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Timestamp: 2020-06-05 05:49:17+00:00

Document:
Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região TRT-1 - RECURSO ORDINÁRIO : RO 00104709020155010041
Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região TRT-1 - RECURSO ORDINÁRIO : RO 00104709020155010041 - Inteiro Teor
RO 0010470-90.2015.5.01.0041
JOSÉ LUIS CAMPOS XAVIER
Inteiro TeorTRT-1_RO_00104709020155010041_059a0.pdf
PROCESSO nº 0010470-90.2015.5.01.0041 (RO)
RECORRENTE: ALEXANDRE VENANCIO DA SILVA
RECORRIDO: EMPRESA DE VIACAO ALGARVE LTDA - ME
RELATOR: JOSÉ LUIS CAMPOS XAVIER
JUSTA CAUSA. IMPROBIDADE. USO DE ATESTADO MÉDICO
FALSO. A aplicação da justa causa, por possuir graves efeitos para o
empregado, exige prova cabal dos fatos a ele imputados. No
presente caso, restou suficientemente comprovada a conduta faltosa
do reclamante ensejadora da justa causa, pelo uso de atestado
médico falso.
Ordinário nº TRT-RO-0010470-90.2015.5.01.0041, em que são partes: ALEXANDRE VENÂNCIO
DA SILVA , como Recorrente, e EMPRESA DE VIAÇÃO ALGARVE LTDA. , como Recorrida.
Trata-se de Recurso Ordinário interposto pelo reclamante contra a r.
sentença Id 8d40d9e, inalterada pela r. Decisão em embargos de declaração Id bccbbf3,
proferidas pelo Juiz do Trabalho Fábio Rodrigues Gomes , da 41ª Vara do Trabalho do Rio de
Janeiro, que acolheu, em parte, os pedidos.
Argui preliminar de nulidade por negativa de prestação jurisdicional.
Pretende a reforma da r. decisão em relação à dissolução do contrato de trabalho, às horas
extras, aos intervalos intrajornada e interjornadas, aos descontos por faltas e vales, ao acúmulo
de funções e à indenização por danos morais (Id 8c9b258).
Contrarrazões da reclamada sem preliminares (Id c082336).
Os autos não foram encaminhados ao Ministério Público do Trabalho
por não ser a hipótese de intervenção legal, conforme a LC nº 75/93, e sequer as hipóteses
previstas no Ofício PRT 1ª Região nº 214/13-GAB/2013, de 11/03/2013.
Conheço do recurso por preenchidos os seus requisitos legais de admissibilidade .
O recurso encontra-se tempestivo, com representação regular (Id 045477f).
PRELIMINAR DE NULIDADE POR NEGATIVA DE PRESTAÇÃO
Irresignada e sustentando que os pontos enfocados na contestação não foram devidamente enfrentados pelo Juízo de origem, o reclamante argui a nulidade do julgado, por ter sido incompleta a prestação jurisdicional prestada pelo Juízo de Primeiro Grau, não obstante opostos embargos de declaração.
Não há como vislumbrar a pretendida negativa de prestação jurisdicional, considerando-se a fundamentação do sentenciado quanto às questões que constituem objeto dos embargos de declaração, de acordo com a prova constante dos autos.
Isso porque o Juízo de Primeiro Grau apreciou o mérito em todo o seu conteúdo na r. sentença recorrida.
O que determina a prestação jurisdicional é o enfrentamento dos temas trazidos a debate e a fundamentação da decisão. Todavia, isso não significa que o Juízo esteja obrigado a responder a cada um dos argumentos das partes.
A sentença retrata o resultado da demanda. Nela estão expendidos os fundamentos do Juízo que a decidiu, não se constituindo em um debate entre este e as partes, principalmente quando a fundamentação, por si só, excluir os demais argumentos apresentados pelos litigantes.
Por outro lado, ainda que assim não fosse, a interposição de recurso ordinário pelo reclamante devolve ao Órgão ad quem a análise de todas as questões controvertidas, ainda que a sentença não as tenha solucionado, a teor do artigo 1.013, § 1º, do CPC, aplicável ao Processo do Trabalho por força do artigo 769 da CLT.
