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O GERENCIAMENTO DAS ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO EM CRISES EMPRESARIAIS - PDF
O GERENCIAMENTO DAS ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO EM CRISES EMPRESARIAIS
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Maria Júlia Nobre Bastos
1 1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS E FUNDAÇÃO DOM CABRAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO MESTRADO PROFISSIONAL EM ADMINISTRAÇÃO JULIANA COSTA GONÇALVES O GERENCIAMENTO DAS ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO EM CRISES EMPRESARIAIS UM ESTUDO DE CASO EM UMA EMPRESA DE MINERAÇÃO EM MINAS GERAIS ORIENTADOR: Prof. Dr. José Márcio de Castro BELO HORIZONTE 20052 2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS E FUNDAÇÃO DOM CABRAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO MESTRADO PROFISSIONAL EM ADMINISTRAÇÃO JULIANA COSTA GONÇALVES O GERENCIAMENTO DAS ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO EM CRISES EMPRESARIAIS? UM ESTUDO DE CASO EM UMA EMPRESA DE MINERAÇÃO EM MINAS GERAIS Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Administração da Faculdade de Administração da PUCMinas, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Administração Área de concentração: Comunicação e Administração Orientador: Prof. Dr. José Márcio de Castro Co-orientadora: Profa. Dra Ana Luísa de Castro Almeida BELO HORIZONTE 20053 3 Em especial, à Márcia Melo Lima Barbosa, ao Pedro Melo Lima e ao João Lúcio Melo Lima, pela identificação às intempéries da vida, mas, sobretudo, pela dignidade e honradez com que olharam de frente. Àqueles que, em sua ausência, estarão sempre presentes.4 4 AGRADECIMENTOS A construção de um trabalho como este mais se aproxima de um monólogo em um palco de teatro. No entanto, como toda e qualquer obra-prima, jamais seria possível sem a participação imprescindível de personagens que atuam na coxia, antes, durante e depois do espetáculo. A todos eles, meu muito obrigada. Tenho muito a agradecer ao Haroldo Mota, que descortinou, na velocidade certa, este universo para mim. Ensinou-me, motivou-me, estimulou-me, encorajou-me e acreditou em mim. Entre conversas, trocas e cumplicidades, descobri a academia, interessei-me pelo giz e quadro negro e devo a ele, sobretudo, a finalização desta etapa da minha trajetória, acompanhada de instigantes provocações para o futuro. Um agradecimento especial aos meus dois orientadores Prof. Dr. José Márcio de Castro e Profª Ms Ana Luisa de Castro Almeida que, no percurso desta trajetória, se transformaram em amigos e confidentes. Na medida certa, intercalaram discussões teóricas, com metodologias de pesquisa, perguntas e respostas, conselhos, cobranças, sempre acompanhados de estímulos e motivações intelectuais. Ao querido trio Lélio Fabiano dos Santos, Gleida Naves e Aléssia Gonçalves meus mais sinceros agradecimentos, pela colaboração, apoio e, principalmente, pelo estímulo e referência. Entre tantos, deixo ainda meus agradecimentos a estas pessoas especiais que contribuíram ao longo da trajetória, na busca do tema, no apoio logístico, na discussão da forma certa, na contribuição do conteúdo ou na leitura de avaliação. São eles: Nair Costa Muls, Rogério Farinha, Mauro Lobo, Maria das Graças Silva e Juarez Cabral, Luiz Carlos Costa, José Guilherme Araújo, Ana Cristina Corrêa Costa, Adriana Muls, Edith e Plilipe Muls, Maria da Consolação, Padre Magela, Rodrigo Lima Ratton e Paulo Emílio Guimarães. As amigas companheiras: Fabíola Tasca, Françoise Jean, Malu Siqueira e Michele Arroyo. A Vera Costa Gissoni, pela afinidade e inspiração eternas.5 5 À família Rio Verde, meus mais sinceros agradecimentos pela confiança, experiências, oportunidades e descobertas. E, finalmente, a Rebeca e Sofia, companheiras permanentes, que contribuíram para a construção deste trabalho por meio da compreensão, do carinho, do apoio e da paciência.6 6 RESUMO Enfrentar uma crise empresarial com a opinião pública não é uma experiência pela qual as organizações desejam passar. No entanto, sabe-se, cada vez mais, que essa é uma possibilidade muito mais viável do que se imagina. Enquanto, no passado, crise era sinônimo de catástrofes, como acidentes aéreos, terremotos ou maremotos, como o tsumani que matou mais de 220 mil pessoas na Ásia e África, em dezembro de 2004, hoje esse conceito evolui aproximando-se das realidades empresariais. O avanço da tecnologia acelerou a capacidade