Source: https://issuu.com/clinicavet/docs/clinicavet74
Timestamp: 2016-12-06 02:03:27+00:00

Document:
Clínica Veterinária n. 74 by Revista Clínica Veterinária - issuu
Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008 - R$ 13,00
Indexada no ISI Web of Knowledge - Zoological Record e no CAB Abstracts
Heloísa Orsini
Neurologia - 28
Eduardo B. Santos Júnior
Patogenia das lesões do sistema nervoso
central (SNC) na cinomose canina
Cirurgia - 36
Infiltração inflamatória perivascular
na substância branca do cerebelo
de um cão com cinomose. H/E.
Cão após cinco meses da realização da glossectomia: observar tecido lingual totalmente cicatrizado
Bernardo Kemper
Ortopedia - 40
Fixação percutânea externa complementar na osteossíntese de
fratura pélvica cominutiva bilateral - relato de caso em um cão
Renato Moraes Sarmento
Use of the complementary external percutaneous fixation in the osteosynthesis
of bilateral comminuted pelvic fractures - case report in a dog
Fijación percutánea externa complementar en la osteosíntesis de fractura
pélvica conminuta bilateral - relato de caso en un perro
Tumor maligno de bainha nervosa em papagaioverdadeiro (Amazona aestiva) - relato de caso
Clínica médica - 52
Tahisa Faria Velloso
Fotomicrografia de tumor maligno de
bainha nervosa excisado da face de
um papagaio-verdadeiro (Amazona
aestiva), com área de transição entre
os tecidos Antoni A (em amarelo) e
Antoni B (em vermelho).
Imagem fotográfica pós-cirúrgica
imediata, mostrando os pinos de
Schantz implantados no coxal e
conectados externamente com
barra de polimetilmetacrilato
Saúde pública - 58
Leishmaniose tegumentar americana em felino doméstico no
município do Rio de Janeiro, Brasil - relato de caso
American tegumentary leishmaniasis in a domestic feline
in the city of Rio de Janeiro, Brazil - case report
Leishmaniasis tegumentaria americana en un felino doméstico
en la ciudad de Rio de Janeiro, Brasil - relato de caso
Clínica médica - 62
abstrusus encontrada em fezes
de gata examinada pelo método
de Baermann. (Objetiva de 10x)
Felis catus, SRD, fêmea, três anos,
com lesões ulcerativas no plano nasal
causadas por L. (V.) braziliensis
Vasculite necrosante e focos hemorrágicos no encéfalo de gato
acometido pela peritonite infecciosa dos felinos - relato de caso
Necrotizing vasculitis and hemorrhagic foci in the encephalon
of a cat with feline infectious peritonitis - a case report
Vasculitis necrosante y focos hemorrágicos en encéfalo de gato
acometido por peritonitis infecciosa felina - relato de caso
Ilvio Mendes Vidal
Clínica médica - 68
Eletrocardiografia em quatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantidos
em cativeiro e contidos quimicamente com quetamina e xilazina
Electrocardiography in coatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) maintained
in captivity and restrained chemically with ketamine and xylazine
Electrocardiografía en coatíes (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantenidos
en cautiverio y contenidos químicamente con cetamina y xilazina
Vasculite e necrose de vaso sangüíneo e conseqüente extravasamento de sangue para o interior do
Quati (Nasua nasua - Linnaeus, 1766)
• Relançamento de Duramune® Max
• I Seminário de Residência em
• Scientific Meeting Royal Canin
Bem-estar animal - 26
• Total Alimentos lança selo de
comprometimento social, ético e
• Lista Vermelha do Pará
• Congresso da Anclivepa 2008
• Consumidores de Frontline® ganharão
cobertura para emergências e mortes do
• O programa do Ministério da Saúde de
avaliação externa da qualidade em sorologia
para leishmaniose visceral canina certifica o
• Jundiaí (SP) já tem centro de
• Núcleo Diagnóstico Veterinário implanta
ensaio de proficiência para controle de
qualidade para laboratórios
• Bayer Brasil cresce 25% em vendas e
planeja dobrar investimentos no Brasil
Eventos discutem o bem-estar animal, a
vivissecção e o direito animal
Animais silvestres como animais de estimação
Gestão, marketing e
estratégia - 91
Lançamentos - 94
Livros - 76
• Virologia veterinária
• Seja vegano
oportunidades - 96
Ofertas de produtos e equipamentos
Legislação - 78
• Resolução do CFMV normatiza
• Caça é proibida no Estado do
Ecologia - 86
Pesquisa - 82
Nova linhagem de bactéria, resistência a
medicamentos, pobreza e interação com Aids
agravam quadro da tuberculose
especialidades - 97
Prestadores de serviços para
clínicos veterinários
Agenda - 104
Interação homem-animal - 84
Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008
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Journal of continuing education for small animal veterinarians
ou papagaiodiadema
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FCAP/UFPA
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http://www.thomsonreuters.com/products_services/scientific1/Zoological_Record
stamos muito felizes celebrando esta grande conquista que é a indexação desta revista no ISI WEB of
Knowledge, na seção Zoological Record, como pode ser observado no site da instituição (vide imagem
Esta indexação é a comprovação e o reconhecimento internacional da qualidade editorial da Clínica
Veterinária por parte de um organismo que preza a excelência científica.
O trabalho de fazer uma revista especializada enfrenta inúmeros obstáculos, especialmente num país
como o nosso. É preciso vencer a inércia inicial que qualquer publicação é obrigada a enfrentar, mostrar a
seriedade das intenções, a competência, montar uma equipe de autores e consultores, aprender com os
erros e acertos, conquistar credibilidade passo a passo, buscar sempre a qualidade, na visão de conjunto e
nos detalhes, investir em esforço, em tempo, em obsessão pela precisão e clareza das informações, dentro
do amplo propósito de promover a divulgação científica e a educação continuada do médico veterinário.
O trabalho envolvido para levar adiante esse projeto e transformá-lo numa realização contou com a persistência da fé pessoal e com o incentivo de muitos que desde o início acreditaram e apoiaram o nosso
trabalho, mantendo-se ao nosso lado com coragem e alegria.
Esse reconhecimento internacional é resultado da dedicação dos autores e editores e, principalmente, da
atuação dos consultores, que ao longo destes treze anos vêm, generosamente, contribuindo com seus conhecimentos e disposição, avaliando, corrigindo, sugerindo e zelando pela qualidade de nossa publicação.
Agradecemos imensamente a todos que têm colaborado conosco para que este importante acontecimento pudesse se concretizar.
É momento de celebrações, mas também é uma grande responsabilidade.
Agora, mais do que nunca, precisamos buscar a qualidade nos trabalhos que publicamos e, para isso,
Que todos possamos ser cada vez mais abençoados em nossas realizações.
Clínica Veterinária, Ano XII, n. 74, maio/junho, 2008
Anclivepa 2008 - Eita coisa boa!
Outro fato inédito nos
palestra de abercongressos da Anclivepa
tura do Congresfoi o compromisso social
so da Anclivepa
que os organizadores se
teve um tema inédito:
propuseram, direcionanComo ganhar mais dido uma parte da renda do
nheiro de forma ética,
congresso para a Apala,
proferida pelo prof. dr.
organização que cuida de
Marco Antonio Gioso,
sucesso é ler”, afirmou
que destacou a importânMarco A. Gioso
Os colegas que não pucia de planejar e seguir mederam comparecer, não
tas. A palestra prendeu a atenção de
devem perder o próximuitos clínicos e de veterinários da
mo, pois será o munindústria. Inclusive, representantes
dial da WSAVA!
do segmento pet da indústria farmaA seguir, confira
cêutica veterinária aproveitaram essa
algumas fotos que registraram o evento.
palestra para comunicar aos clínicos a criação da Comissão Animais
de Companhia (Comac), braço do
Sindan, que visa o
crescimento ordenado do setor pet.
Com muita atenção e gentileza, a Anclivepa-AL
recebeu todos os participantes do congresso
A nutrição enteral do paciente
crítico, tema bastante atual, foi
abordada por Márcio Brunetto,
da Unesp/Jaboticabal. A aplicação dos seus conceitos é
viável de ser inserida nas clínicas veterinárias e vital para os
Nuno Félix, de
Portugal, veio ao
Brasil dar sua
evento, abordando a nutrição
povo alagoana
João Telhado discorreu sobre a
interação homemanimal e também
transmitiu importantes informação
de medos e fobias
Da esquerda para a direita, os palestrantes
Ronaldo Casimiro, Hélio Autran e Yves Miceli
O presidente do CBA 2008, André Sandes
Moura, deixou registrado no stand da WSPA
sua mensagem de apoio ao bem-estar animal
Vitor Márcio Ribeiro lotou o auditório com sua palestra sobre
tratamento da leishmaniose visceral canina, a qual foi
patrocinada pela WSPA, e também participou de mesa
redonda sobre o tema, juntamente com Carlos Muller, Rita
Leal Paixão , Norma Labarthe e Lêucio Alves
receberam anais
A emergência veterinária e
a terapia intensiva foram
bastante abordadas no congresso. Rodrigo Rabelo,
presidente da Academia Brasileira de Medicina Veterinária Intensiva (BVECCS)
ministrou vária palestras.
Quem não foi, não deve
perder o I Congresso LatinoAmericano de Emergência
e Cuidados Intensivos, que
ocorrerá em dezembro, no
A avaliação crítica do tratamento da dor em pequenos animais,
assunto apresentado por Stélio
Luna Pacca, despertou interesse do público participante
discorreu sobre o tratamento médico e cirúrgico das
atraiu um
Nestlé Purina foi a patrocinadora oficial do congresso. A
empresa possui produto inovador, o Pro Plan OptiStart Plus,
que inclui colostro em sua formulação, ingrediente rico em
temas abordados por
de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária
(CBCAV) foram a
Maceió literalmente
CBCAV. O evento
Bernard Pouloux e
Yvex Miceli deram
importante contribuição ao evento com
de pet food e as inovações da Royal
A Royal Canin inovou com seu espaço
cultural onde os médicos veterinários
puderam participar a um circuito de 4
palestras que apresentavam as últimas
inovações em termos de nutrição para
gatos castrados, proteção contra herpesvirose em filhotes felinos, diluição de
cálculos urinários e alimentação para
animais internados.
médicos veterinários em grupos de 8
pessoas que assistiram ao circuito de
A CentralVet, empresa especializada em
evento apresentando, entre outras, a
linha Frenesis Kabi,
da qual faz parte o
Ketosteril, medicamento composto por
cetoanálogos, fórmula patenteada
indicada no tratamento da insuficiência renal crônica
Pedigree e Whiskas destacaram-se no congresso e prestaram excelem suporte oferecendo acesso à internet pelo seu cyber space
Eduardo Batista Borges (presidente - CRMV-RJ) e José Maria
dos Santos Filho (presidente CRMV-CE), que estão compondo uma das chapas que serão
canditadas à gestão 2008/2011
do CFMV. Já se encontra publicado no sítio do CFMV (www.cfmv.
org.br) o edital de convocação
dos delegados eleitores dos
Presente no Brasil e no exterior, a Vetnil divulgou
no congresso que ainda esse ano irá lançar 15
novos produtos e duas novas linhas
Bayer manteve seu foco na
ZooAção, importante campanha de prevenção de zoonoses, toda apoiada em produtos de
qualidade, associados a excelente materiais
educativos para serem utilizados pelos médicos
veterinários com os proprietários de cães e gatos.
A campanha é realizada anualmente durante os
meses de maio a agosto e envolve a distribuição
de materiais informativos sobre zoonoses aos
médicos veterinários e donos de cães e gatos
em pontos-de-venda de todo o país
Vanguard Plus foi um
dos destaques da Pfizer
Informe técnico da
König distribuído no
evento, apresenta
dados sobre casos de
reinsfestação natural
de endoparasitas em
cães de área urbana
Um dos focos da Fort Dodge durante o evento
foi informar que Duramune® Max 5-CvK/4L
agora proporciona três anos de imunidade contra a parvovirose, conforme estudo realizado
com cães vacinados e desafiados
O grupo Ceva Vetbrands focou suas ações no
grande lançamento realizado recentemente: o
Fiprolex, ectoparasitário que possui o fipronil
como princípio ativo
Desde o início do processo de fusão esse foi o
primeiro congresso que a Intervet e a ScheringPlough apresentam-se juntas
Além de produtos como a Recombitek e a
Pneumodog, a Merial promoveu a nova campanha feita com Frontline: proteção plus, que agrega benefícios ao consumidor
A Total apresentou aos participantes sua mais
nova linha de alimentos high premium: naturalis
A equipe da Nutron Pet participou pela primeira
vez do Congresso Brasileiro da Anclivepa, levando sua nova linha de alimentos: a wellness
Ouro Fino participou
levando novidades aos
participantes: Energy
Pet e AziCox-2 200mg
Organnact levou ao evento linha que adquiriu
recentemente: a Fitovet
Frost, alimento high premium, promovido
Bet Laboratories participou divulgando seus
exames especializados em endocrinologia veterinária, que podem ser enviados de qualquer
A Bio Brasil expôs vários equipamentos
laboratoriais que são comercializados
em condições especiais para os clínicos, ajudando-os a inserir a tecnologia
no dia-a-dia do atendimento clínico
O Tecsa
Laboratórios foi
bastante procurado. O laboratório
recebeu recentemente cerficado
reportados para
visceral canina
Detentora de uma ampla linha de protudos para pets
a Coveli também levou uma grande novidade aos
participantes do evento: o Coprovet, único anticoprofágico do mercado
Muitos atrativos no stand
Pardini, entre
eles, a ampla
relação custo/
benefício foram
encontradas pelos
congressistas no
stand da Brasmed
Xandog foi uma das importantes linhas de produtos que a Centagro possui e que levou ao
A ControlLab, empresa especializada no gereciamento do controle de
qualidade de laboratórios marcou
presença em Maceió
Guabi investiu em destacar
a linha Natural
Aparelhos de anestesia inalatória específicos para medicina
veterinária estavam expostos
no stand da Oxigel. Outra oportunidade para pesquisar sobre
esse tipo de equipamento será
no Congresso Brasileiro de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária, que ocorrerá em novembro, em Recife, PE
A linha especializada de produtos amici dottori atraiu a atenção de vários participantes do
A equipe da Agener União apresentou mais
um lançamento da empresa: o Revipel, produto que traz grande benefícios aos problemas
de calosidades de apoio e escaras
O Laboratório Biovet apresentou novos produtos em seu
stand: o Amitraz 12,5% agora em embalagem de 200mL e o
Condrovet Pet, suplemento vitamínico apresentado na forma
de comprimido palatável, que possui extrato de yucca, glucosamina, colágeno, 100% de sulfato de condroitina A, zinco,
cobre, manganês e vitaminas A e E
Eventos discutem o bem-estar animal, a vivissecção e o direito animal
Arquivo CFMV
o período de 16 a 18 de abril de 2008,
na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) foram realizados o I
Congresso Brasileiro de Bem-Estar Animal
e I Seminário Nacional de Biossegurança e
Biotecnologia Animal. Participaram das discussões aproximadamente 500 congressistas, entre médicos veterinários, zootecnistas,
biólogos, professores, estudantes, dirigentes
de Conselhos Regionais de Medicina Veterinária (CRMVs), membros das comissões
assessoras do Conselho Federal de Medicina
Veterinária (CFMV), além de profissionais
de diversos outros segmentos, como centros
de controle de zoonoses e outras instituições.
