CELEX: 62002TJ0279
Language: pt
Date: 2006-04-05 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Terceira Secção) de 5 de Abril de 2006. # Degussa AG contra Comissão das Comunidades Europeias. # Concorrência - Artigo 81.º CE - Acordos, decisões e práticas concertadas - Mercado da metionina - Carácter único e continuado da infracção - Coima - Orientações para o cálculo do montante das coimas - Gravidade e duração da infracção - Cooperação durante o procedimento administrativo - Artigo 15.º, n.º 2, do Regulamento n.º 17/62 - Presunção de inocência. # Processo T-279/02.

Processo T‑279/02
      Degussa AG
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias
      «Concorrência – Artigo 81.° CE – Acordos, decisões e práticas concertadas – Mercado da metionina – Carácter único e continuado da infracção – Coima – Orientações para o cálculo do montante das coimas – Gravidade e duração da infracção – Cooperação durante o procedimento administrativo – Artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17/62 – Presunção de inocência»
      Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Terceira Secção) de 5 de Abril de 2006 
      Sumário do acórdão
      1.     Direito comunitário – Princípios gerais do direito – Segurança jurídica – Legalidade das penas
      2.     Concorrência – Coimas – Montante – Determinação
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2; Comunicação 98/C 9/03 da Comissão)
      3.     Concorrência – Coimas
      [Artigos 81.° CE, 82.° CE, 83.°, n.os 1 e 2, alíneas a) e d), CE, 202.°, terceiro travessão, CE e 211.°, primeiro travessão, CE; Regulamento n.° 17 do Conselho]
      4.     Concorrência – Procedimento administrativo – Decisão da Comissão através da qual se declara uma infracção
      5.     Direito comunitário – Princípios – Direitos fundamentais – Presunção de inocência 
      (Acto Único Europeu, preâmbulo; Tratado da União Europeia, artigo 6.°, n.° 2; Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia,
            artigo 47.°)
      6.     Concorrência – Acordos, decisões e práticas concertadas – Prática concertada – Conceito 
      (Artigo 81.°, n.° 1, CE)
      7.     Concorrência – Acordos, decisões e práticas concertadas – Proibição – Infracções 
      (Artigo 81.°, n.° 1, CE)
      8.     Concorrência – Coimas – Decisão que aplica coimas
      (Artigo 253.° CE; Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2)
      9.     Concorrência – Coimas – Montante – Determinação – Critérios – Gravidade das infracções 
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2)
      10.   Concorrência – Coimas – Montante – Determinação – Critérios – Gravidade das infracções 
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2)
      11.   Concorrência – Coimas – Montante – Determinação – Critérios – Carácter dissuasivo da coima
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2; Comunicação 98/C 9/03 da Comissão, ponto 1 A, quarto, quinto e sexto
            parágrafos)
      12.   Concorrência – Coimas – Montante – Determinação 
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2; Comunicação 98/C 9/03 da Comissão, ponto 1 A, sexto parágrafo)
      13.   Concorrência – Coimas – Montante – Determinação – Critérios – Gravidade das infracções – Circunstâncias atenuantes 
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°)
      14.   Concorrência – Coimas – Montante – Determinação 
      (Artigo 18.°, n.° 1, CE; Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2)
      15.   Concorrência – Coimas – Montante – Determinação – Não imposição ou redução da coima em contrapartida da cooperação da empresa
            acusada
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°, n.° 2; Comunicação 96/C 207/04 da Comissão, título D, ponto 1)
      16.   Direito comunitário – Princípios gerais do direito – Não retroactividade das disposições penais
      (Regulamento n.° 17 do Conselho, artigo 15.°; Comunicação 98/C 9/03 da Comissão)
      17.   Concorrência – Procedimento administrativo – Segredo profissional 
      (Artigo 287.° CE)
      1.     O princípio da legalidade das penas é um corolário do princípio da segurança jurídica, o qual constitui um princípio geral
         do direito comunitário e exige, designadamente, que qualquer regulamentação comunitária, especialmente quando esta impõe ou
         permite impor sanções, seja clara e precisa, a fim de que os interessados possam conhecer, sem ambiguidade, os direitos e
         obrigações dela resultantes e agir em conformidade. Este princípio, que faz parte das tradições constitucionais comuns aos
         Estados‑Membros e que foi igualmente consagrado por vários tratados internacionais, nomeadamente pelo artigo 7.° da Convenção
         Europeia dos Direitos do Homem, impõe‑se tanto às normas de natureza penal como aos instrumentos administrativos específicos
         que impõem ou permitem impor sanções administrativas. Este princípio aplica‑se não só às normas que estabelecem os elementos
         constitutivos de uma infracção, mas também às que definem as consequências que decorrem de uma infracção às primeiras. A este
         respeito, resulta do artigo 7.°, n.° 1, da referida convenção que a lei deve definir claramente as infracções e as penas que
         as reprimem. Este requisito está preenchido quando o litigante pode saber, a partir da redacção da disposição pertinente e,
         se necessário, recorrendo à interpretação que lhe é dada pelos tribunais, quais os actos e omissões pelos quais responde penalmente.
      
      Resulta da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que, para preencher os requisitos desta disposição, não
         é exigido que os termos das disposições por força das quais essas sanções são aplicadas sejam a tal ponto precisos que as
         consequências que podem decorrer da infracção a essas disposições sejam previsíveis com uma certeza absoluta. Com efeito,
         segundo essa jurisprudência, a existência de termos vagos na disposição não implica necessariamente a violação do artigo 7.°,
         n.° 1, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem e o facto de uma lei conferir um poder de apreciação não colide, em si,
         com a exigência de previsibilidade, desde que o alcance e as modalidades de exercício desse poder estejam definidos com uma
         clareza suficiente, tendo em conta o objectivo legítimo em jogo, a fim de proporcionar ao indivíduo uma protecção adequada
         contra a arbitrariedade. A este propósito, além do texto da própria lei, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem em conta
         a questão de saber se os conceitos indeterminados utilizados foram precisados em jurisprudência assente e publicada. Por outro
         lado, a tomada em conta das tradições constitucionais comuns aos Estados‑Membros não leva a que, ao princípio geral do direito
         comunitário que é o princípio da legalidade das penas, se dê uma interpretação diferente.
      
      (cf. n.os 66‑69, 71‑73)
      
      2.     Supondo que o artigo 7.°, n.° 1, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem é aplicável às sanções impostas pela Comissão
         em caso de violação das regras comunitárias de concorrência, o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, relativo à aplicação
         de coimas às empresas que tenham violado as regras comunitárias de concorrência, não viola o princípio da legalidade das penas,
         atendendo ao seguinte:
      
      - a Comissão não dispõe de uma margem de apreciação ilimitada para a fixação das coimas, uma vez que deve respeitar o limiar
         fixado em função do volume de negócios das empresas em causa e deve tomar em consideração a gravidade e a duração da infracção;
      
      - a Comissão, ao fixar as coimas, deve respeitar os princípios gerais do direito, em especial os princípios da igualdade de
         tratamento e da proporcionalidade;
      
      - estes mesmos limites são aplicáveis quando se trate do exercício, pela Comissão, do seu poder de apreciar se há ou não lugar
         a impor uma coima;
      
      - a fiscalização exercida pelo juiz comunitário permitiu, em jurisprudência assente e publicada, esclarecer os conceitos indeterminados
         que o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 podia conter;
      
      - a própria Comissão desenvolveu uma prática administrativa conhecida e acessível que, apesar de não constituir o quadro jurídico
         das coimas, pode, no entanto, servir de referência quando se trate do respeito do princípio da igualdade de tratamento, entendendo‑se
         que continua a ser possível um aumento do nível das coimas, dentro dos limites fixados no artigo 15.°, n.° 2, já referido,
         se a aplicação eficaz das regras comunitárias de concorrência o exigir;
      
      - a Comissão adoptou orientações em matéria de fixação das coimas, pelo que se autolimitou no exercício do seu poder de apreciação,
         contribuindo assim para garantir a segurança jurídica, e deve respeitar os princípios da igualdade de tratamento e da protecção
         da confiança legítima;
      
      - a Comissão tem o dever, por força do artigo 253.° CE, de fundamentar as decisões que aplicam uma coima;
      (cf. n.os 71, 74‑84)
      
      3.     Não se pode considerar que o poder de aplicar coimas por infracção aos artigos 81.° CE e 82.° CE pertence originariamente
         ao Conselho, que o transferiu para a Comissão ou delegou nesta a respectiva execução, na acepção do artigo 202.°, terceiro
         travessão, CE. De acordo com os artigos 83.°, n.os 1 e 2, alíneas a) e d), CE e 211.°, primeiro travessão, CE, este poder integra‑se, com efeito, no papel específico da Comissão
         de velar pela aplicação do direito comunitário, papel este que, tratando‑se da aplicação dos artigos 81.° CE e 82.° CE, foi
         precisado, enquadrado e formalizado pelo Regulamento n.° 17. O poder de aplicar coimas que este regulamento atribui à Comissão
         decorre, pois, das previsões do próprio Tratado e destina‑se a permitir a aplicação efectiva das proibições previstas nos
         referidos artigos.
      
      (cf. n.os 86, 87)
      
      4.     A exigência de segurança jurídica, de que devem beneficiar os operadores económicos, implica que, verificando‑se um litígio
         sobre a existência de uma infracção às regras da concorrência, a Comissão, a quem incumbe o ónus da prova das infracções por
         ela declaradas, forneça os elementos adequados a fazer prova bastante da existência dos factos constitutivos da infracção.
         No que respeita à alegada duração de uma infracção, o mesmo princípio de segurança jurídica impõe que, na falta de elementos
         de prova que permitam determinar directamente a duração da infracção, a Comissão invoque, pelo menos, elementos de prova relativos
         a factos suficientemente próximos no tempo, de modo a poder‑se razoavelmente admitir que essa infracção perdurou ininterruptamente
         entre duas datas precisas.
      
      (cf. n.os 114, 153)
      
      5.     O princípio da presunção de inocência, tal como resulta designadamente do artigo 6.°, n.° 2, da Convenção Europeia dos Direitos
         do Homem, faz parte dos direitos fundamentais que, segundo a jurisprudência do Tribunal de Justiça, reafirmada, por outro
         lado, no preâmbulo do Acto Único Europeu e no artigo 6.°, n.° 2, do Tratado da União Europeia, bem como no artigo 47.° da
         Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, são reconhecidos na ordem jurídica comunitária. Atenta a natureza das infracções
         em causa, bem como a natureza e grau de severidade das sanções que lhe estão ligadas, o princípio da presunção de inocência
         aplica‑se, nomeadamente, aos processos relativos a violações das regras de concorrência aplicáveis às empresas e susceptíveis
         de conduzir à aplicação de coimas ou de sanções pecuniárias compulsórias.
      
      (cf. n.°  115)
      6.     O conceito de «prática concertada» consiste numa forma de coordenação entre empresas que, sem ter levado à realização de um
         acordo propriamente dito, substitui cientemente por uma cooperação prática entre elas os riscos da concorrência. Os critérios
         de coordenação e cooperação em causa, longe de exigirem a elaboração de um verdadeiro «plano», devem ser entendidos à luz
         da concepção inerente às disposições do Tratado relativas à concorrência e segundo a qual qualquer operador económico deve
         determinar de maneira autónoma a política que tenciona seguir no mercado comum. Embora seja exacto que esta exigência de autonomia
         não exclui o direito de os operadores económicos se adaptarem inteligentemente ao comportamento constatado ou previsível dos
         seus concorrentes, mas opõe‑se rigorosamente a qualquer contacto directo ou indirecto entre eles que tenha por objectivo ou
         efeito de influenciar o comportamento no mercado de um concorrente efectivo ou potencial ou de revelar a essa concorrente
         o comportamento que eles próprios tenham decidido adoptar ou tencionem adoptar no mercado.
      
      Assim, para fazer prova de uma prática concertada, não é necessário demonstrar que o concorrente em questão se comprometeu
         formalmente, para com um ou vários outros, a adoptar determinado comportamento ou que os concorrentes fixaram em comum o seu
         comportamento futuro no mercado. Basta que, através da sua declaração de intenções, o concorrente tenha eliminado ou pelo
         menos reduzido substancialmente a incerteza quanto ao comportamento no mercado que dele se pode esperar. Além disso, ainda
         que a comunicação recíproca, pelos participantes num acordo, da sua intenção de lhe pôr termo não seja uma condição para a
         sua cessação, não é menos verdade que, a partir do momento em que uma empresa participa, mesmo que não seja activamente, em
         reuniões entre empresas que tenham um objecto anticoncorrencial, e que ela não se distancia publicamente do respectivo conteúdo,
         levando assim os outros participantes a pensar que subscreve o resultado das reuniões e os respeitará, pode ser considerado
         provado que participa no acordo resultante das referidas reuniões.
      
      Além do mais, embora resulte dos próprios termos do artigo 81.°, n.° 1, CE que uma prática concertada implica, para além da
         concertação entre as empresas, um comportamento no mercado dando seguimento a essa concertação e um nexo de causa e efeito
         entre esses dois elementos, há todavia que presumir, sem prejuízo da prova em contrário que aos operadores interessados cabe
         apresentar, que as empresas que participam na concertação e que estão activas no mercado têm em conta informações trocadas
         com os seus concorrentes para determinar o seu comportamento nesse mercado. E será assim, por maioria de razão, se a concertação
         tiver lugar de forma regular durante um longo período.
      
      (cf. n.os 132‑134, 136)
      
      7.     A violação do artigo 81.°, n.° 1, CE pode resultar não só de um acto isolado, mas também de uma série de actos ou mesmo de
         um comportamento continuado. Esta interpretação não pode ser contestada com fundamento no facto de um ou vários elementos
         dessa série de actos ou desse comportamento continuado poderem igualmente constituir, em si mesmos e isoladamente considerados,
         uma violação da referida disposição. Quando as diferentes acções se inscrevem num «plano de conjunto», em razão do seu objecto
         idêntico que falseia o jogo da concorrência no interior do mercado comum, a Comissão pode imputar a responsabilidade por essas
         acções em função da participação na infracção considerada no seu todo.
      
      (cf. n.° 155)
      8.     No que respeita ao cálculo do montante das coimas aplicadas pela Comissão por infracção ao direito comunitário da concorrência,
         os requisitos da formalidade essencial que o dever de fundamentação constitui estão preenchidos quando a Comissão indica,
         na sua decisão, os elementos de apreciação que lhe permitiram medir a gravidade e a duração da infracção. Por outro lado,
         o alcance do dever de fundamentação deve ser determinado à luz do facto de que a gravidade das infracções deve ser apurada
         em função de um grande número de elementos, e isto sem que tenha sido fixada uma lista vinculativa ou exaustiva de critérios
         que devam obrigatoriamente ser tomados em consideração. Além disso, o dever de fundamentação não impõe à Comissão que indique
         na sua decisão os elementos numéricos relativos ao modo de cálculo das coimas, mas unicamente os elementos de apreciação que
         lhe permitiram medir a gravidade e a duração da infracção.
      
      (cf. n.os 193, 194)
      
      9.     Na determinação da gravidade da infracção às regras de concorrência, há que ter em conta, designadamente, o contexto regulamentar
         e económico do comportamento censurado. Para apreciar, como está obrigada sempre que tal seja possível, o impacto concreto
         de uma infracção no mercado, a Comissão deve tomar como referência o jogo da concorrência que normalmente existiria se não
         houvesse a infracção. Daqui se conclui que, no caso de acordos sobre os preços, a verificação, pela Comissão, de que os acordos
         efectivamente permitiram às empresas em causa alcançar um nível de preços de transacção superior ao que teria prevalecido
         se o acordo não existisse, autoriza a Comissão a ter em conta, na determinação do montante da coima, a importância dos efeitos
         nefastos da infracção no mercado e, assim, fixar o montante da coima, atenta a gravidade da infracção, a um nível superior
         ao que teria sido fixado na falta dessa verificação. No quadro dessa apreciação, a Comissão deve atender a todas as condições
         objectivas do mercado em causa, tendo em conta o contexto económico e eventualmente regulamentar que prevalece. Há que ter
         em conta a existência, se for caso disso, de «factores económicos objectivos» que realcem que, no âmbito do «livre jogo da
         concorrência», o nível de preços não teria evoluído de modo idêntico ao dos preços praticados.
      
      (cf. n.os 216, 222‑224)
      
      10.   A gravidade de uma infracção às regras de concorrência pode ser determinada por referência à natureza e ao objecto dos comportamentos
         abusivos. Os elementos relativos ao objecto de um comportamento podem ter mais importância, para efeitos de fixação do montante
         da coima, do que os relativos aos seus efeitos. De facto, o efeito de uma prática anticoncorrencial não constitui um critério
         determinante para a apreciação do montante adequado da coima. Os elementos que dizem respeito ao aspecto intencional podem
         ter mais importância do que os relativos aos referidos efeitos, sobretudo quando estão em causa infracções intrinsecamente
         graves, como a fixação dos preços e a repartição dos mercados. Além disso, os acordos horizontais em matéria de preços fazem
         parte das infracções mais graves ao direito comunitário da concorrência.
      
      (cf. n.os 250‑252)
      
      11.   Na determinação do montante das coimas por infracção ao direito da concorrência, a Comissão deve não só ter em consideração
         a gravidade da infracção e as circunstâncias específicas do caso concreto, mas também o contexto em que a infracção foi cometida
         e zelar pelo carácter dissuasivo da sua acção, sobretudo para os tipos de infracção particularmente nocivos para a realização
         dos objectivos da Comunidade.
      
      A este respeito, as Orientações para o cálculo das coimas aplicadas por força do n.° 2 do artigo 15.°, do Regulamento n.° 17
         e do n.° 5 do artigo 65.° do Tratado CECA prevêem, de resto, que, além da própria natureza da infracção, do seu impacto concreto
         no mercado e da dimensão geográfica deste, é necessário tomar em consideração a capacidade económica efectiva dos autores
         da infracção de causarem um prejuízo importante aos outros operadores, nomeadamente aos consumidores, e determinar um montante
         da coima que assegure a esta um carácter suficientemente dissuasivo (ponto 1 A, quarto parágrafo). Pode ser também tomado
         em consideração o facto de as empresas de grandes dimensões poderem melhor apreciar o carácter infractor do seu comportamento
         e as consequências que daí decorrem (ponto 1 A, quinto parágrafo).
      
      Quanto ao primeiro destes elementos, o objectivo de dissuasão que a Comissão pode prosseguir na fixação do montante de uma
         coima tem em vista assegurar o respeito, por parte das empresas, das regras de concorrência previstas no Tratado para a condução
         das suas actividades na Comunidade ou no Espaço Económico Europeu. Este objectivo só pode ser validamente alcançado se se
         considerar a situação da empresa no dia em que a coima é aplicada. Com efeito, há que distinguir entre, por um lado, a amplitude
         da infracção no mercado e a parte de responsabilidade que cabe a cada participante no acordo (situação abrangida pelo ponto
         1 A, quarto e sexto parágrafos, das Orientações) e, por outro, o efeito dissuasivo que deve revestir a imposição da coima.
      
      Quanto à amplitude da infracção no mercado e à parte de responsabilidade que cabe a cada participante no acordo, e a parte
         do volume de negócios que provém das mercadorias que são objecto da infracção é susceptível de dar uma indicação ajustada
         da extensão da infracção no mercado em causa. O volume de negócios relativo aos produtos que foram objecto de uma prática
         restritiva constitui um elemento objectivo que dá uma medida ajustada da nocividade desta prática para o jogo normal da concorrência.
      
      Porém, a necessidade de assegurar à coima um efeito dissuasivo suficiente, quando não dá origem ao aumento geral do nível
         das coimas no quadro da aplicação de uma política de concorrência, exige que o montante da coima seja modulado de forma a
         levar em conta o impacto pretendido na empresa à qual é aplicada, e isso para que a coima não se torne irrisória, ou pelo
         contrário excessiva, face, nomeadamente, à capacidade financeira da empresa em questão, de acordo com as exigências relativas,
         por um lado, à necessidade de garantir a eficácia da coima e, por outro, do respeito do princípio da proporcionalidade. Ora,
         devido, nomeadamente, a operações de cessão ou de concentração, os recursos globais de uma empresa podem variar, diminuindo
         ou aumentando de forma significativa num lapso de tempo relativamente curto, em especial entre a cessação da infracção e a
         adopção da decisão que aplica a coima.
      
      Daqui se conclui que os referidos recursos devem ser avaliados, para alcançar correctamente o objectivo de dissuasão, e isso
         com observância do princípio da proporcionalidade, no dia em que a coima é aplicada. A este respeito, pelos mesmos motivos,
         o limite superior da coima fixado em 10% do volume de negócios da empresa interessada é determinado, no âmbito do artigo 15.°,
         n.° 2, do Regulamento n.° 17, em função do volume de negócios realizado em todo o mundo durante o exercício social anterior
         à adopção da decisão. Do mesmo modo, no âmbito da determinação do eventual agravamento da coima com vista a garantir que esta
         produza um efeito dissuasivo, importa ter em conta a capacidade financeira e os recursos reais da empresa no momento em que
         a coima lhe é aplicada e não a avaliação pro forma inscrita no seu balanço, que é fictícia por natureza e resulta da aplicação das regras contabilísticas que a empresa em causa
         impôs a si própria.
      
      Quanto ao segundo elemento, a saber, as infra‑estrututuras jurídico‑económicas de que as empresas dispõem e que lhes permitem
         apreciar do carácter infractor do seu comportamento, o mesmo destina‑se a punir em maior medida as grandes empresas, que se
         presume terem os conhecimentos e meios estruturais suficientes para terem consciência do carácter infractor do seu comportamento
         e avaliarem os benefícios dele decorrentes. Para este efeito, o volume de negócios com base no qual a Comissão determina a
         dimensão das empresas em causa, e portanto a sua capacidade para determinar a natureza e consequências do seu comportamento,
         deve reportar‑se à sua situação no momento da infracção.
      
      (cf. n.os 95, 96, 272‑274, 278‑280, 283, 285, 289, 290, 302)
      
      12.   Quando se trata da fixação do montante das coimas aplicadas aos vários participantes num acordo, a metodologia que consiste
         em repartir os membros em várias categorias, o que implica a fixação de um montante inicial idêntico para as empresas que
         pertençam à mesma categoria, embora acabe por ignorar as diferenças de dimensão entre empresas de uma mesma categoria, não
         pode, em princípio, ser censurada. Com efeito, a Comissão não é obrigada, ao proceder à determinação do montante das coimas,
         a assegurar, no caso de as coimas serem aplicadas a várias empresas envolvidas numa mesma infracção, que os montantes finais
         das coimas traduzam qualquer diferenciação entre elas quanto ao seu volume de negócios global.
      
      Não é menos verdade que essa repartição por categorias deve respeitar o princípio da igualdade de tratamento segundo o qual
         é proibido tratar situações comparáveis de modo diferente e situações diferentes de modo igual, a não ser que esse tratamento
         seja objectivamente justificado. Nesta mesma óptica, as Orientações para o cálculo das coimas aplicadas por força do n.° 2
         do artigo 15.°, do Regulamento n.° 17 e do n.° 5 do artigo 65.° do Tratado CECA prevêem no seu ponto 1 A, sexto parágrafo,
         que uma disparidade «considerável» na dimensão das empresas autoras de uma infracção da mesma natureza é, designadamente,
         susceptível de justificar uma diferenciação para efeitos da apreciação da gravidade da infracção. Por outro lado, o montante
         das coimas deve, pelo menos, ser proporcionado relativamente aos elementos tidos em conta para apreciar a gravidade da infracção.
         Consequentemente, quando a Comissão reparte as empresas envolvidas em categorias para efeitos da fixação do montante das coimas,
         a determinação dos limiares para cada uma das categorias assim identificadas deve ser coerente e objectivamente justificada.
      
      Face ao objectivo que prossegue, ou seja, a adopção do montante da coima em função dos recursos globais da empresa e da capacidade
         para mobilizar os fundos necessários para pagar a referida coima, a fixação da importância da taxa de agravamento do montante
         de base para assegurar um efeito suficientemente dissuasivo à coima destina‑se mais a garantir a eficácia da coima do que
         a prestar contas da nocividade da infracção para o jogo normal da concorrência e portanto da gravidade da referida infracção.
         Daqui resulta que a exigência relativa ao carácter objectivamente justificado do método que consiste em classificar as empresas
         por categorias deve interpretar‑se de forma mais estrita no caso de essa classificação ser efectuada não para efeitos da determinação
         do montante da coima em função da gravidade da infracção, mas para efeitos da determinação do agravamento do montante de base,
         com o objectivo de assegurar um efeito dissuasivo suficiente à coima aplicada.
      
      Com efeito, no âmbito da determinação do montante da coima em função da gravidade, mesmo que, devido à repartição em grupos,
         seja aplicado a determinadas empresas um montante de base idêntico apesar de terem dimensões diferentes, esta diferença de
         tratamento é objectivamente justificada devido à preeminência acordada à natureza da infracção relativamente à dimensão das
         empresas quando da determinação da gravidade da infracção. Contudo, esta justificação não é susceptível de se aplicar à determinação
         da taxa de agravamento da coima com o objectivo de assegurar a esta um efeito dissuasivo suficiente, atendendo a que esse
         agravamento se baseia essencial e objectivamente na dimensão e nos recursos das empresas e não na natureza da infracção.
      
