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Timestamp: 2020-08-13 20:19:51+00:00

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As especulações metapsicológicas de Freud: Leopoldo Fulgencio | Sigmund Freud | Psicanálise
As especulações metapsicológicas de Freud: Leopoldo Fulgencio
Este artigo pretende analisar a natureza e a função da teoria metapsicológica na psicanálise freudiana. Mostra-se que a teoria psicanalítica de Freud é composta por uma parte empírica – a sua psicologia dos fatos clínicos – e outra, especulativa – a metapsicologia.
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As especulações metapsicológicas de Freud *
Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Membro do GFPP e do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
E-mail: ful@that.com.br
Resumo: Este artigo pretende analisar a natureza e a função da teo-
ria metapsicológica na psicanálise freudiana. Mostra-se que a teoria
psicanalítica de Freud é composta por uma parte empírica – a sua
psicologia dos fatos clínicos – e outra, especulativa – a metapsicologia.
Esta última é considerada por ele uma superestrutura especulativa
de valor apenas heurístico, passível de ser substituída por outras su-
perestruturas do mesmo tipo. Sustenta-se, ainda, que sua
metapsicologia é fruto do método especulativo, cujos fundamentos
foram elaborados por filósofos e epistemólogos anteriores a Freud,
entre eles Immanuel Kant e Ernst Mach. O artigo finaliza com algu-
mas considerações sobre o futuro da teorização do tipo
metapsicológica, explicitando críticas feitas à metapsicologia
freudiana, tanto por filósofos quanto por psicanalistas, e apontando
para a perspectiva, aberta por Donald W. Winnicott, de uma psica-
nálise sem metapsicologia.
* Este artigo corresponde a uma apresentação sintética dos resultados obtidos em
minha tese de doutorado, O método especulativo em Freud, acrescida de algumas con-
siderações que indicam a continuidade e as conseqüências desse tipo de interpreta-
ção histórico-crítica da psicanálise. A perspectiva aqui desenvolvida se insere na
linha de pesquisa do Grupo de Pesquisas em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP)
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP, funda-
da a partir dos trabalhos de Zeljko Loparic. Agradeço à Fapesp pelos recursos
disponibilizados para minhas pesquisas.
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Palavras-chave: metapsicologia, especulação, heurística, ponto de
vista dinâmico, pulsões.
Abstract: This article seeks to analyze the nature and function of
metapsychological theory in Freudian psychoanalysis. It will show
that Freudian psychoanalytic theory is composed of an empirical part
— the psychology of clinical facts — and a speculative part —
metapsychology. Freud considers this latter part as being a speculative
superstructure of value that is only heuristic, capable of being
substituted by other superstructures of the same type. This article
sustains the idea that this metapsychology is the fruit of speculative
method, whose foundations were elaborated by philosophers and
epistemologists before Freud, including Immanuel Kant and Ernst
Mach. The article concludes with considerations regarding the future
of metapsychological theorization, presenting criticisms of Freudian
metapsychology offered by both philosophers and psychoanalysts,
and pointing to the open perspective of Donald W. Winnicott of a
psychoanalysis without metapsychology.
Key-words: metapsychology, speculation, heuristic, dynamic point
of view, instincts [triebe].
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Para Freud,1 a psicanálise é uma ciência natural.2 Ele a define
como uma psicologia empírica que é, também, um método de tratamen-
to psíquico, o que significa dizer que suas teorias estão a serviço da reso-
lução de problemas empíricos específicos. 3 Para ele, essa ciência é com-
posta por teorias de tipos diferentes: uma empírica e outra especulativa.
A primeira corresponde ao conjunto de teorias que advêm dos fatos
empíricos (sua psicologia dos fatos clínicos) e a segunda a um conjunto de
conceitos especulativos sem conteúdo empírico determinado – tais como
os de pulsão, libido, aparelho psíquico –, ao qual ele mesmo denomina
1 As referências aos textos de Freud estarão sendo feitas a partir da classificação
estabelecida por Etcheverry (1988), que substitui a “Cronological Hand-List of
Freud’s Work” preparada por A. Tyson e J. Strachey (1956, International Journal of
Psychoanalysis, 37, 19). As traduções dos textos de Freud, a partir da Standard Edition
inglesa, são de minha responsabilidade. Cotejei minhas traduções com outras dis-
poníveis, em especial as da Amorrortu Editores, de Etcheverry, e as traduções fran-
cesas coordenadas por Laplanche (quando possível). Em alguns casos especiais con-
sultei, com a ajuda de um germanista, a versão original em alemão encontrada na
2 A defesa da psicanálise como uma ciência natural é reiterada em toda a sua obra,
tendo dedicado uma das Novas conferências introdutórias à psicanálise (Freud 1933a,
“Conferência 35: A questão de uma Weltanschauung”) a especificar o lugar
epistemológico desta. Ao fim da vida, ele exclamou com certa ironia: “Que outra
coisa ela seria!” (Freud 1940b, p. 283). Sobre o tema da cientificidade da psicanálise,
pode-se ler, por exemplo, Assoun (1981, 1993 e 1997) e Grünbaum (1984). Não
analisarei, neste artigo, a disciplina psicanalítica em termos da sua pertinência ou
não ao rol das ciências (naturais ou humanas), mas sim o método utilizado por
Freud na elaboração das suas teorias, considerando que a psicanálise pode e deve ser
avaliada epistemologicamente. Ao referir-me à epistemologia, tomo como referência
o sentido clássico do termo, considerando-a uma ciência que tem tentado estabelecer
critérios de julgamento que sejam válidos para as disciplinas que se pretendam
científicas, no horizonte da qual se inserem autores como Kant, Mach, Carnap,
Popper, Kuhn e mesmo Heidegger.
3 Cf., por exemplo, Freud 1913j (p. 165), 1916-17 (p. 15), 1923a (p. 235), 1940a
(“Prefácio”), em que a ênfase na aplicabilidade clínica de suas teorias é anunciada
logo no início dos textos definidores da psicanálise.
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Neste artigo pretendo analisar qual é a opinião de Freud no que
se refere à teoria metapsicológica, colocando em evidência, a partir de
seus textos e de suas referências, a origem do seu modo de proceder na
elaboração da teoria psicanalítica. Mostrarei que a articulação entre a
parte empírica e a parte especulativa de suas teorias se conjuga de forma
condizente com uma determinada maneira de conceber a pesquisa cientí-
fica, reconhecível como parte de sua formação intelectual. Com esse tipo
de entendimento será possível perguntar, ao final, sobre o futuro das
teorias metapsicológicas no desenvolvimento atual da psicanálise.
O projeto freudiano de fazer da psicanálise uma ciência natural
sempre esteve relacionado com suas atividades médicas, ou seja, com seu
objetivo de construir um método de tratamento de determinados distúr-
bios psicopatológicos para os quais outras propostas contemporâneas fa-
lhavam. Diz Freud sobre seu compromisso com a ciência médica:
[...] sou de opinião que o médico tem deveres não somente em rela-
ção ao doente, mas também em relação à ciência. Com relação à
ciência quer dizer, no fundo, com relação a muitos outros doentes
que sofrem ou sofrerão do mesmo mal. (1905e, p. 8)
Além desse compromisso médico, a inserção da psicanálise no
rol das práticas científicas também significa que ela deverá encontrar seus
fundamentos na experiência. Quando Freud enumera os pilares da psica-
nálise, ele não apresenta nenhum conceito especulativo, mas tão-somen-
te conceitos empíricos referidos diretamente aos fatos reconhecíveis na
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A hipótese de processos anímicos inconscientes,* o reconhecimento
da doutrina da resistência e da repressão [Verdrängung], o valor dado
à sexualidade e ao Complexo de Édipo são os conteúdos principais da
psicanálise e os fundamentos de sua teoria, e quem não está à altura
de subscrever todos eles não deveria se considerar psicanalista. (1923a,
Em outros momentos, Freud caracterizará a psicanálise em fun-
ção de um conjunto de conceitos e princípios compartilhados por um
determinado grupo, que ele denomina seus xiboletes. Xibolete é uma
palavra de origem hebraica, que significa espiga e tem o sentido figurado
de uma prova decisiva que faz julgar a capacidade de uma pessoa. Origi-
nalmente, como consta no Velho Testamento, trata-se de uma prova de
pertinência a um grupo que resulta numa questão de vida ou morte. A
tribo de Galaad havia vencido, numa guerra, a de Efraïm,
[...] porém os de Galaad se apoderaram dos vaus do Jordão, por onde
os de Efraïm haveriam de voltar. Quando algum dos fugitivos de
Efraïm chegava a eles, e dizia: Peço-vos que me deixes passar. Os de
Galaad lhe diziam: Acaso és tu Efrateu? E respondendo: Não sou.
Eles lhes replicavam: Pois dize: xibolete, E quando o outro dizia sibolete,
não podendo pronunciá-la com o mesmo acento, era imediatamente
preso e o degolavam na mesma margem do Jordão. E assim, naquele
tempo, foram mortos quarenta e dois mil homens de Efraïm. (Livro
dos Juízes 12, 6)
* Faço aqui uma distinção entre o reconhecimento clínico dos processos anímicos
inconscientes –o que também já havia sido feito por Charcot, Janet e Bernheim e
Lipps, a quem Freud reconhece tributo, e pode ser claramente visível na análise que
ele faz dos atos falhos nas lições de 1916-17 – e o inconsciente pensado em termos
metapsicológicos. Trata-se de diferenciar o inconsciente considerado num sentido
factual de um inconsciente especulativo, tomado como uma instância psíquica atra-
vessada por forças e energias.
