Source: http://humanos.cfm.org.br/2019/09/30/declaracao-de-sao-paulo-aponta-desafios-na-formacao-e-pratica-das-humanidades-medicas/
Timestamp: 2019-10-22 16:44:49+00:00

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Humanos | Declaração de São Paulo aponta desafios na formação humanística
Declaração de São Paulo aponta desafios na formação humanística
O Conselho Federal de Medicina (CFM) referendou a Declaração de São Paulo, resultado do VII Congresso Brasileiro de Humanidades Médicas, sobre “Medicina: Humanidades e Tecnociência – desafios na formação e prática. O evento, promovido nos dias 25 e 26 de julho, reuniu cerca de 200 médicos de diversas especialidades, professores, estudantes e profissionais de áreas afins interessados no conhecimento humanístico voltado para a prática médica e a saúde.
O documento propõr princípios fundamentais nas chamadas humanidades médicas. “As Humanidades podem contribuir com a demonstração da convergência essencial entre seus princípios fundamentais e o novo paradigma científico, lançando uma visão mais abrangente e profunda sobre a tensão dialética entre entropia e sintropia, entre doença e saúde, entre morte e vida”, pontua logo no primeiro artigo da declaração.
Leia a seguir o documento completo:
A Comissão de Humanidades Médicas do Conselho Federal de Medicina resolveu, a partir das discussões ocorridas durante o VII Congresso Brasileiro de Humanidades Médicas, sobre “Medicina: Humanidades e Tecnociência – desafios na formação e prática”, em São Paulo, Brasil, nos dias 25 e 26 de julho de 2019, propor a presente carta de princípios fundamentais.
Artigo 1: As descobertas mais recentes das ciências naturais, especialmente da física quântica e da biologia sistêmica, confirmam pressupostos sugeridos pelas artes em todos os tempos e pelas tradições filosóficas e místicas. As Humanidades podem contribuir com a demonstração da convergência essencial entre seus princípios fundamentais e o novo paradigma científico, lançando uma visão mais abrangente e profunda sobre a tensão dialética entre entropia e sintropia, entre doença e saúde, entre morte e vida.
Artigo 2: A revolução científica ocidental iniciada no século XVII, separando, em nome da objetividade, o sujeito pensante (ego cogitans) da coisa estudada (res extensa) conduziu à ilusão da possibilidade de conhecimento do todo pela análise hiperespecializada de cada parte. As Humanidades podem contribuir para a superação da fragmentação epistemológica através da perspectiva de compreensão do homem em sua totalidade, em sua complexidade multidimensional: soma, psique, nous, ou seja, corpo, alma, consciência transcendental.
Parágrafo único: O cuidado integral, que pressupõe a percepção do ser humano em sua inteireza e suas múltiplas expressões e formas de relação com o mundo – do amor à espiritualidade –, é uma necessidade epistemológica com decisivas implicações terapêuticas.
Artigo 3: Pesquisas confiáveis demonstram que, diante do ensino linear, unidimensional, reducionista e exclusivamente técnico das ciências médicas, sucede um abandono gradativo do olhar respeitoso, do espírito altruísta e da atitude de cuidado amoroso com o outro. As Humanidades, inspirando métodos transdisciplinares, integrando intuição, emoção, sentimento, pensamento, propondo práticas que associem ao rigor científico necessário a criatividade e a imaginação, podem provocar o recrudescimento profundo da fraternidade e da solidariedade.
Artigo 4: Um veloz avanço da tecnociência na medicina transformou os exames complementares em principais critérios de avaliação diagnóstica e decisão terapêutica, relegando a segundo plano a relação médico-paciente e a compreensão da inteligibilidade de cada contexto histórico e biográfico. As Humanidades podem ajudar a restituir a centralidade da escuta empática e da sensibilidade clínica como fonte de informação para a definição das condutas médicas mais adequadas à singularidade de cada caso, com a consequente diminuição de custos dos serviços de saúde.
Artigo 5: Mais do que os erros médicos ou as controvérsias suscitadas pelas mais inquietantes questões éticas, é a dificuldade de comunicação entre médico e paciente a principal causa de denúncias, em nosso país e no mundo, perante as várias instâncias de controle e julgamento. As Humanidades podem colaborar, através de práticas vivenciais e reflexões teóricas, com o refinamento da sensibilidade, para o entendimento da real natureza da atenção plena e para a percepção do outro em seu sofrimento e em sua ânsia de plenitude, de modo a facilitarem uma comunicação entre médico e paciente mutuamente satisfatória.
Artigo 6: Convivem em nossa sociedade, conforme dados epidemiológicos estatisticamente relevantes, as doenças do subdesenvolvimento – infecto-contagiosas – com as doenças do superdesenvolvimento – crônico-degenerativas. As Humanidades podem contribuir para uma identificação criteriosa dos componentes causais ligados a um modelo econômico que privilegia o lucro imediato e exacerba a exclusão social e a degradação ambiental.
Artigo Final: A deontologia como ciência dos deveres profissionais e a diceologia como ciência dos direitos profissionais não são suficientes para despertar uma consciência ética em seu sentindo mais abrangente. Que as Humanidades – aqui exaltadas através de princípios fundamentais – em diálogo com a Medicina inspirem, para além da simples observância de códigos e artigos, um compromisso ético nascido do senso pessoal profundo de responsabilidade e amor incondicional pela vida em todas as suas manifestações, em todas as situações, sem injunção jurídica ou institucional.
Secretário-Geral do CFM
Coordenador da Comissão de Humanidades Médicas
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References: Artigo 1

Artigo 2

Artigo 3

Artigo 4

Artigo 5

Artigo 6