Source: https://issuu.com/mariagiparente/docs/atlas_do_ceara
Timestamp: 2018-04-27 05:53:14+00:00

Document:
Atlas do Ceará by Maria Gisela Parente - issuu
ATLAS DO CEARĂ
Centro de Pesquisa Regional
Maria Gisela Parente
Universidade Federal do Ceará Curso de Arquitetura e Urbanismo Trabalho Final de Graduação
Maria Gisela Parente Nascimento de Lima
sob orientação da Prof. Drª. Solange Maria de Oliveira Schramm
Capa, Fotografia e Ilustrações Maria Gisela Parente
Renderização e Adaptação Larissa Rabelo
Projeto Gráfico e Diagramação Maria Gisela Parente Milena Oliveira
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará Biblioteca do Departamento de Arquitetura
Lima, Maria Gisela Parente Nascimento de. Atlas do Ceará: centro de pesquisa regional / Maria Gisela Parente Nascimento de Lima. – 2016. 138 f.: il. Color. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Centro de Tecnologia, Curso de Arquitetura e Urbanismo, Fortaleza, 2016. Orientação: Profa. Dra. Solange Maria de Oliveira Schramm. 1.
Geografia. 2. Centro de Pesquisa. 3. Ceará. 4. Macrorregião. 5. Atlas. I. Título. CDD 720
______________________________________________________________________ Prof. Drª. Solange Maria de Oliveira Schramm ORIENTADORA DAU-UFC
______________________________________________________________________ Prof. Dr. Ricardo Figueiredo Bezerra CONVIDADO DAU-UFC
______________________________________________________________________ Prof. Drª. Ana Cecília Serpa Braga Vasconcelos ARQUITETA CONVIDADA
GRATIDÃO Primeiramente, a Deus com a intercessão da Virgem Maria, por todos os milagres ocorridos e que guiaram a minha vida. Aos meus pais, Edson e Rose, por sempre me apoiarem nas decisões pessoais e profissionais, conduzindo-me à conclusão do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará. Os dois se complementam ao doarem toda a dedicação inerente a pais exemplares. Enquanto minha mãe guia-me espiritualmente, meu pai entende meus anseios e me aconselha sempre assertivamente. Aos dois, todo o meu amor. Ao Edson Neto, que apesar da diferença de idade, às vezes se comporta como um irmão mais velho, sempre disposto a ajudar e me proteger. Ao Leonardo, peça principal para o meu despertar em Arquitetura. O seu companheirismo, o empenho exaustivo e o amor dedicado tornaram-me uma pessoa melhor. À minha orientadora, professora Solange Schramm, por transformar esta trajetória árdua em uma grande aventura. Jamais esquecerei as vivas conversas repletas de simbolismo capazes de mudar minha visão de mundo. Ao professor Napoleão Ferreira, que além de ter me inspirado a seguir no tema proposto, conduziu os primeiros traços do Atlas do Ceará. A sua paciência em entender meus limites fizeram-me ir além. Ao professor Chico Hissa, sempre propenso a ajudar e tirar dúvidas sobre o projeto. As manhãs de quartasfeiras serão lembradas como uma ida à fonte do conhecimento técnico e teórico da Arquitetura.
A todos os professores do DAU-UFC, que contribuíram de diferentes maneiras para a minha formação. Agradeço especialmente ao Renan Cid, por atender-me prontamente quando necessitado, ao Renato Pequeno, que indicou diferentes variáveis para a condução do Atlas do Ceará e ao Ricardo Fernandes, por sua destreza técnica e administrativa como professor e coordenador. Aos amigos cultivados durante a faculdade. À Fernanda, por ser um símbolo da amizade. Às surpresas durante o percurso acadêmico representadas por Beatriz, Camila, Isabela, Natália, Nayanne, Rafaela e Rebeca. Aos amigos do curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará e aos amigos do curso de Edificações do Instituto Federal do Ceará, por cativarem a minha eterna amizade e estarem sempre dispostos a ajudar em situações multidisciplinares. Aos colegas de trabalho, particularmente do ETecS UFC, Juliana, Liliana e Marcus, que tornaram a minha primeira experiência em escritório uma lembrança para toda a vida. Às mãos amigas Milena, Larissa, Luiz Carlos e Ariel, por me ajudarem de diferentes modos durante o último semestre. À banca, Ricardo Bezerra e Ana Cecília Vasconcelos, por aceitarem de prontidão ao convite feito para avaliarem o trabalho.
“O centro do mundo está em todo lugar. O mundo é o que se vê de onde se está”.
PRÓLOGO A proposta arquitetônica apresentada neste trabalho advém do orgulho autóctone de uma região abundante em erudição popular, eufonia, vínculo comunitário e excepcionais paisagens. A avidez de conhecimento das particularidades do estado e sua divulgação regem o significado do Atlas do Ceará: Centro de Pesquisa Regional. Aprendi, cursando Bacharelado em Geografia e posteriormente Arquitetura e Urbanismo, a reconhecer a cultura pulsante, porém muitas vezes latente, desta grande comunidade. Acreditando no despertar do sentimento positivo bairrista com propósito de valorar esta terra e emponderar sua população, propus uma fonte jorrante de conhecimento em forma de espaço construído no bairro mais significativo de Fortaleza, o Centro. Palavras Chave: Geografia, Centro de Pesquisa, Ceará, Macrorregião, Atlas.
SUMÁRIO 012|Introdução 016|Espaço 024|Território 058|Lugar 132|Conclusão 134|Bibliografia
Fig. 01 - Fachada norte do prédio A do equipamento cultural Atlas do Ceará.
ESTRUTURA Para uma visão totalizante deste trabalho e o entendimento do processo de estudo e concepção da proposta pré requisito para conclusão do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, bem como por tratar em sua essência do entendimento e produção do espaço, este caderno divide-se em três partes: Espaço, Território e Lugar. O conceito e o estudo do Espaço socialmente construído e a análise de vários teóricos sobre o tema e suas derivações são apresentados na primeira parte do trabalho. Em seguida, a análise do Território aqui estudado e exposto em seus variados âmbitos conduz o diagnóstico do local em diversas esferas. Por último, o Lugar exibe a proposta de projeto e suas referências exaltando as condições ímpares que estas edificações foram pensadas e erguidas.
TEMA O Atlas do Ceará: Centro de Pesquisa Regional configura-se como o objeto de pesquisa e desenvolvimento principal deste projeto de graduação. A partir da apreciação de múltiplas informações interdisciplinares acerca do estado do Ceará com o intuito de reunir subsídios para a produção de projetos adequados para a região, surgiu o interesse e a necessidade de coletar estes dados através de uma fonte física centralizadora e genuína. A realidade acadêmica atual para alunos, professores e pesquisadores é visitar vários sites, ir a órgãos e bibliotecas especializadas para garantir informações aplicáveis a projetos e trabalhos demandando tempo e recursos. Apesar da propagação da internet e a produção imensurável de sites sobre diversos assuntos, observa-se que as informações obtidas ainda são dispersas e não hierarquizadas. Além disto, não há um feedback para eventuais questionamentos e somente sites oficiais são de fato confiáveis. A solução desta problemática foi inspirada em uma entrevista com o aclamado escritor Umberto Eco acerca do papel da internet, “sendo preciso criar uma filtragem de informações” para garantir ao leigo a veracidade do conteúdo obtido. Somado a este campo da pesquisa, existem mais duas situações que a construção de um equipamento como o proposto beneficiaria: a divulgação de informações relevantes para o turismo e a capacitação telúrica da própria população do estado.
Fundamentada em eventos atuais como a construção de lojas físicas da Amazon, a gigante do e-commerce que dominou o mercado de varejo online e que, pelo consenso, jamais sairia do virtual para o físico por motivos operacionais e por limitação de alcance ao consumidor, o projeto proposto utiliza-se da mesma lógica. Enquanto os principais motivos da Amazon investir no modo tradicional de venda são a superação ainda existente do varejo físico em relação ao e-commerce, o omnichannel (combinação de lojas físicas e online) como uma nova estratégia de venda e os novos produtos necessitarem de demonstração para atrair o consumidor, o Atlas do Ceará utilizaria seu espaço físico como signo do saber do estado para a comunidade e transformaria seu equipamento em mais um ambiente de lazer público, ao mesmo tempo valorizando o seu entorno histórico tombado. Proponho, então, um equipamento físico utilizando-se de ferramentas interativas funcionando como centro de pesquisa e divulgação de dados e conhecimento acerca de assuntos geográficos naturais e humanos, sendo guiado por diretrizes como a relação e a valorização do espaço público e o retorno direto e indireto de erudição e lazer para a comunidade local e visitantes.
JUSTIFICATIVA A justificativa deste trabalho poderia facilmente ser resumida em uma frase: sede do saber. Em um primeiro momento, configuraria uma resposta vaga. Afinal, para que serve o conhecimento telúrico? Não há uma resposta exata, mas sim outra pergunta correta: o que se pode realizar através do conhecimento telúrico? Compreender e interpretar a região em que vive, aborvendo suas relações sociais e identificando seus potenciais, viabiliza aos agentes públicos agir coerentemente com as necessidades do território e de sua população, permite à comunidade discernir tais políticas públicas e concede a qualquer cidadão desfrutar do espaço físico e da cultura nativa como um meio de entretenimento ou ócio. A população cearense carece de um equipamento que promova o conhecimento autóctone como fonte do saber e também como alternativa de lazer público, tão escasso no estado. Mesmo em locais que deveriam promover este tipo de informação como escolas e faculdades, a agenda prioritária sempre é o centro político, econômico, arquitetônico e cultural do país ou do mundo, desprezando o fato que transformamos o espaço de onde estamos e não de onde gostaríamos de estar, parafraseando a citação, diretriz deste projeto, elaborada por Milton Santos.
OBJETIVO GERAL O objetivo geral do presente trabalho é conceber um centro de pesquisas que tenha em sua estrutura a produção do conhecimento regional através da coleta, do armazenamento e da divulgação de dados sociais, econômicos e naturais das 14 macrorregiões do estado do Ceará, como um Atlas, oferecendo à comunidade não somente o acesso à informação, mas também a oportunidade de entender o espaço e assim, poder agir ativamente sobre ele.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS Promover a pesquisa interdisciplinar de conteúdo análogo ao estado do Ceará. 1
Resgatar a identidade da comunidade local em detrimento ao avanço da globalização. 2
Preservar o Patrimônio Material e Imaterial existente no estado. 3
Requalificar o Centro de Fortaleza.
Criar um edifício público cultural e ícone do Ceará com traços de significância e difusão de conhecimento telúrico. 5
ESPAÃ&#x2021;O
18 | ESPAÇO
O ESPAÇO E O HOMEM COMO SÍNTESE DIALÉTICA A complexidade do espaço é perceptível não somente sensorialmente, mas também conceitualmente. Entender o espaço e definí-lo proporcionando ao homem ser o agente ativo do lugar requer abordagens diferenciadas, pois toda e qualquer definição é mutável e flexível. Milton Santos cita em Por uma Geografia Nova1 a dualidade do espaço como reflexo e fator social: “(...) o espaço organizado pelo homem é como as demais estruturas sociais, uma estrutura subordinada-subordinante. É como as outras instâncias, o espaço, embora submetido à lei da totalidade, dispõe de uma certa autonomia” (SANTOS, 1978, p. 171).
