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Timestamp: 2017-12-17 07:52:35+00:00

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ufrgsprocotas | Page 2
Por Juremir Machado da Silva – jornalista, escritor e professor da Pontífice Universidade Católica – Publicado no Jornal 'Correio do Povo' em 02/07/2007.
“Na semana passada, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul aprovou
o regime de cotas raciais. É um grande avanço. E um grande retrocesso.
O avanço é claro porque só com medidas de força como essa os negros
terão realmente acesso às universidades. O retrocesso se dá em relação
ao discurso iluminista da igualdade para todos e da anulação da raça
como critério de distinção social. Até no racismo o Brasil é um país
original. Não se proíbe um negro de fazer algo. Tudo é permitido. Só
lhe falta a oportunidade. Essa falta eterna de oportunidade se tornou a
maneira mais cômoda de manter tudo sem qualquer alteração. Não haveria
necessidade de cotas se a sociedade, por meio de seus governos,
provesse ensino básico de qualidade para todos e criasse vagas na
universidade para todos os jovens aprovados num exame de saída do
ensino médio. A França não tem cotas pelo simples fato de que não tem
É muito mais fácil transformar a origem do problema
em justificativa: a pobreza. Os negros não ficariam fora da
universidade por serem negros, mas por serem pobres. Esse sofisma
absolve o Brasil de crime de racismo, transfere o problema social para
os indivíduos e possibilita que nada seja feito. Os governos, por outro
lado, em vez de modificarem a estrutura injusta, jogam o problema de
volta para suas vítimas. Em lugar de resolver o problema do ensino
básico e das vagas nas universidades, sugerem que a massa se engalfinhe
e divida as vagas do jeito que der. Aí tem de ser na base da porrada.
Por exemplo, pela cor da pele. Raças não existem. É um conceito
antropológico ultrapassado. Tudo é cultural. Ninguém pensa melhor ou
corre melhor porque é branco, negro ou amarelo. Mas o preconceito
racial persiste e muda de pele para continuar.
qualidade para todos e vagas nas universidades significa redistribuição
de renda. Algo que a elite brasileira não quer nem ouvir falar. Está
bom assim. O Brasil é tão original que transformou o preconceito racial
em questão de classe social. O sujeito é excluído por ser pobre, não
por ser negro. Ora, como não se pretende eliminar a pobreza
redistribuindo renda, os pobres vão continuar pobres e os negros vão
continuar negros pobres. Salvo se meterem o pé na porta com mecanismos
como as cotas. Os inimigos das cotas defendem que o vestibular é o
regime do mérito. Bobagem. Não há mérito algum em ganhar de quem não
teve oportunidade de se preparar. O mérito só há realmente quando
resulta da disputa entre iguais, entre aqueles que tiveram chances
equivalentes de preparação. O vestibular é uma armadilha de uma
sociedade hipócrita para jogar jovens contra jovens de maneira a que a
conta a ser paga pela sociedade e pelos governos em educação seja
menor. O custo social, claro, é mais alto.
O Brasil misturou as
raças quando era “normal” separá-las. Hoje, para que fiquem realmente
juntas, vê-se obrigado a separá-las por critérios raciais ou as
universidades continuarão totalmente abertas a negros que nelas não
conseguem entrar. Somos uma das sociedades mais hipócritas do mundo.
Praticamos um racismo dissimulado, matreiro e confortável. Negro é bom
pra jogar futebol e fazer música. As cotas poderiam desaparecer num
passe de mágica. Bastaria promover uma revolução educacional em três
pontos: redistribuição de renda e investimento maciço em escolas
públicas; fim do vestibular e instauração de um exame de saída do
ensino médio, com acesso à universidade de todos os aprovados; mais
vagas nas universidades públicas e mais bolsas para estudantes carentes
em universidades privadas.
È tudo o que o Brasil branco e rico
não quer fazer. Então, o jeito é ampliar as cotas. Aqui vão algumas:
cotas de 30% para parlamentares honestos (quase 300, de um total de
513, sofrem algum tipo de processo ou de investigação no Congresso
Nacional); cotas de 10% (não convém pedir muito no começo) de
governantes eficazes e cumpridores das suas promessas de campanha;
cotas 1% (vejam que é um índice relativo, modesto) de juízes dispostos
a pôr na cadeia criminosos do topo da pirâmide; cotas de 0,5% de
parlamentares decididos a mudar a legislação para acabar com a
impunidade dos Maluf, dos Calheiros, dos Collor, dos Dirceu e outros.