de comunicação, tornando o mundo infinitamente menor. Agora, uma informação pode varrer o planeta em poucos segundos e alcançar dimensões assustadoras. Agrega-se a isso a evolução em conceitos sociais e de cidadania transformando o interesse da sociedade que, a cada dia mais, se preocupa com tudo aquilo que acontece ao seu redor. É cada vez mais tênue a fronteira entre a esfera pública e a vida privada. Escândalos e acidentes sempre existiram. Entretanto, tais mudanças ampliaram a vulnerabilidade das organizações e da própria sociedade. Esse maior interesse e a facilidade de acesso e divulgação da informação têm o poder de destruir o maior patrimônio de uma organização ou, até mesmo, um líder, sua reputação. Essas mudanças alcançadas na última década colocam em xeque a imagem, a confiança, a credibilidade empresarial construídas junto aos diversos públicos ao longo do tempo e, conseqüentemente, o desempenho financeiro de uma empresa. Por essa razão, crises empresarias e o desenvolvimento de Plano de Gerenciamento de Riscos, nos tempos de hoje, são assuntos de maior interesse, tornando-se temas para serem estudados. Essa é a proposta desta pesquisa que, calcada em um referencial teórico acerca do tema, utiliza a metodologia de estudo de caso para avaliar como que uma empresa que sofreu um grave acidente ambiental gerenciou suas estratégias de comunicação visando preservar sua imagem corporativa, reputação e credibilidade junto aos seus stakehoders. Os resultados encontrados mostram que, mesmo sem um Plano de Gerenciamento de Crise, esta empresa de mineração que viveu uma crise ambiental conseguiu desenvolver diversas estratégias e ações de comunicação destinadas aos seus principais stakeholders, conseguindo, assim, conquistar uma imagem corporativa positiva junto à uma parte de seus stakeholders. Palavras-chave: Administração de crise, plano de gerenciamento de crise, crise, comunicação em crise7 7 ABSTRACT Facing a business crisis with the public opinion is not an experience a corporation wishes to go through. However, we know this is a more possibility we can imagine. While, in the past, crisis was a synonym for catastrophes such as aerial accidents, earthquakes or seaquakes such as the tsunami that killed more than 220 thousand people in Asia and Africa on December, 2004, nowadays this concept evolved, coming close to the business realities. The advance of the technology accelerated the communication capacity, making the world infinitely smaller. Information can sweep the planet in a few seconds and reach frightening dimensions. We add to that the evolution of the social concepts and the citizenship, changing the interests of the society that worries more and more about everything that happens around it. The boundary between the public and the private is becoming more tenuous. Scandals and accidents have always existed. Nevertheless, changes of that kind increased the vulnerability of the organizations and even of the society itself. This higher interest and the facility to access and broadcast the information have the power to destroy an organization's or even a leader's greater patrimony: the reputation. Those changes, reached during the last decade, put in check the image, the trust, the business credibility built next to the different public along the time and, consequently, a company's financial performance. For that reason and nowadays, business crisis and the development of a Risk Management Plan are subjects of the greatest interest and became themes to be studied. This is the proposal of this research that, based on a theorical reference of the theme, uses a case study methodology to evaluate how a company that caused a serious environmental accident managed its communication strategies aiming to preserve its corporative image, reputation and credibility with its stakeholders. The results found show that even with no Crisis Management Plan, this small mining business which has been through an enviromental crisis has been able to develop a series of communication strategies and actions aimed at its main stakeholders, making it possible to still have a positive corporate image before some of them. Key-words: Crisis, crisis management, communication, crisis administration, crisis management plan, contingence plan8 8 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Freqüência das crises empresariais Gráfico 2 - Tendências das crises no mundo da década de Gráfico 3 - Origem das crises empresariais