Source: https://fr.scribd.com/doc/37651263/Apostila-de-Processo-Penal
Timestamp: 2020-01-18 08:15:18+00:00

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Apostila de Processo Penal | Procedimento criminal | Presunção de Inocência
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1. Princípio do devido processo legal (art. 5.º, LIV, CF)
2. Princípio da ampla defesa
5. Princípio da verdade real
7. Princípio da motivação das decisões
9. Princípio da duração razoável do processo
1. A lei processual penal no espaço
2. A lei processual penal no tempo
3. Prazo na lei processual penal
4. Formas de início
5. Providências
3. Ação penal pública condicionada
5. Ação penal privada subsidiária da pública
3. Causas de rejeição da denúncia ou queixa
4. Recursos contra rejeição ou recebimento
CAPÍTULO VII – AÇÃO CIVIL EX DELICTO
3. Conexão e continência
Direito Processual Penal FLÁVIO CARDOSO DE OLIVEIRA
4. Foro prevalente
5. Separação de processos
2. Processos Incidentes
3. Conflito de jurisdição
4. Restituição de coisas apreendidas
5. Medidas assecuratórias
2. Sistemas de apreciação da prova
5. Curador do réu menor
6. Assistente de acusação
7. Auxiliares da Justiça
2. Prisão processual
1. Requisitos formais da sentença
2. Princípio da correlação
4. Rito do Júri
5. Rito dos crimes de responsabilidade dos funcionários público
6. Rito dos crimes contra a honra
7. Rito dos crimes contra a propriedade imaterial
2. Pressupostos recursais
4. Reformatio in pejus
5. Recurso de ofício
6. Recursos em espécie
O ser humano é sociável por natureza. Sabe-se que desde os primórdios da humanidade
existem agrupamentos sociais. Para a harmônica convivência dos integrantes de determinado grupo é necessária a imposição de normas de conduta. Com a evolução das sociedades, o controle das relações sociais passou a ser formalmente exercido pelo Direito. As normas jurídicas surgem, então, para regular a relação entre os componentes de uma sociedade e também as relações entre os indivíduos e o próprio Estado. Quem viola uma norma de conduta está sujeito à sanção estatal, pois se assim não fosse, de nada adiantaria impor regras, seriam elas inócuas. Existem normas, contudo, que dizem respeito ao interesse de toda a coletividade, ou seja, à ordem social. Um homicídio intranqüiliza a sociedade, desestabiliza a ordem pública. Não se cogita, portanto, de deixar tal ilícito na esfera de interesse do autor do fato e da vítima, ou, no caso, de familiares dela. Toda a sociedade tem interesse na repressão a tal conduta, ao contrário do que acontece com um acidente entre dois automóveis, onde um deles sai danificado, e se impõe ao motorista culpado a reparação daquele dano. Neste caso, apenas os dois interesses estão envolvidos. Os bens cuja proteção importam a toda a coletividade, então, recebem a tutela penal do Estado. Ser tutelado penalmente significa ter, como reação à sua violação, a mais grave das sanções: a pena.
Nessa esteira, quando um ilícito penal é praticado, surge para o Estado o direito de punir o autor do ilícito, ou seja, nasce para o Estado o jus puniendi. O jus puniendi pode ser definido como: o poder que tem o Estado de sancionar aquele que violou uma norma tutelada penalmente. Tal direito, contudo, não pode ser exercido livremente pelo Estado, muito menos arbitrariamente. Para tanto, devem ser observados inúmeros princípios que regulam e delimitam o poder estatal, como, por exemplo, o princípio da reserva legal e o princípio do devido processo legal, estampados respectivamente no art. 5.º, incisos XXXIX e LIV, da Constituição da República.
É de se lembrar que, como os interesses tutelados pelas normas penais são de interesse
público, não se trata somente de um direito do Estado punir o agente criminoso, mas sim um verdadeiro dever, uma vez que, praticado um delito, a sociedade exige que seu autor seja punido. Praticado um ilícito penal e surgido o jus puniendi para o Estado, como visto, delineia-se uma relação jurídica de direito penal, isto é, de um lado, o órgão estatal investido do poder de punir (Estado-juiz) busca, através dos mecanismos legais, efetivar a punição, enquanto de outro, aquele sobre quem pesa a imputação de haver infringido a lei penal, busca se defender, busca não se submeter à sanção. Estabelece-se, dessa forma, um conflito de interesses entre o Estado e o indivíduo (ou, em casos excepcionais, a pessoa jurídica – vide Lei n. 9.605/98): um conflito entre o direito de
punir e o direito de liberdade da pessoa (jus libertatis), pois, via de regra, o direito penal se utiliza da privação de liberdade como sanção. À pretensão do Estado em impor a sanção penal, denominamos pretensão punitiva. Havendo oposição de uma parte à pretensão de outra, passa a existir a lide. Assim, surgirá a lide penal com a prática do fato criminoso e se dará entre o jus puniendi estatal e o direito de liberdade do autor do fato. Em suma, praticada uma infração penal, o Estado procura exercer seu direito de punir e a tal pretensão se opõe o titular do direito de liberdade.
O conflito de interesses acima mencionado não pode permanecer sem solução. De fato, de
nada adiantaria o Direito estabelecer regras de conduta para a melhor convivência entre as
pessoas se um conflito permanecesse sem solução, a ordem social estaria comprometida do mesmo jeito. É preciso, então, utilizar-se de mecanismo dotado de regras e garantias destinadas aos sujeitos nele envolvidos. O instrumento estatal destinado a solucionar a lide penal é o que denominamos Processo Penal. Numa definição mais completa: conjunto de atos organizados entre si, submetido a princípios e regras jurídicas destinadas a solucionar a lide penal. Assim, como dissemos anteriormente, o Estado é o único detentor do direito de punir. Ele substitui as partes, investindo-se do poder jurisdicional para solucionar o conflito existente. Nem mesmo quando se trata de ação penal privada o particular será investido do direito de punir, continua ele pertencendo ao Estado. Ao particular transfere-se apenas a iniciativa de propor e conduzir a ação.
Os princípios são enunciados que orientam a compreensão do ordenamento jurídico, quer para sua aplicação e integração, quer para a elaboração de novas normas. Podem ser explícitos, isto é, estampados em norma legal, ou implícitos, ou seja, extraídos da interpretação que se faz do conjunto de normas. No Brasil, tendo em vista a importância do bem jurídico em questão na discussão de uma causa penal – a liberdade – boa parte dos princípios informadores do processo penal estão dispostos na Constituição da República, dentre os direitos e garantias individuais. A maioria deles, por seu turno, é repercussão da adesão do Brasil à Convenção Americana de Direitos Humanos, conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, ratificada pelo País em 1992. Não bastasse a inspiração, a própria Convenção pode vir a ganhar status de emenda constitucional se aprovada em cada casa do Congresso, em dois turnos, por 3/5 dos votos (art. 5.º, § 3.º, CF, acrescido pela EC 45/04). Vejamos quais são os mais importantes princípios informadores de nosso processo penal:
Estabelece a Constituição da República que “ninguém será privado de sua liberdade sem o devido processo legal”. É a garantia de que só será considerada legítima a condenação de alguém se o processo for desenvolvido na forma que estabelece a lei. É a consagração da impossibilidade do Estado impor uma sanção a alguém diretamente e arbitrariamente, tão logo tome conhecimento da prática de uma infração penal. Em relação ao Processo Penal, exige-se maior rigor na observância de formas legais, uma vez que ele é informado por inúmeras garantias constitucionais. Observar o devido processo legal é assegurar as garantias constitucionais das partes.
2. Princípio da ampla defesa (art. 5.º, LV, CF)
Consiste em o Estado proporcionar ao acusado todos os meios lícitos de se defender da imputação que lhe é dirigida. Em outras palavras, tudo o que não for contrário à lei pode ser utilizado, com o amparo estatal, pelo acusado para promoção de sua defesa. Isso envolve assegurar a mais completa defesa, que se desdobra em duas vertentes: autodefesa – a pessoal – e a defesa técnica – por defensor. Não se pode olvidar que faz parte também da
ampla defesa, assegurar ao acusado hipossuficiente a assistência judiciária gratuita (art. 5º, LXXIV, CF).
A autodefesa se realiza notadamente no interrogatório, ato em que o acusado é ouvido a
respeito da imputação que lhe é dirigida, mas se perfaz também com a participação na
colheita da prova, precipuamente na participação em audiência.
A defesa técnica é aquela exercida por profissional habilitado, qual seja, o advogado. Pode
este ser constituído, ou seja, escolhido e nomeado pelo acusado, ou dativo, nomeado pelo juiz.
A defesa técnica só atenderá ao princípio da ampla defesa se for eficiente. A respeito, a
Súmula 523 do STF: “No processo penal, a falta de defesa consiste em nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prejuízo para o réu”. Lembre-se que fere o princípio em questão a nomeação de defensor dativo ao acusado antes que ele se manifeste a respeito de constituir um de sua confiança. A nomeação pelo juízo é sempre subsidiária.
Cumpre ressaltar que no júri, nos termos da Constituição da República, art. 5º, XXXVIII, vigora a plenitude de defesa, que alguns entendem ser ainda maior do que a ampla defesa garantida nos processos penais comuns.
3. Princípio do contraditório (art. 5º, LV, CF)
Princípio basilar da sistemática processual, estabelece que as partes devem ser ouvidas e ter oportunidade de se manifestarem em igualdade de condições. O processo só vai atingir seus fins se houver equilíbrio entre as partes.
É conhecida a expressão “paridade de armas”, pela qual alguns autores se referem ao
contraditório. Ela condensa a idéia de que, no processo, as partes devem ter as mesmas
oportunidades, não devendo uma ser mais “municiada” do que outra.
O contraditório é essencial ao processo, porém dispensado no Inquérito Policial. Por essa
razão, não se pode condenar um acusado baseando-se exclusivamente em provas colhidas unicamente na peça informativa.
4. Princípio da presunção de inocência (art. 5º, LVII, CF)
Na redação constitucional: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença condenatória”.
É também chamado de princípio da presunção de não culpabilidade, pois a Constituição da
República não presume a inocência, mas diz que o sujeito não é considerado culpado, ou,
ainda, de princípio do estado de inocência, uma vez que indica o estado jurídico do acusado durante o processo. Diante da presunção de inocência, deve-se ter em conta que a prisão cautelar passou a ser medida de exceção em nosso sistema, ou seja, ela só deve sobrepujar a liberdade durante o processo em caso de verdadeira necessidade. O STJ, contudo, através da Súmula 9, manifesta
o entendimento de que a prisão processual ou cautelar não fere o princípio do estado de
inocência. Outro desdobramento do princípio em questão é que o réu não tem o dever de provar sua inocência, é o órgão acusador que tem o dever de provar sua culpa. Na mesma esteira, para
condenar o acusado, o juiz deve ter plena convicção de sua culpa, bastando para a absolvição
a dúvida. Da mesma forma deve ser feita a valoração das provas: na dúvida, decide-se em favor do réu (princípio do favor rei, corolário da presunção de inocência).
No processo penal, deve-se buscar recriar os fatos como se passaram na realidade, não devendo o juiz se conformar com eventual verdade formal criada nos autos. Ainda que se saiba que tal tarefa é um tanto quanto difícil no caso concreto, deve-se buscar aproximar-se o quanto possível da realidade dos fatos. É a busca da “verdade verdadeira”.
Difere do processo civil, onde vigora a verdade formal, pois neste, para aplicar o direito, via
de regra, basta ao juiz conformar-se com a verdade trazida aos autos, não há necessidade de se
buscar a verdade real. Tal princípio, contudo, comporta algumas exceções no processo penal, a saber:
a) impossibilidade de juntada de documentos nas alegações finais do júri (art. 406, CPP); b) impossibilidade de apresentar documentos no plenário do júri, sem ter dado ciência à outra parte, no mínimo, 3 dias antes (art. 475, CPP);
c) impossibilidade de rescindir a coisa julgada em favor da sociedade, na revisão criminal; d) inadmissibilidade de provas ilícitas (art. 5º, LVI, CF).
6. Princípio do juiz natural (art. 5º, LIII)
Estabelece o princípio do juiz natural que o autor de uma infração penal só poderá ser processado e julgado perante o órgão jurisdicional competente, conforme previsão da
Constituição Federal, ou seja, juiz natural é aquele previamente conhecido, segundo as regra
de fixação da competência.
Daí decorre que não haverá tribunal nem juízo de exceção (art. 5º, XXXVII, CF), isto é, aquele criado para julgar fatos exclusivos, praticados anteriormente. A sua criação se dá em virtude exatamente desses fatos. Como exemplo na história da Humanidade, temos o Tribunal
de Nuremberg, na Alemanha, criado para julgar os crimes cometidos pelos nazistas durante a
Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, tivemos a instalação de tribunais de exceção na Ex-Iugoslávia e Ruanda.
A título de ilustração, é válido lembrar que o Tribunal Penal Internacional é tentativa de
acabar com os tribunais de exceção pelo mundo, buscando concentrar o julgamento de determinados crimes, basicamente quando o País envolvido não desenvolve o regular processo para sua apuração. Cumpre lembrar, ainda, que o Supremo Tribunal Federal adota o princípio do promotor natural, através do qual se veda a designação casuística de membro do Ministério Público
pela chefia da instituição, devendo valer, no que for aplicável, as mesmas regras concernentes
Princípio da motivação das decisões (art. 93. IX, CF)
As decisões judiciais precisam sempre ser motivadas para garantir as partes contra o arbítrio
do julgador, que deve, assim, expor os motivos pelos quais decidiu de tal forma, ou seja, o
“porquê” decidiu em determinado sentido. Tal princípio encontra grande exceção em nosso sistema processual, no que diz respeito à decisão proferida pelo jurados, integrantes do Conselho de Sentença, no Tribunal do Júri. Os jurados decidem por íntima convicção, sendo impedidos de manifestar as razões que os levaram a adotar um ou outro caminho na decisão da causa.
8. Princípio da publicidade (art. 5º, LX e art. 93, IX. CF)
Princípio que determina que os atos judiciais devem ser públicos, afastando-se, via de regra, o sigilo, que caracteriza os procedimentos inquisitivos. Tal princípio é verdadeiro instrumento de controle social, pois, com a publicidade dos atos, a sociedade se garante contra eventual arbítrio do julgador.
A regra é que a publicidade seja ampla, porém, ela comporta exceções. Ela será restrita nos
casos em que a defesa da intimidade e o interesse social exigirem. Neste caso, a publicidade
dará somente em relação às partes e seus procuradores ou somente em relação a estes.
Princípio da duração razoável do processo (art. 5º, LXXVIII, CF)
Presente na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, foi adotado explicitamente pela
Constituição da República após a edição da Emenda Constitucional nº 45/04. Estabelece que
o Estado deve garantir a celeridade necessária para que o processo termine em “prazo
razoável”, ou seja, no tempo necessário para atingir a sua finalidade, sem constrangimentos desnecessários. Especial atenção deve ser dada ao processo onde o réu esteja preso cautelarmente, para que não perdure por muito tempo, pois, neste caso, além do natural constrangimento de responder a processo criminal por longo período, a liberdade cerceada pode trazer sérias conseqüências para o indivíduo, mormente se vier a ser absolvido.
A lei processual penal aplica-se a todas as infrações penais cometidas em território brasileiro,
sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional.
É o princípio locus regit actum, segundo o qual aos processos e julgamentos realizados no
território nacional, aplica-se a lei processual penal brasileira, em suma, aos processos penais
em trâmite no Brasil, aplicam-se as regras do CPP (art. 1º, CPP). Nestes termos, a lei processual penal brasileira só vale dentro dos limites territoriais brasileiros. Se o processo tiver tramitação no estrangeiro, ficará sujeito às leis processuais de lá. Se o crime, apesar de cometido no exterior, desenrola-se no Brasil, é a lei processual brasileira que o regula. Não se pode esquecer, ainda, que o Brasil aceitou se submeter ao Tribunal Penal Internacional, criado pelo Estatuto de Roma, em 1998. Sua incorporação se deu através do Decreto nº 4.388/2002, havendo disposição expressa também no art. 5º, § 4º, da Constituição da República. Embora num primeiro momento possa parecer haver conflito entre as duas jurisdições, tal conflito se dissolve quando se observam alguns aspectos da redação do Estatuto. Em primeiro lugar, não se trata de jurisdição estrangeira, mas sim de jurisdição internacional
à qual todos os signatários se submetem. Além disso, o TPI tem caráter subsidiário à
jurisdição interna de um país, isto é, nos casos dos crimes de sua competência, só deverá agir se o Estado-membro “não teve vontade” ou foi incapaz de levar adiante inquérito ou procedimento. São crimes da competência do TPI: genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão.
Quanto à aplicação no tempo, o processo penal adotou o princípio da aplicação imediata das normas processuais – tempus regit actum - sem efeito retroativo. É o que estampa o art. 2º do CPP: “A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo dos atos realizados sob a vigência da lei anterior”. Assim, a lei processual penal que entra em vigor passa a reger os atos processuais dali para a frente. Os atos praticados sob a égide da lei anterior são considerados válidos. Há, porém, uma ressalva, que diz respeito às normas mistas, ou seja, de caráter processual e material, conjuntamente. Se a norma contiver disposições de ordem material e processual, deve prevalecer a norma de caráter material, aplicando-se o art. 2º e parágrafo único do CP: se beneficiar o acusado, retroage. Se não beneficiar, não retroage. Se for o caso de retroagir, então, ela o fará por inteiro.
Nos prazos processuais – ao contrário dos prazos penais – não se computa o dia do começo e
inclui-se o do final, nos termos do art. 798, CPP. Se o prazo terminar em domingo ou feriado, será prorrogado até o dia útil imediato.
A regra no processo penal é iniciar a contagem do prazo da data da intimação e não da juntada
aos autos do respectivo mandado certificado pelo oficial de justiça. Conta-se também da data
da audiência, estando presente a parte e da data em que a parte manifestar ciência inequívoca de decisão ou despacho.
Podemos conceituar o inquérito policial como o procedimento administrativo de caráter investigatório, que tem por fim a colheita de elementos para subsidiar a propositura da ação penal. Extrai-se do conceito acima que o inquérito policial não é processo, mas sim procedimento administrativo informativo, que visa dar ao titular da ação penal elementos para a propositura da mesma. Por esse motivo não incidem as garantias aplicadas ao processo penal, tais como ampla defesa e contraditório. Pode-se falar, desta forma, que não há acusação e defesa no inquérito policial, há apenas uma apuração conduzida pelo órgão especializado para tal fim, tendo em vista a apuração de uma infração penal e sua autoria. Como o inquérito policial é mero procedimento informativo, eventuais vícios em sua elaboração não trazem nulidade à ação penal que vier a ser instaurada com base nele. Tais vícios podem macular o próprio ato, trazendo alguma conseqüência, como por exemplo, ter como inválido o reconhecimento de pessoa, realizado fora dos ditames legais, mas não invalidam o todo, muito menos a ação penal. Pela mesma razão o valor probatório do inquérito policial é relativo, ou seja, não é possível amparar condenação em provas colhidas exclusivamente no inquérito policial e não repetidas em Juízo. É evidente que determinadas provas, como as perícias em geral, via de regra, não apresentam a necessidade de serem repetidas na fase judicial, uma vez que são oficiais e possibilitam, além disso, eventual contestação no processo, caso o acusado queira apontar alguma irregularidade.
Para melhor compreensão da essência do inquérito policial, se faz necessária a análise de suas principais características. São elas:
2.1 Dispensabilidade
O inquérito policial, como peça informativa, é importante para o recolhimento de elementos que elucidem o crime, para a apuração do delito, mas isso não significa dizer que ele é indispensável. Caso o titular da ação penal já conte com elementos suficientes para formar sua opinio delicti, pode dispensar a instauração de inquérito e utilizar-se dos mencionados elementos para amparar a denúncia/queixa, consoante arts. 12, 27, 39, § 5º e 46, § 1º, CPP. Há crimes em que a prova acusatória é essencialmente documental, de modo que, de posse desses elementos, tem-se o fumus boni iuris necessário para a propositura da ação competente, sendo de todo dispensável a peça investigatória. É o que acontece, em muitos casos, nos crimes de apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, CP), onde o próprio sistema informatizado do órgão previdenciário fornece os dados a respeito de eventual não recolhimento da contribuição devida.
2.2 Forma escrita (art. 9º, CPP)
Como o inquérito policial é destinado à colheita de elementos para amparar a propositura de ação penal, não se pode concebê-lo sob a forma oral. Nos termos do Código, as peças devem ser, portanto, escritas de próprio punho, ou datilografadas (atualmente leia-se digitadas). Neste caso, impõe-se a rubrica da autoridade.
2.3 Sigilo (art. 20, CPP)
Nos termos do art. 20 do CPP, a autoridade assegurará o sigilo necessário à apuração dos fatos ou exigido pelo interesse da sociedade. A publicidade, quando se trata de investigação, pode ser prejudicial ao seu desenvolvimento.
