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Timestamp: 2018-05-25 07:11:05+00:00

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Síntese da Palestra Ministrada pelo Ministro Vantuil Abdala: A prevalência do negociado sobre o legislado
O primeiro a falar foi o ministro aposentado do Tribunal Superior do Trabalho Vantuil Abdala, que hoje é advogado militante. O ministro aposentado começou sua palestra ressaltando que o Direito do Trabalho é o mais social dos Direitos, pois é tutelar e protege o hipossuficiente, pretendendo compensar a sua inferioridade econômica em relação ao empregador com uma superioridade jurídica atribuída pelas leis e princípios protetores do trabalhador. “Tudo isso é verdade! E tudo isso é mais verdade ainda no seu papel importantíssimo de enfrentar um capitalismo selvagem, o trabalho degradante, a exploração do trabalho infantil”. Para ele, a reforma não diminuiu a importância do Direito do Trabalho no Brasil.
Atualmente, segundo ressaltou o ministro aposentado, há juízes que proferem decisões simplesmente invocando princípios. “Inclusive, há decisões que, invocando os mesmos princípios, produzem resultados completamente diferentes. E é o que eu temo que pode acontecer com essa norma que está para entrar em vigor. Porque há aqueles que, invocando princípios constitucionais (da dignidade da pessoal humana, dos direitos humanos, por exemplo), tendem a declarar tudo inconstitucional”, frisou.
De acordo com o ministro aposentado, não é razoável que um trabalhador, individualmente, possa ajuizar ação na Justiça do Trabalho pleiteando nulidade de cláusula coletiva. “Quem deve ter legitimidade para propor isso é o Ministério Público do Trabalho e não o trabalhador individualmente”. Ou o próprio sindicato, segundo defendeu, pode ir a juízo dizer que não celebrou o acordo, que houve vício de vontade ou fraude. Mas simplesmente pedir a nulidade da cláusula dizendo que ela ofende norma legal não é razoável. E mais, para o palestrante, se a questão é de direito coletivo, a competência para apreciar a matéria não deveria ser do juiz de primeiro grau, mas do Tribunal do Trabalho, por se tratar de decisão que pode vir a influenciar toda a categoria. “Esses são dois aspectos que ainda podem ser adotados e que trariam uma maior garantia para a validade do acordo ou convenção coletiva de trabalho”, frisou o ministro aposentado.
Prevalência do acordado - Primeiramente, o palestrante observou que o artigo 611-A da lei da reforma faz uma enumeração apenas exemplificativa (e não enumerativa) das questões em que a convenção e o acordo coletivo de trabalho terão prevalência sobre a lei, em razão do termo “entre outros”, existente no “caput” do dispositivo. Assim, poderá haver acordos coletivos contra a lei, em vários assuntos que não estão ali dispostos. Isso porque, o artigo 611-B, diz sobre o que, “exclusivamente” não poderá prevalecer sobre lei: “se é exclusivamente, permitiu-se que tudo o que ali não está previsto poderá ser objeto de negociação coletiva e prevalecer sobre a lei”, esclareceu.
Horas extras - O palestrante citou o primeiro item do artigo 611-A, que diz respeito às horas extras. Ele frisou que a CR/88 diz expressamente que é garantida aos trabalhadores a jornada de 8 horas, salvo acordo ou convenção coletiva. Assim, não se pode pactuar horas extras em caráter permanente, por meio de acordo individual de trabalho. “A prestação de horas extras permanentes é muito maléfica ao trabalhador, no aspecto social, familiar etc. No entanto, até hoje, a Justiça não declarou inconstitucional o art. 59, que permite, por acordo individual, a prestação de horas extras em caráter permanente”. Quanto a esse tema e quanto ao abuso de horas extras, o ex-presidente do TST citou que uma lei de 2015 permite que o motorista rodoviário faça até 4 horas extras por dia. Segundo ele, um absurdo, que coloca em risco a vida do motorista e de muitas outras pessoas.
Intervalo - Passando a falar do item 3, intervalo intrajornada, Abdala lembrou a questão dos motoristas urbanos do Rio de Janeiro, que diminuíram a jornada de 8 para 7 horas, sem prejuízo do salário e, no final de cada viagem, tinham 10 minutos de intervalo. Mas veio o Tribunal e declarou a nulidade da cláusula. O sindicato e os empregados disseram que o sistema era bom para eles, porque iam embora mais cedo e o intervalo de uma hora não interessava a eles. Chamou-se até o Ministério do Trabalho para fazer uma exceção à súmula, com parecer do desse órgão, mas não teve jeito: a negociação foi cancelada. Agora veio uma lei que permite o intervalo dos motoristas rodoviários. Na verdade, em certas circunstâncias, deve-se ter o intervalo de uma hora, dependendo da natureza dos serviços. Mas em outras, cabe um intervalo menor, e quem deve decidir isso são os trabalhadores. Segundo ponderou, vários países, como Alemanha, México, EUA, Inglaterra, Canadá e Japão, adotam intervalos menores e nem a OIT estabelece o intervalo de uma hora.
