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Revista Sã Doutrina 4 corpo2
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1edição setembro de 1999 Tradução, estudos introdutórios e notas
Produção gráfica Geraldo Alves Paginacão/Fotolitos
A verdade e a evidência - estudo introdutório
Questões disputadas de Tomás de Aquino
Primeira questão - Sobre a verdade
Nota introdutória a "Sobre a diferença entre a palavra divina e a humana.................................. 283 De differentia verbi divini et humani
Nota introdutória à questão disputada "Sobre o verbo".................................................................... 299 Quaestio quarta - De verbo
Cronologia de Tomás de Aquino Contexto em que ocorre o nascimento de Tomás
Infância e adolescência no Reino de Nápoles
Juventude na Ordem dos Frades Pregadores
Tomás de Aquino: vida e pensamento
1. Introdução: atualidade de Tomás
VERDADE E cccccccccc CONHECIMENTO
(Questões disputadas "Sobre a verdade" e "Sobre o verbo" e "Sobre a diferença entre a palavra divina e a humana")
Tradução, estudos introdutórios e notas de: LUIZ JEAN LAUAND e MARIO BRUNO SPROVIERO
Títulos dos originais: QUAESTIONES DISPUTATAE DE VERITATE (QUAESTIO I e IV)
e DE DlFFEgENTlA VERBIDIVINI ET HUMAN1.
Copyright © livraria Martins Fontes Editora Uda.,
São Paulo. 1999. para a presente edição.
1'edição
Tradução, estudos introdutórios e notas
WIZJEANLAUAND
Preparação do original
Luzia Aparecida dos Santos
Revisão grafica
Teresa Cecília de Oliveira Ramos
Ivany Picasso Batista
Paginacão/Fotolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial (6957-7653)
Dados Infcrnacionafe de Catalogação na Publicação (C1P) (Câmara Brasnara do Livro, SP, Brasl)
Tomás de Aquino, Santo, 12257-1274.
Verdade e conhecimento / Santo Tomás de Aquino ; tradução, estados introdutórios e notas de Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. - São Paulo : Martins Fontes, 1999. - (Clássicos)
Títulos originais: Quaestiones disputatae de verítate (quaestio I e IV) e De difierentia verbi divini et humani.
ISBN 85-336-1100-5
1. Conhecimento 2. Palavra (Teologia) 3. Ibmás, de Aquino, Santo, 12257-1274 4. Verbo (Pessoa divina) 5. Verdade I. Lauand, Luiz Jean, 1952-. II. Sproviero, Mario Bruno. m. Título. IV. Serie.
99-3261_________________________________________CDD-189.4
índices para catalogo sistemático:
Í.Tomás de Aquino : Filosofia medieval 189.4
Urraria Martins Fontes Editora lida.
Rua Conselheiro Ramalho, 3301340
01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (011)239-3677 Fax (011)3105-6867
e-mail: info@martinsfontes.com
http:llvnfw.mamnsfontes.com
"Ventas uniuscuiusque rei est propietas sui esse quod sabilitum est ei."
"A verdade de uma coisa é a característica própria de seu ser, que lhe foi dada como propriedade constante."
(Avicena, citado por Tomás I, 16, 3)
Prólogo (LJL)............................................................ XI
Cronologia de Tomás de Aquino (LJL)............... XV
-estudo introdutório geral (LJL)......................... 1
1. Introdução: atualidade de Tomás...................... 1
2. O quadro histórico de Tomás: um século de contradições................................................................. 4
3. O "Movimento da Pobreza", Aristóteles e a universidade........................................................ 9
4. A quaestio disputata, essência da universidade.. 15
5. A Criação pelo Verbo: fundamento do conhecimento e da inesgotabilidade do conhecimento.. 20
6. O filosofar cristão............................................... 42
7. O método de Tomás: fenômeno e linguagem . 48
8. O Verbo, o falar e a palavra.............................. 52
9. Ser e participação em Tomás............................. 55
10. Tomás do Deus Criador..................................... 64
11. A alma como forma............................................ 67