O dispositivo não se aplica ao juiz e ao Ministério Público, já que aquele é quem analisa a
legalidade dos atos em última análise e este, na ação penal pública, é o titular da ação penal, destinatário das investigações policiais, além de exercer o controle externo da atividade
E quanto ao advogado? Está ele submetido à regra de sigilo ou não? A Lei nº 8.096/94, que
institui o Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil, dispõe no art. 7º, XIV, que o advogado poderá examinar em qualquer repartição policial, mesmo sem procuração, autos de flagrante e de IP, findos ou em andamento, ainda que conclusos à autoridade, podendo copiar peças e tomar apontamentos. Portanto, o advogado não se sujeita à regra do sigilo, mesmo que não esteja na posse de procuração outorgada pelo cliente. Caso seu direito de vista seja obstado, poderá impetrar mandado de segurança.
2.4 Indisponibilidade (art. 17, CPP)
Uma vez instaurado o inquérito policial, a autoridade policial não poderá arquivá-lo. Isso quer dizer que mesmo que nada seja apurado de consistente, não cabe ao Delegado de Polícia promover o arquivamento da peça; deve ele encerrá-lo formalmente, nos termos da lei. Encerradas as investigações, frutíferas ou infrutíferas, deve a autoridade policial promover o encaminhamento dos autos ao Juiz competente, que abrirá vista ao titular da ação penal para promovê-la ou não. É atribuição do titular requerer o arquivamento e do juiz determinar.
2.5 Forma inquisitorial
O inquérito policial tem natureza inquisitiva. Isso quer dizer que o procedimento se concentra
nas mãos de uma só autoridade e não significa que a autoridade possa agir arbitrariamente; há apenas concentração de atos em um único órgão.
Nos termos do art. 4º, CPP, e do art. 144, § 4º, CF, compete à Polícia Civil, chefiada por
delegados de carreira, a apuração das infrações penais e de sua autoria. No âmbito federal, tal incumbência é da Polícia Federal (art. 144, § 1º, CF). Assim, como já dito, não há que se falar em acusação no inquérito policial. Prova disso é o dispositivo de que não se poderá alegar suspeição da autoridade policial – art. 107, CPP. Mas nem por isso o delegado de polícia está desobrigado a pautar-se pela estrita legalidade na condução das investigações.
A despeito de não haver contraditório, podem o ofendido e o indiciado requerer diligências
(art. 14, CPP), que, por sua vez, podem ser indeferidas pela autoridade policial, salvo o exame
de corpo de delito (art. 184, CPP).
Trata-se do conhecimento, espontâneo ou provocado, por parte da autoridade policial, de fato que aparenta ser criminoso. É o que as pessoas, popularmente, conhecem como “queixa”. A doutrina classifica-a em:
3.1. de cognição direta ou imediata: é aquela onde a autoridade policial toma conhecimento
do fato criminoso por meio do exercício de suas funções, como por exemplo a descoberta de um cadáver. Nela se insere a denúncia anônima, também denominada apócrifa ou notitia criminis inqualificada;
3.2. de cognição indireta ou mediata: a autoridade policial toma conhecimento através de
algum ato jurídico, como comunicação de terceiro (art. 5º, § 3º, CPP – delatio criminis), requisição do juiz ou do Ministério Público (art. 5º, II, CPP), requisição do Ministro da Justiça, representação do ofendido (art. 5º, § 4º, CPP);
3.3. de cognição coercitiva: ocorre nos casos de prisão em flagrante (art. 8º, CPP).
Código de Processo Penal não estabelece um rito para a formalização do inquérito policial,
como o faz para o processo. Contudo, há previsão de como deve dar-se o início, quais providências devem ser tomadas pela autoridade policial e como se dá o encerramento. Comecemos pelas formas pelas quais pode ser iniciado a peça investigativa:
4.1 De ofício (art. 5º, I, CPP)
O inquérito policial, neste caso, é instaurado por ato da autoridade, sem que tenha havido
pedido de qualquer pessoa. Deve fazer isso quando tomar conhecimento da prática de alguma infração penal, seja no desenvolver se duas atividades, seja através da comunicação de alguém.
O ato pelo qual o delegado de polícia instaura o inquérito policial é chamado de portaria.
4.2 Por requisição do juiz ou do Ministério Público (art. 5º, II, CPP)
Por requisição deve-se entender ordem. Se for requisitada a instauração por juiz ou membro do Ministério Público, está o delegado obrigado a atender.
4.3 Por requerimento do ofendido (art. 5º, II, CPP, e § 4º)
É a possibilidade que a vítima tem de solicitar formalmente da autoridade a instauração do
inquérito policial. Em crime de ação pública, normalmente é ele é instaurado de ofício, mas,
se não for, pode a vítima requerer.
Já em caso de ação privada, a regra é só iniciar o inquérito se houver requerimento nesse
sentido, pois se trata de ação que fica à disposição da vontade da própria vítima.
O delegado de polícia poderá indeferir o pedido, cabendo, neste caso, recurso ao Chefe de
Polícia (Secretário de Segurança Pública ou Delegado Geral de Polícia).
4.4 Por representação do ofendido (art. 5º, § 4º, CPP)
Quando se tratar de crime que se apura mediante ação penal condicionada à representação do ofendido, somente com o oferecimento desta é que terá início a peça informativa.
4.5 Pelo auto de prisão em flagrante (art. 8º, CPP)
É a chamada instauração compulsória. Quando alguém é preso em flagrante, lavrado o auto
respectivo, considera-se instaurado o inquérito policial. Nem poderia ser diferente, pois, se há
indícios a ensejar a prisão de alguém, com mais razão há indicativos de crime a ser apurado.
5. Providências (art. 6.º, CPP)
Iniciado o inquérito, determina o Código de Processo Penal que o delegado de polícia proceda
a determinadas providências para apuração da infração penal. Tais medidas, como dito
anteriormente, não constituem um procedimento ou rito a ser seguido, pois não há verdadeiramente uma ordem para a realização das providências, mas apenas uma indicação do que deve constar na peça. O delegado deve:
5.1 Dirigir-se ao local dos fatos, providenciando para que não se alterem o estado e
conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais. É a chamada preservação do local do crime. Determina-se tal preservação para que não haja interferência de ninguém, de modo a prejudicar a perícia.
5.2 Apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos
criminais. Tais objetos devem acompanhar o inquérito policial enquanto interessarem à perícia (art. 11, CPP).
5.3 Colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias.
É a permissão dada pelo legislador para a produção de qualquer prova lícita, a fim de apurar o
delito, como requisitar documentos e ouvir tantas testemunhas quantas sejam necessárias para a investigação.
5.4 Ouvir o ofendido. A vítima, muitas vezes, pode trazer elementos importantes para a
apuração do fato, por isso deve ser ouvida.
Ouvir o indiciado. O interrogatório do indiciado deve ser realizado nos mesmos moldes
interrogatório judicial, no que couber. Por não se tratar de processo, não há necessidade de
observar certas regras, que dizem respeito ao contraditório, como a possibilidade das partes
dirigirem perguntas ao indiciado, mas seus direitos constitucionais devem ser garantidos, como o direito à presença de advogado de sua confiança e o direito ao silêncio (art. 5º, LXIII, CF).
5.6 Indiciamento. É a imputação a alguém, da prática de um ilícito penal, por haver razoáveis
indícios de sua autoria. Em outras palavras, é a declaração de que o sujeito é suspeito de ser o autor da infração penal.
São conseqüências do indiciamento:
Sujeito passa de suspeito, investigado ou averiguado a indiciado;
Anotação dos dados do inquérito na folha de antecedentes;
Interrogatório do indiciado;
Identificação do indiciado.
Código de Processo não trata, diretamente, do ato do indiciamento, mas estipula regras para
atos que fazem parte dele. Dentre elas, determina que, ao ser indiciado alguém, deva ser feita sua identificação criminal, isto é, identificação pelo método datiloscópico. Com o advento da nova Constituição da República, a regra passou a ser a da identificação civil (CF, 5º, LVIII).
A Lei nº 10.054/00, porém, regulamenta tal dispositivo e permite a identificação criminal
quando o agente:
a) Estiver indiciado pela prática de homicídio doloso, crimes contra o patrimônio cometidos
com violência ou grave ameaça, crime de receptação qualificada, crimes contra a liberdade sexual ou crime de falsificação de documento público;
b) Houver fundada suspeita de falsificação ou adulteração do documento de identidade;
c) O estado de conservação ou a distância temporal da expedição de documento apresentado
impossibilite a completa identificação dos caracteres essenciais;
d) Constar de registros policiais o uso de outros nomes ou diferentes qualificações;
e) Houver registro de extravio de documento de identidade;
f) O indiciado ou acusado não comprovar, em 48 horas, sua identificação civil. Tais medidas são necessárias para impedir que um inocente tenha seu nome indevidamente envolvido numa prática delitiva, principalmente quando tem seus documentos subtraídos ou extraviados.
5.7 Proceder à reprodução simulada dos fatos (art. 7º, CPP). É a chamada reconstituição do
crime e tem lugar quando não contrarie a moralidade e a ordem pública.
6. Conclusão (arts. 10, § 1º e 23, CPP)
O inquérito policial encerra-se com o relatório da autoridade policial. Nele, o delegado deve
descrever as providências adotadas durante o curso do procedimento, declarando formalmente o fim da fase investigatória. Deve-se levar em conta que o delegado de polícia não deve manifestar-se a respeito do mérito das provas colhidas, nenhuma opinião a respeito do fato deve ser expressa por ele. A Lei nº 11.343/06 (Lei de Drogas), criou uma exigência a mais para o relatório do inquérito policial
nos crimes a ela relativos: deverá ele conter justificativa do delegado de polícia a respeito dos motivos que o levaram à capitulação do crime. Relatado, o inquérito policial é enviado ao Juízo competente, que abrirá vistas ao Ministério Público, que pode:
a) Oferecer denúncia (no prazo de 5 dias, se o indiciado estiver preso, e 15 dias, se o indiciado estiver solto);
b) Requerer o retorno dos autos de inquérito à delegacia, para novas diligências (art. 16,
c) Requerer o arquivamento.
Se o Ministério Público requerer o arquivamento e o juiz determiná-lo, o art. 18 do Código estabelece que se a autoridade policial tiver notícias de novas provas, poderá retomar as investigações. A retomada do inquérito, frise-se, só tem lugar no surgimento de novas provas.
o que estabelece a Súmula 524 do STF.
despacho de arquivamento é irrecorrível, salvo nos crimes contra a economia popular, onde
cabe recurso de ofício (art. 7º, Lei nº 1.521/51). Caso o Ministério Público requeira o arquivamento e o juiz não concorde, determina o art. 28
do Código que este deverá enviar os autos ao Procurador Geral de Justiça, que por sua vez:
a) Oferecerá denúncia, ele próprio;
b) Designará outro promotor para oferecer a denúncia, caso em que este está obrigado a
c) Insistirá no arquivamento, caso em que o juiz está obrigado a aceitá-lo.
Na esfera federal, caso ocorra a hipótese do juiz não concordar com o pedido de arquivamento formulado pelo Procurador da República, os autos serão remetido à Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (art. 62, IV, da Lei Complementar nº 75/93).
7. Prazo (art. 10, CPP)
Se o indiciado estiver em liberdade, o prazo para conclusão do inquérito policial será de 30 dias. Se o caso for de difícil elucidação, poderá ser prorrogado, sempre que não estiver concluído dentro do prazo. Antes de conceder o prazo, o juiz deve ouvir o Ministério Público.
Se o indiciado estiver preso, o prazo para a conclusão do inquérito é de 10 dias. Em regra esse prazo é improrrogável, mas na maioria das vezes acaba sendo superado, em virtude das diligências indispensáveis à formação do inquérito policial. Neste caso, a peça deve ser remetida antes do prazo estabelecido e as diligências faltantes conduzidas à parte, para posteriormente serem anexadas aos autos. Na Justiça Federal o prazo para conclusão é de 15 dias para réu preso, podendo ser prorrogado por igual período, conforme disposto no art. 66, Lei nº 5.010/66.
A legislação especial traz ainda, alguns prazos diversos dos previstos no Código de Processo:
Quando surge para o Estado a possibilidade de exercer o poder punitivo, tal poder não pode ser exercido sem que haja comprovação dos fatos e sem declaração judicial, autorizando a punição, ou seja, julgado procedente a pretensão estatal. Para isso, exige-se a propositura de uma ação, pois, como é sabido, vigora no nosso direito a inércia da jurisdição, ela não pode atuar por si só, exige ser provocada, para se fazer atuar. Podemos, então, conceituar ação como o poder de movimentar o aparelho jurisdicional estatal, a fim de satisfazer uma pretensão. Ação penal, por sua vez, é o direito de pedir ao Estado-Juiz a aplicação do direito penal objetivo ao caso concreto. No direito brasileiro segue-se o critério subjetivo para classificação das ações penais, levando- se em conta seu titular, ou seja, classifica-se em razão de quem é parte legitima para exercer o direito de ação. Diante de tal critério, podemos classificar as ações no processo penal da seguinte forma:
- incondicionada
- à representação do ofendido
- à requisição do Ministro da Justiça
Privada - propriamente dita (ou exclusiva)
- personalíssima
- subsidiária da pública
É a regra em nosso direito. É de titularidade exclusiva do Ministério Público por força de dispositivo constitucional (art. 129, I, CF). É proposta sempre através de denúncia. Além dos princípios processuais penais gerais, que informam toda e qualquer ação penal,
conforme visto anteriormente, alguns princípios são específicos da ação penal pública. Dentre eles, os mais importantes são:
Segundo tal princípio, presentes os requisitos legais para a propositura da ação, o membro do Ministério Público deve denunciar, não podendo deixar de fazê-lo por critérios pessoais. Em outras palavras, o Ministério Público não tem poder discricionário, uma vez presentes as condições para início da ação; está obrigado a oferecer denúncia. Hoje temos uma exceção ao princípio da obrigatoriedade, que é a transação penal, prevista no art. 76 da Lei 9.099/95. Ela é aplicável aos crimes de menor potencial ofensivo (contravenções e crimes com pena máxima de até 2 anos) e o Ministério Público pode deixar de denunciar se o autor do fato aceitar a imposição imediata de pena não privativa de
liberdade. Portanto, aqui não vigora o princípio da obrigatoriedade puro, mas sim o princípio da discricionariedade regrada.
Se verificados os requisitos e oferecida a denúncia, o Ministério Público não poderá mais desistir da ação penal, nos termos do art. 42, CPP. Ao contrário de outros ramos processuais,
onde, fundamentalmente bens disponíveis estão em jogo, e a desistência da ação fica a critério da parte, isso não acontece no processo penal. Note-se que tal regra não impede que o membro do Ministério Público, no final da ação, peça a absolvição do réu. São momentos distintos. No início, verifica se há os requisitos para a instauração da ação, que se destina à apuração da verdade real. Se no final se convencer que o réu é inocente, poderá pedir a absolvição, sem que isso implique em desistência. Exceção é a regra disposta no art. 89 da Lei 9.099/95, que traz a suspensão condicional do processo. Nela, o Ministério Público, após oferecer a denúncia e verificado o preenchimento dos requisitos legais (acusado que não esteja sendo processado; não tenha sido condenado por outro crime e presença dos requisitos do art. 77, CP), propõe a suspensão do processo por um período de 2 a 4 anos, mediante a imposição de certas condições a serem cumpridas pelo acusado. c) Intranscendência Significa que a ação penal só pode ser proposta contra a pessoa a quem se imputa a prática do delito. Assim, não se admite venha a responder pela infração penal o responsável legal ou herdeiro.
Dentro da ação penal pública, que já dissemos ser a regra em nosso sistema processual, a regra, por seu turno, é ser ela incondicionada. Dessa forma, se a lei silenciar sobre qual modalidade se aplica a determinada infração, é ela incondicionada, isto é, não depende de nenhuma condição para o seu exercício pelo Ministério Público. Repita-se que, quando a ação for condicionada ou privada, a lei de direito material vai dizer expressamente. Se nada disser, ela é pública incondicionada.
É aquela cujo exercício se subordina a uma condição, qual seja, à representação do ofendido
ou à requisição do Ministro da Justiça.
É importante ressaltar que a ação penal continua sendo pública, exclusiva do Ministério
Público, apenas o seu exercício fica subordinado a uma das condições previstas na norma processual. Os casos em que se exige representação ou requisição estão sempre expressos na lei.
3.1 Condicionada à representação
Representação é a manifestação de vontade do ofendido ou de seu representante legal, no sentido de ser instaurada a ação penal. Exemplos de crimes que exigem representação no Código Penal: art. 129, caput (este por força do art. 88 da Lei nº 9.099/95); art. 130; art. 147. A natureza jurídica da representação é de condição de procedibilidade, ou seja, é condição para que o Ministério Público possa intentar a ação penal, possa proceder à ação, caso contrário, não poderá agir. Ela é verdadeira autorização para que o órgão ministerial possa propor a ação penal. Note-se que a representação oferecida pela vítima ou seu representante legal, não vincula o Ministério Público a oferecer denúncia. O promotor ou procurador deverá analisar se estão presentes os requisitos para propor a ação. A vontade do ofendido importa apenas para autorizar o Ministério Público a analisar as condições da ação.
O prazo para oferecimento da representação é de 6 meses, a contar da data em que o ofendido
vier a saber quem é o autor da infração penal, conforme art. 38, CPP. O não oferecimento da representação dentro do prazo acarreta a extinção da punibilidade pela decadência (art. 107, IV, CP). Assim, o prazo para representação é decadencial: não oferecida no prazo, terá o ofendido decaído de seu direito. Quanto à forma, não se exige nenhum rigor formal, basta a inequívoca manifestação de
vontade do ofendido, no sentido de ver o autor do fato processado. O art. 39 do CPP, porém, indica que ela deve conter todas as informações que possam servir à apuração do fato e da autoria. Ressalte-se que se o ofendido representar apenas um, dos vários autores, o Ministério Público poderá denunciar todos eles. Isso é o que se chama de eficácia objetiva da representação.
A titularidade do direito de representação é:
a) do ofendido, em regra;
b) do representante legal, se o ofendido tiver menos de 18 anos ou for doente mental;
c) do cônjuge, ascendente, descendente ou irmãos (CADI), se o ofendido for morto ou declarado ausente;
d) de um curador especial, no caso dos interesses do ofendido e do representante colidirem
ou se não houver representante. Na hipótese de nomeação de curador, ele não está obrigado
a representar, deve avaliar o interesse do assistido. No caso de ser pessoa jurídica a que deva oferecer representação, esta deve ser feita através da pessoa indicada no respectivo contrato social ou por seus diretores e sócios gerentes. A representação poderá ser dirigida ao juiz, ao representante do Ministério Público e à autoridade policial, nos termos do art. 39, caput. São os destinatários da representação. Uma vez oferecida a representação, é possível voltar atrás, ou seja, retratar-se? Sim, desde que a retratação seja realizada antes do oferecimento da denúncia, como estampado no art. 25, CPP. Não é possível após esse momento, pois a partir daí o Ministério Público já conta com a autorização de que necessitava e não pode dispor da ação, como visto anteriormente. Nunca é demais lembrar que se trata de ação pública, de titularidade do Ministério Público. Quanto à retratação da retratação, isto é, a possibilidade do ofendido representar, retratar-se
e voltar atrás novamente, desejando fazer valer a representação anteriormente oferecida,
silencia nosso Código de Processo. A jurisprudência, contudo, tem admitido-a, desde que dentro do prazo decadencial.
3.2 Condicionada à requisição do Ministro da Justiça
Também se trata aqui de condição de procedibilidade, uma vez que o Ministério Público não pode agir sem tal requisição. O fundamento para a existência de delitos que exijam a requisição é a de que em determinados casos o Ministro deve ponderar se vale a pena
processar o autos do fato, prevendo não só a repercussão jurídica, mas também política que pode dele advir. Exemplo: crime contra a honra do Presidente da República (art. 141, I, c.c. art. 145, parágrafo único do Código Penal).
O Código de Processo Penal silencia a respeito do prazo para a requisição. Entende-se, então,
que não há limite temporal para referida requisição, desde que, obviamente, ela seja oferecida antes do prazo prescricional do crime, pois, após este momento, está extinta a punibilidade do agente, faltando, assim, condição para o exercício da ação penal. No que diz respeito à retratação da requisição oferecida, isto é, a possibilidade do Ministro da Justiça voltar atrás em sua decisão, a maior parte da doutrina entende não ser possível, sob o
argumento de que tal conduta seria inadmissível em agente público que ocupa cargo de tamanha relevância, além da falta de previsão legal. Para a outra parte da doutrina, deve ser ela admitida, pois a conjuntura política pode mudar, de modo que seja interessante voltar atrás
na decisão anteriormente tomada, além do que o Código de Processo admite a interpretação
analógica, suprindo-se, assim, a falta de previsão legal. Pergunta interessante é: a requisição vincula o Ministério Público? Apesar de utilizar a lei o termo “requisição”, o que poderia supor “ordem”, ela não vincula a atuação do órgão
ministerial, que deve observar se estão presentes os requisitos legais para a propositura da ação penal, uma vez que goza de independência funcional e não está submetido a nenhuma ordem de hierarquia ao Ministério da Justiça.
