalho que demonstraram a existência de interrupções aos atendimentos psicológicos por parte da equipe ou de usuárias/os. Em maior parte, a observação se deu de forma direta, por interrupções à entrevista de inspeção e, em algumas, pela análise contextual
de espaços compartilhados ou por servirem para a circulação de pessoas. A
interrupção do serviço psicológico exige da/o profissional disponibilidade para
o esclarecimento da peculiaridade de sua atuação e a busca por medidas por reparar possíveis danos.
A confidencialidade e a intimidade das pessoas e grupos são expressadas
às/aos psicólogas/os sob contrato de sigilo profissional, de modo
quando acessadas por terceiros, sem justificativa admissível, ocasionam
intercorrências, como a fragilização do vínculo de confiança profissional, possíveis constrangimentos, situações de conflitos interpessoais e estigmas sociais.
4.3.2	Ventilação e iluminação No tocante à ventilação, em 13 equipamentos foram averiguadas situações
inadequadas de circulação de ar: em 04 deles, percebeu-se condições insalubres a partir da presença de mofo, infiltração e higiene inadequada; nos
outros 09, para que fosse possível climatizar e ventilar a sala de atendimento,
as janelas precisavam ser mantidas abertas, o que pode ocasionar interrupções por terceiras/os, impossibilitando a garantia de zelo com conteúdo sigiloso.
Ademais, a iluminação de 06 dos 36 equipamentos se apresentava
insuficiente para os objetivos do trabalho, tendo em vista que as salas não
tinham a luminosidade necessária para realização de atividades que exigem acuidade, como as que contemplam expressões gráficas. Nessa direção,
recomenda-se que situações similares sejam comunicadas às autoridades sanitárias municipais para que as devidas providências sejam tomadas.
4.3.3	Presença de estímulos incompatíveis com o trabalho realizado O mobiliário e os estímulos do ambiente onde ocorre o trabalho da Psicologia
devem ser condizentes com a proposta técnica, estando, portanto, equipado com móveis e instrumentais próprios que ofereçam o acolhimento necessário e evitando reações que prejudiquem o vínculo entre a/o profissional e a/o pessoa atendida/o ou inviabilizem o alcance dos objetivos do trabalho proposto. Dessa forma, consultórios médicos ou odontológicos são espaços que podem ser
utilizados para a realização de interconsultas nas quais as/os profissionais de
Psicologia estejam presentes, tal como previsto na metodologia do Núcleo de Atendimento à Saúde da Família (NASF). No entanto, não é recomendável que
o atendimento psicoterápico seja prestado nesses espaços em virtude dos elementos supracitados que podem, em alguma medida, afetar o trabalho.
Com relação a esse aspecto, observou-se que em 05 serviços de saúde
onde aconteciam atendimentos psicoterapêuticos, as salas disponíveis incluíam equipamentos e/ou instrumentos de outras/os profissionais de saúde como, por exemplo, macas ginecológicas, instrumentais para coleta de sangue
ou esterilização. A presença desses instrumentos prejudica particularmente o foco na subjetividade da/o atendida/o, reconfigurando o espaço com outros
sentidos para além do trabalho específico da Psicologia, além de dificultar a mobilidade das pessoas pela sala, limitar a segurança de crianças e pessoas em grave sofrimento psíquico.
Os móveis e demais estímulos do ambiente de trabalho da/o psicóloga/o
devem refletir a postura acolhedora e horizontal da profissão, fundamentada no
respeito e na promoção da liberdade, dignidade e integridade do ser humano e focada no fortalecimento da autonomia da/o cidadã/dão atendida/o. Algumas
composições de móveis dificultam essa relação profissional por remeterem a experiências de relações marcadas pela supervalorização do diagnóstico e do conhecimento especializado.
Em outro prisma, em um CRAS contemplado na vistoria, verificou-se que
na única sala disponível para o trabalho com grupos – uma das principais modalidades de intervenção na Proteção Social Básica - havia um crucifixo e as/os trabalhadoras/es do equipamento informaram que lá ocorria um grupo
de oração da Comunidade. Considerando o princípio da laicidade do Estado,
a pluralidade religiosa e a garantia de direitos, o CRP-12 demandou à gestão municipal providências no sentido de viabilizar que o trabalho da Psicologia
ocorra em contextos livres de indução religiosa, de forma a não aliar os conhecimentos científicos da profissão com crenças e práticas religiosas.
Nessa direção, aponta-se a diretriz do Código de Ética Profissional do
Psicólogo, artigo 2º, alínea “b”, que veda indução de convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas e de orientação sexual. Recomenda-
se rigor na seleção e estruturação dos espaços físicos em que as atividades
psicológicas são desenvolvidas, os quais devem estar livres de estímulos variados que possam, de algum modo, distorcer a perspectiva do trabalho da Psicologia e, ainda, provocar o constrangimento das pessoas atendidas no
trato de questões pessoais que tangenciem esses aspectos. Uma vez que a ação se volta à qualidade dos serviços públicos de Saúde e Assistência Social, resgata-se o texto da Constituição Federal da República Brasileira, em seu artigo 19, que estabelece:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçarlhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações
de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
4.3.4	Dimensões e mobiliário O vínculo de confiança estabelecido entre a/o psicóloga/o e as/os usuárias/
os é um dos principais instrumentos de trabalho no campo da Psicologia, devendo ocorrer de forma clara e coerente. Para tanto, faz-se necessário que
os serviços psicológicos sejam desenvolvidos em ambientes previamente planejados, higiênicos, ventilados, iluminados e com mobiliário/instrumental adequado.
Na maioria dos equipamentos vistoriados (26 de 36), foram encontradas
salas com dimensões adequadas para as atividades propostas da Psicologia. No entanto, nos 10 restantes observou-se inadequação com relação aos
mobiliários disponíveis. Os principais problemas identificados dizem respeito,
sobretudo, ao atendimento do público infantil e para a adoção de metodologias com grupos. Sete dos 36 equipamentos não dispunham de salas amplas e seguras para o atendimento de crianças e/ou de pessoas com dificuldade de locomoção. Notou-se que, em geral, nas Unidades Básicas de Saúde e nos
Centros de Atenção Psicossocial, onde o espaço das salas é ocupado por mobiliários e instrumentos para o atendimento multiprofissional, a possibilidade de mobilidade tornava-se significativamente reduzida. Em equipamentos da Assistência Social, como em duas Unidades de Acolhimento de Crianças e Adolescentes, não havia espaço para a escuta e o acolhimento do públicoalvo, as salas disponíveis ou eram muito pequenas ou compartilhadas com o restante da equipe em mobiliário de escritório.