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Para Freud, os xiboletes da psicanálise são: a diferenciação do
psiquismo em consciente e inconsciente (1923b, p. 13), a teoria dos so-
nhos (1933a, p. 7) e o Complexo de Édipo (1905d, p. 226). Ele mencio-
na, ainda, como fundamentos que caracterizam a psicanálise, sem
denominá-los xiboletes, a transferência e a resistência:
[...] a teoria psicanalítica é uma tentativa de tornar compreensível
duas experiências que sobrevêm, de maneira contundente e inespera-
da, quando se experimenta levar os sintomas mórbidos de uma neu-
rose às suas fontes de onde eles derivam naquilo que foi vivido [na
história de sua vida]: o fato da transferência e o fato da resistência. Toda
orientação de pesquisa que reconhece esses dois fatos e os toma como
pontos de partida de seu trabalho está no direito de se nomear psica-
nálise, mesmo se chega a outros resultados que não os meus. Mas
aquele que se lança a outros aspectos do problema e se afasta dessas
duas premissas escapará dificilmente da reprovação de atentado à
propriedade por tentativa de cópia fraudulenta, se persiste em no-
mear-se psicanalista. (1914d, p. 16)
Todos esses conceitos ou termos descritivos correspondem à parte
empírica que sustenta o edifício teórico da psicanálise freudiana – a sua
psicologia dos fatos clínicos. Por outro lado, há um outro conjunto de con-
ceitos que não são descritivos, que não têm na experiência referentes obje-
tivamente dados. Conceitos desse tipo estão além ou ultrapassam os da
psicologia dos fatos clínicos, daí Freud caracterizá-los de conceitos
metapsicológicos. Nesse sentido, é esclarecedor notar que a observação de
que os sonhos são realizações de desejos é, para Freud, um tipo de solução
psicológica, descritiva (fenomenológica), e não uma solução metapsicológica:
“Parece-me que a teoria da realização de desejos trouxe apenas a solução
psicológica, e não a biológica – ou melhor, metapsíquica” (Freud e Fliess
1986, carta de 10 de março de 1898). A solução metapsíquica ou
metapsicológica para o problema do sonho deveria tornar possível explicar
por que os desejos insatisfeitos encontram no sonho um modo de realiza-
ção, organizando o que poderia ser dito sobre o que impulsiona e é a causa
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ou essência dos desejos, bem como sobre os processos psíquicos envolvidos
na realização do desejo por intermédio do sonho.4
Ao distinguir a teoria clínica da metapsicológica, não estou afir-
mando que os fatos clínicos são apreendidos independentemente de teo-
rias, visto que toda pesquisa científica depende de uma orientação para
selecionar (dentre a multiplicidade de fenômenos que se apresentam) os
elementos a serem observados e para estabelecer tipos de relação a serem
procuradas na ligação e ordenação desses fenômenos. Isso não significa
que as teorias que orientam a pesquisa empírica sejam, necessariamente,
especulativas, ainda que as especulações metapsicológicas tenham um
lugar central para Freud.
Freud diz que “a psicanálise repousa solidamente sobre a obser-
vação dos fatos da vida da alma” (1926f, p. 266) e é “construída a partir
de um conjunto de fatos, lenta e sofridamente reunidos ao preço de um
trabalho metódico” (comentário de Freud a Smiley Blanton; cf. Blanton
1973, pp. 51-2). Nesse trabalho metódico, há uma parte que se refere à
escolha e à delimitação do que é importante ser considerado no campo
dos fenômenos e outra, que corresponde ao uso de um conjunto de con-
ceitos auxiliares, que ajudam a relacionar e organizar os fatos na busca da
resolução dos problemas. Freud foi formado, como homem de ciência,
numa linha de pesquisa que prescreve o uso de um método de pesquisa
no qual se associam construções auxiliares especulativas com a apreensão
e sistematização dos dados empíricos. Isso confirma-se, por exemplo, já
em 1894, na forma como ele procede ao expor o problema das
neuropsicoses de defesa:
4 Freud considerou duas direções para a construção das soluções metapsíquicas: uma
elaborada por referência aos processos corporais, fornecendo um quadro em que as
soluções procuradas seriam formuladas em termos biológicos – como é o caso da
metapsicologia apresentada no Projeto (1895) –, e outra em termos psicológicos,
por referência aos processos propriamente psíquicos – como é o caso da apresentada
a partir do capítulo 7 de A interpretação dos sonhos e continuada em toda a sua obra.
Veja em Loparic (2001b) um comentário sobre essa diferença entre esses dois tipos
de metapsicologia.
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[...] exporei em poucas palavras a representação auxiliar da qual me
servi nesta exposição das neuroses de defesa. É a seguinte: nas fun-
ções psíquicas, cabe distinguir algo (montante de afeto, soma de ex-
citação) que tem todas as propriedades de uma quantidade – ainda
que não haja meio algum de medi-la –; algo que é suscetível de au-
mento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se difunde pelas
marcas mnêmicas das representações, como faria uma carga elétrica
pela superfície dos corpos. (1894a, p. 60)
Esse conceito quantitativo é apenas uma especulação e Freud
diz que seu uso só se justifica pelo fato de auxiliar a organização dos dados
empíricos (ibid., p. 61), não por corresponder a um possível elemento nos
Poder-se-ia objetar que diversos conceitos psicanalíticos são for-
mulados tanto em termos descritivos (psicológicos) como em termos
especulativos (metapsicológicos) e que a distinção entre o que é uma des-
crição e o que é apenas uma suposição teórica especulativa não é factível
em psicanálise. Dir-se-ia, por exemplo, que o inconsciente, a repressão, o
complexo de Édipo, a transferência e a resistência, além de serem fatos
clínicos, são considerados em termos de um conflito de forças, de econo-
mia libidinal e referidos às instâncias de um aparelho psíquico. No entan-
to, ainda que os fatos clínicos sejam articulados por meio dessas formula-
ções teóricas, isso não faz com que a distinção entre o que vem da experi-
ência e o que não vem dela deva ser reconhecida e respeitada, consideran-
do o lugar, o valor e a maneira de operar de cada um dos tipos de teoria
em jogo. Mais ainda, é necessário mostrar que o próprio Freud ocupou-se
em fazer esse tipo de distinção.
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3. A necessidade de uma metapsicologia
e o ponto de vista dinâmico
Freud considera que só a descrição dos fatos não é suficiente
para explicar como ocorrem os fenômenos psíquicos. Referindo-se aos
limites aos quais se chega, caso o psicólogo se mantenha apenas no nível
da consciência (aqui também interpretada como sinônimo do que se ob-
tém apenas pelo caminho da psicologia descritiva de seu tempo), ele diz:
Enquanto a psicologia da consciência não pode jamais sair destas
séries lacunares e depende manifestamente de outra coisa, a concep-
ção a partir da qual o psíquico é em si mesmo inconsciente permitiu
fazer da psicologia uma parte, semelhante a todas as outras, das ciên-
cias naturais. (1940a, p. 158)
Além de uma concepção descritiva do inconsciente, Freud for-
mulará a concepção de um inconsciente habitado por elementos que não
são diretamente observados, tais como as forças e energias de natureza
psíquica. Reconhecendo os limites da observação, Freud considerou ade-
quado introduzir hipóteses complementares:
[...] me pareceu legítimo completar as teorias, que são expressão di-
reta da experiência, por hipóteses que são apropriadas ao controle do
material, e que se reportam aos fatos que podem se tornar objeto de
observação imediata. (1925d, p. 32)
Essas hipóteses, que não são da mesma natureza que as advindas
da observação, são, propriamente, como ele dirá referindo-se à noção de
“aparelho psíquico”, ficções teóricas (1900a, p. 603) que ajudam a “estabe-
lecer as leis que regem [os fenômenos psíquicos], e acompanhar, em lon-
gas séries, sem lacunas, suas relações recíprocas e suas interdependências”
(1940a, p. 158). Com o auxílio dessas ficções, Freud espera obter um
controle do material empírico de modo que ele possa procurar as explica-
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ções que venham completar as lacunas que ficam no entendimento dos
fenômenos quando o cientista fica restrito apenas ao campo descritivo,
buscando, pois, descobrir séries completas sobre as determinações causais
Mas quais são os tipos de conceitos e modelos especulativos com
os quais ele completará suas teorias empíricas? Com que tipo de
metapsicologia ele cobrirá as lacunas da sua psicologia? Freud diz clara-
mente que seu procedimento, na construção da teoria, é análogo ao utili-
zado em outras ciências naturais; que esses conceitos são hipóteses de
trabalho de valor apenas aproximativo, permanecendo tão indeterminados
quanto são os conceitos do mesmo status epistemológico noutras ciências
já consolidadas:
Como ficar surpreso se os conceitos fundamentais da nova ciência
[a psicanálise], seus princípios (pulsão, energia nervosa etc.) perma-
necem tanto tempo indeterminados quanto aqueles das ciências mais
antigas (força, massa, atração etc.)? (1940a, p. 159)
Para ilustrar a maneira pela qual Freud introduziu um tipo es-
pecífico de metapsicologia, 5 será útil retomar os procedimentos
especulativos que utiliza para compreender e tratar a histeria.6 Vejamos,
inicialmente, o que se dizia sobre a histeria no período em que Freud
não tinha ainda formulado suas próprias explicações. Segundo Charcot,
essa patologia resultava de idéias inconscientes agindo na mente do
doente, surgidas após uma situação traumática, que ocorria em pessoas
predispostas organicamente à doença. A Escola de Nancy, com Bernheim,
indicava o poder da sugestão hipnótica como método de tratamento
5 Freud reconhece claramente a existência de outras metapsicologias que não a sua,
como fica claro na sua carta a Fliess: “Coloquei-me como tarefa construir uma
ponte entre minha metapsicologia germinante e a que está contida nos livros e, por
isso, mergulhei no estudo de Lipps [...]” (Freud/Fliess, carta de 28 de agosto de
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psíquico7. Apoiado nos trabalhos de Charcot, Janet também defendia a
idéia de que os sintomas na histeria resultavam de idéias inconscientes
que agiam de forma independente no interior do paciente; essa indepen-
dência derivava de uma dissociação psíquica, que separava as representa-
ções em conscientes e inconscientes, e era creditada a um fracasso da
síntese mental (numa situação traumática) devido a uma incapacidade
congênita (Freud 1913m, p. 207). Esse conjunto de dados e hipóteses
levou Freud a uma constatação que lhe serviu de ponto de partida para a
constituição da psicanálise: a histeria era uma patologia que teria origem
numa situação traumática que acabava por produzir idéias inconscientes
no interior do psiquismo; essas idéias estariam ativas e agiriam sobre o
paciente, produzindo seus sintomas.
Supunha-se, nessa época, que a histeria era uma doença que
acometia somente as pessoas predispostas a ela, ou seja, aquelas pessoas
cujo sistema nervoso, por hereditariedade ou por algum tipo de lesão ou
inflamação, eram incapazes de tolerar e integrar acontecimentos de gran-
de intensidade afetiva. Isso fornecia apenas uma hipótese fisiológica, mas
não a explicação do processo psíquico do paciente que apresentava sinto-
mas histéricos relacionados com um trauma vivido. Essa suposição fisio-
lógica e a descrição dos fatos psíquicos observados – exemplificados, in-
clusive, pelas demonstrações de Charcot que, ao hipnotizar seus pacien-
tes, produzia ou anulava sintomas – não eram suficientes para dar conta
do que ocorria psiquicamente com o paciente no momento do trauma,
tampouco explicava a origem do poder, mais ou menos acentuado, dessas
idéias inconscientes. Tornava-se, então, necessário ir além dos dados
observáveis diretamente, para completar as lacunas da teoria baseada
apenas nas descrições dos fatos.