Por fim, cota de um bom meio-campista no time do Inter.”
Os Malvados – Nós ajudamos…
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Afropress – 03/07/2007
professor Paulo Roberto da Costa Kramer, do Curso de Mestrado em Ciências
Políticas, da Universidade de Brasília (UnB) foi considerado culpado pela
Comissão processante que apurou a prática de racismo, e punido com pena de
suspensão de trinta dias, convertida em multa de 50% dos seus vencimentos.
A pena de 30 dias, segundo Ato da Reitoria 998/2007, assinado pelo reitor
Timothy Mulholland datado de 29 de junho, começou a ser cumprida a partir
desta terça-feira, 02 de julho. O reitor acatou integralmente o parecer da
procuradora federal Cíntia Tereza Gonçalves Falcão, que também posicionou-se
pelo envio do caso ao Ministério Público Federal para apuração, em processo
criminal, das afirmações de cunho racista que teriam sido feitas por Kramer.
É a primeira vez, em toda história da UnB, que um professor é acusado e
punido por crime de racismo. O estudante Gustavo Amora, que denunciou o caso,
disse que a decisão da Universidade "é um fato histórico.". Kramer foi
considerado culpado por ter se referido a negros como "crioulada" e chamado o
estudante Gustavo Amora de "negro racista" e membro da "ku klux klan negra",
em reação às denúncias do estudante. As referências depreciativas ocorreram
numa aula no início do ano passado. Ele negou que as expressões tivessem
caráter depreciativo.
A procuradora Cíntia Falcão,
porém, entendeu que Kramer contrariou vários artigos da Lei 8.112 (que trata
do regime jurídico do funcionário público federal), bem como praticou
comportamento previsto no artigo 20 da Lei 7.716/89 (Lei Caó), praticar,
induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia,
religião ou procedência nacional .
A comissão processante, presidida pelo
professor Alexandre Bernardino, do Departamento de Direito, e integrada pelos
professores Carla Costa Teixeira e José Leonardo – respectivamente, dos
Departamentos de Antropologia e Física – foi constituída em julho do ano
passado e tinha o prazo de 30 dias, prorrogáveis por igual período. A entrega
do relatório, contudo, só aconteceu no dia 11 do mês passado, quase um ano
depois. A demora levantou suspeitas de que o caso "terminaria em pizza" pelo
fato do acusado ser pessoa influente e que acabaria contando com uma certa
espírito corporativo – comum nesses casos.
Segundo a Comissão, ficou comprovada conduta de Kramer em desacordo com com o
artigo 116, incisos II (ser leal às instituições que servir); III (observar as
normas legais e regulamentares) IX (manter conduta compatível com a moralidade
administrativa) , XI (tratar com urbanidade as pessoas) e o artigo 117, inciso
XV, (proceder de forma desidiosa) todos da Lei 8.112/90."
entendeu também que o servidor praticou comportamento descrito no artigo 20
(praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor,
etnia, religião ou procedência nacional) da Lei 7.716/89 – (redação dada pela
Lei n. 9.459/97).
Ao contrário dos trabalhos da Comissão, o Relatório
tramitou em tempo recorde. No dia 11 foi entregue ao reitor; no dia seguinte –
dia 12 – foi despachado à Procuradoria; no dia 20, a procuradoria emitiu
parecer ; e no mesmo dia 20 saiu o despacho final do reitor aprovando
parcialmente o Relatório da Comissão processante e integralmente o parecer da
O estudante Gustavo Amora,
do Curso de Mestrado em Ciências Políticas, que denunciou o caso, disse que
passou um ano de sofrimentos e perseguições. "Me acusaram até de com a
denúncia ter arrumado um factóide para me promover. A decisão da Reitoria fez
justiça e mostrou que os que me atacaram estavam errados", afirmou.
ressaltou ter sido esta a primeira vez na Universidade em que "um ato de
racismo é investigado e punido" e destacou a importância da criação de uma
Ouvidoria para Crimes Raciais na Universidade, para que se evite a demora na
apuração de casos desse tipo.
Por Marcito Galvão
da Luz, pesquisador, educador em Alvorada/RS e mestrando em Ciência
Política na UFRGS.
vez aprovada as cotas étnico-sociais para a UFRGS, vigorando a partir
do Vestibular de 2008, é de se esperar uma guerra jurídica e a presença
de muitas contestações. De qualquer forma, o primeiro passo para a
superação de um estado conservador foi dado. Nesse sentido, aproveitamos
este espaço para sistematizar algumas questões que, em forma de mitos,
têm substanciado alguns argumentos anti-políticas afirmativas e, principalmente,
anti-cotas.