Ressalta-se que, para além da preservação de sigilo e da privacidade, o
setting (ambiente de atendimento) cumpre funções essenciais na prestação
de serviços psicológicos, independentemente da abordagem metodológica
do profissional em questão. Entende-se necessário que, para o adequado
atendimento a grupos, as salas devem ser amplas e contar com mobiliários específicos para tais ações. No caso de atendimentos individuais e/ou de
famílias, por sua vez, as salas devem ter dimensões menores, com características acolhedoras e planejadas para a finalidade dessa proposta. Nessa medida,
destaca-se que o espaço físico se constitui um fator determinante para o reconhecimento dos equipamentos como o lócus no qual os direitos à saúde
e assistência são devidamente assegurados, resplandecendo em atividades profissionais executadas com qualidade e dignidade.
No contexto dessa discussão, cabe enfatizar que o setting não se reduz
apenas ao espaço físico predial e de outros recursos acessíveis às/aos psicólogas/os e, também, à sociedade como um todo, mas envolve, além destes, todos os processos de encontro estabelecidos entre profissionais, usuários e a comunidade, indo ao encontro do que apontou Lancetti (2008)
acerca da Clínica Peripatética. Essa concepção não substitui a necessidade
de ambientes físicos condizentes com as demandas e realidades dos tipos de atendimento que são efetivados nos equipamentos públicos, mas complementa
e permite avançar na perspectiva de que as atividades a serem desenvolvidas precisam conferir o devido acesso às pessoas atendidas. Em síntese, é condição sine qua non que as/os profissionais tenham disponíveis locais e instrumentos correspondentes à complexidade e diversidade de ações que
concretizam, mas, em conjunto com isso, é importante lembrar que tais ações não se circunscrevem unicamente aos lugares tradicionais de intervenção como, por exemplo, as salas de atendimento, mas abarcam a escuta dos usuários,
seus familiares, suas redes de apoio nos cenários onde habitam, convivem, constituem suas vidas e subjetividades.
4.3.5	Recursos específicos: instrumentos psicológicos e materiais lúdicos
Para a qualidade dos serviços ofertados é fundamental que a/o profissional
tenha acesso a variados recursos materiais, tecnológicos e logísticos. Alguns específicos da profissão de psicóloga/o como, por exemplo, os testes psicológicos e os inventários, além de outros abrangentes a toda a equipe
(materiais lúdicos, cadernos, materiais de escritório, computadores, carros e telefones).
É importante frisar que o trabalho da Psicologia pressupõe estratégias
metodológicas para que o fenômeno psicológico manifeste-se e seja possível a análise e a intervenção sobre o conteúdo subjetivo acessado. Para tanto, são necessários recursos adequados aos propósitos e métodos definidos.
Através da fiscalização, constatou-se que em 20 equipamentos as/os
profissionais não contavam com recursos mínimos para o desenvolvimento de suas ações, culminando em estratégias individuais e coletivas para responder
às demandas. Em 18 equipamentos as/os profissionais relataram utilizar recursos pessoais para suprir a falta de materiais básicos ou complementá-los.
Outro aspecto apurado diz respeito ao acesso a recursos tecnológicos
para comunicação e registro (computadores e telefones), o qual se configurou como insuficiente em 06 dos 36 equipamentos vistoriados. Reforçamos que os recursos apontados são essenciais para que se possa efetivar o funcionamento
adequado dos serviços e garantir os preceitos previstos nas legislações especificas da Psicologia e das políticas públicas de Saúde e Assistência Social.
Como exemplo de condições insuficientes para a efetividade do preconizado
pelas políticas públicas, cita-se que em dois equipamentos de saúde observou-
se que recursos importantes para a peculiaridade da população atendida estavam indisponíveis: em um CAPS o almoço dos pacientes e em uma Policlínica o acesso ao bebedouro.
4.3.6	Relação com o território: segurança e transporte A maior parte dos serviços/equipamentos públicos municipais de Saúde
e Assistência Social (CAPS, CREAS, Atenção Básica em Saúde, Proteção Social Básica, Unidades de Acolhimento Institucional, dentre outros) pressupõe atividades de deslocamento intramunicipal para a realização de visitas
domiciliares, o mapeamento do território contemplado, o trabalho preventivo comunitário, participação em audiências ampliadas de Justiça, dentre outros. A
dificuldade de locomoção da equipe foi percebida em 05 visitas (02 CAPS, 02
UBS e 01 CRAS), denotando pouco investimento municipal para o cumprimento dessas ações que efetivam o vínculo do serviço com o território e promovem a proteção social, a promoção da saúde e a prevenção de agravos.
Em um CRAS e numa Unidade Básica de Saúde vistoriados, as/os
psicólogas/os relataram desenvolver ações de persuasão com as/os demais
trabalhadoras/es para mobilizá-las/os em ações em territórios sob influência do crime organizado. Em um CAPS Infanto juvenil (CAPSi), o muro baixo e o
contexto de vulnerabilidade social do território onde situa-se o equipamento público fragilizam a segurança de crianças e adolescentes em atividades na
área externa. Em outro CAPS (este da modalidade I), notou-se a ausência de
pessoas aptas a intervir em situações de eminente risco à integridade física ou à
vida de usuárias/os e profissionais. Destaca-se, com a base nas legislações do SUS19 e SUAS20, que as tecnologias de atenção requerem ações nos territórios 19
Portaria MS GM nº 2.488/ 2011 - Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas
para a organização da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Portaria MS GM n.º 3.088/2011 – Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
para conhecimento da realidade de usuárias/os, abordagem das dimensões
subjetivas nos processos de saúde/doença e dos modos de cuidados, bem como para o fortalecimento da rede de apoio, da proteção social e dos vínculos comunitários.
4.3.7 Registro documental do trabalho O trabalho da/o psicóloga/o deve ser obrigatoriamente registrado,
armazenado em segurança e as informações compartilhadas de acordo com o regulamentado pela Resolução CFP nº 001/200921 (alterada pela Resolução
CFP nº 005/2010)22. A/o psicóloga/o deve realizar o compartilhamento das informações importantes com a equipe para possibilitar o trabalho integrado.
No entanto, devem ser preservadas as informações de cunho técnico específico e privativo da Psicologia que deverão ser armazenadas em local exclusivo e
seguro como, por exemplo, os testes psicológicos, os relatos descritivos e analíticos de atendimentos e casos, entre outros.