12. Nota sobre a unidade do ser humano.............. 70
13. Outras notas sobre a quaestio disputata "Sobre
o verbo"............................................................... 72
(MBS)......................................................................... 81
Parte I- A questão da verdade................................ 81
1. Introdução............................................................. 81
2. A concepção semântica da verdade.................... 83
3. Concepções idealistas da verdade....................... 86
4. Concepção de verdade do pragmatismo............ 92
5. A concepção voluntarista da verdade................. 94
6. A verdade na hermenêutica................................. 96
7. A verdade em Heidegger..................................... 99
8. O conceito de verdade nas Escrituras................. 106
Parte M- O fundamento da evidência e da certeza... 111
1. Introdução............................................................. 111
2. A evidência individual.......................................... 114
3. A evidência coletiva............................................. 119
4. A evidência do consenso universal..................... 121
5. O critério último da verdade............................... 125
Questões disputadas de Tomás de Aquino...... 133
Nota introdutória à questão disputada "Sobre
a verdade"................................................................ 135
Quaestio prima-De veritate (texto latino)........ 138
Primeira questão - Sobre a verdade................... 139
Artigo 1 Que é a verdade?.................................... 139
Artigo 2 Se a verdade encontra-se antes no intelecto do que nas coisas.......................... 157
Artigo 3 Se a verdade é somente no intelecto
componente e dividente......................... 165
Artigo 4 Se há somente uma verdade pela qual
todas as coisas são verdadeiras.............. 171
Artigo 5 Se alguma outra verdade além da primeira é eterna......................................... 189
Artigo 6 Se a verdade criada é imutável.............. 217
Artigo 7 Se em Deus a verdade diz-se essencialmente ou pessoalmente.......................... 231
Artigo 8 Se toda verdade depende da verdade
primeira.................................................... 237
Artigo 9 Se a verdade é nos sentidos................... 249
Artigo 10 Se alguma coisa é falsa........................... 253
Artigo 11 Se há falsidade nos sentidos.................. 269
Artigo 12 Se há falsidade no intelecto................... 277
Nota introdutória a "Sobre a diferença entre a palavra divina e a humana''.................................. 283
De differentia verbi divini et humani (texto latino)................................................................................ 284
Sobre a diferença entre a palavra divina e a
humana.................................................................... 285
Introdução................................................................. 285
o verbo".................................................................... 299
Quaestio quarta - De verbo (texto latino)........... 300
Quarta questão - Sobre o verbo.......................... 301
Artigo 1 Se o nome verbo se aplica propriamente
nas relações divinas................................ 301
Artigo 2 Se verbo se atribui a Deus essencialmente ou só de modo pessoal............... 323
Artigo 3 Se verbo compete ao Espírito Santo...... 337
Artigo 4 Se o Pai profere as criaturas com o verbo com que profere a si mesmo........... 343
Artigo 5 Se a palavra verbo contém em si referência às criaturas.................................... 355
Artigo 6 Se as coisas são mais verdadeiras no
Verbo ou em si mesmas......................... 367
Artigo 7 Se o Verbo é daquelas coisas que não
são nem serão nem foram...................... 375
Artigo 8 Se todas as coisas que foram feitas são