É aquela iniciada por queixa, ou queixa-crime, em que o Estado, titular exclusivo do direito
de punir, transfere a legitimidade para a propositura da ação penal à vítima ou a seu representante legal. Note-se que o jus puniendi não deixa de pertencer ao Estado, apenas a
iniciativa da ação foi transferida para o particular.
O fundamento de haver previsão da ação penal privada em nosso ordenamento, uma vez que o
Direito Penal lida com bens via de regra indisponíveis, é evitar que, em alguns casos, o
processo cause para o ofendido mal maior que a impunidade do criminoso. É o chamado strepitus iudicii, ou seja, o escândalo do processo. Assim, o interesse da vítima se sobrepõe ao interesse público. É o caso, em princípio, dos crimes contra a liberdade sexual, como o estupro e o atentado violento ao pudor (art.s 213 e 214 do Código Penal), bem como os crimes contra a honra (arts. 138 a 145 do Código Penal). Na ação penal privada, as partes têm denominação diferente do que se costuma ter numa ação penal pública. A nomenclatura autor e réu é substituída por querelante (ofendido ou seu representante legal) e querelado (autor do crime). Lembre-se que na ação penal privada o Ministério Público não é parte, mas sempre atuará na condição de custos legis, ou seja, fiscal
Assim como na ação penal pública, conta a ação penal privada com alguns princípios informadores específicos. São eles:
O ofendido tem a faculdade de propor ou não a ação, de acordo com sua conveniência. Como dito, a lei outorgou ao ofendido a iniciativa da ação penal nos crimes em que a intimidade
possa ser de alguma atingida. Portanto, fica a critério do ofendido decidir se a ação deve ser intentada ou não. Ele é quem deve considerar oportuna tal medida.
É decorrência do princípio da oportunidade. Da mesma forma que o ofendido pode decidir se
propõe ou não a ação, pode dela também desistir depois de intentada. Se pode o mais, que é
propor a ação, também pode o menos, ou seja, desistir de nela prosseguir. Para tanto, como veremos, tem o ofendido os institutos do perdão e da perempção a seu dispor.
ofendido pode escolher entre propor ou não a ação, mas não pode escolher quem irá
processar, no caso de mais de um autor do delito. Ou ele processa todos ou não processa ninguém, já que a queixa contra um se estende aos outros, nos termos do art. 48, CPP. Se escolher um só, o Ministério Público, segundo entendimento majoritário, não poderá aditar a queixa. Se o ofendido renunciar a um, a renúncia se estende a todos, nos termos do art. 49, CPP.
A titularidade do direito de queixa é a mesma para o exercício do direito de representação. É
c) do cônjuge, ascendente, descendente ou irmãos (CADI), se o ofendido for morto ou
declarado ausente;
ou se não houver representante. Na hipótese de nomeação de curador, ele não está obrigado a representar, deve avaliar o interesse do assistido. No caso da queixa ser oferecida por pessoa jurídica, deve ser feita através da pessoa indicada no respectivo contrato social ou por seus diretores e sócios gerentes.
O prazo para oferecimento da queixa é de 6 meses, a contar da data em que o ofendido vier a
saber quem é o autor da infração penal. Estão presentes na ação penal privada, alguns institutos que ditam suas regras de conveniência
para propô-la ou dela desistir. São eles: a decadência, a perempção, a renúncia e o perdão. Vejamos um a um.
A decadência consiste na perda do direito de ação pelo decurso do prazo sem o oferecimento
da queixa (vale também para a representação). É ela causa extintiva da punibilidade do agente
e somente opera antes do início da ação, obviamente. O prazo decadencial não se interrompe e não se suspende, nem mesmo pela instauração de inquérito policial.
A perempção é uma verdadeira sanção imposta ao querelante, em razão de sua inércia ou
negligência processual. Implica na perda do direito de prosseguir na ação, que é extinta, salvo na ação penal privada subsidiária da pública, em que a titularidade volta para o Ministério Público. Ocorre após o início da ação penal, nas seguintes hipóteses (art. 60, CPP):
a) quando o querelante deixar de promover o andamento processual durante 30 dias
b) quando falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em
juízo, para prosseguir no processo, dentro de 60 dias, qualquer pessoa a que, couber fazê-lo (CADI), ressalvado o disposto no art. 36, CPP;
c) quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do
processo a que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais;
A renúncia é definida como ato pelo qual o ofendido abre mão do direito de oferecer queixa.
É ato unilateral e que ocorre, com resta claro, somente antes da ação. Pode ser expressa ou
tácita, quando se pratica ato incompatível com a vontade de propor a ação. Como visto anteriormente, a renúncia em relação a um dos autores do crime se estende aos demais (art.
49, CPP).
Ressalte-se que na sistemática dos Juizados Especiais Criminais (Lei nº 9.099/95), a composição civil implica em renúncia ao direito de queixa e representação. Aqui há exceção à indivisibilidade da renúncia, pois somente quem compôs com o autor do fato é que renuncia ao exercício da ação.
Já o perdão do ofendido é o ato pelo qual o querelante desiste de prosseguir na ação penal,
desculpando o querelado pela prática do delito. Somente pode ocorrer antes do trânsito em julgado da decisão. Trata-se de ato bilateral, isto é, que depende da aceitação do querelado. O perdão concedido a um dos querelados se estende aos demais, mas só gera efeitos para aqueles que o aceitarem. Pode ser processual ou extraprocessual. Na primeira hipótese,
oferecido o perdão, o querelado é intimado para se manifestar em 3 dias a respeito da aceitação ou não do perdão. No silêncio, considerar-se-á aceito.
4.1 Ação penal privada propriamente dita (ou exclusiva)
É aquela em que se aplica tudo o quanto foi dito até agora a respeito da ação penal privada,
sem nenhuma particularidade. As especificidades ficam reservadas para as outras espécies de
ações privadas, como veremos a seguir.
4.2 Ação penal privada personalíssima
É aquela que só pode ser proposta pelo ofendido, vedada até mesmo a propositura por seu
representante legal, inexistindo, também, sucessão por morte ou ausência. Se o ofendido morre no decorrer do processo, extingue-se a punibilidade do agente. Esta é a única particularidade desta modalidade de ação. Se o ofendido for menor de 18 anos, o prazo decadencial só passará a correr a partir do dia em que completar 18 anos. Isso porque ele está impedido de exercer seu direito, assim, o prazo decadencial não corre. Como exemplo, temos o crime de Induzimento a erro essencial e ocultação de impedimento – art. 236, CP.
a proposta pelo ofendido ou por seu representante legal, em crimes de ação pública, quando
Ministério Público deixar de fazê-lo no prazo legal (art. 5º, LIX, CF e art. 29, CPP).
Note-se que esta ação só tem lugar no caso de inércia do Ministério Público, jamais em caso
de arquivamento dos autos de inquérito. Se o órgão ministerial requereu o arquivamento do inquérito policial por entender não existir elementos para propositura da ação penal, não há que se falar em ação penal subsidiária. Ele não foi inerte, ele agiu. Nesta modalidade de ação, o Ministério Público apenas atuará como fiscal da lei e não como parte, intervindo em todos os atos do processo, lançando seu parecer. Ele poderá, nessa função, aditar a queixa, se for o caso de reputá-la incompleta, ou, até mesmo, repudiar a queixa inepta, oferecendo denúncia substitutiva. A decisão, em todos os casos, cabe ao magistrado. Como o Ministério Público era o titular do direito de ação e perdeu-o para o ofendido, qualquer ato de negligência processual deste fará com que o processo seja retomado por aquele. Se o ofendido não comparecer a alguma audiência ou não atender a algum despacho, por exemplo, ensejará a retomada da ação pelo seu titular originário.
O prazo para intentar essa ação é de 6 meses, a contar da data do escoamento do prazo para o
Ministério Público oferecer a denúncia, nos termos do art. 29, CPP.
São as peças iniciais da ação penal, uma da ação penal pública, a denúncia, e outra da ação penal privada, a queixa. Assim como no Código de Processo Civil, o Código de Processo Penal também traz o rol dos requisitos da petição inicial de uma ação penal, conforme veremos abaixo.
1. Requisitos (art. 41, CPP)
1.1 Descrição do fato em todas as suas circunstâncias
A descrição na peça inicial deve ser exata, de modo a possibilitar a perfeita identificação da
acusação para que seja exercido o direito de defesa. Deve-se narrar – de foram concisa – tudo
o que se passou e na forma em que se passou, de modo que o julgador possa vislumbrar a
possibilidade de ter existido crime, bem como a possibilidade de ser o denunciado seu autor. Há autores que admitem a denúncia alternativa, isto é, narrar 2 condutas e pedir que se o juiz entender que não houve uma, que condene pela outra (por exemplo: se não provar o roubo, que se condene pela receptação), mas a maioria da doutrina e da jurisprudência entendem que tal não é possível, pois dificulta e até mesmo inviabiliza a defesa do acusado.
1.2 Qualificação ou identificação do acusado
Se não for possível qualificar o acusado, isto é, apontar sua completa individualização, deve-
se indicar os dados que possibilitem sua identificação. Tratam-se aqui de dados físicos, que permitam ao menos saber quem é o denunciado, muito embora não se saiba sua qualificação. Isso porque não se pode imputar vagamente a prática de um crime a alguém de quem não se tem a mínima certeza de quem seja. Caso não seja possível colher o menor elemento identificador, deve-se rejeitar a peça.
1.3 Classificação jurídica do fato
É necessário apontar qual a previsão legal para a conduta que é narrada na inicial. Isso porque
não se admite o recebimento de denúncia ou queixa de fato que não é considerado crime pela lei penal. Assim, ainda que não seja uma classificação imodificável, o correspondente abstrato ao fato concreto deve ser trazido na peça inicial.
1.4 Rol de testemunhas
A apresentação do rol de testemunhas aparece como requisito, mas é óbvio que ele só será
exigido se houver testemunha a ser inquirida. Havendo, este é o momento de arrolar, sob pena
Note-se que para a queixa, outros requisitos ainda são exigidos, no que diz respeito à procuração outorgada ao advogado, nos termos do art. 44 do CPP. Deve o instrumento de mandato conter poderes especiais para promover a ação, além de fazer menção ao fato criminoso e indicar o nome do querelado (há erro de redação no CPP, que traz, erroneamente, a palavra querelante).
prazo para oferecimento da denúncia é de 15 dias se o denunciado estiver solto e 5 dias se o
denunciado estiver preso. Leis especiais trazem prazos diversos, que serão:
de 2 dias, nos crimes contra a economia popular (Lei nº 1.521/51);
de 10 dias, nos crimes eleitorais (Lei nº 4.737/65);
de 48 horas, nos crimes de abuso de autoridade (Lei nº 4.898/65);
de 10 dias, nos crimes de imprensa (Lei nº 5.250/67)
de 10 dias, nos crimes de tráfico de drogas e assemelhados (Lei nº 11.343/06).
para a queixa, o prazo é de 6 meses, a contar da data do conhecimento da autoria do delito,
ou do término do prazo do Ministério Público, dependendo da modalidade de ação, como se
Causas de rejeição da denúncia ou queixa (art. 43)
Código de Processo Penal estampa as causas que devem justificar a rejeição da peça inicial.
Será rejeitada a denúncia ou queixa quando:
3.1 Fato narrado evidentemente não constituir crime
Muito embora não se deva fazer exame aprofundado das provas no momento do recebimento
da denúncia ou queixa, elas devem ser rejeitadas se o fato evidentemente não constituir crime.
A fase, aqui, é de mera admissibilidade da acusação.
3.2 Já estiver extinta a punibilidade pela prescrição ou outra causa
Se estiver extinta a punibilidade do agente, há falta de interesse de agir para a propositura da ação penal, devendo a denúncia ou queixa ser rejeitada.
3.3 For manifesta a ilegitimidade de parte ou quando faltar outra condição da ação
Aqui deve se verificar se a parte é quem realmente deve figurar no respectivo pólo da ação penal. Pode haver ilegitimidade ativa, quando, por exemplo, o Ministério Público oferecer denúncia em caso de ação penal privada. Pode haver ilegitimidade passiva, quando, por exemplo, um menor de 18 anos é denunciado. Qualquer outra condição da ação que não seja observada autoriza a rejeição, como por exemplo, no caso de oferecimento de denúncia pelo Ministério Público sem que tenha havido representação da vítima, quando a lei a exige. Nesses casos, a ação poderá ser proposta novamente, desde que sanada a inobservância da condição.
Da decisão que rejeita denúncia ou queixa cabe recurso em sentido estrito, no prazo de 5 dias (art. 581, CPP). Caso se trate de infração de menor potencial ofensivo, sujeita aos Juizados Especiais Criminais (Lei nº 9.099/95), o recurso cabível é a apelação, no prazo de 10 dias.
Já da decisão que recebe a denúncia não cabe recurso. Na hipótese, é possível a impetração de
habeas corpus, caso esteja configurado constrangimento ilegal.
Há exceção, no caso de recebimento, que diz respeito à Lei nº 5.250/67, art. 44, § 2º, segunda parte, (Lei de Imprensa), onde se está previsto o recurso em sentido estrito para combater o recebimento da peça inicial.
CAPÍTULO VII – AÇÃO CIVIL EX DELICTO (arts. 63 a 68)
As responsabilidades civil e criminal são independentes. Um ilícito civil pode ser também
ilícito penal e o inverso ocorre na grande maioria das vezes. Porém, para evitar conflitos entre decisões das duas esferas, o legislador impôs regras buscando a interação delas.
O art. 91, I, do Código Penal dispõe que a condenação torna certa a obrigação de reparar o
dano. O Código Civil, no art. 927, dispõe que o ato ilícito será indenizado.
Para harmonizar os dispositivos, prevê o art. 63 do CPP que a sentença penal condenatória transitada em julgado constitui título executivo judicial a ser liquidada e executada no juízo cível. Assim o ofendido pode obter a reparação do prejuízo, sem ter que propor ação cível de conhecimento, basta promover a liquidação da sentença.
A despeito dessa previsão, como dito, a responsabilidade civil independe da criminal, de
modo que é possível que corram paralelamente uma ação penal e uma ação civil sobre o mesmo fato (art. 64, CPP). Assim, o ofendido não precisa esperar, se desejar, a conclusão da ação penal, pode ingressar com ação de reparação de dano no juízo cível. Nesse caso, o juiz, para evitar decisões contraditórias, pode suspender o curso da ação cível, por até um ano (art. 64, parágrafo único, CPP e art. 265, IV, a e § 5º, CPC), sendo recomendável que prorrogue a suspensão, a despeito do prazo estipulado, até a sentença penal. Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer que o agente praticou o fato acobertado por uma das causas excludentes de ilicitude, pois esses atos são penalmente e civilmente lícitos. Também a sentença absolutória que reconheça a inexistência material do fato impede a reparação civil. Outras decisões do juízo penal não têm o condão de impedir a reparação civil: o despacho de arquivamento do inquérito policial, a absolvição por não estar provada a existência do fato ou
a autoria delitiva, a absolvição por não ser o fato infração penal, a absolvição por insuficiência
de provas e a declaração de extinção da punibilidade.
Têm a titularidade para a propositura da ação cível o ofendido, seu representante legal ou
seus herdeiros. Porém, se o titular do direito for pobre, pode requerer ao MP, para que este proponha, nos termos do art. 68, CPP. Observe-se que esta regra tem sido abrandada pelo Supremo Tribunal Federal, que tem adotado o entendimento de que o órgão ministerial só deve assumir a titularidade da ação civil onde não houver Defensoria Pública, uma vez que este órgão é o destinado a patrocinar os interesses de pessoas financeiramente hipossuficientes.
É importante ressaltar que só se pode executar quem foi parte na ação penal, ou seja, o
condenado. Há quem sustente, porém, que o responsável civil pode figurar no pólo passivo da ação. Quanto à competência, o ofendido pode propor a ação no foro de seu domicílio, no do local dos fatos (art. 100, CPC) ou no do domicílio do réu (regra geral, contida no art. 94, CPC).
Antes que possamos falar de competência, objeto principal deste capítulo, se faz necessário lembrar alguns aspectos relativos à jurisdição. Jurisdição é o poder-dever do Estado de aplicar a norma em abstrato ao caso concreto. Só o Estado, na função de Estado-Juiz, é detentor do poder jurisdicional, daí que, além de um poder é também um dever, já que o monopólio obriga-o a agir, quando um conflito lhe é apresentado. Em outras palavras, podemos dizer que a jurisdição é o poder de julgar um caso concreto, de acordo com o ordenamento jurídico, por meio do processo. Lembremos que a palavra jurisdição vem do latim juris (direito) e dictio (dizer), significando então o “poder de dizer o direito”. São características do Poder Jurisdicional:
1.1 inércia: o órgão jurisdicional não atua sem provocação; deve ser provocado através de
1.2 substitutividade: o órgão jurisdicional atua em nome das partes, uma vez que monopoliza
a jurisdição;
1.3 definitividade: com a decisão final no processo, a prestação jurisdicional torna-se, em
regra, imutável.
A jurisdição, como poder do Estado, é una. Porém, seria absolutamente impossível que apenas um juiz julgasse todas as causas levadas ao Estado, buscando solução. Diante disso, a lei distribui a jurisdição dentre os diversos órgãos do Poder Judiciário. Surge aí, então, a competência.
Competência é a medida e o limite da jurisdição. É a verdadeira delimitação do poder jurisdicional; é a medida da extensão do poder de julgar. É a porção de jurisdição que cabe a cada órgão do Poder Judiciário, na atividade de aplicar o Direito ao caso concreto.
2.1 Espécies de competência
Pode-se estabelecer e fixar as regras de competência a partir de 3 aspectos:
1) ratione materiae: estabelecida em razão da natureza do crime; 2) ratione personae: estabelecida de acordo com a função ou cargo do acusado; 3) ratione loci: estabelecida de acordo com o local em que foi praticado ou consumou-se o delito, ou do local da residência do autor.
2.2 Competência em razão da matéria/natureza da infração
Como forma de se chegar à fixação da competência no processo penal, podemos definir, num
primeiro momento, o juízo competente para julgar o caso concreto em razão da natureza da infração penal. Determinadas matérias foram eleitas pelo Constituinte para serem julgadas por jurisdições especializadas, isto é, por justiça criada para julgar apenas certas modalidades de infração. As matérias restantes, cabem à jurisdição comum. São jurisdições especiais:
1. Justiça Eleitoral (arts. 118 a 121, CF), competente para julgar infrações penais eleitorais e
conexas. Exemplo: votar em lugar de outrem (art. 309, Lei nº 4.737/65) e corrupção ativa (art.
333, CP).
2. Justiça Militar (art. 124, CF), competente para julgar crimes militares, assim definidos em
lei. A Justiça Militar não julga crimes conexos. Exemplo: recusa de obediência (art. 6, CPM). É importante destacar que o crime de abuso de autoridade (Lei nº 4.898/65) não é julgado
pela Justiça Militar; seu julgamento fica a cargo da Justiça Comum. Da mesma forma o militar que está em folga ou pratica crime comum, seu julgamento será perante a Justiça Comum. São jurisdições comuns:
1. Justiça Federal (art. 109, IV, CF), competente para julgar:
a) crimes políticos.
