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Timestamp: 2017-12-12 21:52:21+00:00

Document:
A comercializacao de dados cadastrais do consumi
A comercialização de dados cadastrais do
con su midor e a p on deração em face da colisão
en tre os direitos fu n damen tais à p riv acidade e ao
liv re acesso à s in formaçõ es: an á lise de u m caso
J A N A IN A D E C A R L I D O S S A N T O S
Prom otora de J ustiç a, aluna do curso de
E specializ aç ã o em Interesses D ifusos e C oletivos da E SMP
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I. IN T RO D U Ç Ã O
N o ano de 2006, o Ministério Público do E stado do Rio G rande do Sul,
através da 1 ª Prom otoria de J ustiç a E specializ ada de C ax ias do Sul, instaurou
Inq uérito C ivil com o objetivo de investigar possível prá tica abusiva por parte
de em presa de ex pressã o nacional no ram o de editoraç ã o e assinaturas de
revistas, q ue estaria repassando dados cadastrais de um dos seus assinantes
Janaína de Carli dos Santos
para terceiro, pessoa jurídica, que por sua vez enviou mala direta à residê ncia
do referido consumidor.
Durante as investigaçõ es, constatou-se a comercialização de dados
cadastrais de um número bastante significativo de consumidores/assinantes
da empresa investigada, residentes em Caxias do Sul/RS, feita pela editora à
pessoa jurídica estranh a à relação de consumo entre as partes.
Em manifestação anexa aos autos do inquérito, alegou a empresa investigada, dentre outras consideraçõ es, que a legislação consumerista brasileira
não proíbe a comercialização de dados cadastrais dos consumidores, e que
no contrato de assinatura de revista consta cláusula prevendo a possibilidade
de repasse de dados do cadastro do assinante a “ empresas parceiras” da editora,
sendo que, caso o consumidor assim não desejasse, deveria entrar em contato
com a empresa para o não repasse de seus dados.
O caso em questão demanda reflexõ es.
Nos dias atuais, a economia globalizada e o acesso à informação
informatizada permitem o armazenamento de dados de maneira cada vez
mais fácil e rápida. Muitas entidades privadas possuem um extenso número
de informaçõ es sobre seus consumidores e armazenam muitos dados, sem
que exista um controle efetivo sobre os mesmos. Os cidadãos, freqü entemente, são surpreendidos com o recebimento de correspondê ncias,
e-mails, telefonemas, nos mais variados dias e h orários, sem ter o conh ecimento de como os seus dados foram obtidos pelos fornecedores de produtos ou serviços.
Diante desta problemática, e a partir do referido caso concreto, o
que se propõ e no presente trabalh o, sem a pretensão de esgotar o tema, é
tecer alguns comentários acerca da disciplina da comercialização de dados cadastrais dos consumidores em nosso ordenamento jurídico
constitucional e infraconstitucional, buscando apontar uma solução adequada ao problema, com a aplicação do Princípio da Proporcionalidade, em face do conflito entre os direitos fundamentais à privacidade e ao
livre acesso à s informaçõ es.
II. PRINCÍPIOS E REGRAS, DIREITOS
F UNDAMENTAIS E A APL ICAÇÃO
DO PRINCÍPIO DA PROPORCIONAL IDADE:
A aplicação do Princípio da Proporcionalidade diante da colisão entre
direitos fundamentais passa, necessariamente, pelo entendimento da
conceituação e diferenças entre os princípios e as regras.
A comercialização de dados cadastrais do consumidor e a...
Princípio em sentido estrito, segundo Dw ork in1 , seria “um estâ ndar que
tem de ser observado, não porque favoreça ou assegure uma realização econô mica,
política ou social que se considere desejável, senão porque é uma exigência da
justiça, da eqüidade ou de alguma outra dimensão da moralidade”.2
Para Alexy , princípios e regras são normas jurídicas, sendo que os princípios
seriam mandados de otimização, que ordenam que algo seja realizado na maior
medida possível, dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes, enquanto
que as regras, por sua vez, contêm determinaçõ es no â mbito fático e juridicamente
possível, sendo aplicáveis à maneira de disjuntivas3 ; são normas jurídicas que,
sendo válidas, somente podem ou não serem aplicadas.4
Os princípios, portanto, poderiam ser comparados a p ilares de um
edifício5 , que servem como base do sistema jurídico, atuando como diretrizes
orientadoras deste sistema. Os princípios definem fins a serem atingidos, já
as regras estabelecem meios e determinam comportamentos a eles adequados
de modo mais preciso e definido.6
No caso das regras, se antagô nicas, uma delas deverá ser excluída do
sistema em questão. Conforme as teorias de Dw ork in e Alexy , um conflito de
regras somente pode ser solucionado, ou bem introduzindo em uma delas
uma cláusula de exceção, eliminando o conflito, ou declarando pelo menos
uma das regras inválida.7
Com os princípios é diferente, eles convivem no mesmo sistema, mesmo
que entre eles haja, eventualmente, uma antinomia.
