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Timestamp: 2017-08-21 02:47:03+00:00

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Amarrado ao castanheiro, José Arcádio Buendía sonhava que abria a porta de um quarto e entrava em outro idêntico, numa interminável sessão de cômodos iguais, até que, finalmente, Prudencio Aguilar, o homem a quem havia assassinado anos antes, lhe tocava o ombro e o despertava. Isso se repetiu durante muito tempo; certa vez, contudo, Prudencio não mais o soltou. Morria, enfim, o fundador de Macondo. Este é apenas um exemplo da sutileza e da originalidade que permeiam os parágrafos de Cem Anos de Solidão, um dos grandes clássicos da literatura mundial.
por Fábio Congiuem Artigo 19 de dezembro de 2016 24 de dezembro de 2016 865 palavrasDeixe um comentário
Quando completou 50 anos de carreira, Maria Bethânia selecionou um tema específico para celebrar a marca: a gratidão. A escolha da cantora revela alguém em paz com sua história e, a despeito dos inevitáveis percalços, satisfeita com sua caminhada, convicta de seus caminhos. Em tempos de fim de ano, porém, não seria ousadia afirmar que poucas pessoas, ao realizar um balanço dos últimos 12 meses, teriam uma sensação de conforto quanto aos próprios passos como a artista baiana demonstra ter com as últimas cinco décadas. O “obrigado” da intérprete – mote do show comemorativo Abraçar e Agradecer, ora perpetuado em DVD – vem, tendo a crer, de pensamentos e atitudes característicos de seu temperamento e de sua postura: o respeito aos seus ideais, o entendimento de dom como missão e a consequente alegria de fazer o que faz.
por Fábio Congiuem Artigo 6 de dezembro de 2016 860 palavrasDeixe um comentário
Baby Jane, Blanche Hudson e a infelicidade vivem juntas – e sozinhas – em uma mansão em Los Angeles. A primeira teve seus dias de sucesso na infância, quando era a principal estrela mirim dos Estados Unidos; pouco a pouco, porém, perdeu lugar para a segunda, sua irmã, que viria a se tornar uma das maiores atrizes de Hollywood, até passar por um incidente que a deixou aleijada e interrompeu sua carreira. A terceira, por sua vez, acompanhou-as por toda a vida, fruto de algo que ruiu a relação fraterna ao longo dos anos: a mágoa. Dirigida por Charles Möeller e Claudio Botelho, a peça O que terá acontecido a Baby Jane?, de Henry Farrel, revela as faces mais cruéis e todo o potencial destrutivo do ressentimento, mas também um detalhe surpreendente: sua insignificância diante do amor.
Em cartaz no Teatro Porto Seguro e com Eva Wilma e Nicette Bruno nos papéis que, respectivamente, Bette Davis e Joan Crawford tornaram clássicos no filme de 1962, dirigido por Robert Aldrich, a peça apresenta mais detalhes da infância e juventude das irmãs Hudson, desde sempre marcadas pelo rancor – descarado – de Jane e – velado – de Blanche. A inversão de papéis no show business levou das irmãs mais do que a possibilidade de uma relação amistosa, saudável: à Jane, esquecida pelo público, custou sua infância, seus amigos, sua autoestima, sua segurança; já à Blanche, reconhecida e bela, custou a paz de espírito, os amores verdadeiros e até sua mobilidade.
Na cadeira de rodas, ela depende dos “cuidados” da irmã, alcoólatra e desequilibrada, que a submete às maiores atrocidades, desde mantê-la presa em um quarto para não fazer contato com ninguém a lhe servir um rato na bandeja do jantar. Por outro lado, embora se esforce constantemente para responder às agressões de Jane sempre com bondade e carinho, Blanche nunca consegue convencê-la de suas intenções generosas. Uma relação carcomida pela falta de diálogo, honestidade e transparência. Duas vidas apagadas pela sombra da mágoa, da inveja, da insegurança; desperdiçadas por sentimentos tão corriqueiros quanto poderosos, tão agressivos ao próximo quanto a quem – por menos que queira – os semeia.
