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⭐Ser cuidador: um estudo sobre a satisfação do cuidador formal de idosos
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Ana Clara Borja Aldeia
1 Ser cuidador: um estudo sobre a satisfação do cuidador formal de idosos Maria Eduarda Machado Melo Ferreira Dissertação apresentada à Escola Superior de Educação de Bragança para a obtenção do Grau de Mestre em Educação Social Orientada por: Professora Doutora Sofia Marisa Alves Bergano Bragança Novembro, 20122 3 4 5 Dedicatória Aos meus pais, À minha avó iii6 7 Agradecimentos Aos meus pais por me possibilitarem todo o percurso académico, pelo estímulo, compreensão e orgulho demonstrado. À minha avó que me possibilitou saber a importância do acto de cuidar e do carinho que daí advém. À professora Doutora Sofia Bergano pelo seu saber científico, apoio e disponibilidade constante. Aos cuidadores participantes nesta investigação, pela disponibilidade e testemunhos enriquecedores que permitiram a realização deste estudo. À Direcção da Instituição selecionada pela autorização concedida ao pedido de realização das entrevistas assim como do apoio e disponibilidade demonstrada. À investigadora Ana Luísa Barbosa pela disponibilização de um artigo solicitado. À minha amiguinha pela partilha de saberes e amizade demonstrada. A todos os professores em geral pelos seus ensinamentos ao longo dos cinco anos de percurso académico. v8 9 Resumo O envelhecimento populacional é uma questão cada vez a ganhar mais destaque, o que se comprova pelo número de investigações referentes aos problemas que este facto acarreta para a sociedade. Isto leva a uma necessidade de entender o papel do cuidador de idosos como figura central de apoio à velhice. O estudo da satisfação do cuidador formal no exercício da sua profissão assumiu-se como um tema inovador sendo importante na medida em que poderá abrir caminho a futuras investigações que possibilitem criar novas ferramentas que auxiliem ao bem-estar deste profissional. O objectivo principal desta investigação é compreender a profissão de cuidador formal de idosos procurando identificar factores de satisfação provenientes do cuidado/contacto com o idoso. Neste sentido este trabalho insere-se numa investigação qualitativa tendo como desenho de investigação o estudo de caso. Primeiramente procedeu-se a uma revisão bibliográfica alusiva ao tema, seguido de uma descrição da metodologia. O grupo de participantes consistiu em nove cuidadores de idosos cuja profissão se insere nas categorias de Ajudante de Acção Directa e Trabalhadores auxiliares (Serviços Gerais), sendo utilizada a técnica de entrevista semiestruturada para recolha dos dados. Os testemunhos dos cuidadores foram tratados recorrendo à análise de conteúdo. Por fim, foram discutidos os resultados obtidos tendo por base uma análise crítica. No que concerne às principais conclusões do nosso estudo podemos referir que o grupo de participantes possui um forte sentido de trabalho em equipa o que contribui para evitar situações de cansaço físico e emocional; na sua maioria, os cuidadores conseguem fazer uma separação entre a vida pessoal e profissional; existem dificuldades de entendimento entre os cuidadores e os idosos, porém as situações mais complicadas são por norma ultrapassadas, devido a uma compreensão, por parte de quem cuida, das características do idoso institucionalizado; a questão do falecimento é frequentemente apontada como situação mais difícil de enfrentar; e ocorre inevitavelmente um estabelecimento de laços afectivos entre os cuidadores e os idosos. Assim, feita uma análise global dos testemunhos dos entrevistados comprovou-se que a satisfação está efectivamente presente no ambiente profissional, sendo este aspecto crucial para a qualidade de vida do cuidador formal de idosos. vii10 11 Abstract Population aging is an issue increasingly gaining more prominence, as evidenced by the number of inquiries regarding the "problems" that this entails for society. This leads to a need to understand the role of caregiver for the elderly as the central figure of support in old age. Thus, the study of caregiver satisfaction in the exercise of his profession was seen as an innovative and important as it may open the way to new