Durante as visitas, percebeu-se em 15 dos 36 equipamentos um contexto
que dificulta a concretização de tais diretrizes, tendo em vista a inexistência
de locais seguros e de acesso exclusivo da/o psicóloga/o para a guarda dos materiais sigilosos, a ausência de período hábil para o devido registro das atividades e informações coletadas, e, inclusive, a cobrança de gestoras/es para acessar informações que não lhe competem.
Foram observadas, ainda, situações alarmantes como: o uso de cadeado
em pasta de prontuários pela/o própria/o profissional para garantir a segurança do sigilo profissional, a ausência de mobílias com chave e o uso de dispositivos eletrônicos pessoais para suprir a falta ou a fragilidade de computadores 20
Lei Federal nº 8.742/1993 (alterada pela Lei Federal nº 12.435) - Dispõe sobre a organização da Assistência Social e dá outras
Disponível em: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2009/04/resolucao2009_01.pdf
Disponível em: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2010/03/resolucao2010_005.pdf
disponibilizados pela gestão. Essas situações explicitam a vulnerabilidade
das informações registradas, a discrepância da realidade com as diretrizes profissionais, bem como a omissão ou coparticipação das/os gestoras/es frente a tais irregularidades. Dentre outras consequências, a quebra do sigilo
profissional provocada pelo compartilhamento desnecessário de informações impacta na qualidade e continuidade dos serviços prestados por fragilizar o vínculo profissional ao expor a intimidade das pessoas atendidas.
Cabe diferenciar as formas de compartilhamento dos registros profissionais,
conforme previstas na Resolução CFP nº 001/2009. Quando compartilhado em equipe (prontuário único) deverão constar apenas as informações necessárias
ao cumprimento do trabalho em equipe, de forma a salvaguardar a intimidade da/o usuária/o. As informações que são de acesso exclusivo da/o psicóloga/o no registro documental, em caráter sigiloso, abrangem: testes psicológicos,
desenhos, relatos, hipóteses e descrições de sessões, devendo ser guardados à parte. Por fim, o prontuário psicológico é de direito da/o usuária/o, ou terceiro por ela/e
autorizada/o, sendo o seu acesso garantido e irrestrito. Nesse
contexto, recomenda-se às/aos gestoras/es que, para preservar o sigilo das
informações confidenciais, quando necessário direcionem à/ao profissional
pedido de acesso às informações, para que então a/o mesma/o avalie a demanda e as possibilidades de ação/compartilhamento de informações.
No caso da/o psicóloga/o precisar se afastar definitivamente de seu
trabalho, a pedido desta/e ou por demissão involuntária (a menos que seja por
motivo fortuito), deve ser garantido à/ao profissional de Psicologia tempo e espaço para fazer o desligamento com as pessoas atendidas e a possibilidade
de repassar as informações para aquela/e que irá substituí-la/o. Contrariando essa prerrogativa, registrou-se que em 21 equipamentos ocorreram situações
de desligamento e em apenas 09 destes houve a oportunidade de encontro
presencial entre a/o desligada/o com sua/seu substituta/o. Em outros 10 casos
a continuidade dos serviços ocorreu com base apenas no registro documental. Nos 02 casos restantes, os profissionais que assumiram não tiveram acesso às informações qualificadas sobre os serviços anteriormente prestados.
Quando a/o profissional é desligada/o ou transferida/o de seu local de
trabalho antes que a/o substituta/o já esteja contratada/o ou atuando, isso
prejudica a continuidade do atendimento à/ao usuária/o. Quando este espaço temporal for demasiadamente curto, o material sigiloso poderá ficar lacrado e guardado sob responsabilidade (tutela) de profissional do equipamento,
cujo Código de Ética Profissional tenha o sigilo como um de seus deveres.
Ressaltamos que o material só pode ser aberto pela/o profissional de Psicologia
substituta/o, devendo o Conselho Regional de Psicologia ser acionado e informado acerca do lacre e responsável pelo mesmo. Em se tratando de um período maior que dois meses de ausência de serviços da Psicologia, orienta-se que o material seja remetido lacrado para a Sede ou Subsedes
do CRP-12. O material será novamente remetido ao equipamento, a partir do comunicado, informando o nome da/o psicóloga/o que assumir o cargo.
4.4 Inserção da Psicologia nas Políticas Públicas 4.4.1	Disponibilidade de profissionais A partir da Ação de Fiscalização, constatou-se casos de profissionais de
Psicologia atuando com carga horária dividida entre as diversas complexidades de uma mesma política ou de políticas diferentes. Este dado foi averiguado
com maior recorrência, principalmente, nos municípios de pequeno porte, sendo que, de 12 equipamentos visitados, 08 apresentaram essa condição.
Especificamente em um município, por exemplo, encontrou-se psicóloga/o
lotada/o na saúde pública, a/o qual estava cedida/o para a APAE e, também, para o Conselho Tutelar. Evidencia-se, dentre outras repercussões, que esta/e profissional assumiu demandas que extrapolam os objetivos da política pública
a qual integrava, o que pode gerar impactos acerca da qualidade do trabalho desenvolvido para a comunidade e sobre a sua saúde enquanto trabalhadora/ trabalhador.
As políticas públicas estabelecem parâmetros políticos e técnicos para
cada serviço/equipamento. Nesse sentido, normativas delimitam a inserção da Psicologia nas equipes mínimas/de referência23 e definem objetivos específicos que possibilitam o diálogo da rede de serviços públicos respeitando o papel de
cada ponto de atenção. Para alcançar essas diretrizes, a Psicologia desenvolveu
metodologias diferenciadas alcançando atuação coerente com as necessidades do território e apropriada em cada uma das especificidades de trabalho. Por consequência, a peculiaridade de cada área de atuação exige saberes e fazeres distintos e, por consequência, as/os profissionais da Psicologia desempenham papéis diferentes junto à mesma população. 23
Destacam-se: a Resolução CNAS nº 17/2011 que Ratificar a equipe de referência definida pela Norma Operacional Básica de Re-
cursos Humanos do Sistema Único de Assistência Social – NOB-RH/SUAS e Reconhecer as categorias profissionais de nível superior para atender as especificidades dos serviços socioassistenciais e das funções essenciais de gestão do Sistema Único de Assistência Social – SUAS, a Portaria MS GM nº 154/2008 que Cria os Núcleos de Apoio à Saúde da Família – NASF e Portaria nº 336/2002 que estabelece os Centros de Atenção Psicossocial.
Nesse sentido, envolver a/o mesma/o profissional para desempenhar
funções e objetivos distintos - no caso da divisão de carga entre políticas
públicas - impacta diretamente na qualidade dos serviços psicológicos prestados. Tal questão, além de fragmentar e precarizar o trabalho da/o profissional, pode acarretar conflitos éticos e no rompimento dos vínculos com
os/as usuários/as, marcadamente nos casos em que houver necessidade de um trabalho intersetorial/integrado.