      (cf. n.os 323‑325, 328‑331)
      
      13.   No âmbito da determinação do montante da coima aplicada por infracção às regras de concorrência, embora seja importante que
         uma empresa tenha tomado medidas para impedir que novas infracções ao direito comunitário da concorrência sejam cometidas
         no futuro por membros do seu pessoal, este facto em nada altera a realidade da infracção verificada. Daí resulta que o simples
         facto de, em determinados casos, a Comissão ter tido em conta, na sua prática decisória, a aplicação de um programa de alinhamento
         enquanto circunstância atenuante não implica que tenha a obrigação de proceder da mesma forma num caso determinado. A Comissão
         não tem, assim, que tomar em consideração esse elemento como circunstância atenuante na medida em que ela actue em conformidade
         com o princípio da igualdade de tratamento, o que implica que não se proceda a uma apreciação diferente quanto a esse ponto
         entre as empresas destinatárias da mesma decisão.
      
      Além disso, refira‑se que não há dúvidas que a mera adopção, por uma empresa, de um programa de cumprimento das normas de
         concorrência não pode constituir uma garantia válida e certa da observância futura e duradoura, por parte daquela, das referidas
         regras, pelo que tal programa não pode obrigar a Comissão a diminuir a coima pelo motivo de o objectivo de prevenção que esta
         última prossegue já ter sido atingido, pelo menos parcialmente.
      
      (cf. n.os 350‑351, 361)
      
      14.   Embora a proibição dos motivos de prevenção geral se aplique à situação especial das medidas derrogatórias do princípio da
         livre circulação dos cidadãos da União, consagrado no artigo 18.°, n.° 1, CE e tomadas pelos Estados‑Membros por motivos de
         ordem pública, essa proibição está longe de constituir um princípio geral e não pode, assim, obviamente ser pura e simplesmente
         transposta para o quadro das coimas aplicadas pela Comissão às empresas por infracção ao direito comunitário da concorrência.
         Pelo contrário, a Comissão pode ter em conta o facto de as práticas anticoncorrenciais, embora a sua ilegalidade tenha sido
         declarada desde o início da política comunitária da concorrência, ainda serem relativamente frequentes devido aos lucros que
         certas empresas interessadas podem extrair dessas práticas e, por isso, decidir que há lugar ao aumento do montante das coimas
         com vista a reforçar o seu efeito dissuasivo, o que responde, pelo menos parcialmente, à necessidade de conferir às coimas
         um efeito dissuasivo em relação a outras empresas diferentes daquelas a que essas coimas são aplicadas.
      
      (cf. n.os 359, 360)
      
      15.   A redução das coimas em caso de cooperação por parte das empresas que participaram em infracções ao direito comunitário da
         concorrência tem fundamento na consideração de que essa cooperação facilita a tarefa da Comissão.
      
      A este respeito, uma empresa que se limitou, ao longo do procedimento administrativo, a não tomar posição sobre as alegações
         de facto apresentadas pela Comissão, e, portanto, não reconheceu a sua veracidade, não contribui para facilitar efectivamente
         a tarefa desta última. Da mesma forma, não basta que uma empresa afirme genericamente que não contesta os factos alegados,
         em conformidade com a comunicação sobre a cooperação nos processos relativos a acordos, decisões e práticas concertadas, se,
         no caso concreto, essa afirmação não apresentar a mínima utilidade para a Comissão. Por último, uma redução com base na comunicação
         sobre a cooperação só pode ser justificada se for possível considerar que as informações prestadas e, mais genericamente,
         o comportamento da empresa em causa, a este propósito, demonstram uma verdadeira cooperação da parte desta. Tal como resulta
         do próprio conceito de cooperação, conforme utilizado no texto da comunicação sobre a cooperação, designadamente, na introdução
         e no capítulo D, ponto 1, desta comunicação, é, com efeito, unicamente quando o comportamento da empresa em causa é testemunho
         desse espírito de cooperação que uma redução com base nessa comunicação pode ser concedida.
      
      (cf. n.os 380‑383)
      
      16.   No que respeita à modificação da política geral de concorrência da Comissão em matéria de coimas, resultante nomeadamente
         das Orientações para o cálculo das coimas aplicadas por força do n.° 2 do artigo 15.°, do Regulamento n.° 17 e do n.° 5 do
         artigo 65.° do Tratado CECA, há que verificar, para controlar o respeito do princípio da irretroactividade, se essa modificação
         era razoavelmente previsível quando foram cometidas as infracções em causa.
      
      A este propósito, a principal inovação das orientações consiste em tomar como ponto de partida do cálculo um montante de base,
         determinado a partir de margens previstas para este efeito pelas referidas orientações, reflectindo essas margens diferentes
         graus de gravidade das infracções, mas que, enquanto tais, não têm relação com o volume de negócios pertinente. Este método
         assenta essencialmente numa tarificação, ainda que relativa e flexível, das coimas. Importa, pois, verificar se este novo
         método de cálculo das coimas, a admitir‑se que teve um efeito agravante no nível das coimas aplicadas, era razoavelmente previsível
         quando foram cometidas as infracções em causa. Ora, o facto de a Comissão ter aplicado, no passado, coimas de um certo nível
         a diferentes tipos de infracções não a pode privar da possibilidade de aumentar esse nível dentro dos limites indicados no
         Regulamento n.° 17, se isso se revelar necessário para assegurar que seja posta em prática a política comunitária de concorrência,
         mas que, pelo contrário, a aplicação eficaz das regras comunitárias da concorrência exige que a Comissão possa, em qualquer
         momento, adaptar o nível das coimas às necessidades dessa política.
      
      Daí decorre que as empresas implicadas num procedimento administrativo que possa dar lugar a uma coima não podem fundar uma
         confiança legítima no facto de que a Comissão não ultrapassará o nível das coimas praticado anteriormente nem num método de
         cálculo destas últimas. Por conseguinte, as referidas empresas devem contar com a possibilidade de que, em qualquer momento,
         a Comissão decidir, na observância das normas que se impõem à sua acção, aumentar o nível do montante das coimas em relação
         ao aplicado no passado. Isto é válido não só quando a Comissão procede a um aumento do nível do montante das coimas, fixando
         coimas em decisões individuais, mas também quando este aumento é efectuado mediante a aplicação, a casos concretos, de regras
         de conduta de alcance geral como é o caso das orientações. De resto, decorre da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos
         do Homem que a previsibilidade da lei não se opõe a que a pessoa em causa recorra a aconselhamento especializado a fim de
         avaliar, com um grau razoável nas circunstâncias da causa, as consequências que podem resultar de um acto determinado. É,
         em especial, o que acontece com os profissionais, habituados a ter de demonstrar grande prudência no exercício da sua profissão.
         Por conseguinte, pode esperar‑se que estes avaliem com especial cuidado os riscos que a mesma implica.
      
      Daqui deve concluir‑se que as orientações e, em especial, o novo método de cálculo das coimas que as mesmas comportam, admitindo
         que tenha tido um efeito agravante quanto ao nível das coimas aplicadas, eram razoavelmente previsíveis para empresas como
         a recorrente na época em que a infracção em causa foi cometida.
      
      (cf. n.os 388‑396)
      
      17.   Recorde‑se que o artigo 287.° CE impõe aos membros, funcionários e agentes das instituições da Comunidade a obrigação de «não
         divulgar as informações que, por sua natureza, estejam abrangidas pelo segredo profissional, designadamente as respeitantes
         às empresas e respectivas relações comerciais ou elementos dos seus preços de custo». Embora esta disposição tenha sobretudo
         em vista as informações recolhidas nas empresas, o advérbio «designadamente» mostra que se trata de um princípio geral que
         se aplica também a outras informações confidenciais. Ora, em processos contraditórios susceptíveis de levar a uma condenação,
         a natureza e o quantum da sanção proposta estão, por natureza, cobertos pelo segredo profissional, enquanto a sanção não for definitivamente aprovada
         e proferida. Este princípio decorre, nomeadamente, da necessidade de respeitar a reputação e a dignidade do interessado enquanto
         este não for condenado.
      
      Assim, o dever da Comissão de não divulgar à imprensa informações sobre a sanção precisa que se previa aplicar não coincide
         apenas com a sua obrigação de respeitar o segredo profissional mas também com a sua obrigação de boa administração. Finalmente,
         o princípio da presunção de inocência aplica‑se aos processos relativos a violações das regras da concorrência por empresas
         e que sejam susceptíveis de conduzir à aplicação de coimas ou de sanções pecuniárias compulsórias. É manifesto que esta presunção
         não é respeitada pela Comissão quando, antes de condenar formalmente a empresa que acusa, comunica à imprensa o veredicto
         submetido à deliberação do comité consultivo e do colégio dos comissários.
      
      Todavia, por um lado, a materialidade de uma infracção efectivamente demonstrada no termo do procedimento administrativo não
         pode ser posta em causa pela prova da manifestação prematura, por parte da Comissão, da sua crença na existência da infracção
         e do montante da coima que, consequentemente, prevê impor a uma empresa. Além disso, não se pode afirmar que a divulgação,
         pela Comissão, do conteúdo de uma decisão no termo do procedimento administrativo e na véspera da sua adopção formal é, por
         si só, susceptível de demonstrar que a Comissão tomou a decisão com base num juízo antecipado ou que conduziu o inquérito
         com ideias preconcebidas.
      
      Por outro lado, embora que uma irregularidade desta natureza possa provocar a anulação da decisão em causa é na condição de
         se provar que, na falta dessa irregularidade, a referida decisão teria tido um conteúdo diferente.
      
      Esta última condição não pode ser analisada como violação do direito a uma protecção jurisdicional efectiva dos direitos conferidos
         aos particulares pela ordem jurídica comunitária, que faz parte dos princípios gerais de direito que decorrem das tradições
         constitucionais comuns aos Estados‑Membros e foi igualmente consagrado nos artigos 6.° e 13.° da Convenção Europeia dos Direitos
         do Homem. Com efeito, esta protecção deve ser conciliada com o princípio da segurança jurídica e com a presunção de legalidade
         de que gozam os actos das instituições comunitárias.
      
      (cf. n.os 409‑411, 414‑416, 421‑423)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Terceira Secção)
      5 de Abril de 2006 (*)
      
      «Concorrência – Artigo 81.° CE – Acordos, decisões e práticas concertadas – Mercado da metionina – Carácter único e continuado da infracção – Coima – Orientações para o cálculo do montante das coimas – Gravidade e duração da infracção – Cooperação durante o procedimento administrativo – Artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17/62 – Presunção de inocência»
      No processo T‑279/02,
      Degussa AG, estabelecida em Düsseldorf (Alemanha), representada por R. Bechtold, M. Karl e C. Steinle, advogados,
      
      recorrente,
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias, representada por A. Bouquet e W. Mölls, na qualidade de agentes, assistidos por H.‑J. Freund, advogado, com domicílio escolhido
         no Luxemburgo,
      
      recorrida,
      apoiada por
      Conselho da União Europeia, representado por E. Karlsson e S. Marquardt, na qualidade de agentes,
      
      interveniente,
      que tem por objecto, a título principal, um pedido de anulação da Decisão 2003/674/CE da Comissão, de 2 de Julho de 2002,
         relativa a um processo nos termos do artigo 81.° do Tratado CE e do artigo 53.° do acordo EEE (processo C.37.519 – Metionina)
         (JO 2003, L 255, p. 1), e, a título subsidiário, um pedido de redução da coima aplicada nessa decisão à recorrente,
      
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIADAS COMUNIDADES EUROPEIAS (Terceira Secção),
      
      composto por: M. Jaeger, presidente, V. Tiili e O. Czúcz, juízes,
      secretário: K. Andová, administradora,
      vistos os autos e após a audiência de 27 de Abril de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
       Factos na origem do litígio
      1       A Degussa AG (Düsseldorf) é uma sociedade alemã criada em 2000 pela fusão da SKW Trostberg e da Degussa‑Hüls, tendo esta última
         surgido, ela própria, da fusão em 1998 das empresas químicas alemãs Degussa AG (Frankfurt‑am‑Main) e Hüls AG (Marl) (a seguir
         «Degussa» ou «recorrente»). A Degussa opera designadamente no sector da alimentação animal e é a única empresa fornecedora
         dos três aminoácidos essenciais mais importantes: a metionina, a lisina e a treonina.
      
      2       Os aminoácidos essenciais são os aminoácidos que não podem ser produzidos naturalmente pelo organismo e, consequentemente,
         têm de ser adicionados aos alimentos. O primeiro aminoácido cuja falta interrompe a síntese proteica dos restantes aminoácidos
         é designado o «primeiro aminoácido limitante». A metionina é um aminoácido essencial adicionado aos alimentos compostos e
         às pré‑misturas destinadas a todas as espécies animais. É utilizada principalmente na alimentação para aves de capoeira (para
         as quais é o primeiro aminoácido limitante) e, de forma crescente, nos alimentos para suínos e nos alimentos especiais para
         animais.
      
      3       A metionina apresenta‑se sob duas formas principais: a metionina DL (a seguir «MDL») e o análogo de hidroximetionina (a seguir
         «MHA»). A MDL é produzida sob forma cristalizada e apresenta um conteúdo activo próximo dos 100%. A MHA, que foi introduzida
         na década de 80 pelo produtor Monsanto, antecessora da Novus International Inc., apresenta um conteúdo activo nominal de 88%.
         A MHA representava, em 2002, cerca de 50% do consumo mundial.
      
      4       À data dos factos, os três principais produtores mundiais de metionina eram a Rhône‑Poulenc (actual Aventis SA), cuja filial
         responsável pela produção de metionina era a Rhône‑Poulenc Animal Nutrition (actual Aventis Animal Nutrition SA), a Degussa
         e a Novus. A Rhône‑Poulenc produzia metionina sob as suas duas formas, ao passo que a Degussa só produzia MDL e a Novus só
         produzia MHA.
      
      5       Em 26 de Maio de 1999, a Rhône‑Poulenc apresentou à Comissão uma declaração em que admitia ter participado num acordo tendo
         por objecto a fixação de preços e a atribuição de quotas para a metionina e pediu para beneficiar da comunicação da Comissão
         sobre a não aplicação ou a redução de coimas nos processos relativos a acordos, decisões e práticas concertadas (JO 1996,
         C 207, p. 4, a seguir «comunicação sobre a cooperação»).
      
      6       Em 16 de Junho de 1999, funcionários da Comissão e do Bundeskartellamt (instituto federal alemão dos acordos, decisões e práticas
         concertadas) efectuaram investigações, ao abrigo do artigo 14.°, n.° 3, do Regulamento n.° 17 do Conselho, de 6 Fevereiro
         1962, Primeiro Regulamento de aplicação dos artigos [81.°] e [82.°] do Tratado (JO 1962, 13, p. 204; EE 08 F1 p. 22), que
         estava então em vigor, nas instalações da Degussa‑Hüls, em Frankfurt‑am‑Main.
      
      7       Na sequência destas investigações, a Comissão enviou à Degussa‑Hüls, em 27 de Julho de 1999, um pedido de informações, nos
         termos do artigo 11.° do Regulamento n.° 17, sobre os documentos obtidos. A Degussa‑Hüls respondeu a esse pedido em 9 de Setembro
         de 1999.
      
      8       A Comissão enviou também pedidos de informações à Nippon Soda Co. Ltd (a seguir «Nippon Soda»), à Novus International Inc.
         (a seguir «Novus») e à Sumitomo Chemical Co. Ltd (a seguir «Sumitomo») em 7 de Dezembro de 1999, e à Mitsui & Co. Ltd em 10
         de Dezembro de 1999. Estas empresas responderam durante o mês de Fevereiro de 2000 e a Nippon Soda apresentou uma declaração
         complementar em 16 de Maio de 2000.
      
      9       Em 1 de Outubro de 2001, a Comissão adoptou uma comunicação de acusações contra cinco produtores de metionina, entre os quais
         a recorrente. A mesma comunicação de acusações foi dirigida à Aventis Animal Nutrition (a seguir «AAN»), filial a 100% da
         Aventis.
      
      10     Na sua comunicação de acusações, a Comissão acusava estas empresas de terem participado, desde 1986 até, na maioria dos casos,
         ao início de 1999, num acordo continuado contrário ao artigo 81.°, n.° 1, CE e ao artigo 53.° do Acordo sobre o Espaço Económico
         Europeu (a seguir «acordo EEE»), que abrangia a totalidade do EEE. Segundo a Comissão, o acordo em questão consistia na fixação
         dos preços da metionina, na utilização de um mecanismo de aplicação de aumentos dos preços, na atribuição de mercados nacionais
         e de quotas de mercado e num mecanismo de fiscalização e aplicação desses acordos.
      
      11     Todas as partes apresentaram observações escritas em resposta à comunicação de acusações da Comissão, tendo a Aventis e a
         AAN, no entanto, informado a Comissão de que apresentariam uma única resposta em nome das duas sociedades.
      
      12     As respostas foram recebidas pela Comissão entre 10 e 18 de Janeiro de 2002. A Aventis, a AAN (a seguir, conjuntamente, «Aventis/AAN»)
         e a Nippon Soda reconheceram a infracção e admitiram a materialidade de todos os factos. A Degussa admitiu igualmente a infracção,
         mas unicamente para o período de 1992 a 1997. Em 25 de Janeiro de 2002, teve lugar uma audição com as empresas em causa.
      
      13     No termo do procedimento, por considerar que a Aventis/AAN, a Degussa e a Nippon Soda tinham participado num acordo e/ou prática
         concertada de carácter continuado que abrangeram a totalidade do EEE, no âmbito dos quais chegaram a acordo sobre objectivos
         de preços para o produto, adoptaram e utilizaram um mecanismo de aplicação de aumentos dos preços, trocaram informações sobre
         volumes de vendas e quotas de mercado e fiscalizaram e fizeram aplicar os seus acordos, a Comissão adoptou a Decisão 2003/674/CE
         da Comissão, de 2 de Julho de 2002, relativa a um processo nos termos do artigo 81.° do Tratado CE e do artigo 53.° do acordo
         EEE (processo C.37.519 – Metionina) (JO 2003, L 255, p. 1, a seguir «decisão»).
      
      14     Nos considerandos 63 a 81 da decisão, a Comissão descreveu o acordo como destinado à fixação de escalões de preços e de «preços
         absolutamente mínimos». Os participantes chegaram a acordo sobre a necessidade de aumentar os seus preços e examinaram aquilo
         que o mercado poderia aceitar. De seguida, os aumentos de preços foram organizados por diferentes «campanhas» sucessivas,
         cuja aplicação era analisada durante as reuniões seguintes do cartel. Além disso, os participantes trocaram informações sobre
         os volumes de vendas e as capacidades de produção, bem como as suas estimativas sobre o volume total do mercado.
      
      15     No que diz respeito a pôr em prática os objectivos de preços, a Comissão observou que as vendas eram objecto de fiscalização
         por parte dos participantes, sendo os dados objecto de troca compilados e examinados em reuniões regulares, sem que, contudo,
         tivesse existido um sistema de controlo dos volumes, acompanhado de um mecanismo de compensação, embora a Degussa tenha feito
         uma proposta nesse sentido. As reuniões multilaterais (mais de 25 entre 1986 e 1999) e bilaterais regulares constituíram um
         elemento essencial da organização do cartel. As mesmas tomaram a forma de «cimeiras» e de reuniões mais técnicas ao nível
         dos colaboradores.
      
      16     Por último, o funcionamento do acordo conheceu três períodos distintos. O primeiro, durante o qual os preços estiveram em
         alta, decorreu desde Fevereiro de 1986 até 1989 e chegou ao seu termo com a saída da Sumitomo do acordo e com a entrada no
         mercado da Monsanto e da MHA. Durante o segundo período, que decorreu de 1989 a 1991, os preços começaram a descer de maneira
         espectacular. Os membros do cartel interrogaram‑se então acerca da melhor forma de reagir a esta nova situação (recuperarem
         as quotas de mercado ou concentrarem‑se nos preços) e concluíram, após diversas reuniões realizadas em 1989 e 1990, ser necessário
         concentrarem os seus esforços no aumento dos preços. Durante o terceiro e último período, que decorreu desde 1991 até Fevereiro
         de 1999, o aumento das vendas da MHA produzida pela Monsanto (Novus a partir de 1991) levou os participantes no acordo a concentrarem‑se
         acima de tudo no nível dos preços.
      
      17     A decisão compreende, nomeadamente, as seguintes disposições:
      «Artigo 1.°
      A Aventis [...] e a [AAN], solidariamente responsáveis, a Degussa [...] e a Nippon Soda [...] cometeram uma infracção ao n.° 1
         do artigo 81.° do Tratado e ao n.° 1 do artigo 53.° do acordo EEE ao participarem, da forma e na medida apresentadas nos considerandos,
         num complexo de acordos e de práticas concertadas no sector da metionina.
      
      A duração da infracção foi a seguinte:
      –       desde Fevereiro de 1986 até Fevereiro de 1999.
      [...]
      Artigo 3.°
      Desta forma, são aplicadas as seguintes coimas às empresas designadas no artigo 1.°, no que se refere à infracção nele verificada:
      –       Degussa [...], uma coima de 118 125 000 euros,
      –       Nippon Soda [...], uma coima de 9 000 000 de euros
      [...]»
      18     Para efeitos do cálculo da coima, a Comissão, sem se lhe referir explicitamente, aplicou, no essencial, a metodologia constante
         das Orientações para o cálculo das coimas aplicadas por força do n.° 2 do artigo 15.°, do Regulamento n.° 17 e do n.° 5 do
         artigo 65.° do Tratado CECA (JO 1998, C 9, p. 3, a seguir «orientações»), bem como da comunicação sobre a cooperação.
      
      19     Para fixar o montante de base da coima, a Comissão considerou, em primeiro lugar, a gravidade da infracção. Declarou que,
         tendo em conta a natureza do comportamento em causa, a sua incidência sobre o mercado da metionina e a dimensão do mercado
         geográfico de referência, as empresas destinatárias da decisão tinham cometido uma infracção muito grave ao artigo 81.°, n.° 1,
         CE e ao artigo 53.°, n.° 1, do acordo EEE (considerandos 270 a 293).
      
      20     Por entender, por outro lado, que era de aplicar um tratamento diferenciado, atendendo à capacidade económica real de as empresas
         prejudicarem significativamente a concorrência, e fixar a coima a um nível que garantisse um efeito dissuasivo suficiente,
         a Comissão considerou que, face às grandes diferenças de dimensão entre as empresas, havia que tomar por base as quotas de
         mercado destas últimas no mercado mundial da metionina e que, portanto, a Rhône‑Poulenc e a Degussa constituíam uma primeira
         categoria de empresas e a Nippon Soda constituía, por si só, uma segunda categoria. Consequentemente, a Comissão fixou os
         montantes iniciais das coimas da Aventis/AAN e da Degussa em 35 milhões de EUR, e o montante de base da coima da Nippon Soda
         em 8 milhões de EUR (considerandos 294 a 302).
      
      21     Para garantir um efeito dissuasivo suficiente e ter em conta o facto de as grandes empresas disporem de conhecimentos e de
         infra‑estruturas jurídico‑económicas que lhes permitem melhor apreciar o carácter infractor do seu comportamento as consequências
         que daí decorrem do ponto de vista do direito da concorrência, a Comissão entendeu, por último, que o montante inicial das
         coimas aplicadas à Aventis/AAN e à Degussa, calculado em função da importância relativa da empresa no mercado em causa, devia
         ser agravado de forma a tomar em consideração a dimensão e os recursos globais respectivos dessas duas empresas. A Comissão
         decidiu, portanto, que havia que aumentar o montante inicial das coimas aplicadas à Aventis/AAN e à Degussa em 100%, elevando‑o
         para 70 milhões de EUR (considerandos 303 a 305).
      
      22     No que respeita, em segundo lugar, à duração da infracção, a Comissão entendeu que a Aventis/AAN, a Degussa e a Nippon Soda
         tinham participado de maneira continuada na infracção, de Fevereiro de 1986 a Fevereiro 1999, ou seja, durante doze anos e
         dez meses. Os montantes iniciais das coimas, determinados em função da gravidade da infracção, foram, por conseguinte, agravados
         em 10% por ano e 5% por semestre, ou seja, em 125%. O montante de base da coima foi, pois, fixado em 157,5 milhões de EUR
         para a Aventis/AAN e para a Degussa e em 18 milhões de EUR para a Nippon Soda Company (considerandos 306 a 312).
      
      23     Em terceiro lugar, a Comissão considerou que não havia nenhuma circunstância atenuante a favor das empresas que tinham participado
         na infracção (considerandos 313 a 331).
      
      24     Em quarto e último lugar, a Comissão, em aplicação da comunicação sobre a cooperação, reduziu em 100% a coima aplicada à Aventis/AAN,
         ao abrigo da secção B da referida comunicação. Em contrapartida, entendeu que a Nippon Soda e a Degussa não preenchiam as
         condições para uma redução muito substancial do montante da coima com fundamento na secção B nem as condições para uma redução
         substancial do montante da coima com fundamento na secção C da comunicação sobre a cooperação. Porém, a Comissão admitiu que
         a Nippon Soda preenchia as condições previstas na secção D, n.° 2, primeiro e segundo travessões, da referida comunicação
         e que a Degussa preenchia as condições previstas na secção D, n.° 2, primeiro travessão desta última e, consequentemente,
         reduziu os montantes das coimas aplicadas a estas empresas em 50% e 25%, respectivamente (considerandos 332 a 355).
      
