Source: http://materialparaaescola.blogspot.com/2014/04/
Timestamp: 2018-06-23 13:31:58+00:00

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Material para a Escola: Abril 2014
PROBLEMAS DE SAÚDE DOS ALUNOS: Olhar pedagógico e ação do professor
e-mail: supervisoralex@bol.com.br
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, “saúde é um estado de completo bem estar físico, mental e social e, não meramente a ausência de doença e enfermidade”. A partir desse conceito, pode-se compreender a necessidade de considerar pedagogicamente os problemas de saúde apresentados por nossos alunos, objetivando conhecê-los para desenvolver um processo de ensino sensível às dificuldades oriundas dos mesmos. Evidentemente não se espera trabalhar com os problemas de saúde em si, mas saber em que medida interferem na aprendizagem dos alunos. Torna-se importante destacar que não se trata de estigmatizar, rotular ou discriminar tais alunos, tampouco entendê-los como incapazes ou pensar que não devem ser cobrados em suas obrigações discentes.
Shiu (2004b) aponta o importante papel dos professores e dos colegas de sala de aula como fator que determina a permanência do aluno com doença na escola, quando incentivam, respeitam e, sobretudo, valorizam as suas capacidades. Afinal, a escola pode representar o único lugar onde o aluno doente pode ser visto como estudante em lugar de um paciente.
Nesse sentido, considero importante que os professores tomem conhecimento dos problemas de saúde de seus alunos, informando-se sobre a doença, prognósticos e tratamentos, com intenção de entender melhor os comportamentos, os limites e as possibilidades de aprendizagem dos mesmos. Reforço que não se trata de adotar uma postura de compaixão ou absenteísmo em relação ao aluno, mas desenvolver um olhar diferente e consciente, tendo por objetivo a elevação dos níveis de aprendizagem. Com isso, a cobrança e as exigências aos alunos com problemas de saúde também são válidas e necessárias, porém, sempre considerando a especifidade de sua condição.
Vale ressaltar que Organização Mundial da Saúde define doença como “um conjunto de sinais e sintomas que podem afetar todo o corpo ou qualquer das suas partes, e as suas etiologias, patologia e prognóstico podem ser conhecidos ou desconhecidos”. Já a deficiência é definida como “a perda ou anormalidade de estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica, temporária ou permanente”. Assim, ao considerar as doenças de nossos alunos, podemos desenvolver um olhar crítico aos seus comportamentos e ter uma postura condizente com suas necessidades de ser em desenvolvimento. Até porque as doenças e/ou condições crônicas, consideradas incuráveis e permanentes, exigem que o indivíduo ressignifique sua existência, adaptando-se às limitações, frustrações e perdas (PILGER; ABREU, 2007).
Especialmente nos casos crônicos, o adolescente tem seu cotidiano modificado, muitas vezes, com limitações, principalmente físicas, devido aos sinais e sintomas da doença e podem ser frequentemente submetidos a hospitalizações para exames e tratamento à medida que a doença progride. Assim, a hospitalização permeia seus processos de crescimento e desenvolvimento, modificando, em maior ou menor grau, o cotidiano, separando-os do convívio de seus familiares e ambiente (VIEIRA; LIMA, 2002).
Para Shiu (2004b), se forem mantidos uma relação, atitudes e comportamentos positivos dentro da comunidade escolar, é possível assegurar ao adolescente com uma doença ter as mesmas oportunidades e resultados como os seus semelhantes.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei nº 9.394/96, no artigo 59, preconiza que os sistemas de ensino devem assegurar aos escolares currículo, métodos, recursos e organização específicos para atender às suas necessidades; assegura a terminalidade específica àqueles que não atingiram o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências e; a aceleração de estudos aos superdotados para conclusão do programa escolar.
Vale destacar que o Projeto Político Pedagógico do Colégio Estadual do Paraná (versão preliminar 2013) expressa que “... o conhecimento não é construído de forma espontânea, mas é mediado a partir de um diagnóstico do nível de desenvolvimento em que o aluno se encontra, para possibilitar a intervenção do professor no sentido da aprendizagem. Portanto, há ensino e há aprendizagem. Com base neste pressuposto, o desenvolvimento da capacidade cognitiva, da capacidade de pensar, analisar, abstrair, resolver situações problemas formular hipóteses, ler, compreender, interpretar, produzir, ou seja, das funções mentais superiores é consequência da produção e do acesso ao conhecimento. Este movimento, por sua vez, não prescinde de um trabalho planejado pela escola, pelo projeto pedagógico, pela proposta pedagógica e em especial pelo professor”. Isto posto, pode-se compreender a importância de se considerar os alunos em suas especificidades, incluindo aí as questões que envolvem saúde / doença.