São os de motivação política e contra a estrutura política do Estado. Sustenta-se que estão descritos na Lei de Segurança Nacional (Lei nº 7.170/83);
b) infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União, suas
entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as contravenções. Exemplo: crime de descaminho (art. 334, CP), onde se suprime tributo de competência federal; crime de apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, CP), onde o agente se apropria indevidamente de verba federal. Alguns apontamentos são necessários aqui. Se o crime for praticado contra servidor público federal no exercício da função, a competência é da Justiça Federal. Já se for praticado em detrimento de Sociedade de Economia Mista, a competência será da Justiça Estadual, pois a
Constituição da República não se referiu a ela. É esse o entendimento expresso na Súmula 42 do Superior Tribunal de Justiça. Como principais exemplos desse tipo de sociedade, temos a Petrobras e o Banco do Brasil. Ressalte-se que as contravenções penais também não são julgadas pela Justiça Federal. A respeito, foi editada a Súmula 38 do Superior Tribunal de Justiça.
c) crimes previstos em tratados ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no
País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente. Exemplo: tráfico internacional de entorpecentes (Convenção de Viena – Dec. nº 1.54/91). d) casos de grave violação de direitos humanos, se houver necessidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais sobre direitos humanos dos quais o Brasil faça parte. Inserido pela Emenda Constitucional nº 45/04. Se o procedimento foi iniciado na Justiça Estadual o Procurador Geral da República deverá suscitar o deslocamento de competência ao Superior Tribunal de Justiça. e) crimes contra a organização do trabalho. Desde que sejam contra a organização geral do trabalho ou os direitos dos trabalhadores coletivamente considerados.
f) crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira, quando determinados em lei. Não basta que sejam crimes dessa natureza, é preciso que exista previsão legal no sentido de estabelecer a competência da Justiça Federal. g) crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves. Foro competente: o de partida ou chegada, dependendo de o navio ou avião afasta-se ou aproxima-se do Brasil. h) crimes de ingresso e permanência irregular de estrangeiro. Estão previstos na Lei nº 6.815/80. 2. Justiça Estadual (art. 125, CF), competente para julgar tudo que não for da competência das jurisdições especial e comum federal. Sua competência é residual. Duas observações:
a) os crimes dolosos contra a vida, são de competência do Tribunal do Júri, previsto no inciso
XXXVIII, “d”, do art. 5º da CF. O Júri poderá ser da jurisdição comum estadual ou federal, dependendo do caso. b) Os Juizados Especiais Criminais são competentes para julgar as infrações de menor potencial ofensivo, ou seja, aquelas que tenham pena máxima não superior a 2 anos. Podem eles também ser da esfera federal ou da esfera estadual. Se a infração de sua competência for praticada em conexão com da Justiça Comum, será julgado por esta, aplicando-se a transação e a composição civil (alteração efetuada pela Lei nº
2.3 Competência em razão da pessoa
Fixada a competência em razão da matéria, cumpre verificar se a pessoa ocupa cargo ou
função pública que justifique, em razão de sua relevância, o julgamento por tribunal. É a chamada competência por prerrogativa de função, ou, como muitos denominam, foro privilegiado. Enumeraremos a seguir, a competência dos cada tribunal do País, para o julgamento de infrações penais comuns e os cargos merecedores do foro especial:
a) Supremo Tribunal Federal (art. 102, I, b e c, CF): Presidente da República, Vice- presidente, Deputados Federais, Senadores, Procurador Geral da República, Advogado Geral da União, Ministros de Estado, Comandantes das Forças Armadas, Ministros dos Tribunais Superiores, Membros do Tribunal de Contas da União, Chefes de missão diplomática de caráter permanente;
b) Superior Tribunal de Justiça (art. 105, I, a, CF): Governadores dos Estados e do Distrito
Federal, Desembargadores, Membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, do Tribunal regional Federal, do Tribunal Regional Eleitora, do Tribunal regional do
Trabalho, do Tribunal de Contas do Município, Membros do Ministério Público da União que oficiem nos Tribunais;
c) Tribunal Regional Federal (art. 108, I, CF): Juízes Federais, Juízes do Trabalho, Juízes
Auditores, Membros do Ministério Público Federal que oficiem em Primeira Instância, Prefeitos (para crimes da esfera federal);
d) Tribunal de Justiça (art. 29, X; art. 96, III, CF; Constituições Estaduais): Juízes Estaduais,
Membros do Ministério Público Estadual, Vice-Governador, Secretários de Estado, Deputados Estaduais, Procurador-Geral de Justiça, Procurador-Geral do Estado, Defensor Público Geral, Prefeitos.
Note-se que em relação aos Prefeitos, eles devem ser julgados sempre em Segunda Instância e de acordo com a matéria. Se forem acusado da prática de crimes da esfera federal, serão julgados pelo TRF, se da esfera estadual, pelo TJ. Se se tratar de crime eleitoral, a competência desloca-se para o Tribunal Regional Eleitoral. É o que estabelece a Súmula 702 do Supremo Tribunal Federal. Algumas observações a respeito da competência pela prerrogativa de função:
1) se houver conflito entre os critérios de pessoa e matéria, como júri e foro por prerrogativa
de função, resolve-se em favor deste, se ambos estiverem previstos na Constituição Federal. Se a competência em razão da pessoa estiver definida em Constituição Estadual (Deputados Estaduais em São Paulo, por exemplo), prevalece aquela definida na Constituição da República. 2) Juiz de Direito e Promotor de Justiça sempre serão julgados pelo Tribunal de Justiça do estado ao qual pertencem, independentemente de onde tenham cometido o crime.
3) Em caso de concurso de agentes, todos serão julgados pelo foro privilegiado (Súmula 704,
2.4 Competência em razão do lugar
Após verificar as regras de competência que levam em conta a natureza da infração e a qualidade do cargo que determinadas pessoas ocupam, cumpre estabelecer como se dá a competência, levando-se em consideração o lugar em que se deu o crime ou em que reside o acusado.
a) Lugar do crime As regras estampadas no art. 70 do Código de Processo Penal, estabelecem que a competência será fixada:
a) pelo lugar em que se consumar a infração.
Alguns crimes, pelas suas peculiaridades, podem suscitar alguma dúvida, por isso a jurisprudência cuidou de estabelecer algumas regras:
- no crime de estelionato pela emissão de cheque sem fundos, o foro competente será o do
local onde houve a recusa no pagamento, pois aí é que se consuma a infração (Súmula 521, STF e Súmula 244, STJ);
- no crime de estelionato mediante falsificação de cheque, será competente o foro do local onde houve vantagem, isto é, onde o cheque foi transmitido;
- no crime de falso testemunho prestado em carta precatória, a competência será do juízo
deprecado;
- no crime de homicídio, na hipótese se ser a vítima alvejada numa cidade ser conduzida a
outra e ali morrer, deve-se fixar a competência pelo local da ação, ou seja, onde foi atingida.
Tal regra se justifica pela facilitação da colheita da prova, tendo em vista o julgamento pelo Tribunal do Júri.
b) Em caso de crime iniciado no Brasil e consumado fora dele, será competente o local onde
foi praticado o último ato de execução, dentro do território nacional. (art. 70, § 1º, CPP);
c) Caso o último ato de execução tenha sido realizado fora do Brasil, será competente o foro
do local em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou deveria produzir seu
resultado (art. 70, § 2º, CPP);
d) No caso de tentativa, será o local onde se praticou o último ato de execução (art. 70, caput,
e) Se o crime ocorrer na divisa entre comarcas ou se for incerto o limite entre elas, a
competência de fixará por prevenção (art. 70, § 3º, CPP); f) Em caso de crime continuado ou permanente, atravessando duas ou mais jurisdições, a competência também será firmada pela prevenção (art. 71, CPP). A prevenção, nos termos do art. 83, CPP, ocorre toda vez que, concorrendo dois ou mais juízes igualmente competentes ou com jurisdição cumulativa, em deles tiver antecedido aos outros na prática de algum ato do processo ou de medida a este relativa, ainda que anterior ao oferecimento da denúncia ou queixa.
b) Domicílio do acusado Não sendo conhecido o lugar da infração, competente será o lugar do domicílio do réu (art. 72, caput, CPP). Note-se que tal regra tem lugar apenas quando não se consegue apurar onde
o crime aconteceu. Exemplo: crime de furto que acontece no interior de um ônibus que vai de
SP ao PR e somente é descoberto quando se chega ao destino. Se o réu tiver mais de um domicílio, será fixada a competência pela prevenção (art. 72, § 1º,
CPP). Se não tiver residência certa ou for ignorado seu paradeiro, será competente o juiz que primeiro tomar conhecimento do fato. (art. 72, § 2º, CPP). No caso de ação exclusiva privada,
o querelante pode preferir promover a ação no foro de domicílio do réu, ainda que conhecido
o local da infração (art. 73, CPP). Algumas observações, a respeito da competência em razão do lugar:
1) No processo dos crimes praticados fora do território brasileiro, será competente o juízo da
Capital do Estado onde houver por último residido o acusado. Se nunca residiu no Brasil, será competente a Capital da República (art. 88, CPP).
2) Crimes cometidos a bordo de embarcação em águas territoriais brasileiras, bem como a
bordo de embarcação nacional em alto-mar, serão julgados pela justiça do primeiro porto em
que tocar a embarcação após o crime ou pela do último que tiver tocado, quando se afastar do país (art. 89, CPP).
3) Crimes cometidos a bordo de aeronaves em espaço aéreo brasileiro, bem como a bordo de
aeronave nacional em alto-mar, serão julgados pela justiça da comarca onde se der o pouso após o crime ou pela da comarca de onde houver partido a aeronave (art. 90, CPP).
4) Se incerta e se não se determinar pelas duas hipóteses anteriores, a competência será
firmada pela prevenção (art. 91, CPP).
São causas de alteração da competência, em virtude da relação existente entre duas condutas, que fazem com que estas sejam reunidas num só processo perante um só juízo, chamado de juízo prevalente.
Para haver conexão deve haver um vínculo entre duas ou mais infrações penais. Ocorre quando duas ou mais infrações estão entrelaçadas, apresentam nexo entre si. Espécies:
pessoas reunidas ocasionalmente. Exemplo: pessoas que saqueiam, ao mesmo tempo, loja de eletrodomésticos (vários crimes de furto);
subjetivo), ainda que em tempo e locais diversos. Exemplo: vários agentes, membros de facção criminosa, planejam e praticam homicídios, roubos, incêndios em várias localidades e
seja, pela própria ligação existente entre uma e outra, e não em razão dos sujeitos que as praticam. Pode ser:
3) Conexão probatória/instrumental (art. 76, III, CPP): ocorre quando a prova de uma infração influi na prova de outra. Exemplo: prova do crime de furto em relação ao de
em concurso uma mesma infração. É a co-autoria ou participação em um único crime. Exemplo: 3 pessoas que praticam um roubo em concurso.
(art. 70, CP), incluindo aberratio ictus (art. 70, CP) e aberratio criminis (art. 74, CP). Exemplo: agente que dirige imprudentemente seu veículo e vem a atropelar uma pessoa e matar outra.
Quando houver a alteração de competência em razão da conexão ou continência, como dito, as causas serão reunidas num só processo. Será preciso, então, saber qual o foro competente para julgá-lo. O Código de Processo Penal traz as regras em seu art. 78:
a) no concurso entre júri e outro órgão da jurisdição comum: prevalece a competência do júri.
Exemplo: homicídio e estupro conexos, são julgados pelo júri;
b) no concurso entre jurisdições da mesma categoria, prevalece:
- a do lugar da infração de pena mais grave. Exemplo: furto e estelionato, prevalece o
estelionato, pela pena maior (1 a 5 anos de reclusão);
- se de igual gravidade, a do lugar em que houver ocorrido o maior número de infrações.
Exemplo: um agente furta de uma loja na cidade de São Paulo, de uma vez, 3 automóveis. Estes são distribuídos a 3 receptadores na cidade do Rio de Janeiro. O foro prevalente será o do Rio de Janeiro, em virtude de lá ter ocorrido 3 receptações;
- a prevenção, se penas idênticas e em igual número. Exemplo: um único furto e uma única receptação;
c) no concurso entre jurisdições de categorias diversas, prevalece a de maior graduação.
Exemplo: prefeito agindo em concurso com outras pessoas, todos serão julgados pelo tribunal correspondente;
d) no concurso entre jurisdição comum e especial, prevalece a especial. Exemplo: crime
eleitoral e corrupção ativa, serão julgados pela Justiça Eleitoral. Se, todavia, ambas as
definições de competência estiverem previstas na Constituição da República, como acontece
com a Justiça Eleitoral e o Tribunal do Júri, o entendimento majoritário é que deve haver separação de processos.
e) no concurso entre Justiça Federal e Justiça Estadual, prevalece a Justiça Federal (Súmula
122, STJ). Estabelece o art. 82 do Código de Processo Penal que, se por qualquer motivo estiverem correndo 2 processos diferentes, onde deveria haver reunião por conexão ou continência, o juiz do foro prevalente deverá avocar o outro processo (art.82, CPP).
Mesmo sendo hipóteses de conexão ou continência, o Código prevê casos em que se deva dar
a separação dos processos. Essa separação pode ser obrigatória ou facultativa.
1) obrigatória (art. 79, CPP):
a) no concurso entre as jurisdições comum e militar;
b) no concurso entre as jurisdições comum e da infância e juventude;
c) no caso de superveniência de doença mental a um dos co-réus;
d) se houver co-réu que não possa ser julgado a revelia. (Exemplo: suspensão do processo, art.
366, CPP);
e) se não houver coincidência na escolha de jurados, no caso de 2 ou mais réus com
defensores diversos, no plenário do júri (art. 461, CPP).
2) facultativa (art. 80, CPP):
a) quando as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou de lugar
diferentes, desde que tal fato possa prejudicar o andamento da ação;
b) em razão do número excessivo de réus;
c) para não prolongar a prisão provisória de qualquer dos réus;
Cumpre anotar ainda que, havendo reunião por conexão ou continência, se o juiz ou tribunal
proferir sentença absolutória ou desclassificar a infração para outra que não seja de sua competência, continuará competente para os demais processos. É que se denomina perpetuatio jurisdictionis.
O Código de Processo Penal reservou parte de seus dispositivos para tratar de questões
incidentais, isto é, que aparecem no decorrer do processo principal, e que interferem no julgamento do mérito. Tais questões dividem-se em questões prejudiciais e processos incidentes. Estes, por sua vez, subdividem-se em exceções, incompatibilidades e impedimentos, conflito de jurisdição, restituição de coisa apreendida, medidas assecuratórias, incidente de falsidade e incidente de insanidade mental do acusado.
1. Questões Prejudiciais (arts. 92 a 94, CPP)
São as que dizem respeito a um elemento que compõe o crime e fazem com que a decisão da causa principal fique a elas vinculada.
espécies de questões prejudiciais são:
Homogênea: quando pertence ao mesmo ramo do direito da questão principal. Exemplo:
reconhecimento de delito anterior (juízo penal) para a caracterização do crime de receptação (juízo penal);
2) Heterogênea: quando a pertence a outro ramo do direito, que não o da questão principal.
Exemplo: discussão a respeito de existência de casamento (juízo cível), para configuração da
agravante prevista no art. 61, II, e, do Código Penal (juízo penal). A questão heterogênea, por sua vez, divide-se em:
a) obrigatória: como o próprio nome diz, obriga, torna necessária a suspensão do processo.
Aqui o juiz penal não pode julgar a causa, sem antes ter uma definição da questão resolvida
em outro juízo. É o que ocorre na controvérsia séria e fundada a respeito do estado civil das pessoas (art. 92, CPP). Exemplo: discussão sobre a anulação do casamento no juízo cível, para julgamento do crime de bigamia no juízo penal. Neste caso, o juiz pode produzir as provas consideradas urgentes e o Ministério Público, se a ação penal for pública, quando necessário, ingressará com a ação civil ou nela intervirá. A decisão da esfera cível vincula a decisão na esfera penal.
b) facultativa: nela o juiz penal é que decide se julgará a causa concomitantemente ou se
aguardará a solução da questão em outro juízo. Dá-se quando a questão não verse sobre
estado das pessoas e:
- a questão não verse sobre direito cuja prova a lei civil limite;
Exemplo: discussão a respeito de posse ou propriedade no juízo cível, para julgamento do crime de apropriação indébita no juízo penal. Nesta hipótese o juiz deve fixar prazo para a suspensão, que poderá ser prorrogado, se a demora não for imputável à parte. Esgotado tal prazo, se o juiz do cível não tiver proferido decisão, o juiz criminal retomará a ação penal, podendo julgá-la. Assim, a decisão do juízo
cível só vincula a do juízo penal se for proferida no curso da suspensão. O Ministério Público,
se for caso de ação penal pública, deverá intervir na ação civil, para promover-lhe o rápido andamento (art. 93, CPP).
A suspensão do processo criminal suspende a prescrição (art. 116, I, CP), ficando autorizado
o juiz a produzir as provas consideradas urgentes (ouvir testemunha gravemente doente, por exemplo). Em todas as hipóteses o juiz poderá decretar a suspensão de ofício ou a
requerimento das partes (art. 94, CPP). Do despacho que denegar a suspensão não caberá recurso, sustentando alguns que é possível a interposição de correição parcial, fundada no tumulto no processo; do despacho que conceder, caberá recurso em sentido estrito.
Exceção é o procedimento incidental pelo qual a parte apresenta uma defesa processual, visando a extinção do processo pela resolução da questão (exceção peremptória) ou o retardamento do seu exercício, até que a questão seja resolvida (exceção dilatória). Das exceções previstas no Código de Processo Penal, são dilatórias as de suspeição, incompetência e ilegitimidade de parte. São peremptórias as de coisa julgada e litispendência.
2.2 Exceção de suspeição (arts. 96 a 107, CPP)
É aquela destinada a afastar juiz suspeito, considerado parcial. É ela pessoal, ligada ao próprio juiz e não ao juízo. Os casos de suspeição estão no art. 254, CPP. Quanto ao procedimento, há duas hipóteses: pode o juiz reconhecer de ofício a suspeição, independentemente de qualquer provocação das partes (art. 97, CPP). Neste caso deve ele fundamentadamente declarar os motivos e remeter os autos ao seu substituto, intimando-se as partes. Se o juiz não reconhecer de ofício, a parte pode argüi-la por petição, onde constarão as razões do pedido, acompanhadas de prova documental e/ou do rol de testemunhas, se houver. O autor recebe o nome de excipiente e o juiz recebe o nome de excepto. Caso o juiz acolha o pedido, suspenderá o trâmite do processo, remetendo-o ao substituto legal. Se não acolher, determinará a autuação em apartado, apresentará resposta escrita em 3 dias, juntando documentos e arrolando testemunhas, remetendo em 24 horas ao Tribunal de Justiça. Se o Tribunal entender ser relevante a argüição, citará as partes, designando dia e hora para a inquirição das testemunhas, julgando após, independente do oferecimento de alegações finais. Acolhendo a argüição, remeterá ao substituto legal e declarará nulos todos os atos praticados pelo juiz suspeito. O Tribunal poderá rejeitar liminarmente o pedido se verificar tratar-se de pedido manifestamente improcedente. As partes poderão ainda argüir suspeição de membros do Ministério Público, de peritos, intérpretes e funcionários da Justiça. Não se pode opor exceção de suspeição a Delegado de Polícia, muito embora ele deva declarar-se suspeito, se for o caso. Se não o fizer, na hipótese caberá recurso para o seu superior. As decisões, acolhendo ou não a exceção, não comportam recurso, uma vez que, se acolhida, não há sentido fazer o julgador voltar atrás, já que se considera suspeito. Se não acolhida, a própria exceção será enviada ao Tribunal, o que dispensa o recurso. Igual procedimento se dará na hipótese de incompatibilidade ou impedimento do juiz, órgão do Ministério Público, serventuários da Justiça, peritos ou intérpretes (art. 112, CPP).
2.3 Exceção de incompetência do juízo (arts. 108 e 109, CPP)
A exceção de incompetência é aquela destinada a corrigir a competência do juízo, fixada
erroneamente. Ela também, como a anterior, pode ser declarada de ofício pelo juiz, quando verificar que as regras de competência não foram observadas.
Se não for declarada espontaneamente pelo juiz, a parte (réu, querelado ou Ministério Público,
como fiscal da lei) pode provocar, através da exceção, oposta no prazo da defesa prévia. Caso
não seja apresentada nesse prazo, ocorrerá a prorrogação de competência, por preclusão do
direito, já que se trata de incompetência relativa. Entenda-se, aqui, a competência territorial, pois em razão da matéria e em razão da função, não haverá convalidação, podendo ser argüida
a qualquer tempo (incompetência absoluta).
Se julgada procedente a exceção, os autos serão encaminhados para o juiz competente, onde
serão aproveitados os atos instrutórios e anulados os decisórios. Se não acolhida a exceção, o juiz prosseguirá no processo.
O recurso cabível é o recurso em sentido estrito. Se declarada de ofício, o fundamento será o
art. 581, II, CPP. Se julgado procedente o pedido formulado, o fundamento será o art. 581, III, CPP. Da rejeição da exceção não caberá recurso, podendo, entretanto, ser a decisão atacada por habeas corpus.
2.4 Exceção de ilegitimidade de parte (art. 110, CPP)
Apesar de haver posicionamento contrário na doutrina, o entendimento que prevalece é de que
é cabível a exceção tanto em relação à ilegitimidade ad causam (titularidade do direito de ação) quanto em relação à ilegitimidade ad processum (capacidade processual). Exemplos:
ação penal privada proposta por ofendido menor de 18 anos (ad processum); ação penal que seria de iniciativa privada, proposta pelo Ministério Público (ad causam). A exceção de ilegitimidade de parte processa-se da mesma forma que a exceção de incompetência do juízo (art. 110, CPP), mas não há prazo fatal para a argüição.
O reconhecimento da ilegitimidade ad causam traz como conseqüência a anulação do
processo, nos termos do art. 564, II, CPP. Reconhecida a ilegitimidade ad processum, os atos praticados poderão ser ratificados a qualquer tempo.
