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Timestamp: 2017-01-17 23:54:52+00:00

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Classificação indicativa by ANDI Mídia e Desenvolvimento - issuu
elementos para um debate plural
Não é recente a preocupação do Estado brasileiro com a proteção
de dois direitos fundamentais: o direito à liberdade de expressão
e o direito ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes.
Diversos estudos internacionais – corroborados pelas mais
importantes entidades científicas cujo foco está na saúde física,
mental e emocional de crianças e adolescentes – salientam os riscos
e as potencialidades da relação do público infanto-juvenil com os
conteúdos audiovisuais. Nesse sentido, os legisladores constituintes
e as organizações envolvidas na formulação e aprovação do Estatuto
da Criança e do Adolescente, além de Ministros da Justiça dos mais
diferentes matizes político-partidários, estiveram envolvidos na
construção de uma política que a um só tempo garantisse a liberdade
de expressão e os direitos das novas gerações.
Passados alguns anos desse processo, tal política – denominada
Classificação Indicativa – ganha uma nova portaria do Ministério
da Justiça (a de número 264/07) e está outra vez no centro de um
debate público não apenas altamente polarizado, mas freqüentemente
contaminado por informações descontextualizadas ou, até mesmo,
inverídicas. Diante desse cenário, a ANDI – Agência de Notícias dos
Direitos da Infância elaborou o presente documento, composto por
dez pontos, descritos brevemente logo a seguir e, de forma mais extensa,
nas demais páginas. A idéia é oferecer parâmetros objetivos, capazes de
contribuir para uma discussão mais aprofundada e produtiva.
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Ao fim e ao cabo, o leitor ou a leitora poderá discordar de alguns
ou de todos os argumentos apresentados. Entretanto, não se pode
deixar de fazer uma pergunta fundamental: caso o país viesse a abrir
mão da Classificação Indicativa, qual seria então a alternativa?
Por acaso devemos aceitar que as emissoras de televisão possam
veicular o conteúdo que bem desejarem, a qualquer hora do dia? Se
essa for a proposta, é importante que a sociedade brasileira saiba
que os estudos internacionais da área não registram casos de nações
democraticamente consolidadas que tenham optado por tal caminho.
I. CENSURA VS. LIBERDADE DE EXPRESSÃO: A FALSA POLÊMICA
A política de Classificação Indicativa é uma prerrogativa democrática do Estado brasileiro,
ancorada na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e em acordos
internacionais dos quais o Brasil é signatário. Trata-se de um instrumento legítimo de
regulação de conteúdos audiovisuais e, portanto, nada tem a ver com a prática da censura,
já que não autoriza o governo a impedir a veiculação dos programas (veja mais).
II. CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA E LIBERDADE DE IMPRENSA: MISTURANDO
Da mesma forma que não representa uma censura, a Classificação Indicativa não atinge
a Liberdade de Imprensa. A legislação brasileira distingue claramente os limites
regulatórios relacionados aos diferentes segmentos da comunicação. É por isso que
a classificação das diversões e espetáculos públicos e a garantia da plena liberdade
de informação jornalística são tratados de formas distintas pela Constituição. A
Portaria 264/07 do Ministério da Justiça também deixa muito claro que os programas
jornalísticos não são objeto da Classificação Indicativa (veja mais).
III. CONSTITUIÇÃO E ECA SÃO COMPLEMENTARES
O Estatuto da Criança e do Adolescente especifica as diretrizes gerais estabelecidas na
Constituinte em relação aos direitos das novas gerações e, por isso, destaca-se como uma
das principais referências na definição da política de Classificação Indicativa. A legitimidade
dessa política e sua regulamentação e execução pelo Ministério da Justiça já foram, inclusive,
atestadas por diversos juristas e pelo Supremo Tribunal Federal (veja mais).
IV. A CLASSIFICAÇÃO NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
O uso do espectro eletromagnético – freqüências utilizadas pelas empresas de televisão
e rádio para transmitir seus conteúdos – é um bem público da sociedade e, exatamente
por isso, passível de regulação pelo Estado. Nesse sentido, cabe às empresas cumprir
as regras democraticamente estabelecidas pelos poderes públicos no âmbito da
radiodifusão, podendo recorrer às instâncias legítimas caso eventualmente sintam-se
prejudicadas em seus direitos (veja mais).
V. AUTOCLASSIFICAÇÃO E REGULAÇÃO DE HORÁRIOS: POSSIBILIDADES NÃO
Assim como acontece em outros países, o novo modelo de Classificação Indicativa
adotado no Brasil permite que as empresas de radiodifusão façam a autoclassificação
de seus conteúdos – sendo assegurada ao Ministério da Justiça a autoridade para
aprovar ou não a classificação defendida pelas emissoras. Também como ocorre
em outras nações, é responsabilidade do Estado brasileiro definir os horários mais
apropriados para a veiculação de determinados programas (veja mais).