Nessa consideração, consoante ensina o jurista Barbosa Moreira, tratando-se de "causa madura", pode o órgão jurisdicional de Segundo Grau, em razão da ampla devolutibilidade do recurso ordinário, apreciar o mérito de plano, por ser nenhum o prejuízo.
Insurge-se o reclamante contra a sentença no tocante à confirmação da justa causa aplicada pelo empregador. No ponto, argumenta a ausência de provas acerca dos fatos ensejadores da medida.
O Juízo a quo, entendendo que restou devidamente comprovado o ato de improbidade praticado pelo reclamante e reputando grave a conduta, manteve a justa causa aplicada.
Nos termos dos documentos acostados no Id 9ee561c, o reclamante foi demitido em 11/02/2014 por justa causa, sendo-lhe imputada a prática da falta capitulada no artigo 482, alínea a, da CLT, qual seja, ato de improbidade.
Segundo os elementos dos autos, a conduta de improbidade restou configurada por ter a reclamada constatado que o reclamante apresentou atestado médico falso para justificar faltas ao serviço.
Com efeito, restou devidamente comprovada a apresentação de atestado médico falso pelo reclamante, na medida em que, após a emissão pela reclamada de ofício ao Hospital Estadual Rocha Faria solicitando informações acerca da veracidade do atestado, a resposta foi que a médica Dra. Elisabete Gonçalves Guedes, inscrita no CRM/RJ 52.602664-0, não emitiu tal documento, bem como sequer foi atendido naquela unidade hospitalar (Id 22d11fc).
Importa acrescentar que a investigação por parte da reclamada acerca do atestado utilizado para justificar falta ao serviço foi iniciada em 23/01/2014, quando do envio do oficio ao Hospital e a resposta final ocorreu em 06/02/2014.
Assim, não há que se cogitar em ocorrência de perdão tácito na hipótese.
Diferentemente das razões recursais, a doutrina e a jurisprudência entendem que a dispensa por justa causa pela apresentação de atestado médico falso atende o princípio da proporcionalidade, ante a violação da fidúcia imprescindível para a manutenção do vínculo empregatício.
Nesse contexto probatório, resta comprovado o ato de improbidade a fundamentar a justa causa aplicada, uma vez que a conduta do reclamante se reveste de gravidade suficiente para quebrar a fidúcia inerente à relação de emprego.
Ademais, a gravidade da conduta autoriza a aplicação da medida gravosa.
DIFERENÇAS DE HORAS EXTRAS E NOTURNAS. DOBRAS. TEMPO À
dias trabalhados.
O juízo de primeiro grau rejeitou o pedido sob o fundamento de que o reclamante não se desincumbiu do ônus da prova que lhe cabia.
Em que pese a grande discrepância em relação aos depoimentos do reclamante e da testemunha, e mesmo quanto à narrativa da inicial, em relação ao horário de trabalho, considero válido o depoimento da testemunha e concluo que o reclamante trabalhava, em média, mais 15 minutos além dos 15 minutos marcados na guia para prestar contas.
Além disso, tanto o reclamante quanto a testemunha informaram que antes do início da primeira viagem ficavam tempo a disposição da reclamada.
Dessa forma, considero que, em média, o reclamante esperava 30 minutos para iniciar a primeira viagem anotada na guia.
Vale ressaltar, ainda, que as guias ministeriais são imprestáveis como prova no que diz respeito aos dias efetivamente trabalhados pelo empregado.
"GUIAS MINISTERIAIS - CONTROLE DE FREQUÊNCIA. As guias ministeriais embora possam, eventualmente, servir como meio de prova da jornada de trabalho não se prestam como eficaz instrumento para o controle de frequência, ante à possibilidade de manipulação pelo réu, bastando a sonegação de uma guia para que se caracterize folga ou falta do empregado." (TRT-1 - RO: 00010418720115010058 RJ, Relator: Mery Bucker Caminha, Data de Julgamento: 28/04/2014, Primeira Turma, Data de Publicação: 12/05/2014)
Assim sendo, como a reclamada alegou fato impeditivo do direito do reclamante e não trouxe aos autos a prova de suas alegações, pois deixou de anexar os controles de frequência a cuja manutenção está legalmente obrigado por ter mais de 10 empregados (art. 74, § 2º, CLT), presume-se verdadeira a alegação autoral de que as horas extras não foram pagas corretamente pela ré. Nesse sentido, a Súmula 338, I, TST.
