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Timestamp: 2018-03-17 04:39:50+00:00

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Charly Garcia – poeira Zine
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Sua influência para as gerações seguintes de músicos argentinos e sul-americanos em geral é de uma grandeza incalculável
por Ricardo Alpendre 11 jan 2016
Héroe de pZ. Entres todos aqueles nomes importantíssimos do rock argentino, o de Charly Garcia ocupa o posto mais alto, dividido, é claro, com Luis Alberto Spinetta (capa da pZ 41).
Carlos Alberto Garcia Moreno, que conheceríamos como Charly, nasceu em Buenos Aires em 23 de outubro de 1951. Não se pode dizer que ele tenha passado uma infância e adolescência sofrida em termos de recursos econômicos: a família era rica e seu pai era o dono da primeira fábrica de fórmica da Argentina. Na parte afetiva, porém, havia uma lacuna, representada na frequente ausência dos pais, o que já foi citado por Charly, poeticamente, como a causa de seu bigode bicolor.
Por volta de 13 anos de idade, já com uma formação musical adiantada e um enorme interesse por cultura, Charly viu a cantora Mercedes Sosa entrar na casa de seus pais, Carlos Jaime e Carmen Moreno, para um jantar. Ao ouvir o menino Charly tocar piano, Mercedes se surpreendeu com a qualidade técnica e de interpretação, comentando com o grande compositor e pianista Ariel Ramírez que ele era “como um Chopin”.
A preferência radical de Charly pela música erudita sobre a popular aos poucos iria se abrindo a concessões, e, com o passar dos anos, os Beatles, os Rolling Stones, Bob Dylan e outros foram ganhando espaço nas caixas de som e também nas mãos do jovem músico. No colégio, ele às vezes matava aulas para ir tocar piano com colegas, formando a banda To Walk Spanish com Juan Carlos Bellia. No repertório, covers de Hendrix, Stones, Byrds. Percebendo que a música “beat” o ajudava a socializar com as garotas, Charly trocou o piano pela guitarra como instrumento principal.
Com o colega de escola, Carlos Alberto “Nito” Mestre, formou o Sui Generis, abandonando os covers em inglês e trabalhando composições próprias. Garcia dedicou-se a escrever a partitura da ópera Theo, com letras de Mario Carlos Piégari, que vinha da banda de Nito, The Century Indignation. Nesse primeiro momento, o Sui Generis era um combinado de integrantes das duas bandas anteriores de Charly e Nito. Após muitos ensaios e apresentações em colégios, as instabilidades na formação levaram a banda (um sexteto) a se separar, ficando apenas Garcia e Mestre como um duo de estética folk e mantendo o mesmo nome.
Em outubro de 1972, como primeira grande conquista, o Sui Generis lançou o compacto “Canción para Mi Muerte” / “Amigo, Vuelve a Casa Pronto” pelo selo Microfón. No mesmo mês, e pela mesma gravadora, saiu o primeiro LP, Vida, contendo, entre um total de 11 faixas, as duas que já estavam no compacto. León Gieco, com quem Garcia trabalharia mais tarde, conta que, por esses tempos, os dois se encontraram no Café La Paz, na esquina das avenidas Corrientes e Montevideo, em Buenos Aires. Na ocasião, Charly estava sentado à mesa, sozinho, quando se aproximou um garoto e lhe pediu para autografar a capa daquele primeiro LP. “O disco saiu há poucos meses e ele já está dando autógrafos”, teria pensado Gieco. “Deu-me um pouco de ciúmes, mas me alegrou que eles estivessem indo bem”, ele completa. Vida, afinal, logo chegaria à marca de 80 mil exemplares vendidos. Entre os músicos convidados estavam Claudio Gabis, na guitarra, e Alejandro Medina, no baixo.
Em novembro do mesmo ano, o Sui Generis participou da terceira – e hoje mais lembrada – edição do festival Barock (Buenos Aires Rock). Após uma tempestade que atrasou as apresentações, durante o show do duo foi filmada a performance de “Canción para Mi Muerte”, que em fevereiro do ano seguinte apareceria no cultuado filme Hasta que Se Ponga el Sol, documento hoje essencial para se entender o poder do rock argentino naquele momento histórico.
