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Timestamp: 2019-02-22 07:07:39+00:00

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Quem são os “ocupantes” na retificação de registro?
Por Luciano Lopes Passarelli. Mestre e doutorando em direito civil (PUC-SP), Oficial de Registro de Imóveis de Batatais-SP.
OcupaçãoPosse
1. Os ocupantes no artigo 213 da LRP
Ao tratar do procedimento de retificação administrativa do registro imobiliário, a Lei 6.015/73, com a redação dada pela Lei Federal 10.931/04, estabelece que nas retificações que implicarem em inserção ou alteração de medida perimetral, de que resulte ou não alteração de área, dentre outras providências deverão os confrontantes anuir ao pedido. No parágrafo 10 do artigo 213 prescreve-se que “entende-se como confrontantes não só os proprietários dos imóveis contíguos, mas, também, seus eventuais ocupantes”.
Quanto aos “proprietários” não parece haver maiores dificuldades: são os que figuram no fólio real como titulares do direito real de propriedade. Como se sabe, no Brasil a propriedade se adquire nas transmissões inter vivos pelo registro do título, como se vê do artigo 1.245 do Código Civil atual, e mesmo as aquisições causa mortis e os atos declaratórios, como a usucapião, são atraídos para o registro para efeitos de oponibilidade erga omnes e disponibilidade (artigo 172 da Lei de Registros Públicos). É certo que há algumas nuances nesse tema, mas delas não nos ocuparemos agora, por não serem o objeto deste trabalho.
Mas quem seriam os “ocupantes”? Maria Helena Diniz nos dá algumas indicações em seu Dicionário Jurídico, definindo ocupante nos seguintes termos: “1. Aquele que se encontra na posse de terras públicas. 2. O que se apossa. 3. Ocupador. 4. Aquele que ocupa imóvel rural, explorando-o mediante o exercício de atividade agrária. 5. Aquele que se apodera de coisas abandonadas ou não pertencente a ninguém”[1].
Lendo com vagar as definições acima referidas, penso que nenhuma delas se ajusta com clareza à ratio do artigo 213, seja porque ou vinculam a idéia de “ocupação” à de posse, seja porque a última delas, de número 5, também restringe o conceito aplicando-o apenas às coisas abandonadas ou às res nullius.
O termo é frequentemente usado com relação a imóveis públicos, e isto porque a idéia de “posse” não se coaduna com a natureza e regime jurídicos desses bens, que não são suscetíveis de usucapião. É nesse sentido, por exemplo, que a Lei Federal 11.481/07 usa o termo, como se vê das alterações feitas na Lei 9.636/98. No entanto, creio que salta aos olhos, até intuitivamente, que esse sentido restritivo do termo não atende ao escopo do artigo 213 da LRP, sob comento.
No direito agrário, o termo indica, genericamente, “a pessoa que ocupa um imóvel rural, explorando-o com base em atividade agrária que entender conveniente. Não tem qualquer título que legitime a detenção da terra. Apenas a sua presença física e a exploração agrária, quando existir esta, ou mineral” (destaque meu) [2].
O vocábulo também é utilizado em diversas outras situações. A Constituição Federal, por exemplo, refere que são bens da União as terras tradicionalmente “ocupadas” pelos índios, no seu artigo 20, inciso XI, e no parágrafo segundo desse mesmo artigo estabelece que a “ocupação” das faixas de fronteira deve ser regulada por lei. Também traz prescrição acerca da “ocupação” do solo urbano no artigo 30, VIII, e ao tratar da Administração Pública também faz referência aos “ocupantes” de cargos públicos (artigo 37). Trata também da “ocupação temporária” de bens e serviços públicos, na hipótese de calamidade pública (artigo 136, II).
Em mais uma diferenciação dos tempos “ocupação” e “posse”, estabelece o parágrafo sexto do referido preceptivo constitucional que são nulos e extintos atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse dessas terras. Noutros termos: citou aqui a Carta Magna três modalidades distintas de apropriação: a ocupação, a posse e o domínio.