1) Enquetes em programas
televisivos e de rádio têm demonstrado que, aproximadamente 80% das
pessoas têm se posicionado contra as políticas afirmativas. Isso significa
que a maioria é, efetivamente, contra?
De jeito algum! Na hipótese
mais otimista, as enquetes televisivas ou apresentadas em programas
de rádio têm por objetivos a produção de notícia, a fabricação
da unanimidade e refletem o pensamento do(a) (tele)espectador(a). Essa
linha de raciocínio é convergente com o Controle da Opinião Pública
de Nilson Lage. E reflexões importantes sobre o tema foram escritas
por Pierre Bourdieu, em A Opinião Pública Não Existe, no qual
faz duras críticas à opinião dos(as) jornalistas, pode ser acessada
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/12/341663.shtml.
2) A maioria dos(as)
estudantes é contrário às cotas étnico-sociais?
Esse é o segundo mito.
A resposta é negativa, pois a formulação da pergunta pressupõe rejeição
às cotas étnicas e, ao mesmo tempo, às cotas sociais. Além disso,
é preciso considerar que as discussões sobre o tema perduraram por,
aproximadamente, cinco anos. Um mecanismo que poderia ter sido viabilizado,
durante este período, é a realização de um referendo, contendo uma
ou, para obter maior precisão nos resultados, duas questões. Outra
alternativa poderia ser a realização de pesquisa de opinião, com
amostragem probabilística ou por cotas representativas de cada segmento
da Comunidade Universitária. A partir dela poderíamos ter sabido,
com maior exatidão, quais e onde estariam os focos de apoio e resistência
às cotas étnico-sociais, considerando todas as justificativas para
tal e, principalmente, ter proporcionado condições para que uma das
funções de pesquisa de opinião emergisse: o desencadear debates.
Também é preciso considerar que as discussões transcendem a Universidade,
mesmo se o referendo ou a pesquisa de opinião tivessem sido levados
a cabo. Além disso, de qualquer forma o “lado” perdedor poderia
contestar o resultados obtidos.
3) As políticas afirmativas,
especialmente as cotas étnico-sociais, são um ataque à igualdade?
Negativo. Trazemos à
baila citação de Sabrina Moehlecke (2002), tal como constante na Proposta
para Implantação de Programa de Ações Afirmativas na UFRGS:
ano que é promulgada a nova Constituição, que traz
em seu texto novidades como a proteção ao mercado
de trabalho da mulher, como parte dos direitos sociais,
e a reserva percentual de cargos e empregos públicos
para deficientes, o Título II . Dos Direitos e Garantias
Fundamentais, capítulo II . Dos Direitos Sociais, Artigo
7º, estabelece como direito dos trabalhadores a proteção
do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos
específicos, nos termos da lei. E o Título III . Da Organização
do Estado, capítulo VII . Da Administração Pública,
no seu Artigo 37, estabelece que a lei reservará percentual
dos cargos e empregos públicos para as pessoas
portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão.
Esse trecho é interpretado por alguns juristas como
prova da legalidade das ações afirmativas. Esse conjunto
de iniciativas, no âmbito do Poder Público, indica um parcial
reconhecimento da existência de um problema de discriminação
racial, étnica, de gênero e de restrições, em relação
aos portadores de deficiência física no país sinalizado
por meio de algumas ações. Entretanto, estas ainda
são muito circunstanciais e políticas mais substantivas
não são implementadas. (2002, p.66)
os dados existentes, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar
de 2004, no Rio Grande do Sul a população negra foi mensurada em de
12,8% e, apenas na Região Metropolitana de Porto Alegre, foi calculada
em 14,5%. O analfabetismo da população branca é de 4,9%; da negra,
9,3 e, entre pardos/as, 10%. O analfabetismo funcional foi contabilizado
em 15,5% para brancos, 23,4% para negros e 26,9% para pardos. Os reflexos
dessas estatísticas são evidentes no mercado de trabalho: pessoas
ocupadas brancas possuem, em média, 7,9 anos de estudo e percebem,
em média, 3,5 sm; pessoas ocupadas negras possuem, em média, 6,5 anos
de estudo e percebem 2,2 sm. No entanto, sabe-se que a média pode apresentar
distorções, pois a partir dela todo mundo tende a ser bom, perfeito(a)
e maravilhoso(a). Pode-se analisar os problemas que a média no segundo
capítulo de Como Mentir com a Estatística, por Darrell Huff,
http://www.usuarios.unincor.br/nhtlemes/cpu/mentir.asp.
