Source: https://www.conjur.com.br/2003-jan-09/maioridade_reflete_tambem_ambito_penal
Timestamp: 2018-09-26 02:50:07+00:00

Document:
ConJur - Nova maioridade reflete também no âmbito penal
Alguns reflexos do novo Código Civil no âmbito penal
9 de janeiro de 2003, 20h42
Por Marcus Vinicius de Viveiros Dias
Com o advento do Novo Código Civil, instituído pela Lei nº 10.406/2002, a maioridade civil foi reduzida para 18 anos - artigo 5º, igualando-se, destarte, à maioridade penal (ex vi do artigo 27 do Código Penal). Cremos que os dispositivos infra-assinalados, respectivamente do Código Penal e do Código de Ritos, devem merecer novo tratamento:
Artigo 115 do Código Penal: São reduzidos de metade os prazos de prescrição quando o criminoso era, ao tempo do crime, menor de 21 anos, ou, na data da sentença, maior de 70 anos.
Artigo 34 do Código de Processo Penal: Se o ofendido for menor de 21 e maior de 18 anos, o direito de queixa poderá ser exercido por ele ou por seu representante legal.
Artigo 52 do Código de Processo Penal:Se o querelante for menor de 21 e maior de 18 anos, o direito de perdão poderá ser exercido por ele ou por seu representante legal, mas o perdão concedido por um, havendo oposição do outro, não produzirá efeito.
Artigo 54 do Código de Processo Penal:Se o querelado for menor de 21 anos, observar-se-á, quanto à aceitação do perdão, o disposto no art. 52.
Artigo 564 do Código de Processo Penal in fine: A nulidade ocorrerá nos seguintes casos:
Não é mais aceitável que os réus menores de 21 anos tenham o prazo prescricional reduzido de metade, façam jus a uma circunstância atenuante genérica prevista no artigo 65, inciso I do Código Penal. Não é aceitável que tenham direito à nomeação de curador especial na fase pré-processual e posteriormente durante a instrução criminal.
No tocante aos artigos 34, 50, 52 e 54 do Código de Processo Penal passará a ser despicienda a figura do representante legal. Com isso, poderá ser exercido, respectivamente, o direito de queixa, para renunciar ao direito de queixa, bem como para exercer o direito de conceder o perdão do ofendido e para aceitar o perdão do ofendido em nome do querelado.
Sob a égide do antigo Código Civil as pessoas menores de 21 e maiores de 16 anos eram consideradas relativamente incapazes (artigo 6º do referido diploma). Por isso, ganharam tratamento privilegiado na órbita penal, justamente com a incidência de normas protecionistas.
Prima facie, cumpre repisar que com o novo Código Civil, o réu com 18 anos deixa de ser considerado relativamente incapaz. Ele ganha a plena capacidade civil. Ora, com a maioridade civil e penal coincidindo nos 18 anos, não há qualquer razão para distinção entre os réus maiores e os menores de 21, já que a idade que deve figurar como "fiel da balança" é a de 18 anos.
A solução da vexata quaestio, a nosso ver, seria a adoção por parte do legislador de normas penais e processuais penais que objetivassem harmonizar os dispositivos supracitados com a nova maioridade civil. Nesse diapasão os réus com 18, 19 e 20 anos teriam o mesmo tratamento dos réus maiores de 21anos, pois todos atualmente são considerados absolutamente capazes no âmbito civil.
A esperada lei processual penal teria aplicação imediata, respeitando os atos processuais praticados sob a égide da lei anterior, em conformidade com o artigo 2º do Código Adjetivo Penal. Já a lei penal restauradora seria uma lex gravior e, portanto, irretroativa, somente alcançando as infrações penais praticadas posteriormente à sua vigência.
Outras situações previstas na parte especial do Código Penal e em legislações extravagantes também devem ser adaptadas para a maioridade de 18 anos. Questão interessante são as hipóteses em que a lei penal comina causas de aumento de pena para infrações penais praticadas contra vítima menor de 21 anos, v.g. o artigo 18, inciso III, da Lei nº 6368/76.
Nessas hipóteses, a novel lei penal deverá prever o referido aumento de pena apenas para as infrações praticadas contra vítima menor de 18 (dezoito) anos e, por se tratar de lex mitior, retroagirá para beneficiar os agentes. Resta torcer para que o nosso imprevisível legislador não esqueça de harmonizar e compatibilizar o novo Código Civil com os Códigos Penal e Processual Penal, tendo por base a maioridade de 18 anos.
Revista Consultor Jurídico, 9 de janeiro de 2003, 20h42

References: artigo 5
 artigo 27

Artigo 115

Artigo 34

Artigo 52

Artigo 54

Artigo 564
in fine
 artigo 65
 artigo 2
 artigo 18