Na maioria dos locais vistoriados (23 de 36), a contratação de psicólogas/
os ocorreu via concurso público, sendo que em um deles havia relação com a Fundação Municipal de Desenvolvimento Social e em outro aconteceu por meio de Consórcio Intermunicipal. Em 11 equipamentos, a contratação foi na modalidade temporária, em 01 equipamento a contratação de
parte da equipe era CLT e a outra era via concurso público. Já em outro
equipamento não havia profissional da Psicologia, apenas estagiária/o.
Compreende-se que a vinculação como servidora/servidor pública/o, entre outros aspectos, permite o aprimoramento e a qualificação profissional, o que acaba por potencializar resultados eficazes do serviço prestado.
4.4.2 Equipe multiprofissional: compreensão do papel específico da
Psicologia em cada equipamento e da atuação em conjunto
Um ponto importante e recorrente em todas as visitas refere-se à
necessidade de Educação Permanente das equipes profissionais, prevista nas
regulamentações das políticas públicas. Através da fiscalização identificou-se que em apenas 03 equipamentos estavam previstas atividades de capacitação
planejadas numa perspectiva permanente, o que demonstra a lacuna de
implementação dessa política, especialmente no sentido das/es gestoras/es
viabilizarem isso às/aos trabalhadoras/es. De igual forma, cita-se ainda que,
em outros 23 serviços públicos, havia alguma atividade de capacitação, porém descritas de forma pontual e não relacionadas entre si.
Constatou-se nas verbalizações que a iniciativa por educação/formação
continuada é frequente por parte das/os profissionais, sem que obtenham o devido apoio por parte das gestões municipais. As políticas nacionais de
capacitação SUS/SUAS preveem a educação continuada das/os profissionais,
entendendo como fator preponderante para o bom desenvolvimento e funcionamento dos serviços, incidindo na qualidade dos serviços prestados à população.
Conforme discutido na apresentação deste Relatório, as duas políticas que
ganharam foco nessa Ação representam uma construção histórica brasileira em
busca da garantia de direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.
Assim, é de suma importância o cumprimento dos preceitos de ambas na prática cotidiana dos serviços ofertados. Como os serviços estão inseridos em sistemas integrados (SUS e SUAS) exigem forte e constante investimento em ações de qualificação, tais como: treinamento, aprimoramento e condições para a troca
efetiva entre profissionais, equipes e setores. Trata-se, portanto, de garantir que
as/os profissionais estejam aptas/os a executar suas atividades, assim como
de que as equipes estejam articuladas entre si e em constante atualização para que usuárias/os sejam atendidas/os de forma digna e adequada.
Para além disso, compreende-se que o vínculo de confiança estabelecido
entre a/o psicóloga/o e as/os usuárias/os de seus serviços é seu principal
instrumento de trabalho, devendo ocorrer de forma clara e coerente. Para tanto, é necessário que a/o profissional de Psicologia tenha autonomia para a escolha dos métodos mais adequados ao campo de trabalho.
Além do mais, quando a/o psicóloga/o desenvolve atividades em equipe,
esperamos que ocorra de forma integrada e respeitosa entre as/os profissionais
tanto do SUS quanto do SUAS. No entanto, em 05 equipamentos do SUAS verificamos pouca compreensão da equipe e/ou da gestão sobre o papel da/o
psicóloga/o naquele contexto e a delimitação da profissão frente a outras, como Serviço Social e Pedagogia.
Esse aspecto peculiar da política de assistência social, relaciona-se,
sobretudo, à recente inserção da Psicologia nesse âmbito, havendo ainda esforço para que a equipe compreenda as peculiares dos fazeres de psicólogas/ os, e exigindo que esse assunto seja foco de formação e debate entre equipe e gestoras/es.
A formação e a atuação da/o psicóloga/o se aprimoram em coerência
à perspectiva e aos objetivos de seu trabalho, tal como preconizado pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo, particularmente em seu artigo 1º, alíneas “b” e “c”, que impõe às/aos profissionais o compromisso de assumir responsabilidades apenas pelas quais estejam capacitadas/os pessoal, teórica e
tecnicamente e prestar serviços de qualidade, em condições de trabalho dignas
e apropriadas à sua natureza. No contexto das políticas públicas, a Psicologia desenvolve métodos específicos aos objetivos de cada equipamento/serviço
e, assim, desempenha um papel social singular, sendo, por isso, inadequada e incoerente a concomitância de mais de um papel na rede de serviços.
4.4.3	Atuação na rede de serviços As políticas públicas operacionalizam-se em níveis de complexidade
diferenciados, com objetivos específicos para cada ponto de atenção,
requerendo nitidez na distinção destes. Desse modo, faz-se necessário que o
trabalho interdisciplinar e intersetorial seja realizado, o qual exige a superação da abordagem tecnicista para a abertura de um processo ativo de articulação de objetivos e instrumentos distintos, que contribua para integrar os saberes ao invés de utilizá-los de forma fragmentada.
Há que se destacar que a Psicologia, como profissão, não se restringe à
psicologia clínica e que a psicoterapia é uma das possibilidades de intervenção clínica. O atendimento psicológico em todas as modalidades deve estar em
acordo com princípios éticos da profissão e preceitos normativos e ideológicos da Constituição Brasileira.
No âmbito da Assistência Social, de acordo com as diretrizes da Lei Orgânica
de Assistência Social – LOAS (LEI nº 8.742/1993), os serviços, programas e
projetos oferecidos pela assistência social organizam-se em proteção social
básica e proteção social especial, sobretudo por meio do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), CREAS (Centro de Referência Especializado
de Assistência Social) e equipamentos de alta complexidade. A efetivação da Política de Assistência Social depreende esforço conjunto das equipes e
gestoras/es municipais para que se efetive o enfrentamento da vulnerabilidade social de forma protetiva e eficaz na promoção do protagonismo social.
O desconhecimento da política e de sua organização por gestoras/es
e atoras/es do Sistema de Justiça implica em distorções significativas na
prestação do serviço à população. Por meio da fiscalização, foram visualizados
04 CRAS e 01 CREAS que apresentavam dificuldades de diálogo com a gestão, com os Conselhos Tutelares e/ou com magistradas/os.
