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Timestamp: 2018-06-23 06:09:28+00:00

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Análise sobre os crimes contra a dignidade sexual
Com o advento da Lei 12.015 de 07 de agosto de 2009, de vigência iniciada em 10.8.2009, data de sua publicação no Diário Oficial da União, o título VI da Parte Especial do Código Penal, que tratava dos crimes contra os costumes, agora chamados de Crimes contra a Dignidade sexual foi sensivelmente alterado. Cada um dos principais novos dispositivo s será abordado de forma prática e direta.
Das alterações relevantes
Do Estupro - artigo 213 do CP
A antiga redação do artigo 213 considerava de forma taxativa a mulher como o único o sujeito passivo do crime de estupro. Como a figura típica exigia conjunção carnal (cópula vagínica), o sujeito ativo necessariamente deveria ser homem, tutelando-se a liberdade sexual da mulher.
No que se refere ao crime de Atentado Violento ao Pudor protegia-se a liberdade sexual tanto do homem, quanto da mulher. Ambos poderiam ser sujeitos ativos ou passivos, pois o tipo consistia em "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal".
Com a reforma, o artigo 214 do CP foi expressamente revogado, passando a sua descrição típica a integrar à do artigo 213. Os casos que anteriormente seriam considerados atentado violento ao pudor são, hoje, tratados como estupro. A nova figura típica do estupro agora descreve a conduta de "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso". Preservada a cominação legal anterior de 6 (seis) a 10 (dez) anos de reclusão.
As hipóteses de estupro qualificado, antes previstas no art. 223, caput e parágrafo único, também revogados pela nova legislação, agora foram inseridas em parágrafos, nos próprios artigos em que se aplicam, adotando-se uma redação mais técnica.Vejamos:
Devemos atentar para um pequeno equívoco na redação do § 1º, do art. 213, pois ao dizer "se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena - reclusão de 8 (oito) a 12 (doze) anos" (grifo nosso), pretende-se, na realidade, estabelecer a qualificadora no caso de a vítima ser menor de 18 "e" maior de 14 anos, pois a conjunção alternativa "ou", nesse caso, faz com que sejam abrangidas todas as idades possíveis, o que não era a intenção do legislador. Falha redacional que será facilmente corrigida na aplicação concreta do Direito, sem maiores problemas.
2.	Fim do concurso material entre estupro e atentado violento ao pudor. Único crime, estupro.
Questão importante a se abordada, refere-se ao entendimento doutrinário e jurisprudencial dominante, que sustentava ser possível o concurso material ( artigo 69 do CP)entre os crimes de estupro e de atentado violento ao pudor (HC 75451 / SP - SÃO PAULO - HABEAS CORPUS-Relator: Min. NÉRI DA SILVEIRA).
Com a reforma, suprimiu-se essa possibilidade, já que agora as duas condutas constituem apenas um tipo penal, e dessa forma , quem praticar, em um mesmo contexto fático, conjunção carnal e outros atos libidinosos contra a mesma vítima, responderá por um único delito: o de estupro, o que já vem levantando protestos do no meio jurídico, ante a menor penalização do agente criminoso, que antes poderia responder por dois crimes e atualmente responderá somente por um.
OBS: Verifica-se sob esse aspecto que a nova lei é mais benéfica e, de acordo com o artigo 2º, parágrafo único, do Código Penal, deve retroagir para alcançar fatos ocorridos antes de sua vigência, inclusive as decisões já transitadas em julgado, que deverão ser revistas em sede de Execução Penal.
Dessa forma, aqueles que foram condenados ou estejam sendo processados pelos dois crimes praticados ( estupro e atentado violento ao pudor), no mesmo contexto e contra a mesma vítima, devem ser responsabilizados unicamente pelo crime de estupro.
•	Caso o agente tenha praticado dois crimes antes do advento da nova Lei dois, sendo um de estupro e outro de atentado violento ao pudor,dentor do mesmo contexto fático, deverá ser arguido pela defesa a aplicação da lei penal mais favorável, de maneira que o agente responda somente por um único crime o de estupro, com base no artigo 5º, XL, da CRFB/88 e artigo 2º, parágrafo único do CP.