Classificação Indicativa: elementos para um debate plural | 
VI. O EXEMPLO DE FORA
A referência às experiências de outros países sempre vem à tona nas críticas
comumente dirigidas à Classificação Indicativa. No entanto, vale esclarecer
que as democracias mais consolidadas do planeta também adotam sistemas de
regulação horária de conteúdos audiovisuais, todos muito semelhantes ao formato
proposto pelo Ministério da Justiça. Tais nações encontram-se em um estágio mais
avançado de desenvolvimento em comparação com o Brasil – como apontam vários
indicadores sociais – e não podem ser acusadas de autoritárias ou politicamente
retrógradas (veja mais).
VII. ONDE ESTÃO OS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE?
O ponto central da defesa de uma política de Classificação Indicativa está relacionado
ao fortalecimento do poder de decisão das famílias e à proteção dos direitos de crianças
e adolescentes. A intervenção do Estado está, portanto, baseada na garantia de tais
prerrogativas. Há pesquisas – como as da Academia Norte-americana de Pediatria
– que confirmam os riscos que conteúdos audiovisuais inadequados podem gerar para
o desenvolvimento integral de meninos e meninas (veja mais).
VIII. A FALÁCIA DO DIRIGISMO CULTURAL
Representa um grande equívoco, ou ato de má-fé, a crítica de que a Classificação
Indicativa teria o objetivo de determinar que tipo de conteúdo deveria ou não ser
exibido nos programas de televisão. A legislação brasileira define apenas as diretrizes
preferenciais da programação e estabelece que “violência” e “sexo” são temas passíveis
de classificação. O papel do poder público, nesse caso, se restringe a incentivar
que as emissoras ofertem conteúdos apropriados ao desenvolvimento de crianças e
adolescentes (veja mais).
IX. FUSOS: SERÁ ESSA A QUESTÃO?
Além de estabelecer os critérios da classificação e a definição do horário de exibição
dos programas, a política de Classificação Indicativa exige que as empresas respeitem
os diferentes fusos do país. Durante o horário de verão, por exemplo, as crianças
do Acre assistem às 18h os programas veiculados às 21h em outros estados. Esse é
um aspecto central desse debate. Os radiodifusores alegam dificuldades técnicas e
financeiras para adequar sua grade de programação (veja mais).
X. RESPONSABILIDADE SOCIAL, AUTO-REGULAÇÃO E REGULAÇÃO
As empresas de mídia – assim como vem sendo assumido por diversos segmentos do
Setor Privado – tem uma Responsabilidade Social a cumprir. No âmbito da comunicação, isso significa, por exemplo, respeitar os direitos de crianças e adolescentes.
Nesse cenário, a auto-regulação e a regulação estatal são dois mecanismos possíveis
– e complementares – de gestão das práticas socialmente responsáveis do setor de
comunicação. Para tanto, é importante ainda que sejam constituídos órgãos reguladores capazes de assegurar o cumprimento desse papel social (veja mais).
1. A Classificação Indicativa nada tem a ver com a censura. Ou seja, não faz sentido a contraposição
que muitas empresas de radiodifusão têm procurado estabelecer: a de que o Brasil deveria escolher
entre garantir o mandato constitucional da liberdade de expressão ou implementar a política de
2.	É importante lembrar que a censura, por definição, ocorre em duas situações muito particulares:
a.	Quando um determinado governo exige que trechos específicos de um conteúdo audiovisual sejam
cortados, para que ele possa ir ao ar – A atual política de Classificação Indicativa não confere,
obviamente, este poder ao Ministério da Justiça. Todos os conteúdos produzidos podem ir ao
ar exatamente como foram concebidos inicialmente – o máximo que pode ocorrer é serem
classificados para exibição no horário noturno.
b.	Quando, uma vez o conteúdo já estando no ar, um determinado governo tem poderes para exigir sua
suspensão – Novamente, a política de Classificação Indicativa não dá poderes ao Ministério da
Justiça para operar desta forma. O Poder Executivo tem autoridade somente para reclassificar um programa, vinculando-o a um horário mais avançado. Nesse caso, os radiodifusores
contam ainda com a possibilidade – como costuma acontecer nos regimes democráticos – de
recorrer de decisões que lhes desagradem. Apenas o Poder Judiciário pode, eventualmente,
suspender programações que afrontem a legislação vigente.
3.	Como nenhuma dessas duas situações apontadas no tópico anterior pode ocorrer, não há censura
na prática da Classificação Indicativa. Mesmo assim, pode-se indagar: a determinação para que
conteúdos potencialmente inadequados sejam remetidos para o horário noturno não é uma forma
de censura? Vamos observar alguns aspectos que respondem a esse questionamento:
a.	A grande maioria das nações adota compromissos junto à comunidade internacional no que
diz respeito à proteção da liberdade de expressão, como por exemplo, ao ratificar a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, que trata do tema em seu Artigo 19. Como veremos no Item
VI deste texto, ao mesmo tempo em que firmam tais documentos, várias das mais consolidadas democracias do planeta também assumem políticas de restrição horária quanto à exibição
de determinados conteúdos audiovisuais – e nenhuma delas está sendo acusada, pelo sistema
internacional de proteção dos Direitos Humanos, de praticar censura.
b.	O Brasil já conta com alguns casos de restrição horária em sua legislação – os quais os radiodifusores não costumam identificar como sendo um “flerte perigoso com a censura”. A legislação eleitoral, por exemplo, impede a divulgação dos resultados das pesquisas de boca-de-urna
antes do encerramento da votação, às 17h.
