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Timestamp: 2019-01-23 22:38:23+00:00

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Responsabilidade do Promotor de Justiça no inquérito civil - Jus.com.br | Jus Navigandi
Jonadab Carmo de Sousa
O presente trabalho tem o objetivo de analisar a responsabilidade do promotor de justiça no inquérito civil bem como as polêmicas e dificuldades na condução dessa importante ferramenta para proteção dos direitos metaindividuais.
Estudaremos de forma sucinta o inquérito civil e sua natureza, bem como sua condução para apuração de provas para propositura da ação civil pública, e ainda analisaremos em capítulo próprio a responsabilidade do promotor na condução do inquérito civil.
II – O INQUÉRITO CIVIL
2 – DA RESPONSABILIDADE DO PROMOTOR
Frise-se que os membros do Ministério Público estão incluídos na norma do art. 37, §6º da CR/88, logo, os atos dos promotores que, na busca de seu mister, causarem dano dão ensejo a responsabilização do Estado [10].
Cândido Dinamarco [11] segue a mesma linha:
[...] por imposição do art. 37, §6º da CR/88, responde objetivamente o Estado por todos esses danos ou despesas decorrentes da atuação do Ministério Público, quer causados culposamente, quer sem culpa.
2.1 – A RESPONSABILIDADE PESSOAL DO PROMOTOR – LEGITIMIDADE PASSIVA PARA RESPONDER PELOS DANOS CAUSADOS.
Como analisado anteriormente, ficou pacificado que o promotor de justiça pode e deve sofrer ação de regresso quando praticar atos que causem danos, seja no processo ou fora dele.
Seguimos o estudo com a análise da responsabilidade pessoal e direta do membro do Ministério Público, possuindo legitimidade passiva ad causam.
Um dos fundamentos principais para a responsabilidade pessoal e direta do promotor de justiça é a lei 4898/65, principalmente a letra h do artigo 4º
A referida lei tem como escopo principal o combate aos atos praticados com abuso de autoridade, logo, se o membro do Ministério Público, no uso de suas funções, agir com abuso ou desvio de poder pode ser responsabilizado pessoalmente, é o que preceitua o artigo 9º da referida lei:
Simultaneamente com a representação dirigida à autoridade administrativa ou independentemente dela, poderá ser promovida pela vítima do abuso, a responsabilidade civil ou penal ou ambas, da autoridade culpada.
Assim, pela referida norma, a vítima poderá, além de representar contra o promotor, propor a demanda cabível contra este para ser ressarcida e/ou indenizada pelos prejuízos sofridos.
Talvez não foi por outro motivo que Hugo Mazzilli [16], mesmo defendendo a indenidade do membro do Ministério Público, concordou que a mesma não pode ser absoluta, não podendo acobertar ações irregulares praticadas com dolo, fraude ou abuso de poder.
Outra base legal para a responsabilidade pessoal do representante do Ministério Público é o artigo 85 do Código de Processo civil que dispõe que "o órgão do Ministério Público será civilmente responsável quando, no exercício de suas funções, proceder com dolo ou fraude."
O Supremo Tribunal Federal já se posicionou sobre a responsabilidade pessoal do promotor:
- RESPONSABILIDADE CIVIL DA FAZENDA PÚBLICA POR ATO OPINATIVO DE REPRESENTANTE DO MINISTÉRIO PÚBLICO NO EXERCÍCIO DE SUAS FUNÇÕES EM PROCEDIMENTO DE JURISDIÇÃO VOLUNTARIA (ALVARA). PARECER NÃO VINCULATIVO DA ATIVIDADE DO JUIZ. NÃO INCIDENCIA DOS ARTIGOS 107 DA C.F. E 85 DO C.P.C.. RECURSO EXTRAORDINÁRIO INDEFERIDO. AGRAVO DE INSTRUMENTO COM SEGUIMENTO NEGADO. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. NÃO RESPONDE CIVILMENTE A FAZENDA PÚBLICA POR ATO OPINATIVO DO MINISTÉRIO PÚBLICO NO PROCEDIMENTO JUDICIAL QUE NÃO VINCULA O PODER JUDICIARIO (ART. 107 DA C.F.). 2. O ART. 85 DO C.P.C. REFERE-SE A RESPONSABILIDADE PESSOAL DO REPRESENTANTE DO MINISTÉRIO PÚBLICO POR DOLO OU FRAUDE E NÃO A RESPONSABILIDADE DO PODER PÚBLICO POR ATOS DAQUELE. 3. RECURSO EXTRAORDINÁRIO INDEFERIDO. AGRAVO DE INSTRUMENTO COM SEGUIMENTO NEGADO. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.
(AI 102251 AgR, Relator(a): Min. SYDNEY SANCHES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 20/08/1985, DJ 20-09-1985 PP-15997 EMENT VOL-01392-03 PP-00395)
No presente artigo verifica-se, pela análise fria, que a responsabilidade pessoal do promotor de justiça se dá somente quando há interesse em lesar alguém. Acontece que, salvo melhor juízo, esta rígida e, em certa medida, razoável proteção à função do membro do Ministério Público exige melhor análise no atual contexto eis que, repita-se, ela tem permitido que situações patológicas não encontrem solução e/ou que a solução fique restrita a uma eventual responsabilização do Estado. Entretanto esta amplíssima socialização dos riscos não é razoável, nem jurídica, para casos de "abuso" eis que, nestes e desde que identificada tal patologia, não se deve querer que a coletividade inteira "pague" pelo ilícito de um agente público específico. Como já dito acima, Hugo Mazzili, depois de discorrer a respeito da necessária proteção à função do MP acaba por colocar ao lado do dolo e da fraude a figura do abuso de poder. Este instituto não poderia mesmo ser desprezado eis que, em vista do princípio da legalidade, todo poder que tiver desbordado da moldura traçada pelo legislador será ilícito e deve ensejar indenização. E a mesma conclusão também decorre do fato de nosso Código Civil ter acolhido a teoria do abuso do direito, de maneira a não mais deixar dúvida a respeito de que o exercício abusivo de prerrogativas dá ensejo ao dever de reparação [17].