O recurso cabível da decisão que julga procedente a exceção é o recurso em sentido estrito
(art. 581, III, CPP). A decisão que rejeita a exceção só pode ser atacada por habeas corpus.
2.5 Exceção de litispendência e de coisa julgada (art. 110, CPP)
Ocorre a litispendência quando há identidade entre ações. Diz-se que há identidade entre ações quando são idênticos o pedido, a causa de pedir e as partes.
A exceção de litispendência terá lugar quando se verificar que estão em curso duas ações
idênticas. Já a de coisa julgada apresentará identidade entre uma ação em curso e outra que já foi decidida definitivamente. Como ninguém pode ser julgado duas vezes pelo mesmo fato, em decorrência do princípio do non bis in idem, tais exceções apresentam caráter peremptório. Por esse motivo, não há necessidade de sua argüição no prazo da defesa prévia.
O processamento das duas exceções segue o procedimento da exceção de incompetência do
juízo. O recurso cabível da decisão que acolhe o pedido é o recurso em sentido estrito (art.
581, III, CPP). No caso de a litispendência ou a coisa julgada serem reconhecidas de ofício
pelo juiz, o recurso cabível é a apelação, com fulcro no artigo 593, II, CPP. Da rejeição, caberá habeas corpus.
3. Conflito de jurisdição (arts. 113-117, CPP)
Tem-se o chamado conflito de jurisdição quando dois ou mais juízes consideram-se competentes – conflito positivo - ou incompetentes – conflito negativo - para julgar determinada causa, ou ainda, quando há controvérsia sobre unidade de juízo, união ou separação de processos.
O conflito pode ser argüido pelos próprios juízes ou tribunais (por representação), pela parte
interessada ou pelo Ministério Público (em ambos os casos, via requerimento). Tratando-se de conflito negativo, será levantado nos próprios autos do processo. Na hipótese
de conflito positivo, deverão ser formados autos próprios. Neste caso, o relator poderá ordenar
a suspensão do processo. Ele requisitará ainda informações aos juízes conflitantes, ouvirá o Procurador Geral de Justiça e colocará em julgamento na primeira sessão, caso não exista a
necessidade de realização de diligências. Após o julgamento, enviará cópias da decisão aos magistrados, para a devida execução.
4. Restituição de coisas apreendidas (arts. 118-124, CPP)
As coisas que forem apreendidas em virtude da infração penal cometida, deverão permanecer vinculadas ao processo até o trânsito em julgado ou enquanto a ele interessarem (art. 118). Não serão restituídas, salvo se pertencerem ao lesado ou ao terceiro de boa-fé, os
instrumentos do crime, se seu fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua ato ilícito,
e, o produto do crime, ou qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente
com a prática do crime (art. 91, II, CP). Se não existir dúvida sobre o direito do requerente, o delegado de polícia ou o juiz de direito podem devolver a coisa, mediante termo nos autos. Caso não seja manifesto o direito, o pedido será autuado em apartado, tendo o requerente o prazo de 5 dias para produzir prova. Se a coisa foi encontrada em poder de terceiro de boa-fé, este também terá igual prazo para prova. Ambos terão 2 dias para arrazoar e em seguida o juiz ouvirá o Ministério Público. Restando provado o direito do requerente, será deferida a restituição. Havendo controvérsia, o juiz indeferirá o pedido e encaminhará o litígio para o juízo cível, ordenando o depósito da coisa em mãos de depositário ou do próprio terceiro, se pessoa idônea. Em relação às coisas facilmente deterioráveis, pode o juiz determinar a venda em leilão, depositando-se o dinheiro arrecadado ou depositar junto ao terceiro, se for pessoa idônea, que assinará termo de responsabilidade. Quanto ao destino dos bens apreendidos, podemos ter:
a) as coisas adquiridas com o proveito da infração penal serão leiloadas após o trânsito em
julgado, revertendo-se o valor à União, ressalvado o direito do lesado ou terceiro de boa-fé (art. 121, CPP);
b) em se tratando de coisas confiscáveis, decorrido o prazo de 90 dias após o trânsito em
julgado, o juiz ordenará a venda em leilão (art. 122, CPP). Neste caso, se houver interesse, pode recolher a museu criminal (art. 124, CPP);
c) não se cuidando de coisas confiscáveis, se elas não forem reclamadas no período de até 90
dias após o trânsito em julgado e desde que não pertençam ao réu, serão leiloadas e o
dinheiro será depositado à disposição do juízo de ausentes (art. 123, CPP).
5. Medidas assecuratórias (arts. 125 a 144, CPP)
São medidas cautelares, previstas pelo Código, que visam assegurar a reparação do dano causado pelo crime à vítima. São processos incidentais e que devem ser autuados em apartado, para evitar tumulto no processo principal.
seqüestro pode recair sobre bens móveis e imóveis, desde que haja fundada suspeita de
terem eles sido adquiridos com o produto do crime, mesmo que já tenham sido transferidos a terceiro (art. 125, CPP). Pode ser decretado de ofício pelo juiz, por requerimento do ofendido ou do Ministério Público, ou ainda por representação da autoridade policial, na fase de inquérito ou durante a ação penal. Decretado o seqüestro de imóvel, será inscrito no Registro de Imóveis, para gerar seus efeitos em relação a terceiros. Desta decisão, caberá apelação. Poderão opor embargos ao pedido de seqüestro tanto o indiciado ou réu, como o terceiro de boa-fé prejudicado. Serão eles julgados, porém, somente após o trânsito em julgado da sentença. Ocorrerá o levantamento do seqüestro se:
a) a ação penal não for proposta dentro de 60 dias após o aperfeiçoamento da medida; b) se o terceiro de boba-fé prestar caução que garanta o valor que constitua provento do crime; c) se for julgada extinta a punibilidade do agente ou se for ele absolvido por sentença transitada em julgado. Transitada em julgado a sentença condenatória, os bens serão avaliados e leiloados, de ofício pelo juiz ou a requerimento dos interessados, recolhendo-se ao Tesouro Nacional o que não couber a eles.
5.2 Hipoteca legal
Medida que recai sobre bens imóveis do autor do crime, visando assegurar valor para a reparação do dano causado à vítima e eventual pagamento de multa e despesas processuais. Os bens em questão são os obtidos licitamente, pois os adquiridos de forma ilícita, como visto, estão sujeitos ao seqüestro.
Para que seja adotada, é preciso que haja certeza da existência do crime e indícios suficientes de autoria. Pode ser adotada em qualquer fase do processo. A legitimidade para requerer a hipoteca é do ofendido, seus herdeiros ou do Ministério Público, caso aqueles sejam pobres
houver interesse da Fazenda Pública.
requerimento deverá conter indicação dos bens que serão hipotecados, devendo ainda ser
instruído com as provas em que se funda a estimativa da responsabilidade do agente e a relação dos imóveis que possuir, bem como da prova do domínio desses imóveis. Autuado o pedido em apartado, o juiz arbitrará o valor da responsabilidade e determinará a avaliação dos imóveis, o que será feito por perito, onde não houver avaliador judicial. Ouvidas as partes no prazo de 2 dias, o juiz decidirá, podendo corrigir o arbitramento da responsabilidade se entender inviável o valor. Se acolhido o pedido, o juiz determinará a inscrição da hipoteca dos imóveis no valor necessário para garantir a responsabilidade. Se o réu oferecer caução, o juiz poderá deixar de adotar a medida. Se a sentença for absolutória ou declaratória da extinção da punibilidade, a
hipoteca será cancelada. Se a decisão for condenatória, os autos serão remetidos ao juízo cível para execução, após trânsito em julgado, onde poderá, inclusive, haver nova discussão sobre o arbitramento da responsabilidade, se as partes não concordarem com o realizado anteriormente.
A decisão que defere ou indefere o pedido é atacada por apelação.
É possível, ainda, o arresto preventivo dos imóveis, caso haja suspeita de que serão transferidos para não se sujeitar à reparação, por exemplo. Neste caso, decretado pelo juiz,
tem o interessado 15 dias para promover a inscrição da hipoteca legal, sob pena de revogação da medida (art. 136, CPP).
5.3 Arresto
Trata-se de medida semelhante à hipoteca legal, recaindo, contudo, sobre bens móveis do agente, que não sejam e nem tenham sido obtidos com o produto do crime. Havia neste ponto impropriedade técnica do legislador quanto à nomenclatura da medida, uma vez que se referia
a ela como “seqüestro”. Tal impropriedade, contudo, foi sanada pela Lei nº 11.435/06, que
deu nova redação aos artigos correspondentes. Podem ser objeto de arresto os bens penhoráveis. Para a adoção da medida são necessários a prova da existência do crime a indícios suficientes de autoria. O arresto, como a hipoteca,
pode ser requerido pelo ofendido, seus herdeiros ou pelo Ministério Público, quando aqueles forem pobres ou houver interesse da Fazenda Pública. Se os bens forem fungíveis e facilmente deterioráveis, serão avaliados e leiloados, depositando-se o dinheiro arrecadado. Das rendas dos bens móveis, poderão ser destacados recursos destinados à manutenção do indiciado e de sua família. Sobrevindo sentença condenatória, os autos serão encaminhados ao juízo cível para execução. Em caso de absolvição ou extinção da punibilidade, o arresto será levantado e os bens devolvidos ao acusado.
A decisão relativa ao arresto também será atacada por apelação.
5.4 Incidente de falsidade (arts. 145-148, CPP)
É instaurado o procedimento incidental de falsidade quando alguma das partes suspeitar da
idoneidade de um documento juntado aos autos. Pode ser requerido pelo réu, pela vítima, pelo Ministério Público ou ainda decretado de ofício pelo juiz. Instaurado o incidente, a parte contrária deverá oferecer sua resposta em 48 horas. Após, será aberto prazo de 3 dias para cada parte, sucessivamente, produzir prova, ouvindo-se o Ministério Público. Realizada as eventuais diligências, seguirá decisão. Reconhecida a falsidade, os documentos serão desentranhados e remetidos ao Ministério
Público para apuração de eventual crime de falso. Tal decisão não vincula outra que venha a ser adotada tanto no juízo criminal, quanto no cível. Da decisão que julgar procedente ou improcedente o incidente de falsidade, caberá recurso em sentido estrito (art. 581, XVIII, CPP).
5.5 Incidente de insanidade mental do acusado (arts. 149-154, CPP)
Processo incidental destinado a apurar a sanidade mental do acusado, através de perícia, quando houver dúvida a respeito de sua imputabilidade, proveniente de elementos do autos.
O incidente pode ser instaurado em qualquer fase do processo ou do inquérito, de ofício pelo
juiz ou por requerimento do Ministério Público, do defensor, do ascendente, descendente, cônjuge ou irmão do acusado, ou ainda por representação da autoridade policial. Instaurado o incidente, será nomeado curador ao acusado, intimando-se as partes para oferecimento de quesitos a serem respondidos pelos peritos. A ação penal ficará suspensa pelo período da realização da perícia, garantida a produção de provas consideradas urgentes. Se o acusado estiver preso, será internado em hospital de custódia e tratamento. O exame será realizado no prazo de 45 dias, podendo ser prorrogado pelo juiz, se os peritos demonstrarem a necessidade.
Juntado o laudo, será aberta vista às partes para dele tomarem ciência. Sua apreciação, porém,
só será feita por ocasião da sentença.
Se os peritos concluírem pela inimputabilidade ou pela semi-imputabilidade do acusado à
época dos fatos, o curador prosseguirá acompanhando os atos processuais. Caso a doença mental tenha acometido o acusado após a infração, o processo ficará suspenso até seu restabelecimento. Neste caso, o juiz poderá ordenar a internação do acusado em hospital de custódia e tratamento.
O juiz não está vinculado ao resultado do exame, podendo determinar nova perícia ou até
mesmo repudiá-la, desde que o faça fundamentadamente. Da decisão que determina ou rejeita a realização do exame não caberá recurso. Sustenta-se na
doutrina, porém, o cabimento de correição parcial ou de habeas corpus.
Prova é todo elemento pelo qual se procura mostrar a existência e a veracidade de um fato.
Sua finalidade, no processo, é influenciar no convencimento do julgador. No processo penal, somente no que diz respeito ao estado de pessoa é que se observará a restrição à prova, imposta pela lei civil (art. 155, CPP), no mais, tem-se plena liberdade para a sua produção, principalmente pela necessidade da busca da verdade real. Alguns fatos independem de prova, isto é, não necessitam ser provados. São eles:
a) fatos axiomáticos ou intuitivos: aqueles que são evidentes. Se o fato é evidente, se a
convicção já está formada, não necessita de prova. Exemplo: um ciclista atropelado por um
caminhão e tem o corpo dilacerado. O exame cadavérico interno é dispensado para provar a morte, pois sua causa é evidente, nos termos do parágrafo único do art. 162, CPP.
b) fatos notórios: são os de conhecimento geral, a “verdade sabida”. Exemplo: não é
necessário provar que no dia 7 de setembro comemora-se a Independência do Brasil.
c) presunções legais: conclusões decorrentes da própria lei. Exemplo: menor de 18 anos é
d) fatos inúteis: são os que não influenciam na decisão da causa. Exemplo: saber a cor
preferida da testemunha.
O direito em regra independe de prova, segundo o brocardo jura novit curia, ou seja, presume-se que o juiz conhece-o. Há exceções, porém, quanto a:
b) normas administrativas;
d) leis estrangeiras.
Cumpre lembrar que o fato incontroverso (admitido pela outra parte) necessita de prova, pois, como já dito, em nosso Direito Processual Penal vigora o princípio da “verdade real” e não o da “verdade formal”, não devendo o juiz se conformar com a verdade admitida pelas partes.
É o encargo que as partes têm de provar os fatos que alegam. Nos termos do art. 156, do Código de Processo Penal, o ônus da prova incumbe a quem fizer a alegação. Desse modo, aponta a doutrina tradicional que cabe à acusação provar a existência do fato criminoso, de sua autoria e também a prova dos elementos subjetivos do crime (dolo ou culpa). Ao réu, por sua vez, cabe provar fatos extintivos, impeditivos ou modificativos do direito de punir, como as causas excludentes de ilicitude, da culpabilidade, da punibilidade etc. Deve-se notar que o juiz, apesar de não ter ônus de prova, pode determinar diligências probatórias, desde que isso não quebre a sua imparcialidade. Anote-se, ainda, que no processo penal vigora a comunhão das provas, onde a prova produzida serve a ambas as partes e não só a quem a produziu.
Vários são os sistemas criados pelos ordenamentos jurídicos para organizar a valoração da prova. Dentre eles, os mais relevantes são:
a) Prova legal ou tarifado: nele, a lei atribui previamente um valor à prova. É exceção em
nosso Direito, contida no art. 158, CPP, que dispõe que a confissão não poderá suprir a falta
exame pericial nas infrações que deixam vestígios;
Convicção íntima do juiz: este sistema confere liberdade total ao julgador, na apreciação da
prova. Também é exceção e vigora entre nós nos julgamentos pelo Júri.
c) Livre convencimento motivado ou persuasão racional: o juiz é livre para apreciar a prova,
mas deve sempre fundamentar sua decisão. É a regra em nosso Direito. Tal regra está contida
no art. 157, CPP, conjugado com o art. 93, IX, da CF.
Meio de prova é tudo aquilo que pode servir para demonstrar a existência e a veracidade de um fato. O Código de Processo enumera os meios de prova, mas o rol, contudo, não é taxativo, uma vez que outras modalidades de prova também são admissíveis, como a fotografia, por exemplo. Tais provas são chamadas de inominadas. Muito embora se possa admitir outros meios que não aqueles elencados na lei, nem tudo pode ser usado como prova, pois pode ocorrer o que a doutrina chama de prova proibida. Elas não devem ser admitidas no processo. Se forem, devem ser desentranhadas. São espécies de prova proibida: a prova ilegítima e a prova ilícita.
A prova ilegítima é aquela obtida com violação de regras de ordem processual. Exemplo:
utilização de prova nova no plenário do júri, sem ter sido juntada aos autos com antecedência
mínima de 3 dias, violando a regra contida no art. 475, CPP.
Já a prova ilícita é aquela obtida com violação a regras de direito material, violação a direito
da pessoa. Exemplo: prova obtida com violação de domicílio, com interceptação ilegal de comunicação, com tortura. Hoje há entendimento majoritário no sentido de que pode haver a prova ilícita por derivação, ou seja, uma prova pode ser lícita se tida isoladamente, mas, se sua origem se encontra na
prova ilícita, ela foi contaminada pela ilicitude. É a aplicação da teoria fruits of poisonous tree. É o posicionamento atual do Supremo Tribunal Federal. Exemplo: policiais, através de interceptação telefônica ilegal, descobrem local de entrega de carregamento de drogas. Vão até lá e prendem um dos agentes, que confessa espontaneamente. Se adotada a teoria, a confissão espontânea é ilícita por derivação. Boa parte da doutrina admite a prova ilícita se for o único meio de provar a inocência do acusado no processo, pois estaria se privilegiando bem maior do que o protegido pela norma, qual seja, a liberdade de um inocente. No que diz respeito à interceptação telefônica, a Lei nº 9.296/96 regula o tema. Basicamente ela dispõe que o juiz pode autorizar a interceptação de ligação telefônica de ofício, a requerimento do Ministério Público ou da Autoridade Policial, desde que:
a) se trate de crime apenado com reclusão;
b) não haja meios de se produzir a mesma prova;
c) haja indícios razoáveis de participação em infração penal.
A interceptação sem autorização judicial é prova ilícita, além de constituir crime, nos termos
da referida Lei. Isso não se confunde com a escuta telefônica de terceiro com autorização de um dos interlocutores, nem com a gravação clandestina de um dos interlocutores, sem o conhecimento de outro. Há decisões do Supremo Tribunal Federal afirmando a licitude de tais provas. Vejamos então os meios de provas tratados pelo Código de Processo Penal.
3.1 Perícia (arts. 158-184, CPP)
É o exame realizado por profissional com conhecimentos técnicos, a fim de instruir o
julgador. O laudo pericial é o documento elaborados pelos peritos, sobre o que foi observado. Não deve conter valoração dos fatos, mas apenas as conclusões técnicas a respeito da matéria submetida a apreciação.
A perícia pode ser realizada na fase de inquérito policial ou do processo, a qualquer dia e
horário (art. 161, CPP). A autoridade que determinar a perícia e as partes poderão oferecer quesitos até o ato. Deve ser realizada por 2 peritos oficiais. Se não houver, será elaborada por 2 pessoas portadoras de diploma e com habilitação na área em que for realizado o exame (art. 159, CPP). É nula se realizada por apenas um – Súmula 361 do Supremo Tribunal Federal. Em caso de divergência entre os 2 peritos, o juiz nomeará um terceiro. Se este divergir também de ambos, determinará a realização de nova perícia (art. 180, CPP). Se houver omissão ou falha, o juiz poderá determinar a realização de exame complementar (art. 181, CPP).
Se for necessária a realização de perícia por carta precatória: quem nomeia os peritos é o juízo
deprecado. Se for crime de ação penal privada e houver acordo entre as partes, a nomeação pode ser feita pelo juízo deprecante (art. 177, CPP).
O Juiz não está vinculado ao laudo elaborado pelos peritos, podendo julgar contrariamente às
suas conclusões, desde que o faça fundamentadamente (art. 182, CPP). Este é o sistema liberatório.
Corpo de delito é o conjunto de vestígios deixados pelo crime. Alterações no mundo das coisas, derivadas do crime. Exame de corpo de delito é a atividade técnica de exame dos vestígios, para posterior elaboração do laudo. Tal exame é indispensável nas infrações que deixam vestígios, chamadas de crimes não- transeuntes, nos termos do art. 158, CPP. Referido artigo menciona o exame direto ou
indireto. Direto é o realizado sobre o próprio corpo de delito. Exemplo: exame necroscópico no cadáver. Indireto decorre de um raciocínio realizado a partir de elementos paralelos. Exemplo: ficha médica de um paciente. Nos termos do art. 167, CPP, se desaparecerem os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir a falta de exame de corpo de delito. Para tal providência, porém, não pode o desaparecimento ser imputado ao órgão estatal, como por exemplo na demora na realização
do exame ou na falta de requisição pela autoridade.
Quanto ao já mencionado exame necroscópico, estabelece nossa lei processual que deve ser ele realizado pelo menos 6 horas após a morte, a não ser que haja evidências dó óbito. Se for preciso realizar a exumação do cadáver a autoridade cuidará das providências para a realização das diligências, devendo o administrador do cemitério apontar o local do sepultamento, sob pena de desobediência. Nas perícias de laboratório, deverão ser guardadas pequenas quantidades do objeto analisado, para eventual realização de nova perícia, se necessária (art. 170, CPP). Nos crimes cometidos com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa ou por escalada, os peritos deverão indicar com que instrumentos, por que meios e em que época presumem ter sido o fato praticado (art. 171, CPP).