investigations that allow to create new tools that assist the welfare of this person. The main objective of the research is to understand the profession of elderly caregiver for the elderly seeking to identify factors of satisfaction from the care / contact with the elderly. In this sense this work is part of a qualitative research and as a case study. First we proceeded to a literature review on the theme, followed by a description of the methodology. The group of participants consisted of nine caregivers of the elderly whose profession falls under the categories of Direct Action Helper and Auxiliary Workers (General Services), using the technique of semi-structure interview. The testimonies of the caregivers were treated using the content analysis. Finally, we discuss the results based on a critical analysis. Regarding the main conclusions of our research we can say that our group of participants has a strong sense of team work which contributes to avoid situations of physical and emotional exhaustion; mostly caregivers can separate their personal and professional lives; there are some difficulties in communication between the caregivers and the elderly, however the most difficult situations are usually overcome due to the caregivers s understanding of the characteristics of institutionalized elderly; the matter of death is frequently seen as the most difficult situation to face; and a relationship is inevitably established between the caregivers and the elderly. Thus, after having proceeded to a global analysis of the interviewees's responses, it was shown that satisfaction is definitely present in the professional environment, which is a crucial aspect to ensure the quality of life of both the caregivers and the elderly. ix12 13 Índice Geral Introdução... 1 Parte I Enquadramento Teórico... 5 Capítulo I - Ser idoso em Portugal A realidade demográfica portuguesa As novas mudanças na estrutura familiar As políticas sociais de apoio à Terceira Idade O idoso e a Institucionalização Capítulo II - Cuidar de idosos O cuidador formal de idosos e o cuidador informal de idosos As dificuldades inerentes à profissão O envelhecimento na perspectiva do cuidador Os aspectos positivos do acto de cuidar Parte II Investigação Empírica Capítulo I Concepção, Planeamento e Caracterização Metodológica da Investigação A Investigação qualitativa como opção metodológica A credibilidade e a fidelidade na investigação qualitativa Desenho de Investigação: O estudo de caso A Técnica de recolha de dados: entrevista semiestruturada O tratamento da informação recolhida: a opção pela análise de conteúdo Capítulo II - Metodologia Objectivos do estudo Selecção e Caracterização dos Participantes Caracterização do grupo de participantes Técnica de recolha de dados O processo de construção do guião de entrevista semiestruturada A entrevista As questões éticas emergentes no estudo Capítulo III - Construção das categorias de análise Categorias, subcategorias e indicadores Capítulo IV Apresentação, análise e discussão dos resultados Análise da categoria Formação Motivo para trabalhar na área do cuidado ao idoso xi14 1.2 Adaptação à tarefa de cuidador Áreas de formação/cursos que o cuidador possui Utilidade das formações Desejo de investir mais na formação Áreas de futura formação de interesse dos cuidadores Análise da categoria Tarefas Cuidados que desempenha na Instituição Tarefa que dá mais prazer em desempenhar Tarefa mais desagradável/difícil para o cuidador Trabalho em equipa na Instituição Análise da categoria Cuidado ao idoso Relacionamento dos cuidadores com os idosos Associação entre o cuidar de idosos e a sua perspectiva de futuro Análise da categoria Dificuldades Dificuldades no cuidado ao idoso Momento(s) mais complicado(s) no decorrer da profissão Profissão como factor que influencia a vida privada Análise da categoria Satisfação com a profissão Profissão como potenciadora de benefícios pessoais Trabalho desempenhado pelo cuidador como aspecto apreciado pelo idoso/família do idoso/direcção e restante equipa Satisfação do cuidador relacionado com o bem-estar do idoso Conclusão Referências Bibliográficas Anexos Anexo 1 Guião de entrevista Anexo 2 Descrição das Profissões dos entrevistados Anexo 3 Termo de Consentimento livre e esclarecido Anexo 4 Análise de conteúdo das entrevistas... 