A desarticulação entre a rede de serviços também foi percebida em 09
equipamentos do SUAS que foram vistoriados. Em 02 CRAS, por exemplo, a equipe supria o SUS, gerando entraves para o atendimento das demandas de
acordo com suas características. Em outros 06 equipamentos, o diálogo com a saúde também foi identificado como pouco eficiente. A reduzida carga horária da equipe em uma Unidade de Acolhimento foi mencionada como sendo uma
das principais dificuldades que impossibilitam a devida articulação entre a rede de serviços. Observa-se que essa realidade ocasiona impactos negativos diretamente nos serviços prestados à população, como é o caso de um Centro
POP vistoriado, no qual registrou-se pouca articulação com a saúde, que não dispõe de consultório de rua.
No contexto específico do SUS a implementação das políticas e serviços
são complexas e descentralizadas, produzindo a necessidade de capacitação e diálogo intersetorial contínuos. A Psicologia contribui para a promoção da saúde integral na construção cotidiana de serviços substitutivos à hospitalização psiquiátrica.
Em 07 dos 18 equipamentos vistoriados no SUS verificou-se problemas
na implementação do NASF pela pouca compreensão sobre as peculiaridades
metodológicas e estruturais desse serviço na referência à atenção básica. O
fenômeno foi observado no encaminhamento de demandas por outros setores, no trabalho interdisciplinar com as equipes de Unidades Básicas de Saúde,
bem como na estruturação de equipes e recursos que efetivem atividades de promoção de saúde integral, como matriciamento, grupos e atividades no território com intervenção multidisciplinar.
Nos outros 04 equipamentos da atenção básica de saúde vistoriados também
se averiguou entraves no encaminhamento para a rede devido à: ausência de psicólogas/os em outros equipamentos do município, impossibilidade de
internação psiquiátrica em situações de urgência e pouca articulação com a rede em geral e dificuldade de articulação com o SUAS.
As 06 vistorias em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) permitiram uma
amostragem de como funcionam e de como acontece a integração com a Rede
de Atenção Psicossocial (RAPS), com outros serviços, políticas e Sistema de Justiça. Em todos os equipamentos registraram-se problemas nessa integração, sendo que em 05 deles a dificuldade estava relacionada aos diferentes pontos
de atenção à saúde no âmbito da própria RAPS, e no outro percebeu-se a pouca compreensão do Ministério Público e do Conselho Tutelar sobre a
função e o público-alvo do CAPS, o que implica em prejuízo na qualidade dos serviços. Em um CAPS II, de município de grande porte, o trabalho constituía-
se essencialmente como um ambulatório (unindo consultórios isolados), uma vez que o município não conta com a implementação do NASF ou com leitos
de internação psiquiátrica. O serviço prestado pelo equipamento é prejudicado por estrutura física e equipe reduzida.
A Policlínica vistoriada está localizada em município de médio porte e
concentrava toda a equipe de psicólogas/os na saúde pública municipal. Na
ocasião, as/os psicólogas/os lotadas/os no NASF e CAPS foram desligadas /os por serem contratadas/os sem concurso público, ou direcionadas/os
para Policlínica, restando, portanto, atenção exclusivamente na perspectiva ambulatorial.
Considerando esse cenário, aponta-se que é essencial a existência
de diálogo e interação entre os distintos equipamentos da rede, conforme
preconizado pelas normativas vigentes no âmbito do SUS e SUAS. No entanto, quando esses fatores estão fragilizados ou não acontecem de forma adequada
são capazes de gerar desentendimento entre equipes, falta de entendimento da finalidade e modo de organização de cada equipamento, de cada política
pública e, em termos práticos, enganos quanto aos encaminhamentos e procedimentos pertinentes a cada caso. A inexistência e/ou a insuficiência de equipamentos/serviços básicos (seja de diferentes políticas ou complexidades) implica em sobrecarga da rede e morosidade no atendimento.
Considerando tais elementos, cabe reafirmar, no contexto do SUS, a
importância da Política Nacional de Humanização que, de modo transversal,
fortalece a autonomia e o protagonismo dos sujeitos e dos coletivos envolvidos no processo de saúde, buscando a corresponsabilização, a gestão participativa e o estabelecimento de vínculos com a comunidade e as redes de serviços. Aponta-se que tal Política busca superar relações hierárquicas e produtoras
de isolamento no trabalho, potencializando a comunicação entre pessoas e grupos. A Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde conta com
equipe técnica dedicada ao acompanhamento dos Projetos de Implementação desta Política em apoio técnico às Secretarias Estaduais de Saúde24.
Na mesma direção, a Norma Operacional Básica do Sistema Único de
Assistência Social - NOB/SUAS25 delimita, como parte dos princípios éticos, a prevalência de ações articuladas e integradas para garantir a integralidade da proteção socioassistencial aos usuários dos serviços, programas, projetos
e benefícios (artigo 6º, inciso XVII). Nesse intuito, compreende-se como parte importante da garantia de proteção socioassistencial a intersetorialidade com
as demais políticas públicas (artigo 7º, inciso V). Reflexo da demarcação desses princípios está contemplado nas descrições dos equipamentos e serviços previstos pela política, sempre responsabilizados pela articulação em rede.
Fonte: http://portalms.saude.gov.br/acoes-e-programas/humanizasus
Resolução CNAS nº 33 de 12/12/2012, disponível em: http://www.mds.gov.br/webarquivos/arquivo/assistencia_social/nob_suas.pdf
4.5	Relação com o Sistema de Justiça Conforme apurado pelo CRP-12, em parceria com outras Entidades, e
documentado no “Relatório de Análise sobre as Demandas do Sistema de Justiça aos Serviços Públicos Municipais de Saúde e Assistência Social”26,
muitas/os psicólogas/os sofrem pressão de autoridades do Sistema de Justiça, que se utilizam de formas de comunicação abusivas e coercitivas para
demandar ações que, não raras vezes, extrapolam as atribuições das equipes.
Dentre as demandas encaminhadas pelo Sistema de Justiça e constatadas no levantamento, predominam: pedido de relatórios exageradamente detalhados,
oferecimento de testemunho por parte da equipe, avaliações de usuárias/
os e/ou famílias, atendimento “prioritário” de usuárias/os e/ou famílias, além de retorno em curto prazo, desconsiderando todas as demais atribuições e funções cumpridas por essas/es profissionais.