       Tramitação processual e pedidos das partes
      25     Por petição entrada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 6 de Setembro de 2002 a recorrente interpôs o presente
         recurso.
      
      26     Em 13 de Dezembro de 2002, o Conselho pediu para intervir no processo. Por despacho de 13 de Fevereiro de 2003, o presidente
         da Quarta Secção do Tribunal de Primeira Instância admitiu a intervenção do Conselho em apoio dos pedidos da Comissão.
      
      27     Por decisão do Tribunal de Primeira Instância, o juiz‑relator foi afecto à Terceira Secção, à qual o processo foi consequentemente
         atribuído.
      
      28     No âmbito das medidas de organização do processo previstas no artigo 64.° do seu Regulamento de Processo, o Tribunal de Primeira
         Instância convidou as partes a responderem a determinadas questões e a apresentarem certos documentos. As partes cumpriram
         este pedido.
      
      29     Com base no relatório do juiz‑relator, o Tribunal de Primeira Instância (Terceira Secção) decidiu dar início à fase oral do
         processo. Foram ouvidas as alegações das partes e as suas respostas às questões que o Tribunal de Primeira Instância lhes
         colocou na audiência de 27 de Abril de 2005.
      
      30     A recorrente conclui pedindo que o Tribunal de Primeira Instância se digne:
      –       anular a decisão;
      –       subsidiariamente, reduzir o montante da coima que lhe foi aplicada;
      –       condenar a Comissão nas despesas.
      31     A Comissão conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      –       negar provimento ao recurso;
      –       condenar a recorrente nas despesas.
      32     O Conselho conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      –       negar provimento ao recurso;
      –       decidir sobre as despesas como for de direito.
       Questão de direito
      33     A recorrente invoca, no essencial, quatro fundamentos de recurso. O primeiro fundamento, no âmbito do qual a recorrente deduz
         uma excepção de ilegalidade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, refere‑se à violação do princípio da legalidade
         das penas. O segundo fundamento refere‑se a um erro de apreciação quanto ao carácter único e continuado e à duração da infracção
         na qual a recorrente participou. O terceiro fundamento refere‑se a erros de apreciação, erros de direito, erros de facto e
         à violação dos princípios da proporcionalidade, da irretroactividade das penas e da igualdade de tratamento, e do dever de
         fundamentação na determinação do montante da coima. Por último, o quarto fundamento refere‑se à violação dos princípios do
         «respeito do segredo profissional», da boa administração e da presunção de inocência.
      
      I –  Quanto ao primeiro fundamento, relativo à violação do princípio da legalidade das penas
      A –  Quanto à excepção de ilegalidade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17
      1.     Argumentos das partes
      34     A recorrente deduz uma excepção de ilegalidade na acepção do artigo 241.° CE e alega que o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento
         n.° 17, disposição que habilita a Comissão a aplicar coimas por infracção ao direito comunitário da concorrência, viola o
         princípio da legalidade das penas enquanto corolário do princípio da segurança jurídica, que é um princípio geral do direito
         comunitário, atendendo a que essa disposição não predetermina, de forma suficiente, a prática decisória da Comissão.
      
      35     A título preliminar, a recorrente recorda que o princípio da legalidade das penas está consagrado no artigo 7.°, n.° 1, da
         Convenção Europeia para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (a seguir «CEDH») que prevê que «não
         pode ser imposta uma pena mais grave do que a aplicável no momento em que a infracção foi cometida». Acrescenta que este mesmo
         princípio (nulla poena sine lege) está igualmente consagrado no artigo 49.°, n.° 1, da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, proclamada em 7
         de Dezembro de 2000 em Nice (JO C 364, p. 1) (a seguir «Carta») e faz parte integrante das tradições constitucionais dos Estados‑Membros
         (v., por exemplo, artigo 103.°, n.° 2, da constituição alemã). Deste princípio decorrem, segundo a interpretação do Tribunal
         Europeu dos Direitos do Homem e do Tribunal de Justiça, tanto o princípio da irretroactividade como o da legalidade das penas
         (v., nomeadamente, TEDH, acórdão S.W. e Reino Unido de 22 de Novembro de 1995, série A, n.° 335, § 35, e acórdão do Tribunal
         de Justiça de 12 de Dezembro de 1996, X, C‑74/95 e C‑129/95, Colect., p. I‑6609, n.° 25). Segundo a jurisprudência do Tribunal
         de Justiça, o princípio da legalidade das penas constitui uma emanação do princípio da segurança jurídica, que é reconhecido
         como princípio geral do direito comunitário (acórdãos do Tribunal de Justiça de 12 de Novembro de 1981, Salumi e o., 212/80
         a 217/80, Recueil, p. 2735, n.° 10, e de 22 de Fevereiro de 1984, Kloppenburg, 70/83, Recueil, p. 1075, n.° 11) e exige nomeadamente
         que a legislação comunitária seja clara e previsível para os sujeitos de direito e que, quando esteja em causa uma regulamentação
         susceptível de implicar consequências financeiras, a exigência de certeza e previsibilidade constitua um imperativo que se
         impõe com especial rigor, de forma a permitir aos interessados conhecer com exactidão o alcance das obrigações que lhes são
         impostas (v. acórdão do Tribunal de Justiça de 13 de Março de 1990, Comissão/França, C‑30/89, Colect., p. I‑691, n.° 23, e
         jurisprudência referida).
      
      36     Quanto aos critérios que permitem apreciar o carácter suficientemente certo e previsível de uma «lei», na acepção do artigo
         7.°, n.° 1, da CEDH, a recorrente recorda que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem exige a acessibilidade daquela aos
         interessados e uma formulação suficientemente precisa para lhes permitir – se necessário, com auxílio de aconselhamento especializado
         – prever, num grau razoável nas circunstâncias da causa, as consequências que podem resultar de um acto determinado. Todavia,
         segundo o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, uma lei que confere um poder de apreciação não colide, em si, com esta exigência,
         desde que o alcance e as modalidades de exercício desse poder estejam definidos com uma clareza suficiente face ao objectivo
         legítimo em jogo, a fim de proporcionar ao indivíduo uma protecção adequada contra a arbitrariedade (TEDH, acórdãos Margareta
         e Roger Andersson e Suécia de 25 de Fevereiro de 1992, série A, n.° 226, § 75, e Malone e  Reino Unido de 2 de Agosto de 1984,
         série A, n.° 82, § 66).
      
      37     A recorrente alega que o princípio da legalidade das penas é susceptível de se aplicar tanto às sanções penais como às sanções
         que não têm natureza penal em sentido estrito e, portanto, igualmente ao artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, independentemente
         da questão da natureza jurídica das coimas impostas pela Comissão com fundamento nesta disposição. Com efeito, o Tribunal
         de Justiça considerou que «uma sanção, mesmo de carácter não penal, só pod[ia] ser aplicada se assenta[sse] numa base legal
         clara e inequívoca» (acórdãos do Tribunal de Justiça de 25 de Setembro de 1984, Könecke, 117/83, Recueil, p. 3291, n.° 11,
         e de 18 de Novembro de 1987, Maizena, 137/85, Colect., p. 4587, n.° 15). A indicação constante do artigo 15.°, n.° 4, do Regulamento
         n.° 17, de que as decisões da Comissão que aplicam coimas por infracção ao direito comunitário da concorrência «não têm natureza
         penal», é, neste aspecto, indiferente, visto que a designação de um acto jurídico não é determinante para a apreciação deste
         último (TEDH, acórdão Engel e o. e Países Baixos de 8 de Junho de 1976, série A, n.° 22, § 81). Pelo contrário, resulta da
         gravidade das coimas aplicadas e da sua função repressiva e preventiva que as mesmas se revestem essencialmente de natureza
         quase penal, senão mesmo de natureza penal em sentido lato.
      
      38     Além disso, esta interpretação é conforme com a dada pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem no que respeita ao conceito
         de acusação penal (TEDH, acórdãos Belilos e Suíça de 29 de Abril de 1988, série A, n.° 132, §§ 62 e 68, Öztürk e Alemanha
         de 21 de Fevereiro de 1984, série A, n.° 73, §§ 46 e segs., e Engel e o. e Países Baixos, já referido no n.° 37 supra, §§ 80 e segs.), segundo a qual mesmo as coimas de baixo montante aplicadas no âmbito de procedimentos administrativos têm
         natureza penal. A recorrente considera a fortiori que este é também o caso das coimas aplicadas pela Comissão por infracção ao direito comunitário, dada a importância dos
         seus montantes.
      
      39     A recorrente recorda que, segundo o Tribunal de Justiça, a exigência de clareza jurídica é «particularmente imperiosa num
         domínio em que qualquer incerteza faz correr o risco de [...] aplicação de sanções particularmente sensíveis» (acórdão do
         Tribunal de Justiça de 10 de Julho de 1980, Comissão/Reino Unido, 32/79, Recueil, p. 2403, n.° 46), o que sucede no caso das
         coimas aplicadas por força do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17.
      
      40     Além disso, a recorrente sublinha que resulta da repartição das competências entre o Conselho e a Comissão prevista nos artigos
         83.° CE e 85.° CE que só o Conselho tem competência para estabelecer os regulamentos ou directivas úteis para a aplicação
         dos princípios constantes dos artigos 81.° CE e 82.° CE. Os requisitos relativos ao princípio da legalidade das penas implicam,
         portanto, que o Conselho não possa delegar na Comissão o poder de impor coimas, na falta de um sistema suficientemente determinado.
      
      41     Ora a recorrente sustenta que a Comissão dispõe de poderes simultaneamente de investigação, acusação e julgamento. Semelhantes
         poderes, que não estão em conformidade com as tradições constitucionais dos Estados‑Membros, deveriam ser enquadrados por
         regras claras e unívocas. A recorrente entende, assim, que o regulamento de aplicação dos artigos 81.° CE e 82.° CE do Conselho
         deveria definir precisamente o teor, objectivo e intensidade das sanções. Além disso, o princípio da legalidade das penas
         exige que seja previsto um limiar, que não deveria ser excessivamente elevado, a fim de que a coima não adquira natureza penal.
         Com efeito, caso a coima pudesse ser ilimitada, a mesma não seria definitivamente determinada de forma antecipada pelo Conselho,
         mas antes imposta pela Comissão enquanto autoridade executiva.
      
      42     A recorrente entende que o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 não preenche os requisitos decorrentes do princípio da
         legalidade das penas, anteriormente descritas.
      
      43     Em primeiro lugar, sustenta que o Regulamento n.° 17 não prevê os casos em que uma infracção aos artigos 81.° CE e 82.° CE
         deve ser objecto de uma coima, deixando à Comissão o poder discricionário de decidir da oportunidade desta última. A recorrente
         recorda, a este respeito, o acórdão do Tribunal de Justiça de 12 de Julho de 1979, BMW Belgium e o./Comissão (32/78, 36/78
         a 82/78, Recueil, p. 2435, n.° 53), nos termos do qual a Comissão beneficia de total liberdade no exercício do poder discricionário
         de que dispõe para decidir ou não aplicar uma coima.
      
      44     Em segundo lugar, a recorrente alega que o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 não contém um limite quantificado. A
         recorrente entende, por isso, que esta previsão não é compatível com o princípio da legalidade das penas e constitui uma transferência,
         para a Comissão, de uma competência que, por força do Tratado, cabe ao Conselho. Na realidade, o montante da coima não é determinado
         antecipadamente pelo regulamento mas sim, e exclusivamente, pela Comissão, de forma não previsível nem verificável (v. acórdão
         Comissão/França, referido no n.° 35 supra, n.° 23, e a jurisprudência aí referida). A necessidade de garantir que a coima tenha um efeito dissuasivo não pode justificar
         essa falta de limiar absoluto, porquanto esta exigência deve ser conciliada com o princípio fundamental do direito comunitário,
         de valor jurídico superior, que é o princípio da legalidade das penas (acórdãos Kloppenburg, referido no n.° 35 supra, n.° 11, e Salumi e o., referido no n.° 35 supra, n.° 10).
      
      45     Em terceiro lugar, a recorrente observa que não há critérios estabelecidos pelo legislador para a fixação da coima, excepto
         quanto à gravidade e duração da infracção. Ora estes dois critérios não têm, na prática, nenhum efeito restritivo sobre o
         poder de apreciação da Comissão. Com efeito, por um lado, a Comissão não está obrigada por uma lista vinculativa ou exaustiva
         de critérios que devam obrigatoriamente ser tomados em consideração (despacho do Tribunal de Justiça de 25 de Março de 1996,
         SPO e o./Comissão, C‑137/95 P, Colect., p. I‑1611, n.° 54, e acórdão do Tribunal de Justiça de 17 de Julho de 1997, Ferriere
         Nord/Comissão, C‑219/95 P, Colect., p. I‑4411, n.° 33; acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 20 de Março de 2002, HFB
         e o./Comissão, T‑9/99, Colect., p. II‑1487, n.° 443) e, por outro, a Comissão tem em conta numerosos factores agravantes ou
         atenuantes que os sujeitos de direito não podem conhecer antecipadamente.
      
      46     Além disso, os requisitos relativos ao princípio da igualdade de tratamento não permitem compensar essa imprecisão atendendo
         a que, segundo a jurisprudência, a Comissão não é obrigada a velar por que os montantes finais das coimas traduzam toda e
         qualquer diferença entre as empresas em causa quanto ao seu volume de negócios (acórdão do Tribunal de Primeira Instância
         de 20 de Março de 2002, LR AF 1998/Comissão, T‑23/99, Colect., p. II‑1705, n.° 278).
      
      47     A tese da recorrente é corroborada por um acórdão do Bundesverfassungsgericht (tribunal constitucional alemão), segundo o
         qual uma norma penal que preveja, como limite da pena, o património do condenado deve ser anulada por ser contrária ao princípio
         da legalidade das penas (acórdão de 20 de Março de 2002, BvR 794/95, NJW 2002, p. 1779). Contrariamente ao que afirma o Conselho,
         o § 81, n.° 2, da lei alemã contra as restrições da concorrência [Gesetz gegen Wettbewerbsbeschränkungen (GWB)] não contém
         nenhuma disposição análoga ao artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, tendo o legislador renunciado voluntariamente a esse
         quadro.
      
      48     Em quarto lugar, a recorrente refere que a prática decisória da Comissão ilustra a justeza da sua tese. Esta prática é marcada
         pelas diferenças importantes entre os montantes das coimas aplicadas e por um aumento brutal e recente dos referidos montantes.
         A recorrente observa, assim, designadamente, que oito das dez coimas mais importantes foram aplicadas após 1998 e que uma
         coima recorde de 855,23 milhões de EUR, dos quais 462 milhões a uma única empresa, foi aplicada no chamado caso das «vitaminas»
         [Decisão da Comissão C (2001) 3695 final, de 21 de Novembro de 2001, processo COMP/E‑1/37.512]. Este último montante é quinze
         vezes superior à média das coimas aplicadas entre 1994 e 2000 e a segunda coima mais elevada [\decisão da Comissão C (2001) 4573
         final, de 20 de Dezembro de 2001, processo COMP/E‑1/36.212 – Papel autocopiativo] do ano de 2001 representa ainda seis vezes
         esse valor médio.
      
      49     Em quinto lugar, a recorrente entende que o sistema existente não pode ser justificado pelo necessário efeito dissuasivo que
         as coimas devem revestir para as empresas. Com efeito, por um lado a recorrente admite que, embora o montante exacto da coima
         não deva ser determinável antecipadamente, o objectivo de dissuasão não autoriza, contudo, o Conselho a não «mencionar claramente
         os limites da competência atribuída à Comissão». Por outro lado, observa que a falta de um mínimo de previsibilidade da coima
         teve, na realidade, por efeito dissuadir as empresas de cooperar com a Comissão. A possibilidade de avaliar, ainda que aproximativamente,
         as potenciais consequências de um comportamento garante, pelo contrário, muito melhor o efeito dissuasivo prosseguido, à semelhança
         das leis penais nacionais.
      
      50     Em sexto lugar, a recorrente sustenta que as orientações não podem ser consideradas um paliativo para a falta de legalidade
         do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17. Por um lado, as referidas orientações não podem, segundo afirma, constituir
         um acto jurídico na acepção do artigo 249.° CE e, por outro, só o Conselho está habilitado a adoptar disposições nesta matéria,
         nos termos do artigo 83.° CE. A recorrente entende que é, pois, ao Conselho que cabe respeitar o princípio da legalidade das
         penas. Pelos mesmos motivos, a competência de plena jurisdição reconhecida ao Tribunal de Justiça pelo artigo 17.° do Regulamento
         n.° 17 não pode compensar a falta de legalidade do artigo 15.°, n.° 2, do mesmo regulamento. Com efeito, a recorrente recorda
         que, não obstante esta competência, é à Comissão que compete, em primeira linha, determinar o montante da coima e provar os
         factos durante o procedimento administrativo. Além disso, a recorrente recorda que a imprecisão do artigo 15.°, n.° 2, do
         Regulamento n.° 17 e a falta de critérios de fiscalização levam ao esvaziamento de sentido da competência de plena jurisdição
         atribuída aos órgãos jurisdicionais comunitários. Por último, a recorrente nota que não se pode exigir aos sujeitos de direito
         que interponham sistematicamente recursos contenciosos pelo facto de o quadro legal da imposição de coimas ser insuficientemente
         determinado. Acrescenta que a compensação, pelo tribunal comunitário, dos erros do legislador ultrapassa as atribuições da
         jurisprudência e é, pois, contestável à luz do artigo 7.°, n.° 1, CE.
      
      51     A Comissão entende que a argumentação da recorrente não procede.
      52     A Comissão sublinha que o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 constitui uma base jurídica clara e sem ambiguidade que
         permite às empresas prever as possíveis consequências dos seus actos com precisão suficiente.
      
      53     Além disso, a Comissão recorda que o poder de apreciação de que dispõe deve ser exercido com observância dos critérios da
         gravidade e da duração da infracção estabelecidos nesse artigo, dos princípios gerais de direito comunitário, nomeadamente
         dos princípios da proporcionalidade e da igualdade de tratamento e da jurisprudência do Tribunal de Justiça e do Tribunal
         de Primeira Instância. A Comissão sustenta, assim, que deve respeitar os referidos princípios sempre que faz uso do seu poder
         discricionário (v., quanto ao respeito do princípio da igualdade de tratamento, acórdãos do Tribunal de Primeira Instância
         de 20 de Março de 2002, Brugg Rohrsysteme/Comissão, T‑15/99, Colect., p. II‑1613, n.os 149 e segs., e de 9 de Julho de 2003, Archer Daniels Midland e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão, T‑224/00, Colect.,
         p. II‑2597, n.os 69, 207, 281 e 308; conclusões do advogado‑geral D. Ruiz Jarabo‑Colomer no processo que deu origem ao acórdão de 7 de Janeiro
         de 2004, Aalborg Portland e o./Comissão, C‑204/00 P, C‑205/00 P, C‑211/00 P, C‑213/00 P, C‑217/00 P e C‑219/00 P, Colect.,
         pp. I‑123, I‑133, n.os 96 e segs.).
      
      54     Ao contrário do alegado pela recorrente, não se pode, a este respeito, inferir do acórdão BMW Belgium e o./Comissão, referido
         no n.° 43 supra, que essa fiscalização não se estende à decisão de aplicar ou não uma coima. Com efeito, neste processo, o facto de o Tribunal
         de Justiça ter admitido a possibilidade de a Comissão aplicar uma coima aos revendedores, quando o não tinha feito em processos
         anteriores, não significa que o poder da Comissão de aplicar ou não uma coima seja ilimitado, pois este último deve ser exercido
         com fundamento em razões objectivas que correspondam à finalidade da disposição que atribui à Comissão o referido poder.
      
      55     A recorrente não tem razão quando invoca o facto de a decisão ser uma «decisão‑surpresa», na medida em que a função dissuasiva
         da coima implica que esta não pode ser calculada antecipadamente pelas empresas e comparada com o ganho esperado. A Comissão
         recorda que, de qualquer das formas, a recorrente não podia fundar a sua confiança legítima no facto de não lhe ser aplicada
         uma coima superior às coimas mais elevadas aplicadas no decurso da infracção (acórdãos LR AF 1998/Comissão, no n.° 46 supra, n.° 241, e Archer Daniels Midland e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão, referido no n.° 53 supra, n.os 63 e 64).
      
      56     Além disso, a competência de plena jurisdição do Tribunal de Primeira Instância e a adopção das orientações em Janeiro de
         1998, orientações estas que foram declaradas compatíveis com o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, contradizem a posição
         da recorrente de que a determinação da coima foi arbitrária e desprovida de transparência.
      
      57     Tão‑pouco se pode acusar o Conselho de ter efectuado uma transferência de competências para a Comissão em violação do Tratado,
         atendendo a que o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, devido aos critérios que menciona, tal como são interpretados
         pelos órgãos jurisdicionais comunitários, e à exigência do respeito dos princípios gerais do direito comunitário, constitui
         uma base jurídica suficientemente determinada face ao objectivo prosseguido pela aplicação de coimas. O argumento de que as
         orientações não podem sanar a falta de determinação desta disposição carece, pois, de objecto. Além disso, estas últimas melhoraram
         a segurança jurídica e a transparência do processo decisório.
      
      58     Por último, quanto ao aumento do montante das coimas durante os últimos anos, a Comissão observa, por um lado, que o aumento
         do volume de negócios das empresas desde os anos 60 justifica, por si só, a margem de manobra deixada à Comissão pela disposição
         impugnada e, por outro, que segundo jurisprudência assente (acórdão do Tribunal de Justiça de 7 de Junho de 1983, Musique
         diffusion française e o./Comissão, 100/80 a 103/80, Recueil, p. 1825, n.os 108 e 109; acórdãos do Tribunal de Primeira Instância LR AF 1998/Comissão, referido no n.° 46 supra, n.° 237, e de 12 de Julho de 2001, Tate & Lyle e o./Comissão, T‑202/98, T‑204/98 e T‑207/98, Colect., p. II‑2035, n.os 144 e 145), a Comissão deve poder aumentar o nível das coimas a fim de reforçar o seu efeito dissuasivo. Porém, este poder
         discricionário não é ilimitado, pois o Tribunal de Justiça e o Tribunal de Primeira Instância examinam se os aumentos decididos
         pela Comissão são justificados pelo interessado alegado (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 14 de Maio de 1998,
         Sarrió/Comissão, T‑334/94, Colect., p. II‑1439, n.os 323 a 335, e de 20 de Março de 2002, Lögstör Rör/Comissão, T‑16/99, Colect., p. II‑1633, n.° 251). Por último, a Comissão
         nota que, apesar deste aumento do nível das coimas, as infracções manifestas, graves e de longa duração continuam a ser relativamente
         frequentes.
      
      59     O Conselho, interveniente no litígio, entende que a excepção de ilegalidade do artigo 15.° do Regulamento n.° 17 deve ser
         julgada improcedente. O Conselho admite que uma coima, ainda que se trate de uma sanção sem natureza penal, deve assentar
         numa base legal clara e sem ambiguidade. Considera, no entanto, que o artigo 15.° do Regulamento n.° 17 preenche este requisito.
         Recorda, além disso, que o princípio nulla poena sine lege só é susceptível de se aplicar às sanções penais, o que não é o caso das coimas impostas por força do artigo 15.°, n.° 2,
         do Regulamento n.° 17, conforme o disposto no n.° 4 deste mesmo artigo. Por isso, os requisitos relativos a este princípio
         não podem ser aplicados ao caso vertente (acórdão Maizena, referido no n.° 37 supra, n.° 14; TEDH, acórdão Welch e Reino Unido de 9 de Fevereiro de 1995, série A, n.° 307).
      
      60     Além disso, o Conselho entende que o montante da sanção está suficientemente determinado, na medida em que o artigo 15.°,
         n.° 2, do Regulamento n.° 17 prevê um limite para a coima em função do volume de negócios da empresa em causa. Um limite absoluto
         não seria adaptado, dado que as decisões da Comissão dizem respeito a casos individuais. Por outro lado, o poder de apreciação
         da Comissão, longe de ser absoluto, é limitado pela tomada em consideração obrigatória dos critérios da duração e gravidade
         da infracção previstos no referido artigo. A Comissão está, assim sujeita à observância dos princípios da proporcionalidade
         e da não discriminação.
      
      61     O Conselho considera que é difícil definir um quadro mais restritivo, que permita ter em conta circunstâncias específicas
         do contexto de cada infracção e garantir um efeito dissuasivo suficiente. De resto, o Tribunal de Primeira Instância nunca
         pôs em causa a validade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, pelo contrário, até a confirmou (acórdão Tate & Lyle
         e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.os 98 a 101).
      
      62     Quanto ao argumento da recorrente de que a prática da Comissão se caracteriza por diferenças muito substanciais nos montantes
         das coimas aplicadas e por um aumento brutal e recente, o Conselho observa que estas afirmações apenas reflectem o facto de
         as empresas em causa terem volumes de negócios diferentes e de a sua dimensão aumentar.
      
      63     Também é errado afirmar que a Comissão acumula as funções de autoridade de investigação, acusador e juiz, visto que está sujeita
         a uma fiscalização de plena jurisdição, não podendo, por isso, ser considerada juiz e parte.
      
