Source: http://www.rpso.pt/impacto-do-trabalho-turnos-no-stresse-ocupacional-dos-enfermeiros-revisao-integrativa-da-literatura/
Timestamp: 2019-11-17 14:33:01+00:00

Document:
Impacto do trabalho por Turnos no Stresse Ocupacional dos Enfermeiros- Revisão Integrativa da Literatura - RPSO - Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional
9 Setembro, 2018 Revisões Bibliográficas Sistemáticas
THE IMPACT OF SHIFT WORK IN OCUPACIONAL STRESS OF NURSES – INTEGRATIVE REVIEW
Autores: Margalho C(1), Santos D(2), Tinoco N(3), Gomes J(4).
Com este trabalho pretendemos analisar o impacto do trabalho por turnos no stresse ocupacional dos enfermeiros, através de uma revisão integrativa da literatura, utilizando a metodologia PI[C]OD. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, baseámo-nos em quatro artigos.
Resultados/ Conteúdo
Os artigos analisados estudaram diferentes variáveis do stresse ocupacional, através de diversos modelos/ questionários. Os mesmos artigos descrevem um maior nível de stresse ocupacional nos enfermeiros a trabalhar por turnos rotativos quando comparado com os que têm um horário fixo. Os enfermeiros que trabalham por turnos rotativos, têm maior dificuldade em lidar com os fatores geradores de stresse, têm maior risco de comprometimento excessivo com o trabalho e um desequilibro esforço/ recompensa. As alterações no seu padrão sono-vigília, por interferência no ciclo circadiano, têm repercussões físicas e no seu desempenho laboral.
Apesar de não ser possível terminar com o trabalho por turnos em Enfermagem, verificámos que através de um planeamento organizacional adequado, com implementação de medidas especificas, é possível diminuir o stresse ocupacional dos enfermeiros a trabalhar por turnos.
Assim existe uma necessidade de maior investigação, nomeadamente na população Portuguesa, para que seja possível elaborar normas de orientação/ legislação para guiar a elaboração dos horários por turnos dos enfermeiros Portugueses, de forma a diminuir o stresse ocupacional e proporcionar melhores níveis de saúde, menor absentismo ao trabalho, menores custos em saúde e melhor prestação de cuidados com maior segurança para o doente.
Palavras-chave: Enfermeiros, Stresse ocupacional, Trabalho por turnos, Saúde Ocupacional.
Occupational stress, due to its importance and magnitude, is considered a true public health problem. Nursing was classified by Healthy Education Authority as the fourth most stressful occupation in public health.
Our study is focused on the impact of shift work in occupational stress on nurses, through an integrative review of the literature, using the PI[C]OD methodology. After applying the inclusion and exclusion criteria, we were based on four articles.
The articles analysed have studied different variables through different models/questionnaires. The articles mentioned a higher level of occupational stress in nurses working rotating shifts when compared with those who have a fixed schedule. Nurses who work rotating shifts, have a greater difficulty in dealing with stress factors, have a higher overcommitment with work and an effort/reward imbalance. Changes in their sleep-wake pattern, due to the interference in the circadian cycle, have not only physical consequences but also in their work performance.
Although it is not possible to finish with shift work in nursing, we have verified that through adequate organizational planning of schedules and with the implementation of specific measures it is possible to decrease the occupational stress of nurses working in shifts.
Thus, there is a need for more research, particularly in the Portuguese population, so that it is possible to develop guidelines/legislation to guide the preparation of shift schedules for Portuguese Nurses, to reduce occupational stress and provide better health levels, less working absenteeism, lower costs in health and better patient care.
Keywords: Nurses, Occupational stress, Shift work.
Ao longo das últimas décadas têm ocorrido mudanças no mundo do trabalho, devido ao incremento de novas tecnologias, à alteração de modelos de gestão, à crise económica e, consequentemente, ao aumento do desemprego, o que resultou em riscos emergentes e em novos desafios no campo da saúde ocupacional, entre eles, os riscos psicossociais, com consequências nefastas para a saúde física e mental dos trabalhadores (1).
Os riscos psicossociais estão intimamente ligados ao stresse ocupacional, reconhecido como uma das causas de doenças profissionais (2).
O ser humano vivencia uma situação de stresse quando percebe a existência de um desequilíbrio entre as solicitações e os recursos que dispõe para responder. Deste modo, o stresse é visto como uma resposta psicológica, ou seja, é uma dificuldade ou incapacidade em lidar com uma determinada situação, muitas vezes vista como um confronto não solucionável. Esta incapacidade de encontrar resposta ou solução pode repercutir-se também na saúde física (3).