7 Para Freud, a expressão “tratamento psíquico” significa tratamento por meios psí-
quicos (a sugestão e a palavra). Cf. Freud 1905b [1890]. Freud se refere, nesse
texto, à hipnose e não ao método psicanalítico, que só será criado alguns anos mais
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A hipótese fisiológica mencionada – à qual aderiram Charcot,
Janet e mesmo Breuer – opta por uma perspectiva mecânica. Projetando,
por analogia, uma situação física em uma situação psíquica, tudo se passa
como se, numa máquina, uma peça, que liga uma de suas partes às ou-
tras, tivesse sido danificada, de forma que um lado dessa “máquina psí-
quica” funcionaria de forma independente, produzindo os sintomas ob-
servados. Pode ser dito, sobre esse tipo de análise, que foi orientada por
um ponto de vista mecânico. Note-se que a suposição de que o psiquismo
é como uma máquina passível de ser explicada em termos mecânicos é
uma hipótese que não tem valor empírico, ou seja, ela não é passível de
comprovação pela observação; seu valor é apenas heurístico, ou seja, é um
princípio de intelecção que tem validade pelo que torna possível compre-
ender sobre os fenômenos e suas relações, e não em si mesmo.
Freud, no entanto, foi formado noutra linha de pesquisa, da
qual participavam Fechner, Helmholtz e Brücke, e cuja perspectiva de
explicação é diferente da mecânica. Para esses pensadores, o ponto de
vista mais adequado para servir como guia na busca de explicações sobre
os fenômenos e suas causas é o dinâmico: este supõe a interação de forças
em conflito como um quadro no qual as explicações são procuradas. Nes-
sa perspectiva, os fatos observados devem ser estruturados e relacionados
não em função de supostas falhas mecânicas, mas sim de supostas forças
em conflito. O juramento epistemológico de Brücke e Du Bois-Reymond
apresenta uma formulação metodológica explícita sobre o que significa
adotar o ponto de vista dinâmico na prática científica:
Brücke e eu [Bois-Reymond] nos comprometeremos a impor esta
verdade, a saber, que somente as forças físicas e químicas, com exclu-
são de qualquer outra, agem no organismo. Nos casos que não po-
dem ser explicados, no momento, por essas forças, devemos nos em-
penhar em descobrir o modo específico ou a fonte de sua ação, uti-
lizando o método físico-matemático, ou então postular a existência
de outras forças, equivalentes em dignidade, às forças físico-químicas
inerentes à matéria, redutíveis à força de atração e repulsão. (Apud
Shakow e Rapaport 1964, p. 34)
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A presença constante, na obra freudiana, de explicações em ter-
mos de forças psíquicas, “equivalentes em dignidade” às forças físico-
químicas, dão sustentação à hipótese de que Freud aderiu a esse tipo de
orientação metodológica. Na sua autobiografia de 1925, logo após refe-
rir-se à sua formação com Brücke no Laboratório de Fisiologia da Univer-
sidade de Viena, ele afirmou: “Em certo sentido, eu permaneci, todavia,
fiel à orientação na qual eu me engajei inicialmente” (1925d, p. 10).
Essa mesma perspectiva dinâmica é reiterada quando Freud fala
da sua diferença com Breuer no entendimento da histeria:
Na questão de saber quando um processo psíquico torna-se patógeno,
isto é, quando ele não termina de uma maneira normal, Breuer pre-
feria uma teoria, por assim dizer, fisiológica; ele pensava que os pro-
cessos que não sucumbiam ao destino normal eram aqueles que ti-
nham se originado nos estados psíquicos extraordinários – hipnóti-
cos. [...] Eu, pelo contrário, supunha, sobretudo, um jogo de forças, a
ação de intenções e tendências parecidas com as que podem ser ob-
servadas na vida normal. (1925d, p. 23)
Em diversos outros momentos de sua obra, Freud reitera que é
justamente este ponto de vista – que propõe “no lugar de uma simples
descrição, uma explicação dinâmica fundada sobre a interação de forças
psíquicas” (1913m, p. 207) – que caracteriza a sua maneira de compre-
ender os fatos psíquicos. Diz ele, sobre seu compromisso metodológico:
Não queremos apenas descrever e classificar as aparências, mas
concebê-las como sinais de um jogo de forças dentro da alma, como
expressão de tendências dirigidas para fins, e que trabalham umas de
acordo com as outras, ou umas contra as outras. Esforçamo-nos por
elaborar uma concepção dinâmica das aparências psíquicas. Nessa nossa
concepção, os fenômenos percebidos devem ficar em segundo plano,
atrás das tendências apenas supostas. (1916-17, p. 67)
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O ponto de vista dinâmico figura, pois, como um guia
metodológico para buscar explicações que podem cobrir as lacunas deixa-
das pelas teorias empíricas. Mais à frente comentarei o lugar dos pontos
de vista tópico e econômico, que, junto com o dinâmico, fornecem os três
eixos da teoria metapsicológica de Freud. Nesse sentido acima citado, o
ponto de vista dinâmico tem precedência ao tópico e ao econômico, ainda
que não seja possível hierarquizar a importância desses três eixos
constituidores da metapsicologia. Para Freud, as forças psíquicas, que
caracterizam o ponto de vista dinâmico, são análogas às forças que os
físicos supõem agir sobre a matéria;8 elas são tomadas como um funda-
mento estrutural ao qual se deve recorrer para organizar e relacionar os
fatos, orientando a busca das explicações dos fenômenos observados.
O fundamento da ciência psicanalítica está no que ela pôde efe-
tivamente observar, mas essa observação depende de certos conceitos dados
antes mesmo da própria experiência. Esses conceitos, diz Freud,
correspondem a certas idéias abstratas9 que, mesmo sem conteúdo empírico
determinado, possibilitam guiar o cientista num determinado campo de
O verdadeiro início da atividade científica consiste antes na descrição
dos fatos, que são, em seguida, agrupados, ordenados e integrados
em conjuntos. Já na descrição, não se pode evitar aplicar ao material
certas idéias abstratas que pegamos aqui e ali, certamente não só da
experiência nova. Tais idéias – que, depois, tornar-se-ão os conceitos
fundamentais da ciência – são ainda mais indispensáveis na elabora-
ção futura do material. Elas comportam, no início, um certo grau de
8 Freud usa essa analogia entre as forças, na física, e as pulsões, na psicanálise, em
diversos momentos de sua obra. Cf. Freud 1915c (p. 116), 1925d (p. 58), 1933b
(p. 209), 1940a (p. 158) e 1940b (p. 283). Esse paralelo entre as pulsões e as forças
foi analisado mais de uma vez, por psicanalistas e por filósofos. Cf., por exemplo,
Assoun 1981 (p. 58); 1993 (p. 17) e Loparic 1999.
9 A expressão idéia abstrata não é um simples modo de falar, mas remete-se, como
mostrarei adiante, a um termo kantiano, a saber, a denominação dos conceitos
puros da razão como idéias.
142 Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003
artigo5.p65 142 10/23/2003, 3:07 PM
indeterminação; e não está em questão discernir claramente seu con-
teúdo. Enquanto permanecem nesse estado, chegamos a um acordo
sobre seu significado, reenviando-as repetidamente ao material da
experiência, do qual elas parecerem ter provindo, mas que, na reali-
dade, é submisso a elas. (1915c, p. 117)
Essas idéias abstratas são, justamente, as pulsões, concebidas
como forças de natureza psíquica. Esse conceito auxiliar é uma convenção
aplicável ao material empírico com a finalidade de ordenar e integrar
sistematicamente os fatos. Quando Freud caracteriza a pulsão como um
conceito fundamental convencional, ele se refere ao fundamento metapsicológico
pressuposto para que os fundamentos empíricos sejam apreendidos. A
pulsão é, para ele, uma força equivalente, em dignidade, às forças físico-
químicas que agem sobre a matéria. Como nas outras ciências naturais,
as forças não são conceitos empíricos, mas construtos teóricos especulativos
de valor apenas heurístico. Freud diz claramente que o conceito de pulsão
não é nada mais do que uma convenção, uma idéia abstrata sem conteú-
do empírico determinado, ainda que necessário: “[a pulsão é um] concei-
to fundamental convencional, provisoriamente ainda muito obscuro, mas
do qual nós não podemos prescindir em psicologia” (1915c, pp. 117-8).
Em seguida a essa definição das pulsões, Freud diz que tentará preencher-
lhe o conteúdo com dados empíricos, associando-as, então, ao corpo bioló-
gico, por meio de analogias. Seu objetivo é tornar esse conceito mais
inteligível e operacional, mas ele sabe que jamais conseguirá preenchê-lo
de forma adequada: “As pulsões são seres míticos, grandiosos na sua
indeterminação. Nós não podemos, em nosso trabalho, abstrair delas um
só instante, todavia nós jamais estamos seguros de vê-las distintamente”
(1933a, p. 95). Assim, tal como em todo mito, não está em questão en-
contrar um referente empírico que lhe corresponda adequadamente e que
seja objetivamente dado.
Comentou-se já, várias vezes, a distinção entre os conceitos de
pulsão e de instinto, em especial no que diz respeito à tradução do termo
Trieb por Instinct, feita por Strachey na edição inglesa da obra completa de
Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003 143
artigo5.p65 143 10/23/2003, 3:07 PM
Freud, acentuando as comparações entre os instintos na vida animal e as
pulsões na vida do homem, marcando-lhes a diferença. Na perspectiva
que estou apresentando, os conceitos de Trieb e Instinkt, em Freud, são de
naturezas diferentes: o primeiro é especulativo, sem referência determi-
nada no campo empírico; o segundo é empírico, com referente objetivo
no corpo biológico. Não há, pois, nem continuidade nem assimilação
possível entre esses conceitos. Laplanche reconheceu claramente a posi-
ção de Freud: “Em todo caso, ele [Freud] nunca os junta [os termos Trieb
e Instinkt], nunca os opõe, ele na verdade nunca os comparou” (2001,
p. 6). Mas, contudo, Laplanche parece não ter atentado para a diferença
de natureza epistemológica entre esses conceitos, acabando por se dedi-
car, não poucos anos, a uma tarefa impossível: “Durante vinte ou trinta
anos, não deixei de insistir nisso. Assimilação da pulsão ao instinto ou,
por vezes, uma espécie de mistura pulsão-instinto” (ibid., p. 7).