O espaço precisa ser considerado como totalidade, deste modo, além de instância social que tende a reproduzir-se, possui uma estrutura que corresponde à organização feita pelo homem. O espaço social corresponde ao espaço humano, lugar de vida e trabalho sem limites fixos. O espaço geográfico é organizado pelo homem vivendo em sociedade e, cada sociedade, historicamente, produz seu espaço como lugar de sua própria reprodução. A partir do conceito acima citado, surgem derivações do espaço. As relações de uma comunidade, sejam elas de qualquer proporção, criam o espaço. Assim, o espaço antecede qualquer outra categoria, como o território e o lugar. O território não pode ser considerado apenas como “posse de terra”, pois ele vai além. Ele é político, econômico, cultural e local de disputa de poder. O território historicamente sempre foi a base do fundamento do Estado. Com a Globalização, a noção do território estatizado transforma-se em território transnacional. Milton Santos em sua crítica à Globalização em Território, Globalização e Fragmentação2 propõe que o espaço geográfico seja compreendido como uma mediação entre o mundo e a sociedade nacional e local, como base para a compreensão do funcionamento do espaço global.
Santos apresenta o funcionamento horizontal e vertical do território. Enquanto o primeiro refere-se a lugares contíguos, o segundo refere-se a lugares em rede conectados por formas e processos sociais. Segundo o autor, quem produz e normatiza esses territórios verticais são o Mercado e Instituições Globais, resultando na mercantilização de pessoas, ideologias, da política e da própria natureza acrescentando, como já esperado, o enfraquecimento do lugar contíguo cuja forma de viver solidária e a base do território compartilhado tem poderio de alcance enfraquecido. A tendência de o mundo e o lugar se constituirem indissociavelmente torna-se cada vez mais evidente. O lugar, sendo palpável, é atingido por quaisquer ações do mundo independente do âmbito. Mas o lugar possui resistência por ser um espaço da existência e da coexistência social. A união horizontal dos lugares pode formar normas locais e regionais, facilmente identificada, por exemplo, na distribuição das macrorregiões do Ceará, as quais por serem formadas de cidades contíguas e com semelhanças naturais, sociais, culturais e econômicas podem receber políticas públicas específicas como supressão de deficiências, além de formarem comunidades específicas como de agricultores e pescadores que se beneficiarão de tais políticas por não serem mais vistos apenas como indivíduos, mas como um grupo com necessidades peculiares. Milton Santos então identifica o lugar como um espaço do acontecer solidário de facetadas naturezas, propiciando o afastamento do risco de alienação individual e coletiva. A partir da breve visão holística do espaço, do território e do lugar, com a já consciência do estudo destes como capacitação do homem em um agente ativo de transformação, percebe-se também o papel ativo do território como agente transformador de tendências globais, o que nos leva a uma síntese dialética do homem e do espaço.
SANTOS, M. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Hucitec, Edusp, 1978. 1
SANTOS, M. Território, Globalização e Fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994. 2
ESPAÇO | 19
20 | ESPAÇO
O RESGATE DA ARQUITETURA REGIONAL O avanço do território vertical resultando nos diferentes fenômenos que acompanham a globalização e que incidem diretamente na prática da Arquitetura, tornaram-na tão global quanto local. Não raro identificamos obras de arquitetos com status de celebridade internacional, como cita Kenneth Frampton em História Crítica da Arquitetura Moderna3 em resposta direta ao fluxo de investimento de capital. Os edifícios ícones são mais valorizados pela estética do que pela função e capacidade organizacional e técnica. Frampton denomina esta prática como “Efeito Bilbao”, quando cidades provincianas disputam entre si para ter um edifício projetado por um arquiteto célebre e tendo a função de “cartão postal” mais efetivo do que social. A saída do pragmatismo arquitetônico com seu avanço notório através da tecnologia de comunicação e computação gerando estruturas paramétricas, líquidas e genéticas estaria então no Regionalismo? O Regionalismo ocorre quando há elementos estéticos singulares em uma localização geográfica delimitada. Porém, induzir a mimese com o intuito de se obter um estereótipo autóctone arquitetônico nada mais é do que uma falácia. Não há cultura preponderante em um território que o force a ser igual em diferentes lugares. Cada local é único e Frampton propõe uma taxonomia que facilita a identificação disto, como a topografia, a morfologia, a sustentabilidade, a materialidade, o habitat e a forma cívica. Além disto, o termo Regionalismo não é adequado, segundo William Curtis em Arquitetura Moderna desde 19004 por sugerir algo provinciano e periférico, quando o edifício projetado deveria responder “de forma inteligente ao clima, ao local, às lembranças e às paisagens sem ignorar as mudanças sociais e tecnológicas”. O arquiteto e diretor editorial da revista argentina Summa+, Fernando Diez, é mais enfático ao citar o Regionalismo: “O Regionalismo nasceu morto. Expressa mais o desejo de identidade do que a consciência de tê-la. O problema é que as identi-
dades não surgem de um ato voluntário. E o Regionalismo (e o ‘ismo’ expressa o militante voluntarismo político do termo) reflete o descontentamento com a própria identidade. Porque assim como uma identidade é difícil de se adquirir voluntariamente, também é difícil dissimular aquela que se tem” (O regionalismo está com os dias contados? Revista AU. São Paulo, edição 178, jan. 2009).
Diez vai além quando denuncia a crise das identidades locais em decorrência do avanço da globalização, onde as maneiras de se fazer e construir de cada lugar tendem a ser substituídas por soluções estandartizadas. Seguindo a sugestão de análise de Frampton e a crítica de Diez, a solução é o Regional, por ser uma reserva de identidade. Não convém fazer uma arquitetura mimética, tão falaciosa quanto os edifícios inteligentes de caráter global, se a comunidade e os arquitetos da região já são locais. Eles já pertencem à região sem indução nenhuma. Necessita-se o retorno da verdade arquitetônica com foco não mais somente na tectônica, mas principalmente na verdade cultural e social autóctone da comunidade que irá incorporar a nova obra.
FRAMPTON, Kenneth. Jefferson Luiz Camargo. História Crítica da Arquitetura Moderna. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 3
CURTIS. William J. R. Arquitetura Moderna desde 1900. Alexandre Salvaterra. 3 ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. 4
ESPAÇO | 21
22 | ESPAÇO
O PAPEL SOCIAL DO ARQUITETO A espetacularização da Arquitetura contemporânea de formação cosmopolita e atuação global não está restrita à sua volumetria ou à sua localização estratégica com viés turístico. Como resistência à esta tendência, o arquiteto deve observar também o tipo de programa que recebe mais investimento. Pedro Fiori Arantes atenta em seu livro Arquitetura na Era Digital Financeira5 que escolas, moradias populares, hospitais, obras de saneamento e transporte fazem parte de uma agenda anti-espetacular da arquitetura, que possuem um programa de necessidades precário, muitas vezes degradados ou até inexistentes, principalmente em países de terceiro mundo e emergentes, salvo raras excessões. Não gratuitamente as obras mais conhecidas sejam em sua maioria institucionais e de infraestrutura, apesar de a habitação popular estar de volta ao protagonismo nos cenários onde o regional é agenda prioritária. Entre os edifícios de infraestrutura, os aeroportos e terminais marítimos são os mais complexos da atualidade. Simbolicamente portas de entrada para as cidades, expressam todo o poderio econômico e tecnológico do lugar, também servindo como mais uma construção ícone que atrai turistas e curiosos. Entre os edifícios institucionais, o museu é definido como o programa do século e o que, segundo José R. Alonso Pereira, “o que mais bem denota sua natureza exibicionista e reflexiva” quando o autor aborda a Arquitetura Contemporânea em seu livro Introdução à História da Arquitetura das Origens ao século XXI6: “Se o teatro foi o templo social da burguesia, o museu pode ser considerado como o templo mediático de nossa época, como centro de exposição e local de encontro” (PEREIRA, 2009, p. 311).
Arantes apresenta uma analogia do museu a um “galpão decorado”, que por sua vez possui uma estrutura a serviço de um programa, mas que se aplica uma fachada ornamental, retórica e chamativa. Um ponto extremamente importante a ser destacado é a sobre-
posição de prioridade nos edifícios projetados na contemporaneidade. Afinal, o que é mais importante: uma arte exposta ou o edifício que a comporta? O usuário ou o edifício que o abriga? O espaço ou o edifício nele implantado? O papel social do arquiteto é projetar e tornar o edifício relacionado ao lugar, com o espaço o qual pertence, com aquela cultura e principalmente servindo à comunidade. Renzo Piano quando questionado como consegue combinar o local e o universal em seu trabalho responde em A Responsabilidade do Arquiteto7 que “a universalidade da mensagem (do edifício) está paradoxalmente na própria capacidade de a linguagem arquitetônica se adequar ao local, ao ambiente, à cultura que ela expressa”. Reflexões sobre o comprometimento do arquiteto com questões não pragmáticas, pois questões técnicas já lhe são impostas, e a importância do estudo regional devem ser sempre discutidas como método valorativo do projeto e do retorno do papel social do profissional reconhecido pela comunidade. O trabalho final de graduação desenvolvido incorpora as críticas apresentadas e segue o caminho oposto à espetacularização da arquitetura. Ele é literalmente enterrado para dar voz e destaque ao visual urbano tombado do Centro de Fortaleza, aguardando ser encontrado como uma caça ao tesouro do conhecimento sobre o Ceará.
PEREIRA, José R. Alonso. Introdução à História da Arquitetura das Origens ao Século XXI. São Paulo: Bookman, 2009. 6
PIANO, Renzo. Entrevista com Renzo Cassigoli. Maurício Santana Dias. A Responsabilidade do Arquiteto. São Paulo: BEI Comunicação, 2011. 7
ESPAÇO | 23
TERRITÃ&#x201C;RIO
26 | TERRITÓRIO
CEARÁ O Ceará é um dos 27 estados federativos do Brasil. Localiza-se na região Nordeste, tendo como limites o Oceano Atlântico ao Norte, o Rio Grande do Norte e a Paraíba a leste, Pernambuco a sul e o Piauí a oeste. Sua localização viabiliza atividades turísticas e econômicas bastante variadas, diferenciando-se pelas potencialidades de cada lugar. Partindo disto, o Governo do Estado implementou o Plano Plurianual - PPA 20162019, que é um instrumento que estabelece, de forma regionalizada, as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública do Ceará. Para isto, o Governo propôs uma nova regionalização. Ao invés de o estado ser dividido em 8 macrorregiões, como era anteriormente desde 1999, passou a ter 14 macrorregiões. O trabalho técnico de levantamento e divisão foi definido pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará – IPECE, observando critérios socioeconômicos, de infraestrutura e geoambientais, fazendo surgir a Grande Fortaleza, o Litoral Oeste/Vale do Curu, Litoral Norte, Sertão de Sobral, Serra da Ibiapaba, Sertão dos Crateús, Sertão dos Inhamuns, Sertão de Canindé, Sertão Central, Cariri, Centro Sul, Vale do Jaguaribe, Litoral Oeste e o Maciço de Baturité. Cada macrorregião será apresentada ao turista, à comunidade local e aos pesquisadores que se deslocarão ao centro de pesquisa regional Atlas para entender o estado como um mundo próprio, que em parceria com as outras macrorregiões conformam a paisagem natural e cultural do Ceará.