Por fim, considero fundamental que tenhamos todos, Equipe Pedagógica e Professores (em consequência os demais alunos da classe), um olhar de respeito, sem pre-julgamentos ou aderência a discursos pessimistas, e uma postura ética que contribua para a formação intelectual dos alunos. Consideremos, pois, as necessidades físicas, emocionais e sociais de nossos alunos e que, através de estratégias pedagógicas humanizadoras, possamos contribuir para minimizar o estresse ocasionado pelas intervenções médicas, tanto físicas quanto emocionais, e, com o apoio de suas famílias, socializemos de modo efetivo o conhecimento historicamente elaborado.
BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Brasília: Secretaria de Edições Técnicas, 1997. 48p.
COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ. Projeto Político Pedagógico (versão preliminar). Curitiba, 2013.
OLIVEIRA, M. L. C. L; SILVA, M. T. A. da. Educação em Saúde: repensando a formação de professores. Revista Brasileira de Saúde Escolar, v. 1, n. 2, p. 3-20, 1990.
PILGER, C.; ABREU, I. S. Diabetes mellitus na infância: repercussões no cotidiano da criança e de sua família. Cogitare Enferm. v. 12, n. 4, p. 494-501, out/dez 2007.
SHIU, S. E. Maintaining the thread: including young children with chronic illness in the primary classroom. Australian Journal of Early Childhood, v. 29, n. 1, p. 33-38, march 2004b.
VIEIRA, M. A.; LIMA, R. A. G. de. Crianças e adolescentes com doença crônica: convivendo com mudanças. Ribeirão Preto, Rev. Latino-Am. Enfermagem, v. 10, n. 4, jul/ago 2002.
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O TRABALHO DO PEDAGOGO NA HORA ATIVIDADE DOS PROFESSORES DE BIOLOGIA, CIÊNCIAS E GEOGRAFIA: Momento de formação continuada e reflexão acerca do currículo no Colégio Estadual do Paraná
O presente trabalho trata-se de um relato de experiência das ações desenvolvidas por pedagogos, na hora atividade, junto aos professores das disciplinas de Biologia, Ciências e Geografia, do Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba. Parte-se do princípio da necessidade de garantir, semanalmente, tempo para estudos, reflexões e discussões acerca de questões que envolvem as disciplinas mencionadas, de modo coletivo, com o acompanhamento e mediação do pedagogo escolar. Para isso, utiliza-se de metodologia ativa, na qual os pedagogos apresentam pautas que são discutidas pelo grupo de professores e as decisões são assentadas em atas e socializadas via endereço eletrônico. Os temas de estudos são definidos a partir daquilo que emerge no grupo, como: Avaliação, Recuperação de Estudos, Plano de Trabalho Docente, Metodologias de Ensino, Disciplina, Currículo Escolar, Conteúdos Programáticos, Projeto Político Pedagógico, Regimento Escolar, etc. Como resultado, tem-se observado o desenvolvimento da profissionalidade do professor, bem como maior interação entre os pares naquilo que concerne a unidade de ação pedagógica em sala de aula. Ainda ressalta-se o vínculo positivo e o trabalho coerente entre pedagogos e professores dessas áreas, fortalecendo as identidades das disciplinas, o trabalho ético dos docentes e a prática reflexiva. Em torno disso, tem-se como principais autores CONTRERAS (2012), NÓVOA (1992) e ZEICHNER (1993).
Palavras-chave: Hora Atividade; Formação Continuada; Trabalho Docente; Ensino; Atuação do Pedagogo.
Na escola pública estadual do Paraná tem-se a opção por um currículo disciplinar. Assim, os professores do tradicional Colégio Estadual do Paraná1, localizado em Curitiba, desenvolvem seu trabalho pedagógico tendo como subsídios principais o Projeto Político Pedagógico, a Proposta Pedagógica Curricular e o Regimento Escolar. Esses documentos são a expressão das opções e o retrato das vivências e necessidades do Colégio.