Quando se tratar de crime de incêndio, os peritos devem verificar a causa e o local em que começou o fogo, o perigo que resultou para a vida e o patrimônio alheio, a extensão do dano e seu valor, bem como todas as outras circunstâncias relevantes (art. 173, CPP). Para a constatação de lesão corporal grave, pelo afastamento das ocupações habituais por mais de 30 dias, deve ser realizado exame complementar, logo após 30 dias do crime.
3.2 Interrogatório (arts. 185-196, CPP)
É o ato em que o juiz ouve o acusado sobre a imputação a ele dirigida. É meio de prova e
meio de defesa, pois nele, o acusado pode exercer a autodefesa, dizendo o que quiser a respeito da imputação que lhe pesa.
É conferido, porém, ao acusado o direito de não exercer a autodefesa, sem que isso lhe traga
prejuízo (art. 5º, LXIII, CF e art. 186, parágrafo único, CPP).
ato personalíssimo: só o réu pode ser interrogado;
ato oral: não pode ser oferecido por escrito, salvo na hipótese de pessoa muda;
ato bifásico: pergunta-se sobre a vida pessoal e sobre os fatos;
ato não preclusivo: pode ser realizado a qualquer tempo, antes do trânsito em julgado da
decisão (inclusive pode ser repetido). O interrogatório deve ser realizado com a presença de defensor. Tal medida foi inserida em alteração promovida pela Lei nº 10.792/03. Se o réu não tiver defensor, deve ser nomeado um, nem que seja apenas para o ato (ad hoc). Além disso, é assegurado ao réu entrevistar-se com seu defensor antes do interrogatório. As partes poderão, após a inquirição do juiz, pedir esclarecimentos, formulando perguntas que
serão avaliadas pelo magistrado, pelos critérios da pertinência e relevância. Se o acusado estiver preso, a regra é ser ele interrogado no estabelecimento prisional em que se encontra, salvo se não houver condições de segurança para os profissionais que até lá deverão se deslocar. Quanto ao interrogatório dos surdos-mudos, deve-se observar a seguinte forma (art. 192, CPP):
3.3 Confissão (arts. 197-200, CPP)
É o reconhecimento da veracidade de um fato alegado em seu desfavor. No Direito Processual
Penal, é a admissão da prática de uma infração penal.
a) simples: o réu penas reconhece a prática delituosa.
b) qualificada: o réu reconhece que praticou o crime, mas alega sem eu favor fato
modificativo, impeditivo ou extintivo, do direito de punir do Estado, como excludente de ilicitude.
c) complexa: reconhece vários crimes no mesmo ato.
Não há confissão ficta no processo penal. Se o processo correr à revelia, não significa que serão aceitos como verdadeiros os fatos alegados pela acusação. Características da confissão (art. 200, CPP):
a) retratabilidade: pode o réu desdizer-se da confissão.
b) divisibilidade: pode ser no todo ou em parte, quanto à imputação.
Quanto ao valor probante, a confissão não é mais a “rainha das provas”, como foi por muito tempo chamada. Pelo nosso atual sistema, a confissão não constitui prova plena da
culpabilidade do réu. Desse modo, deve ser ela apreciada em conjunto com os demais elementos probatórios.
3.4 Declarações do ofendido (art. 201, CPP)
Sempre que possível o juiz deverá proceder à oitiva do ofendido, por ser ele pessoa apta, em muitos casos, a fornecer informações essenciais em relação ao fato criminoso. Regularmente intimado, se não comparecer poderá ser conduzido coercitivamente. Será indagado sobre as circunstâncias da infração, se sabe quem é o autor e quais as provas que pode indicar. Note-se que não se pode denominar o ofendido de testemunha, porque não o é tecnicamente. Não se toma do ofendido o compromisso de dizer a verdade, o que faz com que não possa ser processado pelo crime de falso testemunho.
3.5 Testemunhas (arts. 202-225, CPP)
São as pessoas estranhas ao processo, que narram fatos de que tenham conhecimento, acerca do objeto da causa. São características da prova testemunhal:
a) oralidade: o depoimento é oral. Não pode ser trazido por escrito, mas a lei admite a
consulta a apontamentos, conforme o art. 204, CPP;
b) imediação: é o juiz quem pergunta. As perguntas das partes serão feitas ao juiz, que as
repassa à testemunha (reperguntas). Este é o sistema presidencialista. A única exceção está no julgamento pelo Tribunal do Júri, onde as partes perguntam diretamente;
c) obrigatoriedade: a testemunha que deixar de comparecer à audiência, será conduzida
coercitivamente (art. 218, CPP). Além disso, deve dizer a verdade, sob pena de ser processada por crime de falso testemunho, mesmo que o juiz esqueça de adverti-la (art. 203, CPP);
d) retrospectividade: a testemunha depõe sobre fatos pretéritos, já ocorridos e não faz
previsões. Toda pessoa poderá ser testemunha. Estão dispensados de depor, porém, o cônjuge, ascendente, descendente e os afins em linha reta do réu. Eles só serão obrigados a depor caso não seja possível por outro modo obter-se a prova. Neste caso, não se tomará deles o compromisso de dizer a verdade; eles serão ouvidos como informantes do juízo. O mesmo se aplica aos doentes mentais e aos menores de 14 anos. Estão proibidas de depor as pessoas que devam guardar sigilo em razão de função, ministério, ofício ou profissão (art. 207, CPP), salvo se, desobrigados pelo interessado, quiserem dar seu depoimento. O advogado, entende-se, mesmo com o consentimento do titular do segredo, está sempre proibido de depor, pois tem os conhecimentos técnicos necessários para avaliar as conseqüências da quebra de sigilo. As testemunhas deverão ser ouvidas de per si, de modo que uma não ouça o depoimento da outra, para que não exista a possibilidade de influência. Se o juiz verificar que a presença do
réu na sala de audiências intimidará a testemunha, poderá retirá-lo, permanecendo em sala o defensor (art. 217, CPP).
A testemunha suspeita de parcialidade ou indigna de fé poderá ser contraditada. O juiz
poderá, se for o caso, dispensar a testemunha ou ouvi-la como informante. As testemunha que por doença ou idade não puderem se locomover, serão ouvidas onde estiverem (art. 220, CPP). É permitida a oitiva de testemunha por carta precatória. As partes devem ser intimadas da
expedição da carta. Tal expedição não suspende o andamento do processo. Mesmo que ela seja devolvida depois do julgamento, será juntada aos autos (art. 222, CPP). Lembre-se que o juízo deprecante deve intimar as partes da expedição da carta precatória, mas o juízo deprecado não está obrigado a intimá-las da designação de audiência - Súmula 273 do Superior Tribunal de Justiça. Número de testemunhas:
- processo comum: até 8 (art. 398, CPP)
- processo sumário: até 5 (art. 539, CPP)
- plenário do júri: até 5 (art. 417, § 2º, e 421, parágrafo único, CPP)
- processo sumaríssimo (Lei 9.099/95): até 3
3.6 Reconhecimento de pessoas e coisas (arts. 226-228)
Muitas vezes há necessidade de se efetuar o reconhecimento do réu pela vítima ou por testemunhas do delito. Esse reconhecimento deve atender a algumas regras. Primeiramente a pessoa que vai fazer o reconhecimento deve descrever a pessoa que será reconhecida. Esta será, então, colocada ao lado de outras que com ela tenham semelhança, para que o reconhecedor possa apontá-la, tomando-se o cuidado, se houver receio, para que uma não veja a outra. De tudo o que se passou, lavrar-se-á termo. O mesmo procedimento deve ser observado no que diz respeito e no que couber ao reconhecimento de coisas que tiverem relação com o delito. Muito embora não exista previsão legal, pode haver o reconhecimento fotográfico, mas o resultado, aqui, deve ser avaliado com cautela, diante da maior possibilidade de falhas.
3.7 Acareação (arts. 229-230, CPP)
É o ato processual consistente na colocação frente a frente de duas ou mais pessoas que
fizeram declarações distintas sobre o mesmo fato. Pode ser realizada entre acusados, entre acusado e testemunha, entre testemunhas, entre acusado/testemunha e vítima, ou entre vítimas. São seus pressupostos que as declarações já tenham sido prestadas e que sejam eles divergentes sobre ponto relevante da causa. O art. 230, CPP, dispõe a respeito da acareação por precatória, por mais absurdo que pareça.
3.8. Documentos (arts. 231-238, CPP)
Nos termos do Código, são os escritos, instrumentos ou papéis públicos ou particulares, dos quais se possa extrair informações a respeito de um fato. No sentido amplo, documento é qualquer meio ou objeto apto a corporificar uma manifestação humana, como vídeo, fotos, cd. Muito embora a redação da lei processual adote a posição restritiva, devemos aceitar como documentos aqueles descritos em sentido amplo.
Instrumento é o documento constituído com a finalidade de servir de prova para o ato ali representando. Exemplo: procuração. Os documentos podem ser:
a) públicos: aqueles formados por pessoa investida de função pública. Possuem presunção
iuris tantum de autenticidade e veracidade;
b) particulares: aqueles formados por particular
Em regra os documentos podem ser juntados em qualquer fase do processo (art. 231, CPP).
Dispõe a lei processual, contudo, que não será permitida a juntada de documentos na fase de alegações finais do Júri (art. 406, § 2º, CPP) e no plenário do júri, sem comunicar à outra parte com antecedência mínima de 3 dias (art. 475, CPP).
A cópia de documento autenticada terá o mesmo valor que o documento original (art. 232,
parágrafo único, CPP). Os documentos juntados aos autos poderão ser desentranhados a pedido da parte, se não houver motivo que justifique sua permanência nos autos (art. 238, CPP).
3.9 Indícios (art. 239, CPP)
É toda circunstância conhecida e provada, a partir da qual, mediante raciocínio lógico, chega-
se à conclusão da existência de outro fato.
Em nosso direito, não há hierarquia de provas, logo a prova indiciária é analisada como qualquer outra. Assim, uma sucessão de pequenos indícios pode ensejar condenação, tendo em vista o sistema do livre convencimento motivado do juiz.
3.4 Busca e apreensão (arts. 240 a 250, CPP)
No Título referente às provas e por conter com elas relação, o Código de Processo Penal disciplina a busca e a apreensão. São providências que têm por finalidade procurar e
apreender pessoas e coisas que tenham relação com o processo. Muito embora sejam tratadas em conjunto, são providências diversas.
Terá lugar a busca domiciliar quando fundadas razões a autorizarem, para (art. 240, CPP):
a)prender criminosos;
b) apreender coisas achadas ou obtidas por meio criminosos;
d) apreender armas e munições, instrumentos utilizados na prática de crime ou destinados a
fim delituoso;
f) apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em seu poder, quando haja
suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do fato (hipótese de constitucionalidade bastante discutida na doutrina, posicionando-se a corrente majoritária pela inconstitucionalidade da norma);
A busca domiciliar está sujeita a determinadas regras impostas pelo Código e conjugadas a
garantias previstas na Constituição da República. Só poderá ela ser:
a) durante o dia, com consentimento do morador, com ou sem mandado judicial;
b) durante o dia, sem autorização do morador, mas com mandado judicial;
c) durante a noite, com consentimento do morador, com ou sem mandado judicial;
d) durante o dia ou a noite, em razão de flagrante delito, com ou sem consentimento do morador. Nas hipóteses em que não há consentimento do morador, os executores do mandado deverão
mostrá-lo e lê-lo ao morador, ou a quem o represente, intimando-o a abrir a porta (art. 245, caput, CPP). O mandado deverá conter:
a) indicação da casa em que será realizada a diligência e o nome do respectivo proprietário
ou morador, ou, no caso de busca pessoal, o nome da pessoa ou sinais que a identifiquem;
b) menção ao motivo e fins da diligência;
c) assinatura do escrivão e do juiz competente;
Se o morador não atender à ordem, a porta poderá ser arrombada, entrando-se à força. Da mesma forma, será possível o emprego da força contra coisa existente dentro da casa, para descobrir o que se procura, havendo resistência do morador. Se a pessoa ou coisa que se procura é determinada, o morador será intimado a mostrá-la. Assim que descoberta, será apreendida, se esse for o fim da busca. De tudo será lavrado auto circunstanciado. Caso o morador não esteja em casa, os agentes entrarão na casa mediante arrombamento, intimando-se um vizinho para acompanhar a diligência, se houver e estiver presente. Já a busca pessoal é aquela que ocorre no corpo da pessoa, vestes ou acessórios que traga consigo. Ela será possível quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos relacionados a infração penal. Nestas hipóteses ela independerá de mandado e também quando houver fundada suspeita de que a pessoa porte objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando for determinada no curso de busca domiciliar (art. 244, CPP). A busca em mulher será feita por outra mulher, se não implicar em retardamento ou prejuízo da diligência (art. 249).
A relação jurídica processual abrange, direta ou indiretamente, várias pessoas, denominadas
sujeitos processuais, que podem ser classificados como principais (ou essenciais) - juiz, autor
e réu - e acessórios (ou secundários) - assistente da acusação, peritos etc.
Portanto, o processo enquanto relação jurídica é composto necessariamente por três sujeitos: o sujeito imparcial, que é o juiz, e dois sujeitos parciais, autor e réu. Os sujeitos acessórios
podem vir a fazer parte da relação processual, como o Assistente de Acusação e o Perito.
O juiz surge no processo com a finalidade de substituir a vontade das partes, já que o direito material não pode ser voluntariamente aplicado por estas. Para poder exercer a jurisdição o juiz deve conter três qualidades:
a) capacidade funcional: deve estar no regular exercício do cargo;
b) capacidade processual: deve ser competente para a causa;
c) imparcialidade: deve julgar de forma isenta, sem privilegiar uma ou outra parte.
Em termos diretamente processuais, incumbe ao juiz “prover à regularidade do processo e manter a ordem no curso dos respectivos atos” (art. 251, CPP). Assim, o juiz deve zelar para que não ocorram vícios nos atos processuais, bem como deve ordenar todas as medidas necessárias ao regular desenvolvimento dos atos processuais, para que se possa chegar à efetiva aplicação da lei penal. A segunda parte do dispositivo diz respeito ao poder de polícia de que goza o magistrado na condução dos atos, mormente naqueles em que é possível a presença de público (como sessão plenária do Júri, por exemplo) deve o juiz tomar todas as medidas para o bom andamento dos trabalhos. Muito embora o juiz seja sujeito absolutamente essencial na relação jurídica processual, pode ele ser afastado em determinado processo, conforme previsão do Código de Processo Penal. Tal afastamento pode ser dar em razão de impedimentos, incompatibilidades e suspeição, fazendo-se a ressalva de que alguns autores apontam apenas hipóteses de impedimentos e suspeição, incluindo-se as incompatibilidades nos primeiros.
1.1 Impedimentos (art. 252, CPP)
Apesar de haver a necessidade de ser imparcial, o juiz não deixa de ser uma pessoa, suscetível
a sentimentos que todos os humanos possuem. Em alguns casos, a lei antecipa a proibição de exercer o juiz a jurisdição, presumindo que ali pode haver parcialidade – são os impedimentos. Nos termos do Código, o juiz não poderá exercer jurisdição no processo em
a) tiver funcionado seu cônjuge ou parente, consangüíneo ou afim, em linha reta ou colateral
até o terceiro grau, inclusive, como defensor ou advogado, órgão do Ministério Público,
autoridade policial, auxiliar da justiça ou perito;
b) ele próprio houver desempenhado qualquer das funções anteriores ou servido como testemunha;
c) tiver funcionado como juiz de outra instância, pronunciando-se de fato ou de direito sobre
d) ele próprio ou seu cônjuge ou parente, consangüíneo ou afim em linha reta ou colateral,
até o terceiro grau inclusive, for parte ou diretamente interessado no feito.
Predomina na doutrina a posição de que o rol contido no art. 252 do Código de Processo Penal é taxativo, não podendo ser interpretado extensivamente ou analogicamente. Há divergência doutrinária, contudo, em relação aos efeitos do exercício de um juiz impedido:
alguns entendem que os atos por ele realizados são inexistentes, outros entendem se tratar de nulidade absoluta.
1.2 Incompatibilidades (artigo 25, CPP)
A hipótese que se costuma apontar como incompatibilidade diz respeito a vínculo de parentesco entre juízes num mesmo órgão colegiado. Desta forma seria incompatível a atuação e a conseqüente prestação jurisdicional. Nos termos do art. 253:
Nos juízos coletivos, não poderão servir no mesmo processo os juízes que forem entre si parentes, consangüíneos ou afins, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive. Conforme o disposto no art. 462 do Código, a incompatibilidade vale também para jurados que venham a fazer parte do Conselho de Sentença:
1.3 Suspeição (art. 25, CPP)
É suspeito o juiz que se encaixa em determinadas hipóteses que indiquem a possibilidade de
não ser ele parcial, por diversas razões. Vigora o entendimento de que o rol trazido pelo Código não é taxativo, pois no caso concreto podem existir outras situações não previstas pelo
legislador e que, igualmente tornam o juiz suspeito. Dispõe o art. 254 que o juiz deve declarar-se suspeito de ofício ou, se não o fizer, poderá ser recusado pelas partes:
a) se for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer deles;
b) se ele, seu cônjuge, ascendente ou descendente, estiver respondendo a processo por fato
análogo, sobre cujo caráter criminoso haja controvérsia;
c) se ele, seu cônjuge, ou parente, consangüíneo ou afim, até o terceiro grau, inclusive,
sustentar demanda ou responder a processo que tenha de ser julgado por qualquer das
d) se tiver aconselhado qualquer das partes;
e) se for credor ou devedor, tutor ou curador, de qualquer das partes;
f) se for sócio, acionista ou administrador de sociedade interessada no processo. Lembre-se que o art. 564, I, estabelece que os atos praticados em um processo por um juiz
suspeito geram nulidade, que será absoluta.
O impedimento ou suspeição decorrente de parentesco por afinidade cessará pela dissolução
do casamento que lhe tiver dado causa, salvo, sobrevindo descendentes; mas, ainda que
dissolvido o casamento sem descendentes, não funcionará como juiz o sogro, o padrasto, o cunhado, o genro ou enteado de quem for parte no processo (art. 255, CPP).
É preciso destacar, ainda, que nos termos do art. 256 do Código, a suspeição não poderá ser
reconhecida se a parte injuriar o juiz ou propositadamente der motivo para criá-la. Trata-se de mera cautela do legislador, pois é óbvio que não há de se considerar suspeito o juiz que retorquiu uma ofensa, por exemplo, dirigida a ele propositadamente com esse fim.
Para que o magistrado bem desempenhe sua função, com a imparcialidade que dele se exige, precisa ter certas garantias contra interferências e pressões dirigidas à sal função. Tendo em vista esta preocupação a Constituição Federal, em seu art. 95, assegura aos membros da Magistratura:
a) vitaliciedade: após 2 anos, o juiz se torna vitalício no cargo, só o perdendo em caso de sentença condenatória transitada em julgado. A destituição do juiz dependerá do tribunal a que o juiz estiver vinculado. (art. 95, I, CF);
b) inamovibilidade: o juiz só poderá ser removido de seu cargo em caso de interesse público,
pelo tribunal a que estiver vinculado, por deliberação e votos de 2/3 de seus membros, assegurada a ampla defesa. (art. 95, II CF);
c) irredutibilidade de vencimentos: garante ao magistrado que seu salário não será reduzido
(art. 95, III, CF). Cumpre frisar que há ressalvas no artigo 37, X e XI; artigo 39, §4º; artigo
150, II e artigo 153, III e § 2º, I, todos da Constituição da República. Na mesma esteira, a Carta Magna impõe certas vedações ao magistrado, também fundadas na preservação de sua imparcialidade. Dispõe o art. 95, parágrafo único, incisos I, II, III, IV, V, que os juízes não poderão:
b) receber, a qualquer título ou pretexto, custas ou participação no processo;
e) exercer a advocacia no juízo ou tribunal do qual se afastou, antes de decorridos 3 anos do
Na esfera penal, o Ministério Público é o responsável pela apresentação da pretensão punitiva ao Estado-juiz. Cabe-lhe, exclusivamente, a titularidade da ação penal pública, nos termos do art. 129, inciso I, da Constituição Federal. Em caso de ação penal privada, atua como “custos legis”, ou seja, é o fiscal da lei, zelando por sua boa aplicação. Assim, ou é ele parte (ação penal pública) ou fiscal da lei (ação penal privada), mas sempre é sujeito da ação penal. Quando atua como parte, porém, deve agir com imparcialidade, pois é órgão estatal, incumbido da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis (art. 127, CF). Por esses motivos, não faria sentido o Ministério Público, convencido da inocência de um acusado, levar o pleito de condenação às últimas conseqüências somente por ter legitimidade para figurar no pólo acusador. Acima de tudo ele deve promover a Justiça. Aplicam-se aos membros do Ministério Público as mesmas garantias dos juízes, estudadas acima. A carreira estrutura-se, no âmbito estadual, em promotores de justiça e procuradores de justiça (chefe: Procurador Geral de Justiça), no âmbito federal, em procuradores da república (Procurador Geral da República é o chefe). Nota-se que não há mais a figura do promotor ad hoc, que era designado para atuar em nome do Ministério Público onde não houvesse membro da instituição. Hoje, de acordo com o art. 129, § 2º, da Constituição Federal, somente poderão exercer as funções, membros de carreira, aprovados em concurso público. Além das garantias mencionadas, aplicam-se à carreira alguns princípios institucionais, estabelecidos pela Constituição Federal (art. 127, § 1º):
membro do Ministério Público é parte de um todo unitário; seus membros falam não em
seu nome, mas em nome da instituição. Ressalva deve ser feita em relação ao Ministério
Público Federal e ao Ministério Público Estadual, pois cada um tem uma unidade, isto é, são órgãos distintos, de esfera distinta, a unidade é apenas interna e não entre eles. Decorrência da indivisibilidade é a possibilidade dos membros do Ministério Público serem substituídos uns pelos outros, no decorrer do processo, não existindo vinculação pessoal entre
o promotor de justiça (ou procurador da república) e a causa; a instituição do Ministério Público que é parte e não o promotor em si.