na década de Gráfico 4 Categoria das crises empresariais que mais cresceram no mundo 1995/ Gráfico 5 - Tendência das crises empresariais no Brasil na década de Gráfico 6 - Tendências das crises empresariais no Brasil na década de 90. Categorias de crises empresariais que mais cresceram no Brasil 1995/ Gráfico 7 - Concentração das crises empresariais no Brasil na década de Gráfico 8 - Freqüência das crises empresariais em Gráfico 9 - Origem das crises empresariais em Gráfico 10 - Crises que mais cresceram em Gráfico 11 -Cobertura da imprensa sobre crises empresariais no mundo na década de Gráfico 12 -Cobertura da imprensa sobre crises empresariais no Brasil na década de Gráfico 13- Em quem você confiaria para contar a verdade? Gráfico 14 Análise qualitativa da cobertura da imprensa escrita Período: 21/06/2001 a 5/08/ Gráfico 15 - Análise qualitativa da cobertura da imprensa escrita Período: 22/06/2001 a 23/10/9 9 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Síntese de um Plano de Gerenciamento de Crise Quadro 2 Modelo de Quadro de Análise das Percepções da Imagem pelos Stakeholders Quadro 3 Modelo de Quadro descritivo de gerenciamento da crise pela empresa Quadro 4 Relação entre os objetivos, questões da pesquisa, fontes de entrevistas e fontes de informação Quadro 5 - Descrição do gerenciamento da crise pela empresa Quadro 6 - Relação das ações de comunicação decorrentes das estratégias da empresa. 121 Quadro 7 Análise das percepções da imagem pelos stakeholders Quadro 8 - Cruzamento das avaliações de desempenho por stakekholder10 10 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Identificação dos stakeholders... 8411 11 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - As Crises de 1994 a12 12 LISTA DE SIGLAS CODAM CREA DER DNPM FEAM ICM IGAM ITM MBR PGC ROM SEMAD SGA TAC - Conselho de Política Ambiental - Conselho Regional de engenharia, Arquitetura e Agronomia - Departamento de Estradas de Rodagem de MG - Departamento Mineral de Política Mineraria - Fundação Estadual do Meio Ambiente - Institute for Crisis Management - Instituto Mineiro de Gestão das Águas - Instalação de Tratamento de Minério - Minerações Brasileiras Reunidas - Plano de Gerenciamento de Crise - Run of Mind - Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - Sistema de Gestão Ambiental - Termo de ajustamento de Conduta13 13 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Definição do problema de pesquisa Justificativa da pesquisa Objetivos da pesquisa FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Crises empresariais Perdas e ganhos em uma crise empresarial Tipos de crises empresariais Panorama mundial e brasileiro das crises empresariais Plano de Gerenciamento de Crise PGC ou Administração de Crises Quando o imprevisível ocorre: gerenciamento de crises repentinas Modelos e estratégias de comunicação A dúbia relação com a mídia A opção pela verdade Pós-crise METODOLOGIA DA PESQUISA Tipo e estratégia de pesquisa Estudo de caso Unidade empírica de análise Estratégia de coleta de dados Análise e interpretação de dados DESCRIÇÃO E ANÁLISE DE DADOS Caracterização e histórico da Rio Verde Mineração S/A O acidente Estratégias de comunicação da gestão da crise Estratégias empresariais Estratégias voltadas para funcionários Estratégias voltadas para familiares das vítimas14 Estratégias voltadas para comunidade Estratégias voltadas para órgãos públicos Estratégias voltadas para imprensa Imagem desejada pela empresa Imagem da empresa antes do acidente Imagem percebida pelos stakeholders depois do acidente Análise e interpretação dos dados CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Introdução Principais achados Outros achados Contribuições e limitações REFERÊNCIAS APÊNDICES15 15 APRESENTAÇÃO Esta pesquisa tem como objetivo geral avaliar as estratégias de comunicação adotadas por uma empresa do setor de mineração diante de uma crise ambiental tendo como propósito preservar sua imagem institucional junto aos seus principais stakeholders 1. Especificamente, o objetivo é identificar as estratégias de comunicação adotadas por esta empresa no momento de uma crise empresarial e avaliar os resultados obtidos a partir da construção: 1. Quadro descritivo do gerenciamento da crise pela empresa, trazendo uma síntese de todas as estratégias e ações de comunicação adotadas pela empresa versus imagem que a empresa deseja alcançar, 2. Quadro da análise das percepções das imagens pelos stakeholders, cruzando a imagem