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Timestamp: 2020-07-13 14:32:44+00:00

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01d06t05 (1)
A Educação Br asileir a
no Período de 1930 a 1960:
a Er a Vargas
1. Este texto foi publicado originariamente em PALMA FILHO, J. C.
(organizador). Pedagogia Cidadã.
Cadernos de Formação. História
da Educação. 3. ed. São Paulo:
PROGRAD/UNESP- Santa Clara
Editora, 2005 – p.61-74.
2. Doutor em Educação (Supervisão e Currículo) pela PUC de São
Paulo. Pós-Doutorado em Política
Educacional pela Faculdade de
Educação da Universidade de São
Paulo. Professor Titular da disciplina Sociedade, Estado e Educação
no Instituto de Artes da UNESP.
Membro Titular do Conselho Estadual de Educação.
Resumo: O texto de forma contextualizada analisa as principais consequências para
a educação brasileira, advindas do movimento revolucionário de 1930 que pôs fim
a República Velha, ou como ainda era conhecida, “República dos Coronéis”. Com
a chegada de Getúlio Vargas ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal, acaba
a “política do café com leite”. No primeiro período da denominada “Era Vargas”,
que vai de 1930 a 1937, o autor discute as seguintes ações: Criação do Ministério
da Educação e Saúde Pública; Reforma do Ensino Secundário e do Ensino Superior
(1931), também conhecida como Reforma Francisco Campos, então Ministro de Estado da Educação e da Saúde Pública; Manifesto dos Pioneiros pela Educação Nova
(1932); Constituição Federal de 1934 e Projetos de reforma educacional oriundos da
sociedade civil. No segundo período, que inicia em 1937 e termina em 1945, o texto
discute os seguintes temas: Constituição Federal de 1937; Leis Orgânicas do Ensino;
Organização do Ensino Técnico; O ensino primário e o Curso Normal, concluindo
com uma análise da Constituição Federal de 1946.
Palavras-Chave: O governo Vargas. Política Educacional. Leis Orgânicas do Ensino. Constituição Federal de 1934, 1937 e 1946.
Uma das consequências mais importantes da quebra da Bolsa de Nova Iorque,
ocorrida no ano de 1929, foi a impossibilidade do governo brasileiro de continuar sustentando a política econômica, adotada a partir
de 1910, em relação ao café. Este fato, somado a uma série de outros descontentamentos,
de que fora palco a nação brasileira durante
o período de 1920 a 1930, culminou na chamada Revolução de 1930, tendo à frente o
político gaúcho Getúlio Vargas.3
3. Getúlio Vargas nasceu em São Borja (RS), em 1882. Em
1907, concluiu o curso de Direito pela Faculdade de Porto
Alegre. Dessa data até 1930, elegeu-se pelo Partido Republicano Rio Grandense, deputado estadual, deputado federal,
tendo sido líder da bancada gaúcha, entre 1923 e 1926. De
1926 a 1927, foi Ministro da Fazenda de Washington Luís e
presidente do Rio Grande do Sul de 1927 a 1930. No ano
de 1929, candidatou-se à presidência da República na chapa oposicionista da Aliança Liberal. Derrotado, assumiu a liderança do movimento revolucionário de 1930 que depôs o
presidente Washington Luís. Em consequência, em novembro
deste mesmo ano assume o Governo Provisório (1930-1934).
Em novembro de 1933, instalou-se na cidade do Rio de Janeiro, a Assembléia Nacional Constituinte que, ao promulgar
João Cardoso Palma Filho2
As Tr ansformações
Da Educação No
Normalmente, os historiadores dividem o período que Vargas esteve à frente do
governo federal em duas fases: 1930-1937,
que corresponde ao que se convencionou
chamar de 2ª República; e 1937-1945, conhecida como 3ª República.
A Educação na 2ª República (1930-1937)
Os principais acontecimentos no campo educacional ou com repercussão no setor educacional foram:
a) Criação do Ministério da Educação e Saúde Pública.
b) Reforma do Ensino Secundário e do Ensino Superior (1931)
c) Manifesto dos Pioneiros pela Educação Nova (1932).
d) Constituição Federal de 1934.
e) Projetos de reforma educacional oriundos da sociedade civil.
Foram muitas as iniciativas tomadas
por Getúlio Vargas durante o governo provisório (1930-1934) no terreno da educação.
Em 14 de novembro de 1930, criou o Ministério da Educação e da Saúde Pública, nomeando como seu titular o jurista Francisco
a nova Constituição em julho de 1934, elege Getúlio Vargas
presidente da República para o período 1934-1938. Em 1937,
alegando a existência de um plano comunista, conhecido
como Plano Cohen, com apoio militar fechou o Congresso
Nacional e instalou o Estado Novo. Mais tarde, descobriu-se
que o Plano Cohen era uma farsa, tendo sido elaborado por
um militar integralista, Olympio Mourão Filho que, aliás, em
março de 1964, lidera o golpe militar contra o presidente João
Goulart, sublevando tropas militares aquarteladas em Minas
Gerais. Com o fechamento do Congresso Nacional em 10 de
novembro de 1937, Vargas outorga uma nova Constituição Federal. Nos termos dessa Constituição redigida por Francisco
Campos e que ficou conhecida com a “polaca”, por ter se inspirado na Constituição fascista da Polônia, Getúlio Vargas passa
a controlar os poderes Legislativo e Judiciário. Durante os 15
anos que governou o Brasil (1930-1945), criou o moderno Estado Nacional, orientando-se para uma intervenção do Estado
na economia. Esse período é conhecido também como época
do nacional-desenvolvimentismo que se caracterizou pelo desenvolvimento econômico do país, com sustentação na indústria voltada para a substituição das importações. Afastado do
poder em 1945, por um golpe militar, volta ao poder em 1951,
após ter saído vitorioso nas eleições realizadas em outubro de
1950, quando derrota o Brigadeiro Eduardo Gomes e o político
mineiro, Cristiano Machado.