Os assuntos abordados no I Congresso Brasileiro de Bem-Estar Animal e I Seminário Nacional de Biossegurança e Biotecnologia Animal
foram de grande interesse, contando com a
participação dos especialistas e do público que
Renomados especialistas do Brasil e do
exterior oriundos de diversas instituições
ministraram palestras e conduziram as discussões que ressaltaram que o bem-estar, deve ser entendido no seu sentido amplo, estendendo a preocupação aos sentimentos e sensações vividos pelos animais e não somente
para proporcionar a saúde com o sentido de
ausência de doença. Neste contexto, os procedimentos que causam estresse, dor e medo
precisam ser analisados, compreendidos e
evitados na interação homem-animal. A contribuição dos pesquisadores estrangeiros presentes permitiu aos participantes conhecer a
realidade dos outros países quanto ao bemestar animal.
As situações que causam dor e sofrimento
nos animais mostram efeito semelhante ao que
ocorre com os seres humanos. Expostos a estas
sensações, os animais tem sua imunidade afetada, possibilitando o acometimento de enfermidades de etiologias variadas.
O tema é bastante complexo e apresenta
diversas facetas. Proporcionar mais bemestar aos animais de produção reduzirá sem
dúvida a produtividade e aumentará os preços dos produtos de origem animal. Foram
apontados desafios para o futuro: produzir
melhor, poluindo menos e proporcionando o
A solução – pesquisas, modificações na
legislação e mais investimentos – começa
com a conscientização dos profissionais, que
deve ser trabalhada nas Instituições de Ensino Superior (IES), por meio de disciplinas
específicas que proporcionem formação ética e que assegure a dignidade dos animais.
Ao final do encontro, o foco do debate
voltou-se para as resoluções emanadas do
CFMV que visa normatizar o uso científico
e garantir o bem-estar dos animais, tanto os
de companhia e de produção, quanto os silvestres e aqueles utilizados em pesquisa.
Oportuno e de alto nível técnico, o evento agradou aos distintos segmentos presentes
ao evento. O dr. Rubenval Feitosa, presidente do CRMV-SE, exaltou a singularidade
da iniciativa, por ele analisada como “o pontapé inicial da discussão sobre a relação
homem-animal no meio ambiente, nos diversos contextos: produção, animais de companhia, pesquisa etc”. O mais importante,
destacou Feitosa, foi “a nova visão proporcionada, que nos leva a uma reflexão do comportamento do próprio homem, dos seus valores intrínsecos, já que estamos perdendo os
nossos referenciais como seres humanos.”
Heyde Amorim, bióloga, também aprovou a iniciativa e ressaltou a importância da
visão proporcionada pelas discussões desenvolvidas em Recife. “Na biologia o animal é
entendido como 'coisa'. Mas deve-se respeitar os direitos dos animais e garantir o bemestar deles”, observou.
No começo do mês de abril também ocorreu, na Faculdade de Medicina Veterinária e
(FMVZ/USP), o I Curso Introdutório à
Ciência do Bem-estar Animal e Etologia
Aplicada, uma realização do Departamento
de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde
Animal (VPS).
O curso proposto teve como objetivo principal a introdução dos conceitos básicos sobre a ciência bem-estar animal e etologia aplicada, preenchendo uma lacuna há tanto tempo existente na formação dos profissionais.
A sua continuidade faz parte de uma proposta de educação continuada do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e
Saúde Animal da FMVZ/USP, juntamente
com os pós-graduandos do mesmo departamento.
O entendimento do bem-estar animal é tão
importante hoje para o profissional médico
Realizado na FMVZ/USP, o
I Curso Introdutório à Ciência
do Bem-estar Animal e Etologia Aplicada teve apoio da
revista Clínica Veterinária, da
Nestlé Purina e da WSPA, que também contribuiu cedendo a todos os participantes o
CD-Rom Conceitos em Bem-Estar Animal
veterinário e zootecnista assim como os conhecimentos nas áreas de cirurgia, clínica,
patologia, epidemiologia etc. Dessa forma, o
oferecimento de disciplinas nos cursos de
formação desses profissionais é de fundamental importância, não apenas para a inserção dos profissionais no mercado, mas visando melhorias na qualidade de vida dos
animais e, indiretamente, dos seres humanos.
Entre março e abril desse ano também
ocorreu no Brasil, na Argentina, na Bolívia,
no Peru e no México, o Latino America Tour
InterNICHE (www.internichebrasil.org).
InterNICHE (The International Network for
Humane Education), teve como tema o "I
Encontro sobre Métodos Substitutivos ao
Uso de Animais na Educação: a ética no
avanço do saber". Entre as novidades, foram
exibidos softwares nas áreas de cirurgia e farmacologia e proferidas conferências internacionais pelo coordenador da InterNICHE,
Nick Jukes (Inglaterra). Demonstrações de
métodos substitutivos, palestras técnicas e
mesas-redondas sobre questões éticas e de
direitos animais e estudantis, também fizeram parte da programação.
A discussão do assunto não pára. Do dia
1º ao dia 4 de maio, realizou-se o 1º
Encontro Nacional de Direitos
Animais, em Porangaba, SP, e,
de 8 a 11 de outubro, em Salvador, B A , s e r á
realizado o I
e Direito Animal.
Patogenia das lesões do
(SNC) na cinomose canina
MV, MS. profa. aux.
helorsini@yahoo.com.br
MV prof. dr. tit.
UNIP e UNICSUL
Pathogenesis of central nervous system
(CNS) lesions in canine distemper
Patogenia de las lesiones en el sistema
nervioso central (SNC) en la cinomosis
Resumo: A cinomose é uma doença importante e freqüente na clínica de cães, conhecida por sua alta morbimortalidade e
pelos sinais e sintomas clínicos característicos que gera nos animais acometidos. Apesar de ser reconhecida como a principal
enfermidade infecciosa dos cães, e de técnicas para o seu tratamento e profilaxia serem utilizadas rotineiramente pelo médico veterinário, informações acerca dos mecanismos envolvidos na patogenia da doença – especialmente no que se refere ao
acometimento do sistema nervoso central (SNC) – são ainda pouco difundidas. Tendo em vista a importância do conhecimento
dos mecanismos e processos celulares envolvidos na cinomose para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais
eficientes no tratamento de tal doença, esta revisão traz um resumo dos principais aspectos patológicos da enfermidade e
aborda de forma mais aprofundada a patogenia da afecção do SNC, enfocando os tipos celulares possivelmente envolvidos
no desenvolvimento das alterações neurológicas.
Abstract: Canine distemper is an important and common disease of domestic dogs, known for its high death rate and for its
specific clinical signs and symptoms. Although it is recognized as the main infectious canine disease and in spite of the
techniques for its treatment and prophylaxis being routinely used by clinicians, information about the mechanisms involved in
the disease's pathogenesis – specially regarding the damage to the central nervous system (CNS) – is still unsatisfactorily
shared. Knowledge about the cellular mechanisms and processes involved in canine distemper are crucial to the development
of more efficient therapeutic strategies. This review therefore summarizes the main pathological aspects of the illness and
accesses in a deeper manner the pathogenesis of CNS damage, concentrating on the cellular types possibly involved in the
development of neurological changes.
Keywords: canides, paramyxovirus, encephalitis, glia, demyelination
Resumen: La cinomosis es una enfermedad importante y frecuente en perros, conocida por su gran morbimortalidad y por sus
señales y síntomas característicos. Aunque sea la principal enfermedad infecciosa de los perros, y su tratamiento y profilaxis
sean realizados como rutina por el veterinario, poco se conoce sobre los mecanismos implicados en la patogenia de la
enfermedad, especialmente sobre los daños al sistema nervioso central (SNC). Considerando la importancia en conocer estos
mecanismos, esta revisión trae un resumen de los principales aspectos patológicos de la enfermedad y aborda de forma más
profunda la patogenia de la afección del SNC, enfocando los tipos celulares posiblemente implicados en el desarrollo de
Palabras clave: cánidos, paramixovirus, encefalitis, glía, desmielinización
Clínica Veterinária, n. 74, p. 28-34, 2008
A cinomose é uma doença viral severa e altamente contagiosa, que acomete
cães e outros carnívoros de forma multissistêmica 1,2. Apesar de gerar diferentes alterações orgânicas 1,2, a gravidade
do processo e a morte dos animais estão
relacionadas às lesões desencadeadas
pelo vírus no SNC 2,3.
Sabe-se que as alterações neurológicas presentes na doença se associam aos
processos desmielinizantes e inflamatórios gerados no parênquima nervoso 3,4,5.
No entanto, os mecanismos envolvidos
no desenvolvimento de tais processos
são ainda pouco esclarecidos 6,7.
Uma vez que o SNC é tido como um
sítio de privilégio imunológico 8,9, ou
seja, é isolado de patógenos e elementos
sistêmicos – tais como células inflamatórias – capazes de lesá-lo 8,10, especulase que a desmielinização seja iniciada
pela ação de células constituintes do
próprio tecido nervoso 5,7,11. Por essa razão e pela semelhança histopatológica
das lesões observadas no SNC de animais com cinomose com as originadas
em doenças humanas, tais como a esclerose múltipla (de etiologia ainda indefinida) 5,12,13, o esclarecimento dos eventos
celulares envolvidos no processo de
desmielinização do SNC torna-se essencial. Da mesma forma, para o clínico veterinário, o conhecimento dos mecanismos envolvidos na doença é importante
para o desenvolvimento de estratégias
mais adequadas para o seu tratamento e
prevenção. O presente trabalho tem
como objetivo apresentar um panorama
geral da cinomose e descrever mais
detalhadamente os processos possivelmente envolvidos no desencadeamento das lesões no SNC.
Considerações iniciais sobre a
A cinomose é uma doença que apresenta distribuição mundial 1,2,5. Acomete
diversas espécies de carnívoros domésticos e selvagens, tais como os das
famílias Canidae (raposas, lobos, chacais e coiotes), Mustelidae (lontras, ferrets e furões), Procyoinidae (quatis e
guaxinins) e alguns indivíduos da
família Felidae (gatos domésticos e selvagens, leões e tigres). Moléstias semelhantes, causadas por vírus antigenicamente relacionados ao vírus da cinomose, também foram descritas em focas
e golfinhos 1,2. No entanto, são os cães
domésticos os principais animais acometidos e nos quais a cinomose se manifesta como a principal enfermidade
infecciosa 1.
A cinomose canina é causada por um
morbilivírus, da família Paramyxoviridae,
descrito pela primeira vez em 1905 2.
Trata-se de um RNA-vírus de fita simples, grande (150 a 350nm), de simetria
helicoidal, envelopado 14 e antigenicamente relacionado aos vírus do sarampo
humano e da peste bovina 1. Morfologicamente, é constituído por, além de outras moléculas não-estruturais, seis proteínas estruturais – três internas (L, N e
P), envolvidas na transcrição e na replicação do RNA viral, e três inseridas no
envelope (M, H e F). A proteína N (nucleocapsídeo) é responsável pela proteção do material genético, enquanto as
proteínas L e P (complexo polimerase)
encontram-se envolvidas na transcrição
Graziela Kopinits de Oliveira
parcial em um cão
PPGMV/UFSM
grakopinits@yahoo.com.br
MV, prof. tit.
Depto. Clínica de Pequenos Animais, CCR/UFSM
Eduardo de Bastos Santos Júnior
edvet@brturbo.com.br
Resumo: Ressecções de grandes porções da língua não têm sido realizadas com freqüência em cães, devido à preocupação
com a ocorrência de seqüelas pós-operatórias desfavoráveis. Neste relato é apresentado o caso de um cão levado ao Hospital
Veterinário da Universidade de Santa Maria apresentando traumatismo lingual com subseqüente necrose (decorrente da
passagem de um projétil de arma de fogo), e submetido à glossectomia parcial de 2/3 da língua como tratamento. Cinco meses
após a intervenção cirúrgica, o animal se encontrava bem adaptado à nova situação e não apresentava dificuldade de ingestão
de sólidos ou líquidos. A glossectomia parcial pode proporcionar sobrevida digna para os animais, dada à capacidade que eles
têm de se adaptar a esse tipo de intervenção.
vetpinheiro@hotmail.com
Liandra Vogel Portella
MV, anestesista
Hospital Veterinário/UFSM
Abstract: Resection of great portions of the tongue is not common practice in dogs, due to the possibility of postoperative
sequels. This article reports the case of a dog presented to the Veterinary Hospital of the University of Santa Maria with lingual
traumatism and subsequent necrosis due to the passage of a firearm projectile. The animal underwent partial glossectomy of
2/3 of the tongue. Five months after the surgical intervention, the animal was well adapted to the new situation and it did not
have any difficulties in ingesting solids or liquids. The amputation is an option that allows the survival of the animal, due to its
capacity of adaptation to the procedure.
Keywords: surgery, tongue, lingual traumatism
liandracp@terra.com.br
Resumen: Resecciones de grandes porciones de la lengua no son realizadas con frecuencia en canes, debido a
preocupaciones con resultados post quirúrgicos desfavorables. En este relato es mostrado el caso de un perro que fue
llevado al Hospital Veterinario de la Universidad de Santa Maria presentando traumatismo lingual con subsiguiente necrosis
(debido al pasaje de un proyectil de arma de fuego), y sometido a una glosectomia parcial de 2/3 de la lengua como
tratamiento. Cinco meses después de la intervención quirúrgica, el animal se encontraba bien y adaptado a la nueva situación
sin presentar dificultad de ingesta de sólidos o líquidos. La glosectomia parcial es una opción que permite la sobrevida digna
del animal debido a su capacidad de adaptación a este tipo de situación.
Palabras clave: cirugía, lengua, traumatismo lingual
Clínica Veterinária, n. 74, p. 36-38, 2008
Pacientes com doenças na cavidade
oral podem apresentar salivação, disfagia, anorexia, sangramento, odor fétido,
ou podem permanecer assintomáticos 1.
O traumatismo de língua pode ser conseqüência de complicações resultantes
de déficit da vascularização, que promovem isquemia ou a necrose da área 2.
Ressecções de grandes porções da língua em cães não são realizadas com frequência, em virtude da preocupação
com a ocorrência de complicações pósoperatórias e com o declínio da qualidade de vida, decorrentes da redução da
função lingual 3.
Amputações de 40% a 60% da porção rostral da língua são bem toleradas,
mas após o procedimento pode ser necessária a colocação de uma sonda para
alimentação 1. Para verificar a capacidade de preensão e a qualidade de vida no
pós operatório, cinco cães que haviam
sido submetidos à glossectomia foram
avaliados 3. Os exames foram realizados
de uma semana até oito anos após as
cirurgias e, com base nos resultados
obtidos, os autores concluíram que a
amputação de parte da língua foi bem
tolerada pelos cães e pode ser uma
opção de tratamento viável quando necessária.
Um cão desenvolveu isquemia seguida de necrose da língua devido à ingestão de pulmão bovino, e ficou com um
anel traqueal preso na base da língua
por mais de treze horas. Ao exame clínico, realizado após a remoção do anel
traqueal, o tecido encontrava-se necrosado, pois os tecidos corporais não toleram mais do que seis horas de isquemia.
Diante da impossibilidade de preservar
a língua, foi realizada a amputação de
todo o segmento livre do órgão 4.