Este, ocorre quando a situação vivida é encarada como uma incapacidade do indivíduo em responder aos requisitos que lhe são impostos. Como tal, inicia-se com a consciencialização da falta de controlo da situação (4).
Na origem do stresse podem estar problemas ligados a relações interpessoais, violência psicológica ou física, conflitos entre o papel no trabalho e fora dele, excesso de trabalho, entre outros. Esta multiplicidade de fatores é determinada pela pessoa e pela forma como esta encara uma determinada situação.
No mundo do trabalho, o stresse profissional também designado por “stresse ocupacional” ou “stresse relacionado com o trabalho” traduz um desnivelamento entre as exigências e as capacidades em exercer um determinado trabalho (5).
Muitos têm sido os estudos elaborados sobre o stresse que apontam como causas mais frequentes a insegurança de emprego, o aumento de horário, a carga excessiva de trabalho e o assédio-intimidação. No inquérito ESENER (Inquérito Europeu às empresas sobre Riscos Novos e Emergentes) oito em cada dez dirigentes europeus referiram o stresse como fonte de preocupação nas organizações (6).
A enfermagem foi classificada pela Health Education Authority (Autoridade de Educação em Saúde) como a quarta profissão mais stressante no setor público (7). Num estudo realizado com enfermeiros portugueses encontraram-se elevados níveis de burnout (este é considerado uma resposta de um stresse crónico que afeta o desempenho do trabalhador, o relacionamento interpessoal, a produtividade, bem como a qualidade de vida do indivíduo e da organização), sobretudo na dimensão exaustão emocional com 27% e no cinismo/ despersonalização com 16% (8).
Assim, o stresse afeta a saúde e a segurança das pessoas, mas também a saúde das organizações e, consequentemente, da economia.
Tendo por base estas premissas propomos, neste trabalho, fazer uma análise e discussão do conhecimento científico produzido na área do stresse ocupacional relacionado com os enfermeiros que trabalham por turnos.
Uma das mais frequentes complicações resultantes do trabalho por turnos é o distúrbio do ritmo circadiano, que pode levar a fadiga, problemas de sono (como insónia, diminuição do tempo total de sono ou sono não reparador), desorientação, irritabilidade, perturbações gastrointestinais (pelo facto das refeições serem feitas fora dos horários normais) e redução do desempenho. Além das complicações fisiológicas também existem consequências na vida social e familiar, uma vez que as relações e estruturas familiares podem sofrer alterações pela diminuição do tempo de qualidade juntos e terem de conciliar momentos de lazer e tarefas domésticas com a reposição de sono reparador (9).
Após uma síntese do estado atual do conhecimento sobre esta temática e de serem apresentados alguns resultados mais evidentes, será apresentada a metodologia utilizada para a realização deste trabalho, através da questão de investigação, dos critérios de inclusão e exclusão e dos recursos utilizados na pesquisa.
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura que “tem a finalidade de reunir e sintetizar resultados de pesquisas sobre um delimitado tema ou questão, de maneira sistemática e ordenada, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento do tema investigado. Este método de pesquisa permite a síntese de múltiplos estudos publicados e possibilita conclusões gerais a respeito de uma particular área de estudo.” (10).
Para a construção da questão de investigação e definição dos critérios de inclusão e exclusão utilizou-se o método PI[C]OD. Este afirma que a sigla resume, através das suas iniciais, os aspetos fundamentais que devem ser incluídos na formulação da questão de investigação e que permitem definir os critérios de inclusão e exclusão. Desta forma: “P” corresponde a: Participantes – Quem foi estudado?; “I”: Intervenções – O que foi feito?; “C”: Comparações, entre parênteses pois podem ou não existir; “O”: Outcomes – Resultados, efeitos ou consequências das intervenções, isto é, variáveis estudadas e “D”: Desenho do estudo (11).
O presente trabalho, teve como base a seguinte questão de investigação: “Qual o impacto do Trabalho por Turnos no Stresse Ocupacional dos Enfermeiros?”- por favor consultar a Tabela 1.
Os critérios de inclusão e exclusão estão registados na Tabela 2.
Utilizámos os descritores em saúde Stress Ocupacional, Trabalho por Turnos e Enferm* e as respetivas traduções em Inglês: Occupational Stress, Shift Work e Nurs*. Associados ao operador booleano Stress Ocupacional AND Trabalho por Turnos AND Enferm*, e a respetiva tradução em Inglês: Occupational Stress AND Shift Work AND Nurs*.
Em seguida, apresentamos resumidamente as pesquisas realizadas (S0, S1):
S0: No dia 18 de Maio de 2018 realizámos uma pesquisa na base de dados B-on com os descritores: Stress Ocupacional, Trabalho por Turnos e Enferm*. Através desta pesquisa, encontrámos dez artigos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão restou apenas um artigo. Após a leitura do mesmo, este foi selecionado para análise.