O conceito de pulsão é o fundamento primeiro da metapsicologia,
mas, como sabemos, não é o único e nem toda a metapsicologia poderia
ser reduzida a ele. A suposição de que o psiquismo é como um aparelho
passível de ser figurado espacialmente, no qual circula uma energia psí-
quica de natureza sexual, a libido, também faz parte das hipóteses
metapsicológicas. Esses conceitos fornecem, respectivamente, três gran-
des eixos da metapsicologia, eles servem como modelos ou conceitos au-
xiliares para que se possam buscar explicações sobre os processos psíqui-
cos: “Proponho que se fale de uma apresentação metapsicológica quando
conseguimos descrever um processo psíquico segundo suas relações dinâ-
micas, tópicas e econômicas” (Freud 1915e, p. 181). Ao ponto de vista
dinâmico corresponde a suposição de pulsões (forças psíquicas) básicas
em conflito, como causas motoras originárias, e primeiras, do funciona-
mento da vida psíquica; ao econômico, a suposição de uma energia psí-
144 Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003
artigo5.p65 144 10/23/2003, 3:07 PM
quica de natureza sexual (a libido)10 – que funciona e pode ser avaliada
segundo um fator quantitativo –, que impulsiona as pulsões e caracteriza
os investimentos afetivos nos objetos de desejo; e, ao ponto de vista tópi-
co, a proposição de tomar o psiquismo como se fosse um aparelho, passí-
vel de ser visualizado e figurado espacialmente, tal como ocorre quando
lidamos com um telescópio, um microscópio ou qualquer objeto similar,
tornando, assim, possível diferenciar as instâncias psíquicas que compõem
as partes desse aparelho, jamais correspondendo a alguma localização
anatômica e tendo, pois, a natureza de uma ficção teórica.
Todos esses termos metapsicológicos (pulsão, aparelho psíqui-
co, libido), bem como outras representações similares, são, para Freud,
construções auxiliares propostas em caráter provisório:
É assim que o caminho da ciência é, de fato, lento, tateante, laborio-
so. Isto não pode ser negado nem mudado [...] O progresso no traba-
lho científico se efetua certamente como numa análise. Avança-se
por suposições, faz-se construções auxiliares que são abandonadas se
elas não se confirmam; tem-se necessidade de muita paciência, de
disponibilidade para todas as possibilidades, renuncia-se a convicções
primeiras [...] e todo este esforço é, enfim, recompensado; as desco-
bertas esparsas ajustam-se num conjunto, chega-se a ver claramente
toda uma parte do advir anímico, liquida-se a tarefa e fica-se, então,
livre para a seguinte. (1933a, p. 174)
Ciente da distinção entre conceitos empíricos e conceitos
especulativos, considerados partes distintas da teoria psicanalítica, Freud
caracterizou a metapsicologia como uma superestrutura especulativa da
Estas representações [aparelho psíquico dividido em instâncias], e
outras similares, pertencem a uma superestrutura especulativa
10 Veja em Fulgencio 2002a uma análise da diferença entre a noção de sexualidade
enquanto um conceito empírico e o conceito de libido enquanto um conceito
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artigo5.p65 145 10/23/2003, 3:07 PM
[spekulativer Überbau] da psicanálise, em que cada parte pode ser
sacrificada ou trocada sem dano nem remorso, a partir do momento
em que uma insuficiência é constatada. (1925d, pp. 32-3)
Freud considera que suas ficções teóricas são inofensivas, caso ja-
mais seja esquecida sua natureza especulativa. Ao referir-se às figurações
que propôs para visualizar o psiquismo e seu funcionamento, ele afirmou:
Eu estimo que nós temos o direito de dar livre curso a nossas suposi-
ções, desde que preservemos a frieza de nosso juízo e não tomemos os
andaimes pelo edifício. E uma vez que, em nossa primeira aborda-
gem de algo desconhecido, tudo de que precisamos é o auxílio de
representações auxiliares, daremos preferência, inicialmente, às hipó-
teses de caráter mais tosco e mais concreto. (1900a, p. 536)
Não se trata, no entanto, de usar todo tipo de especulação, pois
nem todas valem da mesma maneira. Os conceitos especulativos
metapsicológicos têm uma orientação específica, que se refere ao ponto
de vista dinâmico, tal como acontece em outros ramos das ciências natu-
rais. A esse ponto de vista Freud acrescentou o tópico e o econômico, aos
quais também correspondem, respectivamente, outros conceitos e mode-
los especulativos, cuja finalidade é sempre a mesma: completar as teorias
empíricas, tornando possível melhor agrupar e ordenar os fatos clínicos,
fornecendo um guia tanto para a procura de explicações quanto para
obter novos dados.
As proposições teóricas ou conceitos especulativos concebidos
como construções auxiliares para realizar pesquisas não são uma inovação
de Freud. Ao contrário, bem antes dele, filósofos, cientistas e epistemólogos
já haviam analisado esse tipo de método de pesquisa, considerando-o não
apenas aplicável, mas necessário às ciências naturais. Não é o caso, aqui,
de apresentar uma análise detalhada da sua formação, baseada em seus
mestres ou intelectuais admirados, tais como Fechner, Helmholtz, Brücke,
Brentano, e que partilhavam desse método de pesquisa, que tem necessi-
146 Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003
artigo5.p65 146 10/23/2003, 3:07 PM
dade e é impulsionado por ficções heurísticas. Concentrar-me-ei na análi-
se de duas referências centrais – Kant e Mach –, que podem confirmar,
textualmente, que as especulações metapsi-cológicas de Freud são um
fruto desse modo de pesquisar e teorizar nas ciências naturais. Não se
trata, aqui, de afirmar que Freud é um seguidor de Mach ou, ainda, que
ele tomou a filosofia de Kant como modelo para a sua prática científica,
mas tão-somente de mostrar que a atitude teórico-especulativa de Freud
corresponde a um modo de conceber a pesquisa científica já estabelecido
em sua época, cuja influência desses autores não poderia ser negada.
5. O programa de pesquisa kantiano e as especulações11
No final da Crítica da razão pura, Kant determina o lugar a ser
dado à psicologia, tomada como ciência natural:
[...] o seu lugar é aquele onde deve ser colocada a física propriamente
dita (empírica), isto é, do lado da filosofia aplicada, para a qual a
filosofia pura contém os princípios a priori e com a qual, portanto,
deve estar unida, mas não confundida. (Kant 1997, B 876)
Para Kant, a construção da psicologia empírica depende da
admissão de um conjunto de conceitos e princípios a priori (que são tam-
bém os da física empírica) a partir do qual todo conhecimento válido da
natureza poderá ser produzido. Ou seja, é justamente a partir desse con-
junto de a priori – relacionados a cada uma das faculdades que compõem
nossa faculdade cognitiva (intuição, entendimento e razão) – que os cien-
tistas vão à procura das leis que regem os fenômenos.
Kant mostrou que, por trás de toda ciência natural, há uma
metafísica da natureza que a sustenta:
11 Esta análise do programa de pesquisa kantiano se apóia no livro de Loparic,
A semântica transcendental de Kant. Cf. Loparic 2000a [1982].
Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003 147
artigo5.p65 147 10/23/2003, 3:07 PM
A ciência da natureza propriamente assim chamada pressupõe uma
metafísica da natureza; com efeito, leis, isto é, princípios da necessi-
dade do que é inerente à existência de uma coisa, referem-se a um
conceito que não se pode construir, porque a existência não pode
representar-se em nenhuma intuição a priori. Por conseguinte, a ge-
nuína ciência natural pressupõe uma metafísica da natureza. Esta
deve, pois, conter sempre puros princípios, que não são empíricos (é
por isso que leva o nome de metafísica). (Kant 1990, p. 15; A 7-8)
Não é cabível, neste artigo, fazer uma apresentação do progra-
ma de pesquisa kantiano para as ciências naturais. Saliento, apenas, uma
de suas características principais, relativa ao uso de princípios e conceitos
especulativos, relacionada à metafísica da natureza presente no quadro
teórico de toda ciência empírica; por conseguinte, também da psicanáli-
se, tal como Freud a concebeu.
Tendo analisado a arquitetura e o funcionamento de nossa fa-
culdade de conhecer, Kant distinguiu três modos distintos de articular o
conhecimento: a intuição ou a sensibilidade, o entendimento e a razão.
Nos três, sempre encontramos conceitos e princípios a priori; para alguns
deles, será possível encontrar os referentes empíricos adequados, enquan-
to que, para outros, tal possibilidade estará excluída. À sensibilidade ou à
intuição – com seus a priori do espaço e do tempo – caberá fornecer dados
intuitivos para o entendimento. Ao entendimento – com seus conceitos
a priori, suas categorias12 e os dados que recebe da intuição (percepção) –
caberá a constituição daquilo que chamamos de experiência e seus obje-
tos, fornecendo regras para a exposição dos fenômenos; cabe, também,
ao entendimento, procurar as leis gerais que regem os fenômenos assim
12 As categorias, ou conceitos puros do entendimento, foram organizadas, por Kant,
em quatro classes: as que reúnem os conceitos a priori relativos à quantidade, na
qual estão os conceitos de unidade, pluralidade e totalidade; as relativas à qualida-
de, na qual estão os conceitos de realidade, negação e limitação; as relativas à rela-
ção, na qual estão os conceitos de substância e acidentes, causa e efeito, reciprocida-
de causal; e as relativas à modalidade, com os conceitos de possibilidade e impossi-
bilidade, existência e não-existência, necessidade e contingência.
148 Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003
artigo5.p65 148 10/23/2003, 3:07 PM
apreendidos. Por fim, à razão credita-se a tarefa de fornecer princípios e
conceitos que dêem sistematicidade aos juízos do entendimento, bem
como a de proporcionar a maior extensão possível para esse conhecimen-
to teórico. Kant chamará esses conceitos puros da razão de idéias (cf. Kant
1997, B 367-396); estas jamais terão um referente empírico que lhes
corresponda adequadamente, pois se referem a entes da razão, e nunca a
realidades empíricas (nem mesmo em hipótese):
Os conceitos da razão [...] são meras idéias e não têm, evidentemen-
te, objeto algum em qualquer experiência, mas não designam por
isso objetos imaginados e ao mesmo tempo admitidos como possí-
veis. São pensados de modo meramente problemático,* para fundar
em relação a eles (como ficções heurísticas) princípios reguladores do
uso sistemático do entendimento no campo da experiência. Se sair-
mos deste campo, são meros seres da razão, cuja possibilidade não é
demonstrável e que não podem também, por hipótese, ser postos
como fundamento da explicação dos fenômenos reais. (Kant 1997,
B 799)
A compreensão do lugar da especulação na pesquisa científica
depende, pois, do entendimento da função e da operação da razão
especulativa, ou seja, trata-se de saber o que são, quais são e como ope-
ram essas idéias da razão. Utilizarei alguns exemplos para esclarecer a
função e a natureza dos conceitos puros da razão. Um desses conceitos é a
idéia de natureza como um todo. Sua função é designar um pressuposto para
que as leis de determinação entre os fenômenos façam parte de um mes-
mo sistema, e sua natureza é totalmente especulativa; trata-se de um
conceito abstrato ao qual não pode ser dado nenhum exemplo empírico.