No direito civil, na verdade, o termo sob comento refere-se à aquisição originária de coisas móveis, conforme se vê do artigo 1.263 do Código Civil. No entanto, no artigo 1.313 encontramos a expressão “ocupante” referida a bem imóvel. Nesse artigo disciplina-se que “o proprietário ou ocupante do imóvel é obrigado a tolerar que o vizinho entre no prédio [...]” (destaque meu). Portanto, fica positivada a possibilidade de haver “ocupante de imóvel” no âmbito do direito civil. Comentando este artigo, Francisco Eduardo Loureiro utiliza o termo como sinônimo de “possuidor”, estendendo a regra também ao detentor [3].
Contudo, penso ser muito significativa a alteração da redação do artigo 587 do Código Civil de 1916, que trazia disposição semelhante mas referia-se apenas ao dever do “proprietário” permitir o acesso ao vizinho. O novo caderno civilista, então, introduziu neste dispositivo a expressão “ocupante”.
Desde já tenho como absolutamente necessário, porém, estabelecer um discrímen entre essa ocupação de bem imóvel e a ocupação referida no artigo 1.263 do Código Civil, atinente a bens móveis, ao menos em um aspecto: ocupação não é usucapião. Isso salta aos olhos pela simples circunstância de que esses dois institutos vêm regrados em seções distintas no Código Civil, inclusive para coisas móveis, como se vê dos artigos 1.260 e 1.263. Ocorre que a ocupação, no artigo 1.263, é forma originária de aquisição, assim como a usucapião, mas, diferentemente desta, prescinde de qualquer lapso temporal. A dicção do artigo citado prescreve que quem se assenhorear de coisa sem dono “para logo” (rectius: imediatamente) lhe adquire a propriedade. Essa idéia é incompatível com o regime jurídico dos bens imóveis, que estão sujeitos à prescrição aquisitiva apenas após o decorrimento de certo lapso temporal, aliado a alguns outros requisitos. Assim, José de Moura Rocha averba que ocupação não é forma de aquisição de bens imóveis, de sorte que “imóvel que seja apropriado, embora tenha sido abandonado pelo seu proprietário, para ser ocupado (tecnicamente: adquirido), só por posse e prescrição ou usucapião” [4].
No Parecer CG 326/2004-E, publicado no DOE de 26.01.2005, a questão não chegou a ser agitada, havendo um pressuposto, como se percebe da leitura, de que “ocupante” é sinônimo de “possuidor”. Parece-me que ao normatizar o tema, a Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo claramente associou o termo “ocupante” à idéia de posse. Essa a ilação extraída do item 124.9 do capítulo XX das “Normas de Serviço” daquele órgão censório-fiscalizatório, que em sua alínea “c” estabelece que “sendo os proprietários ou os ocupantes dos imóveis contíguos casados entre si e incidindo sobre o imóvel comunhão ou composse [...]“. Os destaques são meus, para patentear que há dois termos anteriores (proprietários e ocupantes) relacionados a dois termos posteriores (comunhão e composse).
Benedito Silvério Ribeiro também afirma que a ocupação, referida a bem imóvel, se equipara à posse [5].
Se aliarmos singelamente o significado de “ocupante” à idéia de “possuidor”, teremos inevitavelmente que enfrentar algumas conseqüências. O tema ganha relevância também diante da possibilidade do Oficial realizar diligências no imóvel para constatar a sua situação em face dos confrontantes (artigo 213, parágrafo 12, da LRP). Se eventualmente o Oficial, nesta diligência, identificar a presença de possuidores nos imóveis lindeiros, a anuência de quais deles terá relevo ou não para o deferimento do pedido?
O artigo 1.196 do Código Civil disciplina que “considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade”.
