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Timestamp: 2020-08-05 20:51:37+00:00

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Este ensaio é produto de uma reflexão sobre o desenvolvimento científico da administração. Propõe-se a analisar a trajetória do campo, a partir de suas bases teóricas, refletindo acerca da problemática epistemológica de estarmos diante de um saber que sequer tem claramente definido o seu objeto de estudo. Dessa forma, mediante inspiração no conceito de círculo das matrizes epistêmicas, concebido por Paes de Paula (2015), são realizadas análises com base em três matrizes de conhecimento (Estudos Ortodoxos, Estudos Organizacionais e Estudos Críticos), descrevendo suas trajetórias e destacando a necessidade de um (re)posicionamento e de uma ressignificação do seu objeto cien- tífico. Por fim, são feitas algumas considerações a respeito das discussões sobre o desenvolvimento do campo da administração, a fim de instigar os pesquisadores da área a fazerem reflexões mais profundas sobre as bases epistemológicas dessa ciência.
This article is the result of a reflection on the scientific development of the management. It proposes to analyze the theoretical path of the field, from their frameworks, reflecting on the epistemological problem of a knowledge that even haven’t clearly defined its object of study. Inspired in the concept of the circle of epistemic matrices, conceived by Paes de Paula (2015), the analysis is based on three theoret- ical matrices (Orthodox Studies, Organizational Studies and Critical Studies), verifying their trajectories and highlighting the need to reposi- tion their scientific object. Finally, some considerations are made in order to instigate the researchers of this area to make more profound reflections on the epistemological bases of this science.
Este ensayo es un producto de una reflexión acerca del desarrollo científico de la administración. Se propone analizar la trayectoria del campo, desde sus bases teóricas, reflexionando sobre la problemática epistemológica de estar ante un saber que ni siquiera ha definido claramente su objeto de estudio. De esta forma, mediante inspiración en el concepto de círculo de las matrices epistémicas, concebido por Paes de Paula (2015), se realizan análisis basados en tres matrices de conocimiento (Estudios Ortodoxos, Estudios Organizativos y Estudios Críticos), des- cribiendo sus trayectorias y destacando la necesidad de un (re)posicionamiento y de una resignificación de su objeto científico. Por último, se hacen algunas consideraciones con respecto a las discusiones acerca del desarrollo del campo de la administración, a fin de instigar a los investigadores del área a hacer reflexiones más profundas sobre las bases epistemológicas de esta ciencia.
Cad. Cad. EBAPE.BR, EBAPE.BR, v. v. 15, 15, nº nº 2, 2, Artigo Artigo 2, 2, Rio Rio de de Janeiro, Janeiro, Abr./Jun Abr./Jun. .2017. 2017.
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A administração surgiu como prática social há milhares de anos, nas antigas civilizações, mas seu estudo como ciência
é relativamente recente: em torno de um século de existência. O marco histórico do nascimento da ciência da admi-
nistração se deu com a publicação dos Princípios da administração científica ([1911] 2010), de Federick Winslow Taylor (CUNHA, 2000; FRANÇA FILHO, 2004; VIZEU, 2010). A ideia de introduzir nas organizações produtivas conhecimentos de planejamento, especialização, controle e execução possibilitou o surgimento de um pensamento administrativo moderno, cujas origens se encontram no desenvolvimento do sistema capitalista de produção, no processo de indus- trialização e no movimento doutrinário do management (VIZEU, 2010).
A ciência moderna tende a ser excludente, porque não contempla os demais saberes em sua epistemologia, portanto, des-
carta conhecimentos como o filosófico, o religioso e o senso comum. Por sua vez, na perspectiva da ciência pós-moderna,
o conhecimento científico é produzido com base em uma abordagem multidisciplinar, que vai da filosofia à estética, envol-
vendo as artes e a sociologia, pois tende a constituir um saber não dualista, que se consolida pela superação do que seja físico/biológico, natural/cultural, humano/não humano, mente/matéria, sujeito/objeto, teórico/prático, indivíduo/estrutura, como sinalizam os estudos de Morin (1982), Santos (2004), Capra (2006) e Sousa Santos (2010).
Nesse sentido, todo o conhecimento científico, no contexto das ciências sociais, é ao mesmo tempo natural e social, local
e global, filosófico e popular, já que busca conhecer a natureza humana. Por isso, quando se fala de ciência pós-moderna,
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2. segunda apresenta uma reflexão sobre os fundamentos epistemológicos da administração, de modo a evidenciar
necessidade de um (re)posicionamento e uma ressignificação do seu objeto científico; e
3. terceira apresenta nossas considerações finais sobre as problemáticas destacadas ao longo do texto, com a
finalidade de contribuir para o reposicionamento do campo da administração.
O constructo “administração” é utilizado, neste ensaio, com o sentido de campo científico do conhecimento, espaço de posi-
ções onde dominantes e dominados lutam pela manutenção e pela obtenção de determinados postos (BOURDIEU, 1989; 2002). O campo científico é um campo social como outro qualquer, cheio de relações de força, disputas e estratégias e atende interesses específicos daqueles que compõem a rede.
A administração, na condição de campo científico, expressa-se como um saber interdisciplinar que ainda necessita de
reconhecimento e legitimação da comunidade científica. Por ser um campo de conhecimento em fase de consolidação, há um esforço, por parte da sua comunidade acadêmica, para conceder seu status de ciência. Em decorrência disso, conferem-se na literatura da área três matrizes de conhecimento, cujos conteúdos contribuem para essa finalidade: a) EOA; b) Estudos Organizacionais (EO); e c) Estudos Críticos em Administração (ECA).
Quase sempre, essas matrizes teóricas apresentam linguagens específicas: nos EOA há predominância da linguagem técnica; nos EO prevalece a linguagem interpretativa; e nos ECA sobressai a linguagem emancipatória. Talvez, por esse motivo, nota- -se ausência de diálogo e concatenação entre esses saberes, suscitando uma visão fragmentada do pensamento administra- tivo, uma vez que, tomados separadamente, configuram um ponto cego em relação aos outros dois e potencializam a inco- municabilidade entre si (PAES DE PAULA, 2015).