As demandas impostas ou assumidas pelos profissionais da escola são muitas – formar o cidadão crítico, possibilitar a emancipação humana, dar conta de questões sociais, econômicas e culturais – as quais, muitas vezes, extrapolam a dimensão curricular. Nesse sentido, a escola deve incentivar a prática pedagógica fundamentada em diferentes metodologias, valorizando concepções de ensino, de aprendizagem (internalização) e de avaliação que permitam aos professores e estudantes conscientizarem-se da necessidade de “uma transformação emancipadora. É desse modo que uma contraconsciência, estrategicamente concebida como alternativa necessária à internalização dominada colonialmente, poderia realizar sua grandiosa missão educativa” (MÈSZÁROS, 2007, p. 212).
Para isso, compreende-se o professor como aquele que estuda e que, em meio a tantas demandas, busca aprimorar-se, formar-se e capacitar-se, portanto é o sujeito que tem o domínio do saber e deve mediar este saber - oferecê-lo ao seu aluno de forma organizada e sistematizada. É aquele que ensina. Com certeza não ensina qualquer conteúdo apenas como via de desenvolver capacidades mentais como apregoavam os Parâmetros Curriculares Nacionais2. É aquele que seleciona o recorte do conteúdo, o qual não é aleatório e sim planejado, movido por uma intenção social, política, histórica e cultural.
O currículo é, então, configurador da prática, produto de ampla discussão entre os sujeitos da educação, fundamentado nas teorias críticas e com organização disciplinar. E é em razão dele que se organizam as atividades que envolvem o trabalho coletivo de pedagogos e professores da escola. Esse trabalho é realizado no momento da hora atividade do professor, no qual, toda quarta-feira, ocorre o encontro de pedagogo e professores para discussões e reflexões acerca do trabalho pedagógico escolar.
1. A hora atividade do professor na Legislação
A hora atividade é uma conquista dos professores que desde a década de 1980 era pauta de reivindicação junto ao governo do estado. Pelo decreto no 3749 ficou estabelecido o percentual de 10% (dez por cento) para hora atividade do professor. Pela aprovação da Lei 13.087/2002 o percentual da hora atividade foi aumentado para 20% (vinte por cento), ocorrendo sua implantação em 2003. A ampliação do percentual da hora atividade sempre foi uma antiga reivindicação dos professores e desde a assinatura da Lei do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN) – Lei 11.738 em 2008 pelo presidente Luíz Inácio Lula da Silva os professores lutam pela instituição dos 33% (trinta e três por cento) de hora atividade. A referida lei determina que 2/3 (dois terços) da carga horária do professor deve ser destinada ao trabalho em sala de aula com os alunos e que 1/3 (um terço) será utilizada para atividades de planejamento, avaliação e estudos na hora atividade.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9394/96) prevê que seja reservado aos professores tempo voltado aos estudos, planejamento e avaliação incluído na carga de trabalho. No artigo 67 , em seu inciso V, assegura aos professores “período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho”. Embora a Lei não traga a expressão hora-atividade, a mesma determina que os professores tenham em sua carga horária semanal um percentual dedicado aos estudos, ao planejamento e à avaliação.
No Paraná, a Assembleia Legislativa sanciona a Lei Complementar nº 103, em 15 de março de 2004. Ao tratar do regime de trabalho dos professores, em seu Capítulo IX, explicita que o regime de trabalho do professor poderá ser de 20 (vinte) ou 40 (quarenta) horas semanais, sendo que a hora-aula é de até cinquenta minutos, assegurado ao aluno o mínimo de oitocentas horas anuais, nos termos da lei.
Sobre a hora atividade, a Lei Complementar 155, de 08/05/2013 altera o artigo 31, garantindo 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos. Ainda explicita que a hora-atividade deverá ser cumprida na escola, podendo ser cumprida fora da escola, excepcionalmente, em atividades autorizadas pela Secretaria de Estado da Educação, desenvolvidas no interesse da educação pública.
Assim, se o professor tiver 14 aulas de regência de classe, serão atribuídas a ele mais 06 (seis) aulas para a hora atividade, totalizando 20 aulas semanais.
No Colégio Estadual do Paraná convencionou-se que semanalmente uma hora aula será de trabalho coletivo do pedagogo com os professores, chamada então de hora atividade concentrada.
Afinal, a hora atividade segundo aspectos legais (Lei nº 13.807 e Instrução nº 02/2004 – SUED) deve configurar-se em duas dimensões, a primeira como trabalho individual do professor, através da realização do planejamento das aulas e da elaboração e correção das avaliações dos alunos; e a segunda como trabalho coletivo através da leitura, estudo e discussões sobre o processo pedagógico. Esta segunda dimensão, a da leitura e do estudo coletivo, deve ser mediada pelo pedagogo escolar, sendo este o profissional responsável pela organização da hora atividade.