4.	Se não há censura, vale então saber qual a denominação apropriada para esse tipo de política.
Uma possibilidade é a expressão “regulação democrática da atividade dos concessionários do
espectro eletromagnético”. Tal processo regulatório, além de estar em consonância com as
práticas adotadas em outros países, é balizado pelo Artigo 254 do Estatuto da Criança e do
Adolescente – ECA, de 1990, cujo texto identifica como infração administrativa: “Transmitir,
através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do autorizado ou sem aviso de
sua classificação”.
5.	Vale ressaltar que nem todas as empresas de comunicação são contra o tema. Por exemplo, a
MTV Brasil, filiada à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – Abert, é a favor
da Classificação Indicativa tal como ela consta da Portaria 264/07, tendo inclusive veiculado uma
campanha nesse sentido. No contexto da mídia impressa, é importante assinalar que recentemente
veículos como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e as revistas Carta Capital e Veja também
tomaram posição favorável à política, todos eles fazendo uso de editoriais.
6.	Muitas outras publicações e emissoras vêm garantindo espaço para reportagens e artigos que argumentam em prol da Classificação. A Gazeta Mercantil, por exemplo, veiculou em 2 de março de 2007
um texto do jurista Dalmo de Abreu Dallari, do qual extraímos o trecho a seguir:
Em conclusão, não se configura aí qualquer censura ou inconstitucionalidade, mas, tão só, um ato de
autoridade pública, no exercício de sua competência legal, cumprindo o dever de zelar pelo respeito à
dignidade humana e pelos valores e interesses que são de toda a sociedade brasileira.
7.	Por fim, é importante olhar para o sentido do termo “indicativo”. Ele se aplica às famílias e não
às empresas de radiodifusão. Ou seja, são os pais que, a partir da orientação oferecida por esse
instrumento público, passam a ter condições de saber que tipo de conteúdo será exibido em uma
determinada programação – podendo, se assim o desejarem, evitar que seus filhos acessem tal
conteúdo. Para que os cidadãos possam beneficiar-se dessa indicação, entretanto, é fundamental
que as emissoras cumpram as regras estabelecidas. Em síntese, a Classificação Indicativa não pode
impor que programas potencialmente inadequados para crianças e adolescentes deixem de ser
veiculados – mas pode impor os horários de veiculação.
II. CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA E LIBERDADE DE IMPRENSA: MISTURANDO ÁGUA E AZEITE
1.	Da mesma forma que nada tem a ver com a censura, a política de Classificação Indicativa tampouco guarda
qualquer relação com as questões de liberdade de imprensa. É importante distinguir esses dois temas.
2.	É natural que diferentes formatos midiáticos – como entretenimento, jornalismo e publicidade,
para citar os mais comuns – sejam veiculados por uma mesma emissora de televisão. Entretanto,
devido exatamente às especificidades de cada uma dessas linguagens, elas recebem tratamentos
regulatórios distintos por parte do Estado. Não por outro motivo, a Constituição Federal trata dessas
áreas em momentos diversos.
3.	A liberdade de imprensa ou jornalística está no Artigo 220, Parágrafo 1º:
§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação
jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV [vedação do
anonimato], V [direito de resposta], X [inviolabilidade da intimidade, vida privada, honra e imagem],
XIII [atendimento das qualificações profissionais estabelecidas em lei] e XIV [sigilo da fonte].
4.	Já a liberdade de expressão artística – que trata da regulação dos espetáculos públicos – é foco do
Parágrafo 3º do Artigo 220:
I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao poder público informar sobre a natureza
deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se
mostre inadequada;
II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de
programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221 [preferência
a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promoção da cultura nacional
e regional; programação independente; regionalização da programação; valores éticos e
sociais da pessoa e da família] e bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que
possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente.
5.	Por fim, o Artigo 5º da Portaria 264/07 também faz questão de deixar muito claro que os programas
jornalísticos não serão objeto de Classificação Indicativa.
1.	Não há oposição entre a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
A Constituição deu as diretrizes gerais, o ECA as especificou. Na verdade, o ECA é hoje a “lei
federal” de que fala o Parágrafo 3º do Artigo 220, que focalizamos há pouco (ver item II.4).
2.	Reza o Artigo 74 do ECA:
O poder público, através do órgão competente, regulará as diversões e espetáculos públicos, informando
sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua
Parágrafo único. Os responsáveis pelas diversões e espetáculos públicos deverão afixar, em lugar visível
e de fácil acesso, à entrada do local de exibição, informação destacada sobre a natureza do espetáculo
e a faixa etária especificada no certificado de classificação.
3.	O “órgão competente” mencionado é o Ministério da Justiça, que regula o tema por meio de portarias
– neste caso, a de número 264/07. Já a exigência de horários, como observamos anteriormente, é
regulada pelo Artigo 254 do ECA (ver item I.4). Não publicassem a portaria tal como ela foi concebida,
os gestores do Ministério da Justiça estariam prevaricando.