Por fim, o reclamante apresentou demonstrativo das horas extras, não impugnado pela reclamada.
Em consequência, observados os horários constantes de seu depoimento pessoal, o reclamante faz jus a diferenças de horas extras que não foram pagas corretamente, 30 minutos extras por dia trabalhado pelo tempo que ficou a disposição da reclamada até iniciar a sua primeira viagem e 40 minutos para deslocamento e prestação de contas, acrescidas dos percentuais de 50% para as duas primeiras e de 100% para as demais, conforme convenção coletiva, sobre o valor da hora normal, tudo a ser apurado em liquidação de sentença.
Devido o adicional noturno, com adicional de 20%.
horas extras no repouso semanal remunerado e de ambos nas férias, nas gratificações natalinas e nos depósitos do FGTS, devendo ser o valor depositado na conta vinculada do reclamante.
Observem-se os valores pagos sob idêntico título, o divisor 210 e os períodos de afastamento (faltas, licenças etc.), tudo conforme se apurar em liquidação.
Pretende o reclamante a reforma da r. sentença em relação ao intervalo interjornadas.
Como acima decidido em relação às horas extras, restou evidente a inobservância ao intervalo interjornadas mínimo de 11 horas. Portanto, restou comprovado que não era observado o intervalo entre as jornadas, o que dá ensejo ao pagamento do aludido tempo como horas extraordinárias, conforme o entendimento do TST revelado na Orientação Jurisprudencial 355 da SDI-I, in verbis:
"INTERVALO INTERJORNADAS. INOBSERVÂNCIA HORAS EXTRAS. PERÍODO PAGO COMO SOBREJORNADA. ART. 66 DA CLT. APLICAÇÃO ANALOGICA DO § 4º DO ARTIGO 71 DA CLT O desrespeito ao intervalo mínimo interjornadas previsto no art. 66 da CLT acarreta, por analogia, os mesmos efeitos previstos no § 4º do artigo 71, da CLT e na Súmula nº 110 do TST, devendo-se pagar a integralidade das horas que foram subtraídas do intervalo, crescidas do respectivo adicional."
Destaco que o fundamento fático para o reconhecimento das horas extras não altera sua natureza, devendo prevalecer os adicionais estabelecidos na norma coletiva em qualquer caso.
Nesse contexto, impõe-se a reforma da sentença para acolher o pedido e acrescer à condenação o pagamento integral do intervalo interjornadas como horas extras, acrescido dos adicionais de 50% para as duas primeiras horas e de 100% para as demais, assim como seus reflexos em repouso semanal remunerado e de ambos em férias acrescidas de um terço, décimos terceiros salários e FGTS, devendo ser o valor depositado na conta vinculada do reclamante.
Pretende o reclamante ver deferido o pagamento de horas extras decorrentes da supressão do intervalo.
legitimidade do fracionamento da pausa alimentar previsto em norma coletiva, mormente considerando a novel redação do artigo 71, § 5º da CLT, introduzida pela Lei 13.103/2015, desde que seja rigorosamente observada a jornada de trabalho definida em instrumento coletivo, sem qualquer prorrogação.
Ocorre que, no caso em tela, como já analisado, havia transbordamento habitual do módulo de sete horas.