A Reforma do Ensino Secundário e do
Ao baixar o decreto 19.851 em 11 de abril de 19314, o ministro da educação Francisco
Campos traçou novos rumos para o ensino secundário5 e para o ensino superior. A finalidade
do ensino secundário está muito bem expressa na exposição de motivos que acompanhou o
decreto da reforma:
[...] a finalidade do ensino secundário é, de fato, mais ampla do que a que se costuma atribuir-lhe. Via de regra, o
ensino secundário tem sido considerado entre nós como
um simples instrumento de preparação dos candidatos
ao ensino superior, desprezando-se, assim, a sua função
eminentemente educativa que consiste, precisamente, no
desenvolvimento das faculdades de apreciação, de juízo,
de critério, essenciais a todos os ramos da atividade humana, e, particularmente, no treino da inteligência em
colocar os problemas nos seus termos exatos e procurar
as suas soluções adequadas (CAMPOS, 1931) .
Nos termos do decreto 19.851, o ensino secundário é organizado em dois segmentos. O primeiro
deles, com a duração de cinco anos, corresponde
ao ensino ginasial, ao qual se segue o curso complementar com a duração de dois anos, com caráter
6. A referência bibliográfica completa é a seguinte:
Francisco Campos. Exposição de motivos, p. 3 e
de especialização, subdividido em três segmentos:
5, Ministério da Educação e da Saúde Pública. Rio
pré-jurídico, pré-médico e pré-politécnico. Essa orde Janeiro, 1931.
ganização, na prática contrariava o que fora dito na
exposição de motivos, anteriormente transcrita, pois continuava percebendo o ensino secundário como preparatório para o curso superior. Acrescente-se, ainda, o fato de que o
conteúdo curricular continuava a serviço de uma elite intelectual, que se pretendia formar.7
Este descompasso entre a política de desenvolvimento industrial empreendida por Vargas e
a reforma educacional proposta pelo seu Ministro
da Educação encontra explicação no fato de que os
7. O currículo escolar era organizado em torno das
setores conservadores ligados ao campo sofreram
seguintes matérias: Português, Francês, Inglês,
derrota apenas parcial com a Revolução de 1930 e
Alemão, Latim, História da Civilização, Geografia,
Matemática, Ciências Físicas e Naturais, Física,
ainda têm muita força no interior do governo, prinQuímica, História Natural e Desenho.
cipalmente, no Ministério da Educação.
5. O ensino secundário correspondia ao que hoje
se denomina ensino de 2º grau ou ensino médio. À
época, tinha a finalidade de preparar para o ingresso no curso superior.
Cabe lembrar que a indicação de Francisco Campos para a pasta da Educação contou
com forte apoio da igreja católica, a partir de uma liderança prestigiosa do catolicismo, representado pelo intelectual Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Ataíde). Desse modo, Vargas
procurava atrair o apoio do clero católico. Tanto é que concordou com o fim do ensino laico,
facilitando, com sua interferência, a volta do ensino religioso católico, principalmente, no
4. Ao todos foram seis decretos: a) Decreto nº
19.850, de 11 de abril de 1931, que cria o Conselho Nacional de Educação; b) Decreto nº 19.851, já
mencionado; c) Decreto 19.852, de 11 de abril de
1931, que dispõe sobre a organização da Universidade do Rio de Janeiro; d) Decreto nº 19.890, de
18 de abril de 1931, que dispõe sobre a organização do Ensino Secundário; e) Decreto nº 20.158,
de 30 de junho de 1931, que organiza o ensino comercial, regulamente a profissão de contador e dá
outras providências, e f) Decreto 21.241, de 14 de
abril de 1931, que consolida as disposições sobre
a organização do Ensino Secundário.
Ora, esses setores não tinham interesse na construção de um sistema nacional de educação pública, razão pela qual, a reforma nada propõe em relação ao ensino primário e à
educação popular. A preocupação em reorganizar o ensino fica restrita ao curso superior
e ao secundário, ou seja, Francisco Campos passa ao largo das novas exigências educacionais colocadas pelo processo de industrialização que Vargas pretende alavancar ao adotar
o modelo econômico do nacional-desenvolvimentismo, como afirma Romanelli na seguinte
Essa baixa demanda por educação encontra sua explicação no predomínio do setor
agrário na economia brasileira. Acrescente-se, ainda, o fato de que esse setor utiliza formas
anacrônicas de produção. Outros fatores são a baixa densidade demográfica da população
brasileira e a incipiente urbanização do país (ROMANELLI, 1999, p. 60).
Embora elitista e de cunho conservador, no dizer de Romanelli (1999. p. 135), a reforma criou uma situação muito diferente da que existia em relação ao ensino secundário.
Nesse sentido, estabeleceu definitivamente o currículo seriado, a frequência obrigatória, dois
ciclos, um fundamental com a duração de cinco anos e outro complementar, com dois anos
de duração e a exigência de habilitação nesses ciclos para o ingresso no ensino superior.
Ainda, criou a inspeção federal e equiparou todos os estabelecimentos de ensino secundários
oficiais ao Colégio Pedro II, dando a mesma oportunidade aos colégios secundários particulares, desde que se sujeitassem à inspeção federal recém-criada. Para isso, criou a carreira de
inspetor de ensino; estabeleceu normas para o exercício
da atividade docente e seu registro junto ao Ministério
8. Esse registro foi abolido em 1998 pelo Mi8
da Educação Paulo Renato Souza.
Por fim, cabe assinalar que o caráter elitista, não é devido apenas ao conteúdo curricular enciclopédico, que obviamente acabava por favorecer os alunos vindos das camadas
superiores da pirâmide social, mas também ao sistema de avaliação dos estudos criado pela
mesma reforma. Sobre esse aspecto da reforma, assim se expressa Romanelli:
A intensificação do capitalismo industrial no Brasil, que a Revolução de 30
acabou por representar, determina consequentemente o aparecimento de novas
exigências educacionais. Se antes, na estrutura oligárquica, as necessidades de
instrução não eram sentidas, nem pela população nem pelos poderes constituídos
(pelo menos em termos de propósitos reais), a nova situação implantada na década de 30 veio modificar profundamente o quadro das aspirações sociais, em matéria de educação, e, em função disso, a ação do próprio Estado (ROMANELLI,
1999, p. 59).
