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Timestamp: 2019-09-22 12:01:19+00:00

Document:
Tribunal de Justiça de São Paulo TJ-SP - Apelação : APL 00028281520128260659 SP 0002828-15.2012.8.26.0659
Tribunal de Justiça de São Paulo TJ-SP - Apelação : APL 00028281520128260659 SP 0002828-15.2012.8.26.0659 - Inteiro Teor
TJ-SP_APL_00028281520128260659_03dd7.pdf
Registro: 2018.0000624167
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 0002828-15.2012.8.26.0659, da Comarca de Vinhedo, em que são apelantes PREFEITURA MUNICIPAL DE VINHEDO e ANA CÃNDIDA BRISKI, é apelado NELSON NATHALINO BRAGHETTO (ESPÓLIO).
ACORDAM , em sessão permanente e virtual da 2ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Recurso do Município não provido, recurso oficial parcialmente provido, de conformidade com o voto do relator, que integra este acórdão.
O julgamento teve a participação dos Desembargadores VERA ANGRISANI (Presidente) e LUCIANA BRESCIANI.
Voto 10265
Apelação 0002828-15.2012.8.26.0659 DC (físico)
Origem 2ª Vara Judicial do Foro de Vinhedo
Apelantes Município de Vinhedo
Apelado Espólio de Nelson Nathalino Braghetto
Juíza de Primeiro Grau Eliana Adorno de Toledo Tavares
Sentença 18/5/2016
AÇÃO INDENIZATÓRIA. DANOS MATERIAIS E MORAIS. UTILIZAÇÃO DE OBRA FOTOGRÁFICA, SEM O CONSENTIMENTO E RECONHECIMENTO DO AUTOR, EM FOLHETOS TURÍSTICOS PRODUZIDOS PELO MUNICÍPIO. Pretensão de reparação por danos materiais e morais, em razão da utilização indevida de fotografia sem autorização e sem crédito ao autor. Possibilidade. Responsabilidade do Município de Vinhedo pela divulgação. Indenização por danos morais e materiais devida. Autoria da fotografia demonstrada pelas provas orais e documentais. Violação à Lei de Direito Autoral. Direito do autor de ter seu nome reconhecido quando da utilização de sua obra para qualquer finalidade. Irrelevância da inexistência de proveito econômico. Precedentes do STJ. Prevalência do direito do fotógrafo profissional para o ressarcimento de dano patrimonial pela utilização indevida de sua obra. Existência de dano material e moral indenizáveis. Valor da indenização que se mostra razoável, segundo as circunstâncias do caso.
JUROS DE MORA E CORREÇÃO MONETÁRIA. Cálculo que deve ocorrer conforme decisão do col. STF, em repercussão geral (RE 870.947/SE, Tema 810) e do e. STJ, em recurso repetitivo (REsp 1.495.146/MG, Tema 905).
RECURSO DO MUNICÍPIO NÃO PROVIDO.
Trata-se de apelação interposta pelo MUNICÍPIO DE VINHEDO contra
a sentença de fls. 276/285 que, em ação indenizatória ajuizada pelo
ESPÓLIO DE NELSON NATHALINO BRAGHETTO , julgou
improcedente o pedido em face de ANA CÂNDIDA BRISK , e
parcialmente procedente os pedidos em face do MUNICÍPIO DE
VINHEDO , para o fim de “a) impor ao Município réu a obrigação de
não fazer consistente em se abster de divulgar, de qualquer forma,
que queremos', sob pena de multa de R$ 1.000,00 por divulgação indevida; b) condenar o Município réu a pagar ao autor, a título de indenização por dano material, o valor que será objeto de liquidação por arbitramento, considerando o que normalmente se paga por obra semelhante do autor. O valor a ser definido por arbitramento será corrigido a partir da data do arbitramento, com juros moratórios de 0,5% ao mês a contar da data dos fatos, assim considerada a data de fls. 252 (Súmula 54 do STJ); e c) condenar o Município réu ao pagamento, a título de indenização por danos morais, de R$10.000,00, corrigidos a partir desta da data pelos índices da tabela do E. TJSP e acrescidos de juros moratórios legais de 0,5% ao mês a contar também desta data (considerada para arbitramento).” Honorários advocatícios, que fixo em 10% do valor da condenação, nos termos do artigo 85, caput, §§ 2º, 3º, inciso I, do CPC.
Apela o Município a requerer a improcedência do pedido. Afirma que não aferiu lucro, pois o guia/mapa em que utilizou uma fotografia foi unicamente de cunho cultural educativo e social, sem pretensão comercial e/ou lucrativa. Alega que o material foi distribuído gratuitamente. Defende que os danos morais comportam redução para R$ 5.000,00. Aduz, por fim, que o dano material é indevido, uma vez que não houve diminuição efetiva do patrimônio do autor e não há prova do dano sofrido, fls. 288/297.
Contrarrazões a fls. 301/6. Há reexame necessário.
O recurso do Município não comporta provimento. O recurso oficial comporta parcial provimento no tocante ao cálculo de juros e correção monetária.
O autor afirma que o Município de Vinhedo promoveu publicação de guia turístico com fotografia de sua autoria, sem sua autorização e com crédito indevido à corré. Discorreu sobre a violação de seu direito autoral e sobre os danos materiais e morais daí decorrentes. Requereu imposição ao réu de obrigação de não fazer consistente em se abster de disponibilizar a obra, bem como a condenação do réu ao
pagamento de indenização por danos materiais e morais.
A Constituição Federal, em seu art. 37, § 6º, ao condicionar a responsabilidade do Estado ao dano decorrente de sua atividade, adotou a teoria do risco administrativo 1 .