4.	O primeiro Ministro da Justiça a regular a temática, executando o mandato estabelecido pelo ECA,
foi Jarbas Passarinho, por meio da Portaria 773/90. A Portaria foi contestada junto ao Supremo
Tribunal Federal – STF (ADI 392). O pedido foi indeferido, conforme atesta a conclusão do Ministro
Relator da ação, Marco Aurélio Mello:
Em fase preliminar, entendo incabível a presente demanda direta de inconstitucionalidade. É que
está dirigida contra mera Portaria do Excelentíssimo Senhor Ministro de Estado da Justiça que
regulamentou diploma legal do Congresso Nacional. A natureza do ato normativo atacado decorre
não só do teor receptivo, como também é revelada pela própria Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, no
que previu, mediante o preceito do artigo 74, que o Poder Público “regulará as diversões e espetáculos
públicos, informando sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e
horários em que sua apresentação se mostre inadequada”.
5.	Na mesma direção caminha o atual Procurador Geral da República, Antônio Fernando Barros e
Silva de Souza, ao oferecer parecer para o STF acerca de contestação semelhante de outro ato do
Ministério da Justiça, desta vez assinado pelo então Ministro José Gregori (Portaria 796/2000).
Tendo em vista essa norma do ECA, que transfere ao poder público a disciplina acerca das diversões
e espetáculos públicos por meio de norma infralegal, não prospera a alegação do requerente de que a
portaria atacada consiste em ato autônomo.
O que se tem, na verdade, é um ato normativo regulamentar, insubmisso ao controle de constitucionalidade, visto que este deve ter como objeto lei ou ato normativo que viole diretamente a Constituição.
Assim, a alegação de eventual vício na portaria questionada deve ser analisada sob o aspecto da
legalidade, confrontando-a com o art. 74 da Lei Federal 8.069/90, e não sob o da constitucionalidade.
1.	Vivemos em uma democracia ocidental, estruturada segundo três poderes, a partir das diretrizes
estabelecidas pela Constituição Federal de 1988. Nesse cenário, o Legislativo constrói as regras,
inclusive delegando o delineamento de parte delas para o Poder Executivo. Por sua vez, cabe ao
próprio Legislativo e ao Ministério Público a fiscalização do trabalho do Executivo, bem como a
proteção dos direitos de todos os cidadãos.
2.	Às empresas concessionárias de serviços públicos, por outro lado, cabe cumprir as regras
democraticamente estabelecidas pelos poderes públicos. As empresas de radiodifusão não
constituem exceção – elas são como “inquilinos” do espectro eletromagnético, um bem público de
propriedade da sociedade brasileira.
3.	A atual política de Classificação Indicativa intensifica – e isso é ótimo – a proteção ofertada pelo
a.	As empresas sabem de antemão todas as regras do jogo: os critérios de classificação estão
exaustiva e objetivamente estabelecidos.
b.	A Portaria presume que as concessionárias serão muito zelosas no cumprimento dos mandatos
constitucionais – tanto que a elas foi outorgado o direito de auto-classificarem sua programação
(o que será fiscalizado, é claro, pelo Ministério da Justiça).
c.	Sempre que discordarem da aplicação das regras do jogo, as concessionárias podem recorrer a
instâncias internas do Ministério e ao Poder Judiciário.
d.	O mesmo vale para os contribuintes-cidadãos, caso sintam que os seus direitos – inclusive os
de donos do espectro – estão sendo desrespeitados pelas empresas de radiodifusão.
4.	Vale recorrer, mais uma vez, ao ensinamento do jurista Dalmo Dallari, tecido no mesmo artigo já
mencionado (ver item I.6):
Além disso, a portaria assegura aos interessados a possibilidade de fazerem eles próprios a classificação, comunicando-a ao órgão competente do Ministério da Justiça. Se este não concordar
com a classificação poderá haver recurso para um órgão superior do Ministério. Na hipótese de
continuar a divergência sobre a classificação, a matéria poderá ser levada ao Judiciário, a quem
competirá dizer se naquele caso concreto houve exorbitância da autoridade, anulando a decisão
exorbitante e fazendo prevalecer o critério do interessado, se for o caso.
V. AUTOCLASSIFICAÇÃO E REGULAÇÃO DE HORÁRIOS: POSSIBILIDADES NÃO EXCLUDENTES
1.	Embora a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – Abert venha afirmando
que a Portaria 264/07 institui, como novidade, a “censura prévia”, estabelecendo a necessidade dos programas serem analisados antecipadamente pelo Ministério da Justiça, trata-se de
uma interpretação equivocada da atual legislação. Na verdade, o que ocorre é o contrário: com
a Portaria 264/07, a análise prévia dos conteúdos – recurso que era obrigatório nas portarias
anteriores – passa a ser uma exceção, utilizada somente nos casos em que as emissoras não
optem pelo instrumento da autoclassificação.