      64     O mesmo se pode dizer da afirmação de que o Conselho delegou na Comissão a sua competência para instituir coimas. Com efeito,
         o Conselho recorda que a delegação de que a Comissão beneficia diz respeito apenas à competência para tomar decisões com base
         no artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, o qual constitui a expressão da competência do Conselho. Isso está em conformidade
         com o artigo 202.°, terceiro travessão, CE.
      
      65     Por último, o Conselho observa que, ao contrário do alegado pela recorrente, existem ao nível dos Estados‑Membros, nomeadamente
         na Suécia e na Alemanha regras comparáveis.
      
      2.     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      66     Recorde‑se que resulta da jurisprudência do Tribunal de Justiça que o princípio da legalidade das penas é um corolário do
         princípio da segurança jurídica, o qual constitui um princípio geral do direito comunitário e exige, designadamente, que qualquer
         regulamentação comunitária, especialmente quando esta impõe ou permite impor sanções, seja clara e precisa, a fim de que os
         interessados possam conhecer, sem ambiguidade, os direitos e obrigações dela resultantes e agir em conformidade (v., neste
         sentido, acórdãos do Tribunal de Justiça de 9 de Julho de 1981, Gondrand Frères e Garancini, 169/80, Recueil, p. 1931, n.° 17;
         Maizena, referido no n.° 37 supra, n.° 15; de 13 de Fevereiro de 1996, van Es Douane Agenten, C‑143/93, Colect., p. I‑431, n.° 27; e X, referido no n.° 35
         supra, n.° 25).
      
      67     Este princípio, que faz parte das tradições constitucionais comuns aos Estados‑Membros e que foi igualmente consagrado por
         vários tratados internacionais, nomeadamente pelo artigo 7.° da CEDH, impõe‑se tanto às normas de natureza penal como aos
         instrumentos administrativos específicos que impõem ou permitem impor sanções administrativas (v. acórdão Maizena, referido
         no n.° 37 supra, n.os 14 e 15, e a jurisprudência referida). Este princípio aplica‑se não só às normas que estabelecem os elementos constitutivos
         de uma infracção, mas também às que definem as consequências que decorrem de uma infracção às primeiras (v., neste sentido,
         acórdão X, referido no n.° 35 supra, n.os 22 e 25).
      
      68     A este respeito, observe‑se que, nos termos do artigo 7.°, n.° 1, da CEDH:
      «Ninguém pode ser condenado por uma acção ou uma omissão que, no momento em que foi cometida, não constituía infracção, segundo
         o direito nacional ou internacional. Igualmente não pode ser imposta uma pena mais grave do que a aplicável no momento em
         que a infracção foi cometida.»
      
      69     Segundo o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, resulta desta disposição que a lei deve definir claramente as infracções
         e as penas que as reprimem. Este requisito está preenchido quando o litigante pode saber, a partir da redacção da disposição
         pertinente e, se necessário, recorrendo à interpretação que lhe é dada pelos tribunais, quais os actos e omissões pelos quais
         responde penalmente (TEDH, acórdão Coëme c. Bélgica de 22 de Junho de 2000, Colectânea dos acórdãos e decisões, 2000‑VII, § 145).
      
      70     O Conselho sustenta que o Tribunal de Primeira Instância não se pode inspirar no artigo 7.°, n.° 1, da CEDH e na jurisprudência
         do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem relativa a este artigo para analisar a legalidade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento
         n.° 17, atendendo a que o artigo 15.°, n.° 4, do Regulamento n.° 17 dispõe que as decisões tomadas pela Comissão ao abrigo,
         nomeadamente, do n.° 2 dessa disposição não têm natureza penal.
      
      71     Ora, sem que seja necessário apreciar a questão de saber se, face, designadamente, à natureza e grau de severidade das coima
         aplicadas pela Comissão por força do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, o artigo 7.°, n.° 1, da CEDH é susceptível
         de se aplicar a essas sanções, não se pode deixar de observar que, mesmo na hipótese de se dever considerar que o artigo 7.°,
         n.° 1, da CEDH é aplicável a tais sanções, resulta da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que, para preencher
         os requisitos desta disposição, não é exigido que os termos das disposições por força das quais essas sanções são aplicadas
         sejam a tal ponto precisos que as consequências que podem decorrer da infracção a essas disposições sejam previsíveis com
         uma certeza absoluta.
      
      72     Com efeito, segundo a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, a existência de termos vagos na disposição
         não implica necessariamente a violação do artigo 7.°, n.° 1, da CEDH e o facto de uma lei conferir um poder de apreciação
         não colide, em si, com a exigência de previsibilidade, desde que o alcance e as modalidades de exercício desse poder estejam
         definidos com uma clareza suficiente, tendo em conta o objectivo legítimo em jogo, a fim de proporcionar ao indivíduo uma
         protecção adequada contra a arbitrariedade (TEDH, acórdão Margareta e Roger Andersson e Suécia, referido no n.° 36 supra, § 75). A este propósito, além do texto da própria lei, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem em conta a questão de
         saber se os conceitos indeterminados utilizados foram precisados em jurisprudência assente e publicada (acórdão G. e França
         de 27 de Setembro de 1995, série A, n.° 325‑B, § 25).
      
      73     Por outro lado, a tomada em conta das tradições constitucionais comuns aos Estados‑Membros não leva a que, ao princípio geral
         do direito comunitário que é o princípio da legalidade das penas, se dê uma interpretação diferente. Quanto aos argumentos
         da recorrente baseados no acórdão do Bundesverfassungsgericht de 20 de Março de 2002 (referido no n.° 47 supra), – mesmo admitindo que este se possa mostrar pertinente no âmbito das coimas aplicadas a empresas por violação das regras
         de concorrência – e no § 81.°, n.° 2, da GWB, que não contém nenhuma disposição análoga ao artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento
         n.° 17, há que sublinhar que uma tradição constitucional comum aos Estados‑Membros não pode ser inferida da situação jurídica
         de um só Estado‑Membro. A este propósito, refira‑se, que, pelo contrário, como observa o Conselho, sem ser contradito, quanto
         a este ponto, pela recorrente, o direito pertinente de outros Estados‑Membros conhece, no que toca à aplicação de sanções
         administrativas como as aplicadas por violação das regras nacionais da concorrência, um nível de delimitação comparável ao
         do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, senão mesmo critérios semelhantes ou idênticos aos previstos nesta disposição
         comunitária; citando o Conselho a este propósito o exemplo do Reino da Suécia.
      
      74     Quanto à validade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 face ao princípio da legalidade das penas, tal como este foi
         reconhecido pelo tribunal comunitário de acordo com as indicações fornecidas pela CEDH e as tradições constitucionais dos
         Estados‑Membros, não se pode deixar de observar que, ao contrário do que a recorrente sustenta, a Comissão não dispõe de uma
         margem de apreciação ilimitada para a fixação das coimas por infracção às regras da concorrência.
      
      75     Com efeito, o próprio artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 limita o poder de apreciação da Comissão. Por um lado, ao
         precisar que «[a] Comissão pode, mediante decisão, aplicar às empresas e associações de empresas multas de [1000 EUR], no
         mínimo, a um milhão [de EUR], podendo este montante ser superior desde que não exceda dez por cento do volume de negócios
         realizado, durante o exercício social anterior, por cada uma das empresas que tenha participado na infracção», o mesmo artigo
         prevê um limite para as coimas em função do volume de negócios das empresas em causa, ou seja, em função de um critério objectivo.
         Assim, embora, como refere a recorrente, não haja um limite absoluto aplicável à globalidade das infracções às regras de concorrência,
         a coima que pode ser aplicada conhece, no entanto, um limite quantificável e absoluto, calculado em função de cada empresa,
         para cada infracção, pelo que o montante máximo da coima que pode ser aplicada a uma empresa é determinável antecipadamente.
         Por outro lado, esta disposição impõe à Comissão que fixe as coimas em caso concreto, tomando «em consideração, além da gravidade
         da infracção, a duração da mesma».
      
      76     Embora estes dois critérios deixem, é certo, à Comissão uma larga margem de apreciação, não é menos verdade que se trata de
         critérios adoptados por outros legisladores para disposições semelhantes e que permitem à Comissão adoptar sanções tomando
         em consideração o grau de ilegalidade do comportamento em causa. Por conseguinte, há que considerar, neste estádio, que o
         artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, ao mesmo tempo que deixa à Comissão uma certa margem de apreciação, define os critérios
         e limites que se lhe impõem no exercício do seu poder em matéria de coimas.
      
      77     Além disso, há que observar que, para fixar coimas nos termos do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, a Comissão é obrigada
         a observar os princípios gerais de direito, especialmente os princípios da igualdade de tratamento e da proporcionalidade,
         tal como foram desenvolvidos pela jurisprudência do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Primeira Instância.
      
      78     Contrariamente ao afirmado pela recorrente, os limites ao poder de apreciação da Comissão anteriormente descritos impõem igualmente
         à decisão de aplicar ou não uma coima, nomeadamente quando a Comissão aplica a comunicação sobre a cooperação, cuja validade,
         aliás, não é impugnada. A este propósito, o facto de o Tribunal de Justiça ter admitido, no acórdão citado pela recorrente
         (acórdão BMW Belgium e o./Comissão, referido no n.° 43 supra, n.° 53), que a circunstância de, em processos anteriores semelhantes, a Comissão não ter considerado que havia lugar à aplicação
         de uma coima a determinados operadores económicos não a privava desse poder, expressamente reconhecido pelo Regulamento n.° 17,
         desde que estivessem reunidas as condições para o seu exercício, não pode significar que a Comissão dispõe do poder discricionário
         de não aplicar uma coima, sem que a ela se imponha o respeito, por um lado, da auto‑limitação ao exercício do seu poder de
         apreciação resultante das orientações e da comunicação sobre a cooperação e sobretudo, por outro, dos princípios gerais do
         direito, nomeadamente os princípios da igualdade de tratamento e da proporcionalidade, bem como, de uma maneira geral, do
         efeito útil dos artigos 81.° CE e 82.° CE e do princípio da livre concorrência resultante do artigo 4.°, n.° 1, CE.
      
      79     Importa acrescentar também que, por força do artigo 229.° CE e do artigo 17.° do Regulamento n.° 17, o Tribunal de Justiça
         e o Tribunal de Primeira Instância decidem com competência de plena jurisdição dos recursos interpostos das decisões através
         das quais a Comissão tenha fixado coimas, podendo, assim, não só anular as decisões tomadas pela Comissão, mas também suprimir,
         reduzir ou aumentar a coima aplicada. Deste modo, a prática administrativa da Comissão está sujeita à plena fiscalização do
         tribunal comunitário. Ao contrário do que afirma a recorrente, esta fiscalização não leva o tribunal comunitário a ultrapassar
         as suas competências, violando o artigo 7.°, n.° 1, CE, atendendo a que, por um lado, esta fiscalização está expressamente
         prevista nas disposições supracitadas, cuja validade não é contestada, e, por outro, o juiz comunitário a exerce com observância
         dos critérios a que se refere o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17. Por conseguinte, a fiscalização exercida pelo juiz
         comunitário permitiu precisamente esclarecer, em jurisprudência assente e publicada, os conceitos indeterminados que o artigo
         15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 podia conter.
      
      80     Por outro lado, com base em critérios constantes do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 e esclarecidos pela jurisprudência
         do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Primeira Instância, a própria Comissão desenvolveu uma prática administrativa conhecida
         e acessível. Ainda que a prática decisória da Comissão não sirva, em si mesma, de quadro jurídico às coimas em matéria de
         concorrência (v. acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 18 de Julho de 2005, Scandinavian Airlines System/Comissão,
         T‑241/01, Colect., p. II‑0000, n.° 87, e jurisprudência referida), não é menos verdade que, por força do princípio da igualdade
         de tratamento, a Comissão não pode tratar situações comparáveis de modo diferente ou situações diferentes de maneira idêntica,
         salvo se esse tratamento for objectivamente justificado (acórdão do Tribunal de Justiça de 13 de Dezembro de 1984, Sermide,
         106/83, Recueil, p. 4209, n.° 28, e acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 14 de Maio de 1998, BPB de Eendracht/Comissão,
         T‑311/94, Colect., p. II‑1129, n.° 309).
      
      81     Além disso, é jurisprudência assente que a Comissão pode, a todo o tempo, adaptar o nível das coimas, se a aplicação eficaz
         das regras comunitárias de concorrência o exigir (acórdão Musique diffusion française e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 109, e acórdão LR AF 1998/Comissão, referido no n.° 46 supra, n.os 236 e 237), podendo então essa alteração da prática administrativa da Comissão ser objectivamente justificada pelo objectivo
         de prevenção geral das infracções às regras comunitárias de concorrência. O aumento recente do nível das coimas, invocado
         e contestado pela recorrente, não pode, pois, em si, ser considerado ilegal face ao princípio da legalidade das penas, quando
         se mantenha no quadro legal definido pelo artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, tal como interpretado pelos órgãos jurisdicionais
         comunitários.
      
      82     Por outro lado, importa ter em conta que, com uma preocupação de transparência e para reforçar a segurança jurídica das empresas
         em questão, a Comissão publicou orientações em que enuncia o método de cálculo que impõe a si própria em cada caso específico.
         A este propósito, o Tribunal de Justiça já considerou, de resto, que ao adoptar tais regras de conduta e ao anunciar, através
         da sua publicação, que as aplicará no futuro aos casos a que essas regras dizem respeito, a Comissão se autolimitou no exercício
         do seu poder de apreciação e não pode renunciar a essas regras sob pena de poder ser penalizada, sendo caso disso, por violação
         dos princípios gerais do direito, tais como a igualdade de tratamento e a protecção da confiança legítima. Além disso, embora
         não constituam o fundamento jurídico da decisão, as orientações determinam, de maneira geral e abstracta, a metodologia que
         a Comissão impôs a si própria para efeitos da fixação do montante das coimas aplicadas pela referida decisão e asseguram,
         por conseguinte, a segurança jurídica das empresas (acórdão do Tribunal de Justiça de 28 de Junho de 2005, Dansk Rørindustri
         e o./Comissão, C‑189/02 P, C‑202/02 P, C‑205/02 P a C‑208/02 P e C‑213/02 P, Colect., p. I‑0000, n.os 211 e 213). Daqui se conclui que, ao contrário do afirmado pela recorrente, a adopção de orientações pela Comissão, na medida
         em que se inscreveu no quadro legal imposto pelo artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, não pode ser considerada viciada
         de incompetência, apenas tendo contribuído para precisar os limites do poder de apreciação da Comissão que já resulta daquela
         disposição.
      
      83     Assim, face aos diferentes elementos atrás apontados, um operador avisado pode, recorrendo, se necessário, a aconselhamento
         jurídico, prever de forma suficientemente precisa o método e ordem de grandeza das coimas em que incorre por um determinado
         comportamento. O facto de esse operador não poder, antecipadamente, conhecer com precisão o nível das coimas que a Comissão
         aplicará em cada caso concreto não pode constituir uma violação do princípio da legalidade das penas, atendendo a que, devido
         à gravidade das infracções que a Comissão é chamada a punir, os objectivos de repressão e de dissuasão justificam que se evite
         que as empresas possam avaliar os benefícios que retirariam da sua participação numa infracção tendo em conta, por antecipação,
         o montante da coima que lhes seria aplicada devido a esse comportamento ilícito.
      
      84     A este propósito, ainda que as empresas não possam, antecipadamente, conhecer com precisão o nível das coimas que a Comissão
         determinará em cada caso concreto, há que notar que, em conformidade com o artigo 253.° CE, na decisão que aplica uma coima,
         a Comissão tem o dever, e isso não obstante o contexto geralmente conhecido da decisão, de a fundamentar, nomeadamente no
         que toca ao montante da coima aplicada e ao método utilizado para o determinar. Esta fundamentação deve deixar transparecer,
         de forma clara e inequívoca, o raciocínio da Comissão, de modo a permitir aos interessados conhecer as justificações da medida
         tomada, para ajuizar da oportunidade de recorrer ao juiz comunitário e, se for caso disso, de permitir a este último exercer
         a sua fiscalização.
      
      85     Por último, quanto ao argumento de que, ao definir o quadro da coima, em conformidade com o disposto no artigo 15.°, n.° 2,
         do Regulamento n.° 17, o Conselho, efectivamente, transferiu para a Comissão uma competência que lhe pertencia por força do
         Tratado, violando os artigos 83.° CE e 229.° CE, há que considerar que o mesmo não tem fundamento.
      
      86     Por um lado, como se expôs anteriormente, embora o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 deixe à Comissão uma larga margem
         de apreciação, limita porém o seu exercício instituindo critérios objectivos que a Comissão tem de observar. Por outro lado,
         há que recordar que, como o Conselho referiu na audiência, o Regulamento n.° 17 foi adoptado com base no artigo 83.°, n.° 1,
         CE, que prevê que «[o]s regulamentos ou directivas necessários à aplicação dos princípios constantes dos artigos 81.° e 82.°
         serão estabelecidos pelo Conselho, [...] sob proposta da Comissão, após consulta do Parlamento Europeu». Estes regulamentos
         e directivas têm, conforme dispõem as alíneas a) e d) do n.° 2 do artigo 83.°, respectivamente, o objectivo de «[g]arantir
         o respeito das proibições referidas no n.° 1 do artigo 81.° [CE] e no artigo 82.° [CE], pela cominação de multas e adstrições»,
         e de «definir as funções respectivas da Comissão e do Tribunal de Justiça quanto à aplicação do disposto no presente número».
         Recorde‑se, por outro lado, que, nos termos do artigo 211.°, primeiro travessão, CE, a Comissão «vela pela aplicação das disposições
         do presente Tratado bem como das medidas tomadas pelas instituições, por força deste» e que dispõe, por força do terceiro
         travessão do mesmo artigo, de um «poder de decisão próprio».
      
      87     Daqui resulta que não se pode considerar que o poder de aplicar coimas por infracção aos artigos 81.° CE e 82.° CE pertence
         originariamente ao Conselho, que o transferiu para a Comissão ou delegou nesta a respectiva execução, na acepção do artigo
         202.°, terceiro travessão, CE. De acordo com as disposições do Tratado anteriormente citadas, este poder integra‑se, com efeito,
         no papel específico da Comissão de velar pela aplicação do direito comunitário, papel este que, tratando‑se da aplicação dos
         artigos 81.° CE e 82.° CE, foi precisado, enquadrado e formalizado pelo Regulamento n.° 17. O poder de aplicar coimas que
         este regulamento atribui à Comissão decorre, pois, das previsões do próprio Tratado e destina‑se a permitir a aplicação efectiva
         das proibições previstas nos referidos artigos (v., neste sentido, acórdão Tate & Lyle e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 133). Por conseguinte, o argumento da recorrente deve ser julgado improcedente.
      
      88     Resulta do exposto que a excepção de ilegalidade deduzida relativamente ao artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 deve
         ser julgada improcedente.
      
      B –  Quanto à interpretação do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 à luz do princípio da legalidade das penas
      89     Na hipótese de o Tribunal de Primeira Instância não declarar a invalidade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, a
         recorrente sustenta, a título subsidiário, que esta disposição deveria ser objecto de concretização e interpretada de forma
         estrita, face ao princípio da legalidade das penas, à semelhança da prática decisória da Comissão e da jurisprudência relativas
         aos artigos 81.° CE e 82.° CE. A recorrente expõe, a este propósito, determinadas propostas destinadas a permitir uma suficiente
         previsibilidade da coima e conclui pedindo a anulação da decisão.
      
      90     A Comissão e o Conselho consideram que estes argumentos são improcedentes.
      91     Ora, a este propósito basta notar, antes de mais, que os argumentos que a recorrente expôs no âmbito da segunda parte, invocada
         a título subsidiário, do fundamento relativo à violação do princípio da legalidade das penas se limitam a reiterar parcialmente
         alguns dos argumentos já desenvolvidos no âmbito da primeira parte do mesmo fundamento, dirigindo‑os contra a prática decisória
         da Comissão resultante da aplicação das orientações e contra a decisão, na medida em que ilustra essa prática. Ora, além de
         que a prática decisória não pode ser objecto de qualquer recurso de anulação, há que recordar que, como se referiu anteriormente,
         o artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 não desrespeita o princípio da legalidade das penas e que a prática decisória
         da Comissão e as orientações contribuíram precisamente, sob a fiscalização dos órgãos jurisdicionais comunitários, para reforçar
         a segurança jurídica das empresas. Não se pode, pois, considerar que a decisão é ilegal unicamente com o fundamento de que
         esta constitui uma aplicação da prática decisória alegadamente ilegal da Comissão em matéria de coimas. Há, pois, que rejeitar
         os referidos argumentos.
      
      92     Além disso, na medida em que a recorrente invoca, no âmbito da presente parte, argumentos relativos à alegada falta de fundamentação
         da decisão, especialmente no que toca à determinação do montante de base, do impacto real da infracção no mercado e do aumento
         do montante da coima para garantir a esta um efeito dissuasivo suficiente, refira‑se que estes argumentos se enquadram fundamentalmente
         no terceiro fundamento, que versa especificamente sobre a questão da fundamentação da decisão e no âmbito do qual serão portanto
         apreciados.
      
      93     Por último, quanto ao restante, os argumentos da recorrente consistem em considerações gerais e teóricas sobre a prática decisória
         que a Comissão deveria conduzir, sobre novas disposições que o Conselho deveria adoptar e sobre os desenvolvimentos jurisprudenciais
         que o Tribunal de Primeira Instância deveria efectuar, pelo que não suscitam nenhuma objecção de ordem jurídica contra a decisão,
         devendo por isso ser rejeitados.
      
      94     Por outro lado, na réplica e na audiência, a recorrente acrescentou que se deve considerar que o volume de negócios a que
         se refere o limite máximo da coima de 10% do volume de negócios realizado durante o exercício social anterior à adopção da
         decisão que aplicou a coima devia ser o volume de negócios realizado no mercado em causa e não o volume de negócios global.
      
      95     Desde que possa ser inferido desta alegação que a recorrente pretende impugnar a decisão na parte em que lhe aplicou uma coima
         que excede 10% do volume de negócios que ela realizou no mercado da metionina no exercício social anterior à adopção da decisão,
         e sem que seja sequer necessário interrogar‑se quanto à admissibilidade dessa argumentação face ao artigo 48.°, n.° 2, do
         Regulamento de Processo, nomeadamente quanto à existência de um nexo estreito entre essa argumentação e um dos fundamentos
         constantes da petição, basta recordar que nem o Regulamento n.° 17, nem a jurisprudência, nem as orientações prevêem que o
         montante das coimas deva ser fixado directamente em função da dimensão do mercado afectado, sendo este factor apenas um elemento
         pertinente entre outros. Com efeito, em conformidade com o Regulamento n.° 17, conforme interpretado pela jurisprudência,
         o montante da coima aplicada a uma empresa por uma infracção em matéria de concorrência deve ser proporcionado à infracção,
         apreciada no seu conjunto, tendo nomeadamente em conta a gravidade desta (v., neste sentido, acórdãos do Tribunal de Primeira
         Instância de 6 de Outubro de 1994, Tetra Pak/Comissão, T‑83/91, Colect., p. II‑755, n.° 240, e, por analogia, de 21 de Outubro
         de 1997, Deutsche Bahn/Comissão, T‑229/94, Colect., p. II‑1689, n.° 127). Como o Tribunal de Justiça afirmou no n.° 120 do
         acórdão Musique diffusion française e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, para se apreciar a gravidade de uma infracção é necessário ter em conta um grande número de elementos cuja natureza e importância
         variam segundo o tipo de infracção em causa e as circunstâncias específicas desta (acórdão do Tribunal de Primeira Instância
         de 8 de Julho de 2004, JFE Engineering/Comissão, T‑67/00, T‑68/00, T‑71/00 e T‑78/00, Colect., p. II‑0000, n.° 532).
      
      96     Cumpre igualmente observar, a este respeito, que, segundo jurisprudência assente, a única referência expressa ao volume de
         negócios da empresa em causa, ou seja, o limite de 10% do volume de negócios tido em conta para efeitos de fixação das coimas
         no artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, visa o volume de negócios global da empresa realizado no mundo inteiro (v.,
         neste sentido, acórdão Musique diffusion française e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 119) e não o volume de negócios por ela realizado no mercado afectado pelo comportamento anticoncorrencial punido. Com
         efeito, resulta do mesmo número desse acórdão que esse limite visa evitar que as coimas sejam desproporcionadas em relação
         à importância da empresa no seu conjunto (acórdão JFE Engineering/Comissão, referido no n.° 95 supra, n.° 533).
      
      97     Daqui se conclui que há que julgar improcedente a segunda parte do primeiro fundamento.
      98     Em consequência, há que julgar o primeiro fundamento globalmente improcedente.
      II –  Quanto ao segundo fundamento, relativo a um erro de apreciação quanto ao carácter único e continuado e à duração da infracção
      99     A recorrente contesta, a título principal, que tenha participado numa infracção única e continuado entre Fevereiro de 1986
         e Fevereiro de 1999. Admite ter participado numa infracção entre 1986 e 1988 e após 1992, mas alega, por um lado, que a prática
         anticoncorrencial foi interrompida entre 1988 e 1992 e, por outro, que esta cessou definitivamente em 1997. Subsidiariamente,
         considera que a Comissão deveria, em todo o caso, ter tido em conta o facto de os acordos terem, pelo menos, sido suspensos
         entre 1988 e 1992 e após 1997.
      