2. A composição da hora atividade no Colégio Estadual do Paraná
A hora atividade é o tempo reservado aos professores em exercício de docência voltado para estudos e reflexões acerca da prática, bem como ao planejamento das atividades docentes.
No Colégio Estadual do Paraná, desde 2011, ocorre a intervenção pedagógica de pedagogos nesse momento junto aos professores. Este relato se propõe a mostrar a prática de pedagogos que vem sendo vivenciada no Colégio, em 2014, junto aos professores de Biologia, Ciências e Geografia3. Este momento ocorre nas quartas-feiras nos turnos da manhã e da tarde e dele participam professores que atuam Ensino Fundamental, Médio e Profissional, dos turnos da manhã, tarde e noite.
Nesta prática, especificamente, concretiza-se a garantia legal do tempo para estudos assegurando a efetividade e a melhoria da prática pedagógica. A equipe pedagógica ocupa papel central tanto na organização dos encaminhamentos a serem realizados, quanto propriamente na mediação de estudos, reflexões e discussões junto aos professores
A hora atividade é o espaço de formação continuada que se constitui em momento de estudos e leituras que promovem a formação do professor numa perspectiva integral, omnilateral4 associando o saber teórico aos problemas encontrados pelo professor em sua prática diária no processo do ensino aprendizagem. Sendo entendida como espaço de formação continuada, também é destinada para tarefas diárias do professor, como planejamento de atividades, correção de avaliações, preenchimento de Livros Registros de Classe, entre outras.
A conquista da hora-atividade é resultado dos movimentos dos professores dos anos 1980, nos quais as condições do trabalho docente foram exaustivamente denunciadas, gerando um movimento em defesa de um trabalho que oportunizasse a reflexão e a formação continuada em serviço.
Ainda é uma luta dos educadores a expansão progressiva do percentual até que se atinja 50% (cinquenta por cento) e a ideia que se defende nesta pesquisa é a de que este tempo seja reservado para atividades práticas inerentes a função do professor, mas que também seja espaço de estudos, leituras e discussões sobre o processo pedagógico entre o grupo dos professores e equipe pedagógica na busca de soluções aos problemas encontrados no ensino aprendizagem. E é tal premissa que conduz a prática vivenciada no Colégio Estadual do Paraná.
3. O aspecto da formação continuada dos professores
Embora os professores reconheçam a importância de estudos durante a hora atividade, via de regra restringem-se a realização das atividades práticas, imediatas, inerentes a atividade docente. Muitos ainda não conseguem vislumbrar a hora atividade como possibilidade para o fortalecimento de sua formação, não querendo perder esse espaço tão importante como meio de suavizar o acúmulo de funções que lhe são impostas. É contra essa prática que os pedagogos do Colégio Estadual do Paraná organizam sua ação pedagógica para atender os professores, semanalmente, numa proposta de estudos e reflexões.
O processo de formação continuada de professores em serviço5 requer uma promoção contínua de diálogos e reflexões acerca dos problemas que atingem a prática pedagógica, acreditando que a formação continuada de professores em serviço enrique, problematiza e fortalecer a ação educativa.
A hora atividade só poderá ser apropriada como espaço para formação em serviço se ela tornar-se orgânica ao contexto escolar. Conquistada essa ”organicidade” a hora atividade poderá ser apropriada como espaço para estudos e formação dos professores. Para tanto, ela terá que ser contemplada com o projeto político pedagógico escolar, isto é, deverá integrar todo o projeto educativo, construído à luz de um plano amplo, orgânico e original. Trata-se de um projeto articulado aos anseios da sociedade, a partir da sua própria concepção não só de escola, mas de mundo, de homem que se deseja formar. O processo de organicidade é então um processo de unificação que exige que a escola tenha um projeto de reforma original que seja fruto de sua realidade e dos anseios da comunidade em que está inserida, que seja fruto da sua filosofia. É preciso considerar todos esses elementos através de um processo de discussão crítica.
Ao refletir sobre o próprio termo “hora atividade”, remete-se à ideia de ser destinada às atividades práticas da docência, inviabilizando a sua utilização para estudos teóricos. No entanto, o trabalho do professor só tem sentido numa perspectiva da práxis, na qual não exista uma indissociabilidade entre teoria e prática.