A manutenção da língua após a
amputação completa ou de grande porção é um evento raro 3. Há relato 5 de revascularização por meio de anastomose,
utilizando a artéria lingual esquerda e a
veia lingual direita, após a amputação
traumática de 2/3 do órgão em um paciente humano, vitimado por acidente
automobilístico, que deixou a porção
cranial da língua ligada apenas por um
pedículo. Cinco meses depois do procedimento o indivíduo apresentava função
normal, boa cicatrização e vascularização do órgão.
Depois da cirurgia de ressecção da
língua, as manifestações adversas são o
acúmulo de alimentos na cavidade oral,
a dificuldade no trânsito alimentar e as
aspirações durante e após a deglutição 6.
O presente relato tem por objetivo
apresentar a glossectomia parcial como
alternativa para o tratamento de lesões
graves da língua, pois quando conduzida de maneira adequada, essa intervenção permite adaptação satisfatória
em cão.
Um cão, macho, SRD, com suspeita
de mordida por gambá, foi atendido no
Hospital Veterinário Universitário da
Lígia Henz Silva
(HVU/UFSM). Segundo o proprietário,
o cão havia desaparecido de casa durante aproximadamente uma semana e,
quando foi encontrado apresentava ferimentos na boca e no pescoço, secreção
sanguinolenta e um odor fétido na cavidade oral.
Ao exame físico constatou-se que o
animal estava desidratado, magro, com
temperatura elevada, mas com ritmo
cardíaco e demais parâmetros normais.
O cão foi anestesiado com propofol a
(6mg kg-1) para a realização de exame
mais detalhado da cavidade oral, que
permitiu a observação de necrose em
aproximadamente 2/3 da região rostral
da língua (Figura 1). Diante desse
quadro, foi recomendada a amputação
da parte comprometida.
Os resultados do hemograma demonstraram anemia com hematócrito de
25%, hemácias 3,74 e hemoglobina
8,6g/dL. Na série branca constatou-se
aumento de leucócitos para 20.100/µL,
principalmente no número de bastonetes (1,6x103/µL), a contagem das
demais células brancas estava dentro
dos valores normais.
O animal foi encaminhado ao setor
de internação do hospital, onde recebeu
solução de Ringer com lactato b (60mL
kg-1 h-1) e antibioticoterapia – associação
de metronidazol c (40mg kg-1) e cefalotina d (30mg kg-1), ambos por via intravenosa.
Após ser hidratado, e sob proteção
antibiótica, o paciente foi conduzido ao
centro cirúrgico do HVUFSM, onde foi
submetido à pré-medicação com midazolan e (0,4mg kg-1) e à indução anestésica com propofol (4mg kg-1). Para a manutenção anestésica, utilizou-se halotano f vaporizado em oxigênio em sistema
semi-aberto e como terapia analgésica,
foi empregado cloridrato de tramadol g
(2mg kg-1). O animal foi mantido em
Figura 2 - Retirada do projétil alojado na região
rostral da maxila do cão (seta)
Figura 1 - Cão apresentando necrose de aproximadamente 2/3 da língua
fluidoterapia intravenosa com solução
de Ringer Lactato e transfusão de
500mL de sangue, uma vez que os valores de hematócrito, hemoglobina e hemácias estavam abaixo da normalidade.
Em exploração da cavidade oral do
cão, realizada após anti-sepsia com
clorexidine, foi encontrado e retirado
um projétil de arma de fogo que estava
alojado na parte rostral da maxila
(Figura 2); o ferimento foi curetado e
lavado abundantemente. Constatou-se,
que a causa da necrose da língua não
fora uma mordida de gambá, e sim a
passagem do projétil.
Para a glossectomia parcial foi realizada uma incisão elíptica ao redor da
língua, com bisturi, e removeu-se toda a
área que havia sofrido necrose (aproximadamente 2/3). Depois da remoção e
da hemostasia da área lesionada, a
incisão foi suturada com fio poliglactina
910 3-0, em pontos isolados simples, de
modo a aproximar anatomicamente a porção remanescente da língua (Figura 3).
Em seguida foi efetuada aplicação de
tubo de faringostomia para facilitar a
alimentação do animal, e evitar que a
presença de alimentos na cavidade
bucal interferisse na cicatrização.
No pós-operatório foi administrado
como antiinflamatório cetoprofeno h
(2mg kg-1 ao dia), durante cinco dias e a
terapia antibiótica foi mantida por mais
dez dias, cada um dos antibióticos sendo
administrado duas vezes ao dia, nas mesmas via e doses citadas anteriormente.
Foi indicada limpeza do local cirúrgico
com clorexidine três vezes ao dia.
a) Fresofol 1%. Fresenius Kabi Brasil Ltda. Campinas, SP
b) Ringer com lactato. Aster. Sorocaba, SP
c) Astergyl. Aster. Sorocaba, SP
d) Keflin. Antibióticos do Brasil LTDA. Cosmópolis, SP
e) Dormonid. Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A.
f) Tanohalo. Cristália. Campinas, SP
g ) Tramal. laboratórios Pfizer LTDA. Guarulhos, SP
h) Profenid. Sanofi-aventis. Morumbi, SP
externa complementar na
osteossíntese de fratura
pélvica cominutiva bilateral relato de caso em um cão
MV, mestrando
bkemper@bol.com.br
Maira Santos Severo
mairasevero@yahoo.com.br
Marcela Luiz de Figueiredo
marcellalf@hotmail.com
Use of the complementary external
percutaneous fixation in the osteosynthesis
of bilateral comminuted pelvic
fractures - case report in a dog
alex_alvesdasilva@yahoo.com.br
Ricardo Chioratto
rchioratto@hotmail.com
Fijación percutánea externa complementar en
la osteosíntesis de fractura pélvica conminuta
bilateral - relato de caso en un perro
Resumo: Fraturas da pelve são relativamente comuns, sendo a maioria do tipo múltipla. Os métodos de fixação para as fraturas pélvicas incluem o uso de pinos e fios de Kirschner, placas ortopédicas, parafusos ortopédicos, cerclagem interfragmentar, e parafusos ortopédicos e polimetilmetacrilato. O objetivo deste trabalho é relatar a bem sucedida osteossíntese de uma
fratura pélvica bilateral cominutiva pela combinação de duas técnicas ortopédicas de estabilização do coxal: utilizando parafusos e polimetilmetacrilato (PMMC) para a estabilização das fraturas acetabulares, e pinos de Schantz inseridos no ílio e
ísquio, conectados externamente com PMMC. As vantagens dessa combinação, como simplicidade e versatilidade da técnica,
recuperação funcional precoce, satisfação do proprietário com a evolução clinica do animal, cicatrização óssea apropriada e
posterior remoção do fixador, diminuindo o número de implantes, justifica a sua utilização em fraturas pélvicas cominutivas
bilaterais em cães.
Abstract: Fractures of the pelvis are relatively common and occur mostly at multiple sites. Fixation methods for pelvic fractures
include the use of pins and Kirschner wires, orthopedic plates, orthopedic screws, interfragmentary cerclage and orthopedic
screws and polymethylmetacrylate. The objective of this work is to describe the successful osteosynthesis of a bilateral
comminuted pelvic fracture using the combination of two orthopedic surgical techniques: screw and polimetilmetacrilate
(PMMA) usage for the stabilization of the acetabulum fractures, and the use of Schantz pins connected externally with
PMMA. Many advantages justify the use of this combination in this type of fracture in dogs: simplicity, versatility, precocious
functional recovery, owner satisfaction with the clinical evolution of the animal, appropriate bone scarring and subsequent
fixative removal, which reduce the number of implants.
Keywords: pelvis, fracture repair
Resumen: Las fracturas de la pelvis son relativamente comunes y la mayoría de ellas son múltiples. Los métodos de fijación
para las fracturas pélvicas incluyen el uso de clavos y alambres del Kirschner, placas ortopédicas, tornillos ortopédicos,
cerclaje interfragmental y tornillos ortopédicos y polimetilmetacrilato (PMMC). El objetivo de este trabajo es describir la bien
sucedida osteosíntesis de una fractura pélvica conminuta bilateral por la combinación de dos técnicas ortopédicas de
estabilización del coxal: utilizando tornillos y PMMC para la estabilización de fracturas acetabulares y la utilización de clavos
de Schantz en ilion e isquion, conectados externamente con PMMC. Las ventajas de esta combinación, como simplicidad y
versatilidad de la técnica, recuperación funcional temprana, satisfacción del propietario con la evolución clínica del animal,
cicatrización del hueso y retiro subsiguiente del fijador, reduciendo el número de implantes, justifica su uso en fracturas
Palabras clave: pelvis, reparación de la fractura
Clínica Veterinária, n. 74, p. 40-44, 2008
Fraturas da pelve são relativamente
comuns e, em muitas clínicas veterinárias, respondem por 20% a 30% do total
de fraturas atendidas 1,2,3,4. A maioria
dessas fraturas é múltipla, ou seja, envolve mais de três ossos 3,4. Para fazer
frente à alta prevalência dessas lesões,
os cirurgiões veterinários devem ser
capazes de selecionar tratamentos adequados para diferentes tipos de fraturas 2.
A pelve é constituída por vários ossos
grandes e achatados que, pela sua articulação com o sacro, formam uma estrutura semelhante a um caixão. Essa
estrutura contorna a porção caudal do esqueleto axial, conectando-o aos membros
pélvicos. Cada hemipelve se compõe
neuzavet@hotmail.com
MV, dr. prof. ass. I
de: ílio, acetábulo, ísquio e púbis 1.
Na suspeita de fraturas pélvicas, após
o exame clinico geral para estabelecer o
estado geral do paciente, deve ser realizado exame ortopédico completo 5. Pela
palpação são verificadas a simetria pélvica, a saúde articular e a presença de
áreas doloridas ou edemaciadas. Pontos
de orientação são as proeminências
ósseas, como asa do ílio, trocanter
maior e tuberosidade isquiática 6. Uma
palpação retal adicional cuidadosa pode
trazer informações sobre estreitamento
do canal pélvico 5,6, mas o diagnóstico
definitivo da extensão da fratura é proporcionado pelo exame radiográfico 5,6,7.
Apesar de as fraturas pélvicas poderem ser tratadas com repouso e restrição
de exercício, o reparo cirúrgico geralmente resulta em retorno funcional precoce, com menos dor e complicações
durante a cicatrização 8.
Complicações associadas às fraturas da
pelve são usualmente conseqüência da
ausência total de tratamento, podendo
resultar em obstipação, constipação
crônica, e impossibilitar a fêmea de ter
partos normais em virtude da má união
de fraturas do corpo do ílio 9. Outras
complicações associadas ao tratamento
Figura 1 - Imagem radiográfica (A) e desenho esquemático da fratura do coxal (B). Lado esquerdo
(E): fratura acetabular com deslocamento da
porção acetabular caudal (para medial) sobrepondo-se como parte do corpo do ílio deslocado para
lateral; fragmento acetabular ilíaco solto e deslocado craniolateralmente para fora da pelve; fratura
de tábua isquiática. Lado direito: fratura acetabular com deslocamento do fragmento caudal, incluindo a cabeça femoral, para o interior do canal pélvico; corpo ilíaco situado lateral e externamente ao
acetábulo: deslocamento para o interior do canal pélvico e do colo femoral. Fragmento acetabular
do ílio (cranial) livre, discretamente rotacioado lateralmente e situado cranialmente à cabeça femoral
mantido anestesiado, e posteriormente foi
intubado sob vaporização com oxigênio
100% e isoflurano f. A anestesia epidural
foi complementada com associação de
lidocaína g (1mL), bupivacaína h (1mL) e
cloridrato de tramadol 5% (0,15mL)
injetada no espaço epidural, entre L7-S1.
Após preparação do campo cirúrgico e
colocação dos panos de campo, foi realizada a abordagem lateral da hemipelve
esquerda de acordo com técnica já descrita 11, mantendo-se o nervo ciático afastado
e protegido com uma faixa de látex confeccionada a partir de um dedo de luva.
O fêmur, juntamente com os fragmentos ósseos que compõem o acetábulo,
encontrava-se deslocado cranial e medialmente. A tração caudo-lateral do fêmur com a utilização de pinça Backhaus
(fixa no trocanter maior) promoveu
redução parcial da fratura. Em seguida
foram utilizadas pinças de redução de
fragmentos ósseos para manter a fratura
alinhada. Conforme descrito na literatura 12,13, foram então realizadas duas perfurações – uma cranial e a outra caudal à linha de fratura acetabular – para a inserção de dois parafusos auto-atarraxantes
(aço 304 de 2,9mm), evitando-se a penetração da cavidade acetabular.
Para a interligação desses parafusos
usou-se um fio de aço (0,8mm de espessura) em banda de tenção: os parafusos
foram deixados sobressalentes, o que permitiu sua estabilização pela colocação
a) Tramaliv®.Teuto. Anápolis-GO
b) Ketofen1%®. Merial Saúde Animal LTDA. Campinas-SP
c) Acepram 0.2%®. Univet S/A. São Paulo-S
d) Compaz ®. Cristália. São Paulo-SP
e) Provine 2%®. Claris. São Paulo-SP
f) Isoforine®. Cristália,. São Paulo-SP
g) Lidovet®. Bravet. Rio de Janeiro-RJ
h) Neocaína 0,5%®. Cristáila. São Paulo-SP
de cimento cirúrgico (PMMC), tomando-se o cuidado de envolver toda a superfície de suas extremidades. Durante
a polimerização do PMMC, foi utilizada
irrigação com solução fisiológica para
minimizar o aquecimento.
Com o intuito de complementar essa
estabilização e manter os fragmentos
fixos e alinhados, foram inseridos dois
pinos de 2mm por 120mm com rosca
negativa na ponta (tipo Schantz), um no
corpo do ílio e outro no ramo acetabular
do ísquio, com direção de dorsal para
ventral em relação à pelve. Para isso, a
musculatura e a pele foram reposicionadas antes da penetração dos pinos, evitando posterior tensão no ponto de inserção. Após lavagem e fechamento da
ferida cirúrgica, a extremidades dos pinos foram envergadas para compor
a barra externa de PMMC. Esse procedimento foi repetido na hemipelve contralateral e as barras então conectadas
entre si, aumentando sua estabilidade
mecânica (Figura 2).
Um cão sem raça definida (SRD), de
quatro anos de idade, pesando oito quilogramas e apresentando severa impotência funcional dos membros pélvicos
foi encaminhado ao Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural de
Pernambuco. Na anamenese constatouse que o animal havia sofrido acidente
automobilístico cinco dias antes do
atendimento, e desde então não se mantinha em estação. O paciente vinha sendo tratado em uma clinica veterinária
particular com repouso, analgésicos, laxantes e cuidados de enfermagem, sem
apresentar melhoras. Ao exame clínico,
observou-se que o animal estava apático
e manifestava crepitação e dor na manipulação da região pélvica, cuja conformação estava alterada. O paciente mantinha as funções urinárias normais, mas
tinha dificuldade para defecar, e não
apresentava alterações ao exame neurológico. Ao exame radiográfico foi evidenciada fratura pélvica cominutiva
bilateral com severo estreitamento do
canal pélvico e perda do eixo de sustentação (Figura 1).
Optou-se pela osteossíntese após
anestesia, utilizando cloridrato de tramadol a (2mg/kg/IM), cetoprofeno b
(1mg/kg/IM) e acepromazina c (0,05mg/
kg/IM) na preparação pré-anestésica, e
indução com diazepam d (0,5mg/kg/IV)
e propofol e (4mg/kg/IV). O paciente foi
conservativo de fraturas pélvicas são a
claudicação persistente associada a anomalias anatômicas e a doença articular degenerativa da articulação coxofemoral 8.