Portanto, são devidas ao trabalhador as horas extras referentes à pausa para descanso e alimentação, a teor do entendimento consolidado na Orientação Jurisprudencial 342, inciso II da SDI-I do C. TST, in verbis:
"342. INTERVALO INTRAJORNADA PARA REPOUSO E ALIMENTAÇÃO. NÃO CONCESSÃO OU REDUÇÃO. PREVISÃO EM NORMA COLETIVA. INVALIDADE. EXCEÇÃO AOS CONDUTORES DE VEÍCULOS RODOVIÁRIOS, EMPREGADOS EM EMPRESAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO (cancelada. Convertido o item I no item II da Súmula nº 437) - Res. 186/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012
II - Ante a natureza do serviço e em virtude das condições especiais de trabalho a que são submetidos estritamente os condutores e cobradores de veículos rodoviários, empregados em empresas de transporte público coletivo urbano, é válida cláusula de acordo ou convenção coletiva de trabalho contemplando a redução do intervalo intrajornada, desde que garantida a redução da jornada para, no mínimo, sete horas diárias ou quarenta e duas semanais, não prorrogada, mantida a mesma remuneração e concedidos intervalos para descanso menores e fracionados ao final de cada viagem, não descontados da jornada".
Não há que se falar em superação do mencionado entendimento jurisprudencial ante a edição da Lei 12.619/2012, que introduziu o artigo 71, § 5º da CLT, ou da Lei 13.103/2015, que o alterou, visto que os citados dispositivos legais apenas vieram consagrar a jurisprudência já dominante sobre o tema, inexistindo incompatibilidade entre as referidas leis e o precedente.
E tal supressão, ainda que parcial, importa a quitação total do período correspondente, com acréscimo de, no mínimo, 50%. É esse o entendimento consubstanciado no item I da Súmula 437 do TST.
Pelo exposto, impõe-se a reforma do julgado, com a consequente condenação ao pagamento de uma hora por dia referente ao intervalo intrajornada não usufruído, observando-se o adicional de 50%. Ante a habitualidade com que prestadas as horas extras, são devidos seus reflexos em repouso semanal remunerado e de ambos em décimo terceiro salário, férias acrescidas de 1/3 e no FGTS, devendo ser o valor depositado na conta vinculada do reclamante.
DESCONTOS INDEVIDOS. FALTAS. REFLEXOS NO FGTS E DIFERENÇAS DE FÉRIAS.
O reclamante pretende a reforma da sentença em relação aos descontos pelos dias de falta. Afirma que não houve impugnação específica sobre esse tema na contestação. Alega que a reclamada não mantinha controle de frequência fidedigno. Sustenta que a relação de faltas apresentada é unilateral e não contém sua assinatura. Assevera que a parcela se reveste de natureza salarial, devendo repercutir no FGTS.
O relatório de frequência apresentado pela reclamada (Id 6cf3573) não traz a assinatura do reclamante, razão pela qual não serve como prova das faltas alegadas.
Assim, forçoso reconhecer que a reclamada não demonstrou as faltas descontadas do reclamante.
Assim sendo, merece reforma a sentença apenas quanto aos descontos feitos sob a rubrica "faltas", devendo a reclamada ressarcir-lhe os valores descontados ao título de "faltas".
Constatado que os depósitos do FGTS e as férias sofreram redução em decorrência de tais descontos, devidas as diferenças postuladas, devendo aquela referente ao FGTS ser depositada na conta vinculada do reclamante.
Indevida a repercussão na indenização de 40%.
DESCONTOS INDEVIDOS A TÍTULO DE "VALE"
O reclamante insurge-se contra a sentença em relação à devolução dos descontos efetuados a título de "vale". Sustenta a ilegalidade dos descontos. Afirma que não há prova de sua autorização. Assevera que a reclamada não se desincumbiu do ônus da prova do alegado fato extintivo/modificativo.
O reclamante afirmou, na inicial, que a reclamada descontou indevidamente de seus salários valores a título de "vale", sem que tenha autorizado os referidos descontos ou feito uso da referida importância.
A reclamada, em sua contestação, alegou que os descontos de "vales" efetuados nos contracheques referem-se a adiantamentos de salários concedidos ao reclamante ou valores por ele solicitados. Aduziu que os descontos a título de valessão procedidos quando do pagamento dos salários. Asseverou que, quando da celebração do contrato individual de trabalho, restou acordado que os prejuízos e danos causados pelo empregado seriam por ele ressarcidos, nos termos do artigo 462 da CLT.
ou na ocorrência de dolo do empregado.
