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Timestamp: 2019-08-22 14:29:16+00:00
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Matched Legal Cases: ['artigo 301', 'artigo 311', 'artigo 283', 'artigo 311', 'artigo 283', 'artigo 312', 'artigo 312', 'artigo 282', 'artigo 313', 'Artigo 313', 'artigo 312', 'artigo 313', 'artigo 313', 'artigo 313', 'artigo 313', 'artigo 313', 'artigo 314']

A prisão preventiva é um tema que cada vez mais é objeto de discussões, sendo que os requisitos para a sua decretação nem sempre são bem compreendidos, tanto pelos operadores do Direito quanto por aqueles que não são do ramo.
Nesse texto, então, o objetivo é falar um pouco sobre quais são os requisitos para se decretar a prisão (preventiva) de alguém.
O primeiro ponto que preciso destacar é sobre a existência de mais de um tipo de prisão. Temos a prisão em flagrante (artigo 301 e seguintes do Código de Processo Penal), a prisão preventiva (artigo 311 e seguintes do Código de Processo Penal), a prisão temporária (Lei 7.960/89) e a prisão para cumprimento de pena.
Sugiro a leitura do texto acima para melhor compreensão dos tipos de prisão, pois o objetivo aqui é falar especificamente sobre a prisão preventiva.
Segundo o artigo 283 do Código de Processo Penal:
Assim, depreende-se que a única prisão que não depende de ordem judicial (escrita e fundamentada) para ser cumprida é a em flagrante, sendo que as demais, como a preventiva, só poderão ser realizadas se determinadas em uma decisão escrita e devidamente fundamentada.
Além do mais, vemos que cada prisão tem a sua fase: a prisão em flagrante ocorre no início do processo; a preventiva pode ocorrer em qualquer fase (tanto na investigação quanto na instrução processual); a temporária durante a investigação; e a prisão para cumprimento de pena após o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
De acordo com o artigo 311 do Código de Processo Penal:
Diante disso, a prisão preventiva poderá ser decretada tanto durante a investigação policial (inquérito) quanto no processo penal (ação penal), sendo que na fase de investigação só há possibilidade de decretação quando requerido, ou seja, é preciso provocar o magistrado para tal finalidade.
Agora que já vimos o momento em que é possível decretar a prisão preventiva, vejamos quais são os seus requisitos.
O primeiro ponto a ser abordado diz respeito à necessidade de a decisão que decretar a prisão preventiva ser escrita e devidamente fundamentada. Essa determinação está tanto no artigo 283 quanto no 315, ambos do Código de Processo Penal.
Tal exigência visa dar maior segurança jurídica ao ato e evitar (ou diminuir) arbitrariedades.
O grande ponto é que muitas vezes vemos decisões fundamentadas de forma genérica e sem demonstrar especificamente a necessidade da medida (prisão preventiva) para aquele caso concreto, o que acaba por banalizar e prejudicar a correta aplicação legal.
Os requisitos estão nos artigos 312 e seguintes do Código de Processo Penal, sendo que o artigo 312 estabelece que:
Desse modo, além da comprovação da existência do crime (materialidade) e indício suficiente de autoria, nós temos como requisitos:
a garantia da ordem pública;
a garantia da ordem econômica;
a conveniência da instrução criminal;
para assegurar a aplicação da lei penal.
Segundo NUCCI, a garantia da ordem pública:
trata-se da hipótese de interpretação mais extensa na avaliação da necessidade da prisão preventiva. Entende-se pela expressão a necessidade de se manter a ordem na sociedade, que, como regra, é abalada pela prática de um delito. Se este for grave, de particular repercussão, com reflexos negativos e traumáticos na vida de muitos, propiciando àqueles que tomam conhecimento da sua realização um forte sentimento de impunidade e de insegurança, cabe ao Judiciário determinar o recolhimento do agente. (Nucci, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. p. 652.)
trata-se de uma espécie do gênero anterior, que é a garantia da ordem pública. Nesse caso, visa-se, com a decretação da prisão preventiva, a impedir possa o agente, causador de seríssimo abalo à situação econômico-financeira de uma instituição financeira ou mesmo de órgão do Estado, permanecer em liberdade, demonstrando à sociedade a impunidade reinante nessa área. (Nucci, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. p. 659-660).
trata-se do motivo resultante da garantia de existência do devido processo legal, no seu aspecto procedimental. A conveniência de todo processo é realização da instrução criminal de maneira lisa, equilibrada e imparcial, na busca da verdade real, interesse maior não somente da acusação, mas, sobretudo, do réu. Diante disso, abalos provocados pela atuação do acusado, visando à perturbação do desenvolvimento da instrução criminal, que compreende a colheita de provas de um modo geral, é motivo a ensejar a prisão preventiva. (Nucci, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. p. 660).
Assegurar a aplicação da lei penal, por sua vez:
significa garantir a finalidade útil do processo penal, que é proporcionar ao Estado o exercício do seu direito de punir, aplicando a sanção devida a quem é considerado autor de infração penal. Não tem sentido o ajuizamento da ação penal, buscando respeitar o devido processo legal para a aplicação da lei penal ao caso concreto, se o réu age contra esse propósito, tendo, nitidamente, a intenção de frustrar o respeito ao ordenamento jurídico. (Nucci, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. – 13. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. p. 662).