Na tentativa de contribuir com um olhar interdisciplinar do campo da administração, adaptou-se o conceito do “círculo das matrizes epistêmicas”, um constructo teórico elaborado por Paes de Paula (2015), com o fim específico de repen- sar a concepção dualista, fragmentada e rígida da ciência, formulada por Gibson Burrell e Gareth Morgan (1979), no diagrama dos paradigmas sociológicos 1 .
O “círculo das matrizes epistêmicas”, de inspiração habermasiana, concebe três tipos de conhecimento cognitivo (empíri- co-analítico, hermenêutico e crítico), que em processo dinâmico cria condições favoráveis de diálogo e convivência entre filosofia e ciência, possibilitando outras formas de produção de conhecimento, para além dos sugeridos por Burrell e Morgan (1979). A Figura 1 adapta o círculo das matrizes epistêmicas ao campo da administração, para orientar a estru- turação e as análises deste ensaio.
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Círculo das Matrizes Teóricas da Administração
O círculo das matrizes teórico da administração imprime uma lógica de diálogo e convivência entre saberes, dado que cada um desses conhecimentos (ortodoxo, organizacional e crítico) dispõe de campo de visão com características específicas, que capta isoladamente apenas uma parte da realidade social, porém, em uma perspectiva dialógica, alarga-se a possibilidade de melhor compreender o significado da gestão e a trajetória da administração, enquanto campo científico. Para uma com- preensão dessa realidade, apresentamos nas subseções seguintes os percursos e alguns percalços do campo científico da administração.
Em uma perspectiva abrangente, os EOA podem ser definidos como toda produção científica aplicada às organizações produtivas mercantis, concebida nos moldes da ciência positivista, do método empirista, do liberalismo econômico, dos princípios de engenharia, tendo por fim elevar a eficiência produtiva do capital e do trabalho (FRANÇA FILHO, 2003; 2004). Nessa esfera, há uma coletânea de teorias gerenciais conhecida na literatura especializada como Teoria Geral da Administração (TGA) 2 , uma espécie do mainstream do campo, aqui sistematizada na Quadro 1.
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Esquema Cronológico dos Estudos Ortodoxos da Administração
Movimento das Relações Humanas (Abraham Maslow, Douglas McGregor)
Abordagem Contingencial (Joan Woodward, Afred Chandler Jr., Igor Ansoff, Michael Porter, Henry Mintzberg)
Teoria da Dependência de Recursos (Jeffrey Pfeffer e Gerald Salancik)
Para Vizeu (2010), três importantes fatos históricos explicam a origem do pensamento ortodoxo da administração. Primeiro,
o surgimento do sistema capitalista de produção, inicialmente conduzido pelo capital mercantil, mediante compra e venda
de mercadorias, posteriormente pelo capital industrial e financeiro. Nessa fase, o capital industrial se funde com o capital
financeiro, criando, com isso, novos loci de reprodução capitalista constituídos nas grandes empresas. É nesse contexto eco- nômico e social que a ciência da administração dá seus primeiros passos em busca de um objeto de investigação científica.
A Revolução Industrial, liderada pela a Inglaterra do século XVIII, é vista por Vizeu (2010) como o segundo fato histórico para
explicar a origem do pensamento ortodoxo da administração, uma vez que criou um ambiente propício ao surgimento de novos negócios e novas organizações, a exemplo da fábrica. Com isso, intensificam-se os problemas gerenciais – nível de pro- dutividade, padronização, controle de estoque, controle de qualidade – e, concomitantemente, aumenta a necessidade de
criação de métodos de mensuração adequados para determinar o ponto ótimo de maximização da produção e da receita e
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O terceiro fato histórico deu-se com o aparecimento do movimento doutrinário do management, liderado por profissionais da
área de engenharia. O movimento nasce nos Estados Unidos da América com denominação de works management, porém, expande-se para outros países da Europa, da Ásia e da América Latina, com o propósito de desenvolver métodos de racio- nalização do trabalho e da produção. Para Vizeu (2010), o movimento é marcado por três diferentes etapas: etapa ad hoc da
gestão, etapa de experimentação da gestão e etapa da sistematização prática da gestão.
Como se percebe, é a partir desses eventos históricos que surge a necessidade de um saber sistematizado da organização industrial. É nesse contexto que os Princípios de administração científica ([1911] 2010) tornam-se um referencial no ensino
e na pesquisa da administração em todo o mundo industrializado. França Filho (2004), em análise aos fundamentos episte-
mológicos da administração, classifica-o em três grandes subcampos do conhecimento: técnicas gerenciais, áreas funcionais
sempre com a pretensão de validade universal, ou seja, transpostas para o âmbito de instituições públicas,
] Elaboradas sob
a forma de modelos gerenciais, essas metodologias incorporam, em geral, um conhecimento muito técnico sobre
gestão, em mescla com algumas ideias sobre temáticas ligadas ao campo das relações humanas, como motivação, liderança ou comunicação. Como exemplos são citados: Organização Racional do Trabalho (ORT) proposta por Taylor, Administração por Objetivo (APO) de Drucker, nos anos de 1950, e, mais recentemente, nos anos de 1980 e 1990, as ondas da qualidade total, reengenharia e dos sistemas ISO.
• As áreas funcionais comungam com as técnicas gerenciais o sentimento pragmático das ideias desenvolvidas e a
natureza prescritiva do campo. São subáreas de especialização da prática administrativa: o marketing, as finanças,
• As técnicas gerenciais são metodologias de trabalho utilizadas no cotidiano da gestão empresarial. [
que têm sido chamadas por alguns “estudos críticos” das organizações, cuja preocupação fundamental é revelar algumas dimensões importantes da análise organizacional não percebida pela perspectiva funcionalista.
ensaio. Nossa ressalva aplica-se à nomenclatura concedida ao subcampo técnicas gerenciais, o qual classificamos como EOA, incluindo as divisões das áreas funcionais idealizadas por Henri Fayol, legítimo representante do pensamento ortodoxo, como também os ECA, dentro do subcampo dos EO. Os ECA, a nosso ver, têm suas especificidades epistemológicas e metodológicas,
portanto, não devem ser considerados continuidade dos EO. Em decorrência disso, consideramos mais apropriado entender
o campo a partir do círculo das matrizes epistemológicas de Paes de Paula (2015), classificando-o em EOA, EO e ECA.