O currículo enciclopédico, aliado a um sistema de avaliação extremamente rígido, controlado do centro, exigente e exagerado, quanto ao número de provas
e exames, fez que a seletividade fosse a
tônica de todo o sistema. Ambos os de9. Decreto 19.890, arts. 36 , 37 e 38, e Decre9
to 21.141, arts. 36, 37, 38, 39, 40 e 41.
cretos estabeleciam, por seus artigos,um
Manifesto Dos Pioneiros Pela Educação
Os anos de 1930 são marcados por intensa disputa ideológica no campo político, econômico e, como não poderia deixar de ser, também, no âmbito educacional. Trata-se de uma
conjuntura que não é apenas brasileira. Na Europa, assiste-se à consolidação do fascismo na
Itália, do stalinismo na URSS e à ascensão do nazismo na Alemanha.
Essa situação na Europa não poderia deixar de influenciar os ânimos também em nosso país, particularmente, no campo político e na esfera educacional. Assim é que, no campo
político, rivalizam-se a ANL (Aliança Nacional Libertadora), sob a principal influência dos
comunistas liderados por Luiz Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança, e a AIB (Ação Integralista Brasileira), sob a liderança de Plínio Salgado e com forte apoio da igreja católica.
Essa divisão no campo político repercute no âmbito educacional. De um lado, estão
intelectuais liberais, socialistas e comunistas, alguns deles, protagonistas de reformas educacionais em seus estados de origem10, agrupados em torno do movimento conhecido como
Escola Nova; de outro lado, católicos e conservadores
10. Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo,
de diferentes matizes ideológicos, reunidos em torno de
Lourenço Filho, Carneiro Leão, entre outros.
um projeto conservador de renovação educacional.
As divergências concentram-se, basicamente, ao redor de quatro pontos:
Obrigatoriedade para todos do ensino elementar.
Gratuidade desse mesmo ensino.
Currículo escolar laico.11
Coeducação dos sexos.12
processo de avaliação altamente seletivo. Para uma média de 10 disciplinas anuais, estavam prescritas em lei, para cada disciplina: a) uma argüição mensal; b)
uma prova parcial a cada dois meses; c) um exame final. A nota final seria a média das notas mensais de argüição, das provas parciais e do exame final de cada
disciplina. Isso tudo equivalia, aproximadamente, para o ano todo, 80 argüições
ou provas mensais, 40 provas parciais e 10 provas finais, num total de 130 provas
e exames, o que durante o período letivo, equivaleria a, pelo menos, 1 prova a
cada 2 dias de aula. Vê-se, portanto, que não se tratava de um sistema de ensino,
mas de um sistema de provas e exames. E é evidente que o aluno que conseguisse
varar ileso o sistema, ao longo dos seus 5 ou 7 anos de duração, era realmente
privilegiado (ROMANELLI, 1999, p. 137).
11. Sobre o princípio educacional do ensino laico, consulte-se o Saiba Mais ao final do texto.
12. Adoção de um mesmo currículo escolar para
meninos e meninas em classes mistas.
Inconteste é o fato de que a igreja católica não aceitava perder a grande influência que
ainda detinha no campo educacional.
Quando se reuniu em dezembro de 1931, a IV Conferência Nacional de Educação,
à qual o Governo havia solicitado a elaboração de diretrizes para uma política
nacional de educação, a polêmica em torno do ensino leigo e da escola pública se
tornou tão acirrada, que não houve clima, nem condições para atender o pedido
do Governo, com o que ficou configurada a falta de uma definição objetiva do que
era e do que pretendia o movimento renovador. Foi então que os líderes desse movimento resolveram precisar seus princípios e torná-los públicos, através de um
documento endereçado “Ao Povo e ao Governo”. Surge, pois, o “Manifesto dos
Pioneiros da Educação Nova”, publicado em 1932 (ROMANELLI, 1999, p. 144).
O Conteúdo Do Manifesto Dos Pioneiros
O Manifesto não é apenas um documento preocupado em estabelecer um diagnóstico
do quadro educacional brasileiro. Há nele uma proposta de criação de um sistema nacional
de educação, consubstanciado num esboço geral de um programa educacional, do qual se
extrai os principais pontos:
“I. Estabelecimento de um sistema completo, com uma estrutura orgânica,
conforme nas necessidades brasileiras, as novas diretrizes econômicas e
sociais da civilização atual e os seguintes princípios gerais:
a) A educação é considerada em todos os seus graus como uma função
social e um serviço essencialmente político que o Estado é chamado a realizar com a cooperação de todas as instituições sociais;
b) Cabe aos estados federados organizar, custear e ministrar o ensino em
todos os graus, de acordo com os princípios e as normas gerais estabelecidos na Constituição e em leis ordinárias pela União, a quem compete a
educação na capital do país, uma ação supletiva onde quer que haja deficiência de meios e a ação fiscalizadora, coordenadora e estimuladora pelo
Reunidos na Conferência Nacional de Educação, convocada no mês de dezembro de
1931 e instados por Vargas a apresentarem diretrizes para a elaboração de um projeto educacional para o país, os dois grupos não chegaram a um acordo. Diante da ocorrência, 26
participantes encarregam Fernando de Azevedo de escrever o que ficou sendo conhecido
como “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”. Esse episódio mereceu de Romanelli o
c) O sistema escolar deve ser estabelecido nas bases de uma educação integral; em comum para os alunos de um e outro sexo e de acordo com suas
aptidões naturais; única para todos, e leiga, sendo a educação primária (7
a 12 anos) gratuita e obrigatória; o ensino deve tender progressivamente à
obrigatoriedade até os 18 anos e à gratuidade em todos os graus.
III . Desenvolvimento da escola técnica profissional, de nível secundário e
superior, como base da economia nacional, com a necessidade variedade
de tipos e escolas: de agricultura, de minas e de pesca (extração de matérias-primas); Industriais e profissionais (elaboração de matérias-primas);
De transportes e comércio (distribuição de produtos elaborados); e segundo métodos e diretrizes que possam formar técnicos e operários capazes
em todos os graus da hierarquia industrial.
IV. Organização de medidas e instituições de psicotécnica e orientação
Profissional para o estudo prático do problema de orientação e seleção
profissional e adaptação científica do trabalho às aptidões naturais.