TERRITÓRIO | 27
MAPA DAS MACRORREGIÕES DO CEARÁ Grande Fortaleza Litoral Leste Vale do Jaguaribe Centro Sul Cariri Sertão dos Inhamuns Sertão dos Crateús Sertão Central Sertão de Canindé Serra da Ibiapaba Sertão de Sobral Fig. 02 - Mapa das Macrorregiões do Ceará, de acordo com a resolução da Assembleia Legislativa para o PPA 2016-2019. Fonte: Elaborado pela autora
Litoral Norte Litoral Oeste | Vale do Curu Maciço de Baturité
28 | TERRITÓRIO
FORTALEZA Fortaleza é o principal centro receptor e distribuidor do turismo no Ceará e na Região Metropolitana de Fortaleza. Segundo a Secretaria Municipal do Turismo de Fortaleza, a permanência média do turista é de 7 dias na capital, dirigindo-se eventualmente para outros municípios do estado. A capital cearense possui 2,5 milhões de habitantes, correspondendo a aproximadamente 28% da população do estado. Assim, pela característica de ser um centro de chegada e saída de turistas, pólo referência de ciência e tecnologia e obter parcela significativa da população do Ceará, a cidade reúne requisitos que a destacam, dentre os 184 municípios cearenses, para receber o Atlas do Ceará: Centro de Pesquisa Regional, visto que uma maior quantidade de pessoas interessadas no estado teriam acesso às informações fornecidas pelo equipamento.
TERRITÓRIO | 29
CENTRO O Centro Histórico de Fortaleza, é o bairro mais tradicional da capital, confundindo-se com a própria origem da cidade. Seu simbolismo cultural e o convite que o bairro faz à comunidade local e aos turistas de descortiná-lo sem que seja necessário nenhum veículo intermodal, faz com que seja o território ideal para a implantação de um equipamento difusor de conhecimento, como o projetado neste trabalho.
Ceará - Fortaleza Ceará - Fortaleza
Fortaleza - Centro | Moura Brasil
Fig. 03 - Mapas de localização do sítio de intervenção. Fonte: Elaborado pela autora
RUA S POMP
RUA MA JOR FACUNDO RUA GENERAL BEZERRIL
EMCETU
RUA FLORIANO PEIXOTO SANTA CASA
NASCENTE PASSEIO PÚBLICO
RAIO DE ABRANGÊNCIA DO EQUIPAMENTO
Fig. 04 - Mapa do sítio de intervenção. Fonte: Elaborado pela autora
UA GENERAL AMPAIO
SENADOR PEU RUA SENADOR JAGUARIBE
SÍTIO DE INTERVENÇÃO
BRISA MARÍTIMA DIURNA
32 | TERRITÃ&#x201C;RIO
Fig. 05, 06, 06 e 08 - Visuais do sítio de intervenção. Fonte: Acervo da autora
TERRITÓRIO | 33
34 | TERRITÓRIO
BREVE HISTÓRICO NO CONTEXTO DE EVOLUÇÃO URBANA E ARQUITETÔNICA Fortaleza teve como ponto de partida o forte holandês construído em 1649, implantado no que viria a ser o bairro Centro. A fortificação foi tomada pelos portugueses em 1654 e passou a ser chamada Fortaleza Nossa Senhora da Assunção. Em 1799, a capitania do Ceará ficou independente de Pernambuco e Fortaleza foi escolhida como capital, em detrimento de vilas mais prósperas como Aracati e Icó. A escolha foi por motivos geográficos em várias escalas, pois a cidade possuía um porto marítimo natural e era limitada por dois rios, o que a tornava apta à sobrevivência em períodos de seca. Após cinco décadas, Fortaleza ainda caracterizava-se como uma vila permeada de cenários rústicos. Assim, aos poucos, foram construídos equipamentos para reverter este quadro, como o Liceu do Ceará e a Igreja do Rosário, atualmente Praça dos Leões. Neste mesmo período, a Santa Casa de Misericórdia foi erguida, ganhando destaque por socorrer os flagelados da seca de 1845 com os recursos acumulados das chuvas de 1847. Outras intervenções necessárias, no campo do urbanismo, foram garantir o abastecimento de água na capital através de reformas na estrutura do açude do Riacho Pajeú, a recuperação do chafariz próximo à Igreja do Rosário, a instalação de dezenas de lampiões de azeite de peixe para iluminar as vias públicas e a construção do Cemitério de São Casemiro, terreno onde hoje é a Praça da Estação. A década de 1860 foi um período de notória relevância para a cultura fortalezense. Simultaneamente, Adolfo Herbster, engenheiro a serviço da Câmara e da Presidência da Província, expandia o plano urbano de Silva Paulet com ordenamento e arranjo espacial em tabuleiro de xadrez, que havia sido implementado no início do século XIX. Propondo a construção de grandes boulevards como as avenidas Dom Manuel, Duque de Caxias e Imperador, finalmente a cidade tornava-se consolidada como um grande centro. Os investimentos observados no século XIX não corresponderam em volume na primeira metade do século posterior. Outra grande seca em 1932 estimulou a
migração para a capital, que por sua vez não tinha estrutura para receber os retirantes. A cidade então incorporou espaços de ordenamento irregular alterando sua morfologia urbana ortogonal e recebeu habitações precárias locadas em vias sem infraestrutura. A ocupação irregular foi prioritariamente em áreas descartadas por setores econômicos, tais como dunas, várzeas de rios, lagoas e manguezais. Além da cidade receber imigrantes, a zona oeste do Centro incorporou as primeiras indústrias do Ceará, sendo rodeado por habitações para operários. A elite fortalezense decidiu então transpôr uma barreira natural a muito tempo evitada, o Riacho Pajeú. A crescente expansão da cidade substituiu os casarões antigos por edifícios como o Excelsior Hotel (1931), Correios (1934), o Cine São Luís (1958) e manteve grandes praças como a Praça do Ferreira. O crescimento no número de automóveis fez com que as ruas principais começassem a ter calçamento de concreto, posteriomente substituído pelo asfalto e a iluminação elétrica substituiu a de gás carbônico. Algumas praças tiveram suas funções também modificadas, agora como terminais, caso das Praças José de Alencar e Castro Carreira, agora Praça da Estação. Essas mudanças incentivaram o comércio informal e gradualmente o Centro entrou em processo de degradação e abandono do capital privado. Somado a isto, os órgãos institucionais também partiram do Centro: o Palácio da Luz deixou de ser a sede do Governo do Estado e a residência do governador, assim como a Câmara de Fortaleza, a Assembleia Legislativa e outras estruturas administrativas municipais, estaduais e federais. O resultado foi o surgimento de novos centros urbanos oferecendo comércio, serviços e atividades alternativas consideradas de luxo. O cenário descrito anteriormente ainda é identificado na atualidade. Com o escoamento da aplicação de capital e poucas intervenções públicas, o quadro urbano é degradante. O comércio informal ocupa toda a continuidade do passeio em ampla extensão do Centro, em muitos pontos não há um correto saneamento, assim como há poluição visual, sonora e ambiental,
TERRITÓRIO | 35
36 | TERRITÓRIO
o patrimônio cultural entrou em um profundo processo de deterioração, a exemplo de sua substituição por pátios para estacionamento. Não existe atividade significativa da rede hoteleira, os antigos cinemas foram abandonados e substituídos por cines privê, aumentando o número de móteis irregulares no entorno, além de ter existido uma clara evasão das funções governamentais que outrora o bairro comportava. Os problemas urbanísticos do Centro são alvos constantes de discussões acadêmicas e políticas. A monofuncionalidade comercial da área contribui para o adiamento da requalificação do espaço, apesar de reformas e construções pontuais terem sido realizadas, como a reforma do Cine São Luís, a construção do Mercado Central e do Hospital Instituto José Frota, além da apropriação de espaços públicos para eventos culturais como é o caso do Passeio Público após sua reforma. O resgate do Centro será paulatino e dependente de intervenções públicas e investimento do capital privado. Para a segunda situação ocorrer e consolidar um novo panorama, é necessário que exista um retorno de interesse da população em usufruir dos equipamentos culturais do bairro, torná-lo opção de entretenimento também no período noturno com segurança e aliar ao uso do solo a função habitacional. O histórico do bairro possibillita este retorno como atrativo de lazer e habitação, mas é necessária a difusão de informação deste potencial. Assim, a escolha do bairro para acolher o edifício Atlas beneficia não somente o equipamento, pois um grande volume de visitantes iria alcançá-lo, mas o próprio Centro Histórico como alternativa de lazer e conhecimento.