Cada fratura deve ser abordada com
plano pré-operatório minucioso, mas o
cirurgião deve ter a versatilidade de
impor mudanças quando necessário 2.
Os métodos de fixação para as fraturas pélvicas incluem o uso de pinos de
Steinmann, placas ortopédicas, e/ou parafusos ortopédicos e cerclagem interfragmentar 4. A utilização de parafusos
ortopédicos e polimetilmetacrilato
(PMMC) para a fixação de fraturas ilíacas e acetabulares apresentou resultados
satisfatórios 10,12.
O objetivo deste trabalho é relatar a
bem sucedida osteossíntese de uma fratura pélvica bilateral cominutiva empregando fixação percutânea externa complementar à estabilização acetabular interna com parafusos e PMMC.
Figura 2 - Imagem fotográfica pós-cirúrgica
imediata, mostrando os pinos de Schantz
implantados no coxal e conectados externamente com uma barra de polimetilmetacrilato
Tumor maligno de bainha
nervosa em papagaioverdadeiro (Amazona
aestiva) - relato de caso
Médico veterinário, especialista
bolostro@gmail.com
Adrien Wilhelm Dilger Sanches
MV, mestre. prof. adj.
HV/UNIPAR-Umuarama
jabotrix@unipar.br
MV, mestre, dr. prof. tit.
Peripheral nerve sheath tumor in a bluefronted amazon parrot (Amazona aestiva) case report
Tumor maligno de vaina nerviosa en loro
hablador (Amazona aestiva) relato de caso
Resumo: O tumor maligno de bainha nervosa é um neoplasma raro, com poucos relatos em medicina veterinária, especialmente em aves. Este artigo apresenta um caso de tumor maligno de bainha nervosa em papagaio-verdadeiro (Amazona
aestiva). Realizou-se exérese da massa neoplásica sob anestesia geral dissociativa e acompanhamento da evolução pósoperatória durante 60 dias. O exame histopatológico revelou anisocitose, anisocariose, células gigantes multinucleadas e
mitoses aberrantes. As células mesenquimais estavam entremeadas por substância intercelular abundante, conferindo ao tecido
aspecto mixóide em algumas áreas (tecido Antoni B). Em outras áreas as células apresentavam-se em feixes sólidos, por
vezes em forma curva ou nodular (tecido Antoni A). Os achados microscópicos possibilitaram o diagnóstico definitivo, como
primeira ocorrência desse raro neoplasma em uma ave da Família Psittacidae, Ordem Psittaciformes.
Abstract: The peripheral nerve sheath tumor is a rare type of neoplasia. There are very few reports of this disease in
veterinary medicine, and even less in birds. This paper reports the case of a peripheral nerve sheath tumor in a blue-fronted
amazon parrot (Amazona aestiva). The neoplastic mass was excised under general dissociative anesthesia and the patient was
monitored during 60 days after surgery. The histopathological examination revealed presence of anisocytosis, anisokaryosis,
multinucleated giant cells and aberrant mitosis. The mesenchymal cells were interspersed by abundant intercellular substance,
giving the tissue a myxoid appearance in some areas (Antoni B tissue), whereas in other areas the cells were gathered in solid
bundles, sometimes in curved or nodular form (Antoni A tissue). The microscopic findings enabled the definitive diagnosis of
peripheral nerve sheath tumor, to date the first reported occurrence of this rare neoplasia in a psittacine bird (Family Psittacidae,
Order Psittaciformes).
Keywords: bird, Psittacidae, neoplasia, neurofibrosarcoma, malignant schwannoma
Resumen: Se reporta un caso raro de tumor maligno de vaina nerviosa en un loro hablador (Amazona aestiva). Se realizó
escisión de la masa tumoral bajo anestesia general disociativa y monitoreo de la evolución post-operatoria por 60 días. El
examen histopatológico evidenció anisocitosis, anisocariosis, células gigantes con múltiplos núcleos y mitosis aberrantes. Las
células mesenquimales se encontraban intercaladas por sustancia intercelular abundante, dando al tejido un aspecto mixoide
en algunas áreas (tejido Antoni B). En otras áreas las células tenían formación en agregados sólidos, por veces en forma curva
o nodular (tejido Antoni A). El examen microscópico posibilitó el diagnóstico definitivo de tumor maligno de vaina nerviosa,
como la primera ocurrencia de esta rara neoplasia en un ave de la Familia Psittacidae, Orden Psittaciformes.
Palabras clave: ave, Psittacidae, neoplasia, neurofibrosarcoma, schwannoma maligno
Clínica Veterinária, n. 74, p. 46-50, 2008
O tumor maligno de bainha nervosa é
também chamado de neurofibrossarcoma ou schwannoma maligno. É um tumor neurogênico que pode acometer
nervos cranianos, periféricos ou raízes
nervosas, originário de células que embainham essas estruturas. 1 Na bainha do
nervo são encontrados três tipos celulares – células de Schwann, fibroblastos
no epineuro, perineuro e endoneuro, e
células perineurais. 2 É opinião preponderante que as células de Schwann
constituem a principal fonte desses tumores. Nos nervos periféricos, os ramos
sensitivos são mais acometidos que os
motores, e os tumores malignos de bainha nervosa são lesões circunscritas,
bem encapsuladas e firmes, localizadas
excentricamente nos nervos. 1,2,3,4,5,6,7,8
O tumor maligno de bainha nervosa
freqüentemente ocorre como uma massa
solitária, ao contrário do neurofibroma,
que pode ser multilobulado. Os schwannomas são sempre encapsulados, enquanto
os neurofibromas são caracterizados por
proliferação difusa. Podem ocorrer intracranialmente ou envolver raízes espinhais. As características patológicas
incluem aumento fusiforme do nervo
envolvido, e as características histopatológicas incluem células em fuso atípicas em proliferação, com núcleos delgados, serosos e pontiagudos, áreas de
hipocelularidade e áreas apresentando
espirais organizadas de proliferação fibroblástica. O exame microscópico revela um padrão celular frouxo e desorganizado, com núcleos alongados no meio
de tiras fibrosas. 1,2,3,4,5,6,7,8,9
Na extremidade cefálica extra craniana, a incidência desse neoplasma é rara,
o que justifica a escassez de publicações
a respeito. 1
Mesmo na literatura internacional,
tanto em medicina humana quanto veterinária, verifica-se que poucos são os
autores que dispõem de uma casuística
maior, e todos são unânimes em afirmar
a baixa freqüência desse tumor. 1,3,4,5,6,7,8,9
Em aves, a literatura é ainda mais escassa. Há relato de um caso de neurofibrossarcoma, em conjunto com leiomiossarcoma, observado em galinha
(Gallus gallus) com sete semanas de
idade, 10 um caso de neurofibrossarcoma
na forma multicêntrica em ganso-canadense (Branta canadensis) adulto, 11 e
em psitacídeos, no Brasil, um caso de fibrossarcoma em um exemplar de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva). 9
aestiva), de sexo indeterminado e com
18 anos de idade, foi atendido na rotina
da Clínica Veterinária Tratadog, na
cidade de Americana, interior do Estado
de São Paulo. O animal apresentava
grande massa, com aproximadamente
3,5cm de diâmetro, na face esquerda
(Figuras 1 e 2). Segundo relato do proprietário, o desenvolvimento foi relativamente rápido, pois a massa havia
surgido aproximadamente três meses
antes da consulta. Inicialmente era uma
pequena nodulação sob a pele, que progrediu em termos de volume e se tornou
O animal se apresentava apático e
inapetente e, ao exame físico, constatou-se acentuada magreza – peso de
0,398kg. À palpação da massa, notou-se
que sua consistência era firme e muito
aderida, porém o animal não apresentava reações dolorosas. Como primeiro
procedimento, após a aplicação de
botão anestésico com 0,2mL de cloridrato de lidocaína a a 2%, foi efetuada
punção com agulha 40x12, sendo aspirado somente pequeno volume de
O animal permaneceu então internado por 10 dias, sob temperatura controlada e recebendo cuidados de suporte,
como hidratação, alimentação forçada à
base de queijo petit-suisse, grãos variados e ração comercial para papagaios.
A resposta clínica foi positiva, e nesse
período o paciente ficou mais ativo e
ganhou peso, chegando a 0,513kg.
Uma vez estabilizadas as condições
clínicas gerais, optou-se pela exérese da
massa, com posterior encaminhamento
de fragmento para a realização de
O procedimento cirúrgico teve início
com a indução de anestesia injetável
dissociativa, pela associação de cloridrato de xilazina b, cloridrato de cetamina c e sulfato de atropina d, em doses calculadas por meio de extrapolação alométrica interespecífica. 12.13 Usou-se
como modelo para os cálculos o cão
doméstico de 10kg; a figura 3 indica as
doses-modelo e as doses que foram
administradas ao paciente, por via intramuscular (musculatura peitoral), após
acondicionamento conjunto da associação de drogas em uma mesma seringa.
A indução da anestesia ocorreu cinco
minutos após a administração da associação de drogas, sendo então as penas
da área operatória removidas por arrancamento, com margem de segurança de
alguns milímetros (Figuras 4 e 5).
A seguir, a pele foi incisada com
bisturi elétrico, de forma semi-circular,
na base posterior da massa, a qual foi
então rebatida rostralmente (Figura 6).
Isso possibilitou visualizar o olho
esquerdo, que estava sepultado sob a
massa, porém ainda íntegro e funcional.
Foi efetuada então a excisão plena do
Figura 3 - Protocolo anestésico empregado em papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) para a realização de exérese de massa neoplásica localizada na face. As doses foram calculadas por meio de
extrapolação alométrica interespecífica, usando como modelo as indicações para o cão doméstico
Figura 1 - Vista frontal da massa neoplásica
localizada na face esquerda de um papagaioverdadeiro (Amazona aestiva), e posteriormente identificada como tumor maligno de bainha
Dose-modelo, indicada para o
cão doméstico de 10kg
Dose calculada para o
papagaio de 0,513kg
23,41mg/kg
4,68mg/kg
Figura 4 - Vista ventral da massa neoplásica
localizada na face esquerda de um papagaioverdadeiro (Amazona aestiva), após a remoção das penas circunjacentes
Figura 2 - Vista lateral esquerda da massa neoplásica localizada na face esquerda de um
Figura 5 - Vista lateral esquerda da massa neoplásica localizada na face esquerda de um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), após a
remoção das penas circunjacentes
Mariana Caetano Teixeira
Aelurostrongylus abstrusus relato de caso em felino
PPGCV/UFRGS
caetano_teixeira@hotmail.com
MV, esp. mestranda
Aelurostrongylus abstrusus case report in a cat
tahisa@cbov.org
MV, MSc. doutoranda
Aelurostrongylus abstrusus relato de caso en felino
cristina.fialho@gmail.com
Sandra Tietz Marques
Médica veterinária, mestre, dra.
sandra.tietz@terra.com.br
Resumo: Relata-se um caso clínico de parasitismo por Aelurostrongylus abstrusus em fêmea felina castrada, sem raça definida,
de dois anos de idade, apresentando dispnéia, episódios de tosse seca e engasgos. O diagnóstico parasitológico, realizado
pelas técnicas de Baermann, esfregaço direto e Willis-Mollay, detectou grande quantidade de larvas de A. abstrusus. A radiografia de tórax apresentou infiltrados peribrônquicos e padrão intersticial difuso, compatível com pneumonia. O tratamento à
base de fenbendazol promoveu redução de 70% e 100% das larvas, redução esta observada nos exames parasitológicos,
realizados, respectivamente, três e sete dias após o tratamento. Antibioticoterapia com amoxicilina e ácido clavulânico tratou
a pneumonia bacteriana secundária, com diminuição considerável do desconforto respiratório.
Karla Escopelli
kescopelli@gmail.com
Flávio Antônio P. de Araújo
MV, MSc, prof. dr.
Lab. Protozoologia, FV/UFRGS
faraujo@via-rs.net
Abstract: Here we report a clinical case of infection by Aelurostrongylus abstrusus in a two-year-old female mixed-breed cat
with dyspnea, dry cough and gagging. The parasitological diagnosis by direct smearing and by Baermann's and Willis-Mollay's
techniques revealed a large amount of A. abstrusus larvae. The chest radiograph showed peribronchial infiltration and a diffuse
interstitial pattern compatible with pneumonia. Fenbendazole therapy caused a 70% and 100% reduction in larval count at three
and seven days after treatment, respectively. Amoxicillin and clavulanic acid were used to treat the secondary bacterial
pneumonia, with remarkable reduction of respiratory distress.
Keywords: imaging diagnosis; coprological test
Resumen: Se relata un caso clínico de parasitismo por Aelurostrongylus abstrusus en un felino hembra castrada, sin raza
definida, dos años de edad, presentando disnea, episodios de tos seca y atoros. El diagnóstico parasitológico, por las
técnicas de Baermann, Frotis Directo y Willis-Mollay, detectó gran cantidad de larvas de A. abstrusus. La radiografía
presentó infiltrados peribrónquicos y patrón intersticial difuso, compatible con neumonía. El tratamiento a base de
fenbendazol mostró reducción de 70% y 100% de las larvas al examen parasitológico, en tres y siete días pos tratamiento,
respectivamente. Antibioticoterapia con amoxicilina y ácido clavulánico trató la neumonía bacteriana secundaria, con
disminución considerable de la molestia respiratoria.
Palabras clave: diagnóstico por imagen, coproparasitológico
Clínica Veterinária, n. 74, p. 52-54, 2008
(Railliet, 1898), helminto da família
Angiostrongylidae, é um nematódeo do
trato respiratório de gatos 1,2. É de distribuição cosmopolita e independente de
raça, idade e sexo 3, não sendo considerado zoonose 4. No pulmão, os parasitos
adultos, medem ao redor de 14-15mm 5.
Em achados macroscópicos, apresentam-se finos e delicados 6. As larvas L1
se caracterizam por apresentar uma estrutura em forma de gancho na extremidade posterior 7,8.
O A. abstrusus, cujo ciclo biológico é
heteroxeno, tem como hospedeiros intermediários os moluscos do gênero
Subulina sp 9 ; e como vetores de transporte, roedores e pássaros. Assim os felinos são susceptíveis à doença em decorrência de seus hábitos alimentares 1,6.
As larvas aparecem nas fezes cinco a
seis semanas após a infecção 2, podem
sobreviver no ambiente por mais de um
ano 10, e permanecer nos pulmões por
vários anos 6.
A aelurostrongilíase se apresenta sob
as formas assintomática ou sintomática.
Quando sintomática, detecta-se desde
uma tosse branda até quadro clínico de
angústia respiratória, e morte 1 decorrentes da consolidação pulmonar 5. O quadro sintomatológico deve ser associado
também a deficiência imunológica 7. Na
auscultação pulmonar identificam-se
sibilos e crepitações, também presentes
em outras afecções respiratórias como
bronquite felina, asma, peritonite infecciosa felina e hérnia diafragmática 10,12
e ocasionalmente podem ocorrer complicações como a pneumonia bacteriana
secundária 1,7. Intolerância a exercícios e
perda de peso também podem ser verificados 11.
O diagnóstico de aelurostrongilíase é
feito pela identificação das larvas do parasito nas fezes de felinos pelas técnicas
de Baermann, flutuação em sulfato de
zinco a 33%, esfregaço direto e solução
hipersaturada com NaCl 11,12. As técnicas
de flutuação em sulfato de zinco a 33% e
o esfregaço direto são as mais utilizadas
quando os felinos estão clinicamente
infectados 1,12. Para a identificação do
helminto A. abstrusus também pode ser
utilizado o lavado transtraqueal 13.
