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3 Em conclusão e síntese: ) a figura do crime continuado considera os casos de pluralidade de acções homogéneas que, apesar de enquadrar cada uma delas no mesmo tipo penal ou em tipos penais com igual núcleo típico, uma vez realizada a primeira, as posteriores se apreciam como a sua continuação, apresentando assim uma dependência ou vinculação em virtude da qual se submetem a um único desvalor normativo, que as reduz a uma unidade delitiva; ) o punto nodens do crime continuado, situa-se na existência de uma circunstância exterior que diminua consideravelmente a culpa do agente - o quid essencial está em saber em que medida a solicitação externa diminui a censura que determinada conduta merece; ) só ocorrerá diminuição sensível da culpa do agente, tradutora de uma menor exigibilidade para que o agente actue de forma conforme ao direito, quando essa tal circunstância exógena se lhe apresenta de fora, não sendo o agente o veículo através do qual a oportunidade criminosa se encontra de novo à sua mercê; ) sempre que as circunstâncias exógenas ou exteriores não surjam por acaso, em termos de facilitarem ou arrastarem o agente para a reiteração da sua conduta criminosa, é de concluir pela existência de concurso real de crimes; ) o caso, as circunstâncias são conscientemente criadas e mantidas pelo agente para concretizar a sua intenção criminosa - é o próprio arguido a determinar o cenário de publicitação de venda de peças pela internet, agindo de modo a afeiçoar a realidade exterior aos seu desígnios e propósitos sendo ele a dominá-la, e não esta a condicioná- lo; ) não se verifica, pois, uma circunstância exterior determinante, mas sim uma predisposição anterior do agente; ) assim, estando o «núcleo duro» da continuação criminosa na diminuição considerável da culpa entendida esta na sua concepção normativa, e não apenas psico-fisiológica), de menor exigência de actuação do arguido de acordo com o direito devido a uma situação objectiva exterior com que se depara, operar-se-ia um absoluto desvirtuar da figura se se entendesse actuar com culpa diminuída o agente que se depara com uma circunstância facilitadora do crime que, afinal, fora criada pelo próprio; ) os acordos sucessivos com os ofendidos, a recepção de montantes em dinheiro e a emissão consequente de facturas a titular entregas de bens nunca efectivadas, por cinquenta e duas vezes, durante cerca de dois anos, segundo processos independentes e autónomos, invocando justificações diversas para os incumprimentos negociais, é de tal modo expressivo, de acordo com as regras da experiência comum, que não pode deixar de se afirmar que a cada nova conduta o agente se determinou a preencher o tipo legal de crime em causa, vencendo uma e outra vez as contramotivações éticas que o tipo legal de crime transporta.