Além disso, discordamos de França Filho (2004) quando o autor nos permite compreender que o objeto científico da admi- nistração tende a ser as “organizações”, mas sem destacar a possibilidade de também ser a “gestão”. Essa indefinição, ao nosso olhar, encontra-se na dificuldade do autor para delimitar epistemologicamente os dois campos: estudos admi- nistrativos e EO. Nesse ponto, entendemos que o objeto científico da administração seja a gestão das relações sociais de produção, distribuição e consumo, tal como defende Santos (2004, p. 37) e não a organização, como aponta França Filho
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(2004). A organização é o objeto científico dos EO, na condição de disciplina autônoma, e não dos estudos administrati- vos. Contudo, concordamos com França Filho (2004) quando o autor classifica o pensamento ortodoxo da administração como pragmático, prescritivo e fortemente fundamentado no paradigma funcionalista, visão que também é comparti- lhada por autores como Burrell e Morgan (1979), Morgan (1996; 2005), Ramos (1989), Chalat (2000), Aktouf (2001; 2004; 2005), entre outros.
Para esses autores, os EOA consistem na aplicação de pressupostos da economia neoclássica na esfera das organizações indus- triais, uma vez que sempre buscam a maximização dos ganhos e a minimização das perdas, fortemente presentes no método de organização racional do trabalho (ORT) de Frederick Taylor, na administração geral de Henri Fayol, na administração por objetivo (APO) de Peter Drucker e/ou na excelência administrativa de Robert Monks, como indica Santos (2004, p. 23-24):
a crise do capitalismo do último quartel do século XIX e início do século XX, através do pensamento e obra de autores como William Petty, Leon Walras, Alfred Marshall, Artur Cecil Pigou, entre outros que constituíram os fundamentos da microeconomia. Com as mudanças na organização do capitalismo ocorridas ao longo do século XIX, com o aparecimento de mercados imperfeitos, mediante estruturas oligopólicas e monopólicas, a tradição clássica, mais voltada para o estudo da economia política do desenvolvimento, praticamente dá lugar ao estudo do comportamento das unidades de produção e consumo, representadas pelos indivíduos, famílias e empresas. Este é o momento em que a lógica do valor trabalho é orientadamente substituída pela lógica do valor utilidade, fundada na racionalidade dos fatores econômicos e na soberania do consumidor.
pioneiros pensarem a administração estritamente em torno do ato de gerir empresas industriais, por meio do planejamento racional, previsibilidade e controle, tendo como base os fundamentos da ciência positivista, bastante em vigor na época. Nessa ocasião, o objeto de investigação da ciência administrativa centrava-se nas análises dos problemas gerenciais da orga- nização do trabalho e da produção. Entretanto, com o advento dos EO, em especial com os trabalhos de Amitai Etzioni, Kurt Lewin e Elton Mayo, houve um deslocamento da gestão para a organização como unidade de análise (CUNHA, 2000; FRANÇA FILHO, 2004). Esse deslocamento demarca o subcampo dos EO e abre uma discussão a respeito do “verdadeiro” objeto de estudo da ciência da administração, se seria a gestão ou a organização. Sobre isso, Santos (2004) esclarece que, do ponto de vista do enquadramento científico, a administração é um campo inteiramente indefinido, principalmente por não ter ainda demarcado seu objeto de investigação científica. Entretanto, defende a tese:
dizer que as organizações podem constituir-se em objeto de pesquisa em administração, mas nunca constituem objeto que dá status de ciência de administração (SANTOS, 2004, p. 37).
A tese do autor em questão consiste no fato de que a organização é lócus onde habita o objeto da administração e não o
objeto em si, pois no espaço organizacional manifestam-se diversos fenômenos sociais, como: fenômeno de comportamento, de cultura, de poder, de comunicação, de troca, de memória e, sobretudo, de gestão. Assim, as organizações só podem ser objeto de pesquisa; entretanto, não é particularmente da administração, mas também da psicologia, da antropologia, da sociologia, da economia ou mesmo da história. Por outro lado, existe o fenômeno da gestão, não apenas na perspectiva de conjuntos de técnicas instrumentais, tais como foram concebidas no pensamento ortodoxo da administração, mas em uma perspectiva de relações sociais de produção, distribuição e consumo da sociedade. Por essa concepção, a gestão, na condição
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Por EO se entende todo conhecimento produzido na tentativa de descrever, interpretar e explicar o comportamento das
e nas organizações, tendo por referência teórica as produções oriundas da psicologia, da sociologia, da antropologia, da economia, da ciência política, entre outras. Comumente, as análises nesse campo centram-se em questões como raciona- lidade, integração, mercado, poder, (re)conhecimento, justiça (REED, 1999). Em síntese, trata-se de um subcampo multi e interdisciplinar.
Fadul e Silva (2009), ao analisar a natureza desse subcampo, constataram que consegue ser designado por expressões diversas, a depender de sua condição de independência ou relevância e da ciência ou disciplina à qual ele pertence. Em suas análises:
Quando completamente independente, trata-se da ciência organizacional que, segundo Casanova (2006),
é uma disciplina que resulta da reunião de outras disciplinas como a engenharia, fisiologia, administra- ção, economia e sociologia, em função da organização, aí concebida como sistema complexo. A ciên-
cia da organização caracteriza-se por sua transversalidade em relação às outras disciplinas, o que faz dela, na definição de Hilton Japiassú (2006), uma hiperdisciplina. Quando pertence a uma disciplina, os estudos organizacionais são a especificação de uma disciplina mais ampla, voltada para a organiza- ção definida como parte do objeto de estudo da disciplina de origem. Nesta condição de pertinência
rada pertencente à administração, a disciplina estudos organizacionais é designada em função de sua origem ou pertinência a outra disciplina, da concepção da ciência definida e de até objeto estudado (FADUL e SILVA, 2009, p. 360).
ritório multidisciplinar que é a gestão. Ou seja, nem tudo o que é gestão é do domínio da ciência orga- nizacional, mas toda ciência organizacional pode ser entendida como podendo ser abarcada por uma ciência de gestão que demonstre preocupações não apenas aplicadas, como também, teóricas.