Fig. 09 - Fachada norte do Forte Nossa Senhora da Assunção. Fonte: www.flickr.com Fig. 10 - Monumento na Praça dos Leões. Fonte: Acervo da autora Fig. 11 - Trecho da fachada tombada do Hospital Santa Casa. Fonte: Acervo da autora Fig. 12 - Monumento da Vitória locado em frente ao Forte Nossa Senhora da Assunção. Fonte: Acervo da autora
ATLAS |09|
TERRITÃ&#x201C;RIO | 37
38 | TERRITÓRIO
Fig. 13 - Hotel Excelsior locado na esquina da Praça do Ferreira. Fonte: www.flickr.com Fig. 14 - Praça do Ferreira com ocupação irregular. Fonte: Acervo da autora Fig. 15 - Museu do Ceará locado ao lado da Praça dos Leões. Fonte: Acervo da autora Fig. 16 - Fachada norte da Igreja da Sé. Fonte: Acervo da autora Fig. 17 - Praça dos Leões com programação cultural aos domingos. Fonte: Acervo da autora Fig. 18 - Fachada sul da Estação João Felipe. Fonte: www.flickr.com
TERRITÃ&#x201C;RIO | 39
Fig. 19 - Mapa do Patrimônio no Centro de Fortaleza. Fonte: Elaborado pela autora + Camila Studart
MAPA DO PATRIMÔNIO NO CENTRO DE FORTALEZA TOMBAMENTO FEDERAL 01. Passeio Público 02. Museu do Ceará 03. Solar Carvalho Mota 04. Teatro José de Alencar 05. Fortaleza Nª Senhora da Assunção
06. Sobrado Dr. José Lourenço
TOMBAMENTO ESTADUAL 07. Escola Normal 08. Banco Frota Gentil 09. Cadeia Pública 10. Cine São Luiz 11. Estação Ferroviária Dr. João Felipe 12. Hotel do Norte 13. Igreja Nossa Senhora do Rosário 14. Palacete Ceará 15. Palácio La Luz 16. Praça General Tibúrcio 17. Secretaria da Fazenda 18. Solar Fernandes Vieira
TOMBAMENTO MUNICIPAL 19. Capela Santa Terezinha 20. Teatro São José 21. Parque da Liberdade Palácio João Brígido 23. Escola Jesus, Maria e José 24. Casa Barão de Camocim 25. Mercado dos Pinhões 26. Casa Frei Tito de Alencar 27. Escola de Música Luís Assunção 28. Lord Hotel 29. Santa Casa de Misericórdia 30. Farmácia Oswaldo Cruz
19 17 09
06 08 14 10
42 | TERRITÓRIO
PATRIMÔNIO Identificado o vazio urbano no Centro Histórico constituído de dois terrenos de posse do Governo do Estado e com característica topográfica bastante peculiar em relação à cidade de Fortaleza, observou-se que eram localizados em meio a vários bens tombados. Os edifícios tombados a nível municipal são a Estação Ferroviária Dr. João Felipe em 1983 e a Santa Casa de Misericórdia em 2012; o Centro de Turismo EMCETUR, Antiga Cadeia Pública, tombado em 1982 a nível Estadual e a nível Nacional, o Passeio Público tombado em 1965 e a Fortaleza Nossa Senhora da Assunção apenas em 2008. Diante do sítio de relevância histórica em várias categorias, fez-se necessário um estudo prévio de como atuar na área para a produção do partido. A Carta de Veneza (1964), a Carta de Burra (1980) e a Carta de Fortaleza (1997) orientaram os primeiros traços do Atlas. A Carta de Veneza (1964) apresenta diretrizes para a identificação, conservação e restauração de obras de relevante interesse histórico, bem como seu entorno. Segundo o documento, “as obras monumentais de cada povo perduram no presente como o testemunho vivo de suas tradições seculares. A humanidade (...) as considera um patrimônio comum e, perante as gerações futuras, se reconhece solidariamente por preservá-las, impondo a si mesma o dever de transmití-las na plenitude de sua autenticidade”. No Artigo 1º da Carta de Veneza, considera-se a criação arquitetônica isolada e/ou o sítio como testemunho de uma civilização particular, independente de serem grandes criações ou obras modestas, que tenham adquirido, com o tempo, um significado cultural. Deste modo, como finalidade, o Artigo 3º explicita a conservação e restauração como salvaguardo do testemunho histórico, situação esta inerente a este trabalho. Deve existir também uma conjuntura de conservação e manutenção permanente com função útil à sociedade. O Artigo 6º instrui sobre o sítio e novas construções diretamente relacionadas ao bem tombado:
“Art. 06º - A conservação de um monumento implica a preservação de um esquema em sua escala. Enquanto subsistir, o esquema tradicional será conservado, e toda construção nova, toda destruição e toda modificação que poderiam alterar as relações de volumes e de cores serão proibidas”. (Carta de Atenas, Conservação, Artigo 6º, 1964).
Já a Carta de Burra (1980) define que a obra ou o conjunto de obras, a zona e o entorno que possuam uma significação cultural deverão ser mantidas, preservadas, restauradas, reconstruídas ou adaptadas perante situações diferenciadas. Entende-se também que a significação cultural designará o valor estético, histórico, científico ou social deste bem para as gerações passadas, presentes ou futuras. A partir das diretrizes da Carta de Burra (1980), percebe-se que o cenário onde ocorrerá a intervenção deverá ser mantido, “designando a proteção contínua da substância, do conteúdo e do entorno” do conjunto de bens citados, além de preservado, que se justifica através da “manutenção no estado da substância de um bem e a desaceleração do processo pelo qual ele se degrada”. Os Artigos 11º e 12º descrevem as situações e instrumentos que materializem a preservação: “Art. 11º - A preservação se impõe nos casos em que a própria substância do bem, no estado em que se encontra, oferece testemunho de uma significação cultural específica, assim, como nos casos em que há insuficência de dados que permitam realizar a conservação sob outra forma”. (Carta de Burra, Preservação, Artigo 11º, 1980). “Art. 12º - A preservação se limita à proteção, à manutenção e à eventual estabilização da substância existente. Não poderão ser admitidas técnicas de estabilização que destruam a significação cultural do bem”. (Carta de Burra, Preservação, Artigo 12º, 1980).
Por último, a Carta de Fortaleza (1997) recomenda que a preservação do patrimônio cultural seja abordada de forma global, buscando valorizar a produção simbólica e cognitiva, além de utilizar instrumentos como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de
TERRITÓRIO | 43
44 | TERRITÓRIO
Impacto Ambiental (RIMA) para a avaliação do novo empreendimento salvaguardando o patrimônio, agora contemplado em sua amplitude. O projeto apresentado neste trabalho segue, então, as recomendações dos artigos citados anteriormente. Uma vez que o centro de pesquisa regional Atlas está locado no ponto médio dos bens tombados, foram diretrizes do partido o aproveitamento da topografia íngreme para enterrar o edifício deixando uma grande esplanada entre o mar (outrora desprezado na história de Fortaleza) e as edificações históricas, tornando-o discreto e dando ênfase ao peso cultural do local, não necessariamente à nova construção.
TERRITÓRIO | 45
Fig. 20 - Perspectiva panorâmica do sítio de intervenção e do entorno tombado. Fonte: www.earth.google.com
46 | TERRITÓRIO
Fig. 21 - Passeio Público com programação cultural aos domingos. Fonte: Acervo da autora Fig. 22 - Rua Senador Jaguaribe e a fachada norte tombada da Centro de Turismo EMCETUR. Fonte: Acervo da autora Fig. 23 - Rua Senador Jaguaribe com vista ao oeste. Fonte: Acervo da autora Fig. 24 - Rua Barão do Rio Branco com perspectiva da fachada tombada da Santa Casa de Misericórdia e do Passeio Público. Fonte: Acervo da autora
TERRITÃ&#x201C;RIO | 47
Fig. 25 - Mapa de pontos relevantes no percurso ao Centro de Fortaleza. Fonte: Elaborado pela autora
MAPA DE PONTOS RELEVANTES NO PERCURSO AO CENTRO DE FORTALEZA TOMBAMENTO FEDERAL 01. Fortaleza Nª Senhora da Assunção 02. Passeio Público
TOMBAMENTO ESTADUAL 03. Secretaria da Fazenda 04. Hotel do Norte 05. Antiga Cadeia Pública 06. Estação Ferroviária Dr. João Felipe
TOMBAMENTO MUNICIPAL 07. Ponte dos Ingleses 08. Santa Casa de Misericórdia 09. Capela Santa Teresinha
PONTOS RELEVANTES 10. Dragão do Mar 11. Mercado Central de Fortaleza 12. Igreja da Sé 13. Marina Park Hotel
PERCURSO PRIORITÁRIO Provável percurso pedal
13 03 05 06
50 | TERRITÓRIO
LEGISLAÇÃO Os terrenos escolhidos para implantação do Atlas apesar de estarem no contexto do Centro Histórico, o bairro a que pertencem é o Moura Brasil. Contudo, estão dentro da poligonal da Microzona de Urbanização Prioritária ZU-1, classificação da Lei de Uso e Ocupação do Solo de Fortaleza. O perímetro é definido pela Avenida Presidente Castelo Branco, Avenida Dom Manuel, Rua Antônio Pompeu e Avenida Padre Mororó, ficando os edifícios situados nesta poligonal liberados da Fração do Lote e Índice de Aproveitamento, de acordo com o Artigo 146 da LUOS. O Artigo 147 definirá os recuos da zona citada acima. Os lotes lindeiros às avenidas sentido norte-sul serão recuados até liberarem um passeio de 4,00 metros e os lotes lindeiros às vias de sentido leste-oeste só precisarão de um passeio mínimo de 3,00 metros. Para os edifícios tombados, caso da Santa Casa e EMCETUR, admite-se a manutenção dos recuos e passeios existentes. De acordo com o Artigo 148 da mesma lei, será permitido o avanço do balanço, até o alinhamento, dos três primeiros pavimentos acima do térreo, desde que o piso do 4º pavimento não ultrapasse a cota dos 12,00 metros. O edifício projetado possui apenas 8,47 metros e térreo + 1 pavimento, consentindo assim o balanço em direção à Avenida Presidente Castelo Branco. O equipamento foi classificado, segundo a Lei de Uso e Ocupação do Solo de Fortaleza, como Museu (Classe III), considerado como projeto especial, sendo objeto de estudo para estimativa de número de vagas. No Plano Diretor Participativo de Fortaleza (PDPFor) encontram-se diretrizes e ações da política de proteção ao patrimônio cultural de interesse artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. Deverá haver compatibilização de usos e atividades com a preservação e proteção do patrimônio, bem como a democratização do acesso a este equipamento, ítem de destaque, visto que a Comunidade do Moura Brasil poderá beneficiarse diretamente da construção do edifício Atlas, que se encontra na Zona Especial de Preservação do Patrimô-
nio Cultural (ZEPH), ainda não delimitada oficialmente. Outro ponto a ser destacado é a indução por parte do PDPFor da elaboração de uma legislação específica para a preservação da visualização do entorno dos imóveis tombados e identificados como de interesse de preservação. Antecedendo esta lei, o equipamento projetado respeita o entorno histórico e seu principal visual: o mar.
MACROZONA:
|ZU| Zona Urbanizada
MICROZONA:
|ZU1| Zona de Urbanização Prioritária
|ZOP1| Zona de Ocupação Preferencial 1 |ZEPH| Zona Especial do Patrimônio Paisagístico, Histórico, Cultural e Arqueológico
TERRITÓRIO | 51
Fig. 26 - Mapa de localização dos bairros Centro e Moura Brasil. Fonte: Elaborado pela autora + Camila Studart
MAPA DE LOCALIZAÇÃO DOS BAIRROS CENTRO E MOURA BRASIL 18 BAIRROS DE INTERVENÇÃO 01. Moura Brasil 02. Centro
BAIRROS CIRCUNDANTES 03. Praia de Iracema 04. Meireles 05. Aldeota 06. Dionísio Torres 07. Joaquim Távora 08. José Bonifácio 09. Fátima 10. Benfica 11. Gentilândia 12. Jardim América 13. Damas 14. Farias Brito 15. Rodolfo Teófilo 16. Parque Araxá 17. Parquelândia 18. São Gerardo 19. Monte Castelo 20. Jacarecanga 21. Carlito Pamplona 22. Pirambu
Fig. 27 - Mapa de mobilidade do Centro de Fortaleza. Fonte: Elaborado pela autora + Camila Studart
MAPA DE MOBILIDADE DO CENTRO DE FORTALEZA PERCURSO Ônibus Metrô
ESTAÇÃO Bicicleta Ônibus Metrô
56 | TERRITÓRIO
MOURA BRASIL O bairro Moura Brasil juntamente com o Centro, Grande Pirambu e Barra do Ceará são áreas de expansão da região oeste do litoral de Fortaleza, sendo caracterizadas pela histórica ocupação dos migrantes sertanejos e produção de habitações de caráter precário.