Ihering, a seu turno, e como esclarece Francisco Eduardo Loureiro, explicitou que corpus é “a relação exterior que há normalmente entre o proprietário e a coisa, é a conduta de quem se apresenta com relação semelhante à do proprietário (animus domini), com ou sem apreensão da coisa. Pode, portanto, haver posse sem contato ou poder físico entre a pessoa e a coisa. Lembre-se de que o proprietário exerce as prerrogativas do domínio, muitas vezes sem o contato físico ou material com a coisa, como por exemplo a locação ou o empréstimo da coisa a terceiros. O mesmo, portanto, ocorre com o possuidor, porque ele age como proprietário” [6].
É importante distinguir a idéia de animus nas duas teorias: para a subjetiva trata-se da intenção de vir a ser dono; para a objetiva é apenas proceder como procede o proprietário. Noutros termos: a teoria de Ihering chama-se “objetiva” justamente porque dispensa qualquer perquirição sobre a intenção do agente.
Conforme explicita Francisco Eduardo Loureiro, o “animus está intimamente ligado ao corpus, porque é extraído da conduta visível do possuidor. É o que aparece perante terceiros (aparência de dono), pouco importando o simples desejo não ostensivo do possuidor. Para caracterizar a posse, basta examinar o comportamento do agente, independentemente de uma pesquisa de intenção” [7].
Assim, para Ihering, posse é a visibilidade do domínio, porque normalmente o proprietário é possuidor, daí que possuidor é aquele que aparenta ser o proprietário. Nesse sentido, na teoria objetiva o animus não entra como elemento para caraterização da posse, que se verifica se presentes o corpus mais a affectio tenendi. Daí sua celebre afirmação, no sentido de que a posse é a “exteriorização da propriedade” [8].
Em face da sujeição do detentor, creio ser desnecessário aprofundar aqui a idéia de que o conceito de “ocupante” referido no artigo 213 da Lei de Registros Públicos não abrange a detenção.
3. Posse direta e posse indireta
Corolário da adoção da Teoria Objetiva de Ihering é a admissão de que o possuidor, que se comporta como proprietário, pode utilizar a coisa diretamente ou pode cedê-la a terceiros. Daí falar-se em posse direta e em posse indireta. Isso implica em admitir-se a existência de duas posses simultâneas, ou dois possuidores: o possuidor “indireto” é o que cedeu o uso da coisa. Já o que recebeu a coisa em razão de relação jurídica obrigacional ou real, mantendo então disposição física imediata sobre a coisa, é o possuidor “direto”. Veja-se que o possuidor indireto, embora despojado dessa disponibilidade física imediata, continua portando-se como proprietário, daí concluir-se que mantém-se na condição de possuidor.
Aqui temos, portanto, que o locatário, o arrendatário e o comodatário exercem posse direta sobre a coisa, mantendo o locador, o arrendador e o comodante a posse indireta. Perceba-se que o conceito de “posse direta” não se confunde com o de “detenção”, porque enquanto o detentor é subordinado ao terceiro, agindo sem independência, o possuidor direto vale-se da posse em proveito econômico próprio, com alto grau de independência, malgrado tenha o dever de restituição futura da coisa.
No entanto, de acordo com o escólio de Moreira Alves, há uma graduação entre o direito do possuidor direto e do indireto: embora ambos possam se valer dos interditos, apenas em favor do segundo corre o prazo da prescrição aquisitiva, de sorte ser possível afirmar que o direito do possuidor indireto (que age como proprietário) é superior ao direito do possuidor direto (que reconhece a supremacia da posição do possuidor indireto). Afirma esse autor, falando sobre a possibilidade do desdobramento sucessivo da posse, que “a posição do possuidor indireto em grau mais elevado é diversa da dos demais, pois apenas ele não reconhece a existência de posse superior à sua, tendo, portanto, posse própria (Eigenbesitz), o que lhe dá possibilidade, se não for proprietário da coisa, de vir a adquirir o domínio sobre ela por usucapião, preenchidos os requisitos deste. O mesmo não ocorre com os demais possuidores indiretos de graus mais baixos, por terem apenas posse não-própria (Fremdbesitz), uma vez que não possuem a coisa como sua, tanto assim que reconhecem, em virtude da relação de que decorreu o desdobramento da posse, que os possuidores de graus superiores ao seu têm posse superior à que lhe compete” [9].