Outra idéia da razão pura – que diz respeito diretamente à maneira como
Freud opera na construção da teoria psicanalítica – está relacionada com
* Kant diz: “Chamo problemático a um conceito que não contenha contradição e que
[...] se encadeia com outros conhecimentos, mas cuja realidade objetiva não pode
ser de maneira alguma conhecida” (1997, B 310).
Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003 149
artigo5.p65 149 10/23/2003, 3:07 PM
um problema que a própria razão encontra ao tentar fornecer explicações
sistemáticas, as mais completas possíveis, para os fenômenos que ela pro-
cura conhecer, ou seja, quando a razão procurar estabelecer a série de
causas, finitas e sem lacunas, para explicar algum fenômeno ou movi-
mento na natureza:13 uma vez dado um efeito qualquer, sempre é possí-
vel remetê-lo à sua causa; assim sendo, essa causa, por sua vez, pode,
igualmente, ser remetida a uma outra causa anterior; o que acaba por
estabelecer uma série infinita. Kant nos diz que a razão, visando inter-
romper essa pesquisa infinita das causas, estabelece um limite, postulan-
do uma causa originária, anterior à qual nenhuma outra deve ser procu-
rada; uma causa incondicionada que, ela mesma, não precisa ser explicada
e a partir da qual todas as relações causais devem ser estabelecidas. Essa
causa originária é um ente da razão e não advém, pois, da experiência
sensível: o que seria impossível, já que não corresponde a uma entidade
fenomênica. Ela é apenas uma convenção.
Também em seu Princípios metafísicos a toda ciência da natureza, o
conjunto de conceitos e princípios a priori necessários a toda ciência da
natureza, Kant mostra que a razão, ante a necessidade de fornecer expli-
cações causais finitas e sem lacunas, estabelece um ponto de partida para
as causas, postulando uma causa originária ou incondicionada. Ele diz,
ainda, que existem duas alternativas básicas para conceber essas causas,
ou seja, apenas dois pontos de vista-guia para explicar a “diversidade
específica das matérias” e suas relações: o mecânico e o dinâmico. Segun-
do o ponto de vista mecânico ou atomista, o movimento, na natureza,
deveria ser explicado em função de partículas indivisíveis, os átomos. Es-
tes seriam responsáveis pela transmissão do movimento entre os corpos,
por choque mecânico. Por outro lado, o ponto de vista dinâmico suporia,
com o mesmo fim, que o movimento deve ser explicado em função de
forças motrizes agindo na matéria e no encontro entre os corpos. Segun-
13 Cf. Kant 1997, B 377-389, para a explicação de Kant sobre a natureza e a função
das idéias transcendentais.
150 Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003
artigo5.p65 150 10/23/2003, 3:07 PM
do Kant, não se trata de supor infinitas forças, o que apenas obscureceria
o entendimento, mas sim de considerar apenas duas forças básicas: as de
atração e as de repulsão.
Tanto os átomos como as forças são conceitos puros (a priori)
elaborados pela razão; portanto, não podem ser confundidos com os da-
dos empíricos: não há apreensão sensível possível nem dos átomos nem das
forças. O que é que decide, então, pela escolha de um ou de outro ponto
de vista como orientação da pesquisa? Segundo Kant, trata-se de uma
escolha que não pode estar baseada em fatos, mas tão-somente nos frutos
que um ou outro pode trazer para a pesquisa empírica. O ponto de vista
dinâmico, diz Kant, é “muito mais adequado e favorável” (Kant 1990,
p. 83; A 102) para atingir uma explicação sistêmica mais extensa e mais
conforme à razão, permitindo encontrar leis determinadas num encadea-
mento racional, sem que seja necessário supor alguma “qualidade ocul-
ta”, tal como é necessário quando se supõem “átomos” como transmisso-
res de movimento. Como diz Loparic, o critério de escolha, entre um ou
outro ponto de vista, é apenas heurístico:
Tudo o que ele [Kant] disse é que a teoria dinâmica, se julgada por
alguns critérios metodológicos razoáveis, é um melhor guia de pes-
quisa empírica do que a teoria atomista. Essa é uma avaliação do
ponto de vista heurístico de ambas as teorias tal como existiam na
sua época, que de modo algum pode ser interpretada como uma ten-
tativa de uma dedução a priori da teoria dinâmica. (Loparic 2000a
[1982], p. 315)
Em resumo, a noção de natureza, o ponto de vista dinâmico e as
forças são conceitos puros da razão, idéias que não têm referente possível
no mundo sensível; são idéias que têm entes da razão como referentes e
que servem como guias de pesquisa factual.
Não é por acaso que Freud caracteriza as pulsões como idéias
abstratas, conceitos puramente convencionais. Ele sabe que o preenchimen-
to do seu conteúdo só poderá ocorrer de forma inadequada, pois não há
Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003 151
artigo5.p65 151 10/23/2003, 3:07 PM
referente empírico possível para elas. Ao usar o termo Trieb, Freud reto-
ma um termo comum à filosofia e à ciência alemã pós-kantiana, que está
na base de sua formação como homem de ciência (cf. Loparic 1999). Não
seria correto dizer que o conceito freudiano de Trieb corresponde exata-
mente às forças motrizes das quais fala Kant, mas a maneira como Freud
opera teoricamente na formulação do conceito de pulsão tem não só uma
proximidade com o lugar que Kant dá aos conceitos puros da razão, como
também obedece ao mesmo tipo de necessidade metafísica que caracteri-
za as ciências naturais no programa de pesquisa kantiano.
Pode-se dizer que a psicanálise foi construída nesse solo da
metafísica da natureza do tipo kantiana, considerando que a vida da alma
deveria ser tomada como um objeto natural (Freud 1933a, p. 159), determina-
do por relações de causa e efeito, tais como as que são dadas pelas catego-
rias do entendimento, e aplicáveis a esses objetos, e, ainda, que os fenô-
menos e seus movimentos deveriam ser explicados a partir do ponto de
vista dinâmico.
6. Ernst Mach e o uso de representações-fantasia
nas ciências empíricas
A proximidade entre algumas posições epistemológicas de Mach
e Freud já foi comentada por alguns autores (cf., por exemplo, Assoun
1981 e Loparic 1985). Não pretendo, aqui, retomar a análise das conti-
nuidades e das rupturas conceituais e metodológicas entre Freud e Mach,
mas sim ressaltar a defesa que Mach faz do uso de certas especulações
como instrumentos heurísticos de pesquisa e expor o modo como Freud
parafraseia Mach ao considerar as pulsões como um tipo de mitologia.
Para Mach, a ciência deve procurar descobrir as relações de de-
terminação entre os fenômenos, uma meta que, no futuro, deve ser atin-
gida sem lançar mão de nenhum outro recurso que não a descrição. Isso
constitui, no entanto, o objetivo último a que pretende chegar a ciência
152 Natureza Humana 5(1): 129-173, jan.-jun. 2003
artigo5.p65 152 10/23/2003, 3:07 PM
em seu estado final. Enquanto a ciência está em desenvolvimento, ante a
incompletude das explicações e para facilitar a descoberta das relações
procuradas, Mach prega o uso de conceitos e modelos especulativos.
Ao analisar a história da física, Mach pôde reconhecer que esta
se apoiou em conceitos que são um tipo de mito: a física aristotélica, com
a consideração dos quatro elementos que comporiam a natureza, e a física
newtoniana, com a suposição de que existem forças que impulsionam a
natureza. Para ele, o conceito de força,14 que revolucionou a física após
Newton, não é dado empiricamente, mas deve ser tomado apenas como
um nome para a “circunstância que tem o movimento por conseqüência”
(Mach 1987 [1883], p. 81). Ou seja, o conceito de força é, também para
ele, apenas uma convenção, um princípio causal admitido, ainda que não
se saiba dizer o que ele é exatamente. Mach afirma:
Nós podemos caracterizar com o nome de mitologia da natureza esta
ciência do início, com seus elementos fantasistas [terra, fogo, ar e
água]. Depois, a mitologia da natureza, animista e demoníaca, foi
substituída, pouco a pouco, por uma mitologia das substâncias e das
forças, uma mitologia mecânica e automática e, por fim, por uma
mitologia dinâmica. (1922 [1905], p. 113)
Freud, por sua vez, refere-se à teoria das pulsões como uma mi-
tologia, tanto nas Novas conferências introdutórias à psicanálise – “A teoria
das pulsões é, por assim dizer, nossa mitologia” (1933a, p. 95) –, quanto
na sua carta a Einstein:
Talvez você tenha a impressão de que nossas teorias são um tipo de
mitologia, no caso presente uma mitologia que nem mesmo é agra-
dável. Mas toda ciência da natureza não volta a um tal tipo de mito-
logia? Acontece, hoje, de maneira diferente para você, na física?
(1933b, p. 211)
14 Ver em Mach 1987 [1883] alguns de seus comentários sobre a história do conceito
de força na física, em especial nas páginas 81 e 82.