O diagnóstico por imagem (Raios X)
mostra características de padrão bronquial e intersticial difuso, com densidade
nodular mal definida, na porção caudal
do pulmão, em decorrência do acúmulo
de ovos no parênquima pulmonar 1,7,11.
Os anti-helmínticos indicados são:
americana em felino
doméstico no município
do Rio de Janeiro, Brasil relato de caso
in a domestic feline in the city of
Rio de Janeiro, Brazil - case report
Leishmaniasis tegumentaria americana en
un felino doméstico en la ciudad de
Rio de Janeiro, Brasil - relato de caso
MV, MSc, doutorando
Lab. Pesq. Clínica Dermatozoonoses em Animais
Domésticos IPEC/FIOCRUZ
sandroantonio@ipec.fiocruz.br
MV, MSc, doutoranda
dib@ipec.fiocruz.br
Biomédica, MSc., doutoranda
Lab. Vigilância em Leishmanioses IPEC/FIOCRUZ
lilian@ipec.fiocruz.br
Bióloga, DSc., pesquisadora adjunta
Lab. Pesquisa Clínica em Dermatozoonoses em
Animas Domésticos IPEC/FIOCRUZ
fmadeira@ipec.fiocruz.br
Resumo: As leishmanioses são zoonoses que acometem os seres humanos e outras espécies de mamíferos. São causadas
por protozoários do gênero Leishmania e transmitidas através da picada de insetos vetores do gênero Phlebotomus. A primeira
descrição de leishmaniose felina no mundo data de 1927. Desde então a doença tem sido esporadicamente notificada, tanto
na forma cutânea quanto na forma visceral, em diversos países. O presente artigo relata um caso de leishmaniose tegumentar
em gato doméstico no município do Rio de Janeiro, com ênfase nos achados parasitológicos, sorológicos, hematológicos,
bioquímicos e histopatológicos.
MV, DSc., pesquisadora associada
schubach@ipec.fiocruz.br
Abstract: Leishmaniasis are zoonoses that affect humans and other mammalian species. They are caused by protozoa of the
genus Leishmania, which are transmitted through the bite of sandflies of the genus Phlebotomus. The first case of feline
leishmaniasis in the world was reported in 1927. Since then the occurrence of both cutaneous and visceral forms of the
disease has been reported sporadically in several countries. The present report describes a case of tegumentary
leishmaniasis in a domestic cat in the city of Rio de Janeiro, with emphasis in the parasitological, sorological, hematological,
biochemical and histopathological findings.
Resumen: Las leishmaniasis son zoonosis que afectan seres humanos y otras especies de mamíferos. Son causadas por
protozoarios del género Leishmania y la transmisión ocurre a través de la mordedura de los insectos del género Phlebotomus.
El primer caso de la leishmaniasis felina en el mundo fue descrito en 1927. Desde entonces la enfermedad se ha informado
de forma esporádica, en las formas cutánea y visceral en varios países. Se relata en la ciudad de Rio de Janeiro un caso del
leishmaniasis tegumentaria en gato doméstico, enfatizando las alteraciones clínicas observadas, así como los resultados de
los exámenes parasitológicos, serológicos, hematológicos, bioqu��micos e histopatológicos.
Palabras clave: Leishmania, gato, diagnóstico
Clínica Veterinária, n. 74, p. 58-60, 2008
As leishmanioses, zoonoses que acometem o ser humano e outras espécies
de mamíferos silvestres e domésticos de
forma crônica, apresentam grande diversidade de manifestações clínicas.
São causadas por protozoários do gênero Leishmania e transmitidas através da
picada de insetos vetores da subfamília
Phlebotominae 1,2.
A primeira descrição de leishmaniose
felina data de 1927 3. Desde então a
doença tem sido esporadicamente notificada, em diversas partes do mundo,
tanto na forma cutânea quanto na forma
visceral 4,5,6.
No Brasil, o primeiro diagnóstico
dessa doença, em um gato naturalmente
infectado no Estado do Pará, foi firmado em 1939 com base na visualização
de formas amastigotas ao exame citológico 7. Posteriormente, em Minas Gerais, pesquisadores identificaram, pela
reação em cadeia da polimerase (PCR),
parasitas do subgênero Viannia como
causadores da doença em felinos 8. Dois
casos autóctones de leishmaniose felina,
nos quais o parasita foi isolado em
Leishmania (Viannia) braziliensis,
foram diagnosticados pela primeira vez
no Rio de Janeiro 9.
A apresentação clínica das leishmanioses felinas varia de acordo com o
parasita envolvido. Na leishmaniose
visceral, os sinais clínicos mais freqüentes são: febre, perda de peso, icterícia, vômitos, alopecia recorrente no
abdômen e na cabeça, descamação
difusa, ulcerações junto a saliências
ósseas, edema na borda das orelhas, linfadenopatia e úlcera de córnea 10,11.
Na leishmaniose cutânea, as alterações
comumente relatadas são: áreas de
alopecia arredondadas, nódulos e lesões
ulceradas principalmente no nariz e nas
orelhas, e lesões vegetantes nas regiões
interdigital e plantar 5,6,7,8,9,12.
Diferentes estudos sugerem que a
coinfecção Leishmania spp. e vírus da
leucemia felina (FeLV) ou vírus da
imunodeficiência felina (FIV) pode
favorecer a evolução clínica da leishmaniose 11,13,14,15.
Janeiro, o diagnóstico diferencial da
(LTA) felina deve ser estabelecido principalmente em relação à esporotricose,
doença cujos sinais clínicos mais freqüentes são lesões cutâneas ulceradas,
espirros e dispnéia 9,16.
O diagnóstico da LTA felina baseiase na apresentação clínica, nas evidências epidemiológicas, na demonstração
do parasito e na detecção de anticorpos
específicos, mediante testes sorológicos
como a imunofluorescência indireta
(IFI) e o ensaio imunoenzimático
(ELISA) 17. O presente estudo descreve
os principais achados clínicos e laboratoriais de um caso de leishmaniose tegumentar felina.
animal estava apático, desidratado, desnutrido, caquético, com nariz e plano
nasal edemaciados, mucosas nasais congestas e narinas totalmente obstruídas
(Figura 2), mucosas oral e ocular hipocoradas e linfonodos mandibulares infartados.
A partir de fragmentos de lesão cutânea foram realizados cultivos parasitológico e micológico, além de exame histopatológico e citopatológico. Para a coleta dos fragmentos o felino foi submetido a sedação com cloridrato de quetamina a 10% (10mg/kg), associado a acepromazina b 1% (0,2mg/kg) por via intramuscular. Após a anestesia local com cloridrato de lidocaína c 2%, anti-sepsia e
assepsia, foram realizadas biópsias da
borda da lesão com o auxílio de um punch
de 3mm. Todos os procedimentos foram
aprovados pela Comissão de Ética no
Uso de Animais (CEUA - FIOCRUZ).
Na cultura parasitológica 18 foram
visualizadas formas promastigotas que,
posteriormente, foram caracterizadas
como L. (V.) braziliensis. O exame histopatológico revelou formas amastigotas
compatíveis com o gênero Leishmania e
processo inflamatório granulomatoso.
No exame citopatológico não foram
observadas formas amastigotas, e no
cultivo micológico não houve isolamento de fungos patogênicos.
Não foram constatadas alterações
significativas nos exames hematológicos e bioquímicos. A pesquisa de anticorpos anti-L. (V.) braziliensis resultou
positiva nas técnicas de ELISA e IFI, a
última com título 1280. O resultado dos
testes de detecção de antígenos de FeLV
e anticorpos para FIV (SNAP Combo
FeLV Ag/ FIV Ab ") d foi negativo.
A partir de inquérito epidemiológico
visando a busca ativa de felinos domésticos na região do Mendanha, zona
oeste do município do Rio de Janeiro,
foi encontrado caso suspeito de leishmaniose felina. O animal, fêmea sem raça
definida e não-castrada, tinha três anos
e pesava 2,8kg. Ao exame dermatológico foram observadas duas lesões
cutâneas ulceradas, com bordas elevadas e regulares e fundo granulomatoso, localizadas no plano nasal e
com diâmetros de 12 e 7mm (Figura 1).
No exame físico, verificou-se que o
Figura 1 - Felis catus, SRD, fêmea, três anos,
com lesões ulcerativas no plano nasal causadas por L. (V.) braziliensis
Figura 2 - Felis catus, SRD, fêmea, três anos,
com narinas totalmente obstruídas devido ao
edema causado pela infecção por L. (V.)
As alterações clínicas verificadas no
presente relato são semelhantes àquelas
descritas na literatura em casos similares, com predomínio do acometimento
de mucosas nasais e obstrução das narinas, além de linfadenopatia regional 19.
A presença de sinais de desidratação e
caquexia pode ser atribuída à obstrução
das narinas, que tende a provocar anorexia, como tem sido evidenciado em
obstruções nasais de felinos causadas
por diferentes afecções 20.
A lesão no plano nasal verificada no
presente caso já havia sido registrada
em relato anterior, no Rio de Janeiro 9.
Em contraste, a maioria das descrições
de leishmaniose em felinos reporta, predominantemente, lesões tegumentares
nas orelhas e nos membros 3,8,21. Com
efeito, os achados do presente estudo reforçam a importância do exame clínico
minucioso em animais suspeitos de
leishmaniose – especialmente em regiões endêmicas –, em virtude da ampla
variedade de sintomas nos felinos.
Os achados histopatológicos desta
investigação corroboram os resultados
obtidos em estudo similar em gatos domésticos, que também evidenciou numerosas estruturas intracelulares compatíveis com o gênero Leishmania 11, reforçando a importância desse exame no
diagnóstico da afecção em animais de
companhia. Entretanto, não foram encontradas formas similares no exame citopatológico, o que difere dos resultados obtidos por outros pesquisadores,
que obtiveram êxito na visualização de
formas amastigotas do parasito em felinos 8.
No Estado do Rio de Janeiro, a esporotricose felina é considerada importante causa de diagnóstico diferencial com
a leishmaniose. De vez que o cultivo
fúngico de fragmento de lesão cutânea
do animal objeto do presente relato não
evidenciou o agente etiológico da esporotricose, descartou-se a possibilidade
de acometimento por aquela zoonose 9.
Na literatura médico-veterinária, não
há relatos sobre a detecção de infecção
a) Ketamina Agener 10%®. União Química Farmacêutica
Nacional S/A. Embu-Guaçu, SP.
b) Acepran 1%®. UNIVET S/A - Industria Veterinária. São
c) Lidovet®. Laboratório Bravet LTDA. Rio de Janeiro, RJ.
d) SNAP Combo FeLV Ag / FIV Antibody Test TM, IDEXX
Laboratories, Wesbrook, USA. Sander 2004 Comércio em
Geral Ltda. São Gonçalo, RJ
Vasculite necrosante e focos
hemorrágicos no encéfalo
de gato acometido pela
peritonite infecciosa dos
felinos - relato de caso
Necrotizing vasculitis and hemorrhagic foci
in the encephalon of a cat with feline
infectious peritonitis - a case report
Audrey Cristina Rosatti de Souza
Vasculitis necrosante y focos hemorrágicos en
encéfalo de gato acometido por peritonitis
infecciosa felina - relato de caso
dando início ao processo de reação
imunológica que resulta na formação de
piogranulomas, vasculite, falência de
órgãos e morte 6,7,8,9.
Anticorpos específicos para o coronavírus entérico felino são encontrados
em 80 a 90% dos gatos que vivem em
colônias, e em 10 a 50% dos gatos que
vivem em residências, sem companhia
ou contato com outros animais da espécie 10. Entretanto, somente 5 a 10% dos
gatos que vivem em colônias desenvolvem a PIF, e gatos não pertencentes
a colônias ou ambientes de risco têm
uma incidência menor de desenvolvimento da doença 10.
A manifestação neurológica da PIF
ocorre em cerca de 1/3 dos gatos acometidos pela doença, e apresenta sintomas
como ataxia, convulsões, hiperestesia,
hiper-reflexia, propriocepção reduzida,
paralisia de cauda, head tilt (cabeça pendente para a direita ou para a esquerda),
depressão mental e paralisia, entre outras manifestações neurológicas 9,11,12. A
PIF é responsável por cerca de 16% dos
casos de desordens do sistema nervoso
central dos felinos domésticos 4. Também é predominante entre as doenças
medulares em gatos 13.
Convulsões provocadas em gatos
pela forma neurológica da doença são
associadas a extenso quadro de lesões
cerebrais, existindo uma pior evolução
da doença 14 .
As alterações histopatológicas verificadas no sistema nervoso são variáveis, e
podem ser difusas, multifocais ou localizadas. As lesões definitivas e características da PIF são caracterizadas por piogranulomas resultantes de processo
Resumo: A peritonite infecciosa dos felinos é uma doença comum e fatal, que pode ocorrer sistemicamente ou em órgãos
isolados, sendo a afecção neurológica uma manifestação habitual. Uma fêmea felina, de um ano de idade, foi atendido com
quadro de disorexia, paralisia de membros posteriores e hematúria. Os exames laboratoriais e radiográficos do animal não
mostraram alterações. Após 20 dias de tratamento suporte, o animal apresentou panuveíte e foi submetido à eutanásia. O
exame necroscópico mostrou diversas áreas de vasculite necrótica, malácia e hemorragia em tecido nervoso, com presença
de polimorfonucleares, neutrófilos e aneurismas, secundários a severa vasculite necrótica, além de congestão, edema e degeneração neuronal. Embora o quadro histopatológico seja condizente com a peritonite infecciosa dos felinos, a manifestação
exacerbada do sistema imune gerando vasculite necrótica e formação de aneurismas mostrou-se incomum.
Abstract: Feline infectious peritonitis is a common and fatal disease that may occur systemically or in any single organ. Primary
neurological disease is a common manifestation. A one-year-old female cat with dysorexia, hind limb paralysis and hematuria
was attended. CBC, biochemical and radiographic exams had no alterations. Twenty days after support treatment, the cat
presented panuveitis and was euthanized. The necropsy showed several areas of necrotic vasculitis, malacia and hemorrhage
in nervous tissue, with polymorphonuclears, neutrophils and aneurysm secondary to severe necrotic vasculitis, as well as
congestion, edema and neuronal degeneration. Although the histopathological exam was compatible with feline infectious
peritonitis, the intense immune response, which caused vasculitis and aneurysm, was most uncommon.
Resumen: La peritonitis infecciosa felina es una enfermedad común y fatal. Puede presentarse sistémicamente o en órganos
aisladamente y la afección neurológica es la manifestación más común. Un felino hembra, de un año de edad, fue atendido
con disorexia, parálisis de miembros posteriores y hematuria. Exámenes de laboratorio y radiografías no evidenciaron
alteraciones. Luego de 20 días de tratamiento, el animal presentó panuveítis y fue eutanasiado. La necropsia mostró
diversas áreas de vasculitis necrosante, malacia y hemorragia en tejido nervioso, con presencia de polimorfonucleares,
neutrófilos y aneurismas, secundarios a una severa vasculitis necrosante, además de congestión, edema y degeneración
neuronal. Aunque el cuadro histopatológico sea concordante con la peritonitis infecciosa, la manifestación exacerbada del
sistema inmune, generando vasculitis necrosante y formación de aneurismas, son poco comunes.