V. Criação de Universidades, de tal maneira organizadas e aparelhadas
que possam exercer a tríplice função que lhes é essencial, elaborar e criar
a ciência, transmiti-la e vulgarizá-la, e sirvam, portanto, na variedade
de seus institutos: à pesquisa científica e à cultura livre e desinteressada; à formação do professorado para as escolas primárias, secundárias,
profissionais e superiores (unidade na preparação do pessoal do ensino);
à formação de profissionais em todas as profissões de base científica; à
vulgarização ou popularização científica,literária e artística,por todo os
meios de extensão universitária.
VI. Criação de fundos escolares ou especiais (autonomia econômica)
II. Organização da escola secundária (12 a 18 anos) em tipo flexível de
nítida finalidade social, como escola para o povo, não preposta a preservar e transmitir as culturas clássicas, mas destinada, pela sua estrutura
democrática, a ser acessível e proporcionar as mesmas oportunidades para
todos, tendo, sobre a base de uma cultura geral comum (3 anos), as seções
de especialização para as atividades de preferência intelectual (humanidades e ciências) ou de preferência manual e mecânica (cursos de caráter
Destinados à manutenção e desenvolvimento da educação em todos os
graus e constituídos, além de outras rendas e recursos especiais, de uma
porcentagem das rendas arrecadadas pela União, pelos Estados e pelos
VII. Fiscalização de todas as instituições particulares de ensino que cooperarão
com o Estado, na obra de educação e cultura, já com função supletiva, em qualquer dos graus de ensino, de acordo com as normas básicas estabelecidas em leis
ordinárias, já como campos de ensaios e experimentação pedagógica.
de educação e cultura (bibliotecas escolares fixas e circulantes, museus
escolares, rádio e cinema educativo).
IX. Reorganização da administração escolar e dos serviços técnicos de ensino,
em todos os departamentos, de tal maneira que todos esses serviços possam
a) executados com rapidez e eficiência, tendo em vista o máximo de resultado
com o mínimo de despesa; estudados, analisados e medidos cientificamente, e,
portanto, e rigorosamente controlados no seu resultado; e constantemente estimulados e revistos, renovados e aperfeiçoados por um corpo técnico de analistas
e investigadores pedagógicos e sociais, por meio de pesquisas,inquéritos, estatísticas e experiências.
X. Reconstrução do sistema educacional em bases que possam contribuir
para a interpenetração das classes sociais e formação de uma sociedade
humana mais justa e que tenha por objetivo a organização da escola unificada, desde o Jardim da Infância à Universidade, em vista da seleção dos
melhores, e, portanto, o máximo de desenvolvimento dos normais (escola
comum), como o tratamento especial de anormais, subnormais (classes diferenciais e escolas especiais)”. (AZEVEDO, s.d. p. 88-90 apud RIBEIRO,
Maria Luisa Santos, 1993, 108-110).
VIII. Desenvolvimento das instituições de educação e de assistência física e psíquica à criança na idade pré-escolar (creches, escolas maternais e jardins de
infância) e de todas as instituições complementares pré-escolares e pós-escolares: para a defesa da saúde dos escolares, como os serviços médico e dentário
escolares (com função preventiva, educativa ou formadora de hábitos sanitários,
e clínicas escolares, colônias de férias e escola para débeis), e para a prática de
educação física (praças de jogos para crianças, praças de esportes,piscinas e estádios); para a criação de um meio escolar natural e social e o desenvolvimento
do espírito de solidariedade e cooperação social (como as caixas escolares, cooperativas escolares etc.); para a articulação da escola com o meio social (círculos
de pais e professores, conselhos escolares) e intercâmbio interestadual e internacional de alunos e professores; e para a intensificação e extensão da obra
A Constituição Feder al De 1934
O enfraquecimento dos tenentes se dá em grande parte devido à dissidência liderada
por Luiz Carlos Prestes, que nesta época já havia aderido ao Partido Comunista do Brasil e,
em 1935, vai ser o presidente honorário da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e, em novembro do mesmo ano, participa de um movimento para a derrubada de Getúlio Vargas.
No plano educacional, a Constituição de 1934 adota boa parte do ideário político educacional presente no “Manifesto dos Pioneiros”, consagrando todo um capítulo às questões
educacionais. Os principais pontos são:
O artigo 5º estabelece como competência privativa da União a elaboração de diretrizes e bases para a educação nacional.
O artigo 149 afirma ser a educação direito de todos, devendo ser ministrada pela
família e pelo poder público. Afirma ainda ser finalidade da educação, desenvolver
a solidariedade humana.
O artigo 150 remete várias competências à União: a) fixar o plano nacional de educação que deve compreender todos os graus de ensino. Deve ainda coordenar a sua
execução; b) determinar as condições para o reconhecimento oficial dos estabelecimentos de ensino, exercendo sobre eles a devida fiscalização; c) organizar e manter
nos Territórios sistemas educativos apropriados aos mesmos; d) manter no Distrito
Federal (cidade do Rio de Janeiro) ensino secundário e complementar deste, superior e universitário; e) suprir as deficiências dos sistemas estaduais de ensino.
O ensino primário deverá ser integral gratuito e de frequência obrigatória, extensivo aos adultos. O ensino posterior ao primário deverá tender à gratuidade
Nos estabelecimentos particulares, o ensino deverá ser ministrado no idioma pátrio, com exceção ao estudo das línguas estrangeiras.
É assegurado o reconhecimento dos estabelecimentos particulares de ensino, desde
que assegurem aos seus professores estabilidade na função enquanto bem servirem
e uma remuneração condigna.
No dia 16 de julho de 1934 foi promulgada a Constituição da República dos Estados
Unidos do Brasil. De acordo com texto constitucional, Getúlio Vargas era eleito para um
período de 04 anos. De um modo geral, a Constituição concilia interesses diversos. De um
lado, atende os liberais constitucionalistas, quando estabelece eleições livres, voto secreto, o
voto feminino e cria o Tribunal Eleitoral. De outra parte, agrada também aos tenentes, que
embora enfraquecidos ainda detêm parte do poder, quando estabelece um certo dirigismo
estatal na economia, quando cria a justiça do trabalho, a previdência social e estabelece as
bases para o surgimento do salário mínimo (CUNHA, 1981, p. 27).