dados a seguir são referentes ao Projeto Conexão de Saberes, obtidos
no primeiro semestre de 2006, e coletados obrigatoriamente entre todos(as)
que ingressaram na UFRGS. Quando questionados(as), 91,52% declarou-se
branco, 1,64% preto, 4,26% pardo, 0,82% amarelo, 0,45% indígena e 1,31%
não informou. Pretos, pardos e indígenas somam, portanto, 6,35% (n=2.677).
Sobre o tipo de estabelecimento de origem, a escola particular atingiu
maioria considerável (62,2%) e a escola pública totalizou 36,8% das
respostas. Exatamente por isso é que as cotas sociais são importantíssimas,
pois a distorção é muito grande e os resultados mostram, inequivocamente,
que a lógica do vestibular reproduz a lógica da concentração e das
preciso considerar que o perfil dos(as) estudantes da UFRGS refletem
as profundas desigualdades, sobretudo as de origem econômica. Nos termos
de Charles Wright Mills no último capítulo d’A Elite do Poder,
trata-se de alta imoralidade, cuja aceitação passiva é característica
da sociedade de massas. Os resultados da pesquisa acima apresentada
também indiciam que pode haver correlação entre cor de pele, tipo
de estabelecimento de origem e curso em que o(a) estudante se encontra
– talvez daí a resistência pelas cotas nos cursos mais disputados,
tais como medicina, direito, administração, psicologia, e por aí
vai. Se os dados referentes aos fatores étnicos das minorias apontadas
refletem as desigualdades econômicas, é de se esperar que esses(as)
se encontram em cursos menos disputados e em relativa compatibilidade
com seu condicionamento econômico. Para saber disso com a exatidão
necessária, seria preciso obter o banco de dados original e fazer cruzamentos,
seguido de testes de qui-quadrado e regressões. Esse tipo de análise
poderia contribuir para destruir o mito de que as cotas tenderão a
beneficiar a estudantes financeiramente abastados(as) e que, ao mesmo
tempo, estudam em escolas públicas.
4) As cotas étnico-sociais
aumentarão o preconceito, sobretudo as práticas racistas?
Da mesma forma que Adam
Przeworski demonstrou, em Capitalismo e Social-Democracia, a
lição histórica de que não se faz profundas transformações a partir
do voto, é preciso considerar que as práticas racistas também não
podem ser forjadas por decreto. Nesse sentido, estamos única e exclusivamente
no terreno da cultura.
5) Ou, inversamente:
as cotas, especialmente as étnicas, representam o enfrentamento ao
Por motivos explicitados
na questão anterior, mais uma resposta negativa. Na melhor das hipóteses,
ela pode ser positiva no sentido de que pode proporcionar, indiretamente,
a convivência e a interação entre pessoas de origens étnicas e com
trajetórias diferentes. Especificamente, trata-se de enfrentamento
ao desafio da tolerância.
6) As cotas étnico-sociais
são políticas públicas incompatíveis com o reforço do/no Ensino
Negativo. As políticas
afirmativas são medidas emergenciais com o objetivo de compensar, em
curto prazo, uma geração a partir do reconhecimento de um problema.
Contudo, não desconsideram o necessário reforço do Ensino Fundamental,
focalizando principalmente a qualidade, e as políticas públicas direcionadas
à melhoria na educação tendem a apresentar resultados apenas em longo
prazo. Para o enfrentamento deste problema estrutural, talvez seja necessária
ampla reforma educacional. Ao mesmo tempo, mais mecanismos de controle
sobre o poder. Em investigação do próprio autor deste texto sobre
os principais problemas existentes em Alvorada/RS, cidade da Região
Metropolitana de Porto Alegre e com menor PIB per capita do Rio
Grande do Sul, a educação aparece como décima prioridade entre eleitores,
o que abre precedentes para que tais políticas públicas sejam mais
episódicas do que sustentáveis, nessa cidade. Daí pode-se compreender
as tentativas de sloganização, como se alguns partidos políticos
fossem proprietários da “escola cidadã”.
7) A mídia pautou
o debate sobre as cotas étnico-sociais?