9415 Índice de figuras 1 Figura 1 - Índice de envelhecimento em Portugal: Figura 2- Pirâmide etária (segundo diferentes cenários), Portugal, Pág. Índice de Tabelas 2 Pág. Tabela 1 - Cenários para a evolução da população nas principais Respostas Sociais para idosos com alojamento Tabela 2 - Evolução de algumas respostas sociais no período de Tabela 3 Caracterização individual do grupo de participantes...45 Tabela 4 Organização da categoria Formação Tabela 5 Organização da categoria Tarefas...50 Tabela 6 Organização da categoria Cuidado ao idoso..50 Tabela 7 Organização da categoria Dificuldades...51 Tabela 8 Organização da categoria Satisfação A numeração das figuras é contínua em todo o trabalho. 2 A numeração das tabelas é contínua em todo o trabalho. xiii16 17 Introdução 118 19 Introdução A nova realidade demográfica do nosso país apresenta-nos um Portugal envelhecido, onde situações de isolamento social e abandono de idosos são uma triste realidade. As novas alterações na estrutura familiar, em que grande parte das famílias, devido aos mais variados aspectos transferem o cuidado do idoso para Instituições Sociais ao serviço da população idosa, é uma realidade que leva à necessidade cada vez maior de apostar em profissionais com uma formação pessoal e profissional que propicie às pessoas idosas uma qualidade de vida assim como o bem-estar da população com a qual diariamente trabalham. Neste âmbito o presente trabalho centra-se no cuidador formal de idosos. A tarefa de cuidador formal exige um esforço físico e mental e, como tal, acarreta as suas dificuldades. No entanto parece-nos pertinente também a reflexão em torno da satisfação que dela pode advir. Assim, devemo-nos questionar: será que o desempenho desta profissão pode ser também uma fonte de satisfação? A necessidade de perceber quais as motivações pessoais para ser cuidador e quais os aspectos positivos que o contacto destes profissionais com uma população rica em histórias de vida, traz para as sua próprias vidas, para o encarar do seu próprio futuro e para a forma como vêem o idoso são questões de forte relevância para a investigação social. Deste modo, o objectivo principal do estudo é compreender a tarefa de cuidador formal de idosos procurando identificar factores de satisfação provenientes do cuidado/contacto com o idoso. A motivação para a investigação neste âmbito justifica-se pelo facto de grande parte das investigações se focalizarem no cuidador informal de idosos, em especial nos aspectos negativos da tarefa de cuidador, havendo assim uma escassez em estudos que incidam no cuidador formal e em especial nos aspectos positivos da sua profissão. Quanto à estrutura, o presente trabalho encontra-se organizado em duas partes. Na primeira parte encontra-se a fundamentação teórica. O enquadramento teórico apresenta-se dividido em dois capítulos, começando pela temática Ser idoso em Portugal composto pelas seguintes secções: A realidade demográfica portuguesa; As novas mudanças na estrutura familiar; As políticas sociais de apoio à Terceira Idade; e O idoso e a Institucionalização. A segunda temática centra-se na análise do Cuidador de idosos e, neste âmbito serão abordadas questões relativas: à comparação entre O 320 Ser cuidador: um estudo sobre a satisfação do cuidador formal de idosos cuidador formal de idosos e o cuidador informal de idosos; As dificuldades inerentes à profissão; O envelhecimento na perspectiva do cuidador; e Os aspectos positivos do acto de cuidar. Na segunda parte deste trabalho apresenta-se a Investigação Empírica estando esta dividida em quatro capítulos. No primeiro Concepção, Planeamento e Caracterização Metodológica da Investigação é abordada: A investigação qualitativa como opção metodológica; A credibilidade e a fidelidade na investigação qualitativa; O desenho da Investigação - o estudo de caso; A técnica de recolha de dados entrevista semiestruturada; e O tratamento da informação recolhida- a opção pela análise de conteúdo, visto terem sido estes os métodos e as técnicas utilizadas. O segundo capítulo incide sobre a Metodologia com a descrição dos objectivos do trabalho, a selecção e a caracterização dos participantes, a criação do guião de entrevista, o decorrer