Para o público, uma sensação de injustiça acompanha toda a peça, pois Jane parece agredir alguém que só lhe quer bem. No ápice das torturas físicas e psicológicas, no entanto, Blanche, em vez de condenar os crimes da irmã, decide revelar a ela um grande segredo, o fato responsável por fazer ambas infelizes, mas, principalmente, por transformar Jane na pessoa triste, feia e ferida que se tornou. E é este o ponto mais interessante da peça. Após a revelação, Jane não surta (ainda mais) nem pensa em se vingar. Pelo contrário. Simplesmente reflete: “Quer dizer que, esse tempo todo, nós poderíamos ter sido amigas?”
Ao ouvir o questionamento, Blanche imagina que Jane não entendeu a gravidade do problema e reforça a história. Ela, contudo, compreendera perfeitamente, fato por fato, e a única ideia que lhe ocorre agora é sair para tomar um sorvete com a irmã. Aproveitar o pouco tempo que lhes resta e que lhes foi roubado pela mágoa, seja originada da inveja, dos desencontros, seja das desconfianças, das infidelidades.
Sim. O ressentimento cega. Trai. Torna-se um ponto de referência, mas, ao mesmo tempo, um labirinto. Uma ferida aberta. Quantas vezes não permitimos que pequenos desentendimentos se tornem motivos de rancores eternos? E até os grandes problemas: quantas vezes não tornamos suas proporções ainda maiores e atribulamos nossas mentes e nosso dia a dia com questões que não careciam de nos levar tantas noites de sono? Por que tendemos a nos apegar tanto às mágoas? Quanto elas nos protegem de novos sofrimentos e quanto simplesmente nos sabotam? O que realmente nos ensinam e o que nos levam a deixar de aprender? Como devemos lidar com o preço das experiências negativas? Esquecendo tudo? Lembrando sempre? Quanto é ingênuo perdoar e quanto é necessário?
Questões como essas afloram diante da banalidade com que Baby Jane, no instante da grande revelação da peça, trata os ressentimentos de longos e tristes anos de convivência com a irmã. Colocam-se em xeque as pequenezas e mesquinharias humanas. A reação nada exagerada da infeliz personagem não remete especificamente a necessidade de se escolher entre perdoar e esquecer, mas, simplesmente, de evitar que a mágoa e o sofrimento assumam dimensões que, na maioria das vezes, não merecem ter. O que aconteceu às irmãs Hudson tem sua aura de Hollywood, mas pode se repetir – e se repete – na mediocridade da nossa vida cotidiana. Cabe a cada um de nós escolher entre o que se foi e o que será. Mas é possível? A tempo?
por Fábio Congiuem Artigo 14 de outubro de 2016 20 de dezembro de 2016 849 palavrasDeixe um comentário
Nenhum grito, nenhum ruído sobrando, nenhum excesso. Em seu show apresentado em junho no Theatro NET SP – e que volta a cartaz em outubro –, o único exagero de Paulinho da Viola foi a elegância de seu samba. Com um repertório de sucessos e canções menos conhecidas, o músico prova mais uma vez a força do estilo comedido que o caracteriza, avesso a modismos, mas nada conservador; consagrado, mas sempre novo. Enquanto muitos colegas de geração buscam sintonizar seus sons com tendências estéticas contemporâneas – como Caetano Veloso e Gal Costa, muito bem-sucedidos em suas incursões roqueiras e eletrônicas –, o sambista segue em ritmo próprio.
Ritmo que pulsa delicado, saudoso, sensível, na contramão das rádios e de um cotidiano desesperado. Quando as cortinas se abriram e o sambista apareceu só no palco, acompanhado apenas de seu violão, conduziu o público fiel a uma viagem de bom gosto e poesia, a uma pausa no modo automático para dar vez a calmos momentos de contemplação da música. De admiração do samba. Nas curvas da voz aveludada de Paulinho da Viola, as paisagens sinuosas de canções como Dama de Espadas e Nervos de Aço tornam-se ainda mais belas e poéticas.