Palabras clave: neurología, coronavíru, patología
Clínica Veterinária, n. 74, p. 62-66, 2008
As causas de manifestações neurológicas em gatos são bem documentadas
na literatura médico-veterinária 1,2,3 e
podem ser incitadas por diversos fatores, dentre os quais se incluem, principalmente, as alterações congênitas,
degenerativas, inflamatórias/infecciosas
e neoplásicas 4.
A peritonite infecciosa dos felinos (PIF)
é uma doença imunomediada progressiva
com desenvolvimento de reação do tipo
Arthus (hipersensibilidade tipo III), que
acomete predominantemente gatos que
vivem em colônias 5. É causada por uma
variante mutante do coronavírus entérico felino (FCoV) que tem predileção
pelos macrófagos, através dos quais
adentra o sistema imune dos animais e,
aí instalada, espalha intracelularmente a
infecção. Portanto, os macrófagos infectados disseminam sistemicamente o vírus,
alegtd@yahoo.com.br
MV, prof. dr.
Depto. Clínica Médica FMVZ/USP
valdorec@usp.br
Depto. Patologia FMVZ/USP
audreycrs@ig.com.br
Rinaldo Cavalcante Ferri
Eletrocardiografia em quatis
(Nasua nasua - Linnaeus,
1766) mantidos em cativeiro
e contidos quimicamente
com quetamina e xilazina
Médico veterinário autônomo, mestre
naldoferri@gmail.com
MV, prof. dr. - DMFA/UFRPE
crleucas@yahoo.com
Cyro Rego Cabral Jr
Bioestatístico, prof. dr. - FANUT/UFAL
zoocrcj@gmail.com
Simona Teobaldo Sanchez
Electrocardiography in coatis (Nasua
nasua - Linnaeus, 1766) maintained in
captivity and restrained chemically with
MV, mestre, dra.
monasanchez@ig.com.br
Taciana Pontes Spinelli
Médica veterinári autônoma
spinellitaciana@yahoo.com
Electrocardiografía en coatíes (Nasua
nasua - Linnaeus, 1766) mantenidos en
cautiverio y contenidos químicamente
con cetamina y xilazina
Resumo: Este trabalho teve por objetivo avaliar o perfil eletrocardiográfico de 21 quatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766)
mantidos em cativeiro. Para tanto, os animais foram submetidos à contenção química com quetamina e xilazina. As variáveis
analisadas foram: freqüência cardíaca (FC), ritmo, eixo elétrico médio (EEM), onda P, complexo QRS, intervalos PR e QT,
segmento ST e onda T. Os resultados encontrados foram: FC (157,62±28,22 bpm); onda P (0,058±0,021 mV e 0,03±0,0056
seg); QRS (0,551±0,20 mV e 0,0335±0,0055 seg); PR (0,07±0,0097 seg); e QT (0,165±0,017 seg). O ritmo dominante foi o
sinusal (90,48%). O EEM variou de -30˚ a +90˚ sendo que, em 90,48% dos animais, estava dentro do intervalo +60˚ a +90˚.
Os valores observados para os quatis foram similares aos de gatos (mensurações e configurações do complexo P-QRS-T) e
cães domésticos (EEM).
Abstract: The objective of this work was to evaluate the electrocardiographic profile in 21 coatis (Nasua nasua - Linnaeus,
1766) kept in captivity. Animals were anesthetized with ketamine and xylazine. The variables analyzed were: heart rate (HR),
rhythm, mean electrical axis (MEA), P wave, QRS complex, PR and QT intervals, ST segment and T wave. Results were as
follows: FC (157.62±28.22 bpm); P (0.058±0.021 mV and 0.03±0.0056 s); QRS (0.551±0.20 mV and 0.0335±0.0055 s); PR
(0.07±0.0097 s); QT (0.165±0.017 s.). Normal sinus rhythm was dominant (90.48%). The MEA varied from -30˚ to +90˚; in
90.48% of the cases it was between +60˚ and +90˚. The values observed in coatis were similar to those of domestic cats
(voltage and P-QRS-T complex) and domestic dogs (MEA).
Keywords: procyonidae, electrophysiology, heart, anesthesia
Resumen: Este trabajo tuvo como objetivo evaluar el perfil electrocardiográfico de 21 coatíes (Nasua nasua - Linnaeus, 1766)
mantenidos en cautiverio y contenidos químicamente utilizando cetamina y xilazina. Las variables analizadas fueron:
frecuencia cardiaca (FC), ritmo, eje eléctrico medio (EEM), onda P, complejo QRS, intervalo PR y QT, segmento ST y onda T.
Los resultados encontrados fueron: FC (157,62±28,22 bpm); onda P (0,058±0,021 mV y 0,03±0,0056 s); QRS (0,551±0,20 mV
y 0,0335±0,0055 s); PR (0,07±0,0097 s); y QT (0,165±0,017 s). El ritmo dominante fue el sinusal normal (90,48%). El EEM
varió de -30˚ a +90˚, aunque en 90,48% de los animales estaba en el intervalo de +60˚ a +90˚. Los valores observados para
los coatíes fueron similares a los de gato (mensuraciones y configuraciones del complejo P-QRS-T) y de perro domésticos
Palabras clave: procyonidae, electrofisiología, corazón, anestesia
A família Procyonidae pertence à
ordem carnívora e todos os seus representantes habitam o Novo Mundo, possuindo extensões territoriais que adentram a região neotropical. Está dividida
em seis gêneros, com 18 espécies. Na
América do Sul encontram-se quatro
gêneros (Procyon, Nasua, Potos e
Bassaricyon) e quatro a sete espécies 1.
Filogeneticamente, a família Procyonidae
é considerada um ramo do ancestral da
família canídea 2.
O quati (Nasua nasua - Linnaeus,
1766) é um procionídeo identificado
pelo formato do corpo e pelo focinho
Clínica Veterinária, n. 74, p. 68-74, 2008
longo, que se destaca diante de olhos e
orelhas pequenos. Mede entre 70 e 120
centímetros e pesa de três a seis quilogramas. Sua dieta, que varia sazonalmente, inclui frutas, insetos, ovos e pequenos vertebrados. É encontrado na
América do Sul, desde o leste dos
Andes (a partir da Colômbia e da Venezuela), até a Argentina e o Uruguai. No
Brasil, é criado como animal de estimação por alguns povos indígenas, enquanto outros o incluem em sua dieta
(Figura 1) 1,3,4.
Embora seja uma técnica antiga, a
eletrocardiografia é de uso recente na
medicina veterinária de animais selvagens e os padrões de normalidade e a
avaliação das alterações do traçado
elétrico associadas às doenças ainda
não estão suficientemente elucidados
nessas espécies. Assim, a aplicação dos
Figura 1 - Quati (Nasua nasua - Linnaeus,
Virologia Veterinária - 888 páginas - Editora da
ilson Grassi, autor de Seja vegano, é medico veterinário, formado
em 1994 pela Universidade Paulista.
Além de trabalhar como clínico de
Seja vegano - 110 páginas - Giz Editorial
m Virologia veterinária, obra organizada por Eduardo Furtado Flores
e editada pela Editora da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM), o
leitor irá encontrar uma obra extremamente atual, respaldada pelos avanços
na genética e biologia dos agentes virais
e por uma ampla lista de especialistas
do Brasil e do exterior que colaboraram
O objetivo da obra é fornecer informações básicas sobre a estrutura, biologia, patogenia, diagnóstico e controle
dos principais vírus de interesse veterinário. Os principais aspectos da biologia
molecular e replicação viral são abordados de maneira simples e de fácil compreensão, para embasar o entendimento
da patogenia, resposta imunológica e
diagnóstico dessas infecções.
A parte inicial da obra aborda os
aspectos gerais da virologia animal, discorrendo sobre a estrutura, classificação
e nomenclatura, genética e evolução,
métodos de detecção e identificação de
vírus, aspectos gerais da replicação
viral, replicação de vírus DNA e RNA,
patogenia das infecções, epidemiologia,
imunidade a vírus, diagnóstico laboratorial e vacinas.
As famílias virais de importância em
medicina veterinária, são tratadas individualmente, abordando-se os aspectos
gerais, a estrutura dos vírions, a estrutura
da organização genômica, expressão
gênica, replicação do genoma e o ciclo
replicativo, dando enfoque às doenças
de importância veterinária, discorrendose sobre as características dos agentes,
epidemiologia, patogenia, sinais clínicos e patologia, diagnóstico, controle e
Editora UFSM: (55) 3220-8610
pequenos animais, é diretor da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais do Estado de
São Paulo (Anclivepa-SP) e membro da
dedicando-se à difusão do veganismo e
Wilson Grassi, através de experiências pessoais, mostra, de uma forma
descontraída, como ele se tornou vegano, o porquê de ser vegano e o quanto
isso é bom para a saúde, para a consciência, para os animais e para o planeta. De leitura fácil, Seja vegano pode ser
lido por qualquer pessoa, adulto ou
Para incentivar as pessoas a
tornarem-se veganas, também incluiu
no livro receitas culinárias para que
todos possam desfrutar de saborosas
refeições que não possuam absolutamente nada de origem animal.
Sentem dor? Têm inteligência e sentimentos afetivos? E o mais importante,
têm interesses? As respostas são comentadas por Grassi, que além de utilizar
ilustrações bem humoradas, inclui
diversas frases de celebridades, como,
por exemplo, uma de Pitágoras:
“Enquanto o homem continuar a ser
o destruidor dos seres animados dos
planos inferiores, não conhecerá a
saúde nem a paz. Enquanto os homens
massacrarem os animais, eles se
matarão uns aos outros. Aquele que
semeia a morte e o sofrimento não
pode colher a alegria e o amor”.
“Muitos ainda não sabem o que significa ser vegano. Aliás, a palavra ainda
não consta oficialmente na lígua portuguesa... Os veganos reconhecem que
os animais têm direitos. Principalmente, direito à vida e à liberdade. Para
serem coerentes com este princípio, os
veganos são contra a exploração dos
animais, seja para quaisquer fins. Portanto, contra a utilização dos animais
como comida, vestuário, diversão, experiências científicas, comércio de animais etc”, explica o autor.
Veterinário Wilson Grassi:
Resolução do CFMV normatiza procedimentos cirúrgicos
RESOLUÇÃO N. 877, DE 15 DE FEVEREIRO DE 2008*
Dispõe sobre os procedimentos cirúrgicos em animais de produção e em animais silvestres;
e cirurgias mutilantes em pequenos animais e dá outras providências.
*www.cfmv.org.br/portal/legislacao/resolucoes/resoluca_877.pdf
MEDICINA VETERINÁRIA – CFMV,
no uso das atribuições que lhe são conferidas pela alínea “i” do Artigo 6° e
alínea “f” do Artigo 16 da Lei no 5.517,
de 23 de outubro de 1968, combinado
com os Artigos 2°, 4° e 6° inciso VIII,
Artigo 13 inciso XXI e Artigo 25
incisos I, II e III da Resolução n. 722, de
16 de agosto de 2002, considerando a
necessidade de disciplinar, uniformizar
e normatizar procedimentos cirúrgicos
em animais de produção e em animais
silvestres; considerando que esses procedimentos cirúrgicos devem ser realizados em condições ambientais aceitáveis, com contenção física, anestesia e
analgesia adequadas, e técnica operatória que respeite os princípios do pré,
trans e pós-operatório; considerando a
e normatizar cirurgias mutilantes em pequenos animais; considerando que as intervenções cirúrgicas ditas mutilantes,
em pequenos animais, têm sido realizadas de forma indiscriminada em todo o
País e que muitos procedimentos são
danosos e desnecessários, o que fere o
bem-estar dos animais; considerando que
é obrigação do médico-veterinário preservar e promover o bem-estar animal,
Art. 1° Instituir, no âmbito do
Conselho Federal de Medicina Veterinária, normas regulatórias que balizem a
condução de cirurgias em animais de
produção e em animais silvestres; e cirurgias mutilantes em pequenos animais.
Art. 2º As cirurgias devem ser realizadas, preferencialmente, em locais fechados e de uso adequado para esta finalidade.
Art. 3º Todos os procedimentos anestésicos e/ou cirúrgicos devem ser realizados exclusivamente pelo médico
veterinário conforme previsto na lei
n. 5.517/68.
Parágrafo único. Devem ser respeitadas as técnicas de antissepsia nos animais e na equipe cirúrgica, bem como a
utilização de material cirúrgico estéril
por método químico ou físico.
Art. 4º Não se recomenda o uso
exclusivo de contenção mecânica para
qualquer procedimento cirúrgico, devendo-se promover anestesia e analgesia adequadas para cada caso (conforme
estabelecido no Anexo 1).
Art. 5º O escopo desta Resolução
abrange as cirurgias realizadas em
locais onde não haja condições ideais
para garantir um ambiente cirúrgico
§1º Todos os procedimentos devem
ser realizados de acordo com o previsto
no Anexo 1 desta Resolução, observadas as suas indicações clínicas.
§2º São considerados procedimentos
proibidos na prática médico- veterinária: castração utilizando anéis de borracha, caudectomia em ruminantes ou
qualquer procedimento sem o respeito
às normas de antissepsia, profilaxia,
anestesia e analgesia previstos no
§3º São considerados procedimentos
não recomendáveis na prática médicoveterinária: corte de dentes e caudectomia em suínos neonatos e debicagem
em aves.
DAS CIRURGIAS EM
Art. 6° As cirurgias realizadas em
animais silvestres devem ser executadas
de preferência em salas cirúrgicas ou
em ambientes controlados e específicos
para este fim, respeitado o disposto nos
Artigos 2º e 3º desta Resolução.
Parágrafo único. Fica proibida a realização de cirurgias consideradas mutilantes, tais como: amputação de artelhos
e amputação parcial ou total das asas
conduzidas, com a finalidade de marcação ou que visem impedir o comportamento natural da espécie.
MUTILANTES EM
Art. 7° Ficam proibidas as cirurgias
consideradas desnecessárias ou que
possam impedir a capacidade de expressão do comportamento natural da espécie, sendo permitidas apenas as cirurgias que atendam as indicações clínicas.
§1° São considerados procedimentos
proibidos na prática médico-veterinária:
conchectomia e cordectomia em cães e,
onicectomia em felinos.
§2° A caudectomia é considerada um
procedimento cirúrgico não recomendável na prática médico-veterinária.
A conchectomia, comum em algumas raças de
cães, como o schnauzer miniatura, fica proibida a partir da publicação da resolução n. 877
Caça é proibida no Estado do Rio Grande do Sul
Em 2004 as entidades União pela
Vida e Movimento Gaúcho de Defesa
Animal ingressaram com ações civis
públicas contra a caça amadorística.
Foram quatro anos de luta, reunindo
material para derrubar uma prática de
extrema crueldade. O Ministério
Público Federal também atuou. Todas
as ações foram julgadas procedentes no
primeiro grau. Contudo, a ação mais
importante, sob o ponto de vista legal,
já que atacou a prática da caça
amadorística confrontando-a com a
Constituição Federal, e requerendo a
aplicação da Declaração Universal dos
Direitos dos Animais, foi julgada
improcedente no Tribunal Regional
Federal da 4ª Região, em recurso apresentado pelo IBAMA e pela
FEDERAÇÃO DE CAÇA E TIRO. No
entanto, por não ter sido unânime a
decisão possibilitou a apresentação de
outro recurso, embargos infringentes,
que foram elaborados pela JUS
BRASIL e pelo Ministério Público
Federal, ambos os recursos tiveram
êxito, e a caça amadorística está proibida no Rio Grande do Sul - único estado
da federação que possuía legislação regulamentando essa atividade. Acreditase que eventuais recursos aos Tribunais
Superiores não terão sucesso, diante dos
argumentos trazidos aos autos pela entidade autora.