S1: No dia 9 de Junho de 2018 realizámos uma pesquisa na base de dados B-on com os descritores: Occupational Stress AND Shift Work AND Nurs*, da qual surgiram 165 artigos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e de exclusão ficaram 17. Após a leitura dos títulos selecionámos apenas dois para leitura dos abstracts. Após a leitura dos dois artigos foram ambos selecionados para análise.
S2: No dia 23 de Junho de 2018 realizámos uma pesquisa na EBSCOhost, na qual selecionámos como bases de dados a MEDLINE with Full Text, a CINAHL Plus with Full Text e a MedicLatina com os descritores: Occupational Stress AND Shift Work AND Nurs*. Nesta pesquisa encontrámos 37 artigos, após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, ficaram 8. Após a leitura dos títulos e abstracts, apenas um foi selecionado para análise.
O fluxograma representativo do processo de constituição da amostra pode ser consultado no final.
“Os resultados provêm dos factos observados no decurso da colheita dos dados”, sendo analisados e apresentados de modo a fornecer uma ligação lógica com o problema de investigação proposto. A apresentação dos mesmos consiste em fornecer todos os resultados pertinentes relativos à questão de investigação (12).
Os quatro artigos selecionados foram objeto de uma análise descritiva. Retiraram-se os dados do seu texto integral e foram transferidos para uma tabela elaborada para o efeito, com as referências fundamentais para caraterizar as investigações que lhe deram origem, tendo como guia fundamental os objetivos desta revisão. Tal procedimento está retratado nas Tabelas 4 a 7, para os artigos 1 a 4, respetivamente.
O stresse surge quando as exigências superam os recursos. Um nível moderado de stresse ou “eustress” é motivador, eventualmente normal e necessário. Se o stresse é intenso, contínuo e repetido, torna-se um fenómeno negativo ou “distress”, que pode levar a doenças físicas e transtornos psicológicos (17).
Sendo o stresse ocupacional uma condição subjetiva e qualitativa, os quatro artigos analisados estudaram diferentes caraterísticas/ variáveis, através de diferentes modelos e/ ou questionários, de forma a relacioná-lo com o trabalho por turnos, o que demonstra que não existe uma forma consensual para avaliar o stresse ocupacional. No entanto, em todos os artigos analisados, está descrito um maior nível de stresse ocupacional nos Enfermeiros a trabalhar por turnos rotativos.
No artigo 1, os testes univariados apontam valores significativos em cinco fatores de stresse, sendo invariavelmente o grupo com horários de trabalho por turnos rotativos a relatar maiores dificuldades nas seguintes categorias: a) ambiente de trabalho e relações profissionais; b) excesso de trabalho e envolvimento profissional; c) instabilidade profissional e na carreira; d) remuneração auferida e status socioprofissional; bem como e) falta de reconhecimento e poder.
Segundo o artigo 3, os enfermeiros que trabalham por turnos rotativos têm quatro vezes maior probabilidade de sofrerem de stresse ocupacional.
O artigo 4, por sua vez, utilizou o questionário ERI (effort reward imbalance), que avalia o desequilíbrio esforço/ recompensa para medir o impacto do trabalho por turnos no stresse ocupacional dos Enfermeiros. Este questionário propõe relacionar o esforço que o trabalhador realiza no seu trabalho e a recompensa que recebe através dele. O esforço divide-se em extrínseco e intrínseco. O extrínseco é o esforço que o trabalhador faz para cumprir as exigências/ tarefas no trabalho enquanto o intrínseco é o seu comprometimento com o trabalho, ou seja a motivação individual do trabalhador para cumprir a tarefa. O comprometimento excessivo com o trabalho acontece quando o trabalhador exige demais de si próprio para dar resposta às exigências que lhe foram impostas. A recompensa social consiste em dinheiro, autoestima e oportunidades de carreira para os trabalhadores. Quando há um desequilíbrio com esforço excessivo para a recompensa obtida pode resultar num estado de stresses emocional que pode levar a problemas de saúde (18). Neste artigo as Enfermeiras a trabalhar por turnos rotativos tiveram piores resultados significativos no questionário demonstrando um comprometimento excessivo com o trabalho e um desequilíbrio esforço/recompensa.
A exigência do trabalho em contexto clínico está associada a altos níveis de stresse e fadiga entre os Enfermeiros (19).
Durante os turnos noturnos e turnos prolongados, o estado de alerta dos enfermeiros altera-se e isto pode dever-se a perturbações no ciclo circadiano, fadiga e uma deterioração do estado geral de saúde (20).