No caso sob exame, restaram incontroversos os descontos cuja devolução foi postulada pelo reclamante.
Ocorre que, ainda que prevista no contrato de trabalho a possibilidade de descontos, é certo que deveria a reclamada fazer prova de culpa ou dolo do empregado e do respectivo dano material para sua validade.
Contudo, desse ônus não se desincumbiu, razão pela qual a cláusula contratual invocada não lhe socorre no particular.
De outro lado, os documentos apresentados pela reclamada não registram as datas em que o reclamante lhe teria solicitado algum valor.
Assim, merece reforma o decidido.
Dou provimento para determinar a devolução dos valores descontados a título de "vale".
No que diz respeito aos feriados trabalhados, temos que, nos termos do artigo 9º da Lei 605/49:
"Nas atividades em que não for possível, em virtude das exigências técnicas das empresas, a suspensão do trabalho, nos dias feriados civis e religiosos, a remuneração será paga em dobro, salvo se o empregador determinar outro dia de folga."
No caso em tela, a reclamada não juntou controle de jornada e as guias ministeriais não são meio de prova da concessão de folgas, como já foi exposto acima. Era ônus da reclamada provar que concedeu folgas compensatórias ao reclamante.
Portanto, assiste razão ao reclamante.
Dessa forma, deverão ser apurados, em liquidação de sentença, os feriados trabalhados que não foram pagos, com o acréscimo de 100% sobre o valor da hora normal, a fim de se conceder à recorrente o correto valor pelo trabalho naqueles dias, ou seja, é devido ao recorrente o valor de um dia normal de trabalho para cada feriado trabalhado que não foi pago em dobro.
Por serem habituais, defiro os reflexos das horas extras no repouso semanal remunerado e de ambos em férias, 13º salário e FGTS, que deverá ser depositado na conta vinculada do reclamante.
ausência de banheiros e bebedouros nos pontos finais. Por esse motivo, requereu o pagamento de indenização por danos morais.
O juízo a quo rejeitou o pedido sob o fundamento de que a testemunha Jorge Rodrigues de Souza trabalhou em linha diversa daquela na qual atuou o reclamante, o que teria esvaziado questionamentos e consequentes confirmações a respeito das condições de trabalho nos pontos de parada.
A ausência de banheiro e de água potável no local de trabalho, sem dúvidas, gera prejuízo moral ao empregado, pois é inegável o constrangimento de laborar por horas sem local adequado para fazer suas necessidades fisiológicas ou hidratar seu corpo.
No caso dos autos, a reclamada não negou que os pontos estão desprovidos de banheiros, mas limitando-se a alegar que a convenção coletiva da categoria prevê que "as partes convencionam que envidarão esforços junto ao Poder Público no sentido de instalar sanitários nos Terminais Rodoviários e nos pontos de rendição", não sendo sua obrigação instalar ou construir nos terminais rodoviários banheiros destinados à utilização dos seus empregados, aduzindo que tal obrigação é do Poder Público. Acrescentou que os esforços estão sendo envidados e que estaria proibida de instalar a seu livre critério banheiros em logradouros públicos. Finalmente, sustentou que seus empregados se utilizam dos banheiros existentes no comércio próximo aos pontos, conforme contratos firmados com empresas, bares e lanchonetes.
Pois bem. Assim, restou incontroverso que não havia banheiro no local de trabalho do reclamante.
Neste particular, destaco que a reclamada não apresentou os documentos comprobatórios da localização dos sanitários ao longo de cada linha e os comércios que disponibilizam a utilização dos banheiros, bem como os contratos que alega ter celebrado para tanto.
Além disso, a testemunha indicada pelo reclamante confirmou a inexistência de banheiros.
Assim é que a instrução processual comprovou a tese autoral, o que contraria o disposto no inciso VII do artigo 200 da CLT, regulamentado pela Norma Regulamentar 24 do MTE, que estabelece regras básicas de condições sanitárias e conforto no ambiente de trabalho.