O fato de o possuidor direto poder exercer os interditos mesmo em face do possuidor indireto (artigo 1.197 do Código Civil) em nada muda a conclusão acima, até porque também é possível a situação inversa (o possuidor indireto defender sua posse contra o possuidor direto).
Ressalte-se também que a posse direta é uma posse “derivada”, posto que o possuidor direto a recebeu do possuidor indireto. Daí que a posse direta não é ad usucapionem [10]. Como quer Ihering, vê-se que o locatário, o comodatário, o arrendatário, o usufrutário, etc., não se comportam como proprietários, porque sua posse têm uma causa cujo caráter não pode ser mudado por eles mesmos, como prescreve o artigo 1.203 do Código Civil, a menos que surja outra causa possessionis, mas, nesse caso, haverá a aquisição de posse nova, como ensina Pontes de Miranda, ao afirmar que “não pode quem possui como possuidor mediato fazer-se possuidor imediato, ou vice-versa, nem o que possui por certa posse mediata passar, a seu talante, a possuir por outra posse mediata, nem o que possui por posse imediata como usufrutuário, usuário, locatário, credor pignoratício, mandatário, passar a possuir por posse imediata de outra espécie. Se advém outra causa, não há mudança; há perda de uma posse e aquisição de outra” [11]. Nesse sentido a lição de José Carlos de Moraes Salles, que afirma que as pessoas acima referidas não possuem com “animus dominis porque, em virtude da ´causa da posse´ se torna impossível possuírem a coisa como proprietários” [12].
Isso porque, na lição de Benedito Silvério Ribeiro, para que se “caracterize a prescrição aquisitiva, ou simplesmente usucapião, torna-se necessária a convergência de vários requisitos (res habilis, titulus, fides, tempus e possessio)” [13]. Esta última, a posse, fica afastada se “ela começou em razão de um contrato (locação, comodato, etc)” [14].
Além disso, há outros complicadores na identificação da posse direta, já que, como lembra José Carlos Moreira Alves, “a posse direta não deriva propriamente da indireta”, porque para “que se dê o desdobramento da posse em direta e indireta, é necessário apenas que ele decorra de uma relação jurídica (válida, ou não), ou fática, preexistente”, concluindo, com arrimo na lição de Pontes de Miranda, que a posse imediata é posse direta da coisa pelo que não é dono da coisa, e não, necessariamente, posse direta da coisa em nome de alguém”, e ainda, sobre o possuidor direto, afirma logo na sequência que “a posse direta é sempre posse não-própria, pois o possuidor direto reconhece no indireto (ou nos indiretos) posse superior à sua” [15].
Considero que os elementos acima apontados afastam o possuidor direto do conceito de “ocupante” do artigo 213 da Lei de Registros Públicos.
De acordo com o artigo 1.200 do Código Civil é justa a posse que não for violenta, clandestina ou precária.
Esses aspectos não têm nenhum reflexo na identificação do “ocupante”, que deve manifestar-se quanto ao pedido de retificação. Não cabe ao registrador, à evidência, perquirir sobre a presença ou não de posse injusta, até porque, como bem ressalta Francisco Eduardo Loureiro, “a posse é injusta em relação àquele de quem foi havida por meio ilícito. Em relação a terceiros a posse é justa, pela simples razão de que, contra eles, nenhum ato ilícito se praticou. Dizendo de outro modo, os vícios da posse só podem ser argüidos pela vítima, a quem cabe a faculdade de reaver a coisa pela autotutela ou pelos interditos possessórios” [16].
É bom ressaltar também que “posse precária” não é sinônimo de “posse direta”. A posse, neste último caso, é justa. Ela só se tornará precária se houver inadimplemento da obrigação de restituir a coisa.