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artigo5.p65 153 10/23/2003, 3:07 PM
Mach também já foi apontado como um elo de ligação signifi-
cativa entre Einstein e Freud,15 e essa referência à mitologia do ponto de
vista dinâmico, com a correspondente especulação que representa o con-
ceito de força, seja ela psíquica ou física, apenas reitera a interpretação de
que Freud está se apoiando em Mach quando fala das pulsões como seres
Referindo-se à perspectiva heurística para a prática científica,
Mach (1905) ressalta que certos conceitos, que nada mais são do que
representações-fantasia (Phantasie-Vorstellungen), podem tanto ajudar nas
pesquisas quanto produzir equívocos indesejáveis, caso seja esquecida a
natureza ficcional dessas construções auxiliares. Essas fantasias que ser-
vem ao processo da ciência deverão ser substituídas, na fase final, pela
descrição direta dos fatos. Enquanto isso não é possível, aceita-se essa
pequena ajuda que elas podem dar, pois contribuem para orientar a bus-
ca das relações de determinação entre os fenômenos, por meio de certas
ilusões ou modelos fictícios:
Pensemos nas partículas da luz de Newton, nos átomos de Demócrito
e de Dalton, nas teorias dos químicos modernos... e, finalmente, nos
modernos íons e elétrons. As múltiplas hipóteses físicas sobre a maté-
ria, os turbilhões cartesianos e eulerianos, que reaparecem nas novas
teorias eletromagnéticas de correntes e turbilhões, os sumidouros e as
fontes que levam à quarta dimensão do espaço, as partículas
ultramundanas que geram a gravitação etc. etc. poderiam ainda ser
mencionados. Ocorre-me que se trata de uma roda-viva de represen-
tações aventureiras modernas que, tal como uma festa das bruxas
[Hexen-sabbat] impõe respeito. Essas filhas da fantasia lutam pela exis-
tência, na medida em que procuram se sobrepujar mutuamente. Inú-
meras dessas florações da fantasia devem ser aniquiladas, pela crítica,
15 Em especial por Assoun (1981 e 1985). Sobre a importância de Mach para Einstein,
cf. Holton 1967 e 1993. Veja também em Fulgencio 2000 a análise de um docu-
mento, de 1912, assinado por Mach, Einstein e Freud, entre outros, em prol da
criação de uma Sociedade para a Filosofia Positivista, indicando em que sentido
pode ser entendida a proximidade entre esses autores.
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implacável, tendo em vista os fatos, antes que uma delas possa desen-
volver-se e ter uma permanência mais longa. Para que se possa ava-
liar esse processo, é necessário levar em conta o fato de que se trata de
reduzir os processos naturais a elementos conceituais mais simples.
(Mach 1920 [1905], pp. 106-107)16
Freud também caracterizou a metapsicologia como a bruxa. A
seguinte citação de Freud pode ser tomada como um tipo de paráfrase do
texto de Mach: “Se perguntamos sobre as vias e os meios pelos quais isso
[o domínio das pulsões] se produz, não é fácil fornecer uma resposta.
Deve-se dizer: ‘É necessário que venha a feiticeira’. Entendam: a bruxa
metapsicologia” (1937c, p. 225). O recurso à bruxa, portanto, não é um
tipo de alusão retórica, mas uma maneira de ir além dos dados empíricos,
tal como, por exemplo, na física molecular, os modelos que versam sobre
a constituição espacial do átomo possibilitam pesquisar as relações entre
suas partículas. Os conceitos e modelos especulativos, as representações-
fantasia de Mach são, tais como a metapsicologia freudiana, superestru-
turas especulativas das teorias científicas que possuem utilidade heurística.
Ao parafrasear Mach, Freud afirma, portanto, muito mais do
que uma certa simpatia pelas posições metodológicas em jogo: ele está
reiterando uma determinada linha de pesquisa para a construção da psi-
cologia como uma ciência empírica, que tem em Kant sua referência filo-
sófica inicial. Isso se dá, não apenas em termos gerais – já que após Kant
toda ciência natural lhe deve um tributo –, mas em termos mais específi-
cos, reconhecíveis tanto numa orientação-guia de pesquisa como na apli-
cação de um método de pesquisa no qual se articulam conceitos empíricos
com ficções heurísticas. Esse conjunto de referências indica que, para Freud,
o ponto de vista dinâmico, a noção de força psíquica (as pulsões), a consi-
deração de que isso é um tipo de mitologia científica, não corresponde,
pois, a um uso analógico e descompromissado desses termos, mas sim a
uma opção epistemológica e metodológica conscientemente adotada.
16 Na versão francesa desse livro, esse trecho está mutilado e o termo Hexen-sabbat não
aparece. A tradução desse trecho, do original em alemão, é de Zeljko Loparic.
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Estudos clássicos de epistemologia (por exemplo, Nagel 1978
[1959]) mostram que há, na ciência, um ponto de vista convencionalista,
no qual é defendido, como método de pesquisa, o uso de conceitos e
modelos que têm apenas um valor operativo, ou seja, que servem de
orientação-guia para a organização dos dados e para a procura das rela-
ções que regem os fenômenos. Sendo apenas convenções, esses conceitos
não devem ser confundidos com os que têm um referente empírico dado
ou possível. A análise do proceder epistemológico e metodológico de Freud,
tal como desenvolvi neste artigo, mostra que ele é, da mesma maneira
que Mach, um adepto desse ponto de vista convencionalista ou heurístico.
Mostrei que, para Freud, a teoria psicanalítica é composta de
dois corpos teóricos de naturezas diferentes, um empírico e outro
especulativo, que se articulam coerentemente ao propor uma determina-
da maneira de conceber as ciências empíricas. Essa distinção, entre uma
teoria clínica e outra, metapsicológica na psicanálise, já foi observada por
outros autores, tais como, mas cada um à sua maneira, Rapaport (1960),
Gill (1976), Grünbaum (1984), Ricoeur (1965), Schafer (1982). Mas essa
diferenciação – articulada claramente com a caracterização da natureza
empírica ou especulativa dos conceitos envolvidos, bem como com a aná-
lise da função das teorias especulativas, entendidas como a expressão de
um coerente método de pesquisa nas ciências empíricas, o qual, por sua
vez, pode ser reconhecível na formação científica e filosófica de Freud (em
especial nas concepções epistemológicas e metodológicas de Mach e Kant)
— fornece, pelo que sei, uma nova linha de interpretação. Essa maneira
de conceber a teoria psicanalítica não introduz uma cisão na obra freudiana
— tal como Green (1995, p. 35) supõe ocorrer, caso seja aceita essa dife-
renciação —, mas reconhece nela a explicação coerente de um método
amplamente aceito no quadro das ciências empíricas. A metapsicologia
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artigo5.p65 156 10/23/2003, 3:07 PM
não é, pois, como escreveram Roudinesco e Plon no Dictionnaire de la
psychanalyse (1997, p. 668), o conjunto da concepção teórica de Freud,
mas tão-somente a sua superestrutura especulativa.
Convém, ainda, esclarecer que, para Freud, a teorização
metapsicológica também não é uma hermenêutica17, ela não fornece sen-
tido aos fenômenos psíquicos: os conceitos metapsicológicos – as forças,
as energias ou as instâncias de um aparelho – não dão sentido algum para
as experiências vividas na situação clínica. A hipótese metapsicológica,
por exemplo, de que o trauma corresponde a um quantum de energia não
descarregada não fornece ao paciente, nem ao analista, nenhum sentido
Em resumo, a metapsicologia não pode explicar os fenômenos
clínicos nem constituir o sentido, ou parte do sentido, desses fenômenos,
caso a palavra fenômeno seja tomada de acordo com o uso habitual, de-
signando algo acessível à experiência clínica. A sua função é a de auxiliar
a organização dos fatos, tornando possível estruturá-los e relacioná-los;
ela é um constructo para conectar as descrições e uma orientação-guia
para procurar (observar) novos dados. As especulações metapsicológicas
não são nem fornecem explicações, mas estabelecem um quadro e uma
direção para a busca de explicações factuais (empíricas) sobre os fenôme-
nos psíquicos.
8. Algumas considerações sobre as reformulações feitas por Freud
em sua metapsicologia
O que obrigou Freud a fazer mudanças significativas na sua
teoria metapsicológica, inicialmente apresentada no capítulo 7 de A in-
terpretação dos sonhos, foram os problemas clínicos que não podiam ser tra-
tados de maneira adequada por esse primeiro modelo. A consideração de
17 Veja em Grünbaum 1984 uma análise crítica da concepção hermenêutica da teoria
e da terapia psicanalítica.
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artigo5.p65 157 10/23/2003, 3:07 PM
que o aparelho psíquico (subdivido em três instâncias: inconsciente, pré-
consciente e consciente) era movido por duas pulsões básicas (as de
autoconservação e as sexuais), ambas guiadas pelo princípio do prazer,
mostrava-se inadequada ante os seguintes problemas, entre outros: Como
os sonhos, enquanto realização de desejos, poderiam reapresentar repeti-
das vezes uma situação de desprazer? Como entender a repetição “inten-
cional” de eventos que causam desprazer (como analisado no jogo do
carretel)? Como compreender o que ocorre com as neuroses narcísicas,
considerando, enquanto impulsos básicos, as pulsões de autoconservação
e as sexuais? Como conceber o que ocorre com o sádico e o masoquista? E
o que dizer da constatação de que, às vezes, parece haver um “destino
demoníaco” que leva certas pessoas a repetirem sempre os mesmos tipos
de sofrimentos?
Para dar conta desses fatos clínicos, incompatíveis com o mode-
lo da primeira tópica, mas mantendo seu programa de pesquisa – a saber,
a psicanálise como ciência natural, que objetifica o psiquismo, conside-
rando-o do ponto de vista dinâmico –, Freud reformulará os conceitos de
sua metapsicologia. Ele substituirá suas construções auxiliares, propondo
um novo par de pulsões, que serão concebidas como impulsos básicos que
levam o aparelho psíquico tanto a constituir unidades cada vez maiores –
e a mantê-las (Eros ou pulsão de vida) – como a procurar eliminar as
tensões, internas a esse aparelho, ao seu menor nível, levando, no limite,
o ser vivo a seu estado zero de tensão, ou seja, a seu estado inorgânico (a
pulsão de morte). Nesse segundo modelo, a figuração especulativa do
psiquismo também foi reformulada, supondo-se, então, uma nova orga-
nização do aparelho psíquico, agora subdividido nas instâncias denomi-
nadas id, ego e superego, com seus conteúdos conscientes e inconscien-
tes. Esse novo modelo metapsicológico mostrou-se mais eficiente para
buscar explicações sobre fenômenos clínicos, tais como a hipocondria, o
narcisismo, a tendência à repetição, o sadismo, o masoquismo, etc.