A teoria é necessária para orientar a prática, nesse sentido almeja-se que o professor tenha clareza de que seu trabalho docente, numa perspectiva da totalidade, precisa estar fundamentado por elementos teóricos e práticos. Daí decorre a necessidade do momento da hora atividade transcender para além das atividades práticas individualizadas a momentos coletivos pedagógicos e de estudos.
4. A intervenção do pedagogo: diálogos e registros
Para Saviani (1985) o papel do pedagogo necessita estar voltado para a gestão pedagógica e para a organização do trabalho pedagógico, neste sentido é que se afirma que a mediação deste profissional junto ao professor torna-se fundamental na hora atividade. O pedagogo sempre que necessário deve sugerir diferentes estratégias metodológicas que possibilitem ao professor redimensionar seu trabalho com o objetivo de garantir ao aluno em sala de aula a apropriação do conhecimento.
No Colégio Estadual do Paraná, uma das atribuições do pedagogo definidas no Regimento Escolar, artigo 86, inciso III é “participar e intervir na organização do trabalho pedagógico, no sentido de realizar a função social e a especificidade da educação escolar”. Destaca-se também a função de “promover e coordenar reuniões pedagógicas e grupos de estudos para reflexão e aprofundamento de temas relativos ao trabalho pedagógico para elaborar propostas de intervenção com vistas à qualidade de ensino”, estabelecido no incio VII do Artigo 86 do Regimento Escolar. De acordo com o Projeto Político Pedagógico (Versão Preliminar 2013) e Regimento Escolar (2012), a prática dos pedagogos pode ser organizada em três dimensões principais:
Tabela 01: Dimensões do trabalho do pedagogo no Colégio Estadual do Paraná
- Ênfase na dimensão social da aprendizagem humana
- Formação continuada como processo permanente
- Atenção à questão cultural
- Organização da escola como ambiente educativo
- Interface com o entorno externo econômico, político e cultural
- Atenção à comunidade e à sociedade
- Participação externa nas decisões internas
- Interface família-escola; escola-comunidade, professores e cidadania
- Uso de formas ativas e autogestionárias
- Descentralização do poder
Gestão escolar mais horizontal, participativa e democrática
- Estabelecimento de parcerias e trabalho cooperativo
Fonte: Regimento Escolar 2012, Artigo 86.
No que se refere à formação continuada do coletivo de professores da escola os pedagogos assumem a função de elaborar o projeto de formação continuada dos profissionais da escola para o aprimoramento teórico-metodológico, na forma de trocas de experiências, estudos sistemáticos e oficinas; desenvolver processo contínuo pessoal e profissional de fundamentação teórica; pesquisar e fornecer subsídios teórico-metodológicos para o estudo e atender necessidades do trabalho pedagógico e organizar reuniões de estudo para a reflexão e aprofundamento de temas relativos ao trabalho pedagógico da escola, em especial sobre as questões curriculares.
Desse modo, para concretização e efetivação de um trabalho coerente com as necessidades da escola, a ampliação da hora atividade é um dos fatores principais, visto que isso promoverá a valorização do trabalho do professor. Por isso, o fortalecimento dos encontros semanais de pedagogos e professores é uma prática fundamental para discutir a importância da utilização do espaço da hora atividade, realizando estudos e promovendo um processo de trabalho pedagógico consciente, crítico, ético e coerente com as decisões tomadas pelo coletivo.
É importante destacar que estes momentos de estudos são feitos uma aula, uma vez por semana, pois entende-se a importância da realização das atividades práticas inerentes a função do professor, e sabe-se que tal espaço foi uma conquista da categoria, já que nem sempre o professor teve assegurado este direito em sua carga horária semanal obrigando-o a levar tarefas para serem realizadas em casa. Mas na medida em que o grupo sentir a necessidade de buscar o aprofundamento teórico sobre questões que surgirem no dia a dia da escola torna-se necessário utilizar também a hora atividade como espaço de formação continuada.
5. A metodologia do trabalho do pedagogo na hora atividade dos professores
O trabalho que envolve pedagogos e professores de Biologia, Ciências e Geografia do Colégio Estadual do Paraná pauta-se num processo de ensino como prática reflexiva.
Os movimentos da prática reflexiva têm como pano de fundo a autonomia do professor. A reflexão é entendida neste estudo de acordo com as idéias de Zeichner (1993). Para este autor a reflexão envolve o aluno/professor, a sua prática, o seu aluno e as condições sociais nas quais o processo educacional em questão se situa. Complementarmente, a reflexão assume um papel democrático e emancipador e é entendida muito mais como prática social do que como ação independente.