da empresa antes do acidente versus imagem percebida pelos stakeholders após o acidente, versus as estratégias sugeridas pelos stakeholders que faltaram. O que se percebe nos dias atuais é que enfrentar uma crise com a opinião pública, assim como a insatisfação dos clientes, acusações da imprensa, questionamentos de órgãos públicos e grupos de interesse é uma realidade para a maioria dos executivos brasileiros bastante distante. Só mesmo quando um grave acidente ocorre dentro da empresa é que o presidente e, até mesmo, a equipe técnica do departamento de comunicação, buscam gerenciar seus diferentes públicos na tentativa de amenizar os prejuízos decorrentes. Este trabalho tem relevância para as áreas de administração e comunicação organizacional, principalmente pela escassez de bibliografia brasileira sobre o assunto. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o tema de gerenciamento de crise é amplamente discutido no cenário empresarial, no Brasil, ainda é um tema emergente. O referencial teórico desenvolvido neste estudo traz uma compilação dos principais autores americanos, como Irvine (1996), Gaschen (2003), Kozacik (2003), Sussking e Field (1997) e Wakefield (1999) e outros autores brasileiros que já se aventuraram por essa seara, como Neves (2002), Melo (2004) e Rosa (2003). Além disso, o trabalho servirá de referencial para futuros estudos e, principalmente, para os profissionais da área da comunicação que desconhecem o conceito de gerencia- 1 A definição adotada neste projeto é a de Freeman (1984) que conceitua stakeholders como indivíduos e grupos que podem afetar ou serem afetados pelas organizações por meio de suas realizações.16 16 mento de crise. Para os executivos das áreas administrativas, esta pesquisa se presta ao papel de alerta para mostrar a importância do tema para a realidade empresarial, trazendo o tema crise para bem perto do dia-a-dia das organizações. Esta pesquisa consta de cinco partes. No Capítulo 1, são apresentados a introdução, o problema da pesquisa, os objetivos e as justificativas para a realização deste estudo. Em seguida, no Capítulo 2, está a fundamentação teórica que se espera sustentar o estudo desenvolvido. Inicialmente, no 2.1, são apresentadas definições para o tema crise a partir de diferentes autores. No item 2.1.1, os prejuízos acarretados para as empresas que vivenciam a experiência de uma crise empresarial e, no 2.1.2, os tipos de crises empresariais. No 2.1.3, um panorama das crises no mundo e no Brasil, revelando os tipos de crises, as tipologias existentes e as estatísticas acerca das crises. Em seguida, no item 2.2, explicita-se detalhadamente o que significa um Plano de Gerenciamento de Crise, quais sãos os elementos que o compõem, como estruturá-lo e conduzi-lo. Logo em seguida, nos itens 2.5 e 2.6, a pesquisa aborda dois tópicos relevantes ao gerenciamento de uma crise: a relação com a mídia e a importância de se optar pela verdade. O capítulo se encerra, no item 2.7, com medidas de conduta após uma crise. A metodologia de pesquisa está contida no Capítulo 3, em que são apresentadas as informações de como a pesquisa foi realizada, o tipo de estratégia de pesquisa usada, a escolha da unidade empírica de análise e, finalmente, as estratégias de análise de dados. O Capítulo 4 refere-se à pesquisa de campo, em que é descrito o caso estudado, busca-se identificar as estratégias de comunicação adotadas pela empresa minerária no momento da crise, juntamente com a avaliação dos principais stakeholders acerca da conduta pela empresa. No Capítulo 5, são apresentadas as conclusões sobre o estudo de caso realizado, a discussão sobre a importância dos resultados obtidos, as limitações teóricas e práticas da pesquisa e sugestões para estudos futuros.17 17 INTRODUÇÃO 1.1 Definição do problema da pesquisa O caso das pílulas anticoncepcionais falsas que provocaram gravidez indesejada em várias mulheres, em 1998, expôs mais que a fragilidade da fiscalização sobre o mercado de remédios no Brasil. Ele tornou patente uma falha ainda comum entre muitas empresas que atuam no País: a falta de uma cultura de comunicação, principalmente, em momentos das crises empresariais. Uma lição que fica de todo o episódio é que, mais do que agir rapidamente para administrar crises de imagem, é essencial saber preveni-las. E uma das melhores alternativas para isso é contar com uma eficiente estrutura de comunicação (mesmo quando tudo parece estar correndo bem) e um plano de