No caso de colisão entre princípios, já que estão abstratamente no mesmo
nível, procede-se à ponderação, definindo-se qual dos princípios, diante das
circunstâ ncias do caso concreto, terá maior peso e prevalecerá ao outro.
LEIV AS, Paulo Gilberto Cogo. Teoria dos Direitos Fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
2006. p. 33
Para Dw ork in, o conceito de princípio em sentido lato, que seria o “conjunto de estâ ndares que não são
regras”, compreende dois tipos de princípios: princípio em sentido estrito e determinação de objetivo
estatal, que é um “tipo de estâ ndar que propõe um objetivo que tem de ser alcançado; geralmente, uma
melhora em algum nível econô mico, político ou social da comunidade”.
LEIV AS, Paulo Gilberto Cogo. Op. Cit., p 39 .
DE FREITAS, Luiz Fernando Calil,. Direitos Fundamentais - Limites e Restrições. Porto Alegre: Livraria
do Advogado. 2007. p. 29 .
B ONATTO, Cláudio e MORAES, Paulo V alério Dal Pai. Q uestões Controvertidas no Có digo de Defesa
do Consumidor. 2ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 19 9 9 . p. 24.
DE FREITAS, Luiz Fernando Calil. Op. Cit. p. 31.
LEIV AS, Paulo Gilberto Cogo. Op. Cit., p. 40/41.
As normas jusfundamentais8 , segundo Alexy, possuem caráter duplo,
podendo ser consideradas normas tanto do tipo regra quanto do tipo princípio.
Quando estabelecem direitos com limites de certa maneira “abertos” serão
consideradas princípios e, nesse caso, havendo colisão, um cederá ao outro
no caso concreto após a ponderação.
Por outro lado, quando estabelecem algo já determinado pela
ponderação feita pelo legislador constituinte, indo além de razões prima facie,
estabelecendo razões definitivas, serão normas jusfundamentais caracterizadas
como regras.9
Apesar de sustentar o caráter duplo das normas jusfundamentais, para
Alexy, as normas instituidoras de direitos fundamentais são essencialmente
princípios.10
Como já referido, não existe, abstratamente, precedência absoluta de
um princípio em relação a outro, em razão das imensuráveis situações fáticas
e jurídicas diante das quais deverão ter aplicação. Na existência de colisão
entre princípios, deve-se verificar, por intermédio da ponderação, qual
princípio, no caso, deverá ceder ante a aplicação do outro.
Dessa forma, na hipótese de colisão principiológica, utiliza-se o
princípio da proporcionalidade para se definir qual princípio terá prevalência
ante os pressupostos fáticos e jurídicos apresentados.
O princípio da proporcionalidade subdivide-se em subprincípios:
“a d e q u a ç ã o ou idoneidade do meio empregado para o alcance do resultado
com ele pretendido, n e c e s s id a d e desse meio (um meio não é necessário se
existe um meio mais ameno, menos interventor) e p r o p o r c io n a lid a d e e m
s e n tid o e s tr ito (o postulado da ponderação, propriamente dito)”.11
O autor refere que os conceitos de dispositiv o, norma e direito fundamental são correlacionados, mas diversos
entre si. Os dispositivos são o enunciado semântico ou programa da norma, tal como enunciado no texto
constitucional; norma é o resultado da interpretação do enunciado semântico do dispositivo que veicula o
respectivo comando textual; já direito fundamental seria a conclusão final após uma primeira etapa de exame
do dispositivo e norma, e segunda etapa, de análise da norma à luz das teorias dos limites e restrições (tratadas
na obra do autor), verificando-se se a hipótese fática do caso concreto goza de proteção jusfundamental. Em
caso positivo, obtém-se o direito fundamental. (DE FREITAS, Luiz Fernando Calil. Op. Cit. p. 26).