José de Moura Rocha conceitua “ocupação” como o “ato pelo qual uma pessoa se apodera de uma coisa com a intenção de se apropriar dela” [17]. É um conceito que prestigia, como salta aos olhos, o elemento subjetivo da conduta do ocupador, mas também o identifica, logo a seguir, com a posse, ao aduzir que “temos que a ocupação apresentará requisitos que se confundem com a aquisição da posse [...]” [18]. Mas, considerando que esse autor põe em relevo o elemento subjetivo, teríamos que ver aqui então a posse como sendo igualmente subjetiva, nos moldes defendidos na “teoria subjetiva” de Savigny. Outra possibilidade hermenêutica é considerarmos a ocupação como instituto distinto da posse. Dessa forma, não me parece que haveria maiores problemas em enfatizar o elemento subjetivo da ocupação, já que não haveria conflito com a “teoria objetiva” da posse, adotada entre nós. Essa possibilidade teria a vantagem de desqualificar, por exemplo, os locatários e comodatários como ocupantes, assim como o faz a teoria subjetiva da posse.
§ 3º – Todo aquele que, não sendo proprietário rural nem urbano, ocupar por dez anos ininterruptos, sem oposição nem reconhecimento de domínio alheio, trecho de terra não superior a vinte e cinco hectares, tornando-o produtivo por seu trabalho e tendo nele sua morada, adquirir-lhe-á a propriedade, mediante sentença declaratória devidamente transcrita”.
Refere-se o autor a uma posse “privilegiada” com o sentido de que ela tem dois predicados que lhe conferem maior vigor ou efeitos mais robustos: o possuidor torna-a produtiva por seu trabalho e tem no imóvel sua morada [20]. Afirma também que é nesse mesmo sentido que o termo é utilizado no Estatuto da Terra [21], quando disciplina, na sua seção IV, a matéria atinente aos ocupantes de terras públicas federais.
Outro elemento citado por José de Moura Rocha [22] é que a coisa ocupada deve ser nullius, de sorte que não deve ter dono. Se já teve, deve ter deixado de ter, ou então deve haver presunção legal de tratar-se de coisa abandonada. Reconhece-se que essa idéia decorre do artigo 1.263 do Código Civil vigente, mas que é aplicável à aquisição da propriedade móvel. Esse elemento, contudo, não se coaduna com o sistema vigente de aquisição da propriedade no Brasil se o título estiver regularmente registrado. Isso porque aquele que figura na matrícula como proprietário continuará ostentando esse predicado enquanto o registro não for cancelado ou enquanto um título translativo do seu direito não aceder ao fólio real. Então, dentro da moldura estabelecida pelo artigo 213, teremos que admitir a possibilidade de haver um ocupante em imóvel lindeiro ao retificando ainda que o mesmo encontre-se registrado em nome de outra pessoa, não sendo, assim, res nullius.
Como, então, relacionar todos os conceitos até aqui abordados com o “ocupante” do artigo 213 da LRP? Tenho para mim, na verdade, que o bem jurídico sob tutela no artigo referido é a propriedade e a posse ad usucapionem, de sorte a evitar que haja sobreposição de área ou avanço sobre o imóvel lindeiro. Daí exigir o texto legal a notificação dos proprietários e dos “ocupantes”, sendo esse termo utilizado aqui em sentido parcialmente novo, não de todo subsumível à idéia da ocupação de bens móveis adéspotas. É bom lembrar que por vezes a conotação esconde a denotação, ainda que se reconheça não ser o melhor caminho, sob o ponto de vista da epistemologia e metodologia científicas, nomear coisas diferentes com nomes iguais ou coisas iguais com nomes diferentes.