O c. STF consolidou o entendimento de que as pessoas jurídicas de direito público respondem objetivamente pelos danos causados a terceiros, tanto por atos comissivos quanto por omissivos; basta que se demonstre o nexo causal entre o dano e a conduta, e que não haja qualquer excludente de responsabilidade (força maior, caso fortuito, fato exclusivo da vítima ou de terceiro) 2 .
O art. 5º, XXVII, da CF estabelece que aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar.
O artigo 29 da Lei 9.610/98, a Lei de Direitos Autorais, é claro ao estabelecer que a utilização da obra, por qualquer modalidade depende de autorização prévia e expressa do autor.
Como explicitou a sentença a fls. 278/9:
“(...) o fato de o autor já ter autorizado a publicação da fotografia outras vezes não implica em sua autorização para reprodução por outro, notadamente porque não há, junto à publicação, qualquer menção expressa à autorização para tanto. À luz dos incisos I e II, do art. 2º da lei 9.610/98:
Art. 2º São direitos morais:
II o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na
utilização da obra;
Segundo Eliane Y. Abrão (na obra 'Direitos de autor e direitos conexos', p. 75), 'é o chamado direito de crédito, que é o de ver essa qualidade (a de autor e/ou titular) anunciada junto à obra, impressa junto a ela, e o de reivindicá-lo a qualquer tempo', o que, aliás, independe de anterior eventual venda da obra, porque esse direito é inalienável.
A violação ao direito de crédito é passível de reparação por meio de sanções civis previstas expressamente no artigo 108, que prevê a divulgação de errata (inciso II), não requerida pelo autor, além da responsabilização por danos morais.
É certo que, como afirma Eliane Y. Abrão na obra já citada, “o legislador considera a ausência crédito não apenas uma violação de direito autoral, mas uma ofensa reparável através da estimativa econômica dos danos morais e da divulgação maciça da verdadeira identidade do autor” (p.78) (grifo meu).
Não tendo havido, portanto, autorização expressa do autor para reprodução de sua obra e ausência de crédito, impõe-se a indenização pelos danos que lhe foram causados, nos termos do artigo 102, da citada Lei.
Anoto que, no caso, ainda se aplica a teoria do risco administrativo, de modo que deve o Município responder pelos atos danos de seus agentes independente da prova de culpa.”
O art. 79, § 1º, da Lei nº 9.610/98, também estabelece que, quando a fotografia for utilizada por terceiros, indicará de forma legível o nome de seu autor.
As provas dos autos demonstram que a fotografia reproduzida a fls. 30, e utilizada em divulgação do Município de Vinhedo, é de autoria de Nelson Nathalino Bragheto, antigo fotógrafo profissional da cidade, que tinha o direito exclusivo, por sua condição de autor, de utilização, publicação e reprodução de sua obra, (fotografia original a fls. 31).
Os fatos são incontroversos ante a prova documental (fls. 99/107), a prova testemunhal (fls. 158/162), e ausência de impugnação específica por parte do réu.
Como bem destacado pelo ilustre Desembargador José Maria Câmara Junior, na Apelação nº 0007972-04.2011.8.26.0659, julgada em 9/9/2015, que teve como objeto questão semelhante entre as mesmas partes “é possível identificar a violação do patrimônio moral do fotógrafo, que, nos últimos anos de sua vida, assistiu ao Município em que nasceu utilizar-se furtivamente de sua obra, sem qualquer reconhecimento. É de se recordar que Nelson Nathalino Braghetto exerceu o ofício da fotografia desde muito cedo, e dedicou sua carreira exclusivamente para a produção de suas obras. A prova testemunhal igualmente confirma que o fotógrafo possuía reputação ilibada no exercício de sua profissão, uma vez que a família Nathalino tradicionalmente exerceu a atividade desde os primeiros”.
O evento danoso estava dentro da previsibilidade e o réu não adotou medidas para obstar suas consequências.
Configurado, pois, o nexo de causalidade entre a conduta do réu e o dano in re ipsa suportado pelo autor, sua responsabilização é medida que se impõe.
Pouco importa a alegação do Município de que o trabalho em que se fez uso da fotografia não visava à obtenção de lucro. Em primeiro lugar, porque o proveito pode ser indireto, como a promoção do Município para atrair turismo ou eventuais investidores. Em segundo lugar porque, almeje-se ou não a obtenção de lucro, as consequências da infração autoral não se alteram. Ainda que se destine a publicação
gratuita, é normal que se pague pelo uso de imagem ou, pelo menos, que se obtenha a prévia cessão de direitos de uso.
A Lei 9.610/98, em seu artigo 29, inciso VIII, substituiu a expressão lucro direto ou indireto, do artigo 73, da anterior Lei 5.988/73, por utilização direta ou indireta.
Neste sentido o posicionamento do C. Superior Tribunal de Justiça:
“COMERCIAL. DIREITO AUTORAL. UTILIZAÇÃO DESAUTORIZADA DE FOTOGRAFIA PARA ILUSTRAR CAPA DE GUIA RODOVIÁRIO. COMPOSIÇÃO DA CONDENAÇÃO. INDENIZAÇÃO PELOS DANOS SOFRIDOS E SANÇÃO PELA CONDUTA ILÍCITA. LIMITES. 1. O art. 102 da Lei nº 9.610/98 fixa sanções cíveis decorrentes da violação de direitos autorais. A exegese desse dispositivo legal evidencia o seu caráter punitivo, ou seja, a intenção do legislador de que seja primordialmente aplicado com o escopo de inibir novas práticas semelhantes. Tanto é assim que a sua parte final re...
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References: artigo 85
 artigo 29
 artigo 108
 artigo 102
 artigo 29
 artigo 73