Em sua análise, a ciência organizacional contribui com a ciência da gestão (administração) por meio de suporte teórico e metodológico, fundamentando, assim, o lado prático da administração. A ciência organizacional é, para Cunha (2000), um aglutinador de duas dimensões: comportamento organizacional e teorias das organizações. Estas duas dimensões constituem
o arcabouço teórico-prático dos EO e assim se apresentam:
Comportamento organizacional. Domínio específico: o estudo dos indivíduos e grupos em contexto organizacional, e o estudo da forma como os processos e as práticas internos afetam os indivíduos e
grupos. Entre os seus tópicos principais encontram-se as características individuais (crenças, valores
e personalidade), os processos individuais (percepção, motivação, tomada de decisão, julgamento,
implicação e controle), características grupais (dimensão, composição e estruturais), processos grupais
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fatores nos resultados individuais, grupais e organizacionais, tais como o desempenho, turnover, absen- tismo e stress.
Teoria das organizações. Domínio específico: construção e testagem de teorias sobre organiza- ções, e seus membros e a sua gestão, relações organização-envolvente e processos organizativos. Os avanços em teoria das organizações incluem a escolha estratégica, a dependência de recur- sos, a ecologia organizacional e a teoria institucional. Os seus desenvolvimentos mais recentes incluem a perspectiva crítica, feminista, cognitiva e pós-moderna. Os novos desafios abarcam a melhoria da qualidade, as alianças estratégicas, a implementação de novas tecnologias, os pro- cessos de governação e controle, as reestruturações organizacionais e a diversidade estratégica global (CUNHA, 2000, p. 47-48).
Diante da delimitação do campo, descrita por Cunha (2000), é possível identificar nos EO alguns elementos caracteri- zadores do pensamento positivista, principalmente nos temas que são fundamentados pelas teorias behavioristas e estruturalistas. O fato é que, mesmo se colocando como uma alternativa ao pensamento ortodoxo da administração, isso não significa que os EO tenham abandonado na totalidade a abordagem funcionalista, a marca do pensamento ortodoxo. Existe uma espécie de sucessão de ciclos de dominância de pensamentos mais conservadores e com pensa- mentos mais progressistas. Essa dualidade parece continuar viva, com correntes claramente humanistas e outras decla- radamente funcionalistas (CUNHA, 2000). A lição que podemos extrair desse comportamento dualístico é que existem duas importantes preocupações nas produções científicas dos estudos oganizacionais: eficiência/produtividade e tra- balho humano. Em tais pesquisas, verifica-se um esforço da academia em introduzir análises interpretativas, críticas e pós-modernas nas invetigações administrativas e organizacionais.
Outra questão para ser pontuada sobre os EO diz respeito à sua origem e ao seu pertencimento. Reed (1999) argumenta que os EO têm origem nas investigações realizadas por estudiosos do século XIX, como Saint-Simon, quando buscava interpre- tar as transformações ideológicas e estruturais da sociedade capitalista industrial, bem como das contibuições de Frederick Taylor, Henry Fayol, Chester Barnard, Elton Mayo e Max Weber. Já Cunha (2000, p. 49) apresenta três possíveis perspectivas para a origem do campo:
• Uma primeira perspectiva, principalmente sustentada por aqueles que transitaram da psicologia para a ciência organizacional, defende que o início desta pode ser remetido para os trabalhos conduzidos em meados dos anos [19]40 por Kurt Lewin e colegas sobre a liderança e a dinâmica de grupos.
• Os investigadores provenientes da sociologia atribuem normalmente a fundação da ciência organizacional aos trabalhos desenvolvidos por volta de 1950 pelos “sociólogos da burocracia” como Robert Merton, Philip Selznick, Alvin Gouldner e Peter Blau.
• Uma terceira perspectiva, defendida por aquele autor (LAWRENCE, 1983, p. 2-3), considera que o nascimento da ciência organizacional deve ser associado a trabalhos anteriores, tomados como fundadores as obras de Elton Mayo (Human problems, of an industrial civilization, de 1933), Chester Barnard (Functions of the executive, de 1938), e Fritz Roethliberger e William Dickson (Management and the worker, de 1939).
Certamente, o que se verifica é a natureza multidisciplinar do campo. Independente de suas origens (psicologia, sociolo- gia ou administração), estamos diante de um campo com uma agenda de investigação para além do conceito de disciplina, como um domínio delimitado e ordenado de conhecimentos possíveis de produção, difusão e aprendizagem de determi- nado campo de saber.
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paradigma funcionalista pressupõe uma sociedade com existência concreta e real, orientada para a produção de
um estado de coisas ordenado, regulado e com certa visão sistêmica da realidade. Estimula a crença em uma ciência social objetiva, isenta de valor, produtora de conhecimento empírico e útil. Em síntese, os funcionalistas entendem as organizações sociais como objetos tangíveis, concretos e objetivos;
paradigma interpretativista pressupõe que a realidade social não existe em sentido concreto, mas é produto da
experiência subjetiva e intersubjetiva dos indivíduos. Entende que há uma ordem e um padrão implícito no mundo social que surgem das ações intencionais das pessoas, individualmente ou em harmonia com outras. A ciência é considerada uma rede de jogos de linguagem, baseada em grupos de conceitos e regras subjetivas. A realidade social é um processo emergente, uma extensão da consciência humana e da experiência subjetiva;
paradigma humanista radical pressupõe, tal como os interpretativistas, que a realidade social não existe no sentido
concreto e real da natureza, pois é algo socialmente criado e socialmente sustentado que leva a uma patologia da consciência humana, uma espécie de prisão psíquica. A ciência é vista como um instrumento de dominação a serviço do capitalismo, cujos conceitos (riqueza, escassez, lazer, democracia, desenvolvimento etc.) são modos de dominação ideológica;
paradigma estruturalista radical considera a sociedade uma força potencialmente dominadora. Nele, o que se
pensa e o que se deseja é fruto do que a sociedade impõe a cada um em seu lugar específico dentro da estrutura. No estruturalismo não existe autonomia do indivíduo, pois este está sempre sujeito às imposições das estruturas.