vida no Verbo........................................ 379
Glossário................................................................. 387
Apresentamos ao leitor, sob o título Verdade e conhecimento, a edição bilíngüe de duas questões disputadas do De veritate de Tomás de Aquino: "Sobre a verdade" (q. 1) e "Sobre o verbo" (q. 4) (esta precedida do opús-culo "A diferença entre a palavra divina e a humana"). O De veritate, obra em que Tomás recolhe seu magistério de 1256 a 1259 na Universidade de Paris, compõe-se de 29 questões independentes, das quais - pela harmonia temática - selecionamos essas duas.
Duas questões, dois temas capitais de um pensamento que - como veremos - é marcado pelas notas da abertura e da universalidade, que superam qualquer tentativa de enclausurá-lo num corpo fechado de doutrina. Esta é uma das razões pelas quais Weisheipl - há um quarto de século - já previa que "o revitalizado interesse por Tomás talvez não proceda de centros católicos de pensamento, mas antes de universidades e centros de pesquisa seculares"1.
Naturalmente, além das dificuldades próprias para a compreensão de um sólido pensamento filosófico, os
1. Weisheipl, James A. Tomás de Aquino - Vida, obras y doctrina, Pam-plona, Eunsa, 1994, p. 16.
mais de 700 anos que nos separam do Aquinate impuseram a necessidade de estudos introdutórios e glossário (necessariamente sintéticos) que auxiliem o leitor a compreender o alcance e o significado de seu pensamento.
Assim, após uma "Cronologia", encontra-se "Tomás de Aquino: vida e pensamento", estudo introdutório geral (com ênfase para a questão do Verbo). Apresentam-se os seguintes temas: o ato de ser, criação e participação como essenciais na filosofia de Tomás; a alma e o espírito; o problema da filosofia cristã; a linguagem e o Verbo etc.
Em seguida, M. Sproviero em "A verdade e a evidência" discute a concepção do Aquinate de verdade como adequatio, em diálogo com os principais posicionamentos de outros pensadores. E os fundamentos da certeza e da evidência, também em contraste com outros filósofos.
Após os estudos introdutórios, apresentam-se as questões de Tomás, precedidas de um resumo elaborado pelos tradutores.
No momento em que escrevemos este prólogo, ocorrem dois eventos que representam emblematicamente a presença de Tomás em nosso tempo.
O governo de sua terra natal, a minúscula Rocca-secca, promove um concurso internacional para a realização de uma estátua em honra de seu filho mais ilustre, para a abertura do próximo milênio...
Por outro lado, acaba de ser lançada a encíclica Fides et ratio, que dá a Tomás "um lugar absolutamente especial: não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas também pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do seu tempo. Numa época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir os tesouros da
filosofia antiga, e mais diretamente da filosofia aristotéli-ca, ele teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia que existe entre a razão e a fé. A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus: argumentava ele; por isso, não se podem contradizer entre si. Indo mais longe, Santo Tomás reconhece que a natureza, objeto próprio da filosofia, pode contribuir para a compreensão da revelação divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia nela" (N. 43).
O texto latino de que nos valemos para as traduções do De veritate é o da edição eletrônica feita por Roberto Busa, Thomae Aquinatis Opera Omnia cum hypertexti-bus in CD-ROM. Milão, Editoria Elettronica Editei, 1992 (TextusLeoninus aequiparatus, t. XXII). As questões disputadas "sobre a verdade" são neste CD apresentadas sob os números 11 e 12.
Luiz Jean Lauand outubro de 1998
Cronologia de Tomás de Aquino
Contexto em que ocorre o nascimento de Tomás
c. 1170 Nascimento de São Domingos em Caleruega (Castela).