Cabe aos Estados e Distrito Federal organizar e manter sistemas educativos nos
respectivos territórios.
É criado o Conselho Nacional de Educação, organizado na forma da lei, com o
fim de elaborar o Plano Nacional de Educação que deverá ser aprovado pelo poder
O ensino religioso, antes proibido, passa a ser de matrícula facultativa, devendo ser
ministrado de acordo com o credo religioso do aluno, sendo matéria do horário de
aula das escolas.
O artigo 156, disciplina pela primeira vez num texto constitucional, a questão do
financiamento da educação, nos seguintes termos: 1) A União e os Municípios deverão aplicar nunca menos de dez por cento em educação; os Estados e o Distrito
Federal nunca menos de vinte por cento, da renda resultante dos impostos, na manutenção e no desenvolvimento dos sistemas educativos.
São ainda criados fundos que, em parte, destinarão auxílios aos alunos deles necessitados. A União deverá também reservar pelo menos vinte por cento do que
destinar à educação, para o ensino na zona rural.
Os cargos do magistério serão preenchidos mediante a realização de concursos
públicos de títulos e provas (artigo 158).
A Constituição Feder al De 1937
Com o golpe de estado de 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas, com apoio militar,
implanta o que denominou de Estado Novo, na prática uma ditadura. O pretexto, como não
poderia deixar de ser, mais uma vez, foi o perigo comunista. Pura invencionice. Os comunistas estavam presos e os soltos encontravam-se na mais dura clandestinidade, sem nenhuma
possibilidade de ação concreta. O Congresso Nacional foi fechado. O ditador passou a governar através de Decretos-leis. Estabeleceu-se a mais dura censura nos meios de comunicação
e foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que passou a interferir em
todas as manifestações culturais. Francisco Campos elaborou o texto da nova Constituição,
em grande parte, inspirado na constituição fascista da Polônia. Enfim, cria-se um estado
Um capítulo especial para a educação e a cultura (artigos 128 a 134) é mantido. Entretanto, a obrigação do Estado em matéria de educação fica muito modesta. Assim é que, logo
de saída, o artigo 128 afirma ser “dever do Estado contribuir, direta e indiretamente, para o
estímulo e desenvolvimento de umas e de outras favorecendo ou fundando instituições artísticas, científicas e de ensino.” Desaparece a exigência de um plano nacional de educação. A
obrigação do poder público é, apenas, para aqueles que demonstrarem insuficiência de recursos para se manter numa escola particular. Nesse sentido, o ensino profissional passa a ser a
principal obrigação do Estado em matéria de educação e destina-se “às classes menos favorecidas” (artigo 129). Aliás, a leitura na íntegra desse artigo não deixa margem a dúvidas:
Como observa Romanelli (op. cit., p. 153): “Aquilo que na Constituição de 1934 era um
dever do Estado passa, na Constituição de 1937, a uma ação meramente supletiva.”
A partir do ano de 1942, o Ministro da Educação Gustavo Capanema dá início à publicação de vários decretos-lei. Quatro decretos são editados durante o Estado Novo: a) Decreto-lei 4.073, em 30 de janeiro de 1942 (Lei Orgânica do Ensino Industrial); b) Decreto-lei
4.048, em 22 de janeiro de 1942, cria o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), c) Decreto-lei 4.244, em 9 de abril de 1942 (Lei Orgânica do Ensino Secundário) e d)
Decreto-lei 6.141, em 28 de dezembro de 1943 (Lei Orgânica do Ensino Comercial).
Após o golpe militar que derrubou Vargas (1945), durante o Governo Provisório presidido pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foram publicados mais quatro
decretos-lei: a) Decreto-lei 8.529, em 02 de janeiro de 1946 (Lei Orgânica do Ensino Primário); b) Decreto-lei 8.530, em 02 de janeiro de 1946 (Lei Orgânica do Ensino Normal); c)
Decreto-lei 8.621 e 8.622, em 10 de janeiro de 1946, criam o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) e d) Decreto-lei 9.613, em 20 de agosto de 1946 (Lei Orgânica
do Ensino Agrícola).
Com essa legislação, o Governo Vargas explicita firme intenção de estruturar o ensino
técnico profissional e quando cria o SENAI convoca o empresariado nacional a participar
À infância e à juventude, a que faltarem os recursos necessários à educação em instituições particulares, é dever da Nação, dos Estados e dos
Municípios assegurar, pela fundação de instituições públicas de ensino em
todos os seus graus, a possibilidade de receber uma adequação adequada
às suas faculdades, aptidões e tendências vocacionais (CAMPANHOLE e
CAMPANHOLE, 1978, p. 452).
A Reforma Do Ensino Secundário
Em relação ao ensino secundário são poucas as modificações, este continua sendo um
curso preparatório para o ingresso no ensino superior, embora o discurso oficial buscasse
disfarçar essa intenção. Na ocasião da edição da Lei Orgânica para o Ensino Secundário,
assim se pronunciava o Ministro Gustavo Capanema:
O ensino secundário ficava estruturado em dois níveis: ginásio, com a duração de quatro anos, ao qual se seguia o colégio com a duração de três anos. Este, não mais subdividido
em três ramos, mas sim, em dois (científico e clássico). Alguns estudiosos entendem que,
dessa forma, se atenuava o caráter de preparatório ao vestibular (CHAGAS, 1978, p. 53). Em
termos de conteúdo, clássico e científico são muito parecidos. Há, apenas, uma diferença de
ênfase; no científico dá-se mais atenção às Ciências Naturais e no clássico, às Humanidades.
Na prática, fica “tudo como dantes no quartel de Abrantes”, quem ingressa no curso colegial,
está mesmo de olho nos vestibulares. Se cursou o clássico, encaminha-se para o curso de Direito ou para um dos cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras; se vem do científico, dirige-se ao vestibular para o curso de Medicina, Odontologia, Farmácia ou Engenharia.