2.	Outras críticas endereçadas ao modelo brasileiro de Classificação Indicativa insistem que,
em muitas democracias, desenvolve-se apenas a política de autoclassificação. Ou seja, as
próprias emissoras – em geral por meio da associação empresarial do setor – definiriam e
implementariam as regras da classificação, ficando o Estado totalmente ausente do processo.
Isto é não é verdade.
3.	Não se pode olhar o cenário internacional de forma apressada. Em países nos quais há a prática da autoclassificação – Estados Unidos e Austrália são bons exemplos – a autoridade federal, em atenção à legislação pertinente, exige explicitamente o cumprimento dos horários. Vejamos o caso norte-americano:
a.	O título 18 do Código Federal dos Estados Unidos, Seção 1464, proíbe a emissão de “quaisquer
conteúdos obscenos, indecentes ou profanos por meio da radiodifusão”. Em consonância com
uma lei subseqüente e uma decisão judicial, as regras editadas pela Agência Federal de Comunicações (FCC) proíbem a exibição de “material indecente” entre 6h e 22h. As decisões da FCC
também proíbem a veiculação de “material profano” na mesma faixa horária (www.fcc.gov).
b.	A mesma Seção 1464 do Código Federal norte-americano estabelece que os concessionários de
radiodifusão que exibirem conteúdos obscenos, indecentes ou profanos devem ser multados
sob as regras do título 18 ou encarcerados por não mais do que dois anos, ou ambos.
4.	Vale então ressaltar: os órgãos reguladores destes países são autorizados a multar em valores expressivos, a suspender concessões, a modificar regulamentações específicas – nada disso pode o
Ministério da Justiça brasileiro.
5.	E há outras questões: além da classificação por horários – que é somente um elemento entre os
muitos que integram o universo das políticas públicas de comunicação –, nesses países a propriedade
horizontal, vertical e cruzada dos meios de comunicação é controlada, a publicidade é fortemente
regulada e os direitos de crianças e adolescentes são amplamente protegidos. De novo, um exemplo
norte-americano, muito recente, pode ajudar a compreender o quanto o marco regulatório
implementado nesses países é mais amplo do que o nosso. O trecho a seguir foi extraído de texto
distribuído pela Agência de Notícias EFE, em 24 de fevereiro de 2007:
A Univisión, o consórcio de comunicação líder entre a mídia hispânica dos Estados Unidos, pagará
24 milhões de dólares de multa – a maior já imposta, até o momento, pela FCC (Agência Federal de
Comunicações) – por qualificar como educativa uma telenovela.
6.	Essas informações nos permitem retornar de forma mais consistente ao tema da autoclassificação,
que sem dúvida é de grande relevância. Lamentavelmente, até agora as experiências brasileiras
nesse campo não são as mais promissoras. Vejamos dois casos emblemáticos:
a.	Em 8 de julho de 1993, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – Abert publicou
seu “Código de Ética da Radiodifusão Brasileira”. Dentre outros elementos interessantes, o
documento apresentava diretrizes que, potencialmente, permitiriam o exercício efetivo da
autoclassificação pelas empresas associadas. O código, entretanto, nunca foi colocado em
prática – e ultimamente sequer podia ser encontrado no sítio da instituição na internet.
b.	Na sua gestão, o então secretário dos Direitos Humanos – e depois Ministro da Justiça –, José
Gregori, reabriu as discussões sobre a Classificação Indicativa, pautado pelo Plano Nacional de
Direitos Humanos. Na época, ele propôs que as próprias empresas elaborassem e publicassem
seus códigos de ética e auto-regulação. Algumas chegaram a sinalizar que assim fariam, mas
anos depois nada havia sido concretizado.
7.	Diante deste histórico – e dos exemplos internacionais há pouco relatados –, parece que os direitos das
crianças e adolescentes brasileiros só teriam a ganhar caso viéssemos a incorporar ao ordenamento
jurídico de nosso setor de radiodifusão os parâmetros que regem a legislação de outras democracias,
como a norte-americana (ou australiana, inglesa, sueca, etc., conforme constataremos a seguir).
1.	Ao longo de vários trechos deste documento foram apresentados elementos das políticas de regulação
de radiodifusão levadas a cabo em outros países. Mas como elas são um referencial tão importante
para os avanços que ainda necessitamos conquistar, vale sublinhar alguns aspectos adicionais que
integram a legislação de outras democracias.
2.	Antes, porém, faz sentido conhecer como o Brasil e outras nações que adotam a Classificação Indicativa
se comportam nos rankings internacionais que medem características fundamentais para as sociedades
contemporâneas, como o desenvolvimento humano, a proteção do regime democrático e a promoção/
defesa dos direitos da criança e do adolescente. Será que, conforme apontam alguns críticos das práticas
classificatórias, estas são típicas de países com baixo grau de desenvolvimento político e social?
3.	Quando são estudados cinco desses indicadores (IDH, mortalidade infantil, liberdades, liberdade de
imprensa e PISA), nossa situação é dramática. Em quatro dos cinco rankings analisados, o Brasil está, na
melhor das hipóteses, atrás de 14 países, entre os 18 pesquisados. No outro, aparece em último lugar.