Em 1973, o Sui Generis desfrutava de grande popularidade e, em setembro, o duo lançou seu segundo LP, Confesiones de Invierno. Os arranjos começaram a ficar um pouco mais complexos, e o escritor Miguel Ángel Dente escreveria mais tarde em seu livro Un Dios Aparte que, neste segundo álbum, o Sui Generis “vai perdendo lentamente sua ingenuidade”. A confiança crescente nas próprias capacidades criativas pode ser ilustrada pelo divertido título da música que fecha Confesiones, “Tribulaciones, Lamentos y Ocaso de un Tonto Rey Imaginario, O No”. Não é necessário dizer que a qualidade da canção confirma os motivos dessa segurança. Os arranjos vocais, especialmente neste álbum, são de um luxo notável. Mais uma vez, Alejandro Medina está entre os músicos, que incluem David Lebón, na guitarra, e a participação de León Gieco, na gaita.
Após excursionar por províncias da Argentina e pelo Uruguai, o Sui Generis lançou em 1974 o EP Alto en la Torre e o terceiro LP Pequeñas Anécdotas Sobre Las Instituciones, que trouxe ousados arranjos progressivos. Sobre Anécdotas, o astro Fito Paez, discípulo declarado, diria ao jornal Clarín, em 1998: “Em relação a Charly eu não tenho hierarquias, mas creio que Instituciones seja um dos discos mais importantes já feitos em castelhano; é top no mundo pop”.
Charly e Nito decidiram pôr fim à carreira do Sui Generis e o fizeram em grande estilo. O show Adiós Sui Generis foi planejado, com a principal apresentação no ginásio Luna Park, chamado informalmente de Templo del Rock. Quinze dias antes do show, os ingressos estava esgotados e ainda havia procura. Assim, foi organizada uma segunda apresentação no mesmo dia. Em 5 de setembro de 1975, um total de 28 mil pessoas assistiram a um espetáculo que se tornou um marco histórico para a música do país. Uma turnê havia sido planejada para o show, mas devido a um acidente com um caminhão de equipamentos e ao roubo de um teclado, poucas datas foram cumpridas, em Córdoba, Rosário, Comodoro Rivadavia e Caleta Olivia. Um LP duplo com o nome do show foi lançado em seguida, compilado das gravações realizadas no Luna Park. Um ano após o show, um filme também seria editado, e, já em 1996, o álbum duplo se tornou triplo, com inclusão de faixas ainda não aproveitadas.
Antes de realizar o próximo projeto, Charly realizou em 1976 com Nito, Raúl Porchetto e León Gieco o álbum conjunto PorSuiGieco, planejado dois anos antes durante um show que fizeram juntos.
Naquele mesmo ano, Garcia formou com Oscar Moro (bateria), Carlos Cutaia (teclados), Gustavo Bazterrica (guitarra) e José Luis Fernández (baixo) o grupo La Máquina de Hacer Pájaros. O primeiro álbum, homônimo, lançado em novembro, é um disco de rock progressivo inventivo e com muito swing, a banda sem qualquer pudor de incluir toques de jazz-rock no meio de uma canção e um rock ‘n’ roll rasgado logo em seguida. A participação de Nito Mestre como convidado mostrava aos desavisados que tudo continuava bem entre eles. Se o Sui Generis havia sido uma banda de enorme sucesso para os padrões do rock latino-americano e causado uma enorme comoção do público na despedida, La Máquina estava fadada a se tornar um nome cult, embora suas apresentações também fossem muito procuradas. No Palácio de los Esportes, na província de Tucumán, por exemplo, 8 mil pessoas pagaram para ver o novo grupo de Charly.
O segundo LP de La Máquina, o igualmente impecável Películas, foi editado em julho do ano seguinte, com a adição do percussionista Roberto Negro Valencia à banda. O jazz-rock, fusion, com uma certa dose de ritmos latinos, entrou no som de La Máquina.
No dia 11 de novembro de 1977, para mais um show histórico no Luna Park, Charly convidou a todos os ex-integrantes das bandas que teve, Sui Generis, PorSuiGieco e La Máquina, além do Crucis e de David Lebón para o Festival do Amor. A gravação do concerto sairia em 1980 em um LP duplo chamado Música del Alma.