A preferência dos alunos era pelo curso científico, visto este ter um currículo mais adequado
que prepara para qualquer tipo de vestibular (Chagas, op. cit., p. 53).
Em palestra proferida para inspetores do ensino secundário, no ano de 1954, assim se
expressava Anísio Teixeira sobre o ensino secundário:
A escola secundária brasileira sempre foi, no passado, uma escola preparatória. Preparava os candidatos ao ensino superior; como escola de “preparatórios”, tinha objetivos determinados e uma clientela determinada. A
clientela era a que se destinava ao ensino superior; e os objetivos, os de
fornecer o que, na época, se chamada de cultura geral. Tal escola secundária, como aliás a escola secundária de todo o mundo, sendo preparatória
para o ensino superior, não visava a dar nenhuma educação específica para
ensinar a viver, ou a trabalhar, ou a produzir,mas, simplesmente, a ministrar uma educação literária, que era toda a educação que a esse tempo se
conhecia (TEIXEIRA, 1999, p. 175).
O que constitui o caráter específico do ensino secundário é a sua função
de formar nos adolescentes uma sólida cultura geral e, bem assim, de neles
acentuar e elevar a consciência patriótica e a consciência humanística. O
ensino secundário deve ser, por isto, um ensino patriótico por excelência,
e patriótico no sentido mais alto da palavra, isto é, em ensino capaz de dar
ao adolescente a compreensão dos problemas e das necessidades, da missão, e dos ideais, da nação, e bem assim dos perigos que a acompanhem,
cerquem ou ameacem, um ensino capaz, além disso, de criar, no espírito
das gerações novas a consciência da responsabilidade diante dos valores
maiores da pátria, a sua independência, a sua ordem, e seu destino (NUNES, 1999, p. 102).
O Decreto-lei previa ainda que o egresso do curso primário deveria submeter-se ao
exame de admissão para ingresso no curso ginasial.
Nunes (op. cit., p. 106) aponta como aspectos positivos da Reforma Capanema em
relação à Reforma Francisco Campos, “a diminuição do ginásio para quatro anos, o maior
interesse dado ao ensino da História e da Geografia do Brasil e da América.”
A estruturação definitiva dos cursos técnicos profissionalizantes, destinados às camadas populares, é mérito indiscutível da reforma educacional empreendida pelo Ministro
Gustavo Capanema, como, aliás, vimos estava estabelecido pela Carta Constitucional outorgada por Getúlio Vargas, em 1937. O ginásio e colégio secundários às “elites condutoras”; o
ensino técnico-profissionalizante, “às massas a serem conduzidas”. Tudo certinho, só faltou
combinar com o povo que continuou sem escola na sua grande maioria, e os que conseguiam
furar o bloqueio do exame de admissão ao ginásio, evidentemente, preferiam o curso secundário, pois apenas esse dava acesso ao curso superior. Este aspecto da legislação educacional
dos “tempos Capanema” é, aliás, altamente discriminatório em relação às camadas populares e consagrava o já conhecido “dualismo” do sistema educacional brasileiro, muito bem
caracterizado por Anísio Teixeira na feliz expressão: “de um lado a escola para os nossos
filhos, de outro, a escola para os filhos dos outros” ·
Do ponto de vista organizacional, o ensino técnico nos seus três ramos seguia o padrão
adotado para o ensino secundário: ginásio técnico (4 anos) e colégio técnico (3 anos). Assim
como já ocorrera com a reforma do ensino secundário, também no ensino técnico, a tônica
era a rigidez da organização dos diferentes ramos e a permanência de certos anacronismos
que vinham desde o período colonial e foram mantidos pela reforma Francisco Campos. Assim é que, para cursar o ginásio técnico, também se exigia do candidato que fosse aprovado
no exame de admissão.
De acordo com Romanelli, essa exigência descabida, em um país que para industrializar-se necessitava de mão-de-obra qualificada, era uma clara indicação da sobrevivência
da mentalidade aristocrática, “que estava aplicando ao ensino profissional, que deveria ser
o mais democrático dos ramos de ensino, os mesmos princípios adotados na educação das
elites” (ROMANELLI, op. cit., p. 156).
O Ensino Primário E O Curso Normal
A Organização Do Ensino Técnico
Embora detalhadas ainda durante o Estado Novo, a reforma do ensino primário e a do
curso normal foram publicadas no ano de 1946, portanto, já com o ditador fora do poder e
em um merecido repouso na sua estância em São Borja, Rio Grande do Sul.
O artigo 130 da Constituição de 1937 estabelecia que:
Como bem observa Ghiraldelli Jr. (2003):
Com o artigo 130 o Estado Novo forneceu indícios de não desejar carrear
os recursos públicos provindos dos impostos para a democratização das
oportunidades de educação para a população. Pelo contrário, deixou transparecer a intenção seguinte: os mais ricos, diretamente, deveriam financiar
a educação dos mais pobres. Institucionalizou-se, assim a escola pública
paga e o donativo obrigatório através da caixa escolar (GHIRALDELLI
JR., 2003, p. 83).
Importante destacar que o ensino primário, ao longo de mais de cem anos, não fora
objeto de nenhuma atenção especial por parte
do Governo Federal13, uma vez que ficara sob a
responsabilidade dos governos regionais, desde
o Ato Adicional de 1834.
13. A última lei geral sobre o ensino elementar data de
1827 e foi uma iniciativa do Deputado Januário da Cunha
Barbosa, que no projeto previa a educação como dever do
Estado, a criação de escolas por todo o território nacional
e a graduação do processo educativo, ou seja, criação de
um sistema educacional com diferentes níveis de ensino
(Ribeiro, 1993, p. 46)
De acordo com o Decreto-lei nº 8.259, promulgado a 2 de janeiro de 1946, o ensino
primário ficava dividido em duas categorias: 1) o ensino primário fundamental e 2) o ensino
primário supletivo. O ensino primário fundamental subdividia-se em: a) primário elementar
com a duração de quatro anos e primário complementar com a duração de um ano. Ambos
destinavam-se a crianças de 7 a 12 anos.