4.	Diante de tal quadro, merece destaque o fato de que, neste grupo de 18 nações, nada menos de
13 estabelecem claramente uma regulação horária dos conteúdos audiovisuais: Estados Unidos,
México, Argentina, Chile, Reino Unido, Alemanha, França, Portugal, Holanda, Suécia, Austrália e
Nova Zelândia, além da província espanhola da Catalunha. Quem quiser conhecer o estudo completo,
deve buscar o capítulo 5 do livro Classificação Indicativa: construindo a cidadania na tela da tevê
(www.andi.org.br/_pdfs/Classificacao_indicativa_livro.pdf).
5.	Para concluirmos nossa breve visita ao cenário internacional da Classificação Indicativa, nada
melhor que um pequeno – mas muito ilustrativo – trecho do Artigo 7º da Convenção Européia sobre
Televisão sem Fronteiras (1989), do Conselho da Europa:
[...] toda a programação capaz de prejudicar o desenvolvimento físico, mental ou moral de crianças e
adolescentes não deve ser transmitida em horários em que eles possam assistir aos programas.
1.	Se não existe uma relação entre Classificação Indicativa e censura, cabe perguntar: qual deve ser o
ponto central desse debate? A resposta é muito simples: a proteção dos direitos humanos de crianças
2.	A lógica da Classificação Indicativa, em síntese, é tão-somente uma: fortalecer o poder de opção
das famílias e, logo, proteger as crianças. Afinal, concordamos todos – inclusive as empresas de
radiodifusão – que é direito inalienável das famílias decidir o que seus filhos podem ou não assistir.
Entretanto, para que esse direito possa ser exercido, é preciso que o Estado – o poder concedente
– ofereça as condições objetivas necessárias.
3.	Vale aqui usar uma analogia: todos têm direito à saúde, mas se o hospital público mais próximo
está a 500 quilômetros de uma certa localidade, dificilmente os direitos daquela população estarão
garantidos. Assim, cabe ao Estado construir a unidade médica. Da mesma forma, ocorre com o
direito das famílias em escolher o que seus filhos assistirão ou não:
a.	De saída, os pais ou responsáveis precisam estar presentes no lar para orientar os filhos – daí
a pertinência de remeter a programação potencialmente inadequada para o horário noturno.
b.	Depois, os pais precisam saber quais conteúdos (violência, por exemplo) vão encontrar no
programa que começam a assistir na companhia dos filhos – daí a relevância de padronizar a
forma de apresentar a Classificação Indicativa ao telespectador.
4.	Uma outra analogia: o Ministério da Saúde exige que os fabricantes de leite em pó exibam em seus
produtos a recomendação de que os bebês sejam exclusivamente amamentados até os 6 meses de
vida. Nem todas as famílias seguem esta sugestão. O mesmo vale para a Classificação: felizmente
não haverá um policial na casa de cada cidadão impedindo que os filhos tenham acesso a este ou
aquele programa. A palavra final estará sempre com as famílias – mas cabe ao Estado indicar o que
pode ser potencialmente recomendado ou não, garantindo também as condições objetivas para que
os responsáveis recebam esta informação em suas residências.
5.	O artigo 227 da Constituição sustenta, de maneira única em todo o texto da Carta Magna, que os
direitos de crianças e adolescentes são prioridade absoluta para o Estado, a família e a sociedade;
não faz o mesmo com os direitos dos radiodifusores. É daí que advém a preocupação obrigatória dos
gestores públicos com a garantia dos direitos das novas gerações.
6.	Por sua vez, a pesquisa internacional demonstra que há riscos para o desenvolvimento integral de
meninos e meninas quando são freqüentemente submetidos a conteúdos audiovisuais inadequados.
É extremamente contundente a posição da Academia Norte-americana de Pediatria a esse respeito:
[...] contudo, a força da correlação entre violência na mídia e comportamento agressivo é maior do
que a relação entre o consumo de cálcio e a massa óssea, ingestão de chumbo e baixo QI, a negligência
no uso de preservativos e a infecção por HIV ou o consumo ambiental de tabaco e câncer de pulmão
– associações aceitas pela comunidade médica e nas quais a medicina preventiva se fundamenta sem
7.	Se há risco, cabe ao Estado avisar as famílias. A Classificação Indicativa é uma das políticas que
permitem esta ação preventiva.
1.	Uma crítica que, com alguma freqüência, vem sendo endereçada à Classificação Indicativa é a de
“dirigismo cultural”. Segundo esse tipo de argumentação, a divulgação das regras da classificação
teria o objetivo de levar as emissoras a produzir conteúdos com características X e não Y.
2.	Primeiro, deve-se ter em mente que é a Constituição Federal (Artigo 221) – e não este ou aquele
governo – que estabelece as diretrizes preferenciais da programação:
I-	preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II-	promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua
III-	regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV-	respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
3.	Em segundo lugar, precisamos reconhecer que é o Artigo 3º da Lei 10.359/2001 o responsável por
determinar que sexo e violência devem ser os “temas” passíveis de Classificação. Ou seja, não é
a decisão de um gestor ou de um governo que salienta a necessidade de que tais temáticas sejam
considerados no momento da Classificação, mas a própria legislação vigente:
Classificação Indicativa: elementos para um debate plural | 10
Competirá ao Poder Executivo, ouvidas as entidades representativas das emissoras especificadas no
art. 1º, proceder à classificação indicativa dos programas de televisão.