Ao chegarem em Fortaleza, os sertanejos eram conduzidos para áreas desvalorizadas da capital, como terrenos próximos ao mar, caso do Arraial Moura Brasil, por vezes conhecido como Curral. No local de confinamento, era proibido sair, ficando ao encargo do estado fornecer materiais de primeira necessidade para a comunidade que se formava. A vigilância não perdurou muitos anos, consolidando o local e seus habitantes à margem da sociedade fortalezense e sem nenhuma infraestrutura básica. Contudo, na década de 1970, a inauguração da Avenida Presidente Castelo Branco, que ligava a zona industrial oeste à zona portuária leste, acelerou a inclusão da comunidade à malha urbana de Fortaleza, recebendo investimentos públicos e privados.
Apesar da dinâmica espacial, o bairro continua sendo uma zona vulnerável. Contudo, o sentimento identitário coletivo é sólido, o que facilita a implantação de projetos sociais e culturais como um dos pilares para a tranformação da comunidade. O equipamento Atlas do Ceará foi pensado, também, para atender a esta população, uma vez que mediante prévio cadastramento, poderá utilizar livremente a biblioteca e seus espaços comuns, além de se pensar uma programação especial aos fins de semana, a exemplo de exibição de curtas e filmes produzidos localmente. O equipamento, por questão de respeito ao entorno, ser enterrado, adicionou dois espaços de lazer e mirante, o que soma aos espaços livres visivelmente escassos em Fortaleza.
TERRITÓRIO | 57
Fig. 28 - Bairro Moura Brasil defronte à Avenida Leste Oeste. Fonte: www.flickr.com Fig. 29 - Capela Santa Teresinha tombada a nível de município. Fonte: www.earth.google.com Fig. 30 - EMEIF Moura Brasil. Fonte: www.flickr.com Fig. 31 - Bairro Moura Brasil. Fonte: www.flickr.com Fig. 32 - Igreja Santa Edwiges. Fonte: www.flickr.com
60 | LUGAR
ATLAS DO CEARÁ A partir da demanda de uma fonte centralizadora e física de dados e estudos do estado do Ceará, surgiu a ideia do Atlas do Ceará: Centro de Pesquisa Regional. Com viés de pesquisa e exibição, o programa beneficia não somente turistas que visitam o estado, mas a própria comunidade, muitas vezes deficiente de erudição nativa, e pesquisadores ávidos de fundamentações com procedência fidedigna. Locado no Centro Histórico de Fortaleza e rodeado de edificações tombadas a nível municipal, estadual e nacional, o Atlas do Ceará foi implantado em dois terrenos íngremes de posse do Governo do Estado. A solução projetual, com base neste cenário à primeira vista indômito, foi utilizar a topografia como diretriz master. Estando defronte ao mar e possuindo um declive de 8 metros de altura, os terrenos propiciaram que o edifício projetado desaparecesse na paisagem historicamente rica, mas muitas vezes desprezada. Assim, a cobertura do edifício tornou-se um grande belvedere com uso de mirante para a praia, como também consentiu perspectiva para os bens tombados.
O Atlas do Ceará, encontrando-se enterrado em uma paleofalésia, adquire valor simbólico para o usuário, que experimentará uma imersão no conhecimento do espaço. Tal como o Professor Lidenbrock e seu sobrinho Axel do livro Viagem ao Centro da Terra de Júlio Verne, o visitante do Centro de Pesquisa será convidado a escolher percursos cravados no edifício com um único objetivo: o deleite do saber. O edifício projetado trata dos aspectos materiais e imateriais do estado do Ceará. Utilizando-se de um instrumento didático, como o atlas, o conhecimento se faz de forma gradual. Percorre-se o edifício paginando a natureza do estado, suas limitações geopolíticas e suas variadas nuances culturais, econômicas e sociais. A contemplação e absorção do território dá-se através do macro ao micro, finalizando com aspectos e temáticas ímpares do estado como comida, costumes e literatura. A proposta de funcionamento do Centro de Pesquisa é vinculá-lo ao Governo do Estado do Ceará, porém com viés autossustentável através do setor aberto ao público e do investimento de capital privado interessado em divulgar lugares e locais da região. Ao término desta grande aventura, o usuário é desafiado a desfrutar do conhecimento adquirido in loco, desbravando paisagens, incorporando culturas e visitando o que o Ceará possui de mais genuíno.
LUGAR | 61
REFERÊNCIAS PROJETUAIS Os exemplares selecionados, apesar dos distintos programas e entornos, apresentam diretrizes inerentes aplicadas ao projeto apresentado neste trabalho. 66|Parque Natural do Fogo 68|Museu do Bicentenário 70|Centro Cultural São Paulo
PARQUE NATURAL DO FOGO Arquitetura: OTO Localização: Fogo, Cabo Verde Data: 2013 Materialidade: Concreto + Magma Fotos: Fernando Guerra Fonte: www.archdaily.com.br/
Na Ilha do Fogo, em Cabo Verde, encontra-se uma comunidade de 1200 pessoas que vivem à beira de um vulcão a 1800m de altitude. Devido à localização e a processos naturais, a terra é potencialmente fértil, motivando e permitindo que o povoado sobreviva das atividades agrícolas. Contudo, a legislação que protege a área como interesse nacional limitou essa zona de cultivo, contrariando a comunidade e gerando conflito. A necessidade de unir os anseios do povoado à proteção ambiental, consolidando assim uma identidade forte da ilha, fez surgir o Projeto da Sede do Parque Natural do Fogo.
Fig. 33 - Entrada em declive do Parque Natural do Fogo. Fonte: Nelson Kon Fig. 34 - Cobertura do Parque com uso para fins agrícolas. Fonte: Nelson Kon Fig. 35 - Pátio do equipamento cultural Parque Natural do Fogo. Fonte: Nelson Kon
Funcionando com espaços de lazer e cultura para a comunidade e turistas, bem como espaços de capacitação direcionados à gestão e tratamento da área protegida, a obra insere-se no contexto da paisagem natural a ponto de fundir com a terra fértil da região. O edifício é dividido em duas zonas. A Zona Cultural é composta por auditório fechado e um outro aberto, biblioteca e bar. A Zona Administrativa contém salas de reuniões e de trabalho, laboratório e áreas técnicas. Todo o edifício é envolvido por rampas e espaços de plantações com espécies vegetais autóctones. A construção recente abrigou a pretenção de valorização interna e externa da Ilha do Fogo, entretendo e educando quem lhe visitava. Contudo, pouco meses após sua inauguração, o vulcão, inativo desde 1995, tornou a entrar em atividade, causando a destruição de parte do empreendimento.
Fig. 36 - Vão de exposições do Museu do Bicentenário. Fonte: B4FS Fig. 37 - Edifício histórico e o anexo projetado em aço e vidro. Fonte: B4FS Fig. 38 - Arco estrutural anexo ao vão de exposições do Museu do Bicentenário. Fonte: B4FS Fig. 39 - Coberta em vidro e aço do vão de exposições do Museu do Bicentenário. Fonte: B4FS
MUSEU DO BICENTENÁRIO Arquitetura: B4FS Arquitectos Localização: Buenos Aires, Argentina Data: 2011 Materialidade: Aço + Vidro Fotos: B4FS Fonte: www.archdaily.com.br/
A Prefeitura de Buenos Aires e a Sociedade Central de Arquitetos realizou um concurso internacional para a revitalização da antiga Sede dos Correios e Telégrafos e a sua transformação no Centro Cultural do Bicentenário. A conversão do antigo edifício em um museu contemporâneo objetiva além da restauração e renovação do prédio, a recuperação do entorno denso e de interesse histórico para o país.
O programa inclui salas de música, espaços para exposição e áreas de apoio. Há dois tipos de intervenção: a recuperação das fachadas e das áreas nobres do antigo edifício e sua renovação abrigando o novo programa arquitetônico. O projeto vencedor de autoria do escritório B4FS Arquitetos propôs uma fachada de vidro que mergulha na terra, à nível da praça, protegendo o sítio arqueológico de um modo sóbrio e eficiente, visto que é necessária a manutenção da iluminação típica de um espaço aberto, na área do antigo pátio, proporcionando a condição ideal para as atividades culturais e de exposição. O edifício integra-se a um corredor cultural revitalizado em La Plaza de Mayo, consolidando o patrimônio argentino para as futuras gerações.
O Centro Cultural São Paulo foi projetado e construído durante a Ditadura Militar para ser um espaço democrático e de convívio, transformando-se em um dos primeiros locais culturais multidisciplinares do país, facilitando o acesso da população a cinema, teatro, shows, concertos, ateliês e áreas de exposição. A concepção do centro cultural foi baseada no significado do acesso à informação. Assim, o edifício foi projetado com o objetivo de facilitar ao máximo o encontro do usuário com as atividades oferecidas no centro cultural através de um espaço físico com dimensões amplas e multidisciplinares, diversas entradas e caminhos, sempre tentando evitar qualquer compartimentação e monitoramento.
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO Arquitetura: Eurico Prado Lopes + Luiz Telles Localização: São Paulo, Brasil Data: 1982 Materialidade: Aço + Vidro Fotos: Nelson Kon Fonte: www.centrocultural.sp.gov.br/
Um serviço importante a ser destacado solicitado pelo programa de necessidades foi o acesso do usuário aos livros. Assim, na futura biblioteca, ainda que as obras raras fossem resguardadas, a relação do usuário com o livro seria mais direta. Neste ponto, Eurico Prado Lopes e Luiz Telles já tinham experiência em transpor paradigmas. Suas experiências nos chamados “escritórios panorâmicos”, criados na Alemanha da década de 1960 e que baseava-se nos quatro Ls: layout, licht, luft e Lãrm (layout, luz, ar e acústica). Os escritórios deveriam ser menos verticais nos organogramas e mais horizontais de comunicação, implicando em menos rotina, mais trabalho criativo, flexibilidade e mobilidade. Aspectos estes aplicados não somente à biblioteca do centro cultural, mas em todo o edifício.