Cargo de confiança - Quanto ao item que trata de plano de cargos e salários e funções compatíveis com a condição pessoal do empregado, bem como identificação de cargos que se enquadram como funções de confiança, o palestrante lembra que a caracterização dos cargos de confiança é um dos pontos que mais provocaram ações trabalhistas. Cabia ao juiz averiguar, geralmente com prova oral, se o reclamante tinha subordinados, se podia liberar empréstimo bancário etc. Agora a norma diz que o acordo coletivo pode definir o que é cargo de confiança, desde que discrimine as atribuições dos cargos considerados de confiança. Para o palestrante, isso deverá reduzir bastante o número de ações na JT sobre questões que envolvem cargo de confiança.
Insalubridade - Ao falar sobre enquadramento do grau da insalubridade, o palestrante pontua que esse item, que permite norma coletiva contra a lei relativamente ao grau de insalubridade, contradiz o item XVII do artigo 611-B, que proíbe a realização de acordo coletivo quanto ao direito previsto em normas de saúde, segurança e higiene de trabalho inclusive aqueles previstos nas Portarias do Ministério do Trabalho que estabelecem o grau de insalubridade. Portanto, esse ponto, no entender do ministro aposentado, merece uma reconsideração.
Redução de salário - Por fim, os parágrafos 3º e 4º do artigo 611-A dizem que quando se reduzir o salário há de se garantir o emprego pelo prazo de vigência da convenção, o que o palestrante considera uma garantia mínima e óbvia.
Negociação vedada - Em seguida, ele passou à análise do artigo 611-B, que fala sobre o que não pode ir contra a lei na convenção ou acordo coletivo.
Férias - A lei 13.47/2017 proíbe que as férias sejam em menos de 30 dias. O que se permitiu com a reforma foi apenas uma repartição de maneira um pouco mais flexível que antes. Nesse ponto, o ministro ressaltou que não são válidos acordos que reduzem direitos quanto às férias previstos na CLT, como por exemplo, que estas devem ser pagas adiantadamente. A lei da reforma é clara quanto à ilicitude de acordo que suprima ou reduza direitos relativos às férias. “O que pode ser acordado sobre as férias é apenas o que não está na lei”, frisou.
Redução do intervalo - Já o parágrafo único do artigo 611-B diz que a regra sobre a duração do trabalho e intervalos não são consideradas como norma de saúde, segurança e higiene do trabalho para os fins de disposto no artigo. Para o palestrante, esse parágrafo veio ratificar a possibilidade de acordo para a redução do intervalo, dizendo que ele não diz respeito a segurança do trabalho.
Empregados de nível superior - O artigo 444 da lei diz que “as relações contratuais podem ser objeto de livre estipulação das partes interessadas, em tudo quanto não contravenha às disposições de proteção ao trabalho, aos contratos coletivos que lhes sejam aplicáveis e às decisões das autoridades competentes”. E, de acordo com o parágrafo único da regra, essa “livre estipulação se aplica às hipóteses previstas no artigo 611-A, com a mesma eficácia legal e preponderância sobre os instrumentos coletivos, no caso de empregado portador de diploma de nível superior e que perceba salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral da Previdência Social”. Isso, segundo o palestrante, é porque a doutrina já falava, há muitos anos, da necessidade de se ter regras trabalhistas diferentes para o trabalhador humilde e de pouco estudo e para os altos empregados, já que não se podia interpretar de maneira igual circunstâncias completamente diferentes, tendo que se avaliar sempre a boa-fé. Agora, com a nova lei, tendo nível superior e ganhando cerca de R$11.000,00, o empregado poderá fazer pactuação contra a lei e contra acordo coletivo da sua categoria. “Essa regra é um passo adiante para abranger muitos profissionais esclarecidos e de alto nível, como médicos e engenheiros, que pactuam certas condições de trabalho tendo plena ciência do que fazem, e depois de quatro ou cinco anos, vão à JT pleitear diferenças milionárias”, ponderou.
Demissão em massa - O artigo 477-A estipula que: “As dispensas imotivadas individuais, plúrimas ou coletivas equiparam-se para todos os fins, não havendo necessidade de autorização prévia da entidade sindical ou de celebração de convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho para sua efetivação.” Essa disposição causou estranheza ao palestrante, pois ao dispensar o acordo coletivo para a demissão em massa, não é coerente com clara intenção da reforma em prestigiar a pactuação coletiva.
Duração da CCT ou ACT - O artigo 614 diz que não será permitido estipular duração de acordo ou convenção coletiva superior a dois anos. Para o palestrante, a regra aborda um ponto delicado, sobre a proteção exagerada dada ao trabalhador, o que acaba sendo prejudicial a ele. Quando se diz que as normas coletivas se incorporam ao contrato de trabalho, corre-se o risco de prejudicar os trabalhadores, porque o empregador desiste de oferecer a vantagem econômica que poderia, porque não sabe como estará a economia daqui a quatro ou cinco anos.
ACT prevalece sobre CCT - Já o artigo 620 diz que as condições estabelecidas em acordo coletivo prevalecerão sobre a convenção coletiva. “Achei absolutamente acertado, porque a empresa está mais perto dos problemas de seus empregados e de seus próprios problemas para negociar condições de trabalho”, conclui o palestrante, encerrando a sua fala.
Fonte: TRT 3ª Região, por Ministro Vantuil Abdala:, publicado 16/08/2017 08:08, modificado 16/08/2017 09:12 (Síntese da palestra do Seminário Reforma Trabalhista).

References: artigo 611
 artigo 611
 artigo 611
 artigo 611
 artigo 611
 artigo 611
 artigo 611
 artigo 444
 artigo 611
 artigo 477
 artigo 614
 artigo 620