Espera-se, como grande objetivo a alcançar, a busca por estratégias de mudanças e transformação para melhorar a realidade, a partir da formação continuada dos professores na hora atividade concentrada. A grande questão que se coloca é a necessidade de produzir conhecimento no decorrer do processo.
Assim, como forma de estabelecer e fortalecer o vínculo pedagógico entre pedagogos e professores, promovendo as discussões em torno de currículo e reflexões acerca dos problemas cotidianos, organizou-se o seguinte método de trabalho:
1. Conversa com Coordenadores das disciplinas e definição das pautas (segunda ou terça-feira);
2. Reunião dos pedagogos junto aos coordenadores de disciplina e professores, nas quartas-feiras, nos turnos da manhã e da tarde;
3. Registro em Ata das orientações, dos temas levantados e das decisões tomadas (quarta-feira).
No Colégio Estadual do Paraná existe a função de Coordenador de disciplina6, que são professores eleitos anualmente pelo coletivo de professores da disciplina para orientar o trabalho docente e organizar as atividades da disciplina. Estes Coordenadores participam, toda segunda-feira, de reunião junto à Chefia da Divisão Educacional e Equipe Diretiva para o repasse das informações, discussão de problemas e organização das atividades da semana.
Os pedagogos Alexandro Muhlstedt e Percia Cicarelli assumiram, no início do ano letivo, a coordenação pedagógica das disciplinas de Biologia, Ciências e Geografia do Ensino Fundamental, Médio e Profissional, envolvendo os professores dos turnos da manhã, tarde e noite. Os pedagogos se encontram nas terças-feiras à noite e definem juntos a pauta para a hora atividade concentrada.
Essa hora atividade concentrada é realizada na quarta feira de manhã, pela pedagoga Percia Cicarelli e à tarde pelo pedagogo Alexandro Muhlstedt. Os pedagogos realizam o encontro por disciplina, ou seja, atendem o grupo de Biologia e Ciências, na sala 313 e o grupo de geografia na sala 113. Os coordenadores das disciplinas participam juntamente com os professores.
O processo de diálogo ocorre da seguinte forma: Os coordenadores apresentam a pauta da semana, anotando as dúvidas e questionamentos do grupo, bem como orientando naquilo que diz respeito à disciplina (por exemplo, a Olimpíada de Biologia ou o Projeto da Copa do Mundo, em Geografia). Em seguida, o pedagogo realiza as orientações pedagógicas dos temas levantados no encontro anterior, como por exemplo, feedbacks sobre o Plano de Trabalho Docente, discussão, definição e orientações sobre a Planilha Eletrônica de Notas, Avaliação e Recuperação de Estudos, Registros no Livro de Registro de Classe, Disciplina e Indisciplina dos Alunos, etc. Todo esse processo é registrado em Ata, a qual é assinada por todos ao final do encontro.
Essa proposta de trabalho pauta-se na reflexão sobre as mudanças e a necessidade de inovação das práticas escolares, não mais como no princípio da racionalidade técnica, que estabelece como alguns princípios, via de regra, a tarefa a alguns que pensam e outros que executam a prática docente. A prática do professor deve levar em conta o estudo da sua própria prática, como um dos meios constitutivos da construção de novos saberes profissionais. Sob esse prisma, evidencia a superação da dicotomia entre teoria e prática, as políticas públicas descontextualizadas das necessidades inerentes ao ensino e da escola.
Para além de se compreender os processos de desenvolvimento pessoal e profissional do professor, é considerá-lo detentor de uma profissão na qual o próprio sujeito histórico é capaz de produzir o seu próprio ofício. O desafio atual, segundo NÓVOA (1992) está na
valorização de paradigmas de formação que promovam a preparação de professores reflexivos, que assumam a responsabilidade do seu próprio desenvolvimento profissional e que participem como protagonistas na implementação das políticas educativas (pág. 27).
As práticas coletivas, construtivas e colaborativas apontam caminhos contornáveis acerca da polêmica instaurada e viáveis na articulação e (re) construção dos saberes docentes, a partir do resgate da prática em si, modelando e remodelando-se juntamente com contextos organizacionais, estabelecendo um diálogo entre pedagogos e professores.
O trabalho envolve diretamente os dois pedagogos responsáveis pelas disciplinas, dois coordenadores e 14 professores de Biologia e Ciências e os dois coordenadores e os 13 professores de Geografia.