da entrevista e por fim as questões éticas emergentes do estudo. O capítulo 3 exemplifica a Construção das Categorias de análise e por fim, o capítulo 4 dá pelo nome de Apresentação, Análise e discussão dos resultados, tendo como base as Categorias e Subcategorias identificadas. Por fim, são ainda referidas as Considerações Finais, destacando-se os principais resultados da investigação, propondo-se uma análise reflexiva em torno das suas principais implicações para o campo de intervenção social na prestação de cuidados à população idosa. Esta investigação pretende fazer uma abordagem do cuidador formal de idosos tendo como principal foco a percepção do mesmo sobre a sua profissão, o que vai desde a sua motivação para o ser, passando pelo descrever do seu dia-a-dia (tendo como referência, em especial, o relacionamento que estabelece com o idoso) até à perspectiva pessoal do futuro como idoso, tendo como propósito recolher testemunhos que revelem níveis de satisfação provenientes da sua profissão. Simultaneamente pretende aprofundar conhecimentos na área de intervenção da Educação Social, designadamente através da formação de cuidadores, na organização de recursos humanos nas Instituições de acolhimento a idosos, no auxílio dos cuidadores para enfrentar situações de falecimento dos idosos, entre outros aspectos. 421 Parte I Enquadramento Teórico22 23 Capítulo I - Ser idoso em Portugal O envelhecimento populacional é um fenómeno que se verifica não apenas ao nível da realidade portuguesa mas com proporções mundiais, o que se justifica, entre outros aspectos, pela melhoria das condições de vida e consequente aumento da esperança média de vida. De acordo com Fragoso (2008) é perante esta nova realidade que existe, cada vez mais, uma necessidade de (re) organização não apenas da sociedade em geral mas igualmente ao nível dos padrões pessoais, familiares e profissionais. Assim, novas políticas públicas de ambiente laboral, de saúde e de segurança social são urgentes na medida em que permitam auxiliar esta população em constante crescimento e as suas famílias. O envelhecimento é um processo normal da vida, assim como a infância, a adolescência e a adultez e como em todas estas, a pessoa sofre alterações a nível biopsicossocial, variando, estas alterações, de indivíduo para indivíduo, sendo que as mudanças não são apenas geneticamente determinadas, pois o estilo de vida adoptado é também um aspecto essencial neste processo (Vieira, 1996, citado por Kawasaki e Diogo, 2001). Um aspecto de relevância inegável é que o aumento da esperança média de vida leva a um inevitável aumento da prevalência de distúrbios mentais e doenças crónicas na população idosa, visto que o idoso, com as inevitáveis perdas provenientes do processo de envelhecimento, é um ser mais vulnerável a doenças. Deste modo, com o envelhecimento, pode ocorrer um agravamento do estado de saúde, o que pode levar a um comprometimento da qualidade de vida da pessoa idosa (Vieira et al., 2011). O aumento de situações de doença crónica é assim uma realidade que necessita de ser tida em conta, pois a mesma leva a um comprometimento da autonomia dos idosos (Nascimento e colaboradores, 2008, citados por Vieira et al., 2011). Assim, não é apenas suficiente propiciar meios que possibilitem o aumento da esperança média de vida, mas, na eventualidade do aparecimento de situações de doença, possibilitar os meios necessários (físicos, humanos, entre outros) de prestação de cuidados a esta população mais fragilizada. O envelhecimento demográfico, o aumento de doenças crónico-degenerativas e as alterações a nível da estrutura familiar levam a que o número de idosos a residir em 724 Ser cuidador: um estudo sobre a satisfação do cuidador formal de idosos instituições de acolhimento tenha aumentado e que as listas de espera para entrada nas mesmas sejam cada vez maiores. Assim, o Capítulo 1 pretende abordar a nova realidade demográfica do País, referindo alterações sofridas ao longo do tempo na sociedade no que diz respeito à estrutura familiar, referindo também algumas políticas sociais de apoio à população idosa e os aspectos ligados à Institucionalização do idoso. 