Source: https://jus.com.br/artigos/30294/agencias-de-emprego
Timestamp: 2019-10-19 17:48:27+00:00

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Agências de emprego e violação ao princípio da não mercantilização do trabalho - Jus.com.br | Jus Navigandi
violação ao princípio da não mercantilização do trabalho
A atividade de recrutamento realizada por agências de emprego, quando custeada pelo trabalhador, constitui grave violação ao princípio da não mercantilização do trabalho, além de indevido gravame ao trabalhador que assume o encargo financeiro por serviço prestado em benefício do empregador. Por assumir os riscos da atividade econômica (CLT, artigo 2º), é de responsabilidade do empregador o processo de recrutamento e seleção dos trabalhadores.
Em razão de seu valor social, o trabalho é objeto de tutela especial por normas de ordem pública, isto significando que a liberdade de contratar, nesta matéria, é restrita, não sendo autorizado aos particulares negociar o conteúdo mínimo “indisponível” dos direitos trabalhistas, assim entendido como aquele que, de acordo com princípios constitucionais e a legislação própria, preserve a condição humana do trabalhador. Quer dizer, o Estado limita a autonomia da vontade para preservar o princípio da dignidade da pessoa humana do trabalhador.
O direito social ao trabalho é incompatível com condutas que dificultem o acesso pelo trabalhador ao mercado de trabalho. O trabalhador não pode ser onerado economicamente para exercer dessa garantia constitucional (CF, artigo 6º).
O Tratado de Versalhes, documento que é o marco da internacionalização do Direito do Trabalho, estabeleceu, em seu art. 427, o princípio fundamental segundo o qual “o trabalho não há de ser considerado como mercadoria ou artigo de comércio”. Este postulado foi incorporado posteriormente pela Organização Internacional do Trabalho através da Declaração da Filadélfia, cujo anexo estabelece:
O postulado acima mencionado significa que o trabalho não pode ser tratado como um bem meramente econômico. Isto é, há de ser observado um conteúdo mínimo de limitações à alienação do trabalho, na medida em que se reconhece que as transações entre o capitalista e o trabalhador não podem afastar padrões mínimos que assegurem a dignidade da pessoa humana.
Além de integrar o ordenamento jurídico pátrio como norma supralegal, o princípio da não mercantilização do trabalho foi plenamente incorporado pela Constituição de 1988. A Carta Magna prescreve que a República Federativa do Brasil tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, estabelecendo, no seu Título II, Capítulo II, os direitos sociais, dentre os quais se destacam os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, merecendo relevo o direito à relação de emprego. Por seu turno, a Ordem Econômica e Financeira, no Título VII, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, possui como princípio a busca do pleno emprego (CF, artigos 1º, incisos III e IV, 7º, caput e inciso I, e 170, caput e inciso VIII).
A ordem jurídica vigente, portanto, repele a possibilidade de se admitir como mercadoria, bem comerciável ou moeda de troca para aquisição de produtos e/ou serviços o valor social trabalho, cujo conteúdo se conecta com a dignidade da pessoa humana. E isso sob pena de restar ferida esta última, quando aquele valor social é inserido como mercadoria, moeda de troca. Não custa lembrar que a ordem social tem como base o primado do trabalho e como objetivo o bem-estar e a justiça social (CF, artigo 193).
Muitas agências de emprego auferem seus lucros recrutando e selecionando trabalhadores que serão contratados por empresas, sendo que aos trabalhadores é imposto o custo de tal operação. Os trabalhadores que se submetem a esta condição, certamente premidos pela necessidade urgente e muitas vezes desesperadora de subsistência, estão se vendo obrigados a onerar-se economicamente para poder exercer um direito social constitucionalmente assegurado.
Portanto, a comercializando do “trabalho alheio” se choca frontalmente com todos os princípios constitucionais acima referidos, em especial o de proteção à dignidade do trabalhador e do trabalho como valor social. Ao admitir-se como lícita tal conduta, estar-se-ia permitindo, por via indireta, repassar ao empregado os custos do processo de recrutamento e seleção de trabalhadores, certamente inerentes à atividade econômica e, portanto, a ser suportados pelo empregador e jamais pelo trabalhador.
Analogicamente, as empresas de trabalho temporário (Lei n. 6.019/74, artigo 18) não podem impor valores a seus empregados para encaminhá-los ao mercado de trabalho:
A esse respeito, merece destaque a Convenção 181 da OIT que regula a atividade das agências privadas de emprego, cujo artigo 7º estabelece:
A Convenção n. 181 da OIT representa, pois, efetivação do princípio da não mercantilização do trabalho. Fica patente também que é vedada a imposição “indireta” de encargos ou honorários.
Observe-se que não se pretende impedir ou extinguir a atividade econômica de empresas que prestam serviços de recrutamento, preparação, treinamento, encaminhamento ao mercado de trabalho, headhunter, etc., mas apenas disciplinar tal atividade aos princípios constitucionais e à ordem jurídica trabalhista. Obviamente as agências poderão continuar a exercer sua atividade, mas atribuindo o custo do serviço ao empregador, responsável pelos custos do recrutamento, como preconiza a OIT.