      A –  Quanto à interrupção da infracção entre 1988 e 1992
      1.     Argumentos das partes
      100   Segundo a recorrente, na sequência da retirada da Sumitomo do acordo as «cimeiras» e os acordos anticoncorrenciais foram interrompidos
         em 1988 e retomados apenas em 1992.
      
      101   Em primeiro lugar, a recorrente entende que, quando afirmou no considerando 212 da decisão que, uma vez que os participantes
         no acordo não tinham manifestado a sua intenção de alterar ou renunciar aos acordos, não se podia dar por assente que o acordo
         tivesse cessado entre 1988 e 1992, e ao declarar, nos considerandos 251 e seguintes da decisão que, dado que os participantes
         no acordo nunca comunicaram reciprocamente a sua intenção de pôr termo aos acordos, havia que concluir daí que não tinha havido
         formação de um novo acordo, mas unicamente desenvolvimento orgânico de uma estrutura de acordo complexa, a Comissão reconheceu
         implicitamente que não dispunha de prova directa da existência do acordo entre 1988 e 1992. Assim, a Comissão baseou‑se em
         presunções e comportamentos em seu entender impostos e isso desrespeitando as exigências em matéria de administração da prova
         e do princípio in dubio pro reo (acórdãos do Tribunal de Justiça de 16 de Dezembro de 1975, Suiker Unie e o./Comissão, 40/73 a 48/73, 50/73, 54/73 a 56/73,
         111/73, 113/73 e 114/73, Colect., p. 563, n.° 354; de 14 de Fevereiro de 1978, United Brands/Comissão, 27/76, Colect., p. 77,
         n.os 261 a 266; e de 28 de Março de 1984, CRAM e Rheinzink/Comissão, 29/83 e 30/83, Recueil, p. 1679, n.° 16). Além disso, a comunicação
         recíproca da intenção de pôr termo a um acordo não constitui, de modo nenhum, uma condição para a cessação de um acordo contrário
         ao direito da concorrência (acórdão LR AF 1998/Comissão, referido no n.° 46 supra, n.os 59 e segs.). Por conseguinte, não compete à recorrente provar que não participou na infracção durante o período considerado,
         mas sim à Comissão produzir a prova de que a recorrente tomou efectivamente parte nesta (acórdão do Tribunal de Justiça de
         17 de Dezembro de 1998, Baustahlgewebe/Comissão, C‑185/95 P, Colect., p. I‑8417, n.° 58).
      
      102   Em segundo lugar, a recorrente alega, no essencial, que a Comissão apreciou de forma errada os diferentes documentos destinados
         a provar a existência de um acordo entre 1988 e 1992.
      
      103   Para fundamentar as suas afirmações, em primeiro lugar, a recorrente observa que a apresentação dos factos pela Nippon Soda
         nas suas observações de 23 de Fevereiro de 2000, na qual a Comissão se baseia, só menciona uma única vez a existência de reuniões
         entre 1988 e 1990, que prosseguiram de uma forma ou de outra e unicamente ao nível dos colaboradores até 13 de Maio de 1998.
         Ora, a Comissão não teve em conta o facto de, as declarações da Nippon Soda, referirem, por um lado, que as «cimeiras» cessaram
         em 1988 e, por outro, que as reuniões ao nível dos colaboradores entre 1988 e 1990 tinham unicamente por objecto a forma pela
         qual as participantes se podiam proteger da concorrência da Monsanto e a organização de um intercâmbio de informações, que
         não constitui uma infracção ao direito da concorrência.
      
      104   Em segundo lugar, quanto à nota de 5 de Maio de 1990 produzida pela Nippon Soda (a seguir «nota de 5 de Maio de 1990»), da
         qual a Comissão inferiu que tinha havido uma reunião em 1989, a recorrente alega, pelo contrário, que esse documento enumera,
         na introdução, as razões pelas quais as relações de cooperação comercial foram cortadas em 1989, ou seja, a existência de
         uma controvérsia entre a Sumitomo, por um lado, e a Degussa e a Rhône‑Poulenc, por outro. Além disso, a nota de 5 de Maio
         de 1990 indica que a reunião de Agosto de 1989, tinha por objecto dissuadir a Degussa de vender a metionina a preços reduzidos.
         No entanto, resulta dessa nota que a Degussa rejeitou categoricamente quaisquer esforços de dissuasão, pois o seu objectivo
         comercial era concorrer com a Monsanto e com a Sumitomo. Assim, essa reunião pode, quando muito, ser vista como uma tentativa,
         por parte da Nippon Soda e da Rhône‑Poulenc, de instigar a recorrente a participar numa infracção e prova, de qualquer forma,
         a inexistência de intenções anticoncorrenciais por parte desta última.
      
      105   Foi, por outro lado, erradamente, que a Comissão inferiu da nota de 5 de Outubro de 1990 nos considerandos 103 a 106 da decisão,
         que tinha sido avançada a possibilidade de uma nova reunião mas que se ignorava se essa reunião se tinha efectivamente realizado,
         quando a Nippon Soda aí concluiu, pelo contrário, que não era possível chegar a uma estimativa comum do preço de venda, tendo
         em conta que mesmo a Rhône‑Poulenc não estava interessada numa política comum de preços.
      
      106   Por último, na nota de 5 de Maio de 1900 conclui que havia «motivos para crer que a Degussa não se preocupa[va] muito com
         o que a Rhône‑Poulenc realmente pensa[va]». A recorrente declara, assim, interrogar‑se quanto ao fundamento da afirmação da
         Comissão, no considerando 106 da decisão, de que a Degussa, a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda se reuniram diversas vezes em
         1989 e 1990 para discutir preços e dados relativos ao mercado e para decidir da sua reacção conjunta à nova situação do mercado.
         A recorrente recorda que, pelo contrário, a Degussa exprimiu claramente perante as outras empresas interessadas, a sua intenção
         de não prosseguir a execução dos acordos.
      
      107   Em terceiro lugar, a recorrente sustenta que a Comissão também não fez prova bastante da participação da sua infracção entre
         1990 e 1992. Com efeito, resulta da declaração complementar da Rhône‑Poulenc, de 5 de Dezembro de 2000, que a reunião de 10
         de Junho de 1990 entre a Degussa e a Rhône‑Poulenc tinha culminado unicamente na decisão de entrar em contacto com a Nippon
         Soda para discutir a descida dos preços e a organização de reuniões mais regulares. Por isso, é errada a afirmação da Comissão
         de que o acordo de 1986 nunca cessou e de que a Nippon Soda já estava implicada na adopção dessas medidas (considerando 110
         da decisão).
      
      108   Por outro lado, a nota da Nippon Soda sobre a reunião de Seul de 7 de Novembro de 1990 (a seguir «nota da reunião de 7 de
         Novembro de 1990»), não contém nenhuma indicação relativa a um acordo sobre o anúncio de um aumento de preços ou a sua aplicação,
         mas, pelo contrário, indica que a Rhône‑Poulenc e a Degussa não planeavam um segundo aumento de preços sem a participação
         da Monsanto. Este documento também não permite concluir, como a Comissão afirma, pela existência de um primeiro aumento de
         preços, como comprova a nota de 5 de Maio de 1990. Além do mais, a recorrente afirma, no essencial, que as afirmações constantes
         dessa nota não são fiáveis, visto que não se trata do original, mas sim de uma tradução, provavelmente a partir do japonês,
         como o demonstram a sua tipografia e o erro manifesto relativo ao ano mencionado na data «Novembro de 1998».
      
      109   Da mesma forma, a Comissão não estava em condições de provar a existência de qualquer acordo que fosse para 1991. Com efeito,
         na sua declaração de 26 de Maio de 1999, a Rhône‑Poulenc indica que as reuniões de 1991 «tinham a finalidade de criar e aumentar
         um nível de confiança entre as três concorrentes». Estas reuniões constituíram, assim, negociações preparatórias que não chegaram
         à fase da tentativa de acordo ou de prática concertada. Além disso, esta análise é confirmada na declaração complementar da
         Rhône‑Poulenc de 5 de Dezembro de 2000.
      
      110   A Comissão sustenta que fez prova bastante da participação da recorrente numa infracção única e continuada entre Fevereiro
         de 1986 e Fevereiro de 1999 e reitera as afirmações constantes dos considerandos 96 a 115, 212, 255 e 256 da decisão.
      
      2.     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      111   Há que constatar que a recorrente não contesta, no âmbito do presente recurso, a sua participação em dois acordos que ela
         considera distintos, abrangendo um o período compreendido entre Fevereiro de 1986 e o Outono de 1988, período durante o qual
         o acordo incluía o produtor japonês Sumitomo, e o outro o período compreendido entre Março de 1992 e Outubro de 1997, data
         em que a recorrente entende que a infracção cessou, ao contrário das afirmações da Comissão segundo as quais a infracção continuou
         até Fevereiro de 1999. Quanto ao período de 1988‑1992, a recorrente considera que a Comissão não demonstrou a existência de
         um acordo em que aquela tenha participado e que, portanto, a Comissão cometeu um erro de apreciação ao entender que a recorrente
         participou numa infracção única e continuada de Março de 1986 a Março de 1999.
      
      112   Importa determinar, pois, se a Comissão fez prova bastante de que, durante o período compreendido entre o Outono de 1988 e
         Março de 1992, a recorrente participou em actos constitutivos de uma infracção ao artigo 81.°, n.° 1, CE e ao artigo 53.°
         do acordo EEE e que se inscrevem, face às infracções não contestadas anteriores e posteriores a esse período, num «plano de
         conjunto», em razão do seu objecto idêntico que falseia o jogo da concorrência no interior do mercado comum. Nesta perspectiva,
         importa apreciar, relativamente a esse período, as provas reunidas pela Comissão, bem como as conclusões a que esta chegou
         nos considerandos 95 e seguintes da decisão.
      
      a)     Quanto à participação da recorrente num acordo e/ou numa prática concertada entre 1988 e 1992
      113   A título preliminar, observe‑se que a recorrente critica em primeiro lugar a Comissão por ter inferido, nos considerandos
         212 e 251 e seguintes da decisão, da mera circunstância de as participantes no acordo de 1986 não terem manifestado a sua
         intenção, após a retirada da Sumitomo em 1988, de pôr termo aos acordos, que não estava provado que o acordo tivesse sido
         interrompido. Ao basear‑se nesta presunção, a Comissão inverteu o ónus da prova, que em princípio sobre ela recai.
      
      114   Recorde‑se, a este propósito, que é jurisprudência assente que a exigência de segurança jurídica, de que devem beneficiar
         os operadores económicos, implica que, verificando‑se um litígio sobre a existência de uma infracção às regras da concorrência,
         a Comissão, a quem incumbe o ónus da prova das infracções por ela declaradas, forneça os elementos adequados a fazer prova
         bastante da existência dos factos constitutivos da infracção. No que respeita à alegada duração de uma infracção, o mesmo
         princípio de segurança jurídica impõe que, na falta de elementos de prova que permitam determinar directamente a duração da
         infracção, a Comissão invoque, pelo menos, elementos de prova relativos a factos suficientemente próximos no tempo, de modo
         a poder‑se razoavelmente admitir que essa infracção perdurou ininterruptamente entre duas datas precisas (acórdão Baustahlgewebe/Comissão,
         referido no n.° 101 supra, n.° 58, e acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 7 de Julho de 1994, Dunlop Slazenger/Comissão, T‑43/92, Colect.,
         p. II‑441, n.° 79).
      
      115   O princípio da presunção de inocência, tal como resulta designadamente do artigo 6.°, n.° 2, da CEDH, faz parte dos direitos
         fundamentais que, segundo a jurisprudência do Tribunal de Justiça, reafirmada, por outro lado, no preâmbulo do Acto Único
         Europeu e no artigo 6.°, n.° 2, do Tratado da União Europeia, bem como no artigo 47.° da Carta, são reconhecidos na ordem
         jurídica comunitária. Atenta a natureza das infracções em causa, bem como a natureza e grau de severidade das sanções que
         lhe estão ligadas, o princípio da presunção de inocência aplica‑se, nomeadamente, aos processos relativos a violações das
         regras de concorrência aplicáveis às empresas e susceptíveis de conduzir à aplicação de coimas ou de sanções pecuniárias compulsórias
         (v., neste sentido, designadamente TEDH, acórdãos Öztürk e Alemanha, n.° 38, supra, e Lutz e Alemanha de 25 de Agosto de 1987, Série A, n.° 123‑A; acórdãos do Tribunal de Justiça de 8 de Julho de 1999, Hüls/Comissão,
         C‑199/92 P, Colect., p. I‑4287, n.os 149 e 150, e Montecatini/Comissão, C‑235/92 P, Colect., p. I‑4539, n.os 175 e 176).
      
      116   No caso vertente, há que notar efectivamente que a Comissão, no considerando 212 da decisão, observou o seguinte:
      «[…] Com efeito, fica demonstrado nos considerandos 95 a 125 que os participantes continuaram a estar presentes em reuniões
         em 1989, 1990 e 1991 sem se terem distanciado publicamente do que nelas se passava. Dada a natureza manifestamente anticoncorrencial
         das reuniões iniciais, a falta de elementos de prova de que a participação nas reuniões não tinha qualquer intenção anticoncorrencial
         permite concluir que, com efeito, o sistema ilegal prosseguiu […].»
      
      117   Todavia, ressalta da argumentação da Comissão constante dos considerandos 96 a 125, 212 e 255 da decisão que, longe de se
         basear única ou mesmo predominantemente na não manifestação, pelas partes no acordo de 1986, da intenção de lhes pôr termo
         após 1988, a Comissão procedeu a uma análise circunstanciada das provas documentais postas à sua disposição pelos participantes
         no acordo, das quais ela inferiu que não só estes últimos nunca tinham manifestado a sua intenção de pôr termo aos acordos,
         mas que, além disso, as actividades do cartel nunca tinham sido interrompidas.
      
      118   À luz da decisão, considerada globalmente, não se pode pois censurar a Comissão por ter baseado a sua apreciação do carácter
         único e continuado da infracção, e portanto da existência desta entre 1988 e 1992, somente na consideração de que, uma vez
         que os participantes no acordo de 1986 não tinham marcado a sua intenção de pôr termo a este último, havia que presumir que
         as reuniões realizadas entre 1989 e 1991 tinham um objecto anticoncorrencial e constituíam a continuação do acordo anterior.
         Consequentemente, o argumento da recorrente de que a Comissão deu por assente a existência da infracção após o Outono de 1988
         com base numa simples presunção não pode ser acolhido.
      
      119   Em contrapartida, há que determinar se as provas documentais em que a Comissão se baseou são susceptíveis de demonstrar de
         forma bastante que a recorrente participou numa infracção ao direito da concorrência entre 1988 e 1992 e, em caso afirmativo,
         que essa infracção constitui a continuação do acordo anterior, cuja existência não é contestada pela recorrente.
      
      120   Resulta do exame dos autos que, entre 1988 e 1992, importa distinguir dois períodos, decorrendo o primeiro entre o fim de
         1988, altura da retirada da Sumitomo do acordo inicial, no fim do Verão de 1990, e o segundo entre o fim do Verão de 1990
         e Março de 1992, altura em que a recorrente admite ter participado no que considerou ser uma infracção distinta.
      
       Quanto ao período compreendido entre o fim de 1988 e o fim do Verão de 1990
      121   No que diz respeito ao período compreendido entre o fim de 1988 e o Verão de 1990, recorde‑se que a Comissão sustentou, nos
         considerandos 98 a 106 da decisão, que, na sequência da retirada da Sumitomo do acordo inicial, a Degussa, a Rhône‑Poulenc
         e a Nippon Soda, não obstante as sérias dificuldades que tiveram em coordenar a sua acção, se reuniram diversas vezes em 1989
         e 1990 para discutir preços e dados relativos ao mercado e para planear a sua reacção conjunta face à nova situação do mercado,
         caracterizada pela entrada da Monsanto. Para este efeito, a Comissão referiu‑se às seguintes reuniões, que a recorrente, de
         resto, não negou terem‑se realizado:
      
      
               Data
            
            
               Local
            
            
               Participantes
            
         
               Agosto de 1989
            
            
               Não mencionado
            
            
               Nippon Soda, Degussa, Rhône‑Poulenc
            
         
               Outono de 1989
            
            
               Japão
            
            
               Nippon Soda, Degussa
            
         
               10 de Junho de 1990
            
            
               Francoforte
            
            
               Degussa, Rhône‑Poulenc
            
         
      122   A argumentação da recorrente consiste, no essencial, em sustentar que estas reuniões não permitem demonstrar a continuação
         do acordo e que os documentos em que a Comissão se baseia levam, pelo contrário, a provar que os participantes nas referidas
         reuniões estavam em desacordo, e nomeadamente que a recorrente recusou qualquer proposta relativa a um acordo sobre os preços.
      
      123   Ora resulta da resposta da Nippon Soda de 23 de Fevereiro de 2000 ao pedido de informações da Comissão (a seguir «declaração
         da Nippon Soda de 23 de Fevereiro de 2000») e da nota de 5 de Maio de 1990 que, embora se deva admitir que as «cimeiras» cessaram
         em 1988, não é menos verdade, e a recorrente não contesta este facto, que, segundo estes mesmos documentos, as reuniões dos
         colaboradores continuaram a realizar‑se entre 1988 e 1998 e que estas reuniões se destinavam, em parte, a substituir as cimeiras
         anteriores.
      
      124   Além disso, embora seja verdade que não se possa inferir da declaração da Nippon Soda de 23 de Fevereiro de 2000 que, para
         o período compreendido entre 1989 e 1990, os participantes nas reuniões acordaram na fixação de preços, na atribuição de clientela
         ou na restrição de capacidades de produção, há que sublinhar, no entanto, que esta declaração menciona, nos pontos 2.8 e 2.9,
         que tenha sido desenvolvido um sistema mais flexível de «preços‑alvo» e que as reuniões tinham por objecto a protecção contra
         a concorrência da recém‑chegada ao mercado, a Monsanto, e a troca de informações para este efeito. No ponto 6.2, sob a epígrafe
         «Objecto das reuniões realizadas após 1 de Janeiro de 1990», a Nippon Soda confirma esta descrição quando indica que, em 1990,
         as actividades da Monsanto representavam a principal ameaça para as partes nos acordos e que, assim, as reuniões, que foram
         apresentadas como regulares, se concentravam na partilha das informações relativas às referidas actividades e na discussão
         de preços‑alvo.
      
      125   Por outro lado, resulta, em especial, da nota de 5 de Maio de 1990 que se realizou uma reunião entre a Nippon Soda, a Rhône‑Poulenc
         e a Degussa em Agosto de 1989 e outra, no Outono de 1989, entre a Degussa e Nippon Soda, o que a recorrente não contesta.
         Estas reuniões tinham por objecto dissuadir a Degussa de vender a metionina a preços reduzidos. Segundo este mesmo documento,
         a Degussa rejeitou essa proposta, pelo que não se pode considerar que as partes tenham chegado, nessas reuniões, a um acordo
         sobre os preços. No entanto, a nota refere que a Degussa indicou, nessa ocasião, designadamente, por um lado, que essas reduções
         de preços eram necessárias para manter os seus volumes de vendas e portanto os seus custos fixos e, por outro, que, em seu
         entender, o preço razoável da metionina situava‑se em cerca de 2,80 dólares dos Estados Unidos (USD) por quilograma e que,
         assim, o nível actual de 3 USD/kg era demasiado elevado.
      
      126   A recorrente sustenta que esta nota demonstra que um acordo era impossível entre os participantes nas reuniões nessa época.
      127   A este respeito, há que reconhecer que a nota de 5 de Maio de 1990 deixa transparecer que a Degussa, de 1989 ao Verão de 1990,
         praticou uma significativa redução de preços para, nomeadamente, retirar clientes à Monsanto. Da mesma forma, a Nippon Soda
         afirma que as relações entre a Degussa e a Rhône‑Poulenc se tenham deteriorado e que, por isso, era provável que a estratégia
         desta última seria, a curto prazo, a de continuar a fazer concorrência à Monsanto, à Degussa, à Sumitomo e à Nippon Soda.
      
      128   Porém, importa sublinhar que, ainda que a Comissão não tenha provado a existência de um acordo sobre os preços, provou que
         a recorrente tinha participado em reuniões com a Nippon Soda e com a Rhône‑Poulenc durante todo aquele período e que nessas
         reuniões eram trocadas informações sobre as condições do mercado, discutido o nível dos preços e os participantes expunham
         a estratégia comercial que projectavam aplicar no mercado, tendo a recorrente, designadamente, anunciado o preço que considerava
         razoável naquela época, ou seja, 2,80 USD/kg.
      
      129   Por conseguinte, não se pode inferir deste breve período, compreendido entre 1988 e o fim de 1990, de desentendimento entre
         os participantes que a colusão tinha cessado, atendendo a que estas reuniões não só continuaram a ser realizadas regularmente,
         mas que, além disso, tinham precisamente por objecto acordar na reacção a adoptar face aos novos dados do mercado. A circunstância
         de a recorrente ter praticado temporariamente reduções de preços para retirar clientes à Monsanto e de ter recusado pontualmente
         as propostas da Nippon Soda e pela Rhône‑Poulenc de não baixar os preços não permite, pois, concluir que a recorrente tinha
         a intenção de se distanciar do conteúdo das reuniões e actuar de maneira autónoma, tanto mais que, segundo a nota de 5 de
         Maio de 1990, a recorrente tinha intenção de acordar com as outras participantes o aumento dos preços a partir de Julho de
         1990 e que, para esse efeito, era crucial persuadir a Rhône‑Poulenc a juntar‑se aos esforços mútuos de aumento dos preços.
      
      130   De resto, observe‑se que o alegado diferendo entre a Degussa e a Rhône‑Poulenc, que, aliás, é apresentado como uma simples
         conjectura na nota de 5 de Maio de 1990, não impediu estas empresas de se encontrarem por duas vezes durante o Verão de 1990,
         a primeira nos escritórios da Degussa em Francoforte, em 10 de Junho de 1990, e a segunda em Paris. Por ocasião deste último
         encontro, segundo as declarações não contestadas da Rhône‑Poulenc, as partes trocaram informações sobre o mercado. Em especial,
         a Rhône‑Poulenc apresentou à Degussa os seus volumes de vendas mundiais e as vendas da Degussa foram objecto de discussão,
         se bem que nenhum valor específico tenha sido comunicado por esta última.
      
      131   Daqui se conclui que, como a Comissão no essencial observa no considerando 103 da decisão, ainda que o acordo inicial tenha
         conhecido, entre 1988 e o fim de 1990, uma certa flutuação devida à retirada da Sumitomo e à chegada da Monsanto ao mercado,
         a Degussa, a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda continuaram, durante esse período, a reunir‑se para acordarem uma estratégia comum
         de luta contra a concorrência da Monsanto e que, nesta perspectiva, eram trocadas informações relativas designadamente aos
         preços e às vendas da Rhône‑Poulenc, da Nippon Soda e da Degussa, bem como informações relativas às actividades da Monsanto.
      
      132   Ora, nesta fase, basta recordar que o conceito de «prática concertada» consiste numa forma de coordenação entre empresas que,
         sem ter levado à realização de um acordo propriamente dito, substitui cientemente por uma cooperação prática entre elas os
         riscos da concorrência (acórdão do Tribunal de Justiça de 14 de Julho de 1972, ICI/Comissão, 48/69, Colect., p. 205, n.° 64).
         Os critérios de coordenação e cooperação em causa, longe de exigirem a elaboração de um verdadeiro «plano», devem ser entendidos
         à luz da concepção inerente às disposições do Tratado relativas à concorrência e segundo a qual qualquer operador económico
         deve determinar de maneira autónoma a política que tenciona seguir no mercado comum. Embora seja exacto que esta exigência
         de autonomia não exclui o direito de os operadores económicos se adaptarem inteligentemente ao comportamento constatado ou
         previsível dos seus concorrentes, mas opõe‑se rigorosamente a qualquer contacto directo ou indirecto entre eles que tenha
         por objectivo ou efeito de influenciar o comportamento no mercado de um concorrente efectivo ou potencial ou de revelar a
         essa concorrente o comportamento que eles próprios tenham decidido adoptar ou tencionem adoptar no mercado (acórdão Suiker
         Unie e o./Comissão, referido no n.° 41 supra, n.os 173 e 174, e acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 20 de Abril de 1999, Limburgse Vinyl Maatschappij e o./Comissão,
         T‑305/94 a T‑307/94, T‑313/94 a T‑316/94, T‑318/94, T‑325/94, T‑328/94, T‑329/94 e T‑335/94, Colect., p. II‑931, n.° 720).
      
      133   Assim, para fazer prova de uma prática concertada, não é necessário demonstrar que o concorrente em questão se comprometeu
         formalmente, para com um ou vários outros, a adoptar determinado comportamento ou que os concorrentes fixaram em comum o seu
         comportamento futuro no mercado (acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 15 de Março de 2000, Cimenteries CBR e o. /Comissão,
         T‑25/95, T‑26/95, T‑30/95 a T‑32/95, T‑34/95 a T‑39/95, T‑42/95 a T‑46/95, T‑48/95, T‑50/95 a T‑65/95, T‑68/95 a T‑71/95,
         T‑87/95, T‑88/95, T‑103/95 e T‑104/95, Colect., p. II‑491, n.° 1852). Basta que, através da sua declaração de intenções, o
         concorrente tenha eliminado ou pelo menos reduzido substancialmente a incerteza quanto ao comportamento no mercado que dele
         se pode esperar (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 17 de Dezembro de 1991, BASF/Comissão, T‑4/89, Colect., p. II‑1523,
         n.° 242, e Hercules Chemicals/Comissão, T‑7/89, Colect., p. II‑1711, n.° 260).
      