1. A realidade demográfica portuguesa A realidade demográfica em Portugal é uma questão que tem vindo a ser referida constantemente quer nos meios de comunicação social quer no âmbito da investigação social. Assim, podemos mencionar Kinsella e Velkoff (2001) que referem que o envelhecimento populacional, representa, num sentido, uma história humana de sucesso (p.25). É seguindo esta afirmação que se deve ter em consideração que embora grande parte da literatura evidencie as problemáticas de um Portugal envelhecido, o envelhecimento populacional não deve ser entendido como algo estritamente negativo, pois o seu significado é sinal de desenvolvimento de um país através dos avanços da ciência e tecnologia que proporcionaram uma melhoria da qualidade de vida. O facto de a sociedade ser composta por pessoas com idade avançada permite, igualmente, uma transmissão de conhecimentos para os mais jovens que poderão usufruir dos mesmos para a seu próprio crescimento pessoal. A respeito do envelhecimento da população, Kawasaki e Diogo (2001) referem a modernização e a melhoria nas condições sociais, económicas e de saúde, o controle parcial de doenças evitáveis por meio de imunizações e campanhas e a incorporação de sistemas de saneamento básico no espaço urbano, como responsáveis pelas mudanças nos padrões de morbilidade e mortalidade. O envelhecimento como fenómeno demográfico começou a ganhar significância a partir do séc XX (Nazareth, 1998), tendo ganho cada vez mais relevância nos últimos anos através do relato de especialistas que afirmam que a população mundial está a envelhecer de uma forma que não tem precedentes. Segundo projecções do INE (Instituto Nacional de Estatística), o índice de envelhecimento (figura 1) poderá atingir, em 2050, os 395 ou 190 conforme o cenário considerado. Assim, segundo o cenário de envelhecimento, em 2050 teremos 395 idosos para 100 jovens, porém caso se dê um 825 Capítulo I - Ser idoso em Portugal cenário de rejuvenescimento (o que deriva de saldos migratórios positivos e níveis de fecundidade mais elevados) a discrepância será de 90 idosos, isto é 190 idosos para 100 jovens. Em qualquer um dos cenários a percentagem de idosos é sempre superior à de jovens. Figura 1 Índice de envelhecimento em Portugal: (segundo diferentes cenários) Fonte: INE (2003). Projecções de população residente em Portugal , p Com as projecções apontadas, também a pirâmide etária sofrerá as suas alterações (figura 2), assistindo-se a um incremento do duplo envelhecimento através do aumento da percentagem de idosos e da diminuição dos jovens, assistindo-se também a um aumento mais acentuado da população idosa feminina relativamente aos cenários de rejuvenescimento e envelhecimento criados. Figura 2 Pirâmide etária (segundo diferentes cenários), Portugal, Fonte: INE (2003). Projecções de população residente em Portugal , p Dados disponíveis em 926 Ser cuidador: um estudo sobre a satisfação do cuidador formal de idosos Assim, há necessidade de referir o que se entende por envelhecimento populacional, sendo que Moreira (s/d, citado por Almeida, 2008) descreve-o como o crescimento da população considerada idosa em uma dimensão tal que, de forma sustentada, amplia a sua participação relativa no total da população (p. 2). A esperança média de vida é a razão mais apontada para o aumento populacional desta faixa etária, porém autores como Nazareth (1988), Wong e Moreira (2000) e Kinsella e Velkoff (2001) apontam outras razões: a diminuição da fecundidade o que leva a uma impossibilidade de renovar as gerações; as constantes migrações; e a diminuição da taxa de mortalidade (esta relacionada com a esperança média de vida). Tendo por base os resultados provisórios dos Censos 2011, 15% da população residente em Portugal encontra-se no grupo etário mais jovem (0-14 anos) em contraste com os cerca de 19% pertencentes ao grupo dos mais idosos, com 65 ou mais anos de idade. O índice de envelhecimento da população é, actualmente, no nosso país, de 129, o que significa que por cada 100 jovens há 129 idosos. Em 2001 este índice era de 102. As Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira apresentam os índices de envelhecimento mais baixos do país, respectivamente, 74 e 91. Em contrapartida, as regiões do Alentejo e Centro são as que apresentam os valores mais elevados: 179 e 164 (INE, 2012). Uma outra questão