A ação individual é mera reprodução das estruturas coletivas. Para os estruturalistas, o comportamento humano
é determinado por estruturas culturais, sociais e psicológicas. Porém, vinculado a uma concepção materialista do mundo social, definida por estruturas sólidas, concretas e ontologicamente reais (econômica, política, tecnológicas etc.) O estruturalista está interessado em compreender as tensões intrínsecas e a maneira como os detentores de poder na sociedade procuram controlá-las por meio de vários modos de dominação (MORGAN, 2005, p. 61-62).
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Os estudos demonstraram uma concentração das teorias organizacionais dentro do paradigma funcionalista, cuja crença
encontra-se em uma ciência objetiva, positivista, isenta de valor e em uma sociologia da regulação, em que a sociedade
é explicada com base na racionalidade instrumental e utilitária. Verificaram-se, também, mediante o uso de metáfora,
oito possibilidades de análises organizacionais (máquina, organismo, cérebro, cultura, política, dominação, fluxo e trans- formação e prisões psíquicas) com interseções e também com debates excludentes entre elas. Toda essa análise aponta
a existência de um campo teoricamente fragmentado como o objeto (organização) amplo, multidimensional, complexo e
dinâmico. No que pesem as críticas a Burrell e Morgan (1979) a respeito do caráter excludente dos paradigmas que con- templam apenas a tradição modernista, é importante reconhecer a contribuição que o ele forneceu ao desenvolvimento nas ciências sociais no geral e, em específico, aos estudos administrativos. A administração possibilitou o desenvolvimento
de novas abordagens teóricas, a exemplo dos ECA.
Antes de adentrarmos na análise dos ECA, é necessário colocar uma questão de partida: “estudos críticos” em relação a quê
e a quem? Para tentar responder essa questão, tomamos como referência dois importantes trabalhos. Um de caráter mais
amplo, do ponto de vista da filosofia da ciência, Porque é tão difícil construir uma teoria crítica, produzido por Boaventura de Sousa Santos (1999) e outro de cunho mais específico, no campo da administração, At the critical moment: conditions and
prospects for critical management studies, desenvolvido por Valérie Fournier e Chris Grey (2000).
sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos (1999, p. 197) afirma que: “a tarefa dos estudos críticos consiste em definir
avaliar a natureza e o âmbito das alternativas ao que está empiricamente dado”. Semelhantemente, Fournier e Grey (2000,
p. 16) ressaltam que: “estar envolvido em estudos críticos de gestão significa dizer que existe algo de errado com a gestão,
enquanto prática e corpo de conhecimento, e que ela deve ser mudada”. Essas duas colocações nos remetem para o enten- dimento de que existe uma realidade dada, existe algo errado com essa realidade e existe um sentimento para mudança. No entanto, de qual realidade estamos falando? Por que mudar essa realidade?
Sousa Santos (1999; 2010), para responder esses questionamentos, centra sua análise nas grandes promessas da moderni- dade não efetivadas ou efetivadas com efeitos perversos. Promessas como da igualdade, da liberdade, da paz perpétua e da dominação da natureza nos colocam diante de situações e de condições que nos suscitam desconforto e indignação, não fal-
tando, assim, fatos para criticar. Como exemplos são citados: a concentração da riqueza, a violação dos direitos humanos, os conflitos entre Estados, a destruição da natureza, entre outras que nos obrigam a interrogar criticamente sobre a natureza e
a qualidade moral da nossa sociedade e a buscar alternativas teóricas para essas questões.
Argumenta-se, ainda, que a ciência moderna, com sua crítica moderna, fundamentada no marxismo e suas ramificações teóricas (estruturalismo, existencialismo, fenomenologia e a psicanálise) explica muito pouco a realidade social. A razão disso se encontra no fato da teoria crítica moderna conceber a sociedade como uma totalidade e, com isso, propõe um modelo padrão de economia, de ciência, de gestão, de desenvolvimento, uma sociedade regulada e culturalmente homogênea. Quando, na verdade, verifica-se uma sociedade multicultural que exerce uma constante hermenêutica de suspeição contra supostos universalismos e/ou padro- nismos. E prossegue dizendo que “uma das fraquezas da teoria crítica moderna foi não ter reconhecido que a razão que critica não pode ser a mesma que pensa, constrói e legitima aquilo que é criticável”, uma vez que é necessária outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separa do objeto que estudamos (SOUSA SANTOS, 1999, p. 204). Em suma,
é preciso construir um conhecimento emancipatório, capaz de promover o deslocamento do monoculturalismo para multicultura-
lismo, da padronização para diversificação, da dicotomia para integração. Por essa concepção, só por meio de uma visão sistêmica
e ampla do conceito de ciência que poderemos avançar nas complexidades do mundo contemporâneo.
Da mesma forma, porém, em uma análise mais pontual, Fournier e Grey (2000, p. 14) enfatizam os equívocos teóricos e prá- ticos do campo da gestão e assim declaram: “de um modo geral, o estudo da gestão e das organizações inspirou-se nas tradi- ções das ciências sociais, mas de uma maneira muito defasada”. No entendimento dos autores, o estudo da gestão, embora sendo um campo das ciências sociais, limitou-se à produção de um conhecimento positivista e funcionalista, ao passo que as demais ciências sociais já praticavam outras formas alternativas de construção do conhecimento, dentre elas: o neomar- xismo da Escola de Frankfurt, o pós-estruturalismo, o desconstrucionismo, a crítica literária, o feminismo, a psicanálise, os estudos culturais, o ambientalismo, o pós-colonialismo.
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• Propósito não performático: trata-se do parâmetro mais usual para demarcar a fronteira entre um estudo crítico
e tradicional em gestão. A premissa performativa preza por saberes que promovam a maximização dos ganhos e
minimização das perdas. A gestão, nessa categoria de saber, é regida pelo princípio performático de subordinar o conhecimento e a verdade à produção da eficiência, da eficácia e da lucratividade. O estudo crítico não se coloca para gerar conhecimento em função da performance econômica organizacional. Quando se inclui a performance na análise é para descobrir o que está sendo feito ou não em seu nome. Davel e Alcadipani (2003, p. 75) nos dizem que
“o foco do estudo crítico em gestão está na tentativa de emancipar as pessoas dos mecanismos de opressão, tendo, de fato, o humano como ponto fundamental”.