Outras composições, como as sentidas Num Samba Curto e Dança da Solidão, ganham doçura e leveza na interpretação do poeta, mas também, ao mesmo tempo, profundidade, enquanto sambas batucados como Quando Bate uma Saudade e Onde a Dor não tem Razão têm o lirismo de suas letras aquecido, entre agitados compassos, pela divisão suave de Paulinho, seu fraseado paciente e seu cantar melodioso. Ao apostar nas sutilezas das músicas e das poesias, o artista desvenda mistérios, redescobre significados e aponta caminhos imprevisíveis para versos e harmonias das mais alegres às mais tristes canções.
Atento observador dos corações humanos, Paulinho da Viola imprime ao canto o mesmo olhar detalhista e apaixonado com que compõe. E por sua leitura particular dos sons e a musicalidade de suas palavras, mantém uma obra constantemente revigorada, expressiva e – acima de tudo – extravagante. Claro, no melhor sentido: extravagante em sentimento, em sofisticação, em nobreza.
por Fábio Congiuem Artigo 10 de agosto de 2016 20 de dezembro de 2016 386 palavrasDeixe um comentário
Gente jovem, bonita, de riso largo. Gente talentosa, afinada, de verdade. Gente cantora, instrumentista, intérprete. Artistas. Sensíveis para entender. Precisos para comunicar. E ousados, no desafio de recriar e celebrar um dos mais ricos imaginários da música brasileira. Milton Nascimento, Nada Será Como Antes – O Musical é, acima de tudo, um espetáculo de gratidão.
Gratidão à novidade, à juventude, à fé, à esperança, à coragem, à força, à alegria, à inspiração, à natureza – elementos-chave do universo criativo do compositor. Gratidão ao amor e à amizade, pilares da obra e da vida do Bituca. E, principalmente, gratidão à música, expressão que alimenta, envolve, emociona. Cura. Quando Charles Möeller e Claudio Botelho optaram por contar a história dos 50 anos de carreira e 70 de idade de Milton Nascimento estritamente por meio de suas canções, escolheram o caminho mais difícil, sem fórmulas e cronologias; porém, o mais fiel.
No palco, o elenco enfrenta as difíceis composições com maestria vocal, instrumental e cênica. Todos tocam e cantam. Estrela Blanco dá o tom da qualidade do espetáculo na bela Canção Amiga, poema de Drummond musicado por Milton; Cássia Raquel prima pela força e segurança em Caicó; e Lui Coimbra revisita com delicadeza San Vicente. Já Pedro Sol esquenta a apresentação com a roqueira Para Lennon e McCartney, enquanto Marya Bravo emociona em arranjo minimalista de Maria, Maria. Jules Vandystadt surpreende com Unencounter, versão em inglês para a clássica Canção da América, e Sérgio Dalcin destaca-se pelo carisma e pela terna interpretação de Coração de Estudante.
À altura do elenco estão cenário, iluminação e figurinos. Os números se passam em uma aconchegante sala de estar mineira, trespontana, com portas abertas a quem chegar e com paredes repletas de referências sacras para completar o clima interiorano. A música que acontece em casa e, imediatamente, contagia a todos remete à liberdade criativa das composições dos integrantes do Clube da Esquina, divididas no espetáculo em quatro partes – Primavera, Verão, Outono e Inverno – e reforçadas por fina iluminação, responsável por momentos memoráveis, como Milagre dos Peixes.
O conjunto da obra expõe no palco toda a intensidade autoral do homenageado. Para ele, aliás, que assistiu ao musical inúmeras vezes, o espetáculo deve significar, no mínimo, um balanço geral muito positivo da carreira, uma feliz rememoração. Para o público, reforça o sentimento de que os sonhos – e as músicas – não envelhecem. Além da apoteótica certeza de que, depois de Milton Nascimento, definitivamente, nada será como antes.
por Fábio Congiuem Artigo 26 de junho de 2016 452 palavrasDeixe um comentário
Música, diversidade e respeito
Entendo a música popular brasileira como um dos melhores exemplos da beleza da diversidade. Talvez seja a expressão artística que mais tenha agregado – e harmonizado – múltiplas faces regionalistas, de ritmos, de comportamentos, de linguagens. Essa característica agregadora, a meu ver, tem grande responsabilidade sobre o indiscutível reconhecimento da nossa cultura musical como uma das mais ricas do mundo, tanto por artistas e intelectuais quanto por público. A geração de cantores e compositores dos festivais dos anos 60 conserva grande parte do mérito por tal imagem, mas há talentos de gerações mais jovens representando com seriedade a colorida aquarela do Brasil.
