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Timestamp: 2019-09-20 21:16:18+00:00

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Tribunal de Justiça de São Paulo TJ-SP - Apelação : APL 00729305320098260114 SP 0072930-53.2009.8.26.0114 - Inteiro Teor
TJ-SP_APL_00729305320098260114_ce75c.pdf
Registro: 2017.0000157458 ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 0072930-53.2009.8.26.0114, da Comarca de Campinas, em que é apelante IVANILDE CASTANGNAZZI (JUSTIÇA GRATUITA), são apelados VIAÇÃO BRASIL REAL LTDA e NOBRE SEGURADORA DO BRASIL S.A..
São Paulo, 6 de março de 2017.
VOTO Nº: 33500
APEL. Nº: 0072930-53.2009.8.26.0114
APTE.: Ivanilde Castangnazzi (A)
APDOS.: Viação Brasil Real Ltda. (R) e Nobre Seguradora do Brasil S. A. (litisdenunciada), em liquidação extrajudicial
EMENTA: RESPONSABILIDADE CIVIL Acidente viário Passageira vítima de acidente ocorrido no interior de coletivo de propriedade da empresa ré durante a prestação do serviço Contrato de transporte - Obrigação de transportar incólume o passageiro Acidente de trânsito inerente ao risco da própria atividade desenvolvida pela transportadora acionada Culpa de terceiro que não elide a responsabilidade objetiva da transportadora - Incidência do art. 735 do Código Civil e Súmula nº 187 do C. STF - Dano moral bem caracterizado Damnum in re ipsa Existência de relação contratual de garantia entre o transportador e a companhia de seguros
Ressarcimento nos limites da apólice e do regime de liquidação extrajudicial imposto à litisdenunciada Procedência da lide principal e da denunciação decretada nesta instância ad quem Recurso provido.
1. Trata-se de ação ordinária de indenização por
dano moral (acidente ocorrido no interior do ônibus de propriedade da
ré, fls. 2/22) intentada por Ivanilde Castangnazzi contra Viação Brasil
Real Ltda. com denunciação da lide a Nobre Seguradora do Brasil S.A.,
em liquidação extrajudicial, julgada improcedente a ação principal e
prejudicada a lide secundária pela r. sentença de fls. 208/211, de
relatório a este integrado, restando condenada a autora ao pagamento
das custas, despesas processuais e honorários advocatícios fixados em
10% sobre o valor da causa (R$27.900,00, fls. 22), ressalvada a
incidência do artigo 12 da Lei nº 1.060/50, ficando a denunciada
responsável pelo adimplemento das custas, despesas processuais e
honorários advocatícios arbitrados em R$2.000,00.
Inconformada pelas razões de fls. 216/226, a autora
pretende o provimento para que a ação seja julgada procedente.
A insurgência é tempestiva, foi respondida e é isenta de preparo (Lei nº 1.060/50).
2. A irresignação comporta provimento.
3. Restou incontroverso o acidente sofrido pela apelante no dia 26.09.2009, durante a execução do contrato de transporte avençado com a coapelada Viação Brasil Real Ltda., em razão de colisão envolvendo outro veículo, conforme relato do boletim de ocorrência (fls. 30/35).
A hipótese é de contrato de transporte e, portanto, de responsabilidade objetiva do transportador, ao qual também se aplicam as disposições do vetusto Decreto Legislativo nº 2.681, de 07.12.1912.
É consabido que a concessionária responsável pelo transporte de passageiros responde objetivamente pelos danos causados àqueles, independentemente da prova da culpa, sendo suficiente a prova da existência da relação de causalidade entre o fato e o dano, nos termos do artigo 734 do Código Civil.
Também incide, na espécie, o princípio constitucional da responsabilidade objetiva inscrito em texto expresso da Carta Magna, já mencionado acima, cujo art. 37, § 6º, estatui:
A apelante encontrava-se no veículo (ônibus),
oportunidade em que lhe foi produzido dano por atividade da pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviço público, o que impõe reger-se a espécie pelo disposto no referido Decreto Legislativo nº 2.681/1912 e art. 37, § 6º, da CF, de forma que bastava a prova do nexo causal entre a execução do contrato ou o fato viário e o resultado lesivo, do que nenhuma dúvida séria subsiste, pois o boletim de ocorrência de fls. 30/35 aponta que a pleiteante efetivamente se acidentou a bordo do ônibus, pouco importando para o caso dos autos se o acidente ocorreu por culpa ou não do preposto da concessionária, haja vista, em ambos os casos, a responsabilidade dela persistiria, pois a colisão de veículos consiste em risco inerente à própria atividade desenvolvida pela empresa transportadora, ou seja, trata-se de fato conexo com a atividade de transporte e circulação de veículos.