Quando as demandas extrapolam o escopo das atribuições previstas
nos marcos regulatórios de cada política pública, limitam a atividade fim dos equipamentos/serviços e geram prejuízos ao processo de trabalho e às/aos
usuárias/os, por consequência. Situações que exemplificam tal cenário, o qual denominamos “Transborde da Justiça”, abarcam: a) solicitações para avaliação
psicológica de casos não acompanhados pelo serviço e, ainda, em curto prazo de tempo; b) confusão entre o papel de perita/o (perícia psicológica) e o papel assumido pela/o psicóloga/o na respectiva política pública; c) requerimento de
acesso a informações sigilosas registradas pela/o psicóloga/o para usos alheios
aos serviços prestados; d) intimação para testemunhar e/ou depor em juízo, de forma a interferir no vínculo estabelecido com a família ou a/o atendida/o. 26
O “Relatório de Análise sobre as Demandas do Sistema de Justiça” está disponível em: http://www.crpsc.org.br/ckfinder/userfiles/
files/RELAT%C3%93RIO%20FINAL%20TRANSBORDE.pdf
Durante as inspeções realizadas na presente ação, constatou-se que
em 11 dos 36 equipamentos havia dificuldades na relação com o Sistema
de Justiça: em 05 destes equipamentos (03 CRAS, 01 CAPSI e 01 UBS) a problemática estabelecia-se com o Conselho Tutelar, sendo que na Unidade
de Saúde constatou-se que a Prefeitura Municipal cedia horas de trabalho da/o psicóloga/o para acolhimento no Conselho; nos CRAS havia pouca
compreensão de Conselheiras/os sobre as especificidades do serviço; nos CAPS essa dificuldade era acrescida por demandas do Ministério Público com prazos curtos.
Em outros 04 equipamentos da saúde pública vistoriados percebeu-se
o atravessamento do Sistema de Justiça no atendimento à saúde mental da
população. Em 01 CAPS, este na modalidade Álcool e Drogas, registrou-se que a demanda de internação compulsória na alta complexidade se sobrepunha à internação voluntária e de indicação técnica. Em outro CAPS, modalidade II, as determinações eram atendidas como prioridades e apenas elas contavam
com estratégias como busca ativa de usuárias/os. Em 01 UBS havia demanda excessiva do Sistema de Justiça prejudicando a qualidade do trabalho e, portanto, da promoção de saúde no território.
Em 02 CREAS percebia-se grande empenho da equipe multiprofissional para
estabelecer um bom diálogo com o Sistema de Justiça, em um deles o esforço
se voltava para que não houvesse atendimentos similares a perícias judiciais.
Esses equipamentos visam fortalecer os vínculos familiares e comunitários para superar vulnerabilidades sociais e ciclos de relações violentas. Assim, a
despeito do valioso diálogo com o sistema de garantia de direitos, não lhes cabe o papel de investigação ou perícia. Caso contrário, os papéis institucionais
se confundem, as atuações profissionais ficam prejudicadas e o equipamento
passa a servir para a culpabilização das famílias atendidas, impactando no vínculo com as/os profissionais que, por se tornarem dúbios, impossibilitam processos de superação.
Apontamentos sobre os eventos Apesar do convite ter abrangido psicólogas/os e gestoras/es, houve uma
predominância da presença de psicólogas/os, o que, de certa forma, ratifica a relevância destas ações na medida em que se observa a adesão da categoria
a essas pautas relevantes para uma atuação profissional engajada e com qualidade. Poucas/os gestoras/es estavam presentes, além disso, algumas/ alguns profissionais da assistência social e da pedagogia compareceram.
Conforme apresentado anteriormente, o objetivo do evento foi enfatizar os
parâmetros mínimos para o exercício profissional da Psicologia no SUS e SUAS,
evidenciando a realidade encontrada regionalmente na Ação de Fiscalização e provocando o debate sobre as possibilidades de melhorias aos serviços. Em alguns momentos as/os psicólogas/os manifestaram surpresa com as situações
expostas como, por exemplo, com a realidade de alguns colegas sob vínculos de trabalho temporário e o considerável número de situações envolvendo
problemas estruturais para preservação do sigilo profissional. Notou-se também
a identificação destas/es profissionais com outras problemáticas expostas, como é o caso das dificuldades na relação com o Sistema de Justiça e com a equipe.
Percebeu-se que o evento consolidou-se como um momento de grande
importância para a orientação coletiva da categoria profissional e das/os gestoras/es presentes. Nos momentos de discussão foi possível resgatar temáticas específicas de cada região e política pública, além disso, foi possível
gerar reflexões a partir das dificuldades encontradas, apresentar possibilidades
de ações e argumentos frente a estas, bem como fortalecer psicólogas/os e coletivos na busca pela garantia de direitos das/os usuárias/os atendidas/os.
Foram reforçadas: a importância da participação em órgãos de controle
social, o papel do Ministério Público na fiscalização do Estado, bem como das
ouvidorias do Estado na apuração administrativa de possíveis irregularidades, de Sindicatos na defesa trabalhista e de instituições relacionadas à profissão de
psicólogo (CRP-12, Associação Brasileira de Ensino em Psicologia e Sindicato de Psicólogos de Santa Catarina) para apoiar a mobilização da categoria.
Para além destes temas, foram debatidas questões trazidas pelas pessoas
presentes nos eventos, dentre as quais estavam: elaboração de documentos
psicológicos (modalidades, estrutura e resultado de trabalhos conjuntos com outras/os profissionais), autonomia e identidade profissional da Psicologia (na
relação multiprofissional e com gestoras/es), exclusividade de atividades e instrumentos da profissão, impactos de convicções pessoais (morais, religiosas
e partidárias) na relação profissional, possibilidades de aproximação com o CRP-12 e de articulação regional entre psicólogas/os.
Havia o projeto de, ao final do evento, elaborar uma carta conjunta com a
categoria pactuando saídas possíveis ao cenário institucional/legal e buscando possibilidades para a autonomia profissional. Apesar deste tema ter sido amplamente discutido e abordado, não foi realizada tal carta, tendo em vista o
curto tempo do evento. Em contrapartida, em determinadas regiões percebeuse a organização das/os próprias/os psicólogas/os e profissionais da região no agendamento de reuniões ampliadas com as equipes do SUS e SUAS dos
diversos municípios, com vistas à capacitação, fortalecimento e implantação de melhorias nas políticas nas quais atuam.
Considerações finais Considera-se que a Ação alcançou êxito em evidenciar e problematizar os
parâmetros mínimos para a atuação de psicólogas/os nos serviços públicos municipais de Saúde e Assistência Social, bem como em verificar de modo
amostral essas condições em Santa Catarina. Percebeu-se como significativos
os dados coletados, uma vez que atingiram todas as regiões do estado em igual proporção, assim como municípios de portes distintos. Em síntese,
constatou-se, na fiscalização, como maiores fragilidades: o baixo investimento
em qualificação continuada e os problemas estruturais para a adequação às peculiaridades da profissão nas políticas públicas selecionadas. Por outro lado,
visualiza-se que a profissão se consolidou em aspectos importantes como a predominância de profissionais concursadas/os e a garantia de profissionais habilitadas/os.