relacionada com o fenómeno do envelhecimento populacional refere-se ao crescimento dentro do próprio grupo de idosos o envelhecimento dos idosos, ou seja o aumento do número de idosos com idade mais avançada. Segundo Giddens (2004), o número de idosos com idade superior a 75 anos é cada vez maior nos países desenvolvidos e a tendência é para aumentar. O número de idosos com mais de 85 anos está igualmente em crescimento. Também no que respeita a este indicador, as mulheres continuam a ter uma maior esperança de vida, assistindo-se a uma feminização da velhice. Em presença do que foi referido devemos questionar porquê estas características do envelhecimento populacional, que à primeira vista seria algo positivo, acarretam tantas preocupações? A resposta dada baseia-se nos cuidados de saúde e ao nível social, que a sociedade tem de dar a esta população. As reformas inevitavelmente levantam um problema devido à possível futura incapacidade de dar resposta a todos que precisam, assim como uma preocupação do Estado em dar resposta aos pedidos de acolhimento de idoso em Instituição, em desenvolver meios que possibilitem o retardar desta institucionalização, como é o caso do Serviço de Apoio Domiciliário e das Famílias de 1027 Capítulo I - Ser idoso em Portugal Acolhimento. Uma outra preocupação passará por, quando a Institucionalização é inevitável, propiciar melhores níveis de qualidade de vida aos idosos. Isto passa, não apenas pelos meios necessários aos seus cuidados, mas pela necessidade de formar cuidadores de idosos que criem uma relação de atenção, respeito, cuidado e de satisfação, tendo em atenção também a própria satisfação do cuidador e a sua qualidade de vida. De seguida serão abordadas as novas mudanças na estrutura familiar, de forma a compreender como as mesmas influenciaram a prevalência da institucionalização do idoso. 2. As novas mudanças na estrutura familiar Ao longo do tempo as estruturas que fazem parte de uma sociedade vão-se inevitavelmente alterando, sendo que o papel do idoso na família não é excepção. O cuidado ao idoso, se recuarmos alguns anos atrás, era assegurado praticamente de forma exclusiva pela família, em especial por algum membro do sexo feminino. Porém, mudanças na estrutura familiar como é o caso da passagem de uma família extensa em que os idosos conviviam com os filhos e netos para uma família nuclear, a entrada da mulher no mercado de trabalho, o aumento dos divórcios, a diminuição do número de filhos, entre outros factores, levaram a que as famílias nem sempre tenham a possibilidade de prestar cuidado ao seu idoso (Diogo, Ceolim e Cintra, 2005). No entanto, a família é ainda referida como o maior suporte para o idoso devido à sua função protectora, pois é onde o mesmo encontra o apoio, o cuidado e a protecção que necessita. Porém, nem sempre os pontos de vista se assemelham pois para Eliopoulos (2005) não é exigido aos filhos que satisfaçam as necessidades dos seus pais envelhecidos com apoios financeiros, serviços de saúde ou moradia (p.61). É com estas novas formas de encarar o problema da responsabilidade pelo idoso que se constata que a ideia de que é dever dos filhos tratar dos seus pais na velhice está cada vez mais a ser posta de lado, tendo esta tarefa sido transferida para a sociedade, sendo vista como um dever social. Segundo Mazo, Lopes e Benedetti (2001) nas actuais famílias nucleares, o idoso é um problema pois estas não possuem ninguém disponível para lhe prestar o cuidado, a protecção e a assistência que o mesmo necessita e merece. Assim, os casos em que o idoso permanece junto da família são cada vez menos frequentes. O custo inerente ao cuidado a um idoso e as mudanças de valores, levam a 1128 Ser cuidador: um estudo sobre a satisfação do cuidador formal de idosos que institucionalização seja cada vez mais frequente (Angelo, 2000, citado por Vieira et al., 2011). Esta tendência será para se manter segundo as previsões do INE baseadas no envelhecimento (Tabela 1), tendo presente as taxas de cobertura constante com base nos valores observados em 2009 e as taxas de cobertura com ritmo de crescimento idêntico ao verificado nos últimos 10 anos. Tabela 1 - Cenários para a evolução da população nas principais Respostas Sociais para idosos com alojamento Evolução da população nas principais Respostas Socias para idosos com alojamento (previsões) Idosos Institucionalizados (milhares) Cenário de cobertura actual (C) 68,5 70,1 78,3 83,6 Cenário de dinâmica constante (D) 68,5 73,8 105,9 145,2 Fonte: INE, Revista de Estudos Demográficos n.