Tabela 02: Número de Professores de Biologia, Ciências e Geografia 2014
Esses professores atendem as seguintes turmas:
Tabela 03: Cursos, Turmas e Número de Alunos 2014
ENSINO PROFISSIONAL7
Nº DE TURMA
Os encontros ocorrem semanalmente, às quartas-feiras, nas salas das disciplinas (Sala 113, de Geografia e Sala 313, de Biologia e Ciências). Os materiais e instrumentos necessários são: Pautas previamente definidas, Livros Ata, Laboratório de informática e Blog dos Docentes (www.docentescep.blogspot.com). Todas as informações e decisões são enviadas para o endereço eletrônico dos professores.
Essa organização tem constituído a busca por um trabalho coletivo dos docentes de Biologia, Ciências e Geografia compreendendo este trabalho como uma ação coletiva intencional, ou seja, propositiva, deliberada, estimulada pela gestão escolar, que envolve um fazer – um conjunto de procedimentos e um pensar –, um conjunto de ideias que fundamenta a ação. Esta ação não é construída ou implementada na escola por decreto ou pelo ato da instituição e sim é constituída no processo, pois a prática, o fazer que dão sentido e significado à ação coletiva.
Os docentes no processo de ação coletiva são sujeitos do ensino entendidos em sua identidade individual, considerando seus valores, crenças e ideologias. No processo de trabalho coletivo, eles reconstroem essa identidade, ou a ressignificam, conforme passam a formar um coletivo e a formar um sujeito coletivo permeado pelo currículo da disciplina. Entretanto, esse processo não é espontâneo nem automático. São necessárias certas condições para que aconteça, tais como: uma dada conjuntura política e pedagógica favorável à organização de processos associativos, um ambiente de estímulo à participação social, e não de controle e regulação de condutas e, fundamentalmente, uma conjuntura política entre os sujeitos participantes da ação que lhes favoreça uma leitura de mundo em que suas políticas tenham sentido e significado num contexto maior, de esperança por mudanças.
Os estudos sobre a ação e identidade coletiva estão presentes em vários autores, a exemplo de Alberto Melucci. Ele define a ação coletiva como:
Um conjunto de práticas sociais que envolvem simultaneamente certo número de indivíduos ou grupos que apresentam características morfológicas similares em contigüidade de tempo e espaço, implicando um campo de relacionamentos sociais e a capacidade das pessoas de incluir o sentido do que estão fazendo. (MELUCCI, 1997, p.154)
O que caracteriza uma ação coletiva é o compartilhamento de objetivos e interesses, as motivações comuns que levem a aderir a um determinado trabalho. Muitas vezes, o fato dos docentes estarem reunidos num mesmo espaço e tempo não significa coletivo, pois talvez estejam realizando um trabalho de orientação individualista, no qual cada um atua por razões próprias e diversas do outro. É nesse momento que age, semanalmente, o pedagogo. Profissional que fomenta o fortalecimento da identidade coletiva e organiza a relação pedagógica junto aos docentes.
Afinal, os professores têm um conjunto de saberes (formado pela teoria, prática, e experiência profissional) que vale a pena ser compartilhado, e nesse compartilhamento se diversificam o repertório pedagógico e os seus instrumentos de intervenção. Nóvoa (2004) diz que a vivência coletiva entre os professores abre novas possibilidades, proporciona novas ferramentas teóricas e metodológicas “que lhes permitem pôr em prática ideias e perspectivas que já aderem, mas que não sabem pôr em prática” (NÓVOA, 2004, p.5).
Ao tratar a cultura biológica ou geográfica docente, não há como remeter a significados e valores que estão presentes na ação coletiva dos professores e que fundamentam o Projeto Político Pedagógico da escola. Assim, o Projeto Político Pedagógico não poderia ficar de fora das categorias de análise porque explicita a ação coletiva desenvolvida na escola, refletindo-se na cultura escolar e na cultura da escola. Tudo isso num movimento que se concretiza em sala de aula pela ação pedagógica do professor e sua interação com o currículo escolar.
A hora atividade como espaço de formação continuada, de problematização das questões curriculares e de discussão coletiva dos problemas pedagógicos tem promovido no Colégio Estadual do Paraná a superação das formas alienadas do pensamento através das reflexões e tomadas de decisão numa perspectiva crítica, promovendo a análise, por parte do professor, sobre seu trabalho e, consequentemente, o fortalecimento do sentido numa perspectiva de formação humana. Neste sentido a hora atividade promove a transformação através da humanização do trabalho do professor de forma que este profissional passe a assumir o compromisso político com a classe trabalhadora, através da garantia da competência técnica em seu trabalho.