A inexistência de banheiro, sua insuficiência ou precariedade, sem dúvida, atingia a esfera íntima do reclamante, que era compelido a se utilizar de instalações sanitárias estranhas ao local de trabalho para satisfazer suas necessidades fisiológicas, merecendo reforma a decisão de primeiro grau.
Da mesma forma, é imprescindível o fornecimento de água potável ao empregado, possibilitando a sua hidratação.
Portanto, considero existente a culpa do empregador no dano sofrido pela empregada, e modifico a decisão que não reconheceu o dever de indenizar. Nesse sentido:
BANHEIRO. Poder-se-ia até aceitar a tese de que a recorrente não tem condições de instalar banheiros em área pública, na qual presta seus serviços, ao seu alvedrio. Mas, não se pode aceitar a tese de que isso a exima de oferecer as condições de higiene e paz, para que os seus empregados possam dar conta de suas necessidades fisiológicas, ainda que se valendo de banheiros de terceiros. A empregadora deverá verificar as condições dos banheiros a serem usados e velar para que se mantenham em patamares necessários de uso, ainda que o faça mediante acerto com empresas outras que os tenham. E deve observar a necessidade que estes banheiros estejam localizados de molde a permitir que seus empregados não fiquem horas sem os poder utilizar. Recurso improvido."(TRT 1ª Região, Processo nº 0001153-98.2011.5.01.0044, 7ª Turma, Publicado em 07/11/2013, Relator Desembargador Bruno Losada Albuquerque Lopes).
No que tange ao valor, tendo em vista que a indenização não visa o enriquecimento da vítima, mas uma punição do agressor (natureza punitivaeducativacompensatória) e, ainda, levando em conta o tempo de contrato ao qual à autora ficou submetida às condições desumanas constatadas, fixo a indenização em R$ 5.000,00 (cinco mil reais).
Observe-se, quanto aos juros e à correção monetária, o entendimento contido na Súmula 439 do TST.
Não vislumbro, por outro lado, dano moral em razão do não fornecimento de água potável pela reclamada.
Afirmou o reclamante, na inicial, que tendo sido contratado para prestar serviços na função de motorista, desempenhou de 01.01.2011 até a extinção do contrato de trabalho, ocorrida em 06.03.2014, também a função de cobrador. Por essa razão, pretendeu a condenação da reclamada ao pagamento de adicional por acúmulo de função.
Em contestação, a reclamada argumentou, em suma inexistir acúmulo de função, uma vez que a cobrança de passagens pelo motorista seria legítima e estaria contida nas atividades inerentes a sua função, nos termos da Classificação Brasileira de Ocupações.
Inconformado com a rejeição do pedido, recorre o reclamante, argumentando que a função de cobrança de passagens é incompatível com a de motorista.
Ab initio, cumpre observar que a norma coletiva da categoria afirma que a cobrança de passagens estaria incluída nas atribuições do motorista júnior.
não há disposição análoga.
Assim, não merece acolhida o argumento patronal de que a disposição alcançaria o reclamante, excluindo de plano a possibilidade de reconhecimento do acúmulo de função.
A interpretação que a reclamada pretende conferir ao instrumento normativo se mostra excessivamente abrangente e prejudicial ao obreiro.
Assim, tem-se que o exercício concomitante das duas atividades não configuraria acúmulo de funções apenas para os motoristas júnior, por haver previsão expressa na norma coletiva, não extensível ao cargo ocupado pelo reclamante.
Superada a questão acerca da previsão normativa que pretensamente excluiria o acúmulo de funções, passamos à análise da compatibilidade entre as funções de motorista e cobrador e seu impacto social.
Ao contrário do que pretende fazer crer a reclamada, a condução de veículo coletivo simultaneamente à cobrança de passagens expõe o empregado a situação extrema de stress, tornando ainda mais penosa a atividade do motorista.
Em situações como esta estamos diante de uma clara modificação das condições de trabalho ajustadas, da qual resulta vantagem indevida à reclamada, pois passa a usufruir do serviço do reclamante sem a contraprestação devida, afrontando o disposto no artigo 468 da CLT.