gerenciamento de crise. Tudo isso aponta para a necessidade de ampliar os canais de comunicação com o público. Ainda falta a algumas organizações uma noção mais nítida da importância do livre fluxo de informações com seus stakeholders como forma de estreitar um relacionamento vital aos negócios. Ou seja, uma comunicação transparente é fundamental. Ela atesta o respeito ao cliente, à comunidade e aos públicos. É o caminho mais seguro para atingir objetivos e preservar uma instituição mesmo em momentos de crise. A verdade é que construir uma imagem é trabalho de muitos anos; para manchá-la, alguns dias bastam. O caso da Schering do Brasil é emblemático. O laboratório, um dos maiores do mundo, atua em 130 países, existe há 127 anos e está no Brasil há cerca de 50. Seu faturamento é o nono do setor no País, e o anticoncepcional Microvlar é campeão de vendas entre as brasileiras. Essa liderança de mercado não foi, por certo, conquistada por obra do acaso. Toda essa tradição, no entanto, começou a ser ameaçada quando o laboratório, num erro de avaliação, demorou quase um mês para comunicar às autoridades o desvio das cartelas com placebo. Preferiu fazer uma investigação interna, que nada descobriu. Ou seja, adotou a tática da não comunicação. Para piorar, o caso só chegou à polícia no mesmo dia em que o grande público foi informado do problema pela tevê. A notícia, com o tempo, assumiu gravidade ainda maior porque se inseriu num contexto mais amplo de falsificação de remédios. Nesse exemplo, faltou uma comunicação objetiva e dirigida. Em vez de convocar a imprensa e comunicar o problema imediatamente ao poder público, o laboratório adotou o sigilo. Foi como uma bomba de efeito retardado. Ninguém é ingênuo a ponto de imaginar18 18 que, contando com uma boa estrutura de comunicação, a companhia estaria a salvo. A crise de imagem talvez não pudesse ter sido evitada, mas teria efeitos, com certeza, menores. A realidade é que a comunicação constitui hoje fator competitivo da maior relevância no mundo globalizado. A empresa que souber manter um relacionamento franco, aberto e permanente com a sociedade conta com um importante diferencial competitivo. Uma coisa a se pensar é que, mesmo quando tudo está bem, a comunicação também tem de constituir prioridade. O caso Schering ofereceu mais uma oportunidade de constatar o fato. Mas como gerenciar uma crise é a pergunta que todos se fazem. A Johnson & Johnson, que, em setembro de 1982, sofreu talvez uma das maiores crises de sua história com a morte de sete pessoas envenenadas após ingerir Tylenol contaminado com cianeto, é um dos casos mais citados na literatura como um clássico a ser seguido pela sua agilidade, transparência e responsabilidade assumida diante do ocorrido. Segundo Birch, consultor de Relações Públicas, especialista em gerenciamento de crise e diretor da Ogilvy Adams & Rinehart, de Nova Iorque, em entrevista publicada na revista Propaganda, em 1993, afirma que tal postura da J&J garantiu que a marca não tenha sido afetada e a reputação também não tenha sido arriscada. (REVISTA PROPAGANDA, 1993). Baseado nos autores estudados (IRVINE, 1996; GASCHEN, 2003; KOZACIK, 2003; SUSSKING e FIELD, 1997; WAKEFIELD, 1999; NEVES, 2002; MELO, 2004 e ROSA, 2003), pode-se dizer que poucas são as empresas que estão preparadas para vivenciar um momento como esse, que têm elaborado um plano para o gerenciamento de crise medidas com o objetivo de minimizar o impacto das conseqüências desses pesadelos corporativos. Nota-se um despreparo muito grande por parte das empresas e se concluí que não está sendo dada a devida atenção aos problemas que têm o potencial de arranhar sua imagem ou reputação. A verdade é que as empresas não se preparam porque, no íntimo, não acreditam que um dia poderão ser vítimas de tal experiência. No entanto, quem já vivenciou momentos semelhantes sabe muito bem que uma crise empresarial deixa sérias conseqüências. Ao fazer um estudo da comunicação no mercado norte-americano, os autores Sussking e Field (1997) revelam que o drama é representado, primeiramente, pelas páginas da imprensa e, posteriormente, nos tribunais. A insatisfação do público freqüentemente se transforma em processos jurídicos. Entre 1985 e 1991, foram abertos, nos Estados Unidos, 107 mil processos por danos físicos, 48 mil contra danos causados pelo amianto e quase 38 mil contra produtos. Isso sem falar nos prejuízos financeiros. Estima-se que as empresas americanas gastem anualmente 30019 19 