Cito um exemplo recente. De um lado, uma cantora rigorosa, de técnica impecável, precisa, “quase religiosa”, como ela mesma se define. Do outro, um pianista virtuoso, inventivo, imprevisível. O que, à primeira vista, parece uma receita de pouca química torna-se, na verdade, um espetáculo nobre. Após assistir ao duo de piano e voz entre Mônica Salmaso e André Mehmari, deixei o Theatro NET SP com a certeza de ter visto não mais um show de música, mas um show de músicos, uma amostra da dita “beleza da diversidade” e um exemplo de que o respeito não só é preciso, mas também possível.
Ao conciliar estilos tão diferentes entre si, Mônica e Mehmari revelaram uma capacidade rara nos dias de hoje: a de compreender o outro. O brilho de ambos depende do entendimento recíproco, do diálogo, da troca, do saber ceder, da confiança na capacidade e na intuição de cada um. Como dividir a frase musical? Quanto alongar as notas? Quando improvisar? Sem conhecimento e respeito mútuo, os músicos jamais conseguiriam apresentar um espetáculo afinado, com o melhor desempenho possível de canto e instrumento. Mas eles conseguem. E ainda harmonizam suas particulares linguagens com um repertório também bastante diverso.
Do mais clássico dos baianos, Dorival Caymmi, ao expoente da vanguarda paulista, Luiz Tatit; do venezuelano Simón Díaz à chilena Violeta Parra; da Senhorinha de Guinga e Paulo César Pinheiro à Sinhá de Chico Buarque e João Bosco: Mônica e Mehmari entendem-se tão bem entre si quanto compreendem o cancioneiro popular, sua poesia, sua espontaneidade, sua história, suas raízes e sua sofisticação. Essa noção profunda que concilia um repertório diverso manifesta imenso respeito pela nossa miscigenada cultura e prova como o mergulho nas diferenças é, na verdade, um respiro, uma inspiração.
A força do espetáculo de Mônica Salmaso e André Mehmari concentra-se no que os distingue, nas suas particularidades; a força que os une, na empatia, na alteridade, no cuidado. Cuidado um pelo outro, pela música, os compositores, o público. Quando conquistaram a plateia do aconchegante Theatro NET SP com seu duo, os artistas mostraram, na prática, como a música, a diversidade e o respeito andam juntos. E o quanto essa união tem a oferecer à arte – e a ensinar à vida.
por Fábio Congiuem Artigo 22 de maio de 2016 10 de agosto de 2016 520 palavrasDeixe um comentário
Fascistas? Nós somos todos, irmãos,
quando nem olhamos uns para os outros;
para nosso próprio espelho, tampouco,
e afloram gestos e palavras vãos.
Quando não reconhecemos as cores,
e as ruas cinzas perdem direção,
e já nada ouvimos na solidão,
e arfam carinhos, afetos, amores.
Fascistas? Nós somos todos irmãos.
Se não nos compreendemos, sobra o ódio,
se não dialogamos, resta o incêndio.
E nada fica de nós sobre o chão.
Nessa grande tribo, impera o silêncio
em meio a tanto grito, à escuridão.
Nenhum ideal em comum. Senão
o vazio, o desrespeito, o precipício.
por Fábio Congiuem Poesia 17 de maio de 2016 112 palavrasDeixe um comentário

References: Artigo 19
 Artigo 6
 Artigo 14
 Artigo 10
 Artigo 26
 Artigo 22