Freud declarara, referindo-se à segunda tópica, que o conceito
de pulsão de morte acabou por impor-se a ele como um modo de pensar:
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“com o passar do tempo, elas [as idéias de pulsão de vida e de morte]
adquiriram um tal poder sobre mim que não posso mais pensar de outra
maneira” (1930a, p. 119). Isso não quer dizer que ele acredite no valor
empírico dessas hipóteses, mas tão-somente no seu valor heurístico. Em
1920, ao apresentar a hipótese do novo par de pulsões básicas, ele revela
duvidar de si mesmo:
Pode-se perguntar se e em que medida eu mesmo estou convencido
das hipóteses aqui desenvolvidas. Eu responderia que não estou e que
não peço a outros que acreditem nela. Mais exatamente: não sei em
que medida acredito nelas. (1920g, p. 59)
Mas ele considera que o conceito de pulsão de morte e as outras
especulações relativas à segunda tópica são úteis para resolver seus pro-
blemas clínicos; essas especulações “instauram esta simplificação que não
negligencia nem viola os fatos, à qual nós aspiramos no trabalho científi-
co” (1930a, p. 119). Pode-se dizer que, para Freud, as pulsões não são
fatos e sim convenções, idéias abstratas, que organizam os fatos.
Segundo Freud, não seria possível construir uma psicologia
científica sem uma metapsicologia: “Sem especular nem teorizar – por
pouco eu iria dizer fantasiar – metapsicologicamente, não se avança aqui
um passo sequer” (1937c, p. 225). No entanto, ele mesmo reconheceu a
possibilidade e a necessidade de mudar os conceitos de sua metapsicologia,
desde que os fatos assim o exigissem. Isso caracteriza a teoria metapsi-
cológica como necessária e substituível.
No entanto, o que define a psicanálise não é a metapsicologia,
mas sim os fundamentos empíricos dessa ciência, seus xiboletes. A
metapsicologia corresponde, para Freud, falando em termos analógicos,
ao andaime ou ao cume do edifício teórico da psicanálise. É justamente o
que ele afirma quando comenta o lugar a ser dado para o conceito de
libido e para outros conceitos de mesma natureza:
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artigo5.p65 159 10/23/2003, 3:07 PM
É que essas idéias não são o fundamento da ciência sobre as quais
tudo repousa: esse fundamento é, ao contrário, somente a observa-
ção. Essas idéias não são as fundações, mas sim o cume de todo o
edifício, e elas podem, sem dano, ser substituídas e retiradas. Nós
temos, ainda, em nossos dias, esta mesma experiência com a física:
suas intuições fundamentais sobre a matéria, os centros de força, a
atração etc. são tão discutíveis quanto as concepções correspondentes
em psicanálise. (1914c, p. 77)
No entanto, uma vez reformulada a metapsicologia, ocorre,
necessariamente, uma reorganização e um reagrupamento dos fatos; mais
ainda, ao mudar a orientação que guia a pesquisa, novos fatos podem ser
O desenvolvimento da teoria metapsicológica pós-Freud, bem
como a análise das críticas de que foi alvo, exigiria uma apresentação
muito mais ampla do que a que seria possível neste artigo. Comentarei,
em seguida, alguns exemplos que mostram uma oposição entre os defen-
sores da metapsicologia e os que a consideram um tipo de teorização
inadequada para a psicanálise. Meu objetivo é marcar os pólos extremos
de uma discussão que ainda não chegou a seu termo. Evidentemente,
esse tipo de exposição indicativa deixa lacunas que necessitariam ser pre-
enchidas por análises mais detalhadas.
Pode-se afirmar que a grande maioria dos psicanalistas tem a
mesma opinião de Freud quanto à metapsicologia: ela é necessária, ainda
que seu conteúdo possa ser substituível. Os grandes representantes da
psicanálise pós-Freud mantiveram-na no centro de suas propostas,
expandindo-a, reformulando-a e, mesmo, reescrevendo-a. Ainda que o
uso das teorias de tipo metapsicológico seja difundido, a análise crítica do
que a metapsicologia é, em termos epistemológicos e metodológicos, é
muito menos comum. Citarei alguns autores que a avaliam como neces-
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artigo5.p65 160 10/23/2003, 3:07 PM
sária, sem, no entanto, desenvolver a maneira específica como entendem
a sua natureza e a sua função. Fédida, por exemplo, reconhecendo o cará-
ter especulativo da metapsicologia, considerava ser impossível uma psi-
canálise sem suas ficções básicas: “nós jamais poderemos anular o concei-
to de pulsão ou a ficção do aparelho psíquico” (1983, p. 36). Green,
mesmo considerando as insuficiências e as inadequações da teoria
metapsicológica, considerava que, até aquele momento (1995), nada su-
ficientemente convincente foi proposto para substituí-la, e, por isso, acha
melhor revisitá-la e desenvolvê-la:
Talvez, feridos pelos limites que encontraram as novas idéias, alguns
– vindos de horizontes muito diferentes – acabaram por concluir que
seria, talvez, mais saudável e menos inibidor para o desenvolvimento
da psicanálise abandonar até a própria idéia de metapsicologia. Eu
jamais fui um desses. E como os partidários desta revisão dilacerante
jamais provaram que esta atitude era a mais fecunda – é o menos que
posso dizer –, prefiro escolher uma outra via. (1995, p. 7)
Nessa mesma perspectiva de defesa da teoria metapsicológica,
Assoun (2001), após fazer um recenseamento da situação da metapsicologia
pós-Freud, avalia esta como uma fonte inigualável do pensamento sobre a clí-
nica, uma bússola sem a qual o psicanalista ficaria desorientado. Em ter-
mos mais descritivos, ele afirma que a metapsicologia
[...] é a garantia da capacidade propriamente explicativa da psicaná-
lise. Ela dá efetividade à busca de uma teoria da causalidade psíquica,
renovada pela consideração dos processos inconscientes – a mesma
que falta às concepções descritivas (psiquiátricas), como aquelas que
buscam um modo de explicação exógena (neurobiológica). A
metapsicologia é, pois, de fato, uma resposta à impotência explicativa
das outras teorias psíquicas, as quais fracassam em explicar – a não ser,
como a psiquiatria, por “causas distantes” – os processos psíquicos
mantendo a especificidade desses processos, [uma resposta que se
põe] em contraste com as explicações “exógenas” (em particular, as
das neurociências). (2001, p. 121)
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artigo5.p65 161 10/23/2003, 3:07 PM
No outro pólo encontramos críticas à teoria metapsicológica,
tanto por parte de filósofos e epistemólogos quanto de psicanalistas. Em
geral, eles duvidam da adequabilidade desse tipo de teoria para abordar
os fenômenos dos quais trata a psicanálise. Alguns até mesmo questiona-
ram se a ciência psicanalítica, tal como Freud a construiu, edificada no
solo do sistema kantiano, seria uma proposta que se sustentaria diante
das grandes transformações teóricas – na filosofia e nas ciências – feitas ao
Dois dos maiores nomes da filosofia do século XX criticaram
diretamente a metapsicologia. Heidegger mostrou que o pensamento fi-
losófico da modernidade, incluindo Kant, objetifica o homem, desca-
racterizando sua essência. Sobre Freud, Heidegger escreveu: “A metapsi-
cologia de Freud é a transposição da filosofia neokantiana [da natureza]
ao ser humano. Por um lado, ele [Freud] usa as ciências naturais e, por
outro, a teoria kantiana da objetividade” (2001 [1987], p. 222). Para
Wittgenstein (1966), a perspectiva dinâmica que anima o pensamento
teórico de Freud obscurece nosso entendimento sobre o homem. Mesmo
reconhecendo que Freud é um autor que tem muito a dizer, criticou seu
recurso a uma mitologia teórica que, na sua opinião, dá a ilusão de com-
preensão, quando, na verdade, apenas esconde aquilo que trata.
Diversos psicanalistas fizeram, de diferentes ângulos, críticas à
teoria metapsicologia, em especial os teóricos das relações de objeto
(Fairbairn e Guntrip), os representantes da psicologia do ego e do self
(Hartmann e Kohut), os que se aproximam de concepções fenomenológicas
da teoria e da prática psicanalítica (Georges Klein e Roy Schafer), além
de outros que, tendo elaborado teorias psicanalíticas alternativas, rejei-
tam o recurso ao modo de teorização metapsicológico, como é o caso de
Dou alguns exemplos, a fim de tornar mais claras e objetivas
algumas das críticas feitas. Guntrip considera que a psicanálise de Freud
é composta de teorias diferentes, nem sempre cuidadosamente distinguidas
pelos psicanalistas: uma formulada em termos de uma teoria impessoal
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do funcionamento mental, cujo objetivo é apresentar a psicanálise como
uma ciência natural, e outra manifesta na forma de uma “teoria do si-
mesmo ativo, perseguindo fins nos seus relacionamentos humanos vivos”
(1961, p. 118). A metapsicologia corresponde à teoria impessoal. Ao pro-
por esse tipo de teoria, Freud não fez uma psicologia genuína, mas uma
fisiologia disfarçada, acabando por obscurecer ou falsificar os fenômenos
que tenta abordar: “Para a psicanálise, a psicologia é o estudo da mente
humana pessoal. Se a mente humana é despersonalizada, ela cessa o ser
humano, mas não é possível criar uma ciência pela falsificação dos dados”
(ibid., p. 129). Guntrip tentou substituir a metapsicologia de Freud por
um outro tipo de teoria, referida às relações de objetos, formuladas em
termos das relações humanas propriamente ditas.
Hartmann e Kohut, ao proporem uma separação dos conceitos
de eu e de si-mesmo, consideram ter dado um passo decisivo para o de-
senvolvimento da psicanálise, pois essa diferenciação torna possível for-
mular as teorias psicanalíticas de uma maneira muito mais próxima da
experiência. Diz Kohut:
(...) o ego, o id e o superego são os componentes, na psicanálise, de
uma abstração específica, de alto nível, isto é, distante da experiên-
cia: o aparelho psíquico. [...] O si-mesmo, entretanto, surge na situa-
ção analítica e é conceituado na forma de uma abstração psicanalítica
de um nível relativamente baixo, isto é, relativamente próxima à
experiência, como um conteúdo do aparelho mental. (1988 [1971],
George Klein, seguindo a distinção entre a metapsicologia e a
teoria clínica tal como Ricoeur a apresenta (cf. Klein 1976, p. 26), julga
que essas teorias engendram “dois modos incompatíveis de explicação”
(ibid., p. 13), e que a metapsicologia, expressão do “positivismo inveterado”
de Freud, deveria ser abandonada a favor de uma teoria clínica que deci-
fraria não as causas, mas as intenções e os sentidos da experiência e dos
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artigo5.p65 163 10/23/2003, 3:07 PM
O objetivo central da explicação psicanalítica é a leitura da
intencionalidade; o comportamento, a experiência e o testemunho
são estudados por seus sentidos neste contexto, enquanto eles
exemplificam, em conjunto, as diretrizes, tensões, admitidas, não-
admitidas, reprimidas, proibidas... Aplicada à compreensão dos sin-
tomas, por exemplo, uma tal explicação consiste em remeter um sin-
toma não ao funcionamento de um mecanismo que seria, ele mesmo,
observável, real ou potencialmente, mas ao contexto de uma história
de vida, na qual o sintoma torna-se inteligível enquanto exemplificação
de uma solução em conformidade com certos fins. (Ibid., p. 26)
Schafer (1982), por sua vez, considerou a linguagem metapsi-
cológica (forças, pulsões, energias, aparelhos, etc.) inadequada para a com-
preensão do homem, mostrando a necessidade de substituí-la.