Os seres humanos são, na sua génese, criaturas diurnas, geralmente trabalham durante o dia e dormem à noite. No entanto o trabalho por turnos rotativos obriga a trabalhar em diferentes momentos do dia. Os trabalhadores por turnos precisam de estar alerta e continuar a laborar durante o pico circadiano de sono, resultando na dessincronização do seu relógio biológico (21). Esta dessincronização pode levar à alteração do padrão sono-vigília que pode ser o responsável por uma perda considerável de horas de sono durante os turnos da noite sucessivos. Segundo o artigo 2, nenhuma das Enfermeiras referiu ter tido a quantidade de sono suficiente, assim como mais de 50% refere que dorme mal, mais de 70% afirma que o sono não é reparador e mais de 58% refere ter dificuldade em adormecer entre os turnos da noite consecutivos. Para além disto o número de horas de sono foi significativamente menor durante os turnos da noite consecutivos, comparativamente com os turnos da manhã e tarde.
A autoperceção de stresse e a fadiga são muito comuns nos enfermeiros em ambiente hospitalar a trabalhar por turnos rotativos, particularmente nos turnos noturnos (22). No artigo 2 os vários testes de desempenho realizados pelas Enfermeiras obtiveram resultados piores no turno da noite e melhores no da tarde.
É provável que a privação de sono seja responsável pelo decréscimo dos níveis de desempenho dos Enfermeiros, em função dos declínios na memória a curto prazo, memória de trabalho, processamento de informação e aprendizagem (23). Estes fatores também poderão influenciar negativamente a segurança do utente. O desempenho dos enfermeiros está diretamente relacionado com a qualidade e segurança dos cuidados de saúde que prestam (24).
A capacidade de aprender novas informações – como ouvir informações de utentes do enfermeiro do turno anterior – é provável que diminua como resultado da privação de sono, e as competências de comunicação também são afetadas negativamente (25, 26). Assim, durante a comunicação, um enfermeiro pode dizer a palavra errada por engano ou interpretar incorretamente as declarações dos outros. Além disso, durante uma emergência, quando é necessário “pensar fora da caixa”, os enfermeiros privados de sono muitas vezes deixam de reconhecer alternativas melhores, mesmo quando são óbvias (27).
O prolongamento do horário de trabalho (horas extraordinárias) está associado a um elevado nível de stresse ocupacional, que pode resultar em fadiga, devido ao tempo limitado disponível para descanso.
A fadiga é um fenómeno complexo e um sintoma universal. Na área da saúde, a fadiga dos profissionais de saúde não afeta única e negativamente a sua saúde como ameaça a segurança do doente e qualidade dos cuidados de saúde que lhes são prestados (28).
Segundo o artigo 4 as Enfermeiras que trabalharam horas extra, pelo menos três vezes por semana, nos últimos dois meses, tendem a ter maior risco de comprometimento excessivo com o trabalho e um desequilíbrio esforço/ recompensa. Também no artigo 3 o excesso de trabalho foi identificado como uma das fontes de stresse mais frequentes.
Como vimos até agora o trabalho por turnos está associado a níveis elevados de stresse ocupacional. No entanto no artigo 4 demonstrou-se que ao proporcionar aos Enfermeiros, a trabalhar por tunos, dois dias de folga consecutivos a seguir ao último turno da noite, evitar períodos de trabalho de sete ou mais dias consecutivos e incluir os Enfermeiros na elaboração do seu horário de trabalho, pode diminuir o stresse ocupacional. Assim, apesar, de não ser possível terminar com o trabalho por turnos em Enfermagem, através de um planeamento adequado dos horários de trabalho é possível diminuir o stresse ocupacional.
Quando as exigências sobre os trabalhadores são adequadas em relação às suas capacidades e recursos, tendo controlo sobre o trabalho que desenvolvem, podemos considerar que há um trabalho saudável. Assim, a gestão do stresse ocupacional é dos maiores desafios da atualidade na área da saúde ocupacional, quer pelo impacto negativo ao nível da saúde dos trabalhadores e despesa pública em saúde, quer pelas suas consequências diretas e indiretas ao nível da dinâmica das organizações e das economias de mercado.
Consideramos atingidos os objetivos inicialmente definidos e propostos, pois conseguimos encontrar evidência científica que comprova que, e respondendo à questão de investigação, o trabalho por turnos tem impacto no stresse ocupacional dos enfermeiros. Segundo os artigos analisados, o trabalho por turnos teve impacto nas seguintes dimensões:
Maior dificuldade em lidar com os fatores geradores de stresse
Alteração do padrão sono-vigília (repercussões físicas e do desempenho)
Maior probabilidade de sofrerem stresse ocupacional quando comparado com os enfermeiros que têm horário fixo
Maior risco de comprometimento com o trabalho e um desequilíbrio esforço/recompensa
Dos quatro artigos analisados apenas um era de origem nacional, pelo que sentimos que a realidade portuguesa precisa ainda de ser alvo de mais estudos relativamente a esta temática.