EMBARGOS INFRINGENTES EM AC Nº 2004.71.00.021481-2/RS
AMBIENTAL. CAÇA AMADORÍSTICA. EMBARGOS INFRINGENTES EM
FACE DE ACÓRDÃO QUE, REFORMANDO A SENTENÇA DE PARCIAL
PROCEDÊNCIA EM AÇÃO CIVIL
PÚBLICA AJUIZADA COM VISTAS À
VEDAÇÃO DA CAÇA AMADORISTA
NO RIO GRANDE DO SUL, DEU
PROVIMENTO ÀS APELAÇÕES PARA JULGAR IMPROCEDENTE A
ACTIO. PRÁTICA CRUEL EXPRESSAMENTE PROIBIDA PELO INCISO
VII DO § 1° DO ART. 225 DA
CONSTITUIÇÃO E PELO ART. 11 DA
DIREITOS DOS ANIMAIS, PROCLAMADA EM 1978 PELA ASSEMBLÉIA
DA UNESCO, A QUAL OFENDE NÃO
SÓ I. O SENDO COMUM, QUANDO
CONTRASTADO O DIREITO À VIDA
ANIMAL COM O DIREITO FUNDAMENTAL AO LAZER DO HOMEM
(QUE PODE SER SUPRIDO DE
MUITAS OUTRAS FORMAS) E II. OS
PRINCÍPIOS DA PREVENÇÃO E DA
PRECAUÇÃO, MAS TAMBÉM APRESENTA RISCO CONCRETO DE
DANO AO MEIO AMBIENTE, REPRESENTADO PELO POTENCIAL TÓXICO DO CHUMBO, METAL UTILIZADO
NA MUNIÇÃO DE CAÇA. PELO
PROVIMENTO DOS EMBARGOS
INFRINGENTES, NOS TERMOS DO
Com razão a sentença ao proibir, no
condão do art. 225 da Constituição
Federal, bem como na exegese constitucional da Lei n.º 5.197/67, a caça
amadorista, uma vez carente de finalidade social relevante que lhe legitime
e, ainda, ante à suspeita de poluição
ambiental resultante de sua prática
(irregular emissão de chumbo na biosfera), relatada ao longo dos presentes
autos e bem explicitada pelo MPF.
Ademais, i. proibição da crueldade
contra animais - art. 225, § 1°, VII, da
Constituição - e a sua prevalência
quando ponderada com o direito fundamental ao lazer, ii. incidência, no
caso concreto, do art. 11 da
Animais, proclamada em 1978 pela
Assembléia da UNESCO, o qual dispõe que o ato que leva à morte de um
animal sem necessidade é um biocídio, ou seja, um crime contra a vida e
iii. necessidade de consagração, in
concreto, do princípio da precaução.
3. Por fim, comprovado potencial
nocivo do chumbo, metal tóxico encontrado na munição de caça.
4. Embargos infringentes providos.
A íntegra da decisão: www.trf4.gov.br/trf4/processos/visualizar_documento_gedpro.php?local=trf4&
documento=2130570&hash=1e5af6f45bbf991939481469e8a46b9a
Ibama realizou consulta pública, que se encerrou no dia 6 de abril de 2008, para estudar a possibilidade de algumas espécies
da fauna silvestre serem criadas e comercializadas com a finalidade de animal de estimação. A ação recebeu cerca de 10 mil
“A análise da consulta pública vai ser feita baseada nos critérios do Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente]. Serão consideradas apenas as contribuições encaminhadas no sentido de justificar a inclusão ou exclusão de alguma espécie”, informou a coordenadora substituta de Gestão do Uso da Fauna do Ibama, Raquel Sabaine, em entrevista à Agência Brasil. De acordo com Raquel
Sabaine, a lista definitiva das espécies que poderão ser criadas como animais de estimação deverá ser publicada em maio deste ano.
A seguir, publicamos algumas manifestações sobre o assunto, que merece atenção e discussão.
A fauna silvestre como
mercadoria: mais uma
vitória do especismo?*
Por Paula Brügger (brugger@ccb.ufsc.br), bióloga, professora do Departamento. de Ecologia e Zoologia
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ex-membro da Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA), mestra em educação e doutora em ciências humanas - sociedade e meio ambiente. É autora dos
livros "Educação ou adestramento ambiental?", que está na 3ª edição, e "Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente". Atualmente, coordena o projeto educacional "Amigo Animal".
* Fonte: Pensata Animal, n. 10, ano I, abril 2008 - http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_paulabrugger_10_top.html
O Ibama - Instituto Brasileiro do Meio
Renováveis - disponibilizou para Consulta
Pública uma lista com mais de 50 espécies
da fauna silvestre nativa que poderão ser
criadas e comercializadas como animais de
estimação1. Répteis como iguanas e o
lagarto-preguiça e uma grande variedade
de aves como o tucano, o tico-tico, a graúna, e diversos tipos de psitacídios - como
periquitos, araras, caturritas e papagaios poderão compor o novo rol de animais que
serão criados e vendidos como “pets”.
Na contramão de uma ética biocêntrica:
O primeiro preceito de ordem ética que
tal consulta afronta é o fato de os animais
não-humanos serem seres vivos sencientes
e não coisas. Portanto, jamais poderiam ser
“objetos” passíveis de mercantilização. Já
não basta termos interferido ao longo de
nossa trajetória histórica no planeta – por
meio da domesticação - no curso de tantas
outras espécies? Mesmo desconsiderando
nesta discussão todo o sofrimento imposto
aos bilhões de animais criados com a finalidade de serem abatidos para consumo
humano (e os conseqüentes impactos ambientais e sociais decorrentes dessa prática),
1 - Conforme determina o Art. 3º da Resolução
Conama nº 394 de 6 de novembro de 2007. A
Consulta Pública esteve disponível até o dia 6 de abril
de 2008 no site do Ibama
os problemas advindos da domesticação de
animais como cães e gatos, sobretudo nos
ambientes urbanos, ainda estão longe de ter
uma solução. Por que, então, persistir,
ampliar e legitimar uma relação com o
entorno que tem sido tão problemática? A
resposta para essa pergunta jaz, em grande
parte, na visão antropocêntrica de mundo
que guia nossa cultura. Vemos a natureza
como uma grande fábrica, ou seja, como
um conjunto de recursos ou meios para se
atingir um fim: o de servir aos interesses
humanos. E esse ideário está presente
inclusive no nome do órgão responsável
pela estapafúrdia consulta.
Na contramão da prudência ecológica:
O Ibama argumenta que como o Brasil é
signatário da “Convenção sobre Diversidade Biológica”, cujo objetivo é - em tese
– a conservação da diversidade biológica e
a utilização sustentável de seus componentes, tal medida seria importante para
prevenir e combater na origem as causas da
redução ou perda da diversidade biológica
e controlar ou erradicar e impedir que se
introduzam espécies exóticas que ameacem os ecossistemas, habitats ou espécies,
entre outras questões. Mas é no mínimo
contraditório que um país signatário de tal
“Convenção” tenha uma política agrícola
baseada na produção de commodities como grãos e carne – cuja produção é
responsável pela devastação de uma das
florestas mais ricas em biodiversidade do
planeta: a Amazônica. E a própria resolução 394 do CONAMA (que trata da mencionada consulta) reconhece que, para a
aprovação da lista, diversas questões deverão ser levadas em conta. Entre elas
estão: o potencial de invasão dos ecossistemas fora da área de distribuição geográfica original de tais espécies (incluindo outros países); o potencial de riscos à saúde
humana, animal, ou ao equilíbrio das populações naturais; a possibilidade de introdução de agentes biológicos com potencial
de causar prejuízos de qualquer natureza; o
risco de os espécimes serem abandonados
ou de fuga etc.
A quem interessa tal lista? Como ficam
os interesses dos animais?
Uma vez que há também muitas vozes
que se levantam contra tal proposta, é fácil
perceber que a criação e comercialização
de animais silvestres visam tão somente a
atender a satisfação dos desejos hedonistas
de alguns seres humanos e criadores que
lucrarão às custas do sofrimento dos animais. Tal medida, além de não respeitar o
atributo de senciência e de desconsiderar
os animais não-humanos como sujeitos de
suas vidas (veja os filósofos Peter Singer e
Tom Regan), poderá causar danos à biosfera mesmo sob um ponto de vista meramente instrumental, pois não se encontra
em consonância com uma visão sistêmica
de sustentabilidade e tampouco com um
“uso sustentável da biodiversidade”, como
desejam seus proponentes. Além de excluir
a dimensão ética da sustentabilidade
(evoca-se apenas a dimensão cultural na
forma dos “anseios da sociedade
brasileira” – sic-, uma questão de ordem
estética, não ética), a medida poderá gerar
um sem-número de externalidades que
serão pagas por toda a sociedade e inclusive pelas gerações futuras, como os riscos
apontados antes e questões mais imediatas
como: animais abandonados, atropelados ou
estropiados (necessitando de cuidados); a
necessidade de intervenções cirúrgicas
como castrações etc; os absurdos gastos
com fiscalização para saber quais animais
são nascidos em criadouro comercial legalmente estabelecido (uma meta cujo sucesso
me parece extremamente difícil, além de
não justificar sob o ponto de vista ético a
comercialização dos animais), etc. Em vez
de facilitar e legitimar a produção de tais
riscos, o Poder Público deveria investir
em projetos de educação e em medidas
que visem a proibir a criação e a venda de
animais de estimação. E isso seria apenas
um começo, pois, a rigor, nenhum animal
deveria ser criado e comercializado, para
nenhuma finalidade.
Um triste cenário?
Caso a consulta pública em questão
venha a dar respaldo a tal ato de insensatez poderá haver, em breve, um novo
cenário no país no qual o encarceramento
de répteis e aves se tornará uma prática
corriqueira e legal (sic). Privados de seu
bem mais precioso, sua liberdade – e aprisionados em jaulas, fossos, viveiros e
gaiolas - espécimes da fauna silvestre
serão apenas a sombra do que foram um
dia na natureza, independentemente de
terem sido criados para isso ou não. Serão
mais uma mercadoria nas vitrines de pet
shops e outros pontos de venda, produtos
prontos para “divertir” os seres humanos.
Termino com um trecho da belíssima
música “Passaredo” de Chico Buarque e
“Some rolinha; Anda, andorinha;
Te esconde, bem-te-vi; Voa, bicudo; Voa,
sanhaço; Vai, juriti; Bico calado; Muito
cuidado; Que o homem vem aí; O homem
A SOS Fauna é
trabalha há quase duas décadas lidando
diretamente com a problemática do tráfico
de animais silvestres no Brasil e, com base
em seu conhecimento de campo e vivência
direta com a questão, expõem a seguir seu
posicionamento perante esta consulta
Queremos deixar bastante claro que
nossos posicionamentos em relação ao
tema serão abordados tanto pelo lado da
conservação como também por questões
que envolvem ética e consciência em
relação à condição de bem estar animal,
assim como questões ligadas aos processos
Também queremos expor neste documento que durante anos, inúmeros fatos
ocorreram, fatos estes que conduzem a
um triste cenário e que justificam nosso
posicionamento contrário perante a prática de criação comercial em cativeiro destinada a atender ao mercado de animais
pessoas que quer a posse destas aves são
do sexo feminino. Mulheres que acham fantástico - por exemplo - ter um papagaio em
casa e lhe ensinar a reproduzir uma série
de palavras e pequenas frases, além de
tratar a ave como se esta fosse um membro
de sua própria família, oferecendo-lhe
uma diversidade de alimentos consumidos
por seres humanos como café, pão, leite,
arroz com feijão etc., isso se chama-se
antropomorfismo, ou seja, é a tendência
para interpretar os hábitos dos animais segundo os hábitos e sentimentos humanos;
c) E, por último, temos aqueles que gostam
de manter sob seu domínio, mamíferos e
répteis, para os quais este ato parece trazer
a estas pessoas uma espécie de status social
perante os outros que às cercam.
I - UM HÁBITO CULTURAL
Desde a época do descobrimento,
tornou-se um hábito cultural manter um
animal selvagem como bicho de estimação,
atualmente podemos dividir as pessoas que
querem ter estes animais sob sua posse em
a) Aquelas pessoas que têm prazer, sentem-se bem, tendo em suas residências pássaros que cantam mesmo que em cativeiro,
isso na verdade é um hobby, é algo que faz
parte da vida destas pessoas, adoram apreciar o canto de curiós, canários-da-terra,
bicudos, picharros, coleirinhas, entre outros. Neste grupo também há aqueles que,
com o passar do tempo e utilizando-se de
técnicas criadas pelo próprio homem, melhoram e alteram a forma de canto destas
aves, como por exemplo, maior tempo de
canto, alterações das notas musicais e até
mesmo, no caso dos canários-da-terra,
estimulando-os à rinha, verdadeiros duelos
travados entre dois indivíduos machos da
espécie, onde ocorrem apostas entre os
“proprietários” das aves e a platéia expectadora, onde muitas vezes um dos
combatentes chega a óbito;
b) Existem também aqueles que apreciam
ter em casa aves da família dos psitacídeos
(papagaios, araras, maritacas e periquitos
em geral). Nestes casos a maioria das
III - FALHAS GRAVÍSSIMAS NA
Apontem quantos criadores comerciais
de fauna silvestre foram fiscalizados desde
que a criação da Portaria que autorizou a
Criação Comercial de Fauna Silvestre
(Portaria Ibama 117/97) foi lançada e
quantos foram os casos de suspeita de
fraudes (bichos “esquentados”) e consequentemente realizados testes de paternidade (DNA). São quase onze anos que esta
Portaria está em vigor.
Há alguns meses, em uma reunião no
nos foi informado pela Policia Federal que
eles tinham um banco com cerca de trezentas
amostras de material genético para teste de
paternidade, mas não havia recursos financeiros para a realização dos mesmos. Então
fica difícil trabalhar desta forma!
II - GRANDES DIFERENÇAS DE
O que ocorre entre as diferenças de valores atribuídos a animais silvestres de
origem legal e ilegal é um fenômeno
genérico. Alguns exemplos em relação à
lista sugerida pelo IBAMA:
IV - SISPASS
Durante o período em que o SISPASS
esteve em operação, quantas fraudes não
ocorreram em cima do sistema, pessoas
tentando burlar de todas as maneiras, anilhas falsas, avalanches de procuradores
agindo como representantes de uma série
de pessoas que possuíam aves silvestres
em casa e alegando a estas - PASMEM que suas aves poderiam ser “registradas!”
Valores de alguns animais silvestres criados em cativeiro e oriundos do tráfico
Valor mínimo do animal
vindo de criador comercial
NASCIDO EM CATIVEIRO
picharro,
jandaia-estrela
Valor (individual)
médio do animal adquirido
com origem do tráfico
Valor (individual) médio
do animal adquirido pelo
traficante nas regiões
*(1)R$ 200,00
*(2)Não há
*(3)Desconhecido
*(4)Desconhecido
Os exemplos de valores de animais silvestres de origem legal são os baseados em animais que ainda não tiveram seu canto preparado, como ocorre em muitos
casos, são considerados como animais que nasceram em cativeiro e tão logo estivessem se alimentando sozinhos, seriam disponibilizados para venda.