De acordo com Romanelli (1999, p. 161), a criação do ensino primário supletivo foi
fundamental para a diminuição das taxas de analfabetismo ao longo das décadas de 40 e
50 do século XX.14 Mas este não é o único aspecto positivo da reforma do ensino primário.
O clima de liberdade e de livre expressão do pensamento, que sucede com o fim da ditadura Vargas, acabou por favorecer uma reforma
14. De acordo com os Censos Demográficos, a popudo ensino primário mais adequada à realidade
lação de adolescentes e adultos analfabetos alcançava
brasileira e aos anseios dos educadores, porque
59% (13,2milhões) em 1940; 53% (15,2 milhões) em
resgatou boa parte das idéias pedagógicas pre1950; 39% (18,8 milhões) em 1960 e 33% (17,9 milhões)
em 1970.(Chagas, op. cit., p. 75)
sentes no “Manifesto dos Pioneiros”. Assim é
que o ensino primário, deveria orientar-se segundo os seguintes princípios:
O ensino primário é obrigatório e gratuito. A gratuidade, porém, não exclui o dever de solidariedade dos menos para com os mais necessitados;
assim, por ocasião da matriculo, será exigida aos que não alegarem, ou
notoriamente não puderem alegar, escassez de recursos, uma contribuição
módica e mensal para a caixa escolar.
Para que esses princípios pudessem ser alcançados, os artigos 39 e 41 do Decreto-lei
estabeleciam a obrigatoriedade e gratuidade do ensino primário. Os artigos 24 e 25 previam
a descentralização desse mesmo nível de ensino. Obrigatoriedade, gratuidade e descentralização eram princípios caros aos “pioneiros pela educação nova”.
O artigo 25 determinava, ainda, que Estados, Territórios e Distrito Federal organizassem seus sistemas de ensino, mediante as seguintes providências:
Planejamento dos serviços de ensino, em cada ano, de tal modo que a
rede escolar primária satisfaça as necessidades de todos os núcleos da
população (princípio da universalização do ensino elementar);
Organização para cumprimento progressivo, do plano de construções
e aparelhamento escolar;
Preparo do professorado e do pessoal da administração, segundo as
necessidades do número das unidades escolares e de sua distribuição
geográfica (ROMANELLI, op. cit., p. 161).
Mas, para que tudo isso pudesse tornar-se realidade, era necessário prover os recursos
financeiros necessários. Para tanto, o Decreto-lei em seus artigos 45, 46, 47 e 48 estipulava
qual deveria ser a contribuição dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para o Fundo Nacional do Ensino Primário e as normas de redistribuição desses recursos pela União.
Por fim, os artigos 25, itens “c” e “d” e os artigos 34, 35 e 36 cuidam da formação de
professores, da carreira, da remuneração e das normas para o preenchimento dos cargos na
[...] desenvolvimento sistemático e graduado adequado aos interesses da
infância; do ponto de vista didático centrar-se nas atividades do próprio
educando; apoiar-se nas realidades do ambiente em que se exerça, para que
sirva à sua melhor compreensão e mais proveitosa utilização; revelar as
tendências e aptidões dos alunos, cooperando para o seu melhor aproveitamento no sentido do bem-estar individual e coletivo; inspirar-se, em todos
os momentos, no sentimento de unidade nacional e fraternidade humana;
desenvolver o espírito de cooperação e o sentimento de solidariedade social (ROMANELLI, op. cit., p. 161).
A ausência de professores habilitados nos cursos normais para o exercício da docência era particularmente grave. De acordo com Werebe (1963), apesar do aumento no número
de escolas normais, continuava crescendo o número de professores leigos no ensino primário. Segundo a mesma autora, em 1940, havia 40% de professoras leigas, percentual que sobe
para 47% no ano de 1957. Neste ano, para um total de 183.056 professores havia 85.684 leigos
(FERNANDES, 1966).
O Ensino Normal
O primeiro curso normal, no Brasil, foi fundado, em 1835, na escola pública, em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, outras escolas foram surgindo. Até
o ano de 1880, havia sido criada uma dezena delas. A partir da República, multiplicaram-se
pelo país afora. Em 1950, eram em número de 540.
A criação e organização das escolas normais, a exemplo do que acontecia com o ensino
primário, era de responsabilidade dos governos estaduais. O Decreto-lei nº 8.530 estabelecia
uma série de normas que deveriam ser observadas pelos cursos normais em todo o território
nacional. O ensino normal passava a ter as seguintes finalidades:
Prover a formação do pessoal docente necessário às escolas primárias;
Habilitar administradores escolares destinados às mesmas escolas;
Desenvolver e propagar os conhecimentos e técnicas relativas à educação da infância (ROMANELLI, op. cit., p. 164).
Além das Escolas Normais foram criados os Institutos de Educação. O Curso Normal,
a exemplo dos demais cursos profissionalizantes, ficou organizado em dois ciclos: a) 1º ciclo
(Formação de Regentes); b) 2º ciclo (Formação de Professor Primário). Quanto ao currículo,
no 1º ciclo predominavam as matérias de educação geral. No
15. Para aprofundar o conhecimento
2º havia um maior equilíbrio entre as disciplinas de educação
sobre essa matéria, consulte, neste
geral e aquelas relacionadas com a formação profissional (Mecaderno, o texto de autoria da professora Jane Soares de Almeida: A
todologia do ensino primário, sociologia educacional, psicoformação do docente ao longo da
logia educacional, história e filosofia da educação, prática de
ensino, etc.). 15
Apesar de todas essas boas intenções presentes na legislação educacional, particularmente no tocante ao ensino primário, a realidade desse ensino teimava em não mudar. Essa
constatação mereceu de Florestan Fernandes (1966), o seguinte comentário: “em suma, a distância em relação ao passado é mais aparente que real, na esfera da educação escolarizada”
(FERNANDES, 1966 apud ROMANELLI, 1999, p. 163). Outro não é o desabafo de Anísio
Teixeira quando dizia que, na educação brasileira, havia grande distância entre os valores
proclamados e aqueles que eram de fato realizados.