No caso dos autos, do exame da CTPS do reclamante se infere que ele foi admitido para exercer a função de motorista, sendo certo que o salário recebido em contracheque também evidencia o exercício da função de motorista profissional e não de motorista júnior.
Uma vez demonstrado nos autos que o reclamante exercia a função de motorista profissional apto a conduzir ônibus de grande porte, e não microonibus ou similares, à ele não se aplica a hipótese prevista na norma coletiva trazida aos autos com relação à possibilidade da cumulação das funções de motorista e cobrador sem aumento salarial correspondente.
Assim, resta evidente que o reclamante desempenhou atribuições excedentes àquelas previstas para o seu cargo, na medida em que a função de motorista não abarca, por óbvio, tarefas inerentes e específicas à de cobrador - como, por exemplo, a responsabilidade pelos valores recebidos dos passageiros, além da necessária prestação de contas etc.
Resta caracterizada, assim, a alteração contratual unilateral por parte da demandada.
Pedimos vênia para reproduzir trecho de brilhante voto proferido pelo Exmo. Desembargador Rogério Lucas Martins nos autos do recurso ordinário de número 0000432-60.2013.5.01.0244, que ilustra perfeitamente o posicionamento mais acertado sobre a matéria. Acerca do desempenho simultâneo das funções de cobrador e motorista, o Desembargador afirmou:
atividade produtiva, concluiremos que o empregador, com a utilização de um MOTORISTA/COBRADOR, economiza os encargos correspondentes a um trabalhador regular (cobrador), deixando de pagar salários para uma atividade necessária ao seu regular funcionamento. Se analisarmos a questão pelo prisma da função social do empreendimento capitalista, verificaremos que a utilização de um MOTORISTA/COBRADOR sonega a oferta de um posto de trabalho, aprofundando os índices de desemprego pela não absorção de uma mão de obra existente no mercado, a qual é necessária ao bom funcionamento da atividade empresarial. Se analisarmos a questão pelo prisma do trabalhador, constataremos que o MOTORISTA/COBRADOR exerce, na verdade, duas funções distintas; a qual demandaria a atuação de dois empregados; tornando a atividade principal do obreiro (DIRIGIR O VEÍCULO DURANTE UMA JORNADA DESGASTANTE) mais extenuante ainda, em razão da atenção exigida a cada parada para o processamento das tarefas inerentes à cobrança dos passageiros. Com base na explicitação supra, podemos afirmar que a remuneração praticada pela Ré para contemplar o trabalho prestado pelo MOTORISTA/COBRADOR não se coaduna com os princípios protetivos informadores do Direito do Trabalho."
É de se ressaltar, ainda, que o caso sob análise não trata de desvio, mas sim de acúmulo de funções, sequer merecendo maiores comentários o descabido argumento recursal de que não seria possível o deferimento do pedido em razão da inexistência de quadro de carreira organizado, mormente diante do fato de que há previsão em norma coletiva para o piso salarial dos ocupantes do cargo de cobrador.
Assim, tendo o reclamante se ativado nas funções de motorista profissional e cobrador infere-se que restaram alteradas as condições de trabalho ajustadas em beneficio exclusivo do empregador, o que não se admite.
Devido, portanto, o acréscimo salarial ora fixado no importe de 30% do piso salarial previsto para a função de cobrador assim como os reflexos em 13º salários, férias acrescidas de 1/3 e FGTS, que deverá ser depositado na conta vinculada do reclamante, observados os períodos de vigência das normas coletivas trazidas aos autos.
Tendo este relator adotado tese explícita sobre o thema decidendum e, considerando-se que não está o Juiz obrigado a refutar todos os argumentos sustentados pelas partes, desde que fundamente o julgado (artigos 371 e 489, II, do CPC, 832 da CLT e 93, IX da CRFB), tem-se por prequestionados os dispositivos constitucionais e legais invocados pelo recorrente, na forma da súmula 297, I, do C. TST.