1182 Nascimento de Francisco de Assis. Francisco e Domingos irão fundar, no começo do séc. XIII, as ordens mendicantes: franciscanos e dominicanos. As ordens mendicantes, voltadas para a vida urbana, e, posteriormente, para a universidade, sofrerão duras perseguições em Paris.
c. 1197 Nascimento de Alberto Magno, um dos primeiros grandes pensadores dominicanos, mestre de Tomás.
1210 Primeira proibição eclesiástica de Aristóteles em Paris.
1215 Estatutos fundacionais da Universidade de Paris. Inglaterra: Carta Magna. Fundação da Ordem dos Pregadores.
1220 Coroação do Imperador Frederico II.
1224/5 Nascimento de Tomás no castelo de Aquino, em Roccasecca (reino de Nápoles). Filho de Landolfo e Teodora. Seu pai e um de seus irmãos pertencem à aristocracia da corte de Frederico II.
Frederico II funda a Universidade de Nápoles para competir com a Universidade de Bolonha (pontifícia). 1226 Morte de São Francisco de Assis.
1231 Tomás é enviado como oblato à abadia de Monte Cassino (situada entre Roma e Nápoles). Monte Cassino, além de abadia beneditina, é também um ponto crucial na geopolítica da região: é um castelo de divisa entre os territórios imperiais e pontifícios.
1239-44 Tomás estuda Artes Liberais na Universidade de Nápoles e toma contato com a Lógica e a Filosofia Natural de Aristóteles, em pleno processo de re-descoberta no Ocidente. Conhece também a recém-fundada ordem dominicana, que - junto com a franciscana - encarna o ideal de pobreza e de renovação moral da Igreja.
1244 Tomás integra-se aos dominicanos de Nápoles, sob forte oposição da família, que tinha para o jovem Tomás outros planos que não o de ingressar numa ordem de pobreza.
1245-8 Superada a oposição da família, Tomás faz seu noviciado e estudos em Paris. A Universidade de Paris, desde há muito, goza de um prestígio incom-parável.
1248 Sexta Cruzada.
1248-52 Tomás com Alberto Magno em Colônia, onde em
1250/51 recebe a ordenação sacerdotal. 1250 Morre Frederico II.
Os anos de maturidade
1252-9 Tomás professor em Paris. Inicialmente (1252-1256), como Bacharel Sentenciário e, de 1256 a 1259, como Mestre Regente de Teologia. Fruto direto deste magistério é o De veritate. Escreve o Comentário às sentenças de Pedro Lombardo. Em 1259, começa a redigir a Summa contra gentiles. Em defesa da causa das ordens mendicantes, perseguidas, escreve em 1256 o Contra impugnantes Dei cultum et religionem.
1260-1 Tomás é enviado a Nápoles, para organizar os estudos da Ordem. Continua a compor a Contra gentiles.
1261-4 O papa Urbano IV - pensando numa união entre o Oriente cristão e a Cristandade ocidental - leva Tomás por três anos a sua corte em Orvieto.
1264 Tomás conclui a Summa contra gentiles.
1265 Tomás é enviado a Roma com o encargo da direção da escola de Santa Sabina. Começa a escrever seus Comentários a Aristóteles e a Summa theolo-gica. Nascimento de Dante Alighieri.
1266 Nascimento de Giotto.
1267 Um novo papa, Clemente IV, chama Tomás à sua corte em Viterbo, onde permanece até o ano seguinte.
1269-72 Tomás exerce sua segunda regência de cátedra em Paris. Escreve o Comentário ao Evangelho de João (o De differentia é a parte inicial do Comen-
táriô). Recrudesce a perseguição contra as ordens mendicantes na Universidade de Paris.
1272-3 Tomás regente de Teologia em Nápoles.
1274 Tomás morre a caminho do Concilio de Lyon.
1277 Condenação, por parte do bispo de Paris, de 219 proposições filosóficas e teológicas (algumas de Tomás) em Paris.
1280 Morte de Alberto Magno.
1323 Tomás é canonizado por João XXII.
— estudo introdutório geral
(e à questão "Sobre o verbo")
"Nos nonpossumus omnia quaesunt in anima nostra uno verbo exprimere, et ideo oportet quod sintplura verba imperfecta, per quae divisim exprimamos omnia quae sint in scientia nostra sunt"