Nos anos de 1940 e 1950 houve uma expansão acelerada dos cursos normais, quer
funcionando isoladamente, quer abrigados nos Institutos de Educação, particularmente, no
Estado de São Paulo. Uma das razões desse incremento da matrícula nos cursos de formação
de professores decorreu do fato de que, a partir de 1954, esses cursos foram equiparados
aos demais cursos de nível médio e o concluinte, portanto, podia prestar exame vestibular
para ingresso em qualquer curso superior. Desse modo, o curso se descaracteriza como mo-
dalidade profissionalizante, o que de resto iria acontecer também com os demais cursos de
A Constituição Feder al De 1946
Nos termos do artigo 5º, inciso XV, volta a integrar o texto Constitucional, dispositivo presente na
Constituição de 1934, e que fora revogado pela Carta
do Estado Novo que afirma ser competência privativa da União legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional16.
16. Em cumprimento a este dispositivo constitucional, o Ministro da Educação do Governo Dutra,
Clemente Mariani, em 1948, submeteu à apreciação do Congresso Nacional , o Projeto de Lei de
Diretrizes e Bases da Educacional, que somente
no ano de 1961 se converteria na nossa primeira
LDB, sob o nº de Lei 4.024.
Nos termos do artigo 168, a legislação de ensino adotará os seguintes princípios educacionais:
I – O ensino primário é obrigatório e só será dado na língua nacional;
II – O ensino primário oficial é gratuito para todos, o ensino ulterior ao
primário sê-lo-á para quantos provarem falta ou insuficiência de recursos;
III – As empresas industriais, comerciais e agrícolas, em que trabalhem
mais de cem pessoas, são obrigadas a manter ensino primário gratuito
para seus servidores e os filhos destes17; IV – As empresas industriais e
comerciais são obrigadas a ministrar, em cooperação, aprendizagem para
seus trabalhadores menores, pela forma que a lei estabelecer, respeitados
os direitos dos professores.
No período de vigência desse texto constitucional (1946 a
1967), o Brasil passou por profundas transformações sócio-econômicas, caracterizado por um surto contínuo de desenvolvimento
industrial que veio consolidar as iniciativas tomadas durante o período que Getúlio Vargas esteve à frente do governo (1930-1945).
A Carta Constitucional de 1946 inspirou-se no ideário liberal e democrático. Além
de um capítulo dedicado à educação (artigos 166 a 175), essa Carta contém outros dispositivos que interessam diretamente à educação. Assim é que o artigo 141, § 5º, declara livre
o pensamento sem que dependa de censura prévia. A publicação de livros e periódicos não
dependerá de licença do poder público. De acordo com o parágrafo 7º do mesmo artigo: “é
inviolável a liberdade de consciência e crença...”, e o parágrafo 8º declara que: “por motivo de
convicção religiosa, filosófica ou política, ninguém será privado de nenhum dos seus direitos”. O artigo 168 garante a “liberdade de Cátedra”. O artigo 173 estabelece que “As ciências,
as letras e as artes são livres”.
17. Em 1964, já no regime
militar, com a criação do Salário Educação, as empresas
poderiam optar entre manter
o ensino ou recolher o Salário Educação, que incidia
sobre a folha de pagamento
Como não poderia deixar de ser, esse conjunto de transformações na base material da
sociedade criou novas necessidades para o setor educacional que, todavia, não respondeu de
modo satisfatório a essas novas demandas da sociedade, como, aliás, ficou demonstrado pelo
estudo das reformas educacionais que fizemos ao longo desse período.
Nesse sentido, os dados estatísticos são eloquentes: em 1959, a matrícula no ensino médio particular está em torno de 700 mil alunos, contra pouco mais de 370 mil no ensino público. Dez anos mais tarde, a situação está invertida: mais de 2 milhões de estudantes estão
cursando o ensino médio em estabelecimentos públicos contra 1,5 milhão no setor privado.
Em síntese, a legislação educacional do período, apesar de alguns avanços, não soube
traduzir em ações os princípios liberais democráticos presentes, tanto no texto constitucional
de 1934, quanto no de 1946.
CAMPANHOLE, A. ; CAMPANHOLE, H. Todas as Constituições do Brasil. São Paulo: Atlas, 1978.
CAMPOS Francisco, Exposição de motivos.. Ministério da Educação e da Saúde Pública. Rio de Janeiro, 1931
p. 3 e 5.CHAGAS, Valnir. Educação brasileira: o ensino de 1º e 2º graus antes, agora e depois? São Paulo:
Edição Saraiva, 1978.
CUNHA, Célio da. Educação e autoritarismo no Estado Novo. São Paulo: Cortez/Autores Associados.
1981. (Educação Contemporânea)
FERNANDES, Florestan. Educação e sociedade no Brasil. São Paulo: Dominus Editora, 1966.
GHIRALDELLI JR., Paulo. Filosofia e história da educação brasileira. Barueri (SP): Editora Manole,
Como teremos oportunidade de abordar no texto: “A educação brasileira nos últimos
quarenta anos: de JK a FHC, a própria LDB de 1961, sob esse aspecto, também muito deixou
a desejar”. Apesar da mudança visível na composição do alunado que adentrava o ensino
público, principalmente aquele posterior ao ensino primário, a legislação permanecia conservadora e elitista, criando inúmeros obstáculos ao progresso dos alunos na escola. Essa é,
aliás, uma realidade que só começa a mudar a partir dos anos de 1980.
NUNES, Maria Thétis. Ensino secundário e sociedade brasileira. São Cristóvão (SE): Editora da Universidade Federal de Sergipe, 1999.
RIBEIRO, Maria Luisa Santos. História da educação brasileira: a organização escolar. 13. ed. rev. e ampl.
Campinas (SP): Editora Autores Associados, 1993.
ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 23. ed. Petrópolis (RJ): Editora Vozes,
TEIXEIRA, Anísio. Educação no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1999.
Educação, Cultura e Desenvolvimento
WEREBE, Maria José Garcia. Grandezas e misérias do ensino brasileiro. São Paulo: Difusão Européia do
Livro, 1963.
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References: artigo 5
 artigo 149
 artigo 150
 artigo 156
 artigo 128
 artigo 130
 artigo 130
 artigo 25
 artigo 5
 artigo 168
 artigo 141
 artigo 168
 artigo 173