Mas no sistema vigente de registro imobiliário brasileiro, não há como olvidar que aquele que consta na tábua real continuará sendo tido por proprietário até que se registre título translativo (artigo 1.245, parágrafo primeiro) ou se promova o cancelamento do registro aquisitivo (parágrafo segundo do mesmo artigo), razão pela qual a idéia de “ocupação” aqui não pode ser aplicada apenas às res nullius. Então temos mesmo que buscar um sentido próprio do termo, peculiar, em face da ratio do artigo 213 da Lei de Registros Públicos.
No Processo nº 000.04.077916-5, da 1ª Vara de Registros Públicos de São Paulo, publicado no DOE de 24.8.2004, os Excelentíssimos Juízes doutores Venício Antonio de Paula Salles, José Henrique Fortes Muniz Junior e Tania Maria Ahualli, assentaram que “ocupante” é o “confrontante físico”. Logo na sequência acrescentam a idéia de que os ocupantes que devem ser notificados são os “ocupantes diretos”, que seriam aqueles que não estejam na posse por autorização, permissão, detenção ou em razão de contrato firmado com o titular de domínio, situações em que ficaria dispensada a notificação.
Sendo assim, a posse que interessa ao conceito de “ocupante” é a posse ad usucapionem, ou seja, a posse plena, que é a posse não desdobrada, como aduz Moreira Alves [23], ou, se houve desdobramento da posse, a posse indireta de grau mais elevado, ou, ainda, como averba Pontes de Miranda, é a “posse própria” [24]. Ficam afastados assim do conceito de “ocupante” do artigo 213, parágrafo 10, da Lei de Registros Públicos, portanto, os detentores e os fâmulos da posse, os que se encontram em relação de mera permissão e tolerância, e os possuidores diretos, que conforme colhe-se da doutrina alemã, são apenas mediadores da posse (Besitzmittler) do possuidor indireto [25].
Em conclusão, não são “ocupantes” para os fins previstos no preceptivo legal sob comento, os locatários, arrendatários, comodatários, usufrutuários, superficiários, ou, por extensão, e como referido no Parecer da 1ª Vara de Registros Públicos de São Paulo adrede referido, quem quer que esteja na disposição imediata da coisa em razão de contrato real ou obrigacional.
E como identificá-los, caso alguém se apresente nessa qualidade ao registrador? Tenho para mim que o aspecto a se considerar é que, feita a notificação, aquele que se apresentar como “ocupante”, anuindo ou impugnando o pedido, será pela prática desse ato identificado como quem se porta como se proprietário fosse, porque essa conduta exterioriza o agir que se espera do dono da coisa. Fica atendido, assim, o requisito do animus domini na teoria objetiva de Ihering, dispensando-se então qualquer outra perquirição do registrador acerca da sua legitimação, de sorte que, se houver dúvidas e desavenças sobre essa questão, tais circunstâncias extrapolarão a toda evidência os estreitos limites do procedimento administrativo de retificação registral promovido diretamente junto ao Oficial Registrador, devendo, então, naturalmente desaguar no Poder Judiciário para seu deslinde.
Ad ultimum, com relação à constatação da inexistência de ocupantes a serem notificados, parece-me plenamente viável aceitar declaração prestada pelos proprietários-requerentes da retificação e pelo profissional que elaborou os trabalhos técnicos, já que o parágrafo 14 do artigo 213 disciplina que “verificado a qualquer tempo não serem verdadeiros os fatos constantes do memorial descritivo, responderão os requerentes e o profissional que o elaborou pelos prejuízos causados, independentemente das sanções disciplinares e penais”.
DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico, verbete “ocupane”, v. 3, 2ª ed. São Paulo : Saraiva, 2005.
ROCHA, José de Moura. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupação”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977.
SODERO, Fernando Pereira. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupante”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977.
1. DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico, v. 3, 2ª ed. São Paulo : Saraiva, 2005, verbete “ocupante”, p.483.
2. SODERO, Fernando Pereira. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupante”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977, p. 489.