Restou, pois, induvidoso que o acidente ocorreu, efetivamente, no momento em que a vítima encontrava-se coberta pelo contrato, não havendo como afastar nem atenuar a responsabilidade do transportador pelo dano sofrido pelo fato do serviço de transporte de pessoas, que assumiu com a indispensável garantia legal da incolumidade física e psíquica dos usuários. Anota-se que o acidente noticiado na peça vestibular, ainda que presumivelmente causado por culpa exclusiva de terceiro, por ser conexo com o ramo de atividade explorado pela coapelada, Viação Brasil Real Ltda., que é essencialmente perigoso, ou seja, por se tratar de fato ou evento intrínseco ou relacionado diretamente com a atividade de transporte de pessoas por ela operada, insere-se no campo do fortuito interno, o qual não afasta a responsabilidade da transportadora de indenizar o dano sofrido pelo consumidor. A obrigação da ré de indenizar eventual dano moral sofrido pela autora somente inexistiria caso o acidente fosse totalmente desatrelado ou desvinculado da atividade empresária de transporte, o que, in casu, não ocorre.
Aplica-se à espécie o enunciado da Súmula nº 187 do C. STF que dispõe que “A responsabilidade contratual do transportador, pelo acidente com passageiro, não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva”, justamente porque o evento danoso se acha relacionado estritamente com o contrato de transporte.
Aliás, impende assinalar que o objetivo do legislador ao atribuir a responsabilidade civil objetiva a determinadas situações fáticas ocorrentes no cotidiano não é somente dispensar a prova da culpa do agente causador do dano, geralmente de difícil demonstração, mas também facilitar o ressarcimento do prejuízo (material ou moral) sofrido pela vítima.
In casu, a responsabilidade é objetiva, ou seja, independente da indagação da culpa ou não da corré no evento danoso. Perante a autora, consumidora do serviço de transporte, a ré deverá indenizar o dano moral por ela sofrido (pois para a autora pouco importa se o dano foi acarretado por conduta culposa de terceiro ou da própria transportadora, uma vez que, havendo contrato de transporte, a responsabilidade por danos será sempre da transportadora) e, em ação própria, se for o caso, ela buscará o ressarcimento, em regresso, do montante que efetivamente desembolsar para indenizar a vítima do acidente diretamente daquele que efetivamente causou o dano.
Não há falar, portanto, no caso sub judice, de exclusão de responsabilidade por culpa exclusiva de terceiro, haja vista o acidente estar inserido entre aqueles considerados como fortuito interno e ter ocorrido durante a execução do contrato de transporte, que impõe sempre a responsabilização objetiva da transportadora pelo dano advindo ao transportado não entregue incólume no destino, caso não verificada a ocorrência de fortuito externo (este, sim, excludente de responsabilidade) ou de culpa exclusiva do passageiro.
A responsabilidade do transportador emerge sempre
que se tratar de fortuito interno, ou seja, aquele inserto nos riscos do próprio deslocamento e desde que o dano esteja diretamente conectado com a conduta praticada pelo próprio transportador (nexo de causalidade entre a atividade desenvolvida pelo transportador o transporte e o dano sofrido pelo passageiro).
A propósito do tema, em casos análogos, já decidiu este E. Tribunal:
“Ação de indenização por danos materiais e morais. Acidente de trânsito que impossibilitou que a autora trabalhasse pelo período de 5 meses. Boletim de ocorrência e documentação médica. Sentença de procedência. Apelação da ré. Responsabilidade objetiva da empresa de transportes. Contrato de transporte. Cláusula de incolumidade. Artigo 734 do CC. Acidente de veículo, ainda que causado por culpa de terceiro, não exclui a responsabilidade da transportadora. Hipótese de fortuito interno. Responsabilidade objetiva só é excluída em caso de fortuito externo. Devido o ressarcimento dos lucros cessantes. 'Quantum' arbitrado a título de danos morais e honorários advocatícios bem fixados. Sentença mantida. Recurso desprovido.” (TJSP-21ª Câmara de Direito Privado, Apelação nº 0027933-78.2010.8.26.0007-São Paulo, J. 23.09.2013, np, vu, Rel. Des. VIRGILIO DE OLIVEIRA JUNIOR, voto nº 25.420).