•	Nesse caso, deve ser pleiteado a absolvição do réu pelo crime de atentado violento ao pudor, haja vista a configuração de somente um único crime, o de estupro.
Revogação do artigo 214 do Código Penal. Abolitio criminis ou não?
O artigo 214 do Código Penal, que previa o crime de atentado violento ao pudor foi expressamente revogado pelo artigo 7º da Lei n. 12.015/09 . Normalmente quandfo ocorre esse tipo de revodação de norma penal incriminadora, opera-se a abolitio criminis, causa extintiva da punibilidade prevista no art. 107, III, do Código Penal.
Entretanto, no caso em análise não se operou a abolitio criminis, tendo em vista que a conduta de constranger pessoa à prática de atos libidinosos diversos da conjunção carnal mediante violência ou grave ameaça não foi abolida do Direito Penal, haja vista que tal fato continua sendo punido com a denominação de estupro, e no caso de vitima menor de 14 anos ou doente mental, de estupro de vulnerável.
Portanto, aqueles que antes da vigência da Lei n. 12.015/09 praticaram o crime tipificado no artigo 214 do Código Penal, continuarão respondendo pela conduta delituosa, agora com nova denominação, mas aplicando-se a pena de 06 a 10 anos.
12.3.4- Da violação sexual mediante fraude.
O artigo 215 também foi alterado de forma relevante. O crime antes denominado "Posse sexual mediante fraude" consistia em "ter conjunção carnal com mulher honesta mediante fraude", o que apresentava-se em descompasso com a evolução social. Com a vigência da nova lei, adotou-se a expressão"violação sexual mediante fraude" o que demonstrou-se mais de acordo com a realidade atual , além de atender à isonomia constitucional, pois agora tanto a mulher quanto o homem podem ser vítimas do delito em análise, haja vista a nova redação, que dispõe o seguinte:
Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima:
OBS: Outra inovação neste artigo consiste na cominação de pena de multa, quando o crime é praticado com finalidade de obter vantagem econômica. Não podemos deixa de citar que a antiga redação do parágrafo único previa uma qualificadora se o crime fosse praticado contra mulher virgem, menor de 18 e maior de 14 anos, tendo sido revogada pela nova redação que aborda somente a multa no caso de haver finalidade lucrativa do agente.
Dessa forma , a antiga qualificadora de crime contra mulher virgem , menor de 18 e maior de 14 anos ao ser revogada beneficiará aqueles que à època praticaram tais condutas, devendo tal revogação retroagir , incidindo sobre os casos pretéritos, retirando a citada qualificadora.
No que se refere ao crime de assédio sexual, tipificado no artigo 216, acrescentou-se somente uma majorante de um terço, para casos em que a vítima for menor de 18 (dezoito) anos.
Atenção! Por ser inovação mais gravosa para o réu, não pode ser aplicado aos casos anteriores a entrada em vigor da Lei 12.015/09. Portanto somente as condutas praticadas a partir de 10.08.2009 é que poderão receber tal qualificadora.
A nova lei criou o crime de estupro de vulnerável, que se caracteriza pela prática de qualquer ato libidinoso com:
a.	menor de 14 anos (217-A, "caput"),
b.	ou com pessoa (de qualquer idade) que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento,
c.	ou não pode oferecer resistência (§ 1º)., estabelecendo pena de reclusão de 8 a 15 anos.
Percebe-se que esse tipo penal é conseqüência da revogação do artigo 224 do Código Penal que previa as hipóteses de presunção de violência, agora transformadas em elementos constitutivos do crime de estupro de vulnerável, ou seja, em todas as hipóteses onde tínhamos configurado estupro por presunção de violência, agora temos o estupro de vulnerável.
Como o artigo 217-A surge a indagação se essa vulnerabilidade é absoluta, não se admitindo prova em contrário, ou relativa, podendo ser descaracterizada, ante a comprovação da experiência sexual do menor,por exemplo.
Aqui adotaremos a posição mais benéfica para o réu, sustentanto que tal vulnerabilidade apresenta-se como relativa, podendo ceder diante da comprovação da experiência sexual do menor.