3. LOUREIRO, Francisco Eduardo. Código Civil Comentado, coord. Ministro Cezar Peluso, 2ª ed. Barueri : Editora Manole, 2008, p. 1273.
4. ROCHA, José de Moura. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupação”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977, p. 475.
5. RIBEIRO, Benedito Silvério. Tratado de usucapião, 3ª ed., v. 1. São Paulo : Saraiva, 2003, p. 644.
6. LOUREIRO, Francisco Eduardo. Código Civil Comentado, coord. Ministro Cezar Peluso, 2ª ed. Barueri : Editora Manole, 2008, p. 1081.
7. LOUREIRO, Francisco Eduardo. Código Civil Comentado, coord. Ministro Cezar Peluso, 2ª ed. Barueri : Editora Manole, 2008, p. 1081.
8. IHERING, Rudolf Von. Teoria simplificada da posse, 2ª ed. São Paulo : Edipro, 2002, p. 56.
9. ALVES, José Carlos Moreira. Posse – estudo dogmático, 2ª ed., vol. II. Rio de Janeiro : Forense, 1999, p. 447.
10. Que é a posse que conduz à prescrição aquisitiva. Têm os possuidores diretos, contudo, a posse ad interdicta, ou acesso à proteção da posse pela via dos interditos.
11. MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Privado, v. X. São Paulo : Revista dos Tribunais, 1983, p. 62.
12. SALLES, José Carlos de Moraes. Usucapião de bens imóveis e móveis, 6ª ed. São Paulo : RT, 2005, p. 76.
13. RIBEIRO, Benedito Silvério. Tratado de usucapião, 3ª ed., v. 1. São Paulo : Saraiva, 2003, p. 671.
14. RIBEIRO, Benedito Silvério. Tratado de usucapião, 3ª ed., v. 1. São Paulo : Saraiva, 2003, p. 674.
15. ALVES, José Carlos Moreira. Posse – estudo dogmático, 2ª ed., vol. II. Rio de Janeiro : Forense, 1999, p. 462-463.
16. LOUREIRO, Francisco Eduardo. Código Civil Comentado, coord. Ministro Cezar Peluso, 2ª ed. Barueri : Editora Manole, 2008, p. 1.092.
17. ROCHA, José de Moura. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupação”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977, p. 471.
18. Idem, p. 472.
19. SODERO, Fernando Pereira. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupante”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977, p. 489.
20. Semelhantemente, portanto, aos critérios citados para identificação das “terras tradicionalmente ocupadas pelos índios’”.
21. Lei 4.504/64.
22. ROCHA, José de Moura. Enciclopédia Saraiva do Direito, verbete “ocupação”, v. 55. São Paulo : Saraiva, 1977, p. 471.
23. ALVES, José Carlos Moreira. Posse – estudo dogmático, 2ª ed., vol. II. Rio de Janeiro : Forense, 1999, p. 457.
24. MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Privado, v. XI. São Paulo : Revista dos Tribunais, 1983, p. 117.
25. ALVES, José Carlos Moreira. Posse – estudo dogmático, 2ª ed., vol. II. Rio de Janeiro : Forense, 1999, p. 465.
ago 29, 2009 - 09:48 AM
Estimado Luciano, filio-me à sua conclusão e o parabenizo pelo excelente artigo.
Eu já vi algumas retificações nas quais o regsitrador colhe a anuência do proprietário e dos “ocupantes” (locatários, usufrutuários e etc.) do imóvel confrontante, como a proclamar aquele velho apotegma: é melhor pecar pelo excesso do que pela falta.
STJ: Instrumento particular e eficácia jurídica...

References: artigo 213
 artigo 213
 artigo 1
 artigo 213
 artigo 213
 artigo 20
 artigo 30
 artigo 1
 artigo 1
 artigo 587
 artigo 1
 artigo 1
 artigo 1
 artigo 213
 artigo 1
 artigo 213
 artigo 1
 artigo 1
 artigo 213
 artigo 213
 artigo 213
 artigo 213
 artigo 213