Essa dúvida surgiu a partir de artigo de Bruno Lima Rocha, doutorando
em Ciência Política na UFRGS, e foi publicada em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=63279. O argumento central é o de que existe tolerância
ao pensamento de esquerda nas instituições de Ensino Superior, mas
dificilmente a presença popular na Universidade. Porém, pode-se levar
em conta que a tentativa de pauta do tema, pela imprensa gaúcha, se
deu de maneira silenciosa. Isso tem um significado bastante claro, revelador
de uma das limitações dos estudos que relacionam mídia e política:
nem sempre essa relação pode ser feita a partir do conceito de visibilidade,
pois a maior parte das principais decisões políticas é invisível.
Além disso, havia um consenso no Conselho Universitário, relativo
à necessidade de implantação de políticas afirmativas na Universidade.
É o que pode-se depreender a partir da análise das discussões que
constam nos documentos da versão anterior à aprovada, disponíveis
em http://www.ufrgs.br/daef/Cotas.html. Nessa discussão, o voto divergente não recusa
a necessidade de ações afirmativas na Universidade. Argumenta que,
considerando os dados referentes ao Vestibular de 2006, o modelo de
cotas afetará quantitativamente o grau de disputa nos cursos mais concorridos,
especialmente a Medicina.
Algumas imagens do dia 29 de junho de 2007, o dia em que a UFRGS se dobrou à história, o dia que marca o início dos dias
em que as ontologias dos negros e dos indígenas serão escritas com suas próprias penas, com suas próprias cores, com suas
próprias e, saídas de suas próprias vozes, farão ecoar longe suas esperanças, doravante realidades.
Não adiantaram as manobras contrárias, as pichações racistas, os argumentos desqualificantes. O movimento em favor das ações afirmativas venceu!
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul dá um passo importante no combate ao racismo e às desigualdades sociais, étnicas e políticas que ora vigoram na sociedade brasileira. Por 43 votos a favor e 27 contra foram aprovadas as cotas étnico-raciais e sociais na Universidade. A proporção estabelecida foi de 15% para auto-identificados negros, 15% para egressos de escolas públicas e 10 vagas para indígenas.
O Movimento Estudantil Liberdade e a conselheira Claudia Thompson prometeram recorrer judicialmente do resultado democrático e legítimo da votação no CONSUN. A imprensa gaúcha igualmente continuou dando voz aos opositores e procura deslegitimar a conquista. Pelo menos um grupo de skinheads foi visto rondando as proximidades da reitoria durante a tarde.
Por outro lado, autoridades, movimento negro, movimento estudantil, movimento indígena, categorias sindicais, movimentos sociais e uma série de outras organizações da sociedade civil, sem contar com os apoiadores espalhados por todos os rincões, festejaram essa vitória histórica. Na comunidade da UFRGS do Orkut vários tópicos discutiam a aprovação das cotas; ao lado das manifestações de apoio, centenas de manifestações contrárias e racistas afirmavam que "não fariam trabalho em grupo com cotista" ou que "nem trote dariam em cotista. Porque trote é para quem estuda".
No final, os manifestantes deram a volta no campus central soando os tambores e anunciando a boa nova!
COTAS SÃO UMA REALIDADE NA UFRGS!
Negros, índios, estudantes e ativistas comemoram no hall da reitoria.
Zaqueu Key Claudino, professor bilíngüe Kaingang comenta a importância da existência das ações afirmativas para seu povo.
Por Marden Müller, estudante de filosofia. Publicado em O Ôlho-Dínamo em 28/06/2007.
Hoje à tarde ouvi, em um programa de rádio, a opinião de alguém, uma
moça, radialista, que se declarava contra as cotas raciais sob a
alegação de que esse não seria o melhor modo de "ajudar" os pobres.
Alinhava-se, portanto, e de maneira bem turva, com os partidários de
cotas exclusivamente sociais (e aí onde eu digo "exclusivamente" eles
de certo dizem "inclusivamente").
Essa pessoa não sabe o que se
passa no debate sobre políticas de igualdade racial. Ela não sabe, pra
começo de conversa, que ninguém precisa "ajudar" os negros, porque os
negros se defendem bem sozinhos. A proposição da política afirmativa
pró-cotas é justo o caso: os diversos militantes negros aí envolvidos
não se parecem em nada com pobres coitados à espera de uma mão amiga;
eles, ao contrário, lutam por si próprios, imagine só!
(Ah, então
eu entendi… Mas então, mais incrível ainda…! Quando eu iria sonhar
que um negro estivesse disposto a se declarar abertamente negro, só pra
se ajudar?)