º 37. É necessário também realçar que o nível de alargamento da capacidade da rede de serviços existente e o cenário de cobertura constante implica a disponibilização de (+20%) novas vagas em respostas sociais até 2020 e o cenário de dinâmica constante implicaria um acréscimo de cerca de vagas (+103%) até ao mesmo ano. As exigências da sociedade em relação aos custos de vida que levam à necessidade de se trabalhar cada vez mais, as alterações no estatuto do idoso na sociedade, a própria interpretação por parte da população idosa do encargo que são para os filhos, o evitar de casos de isolamento e abandono dos idosos são outros factores que levam à abundância de população idosa institucionalizada. Contudo, e apesar da evidente necessidade social destas instituições, chamamos a atenção para o facto de Fragoso (2008) referir que as Instituições de Acolhimento de Idosos apresentam-se como uma alternativa que visa complementar e nunca substituir a acção da família, prestando os serviços necessários e tendo presente as suas necessidades e a sua individualidade. O atendimento às pessoas idosas em Instituição, tendo presente o respeito pela pessoa e o proporcionar da sua qualidade de vida, passa pelos trabalhadores da mesma ou mais especificamente pelos cuidadores. Segundo Miguel et al. (2007, citados por Vieira et al., 2011), os trabalhadores nas Instituições apresentam-se, muitas vezes, sem formação profissional na área ou mesmo sem capacitação para o cuidado e como tal a relação terapêutica, como capacidade fulcral para um bom cuidado, é inexistente. Se os 1229 Capítulo I - Ser idoso em Portugal sentimentos sobre o cuidado e sobre o que é a velhice forem negativos, o cuidado prestado pode estar comprometido. Como tal, a formação dos cuidadores é uma necessidade primordial, pois está em causa a qualidade do cuidado prestado. Com base nas alterações familiares referidas, seguiremos para a abordagem das políticas sociais de apoio à Terceira Idade que sugiram da necessidade do Estado em prestar apoio à população idosa. 3. As políticas sociais de apoio à Terceira Idade A gestão pública da velhice é, devido às alterações na estrutura familiar já referidas, efectuada através das instituições tradicionais que vão desde as Misericórdias às mais variadas organizações e serviços desenvolvidos para o efeito. Segundo Fernandes (1997) e Gomes (2000) (citados por Martins, s/d) só a partir da década de 70 do século XX é que as instituições criadas são orientadas pelos princípios de prevenção da dependência e da integração das pessoas idosas na comunidade (p.136). As Respostas Sociais de apoio à população idosa têm vindo a sofrer uma evolução ao longo do tempo, visto que se passaram dos remotos asilos para a criação de serviços de Apoio Domiciliário e para as Famílias de Acolhimento, para apenas referir alguns, pois tal como já havíamos referido, o dever de cuidar do idoso passou a ser encarado como uma responsabilidade do Estado 4. As Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) são uma outra realidade e as mesmas, tendo por base o Decreto-Lei nº 119/83, de 25 de Fevereiro, são definidas como: Entidades jurídicas constituídas sem finalidade lucrativa, por iniciativa privada, com o propósito de expressão organizada ao dever moral de solidariedade e de justiça entre indivíduos e desde que não sejam administradas pelo Estado ou por um corpo autárquico (p.644) Assim, de acordo com Fernandes (1997, citado por Almeida, 2008) as políticas sociais de velhice em funcionamento na década de 70, do século XX, desencadearam a criação de instituições que presem a prevenção da dependência e a integração do idoso na sociedade. 4 De uma forma directa ou indirecta por via do apoio prestado pelo Estado a outras organizações que se constituem como respostas sociais para a população idosa e suas famílias. 13 Exibir mais
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 Artigo 3
 Artigo 4
 artigo 4
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 artigo 63