      134   Além disso, ainda que, como a recorrente recorda, a comunicação recíproca, pelos participantes num acordo, da sua intenção
         de lhe pôr termo não seja uma condição para a sua cessação, não é menos verdade que, segundo jurisprudência assente, a partir
         do momento em que uma empresa participa, mesmo que não seja activamente, em reuniões entre empresas que tenham um objecto
         anticoncorrencial, e que ela não se distancia publicamente do respectivo conteúdo, levando assim os outros participantes a
         pensar que subscreve o resultado das reuniões e os respeitará, pode ser considerado provado que participa no acordo resultante
         das referidas reuniões (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância, Hercules Chemicals/Comissão, referido no n.° 133 supra, n.° 232, de 10 de Março de 1992, Solvay/Comissão, T‑12/89, Colect., p. II‑907, n.° 98, e de 6 de Abril de 1995, Tréfileurope/Comissão,
         T‑141/89, Colect., p. II‑791, n.os 85 e 86).
      
      135   Ora, ainda que, na verdade, resulte dos elementos dos autos, referidos anteriormente, que os participantes nas reuniões tiveram
         determinados diferendos, não é menos verdade que as reuniões continuaram a realizar‑se e que não se pode considerar que a
         Degussa se tenha distanciado publicamente do respectivo conteúdo, designadamente porque indicou qual seria o seu comportamento
         no mercado e o preço que considerava razoável e porque ela própria mostrou a sua intenção de pôr em prática uma acção concertada
         com vista a aumentar os preços, em Julho de 1990.
      
      136   Além do mais, embora resulte dos próprios termos do artigo 81.°, n.° 1, CE que uma prática concertada implica, para além da
         concertação entre as empresas, um comportamento no mercado dando seguimento a essa concertação e um nexo de causa e efeito
         entre esses dois elementos (acórdãos do Tribunal de Justiça de 8 de Julho de 1999, Comissão/Anic Partecipazioni, C‑49/92 P,
         Colect., p. I‑4125, n.° 118, e Hüls/Comissão, referido no n.° 115 supra, n.° 161), há todavia que presumir, sem prejuízo da prova em contrário que aos operadores interessados cabe apresentar, que
         as empresas que participam na concertação e que estão activas no mercado têm em conta informações trocadas com os seus concorrentes
         para determinar o seu comportamento nesse mercado (acórdãos Comissão/Anic Partecipazioni, já referido, n.° 121, e Hüls/Comissão,
         já referido, n.° 162). E será assim, por maioria de razão, se a concertação tiver lugar de forma regular durante um longo
         período, o que sucedeu no caso vertente, pois o acordo começou em 1986.
      
      137   Pelo exposto, conclui‑se que a Comissão teve razão quando entendeu, no considerando 106 da decisão, que «fica[ra] pelo menos
         estabelecido que [...] as partes [tinham estado] em contacto entre si, [trocado] informações sobre preços e vendas e [discutido]
         aumentos de preços durante 1989 e 1990» e daí inferiu, baseando‑se, nos considerandos 194 e seguintes da decisão, sobre a
         jurisprudência atrás referida, que a recorrente tinha participado num acordo e/ou prática concertada durante esse período.
      
      138   A questão de saber se, como a Comissão observa no considerando 106, a nota da Nippon Soda de 7 de Novembro de 1990 permite
         concluir que uma «primeira» campanha de aumento de preços tivera já lugar no Verão de 1990 é indiferente a este respeito,
         na medida em que a Comissão não baseia as suas conclusões nessa circunstância, que é apresentada acessoriamente, como sendo
         meramente provável. De resto, pode admitir‑se que tal suposição não se pode considerar totalmente infundada atendendo a que,
         por um lado, a referida nota indica claramente, na introdução, que a Rhône‑Poulenc e a Degussa estavam «nervosas relativamente
         ao segundo aumento de preços proposto» e, por outro, a Degussa já tinha manifestado a sua intenção de proceder a um aumento
         dos preços em Julho de 1990 e, para esse efeito, tinha entrado em contacto com a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda para organizar
         uma reunião tripartida.
      
      139   Da mesma forma, o argumento da recorrente de que resulta da declaração complementar da Rhône‑Poulenc de 5 de Dezembro de 2000
         que os representantes desta última e da Degussa se encontraram pela primeira vez em 10 de Junho de 1990, que nesta ocasião
         decidiram entrar em contacto com a Nippon Soda e que por isso não existia, nessa época, nenhum acordo nem a continuação de
         um qualquer programa, não pode pôr em causa as declarações da Nippon Soda nem a nota de 5 de Maio de 1990, apresentada por
         esta última, de que resulta que as reuniões de pessoal perduraram durante esse período e, em especial, que se realizou uma
         reunião entre a Nippon Soda, a Rhône‑Poulenc e a Degussa em Agosto de 1989 e outra no Outono de 1989, entre a Degussa e a
         Nippon Soda.
      
      140   Com efeito, a declaração complementar da Rhône‑Poulenc de 5 de Dezembro de 2000, em que a recorrente se baseia, indica simplesmente
         que os Srs. H. e B., da Rhône‑Poulenc, encorajaram o Sr. K., chegado à empresa em Abril de 1990, a contactar a Sr.ª R., da
         Degussa, para se apresentar a esta última como sucessor do Sr. B. Assim, o facto de o Sr. K. e a Sr.ª R. se terem encontrado
         pela primeira vez em 10 de Junho de 1990 não pode significar que os contactos entre a Rhône‑Poulenc, a Degussa e a Nippon
         Soda tinham cessado entre o fim de 1988 e aquela data. Da mesma forma, a simples indicação, constante da referida declaração,
         de que na reunião bilateral de 10 de Junho de 1990 a Rhône‑Poulenc e a Degussa decidiram contactar a Nippon Soda para discutir
         a queda dos preços da metionina e a possibilidade de realizarem reuniões mais regulares não pode levar a concluir que estas
         empresas cessaram todo e qualquer contacto, bilateral ou trilateral, depois de a Sumitomo se ter retirado do cartel no fim
         de 1988.
      
       Quanto ao período compreendido entre o Verão de 1990 e Março de 1992
      141   No que respeita ao período compreendido entre o fim do Verão de 1990 e Março de 1992, recorde‑se, em primeiro lugar, que a
         declaração da Rhône‑Poulenc de 26 de Maio de 1999 indica inequivocamente que a Degussa, a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda se
         encontraram em Hong Kong no fim do Verão de 1990 para discutir a recente baixa do preço da metionina e acordaram, nessa ocasião,
         em aumentar os preços de 2,50 para 2,80 USD/kg.
      
      142   A nota da Nippon Soda relativa à reunião realizada em Seul a 7 de Novembro de 1990, que a Comissão pergunta se não será, na
         realidade, a mesma que se realizou em 19 de Novembro de 1990 e que a Rhône‑Poulenc situa em Hong Kong na sua declaração complementar
         de 5 de Dezembro de 2000, dá conta, por seu lado, de que os participantes tinham chegado a acordo sobre os seguintes pontos:
         primo, manutenção dos preços em vigor na zona de prevalência do marco alemão (DEM) (ou seja 5,10 DEM/kg) durante o primeiro trimestre
         de 1991; secundo, anúncio de um aumento dos preços de cerca de 10% nessa mesma zona, com efeitos a partir de Abril de 1991; tertio, aumento generalizado dos preços no âmbito de uma segunda campanha desde Janeiro de 1991 e, subsequentemente; quarto, adaptação dos preços nas zonas em que o nível dos preços era baixo (em especial o Canadá), para dissuadir os revendedores
         de reexportar. Além disso, deveria ter lugar outra reunião no fim de Fevereiro de 1991, na Europa, para discutir os preços
         para o mês de Abril de 1991 e o período seguinte a esta data.
      
      143   Daqui se conclui que, o mais tardar em Novembro de 1990, havia uma vontade comum entre os participantes nas reuniões de proceder
         a um aumento dos preços, aumentos esses cujas modalidades eram determinadas, pelo que há que considerar que existia um acordo
         entre eles.
      
      144   A este respeito, o argumento da recorrente, que não contesta o conteúdo da nota da Nippon Soda, de que, pelo contrário, esta
         nota não demonstra que a Degussa não projectava um aumento dos preços sem a participação da Monsanto, não pode ser acolhido.
      
      145   Com efeito, por um lado, não resulta de modo nenhum dessa nota, designadamente do ponto iii) («Tanto a Rhône‑Poulenc como
         a Degussa deverão entrar em contacto separadamente com a Monsanto e tentar persuadi‑la a juntar‑se à segunda campanha de aumento
         de preços. Para que todos estejam prontos para o aumento de preços proposto, previsto para o decurso de Janeiro de 1991 e
         posteriormente, é necessário que se realizem reuniões com a Monsanto em Novembro de 199[0]»), citado pela recorrente, que
         a participação da Monsanto fosse uma condição necessária para o acordo. A referida nota limita‑se a mencionar que a Rhône‑Poulenc
         e a Degussa deveriam tentar persuadir a Monsanto a participar no acordo, e isto antes do aumento de preços proposto em Janeiro
         de 1991, sem indicar que os acordos cairiam não existindo essa participação. Assim, as diligências previstas parecem mais
         destinadas a aumentar a eficácia do acordo do que propriamente uma condição para a sua existência.
      
      146   Por outro lado, mesmo que se admita que se pode entender que essa menção impõe uma condição para a execução do acordo, não
         é menos verdade que havia, entre as partes, uma vontade comum de aumentar o preço da metionina no mercado e que, portanto,
         o acordo anticoncorrencial estava formado (v., neste sentido, acórdão Archer Daniels Midland e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão,
         referido no n.° 53 supra, n.° 228). Além disso, a parte do acordo que consistia na adaptação dos preços nas zonas em que o nível dos preços era baixo
         para dissuadir os revendedores de reexportar era independente de qualquer participação da Monsanto.
      
      147   Por outro lado, os alegados indícios avançados pela recorrente no sentido de demonstrar que a nota da Nippon Soda de 7 de
         Novembro de 1990 não é um original mas sim uma tradução não só constituem simples alegações cuja veracidade a recorrente nem
         sequer logrou provar como, para mais, não são de modo algum susceptíveis de pôr em causa o valor probatório desse documento,
         devendo ser julgados improcedentes.
      
      148   Por último, não se pode deixar de observar que, em todo o caso, a recorrente não contesta a afirmação da Rhône‑Poulenc, constante
         da sua declaração de 26 de Maio de 1999, e recordada pela Comissão na contestação, de que a Nippon Soda, a Degussa e a Rhône‑Poulenc
         acordaram em Hong Kong, no fim do Verão de 1990, em aumentar os preços de 2,50 para 2,80 USD /kg.
      
      149   No que respeita ao período posterior ao acordo de Novembro de 1990, a recorrente afirma, de novo, que a Comissão não demonstrou
         a sua participação num acordo ou numa prática concertada até Março de 1992, tendo as reuniões em que admitiu ter participado
         consistido unicamente, segundo afirma, em aumentar o nível de confiança entre os concorrentes.
      
      150   Esta afirmação é manifestamente improcedente. Com efeito, a recorrente não tem em conta que, embora, efectivamente, como ela
         afirma, a declaração da Rhône‑Poulenc de 26 de Maio de 1999 mencione que as reuniões trimestrais iniciadas em 1991 se realizassem
         em diversas cidades da Europa e da Ásia e se destinassem a elevar o nível de confiança entre as partes, esse mesmo documento
         acrescenta que, nessas reuniões, os participantes «[d]iscutiam a produção, os concorrentes na China e na Ásia, os clientes
         e contratos recentes» e que «[t]rocavam frequentemente dados das vendas, calculados numa base regional ou por país». Assim,
         «ainda que nunca tenha havido atribuição de clientes, havia um esforço constante no sentido de manter os preços». A declaração
         complementar da Rhône‑Poulenc de 5 de Dezembro de 2000 completa esta exposição, indicando que aquelas reuniões trimestrais
         deram lugar a uma troca de informações sobre as estratégias de preços e questões de produção e que os preços‑alvo eram acordados
         por região. Além disso, indica‑se que, quando um dos participantes se queixava do comportamento de outro concorrente no mercado,
         as partes tentavam resolver o diferendo. Por último, a Rhône‑Poulenc conclui que a mensagem partilhada unanimemente era a
         de se absterem de tomar medidas drásticas, designadamente diminuindo os preços de modo significativo.
      
      151   Assim, foi com razão que, baseando‑se nos documentos anteriormente descritos, nos considerandos 115 a 123 da decisão, a Comissão
         rejeitou, no considerando 125 desta, a argumentação da Degussa de que a sua participação, antes de 1992, em reuniões com um
         objecto anticoncorrencial não foi demonstrada.
      
      152   É verdade que a decisão não menciona elementos precisos quanto às datas e aos locais dessas reuniões relativamente ao ano
         de 1991. No entanto, as declarações da Rhône‑Poulenc, não contestadas pela recorrente, indicam claramente que a decisão de
         realizar reuniões trimestrais foi tomada desde o início de 1991. Além disso, tanto a Nippon Soda como a Rhône‑Poulenc apresentam
         essas reuniões como uma prática contínua a partir de 1991 até 1998. Assim, o simples facto, invocado pela recorrente, de não
         ter sido possível apurar nenhuma precisão quanto às circunstâncias de lugar e de tempo das reuniões do cartel durante o ano
         de 1991 não basta para concluir que as actividades do referido cartel cessaram durante esse período, visto ter sido demonstrado
         que ficou provado que um acordo tinha sido alcançado desde o fim de 1990 e que a recorrente não contesta a sua participação
         num acordo em Março de 1992.
      
      153   Ora, recorde‑se que, na falta de elementos de prova que permitam determinar directamente a duração de uma infracção, a Comissão
         deve invocar, pelo menos, elementos de prova que se reportem a factos suficientemente próximos no tempo, de modo a que se
         possa razoavelmente admitir que essa infracção prosseguiu ininterruptamente entre duas datas precisas (acórdãos do Tribunal
         de Primeira Instância Dunlop Slazenger/Comissão, referido no n.° 114 supra, n.° 79, e de 6 de Julho de 2000, Volkswagen/Comissão, T‑62/98, Colect., p. II‑2707, n.° 188). Atendendo a que, por um lado,
         a Comissão provou devidamente a existência de um acordo ilícito em Novembro de 1990 e, por outro, a recorrente não contesta
         a existência de uma infracção a partir de 1992 e, por último, as declarações concordantes da Rhône‑Poulenc e da Nippon Soda
         dão conta de reuniões trimestrais regulares a partir do início de 1991, há que considerar que esses requisitos estão preenchidos,
         no caso vertente.
      
      154   Resulta de todo o exposto que a Comissão tinha razão quando considerou que a recorrente tinha participado num acordo e/ou
         numa prática concertada entre o fim de 1988 e Março de 1992.
      
      b)     Quanto ao carácter único e continuado da infracção
      155   Recorde‑se que a violação do artigo 81.°, n.° 1, CE pode resultar não só de um acto isolado, mas também de uma série de actos
         ou mesmo de um comportamento continuado. Esta interpretação não pode ser contestada com fundamento no facto de um ou vários
         elementos dessa série de actos ou desse comportamento continuado poderem igualmente constituir, em si mesmos e isoladamente
         considerados, uma violação da referida disposição (v., neste sentido, acórdão Comissão/Anic Partecipazioni, referido no n.° 136
         supra, n.° 81). Quando as diferentes acções se inscrevem num «plano de conjunto», em razão do seu objecto idêntico que falseia
         o jogo da concorrência no interior do mercado comum, a Comissão pode imputar a responsabilidade por essas acções em função
         da participação na infracção considerada no seu todo (acórdão do Tribunal de Justiça de 7 de Janeiro de 2004, Aalborg Portland
         e o./Comissão, C‑204/00 P, C‑205/00 P, C‑211/00 P, C‑213/00 P, C‑217/00 P e C‑219/00 P, Colect., p. I‑123, n.° 258).
      
      156   Ora, refira‑se que os acordos nos quais a recorrente reconhece ter participado, antes do fim de 1988 e após Março de 1992,
         têm como actores, com excepção da Sumitomo, que se retirou em 1988, os mesmos participantes e têm um objecto idêntico ao do
         acordo em que a recorrente participou entre 1988 e 1992, ou seja, uma acção concertada com vista a manter e aumentar os preços
         no mercado da metionina no EEE, bem como uma troca de informações sobre os preços, quotas de mercado e volumes de venda.
      
      157   Daqui decorre que a Comissão tinha razão quando concluiu, nos considerandos 206 a 212 da decisão, que a infracção em que a
         Degussa, a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda tinham participado devia ser qualificada como única e continuada.
      
      158   O argumento da recorrente de que a infracção foi interrompida entre o fim do ano de 1988 e o mês de Março de 1992 deve, pois,
         ser julgado improcedente.
      
      B –  Quanto ao fim da infracção
      1.     Argumentos das partes
      159   A recorrente entende que a Comissão não logrou provar que a sua participação no acordo após o Outono de 1997, altura em que
         o acordo cessou em consequência da saída do Sr. H. da Rhône‑Poulenc, pois o sucessor deste, o Sr. Z., decidiu pôr termo a
         qualquer contacto com os concorrentes.
      
      160   A retoma dos contactos apenas foi autorizada, em Março de 1998, pelo Sr. G., novo director‑geral da Rhône‑Poulenc, para pôr
         termo ao acordo, evitando perturbações demasiado importantes no mercado.
      
      161   Por último, a existência de um acordo relativo aos aumentos de preços celebrado entre a Degussa e a Rhône‑Poulenc não permite
         provar a continuação das actividades do acordo inicial, o qual incluía a Degussa, a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda.
      
      162   A Comissão entende que as objecções da recorrente relativas à falta de prova das suas alegações constantes dos considerandos
         180 a 185 da decisão não são procedentes.
      
      2.     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      163   Em primeiro lugar, note‑se que, embora, como a Comissão observa no considerando 180, na sequência da saída do Sr. H. no Outono
         de 1997, o seu substituto, o Sr. Z., tenha efectivamente ordenado a cessação de quaisquer comunicações da Rhône‑Poulenc com
         os seus concorrentes, é pacífico que, a partir do mês de Março de 1998, o sucessor do Sr. Z., ou seja, o Sr. G., autorizou
         a continuação dos contactos com os concorrentes, para permitir uma «aterragem suave» e evitar perturbações demasiado importantes
         no mercado, ordenando porém a cessação das reuniões trimestrais.
      
      164   Ora, a consideração de que, segundo o director‑geral da Rhône‑Poulenc, que não participava nas reuniões, os contactos entre
         as partes no acordo deviam ter por objecto permitir pôr termo suavemente ao acordo, não permite provar que tenha verdadeiramente
         sido esse o caso, mas, além do mais, tende a demonstrar que a Rhône‑Poulenc e os seus concorrentes tinham a intenção de continuar
         a concertar‑se até uma data ulterior, em que se poria definitivamente termo ao acordo. Isto é corroborado pelo objecto das
         reuniões que se realizaram após a autorização do Sr. G., como a seguir se examinará. Além disso, segundo as declarações da
         própria Rhône‑Poulenc, só em Fevereiro de 1999 é que a direcção finalmente ordenou a cessação definitiva dos contactos com
         os concorrentes.
      
      165   A circunstância de que a Comissão tenha proposto como explicação provável para a cessação das reuniões trimestrais, no considerando
         181 da decisão, o facto de estes últimos serem extremamente visíveis e de haver o risco de serem descobertos, devido ao avanço
         das investigações das autoridades da concorrência americanas no sector das vitaminas nessa época é, a este respeito, indiferente.
         Com efeito esta explicação, por um lado, constitui apenas uma suposição da qual a Comissão não tira nenhuma consequência no
         que à recorrente diz respeito e, por outro, em nada afecta a exactidão da conclusão da Comissão de que, desde o mês Março
         de 1998, os contactos com os concorrentes foram novamente autorizados pelo Sr. G., director‑geral da Rhône‑Poulenc.
      
      166   Em segundo lugar, o Tribunal de Primeira Instância constata que a recorrente não contesta a realização das seguintes reuniões,
         mencionadas nos considerandos 179 a 184 da decisão:
      
      
               Data
            
            
               Local
            
            
               Participantes
            
         
               Maio 1998
            
            
               Francoforte ou Dusseldórfia
            
            
               Degussa, Rhône‑Poulenc, Nippon Soda
            
         
               Fim do Verão/início do Outono de 1998
            
            
               Heidelberga
            
            
               Degussa, Rhône‑Poulenc
            
         
               4 de Fevereiro de 1999
            
            
               Nancy
            
            
               Degussa, Rhône‑Poulenc
            
         
               4 de Fevereiro de 1999 (noite)
            
            
               Paris
            
            
               Nippon Soda, Rhône‑Poulenc
            
         
      167   Verifica‑se, assim, que, durante o período compreendido entre o Outono de 1997 e o mês de Fevereiro de 1999, a Degussa e a
         Rhône‑Poulenc se encontraram por duas vezes, a primeira no fim do Verão ou no início do Outono de 1998 em Heidelberga, e a
         segunda em 4 de Fevereiro de 1999 em Nancy. Segundo a Comissão, a Degussa e a Rhône‑Poulenc acordaram, nestas duas ocasiões,
         respectivamente em aumentar os preços e fixar objectivos de preços (3,20 USD/kg, ou seja, 5,30 DEM/kg).
      
      168   A recorrente não contesta expressamente estas circunstâncias, mas alega que a Comissão não se pode basear nelas para demonstrar
         que constituíam a continuação do acordo anterior, no qual estavam implicados três participantes (a Degussa, a Rhône‑Poulenc
         e a Nippon Soda).
      
      169   Esta argumentação não pode ser acolhida.
      170   Com efeito, como observa acertadamente a Comissão, resulta das declarações da Rhône‑Poulenc que os contactos bilaterais, designadamente
         telefónicos, prosseguiram entre a Rhône‑Poulenc e a Degussa, por um lado, e a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda, por outro, entre
         o mês de Abril de 1998 e 4 de Fevereiro de 1999.
      
      171   Por outro lado, nas suas declarações, apresentadas em anexo pela própria recorrente, a Nippon Soda indica, em especial, ter‑se
         encontrado com um representante da Rhône‑Poulenc num jantar em Paris em Outubro de 1998, e com representantes da Degussa,
         a primeira vez em Francoforte em Outubro de 1998, e a segunda vez em Tóquio no Outono de 1998. Segundo a Nippon Soda, estas
         reuniões tinham por objecto permitir aos participantes discutir as condições do mercado e as tendências dos preços. Além disso,
         ainda segundo esse documento, a Rhône‑Poulenc e a Nippon Soda encontraram‑se em 4 de Fevereiro de 1999 em Paris, na mesma
         noite da reunião realizada entre a Degussa e a Rhône‑Poulenc em Nancy, e discutiram, nessa ocasião, a procura e as condições
         do mercado da metionina (considerando 183 da decisão).
      
      172   Por último, a recorrente também não contesta o facto de se ter realizado uma reunião tripartida em Maio de 1998 (que a Rhône‑Poulenc
         situa em Francoforte e a Nippon Soda em Dusseldórfia), durante a qual, segundo as declarações da Rhône‑Poulenc, não contestadas
         pela recorrente, a Nippon Soda afirmou que seguiria qualquer aumento dos preços.
      
      173   Resulta do que antecede que a recorrente não pode alegar que a Comissão não fez prova bastante da participação da Nippon Soda
         na referida concertação entre o Outono de 1997 e Fevereiro de 1999. Com efeito, não se pode deixar de observar que, como a
         decisão refere no considerando 184, durante todo este período os três participantes no acordo mantiveram contactos bilaterais.
         Tanto a Rhône‑Poulenc como a recorrente continuaram a estar em contacto com a Nippon Soda para discutir as condições do mercado
         e o nível dos preços, ao passo que a Nippon Soda deu o seu acordo de princípio com qualquer aumento de preços na última reunião
         tripartida de Maio de 1998. Nestas circunstâncias, o simples facto de estas três sociedades não se terem reunido trilateralmente
         após a referida reunião tripartida não pode, manifestamente, levar à conclusão de que, nessa época, o acordo tinha cessado.
      
      174   A este respeito, o argumento da recorrente de que resulta do considerando 184 da decisão que a Comissão baseou o seu raciocínio
         na simples presunção de que tinham sido mantidos contactos bilaterais após a reunião de Maio de 1998 é manifestamente improcedente.
         Com efeito, resulta dos considerandos 182 a 184 que a Comissão pôs em evidência, com base nas declarações concordantes da
         Rhône‑Poulenc e da Nippon Soda, a existência desses contactos, como atrás se explicou detalhadamente. A única suposição que
         a Comissão formula no considerando 184 diz respeito à determinação da reunião tripartida durante a qual os participantes decidiram
         pôr termo aos contactos trilaterais, o que não tem qualquer incidência sobre a exactidão das suas conclusões.
      