Fig. 40 - Pátio do Centro Cultural São Paulo. Fonte: Nelson Kon Fig. 41- Estrutura independente do edifício viabilizando atividades informais. Fonte: Nelson Kon Fig. 42 - Biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Fonte: Nelson Kon Fig. 43 - Estrutura metálica e vedações em esquadrias de aço e vidro do Centro Cultural São Paulo. Fonte: Nelson Kon
O aspecto de horizontalidade do edifício foi traduzido como ruas e estas também são consideradas lugar. A solução projetual foi então criar duas ruas internas, que passariam por toda biblioteca. Percorrendo estas ruas internas, o usuário encontra hoje, para diminuir a sensação de comprimento, pólos de atração, como o antigo pátio da biblioteca braile, o teatro de arena, o jardim, o vazio central do volume proeminente e as várias entradas do edifício. O terreno íngreme não impediu que os arquitetos projetassem um lugar de convivência e fluidez, que apesar de manter a introspecção da escola paulista, tornou-se uma extensão do espaço público. Acrescentando uma visão de causa e consequência, o espaço público também foi transformado pelo edifício. Em um período pré obra, o lugar carecia de identidade, restando-lhe uma situação à margem de outros bairros mais nobres, que devido a uma série de fatores topográficos e sociais não foi incorporado com naturalidade. Situação esta completamente transformada após a construção do edifício e da implementação de planos de revitalização como suporte, tornando-se um bairro de reorientação cultural.
MASTERPLAN A partir da análise do espaço a nível regional e local, do levantamento de dados patrimoniais, legais e ambientais, bem como o exame crítico das diretrizes projetuais do sítio histórico, foram definidas estratégias de intervenção no entorno do edifício projetado na escala da quadra e do bairro.
CAMINHABILIDADE Fortificação da perenidade urbana através da construção do Centro de Pesquisa e da revitalização de espaços livres conectores objetivando a melhoria da experiência do caminhar. Intervenções a fim de favorecer as condições de mobilidade e acessibilidade são necessárias no atual quadro urbano do Centro de Fortaleza. Assim, deverão ser revisadas questões como cruzamentos seguros, iluminação e superfícies adequadas, calçadas confortáveis e comunicação visual orientando corretamente o pedestre. FLUXOS POTENCIAIS Historicamente, a paisagem marítima de Fortaleza foi desprezada. O fato ocasionou a construção de várias residências e edifícios voltados para o continente. Desta forma, o Centro de Pesquisa projetado visa requalificar o espaço locado em uma paleofalésia suscitando novos fluxos em vias não convidativas para pedestres, tais como a Rua Senador Jaguaribe e a Avenida Leste Oeste. ESCALA URBANA Seguindo as diretrizes da Carta de Veneza em relação à conservação dos monumentos históricos, faz-se necessário respeitar a escala urbana como forma de preservação do esquema existente. O resultado obtido beneficia também o pedestre, uma vez que torna a via humanizada. ATRATIVIDADE Criação de espaços com funções diferenciadas como esplanada e mirante, proporcionando ao usuário perspectivas e vistas outrora não viabilizadas, além do contato com diversos mobiliários urbanos e elementos edificados que possibilitam diferentes apropriações. COESÃO SOCIAL A proposta programática do Atlas do Ceará alcança diferentes públicos e faixas etárias, propondo-se a funcionar como um local agregador de diversidade e imã social.
74 | LUGAR
PARTIDO A proposta do equipamento cultural Atlas do Ceará tem como compromisso o enaltecimento do território, seja a nível regional ou local. Tratando de múltiplos aspectos deste estado nordestino, sua sede física foi implantada em um local de importância histórica não somente para a cidade de Fortaleza, mas também para o próprio Ceará, como ponto de origem desta comunidade e simbolismo para a mesma. Rodeado de importantes construções e espaços livres tombados, a topografia íngreme e as Cartas relevantes para a conservação do Patrimônio foram as principais diretrizes para a construção do Partido. Assim, projetou-se um equipamento discreto em meio à paisagem, que pudesse valorizar não somente o meio edificado, mas também a vista privilegiada para o mar da antiga Praia Formosa, atual Praia de Iracema. A solução projetual foi enterrar o edifício nos 8 metros de declive existente, tornando sua coberta dois grandes belvederes, com ligação por meio de uma passarela metálica e vigas invertidas. Objetivando criar área para conferir vista panorâmica para os bens tombados, bem como gerar um percurso de cunho cultural no Centro Histórico, a entrada principal do edifício encontra-se no nível 4. Assim, a expansão do Passeio Público em direção à Avenida Leste Oeste, atualmente terreno pertencente ao Governo Federal, contudo outrora continuação da Praça dos Mártires, confere permeabilidade no percurso urbano e entrada privilegiada para o Atlas do Ceará. As outras duas entradas do edifício são administrativas para funcionários e para pesquisadores, ambas com acesso pela Avenida Leste Oeste. Visando o bom funcionamento dos belvederes, foi proposto o fechamento da Rua Senador Jaguaribe no setor do quarteirão correspondente à Santa Casa de Misericórdia. Já no setor da EMCETUR, foram criadas vagas de carros e bicicletário, além de uma faixa de pedestre elevada ligando o Centro de Turismo ao mirante.
O Atlas do Ceará divide suas atividades em dois edifícios. O primeiro, a leste, possuindo a entrada principal para os visitantes, abriga um grande pátio verde caracterizando as paisagens naturais do estado. Desta forma, com exceção do auditório, da biblioteca e da administração, ele não necessita de condicionamento artificial, ficando a cargo das grandes aberturas frontais e zenitais a ventilação natural do ambiente. Já o segundo edifício, que comporta as exposições interativas e físicas, além do laboratório e seu apoio, necessita de iluminação controlada e conforto ambiental artificial. A solução projetual para ligar os dois edifícios, tornando a visita ao Atlas um percurso dinâmico com início, meio e fim, foi construir um túnel cruzando a Rua Senador Pompeu no nível 08 (nível da Avenida Leste Oeste), como um mergulho ao conhecimento tal qual o já citado livro de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra. Além das várias questões inerentes ao partido em escala urbana e arquitetônica, a preocupação de o terreno íngreme não impedir a permeabilidade do percurso do usuário foi uma preocupação frequente, primeiramente quando implantado e, em um segundo momento, quando criado o percurso interno do edifício. A intenção foi tornar o Atlas do Ceará uma extensão do espaço público e criar, além da já citada síntese dialética do homem e do espaço no primeiro capítulo deste trabalho, agora, a dialética do espaço urbano e da arquitetura.
LUGAR | 75
76 | LUGAR
Fig. 46 - Auditório do Atlas do Ceará com a exibição dos aspectos gerais do estado em preparação do visitante aos espaços de exibição.
LUGAR | 77
PROGRAMA DE ATIVIDADES O Centro de Pesquisa Regional Atlas do Ceará baseia-se nas seguintes atividades como cerne do seu funcionamento: PESQUISA Núcleo interdisciplinar formado por especialistas em estudos naturais, econômicos, técnicos e sociais com o intuito de reunir dados e fatos sobre o Ceará, subdividindo-os em macrorregiões e temáticas. A investigação e a documentação são atividades inerentes aos pesquisadores do Atlas, assim como a disponibilidade em atender ao público leigo e especializado. INFORMAÇÃO A divulgação é a atividade que está ligada diretamente ao usuário, sem este retorno à sociedade o edifício não se justifica. O acesso aos dados e estudos sobre o Ceará estarão disponíveis através de três meios: físico, audiovisual e digital. MEMÓRIA Os serviços prestados no Atlas do Ceará, bem como seu próprio espaço físico formam uma atividade indireta para o resgate e a conservação da memória do lugar e das tradições da região, proporcionando a difusão da cultura e do conhecimento com o intuito de transformar a comunidade local e acadêmica em guardiões e agentes ativos do espaço. LAZER O edifício Atlas privilegia-se de sua locação urbana e topográfica beneficiando o usuário com espaços de lazer internos e externos, atividades recreativas com o acesso ao café e à biblioteca ou simplesmente por estar em um corredor cultural na cidade.
78 | LUGAR
auditório > túnel > macrorregiões > exposições temáticas
café > loja de souvenirs > pátio
administração do Atlas do Ceará > bloco de apoio ao laboratório > sanitários
LUGAR | 79
Fig. 47 - Vão livre do laboratório do Atlas do Ceará e a visão para o mar da Praia de Iracema. O vão livre possibilita o uso de diferentes layouts de trabalho e futuras intervenções de uso do prédio.
80 | LUGAR
ATLAS |48|
SAÍDA DE EMERGÊNCIA OESTE
Fig. 48 - Planta isométrica explodida marcando as entradas do edifício e os setores de pé direito duplo do pátio e das Macrorregiões. Fonte: Elaborado pela autora
O Programa de Necessidades foi estabelecido com base no Programa de Atividades apresentado anteriormente acrescido do setor administrativo e de apoio, que viabilizarão os serviços já citados. Foram pensados espaços afins congruentes de forma a estabelecer percursos tanto para o usuário quanto para o funcionário do Atlas do Ceará. Visando possíveis modificações de programa e uso, seus ambientes são passíveis de alteração.
LUGAR | 81
Nível 8.0 Rua Senador Jaguaribe|8167.44m² Nível 4.0 Atlas do Ceará|3354.81m² Nível 0.0 Avenida Leste Oeste|5772.80m²
nível 4.0|0063.42m²|sala de reuniões
nível 8.0|5713.41m²|belvedere
nível 4.0|0014.02m²|copa
nível 8.0|1659.62m²|jardim
nível 4.0|0021.45m²|sala TI
nível 8.0|0071.11m²|passarela
nível 4.0|0035.68m²|banheiro masculino
nível 8.0|0723.30m²|estacionamento
nível 4.0|0035.68m²|banheiro feminino
nível 0.0|0198.13m²|estacionamento privativo
nível 4.0|0474.54m²|recepção para visitantes
nível 0.0|0055.49m²|recepção
nível 4.0|0121.29m²|loja
nível 0.0|0006.00m²|elevador
nível 4.0|0044.46m²|banheiro masculino
nível 0.0|0039.17m²|portaria
nível 4.0|0044.46m²|banheiro feminino
nível 0.0|0018.41m²|secretaria
nível 4.0|0018.81m²|café
nível 0.0|0049.56m²|sala do diretor
nível 4.0|0437.60m²|área comum
nível 0.0|0047.04m²|sala apoio administrativo
nível 4.0|0372.75m²|biblioteca
nível 0.0|0047.04m²|sala apoio relações públicas
nível 0.0|0717.87m²|pátio
nível 0.0|0017.36m²|banheiro masculino
nível 0.0|0968.90m²|jardim
0017.36m²|banheiro feminino
nível 0.0|0294.97m²|auditório
nível 0.0|0005.04m²|banheiro deficiente
nível 0.0|0230.86m²|túnel
nível 0.0|0020.11m²|copa
nível 0.0|1120.50m²|macrorregiões
nível 0.0|0024.67m²|depósito
nível 0.0|0704.34m²|exposições temáticas
nível 0.0|0019.77m²|vestiário masculino
nível 0.0|0019.77m²|vestiário feminino
nível 0.0|0107.56m²|recepção
nível 0.0|0013.72m²|armário
nível 0.0|0052.16m²|saída de emergência leste
nível 0.0|0154.19m²|área técnica
nível 4.0|0077.19m²|saída de emergência oeste
nível 0.0|0012.94m²|banheiro masculino
nível 0.0|0238.41m²|escada A
nível 0.0|0012.94m²|banheiro feminino
nível 0.0|0097.68m²|escada B
nível 0.0|0005.40m²|banheiro deficiente
nível 0.0|0275.01m²|escada C
nível 4.0|0043.25m²|hall de entrada laboratório
nível 0.0|0525.37m²|pocket park
nível 4.0|1255.60m²|laboratório
nível 0.0|0825.17m²|jardim
82 | LUGAR
Circuito 01 hall de entrada > rampa > auditório > túnel > macrorregiões > exposições temáticas Circuito 02 pátio Circuito 03 biblioteca > café > loja de souvenirs
PERCURSOS O equipamento cultural projetado possui o nome Atlas do Ceará por assemelhar-se à coleção de mapas e dados comumente utilizada por pesquisadores e leigos para o estudo de um lugar ou região. Assim, a cada passo dado ou página virada, há uma nova informação para o usuário e para o leitor. Valendo-se deste instrumento e objetivando estender os percursos urbanos ao interior do equipamento público, foram pensados três trajetos como guias para o pleno conhecimento que o Atlas do Ceará pode oferecer ao visitante.