Ao explorar os artigos em estudo foram identificados outros fatores que influenciam o stresse ocupacional nos enfermeiros para além do trabalho por turnos, no entanto, e por não serem objeto do nosso estudo não foram alvo da nossa atenção, embora devam ser ponderados aquando de uma avaliação mais global dos fatores de risco de stresse ocupacional dos enfermeiros.
Apesar dos artigos em estudo apontarem para um aumento do stresse ocupacional nos enfermeiros a trabalhar por turnos, devemos ter em consideração que a população em estudo é reduzida, os estudos foram realizados em diferentes países (estando subjacente a diversidade do tipo de cuidados prestados pelos enfermeiros assim como questões culturais e relacionadas com o trabalho), as caraterísticas dos turnos analisados são diferentes (no número de horas de trabalho, rotatividade e horas de entrada e saída) tal como os modelos de avaliação de stresse ocupacional utilizados.
Assim existe uma necessidade de maior investigação, nomeadamente na população Portuguesa, para que seja possível elaborar normas de orientação/legislação para guiar a elaboração dos horários por turnos dos Enfermeiros Portugueses, diminuindo assim o stresse ocupacional e proporcionando melhores níveis de saúde, menor absentismo ao trabalho e menores custos em saúde.
EU-OSHA. Previsão de especialistas sobre riscos psicossociais emergentes relacionados com segurança e saúde no trabalho. [acesso 2 de junho de 2018]. Disponível em: http://dnpst.eu/uploads/factsheets/Factsheet_74_-_Previsao_dos_peritos_sobre_os_riscos_psicossociais_emergentes_relacionados_com_a_seguranca_e_saude_no_trabalho_-SST.pdf.
Silva S e Marques P. International Congress on Safety and Labour Market. Pessoal não docente: identificação de fatores de risco psicossociais no desempenho laboral. 2013. [acesso 4 de junho de 2018]. Disponível em: http://recil.grupolusofona.pt/bitstream/handle/10437/3571/Pessoal%20n%C3%A3o%20docente_identifica%C3%A7%C3%A3o%20de%20fatores%20de%20risco_ICSLM_P011_2013.pdf?sequence=1.
EU-OSHA. OSH in figures: Stress at work – facts and figures. 2009; 14-17.
Freitas M. Ansiedade nas avaliações escolares: uma abordagem psicoterapêutica sob estados modificados de consciência num grupo de alunos universitários [Tese de Doutoramento]. 2009; 48.
Leite S e Uva A. Stress e Imunidade (relacionado com o trabalho). Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho, Cadernos Avulso 6. 2010; 29-37.
EU-OSHA. Guia eletrónico para a gestão do stresse e dos riscos psicossociais. 2014. [acesso 2 de junho de 2018]. Disponível em: https://osha.europa.eu/pt/tools-and-publications/e-guide-managing-stress-and-psychosocial-risks
Murofuse N, Abranches S, Napoleão A. Reflexões sobre estresse e burnout e a relação com a enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem. 2005 mar./abr.; 13(2): 255-261.
Queirós P (2005). Burnout no trabalho e conjugal em enfermeiros portugueses. Portugal: Formasau; 2005; 144.
Maurício P. O trabalho por turnos e suas consequências nos Trabalhadores. O caso de Técnicos de Reparação/manutenção num Centro de Finishing [Tese de Mestrado]. Setúbal: Instituto Politécnico de Setúbal; 2016; 6-12.
Mendes K, Silveira R e Galvão C. Revisão Integrativa: Método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto Contexto Enfermagem. 2008 out./dez; 17(4): 758-64.
Ramalho A. Manual para redacção de estudos e projectos de revisão sistemática: com e sem metanálise. Coimbra, Portugal: Formasau; 2005; 44.
Fortin M. Fundamentos e etapas do processo de investigação. Loures, Portugal: Lusodidacta; 2009; 471-488.
Silva M e Gomes A. Stress ocupacional em Profissionais de saúde: um estudo com médicos e enfermeiros portugueses. Estudos de Psicologia. 2009; 239-248.
Haldar P e Sahu S. Occupational stress and work efficiency of nursing staff engaged in rotating shift work. Biological Rhythm Research. 2015; 46 (4): 511-522. DOI 10.1080/09291016.2015.1021153
Zewdu S e Alemu A. Work-related stress and associated factors among nurses working in public hospitals of Addis Ababa, Ethiopia: A Cross-sectional Study. Workplace Health & Safety. 2015; 63: 326-332.