      175   De qualquer modo, mesmo admitindo que não se pode demonstrar que a Nippon Soda participou no acordo após o Outono de 1997,
         mantêm‑se que resulta da declaração complementar da Rhône‑Poulenc de 5 de Dezembro de 2000, cuja força probatória a recorrente
         não logrou pôr em causa, que a Rhône‑Poulenc e a recorrente participaram em duas reuniões, uma no fim do Verão ou no princípio
         do Outono de 1998 em Heidelberga, outra em 4 de Fevereiro de 1999 em Nancy, durante as quais foram acordados objectivos e
         aumentos de preços. Ora a hipotética retirada da Nippon Soda do acordo anterior não pode afectar o carácter manifestamente
         anticoncorrencial dessas reuniões nem o facto de estas constituírem a continuação do acordo anterior, em conformidade com
         a jurisprudência referida no n.° 155 supra. 
      
      176   Resulta do que antecede que o argumento da recorrente relativo à data que a Comissão considerou ser a da cessação da infracção
         deve ser rejeitado.
      
      C –  Quanto à suspensão do acordo
      177   A recorrente sustenta, subsidiariamente, caso a infracção seja considerada única e continuada, que a Comissão deveria ter
         tido em conta o facto de a infracção ter, no mínimo, sido suspensa do fim de 1988 até Março de 1992 e a partir do Outono de
         1997, à semelhança do que sucedeu no chamado processo dos «tubos com revestimento térmico» [Decisão 1999/60/CE da Comissão,
         de 21 de Outubro de 1998, relativa a um processo de aplicação do artigo 85.° do Tratado CE processo IV/35.691/E‑4 – Cartel
         dos tubos com revestimento térmico) (JO 1999, L 24, p. 1)].
      
      178   A este respeito, observe‑se desde já que este argumento é manifestamente impertinente na parte em que diz respeito ao período
         posterior ao Outono de 1997. Com efeito, a suspensão de um acordo só pode ser reconhecida na hipótese de se verificar que
         uma dada infracção, ainda que única e continuada, foi objecto, durante um breve período, de perturbações tais que esse período
         não pode ser contabilizado na duração total da infracção, entendendo‑se que o acordo foi a seguir retomado plenamente. Este
         método permite, assim, conciliar a utilização do conceito de infracção única e continuada com os requisitos relativas à exactidão
         da duração da infracção e, portanto, na medida em que o cálculo do montante da coima é, designadamente, efectuado em função
         deste último critério, do princípio da proporcionalidade.
      
      179   Ora a recorrente afirma que o acordo foi suspenso do Outono de 1997 a 4 de Fevereiro de 1999, ou seja, a data que a Comissão
         considerou ser a do termo da infracção. Esta argumentação equivale, assim, no essencial, a contestar a data da cessação da
         infracção e portanto a reiterar as pretensões da recorrente a esse respeito. O argumento da recorrente relativo à suspensão
         do acordo após o Outono de 1997 deve consequentemente ser rejeitado pelos motivos atrás expostos nos n.os 163 a 176, dos quais decorre que, na sequência da última reunião tripartida do mês de Maio de 1998, contactos bilaterais
         entre a Nippon Soda, a Rhône‑Poulenc e a recorrente perduraram até 4 de Fevereiro de 1999.
      
      180   Quanto ao período compreendido entre o fim de 1988 e o mês de Março de 1992, recorde‑se que a prática decisória da Comissão
         não serve, em si mesma, de quadro jurídico às coimas em matéria de concorrência (v., designadamente, acórdão Scandinavian
         Airlines System/Comissão, referido no n.° 80 supra, n.° 87, e jurisprudência referida). Além disso, não se pode deixar de observar que, no acórdão Lögstör Rör/Comissão, referido
         no n.° 58 supra (n.os 59 a 65), o Tribunal de Primeira Instância contentou‑se em observar que a própria Comissão tinha admitido e tomado em conta,
         na sua decisão relativa ao processo dos tubos com revestimento térmico, a circunstância de o acordo ter sido suspenso do mês
         de Outubro de 1993 ao mês de Março de 1994 e que, assim, ao contrário do alegado pelo então recorrente, a Comissão não o tinha
         acusado de ter participado numa actividade anticoncorrencial durante esse período.
      
      181   Daqui se conclui que a circunstância de a Comissão ter tomado em conta, no processo dos tubos com revestimento térmico o facto
         de, em seu entender, o acordo ter sido suspenso, não pode bastar, por si só, para demonstrar a ilegalidade da decisão por
         nela a Comissão não ter procedido da mesma forma.
      
      182   Além do mais, há que distinguir o caso vertente do processo dos tubos com revestimento térmico invocado pela recorrente. Com
         efeito, neste último caso, a Comissão entendeu efectivamente, no considerando 152 da sua decisão, que durante um período de
         seis meses, compreendido entre o mês de Outubro de 1993 e o mês de Março de 1994, o acordo, qualificado como infracção única
         e continuada, tinha sido suspenso. A este respeito, a Comissão teve em conta o facto de, por um lado, os produtores terem
         declarado que uma «guerra de preços» tinha estalado e que o nível dos preços nos principais mercados tinha, com efeito, baixado
         20% e, por outro, que, não obstante os produtores terem continuado a reunir‑se bilateral ou trilateralmente durante esse período,
         nenhum pormenor, com excepção do pedido de compensação apresentado pela Tarco e recusado pela Lögstör, estava disponível quanto
         ao objecto dessas reuniões (considerando 52).
      
      183   No caso vertente, embora seja exacto que ressalta, da nota da Nippon Soda de 5 de Maio de 1990 que a Degussa praticou temporariamente
         uma baixa dos preços da metionina, a semelhança com o processo dos tubos com revestimento térmico não pode passar dessa simples
         observação. Com efeito, ao contrário da situação que prevaleceu neste último processo, a Comissão dispunha, no caso vertente,
         de elementos concludentes que demonstravam que, não obstante os participantes no acordo não terem chegado a acordar um aumento
         de preços antes, o mais tardar, do mês de Novembro de 1990, as reuniões realizadas entre o fim de 1988 e o mês de Novembro
         de 1990, em que a recorrente participou, tinham por objecto acordar uma reacção comum face à entrada da Monsanto no mercado
         e trocar informações relativas às actividades desta última, aos volumes de vendas e aos preços da metionina, como ficou anteriormente
         demonstrado.
      
      184   Além disso, ao contrário do que se apurou no processo dos tubos com revestimento térmico, resulta da declaração da Rhône‑Poulenc
         de 26 de Maio de 1999 que a queda dos preços da metionina a partir do Verão de 1989 se deveu, não ao facto de os participantes
         no acordo terem restabelecido uma livre concorrência entre eles, mas à chegada da Monsanto e da MHA ao mercado, bem como à
         baixa generalizada da procura. Resulta igualmente da nota da Nippon Soda de 5 de Dezembro de 1990 que foi precisamente para
         retomar clientes à Monsanto que a Degussa, num primeiro momento, baixou os seus preços e que, de seguida, propôs aos participantes
         no acordo o aumento dos preços para Julho de 1990, tendo a própria Monsanto anunciado o aumento dos seus preços em Julho de
         1990.
      
      185   Por último, como anteriormente foi verificado, a Comissão provou devidamente que um acordo no sentido de aumentar os preços
         tinha sido celebrado no fim do Verão e/ou em Novembro de 1990, o qual tinha sido seguido de reuniões trimestrais em que eram
         trocadas informações sobre o mercado e eram fixados preços‑alvo.
      
      186   Face aos elementos de prova produzidos pela Comissão, o argumento da recorrente de que a infracção foi, no mínimo, suspensa
         entre 1988 e 1992 deve, pois, ser rejeitado. Porém, esta conclusão não prejudica a questão dos efeitos concretos da infracção
         no mercado durante esse período.
      
      187   Resulta das considerações expostas que o segundo fundamento deve ser julgado improcedente na sua totalidade.
      III –  Quanto ao terceiro fundamento, relativo a erros de apreciação, a um erro de direito e de facto, a violação dos princípios
            da proporcionalidade, da igualdade de tratamento e da não retroactividade das penas, bem como do dever de fundamentação na
            determinação do montante da coima
      188   O terceiro fundamento divide‑se, no essencial, em quatro partes, relativas, respectivamente, à gravidade da infracção, ao
         aumento da coima para garantir um efeito dissuasivo suficiente, à cooperação da recorrente e à violação do princípio da não
         retroactividade das penas.
      
      A –  Quanto à gravidade da infracção
      189   A recorrente invoca, no essencial, três argumentos, extraídos, primeiramente, da falta de fundamentação na determinação da
         gravidade da infracção, em segundo lugar, num erro de apreciação quanto à extensão do mercado geográfico em questão e, em
         terceiro lugar, num erro de apreciação quanto ao impacto da infracção no mercado.
      
      1.     Quanto à fundamentação da gravidade da infracção
      a)     Argumentos das partes
      190   A recorrente alega, no essencial, que a apreciação, por parte da Comissão, da natureza muito grave da infracção não está suficientemente
         fundamentada, nomeadamente no que respeita ao facto de o montante de base da coima, ou seja 35 milhões de EUR, ser superior
         ao mínimo previsto nas orientações para as infracções qualificadas como muito graves, ou seja, 20 milhões de EUR. A recorrente
         sustenta, em especial, que, de acordo com o princípio da legalidade das penas, a Comissão deveria ter efectuado uma ponderação
         dos diversos elementos apurados para qualificar a infracção como muito grave e fixar o referido montante de base.
      
      191   A Comissão entende que este argumento é infundado.
      b)     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      192   Resulta de jurisprudência assente que a fundamentação duma decisão individual deve deixar transparecer, de forma clara e inequívoca,
         o raciocínio da instituição autora do acto, de modo a permitir aos interessados conhecer as razões da medida adoptada e ao
         órgão jurisdicional competente exercer o seu controlo. A exigência de fundamentação deve ser apreciada em função das circunstâncias
         do caso. Não é exigido que a fundamentação especifique todos os elementos de facto e de direito pertinentes, na medida em
         que a questão de saber se a fundamentação de um acto preenche os requisitos do artigo 253.° CE deve ser apreciada à luz não
         só do teor do acto em causa, mas também do contexto em que esse acto foi adoptado (acórdão do Tribunal de Justiça de 2 de
         Abril de 1998, Comissão/Sytraval e Brink's France, C‑367/95 P, Colect., p. I‑1719, n.° 63).
      
      193   No que respeita, em especial, ao cálculo do montante das coimas aplicadas pela Comissão por infracção ao direito comunitário
         da concorrência, recorde‑se que, segundo a jurisprudência, os requisitos da formalidade essencial que o dever de fundamentação
         constitui estão preenchidos quando a Comissão indica, na sua decisão, os elementos de apreciação que lhe permitiram medir
         a gravidade e a duração da infracção (acórdão do Tribunal de Justiça de 16 de Novembro de 2000, Sarrió/Comissão, C‑291/98 P,
         Colect., p. I‑9991, n.° 73). Por outro lado, o alcance do dever de fundamentação deve ser determinado à luz do facto de que
         a gravidade das infracções deve ser apurada em função de um grande número de elementos, e isto sem que tenha sido fixada uma
         lista vinculativa ou exaustiva de critérios que devam obrigatoriamente ser tomados em consideração (despacho SPO e o./Comissão,
         referido no n.° 45 supra, n.° 54; acórdãos do Tribunal de Primeira Instância LR AF 1998/Comissão, referido no n.° 46 supra, n.° 378, e de 30 de Setembro de 2003, Atlantic Container Line e o./Comissão, T‑191/98, T‑212/98 a T‑214/98, Colect., p. II‑3275,
         n.° 1532).
      
      194   Recorde‑se também que o dever de fundamentação não impõe à Comissão que indique na sua decisão os elementos numéricos relativos
         ao modo de cálculo das coimas, mas unicamente os elementos de apreciação que lhe permitiram medir a gravidade e a duração
         da infracção (acórdãos Sarrió/Comissão, referido no n.° 193 supra, n.os 73 e 76, e Atlantic Container Line e o./Comissão, referido no n.° 193 supra, n.° 1558).
      
      195   Ora, no caso vertente, verifica‑se que a Comissão, antes de mais, explicou, nos considerandos 271 a 275 da decisão, que, como
         a infracção consistiu em práticas de partilha do mercado e de fixação de preços, principal factor de concorrência, a mesma
         devia, por natureza, ser qualificada como muito grave. De seguida, a Comissão indicou, nos considerandos 276 a 291, os motivos
         por que entendia que a infracção tinha tido uma incidência real no mercado. Depois, a Comissão referiu, no considerando 292,
         que o mercado geográfico em causa era constituído por toda a Comunidade e, após a sua criação, pela totalidade do EEE. Por
         último, explicou, nos considerandos 294 a 300, que importava ter em conta a capacidade real das empresas de causar um prejuízo
         importante à concorrência e, assim, tendo em conta as quotas de mercado dos participantes no acordo, constituir duas categorias
         de empresas, compreendendo a primeira a Degussa e a Rhône‑Poulenc, e a segunda a Nippon Soda. Daí, a Comissão inferiu, no
         considerando 302, que o montante de base das coimas em função da gravidade da infracção deveria ser fixado em 35 milhões de
         EUR tratando‑se da Degussa e da Rhône‑Poulenc e em 8 milhões de EUR tratando‑se da Nippon Soda.
      
      196   Assim, à luz dos elementos de facto que descrevem o funcionamento do acordo apresentados nos considerandos 79 a 185, há que
         concluir que a Comissão explicou de forma bastante os motivos que, em seu entender, justificavam a qualificação de infracção
         «muito grave». Com efeito, em conformidade com a jurisprudência atrás referida nos n.os 193 e 194, a exigência de fundamentação não impõe à Comissão que precise a ponderação aritmética dos critérios considerados
         na determinação da gravidade da infracção. O argumento da recorrente de que a Comissão, ao não indicar a ponderação dos critérios
         adoptados a esse respeito, ou seja, a natureza da infracção, a extensão do mercado geográfico em questão e a incidência real
         da infracção no mercado, violou o princípio da legalidade, de que o dever de fundamentação constitui uma das expressões, deve,
         pois, ser rejeitado.
      
      197   Por último, quanto ao argumento da recorrente de que a decisão não indica os motivos que justificam a fixação de um montante
         superior ao montante mínimo previsto nas orientações para as infracções muito graves, recorde‑se que, em conformidade com
         o ponto 1, A, terceiro travessão, das referidas orientações, cuja legalidade não é contestada pela recorrente, os montantes
         de base «previstos» para uma infracção qualificada como muito grave são «superiores a 20 milhões de [EUR]». Desta forma, a
         Comissão pretendeu reservar‑se, de acordo com o amplo poder de apreciação de que dispõe em matéria de coimas, a possibilidade
         de fixar montantes de base superiores a esse montante, em função das circunstâncias de cada caso concreto. Nestas circunstâncias,
         não há motivo para exigir à Comissão que exponha os motivos específicos que a levaram a decidir fixar um montante de base
         superior a 20 milhões de EUR, uma vez que a sua decisão deixa transparecer, de forma bastante, os motivos que justificam,
         por só, a fixação do montante de base ao nível determinado pela referida decisão. Ora, como resulta do n.° 196 supra, é forçoso concluir que a Comissão explicou de forma bastante os motivos que, em seu entender, justificavam que o montante
         de base da coima em função da gravidade da infracção seja fixado em 35 milhões de EUR.
      
      198   O argumento da recorrente relativo à falta de fundamentação da qualificação da infracção como muito grave e da fixação do
         montante de base da coima em função da gravidade da infracção em 35 milhões de EUR deve, portanto, ser julgado improcedente.
      
      2.     Quanto à extensão do mercado geográfico em causa
      a)     Argumentos das partes
      199   A recorrente sustenta que, ao contrário do que a Comissão afirma na sua contestação, resulta implicitamente de determinadas
         passagens da decisão que o acordo foi considerado mundial. Com efeito, a Comissão indicou, nomeadamente, que aumentos de preços
         tinham sido discutidos «para cada região e país» (considerando 128) e fez referência a outras regiões do mundo para além do
         EEE ao longo de toda a decisão (considerandos 138, 139, 155 e 158). Ora, por um lado, esta afirmação não é minimamente alicerçada
         em elementos de prova. Por outro lado, ao considerar o facto de a infracção ser de alcance mundial, a Comissão violou o princípio
         ne bis in idem e acabou por efectuar uma avaliação desproporcionada das repercussões do acordo.
      
      200   A Comissão considera que esta argumentação é improcedente.
      b)     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      201   O Tribunal observa que, não obstante determinadas passagens da decisão mencionarem brevemente discussões sobre outros países
         para além dos europeus (v., nomeadamente, considerandos 87, 138 e 139), no entanto, resulta claramente do considerando 2 da
         decisão que a Comissão considerou a infracção verificada apenas em relação ao EEE. Isso está confirmado no considerando 292,
         a propósito da apreciação da dimensão do mercado geográfico em causa.
      
      202   É, pois, inexacto afirmar, como o faz a recorrente, que a Comissão considerou que o acordo tinha alcance mundial. De qualquer
         forma, mesmo que se admita que foi esse o caso, há que observar que, na determinação do montante da coima, explicada nos considerandos
         268 a 312, a Comissão não teve de modo nenhum em conta o eventual alcance mundial do acordo, sendo os escassos elementos,
         atrás referidos, que poderiam comprovar esse alcance figuram, a título incidental, apenas na parte em que se descreve o funcionamento
         do acordo (considerandos 79 a 185). Pelo contrário, resulta nomeadamente dos considerandos 272, 275 e 293 e da própria epígrafe
         da rubrica relativa ao «[i]mpacto efectivo da infracção sobre o mercado da metionina no EEE», que só as características da
         infracção relativas ao mercado e, na sequência da sua criação, ao EEE foram tomadas em conta para efeitos da determinação
         do montante da coima.
      
      203   Conclui‑se, assim, que a Comissão não atendeu, ao contrário do que sustenta a recorrente, à circunstância agravante relativa
         à alegada dimensão mundial do acordo. Por isso, o presente argumento deve ser rejeitado.
      
      3.     Quanto à apreciação do impacto da infracção no mercado
      a)     Argumentos das partes
      204   A recorrente entende que a Comissão não fez prova bastante do impacto concreto que a infracção teve no mercado.
      205   A recorrente observa que o acordo não previa nenhum mecanismo de subida dos preços e que apenas eram definidos preços‑alvo.
         Da mesma forma, não existiu nenhum mecanismo de repartição de quotas, volumes ou clientes, nem mecanismos de fiscalização
         e compensação para assegurar a observância dos preços‑alvo.
      
      206   A recorrente sublinha também que a Comissão, embora observasse que a não participação da Novus no acordo impedia que os preços‑alvo
         fossem alcançados (considerandos 276 e seguintes) e que, apesar da infracção, os preços tinham baixado de 1992 a 1997 (considerandos
         287 e seguintes), considerou, sem razão, que estas circunstâncias não demonstravam que a execução dos acordos não tinha influenciado
         a estrutura e as flutuações dos preços no mercado da metionina e, por isso, avaliou erradamente as repercussões concretas
         da infracção no mercado.
      
      207   Ao limitar‑se a verificar o impacto da infracção no mercado, a Comissão violou as orientações, que prevêem, no ponto 1 A,
         terceiro parágrafo, quanto às categorias de infracção em função da sua gravidade, que «[n]o interior de cada uma destas categorias,
         e nomeadamente no âmbito das categorias infracções graves e muito graves, a escala das sanções permitirá diferenciar o tratamento
         a aplicar às empresas em função da natureza das infracções cometidas». Da mesma forma, ainda que admita que a infracção constitui
         uma situação de facto complexa que se adaptou, ao longo dos anos, às condições reais do mercado, a Comissão não procedeu de
         modo nenhum a uma diferenciação das repercussões concretas dessa situação complexa.
      
      208   Ao não produzir provas do impacto concreto do acordo, a Comissão desrespeitou, assim, os requisitos relativos ao ónus da prova.
         Com efeito, a recorrente sublinha que, no considerando 287 da decisão, a Comissão indica que as empresas participantes não
         produziram provas de que a aplicação do acordo não tinha influenciado a fixação e flutuação dos preços no mercado da metionina.
         Ora, cabe precisamente à Comissão provar quer a amplitude do impacto quer a própria existência da infracção (acórdãos Hüls/Comissão,
         referido no n.° 115 supra, n.° 154, e Baustahlgewebe/Comissão, referido no n.° 101 supra, n.° 58). Uma vez que, segundo a recorrente, a Comissão não provou o impacto concreto da infracção no mercado, há que considerar
         que esse impacto não existiu e que, portanto, o montante da coima deveria ter sido inferior. Nestas circunstâncias, a recorrente
         entende que só o montante mínimo previsto para as infracções muito graves teria sido aceitável, ou seja, 20 milhões de EUR.
      
      209   A Comissão entende que esta argumentação é infundada.
      210   A Comissão observa, antes de mais, que de modo nenhum afirmou, na parte da decisão relativa à incidência real da infracção,
         que existiam mecanismos quer de aumento quer de repartição de quotas, de volumes ou de clientes quer ainda de vigilância e
         de compensação para assegurar o respeito dos preços‑alvo, pelo que os argumentos da recorrente a este respeito carecem de
         objecto.
      
      211   De seguida, a Comissão alega, para além do seu efeito concreto no mercado, ela não teve em conta a natureza da infracção e
         a extensão do mercado geográfico em questão, os quais não foram contestados pela recorrente.
      
      212   Além disso, recorda que os acordos anticoncorrenciais foram aplicados e os preços indicativos eram geralmente anunciados aos
         clientes através da imprensa especializada. Ora, esses anúncios têm necessariamente incidência sobre o mercado (acórdão do
         Tribunal de Primeira Instância de 14 de Maio de 1998, Cascades/Comissão, T‑308/94, Colect., p. II‑925, n.° 177). De resto,
         os esforços dos participantes para inverter a queda dos preços na sequência da chegada da Monsanto ao mercado e da baixa da
         procura foram coroados de êxito.
      
      213   A Comissão conclui daqui que não há dúvida que o acordo teve uma incidência real no mercado, susceptível de ser avaliada,
         se bem que seja impossível determinar em que medida os preços efectivos se afastaram dos preços que teriam sido praticados
         se não tivesse havido colusão. Com efeito, as orientações prevêem que a Comissão tome em consideração o impacto concreto da
         infracção no mercado e não a amplitude desse impacto.
      
      b)     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      214   Antes de mais, refira‑se que a Comissão, embora não tenha invocado expressamente as orientações na decisão, determinou o montante
         da coima aplicada à recorrente através do método de cálculo que a ela própria se impôs.
      
      215   Ora, nos termos das orientações (ponto 1 A, primeiro parágrafo), «[a] avaliação do grau de gravidade da infracção deve ter
         em consideração [...] o seu impacto concreto no mercado quando este for quantificável».
      
      216   Da mesma forma, em conformidade com a jurisprudência, a Comissão é obrigada a proceder a esse exame quando se verificar que
         esse impacto é quantificável (acórdão Archer Daniels Midland e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão, referido no n.° 53
         supra, n.° 143).
      
      217   Foi neste contexto que a Comissão se baseou no facto de a infracção ter tido, em seu entender, uma incidência no mercado da
         metionina no EEE (considerandos 276 a 291).
      
      218   A título preliminar, há que considerar que, no caso vertente, para efeitos de controlo da apreciação, efectuada pela Comissão,
         dos efeitos da infracção, basta examinar a sua apreciação dos efeitos do acordo nos preços.
      
      219   Com efeito, por um lado há que observar que, embora a infracção tenha sido descrita pela Comissão como um acordo destinado
         a manter ou aumentar os preços, no âmbito do qual eram trocadas informações sobre os volumes de vendas e quotas de mercado,
         o impacto da infracção no mercado foi apreciado unicamente do ponto de vista dos seus efeitos nos preços. Por outro lado,
         o exame dos efeitos do acordo sobre os preços permite, de qualquer modo, verificar se foi alcançado o objectivo prosseguido
         pelas trocas de informações sobre os volumes de vendas e as quotas de mercado, atendendo a que esse intercâmbio se destinava
         precisamente a permitir a aplicação efectiva do acordo sobre os preços (v., neste sentido, acórdão Archer Daniels Midland
         e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão, referido no n.° 53 supra, n.° 148, e jurisprudência citada).
      
      220   Além disso, em resposta à argumentação da recorrente segundo a qual a falta, não contestada pela Comissão no âmbito do presente
         argumento, de mecanismos de aumento dos preços, de repartição dos volumes ou dos clientes, de vigilância e de compensação
         demonstra a inexistência de efeitos concretos da infracção no mercado, observe‑se que a falta desses mecanismos, ainda que
         seja susceptível de dar uma explicação à inexistência de efeitos concretos da infracção nos preços, caso a inexistência desses
         efeitos fosse constatada, não permite, no entanto, presumir que a infracção não os teve. Por isso, há que examinar os elementos
         invocados pela Comissão para demonstrar a existência desse impacto.
      
      221   A este respeito, a Comissão considerou que, durante todo o período de duração do acordo, os seus membros conseguiram manter
         os preços a um nível superior àquele que teria prevalecido sem os acordos ilícitos (considerando 289).
      