LUGAR | 83
Fig. 49 - Planta isométrica explodida exibindo os possíveis circuitos que os visitantes do Atlas do Ceará poderão percorrer. Fonte: Elaborado pela autora
84 | LUGAR
Fig. 50 - Setor de exposição de uma macrorregião do estado do Ceará. O forro obrigatoriamente utilizado para isolar a acústica de cada setor é composto por ripas de madeira espaçadas a 0.10m e um isolante de lã de rocha fixado acima desta estrutura. Como uma premissa do edifício, o ambiente é independente estruturalmente. Assim, o acréscimo eventual de macrorregiões ou a possível mudança de uso do edifício são permitidos.
LUGAR | 85
Circuito 01 Ao entrar no edifício pelo nível 04, o visitante dirige-se à recepção e é conduzido a descer a rampa existente no pátio, desfrutando da densa vegetação regional localizada no coração do Atlas do Ceará. Ao chegar no nível da Avenida Leste Oeste, um documentário sobre o estado será assistido no auditório rochoso. Desta forma, o usuário terá uma visão macro sobre o Ceará, habilitando-o a obter informações mais detalhadas sobre a região em múltiplos aspectos. Após a exibição do documentário, a próxima parada será as macrorregiões. O espaço, de pé direito duplo e cabines com dimensões de 8.80m x 6.60m, separam as regiões geopolíticas do estado do Ceará. Ocorre então um movimento de zigue-zague entre as 14 macrorregiões como meio de indução à visitação de todas estas cabines. As exposições acontecem por meio interativo, visto que o conteúdo transmitido não permite ser materializado. Há informações sobre cultura, economia, paisagens e estabelecimentos locais relevantes, música, dados geomorfológicos, climáticos, hídricos e sociais.
86 | LUGAR
O espaço seguinte destina-se à exposições temáticas comuns às regiões e que não se enquadram na divisão geopolítica acima citada como, por exemplo, a cultura do pescador e do camponês. De volta ao edifício principal, o visitante sente-se provocado a percorrer o pátio, como trajeto alternativo à saída.
LUGAR | 87
Fig. 51 - Área de exposições temáticas sobre o estado do Ceará. O vão livre optado possibilita o uso de diferentes formas de exibição e acréscimo de temas regionais. A iluminação do ambiente é proporcionada por brises de madeira fixos locados na fachada norte do edifício B, que funcionam como vedação.
88 | LUGAR
Fig. 52 - Pátio verde com aberturas zenitais do edifício A.
LUGAR | 89
Circuito 02 O pátio verde do Atlas do Ceará possui algumas aberturas zenitais, que convidam o visitante a percorrê-lo de forma a ter diferentes percepções de sombra e luz, além de uma vegetação densa, bancos locados em diferentes ângulos e uma escada com função de arquibancada, que permite ao usuário a possibilidade de uma apropriação espontânea do local. Acrescido a este espaço de convivência, há também a alternativa para ocorrer eventuais exposições temporárias, que demandem pé direito duplo e um maior espaço físico.
90 | LUGAR
Circuito 03 Ao fim do percurso, o visitante encontra uma loja de souvenirs referente ao centro de pesquisa e ao Ceará, um café para o descanso e a biblioteca Patativa do Assaré para relaxar e aprofundar o conhecimento adquirido. Além disto, a coberta do edifício torna-se um grande belvedere, proporcionado pela topografia íngreme do local, onde a comunidade e o visitante poderão apreciar a vista dos bens tombados e o valorizado mar nordestino.
LUGAR | 91
Fig. 53 - Área de integração entre os visitantes do Atlas do Ceará. O café possui vista privilegiada para o mar da Praia de Iracema e para a densa vegetação interna do pátio do edifício A.
92 | LUGAR
Fig. 54 - Túnel de conexão entre os edifícios A e B do Atlas do Ceará.
O túnel, única ligação interna entre os edifícios A e B, faz com que a conexão entre o espaço amplo e iluminado do primeiro e do segundo bloco prepare sensorialmente o visitante, após descer a rampa, para novas experiências.
LUGAR | 93
ÍNDICES E TAXAS Área do terreno: 10.753,61m² Área permeável: 1.892,71m² Taxa de ocupação: 67,21% Taxa de permeabilidade: 17,60% |liberado, de acordo com a Seção X da Lei de Uso e Ocupação do Solo| Área construída Atlas: 8.566,34m² Área construída Belvedere: 8.167,44m² Índice de aproveitamento: - |liberado, de acordo com o Artigo 146 da Lei de Uso e Ocupação do Solo|
01|5713.41m²|belvedere 02|1659.62m²|jardim 03|0071.11m²|passarela 04|0723.30m²|estacionamento
05|0474.54m²|recepção para visitantes
09|0018.81m²|café
06|0121.29m²|loja
10|0437.60m²|área comum
07|0044.46m²banheiro masculino
11|0372.75m²|biblioteca
08|0044.46m²|banheiro feminino
12|1255.60m²|laboratório
13|0063.42m²|sala de reuniões
17|0035.68m²|banheiro masculino
14|0043.25m²|hall de entrada
18|0035.68m²|banheiro feminino
15|0014.02m²|copa
19|0026.08m²|saída de emergência leste
16|0021.45m²|sala TI
20|0023.43m²|saída de emergência oeste
21|0198.13m²|estacionamento privativo
30|0017.36m²|banheiro feminino
22|0055.49m²|recepção
31|0005.04m²|banheiro deficiente
23|0006.00m²|elevador
32|0020.11m²|copa
24|0039.17m²|portaria
33|0024.67m²|depósito
25|0018.41m²|secretaria
34|0019.77m²|vestiário masculino
26|0049.56m²|sala do diretor
35|0019.77m²|vestiário feminino
27|0047.04m²|sala apoio administrativo
36|0013.72m²|armário
28|0047.04m²|sala apoio relações públicas
37|0154.19m²|área técnica
29|0017.36m²|banheiro masculino
38|0717.87m²|pátio
39|0968.90m²|jardim
47|0012.94m²|banheiro masculino
40|0294.97m²|auditório
48|0012.94m²|banheiro feminino
41|0230.86m²|túnel
49|0005.40m²|banheiro deficiente
Prédio Geografia Humana
42|1120.50m²|macrorregiões
50|0238.41m²|escada A
43|0704.34m²|exposições temáticas
51|0097.68m²|escada B
44|0107.56m²|recepção
52|0275.01m²|escada C
45|0026.08m²|saída de emergência leste
53|0525.37m²|pocket park
46|0077.19m²|saída de emergência oeste
54|0825.17m²|jardim
102 | LUGAR
LUGAR | |103
104 | LUGAR
Fig. 56 - Entrada principal do Atlas do Ceará pelo nível 04 possibilitada pela expansão do Passeio Público ao nível da Avenida Leste Oeste.
LUGAR |105
106 | LUGAR
LUGAR |107
108 | LUGAR
LUGAR |109
110 | LUGAR
01|tirante
07|forro em chapa metálica perfurada
02|piso em vidro estrutural transparente
08|laje de concreto steel deck
03|revestimento em chapa de aço corten
09|guarda-corpo em chapa metálica perfurada
04|piso elevado da praça
10|parede de contenção de concreto
05|laje de concreto steel deck
11|jardim vertical
06|perfil metálico tipo I (h=0.50m)
12|pilar metálico seção tubular (φ=0.30m)
CORTE ESQUEMÁTICO DO PÁTIO
LUGAR |111
01|esquadria maxim-ar de vidro e aço
07|esquadria maxim-ar de vidro + aço
02|forro em chapa metálica perfurada
08|tirante metálico suporte para estrutura T
03|perfil metálico tipo I (h=0.50m)
09|esquadria maxim-ar de vidro + aço
04|laje de concreto steel deck
10|tirante metálico suporte para estrutura T
05|piso elevado da praça
11|pilar metálico seção tubular (φ=0.30m)
06|brise em placas verticais móveis Trespa
12|brise em placas verticais fixas Trespa
ESPAÇO INTERNO PÁTIO
CORTE ESQUEMÁTICO DA BIBLIOTECA
112 | LUGAR
TÚNEL COM ESTRUTURA DE CONCRETO
AUDITÓRIO DE ESTRUTURA METÁLICA COM PAREDES VEDANTES CONSTITUÍDAS DE TELA DE AÇO + PEDAÇOS DE ROCHA APARENTE
LUGAR |113
114 | LUGAR
LUGAR |115
116 | LUGAR
PLACAS VERTICAIS FIXAS UTILIZANDO RIPAS TRESPA METEON
TELA DE AÇO + ROCHA
LUGAR |117
Fig. 57 - Fachada norte do edifício Atlas do Ceará com destaque à passarela integrando os belvederes dispostos em frente à Santa Casa e à EMCETUR.
PLACAS VERTICAIS MÓVEIS UTILIZANDO RIPAS TRESPA METEON
118 | LUGAR
PLACA CIMENTÍCIA AÇO CORTEN
LUGAR |119
120 | LUGAR
Fig. 58 - Passarela locada acima da Rua Senador Pompeu conectando os edifícios A e B do Atlas do Ceará.
LUGAR |121
122 | LUGAR
SOLUÇÃO ESTRUTURAL + SUSTENTABILIDADE A estrutura do Atlas do Ceará foi definida a partir do conceito de sustentabilidade. A redução de custos e prazos, além de uma intervenção mínima necessária para a sua construção, não impactando negativamente e de caráter desnecessário o entorno tombado, foram premissas para optar por sistemas industrializados de produção. O edifício é composto por uma estrutura metálica de pilares com seção de 0.30m com vãos modulados de 9x9m, vigas em perfil metálico tipo I com altura de 0.50m e lajes steel deck. O setor da biblioteca, em especial, é erguido por um sistema em T, viabilizado por tirantes contínuos a cada 9.0m, o que reforçou a escolha metálica como solução estrutural para o equipamento. As vedações internas são constituídas por painéis de dry-wall e esquadrias de alumínio e vidro. Já as vedações externas são proporcionadas por painéis de dry-wall, ora com revestimento de chapa metálica de aço corten, ora de placas de concreto. As instalações do Atlas do Ceará foram obrigatoriamente enterradas junto com o edifício, respeitando o entorno e a escala dos tombamentos. Não há caixa d’água, mas sim uma cisterna na área técnica, que armazena e reaproveita a água da chuva captada no nível do belvedere. Faz-se necessária a inserção do sistema de abastecimento de água pressurizada e a implantação do sistema de descarga à vácuo, o que reduz o consumo de água de 12 litros para apenas 1 litro.