Ainda é possível notar a existência de algumas fragilidades nas concepções sobre as temáticas educacionais abordadas, especialmente naquelas inerentes ao fazer pedagógico, como o Currículo, Avaliação e Relação Professor – Aluno, bem como pela necessária busca pela caracterização mais apurada do Projeto Político Pedagógico.
O pedagogo, nessa teia de possibilidades e limitações, é o mediador na interação com professores na hora atividade e deve estar atento, observando os problemas e dificuldades que se apresentam nesse processo pedagógico para que, no coletivo, possam ser pensadas ações que conduzam a equacionar os problemas da escola. A hora atividade constitui-se em espaço de interação entre pedagogo e professores e, desta forma, propicia o momento de discussão e mediação às questões pedagógicas.
Com isso, tem-se notado um processo de segurança ao agir pedagogicamente por parte dos professores, um diálogo rico e profícuo entre pedagogos e professores e, sobretudo, o desenvolvimento da profissionalidade docente, no qual o professor sente-se amparado e subsidiado para agir consciente e eticamente na sala de aula e em todos os momentos da escola.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB Lei nº 9394/96. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, 2014.
______. Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008. Regulamenta o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. Brasília, 2014.
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ESTEBAN, M. T. et al. Professora-pesquisadora: uma práxis em construção. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
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MELUCCI, A. Movimentos sociais e sociedade complexa. Cadernos do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Movimentos Sociais. Movimentos Sociais na Contemporaneidade. São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social, PUC-SP, nº.2, p.11-32, abril 1997a.
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1 O Colégio Estadual do Paraná – Ensino Fundamental, Médio e Profissional está localizado na Av. João Gualberto, 250, Alto da Glória, Curitiba/PR. Foi criado pela lei nº 33, de 13 de março de 1846, transformado em órgão de regime especial pela Lei nº 6.636, de 29 de novembro de 1974, nos termos da Lei nº 8.485, de 03 de junho de 1987, constitui órgão de utilidade pública, com relativa autonomia administrativa e financeira. É uma escola pública mantida pelo Governo do Estado do Paraná, por meio da Secretaria de Estado da Educação – SEED.
2 Os Parâmetros Curriculares Nacionais são referenciais de qualidade elaboradas pelo Governo Federal para nortear as equipes escolares na execução de seus trabalhos. Criados em 1996, as diretrizes são voltadas, sobretudo, para a estruturação e reestruturação dos currículos escolares de todo o Brasil - obrigatórias para a rede pública e opcionais para as instituições privadas.
3 Ressalta-se que todas as disciplinas da base nacional comum são contempladas com essa estratégia, mas o presente relato detém-se nas três disciplinas mencionadas, tendo em vista o trabalho dos autores.
4 A formação omnilateral colabora para formar o homem consciente dos problemas do seu tempo, do seu mundo, tornando-o capaz de realizar operações críticas e criativas de análise e de síntese que possibilitem ao indivíduo, mediante uma visão totalizante dos fatos isolados, compreender a sociedade e intervir, tomar decisões coerentes com um projeto que visa à humanização e a emancipação social.
5 O processo de formação continuada de professores não é novidade. Vários são os autores que apresentam discussões sobre esta temática e ressaltam sua relevância para os profissionais do ensino, como Candau (1997), Nascimento (2000), Pimenta (2002), entre outros.
6 De acordo com o artigo 87 do Regimento Escolar a Coordenação de Disciplina é prerrogativa dos professores do Quadro Próprio do Magistério, lotado no Colégio Estadual do Paraná ou com Ordem de Serviço e deve ser assumida por professor com formação acadêmica de licenciatura própria na disciplina a qual ele coordena, com experiência de, no mínimo dois anos, de magistério no CEP e ser escolhida entre seus pares. Deve, também, estar apto e em condições de assumir todas as responsabilidades que a função exige, principalmente no que se refere à boa qualidade nas relações humanas e no que tange à assiduidade e pontualidade.
7Os cursos profissionais, de formação técnica, ofertados no Colégio Estadual do Paraná que possuem as disciplinas de Biologia e Geografia em sua grade curricular são integrados, ou seja, formação técnica e específica aliada à formação geral das disciplinas da base nacional comum: Técnico em Arte Dramática, Técnico em Edificações e Técnico em Prótese Dentária.
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 artigo 67
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 artigo 86
 Artigo 86
 Artigo 86
 artigo 87