bilhões de dólares em litígios envolvendo danos ao meio ambiente, processos contra produtos, acidentes de trabalho, erros médicos e casos de incapacitação física. (SUSSKIND e FIELD, 1997). Isso reflete a pouca preocupação que as empresas dão a questões que podem vir a ocorrer algum dia afetando sua imagem no mercado e que podem ser previstas e bem preparadas antecipadamente. Dados do Institute for Crisis Management ICM 2 de 1996 revelam que apenas 35% das crises são repentinas, ou seja, inesperadas, contra 79,96% latentes. Previstas ou não, anunciadas antecipadamente ou não, elas ocorrem no mundo inteiro, cada vez com maior repercussão para a empresa e para a sociedade. Durante o período de 1989 a 1996, o Institute for Crises Management pesquisou mais de 67 mil matérias jornalísticas de crises empresariais, compilando mais de fontes jornalísticas em todo o mundo. Assim, esta pesquisa buscou avaliar as estratégias de comunicação adotadas por uma empresa do setor minerário que vivenciou uma crise ambiental com o propósito de preservar sua imagem institucional junto aos seus principais stakeholders. Especificamente, procurou-se a responder as seguintes questões: 1. quais foram as estratégias de relações públicas, publicidade e jornalismo adotadas no gerenciamento da crise? 2. quais eram os objetivos corporativos ao se adotar essas estratégias? Quais eram os resultados que a empresa esperava alcançar junto aos seus stakeholders? 3. qual era a imagem que ela esperava conquistar junto aos seus principais stakeholders? 4. qual era a imagem percebida pelos seus principais stakeholders antes e depois do acidente? 5. Quais foram as percepções alcançadas junto aos seus principais stakeholders? 6. Quais outras ações, na percepção dos stakeholders, a empresa deveria ter desenvolvido? 2 Institute for Crisis Management é uma empresa de consultoria americana que atua com base em pesquisas oferecendo serviços de administração e comunicação para empresas, organizações sem fins lucrativos e órgãos governamentais.20 Justificativa da pesquisa Voltando à análise da comunicação no contexto norte-americano feita pelos autores Susskind e Field (1997), notam-se duas importantes razões para que as empresas se preocupem com uma sociedade na qual os interesses, os medos e a insatisfação do público não são tratados com a devida consideração. Primeiramente, a irritabilidade de um público insatisfeito pode minar a competitividade americana no mercado internacional. "Isto é, prejudica a produtividade de corporações ou órgãos governamentais que passam a despender uma enorme quantidade de tempo e capital humano revendo toda e qualquer ação com o intuito de justificar quaisquer decisões tomadas". (SUSSKIND e FIELD, 1997, p. 11). Os autores recordam os milhões de dólares americanos gastos nos tribunais que não mais poderão ser aplicados em melhorias empresariais, desenvolvimento de produtos, capacitação humana e geram perdas de oportunidades. Apesar de os autores trabalharem com a realidade americana, essa mesma preocupação se repete em outros mercados, inclusive, no brasileiro. Em segundo lugar, afirmam os autores, um público insatisfeito contribui para a erosão da confiança nas instituições. Para esses autores, quando decisões importantes devem ser tomadas, especialmente em épocas de crises, ninguém dará aos responsáveis a necessária margem de erro, caso a confiança do público esteja comprometida. Transpondo tais considerações para a realidade brasileira, os mesmos preceitos são válidos ao se pensar que a irritabilidade do público pode minar com a capacidade produtiva nacional e levar ao descrédito as instituições públicas e privadas. (SUSSKIND e FIELD, 1997). A principal relevância desta pesquisa é a raridade de estudos dessa natureza no Brasil. São muitos os estudos americanos sobre comunicação em crise, muitos deles buscando definir o posicionamento da empresa nesses momentos de súbitas catástrofes, consideradas incomuns e pouco prováveis de ocorrer. No entanto, não se encontram na literatura brasileira trabalhos que se propõem a desenvolver estudos de casos calcados num referencial teórico e buscando identificar os procedimentos adotados, em quais momentos e circunstâncias e por quais profissionais. A pesquisa procurou também avaliar os prejuízos institucionais ocorridos por meio de uma comparação da imagem antes e depois do acidente, além de, juntamente com seus stakeholders, localizar os impactos causados pela crise e a forma como se deu a comunicação entre a organização e seus públicos. A grande parte da literatura existente é americana, com exemplificações de cases de outros países.21 21 Além disso, esta pesquisa se justifica por ser um tema contemporâneo e de suma importância para os profissionais de comunicação organizacional, sejam eles relações públicas, jornalistas ou da área de marketing. Este trabalho se propôs a criar um quadro de análise das percepções das imagens pelos stakeholders como mecanismo de avaliar os esforços realizados pela empresa no momento de crise em contraposição aos resultados alcançados juntos aos diferentes stakeholders da organização. Ao utilizar a literatura norte-americana para fazer uma reflexão sobre a crise no cenário brasileiro, há a possibilidade de despertar o interesse dos empresários, executivos e profissionais do meio para a necessidade de assumir uma postura coerente com as exigências profissionais e éticas no momento de crises vividas pelas empresas junto à opinião pública e, ademais, mostrar que uma postura adequada é uma forma de se respeitar a empresa e defender a sua imagem juntos aos diferentes stakeholders. 1.3 Objetivos da pesquisa O objetivo geral desta pesquisa é avaliar as estratégias de comunicação adotadas por uma empresa de mineração diante de uma crise ambiental tendo como propósito preservar sua imagem institucional junto aos seus principais stakeholders. Ademais, este projeto de pesquisa tem como objetivos específicos: identificar as estratégias de comunicação adotadas pela Rio Verde Mineração SA que, em junho de 2001, viveu um grave acidente ambiental, com o propósito de preservar sua imagem institucional frente à crise empresarial vivenciada; analisar as ações de relações públicas, publicidade e imprensa estabelecidas no momento da crise; identificar e analisar os resultados esperados pela empresa por meio do cruzamento da imagem da empresa antes e depois do acidente; identificar as percepções de seus principais stakeholders; identificar, na percepção dos principais stakeholders, quais ações deixaram de ser realizadas.22 22 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Crises empresariais É importante, primeiramente, compreender o significado da palavra crise e seu entendimento dentro desse contexto de gerenciamento da comunicação em crise. Para Ferreira (1975) significado de crise é uma situação grave em que os acontecimentos da vida social, rompendo padrões tradicionais, perturbam a organização de alguns ou de todos os grupos integrados na sociedade. O Institute for Crises Management define crise como...uma ruptura empresarial significante que estimula grande cobertura da mídia. O resultado do exame minucioso feito pelo público afetará as operações normais da organização podendo ter um impacto político, legal, financeiro ou governamental nos negócios. (IRVINE, 1996). Lerbinger apud Oliveira (1996, p. 7), define crise como "...um evento que traz ou tem potencial para trazer à organização uma futura ruptura em sua lucratividade, seu crescimento e, possivelmente, sua própria existência". Ainda para Lerbinger, apud Oliveira (1996), para que exista uma crise, é preciso que haja três características: os administradores devem reconhecer a ameaça (ou risco) e acreditar que ela possa impedir (retardar ou obstruir) as metas prioritárias da organização, devem reconhecer a degeneração e irreparabilidade de uma situação se eles não tomarem nenhuma ação e devem ser pegos de surpresa. Essas três características da crise refletem as descrições de subtaneidade, incerteza e falta de tempo. Birch (1993, p. 10) distingue crise de problema. "A crise é um evento imprevisível que, potencialmente, provoca prejuízos significativos a uma organização ou empresa e, logicamente, a seus empregados, produtos, condições financeiras, serviços e à sua reputação". Segundo Rosa (2001), crise de imagem constitui um conjunto de eventos que pode atingir o patrimônio mais importante de qualquer entidade ou personalidade que mantenha laços estreitos com o público: a credibilidade, a confiança, a reputação. Neves (2002) define crise empresarial com a opinião pública como uma situação que surge quando algo feito ou deixado de fazer pela organização ou de sua responsabilidade afeta, afetou ou poderá afetar interesses de públicos relacionados à Exibir mais
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 Artigo 2
 Artigo 3
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 Artigo 2
 Artigo 3
 Artigo 4