De uma vez por todas: declarar-se negro não é um
requisito, mais ou menos extravagante, mais ou menos constrangedor
–mas um requisito, em todo caso– para entrar na fila da benesse, na
fila da caridade, na fila do privilégio! Muita confusão, pois é justo o
oposto. Declarar-se negro é o ponto da política afirmativa: "negros
existem, somos nós mesmos, e de hoje em diante eu me sento nesta
cadeira, ela naquela, ele naquela outra, etc.". São muitos e muitos
passos para adiante –para longe!– daquela porta dos fundos através da
qual costumamos permitir a passagem de certas anomalias normais, como
craques negros de futebol e músicos negros. (Lembro agora de um grande
texto do Iagê sobre a indústria da bola. Recomendo-o fortemente.)
que os imitemos, os militantes negros, e nos afastemos também da
perversa porta da caridade, da qual somos os porteiros; abandonemos,
pois, o papel de catequizadores inveterados e de tábuas de salvação das
minorias, dos desprivilegiados. E, em troca, passemos a levá-los a
sério, as minorias e os desprivilegiados. Não por caridade, mas porque
é a única forma de escaparmos ao constrangimento que é supor-se
caridoso, de fazer do outro um acidente de percurso (uma paisagem) que
atesta e dá fé de nossa bondade. Não conheço nada mais ridículo.
Um último recado à moça do rádio: ô menina! vai ler a Palestina!
aspectos relativos às ações afirmativas, especialmente cotas raciais, é
oferecer argumento favoráveis à sua adoção e uma reflexão sobre o
assunto com a sociedade. É um exercício da democracia, respeitar a
diversidade étnico-racial da nossa população.
implementação das cotas varia de uma Universidade para a outra, de
acordo com sua organização interna. Para tanto foi criado uma Comissão
Especial de Implementação de Ações Afirmativas dentro do Conselho
Universitário (CONSUN) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) que formulou uma proposta de Cotas Raciais para negros e índios e de Cotas Sociais para estudantes oriundos de escolas públicas para vigorar a partir do próximo Concurso Vestibular, em 2008. No entanto a possibilidade de apreciação de cotas no centro acadêmico foi adiada para o final de junho de 2007. Integrantes da comunidade universitária
sugeriram alterações na proposta inicial. A luta agora não seria mais
por Cotas Raciais e Cotas Sociais, mas apenas Cotas Sociais e dentro
dessas cotas as Raciais. Então para concorrer com o critério de Cotas
na UFRGS não bastaria ser negro e sim negro de escola pública. É um
retrocesso na história do país, desconstrói toda a luta de um povo
brasileiro, uma conquista de segmentos do movimento negro que reivindica os seus direitos.
racismo à brasileira persiste na nossa sociedade, pois a segregação
racial nunca foi adotada legalmente no Brasil. Essas razões fazem com
que as reivindicações de movimentos sociais, como adoção de políticas
públicas para afro-brasileiros pareçam absurdas para grande parte da
população. O que a maioria da população talvez não saiba ou não quer
saber é que ação
afirmativa é um conjunto de ações privadas e ou políticas públicas que
tem como objetivo reparar os aspectos discriminatórios que impedem o
acesso de grupos sociais às mais diferentes oportunidades. É uma medida urgente e ao mesmo tempo temporária, passível de avaliação constante para o seu aperfeiçoamento.
luta é por uma Diversidade na Universidade através de Cotas Raciais e
Cotas Sociais separadas, uma não pode excluir a outra. O país necessita
de um progresso e não de um retrocesso. E a maneira encontrada para
amenizar os erros históricos é com este tipo de ação afirmativa. Cotas
Raciais Já!
Às 13:44 os conselheiros do CONSUN informaram que a primeira emenda, que introduz as cotas étnico-raciais e sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi APROVADA para candidatos autodeclarados negros, indígenas e egressos de escolas pública!! Ainda faltam serem aprovadas todas as outras emendas referentes às porcentagens.
Graças ao poder da pressão popular e os anos de luta ativa de centenas de pessoas engajadas na construção de uma universidade mais justa, no ano as coisas vão ser diferentes. Os manifestantes festejam na reitoria com tambores e gritos de euforia!!
COTAS SÃO UMA REALIDADE NA UFRGS!!
ACABOU A REGALIA!!

References: artigo 20

artigo 116
 artigo 117
 artigo 20
 Artigo
7
 Artigo 37