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Timestamp: 2017-10-19 09:19:28+00:00

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Por um Brasil menos desigual: a reserva de vagas para negros e pardos nos concursos públicos | e-mancipação
Por um Brasil menos desigual: a reserva de vagas para negros e pardos nos concursos públicos
[ por Anna Carolina Venturini, em colaboração para o e-mancipação ]
Recentemente foi publicada a Lei n° 12.990/2014, a qual reserva aos negros 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União.
A Lei n° 12.990/2014 foi proposta pelo Executivo em novembro de 2013 e teve uma tramitação extremamente rápida no Congresso Nacional em razão do com regime de urgência solicitado com base no art. 64, § 1º, da Constituição Federal.
A exposição de motivos anexada ao projeto de lei proposto pelo Executivo (PL n° 6738/2013) apresenta como justificativa da reserva de vagas a necessidade de criação de uma ação afirmativa para solucionar o problema de subrepresentação dos negros e pardos no serviço público federal. Os dados apresentados indicam que há uma disparidade entre os percentuais da população negra no país e os percentuais de negros/pardos entre os servidores públicos federais, vez que enquanto a população negra representa quase 51% da população brasileira, os negros e pardos constituem apenas 30% dos servidores públicos federais.
É importante notar que a Lei n° 12.990/2014 representa uma etapa subsequente à adoção da reserva de vagas para estudantes negros e pardos nas universidades públicas brasileiras. Ademais, a adoção de reserva de vagas nos concursos públicos não apenas se mostra compatível como cumpre a determinação do artigo 39 do Estatuto da Igualdade Racial (Lei n° 12.288/2010):
A Lei n° 12.990/2014 representa um passo importante para a efetivação da igualdade de oportunidades entre as raças. Da leitura da exposição de motivos, percebe-se que o objetivo da reserva de vagas é igualar o percentual de servidores públicos federais negros e pardos ao percentual de negros e pardos da população brasileira.
Vale destacar, ainda, que a ação afirmativa foi criada por prazo determinado de 10 anos a contar de sua publicação. Ou seja, a reserva de vagas deverá viger até 10 de junho de 2024, conforme determina o artigo 6° da lei. Diferentemente da Lei n° 12.711/2012 que instituiu a reserva de vagas nas universidades públicas federais, a Lei n° 12.990/2014 não estabelece que o programa especial de acesso ao serviço público federal será revisto depois de decorridos os 10 anos de vigência. Obviamente, nada impede que, decorridos os 10 anos de sua vigência, seja editada nova lei ampliando o prazo de vigência da reserva de vagas ou sejam criadas novas medidas inclusivas caso tal período inicial não tenha sido suficiente para alcançar o objetivo almejado.
O artigo 5° da Lei n° 12.990/2014 estabelece que o programa será acompanhado e avaliado anualmente pelo órgão responsável pela política de promoção da igualdade étnica de que trata o § 1° do artigo 49 do Estatuto da Igualdade Racial. Portanto, tal programa deverá ser anualmente avaliado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR-PR), bem como deverão ser divulgados relatórios periódicos conforme determina o artigo 59 do Estatuto da Igualdade Racial.
Outro ponto importante da Lei n° 12.990/2014 é a previsão de eliminação do concurso ou anulação da admissão em caso de constatação de declaração falsa constante do parágrafo único do artigo 2° da referida lei. Essa previsão é importante, vez que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro investiga a ocorrência de fraudes ao sistema de cotas para ingresso na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Tendo em vista que tanto a Lei n° 12.990/2014 quanto a Lei n° 12.711/2010 utilizam o critério de autodeclaração para que os candidatos possam concorrer às vagas reservadas, é possível que seja constatada a ocorrência de fraudes e falsas declarações. Muitos poderão sustentar que a autodeclaração é pessoal e que não seria possível questionar o fato de uma pessoa se declarar parda sem o ser, por exemplo. Acredito, porém, que a autodeclaração é sim passível de questionamento, principalmente em casos em que uma pessoa é visivelmente branca e se declara negra para concorrer às vagas reservadas. A investigação de fraudes e imposição de sanções é de extrema importância para garantir que a ação afirmativa alcance os objetivos almejados e não seja desvirtuada ao longo de sua implementação. Portanto, entendo correta a determinação de que em caso de constatação de declaração falsa, o candidato será eliminado do concurso e, se houver sido nomeado, ficará sujeito à anulação da admissão após procedimento administrativo e sem prejuízo da imposição de outras sanções cabíveis.
No que se refere ao percentual de vagas reservadas, é importante notar que a reserva de vagas apenas será aplicada quando o número de vagas oferecidas no concurso for igual ou superior a 3. Caso a aplicação do percentual sobre o número de vagas resulte em quantitativo fracionado, o parágrafo segundo do artigo 1° da Lei n° 12.990/2014 estabelece que (a) em caso de fração igual ou superior a 0,5 (cinco décimos), o número será aumentado para o primeiro número inteiro subsequente e (b) em caso de fração menor do que 0,5 (cinco décimos), o número será diminuído para o número inteiro imediatamente inferior. Por exemplo, caso um concurso ofereça o número mínimo de vagas exigido pela lei (3 vagas), a aplicação do percentual resultaria na fração de 0,6 e, portanto, seria reservada 1 vaga para negros e pardos.
Por fim, não tenho dúvida de que o país ainda tem um longo caminho a trilhar até que as desigualdades existentes no país sejam efetivamente reduzidas, mas a Lei n° 12.990/2014 representa um avanço significativo na redução dessas desigualdades, complementando a política de reserva de vagas nas universidades públicas federais criada em 2012 e cumprindo o disposto no Estatuto da Igualdade Racial.
Marcadores: Anna Carolina Venturini

References: artigo 39
 artigo 6
 artigo 5
 artigo 49
 artigo 59
 artigo 2
 artigo 1