No tocante ao objetivo de elucidar sobre as condições mínimas às/aos
gestoras/es municipais, as estratégias alcançaram efetivo resultado junto à categoria, à gestão municipal e na produção de materiais ao público em geral.
Consideram-se como eficientes as ações realizadas de forma focada (fiscalização amostral) e regional (ofícios encaminhados a todos os municípios e eventos regionais), pois, de forma geral, acredita-se ter informado e sensibilizado as/os
gestoras/es para melhor compreenderem a aplicação prática dos parâmetros mínimos aos serviços de Psicologia e tomada de providências para a qualidade dos mesmos.
Nota-se o envolvimento das gestões com a Ação, sobretudo, pelo número
expressivo de 400 psicólogas/os participantes nos eventos, o que evidencia a liberação do dia de trabalho e a autorização para a logística necessária.
Complementarmente, foi possível à categoria acessar de forma otimizada
o serviço de orientação e fiscalização deste CRP e refletir coletivamente proposições de valorização da profissão nesses contextos.
Houve ganho adicional à metodologia específica dessa Ação no
entrelaçamento com o “Relatório de Análise sobre as Demandas do Sistema
de Justiça aos serviços Públicos Municipais de Saúde e Assistência Social”.
Toda a oportunidade criada pela Ação de encontro com o público-alvo do
levantamento pôde ser aproveitada para apresentação regional durante os eventos de esclarecimento. Além da eficiência dos recursos realizados, esse procedimento permitiu uma devolutiva qualificada à categoria sobre a pesquisa realizada.
Destaca-se ainda o considerável avanço através da aproximação com a
categoria e com a gestão municipal, devido ao grande esforço da equipe de
trabalho envolvida e à parceria com a FECAM. Como um elemento positivo apontado acima citam-se os documentos resultantes dessa ação, como os
que constam anexos a este relatório, uma vez que permitem a difusão do conhecimento acumulado sobre condições mínimas para atuação da Psicologia
no SUS e no SUAS. Considera-se que, em posse desses documentos, a categoria
possa se organizar ou participar de coletivos, buscando o aprofundamento de temáticas e estratégias de enfrentamento frente a situações de fragilidade aos serviços.
Mediante tais questões, serão apresentados a seguir os principais elementos
que chamaram a atenção frente aos dados coletados na Ação de Fiscalização. Primeiramente, é importante analisar que há pouca estruturação prática
das Políticas de Educação Permanente, o que fragiliza ainda mais o serviço prestado, em sua maior parte por equipes reduzidas em equipamentos sem
toda estrutura física necessária, e diante de grandes desafios em consolidar
uma rede de serviços públicos efetiva para a garantir o acesso à saúde e a promoção social.
A formação para atuar no SUS e no SUAS requer continuidade e
planejamento devido à complexidade do trabalho multidisciplinar e intersetorial
em constante análise territorial. Somente profissionais capacitadas/os e em
constante comunicação podem concretizar os princípios das duas políticas públicas e os parâmetros éticos da profissão. No entanto, esta premissa foi encontrada em apenas 3 (dos 36) equipamentos vistoriados.
Muitas vezes, o desafio de implementar os serviços e equipamentos
respeitando os parâmetros de cada política pública e o respeito às peculiaridades da profissão é acrescido de outras problemáticas.
Em municípios de pequeno porte, por exemplo, a complexidade desse
esforço se intensifica pela composição reduzida das equipes municipais, que
em sua maior parte (8/12) contam com as/os mesmas/os profissionais para efetivar mais de um equipamento e/ou política.
Nesses casos, o vínculo profissional da equipe com a população e a
continuidade dos serviços são prejudicados por haver mais de um papel para a/o mesma/o profissional. O impacto desta questão à população é sentido quando se percebe que: a/o profissional não está disponível na maior parte
do horário de atendimento; os trabalhos precisam ser interrompidos para troca de turnos; a equipe de um equipamento não consegue se reunir para discutir os casos e trabalhos; o encaminhamento intersetorial não existe já que todo o atendimento é realizado pela mesma pessoa; o vínculo profissional
resultante de um trabalho (p.e.: de uma estratégia clínica na saúde) prejudica o comprometimento do público com uma ação de outro equipamento ou política (p.e.: de uma família no acompanhamento do CRAS).
Na vistoria aos equipamentos de saúde, percebeu-se que a ausência de um
planejamento de qualificação se depara com a fragilidade da implementação da Rede de Atenção Psicossocial Especializada.
O embaraço na articulação intersetorial foi percebido na grande maioria dos
equipamentos de saúde vistoriados, denotando prejuízos aos referenciamentos
dos Núcleos de Apoio da Saúde da Família e dos Centros de Atenção Psicossocial. Com a fragmentação dos serviços, a integralidade e a preservação da autonomia das pessoas atendidas são diretrizes negligenciadas.
É alarmante que, mesmo com todo o conhecimento construído por gerações
de profissionais e militantes para superação do sistema hospitalocêntrico, as equipes ainda lutem para realizar serviços de suporte à Atenção Primária que
promoveriam a autonomia, o protagonismo e a efetiva inserção de usuárias/ os de saúde mental na comunidade onde vivem. Em acréscimo, percebeu-se
carência de leitos em hospitais gerais próximos aos territórios dos equipamentos para internações pontuais. Desse modo, as pessoas em sofrimento psíquico contam com escassos recursos, na maior parte das vezes ambulatoriais,
impossibilitando seu o efetivo acompanhamento que poderia interromper o agravamento dos sintomas.
Nas vistorias realizadas no SUAS, identificou-se como resultado da
ausência de processos de qualificação e comunicação da equipe, o pouco
esclarecimento sobre o papel da Psicologia, impactando sobre a autonomia das/ os profissionais e, consequentemente, na qualidade dos serviços prestados.
O desconhecimento da importante contribuição da profissão para promover análises e desenvolver estratégias sobre as potencialidades e desafios do território e das famílias atendidas cerceia o direito de usuários em acessar o melhor do trabalho interdisciplinar.
Sobre as condições estruturais percebeu-se, como ponto mais alarmante, o
investimento insuficiente em imóveis com espaços apropriados ao acolhimento de informações confidenciais (em 21 dos 36) e em mobiliário e equipamentos mínimos (em 20 das 36 vistorias).