• Visão desnaturalização da administração: consiste em não reduzir a realidade ao que existe, ou seja, reconhecer que os fenômenos sociais podem e devem ser compreendidos de formas diferentes. Isso porque enquanto os estudos tradicionais da gestão se engajam em explicar uma realidade dada, abstraindo de suas análises a formação social e o contexto histórico, os estudos críticos buscam o questionamento sistemático dessas estruturas e de sua base teórica. Em suma, os estudos críticos estão interessados em revelar que as coisas podem não ser o que parecem ser, mesmo que a razão dada para isso contemporize tanto ontológica quanto politicamente.
• Reflexibilidade: trata-se da extensão filosófica e metodológica que deve ser desenvolvida dentro do campo dos
estudos críticos da gestão. Não diz respeito apenas ao fato dos estudos tradicionais serem positivistas, enquanto os estudos críticos não o são, mas se deve desvendar o por quê de nos estudos tradicionais o positivismo ser dominante.
A reflexão sobre epistemologia, ontologia e metodologia deve ser uma constante nos estudos críticos de gestão.
Nos ECA, a gestão não é simplesmente um conjunto de técnicas gerenciais, tal como concebem os teóricos dos EOA, ou sim- plesmente uma dimensão da vida organizacional, como assim consideram os teóricos dos EO. A gestão para os ECA é uma prática social, fruto das relações sociais de produção, portanto, sujeita às ideologias, aos valores e aos interesses de classes (ALVESSON e WILLMOTT, 1992; FOURNIER e GREY, 2000). Conceber a gestão como mera atividade técnica é uma tentativa de criar a ilusão de uma possível neutralidade científica na administração. Em razão disso, espera-se que os ECA possam: a) denunciar o caráter opressivo da administração; b) manter uma postura crítica em relação à razão instrumental; c) opor-se ao poder dominante, à ideologia, ao privilégio administrativo e às hierarquias; d) desmistificar o mito da neutralidade cien- tífica nos estudos administrativos e organizacionais.
Os ECA têm origem no pensamento anglo-saxão, na década de 1990, com a criação e o desenvolvimento do movimento deno- minado Critical Management Studies (CMS) e com a publicação da coletânea organizada por Alvesson e Willmott (1992), com o mesmo título. Desde então, houve um desencadeamento em série de outras publicações, colóquios, conferências, workshops e redes acadêmicas, concebidas para discutir aquilo que poderia ser uma administração crítica (FOURNIER e GREY, 2000).
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A intenção da teoria crítica não é envolver em projetos utópicos pela eliminação da hierarquia, da
divisão do trabalho ou, mesmo, pela abolição da separação entre administração e outras formas de trabalho. Em vez disso, sua aspiração é apoiar o desenvolvimento de organizações em que a comuni-
cação (e o potencial produtivo) seja, progressivamente, menos distorcida pelas relações assimétricas
e opressivas de poder (MISOCZKY e ANDRADE, 2005, p. 223).
Para Paes de Paula, Maranhão e Barros (2009), é nessa pluralidade epistemológica que podem ocorrer as contradições dos ECA. A questão consiste em saber como é possível integrar, em um mesmo espaço, estudos frankfurtianos, pós-estruturalis- tas, marxistas, interpretativistas ou pós-modernistas, epistemológica e metodologicamente tão diferentes entre si: a) a mul- tiplicidade epistemológica ajuda a preservar o próprio movimento; ou b) existe um descompromisso com o projeto da crítica, por intermédio do “gerencialismo engajado”?
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O campo científico da administração: uma análise a partir do cír- culo das matrizes teóricas
O “gerencialismo engajado” não descarta o princípio performático da gestão como propuseram Fournier e Grey (2000), mas
introduz os conceitos reformistas de “performatividade crítica e microemancipação”. O argumento centra-se na ideia de que
a performatividade crítica seria uma forma de complementar a crítica sem substituí-la, fazendo incisões incrementais em
processos de gestão não desejados. Por sua vez, o argumento da microemancipação centra-se em um entendimento de que não é possível introduzir grandes transformações na sociedade, mas apenas transformações graduais, visto que é limitado o espaço para revoluções em larga escala. Logo, a emancipação só é possível nas microrrelações sociais.
Pelo exposto, é possível identificar duas vertentes críticas no campo dos ECA. Uma de caráter reformista, comprome- tida com a pluralidade teórica, reconhecedora das limitações da escola ortodoxa, liderada pela academia europeia e estadunidense, mas firme na defesa dos princípios fundamentais do mainstrean, como a eficiência, a eficácia e a lucra- tividade (performance crítica) e a microemancipação da gestão. Outra de caráter revolucionário, comprometida com um pensamento crítico mais próximo da tradição frankfurtiana, opositora da escola ortodoxa, defensora de outras rea- lidades teórico-práticas de gestão (TRAGTENBERG, 1974; RAMOS, 1989; POLANYI, 2000; MISOCZKY e CAMARA, 2015; SEIFERT e VIZEU, 2015a; 2015b), para além dos modelos euro-americanos dominantes.
Neste ensaio, aplica-se a categoria da epistemologia específica, já que se pretende refletir sobre a delimitação epis- temológica do campo da administração. Todavia, nem sempre é fácil delimitar o campo de atuação de determinada ciência, uma vez que, para isso, é preciso cumprir, com certa precisão, alguns condicionantes epistemológicos, como:
No que tange à administração, Whitley (1977) afirma que esta pode ser considerada uma ciência factual, visto que seu objeto de estudo se constitui de fenômenos de ordem social, ou seja, do estudo e da melhoria da coordenação e do controle de atividades humanas associadas. Thompson (1956) classifica a administração como uma ciência social aplicada, por buscar observar, descrever e explicar as relações sociais existentes no processo da organização e da distribuição da produção.