Deve-se lembrar o entendimento que tem sido manifestado pelo Supremo Tribunal Federal, amparada por parte da doutrina, no sentido de ser proibida a designação casual de promotor
de justiça pelo Procurador Geral, por ofender o Princípio do Promotor Natural, correlato ao
b) independência funcional.
Os membros do Ministério Público não estão vinculados à ordem de órgão algum, nem a qualquer Poder do Estado. Mesmo no caso de um promotor substituir outro no mesmo processo, não estará vinculado ao entendimento do colega que o antecedeu. Não há hierarquia funcional na carreira, ou seja, os órgãos do Ministério Público não estão sujeitos à interferência por parte de outros membros do Ministério Público, a ao ser na organização administrativa. Com a Emenda Constitucional nº 45/2004, foi instituído o Conselho Nacional do Ministério Público, responsável pelo controle administrativo e financeiro e pelo cumprimento dos deveres funcionais de seus membros, com fulcro no artigo 130-A da Constituição Federal. Estendem-se a eles, também, no que couber, as prescrições relativas à suspeição e impedimentos dos juízes. Assim sendo, os membros do Ministério Público não funcionarão
em processos e que o juiz ou qualquer das partes for seu cônjuge, ou parente consangüíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, como reza o art. 258 do Código
As vedações aos membros do Ministério Público estão previstas no artigo 128 § 5º II, a, b, c,
d, e; e artigo 128 § 6º c/c com o artigo 95, parágrafo único, V da Constituição Federal, quais
a) receber, a qualquer título ou sob qualquer pretexto, honorários, percentagens ou custas
d) exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo uma de
magistério; e) exercer atividade político-partidária;
f) receber a qualquer título ou pretexto, auxílios ou contribuições de pessoas físicas,
entidades públicas ou privadas, ressalvadas as exceções previstas em lei;
g) exercer a advocacia perante órgão do qual houver se afastado antes de decorridos 3 (três)
anos do afastamento do cargo por aposentadoria ou exoneração. Dentre as funções processuais do Ministério Público, encontram-se: realizar todos os atos processuais; impetrar habeas corpus e recorrer em favor do réu, se for o caso; requisitar instauração de inquérito policial e diligências; exercer o controle externo da atividade policial.
acusado é o sujeito que ocupa o pólo passivo da relação jurídica processual. Via de regra, é
pessoa física, maior de 18 anos. Há possibilidade, contudo, de figurar como acusada pessoa
jurídica, quando acusada da prática de crime contra o meio ambiente (Lei nº 9.605/98).
Na ação penal privada, recebe a denominação de querelado, na ação penal pública é chamado de réu ou acusado.
O art. 259 do Código de Processo Penal dispõe que a incerteza quanto à identificação nominal
do acusado não impedirá o andamento da ação penal, desde que certa a identidade física. A qualquer tempo que se descobrir a sua qualificação, far-se-á a devida retificação, sem prejuízo dos atos já praticados. Já o art. 260 autoriza a condução coercitiva do acusado por ordem do juiz, quando houver necessidade de seu comparecimento para qualquer ato processual. Este dispositivo e criticado por parte da doutrina que entende ser direito do acusado não comparecer aos atos processuais,
se assim for de sua vontade. Se ele tem o direito ao silêncio, o direito de não produzir provas contra si, não faria sentido obrigá-lo a comparecer.
Muito embora o acusado possa exercer a autodefesa no processo, a lei torna indispensável a defesa técnica, desempenhada por profissional habilitado, qual seja, o advogado, pois não haverá contraditório se não houver equilíbrio entre acusação e defesa. Assim sendo, dispõe o art. 261 do Código de Processo Penal que “nenhum acusado, ainda que ausente ou foragido, será processado ou julgado sem defensor”. A esse respeito o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula 523: “No processo penal, a falta de defesa constitui
nulidade absoluta, mas a sua deficiência só anulará se houver prova de prejuízo para o réu”.
A consagração da participação do advogado no processo e na realização da Justiça veio com o
art. 133 da Constituição da República de 1998: “O advogado é essencial à administração da Justiça”. Não se pode esquecer que, se o acusado possuir habilitação técnica, ele mesmo poderá promover sua defesa no processo penal, isto é, não se exige que ele tenha um defensor
técnico, uma vez que ele é um técnico habilitado, podendo, portanto, atuar em causa própria.
O defensor, no processo, pode ser:
a) constituído (ou procurador): o defensor constituído é indicado pelo réu, através de uma procuração. Deve-se lembrar, contudo, que o art. 266 do Código de Processo Penal, dispensa a outorga de procuração, se a constituição de defensor se der no interrogatório. Esta é uma
particularidade importante do processo penal. Em homenagem ao princípio da ampla defesa, deve-se garantir ao acusado que primeiro escolha defensor de sua confiança. Caso não o faça, nomeia-se um através do juízo; b) dativo (ou defensor em sentido estrito): Segundo dispõe o artigo 263 do Código de Processo Penal, o defensor dativo é aquele que é nomeado ao réu, quando ele não possuir defensor constituído. O réu poderá substituí-lo a qualquer tempo.
O defensor dativo não poderá recusar a nomeação, salvo por motivo relevante, como por
exemplo, manter relações de amizade com a vítima (art. 264, CPP).
A respeito, o art. 15 da Lei nº 1.060/50, elenca hipóteses em que estará presente justo motivo
para que o advogado se ausente da causa:
a) estar impedido de exercer a advocacia;
b) ser procurador constituído pela parte contrária ou ter com ela relações profissionais de
interesse atual; c) ter necessidade de ausentar-se da sede do juízo para atender a outro mandato
d) já haver manifestado por escrito opinião contrária ao direito que o necessitado pretende
pleitear;
e) haver dado à parte contrária parecer escrito sobre a contenda.
Note-se que no processo penal não é preciso que o acusado seja financeiramente
hipossuficiente para que lhe seja nomeado um defensor, basta que ele não constitua um, já que
no processo penal não existe processo sem defesa técnica. Se o acusado não for pobre, porém, deverá pagar os honorários do defensor dativo, que serão arbitrados pelo juiz, segundo o artigo 263, parágrafo único, do Código de Processo Penal. Havendo mais de um réu, o juiz deve nomear um defensor para cada um, para evitar colidência de defesa e, assim, prejuízo aos acusados, o que pode ensejar declaração de nulidade.
A ausência do defensor, mesmo que motivada, a um ato do processo não impedirá sua
realização, devendo o juiz nomear substituto, ainda que só para o ato (ad hoc), conforme reza o art. 265, parágrafo único, do Código de Processo Penal. Importante lembrar que para exercer a função de defensor aos acusados que não podem pagar
um advogado, foi criada pela Constituição da República a Defensoria Pública, cuja previsão encontra-se no art. 134 da Carta Magna. A Lei Complementar nº 80/94 regula referido
dispositivo constitucional e organiza a Defensoria. Onde não houver sido instalado o órgão,
ou ele não contar com número suficiente de membros, o Estado deve celebrar convênio com
outros órgãos (OAB, por exemplo) para a efetiva assistência judiciária. Para finalizar, o art. 267 do Código de Processo Penal estabelece que os parentes do juiz estão impedidos de funcionar como defensores no processo, nos termos do art. 252, já estudado acima.
Dispõe o art. 262 do Código de Processo Penal que deverá ser nomeado curador ao acusado
menor. Entende-se, contudo, que os dispositivos do Código que determinam a nomeação de curador
ao réu menor (artigos 15, 262, 449 e 564, III, c, parte final) foram revogados pelo novo
Código Civil, uma vez que, neste (art. 5º), estabelece-se que a maioridade plena é atingida aos 18 anos. Perdeu-se o sentido, portanto, de assistir processualmente aquele que tem entre 18 e 21 anos, sendo que ele é plenamente capaz para exercer todo e qualquer ato da vida civil sozinho. Ressalte-se que o artigo 194 do Código de Processo Penal, que determinava a nomeação de curador ao réu menor quando de seu interrogatório judicial, foi revogado expressamente pela Lei nº 10.792/03. Assim, resta clara a intenção do legislador de adequar às normas processuais à norma civil, no que diz respeito à capacidade, perdendo, portanto, a eficácia, aquelas normas ainda não revogadas.
É o ofendido como parte acessória no processo, figurando ao lado do Ministério Público e em seu auxílio.
O assistente só pode intervir na ação penal pública, seja incondicionada ou condicionada, uma
vez que na ação penal privada o ofendido ou seu representante legal atuam como parte.
É possível identificar na doutrina duas correntes a respeito da finalidade do assistente da
acusação no processo:
a) O assistente faz parte do processo para verdadeiramente tornar mais forte a acusação,
através dos elementos que o ofendido pode levar até o representante do Ministério Público, visando, assim, o fazimento da Justiça;
b) O assistente faz parte do processo única e exclusivamente para garantir o título executivo
que vai lhe possibilitar a reparação do dano.
A legitimidade para figurar como assistente é do próprio ofendido ou de seu representante
legal, ou ainda, na falta, de qualquer das pessoas mencionadas no art. 31 do Código, isto é,
cônjuge, ascendente, descendente ou irmãos – CADI (art. 268, CPP). O co-réu, no mesmo
processo, não poderá ser admitido como assistente (art. 270, CPP). Cumpre esclarecer que, como na maioria das vezes o assistente não possui capacidade postulatória, ou seja, não é habilitado para atuar em juízo, necessita de um advogado para representá-lo. A figura do patrono, então, acaba sendo confundida com a do assistente. É comum no dia-a-dia forense denominar o advogado de “assistente de acusação”, contudo, ele
é “advogado do assistente de acusação” já que quem deva figurar como auxiliar do Ministério
Público é o próprio ofendido ou seu representante legal, conforme o caso, representados pelo
O assistente poderá ser admitido a qualquer tempo, desde que após o recebimento da denúncia
e antes do trânsito em julgado da sentença, recebendo a causa no estado em que se encontra (art. 269, CPP). Não há que se falar, portanto, em sua participação na fase de inquérito policial.
A respeito de sua admissão deve ser ouvido o Ministério Público (art. 272, CPP), porém só
poderá este se opor caso identifique a ausência dos requisitos legais para a habilitação. Não é ato discricionário seu aceitar ou não a participação do ofendido no processo.
O pedido de habilitação só deve ser indeferido se não atendidos os requisitos legais, como por
exemplo, não haver prova do parentesco com o ofendido (CADI), ou, não houver ainda sido recebida a denúncia. Da decisão que indefere a admissão do assistente não cabe recurso, sendo possível, na hipótese, a impetração de Mandado de Segurança.
No que tange ao Tribunal do Júri, se a vítima ainda não habilitada desejar participar da sessão plenária, deverá requerer sua admissão até 3 (três) dias antes do julgamento, segundo dispõe o artigo 447, parágrafo único, do Código.
A atuação do assistente não é totalmente ampla, como pode parecer. Como visto, de plano
receberá ele a causa no estado em que se encontrar. Já o art. 271 do Código de Processo Penal disciplina os atos que ele pode exercer:
a) propor meios de prova, que serão deferidas ou não, após oitiva do Ministério Público;
b) reperguntar às testemunhas, sempre após as reperguntas do Ministério Público;
c) aditar o libelo e as alegações finais do Ministério Público. No caso do libelo a regra tem
por escopo possibilitar a eventual adequação da peça à decisão de pronúncia. No que diz
respeito às alegações, poderá fazer suas considerações, complementando aquelas do órgão
d) participar dos debates orais, sempre após o Ministério Público; e) arrazoar os recursos do Ministério Público, ou dele próprio, contra decisão de impronúncia, de extinção de punibilidade ou sentença absolutória, (art. 584, § 1, e art 598 do CPP). Trata-se, na parte final, de possibilitar ao assistente a interposição de recurso em sentido estrito e apelação supletivos, ainda que não esteja habilitado nos autos, caso o
Ministério Público não recorra. Os recursos supletivos poderão ser interpostos no prazo de 15 dias, caso não estejam o assistente habilitado. Se já estiver, segue-se o prazo previsto normalmente, ou seja, 5 dias.
Se o assistente se mostrar desidioso em sua participação na causa, o juízo está desobrigado a
intimá-lo novamente, nos termos do art. 271, § 2º, do Código.
Os auxiliares da justiça são responsáveis pela realização de tarefas técnicas ou administrativas. Em outras palavras, são responsáveis pelo bom andamento da justiça. Entre eles encontram-se os escreventes, analistas, oficiais de justiça, peritos, intérpretes. Nos termos do art. 274 do Código de Processo Penal, estendem-se aos serventuários e
funcionários da justiça, no que for aplicável, a suspeição dos juízes, cujas hipóteses estão previstas no art. 254 do mesmo Código. Parte da doutrina entende inaplicável o dispositivo em questão, pois os serventuários estão sujeitos às normas disciplinares da Administração, bem como à correição do magistrado. Além disso, os serventuários não praticam atos decisórios, o que não justifica a suspeição.
O Código de Processo também estabelece regras para a atuação dos peritos e intérpretes,
tendo em vista a relevância da função desempenhada por eles, de cunho essencialmente técnico.
O perito pode ser oficial ou nomeado pelo juiz. Oficial é aquele pertencente aos quadros do
Estado, o outro é pessoa com conhecimento técnico na matéria, que vem a ser nomeado pelo
magistrado, na falta daquele. Qualquer um deles está sujeito à disciplina judiciária, ou seja, cumprir fielmente seu encargo, nos termos do art. 275 do Código de Processo Penal. O perito nomeado será obrigado, ainda, podendo incorrer em multa, a (art. 277, CPP):
a) aceitar o encargo, salvo motivo justificável;
b) atender à intimação da autoridade;
c) comparecer no dia e local designados para o exame, sob pena de ser conduzido coercitivamente;
d) apresentar o laudo ou concorrer para que a perícia seja realizada.
Aos peritos estendem-se as causas de suspeição aplicáveis aos juízes (art. 252, CPP). Além
disso, estão elencadas no art. 279 as hipóteses que impedem de exercer a função de peritos:
a) os que estiverem cumprindo pena restritiva de direitos (artigo 47, I e II, do CP);
b) os que tiverem prestado depoimento no processo ou opinado anteriormente sobre o objeto
c) os analfabetos e menores de 21 anos de idade.
Quanto a este último dispositivo, parte da doutrina entende que não perdeu sua aplicação, pois foi intenção do legislador estabelecer idade mínima para a relevante função de perito. Por outro lado, há quem sustente que a perda da eficácia, diante do novo regramento civil, como exposto no tópico “curador do réu menor”. Os intérpretes diante da relevante e essencial função exercida por eles, são equiparados, para todos os efeitos, aos peritos, segundo dispõe o art. 281 do Código de Processo Penal.
É a supressão legal da liberdade de locomoção de alguém. Na esfera penal, importam duas
a) prisão-pena (penal): é a que ocorre após o trânsito em julgado da sentença condenatória; é
o cumprimento da pena imposta, propriamente dito.
b) prisão cautelar (processual, provisória): é a que ocorre antes da sentença condenatória, ou
seja, durante o curso do processo. Por sua vez, pode ser:
- em flagrante;
- decorrente da sentença condenatória recorrível;
- decorrente da decisão de pronúncia.
1.1 Dispositivos constitucionais sobre prisão
a) art. 5º, LXI: só se prende por ordem da autoridade judiciária competente ou em caso de flagrante, salvo transgressão disciplinar militar ou crimes próprios militares;
b) art. 5º, LXII: comunicação da prisão ao juiz e à família do preso;
c) art. 5º, LXVI: direito do preso à identificação do responsável por sua prisão;
d) art. 5º, LXV: a prisão ilegal será imediatamente relaxada pelo juiz;
e) art. 5º, LXVI: ninguém ficará preso se a lei admitir a liberdade provisória, com ou sem fiança.
1.2 Disposições gerais sobre prisão
A prisão no sistema processual brasileiro só pode ser efetuada de duas formas: por mandado
ou em flagrante delito. A nova ordem constitucional não admite a “prisão para averiguação”, agora somente se prende aquele que está cometendo um crime ou aquele contra quem pesa ordem da autoridade judiciária competente. Pode a prisão ser realizada em qualquer dia e qualquer horário, respeitadas as restrições à
inviolabilidade do domicílio (art. 283, CPP). Assim, à noite,só se prende em flagrante ou com consentimento do morador; de dia,em flagrante e por mandado, com ou sem consentimento do morador. Por construção jurisprudencial, considera-se noite o período que vai das 18 às 6 horas.
O Código Eleitoral (Lei nº 4.737/65), no seu art. 236, estabelece que não se admite a prisão de
eleitor desde 05 dias antes até 48 horas depois da eleição, salvo em flagrante delito ou sentença penal condenatória por crime inafiançável. Se o réu estiver em território nacional, porém, em local estranho à jurisdição do juiz que a decretou, dá-se a prisão por precatória. (art. 289, CPP). A precatória deve conter o inteiro teor do mandado de prisão. Em caso de urgência, poderá ser expedido telegrama ou telex. Em caso de perseguição, o executor do mandado pode efetuar a prisão onde quer que se encontre o capturando, desde que no território nacional. (art. 290, CPP).
Prisão especial (art. 295, CPP).
Tem direito à prisão tem direito a ela certas autoridades, ou pessoas em certas condições, como por exemplo: ministros de Estado, governadores, prefeitos, juízes, professores, portadores de diploma universitário, pessoas que tiverem exercido efetivamente a função de
jurado, entre outros. Ela só tem lugar durante a fase processual. Se condenado o sujeito, será transferido para cela comum.
A prisão especial era regulamentada pelo Decreto nº 38.016/55, que previa uma série de
regalias ao preso especial, tais como: visitas a qualquer hora, comida trazida de fora, não
obrigatoriedade de usar uniforme, televisão individual, assistência médica com seu médico de confiança etc.
A Lei nº 10.258/01 trouxe nova redação ao art. 295 do CPP, que passou a regulamentar a
prisão especial. Agora, as únicas regalias de que o preso especial tem direito são:
a) manutenção em estabelecimento distinto, ou em cela distinta dos presos comuns;
b) transporte separado dos presos comuns.
De resto, todos os direito e deveres são os mesmo do que os presos comuns. Há de se ressaltar que boa parte da doutrina se opõe ferrenhamente a tal regalia, reputando-a absolutamente
inconstitucional, por ferir o princípio da igualdade.
O termo “flagrante” vem do latim flagrare, que significa “queimar”, “arder”. É, portanto, o
crime que ainda “queima”, que está sendo cometido ou acabou de ser cometido. É o que alguns autores chamam de “certeza visual do crime”. Para a prisão em flagrante, não há exigência de mandado. É, pois, exceção à regra das prisões. Por esta razão, deve-se observar com muito cuidado a presença das hipóteses legais, bem como as formalidades impostas para sua execução. A prisão em flagrante deve ser realizada pela autoridade policial e seus agentes (compulsória) e pode ser realizada por qualquer do povo (facultativa) – art. 301, CPP.
Espécies (art. 302, CPP):
a) Flagrante próprio (real, verdadeiro): o agente é surpreendido cometendo a infração ou
quando acaba de cometê-la (sem intervalo de tempo). Exemplo: agente efetuando disparos. Agente com arma na mão, fumegando e vítima à sua frente;
b) Flagrante impróprio (irreal, quase-flagrante): ocorre quando o agente é perseguido logo
após cometer o ilícito, em situação que faça presumir ser ele o autor da infração. Por logo após, deve-se entender o tempo necessário para colheita de informações e início da
perseguição. Exemplo: agente que subtraiu bem e cuja descrição foi feita aos policiais está ainda nas redondezas, tentando fugir.
c) Flagrante presumido (ficto): ocorre quando o agente é preso logo depois de cometer uma
infração penal, com instrumentos, armas, objetos ou papéis, que façam presumir ser ele o autor da infração. Por logo depois, deve-se entender período de tempo um pouco maior que o anterior, necessário a algumas diligências no sentido de se localizar o autor do fato. Exemplo:
sujeito que é encontrado com o dinheiro do roubo e as armas que empregou na prática do crime. d) Flagrante retardado (diferido, prorrogado) – Lei nº 9034/95: é aquele onde o agente policial pode aguardar para efetuar a prisão em momento mais oportuno do ponto de vista da
produção de provas e fornecimento de informações, em ações de organizações criminosas. Exemplo: policial que se infiltra em organização criminosa e aguarda para prender mais indivíduos ou o chefe. Há dispositivo semelhante na Lei nº 11.343/06 – Lei de Drogas.