“Responsabilidade civil. Acidente de trânsito. Colisão frontal entre caminhonete e ônibus escolar. Fato de terceiro. Automóvel que realizou a travessia das faixas sem tomar as devidas cautelas. Circunstância que não exclui o dever de indenizar do causador direto do dano. Ausência de culpa dos autores pelo acidente ocorrido. Aplicação dos artigos 188, II, e 929 do Código Civil. Danos materiais. Risco da atividade da transportadora. Art. 927, § único, do CC. Culpa de terceiro que representa fortuito interno. Danos emergentes. Indenização devida. Comprovação dos valores para a realização do reparo do ônibus
avariado. Utilização do menor orçamento apresentado. Impugnação genérica dos valores que não é suficiente para afastar a sua validade. Danos morais configurados. Indenização devida. Condutor do ônibus que sofreu lesões graves em decorrência da violenta colisão. Valor indenizatório fixado em R$ 10.000,00. Recursos dos autores providos.” (TJSP-32ª Câmara de Direito Privado, Apelação nº 0031196-52.2007.8.26.0451-Piracicaba, J. 31.01.2013, dp, vu, Rel. Des. HAMID BDINE, voto nº 4.703).
4. Imperioso então que, assim delineado o dever do transportador de reparação do dano moral causado à apelante e constatada a existência de relação contratual de garantia entre a litisdenunciante e a cia. seguradora (fls. 99/136), não resta dúvida que a lide secundária deve mesmo ser julgada procedente.
5. O dano moral restou evidenciado pelo sofrimento decorrente do sinistro, bem como os transtornos e a angústia causados à apelante em virtude da colisão.
Daí que, sendo inegáveis a dor e demais reveses advindos do acidente, deve a autora ser indenizada pelo desfalque moral.
No entanto, o arbitramento da reparação deve ser feito de forma adequada e moderada, pautado em juízo prudencial.
É certo que, de um lado, há que dissuadir o autor do ilícito ou responsável para não reiterar a conduta lesiva (valor de desestímulo) e, de outro, compensar a vítima pela angústia ou transtorno a que acometida. Não pode, no entanto, o dever reparatório ser convertido em instrumento propiciador de vantagem exagerada ou de enriquecimento ilícito nem tampouco ficar reduzido a dimensão irrisória.
Na sua fixação, por tais motivos, leva-se em conta o
perfil econômico da vítima (aposentada, fls. 2), o poderio econômico da ofensora (empresa de transporte coletivo) e as circunstâncias do caso concreto, notadamente a ausência de sequelas em decorrência do acidente.
Assim, sob o influxo do critério prudencial e da razoabilidade, entende-se como adequado o valor de R$10.000,00 corrigido monetariamente desde o arbitramento, de acordo com a Súmula nº 362 do STJ e os juros legais de mora de 12% ao ano (arts. 405 e 406 do Código Civil de 2002 c.c. o art. 161, § 1º, do CTN), a contar da citação.
7. Em razão do decreto de liquidação extrajudicial, a coapelada-litisdenunciada Nobre Seguradora do Brasil S. A. peticionou requerendo a concessão da gratuidade judiciária, a suspensão do processo bem como a exclusão dos juros e correção monetária, com fundamento no artigo 18 da Lei 6.024/74 (fls. 245/251).
(art. 5º, LXXIV), o benefício da gratuidade da justiça não se destina incondicionalmente a pessoas jurídicas, empresas ou firmas de escopo mercantil ou lucrativo nem mesmo a agraciamento incondicionado a qualquer pessoa física ou espólio.
Embora o caput do artigo 98 do código de regência preveja que tanto a pessoa natural quanto a jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tenham direito à gratuidade da justiça, o mencionado § 3º do artigo 99 do mesmo estatuto estabelece que se presume verdadeira aliás, não de forma absoluta, como se nota pela redação do § ...
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References: artigo 12
 artigo 734
in casu
In casu
 Artigo 734
 artigo 18
 artigo 98
 artigo 99