Serva, Dias e Alperstedt (2010, p. 278), analisando as bases epistemológicas da administração, advogam que se trata de “uma ciência social ainda em gestação, cujo objeto não é uma realidade dada e pronta para ser investigada, mas, algo socialmente construído”. Os autores afirmam, ainda, que ela necessita ser reconstruída à luz de uma problemática teórica específica e que, para responder ao critério de cientificidade, deve não só superar certo número de obstáculos epistemológicos, mas também desenvolver instrumentos adequados de análise. Para os autores, os obstáculos encon- tram-se no parasitismo ideológico, no normativismo e nas armadilhas do empirismo, elementos caracterizadores da epistemologia positivista/funcionalista.
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Influência do Pensamento Científico no Campo da Administração
Francis Bacon, René Descartes e Immanuel Kant
Base para os princípios da administração científica, decomposição das tarefas, homem racional, separação sujeito/objeto.
Auguste Comte, Karl Popper, Moritz Schlick e Jeremy Bentham
Progresso como processo evolutivo e linear, materialismo utilitário.
Émile Durkheim Bronisław Malinowski e Philip Selznick
Conceito de função relacionada às necessidades, estruturas sociais como estruturas funcionais, organizações por objetivos, culto à função, homem funcional.
Talcott Persons, Walter Buckeley, Fremont Kast e James Rosenzweig
Organizações legitimadas pela sociedade, sociedade como conjunto de organizações como parte do sistema social, modelo de processo, regulação dinâmica, equilíbrio do sistema, reprodução do sistema.
Karl Marx, Georges Gurvitch, Francine Séguin Bernard & Jean François Chanlat e J.K Benson
Fenômenos inter-relacionados, a produção social da organização que envolve as noções de ideias, interesses, poder dos atores; a organização como uma totalidade, visão das relações complexas da organização, considera a história, estado de “vir-a-ser”, mudanças de sistema, conflito.
Christian Descamps, Edgar Morin e Ilya Prigogine & Isabelle Stengers.
Ordem/desordem, equilíbrio/desequilíbrio, natureza é complexa, união de contrários, dinâmica de fluxo, inseparabilidade do sujeito/objeto, visão sistêmica, trajetória do desenvolvimento não linear, incerteza.
As bases epistemológicas da ciência positivista/funcionalista influenciaram o pensamento dos precursores da administração e seus seguidores por muito tempo, contudo, novas abordagens destacaram-se em meados dos anos de 1980 e 1990, em uma perspectiva crítica e pós-moderna. Marchi (2010) reconhece que essas novas abordagens chegam tardiamente no campo da administração. As razões para isso podem ser explicadas pelo fato do funcionalismo ter ocultado de suas análises o elemento ideológico e histórico, além do desinteresse do marxismo pelos estudos administrativos e organizacionais. O sistemismo é incor- porado aos estudos administrativos e organizacionais, não para modificar a ordem que enclausurou, mas para reforçá-la. Já a abordagem dialética contribui sobremaneira para superar as limitações da epistemologia positivista/funcionalista, focando- -se na compreensão do poder, da história, da política e nas intenções dos agentes (empresa, governo, sociedade) envolvidos.
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A complexidade emerge como abordagem integradora para explicar o real ou para percebê-lo de uma maneira mais próxima. Nela prevalece a lógica dialógica onde é possível lidar com situações de ordem/desordem, equilíbrio/desequilíbrio, estático/dinâmico, ao contrário da epistemologia positivista/funcionalista onde o conhecimento caracteriza-se por ser sistemático, metódico, exige demonstração, submete-se à comprovação, ao teste para estabelecer relações de causa e efeito. Conhecer significa dividir e classifi- car para depois poder determinar relações sistemáticas entre sujeito e objeto. Diferentemente da epistemologia da complexidade, descrita por Boaventura de Sousa Santos, Fritjot Capra, Ilya Prigogine, entre outros, que consideram que todo conhecimento cien- tífico é natural e social, local e total, constitui-se em senso comum e busca o autoconhecimento. Para esses autores, não há dico- tomia entre ciências naturais e ciências sociais. Essa distinção se assenta em uma concepção mecanicista da matéria e da natureza.
gica na teoria das organizações, indicando que ela tende a sobreviver apenas se vier a se transformar
e se propuser como teoria viável, uma vez que, como afirmado por ele, o homem tem diferentes tipos de necessidades e a sua satisfação requer vários tipos de cenários sociais. O sistema de mercado só atende alguns desses tipos de necessidades humanas, e, por isso, o autor acredita que “o comporta- mento administrativo é conduta humana condicionada por imperativos econômicos”.
A compreensão de Serva, Dias e Alperstedt (2010) é de que toda a epistemologia da administração, até então, é concebida
com base na crença de apenas um enclave social (mercado) e de uma ação administrativa pautada na racionalidade instru- mental. Na verdade, o mercado é apenas um enclave da sociedade e a ação administrativa não ocorre somente pela via da racionalidade instrumental, mas, por intermédio também da racionalidade substantiva. Para esses autores, a administração precisa libertar-se das amarras da epistemologia positivista/funcionalista com sua lógica formal, racional e utilitária, para que possa caminhar em uma perspectiva de uma ciência mais próxima da sua realidade social.
Como é possível perceber, a administração, na tentativa de adequar-se ao conceito de ciência concebido na moderni- dade, para ser aceita como tal, condicionou-se a construir uma ciência descontextualizada, fragmentada e prescritiva. Além disso, acrescenta-se o fato de estarmos diante de um campo de conhecimento que sequer tem seu objeto cientí- fico definido. Essas limitações epistemológicas prejudicam o desenvolvimento e a consolidação do campo. Isso se torna mais clarividente nos estudos realizados por Santos, Santos e Braga (2016), junto à comunidade científica da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração (ANPAD). Os estudos desses autores comprovam a existên- cia de uma indefinição, por parte da comunidade científica brasileira, quanto ao objeto de estudo da administração, uma vez que essa comunidade considera a gestão (45%), a organização (24%), a estrutura (12,5%) e o indivíduo (10,6%) como possíveis objetos científicos da administração, sem contar uma parcela dessa comunidade (7,7%) que sequer foi capaz de indicar um elemento de investigação para a ciência da administração. Essa indefinição epistemológica, em nossa perspec- tiva, acaba limitando o desenvolvimento do campo da administração, porque quando não se tem clareza quanto ao objeto
e a finalidade do campo, este perde a direção de seus propósitos.
