Source: https://jus.com.br/artigos/41123/um-caso-de-crime-de-moeda-falsa
Timestamp: 2018-05-22 21:46:20+00:00

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Crime de moeda falsa: caso concreto envolvendo o Banco do Brasil - Jus.com.br | Jus Navigandi
I – A NOTÍCIA DA CIRCULAÇÃO DE DÓLARES FALSOS
Noticiou-se que, a partir do dia 2 de julho do corrente ano, o Banco do Brasil voltaria a realizar operações de câmbio em todo o estado de Pernambuco. A revogação da decisão da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, por meio do Procon-PE, que proibia a transação, aconteceu após uma audiência entre representantes do BB e do governo estadual, na manhã do dia 1º. De acordo com o secretário-executivo de Justiça e Direito ao Consumidor de Pernambuco, Eduardo Figueiredo, a instituição financeira se comprometeu a dar assistência material e jurídica e ressarcir todas as pessoas que compraram dólares falsos na agência central do Recife.
Fala-se, por outro lado, que a origem do problema de venda de dólares falsos pela agência do Banco do Brasil teria sido causada pela aquisição de US$ 24 mil de terceiros no dia 10 de setembro de 2014, em operações rotineiras de câmbio manual. O esclarecimento é da assessoria de imprensa da instituição.
A instituição ainda frisou que 95% das cédulas de dólares adquiridas pelo BB vêm do Banco Central Norte-Americano, mas, por segurança, estão sendo realizados procedimentos de certificação de autenticidade das cédulas em todas as tesourarias do País.
No caso do crime em discussão a competência para instruir e julgar o feito é da Justiça Federal da primeira instância, a teor do artigo 109, IV, da Constituição Federal, uma vez que se trata de delito penal praticado em detrimento de bens, serviços ou interesses da União Federal.
O caso pode despertar mais uma zona cinzenta na atuação entre o PROCON, nos Estados, e o Banco Central.
O fato traz à discussão o crime capitulado no artigo 289 do Código Penal.
Aquele que fabricar moeda rara, fora de circulação, poderá incorrer em crime de estelionato. Mas, Heleno Cláudio Fragoso (Lições de Direito Penal, volume II, pág. 299) nos ensina que a modificação do dinheiro recolhido, para reintroduzi-lo em circulação, configura a fabricação. Outra questão a se estudar diz respeito à dúvida se a conduta, consubstanciada na aposição de números e de letras de cédulas verdadeiras, no recorte e na colagem de fragmentos de papel-moeda, compondo outra, de maior valor, representaria o crime previsto no artigo 289 (alteração da moeda) ou ainda do artigo 290 (formar cédula).
O crime é de perigo, com a fabricação da moeda, independentemente de ser ela posta ou não em circulação. Se o agente desistir de forma voluntária da falsificação deverá responder pelo crime do artigo 291 (petrechos para falsificação), que tem natureza residual e subsidiária. Mas, admite-se a tentativa, pois ele pode ser verificado de forma fragmentária.
E se a falsidade for grosseira? O crime será impossível, por absoluta impropriedade do objeto (artigo 17, CP), afirma Paulo José da Costa Jr. (Comentários ao Código Penal volume III, pág. 336). Mas, pode o crime ser visto como estelionato (artigo 171), se conseguir iludir alguém, mesmo sendo grosseira a contrafação, como afirmam, de forma correta, Alberto Silva Franco e outros (Código penal e sua interpretação jurisprudencial, São Paulo, 1980, volume IV, titulo I, pág. 812, n.8). Ocorre o estelionato quando a moeda é grosseiramente falsificada, sendo insuscetível de iludir uma pessoa de diligência ordinária (RTJ 85/430; RF 148/365).
Trata-se de crime de ação múltipla, tipo misto alternativo, que deve, na enumeração apresentada, ser interpretado de forma taxativa. Seja como for, há a prática de um único crime, no fato de se adquirir a moeda falsa e introduzi-la em circulação.
Na modalidade de guardar é crime permanente, podendo comportar a forma omissiva, não deixando de ter consigo, ou em depósito, a moeda falsa, após ter realizado uma conduta comissiva, passando a ter a coisa em depósito.
IV – O CRIME PREVISTO NO ARTIGO 21 DA LEI DE CRIMES DO COLARINHO BRANCO
O crime discutido é diverso do que é capitulado no artigo 21 da Lei 7.492/86, onde se diz: “Atribuir-se, ou atribuir a terceiro, falsa identidade para realização de operação de câmbio”. A pena prevista é de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa. Pelo parágrafo único, incorre-se na mesma pena quem, para o mesmo fim, sonega informação que devia prestar ou presta informação falsa.
O crime, que é comum, apresenta duas condutas previstas na norma: atribuir-se, ou atribuir a terceiro falsa identidade.
Com relação a falsa identidade enumera-se duas espécies de sinais pessoais: a) os de identidade, que compreendem os elementos com base nos quais o sujeito vem a ser individuado com relação a outros (nome, sobrenome, local e data do nascimento); e, os de qualidade, que possam assumir forma verbal (título profissional) ou emblemática (divisas, distintivos, condecorações).
Ensinou Heleno Cláudio Fragoso (Lições de direito penal, volume II, pág. 374) que a falsa atribuição de identidade poderá fazer-se por escrito ou verbalmente, sempre importando numa ação comissiva.
Essencial à configuração do delito exposto no artigo 21 da Lei 7.492/86 que haja a indução em erro; o agente deve provocar em alguém uma falsa representação da realidade. Mas, se a ação praticada for inidônea para enganar, estar-se-á diante de um crime impossível, como previsto no artigo 17 do Código Penal.
A vantagem prevista no artigo 21 da Lei de crimes do colarinho branco poderá ser de ordem econômica ou moral.
O crime previsto no artigo 21 daquela Lei é de mera conduta e exige o dolo.
ROMANO, Rogério Tadeu. Um caso de crime de moeda falsa . Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4403, 22 jul. 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/41123>. Acesso em: 22 maio 2018.

References: artigo 109
 artigo 289
 artigo 289
 artigo 290
 artigo 291
 ARTIGO 21
 artigo 21
 artigo 21
 artigo 17
 artigo 21
 artigo 21