Após Charly pôr fim ao grupo La Máquina de Hacer Pájaros, ele formou em 1978 o Serú Girán, ainda com Oscar Moro, e com David Lebón, na guitarra, e Pedro Aznar, no baixo. Ainda naquele ano, eles lançaram o ótimo LP Serú Girán e, já no ano seguinte, o ousado La Grasa de las Capitales. Neste disco, Charly parece ter atingido o ápice de sua inquietude até então. A ironia incontida do disco também aparece na capa, em que os quatro integrantes são objetos de piada. Você não estaria errado ao associar alguns trechos com Frank Zappa; mas a identidade é toda própria de nuestros hermanos.
O sucesso do Serú Girán era certeiro e a banda ainda lançou mais três discos: Bicicleta, em 1980, Peperina, em 1981, e o álbum ao vivo No llores por mí, Argentina, em 1982. Parece que Garcia gostava da prática de encerrar seus grupos de maior sucesso explorando a comoção da despedida com shows e álbuns ao vivo.
O Serú Girán fez um retorno em 1992, muito aguardado pelos fãs, com a mesma formação. O disco da reunião, Serú 92, foi um sucesso estrondoso, com uma vendagem superior a 200 mil cópias, e os shows seguiram essa tendência, lotando estádios em Córdoba e Rosário e reunindo um total de 160 mil espectadores em dois concertos em Buenos Aires. Um novo álbum ao vivo foi gravado, o duplo En Vivo, lançado em 1993.
Quanto à carreira de Charly nos anos 80, após aquela separação do Serú Girán, incluiu obras importantíssimas na carreira solo que se seguiu. O primeiro álbum dessa fase foi a trilha sonora Pubis Angelical, de 1982, feita para o filme de mesmo nome dirigido por Raúl de la Torre. No mesmo ano, muito prolífico, Garcia gravou Yendo de la Cama al Living, com participações especialíssimas de Nito Mestre, Luis Alberto Spinetta, León Gieco e Pedro Aznar. Já em 1983, é a vez de Clics Modernos, uma obra-prima gravada no estúdio Electric Lady, aquele que fora o QG de Jimi Hendrix.
Piano Bar, de 1984, mostrava um Charly Garcia ainda em grande forma, assim como o mini-LP Tango, lançado em 1986 em parceria com Pedro Aznar.
A carreira de Charly seguiu a partir daí quase sempre com consistência e sucesso de público, exceto por alguns percalços causados eventualmente por problemas pessoais. A influência para as gerações seguintes de músicos argentinos e sul-americanos em geral é de uma grandeza incalculável. Aos 62 anos, tendo emplacado oito álbuns na lista da Rolling Stone argentina dos 100 melhores discos de rock do país, Charly tem enfrentado problemas de saúde, mas a aposentadoria não parece estar em seus planos.
O Essencial de Charly Garcia
(Sui Generis)
(Microfón, 1974)
É muito difícil apontar o melhor álbum do Sui Generis. Este, o terceiro, é onde o duo mostrou maior maturidade. As composições e arranjos progressivos e a introdução de letras politizadas são fatos marcantes.
(La Máquina de Hacer Pájaros)
(Microfón, 1976)
Com mais uma capa em formato de cartoon, a exemplo do álbum acima, a estreia de La Máquina viaja do rock progressivo ao rock ‘n’ roll com extrema naturalidade.
(Microfón, 1977)
No segundo LP de La Máquina, o jazz-rock dá as caras pra valer e as composições já apontam algo de vanguardista que seria desenvolvido no Serú Girán, especialmente no álbum abaixo.
Graza De Las Capitales
(Serú Girán)
(Music Hall, 1979)
O segundo LP do Serú Girán é extremamente ousado. Sobre a canção “Viernes, 3AM”, Spinetta declarou: “Melodia e letra num encontro genial”. Lindas canções disputam espaço nos sulcos com perfeitos exemplos de escracho.
Pubis Angelical / Yendo De La Cama Al Living
(PolyGram, 1982, 1994)
Uma pequena trapaça, mas muito útil: dois discos ocupando o lugar de um nesta lista. De qualquer forma, é como você conseguirá encontrá-los em CD. Logo, é justo que apareçam assim nesta seleção.
Clics Modernos
(SG Discos, 1983)
Na lista dos 100 melhores discos do rock argentino pela revista Rolling Stone, Clics Modernos aparece em segundo. Charly jamais atingiu esse nível de inspiração novamente. Mas, convenhamos: precisa?
Artigo originalmente publicado na pZ 53
Os 40 anos da morte de Paul Kossoff
A integridade artística sem fim de Robert Wyatt

References: Sui Generis
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