Nosso entendimento sobre essa questão consiste em não descartar a possibilidade, de fato, da gestão vir a ser objeto
científico da administração. Entretanto, ao considerarmos a gestão objeto científico da administração, entendemos, tam- bém, que precisamos nos aprofundar teoricamente sobre esse constructo social, dado que o conceito de gestão não se limita às relações sociais internas das organizações, como imaginam os teóricos dos EO, muito menos a um conjunto de técnicas, métodos e/ou ferramentas gerenciais de planejamento e controle, tais como conceberam os pioneiros dos EOA.
A gestão é, antes de tudo, um fenômeno que nasce “da”, “com”, e “para” a sociedade, um contrato e uma prática social
que devem ser legitimadas e reconhecidas por todos os enclaves (Estado, mercado e sociedade). Estudos dessa natureza
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já vêm sendo realizados por algumas redes, centros e núcleos de pesquisa do país, com destaque para: a Rede de Pesquisa
em Administração Política da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA); o Núcleo de Pesquisa em Organizações, Racionalidade e Desenvolvimento da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); o Núcleo de Estudos de Gestão Dialógica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em geral, os pesquisadores dessas redes vêm cana- lizando esforços no sentido de conceder outro significado para o imaginário gerencial, recuperando outro sentido para a gestão, salientando, além da técnica, as dimensões políticas, sociais e críticas da gestão (SANTOS, RIBEIRO e SANTOS, 2009; SERVA, 2016; KOPELKE e BOEIRA, 2016; PAES DE PAULA, 2016). Entender a gestão como objeto de estudo da administra- ção significa ir fundo nas estruturas de poder, de ideologia e de comando da sociedade. É observar, descrever, analisar, explicar e até orientar as relações sociais de produção, distribuição e consumo, em qualquer que seja a sociedade, isto é, pré-capitalista, capitalista ou pós-capitalista.
Nessa perspectiva, detectou-se que a administração para se consolidar como campo científico necessita libertar-se de algu- mas amarras do pensamento epistemológico moderno, uma vez que este tenta construir um conceito de ciência que descarta
e desqualifica as demais fontes de saberes. Em função disso, verifica-se a predominância na produção científica da adminis-
tração de um pensamento positivista/funcionalista, limitando-se a analisar apenas as organizações modernas, desconside- rando, portanto, o universo das organizações não mercantis e pós-modernas. É preciso compreender, de uma vez por todas, que o fato administrativo, na condição de fato social, não é um fenômeno exclusivo das organizações mercantis ou do Estado moderno, portanto, não podemos e não devemos construir uma ciência apenas para atender essas organizações sociais, mesmo reconhecendo que foram estas que deram origem ao campo de conhecimento.
Em nosso entendimento, é necessária uma reflexão profunda sobre o que consideramos campo científico da administração, principalmente no que diz respeito aos elementos determinantes dessa ciência, ou seja, objeto, teoria, método e pressupos- tos. É preciso que tenhamos mais clareza sobre os propósitos epistemológicos desse campo de conhecimento, considerando que uma ciência que sequer apresenta com precisão seu objeto de estudo está, grosso modo, a navegar sem direção. Ou uma Teoria Geral da Administração (TGA) que só contempla o pensamento ortodoxo e desconsidera outras possibilidades teóricas (EO e ECA) está sujeita a ser vista como apenas um manual de procedimentos empresariais. Ou, ainda, uma ciência que condiciona sua ação apenas para um enclave social (mercado), guiada, exclusivamente, pelos pressupostos da escassez de recursos e das necessidades ilimitadas, na verdade, não passa de um mecanismo ideológico de uma categoria social em detrimento das demais. Não podemos construir uma ciência apenas para atender às necessidades do mundo do business (AKTOUF, 2004), dado que esta é apenas uma das dimensões nas quais se manifesta o fato administrativo, haja vista que é preciso lembrar a existência de duas outras dimensões, em nosso entender, de maior representatividade e legitimidade que o mercado, trata-se do Estado e da sociedade.
Portanto, ao considerar a administração como fato social e campo de conhecimento, é importante compreender que esta- mos diante de um fenômeno que engloba não só a gestão empresarial, mas, sobretudo, a gestão social e estatal. Em fun- ção disso, torna-se imprescindível compreender que o campo de atuação da administração não se restringe ao universo da microgestão, mas, da meso e da macrogestão. A macrogestão, tal como o regime político, a ordem jurídica, o sistema eco- nômico, é um contrato social decorrente do acordo estabelecido entre os membros da sociedade. Nela, contém o projeto de nação com as diretrizes gerais: o que a nação quer ser? Aonde pretende chegar? Como devemos organizar o sistema de produção? Como devemos distribuir a riqueza gerada? Quem deve consumir a riqueza gerada por essa sociedade? A mesogestão ou a gestão pública é constituída no âmbito do Estado, deve garantir as aspirações e desejos da sociedade ou da gestão social, diante dos interesses e das ações da microgestão ou da gestão empresarial. A ação enérgica dessas três
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categorias de gestão – gestão social, gestão pública e gestão empresarial – delimita o campo de atuação da administra- ção e exige da comunidade científica da administração um posicionamento quanto à responsabilidade acadêmica desse fato social. Diante disso, defendemos que:
• O campo da administração tome para si o estudo da gestão das relações sociais de produção, distribuição e consumo em qualquer contexto e momento histórico do processo civilizatório da humanidade;
• O ensino e a pesquisa no campo da administração não fiquem restritos a um único modelo de sociedade e visão de mundo;
• O ensino e a pesquisa no campo da administração sejam orientados para observar, descrever e explicar os fenômenos, porventura existentes na gestão social, estatal e empresarial;
• Existem correlações de forças ideológicas, teóricas e de prática da gestão dentro do campo, portanto, torna-se necessária uma disciplina para desvendar, evidenciar e denunciar os propósitos e as contradições epistemológicas, metodológicas e praxiológicas das vertentes teóricas que compõem o campo da administração.
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