Lin P, Chen C, Pan S, Chen Y, Pan C, Huns H et al. The association between rotating shift work and increased occupational stress in nurses. Journal of Occupational Health. 2015; 57: 307-315.
Sadock J e Sadock V. Kaplan and Sadock’s synopsis of psychiatry: Behavioral sciences/clinical psychiatry. Philadelphia: Lippincott, Williams & Wilkins; 2007; 814-818.
Siegrist J. Adverse health effects of high-effort/ low-reward conditions. Journal of Occupational Health Pshychology. 1996; 1: 27−41.
Tanaka M, Hasegawa M, Muro M. Central fatigue and sympathovagal imbalance during night shift in Japanese female nurses. Biological Rhythm Research. 2014; 45: 1–16.
Lee S, Lee D, Andrews W, Baboolal R, Pendray M, Stewart SD. Higher mortality rates among inborn infants admitted to neonatal intensive care units at night. Journal of Pediatrics. 2003; 143: 592–597.
Smith R, Cullnan E, Eastman I. Shaping the light/dark pattern for circadian adaptation to night shift work. Physiology Behavior. 2008; 95: 449–456.
Callaghan P, Shiu T, Wyatt A. Factor related to stress and coping among Chinese nurses in Hong Kong. Journal of Advanced Nursing. 2000; 31: 1518–1527.
Goel N, Rao H, Durmer J, Dinges D. Neurocognitive consequences of sleep deprivation. Seminars Neurology. 2009; 29: 320–339.
Tourangeau A, Cranley L, Jeffs L. Impact of nursing on hospital patient mortality: a focused review and related policy implications. Quality & Safety in Health Care. 2006; 15:4–8.
Durmer J, Dinges D. Neurocognitive consequences of sleep deprivation. Seminars Neurology. 2005; 25: 117–129.
Pilcher J, McClelland L, Moore D, Haarmann H, Baron J, Wallsten T. Language performance under sustained work and sleep deprivation conditions. Aviation, Space, Environmental Medicine. 2007; 78: B25–B38.
Caruso C, Hitchcock E. Strategies for nurses to prevent sleep-related injuries and errors. Rehabilitation Nursing. 2010; 35: 192–197.
Gaba D, Howard S. Fatigue among clinicians and the safety of patients. The New England Journal of Medicine. 2002; 347: 1249–1255.
Tabela 1. Método PI[C]OD para formulação da questão de investigação.
P Participantes Enfermeiros a trabalhar por turnos
I Intervenções O trabalho por turnos
[C] Comparações Não se aplica
O Outcomes (resultados) O impacto do trabalho por turnos no stresse ocupacional dos Enfermeiros
D Desenho do Estudo Estudos Quantitativos e Qualitativos
Tabela 2. Critério de inclusão e exclusão
Artigos em Português ou Inglês; Estudos realizados a enfermeiros sem estarem a trabalhar por tunos;
Artigos publicados desde 2009; Estudos repetidos;
Artigos provenientes de estudos primários; Artigos com custo adicional;
Artigos referentes aos Enfermeiros a trabalhar por turnos; Qualquer tipo de artigo que não seja proveniente de um estudo primário.
Artigos em full text;
Artigos referentes ao risco psicossocial – stresse ocupacional.
Imagem 1. Fluxograma do processo de constituição da amostra
Tabela 4. Artigo 1 – Stress ocupacional em Profissionais de saúde: um estudo com médicos e enfermeiros portugueses
Ano: 2009. Maria da Conceição de Melo Silva; António Rui da Silva Gomes. Estudos de Psicologia 14(3), Setembro/Dezembro 2009, 239-248. (13)
Participantes 155 profissionais na área da saúde (107enfermeiros e 44 médicos)
Intervenções Colheita e análise de dados através dos seguintes instrumentos: questionário demográfico; Questionário de Stress nos Profissionais de Saúde (QSPS) (Gomes, Cruz, & Cabanelas, 2009; Gomes, Melo, & Cruz, 2000); Inventário de Burnout de Maslach – Prestadores de Serviços Humanos (IBM-PSH) (Maslach & Jackson, 1996). Traduzido e adaptado por Melo, Gomes e Cruz (1999); Escala de Coping Proativo (ECP) (Greenglass, Schwarzer, & Taubert, 1999). Cruz & Gomes (2007) traduziram e adaptaram esse instrumento que avalia o coping proativo; Escala de Comprometimento Organizacional (ECO) (Mowday, Steers, & Porter, 1979). Instrumento traduzido e adaptado por Gomes (2006); Escala de Satisfação e Realização (ESR) (Gomes et al., 2000).
Comparação Comparação entre oito grupos da amostra
Outcomes (Resultados) 15% de profissionais com experiências significativas de stress e 6% com problemas de exaustão emocional. As análises comparativas (MANOVA e teste t para amostras independentes) demonstraram maior tendência para problemas de stresse ocupacional nos seguintes grupos: a) mulheres (embora os homens evidenciem maior despersonalização); b) enfermeiros mais novos e com menor experiência profissional; c) solteiros; d) classe profissional dos enfermeiros; e) profissionais que exercem funções em centros de saúde; f) profissionais com situações contratuais mais instáveis; e g) profissionais que realizam trabalho por turnos rotativo; os testes univariados apontam valores significativos em cinco fatores de stresse, sendo invariavelmente o grupo com horários de trabalho por turnos rotativos a relatar maiores dificuldades nas seguintes categorias: a) ambiente de trabalho e relações profissionais; b) excesso de trabalho e envolvimento profissional; c) instabilidade profissional e na carreira; d) remuneração auferida e status socioprofissional; e e) falta de reconhecimento e poder.
Desenho do Estudo Estudo descritivo correlacional.
Tabela 5. Artigo 2 – Occupational stress and work efficiency of nursing staff engaged in rotating shift work
Ano: 2015. Prasun Haldar e Subhashis Sahu. Biological Rhythm Research, Volume 46, No. 4, 511-522 (2015). (14)
Participantes 122 enfermeiras a trabalhar por turnos rotativos
Intervenções Colheita e análise de dados através do questionário Standard Shiftwork Questionnaire, medição da temperatura oral, teste de stresse psicofisiológico, sono e testes de desempenho.
Comparação Não há comparações
Outcomes (Resultados) Temperatura oral: em comparação com os outros dois turnos, a temperatura oral era superior durante o turno noturno e também durante o dia quando tinham períodos de sono fragmentado.
Questionário Sono-fadiga: nenhuma das Enfermeiras referiu ter tido a quantidade de sono suficiente, assim como mais de 50% refere que dorme mal, mais de 70% afirma que o sono não é reparador e mais de 58% refere ter dificuldade em adormecer entre os turnos da noite consecutivos.
Autoperceção de esforço: foi significativamente superior no turno da noite, comparativamente com os turnos da manhã e tarde e significativamente superior no turno da manhã comparado com o da tarde.
Score estado de Alerta: no turno da noite o estado de alerta foi significativamente pior que na manhã e na tarde.
Duração do sono: o número de horas de sono foi significativamente menor durante os turnos da noite consecutivos, comparativamente com os turnos da manhã e tarde.
Testes de desempenho: os testes de desempenho foram piores no turno da noite e melhores no turno da tarde.
· Tempo de Reação – aumentado no fim do turno da noite e no início do turno da manhã.
· Execução de tarefas repetitivas – a maior taxa de erros nestas tarefas ocorreu no fim do turno da noite enquanto o menor número de erros ocorreu no início do turno da tarde.
· Testes de memória – os testes de memória realizados no início dos turnos foram significativamente diferentes entre os turnos da tarde e da manhã. Os testes de memória realizados no fim dos turnos foram significativamente diferentes entre os turnos da noite e, simultaneamente, os da manhã e tarde. Os resultados foram similares entre os testes da memória a curto e médio prazo.
Desenho do estudo Estudo descritivo correlacional
Tabela 6. Artigo 3 – Work-related stress and associated factors among nurses working in public hospitals of Addis Ababa, Ethiopia: A Cross-sectional Study
Ano: 2015. Salilih Selamawit Zewdu; Abajobir Amanuel Alemu. Workplace Health & Safety. March (63), 2015, 326-332. (15)
Participantes 320 enfermeiros dos hospitais públicos de Addis Abeba.
Intervenções Colheita e análise de dados através dos seguintes instrumentos: questionário sobre questões sociodemográficas, questões relacionadas com o ambiente de trabalho, abuso de substâncias, doenças, personalidade tipo A e stresse. Foi aplicada a Nursing Stress Scale (NSS).
Outcomes (Resultados) Dos 320 enfermeiros que participaram no estudo, 121 obtiveram uma pontuação de 1 ou superior na NSS (ocasionalmente stressado). A prevalência de stresse ocupacional nesta amostra é de 37,8%.
As fontes de stresse mais frequentes são o excesso de trabalho (44,4%) e problemas emocionais relacionados com a morte de um utente (40,6%). 37,2% referiram que conflitos com os superiores ou colegas gera mais stresse no local de trabalho.