Alerta-se que a não ratificação da Convenção n. 181 da OIT pelo Governo Brasileiro não atua como obstáculo à sua aplicação como fonte subsidiária do direito do trabalho, em virtude da possibilidade de aplicação do direito comparado na esteira do vazio legislativo, conforme autoriza claramente o art. 8º da CLT:
A aplicação das convenções da OIT pela Justiça do Trabalho na hipótese de vazio legislativo, com fundamento no art. 8º. da CLT, é entendimento respaldado pela 1ª. Jornada de Direito Material e Processual na Justiça do Trabalho, realizada em 23.11.2007:
3. FONTES DO DIREITO – NORMAS INTERNACIONAIS. I – FONTES DO DIREITO DO TRABALHO. DIREITO COMPARADO. CONVENÇÕES DA OIT NÃO RATIFICADAS PELO BRASIL. O Direito Comparado, segundo o art. 8º da Consolidação das Leis do Trabalho, é fonte subsidiária do Direito do Trabalho. Assim, as Convenções da Organização Internacional do Trabalho não ratificadas pelo Brasil podem ser aplicadas como fontes do direito do trabalho, caso não haja norma de direito interno pátrio regulando a matéria. II – FONTES DO DIREITO DO TRABALHO. DIREITO COMPARADO. CONVENÇÕES E RECOMENDAÇÕES DA OIT. O uso das normas internacionais, emanadas da Organização Internacional do Trabalho, constitui-se em importante ferramenta de efetivação do Direito Social e não se restringe à aplicação direta das Convenções ratificadas pelo país. As demais normas da OIT, como as Convenções não ratificadas e as Recomendações, assim como os relatórios dos seus peritos, devem servir como fonte de interpretação da lei nacional e como referência a reforçar decisões judiciais baseadas na legislação doméstica.
Da mesma forma, cumpre ressaltar que a Declaração da OIT sobre os princípios e direitos fundamentais no trabalho e seu seguimento, adotada durante a Conferência Internacional do Trabalho na octogésima sexta reunião datada de 18/06/98, em seu artigo 1º, estabelece que, ao incorporar-se livremente à OIT, todos os Membros aceitaram os princípios e direitos enunciados em sua Constituição e na Declaração de Filadélfia, e se comprometeram a esforçar-se para atingir os objetivos gerais da Organização com o melhor de seus recursos e de acordo com suas condições específicas; bem como que, ainda que não tenham ratificado as Convenções, têm um compromisso derivado do simples fato de pertencer à Organização de respeitar, promover e tornar realidade, de boa fé e de conformidade com a Constituição, os princípios relativos aos direitos fundamentais que são objeto dessas Convenções.
Em conclusão, denuncia-se a violação aos direitos fundamentais do trabalhador a conduta praticada por agências de emprego que impõem os custos do recrutamento ao trabalhador. Tal conduta, como demonstrado, viola o princípio da não mercantilização do trabalho, bem como o princípio da dignidade da pessoa humana, razão pela qual deve ser refutada pelos operadores do direito.
OLIVEIRA NETO, Alberto Emiliano de. Agências de emprego: violação ao princípio da não mercantilização do trabalho. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 19, n. 4034, 18 jul. 2014. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/30294. Acesso em: 19 out. 2019.
Edson Martins Areias 11/09/2014 21:06
Rui Nerys 19/07/2014 15:49
Haja visto grandes sítios com a CATHO, a INFOJOBS, onde o desempregado, ou aquele que busca melhoria em sua carreira paga para “publicar seus” currículos online" afrontando frontalmente as leis, não só, mas também a moral, pois aquele que não tem trabalho, recorre de uma forma ou de outra a conseguir o valor “da mensalidade”, valor esse além de dez por cento do salário-mínimo ao mês. Quiçá por vários meses.
O mais imoral é que é julgado, a forma que o currículo está escrito e não a real capacidade e potencialidade do “candidato”. Prova é que as primeiras informações “SOLICITADAS”, são idade, sexo e foto, sendo deixados para segundo plano as outras informações. Mesmo sem que o cargo exija um determinado sexo, ou com uma determinada idade, esse DIREITO não é respeitado e sim desrespeitado.
Esses mesmos currículos pagos para estar “online” são “pescados” pelo inverso, as “agências de empregos”, que cobram das empresas para buscar candidatos para seleção. Se fosse um imposto seria “bis in idem”, aqui é imoralidade mesmo.
Outro ponto que gostaria de salientar é o caso do ESTAGIÁRIO dos escritórios de Advocacia.
Há aqui um paradoxo: para ser estagiário precisa da CARTEIRA DE ESTAGIÁRIO DA OAB, porém, para conseguir tirar a CARTEIRA DE ESTAGIÁRIO DA OAB, precisa do contrato de estágio; ou seja, é surreal
O mais estranho e malévolo; a OAB busca regular a profissão do Advogado, porém, isso somente acontece se ele sobreviver ao sistema. Nos dias de hoje se cogita o estágio obrigatório, onde, e como deveria ser a questão.
Sem contar que o estagiário em escritório de advocacia é um auxiliar de escritório rotulado de “estagiário”, onde o ideal da condição seria o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos conhecimentos do estudante/bacharel em direito e não um “funcionário” mais barato contratado ao revés da Lei, ao revés da CLT.
Conclusão: está tudo errado!

References: artigo 2
 artigo 6
 artigo 193
 artigo 18
 artigo 7
 artigo 1