Parágrafo único. A classificação indicativa de que trata o caput abrangerá, obrigatoriamente, a
identificação dos programas que contenham cenas de sexo ou violência.
4.	Em um terceiro ponto, cabe entender que, em decorrência desses elementos e dos mandatos
delineados pelo ECA, é dever do Estado estimular que a programação oferte, voluntariamente,
produtos audiovisuais mais condizentes com os diferentes estágios de desenvolvimento de
5.	Nenhum desses aspectos, entretanto, implica que os radiodifusores – e seus empregados: roteiristas, diretores, artistas, etc. – tenham de deixar de produzir os programas exatamente da maneira
como vinham fazendo até então. Ferramentas como a Classificação Indicativa – voltamos a destacar
– no máximo têm o poder de levar um determinado programa para exibição nas faixas noturnas,
sendo que a última delas tem início às 23 horas.
6. Com relação à oposição de alguns artistas e roteiristas às proposições da Classificação Indicativa,
é importante sublinhar certos aspectos. Embora tenham direito, como todo cidadão e cidadã, a
expressar livremente suas impressões sobre quaisquer assuntos – inclusive a questão em pauta –,
tais figuras públicas não são juristas e/ou especialistas na relação entre conteúdos audiovisuais e
garantia dos direitos humanos de crianças e adolescentes. Se não dominam os aspectos fundamentais
em foco, sua opinião não pode ser, de forma alguma, considerada argumento suficiente para
encerrar a discussão em relação à implementação ou não da política classificatória.
7.	Deve-se ressaltar, além do mais, que os critérios técnicos que norteiam a nova Classificação
Indicativa visam, ao contrário do que propala a idéia de dirigismo cultural, oferecer mais
objetividade à política classificatória. Como? Após responder aos nove grupos de itens propostos para a avaliação de uma determinada obra, espera-se que quaisquer pessoas – técnicas
no assunto ou não – possam chegar a uma conclusão similar sobre a faixa de classificação que
deve ser aplicada.
8.	A metodologia que serve de base a esse processo, conhecida como Análise de Conteúdo, é
amplamente utilizada pelas ciências sociais desde o final do século XIX. Os detalhes do modelo
adotado pelo Ministério da Justiça estão descritos na parte 2 do livro Classificação Indicativa:
construindo a cidadania na tela da tevê (www.andi.org.br/_pdfs/Classificacao_indicativa_livro.pdf).
9.	Finalmente, merece atenção o fato de que o novo modelo de classificação buscou separar situações semelhantes, mas cujos conteúdos, de acordo com a pesquisa internacional, podem gerar
impactos diferenciados na formação de crianças e adolescentes. Exemplo: um programa que
apresenta cenas de violência, porém em um contexto que estimula reflexões sobre o tema, necessita ser classificado de forma distinta de outro que traz cenas similares, porém em situações
que estimulam ou valorizam os atos agressivos. Os dois poderão ir ao ar, mas o primeiro causa
menor impacto do que o segundo. Talvez alguns pais irão preferir não deixar seus filhos assistir
a nenhum deles; outros apenas permitirão o primeiro, e outros aceitarão os dois. Entretanto,
somente poderão tomar uma decisão consciente caso tenham acesso às informações sobre o tipo
de conteúdo presente no programa que estará sendo exibido.
Classificação Indicativa: elementos para um debate plural | 11
1.	Caso os aspectos apontados anteriormente tenham feito sentido para o leitor ou leitora, cabe a pergunta: o que está em jogo na atual discussão sobre a Classificação Indicativa?
2.	A Portaria 264/07, além de reafirmar a exigibilidade dos horários – o que já fazia parte da primeira
portaria sobre o tema (773/90), assinada pelo então Ministro Jarbas Passarinho há 17 anos –,
deixou claro que as emissoras também deverão se pautar pelos diferentes fusos existentes no país.
Funciona assim: os direitos de crianças, adolescentes e famílias acreanas e demais estados que
não são regidos pelo horário de Brasília têm que ser respeitados na mesma medida que os direitos
de crianças, adolescentes e famílias de outras regiões do país. Durante o horário de verão são 26
milhões de crianças e adolescentes potencialmente atingidos pela medida.
3.	Orientação similar encontramos aqui bem perto, na legislação da Argentina:
Lei º 22.285 - Artigo 17: Em nenhum caso poderão ser transmitidos programas classificados pela
autoridade competente como proibidos para menores de dezoito anos. No horário de proteção ao
menor, fixado pela regulamentação desta lei, os programas transmitidos deverão ser adequados
para todos os públicos. Fora desse horário, os conteúdos garantirão os princípios básicos desta lei.
Os programas especialmente destinados a crianças e adolescentes deverão adequar-se ao que requer
a sua formação. Como a hora oficial não é a mesma em todo território da República, o horário de
proteção ao menor será fixado levando em conta as diferenças horárias existentes, de modo a não
violar as disposições do Artigo 1º.