"Nós não podemos expressar em uma única palavra tudo o que há em nossa alma e devemos valer-nos de muitas palavras imperfeitas e, por isso, exprimimos fragmentária e setorialmente tudo o que conhecemos"
(Tomás de Aquino, De differentia V, 1)
O homem, diziam os antigos, é fundamentalmente um ser que esquece. Nesta tese, também ela hoje esquecida, convergem profundamente as grandes tradições do pensamento oriental e ocidental1. Para os antigos, neste ponto dotados de maior sensibilidade do que nós, era evidente a existência de uma alienante tendência humana para o esquecimento. Naturalmente, não se trata aqui do periférico, mas do essencial, as questões decisivas vão se embotando: Que é ser homem? O que é a verdade e o que ela representa para a vida? Qual o significado da existência? Etc.
Esse misto de esquecimento e desatenção (não nos esquecemos da data do depósito bancário nem do dia
1. De Hesíodo a Platão e Tomás; da tradição semita a Confúcio: cf. Lauand, L. J., Medievália, São Paulo, Mandruvá, 1997, pp. 69-75.
4, se declara essencialmente "negativa" e afirma que "as essências das coisas nos são desconhecidas"? {De ve-ritate 10, 1). Se uma sentença como esta nos surpreende é sinal de que estamos precisando voltar-nos mais para Tomás e menos para o "tomismo"...
Estabelecer o diálogo com Tomás - sobretudo nestes temas centrais: a verdadee o conhecimento- é precisamente deixar-nos lembrar daquilo que de mais fundamental foi elaborado por nossa tradição ocidental. A seguir, apresentaremos um enquadramento contextual bio-bibliográfico do Aquinate, de modo quase esquemático e sem nenhuma pretensão de originalidade (há muitos e muito bons livros sobre Tomás): seguiremos dois de seus melhores intérpretes contemporâneos: Josef Pieper e o citado Weisheipl. Este estudo pretende servir como uma breve introdução geral ao pensamento de Tomás, con-textualizando as questões disputadas que apresentamos ao leitor neste volume, particularmente a questão "Sobre o verbo".
2. O quadro histórico de Tomás: um século de contradições0
Os cinqüenta anos da vida de Tomás de Aquino (1225-1274) estão plenamente centrados no século XIII, e não só do ponto de vista cronológico: todas as significativas novidades culturais desse tempo mantêm estreita relação com sua vida e lutas. Ao contrário do clichê que o apresenta como uma época de paz e equilíbrio harmônico,
3. Neste tópico seguimos de perto a obra de Pieper, Josef, Thomas von Aquin: Leben und Werk, Munique, DTV, 1981.
esse século é um tempo de agudas contradições, tanto no plano econômico e social como no do pensamento.
A Cristandade - há séculos sitiada pelo Islã e, agora, ameaçada pelas hordas asiáticas - encontra-se na condição de ser um pequeno grupo no meio de um imenso mundo não-cristão. Não se trata só de limitações bélicas ou de fronteiras: há muito tempo o mundo árabe se tinha imposto, não só pelo poderio político-militar, mas também por sua filosofia e ciência. Estas, mediante traduções, tinham penetrado na Cristandade e em seu centro intelectual: a Universidade de Paris. Se essa filosofia e ciência não eram, em boa medida, muçulmanas, eram, ao menos, algo novo, estranho, perigoso, pagão.
Ao mesmo tempo, essa Cristandade do século XIII é abalada nas bases de sua estruturação política: em 1214, pela primeira vez, um rei nacional enquanto tal vence o Imperador, na batalha de Bouvines. Outra "novidade" são as guerras religiosas no seio da Cristandade: durante décadas parecem perdidos definitivamente todo o sul da França e o norte da Itália.
O antigo monacato - que poderia ser lembrado como um possível fator de renovação espiritual - parece ter perdido toda a sua força (apesar dos movimentos reformistas...) e o episcopado encontra-se também esvaziado em suas reservas morais.