Alguns projetos de lei tentam, até o momento, sem sucesso, deixar mais evidentes a responsabilidade pessoal do representante do Ministério Público.
O projeto de lei 2961/1997, que procurava inibir a publicidade exagerada e desmedida dos atos praticados por parte de alguns promotores de justiça.
A medida provisória 2.088-35/2000, alterando a lei 8429/92, tentou criar um mecanismo de defesa por parte das autoridades que fossem acionadas judicialmente pelo Ministério Público, podendo aquelas reconvir no feito. O texto é o seguinte:
VIII - instaurar temerariamente inquérito policial ou procedimento administrativo ou propor ação de natureza civil, criminal ou de improbidade, atribuindo a outrem fato de que o sabe inocente. (NR)
§ 11. Quando a imputação for manifestamente improcedente, o juiz ou o tribunal condenará nos mesmos autos, a pedido do réu, o agente público proponente da ação a pagar-lhe multa não superior ao valor de R$ 151.000,00 (cento e cinqüenta e um mil reais), sem prejuízo do disposto no parágrafo anterior.
O projeto de lei 265/2007 também procurou responsabilizar pessoalmente o Membro do Ministério Público que utilizasse da ação civil pública e da ação de improbidade administrativa de forma temerária, in verbis:
Art. 3° O artigo 18 da Lei n° 7347, de 24 de julho de 1985 – Lei da Ação Civil Pública – passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 18. Nas ações de que trata esta lei, quando a ação for temerária ou for comprovada má-fé, finalidade de promoção pessoal ou perseguição política, haverá condenação da associação autora ou membro do Ministério Público ao pagamento de custas, emolumentos, despesas processuais, honorários periciais e advocatícios.(NR)"
Art. 4° O artigo 19 da Lei n° 8.429, de 2 junho de 1992, passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 19. Constitui crime a representação por ato de improbidade ou a propositura de ação contra agente público ou terceiro beneficiário, quando o autor o sabe inocente ou pratica o ato de maneira temerária. Pena: detenção de seis a dez meses e multa.
Parágrafo único. Além da sanção penal, o denunciante ou membro do Ministério Público está sujeito a indenizar o denunciado pelos danos materiais, morais ou à imagem que houver provocado. (NR)"
Por último, podemos citar o projeto de lei que altera a lei de ação civil pública e tutela o processo coletivo, principalmente no inciso VIII do artigo 3º, in verbis:
Todos os projetos, com exceção do último, sofrem enormes críticas por parte da doutrina que defende a indenidade dos membros do Ministério Público no exercício da função, tanto é que os referidos projetos foram apelidados de lei da mordaça.
Mazzilli [18] afirma, sobre o projeto 2961/97, que está em curso um claro processo de tentativa de intimidação do Ministério Público, que, segundo o autor, visa amordaçar quem investiga em nome da sociedade.
Fernando Grella Vieira [19], criticando o PL 265/2007, diz que não há como identificar, com segurança, se uma lei foi proposta para promoção pessoal do promotor e com fins de perseguição política, uma vez que o referido projeto utiliza conceitos jurídicos abertos e subjetivos, o que acabaria inibindo a atuação da maioria esmagadora dos membros do Ministério Público que agem, segundo a autora, com a mais absoluta boa-fé.
Na defesa do PL 2961/97, Puoli [20] destaca que quando o agente ministerial tiver sido a causa para que o fato objeto dessa publicidade institucional seja levada à mídia, com o intuito de ganhar notoriedade, o promotor poderá ser acionado pessoalmente pelos danos causados, situação que poderá ser agravada se os fatos levados à mídia também forem abusivos.
Muitos temas deixaram de ser abordados, diante da riqueza matéria, mas ao longo desse trabalho constatou-se que os membros do Ministério Público, em que pese a legislação vigente, continuam sem um efetivo controle, principalmente na defesa dos direitos metaindividuais.
O inquérito civil é uma importante ferramenta para a colheita de elementos para propositura ou não da ação civil pública, entretanto, vem sendo utilizado, muitas vezes, com fins de perseguição política ou promoção pessoal do membro do Ministério Público, que, sem qualquer justa causa, instaura o referido procedimento, causando danos a imagem e a honra de muitos cidadãos e pessoas jurídicas.
Assim, diante dos argumentos expostos, não restam dúvidas de que o representante do Ministério Público deve ser responsabilizado pessoalmente pelos prejuízos causados pela condução temerária do inquérito civil, agindo de forma dolosa, fraudulenta, com abuso ou desvio de poder, devendo o Estado, caso tenha sido acionado, propor ação regressiva em face do promotor, para que este faça o devido ressarcimento aos cofres públicos.
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MAZZILLI, Op. cit., p. 100.
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References: artigo 4
 artigo 9
 artigo 85
 artigo 18
 artigo 19
 artigo 3