4.	No Brasil, novamente o exemplo da legislação eleitoral é pertinente para demonstrar que já aplicamos
regras relativas aos fusos horários no campo da radiodifusão. Vejamos a explanação do Ministro Fernando
Neves, do Tribunal Superior Eleitoral, sobre o tema, na Resolução 21.232, de 4 de maio de 2002:
As pesquisas de intenção de voto nas eleições presidenciais podem ser divulgadas a partir das 17 horas,
horário de Brasília, nos estados em que a votação já houver se encerrado, aguardando-se, nos demais
estados, em que há diferença de fuso horário, o efetivo encerramento da votação para a divulgação
5.	Proteger e garantir os Direitos Humanos não é uma tarefa fácil. Se é verdade que as emissoras
poderão enfrentar algumas dificuldades técnicas e financeiras para cumprir as regras da Classificação Indicativa nas localidades que não seguem (sempre ou em determinados períodos do ano) o
horário de Brasília, também é certo que a prioridade absoluta, constitucionalmente assegurada a
todas as crianças e adolescentes brasileiros, exige uma postura de responsabilidade em relação aos
direitos das populações que vivem nas localidades regidas por outros fusos.
6.	Atualmente, em função de interesses comerciais, muitas redes de tevê brasileiras já fazem mudanças
em sua grade de programação para adequá-la ao horário de verão. Durante esse período do ano, ao
invés de serem transmitidos ao vivo, há telejornais matutinos de alcance nacional que são gravados
nos estados não-submetidos à mudança (os do Nordeste, por exemplo), para que possam ser
veiculados em sua hora habitual. Isso porque, caso tais programas fossem transmitidos no mesmo
horário de Brasília, os telejornais locais teriam que entrar no ar muito cedo. Situação similar ocorre
no período de eleições, quando as emissoras precisam ajustar a programação entre os estados em
que haverá disputa de segundo-turno e aqueles nos quais o pleito já foi decidido, em função do
Classificação Indicativa: elementos para um debate plural | 12
X.	RESPONSABILIDADE SOCIAL, AUTO-REGULAÇÃO E REGULAÇÃO
1.	Poucas empresas dizem, ao menos publicamente, que são contra readequar suas práticas de gestão
segundo o paradigma da Responsabilidade Social Empresarial. Este cenário inclui as empresas de
2.	Mas o que significa, concretamente, a Responsabilidade Social Empresarial aplicada às
especificidades dos meios de comunicação? Os estudos internacionais nessa área mostram
que o desenvolvimento de políticas de auto-regulação e a existência de regulação estatal não são
excludentes, mas sim complementares. Para tanto, além do efetivo compromisso das empresas com
o processo auto-regulatório, precisamos ter cidadãos mais ativos e órgãos reguladores capazes de
entrar em cena caso, eventualmente, a auto-regulação falhe. No momento, contudo, esse modelo
regulatório integrado não ocorre no Brasil – daí que a nova Portaria da Classificação Indicativa traz
aspectos que buscam incentivar tal avanço.
3.	O relatório Good News and Bad – The Media, Corporate Social Responsibility and Sustainable
Development, lançado em 2002 pela ONG inglesa SustainAbility, apresenta alguns caminhos
a serem trilhados pelas empresas de comunicação na direção de uma prática socialmente
responsável. O documento foi construído a partir de entrevistas com mais de 50 integrantes de
grupos de mídia, além de ONGs e governo. O estudo traz ainda uma lista de dez recomendações
em relação a temas como governança, responsabilização e transparência da mídia. Apresentamos
a seguir dois desses pontos:
a.	As empresas de comunicação devem revisar seus objetivos, alvos e performances de acordo com
as principais normas de governança, incluindo o Pacto Global da ONU, os Princípios Globais
Sullivan [código de conduta empresarial formulado em apoio aos direitos humanos universais] e a
SA 8000, além dos critérios de Investimento Social Privado (ISP).
b.	Devem também verificar – no nível de diretoria – se o equilíbrio entre interesse público e
as demandas comerciais está sendo estrategicamente revisado, devidamente administrado e
publicamente divulgado.
4.	Cabe lembrar, nesse sentido, que um dos princípios do Pacto Global, elaborado no âmbito da
ONU e já firmado por centenas de empresas ao redor do mundo, é também o respeito aos direitos
humanos de todos os cidadãos e cidadãs. Observada por esse ângulo, a implementação das diretrizes
estabelecidas pela política de Classificação Indicativa nada mais é do que o cumprimento de uma
importante responsabilidade das concessionárias de radiodifusão em relação a tais direitos,
especialmente no que diz respeito às crianças e adolescentes.
Classificação Indicativa: elementos para um debate plural | 13
ANDI Mídia e Desenvolvimento
Debate Andi

References: Artigo 19
 Artigo 254
 Artigo 220
 Artigo 220
 Artigo 5
 Artigo 220
 Artigo 74
 Artigo 254
 artigo 74
 Artigo 7
 artigo 227
 Artigo 3
 Artigo 17
 Artigo 1