Por outro lado, a Cristandade responde a esse estado de coisas de modo muito ativo: no século XIII não só se constróem catedrais, mas também florescem universidades que iniciam e ampliam a conquista da cultura mundana. Outro fenômeno importante é o surgimento dos dominicanos e franciscanos, as "ordens mendicantes", que, de modo surpreendente, vão estar intimamente ligadas às universidades (e, de início, enfrentar dura opo-
sição). Também das ordens mendicantes brota o impulso de defrontar-se com o mundo não-cristão: a Summa contra gentiles de Tomás dirige-se ao diálogo com ma-humetistae etpagani {CG 1, 2) e, em meados do século, os dominicanos fundam as primeiras escolas cristãs de língua árabe.
Tomás nasceu em 1224/5 no castelo de Roccasecca, entre Roma e Nápoles. Por um lado, Tomás é "italiano" (alguns de seus sermões ao povo são pregados em sua língua materna, a língua da gente de Nápoles) e, por outro, tem sangue germânico tanto por parte de pai como de mãe. E o ambiente social em que Tomás cresce está marcado pelo selo dos imperadores germânicos dos Ho-henstaufen: seu pai e um de seus irmãos pertencem à aristocracia da corte de Frederico de Hohenstaufen.
Tomás, com cinco ou seis anos, é enviado à abadia de Monte Cassino, situada em sua terra natal: o plano da família é que ele venha a se tornar abade desse importante mosteiro. Cerca de dez anos depois vai para Nápoles, onde estuda Artes Liberais na universidade e toma contato com a Lógica e a Filosofia Natural de Aristóteles (num momento em que, em Paris, estava proibido o pa-gão Aristóteles), e conhecerá os dominicanos (trata-se, como diz Pieper, de uma "fuga": Monte Cassino, além de abadia beneditina, é também o castelo de fronteira entre os territórios imperiais e pontifícios. Também este episódio da vida de Tomás incrustra-se emblematicamente em seu tempo: 1. as lutas entre o Papado e o Império; 2. a falta de vigor do monacato para as exigências dos novos tempos; 3. o declínio do campo e o deslocamento da cultura para a cidade - e para a universidade -; 4. o encontro com Aristóteles e 5. o dinamismo do "movimento de pobreza").
Com dezenove anos, Tomás ingressa numa das "ordens mendicantes", a Ordem dos Pregadores, dominicana, fundada pelo espanhol Domingo de Guzmán. Seus confrades de Nápoles, procurando afastar o noviço da esfera de poder da família e também da do imperador (as ordens mendicantes sempre são suspeitas de "estar do lado do Papa"), tentam enviá-lo a Paris, mas, no caminho, Tomás é aprisionado por seus próprios irmãos e é mantido por bons meses contra sua vontade no castelo do pai.
Superada finalmente a oposição da família, chega Tomás à universidade por excelência, Paris: primeiro como estudante, depois como um de seus maiores professores de todos os tempos. Em Paris, exatamente no ano de sua chegada, 1245, começa a lecionar Alberto Magno: o doutor universal - em conhecimento, abertura e modernidade -, o mestre sob medida para o gênio do jovem Tomás. Ambos viajam para Colônia, onde Alberto deve erigir uma escola da Ordem. Alberto propicia a Tomás um ingrediente básico: o neoplatonismo, haurido no Pseudo-Dionísio Areopagita. Um neoplatonismo que Tomás concertará - em sua síntese pessoal - com o aristo-telismo.
Com vinte e sete anos, Tomás é chamado de volta a Paris, primeiro como mestre da escola dominicana do convento de Saint Jacques e, depois, como professor de Teologia na universidade, enfrentando forte antagonismo - mais dirigido contra as ordens mendicantes do que contra ele pessoalmente.
Com os dominicanos, encarna Tomás um novo tipo de vocação religiosa: para ele, a clausura é interior, uma cela de contemplação dentro de si que convive com a agitação da vita activa. o ensino e a discussão intelectual.

References: Artigo 1

Artigo 2

Artigo 3

Artigo 4

Artigo 5

Artigo 6

Artigo 7

Artigo 8

Artigo 9

Artigo 10

Artigo 11

Artigo 12

Artigo 1

Artigo 2

Artigo 3

Artigo 4

Artigo 5

Artigo 6

Artigo 7

Artigo 8