DE FREITAS, Luiz Fernando Calil. Op. Cit. p. 32 É o caso do inciso X X do artigo 5º da Constituição
Federal, que institui o princípio da liberdade de associação, enquanto que o inciso X VII do mesmo
artigo, que veda a associação de caráter paramilitar, é considerada uma regra, pois resultante de ponderação
feita pelo próprio legislador entre o princípio da liberdade de associação e o direito fundamental à segurança
e manutenção da ordem pública e paz social.
LEIVAS, Paulo Gilberto Cogo. Op. Cit., p. 47
De acordo com o princípio da adequação, deve-se verificar, no caso
concreto, se o meio empregado para a restrição ou afetação desvantajosa ao
direito fundamental é apto a promover o resultado almejado.12
A aplicação dos subprincípios da proporcionalidade em sentido amplo ocorre
de forma subsidiária. Em virtude disso, se for constatado que o meio empregado
para limitar o direito fundamental não foi idôneo, conclui-se que a restrição não é
constitucionalmente adequada e, portanto, ofende o dever de proporcionalidade,
não necessitando seguir adiante no exame dos outros dois subprincípios.13
No exame da necessidade do meio, será considerado necessário caso o
seu fim não possa ser atingido de outra maneira que afete ou restrinja menos
o direito fundamental. H avendo excesso, pela existência de meio mais idôneo,
que produza igual ou melhor resultado com menor restrição, considerar-se-à
a medida desproporcional, em ofensa ao princípio da proporcionalidade.
Por sua vez, no caso do exame da proporcionalidade em sentido estrito,
o que se analisa é a “relação custo benefício existente entre o resultado obtido
pelo emprego do meio eleito e a afetação desvantajosa a direitos fundamentais
dele decorrente”.14
A proporcionalidade em sentido estrito seria a ponderação propriamente
dita diante da colisão entre direitos fundamentais, exigindo equanimidade na
distribuição dos ônus que se farão sentir nos direitos fundamentais afetados15,
levando-se em consideração as circunstâncias do caso concreto.
III. A EFICÁ CIA H ORIZ ONTAL E IRRADIANTE DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS E A DISCIPLINA DO REPASSE DE DADOS
CADASTRAIS NO CÓ DIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
O Código de Defesa do Consumidor - Lei nº 8.078/90 - disciplina, em seu
artigo 43, a matéria relativa aos bancos de dados e cadastros de consumidores.
Os cadastros de consumo podem se distinguir em positivos, quando se
prestam ao conhecimento de dados do consumidor para fins de oferta de bens
e serviços, e negativos, quando servem à imposição de restrições, como no
caso dos cadastros do SPC e SERASA.16
Diante da previsão expressa no Código de Defesa do Consumidor, pode-se
dizer que a lei não veda, a princípio, a criação de bancos e cadastros de consumidores.
DE FREITAS, Luiz Fernando Calil. Op. Cit. p. 208.
Ibidem, p.207 e 209.
DE FREITAS, Luiz Fernando Calil. Op. Cit. p. 211.
FARENA, Duciran Van Marsen. Cadastros de Consumo: Privacidade e Direito do Consumidor.
No entanto, prevê o artigo 43 do CDC regras para o funcionamento desses
bancos e cadastros de consumo, estabelecendo que “são considerados entidades
de caráter público”17, dispondo sobre regras de acesso do consumidor às informações existentes em cadastros (art. 43, caput) e possibilidade de retificação dos
dados (§ 3º), de comunicação do consumidor acerca da inclusão de seus dados
em banco ou cadastro de consumo (§ 2º), estabelecendo, ainda, o dever de transparência e objetividade dos cadastros (§ 1º, primeira parte). O referido artigo determina, também, prazo de cinco anos para que as informações possam ser armazenadas (§ 1º, segunda parte), e que os serviços de proteção ao crédito estão impedidos de fornecer informações que impeçam ou dificultem novo acesso a crédito
do consumidor junto aos fornecedores, se a dívida já estiver prescrita (§ 5º).
Em relação à comercialização de dados cadastrais de consumidores,
ainda que se discuta a necessidade de uma legislação específica para o
tratamento das informações pessoais pelos bancos de dados18 , em especial os
informatizados, o ordenamento jurídico em vigor é suficiente para regular os
conflitos oriundos do repasse de dados.
O direito fundamental à privacidade, previsto no artigo 5º, X, da Carta
Magna, por sua força irradiante19, deve servir de base para a interpretação da
legislação ordinária consumerista, opondo-se às relações na esfera privada, quando
da comercialização ou repasse de dados dos consumidores de forma indevida.
Art. 43, § 4º - “Os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores, os serviços de proteção ao
crédito e congêneres são considerados entidades de caráter público”.
Em monografia sobre o tema, Rodrigo Zasso Schemkel refere que não há limites concretos estabelecidos
a priori para regular a questão, necessitando o Brasil de legislação específica sobre o assunto, já que o
CDC está adstrito às relações de consumo e o h ab eas data (art. 5º, LXXII, CF) exclui de sua aplicação os
bancos de dados privados e exige prova da recusa da administração. Cita, na mesma corrente, os
entendimentos de Danilo Doneda e W illiam Smith K aku, que também sustentam a necessidade de legislação
específica. Têmis Limberger (O Direito à Intimidade do Cliente Bancário – uma Proposta de Interpretação
Conjugando a Sistemática Constitucional, Consumerista e Civilista. In Revista do Ministério Público nº
48, p. 253) afirma que “as relações privadas de não-consumo estão à margem de proteção da disciplina
legal específica, restando ao jurista o desafio da construção”. Cita a autora, em obra sobre o tema, a
existência de projetos legislativos que visam disciplinar a matéria de proteção de dados, em especial o
projeto de lei do Senado nº 321/2004.
Para Sarlet (SARLET, Ingo W olfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 6ª ed. Porto Alegre: Livraria
do Advogado. 2006. p 400), “as normas de direito privado não podem contrariar o conteúdo dos direitos
fundamentais, impondo-se uma interpretação das normas privadas (infraconstitucionais) conforme os
parâmetros axiológicos contidos nas normas de direitos fundamentais”. Segundo Calil de Freitas (DE
FREITAS, Luiz Fernando Calil. Op. Cit. p. 41), é a possibilidade de os direitos fundamentais impulsionarem
e dirigirem a aplicação e interpretação do direito ordinário; uma espécie de interpretação conforme os
É a chamada “eficácia horizontal”20 , ou privada, dos direitos fundamentais,
no sentido de que tanto o Estado quanto os particulares, sejam pessoas físicas ou
jurídicas, encontram-se vinculados aos direitos fundamentais. A comercialização
de dados cadastrais enseja, portanto, a aplicação direta do direito fundamental à
privacidade nas relações entre consumidores e fornecedores, atuando a norma
jusfundamental como balizador para a interpretação do Código de Defesa do Consumidor diante da criação de bancos e cadastros de dados positivos, e sua utilização.
Para Cláudia Lima Marques, “a prática de informar e organizar dados
sobre os consumidores, de “comprar” informações destes bancos e de repassálas é, hoje, pois, uma realidade, mas os limites do CDC estão muito claros e
as ilicitudes possíveis desta prática comercial são muitas”.21
O repasse indevido de dados cadastrais dos consumidores, além de
afrontar ao direito fundamental à privacidade, é prática abusiva, nos termos
do artigo 39 do Código de Defesa do Consumidor.
Segundo Benjamin, “o uso consentido individualmente e referendado
legalmente desses registros é, pois, tão-só aquele que esteja em conformidade
direta com as circunstâncias do negócio jurídico de origem”.22
Isso significa dizer que, quando o consumidor informa seus dados
pessoais para um ato qualquer de consumo, como a assinatura de uma revista
ou abertura de uma conta bancária, por exemplo, o seu consentimento no
repasse dos dados vale somente para aquele fim, não autorizando que o
fornecedor possa comercializá-los como bem entender, pois, além de ser uma
ofensa à boa-fé objetiva do consumidor23 , é ato ilegal e abusivo.
Conclui-se: interpretando-se a legislação infraconstitucional e os
princípios norteadores do Código de Defesa do Consumidor da vulnerabilidade
Têmis Limberger critica a expressão “eficácia horizontal”, sustentando que, “apesar de as relações
situarem-se na esfera privada, não estão necessariamente na mesma categoria”, dando como exemplo
uma grande empresa e os trabalhadores ou as instituições financeiras e seus clientes. (LIMBERGER,
Têmis. O Direito à Intimidade na Era da Informática. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 39)
Cita a autora decisão do Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADIN 1790-5/DF: “3. A
conveniência entre a proteção da privacidade e os chamados arquivos de consumo, mantidos pelo próprio
fornecedor de crédito ou integrados em bancos de dados, tornou-se um imperativo da economia de massa:
de viabilizá-la cuidou o CDC, segundo o molde das legislações mais avançadas, para prevenir ou reprimir
abusos dos arquivos de consumo”. (MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no Código de Defesa do
Consumidor. 5ª ed. São Paulo: RT, 2006. p. 831).
BENJAMIN, Antônio Herman de Vasconcellos e. In Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: Comentado
pelos Autores do Anteprojeto/ Ada Grinover ... - 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p. 368.
Para Cláudia Lima Marques, a boa-fé é o princípio máximo orientador do CDC. Salienta a autora que o
caput do artigo 4º do Código de Defesa do Consumidor menciona, além da transparência, a harmonia das
relações de consumo, que será buscada através da exigência de boa-fé nas relações entre consumidor e
fornecedor. (MARQUES, Cláudia Lima. Op. Cit. p. 799).
e boa-fé objetiva (artigo 4º, incisos I e III, do CDC) à luz do direito fundamental à privacidade, pode-se dizer que o CDC assegura a proteção aos
consumidores de forma ampla, tanto em relação aos bancos e cadastros de
dados positivos quanto negativos, aplicando-se as regras de comunicação
prévia, acesso e retificação também aos cadastros não restritivos.
Além disso, o consumidor deve ser informado sobre a finalidade da
coleta dos dados solicitados e, no caso de comercialização, é imperativo o
prévio e expresso consentimento do consumidor, sob pena de responsabilização pela invasão não autorizada de sua privacidade.
Importante ressaltar, ainda, que no caso de comercialização indevida,
a responsabilidade será solidária do banco de dados que coleta as informações
e da empresa (ou pessoa física) que os adquire. Dessa forma, todas as
comunicações estabelecidas com base em cadastros adquiridos de terceiro
devem propiciar ao consumidor recipiente “os elementos necessários à
identificação da fonte cadastral, isto é, o local onde as anotações estão
arquivadas e à disposição de quem quiser pagar para tê-las”.24
IV. A COMERCIALIZAÇÃO DE DADOS CADASTRAIS
DO CONSUMIDOR E A APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO
DA PROPORCIONALIDADE DIANTE DA COLISÃO ENTRE
OS DIREITOS FUNDAMENTAIS À PRIVACIDADE E
AO LIVRE ACESSO À S INFORMAÇÕ ES:
Em matéria de comércio de informações constantes em bancos de dados,
presente o conflito entre os direitos fundamentais à privacidade, expresso no
artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal25, e ao livre acesso às informações,
garantido nos incisos IV, IX, XIV e artigo 220 da Carta Magna.
Celso Lafer define o direito à privacidade como
-$/=$
+ 6==)=
BENJAMIN, Antônio Herman de Vasconcellos. Op. Cit. p. 368
Art. 5º, inc. X , CF: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado
o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Rodrigo Zasso Schemkel,
em monografia já citada, aponta vários outros incisos do artigo 5º, que tratam diferentes aspectos da
privacidade, tais como: incisos III, XLIII, V, IV, VI, XI, XII, XXVII, XLIX, XXXIII, LXXII e VIII.
SCHEMKEL, Rodrigo Zasso. Violação do Direito à Privacidade pelos Bancos de Dados Informatizados.
Jus Navegandi, Teresina, ano 9, n. 812, 23 set. 2005. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/
texto.asp? id= 7309 Acesso em 05 mar. 2007.
Para Celso Ribeiro Bastos, seria
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O direito à intimidade, segundo Têmis Limberger, deriva da dignidade
da pessoa humana e “limita a intervenção de outras pessoas e dos poderes
públicos na vida privada”.28
A Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas
- ONU, de 1948, reconhece a privacidade como direito fundamental,
prescrevendo, em seu artigo 12, que “ninguém será sujeito a interferências
na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência,
nem a ataques a sua honra e reputação”, tendo contra tais intromissões ou
ataques direito à proteção da lei.29
A liberdade de expressão e informação, por sua vez, como uma das características do regime democrático, está assegurada no artigo 19 da Declaração
Universal dos Direitos do Homem, que proclama que toda a pessoa tem “direito
à liberdade de opinião e expressão” e que “este direito inclui a liberdade de,
sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações
e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”.30
A sociedade global e informatizada dos dias atuais tornou facilitada a
forma de captação e armazenamento de dados pessoais. Estes dados, por
traduzirem aspectos da personalidade e revelarem perfis de consumo, possuem
valor econômico e importância para a publicidade e para o comércio. Por
essa razão, cada vez mais comum a comercialização de informações constantes
em bancos ou cadastros de consumidores, tal como ocorreu no caso paradigma,
referido ao início do presente trabalho.
Ocorre que, se de um lado existe a necessidade de se proteger o direito
fundamental à privacidade destes consumidores, de outro, deve-se preservar
a garantia de livre acesso às informações da entidade privada que pretende
repassar os dados, direito fundamental que, como já visto, inclui a liberdade
de receber e transmitir informações por quaisquer meios, sem interferências.
A autora diferencia intimidade e privacidade. Esta seria mais ampla e genérica, e abrange as situações em
que não se pode evitar a comunicação, como no caso da inviolabilidade de domicílio e de correspondência.
A intimidade é o âmbito mais exclusivo que alguém reserva para si, do qual não deseja repercussão social.
In http://www.dhnet.org.br/inedex.htm
Presente, pois, uma colisão entre princípios, que deve ser solucionada
com a aplicação do Princípio da Proporcionalidade, no caso concreto, em
que um dos direitos fundamentais irá prevalecer, sem, no entanto, aniquilarse o conteúdo do outro princípio.
No caso paradigma, houve a comercialização de um elevado número
de dados pessoais de consumidores, assinantes de uma revista. Alega a empresa
fornecedora que o consentimento dos mesmos se deu de forma tácita, já que
consta no contrato de assinatura cláusula prevendo a possibilidade de repasse
de dados do cadastro do assinante a “empresas parceiras” da editora, sendo
que, caso o consumidor assim não desejasse, deveria entrar em contato com
a empresa para o não repasse de seus dados.
A fim de se preservar efetivamente o direito fundamental à privacidade
dos assinantes, não basta o consentimento tácito, sob pena de afronta ao
primeiro dos subprincípios da Proporcionalidade: o meio adequado.
Ora, é notório que estes contratos de assinatura de revistas, assim como
inúmeros na sociedade atual, são contratos de adesão31 , padronizados, cujas
cláusulas são previamente definidas pelo fornecedor. Na prática, o consumidor,
quando do momento da contratação, não discute ou analisa detidamente as
cláusulas contratuais; até mesmo pela falta de tempo da vida moderna, ele
firma o negócio jurídico com o representante do fornecedor (na maioria das
vezes pessoas especialmente treinadas com esse objetivo, como operadores
de telemarketing ou promotores de venda, que possuem limitado conhecimento
do contrato e geralmente expõem ao consumidor apenas alguns aspectos do
negócio) e tem acesso à cópia do contrato, sem, no entanto, lê-lo e analisá-lo
com atenção para, somente após, realizar a contratação.
Dessa forma, entender que basta uma cláusula contratual inserida no
contrato de adesão (sequer de forma destacada das demais), prevendo que o
consumidor, se não quiser autorizar a comercialização de seus dados, deverá
entrar em contato com a empresa fornecedora (por sistema de 0800, cujas
dificuldades de acesso são notórias), é o mesmo que aceitar, na prática, o repasse
de dados do consumidor sem o seu consentimento, aniquilando um dos direitos
fundamentais em conflito, qual seja, a privacidade do indivíduo consumidor.
Para que se considere adequada a restrição ao direito fundamental ao
livre acesso à informação do fornecedor, atingindo ao fim a que se destina,
preservando-se a privacidade do consumidor, o consentimento para a
“Aquele cujas cláusulas são preestabelecidas unilateralmente pelo parceiro contratual economicamente
mais forte (fornecedor), ne varietur, isto é, sem que o outro parceiro (consumidor) possa discutir ou
modificar substancialmente o conteúdo do contrato escrito.” (MARQUES, Cláudia Lima. Op. Cit. p. 71).
comercialização dos dados cadastrais deve ser prévio e expresso: o consumidor
precisa saber que existe a possibilidade de repasse, quais os dados que poderão
ser repassados e para quem, não bastando o fornecedor referir, genericamente,
a possibilidade de comercialização a “empresas parceiras”, por exemplo.
E nem se sustente que essa exigência não é necessária, pois não há
outra forma de se permitir o repasse de dados e ao mesmo tempo preservar o
direito fundamental à privacidade.
Ademais, deve-se levar em conta que é bastante lucrativo para a entidade
que comercializa os dados essa atividade. Na realidade, ela lucra duas vezes:
uma quando contrata com o consumidor (a assinatura da revista, no caso concreto), e outra quando utiliza os dados pessoais do consumidor para a comercialização com terceiros. É razoável, então, que arque com o ônus de se buscar o
prévio e expresso consentimento do consumidor para autorizar sua conduta.
O presente trabalho abordou, a partir de um caso concreto, e sem a pretensão
de esgotar o tema, alguns aspectos da prática cada vez mais comum no mercado
de consumo atual, de armazenamento e comercialização de dados cadastrais de
consumidores, que não será de fato controlada com a simples proibição da conduta,
ainda mais em uma sociedade informatizada, em que o acesso e transmissão de
informações tornou-se rápido e sem maiores dificuldades.
Resta o conflito entre o direito fundamental à privacidade destes
consumidores, que deve ser efetivamente preservado, e a garantia de livre
acesso às informações, questão que pode ser resolvida com a aplicação do
Princípio da Proporcionalidade, prevalecendo um dos direitos colidentes no
caso concreto, sem que se aniquile o outro.
Têmis Limberger, em obra sobre o tema, analisa com muita propriedade
o desafio de se solucionar esse conflito:
" * ) =
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LIMBERGER, Têmis. Op. Cit., p. 33
VI. CONCLUSÕES ARTICULADAS:
1. Princípios e regras são normas jurídicas; no caso de conflito entre
regras, se antagônicas, uma exclui a outra. Já os princípios convivem no mesmo
sistema, mesmo que entre eles haja, eventualmente, uma antinomia. Havendo
colisão entre princípios, já que estão abstratamente no mesmo nível, procedese à ponderação pela aplicação do Princípio da Proporcionalidade, definindose qual dos princípios, diante das circunstâncias do caso concreto, terá maior
peso e prevalecerá ao outro;
2. O Código de Defesa do Consumidor não veda a criação de bancos e
cadastros de consumidores, mas prevê regras para o seu funcionamento. O
direito fundamental à privacidade aplica-se às relações entre fornecedores e
consumidores, e deve servir como balizador para a interpretação do Código
de Defesa do Consumidor aos casos de repasse indevido de informações
constantes em bancos ou cadastros de dados;
3. A comercialização de dados cadastrais de consumidores só é admitida
pelo ordenamento jurídico brasileiro com o prévio e expresso consentimento
do consumidor, sob pena de ser considerada prática abusiva e afronta ao
BENJAMIN, Antônio Herman de Vasconcellos e. In Có dig o B rasileiro de D efesa do Consumidor:
Comentado pelos Autores do Anteprojeto/ Ada Grinover ... - 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2001
BONATTO, Cláudio e MORAES, Paulo Valério Dal Pai. Q uestões Controvertidas no Có dig o de
D efesa do Consumidor. 2ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1999
DE FREITAS, Luiz Fernando Calil,. D ireitos F undamentais - L imites e R estrições. Porto Alegre:
Livraria do Advogado. 2007
FARENA, Duciran Van Marsen. Cadastros de Consumo: P rivacidade e D ireito do Consumidor.
LEIVAS, Paulo Gilberto Cogo. T eoria dos D ireitos F undamentais. Porto Alegre: Livraria do
LIMBERGER, Têmis. O D ireito à Intimidade na E ra da Informá tica. Porto Alegre: Livraria do
MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no Có dig o de D efesa do Consumidor. 5ª ed. São Paulo: RT, 2006
SARLET, Ingo Wolfgang. A E ficá cia dos D ireitos F undamentais. 6ª ed. Porto Alegre: Livraria
do Advogado. 2006
SCHEMKEL, Rodrigo Zasso. V iolação do D ireito à P rivacidade pelos B ancos de D ados
Informatizados. Jus Navegandi, Teresina, ano 9, n. 812, 23 set. 2005. Disponível em: http://
jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7309 Acesso em 05 mar. 2007.
DECLARAÇÃO PARA FINS DE ALTERAÇÃO DE
30 - Actividade Associativa - Criação de rede para comercialização
POLÍTICA DE PRIVACIDADE – O GLOBO
SBAIT se mobiliza para que equipes de saúde não façam imagens

References: artigo 5

artigo 43
 artigo 43
 artigo 5
 artigo 39
 artigo 4

artigo 5
 artigo 220
 artigo 5
 artigo 12
 artigo 19