As críticas à metapsicologia consistem, grosso modo, em considerá-
la um tipo de instrumento teórico que estaria em desacordo com a natu-
reza dos fenômenos que investiga – a vida psíquica do homem e as rela-
ções inter-humanas –, produzindo um falseamento da compreeensão dos
fatos clínicos observados. Não se trata apenas de um problema teórico,
pois da teoria metapsicológica deriva uma prática clínica que, no limite
da sua aplicação, leva a um método de tratamento que toma as pessoas e
as relações inter-humanas pelo que elas não são: objetos regidos por leis
Tendo analisado qual é a natureza e a função da teoria metapsico-
lógica em Freud, bem como retomado algumas das críticas a ela dirigidas,
é possível colocar com maior precisão a pergunta sobre o futuro dos mo-
dos de teorização na psicanálise, apresentando uma bifurcação radical no
que se refere à metapsicologia: ou ela é desenvolvida – enquanto uma
superestrutura especulativa necessária – e, no limite desta opção, tenta-
se substituí-la por outra, mais eficiente ou, então, considera-se que as
teorias metapsicológicas devem ser abandonadas em favor de um outro
tipo de teorização sem especulações, que se mostraria, por sua vez, mais
eficiente e adequado à resolução de problemas próprios à psicanálise.
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Não creio ser o caso de iniciar, agora, uma análise dos argumen-
tos a favor e contra a posição dos autores acima citados, mostrando as
proximidades e a maneira como eles e eu interpretamos a metapsicologia
de Freud. No entanto, considero que a perspectiva de análise aqui apre-
sentada pode contribuir para a compreensão mais precisa do papel da
teoria metapsicológica no desenvolvimento da psicanálise.
Algumas pesquisas recentes, dedicadas à análise da obra de
Donald Winnicott (cf. especialmente Loparic 2001c e Dias 2003), to-
mam esse autor como um caso diferente entre os psicanalistas que teriam
se oposto à teorização metapsicológica, considerando que sua obra forne-
ce uma nova perspectiva para o desenvolvimento da psicanálise. Para
eles, Winnicott reformulou o próprio paradigma18 da psicanálise, alteran-
do suas bases ontológicas e propondo uma teoria geral sobre o amadure-
cimento pessoal que se mostra mais ampla do que a teoria da sexualida-
de, e apresentou uma maneira de teorizar que não toma a natureza hu-
mana como um objeto natural, afastando-se do solo da metafísica da na-
tureza sobre o qual Freud edificou sua ciência.
Apresentarei, pois, neste final de artigo, algumas passagens de
Winnicott que confirmam suas críticas à metapsicologia como um modo
de teorização na psicanálise, com o objetivo de fornecer índices a favor da
hipótese de trabalho de que Winnicott construiu uma psicanálise sem a
metapsicologia, uma hipótese que, para ser amplamente aceita, necessita
ainda de pesquisas complementares.
10. A possibilidade efetiva de uma psicanálise
sem a metapsicologia
Winnicott formulou uma teoria que se mantém próxima da
experiência imediata – sobretudo a que lhe vem da clínica pediátrica,
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artigo5.p65 165 10/23/2003, 3:07 PM
com os bebês e suas mães, e da clínica psicanalítica, com psicóticos que
necessitam regredir à dependência –, evitando toda teorização abstrata
de tipo metapsicológica. Ele considera que o tipo de linguagem teórica
utilizado para tratar das questões humanas deve ter certas características
que aproximam a teoria daquilo que ela tenta entender: “Um escritor da
natureza humana precisa ser constantemente levado na direção da lin-
guagem simples, longe do jargão do psicólogo, mesmo que tal jargão
possa ser valioso em contribuições para revistas científicas” (1957o,
p. 121). De uma maneira mais ou menos explícita, ele fez críticas aos
conceitos fundamentais da teoria metapsicológica, seja no que se refere
aos fundamentos que constituem a metapsicologia – o dinâmico e as
pulsões, o econômico e a libido, o tópico e as instâncias de um aparelho
psíquico – seja julgando-a como um todo. Darei exemplos de cada uma
dessas críticas.
Para Winnicott, os conceitos de pulsão de vida e de morte mais
atrapalham do que ajudam a compreensão do desenvolvimento infantil.
Em 1952, numa carta a Money-Kyrley, ele escreveu:
[...] o conceito de pulsão de vida e de morte evita o campo de inves-
tigação tão rico do desenvolvimento inicial do bebê. É uma pena que
Melanie tenha feito um esforço tão grande para conciliar sua opinião
com a pulsão de vida e de morte, que são, talvez, o único erro de
Freud. (1987, p. 37).
Não só na sua correspondência, mas também nos textos publi-
cados, ele reafirma a sua opinião: “Eu, simplesmente, não acho válida sua
idéia [de Freud] de pulsão de morte” (1965va [1962], p. 161). Sua crítica
não se restringe às forças psíquicas básicas que Freud postulou na sua
segunda tópica, mas recai no próprio conceito de pulsão. Deve-se, aqui,
apontar que a tradução de Trieb por Instinct borrou as diferenças entre as
concepções de Freud e as de Winnicott, pois, neste último, Instinct tem
um sentido que não corresponde ao Trieb de Freud. Para Winnicott, o
instinto não é um representante psíquico de uma tensão corporal, mas a
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própria tensão que exige uma ação: “Instinto é um termo pelo qual se
denominam poderosas forças biológicas que vêm e voltam na vida do
bebê ou da criança, e que exigem ação” (1988, p. 57). As poderosas forças
biológicas não correspondem às idéias abstratas ou convenções. O instinto,
para Winnicott, não é um conceito-limite entre o somático e o psíquico,
mas uma fonte biológica que terá de ser elaborada psiquicamente (cf. Loparic
2000b). Tratar-se-ia aqui, portanto, do abandono do conceito fundamen-
tal da metapsicologia freudiana, apontando para a construção de uma
psicanálise sem a mitologia das pulsões.
Winnicott também se opõe à idéia de que a natureza humana
possa ser adequadamente compreendida por meio da suposição de uma
energia que circula no seu interior, ou seja, critica a proposta de se tratar
a natureza humana em termos econômicos:
Freud aí lida com a natureza humana em termos de economia, sim-
plificando o problema deliberadamente com o propósito de estabele-
cer uma formulação teórica. Existe um determinismo implícito em
todo esse trabalho, a premissa de que a natureza humana pode ser
examinada objetivamente e que podem ser aplicadas a ela as leis que
são conhecidas em Física. (1958o, p. 20)
Em seguida a essa afirmação, Winnicott faz uma análise do sen-
timento de culpa nos aspectos empiricamente observáveis das relações
inter-humanas, tais como a aquisição da capacidade para sentir culpa, os
sentimentos associados com a vida instintiva e com as relações edípicas,
triangulares, e a capacidade de tolerar a ambivalência dos sentimentos de
amor e ódio. Não há nessa análise nenhum recurso à noção de libido,
enquanto uma energia, ou qualquer outro fator quantitativo que fosse
suscetível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga. Isso parece
indicar o abandono do ponto de vista econômico, tal como Freud havia
proposto, sem que isso signifique abandono de descobertas tais como o
complexo de Édipo, a vivência de ambivalência, etc.
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Quanto ao ponto de vista tópico, o terceiro eixo da teoria
metapsicológica, Winnicott também não o utiliza, pois não toma as ins-
tâncias psíquicas – tais como id, ego e superego – como ficções teóricas,
figurações espaciais de um aparelho fictício, mas as usa num sentido mais
descritivo. Veja, por exemplo, como ele interpreta o que significam esses
Nas suas formulações teóricas iniciais ele estava interessado no id,
nome pelo qual ele se referia aos impulsos instintivos, e no ego, nome
pelo qual ele chamava aquela parte do eu total que se relaciona com
o ambiente. O ego modifica o ambiente para conseguir satisfações
para o id, e freia impulsos do id para que o ambiente possa oferecer o
máximo de vantagens, do mesmo modo para a satisfação do id. Mais
tarde (1923) Freud usou o termo superego para denominar o que é
aceito pelo ego para uso no controle do id. (1958o, p. 20)
Não se trata, para Winnicott, de discordar apenas deste ou da-
quele conceito, mas, sim, da própria teoria metapsicológica, consideran-
do que ela obscurece a compreensão dos fatos clínicos, o que fica explícito
na sua carta a Anna Freud, de 18 de março de 1954:
Estou tentando descobrir por que é que tenho uma suspeita tão pro-
funda com esses termos [metapsicológicos]. Será que é por que eles
podem fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreen-
são não existe? Ou será que é por causa de algo dentro de mim? Pode
ser, é claro, que sejam as duas coisas. (1987, p. 51)
Para ser levada a sério, a concepção de uma psicanálise sem meta-
psicologia precisaria mostrar que problemas antes tratados por meio dela
poderiam ser melhor resolvidos por outro tipo de teorização. Um exem-
plo possível é o do fenômeno da agressividade no ser humano. Para Freud
e Melanie Klein, que pensam no interior do quadro da metapsicologia, a
agressividade tem sua fonte na frustração e, em última instância, na pulsão
de morte; para Winnicott, no entanto, ela não advém, de modo algum,
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da pulsão de morte, tendo sua origem na motilidade, nos estados excita-
dos decorrentes de tensões instintuais e na quebra da continuidade de ser,
que deriva de intrusões ambientais.19
O que resulta desta minha análise, como tema a ser aprofundado
por pesquisas futuras, é a avaliação da natureza e da função da teoria
metapsicológica em Freud, bem como a hipótese de que é possível uma
psicanálise sem esse tipo de teorização, o que relança a discussão sobre os
modos de teorização na história e desenvolvimento da psicanálise.
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19 Para uma análise mais pormenorizada das raízes da agressividade em Winnicott, cf.
Dias 2000.
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Recebido em 8 de março de 2003.
Aprovado em 23 de junho de 2003.
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