Os itens marcados com *(1), *(2), *(3) e *(4) referem-se:
*(1): Não há comprovação que a reprodução da espécie Gnorimopsar chopi ocorra com facilidade em cativeiro. Esta espécie é apontada pela comunidade científica
como uma ave de manejo reprodutivo em cativeiro ainda desconhecido e muito difícil, no entanto vez ou outra surgem ofertas desta ave para venda, informando que
a mesma tem origem legal e documentação necessária. O mesmo acontece com o Icterus jamacaii (corrupião), não citado nesta lista, porém houve épocas em que esta
espécie era oferecida como se sua reprodução em cativeiro fosse tão simples quanto a de galinhas.
*(2): Há muitos anos não se encontra filhotes de Ara ararauna à venda no mercado ilegal, e também não se tem idéia de preço nas regiões de captura de filhotes. O
que teria ocorrido então? Os traficantes ficaram conscientes em relação à esta espécie e decidiram não mais captura-la? Óbvio que não. Na verdade o que pode estar
ocorrendo - e não é somente com a Ara ararauna, mas com vários psitacídeos - é a canalização dos mesmos para criadores comerciais mal intencionados, com o
propósito de esquentar legalmente a ave, pois é necessário notar que um animal que custaria em uma feira algo em torno de duzentos/trezentos reais, documentado
passa a ter um valor não inferior a R$ 1.400,00. Já presenciamos Ara ararauna sendo vendida em um shopping center de São Paulo por R$ 7.500,00. Melhor vender
por R$ 7.500,00 do que por R$ 300,00, não é mesmo?
*(3): Não temos conhecimento do valor desta arara nas regiões de captura, mas a captura ocorre. Então onde vão parar?
*(4): O caso do Ramphastos toco talvez seja o que mais ilustra a estranheza desta lista, pois é de amplo conhecimento que a reprodução desta espécie em cativeiro é
algo quase impossível de acontecer. Se houver maneira de realizar uma busca de quantos criadores de tucano-toco existem e quantos filhotes já foram vendidos, seria
conveniente realizar teste de paternidade em todos.
V - TERIA A PORTARIA 117/97 TRAZIDO ALGUM BENEFÍCIO PARA NOSSA
FAUNA SILVESTRE?
No início imaginávamos que esta
Portaria estimularia a criação em cativeiro,
com isso animais silvestres deixariam de
ser capturados na natureza para atender ao
Contudo não foi isso que aconteceu,
havendo grande diferença de preços entre
animais oriundos do tráfico e de criadores
legais, praticamente de nada resolveu, são
dois públicos consumidores distintos, na
verdade o que ocorreu foi a estimulação
maior ainda do tráfico, muitas pessoas de
má fé enxergaram a possibilidade de
esquentar animais vindos da natureza e
vendendo-os como animais de origem
absolutamente legal, valorizando animais
do tráfico em 800/900/1000%, um alto
VI - EDUCAÇÃO E CONSCIÊNCIA
O hábito de “criar” animais silvestres
em casa - diga-se de passagem que o
termo criar é muito estranho, pois o animal silvestre se cria sozinho, não precisa
do “auxílio” do homem - data de muitos
anos, séculos. Existem pessoas que ficam
literalmente doentes quando este seu
hobby lhe é ceifado, fato que nos leva a
entender que esta prática na verdade é
para muitos algo que causa até dependência, uma doença.
O fato de classificar isso como uma
espécie de dependência, leva ao entendimento que esta fará com que muitas pessoas, hoje e no futuro, se utilizem das
práticas que entenderem necessárias para
ter em casa seu animal de estimação, a
Esta dependência, este hábito cultural
estranho e sádico, nunca, jamais e em
tempo algum permitirá que o tráfico de
animais silvestre termine e nem mesmo
que ele diminua em todo o território
Estamos falando de vida silvestre, de
indivíduos que têm função biológica na
natureza, em ecossistemas. A permissão da
criação de espécies nativas em cativeiro,
abre um precedente, que facilita muito a
retirada de espécimes da natureza para sua
posterior "lavagem" e legalização. Cada
indivíduo retirado da natureza torna-se
geneticamente morto e não contribui para
a formação da próxima geração. Com isso
ocorre uma redução no número efetivo da
espécie, o que pode levar à sua erosão
genética, com conseqüências sérias não só
para a espécie, mas para todo o ecossistema em questão. É o comprometimento
de uma série de espécies que poderão vir a
sofrer em função de atos lesivos ao meio
ambiente, inclusive a espécie humana.
Onde está a racionalidade do homem
quando o mesmo destrói conscientemente
parte de algo que está ligado diretamente à
continuidade de sua existência sobre a
Onde está o processo de educação que
damos aos nossos filhos quando lhes
mostramos ser algo “bonito” submeter um
animal de vida livre ou os seus descendentes ao cárcere?
É bonito ensinar a uma criança que passarinho em gaiola é algo legal?
VII - COMEÇANDO ERRADO
Há um ditado popular que diz que quando algo começa errado, é melhor parar,
pois tudo sairá errado. Vejam que até nisso
o próprio Ibama errou, trocando os nomes
na cópia fiel da lista que está no site do
mesmo, como podem observar na outra
Vejam que na lista do Ibama, o que há
mais são psitacídeos, ou melhor, as aves
que são as mais fáceis de realizar uma
fraude, pois podem ser coletadas da
natureza até mesmo com poucos dias de
vida, são as que mais tem, isso é um prato
cheio para quem quer praticar atos criminosos como esquentar bichos vindos da
Se ocorrer um posicionamento do órgão
à partir de agora alegando que a fiscalização irá ocorrer de maneira austera, é difícil
acreditar, pois os erros cometidos no passado foram muitos.
A Sociedade Mundial de Proteção Animal - WSPA vem, por meio desta, manifestar-se em relação à Resolução Conama nº.
394 de 06 de novembro de 2007, que estabelece os critérios para a determinação de
espécies silvestres a serem criadas e
Somos absolutamente favoráveis à criação de animais silvestres em cativeiro com
a finalidade científica, visando conservação de espécies silvestres da fauna silvestre brasileira, objetivando revigoramentos populacionais de espécies que se encontrem com populações depauperadas,
reintrodução de espécies silvestres extintas
em determinadas regiões e estudo de comportamento também visando conservação.
Jornais, revistas, ou até mesmo com um
simples olhar a nossa volta, um simples
ouvir - buraco na camada de ozônio, asfixia dos oceanos, furações, enchentes, criadores de gado e madeireiras nacionais e estrangeiras devastando as florestas, turistas
e sem terras se instalando em lugares de
preservação, traficantes de animais silvestres, calotas polares derretendo, mosquitos
levando a morte em sua forma alada, gripe
do frango, tubarões mais próximos da costa
e tantos e tantos etc's.
O ser humano pode criar leis, portarias
etc, isso não é problema, afinal o papel
existe para isso mesmo. Para ser preenchido.
Mas e quanto à eficácia das Leis?
Podemos garanti-la? Não.
A falta de conscientização associada à
vaidade humana cega-nos a tal ponto que
estes dois “atributos” passam a ser as únicas leis que verdadeiramente tem eficácia
Criamos uma “Constituição” cujos artigos baseiam-se na morte e na destruição.
Não somos todos assim, mas sabemos
que, apesar da ação de uma minoria surtir
os mesmos efeitos de um vazamento
nuclear (quem não se lembra do caso da
Usina de Chernobyl, 28 de abril de 1986?),
comercializadas como animais de estimação. Com base nesses critérios fica o
(IBAMA) responsável pela publicação da
lista das espécies que poderão ser criadas e
comercializadas como animais de estimação, no prazo de até 7 de maio de
A atividade comercial de animais silvestres em nosso país é legalizada, e inclusive estimulada, desde 1967 por meio da
ainda assim, os mesmos encontram o
respaldo de que necessitam para seus atos
na vaidade, na cobiça, na miséria humana,
na falta de vontade política, na corrupção,
na tecnologia (equipamentos de destruição
em massa)...
O resultado? Uma morte lenta, mas
inexorável, de toda forma existente de vida
Essa legalização da comercialização de
animais silvestre é um ato que perpetra e
justifica legalmente os atos de depredação
É a forma enganosa e generosa de
livrar-se do problema, “se não podemos
vencê-lo, unamo-nos a ele”, de quem
A afronta à garantia Constitucional à
vida e à liberdade não deve ser interpretada em stricto sensu, apenas em relação à
vida humana, mas lato sensu, pois a vida
depende da sobrevivência de cada um, nas
O planeta está morrendo e vai morrer
cada vez mais rápido na medida em que
tomamos atitudes como essa de liberar a
comercialização de animais silvestres, vítimas inocentes, tudo em nome da comodidade, do medo, da falta de vontade, da falta
de respeito a si mesmo e ao próximo, seja
ele humano ou não.
Tudo justificado pela vaidade humana,
que sempre se sobrepõe ao bem maior que
é a vida. Simplesmente, a vida.
Com base em tudo que aqui foi exposto,
face aos fatos, entendemos que tornar a criação de animais silvestres legal para atender ao mercado PET é algo absolutamente
sem fundamento, ferindo brutalmente a
natureza e os princípios da ética, da educação e de tudo que queremos deixar para
as presentes e futuras gerações, portanto
somos contrários à regulamentação.
Lei Federal nº. 5.197, também conhecida
como Código de Fauna:
“Artigo 3° - É proibido o comércio de
espécimes da fauna silvestre e de produtos
e objetos que impliquem na sua caça,
perseguição, destruição ou apanha.
§ 1° - Excetuam-se os espécimes provenientes de criadouros devidamente legalizados.
Artigo 6º - O Poder Público estimulará:
b) a construção de criadouros destinadas à
criação de animais silvestres para fins
econômicos e industriais.”
Este artigo é regulamentado pela Portaria
Ibama 118 de 1997, que em seu artigo 1º
“Art. 1º - Normalizar o funcionamento de
criadouros de animais da fauna silvestre brasileira com fins econômicos e industriais.”
Pela legislação atual ainda vigente, a
resolução e a lista publicadas pelo IBAMA
não serão responsáveis pela liberação do
comércio de animais silvestres em nosso
país, visto que este já é autorizado desde
1967. A resolução pretende colocar critérios na criação, delimitar e restringir o
número de espécies a serem criadas levando à regulamentação.
O que ocorre atualmente é que a autorização para criação comercial de animais
silvestres fica a critério do analista ambiental que estiver analisando o processo. Por
falta de regulamentação, existem hoje
criadouros comerciais de onças, macacos,
tartarugas, dentre outros e, no futuro serão
permitidos apenas criadouros comerciais
dos animais constantes na lista, que hoje
gira em torno de 50 espécies, em sua maioria aves.
Levando em conta constatações científicas hoje já bastante desenvolvidas, a
Sociedade Mundial de Bem-Estar Animal - WSPA discorda da criação de animais silvestres em cativeiro para a finalidade de animal de companhia por ser
fato que a criação de silvestres em cativeiro fere o princípio das cinco liberdades, reconhecido universalmente como
uma forma simples de identificar se um
animal está ou não em condições de bemestar. O conceito de bem-estar animal é
definido a partir do estado físico e psicológico do animal, assim como pelas
condições em que vive. Pode-se afirmar
que há bem-estar quando o animal está
saudável e livre de qualquer sofrimento
causado pela intervenção humana. As
cinco liberdades são: livres de fome e da
sede; livres de desconforto; livres de
lesões e doenças; livres de medo e
estresse; e livres para manifestar seu
Fica evidente que nenhuma forma de
manutenção de aves em cativeiro atende
aos princípios acima, haja visto que
sequer permitem o vôo ou outra forma de
comportamento que evite a atrofia da musculatura peitoral das aves. Tão pouco é
respeitada a manutenção das aves em grupos ou em casais que evite o estresse do
cativeiro, uma vez que os criadouros são
desenvolvidos em função da reprodução
comercial, desconsiderando as condições
do bem-estar e das necessidades inerentes
aos animais criados.
Além disso, a criação de animais silvestres para fins de companhia gera grandes riscos à população humana pela transmissão de zoonoses (aves: psitacose, toxoplasmose, salmonelose, aspergilose, histoplasmose; répteis: salmonelose) e pela
introdução de espécimes em biomas cuja
ocorrência natural não exista. Tendo em
vista a grande dificuldade do IBAMA em
fiscalizar todas as pessoas que possuem
animais silvestres, sejam eles oriundos de
criadouros ou não, também haverá um
aumento da pressão sobre os animais traficados, pois o custo de retirada de animais
da natureza é zero.
Não há médicos veterinários capacitados em atendimento de silvestres em quantidade suficiente para suprir a demanda,
até mesmo porque o conhecimento sobre a
etologia e a fisiologia desses animais ainda
é bastante raso. A população igualmente
não está preparada para tratar esses animais, pois o que se constata hoje nas
residências são animais obesos ou com
deficiências nutricionais, doenças metabólicas, atrofiados, presos em espaços
minúsculos e isolados de seus bandos.
Muitos são forçados a exibir comportamento antropizado e apresentam comportamentos típicos de animais estressados.
Outro fator preocupante é o abandono e
a já existente superpopulação de algumas
espécies que estão na lista. É sabido que o
IBAMA recebe diariamente animais por
motivos diversos e não há destinação para
todos. Com o estímulo da reprodução em
criadouros comerciais, e com a reprodução
sem controle desses animais após sua
venda, este problema tende a se agravar
Portanto, levando-se em consideração a inadequação das espécies silvestres como animais de companhia
conforme todas as justificavas expostas
acima, a WSPA recomenda o trabalho
junto ao legislativo para modificar a lei
nº. 5197/67, assegurando que a criação
comercial de animais silvestres tenha
Acreditamos que por ser de 1967, esta
lei não contempla a atual visão sobre
os animais, o meio ambiente e a sustentabilidade. Com a promulgação da nova
Constituição Federal em 1988 e da Lei de
Crimes Ambientais em 1998, fica clara a
nova preocupação com as espécies, com o
bem-estar animal e com o meio ambiente. Neste contexto, os criadouros
comerciais comprometem a função
ecológica das espécies e submetem os
animais a crueldade, o que é claramente
uso comum do povo e essencial à sadia
Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e
§ 1º - Para assegurar a efetividade desse
direito, incumbe ao Poder Público:
forma da lei, as práticas que coloquem em
risco sua função ecológica, provoquem a
extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.”
Art. 32. Praticar ato de abuso, maustratos, ferir ou mutilar animais silvestres,
domésticos ou domesticados, nativos ou
exóticos.”
Por fim, a Sociedade Mundial de
Proteção Animal - WSPA urge o
IBAMA a acatar o princípio da lei
maior acima citada em consonância
com o avanço das ciências tanto do
bem-estar animal quanto da etologia,
elevando o Brasil ao patamar das
nações mais desenvolvidas do mundo,
onde já chegou-se ao consenso de
que as diferenças entre animais, seus
hábitos, necessidades e comportamento impõem um controle humano sobre
que tipos de espécies são compatíveis
com o convívio humano, causando à
saúde humana, ao meio ambiente e à
biodiversidade, os mínimos riscos possíveis e preservando o bem-estar natural
dos animais silvestres, respeitado o
princípio universal das “5 liberdades”.
Edição n. 74, janeiro/fevereiro, Ano XIII, 2008. Indexada no ISI Web of knowledge - Zoological Record, no Latindex e no CAB Abstracts

References: Artigo 6
 Artigo 16

Artigo 13
 Artigo 25

Artigo 6
 artigo 1