Quanto ao isolamento acústico, salienta-se que pessoas atendidas por
profissionais da Psicologia contam com a garantia do sigilo profissional,
instituído pelo Código de Ética da categoria. Com a amplitude de atuação da Psicologia, nem todas as atividades precisam ser realizadas em salas fechadas,
no entanto, algumas estratégias exigem locais reservados, tais como: as clínicas e o acolhimento de informações que revelam a intimidade de pessoas e famílias
atendidas. A ausência desses locais para a realização desses atendimentos possibilita a ocorrência de infrações éticas e submete as pessoas atendidas
a situações constrangedoras remetendo a serviços precarizados e pouco efetivos.
Por outro lado, pontua-se que como as/os demais profissionais que
atuam nos equipamentos vistoriados, as/os psicólogas/os investem grande
esforço para acessar instrumentos de trabalho básicos. Muitas vezes, o tempo empregado na busca por eles ou o investimento pessoal para supri-los desmotiva a equipe, tornando o trabalho árduo e infrutífero.
Do mesmo modo, a precariedade estrutural impõe barreiras à população
que busca por serviços públicos de saúde e da assistência social. Algumas situações que denotam essas dificuldades são: encaminhamento para outro serviço (por falta de telefone), encontros com a equipe nos espaços dos territórios (por falta de transporte), atividades para a expressão da subjetividade
(por falta de material lúdico), demora para atendimentos (por revezamento de
salas com móveis mais adequados ou para esperar que o profissional registre
nos prontuários no momento em que o computador está disponível). Nesse
sentido, o CRP-12 reitera seu compromisso com a efetivação das políticas públicas de Saúde e de Assistência Social, garantindo condições para que a
categoria e a sociedade acessem essa Autarquia como espaço de luta e de construção de parâmetros que consolidem a Psicologia enquanto protagonista de tais ações, sendo reconhecida entre as demais profissões que também realizam tal trabalho, na perspectiva de promover transformações sociais significativas à qualidade de vida das pessoas e das coletividades.
Recomendações 7.1	Às/aos psicólogas/os A/o psicóloga/o deve sempre considerar as normativas éticas da profissão,
notadamente do Código de Ética que pressupõe, dentre os seus Princípios
Fundamentais, a análise crítica da realidade e a garantia do acesso à população aos conhecimentos científicos e aos padrões éticos da profissão. O Código, assim como as demais normas da ética profissional, prima por um padrão de
conduta centrado na Declaração Universal de Direitos Humanos e coerente
aos valores da sociedade brasileira pós Constituição Federal de 1988 e das práticas desenvolvidas pela Psicologia em seu rigor técnico científico. O zelo da profissão por estes valores impulsiona o protagonismo social na superação de vulnerabilidades individuais, familiares e comunitárias e repudia o uso da
profissão para a manutenção de relações de opressão, revelando seu papel em uma sociedade democrática.
Em acordo com o Código Ética Profissional de Psicólogo, principalmente
em seus artigos 1º, alínea “c”, e 3º, estão entre as obrigações da/o psicóloga/o ofertar serviços em condições apropriadas à natureza dos serviços, bem como
analisar se a cultura institucional (a missão, a filosofia, as políticas, as normas e as práticas vigentes) são compatíveis com os princípios e regras do Código.
É responsabilidade das/os psicólogas/os que atuam em determinado
equipamento/serviço esclarecer sobre as peculiaridades da profissão (com
base no artigo 1º, alínea “a”) a colegas de trabalho, gestoras/es e ao público em geral, engajando-se por conquistar condições apropriadas aos serviços
prestados. É esperado que psicólogas/os se recusem a prestar serviços em
situações incompatíveis ao Código de Ética (conforme artigo 3º, § único). Nesse
sentido, é fundamental que a categoria leia atentamente o presente Relatório, utilizando-o como instrumento de esclarecimento à população, colegas e gestores, bem como no engajamento em reivindicações por condições adequadas de atendimento.
A relação respeitosa entre profissionais é compromisso da Psicologia que
certamente se fortalece no trabalho multidisciplinar, na mobilização de grupos
organizados e na participação em espaços de controle social (como Conselhos
Municipais de Saúde ou de Direitos). O CRP-12 apoia e incentiva a luta da categoria pela valorização das políticas públicas e na manutenção do Estado
democrático. Nesse sentido, promove ações estratégicas de articulação e mobilização política, bem como dispõe de equipe para subsidiar a reflexão
ética e oferecer suporte institucional na elucidação das diretrizes éticas da profissão em Santa Catarina.
7.2	Às/aos gestoras/es Municipais: O CRP-12 realizou essa Ação com o objetivo de contribuir com a
qualidade dos serviços públicos municipais de Saúde e Assistência Social em
Santa Catarina. Com o mesmo intuito, permanece à disposição de gestoras/ es, trabalhadoras/es e população cumprindo seu papel de elucidar as peculiaridades éticas da profissão.
O presente relatório pretende servir de instrumento para consulta a respeito
de parâmetros mínimos da Psicologia no contexto das Políticas Públicas. Por isso, recomenda-se a leitura cuidadosa do material, tendo em vista que
o mesmo oferece subsídios para o entendimento e o devido atendimento a
parâmetros que visam conferir qualidade aos serviços desenvolvidos pela Psicologia. Ademais, é oportuno mencionar que, mediante dúvidas relativas
à ética e/ou técnica profissional, o CRP-12 está sempre aberto a dialogar e
construir propostas e possibilidades de ação e intervenção, com base nas suas atribuições legais.
A – Modelo de ofícios enviados às/aos gestoras/res municipais no início da ação
B â&#x20AC;&#x201C; Modelo do Termo de Visita
C – Modelo de notificação às/aos gestoras/es municipais
Referências CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. CREPOP. Referência técnica
para atuação do(a) psicólogo(a) no CRAS/SUAS. Brasília: CFP, 2007.
CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA 12ª REGIÃO. COMISSÃO DE
ORIENTAÇÃO E FISCALIZAÇÃO. Relatório de Análise sobre as Demandas do Sistema de Justiça aos Serviços Públicos Municipais de Saúde e Assistência Social. Florianópolis: CRP-12, 2016.
DA ROS, M. A. Estilos de pensamento em saúde pública: um estudo
da produção da FSP/USP e ENSP/FIOCRUZ entre 1948 e 1994, a partir
da epistemologia de Ludwik Fleck. 2000. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.
LANCETTI, A. Clinica peripatética. São Paulo: Hucitec, 2008.
Instagram @crp12sc Facebook fb.com/crp12sc Twitter @crp12sc YouTube youtube.com/crp-sc Site www.crpsc.org.br
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