LUGAR |123
1|Biblioteca erguida em sistema estrutural T reforçado com tirantes espaçados a cada 9m. 2|Sistema de jardineiras elevadas. 3|Placa de aço corten como revestimento de vedações externas. 4| Guarda-corpo em chapa metálica perfurada. 5|Piso em concreto absorvente 6|Pilar metálico circular com seção de 0.30m. 7|Viga em perfil metálico tipo I com altura de 0.50m. 8|Entrada alternativa do Atlas do Ceará pelo belvedere do edifício A, defronte à Santa Casa de Misericórdia. |59|
Fig. 59 - Esquema de estrutura do edifício A: corte perspectivado do pátio. Fonte: Elaborado pela autora
124 | LUGAR
Fig. 60 - Belvedere do edifício A, em frente ao Hospital da Santa Casa. Destaque para as aberturas do pátio verde interno juntamente com a faixa de vidro estrutural e gradis aparentes no nível 08.
LUGAR |125
126 | LUGAR
CONFORTO AMBIENTAL Apesar de o Atlas do Ceará necessitar de condicionamento ambiental artificial, seja para criar uma atmosfera adequada às exposições ou para conservar o acervo da biblioteca, seu programa de necessidades inclui uma grande área de vegetação interna. Seu espaço proporciona múltiplas atividades formais e informais, que exigem conforto ambiental adequado aos usuários e ao cultivo e manutenção das espécies vegetais regionais. Exposta a dualidade da situação, a solução projetual adequada foi optar por brises com perfis móveis pivotantes, no pavimento superior, e brises fixos, no pavimento térreo, ao longo de toda a fachada norte. Assim, o edifício, apesar de não estar locado propiciamente à captação da ventilação predominante sudeste de Fortaleza, recebe a brisa marítima diurna do mar da Praia de Iracema e a insolação, mesmo que indireta em alguns períodos do ano. A entrada de iluminação e/ou ventilação então depende do ambiente. Desta forma, os espaços que necessitam ser condicionados têm esquadria maxim-ar interna de vidro e alumínio para a captação da iluminação e eventuais necessidades de ventilação natural. Já os espaços que não exigem condicionamento artificial possuem um guarda corpo de vidro e alumínio ou apenas o brise, caso do pavimento térreo do pátio do Atlas do Ceará. Como os brises funcionarão na qualidade de vedação do edifício, houve a necessidade de reforçar a estrutura com tubos de aço, prevendo a segurança do equipamento cultural. A exaustão do pátio é viabilizada pelas aberturas zenitais. São três retângulos abertos com dimensões de 9x6m, 12x9m e 6x9m, além de um extenso retângulo, ora vedado por vidro estrutural, ora por gradis. Como o pátio está sujeito à intempérie, o piso do pátio foi especificado como concreto absorvente, material nomeado Tarmac Topmix Permeable, que caracteriza-se por ser um concreto bastante poroso. Assim, em dias chuvosos, o visitante ainda poderá desfrutar da paisagem interna do edifício em áreas cobertas sem se submeter à situações de risco. Quanto à insolação zenital, a temperatura interna do edifício é amenizada devido à vegetação existente no belvedere.
LUGAR |127
1 |61|
1|Ventilação natural da brisa marítima viabilizada pelos brises verticais locados na fachada norte do edifício Atlas do Ceará. 2|Exaustão natural do edifício através de aberturas zenitais. 3|Iluminação indireta incidente na fachada norte do equipamento cultural. 4|Aberturas sujeitas às intempéries. 5|Espaços internos que necessitam de condicionamento artificial para o seu correto funcionamento.
Fig. 61 - Esquema de conforto ambiental do edifício A: corte perspectivado do pátio + biblioteca. Fonte: Elaborado pela autora Fig. 62 - Esquema de conforto ambiental do edifício B: corte perspectivado das macrorregiões + exposições temáticas + laboratório. Fonte: Elaborado pela autora
5 |62|
128 | LUGAR
Fig. 63 - Belvedere do edifício B, em frente ao Centro de Turismo - EMCETUR. O paisagismo orgânico possibilita diferentes espaços de convivência e lazer, além de ser um local de extensão do equipamento tombado para eventos.
LUGAR |129
Fig. 64 - Corte esquemático evidenciando a localização da palmeira na mesma projeção do pilar metálico do edifício projetado. Fonte: Elaborado pela autora
PAISAGISMO Em contraste com as linhas ortogonais urbana e arquitetônica do Centro de Fortaleza, bem como do equipamento cultural projetado, o paisagismo foi pensado de forma orgânica como solução para a quebra da rigidez dos elementos construídos. O Atlas do Ceará possui externa e internamente três focos de jardins: o belvedere, o pátio e o pocket park. O belvedere, apesar da limitação de profundidade do solo e sobrecarga da estrutura, vale-se de técnicas de construção de teto-jardim para a sua execução. Assim, as árvores de maior porte foram distribuídas sobre os pilares do edifício e os arbustos foram escolhidos a partir da característica de possuir um sistema radicular superficial, evitando, desta forma, jardineiras profundas.
130 | LUGAR
01|Amburana Cearensis 02|Caesalpinia Pulcherrima 03|Calathea Leopardina 04|Dypsis Lutescens 05|Licuala Grandis 06|Ptychosperma Macarthurii 07|Sansevieria Cylindrica 08|Sansevieria Trifasciata 09|Scindapsus Aureus 10|Seixo Rolado 11|Syagrus Cearensis
O pátio do Atlas tem por função, além de ser um espaço natural de exposição vegetal nativa cearense, amenizar o impacto do usuário ao entrar em um edifício enterrado. A solução proposta foi torná -lo orgânico e cortar setores da laje para criar a dualidade de sombra e luz ao visitante. Desta forma, há luz suficiente para o desenvolvimento das plantas e conforto ambiental necessário para o usuário. Fig. 65 - Pátio verde e rampa do edifício A do Atlas do Ceará.
O pocket park projetado surgiu da necessidade de uma solução urbana para o não-lugar existente embaixo do viaduto, no terreno em frente à EMCETUR. O não -lugar caracteriza-se por ser um local de passagem, algo para ligar e não permanecer, como cita Benedito Abbud em seu livro Criando Paisagens: guia de trabalho em arquitetura paisagística. Este local funciona hoje como depósito de lixo e passagem estreita e insegura para descer ao nível da Avenida Leste Oeste. Assim, este espaço foi agregado ao Atlas do Ceará como mais um local de permanência, com inclusão de bancos, palmeiras e jardins verticais objetivando a alternativa de um micro espaço amigável aos transeuntes da Avenida Leste Oeste.
LUGAR |131
Fig. 67 - Pocket Park projetado substituindo o não-lugar existente abaixo do viaduto.
Fig. 66 - Não-lugar identificado anexo ao sítio de intervenção. Fonte: www.earth.google.com
132 | LUGAR
LUGAR |133
CONSIDERAÇÕES FINAIS Simbolicamente, tal como o Atlas, o gigante titã da mitologia grega, que carrega a terra e o céu em seus ombros, o equipamento Atlas do Ceará porta um peso cultural e técnico de responsabilidade para com o estado e sua comunidade. Valendo-me de um local rico historicamente e repleto de significados para a origem e identidade cearense, o Centro de Fortaleza, tentei aproximar-me dos ensinamentos da tríade de Vitruvius ao projetar o edifício apresentado neste trabalho final de graduação: firmitas, utilitas e venustas. O lugar concebido a partir do equilíbrio entre estes princípios da arquitetura poderá contribuir para reverter o quadro atual de degradação deste sítio histórico. Assim, faço a transição da vida acadêmica para a profissional, tendo a consciência do papel social do arquiteto como agente transformador do espaço e da sociedade.
BIBLIOGRAFIA ABBUD, Benedito. Criando paisagens: guia de trabalho em arquitetura paisagística. São Paulo: Editora Senac, 2006. ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura na Era Digital Financeira - Desenho, Canteiro e Renda da Forma. São Paulo: FAU USP, 2010. BARRA, Eduardo. Paisagens úteis: escritos sobre paisagismo. São Paulo: Mandarim, 2006. BENEDITO, Francisco. Caminhando por Fortaleza. Fortaleza: Destak, 1999. CRUZ, Rita de Cássia Ariza da. Introdução à Geografia do Turismo. 2 ed. São Paulo: Roca, 2003. CURTIS, William J. R. Arquitetura Moderna desde 1900. Alexandre Salvaterra. 3 ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. FRAMPTON, Kenneth. Jefferson Luiz Camargo. História Crítica da Arquitetura Moderna. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. ICOMOS, 1964. Carta de Veneza. In: IPHAN. Cartas Patrimoniais. Brasília: IPHAN, 1995.
ICOMOS, 1980. Carta de Burra. In: IPHAN. Cartas Patrimoniais. Brasília: IPHAN, 1995. LEI DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO – LUOS (Município). Lei nº 7987, de 23 de dezembro de 1996. MOLINA, Sérgio. Turismo: metodologia e planejamento. São Paulo: Edusc, 2005. PATRIMÔNIO IMATERIAL, 1997. Carta de Fortaleza. In: IPHAN. Cartas Patrimoniais. Brasília: IPHAN, 1995. PEREIRA, José R. Alonso. Introdução à História da Arquitetura e das Origens ao Século XXI. São Paulo: Bookman, 2009. PIANO, Renzo. ntrevista com Renzo Cassigoli. Maurício Santana Dias. A Responsabilidade do Arquiteto. São Paulo: BEI Comunicação, 2011. SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Hucitec, Edusp, 1978. SANTOS, Milton. Território, Globalização e Fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994. SERAPIÃO, Fernando. Centro Cultural São Paulo: espaço e vida. 1 ed. São Paulo: Editora Monolito, 2012.
JORNADA Ao fim destes últimos meses de trabalho, há a persistente sensação de não ter necessitado somente dos cinco anos obrigatórios para concluir o curso de Arquitetura e Urbanismo, mas também de experiências nativas, sejam em viagens ou apenas diálogos informais com pessoas da comunidade a qual pertenço. Assim, reúno e exibo estes momentos em poucas imagens, deixando ainda em aberto usufruir dos incontáveis saberes, sabores e sons que o estado do Ceará pode oferecer.
mariagiparente

References: Artigo 1
 Artigo 3
 Artigo 6
 Artigo 6
 Artigo 11
 Artigo 12
 Artigo 146
 Artigo 147
 Artigo 148
 Artigo 146