negativa de prestação jurisdicional, e, no mérito, dou-lhe parcial provimento para acrescer à condenação:
- diferenças de horas extras, 30 minutos extras por dia trabalhado pelo tempo que ficou a disposição da reclamada até iniciar a sua primeira viagem e 40 minutos para deslocamento e prestação de contas, acrescidas dos percentuais de 50% para as duas primeiras e de 100% para as demais, conforme convenção coletiva, sobre o valor da hora normal;
- adicional noturno, acrescido de 20%;
- uma hora por dia referente ao intervalo intrajornada não usufruído, observando-se o adicional de 50%;
- intervalo interjornadas acrescido dos adicionais de 50% para as duas primeiras horas e de 100% para as demais
- horas extras relativas aos feriados trabalhados que não foram pagos, com o acréscimo de 100% sobre o valor da hora normal;
- reflexos do adicional noturno e de todas as horas extras no repouso semanal remunerado e de ambos nas férias, nas gratificações natalinas e nos depósitos do FGTS, devendo ser o valor depositado na conta vinculada do reclamante.
- devolução dos valores descontados a título de faltas e vales;
- diferenças de férias e FGTS decorrentes da devolução dos descontos a título de faltas (devendo a diferença do FGTS ser depositada na conta vinculada do reclamante);
- indenização por dano moral, ora fixada em R$ 5.000,00 (cinco mil reais), devendo ser observada, quanto aos juros e à correção monetária, o entendimento contido na Súmula 439 do TST;
- acréscimo salarial ora fixado no importe de 30% do piso salarial previsto para a função de cobrador assim como os reflexos em 13º salários, férias acrescidas de 1/3 e FGTS, que deverá ser depositado na conta vinculada do reclamante, observados os períodos de vigência das normas coletivas trazidas aos autos.
Fixa-se novo valor à condenação em R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), com custas de R$ 1.000,00 (mil reais) pela reclamada.
ACORDAM os Desembargadores da 7ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, por unanimidade, conhecer do recurso, rejeitar a preliminar de nulidade por negativa de prestação jurisdicional, e, no mérito, por maioria, vencido o Desembargador Theocrito Borges dos Santos Filho, dar-lhe parcial provimento para acrescer à condenação: diferenças de horas extras, 30 minutos extras por dia trabalhado pelo tempo que ficou a disposição da reclamada até iniciar a sua primeira viagem e 40 minutos para deslocamento e prestação de contas, acrescidas dos percentuais de 50% para as duas primeiras
e de 100% para as demais, conforme convenção coletiva, sobre o valor da hora normal; adicional noturno, acrescido de 20%; uma hora por dia referente ao intervalo intrajornada não usufruído, observando-se o adicional de 50%; intervalo interjornadas acrescido dos adicionais de 50% para as duas primeiras horas e de 100% para as demais horas extras relativas aos feriados trabalhados que não foram pagos, com o acréscimo de 100% sobre o valor da hora normal; reflexos do adicional noturno e de todas as horas extras no repouso semanal remunerado e de ambos nas férias, nas gratificações natalinas e nos depósitos do FGTS, devendo ser o valor depositado na conta vinculada do reclamante; devolução dos valores descontados a título de faltas e vales; diferenças de férias e FGTS decorrentes da devolução dos descontos a título de faltas (devendo a diferença do FGTS ser depositada na conta vinculada do reclamante); indenização por dano moral, ora fixada em R$ 5.000,00 (cinco mil reais), devendo ser observada, quanto aos juros e à correção monetária, o entendimento contido na Súmula 439 do TST; acréscimo salarial ora fixado no importe de 30% do piso salarial previsto para a função de cobrador assim como os reflexos em 13º salários, férias acrescidas de 1/3 e FGTS, que deverá ser depositado na conta vinculada do reclamante, observados os períodos de vigência das normas coletivas trazidas aos autos, nos termos da fundamentação do voto do Exmo. Desembargador Relator. Fixa-se novo valor à condenação em R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), com custas de R$ 1.000,00 (mil reais) pela reclamada.
Rio de Janeiro, 10 de maio de 2017.
Desembargador José Luis Campos Xavier
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References: artigo 1
 artigo 769
 artigo 482
 ARTIGO 71
 artigo 71
 artigo 71
 artigo 71
 artigo 462
 artigo 9
 artigo 200
 artigo 468