Outrossim, segundo o parágrafo único do artigo 312, “A prisão preventiva também poderá ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de outras medidas cautelares (art. 282, § 4º)”.
Assim, haverá possibilidade de se decretar a prisão preventiva no caso de o acusado não cumprir outras medidas cautelares (diversas da prisão) que lhe foram impostas, como, inclusive, já consta no artigo 282, § 4º, do Código de Processo Penal:
No caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas, o juiz, de ofício ou mediante requerimento do Ministério Público, de seu assistente ou do querelante, poderá substituir a medida, impor outra em cumulação, ou, em último caso, decretar a prisão preventiva (art. 312, parágrafo único).
Além da garantia da ordem pública; da garantia da ordem econômica; da conveniência da instrução criminal; e para assegurar a aplicação da lei penal, é necessário observar outros requisitos, como no caso do artigo 313 do Código de Processo Penal, segundo o qual, será admitida a decretação da prisão preventiva:
Artigo 313, CPP
Portanto, não basta o preenchimento dos requisitos do artigo 312, é necessário observar também o que estabelece o artigo 313, sendo que não são requisitos cumulativos, bastando o preenchimento de um deles.
Art. 313, I
Conforme o artigo 313, inciso I, para decretar a prisão preventiva o crime imputado ao acusado deve ser doloso e a pena privativa de liberdade máxima atribuída a ele deve ser superior a 04 (quatro) anos.
Assim, o crime de roubo simples, por exemplo, que é doloso e tem pena mínima de 04 (quatro) anos e máxima de 10 (dez) anos, é passível de prisão preventiva, pois preenche os requisitos.
Já o crime de receptação, que também é doloso, mas tem pena mínima de 01 (um) ano e máxima de 04 (quatro) anos, não preenche os requisitos para a decretação da prisão preventiva.
Essa exigência legal se dá pelo fato de que, em regra, crimes com pena máxima igual ou inferior a 04 anos de reclusão possibilitarão apenas a fixação do regime aberto como sendo o inicial de cumprimento de pena e, consequentemente, não possibilitariam a prisão como forma de cumprimento de pena.
Desse modo, se nem a condenação imporia ao acusado a prisão, impossível admitir, como medida cautelar, no curso do processo, a decretação de uma prisão.
Ou seja, não há possibilidade de admitir uma medida cautelar mais gravosa que a própria condenação.
No caso de crime culposo, será possível a decretação da prisão preventiva? Veja o texto acima e tire as suas conclusões.
Art. 313, II
O requisito do inciso II (do artigo 313), faz menção à reincidência, ou seja, a possibilidade de decretar a prisão preventiva no caso de existir uma condenação penal pela prática de outro crime doloso, em sentença transitada em julgado.
Veja que nesse caso a lei exige a prática de dois crimes dolosos, pois ela fala em “outro crime doloso”, o que pressupõe que o indivíduo responda por um crime doloso e tenha sido condenado por outro crime doloso.
Aqui, pouco importa se o crime possui pena máxima inferior, igual ou superior a 04 (quatro) anos de prisão, pois a reincidência faz com que o regime inicial a ser fixado seja sempre o semiaberto ou o fechado, dependendo da pena atribuída, o que, consequentemente, não ofende o princípio da proporcionalidade.
Art. 313, III
A terceira hipótese do artigo 313 diz respeito à necessidade de garantir a execução das medidas protetivas de urgência, quando “o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência”.
Dessa feita, não basta apenas a violência doméstica ou familiar, é preciso que a medida (prisão preventiva) seja necessária para a garantira a execução das medidas protetivas.
Art. 313, § único
A última hipótese do artigo 313, contida em seu parágrafo único, faz menção à “dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê-la”, sendo que a pessoa deverá ser colocada “imediatamente em liberdade após a identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção da medida”.
Art. 314E importante destacar que, nos termos do artigo 314, CPP, “A prisão preventiva em nenhum caso será decretada se o juiz verificar pelas provas constantes dos autos ter o agente praticado o fato nas condições previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 23 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal”.
Isso significa que sendo o caso de estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito, não haverá se falar em prisão preventiva.
Agora que já vimos os requisitos para se decretar uma prisão preventiva, preciso fazer algumas considerações.
Vivemos em uma época da banalização e espetacularização do direito penal (processual penal).
Todos pensam que entendem sobre o assunto e acreditam que a prisão é a solução para os nossos (muitos) problemas (mas não é).
Com isso, independentemente do crime praticado, vemos a ferrenha defesa pela decretação da prisão preventiva do seu autor, sem nem mesmo verificar se os requisitos para tanto foram preenchidos.
O que muitos não entendem é que a prática de crimes não está necessariamente vinculada à prisão, ou seja, crime e prisão não são duas coisas que estão interligadas. Muitas infrações penais não são passíveis de prisão.
Se toda infração penal resultasse obrigatoriamente em prisão, todos nós já teríamos sido presos ao menos uma vez na vida, pois com certeza já praticamos alguma.
A prisão é medida excepcional, devendo ser aplicada apenas àquelas situações em que nenhuma outra medida cautelar é suficiente, e não realizada de forma arbitrária, banal, midiática e popularizada como estamos fazendo.
Pois é assim que legitimamos a ilegalidade para fins de se “fazer justiça”.
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