As enfermeiras têm o dobro da probabilidade de sofrerem de stresse ocupacional quando comparado com os enfermeiros, enquanto que os viúvos e/ ou divorciados têm dez vezes mais probabilidade de sofrerem de stresse ocupacional quando comparado com os que são casados. Os enfermeiros que trabalham por turnos rotativos têm quatro vezes maior probabilidade de sofrerem de stresse ocupacional quando comparado com os enfermeiros que têm um horário fixo.
Quando comparado com os enfermeiros a trabalhar em serviços de psiquiatria, os enfermeiros que trabalham em serviços de medicina têm três vezes maior probabilidade de sofrerem de stresse ocupacional, os enfermeiros que trabalham em serviços de urgência têm oito vezes maior probabilidade. Os enfermeiros que trabalham nos blocos operatórios referiram menos stresse do que aqueles que trabalham em serviços de psiquiatria.
A carga excessiva de trabalho é o causador de stresse mais frequente.
Os enfermeiros do serviço de urgência são os que referem maior nível de stress devido à carga de trabalho, terem de cuidar de doentes em estado crítico e por terem pouco tempo para se apoiarem emocionalmente.
Foram encontradas associações entre o stresse ocupacional nos enfermeiros e o trabalho por turnos rotativos, o serviço onde trabalham, o género, estado civil e histórico de doenças.
Tabela 7. Artigo 4 – The association between rotating shift work and increased occupational stress in nurses
Ano: 2014. Pei-Chen Lin, Chung-Hey Chen, Shung-Mei Pan, Yao-Mei Chen, Chih-Hong Pan, Hsin-Chia Hung e Ming-Tsang Wu. J Occup Health 2015; 57: 307–315. (16)
Participantes 654 enfermeiras a trabalhar por turnos
Intervenções Colheita e análise de dados utilizando um questionário de Effort Reward Imbalance (ERI).
Comparação Comparação entre enfermeiras a trabalhar por turnos rotativos e enfermeiras a trabalhar em horário diurno/sem turnos noturnos.
Outcomes (Resultados) As enfermeiras a trabalhar por turnos rotativos, comparativamente com as de horário diurno, têm piores resultados significativos no questionário ERI, que inclui comprometimento excessivo com o trabalho e desequilíbrio esforço/ recompensa. As enfermeiras a trabalhar por turnos rotativos demonstraram um risco mais elevado de comprometimento excessivo com o trabalho. No entanto, o desequilíbrio entre o esforço/recompensa, não foi diretamente associado com o horário de trabalho. Entre as enfermeiras a trabalhar por turnos rotativos, as que tiveram dois dias de folga após o último turno da noite, demonstraram uma diminuição do risco de comprometimento excessivo com o trabalho, comparadas com aquelas que tiveram apenas um dia. No entanto as que trabalharam, pelo menos uma série de sete dias consecutivos por mês, tiveram um aumento do risco para o desequilíbrio esforço/recompensa. As enfermeiras que tiveram pouca ou nenhuma participação no planeamento do seu horário de trabalho e que trabalharam horas extra, pelo menos três vezes por semana, nos últimos dois meses, tendem a ter maior risco de comprometimento excessivo com o trabalho e um desequilíbrio esforço/ recompensa.
(1)Catarina Margalho
Enfermeira. Morada para correspondência dos leitores: Praceta Dr Ernesto Tomé, 7, 3º esquerdo, 3080-012 Figueira da Foz. E-mail: catarinamargalho95@gmail.com
(2)Daniela Santos
Enfermeira no Serviços de Medicina Intensiva no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Pós-graduada em Urgência, Emergência e Trauma; Mestre em Gestão de Unidades de Saúde. 3080-088 Figueira da Foz. E-mail: d.daniazevedo@gmail.com
(3)Nuno Tinoco
Enfermeiro. 3080-843 Figueira da Foz. E-mail: ntin93@gmail.com
(4)José Hermínio Gomes
Especialista em Enfermagem; Mestre em Saúde Pública; Especialista em Enfermagem Comunitária; Professor na Escola de Enfermagem de Coimbra. Coimbra. E-mail: hermínio@esenfc.pt
Margalho C, Santos D, Tinoco N, Gomes J. Impacto do trabalho por Turnos no Stresse Ocupacional dos Enfermeiros- Revisão Integrativa da Literatura. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2018, volume 6, 1-7. DOI: 10.31252/RPSO.09.09.2018

References: artigo 1
 artigo 3
 artigo 4
 artigo 2
 artigo 2
 artigo 4
 artigo 3
 artigo 4
 Artigo 1
 Artigo 2
 Artigo 3
 Artigo 4