Espécies ilegais:
a) Flagrante preparado ou provocado: nele aquele que pretende efetuar a prisão de alguém,
induz esse alguém a praticar um delito, justamente para poder prendê-lo. O agente que efetua
a prisão é quem provoca o ato criminoso. Segundo a Súmula 145 do Supremo Tribunal
Federal, há crime impossível. Exemplo: policial pede droga a um cidadão que vai buscar e traz para ele, recebendo voz de prisão pela venda. b) Flagrante forjado: policiais ou particulares criam provas de um crime inexistente. Na realidade, “inventa-se” um crime. Exemplo: colocar arma de uso proibido dentro do carro de alguém.
Flagrante nos crimes:
a) permanentes: enquanto não cessar a permanência, o agente encontra-se em estado de
flagrância (art. 303, CPP);
b) habituais: em tese não cabe, pois depende da reiteração de conduta, não sendo possível
identificar se o ato foi de preparação, execução ou consumação. Porém, parte da doutrina
entende ser possível se houver elementos que indiquem a reiteração de condutas, como investigação prévia;
c) de ação penal privada: o ofendido deve requerer a prisão ou ratificá-la dentro do período
de entrega da nota de culpa.
Impossibilidade de flagrante:
a) não se prende em flagrante quem se apresenta espontaneamente (art. 317, CPP, a contrario
sensu);
b) não se prende em flagrante o agente que socorre a vítima de acidente de trânsito (art. 301,
Lei 9503/97);
c) não se prende em flagrante o autor de infração de menor potencial ofensivo que assumir o
compromisso de comparecer ao Juizado Especial Criminal, quando intimado (art. 69, parágrafo único).
Auto de prisão em flagrante (art. 304, CPP):
É o documento que formaliza a prisão em flagrante. Como tal modalidade de prisão dispensa
o mandado, a materialização do ato deve observar todas as formalidades impostas pela lei, sob pena de invalidação.
Etapas para a elaboração do auto:
1) Antes da lavratura, a autoridade deve comunicar a família do preso ou quem ele indicar
(art. 5º, LXIII, CF);
Oitiva do condutor, colheita de sua assinatura e entrega do recibo de entrega de preso;
Oitiva da vítima, se for possível;
4) Oitiva de pelo menos 2 testemunhas que tenham acompanhado o condutor e colheita de
suas assinaturas. Se não houver, devem assinar o auto 2 testemunhas que tenham presenciado
a apresentação do preso à autoridade.
5) Oitiva do preso, alertando-o de seu direito ao silêncio e observando-se, no que couber, os
dispositivos do interrogatório judicial. Se o preso não souber, não puder ou se recusar a assinar, 2 testemunhas assinarão após a leitura, em sua presença.
6) Encerrada a lavratura, cópia do auto será encaminhada ao juiz no prazo de 24 horas, a
contar da prisão. No mesmo prazo deve ser enviada cópia à Defensoria Pública, se o preso não tiver declinado possuir advogado.
No prazo de até 24 horas após a prisão, deverá ser entregue a nota de culpa ao preso (art. 306,
§ 2º, CPP), que indicará o motivo da prisão, o nome do condutor e das testemunhas. A falta de entrega no prazo estipulado, pode trazer o relaxamento da prisão.
2.2 Prisão preventiva (arts. 311 a 316)
É a prisão decretada pelo juiz durante o inquérito policial ou a ação penal, sempre que estiverem presentes os requisitos legais. Pode ser decretada pelo juiz de ofício, ou mediante requerimento do Ministério Público ou representação do Delegado de Polícia. O despacho que a decreta deve ser devidamente fundamentado (art. 315, CPP).
Motivos autorizadores (requisitos):
1. Garantia da ordem pública: a prisão tem a finalidade de impedir que o agente solto
continue a delinqüir; de acautelar a sociedade nos casos em que se verifique a periculosidade do agente. Deve-se anotar que o Superior Tribunal de Justiça tem mantido o entendimento de que a gravidade da infração, por si só, não autoriza a decretação da prisão preventiva;
2. Conveniência da instrução criminal: visa impedir que o agente perturbe ou impeça a
produção de provas, apagando vestígios, ameaçando testemunhas etc.;
3. Garantia da aplicação da lei penal: diz respeito à fundada suspeita de iminente fuga do
agente do distrito da culpa; 4. Garantia da ordem econômica: é uma repetição do quesito garantia da ordem pública, que foi acrescentado pela Lei 8884/94 – Lei Antitruste. Deve ser verificado em casos que tragam grave perturbação da ordem econômica, financeira etc.
Condições de admissibilidade (art. 313, CPP):
a) Crimes dolosos apenados com reclusão, podendo ser decretada em crimes apenados com
detenção se o réu for vadio ou tiver identidade duvidosa ou se tiver condenação por outro
b) Crimes que envolverem violência doméstica e familiar contra a mulher, para garantir a
execução das medidas protetivas de urgência.
Decretação da prisão preventiva:
Todos os pressupostos
Um dos motivos autorizadores (ao menos)
Uma das condições de admissibilidade (ao menos)
A prisão preventiva poderá ser revogada se desaparecerem os motivos que autorizaram sua decretação (art. 316, CPP).
2.3 Prisão temporária (Lei nº 7.960/89)
É a prisão cautelar imposta por tempo determinado, destinada a possibilitar as investigações a respeito de crimes graves, durante o inquérito policial. Só pode ser decretada pelo juiz mediante representação da autoridade policial ou requerimento do Ministério Público, ou seja, não pode o magistrado decretá-la de ofício. O juiz tem prazo de 24 horas para decidir.
1) Imprescindibilidade da medida para as investigações no Inquérito Policial; 2) Não ter o indiciado residência fixa ou não fornecer dados esclarecedores de sua identidade; 3) Fundadas razões de autoria ou participação nos seguintes crimes:
- seqüestro ou cárcere privado;
- extorsão mediante seqüestro;
- rapto violento (revogado - agora é seqüestro qualificado);
- envenenamento de água potável ou substância alimentícia ou medicinal com resultado morte;
- quadrilha ou bando;
- crimes contra o sistema financeiro.
Discute-se se os requisitos são cumulativos ou alternativos. A posição que prevalece é a de que deve somar-se ao terceiro requisito um dos dois primeiros, ou seja, a prisão temporária só em cabível em relação aos crimes elencados, quando conjugados com um dos outros dois requisitos.
Decretação da prisão temporária:
requisito 1 + requisito 3
requisito 2 + requisito 3
Os prazos, para a duração da prisão temporária são de 5 dias, para crimes não hediondos, e 30 dias, para crimes hediondos, podendo ser prorrogados uma única vez, em caso de extrema e comprovada necessidade.
Decorrido o prazo legal, o preso deve ser colocado em liberdade, salvo se tiver sido decretada
a sua prisão preventiva. Além disso, o preso temporário deve ficar separado dos demais detentos.
2.4 Prisão decorrente da sentença condenatória recorrível (art. 594, CPP)
A sentença condenatória, ainda que recorrível, traz como conseqüência a imposição de prisão
ao acusado, por já haver se formado um juízo de valoração a respeito de sua conduta.
O juiz deixará de impor a prisão, porém, se o réu for primário e ostentar bons antecedentes.
2.5 Prisão decorrente da decisão de pronúncia (art. 408, CPP)
Ao final da primeira fase no rito escalonado do júri, se sobrevier decisão de pronúncia, deve o juiz determinar a prisão do acusado até o julgamento em plenário. Da mesma forma que na modalidade anterior, poderá o juiz abster-se de decretá-la se o acusado for primário e tiver bons antecedentes.
3. Liberdade Provisória (art. 321 e seguintes, CPP)
É o instituto processual que garante ao acusado o direito de aguardar o curso do processo em
liberdade. Não é admitida a liberdade provisória nos crimes de lavagem de dinheiro, de tráfico de drogas e assemelhados e nos ligados a organizações criminosas. Anote-se que a proibição que existia em relação aos crimes hediondos não mais persiste, em razão da alteração da Lei nº 8.072/90, promovida pela Lei nº 11.464/07. Da mesma forma, a proibição de liberdade provisória aos crimes de porte ilegal de arma de fogo de uso proibido, comércio ilegal de arma de fogo e tráfico internacional de arma de fogo, foi afastada por decisão do Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Adin 3.112-1.
3.1 Hipóteses em que o acusado livra-se solto (art. 321, CPP)
Ocorrem, desde que o acusado não seja vadio ou reincidente em crime doloso, nos casos de:
a) a infração não ser punida com pena privativa de liberdade (art. 20, LCP); b) infração punida com pena privativa de liberdade que não exceda a 3 meses (art. 150, caput, CP). Deve-se ressaltar que, com o advento do Juizado Especial Criminal tais hipóteses hoje são bastante raras, uma vez que não se impõe prisão em flagrante aos autores de infração de menor potencial ofensivo que se comprometem a comparecer ao Juizado quando intimados.
3.2 Liberdade provisória sem fiança (art. 310, CPP)
O juiz deve conceder a liberdade provisória independente do pagamento de fiança quando:
a) verificar que o acusado agiu amparado por causa excludente de ilicitude (art. 310, caput);
b) verificar que não se encontram presentes os motivos autorizadores da prisão preventiva
(art. 310, parágrafo único, CPP). Aqui pouco importa se a infração é afiançável ou inafiançável, o que importa é a verificação
dos requisitos legais. A liberdade provisória sem fiança, como adiantado, só pode ser concedida pelo juiz, após oitiva do Ministério Público. Caso concedida, o acusado ficará vinculado ao juízo através da assinatura de termo de comparecimento aos atos processuais, sob pena de revogação.
3.3 Liberdade provisória com fiança (art. 323 e segs., CPP)
Fiança é uma caução destinada a garantir o cumprimento das obrigações processuais pelo réu. Seu mecanismo consiste em depositar determinada quantia como garantia da liberdade do acusado durante o processo. Seu valor será definido de acordo com a pena cominada ao crime, conforme previsto no art. 325, CPP, e será fixada em salários-mínimos de referência, que foram substituídos pelo também já extinto Bônus do Tesouro Nacional (BTN). Hoje, calcula-se a fiança tomando-se o último BTN e atualizando-o através da TR (Taxa Referencial). Pode ser reduzida até 2/3 ou aumentada até o décuplo pela avaliação da situação econômica do réu. O réu pobre será dispensado da fiança (art. 350, CPP).
A fiança poderá ser feita através de depósito (dinheiro, pedras preciosas, títulos da dívida
pública) ou através de hipoteca (art. 330, CPP).
O Código de Processo Penal traz as hipóteses em que não deverá ser concedida fiança, ou
seja, trata da inafiançabilidade. Se a infração não se encaixar nas hipóteses relacionadas, ela é
Não se concederá fiança:
a) em crimes punidos com reclusão, cuja pena mínima seja superior a 2 anos;
b) nas contravenções penais de vadiagem e mendicância (arts. 59 e 60, Dec. Lei 3688/41);
c) nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade, se o réu já tiver sido condenado por outro crime doloso, com trânsito em julgado;
d) se houver prova de ser o réu vadio;
e) nos crimes punidos com reclusão que provoquem clamor público ou que tenham sido
cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa;
f) a quem tiver quebrado fiança ou desrespeitado obrigação no mesmo processo;
g) em caso de prisão civil, disciplinar, administrativa ou militar;
h) a quem estiver no período de prova de sursis ou livramento condicional, salvo de o novo
processo for por crime culposo ou contravenção penal; i) quando presentes os motivos que autorizem a decretação da prisão preventiva.
São também inafiançáveis os crimes de racismo, hediondos, tráfico ilícito de entorpecentes, terrorismo, tortura, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático, por disposição constitucional.
A autoridade policial pode conceder fiança nos casos de crimes apenado com detenção e
prisão simples (art. 322), lembrando o disposto na Lei nº 9.099/95.
São obrigações do acusado que presta fiança (arts. 327 e 328, CPP):
a) comparecer aos atos do processo;
b) comunicar ao juiz mudança de residência ou ausência da comarca por mais de 8 dias. Em caso de absolvição a fiança será devolvida integralmente ao acusado (art. 337, CPP). Se condenado, o valor será restituído descontando-se o valor das custas, da reparação do dano e da multa, se for o caso. Na hipótese do réu não cumprir as obrigações impostas, ocorrerá a quebra da fiança, importando na perda da metade de seu valor e na necessidade de recolher-se à prisão (arts. 341 a 343, CPP). Caso o acusado for condenado e não se apresenta à prisão, ocorrerá a perda da fiança, circunstância em que ele perderá todo o valor depositado (art. 344, CPP).
É o ato pelo qual o juiz extingue o processo, decidindo ou não o mérito da causa. Tomando-se
esta definição, que é de sentença stricto sensu, no Processo Penal podemos classificá-las em:
a) condenatórias: quando julgam procedente, total ou parcialmente, a pretensão punitiva. São
seus efeitos: a prisão do réu, se for o caso; inserção do nome do réu no rol dos culpados, após
o trânsito em julgado; gerar reincidência e repercutir em outros institutos penais, como livramento condicional e sursis; obrigação de reparar o dano;
b) absolutórias: quando não acolhem o pedido da condenação. Têm como efeitos: colocação
imediata do réu em liberdade, se preso; devolução da fiança, se prestada; levantamento de medida assecuratória, se imposta. As sentenças absolutórias dividem-se em:
- próprias: não acolhem a pretensão punitiva, não impondo qualquer sanção ao acusado (art. 386, CPP); - impróprias: não acolhem a pretensão punitiva, mas impõem ao réu medida de segurança.
Ao prolatar decisão absolutória, o juiz está vinculado a uma das hipóteses previstas no art. 386 do Código de Processo Penal. São elas:
1) Estar provada a inexistência do fato. Trata-se de prova de que o fato, materialmente, não
2) Não estar provada a existência do fato. Hipótese diferente da anterior, pois aqui, as provas
não foram suficientes para afirmar a inexistência do fato;
3) Não constituir o fato infração penal. Um fato existiu no mundo real, porém, não é considerado crime. Hipótese de fato atípico;
4) Não haver prova de ter o réu concorrido para a infração penal. Não se conseguiu provar,
aqui, a autoria delitiva;
5) Existir circunstância que exclua o crime ou isente de pena o réu. Hipótese de se verificar a
existência de causas excludentes de ilicitude e excludentes de culpabilidade;
6) Não existir prova suficiente para a condenação. Neste caso, as provas não são seguras de
modo a amparar decisão condenatória.
c) terminativas de mérito: julgam o mérito, mas não condenam nem absolvem o réu, como
por exemplo na que declara a extinção da punibilidade.
a) Relatório (art. 381, I e II, CPP): é um resumo de tudo o que foi praticado no processo.
Deve conter, resumidamente, as teses desenvolvidas pelas partes, sob pena de nulidade. Lembre-se que nas infrações apuradas com base na Lei nº 9.099/95, é dispensado o relatório.
b) Motivação (art. 381, III): é o requisito pelo qual o juiz está obrigado a indicar os motivos
de fato e de direito que o levaram a tomar a decisão. Aqui deve o juiz analisar aprofundadamente todas as alegações das partes, sob pena de nulidade. Não deve descrevê-las demoradamente, mas analisá-las a fundo.
c) Conclusão (art. 381, IV e V, CPP): é a conclusão do juiz, decidindo a causa. Aqui, deve
mencionar a indicação dos artigos de lei aplicados, sob pena de nulidade, caso não o faça.
O Princípio da Correlação estabelece que deve haver adequação entre o fato narrado na
denúncia e aquele pelo qual o réu é condenado; é um princípio garantidor do direito de defesa
do acusado. Para que exista a devida correlação, prevê o Código de Processo dois institutos que devem ser observados pelo magistrado, de acordo com o que o caso exigir. É o que veremos a seguir.
2.1 Emendatio libelli (art. 383, CPP)
O juiz pode dar aos fatos narrados na denúncia ou queixa, classificação jurídica diversa,
daquela constante na peça inicial, mesmo que tenha de aplicar pena mais grave. Não se altera
a acusação, mas apenas se corrige a capitulação legal que o autor da ação atribuiu ao fato.
Não há, também, que se falar em prejuízo para a defesa, pois, o réu se defende dos fatos e não
da classificação legal. Pode, também, ser feita em 2º grau, salvo se o recurso for exclusivo da
defesa, pois é vedada a reformatio in pejus. Exemplo: a denúncia narra que o sujeito, empregando violência, empurrou e arrebatou a corrente do pescoço da vítima, tendo o promotor classificado o fato como furto. Nada impede que o juiz corrija a classificação jurídica para como roubo e condene o réu por tal delito.
2.2 Mutatio libelli (art. 384, CPP)
Aqui não ocorre apenas mudança na capitulação do delito, mas implica o surgimento de uma
prova nova de circunstância elementar não contida na inicial, que altera definição do fato. Nesse caso, podem surgir 2 hipóteses:
a) se forem fatos que importam em aplicação da mesma pena ou pena menos grave que a
anteriormente prevista, o juiz deverá abrir vista para a defesa, pelo prazo de 8 dias, a qual
poderá arrolar até 3 testemunhas. Exemplo: acusado é processado pelo crime de receptação,
pois sabia estar na posse de carro objeto de roubo. Com a nova prova, verifica-se que ele não sabia exatamente, mas deveria saber. O fato passou de doloso para culposo, ensejando a medida em estudo;
b) se forem fatos que indiquem a ocorrência de crime mais grave, o juiz deverá abrir vista ao
Ministério Público, pelo prazo de 3 dias, para aditar a denúncia. Após, será aberta vista à
defesa, pelo mesmo prazo, podendo arrolar até 3 testemunhas. Exemplo: o acusado é
processado pela prática do crime de receptação, pois estava na condução de veículo objeto de roubo. Em audiência, a vítima o reconhece como o autor da própria subtração. O fato passou a ser o roubo, que implica pena bem mais grave.
A mutatio libelli não pode ser aplicada em 2ª Instância, conforme Súmula 453 do STF. Em
caso de recusa do promotor em aditar a denúncia, deverá ser aplicado o art. 28, por analogia.
Rito ou procedimento é uma seqüência ordenada de atos dirigidos a um provimento final. No processo penal os ritos são definidos pela modalidade de pena cominável ao delito. Assim, temos:
Rito ordinário, para crimes apenados com reclusão que não exijam rito especial; Rito sumário, para crimes apenados com detenção, cuja pena máxima seja superior a dois anos; Rito sumaríssimo, para infrações penais, cuja pena máxima não ultrapasse dois anos; Rito do júri, para os crimes dolosos contra a vida; Ritos especiais, previstos no CPP, como o rito dos crimes cometidos por funcionários públicos, e previstos em leis especiais, como o rito dos crimes de tráfico de drogas e assemelhados. Vejamos os principais.
1. Rito Ordinário (arts. 394-405 e 498-502, CPP)
É rito destinado às infrações mais graves do ordenamento, ressalvadas aquelas que possuem
rito especial, como os crimes dolosos contra a vida. Possui as seguintes fases:
- Oferecimento da denúncia/queixa
- Recebimento da denúncia/queixa (ou rejeição)
- Oitiva de testemunhas de acusação
- Oitiva das testemunhas de defesa
- Requerimento de diligências
denúncia/queixa), analisaremos os restantes.
É o chamamento do réu a juízo, cientificando-o da acusação, para que se defenda. É ato
indispensável. Sua falta acarreta nulidade absoluta, mas o comparecimento do réu a juízo supre a sua falta ou ausência (art. 570, CPP). Contudo, tem prevalecido o entendimento que
para o comparecimento do réu suprir a falta de citação, isso deve acontecer com tempo hábil para tomar efetivamente ciência da imputação e entrevistar-se com advogado.
A citação pode ser pessoal (ou real) ou ficta (ou presumida).
Pessoal ou real é aquela feita diretamente ao acusado, através de oficial de justiça, que lê o mandado e colhe sua assinatura, entregando-lhe cópia. Se o acusado estiver no território nacional, em local certo e sabido, porém fora da comarca processante, deverá ser feita a citação através de carta precatória. Se estiver ele no estrangeiro, em local certo e sabido, será citado por carta rogatória

References: artigo 593
 artigo 37
 artigo 39
 artigo
150
 artigo 153
 artigo 130
 artigo 128
 artigo 128
 artigo 95
 artigo 263
 artigo 263
 artigo 194
 artigo 447