Da mesma forma, no que se refere a pessoa com enfermidade ou deficiência mental,só haverá a caracterização da vulnerabilidade, mediante laudo pericial , atestando a doença mental e a ausência de discernometo para a prática do ato libildinoso.
O artigo em comento também possui a forma qualificada, quando resultar lesão corporal de natureza grave ou morte da vítima ( §§ 3º e 4º).
O artigo 225 do Código Penal foi completamente reformulado, abolindo-se a ação penal privada. Doravante, a ação penal é:
a.	Em regra, pública condicionada à representação do ofendido ou de seu representante legal ( art. 225, caput do CP).
b.	Entretanto, será de ação pública incondicionada se a vítima é menor de 18 anos ou é pessoa vulnerável, assim considerada a doente mental ou aquela que não pode oferecer resistência ( parágrafo único do artigo 225 do CP), cabendo ao Ministério Público a propositura da ação penal.
OBS: Questão a ser levantada, é a referente ao fato da vitima falecer e não possuir parentes legitimados para realização da representação,o que acontecera? Ficará a autoridade policial e o Parquet de mãos atadas, nada podendo fazer contra o autor do crime, ante o não preenchimento da condição de procedibilidade?
Algumas vozes estão tentando solucionar o problema levantado, aplicando-se o disposto no artigo 101 do Código Penal ( regra do crime complexo), sustentando que no caso de estupro com lesão corporal grave ou morte a ação de tal crime passaria a ser pública incondicionada.Entretanto grande parte da doutrina entende que o crime de estupro não é crime complexo, ficando inviabilizada a aplicação de tal argumento.
Da Revogação da Lei 2.25/54
Outra importante alteração refere-se ao fato de que a Lei 12.1015/2009 revogou expressamente a Lei 2.252/54, que tratava do crime de corrupção de menores e inseriu no Estatuto da Criança e do Adolescente o artigo 244-B com a seguinte redação:
§ 2o As penas previstas no caput deste artigo são aumentadas de um terço no caso de a infração cometida ou induzida estar incluída no rol do art. 1o da Lei no 8.072, de 25 de julho de 1990."
A pena de 1 a 4 anos não foi alterada, deixando a nova redação de prever a pena de multa.
Além disso, os parágrafos 1.º e 2.º do novo artigo do ECA vão de encontro ao progresso dos meios de comunicação, tipificando a utilização de meios eletrônicos e até salas de bate-papo para a prática do crime.
De acordo com o § 1.º, incorrerá nas penas do caput do artigo 244-B do ECA quem utilizando-se de quaisquer meios eletrônicos, inclusive salas de bate-papo da internet corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 anos, com ele praticando infração penal ou induzindo-o a praticá-la.
Já se a infração cometida ou induzida for hedionda (cf. artigo 1.º da Lei 8072/90), as penas do caput do artigo 244- B serão aumentadas de um terço (1/3), conforme o §2.º do artigo 244 do ECA.
Apesar da mudança de Diploma legislativo, entendemos, que o crime de corrupção de menores do artigo 244-B do ECA, a exemplo do previsto na lei revogada, continuará a admitir prova em contrário, no sentido de que o menor já era corrompido ao tempo da conduta, ou seja essa presunção de corrupção continua sendo relativa.
Do caráter de hediondez
A Lei reformadora, também deu nova redação ao artigo 1º, V, da Lei n. 8.072/90 (Lei dos Crimes Hediondos), esclarecendo que o estupro simples (213, "caput",) também é hediondo, assim como a forma qualificada pela lesão grave ou morte da vítima( §§1º e 2º).
A nova previsão legal põe fim a divergência até então existente a respeito do assunto, pois ora se entendia que todas as formas de estupro eram hediondas, ora se sustentava que apenas as formas qualificadas pela lesão grave ou morte eram assim consideradas.
Resta colocar que, o estupro de vulnerável (art. 217-A), em todas as suas formas (simples e qualificadas), foi incluído no rol dos crimes hediondos (art. 1º, VI, da Lei 8.072/90).
Da revogação parcial do artigo 9º da Lei n. 8.072/90
De acordo com o artigo 9º da Lei dos Crimes Hediondos, as penas dos crimes de estupro e atentado violento ao pudor são acrescidas de metade, estando a vítima em qualquer das hipóteses referidas no artigo 224 do Código Penal.
Com a revogação deste dispositivo (artigo 224 do CP), as hipóteses ali contempladas passaram a ser elementos constitutivos do crime de estupro de vulnerável, não mais podendo caracterizar, ao mesmo tempo, causas de aumento de pena desse mesmo delito, sob pena de incorrer em "bis in idem", o que é vedado.
Também não será aplicável ao artigo 213 o aumento do artigo 9º da Lei 8072/90 pois, para a caracterização do crime de estupro, a vítima não pode estar em nenhuma das hipóteses do antigo 224 do CP, pois, se estiver, o crime agora será o do artigo 217-A.
Portanto constata-se que houve a revogação parcial do artigo 9º da Lei dos Crimes Hediondos, que continua sendo aplicado apenas as outras hipóteses nele previstas , ou seja, aos crimes patrimoniais nele elencados.
Questão intertemporal - Lei penal Benéfica?
A revogação parcial do artigo 9ª da Lei 8072/90 beneficiaria aqueles que praticaram crimes contra as pessoas elencadas no revogado artigo 224 do CP? Entendemos que sim, mas em parte.
O fato da vítima ser menor de 14 anos ou portadora de doença mental, continuou a ser tutelado pelo Direito Penal, tanto que a pena mínima do artigo 217-A, "caput" , que trata do estupro de vulnerável ficou estabelecida em 08 anos. Portanto, o legislador compensou a retirada da majorante prevista na Lei dos Crimes Hediondos, com um aumento na pena cominada ao novo artigo do Estatuto Repressivo.
Dessa forma, aquele que recebeu condenação pela prática do crime de estupro ou atentado violento ao pudor contra menor de 14 anos ou portador de doença mental e teve a pena acrescida por conta do artigo 9º da Lei 8072/90, não terá direito ao cancelamento puro e simples desse acréscimo, apesar de algumas vozes já se manifestarem nesse sentido.
Entretanto, fazendo-se uma análise das penas anteriores e atuais (tomemos como exemplo a mínima cominada), constata-se que o estupro simples ( art. 213 do CP) tinha pena de 06 anos; o qualificado pela lesão grave, de 08 anos, e o qualificado pelo resultado morte da vítima, de 12 anos. Aplicando-se o aumento de metade em razão do artigo 9º da Lei n. 8.072/90, chegaríamos respectivamente às penas de 09, 12 e 18 anos.
No estupro de vulnerável, previsto n o artigo 217-A do CP, onde já se considera a menoridade ou deficiência mental da vítima, as penas mínimas cominadas são de 08, 10 e 12 anos, respectivamente.
Sendo assim, a nova lei apresenta-se como mais benéfica e por força constitucional deve retroagir para alcançar os fatos anteriores, inclusive os já transitados em julgado, não para simplesmente cancelar o aumento de pena, mas fazer a retificação da pena , corrigindo-a nos limites estabelecidos pela nova lei. Como exemplo imaginemos que alguém foi condenado por estupro (art. 213, "caput" do CP) à pena de 09 anos (pena mínima de 06 anos, majorada de metade pelo fato de a vítima ser menor de 14 anos), terá direito de ter sua pena reduzida para 08 anos, que é o mínimo cominado para o estupro de vulnerável.

References: artigo 213
 artigo 213
 artigo 214
 artigo 213
 artigo 69
 artigo 2
 artigo 5
 artigo 2
 artigo 214
 artigo 214
 artigo 7
 artigo 214
 artigo 215
 artigo 216
 artigo 224
 artigo 217
 artigo 225
 artigo 225
 artigo 101
 artigo 244
 artigo 244
 artigo 1
 artigo 244
 artigo 244
 artigo 244
 artigo 1
 artigo 9
 artigo 9
 artigo 224
 artigo 213
 artigo 9
 artigo 217
 artigo 9
 artigo 9
 artigo 224
 artigo 217
 artigo 9
 artigo 9
 artigo 217