      222   Ora, recorde‑se que, na determinação da gravidade da infracção, há que ter em conta, designadamente, o contexto regulamentar
         e económico do comportamento censurado (acórdãos Suiker Unie e o./Comissão, referido no n.° 101 supra, n.° 612, e Ferriere Nord/Comissão, referido no n.° 45 supra, n.° 38). A este respeito, resulta da jurisprudência que, para apreciar o impacto concreto de uma infracção no mercado, cabe
         à Comissão tomar como referência o jogo da concorrência que normalmente existiria se não houvesse a infracção (v., neste sentido,
         acórdãos Suiker Unie e o./Comissão, referido, n.os 619 e 620; acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 14 de Maio de 1998, Mayr‑Melnhof/Comissão, T‑347/94, Colect., p. II‑1751,
         n.° 235, e de 11 de Março de 1999, Thyssen Stahl/Comissão, T‑141/94, Colect., p. II‑347, n.° 645).
      
      223   Daqui se conclui que, no caso de acordos sobre os preços, a verificação, pela Comissão, de que os acordos efectivamente permitiram
         às empresas em causa alcançar um nível de preços de transacção superior ao que teria prevalecido se o acordo não existisse,
         autoriza a Comissão a ter em conta, na determinação do montante da coima, a importância dos efeitos nefastos da infracção
         no mercado e, assim, fixar o montante da coima, atenta a gravidade da infracção, a um nível superior ao que teria sido fixado
         na falta dessa verificação.
      
      224   No quadro dessa apreciação, a Comissão deve atender a todas as condições objectivas do mercado em causa, tendo em conta o
         contexto económico e eventualmente regulamentar que prevalece. Há que ter em conta a existência, se for caso disso, de «factores
         económicos objectivos» que realcem que, no âmbito do «livre jogo da concorrência», o nível de preços não teria evoluído de
         modo idêntico ao dos preços praticados (acórdãos Cascades/Comissão, referido no n.° 212 supra, n.os 183 e 184, e Mayr‑Melnhof, referido no n.° 222 supra, n.os 234 e 235).
      
      225   No caso vertente, a Comissão invocou três elementos essenciais para sustentar as suas conclusões quanto à incidência real
         do acordo no nível dos preços.
      
      226   Em primeiro lugar, a Comissão considerou, por um lado, que a infracção tinha sido cometida por empresas que, na época dos
         factos, «detinham a maior parte» do mercado e, por outro, que atendendo a que os acordos postos em evidência se destinavam
         especificamente a elevar os preços para um nível superior àquele que eles teriam alcançado de outro modo e a restringir as
         quantidades vendidas e que tinham sido aplicados de forma continuada durante mais de dez anos, esses acordos tinham necessariamente
         tido uma incidência real no mercado (considerandos 276, 278, 281 e 287).
      
      227   A este respeito, a Comissão observou que os acordos colusórios foram aplicados e que as partes trocaram os seus dados de vendas
         durante todo o período de duração do acordo, a fim de acordarem novos objectivos de preços. A Comissão acrescenta que os novos
         objectivos de preços eram efectivamente anunciados aos clientes através da imprensa especializada (considerando 278).
      
      228   Em segundo lugar, a Comissão notou que, durante os primeiros anos do acordo, os participantes procuram, acima de tudo, aumentar
         os preços da metionina. Com a chegada da Monsanto ao mercado, em 1989, e a diminuição geral da procura, a tendência dos preços
         para a descida foi invertida graças aos esforços conjugados dos membros do acordo. Posteriormente, os esforços destas centraram‑se
         na manutenção dos preços existentes (considerando 279).
      
      229   Isto é confirmado por uma nota apresentada pela Nippon Soda relativa a uma reunião realizada em 17 de Maio de 1993, da qual
         ressalta que os preços no mercado de metionina estavam a aumentar. A Degussa conseguiu vender metionina ao preço de 6,80 DEM/kg
         a um dos seus maiores clientes, a Cebeco. Ora, antes da reunião de 7 de Novembro de 1990, os preços situavam‑se ainda em 2,50 USD/kg
         [4,03 DEM/kg]. Além disso, na reunião de Novembro de 1990, os membros do acordo concordaram em aumentar os preços de 2,50 USD/kg
         para 2,80 USD/kg (4,51 DEM/kg). A Nippon Soda refere preços mais elevados: o primeiro aumento, relativo a Janeiro de 1991,
         deveria elevar os preços para 3,30‑3,50 USD/kg [ou seja, a um valor médio de 5,10 DEM/kg, segundo as informações da própria
         Nippon Soda, e um escalão de preços de 5,31‑5,64 DEM/kg, com base nos dados do Serviço de Estatística das Comunidades Europeias
         (Eurostat)] e o segundo para 3,60‑3,70 USD/kg (5,80‑5,92 DEM/kg) (considerando 280).
      
      230   Em terceiro e último lugar, a Comissão observou, no considerando 290 que é difícil conceber que as partes tivessem repetidamente
         acordado em reunir‑se em diferentes locais no mundo inteiro para fixar objectivos de preços durante o período da infracção,
         tendo em conta os riscos que isso envolvia, se tivessem tido a impressão de que o acordo tinha um impacto reduzido ou nulo
         no mercado da metionina.
      
      231   Antes de mais, refira‑se que, como a Comissão observa, no essencial, no considerando 277 da decisão, a prova dos efeitos concretos
         de uma infracção no mercado pode, em determinados casos, revelar‑se particularmente difícil, tendo em conta que essa prova
         implica a comparação entre a situação resultante dessa infracção com a situação que se verificaria se a mesma não tivesse
         existido, a qual é por natureza hipotética. A este respeito, há que ter em conta, na apreciação dos elementos em que a Comissão
         se baseou para demonstrar o impacto no mercado, por um lado, que a infracção remonta parcialmente a um período recuado (a
         Comissão fixou como data do início da infracção, data essa não contestada pela recorrente, o princípio de 1986) e, por outro,
         no que respeita ao período posterior a 1993, que a tendência dos preços era de baixarem (devido nomeadamente à concorrência
         exercida pela Novus), o que implica que a Comissão tinha de demonstrar não que os preços aumentavam devido à colusão, mas
         que, teriam baixado relativamente ao seu nível real se esta não existisse.
      
      232   Quanto à primeira série de elementos referidos pela Comissão, não se pode deixar de observar que tanto o facto de as partes
         no acordo deterem uma quota maioritária do mercado como a circunstância de os acordos postos em evidência se destinarem especificamente
         a aumentar os preços para um nível superior ao que de contrário teriam alcançado e a restringir as quantidades vendidas, factos
         estes que têm aliás que ver com o objecto do cartel e não com os seus efeitos, constituem tão‑só indicações no sentido de
         demonstrar que a infracção era susceptível de gerar efeitos anticoncorrenciais significativos, mas não que tenha realmente
         sido esse o caso. Além disso, sublinhe‑se que, segundo as conclusões da própria Comissão, a quota de mercado dos membros do
         acordo tinha diminuído progressivamente a partir da entrada da Monsanto no mercado, para atingir os 60% à data do termo da
         infracção, ao passo que a Novus (anteriormente Monsanto) se tinha tornado, durante esse período, no primeiro produtor mundial
         de metionina, com mais de 30% de quotas de mercado (considerando 44), o que, de resto, suscitou a inquietação dos referidos
         membros a partir do fim de 1993 (considerando 150).
      
      233   Todavia, refira‑se ainda que a Comissão fez prova bastante de que os acordos foram aplicados, nomeadamente, nos termos do
         considerando 278, de que os preços eram ajustados em função das condições do mercado (considerandos 88, 128, 130, 139, 150
         e 154) e de que, especialmente nos períodos compreendidos entre 1986 e 1988 e entre 1992 e 1995, os novos objectivos de preços
         eram efectivamente anunciados aos clientes através da imprensa especializada (considerandos 88, 136, 157 e 167). Ora, como
         alega a Comissão, tais anúncios de preços têm, por natureza, incidências no mercado e no comportamento dos diferentes actores,
         tanto do lado da oferta como do da procura, atendendo a que esses anúncios influenciam o processo de determinação dos preços,
         porquanto o preço anunciado constitui uma referência em caso de negociação individual dos preços de transacção com os clientes
         (v., neste sentido, acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 14 de Maio de 1998, Finnboard/Comissão, T‑338/94, Colect.,
         p. II‑1617, n.° 342), que viram necessariamente a sua margem de negociação dos preços limitada (v., neste sentido, acórdão
         de 20 de Abril de 1999, Limburgse Vinyl Maatschappij e o./Comissão, referido no n.° 132 supra, n.° 745).
      
      234   Em contrapartida, refira‑se que a aplicação de acordos colusórios sobre os preços e o anúncio de objectivos de preços não
         foi demonstrada para o período compreendido entre o Outono de 1988 e o Verão de 1990, e isto não obstante a Comissão admitir
         que a entrada da Monsanto no mercado causou nessa época, perturbação entre os participantes (considerando 100).
      
      235   De seguida, no que respeita à análise do aumento dos preços, efectuada pela Comissão no considerando 280, há que considerar
         que a mesma comprova que os objectivos de preços fixados pelos membros do cartel aumentaram entre 1990 e 1993. Com efeito,
         recorde‑se que, segundo a nota de 5 de Maio de 1990, os preços da metionina caíram substancialmente em 1989, para chegar aos
         2,00 USD/kg. Ora, como observa a Comissão, resulta das declarações da Rhône‑Poulenc que, no fim do Verão de 1990, o preço
         da metionina era de 2,50 USD/kg (4,03 DEM/kg) e deveria ser aumentado, para chegar aos 2,80 USD/kg (4,51 DEM/kg). Além disso,
         na nota da reunião de 7 de Novembro de 1990, a Nippon Soda indica que, nessa época, os preços eram da ordem dos 3,40 a 3,50 USD/kg
         na zona de prevalência do marco alemão. Por último, na nota de 17 de Maio de 1993, a Nippon Soda indica que a tendência dos
         preços era para a subida e que a Degussa tinha vendido metionina, no segundo trimestre de 1993, a um dos seus clientes ao
         preço de 6,80 DEM/kg. Além disso, resulta dos considerandos 132 a 152, cujo teor não é contestado pela recorrente, que de
         1992 a 1993 os objectivos de preços subiram de 6,05 (considerando 132) para 6,20 DEM/kg (considerando 137), devendo este último
         valor manter‑se em vigor, se bem que com algumas excepções, até ao terceiro trimestre de 1993 (considerando 144). Ainda que
         estes objectivos nem sempre tenham sido alcançados, resulta do considerando 136 que o preço médio da metionina na Europa era
         de 5,60 DEM/kg (ou seja, 3,35 USD/kg) no quarto trimestre de 1992 e de 5,20 DEM/kg (ou seja, 3,23 USD/kg) no primeiro trimestre
         de 1993. Daqui se conclui que, a partir do Verão de 1990, embora a tendência dos preços fosse anteriormente para a descida,
         os objectivos de preços, bem como os preços de transacção aumentaram e, em certa medida, foram estabilizados, o que permitiu
         que a Comissão, com razão, inferisse que os esforços conjugados dos participantes no acordo tinham tido um impacto concreto
         no mercado durante esse período.
      
      236   No entanto, observe‑se que a Comissão não pôs em evidência da mesma forma a influência do acordo antes do Verão de 1990, o
         que a mesma parece reconhecer expressamente no que respeita, em particular, ao período compreendido entre o Outono de 1988
         e o Verão de 1990, nem tão‑pouco a sua influência na descida tendencial dos preços a partir de 1993.
      
      237   Ora, no que respeita ao período compreendido entre o Outono de 1988 e o Verão de 1990, referiu‑se atrás que, na sequência
         da retirada da Sumitomo do acordo e da chegada da Monsanto ao mercado e da diminuição generalizada da procura, o acordo sofreu
         uma certa flutuação, que se manifestou nomeadamente numa descida significativa dos preços praticados pela Degussa, que pretendia
         sobretudo recuperar quotas de mercado face à Monsanto, baixa esta que teve repercussões em todo o mercado.
      
      238   Da mesma forma, quanto ao período compreendido entre 1993 e o fim do acordo, resulta dos considerandos 152 a 179 que os objectivos
         de preços baixaram gradualmente e que os participantes verificaram que aqueles não eram alcançados (considerandos 152, 153
         e 160). Além disso, não se pode deixar de observar que a própria Comissão admitiu que os objectivos de preços não tinham sido
         alcançados e que os argumentos apresentados pela Degussa, ou seja, a não participação da Novus no acordo e a inexistência
         de mecanismos de aumento dos preços, de repartição dos volumes ou dos clientes e de vigilância, permitiam explicar essa circunstância
         (considerandos 284 a 287). A Comissão reconheceu igualmente que o facto de os preços da metionina terem diminuído ao longo
         do tempo ilustrava as dificuldades sentidas pelas partes para aumentar os preços numa situação de mercado difícil (considerando
         288).
      
      239   Apesar destas constatações, a Comissão concluiu, no considerando 289, que durante todo o período de duração do acordo os membros
         do cartel tinham conseguido manter os preços a um nível superior àquele que teria sido alcançado sem os acordos ilícitos.
      
      240   Finalmente, no que diz respeito ao último elemento destacado pela Comissão, reiterado no quadro do presente recurso, segundo
         o qual os participantes no acordo não se teriam reunido regularmente durante toda a duração do acordo se este não tivesse
         tido nenhum efeito no mercado, há que considerar que o mesmo se baseia em puras conjecturas e não em factores económicos objectivos.
         Carecendo de qualquer valor probatório, há que o afastar (acórdão Archer Daniels Midland e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão,
         referido n.° 53 supra, n.° 159).
      
      241   Resulta do exposto que a Comissão só parcialmente demonstrou a incidência do acordo no mercado da metionina entre 1986 e 1999.
         Em especial, a Comissão deveria ter tido em conta o facto de que, entre o Outono de 1988 e o Verão de 1990, a discórdia entre
         os membros do acordo, associada à concorrência exercida pelo novo operador no mercado e a descida generalizada da procura
         levou a uma queda significativa dos preços, pondo em causa a prova dos efeitos concretos da colusão durante esse período e
         reforçando a hipótese da inexistência dos referidos efeitos. Isto é tanto mais verdadeiro quanto ficou por demonstrar a celebração
         de qualquer acordo sobre os preços durante esse período, como se referiu quando do exame da duração da infracção.
      
      242   Ora, não resulta da decisão que a Comissão tenha tido especificamente em conta este elemento. Pelo contrário, a Comissão afirmou,
         nos considerandos 97 e 255, que as actividades do cartel prosseguiram com a mesma intensidade. Da mesma forma, resulta do
         considerando 291 que a Comissão rejeitou as objecções da recorrente a este respeito e entendeu que o comportamento desta durante
         aquele período não implicava que os participantes não tivessem aplicado o acordo colusório. No entanto, como se referiu anteriormente,
         não se pode deixar de observar que a Comissão não pôs em evidência a celebração de nenhum novo acordo sobre os preços entre
         o Outono de 1988 e o Verão de 1990, nem tão‑pouco a aplicação do acordo anterior após a retirada da Sumitomo do acordo, no
         fim de 1988.
      
      243   Além disso, note‑se que os preços da metionina baixaram gradualmente de 1993 até ao termo da infracção e que, durante esse
         período, os objectivos de preços não foram alcançados, devido nomeadamente à concorrência exercida pela Novus, a qual detinha
         uma quota de mercado superior a 30% do mercado mundial da metionina, à data do termo da infracção (25% a 26% ao nível do EEE,
         nos termos do considerando 286) e, segundo a própria opinião dos referidos membros, enunciada desde o final de 1993, estava
         em vias de se apoderar da quota mais elevada do mercado da metionina (considerando 150). Por outro lado, é certo que a Comissão
         pôs em evidência o anúncio, na imprensa especializada, dos objectivos de preços fixados pelos participantes no acordo, até
         ao início de 1995 (considerandos 136, 155, 157 e 167), devendo considerar‑se que esse anúncio teve necessariamente determinados
         efeitos no processo de fixação dos preços. Em contrapartida, sublinhe‑se que a decisão não refere nenhum anúncio de preços
         a partir daquela data. Por isso, há que considerar que a Comissão não demonstrou plenamente, ao contrário do que afirma no
         considerando 289, que após o período de 1992/1993 os preços foram mantidos a um nível superior àquele que seria alcançado
         sem os acordos ilícitos, demonstração cuja inexistência se faz sentir especialmente no que respeita ao período compreendido
         entre o início do ano de 1995 e o termo da infracção.
      
      244   Por conseguinte, cabe ao Tribunal de Primeira Instância analisar o alcance desta conclusão no âmbito da sua competência de
         plena jurisdição em matéria de coimas.
      
      4.     Conclusão quanto à determinação do montante da coima em função da gravidade da infracção
      245   Como se explicou anteriormente, há que concluir que a Comissão só parcialmente provou o impacto concreto da infracção no mercado,
         especialmente no que toca ao período compreendido entre o Outono de 1988 e o Verão de 1990 e entre 1995 e o termo da infracção.
      
      246   Ora, há que referir também que a Comissão, ainda assim, entendeu, no considerando 289, que, durante todo o período de duração
         do acordo, designadamente depois do período de 1992/1993 os membros do cartel tinham conseguido manter os preços a um nível
         superior àquele que seria alcançado sem os acordos ilícitos. Do mesmo modo, na conclusão relativa à gravidade da infracção
         (considerando 293), a Comissão levou em conta o facto de, em seu entender, o comportamento censurado aos participantes no
         acordo ter tido uma incidência real no mercado.
      
      247   Daqui se conclui que a Comissão determinou o montante da coima em função da gravidade da infracção em consideração da circunstância
         segundo a qual a referida infracção tinha tido, em seu entender, um impacto concreto no mercado, apesar de esse impacto não
         ter podido ser plenamente demonstrado para todo o período de duração do acordo.
      
      248   Nestas circunstâncias, o Tribunal de Primeira Instância considera, em virtude da sua competência de plena jurisdição em matéria
         de coimas, que há que reduzir o montante da coima, determinado em função da gravidade da infracção, o qual foi fixado pela
         Comissão no considerando 302 em 35 milhões de EUR.
      
      249   Porém, a este propósito, há que ter em conta que, como observa a Comissão, resulta do considerando 273 da decisão que a infracção
         foi qualificada como muito grave atenta a «sua própria natureza», tendo a Comissão observado que a infracção tinha consistido
         na partilha do mercado e na fixação de preços, «que constituem, pela sua própria natureza, o tipo mais grave de infracção
         ao n.° 1 do artigo 81.° [...] CE e ao n.° 1 do artigo 53.° do acordo EEE», (considerando 271). Por outro lado, a Comissão
         acrescentou, no considerando 275, que «(é) óbvio que os cartéis de fixação de preços e de repartição de mercados prejudicam,
         pela sua própria natureza, o funcionamento correcto do mercado único».
      
      250   Ora, o Tribunal de Primeira Instância já declarou, no seu acórdão de 30 de Setembro de 2003, Michelin/Comissão (T‑203/01,
         Colect., p. II‑4071, n.os 258 e 259), que a gravidade da infracção pode ser determinada por referência à natureza e ao objecto dos comportamentos abusivos
         e que, segundo jurisprudência assente, os elementos relativos ao objecto de um comportamento podem ter mais importância, para
         efeitos de fixação do montante da coima, do que os relativos aos seus efeitos (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância
         Thyssen Stahl/Comissão, referido no n.° 222 supra, n.° 636, e de 13 de Dezembro de 2001, Krupp Thyssen Stainless e Acciai speciali Terni/Comissão, T‑45/98 e T‑47/98, Colect.,
         p. II‑3757, n.° 199).
      
      251   O Tribunal de Justiça confirmou esta abordagem quando considerou que o efeito de uma prática anticoncorrencial não constitui
         um critério determinante para a apreciação do montante adequado da coima. Os elementos que dizem respeito ao aspecto intencional
         podem ter mais importância do que os relativos aos referidos efeitos, sobretudo quando estão em causa infracções intrinsecamente
         graves, como a fixação dos preços e a repartição dos mercados (acórdão do Tribunal de Justiça de 2 de Outubro de 2003, Thyssen
         Stahl/Comissão, C‑194/99 P, Colect., p. I‑10821, n.° 118).
      
      252   Além disso, recorde‑se que sempre se considerou que os acordos horizontais em matéria de preços fazem parte das infracções
         mais graves ao direito comunitário da concorrência (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância, Tate & Lyle e o./Comissão,
         referido no n.° 58 supra, n.° 103, e de 19 de Março de 2003, CMA CGM e o./Comissão, T‑213/00, Colect., p. II‑913, n.° 262).
      
      253   Por último, sublinhe‑se igualmente que a Comissão não concedeu ao critério do impacto real da infracção no mercado uma importância
         preponderante na fixação do montante de base da coima. Com efeito, a Comissão baseou igualmente a sua apreciação noutros elementos,
         nomeadamente na constatação de que a infracção devia ser qualificada como muito grave em razão da sua própria natureza (considerandos
         271 a 275) e de que o mercado geográfico em causa era constituído por toda a Comunidade e, após a sua criação, pelo EEE (considerando
         292).
      
      254   Por conseguinte, atentas as considerações precedentes, o Tribunal de Primeira Instância considera que a Comissão qualificou
         correctamente a infracção como muito grave. Porém, tendo em conta que os efeitos concretos da infracção só parcialmente foram
         demonstrados, o Tribunal de Primeira Instância considera que o montante da coima determinado em função da gravidade da infracção
         deve ser reduzido de 35 para 30 milhões de EUR.
      
      B –  Quanto ao agravamento da coima para assegurar um efeito dissuasivo suficiente
      255   A recorrente invoca, neste âmbito, em primeiro lugar, um erro de direito e um erro de facto na determinação do seu volume
         de negócios, em segundo lugar, a violação do princípio da legalidade das penas, do dever de fundamentação e dos princípios
         da proporcionalidade e da igualdade de tratamento na determinação da taxa de agravamento e, em terceiro lugar, um erro de
         apreciação quanto ao efeito dissuasivo suficiente face ao seu comportamento posterior à cessação da infracção.
      
      1.     Quanto ao erro de direito e ao erro de facto relativamente ao volume de negócios da recorrente
      a)     Argumentos das partes
      256   Em primeiro lugar, a recorrente alega que o montante do seu volume de negócios fixado pela Comissão para 2000 está errado.
         Com efeito, esse montante não é de 16,9 mas sim de 10,175 mil milhões de EUR, como a Comissão tomou conhecimento pela carta
         da recorrente de 5 de Junho de 2002 em resposta ao seu pedido de 28 de Maio de 2002. Atendendo à ligação directa entre os
         objectivos prosseguidos através do agravamento da coima e o volume de negócios da empresa, o erro cometido pela Comissão consiste
         em esta última ter deixado de lado circunstâncias essenciais que, a serem tidas em conta, a teriam levado a tomar outra decisão.
         Por isso, a Comissão cometeu um erro de apreciação susceptível de justificar a anulação da decisão.
      
      257   Em segundo lugar, a recorrente entende que a Comissão considerou, sem razão, para o cálculo do montante da coima, a situação
         da nova empresa Degussa AG (Düsseldorf). Com efeito, esta última resultou da fusão da Degussa‑Hüls com a SKW, realizada em
         2000 (v. n.° 1, supra), ou seja, segundo a recorrente, posteriormente à cessação da infracção. Além disso, a Degussa‑Hüls é ela própria o resultado
         da fusão entre a Degussa AG (Frankfurt‑am‑Main) e a Hüls AG (Marl), realizada em 1998 (v. o mesmo número), ou seja, também
         posteriormente ao comportamento anticoncorrencial censurado, segundo a recorrente. Assim, o autor da infracção foi a Degussa
         AG (Frankfurt‑am‑Main), empresa a que a Comissão se deveria ter referido quando calculou o montante da coima. Ora, o volume
         de negócios desta empresa ascendeu a 15,905 mil milhões de DEM no exercício de 1997/1998. 
      
      258   A recorrente admite que a nova entidade económica resultante da fusão é, em princípio, responsável pelas infracções cometidas
         anteriormente pelas entidades que se fundiram. Porém, esta responsabilidade limita‑se à infracção original e aos danos por
         ela causados. Ao tomar em consideração o volume de negócios da entidade resultante da fusão, a Comissão violou, pois, o «princípio
         da culpabilidade» (nulla poena sine culpa), reconhecido pelos ordenamentos jurídico‑penais dos Estados‑Membros e pelo artigo 6.°, n.° 2, da CEDH, bem como pelo artigo
         49.°, n.° 3, da Carta, segundo o qual a sanção aplicada deve ser proporcionada à culpabilidade da empresa que dela seja objecto.
         a jurisprudência do Tribunal de Justiça reconheceu igualmente este princípio, que resulta, em parte, do princípio da proporcionalidade,
         como elemento determinante da intensidade da pena (acórdãos do Tribunal de Justiça de 19 de Outubro de 1983, Lucchini/Comissão,
         179/82, Recueil, p. 3083, n.° 27; de 14 de Fevereiro de 1984, Alfer/Comissão, 2/83, Recueil, p. 799, n.os 17 e 18; e de 17 de Maio de 1984, Estel/Comissão, 83/83, Recueil, p. 2195, n.os 39 e segs.).
      
      259   A recorrente deduz do facto de o objectivo da coima ser tanto reprimir comportamentos ilícitos como prevenir a sua reincidência
         (acórdão do Tribunal de Justiça de 15 de Julho de 1970, Chemiefarma/Comissão, 41/69, