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Timestamp: 2017-11-24 18:27:04+00:00

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Pílulas Diárias: Dezembro 2016
Em 2015, foi detectada uma supernova com um brilho 20 vezes maior do que toda a luz emitida pela Via Láctea. Seria o resultado da explosão de uma estrela extremamente massiva no fim de sua vida.
Segundo evidências mais recentes, porém, a enorme explosão teria sido causada por um buraco negro supermassivo. Localizado no centro de uma galáxia, o fenômeno astrofísico teria rasgado uma estrela semelhante ao Sol, que passou muito próximo a ele.
No processo, a estrela teria sido esmagada e as colisões entre os seus restos, bem como o calor gerado, levaram à explosão que teria dado ao evento a aparência de uma supernova muito brilhante.
Agora, considere tudo isso como uma metáfora da vida política brasileira na última década.
A luz abundante ofuscava tanto que não deixava ver que sua origem era o desabamento da estrela em direção à escuridão. A maioria de nós só se apercebeu das trevas ao esbarrar em personagens e coisas que julgávamos enterradas no passado.
No futuro, uma coisa é certa. O brilho daquela estrela somente será visto a distâncias muito mesquinhas.
Na vida real, nem a luz escapa de um buraco negro. Mas em nossa metáfora, é sempre possível ver algumas centelhas em meio a tanto breu. Frágeis que sejam, são elas que nos fazem esperar um 2017 iluminado por muitas lutas.
Leia também: De volta ao pesadelo lulista?
Postado por Sérgio Domingues às 06:46 3 comentários:
Postado por Sérgio Domingues às 09:01 Nenhum comentário:
O que realmente valeu foram três dias de intenso trabalho coordenado entre governo federal e Congresso Nacional. Tudo devidamente sacramentado pelo STF. Neste pequeno período, as duas valorosas casas do parlamento nacional votaram quase cinco vezes mais do que em todo ano de 2016.
Foram 62 votações envolvendo projetos de lei, vetos presidenciais, requerimentos e propostas de emenda constitucional. Uma média de pouco mais de 20 projetos por dia de trabalho. Em média, no restante do ano, os parlamentares votaram pouco mais de quatro propostas por sessão.
Por isso, caros parlamentares, “hoje, a festa é sua”! Que ninguém a estrague lembrando que grande parte de seus pares são acusados de ter tentado “desfigurar” um “pacote anticorrupção” para fugir de investigações e processos judiciais. Afinal, toda essa gente acusada de ser corrupta e voltada para interesses particulares finalmente pensou na nação.
Desde que a constituição atual foi aprovada, em 1988, suas conquistas sociais vêm sendo atacadas sistematicamente. Mas, agora, estes ataques parecem ter chegado a seu auge graças ao intenso trabalho a que se dedicaram as autoridades de Brasília neste finalzinho de 2016. Foram três dias que podem valer um retrocesso de 30 anos.
Leia também: As mais recentes pizzas de Brasília
Postado por Sérgio Domingues às 06:37 Um comentário:
Marcadores: constituição;, política
Versão 1: o desmatamento na Amazônia leva à descoberta de um estranho grupo de rochas que funciona como observatório astronômico. Trabalho de mãos humanas, realizado uns mil anos atrás. Fica evidente que a Amazônia foi habitada por povos muito mais complexos do que se julgava até então.
Arqueólogos, antropólogos e outros cientistas começam a chegar ao local. Vêm juntar-se aos trabalhadores pagos para derrubar a floresta pelas grandes corporações nacionais e internacionais que são proprietárias dos latifúndios da região.
Também chegam funcionários de grandes meios de comunicação e entretenimento para realizar documentários sobre a estranha descoberta e verificar o potencial do lugar como locação para filmar cenas de aventura e ficção científica.
Logo, surgem conflitos de interesses entre cientistas, latifundiários, governos, produtoras de cinema e TV. Quando os atritos ameaçam descambar para a violência, surgem do nada verdadeiros exércitos de índios que iniciam um massacre entre os recém-chegados. São os povos do passado, que utilizam as rochas como um portal do tempo. Vieram vingar toda a destruição provocada por aquela gente descendente de europeus. São as primeiras tropas de muitas outras que surgirão em outros sítios arqueológicos pelo mundo.
É na Amazônia que se inicia uma espécie de apocalipse vingador promovido pelos povos antigos contra os estragos causados pela lógica produtivista ocidental, inclusive em suas versões chinesa e russa.
Versão 2: a mesma trama acima, sem povos vindos do passado ou portais do tempo. Apenas um documentário que registra o início do apocalipse ocidental, sem necessidade de atores ou efeitos especiais. Basta acompanhar a ação dos poderes que atuam naquela região e no planeta em geral.
Fonte de inspiração: Desmatamento revela um misterioso "Stonehenge" na Amazônia
Leia também: Os índios e o anjo desesperado
Postado por Sérgio Domingues às 03:03 Um comentário:
Marcadores: ecossocialismo, roteiros
Em 1983, Arlie Hochschild publicou “The Managed Heart: commercialization of human feelings” (“O coração gerenciado: a comercialização dos sentimentos humanos”).
O livro estuda a situação das comissárias de voo, mostrando como elas são obrigadas a administrar os próprios sentimentos no sentido de exibir apenas aqueles que interessam à companhia aérea.
O maior símbolo desse processo é o sorriso. Sua constante exibição passa a ser um “patrimônio” atribuído à trabalhadora, mas apropriado por seus patrões.
Há também o desempenho de um papel cujos polos são a atitude maternal e a erotização. Aquela que deve atender aos desejos dos passageiros como provedora solícita ou possível esposa ou amante.
Segundo esta lógica, relações impessoais devem ser vistas como sendo pessoais. Relações baseadas em troca monetária devem ser vistas como relações sem qualquer envolvimento monetário.
Não é difícil imaginar o estrago que um controle desse tipo pode causar às profissionais envolvidas. De um lado, a entrega ao desempenho do papel exigido, que pode terminar em esgotamentos nervosos. De outro, a sensação de manter uma atitude de constante fingimento e falsidade que deteriora a autoestima.
De uma ponta à outra, as trabalhadoras sofrem com a experiência de ver seus sentimentos expropriados por seus empregadores. Passam a ver sua sensibilidade subordinada às regras da produção em série.
Como essa lógica se impõe em atividades envolvendo relações com pessoas e não com coisas, ela vem se ampliando juntamente com a enorme expansão do setor de serviços verificada nas últimas décadas. E as mulheres tendem a ser suas maiores vítimas.
É mais uma, talvez a mais grave, dimensão desumanizadora do domínio do capital.
Surendra disse, então:
- Não gosto de pretos, Kindzu.
- Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.
O diálogo acima é do livro “Terra Sonâmbula” e está na peça “Os cadernos de Kindzu”, baseada na obra de Mia Couto. A montagem do Amok Teatro faz justiça ao belo texto do escritor moçambicano. Mas também chama a atenção a espetacular “cenografia musical” proporcionada por inúmeros instrumentos afro-orientais brilhantemente tocados por todo o elenco.
A trama gira em torno do jovem Kindzu, apanhado em meio à guerra civil que castigou Moçambique após a libertação do país do domínio português. Mia Couto e o Amok mostram que a libertação colonial foi só um primeiro passo para a verdadeira libertação dos povos africanos.
É por isso que Surendra, antes do diálogo acima, já havia dito a Kindzu que seria “preciso esperar séculos para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça."
É contra essa situação que a companhia teatral dirigida por Ana Teixeira e Stephane Brodt vem atuando, com seu trabalho ligado às tradições africanas iniciado com outra montagem maravilhosa. Trata-se de “Salina – A Última vértebra”, encenada em 2015.
O espetáculo só fica em cartaz até 18/12 no CCBB do Rio de Janeiro. E, infelizmente, ainda não há notícias de novas apresentações para o ano que vem.
Que possamos continuar contando com a arte do Amok para alcançar um futuro livre do peso do racismo.
Postado por Sérgio Domingues às 16:58 Um comentário:
De qualquer maneira, a tese do autor é coerente com a seguinte sequência lógica. Com a Revolução Agrícola, a humanidade silenciou animais e plantas e transformou o que era uma “ópera grandiosa” em um "diálogo entre o homem e os deuses".
Leia também: Porque deixamos de falar com animais e plantas
Postado por Sérgio Domingues às 16:34 Nenhum comentário:
Em “Homo Deus”, Yuval Harari diz que as religiões teístas surgiram junto com a agricultura. Nelas, os seres humanos alcançaram um patamar privilegiado em suas relações com o plano divino. As outras espécies passaram a ser desprezadas.
Um exemplo é o episódio bíblico da Arca de Noé. Antes de provocar o grande dilúvio, Noé foi instruído a salvar as várias espécies para proteger os interesses comuns de deuses e seres humanos, afirma Harari.
Baixadas as águas, Noé construiu um altar onde sacrificou certos animais em louvor a Deus. O autor cita a Bíblia: “O Senhor sentiu o aroma agradável e disse em seu coração: Nunca mais vou amaldiçoar o chão por causa dos seres humanos”.
Ou seja, a concepção bíblica considera perfeitamente correto matar animais como punição por crimes cometidos pelo Homo sapiens. Outras religiões teístas, como o budismo e o hinduísmo, também autorizam os seres humanos a controlar e usar outros animais, ainda que com certas restrições.
Os caçadores-coletores não se viam como seres superiores porque raramente tinham consciência do seu impacto sobre o ecossistema. Mas os agricultores são muito menos dependentes em relação aos caprichos de outros animais.
Antes da Revolução Agrícola, afirma Harari, a humanidade falava com animais e plantas. Depois dela, restou apenas o diálogo com os deuses.
Agora, a humanidade estava sozinha num palco vazio, “conversando consigo mesma, negociando com ninguém e adquirindo enormes poderes sem obrigações”. Pelo menos, era o que pensávamos até que os desequilíbrios ecológicos começaram a cobrar a fatura.
Esta visão de Harari está longe de ser consensual, mas vale pelo que nos faz pensar.
Leia também: Nosso pacto com Deus contra o ecossistema
Yuval Harari lançou mais um best-seller. Em “Homo Deus”, o autor israelense volta a denunciar a arrogante superioridade que nossa espécie assumiu em relação às outras. Para isso, lança mão da teologia.
Ele lembra que as religiões animistas são aquelas em que entes não-humanos também seriam habitados por espíritos. Principalmente, os animais e plantas. Tais crenças corresponderiam à fase em que nossos antepassados eram caçadores e coletores.
Nesse tipo de atividade, éramos obrigados a seguir rigidamente os ciclos biológicos. Se uma determinada planta comestível acabava, era preciso encontrá-la em outro lugar. Ou respeitar seus ciclos reprodutivos. O mesmo acontecia com a caça.
Harari diz que as religiões correspondentes a esse modo de vida seriam como “óperas” com um “elenco ilimitado de atores coloridos”.
Tudo isso mudaria com o surgimento das religiões teístas, ou seja, aquelas em que somente deuses são cultuados. A “ópera” multicolorida, diz ele, deu lugar a um “triste drama com apenas dois personagens principais: o homem e Deus”.
Passamos a ser considerados “o ápice da criação”, logo abaixo dos criadores divinos e acima de todos os outros seres vivos. Uma religiosidade que corresponderia à atividade agrícola. Em troca da proteção dos deuses para nossas colheitas passamos a destinar-lhes parte da safra.
Este “acordo”, diz ele, serviu a ambas as partes, “às custas do resto do ecossistema”. Mas como ficam as partes que ficaram de fora? Milhares de anos desprezando a importância de todas outras espécies não podem vir a nos cobrar um preço elevado demais em um futuro não tão distante?
Continua na próxima pílula, com uma rápida visita à Arca de Noé.
Leia também: Deus e o diabo na terra da energia solar
Crise institucional! Juízes, governantes e parlamentares batendo cabeça. A corrupção reina. Renan reina. Temer agoniza.
Diante dessa confusão toda, vozes da direita pedem a aplicação do Artigo 142 da Constituição. E o que vem a ser tal coisa?
Ele, basicamente, diz que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.
Mas sejamos justos. Esta disposição constitucional jamais ficou esquecida. Foi acionada muitas vezes “por iniciativa” dos “poderes constitucionais”.
Um mês após a aprovação da nova constituição, por exemplo, Sarney enviou tropas militares para reprimir uma greve de metalúrgicos em Volta Redonda. Três operários mortos. Artigo 142.
Em 1995, Fernando Henrique enviou tropas militares para refinarias da Petrobrás em greve. Artigo 142.
Em 2004, Lula criou a Força Nacional de Segurança Pública, composta por policiais militares “de elite”. Desde então, ela interveio em muitas lutas e manifestações. Artigo 142.
As mais corriqueiras manifestações populares jamais deixaram de contar com a presença repressiva de Polícias Militares estaduais. Artigo 142.
As UPPs cariocas ocuparam comunidades pobres. Vieram os soldados, mas não os profissionais de saúde, professores, assistentes sociais... Artigo 142.
As recentes ondas de ocupação de escolas receberam visitas truculentas das forças policiais militares. Artigo 142.
A população brasileira convive com uma polícia militarizada que trata sua parcela pobre como potencial inimigo. Artigo 142.
“Lei antiterrorista”? Sem comentários.
Os próprios selfies que manifestantes vestindo verde-amarelo fazem com policiais militares acontecem graças ao Artigo 142.
Diante disso, a direita poderia dar um tempo no ódio para comemorar suas vitórias. Não são poucas, afinal.
Leia também: A caminho da democracia empresarial-militarizada (2)
Postado por Sérgio Domingues às 18:34 Nenhum comentário:
Postado por Sérgio Domingues às 18:07 2 comentários:
Esta é a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos. A regra é o fim da escravidão. Exceções, só na hipótese de crime. Para os negros americanos, a exceção virou regra.
Tudo isso está no documentário “13ª Emenda”, de Ava DuVernay. A excelente produção denuncia o encarceramento em massa dos negros americanos. Uma política iniciada por Reagan, mas mantida e reforçada pelos sucessores, incluindo Clinton e Obama.
Leia também: O massacre dos lanceiros negros
Postado por Sérgio Domingues às 14:33 2 comentários:
Em 28/11, Marcos Coimbra publicou artigo na Carta Capital sobre as eleições de 2018. Segundo ele, “a oposição de esquerda está em vantagem e o governismo vai mal”.
Presidente do instituto Vox Populi, o articulista cita pesquisas recentes em que Lula, sozinho:
Pode esquecer. Muito mais provável seria vivermos novamente o pesadelo de ver o lulismo disputando com a direita tradicional o apoio de nossos inimigos.
Postado por Sérgio Domingues às 17:33 Nenhum comentário:
Postado por Sérgio Domingues às 18:42 2 comentários:

References: Artigo 142
 Artigo 142
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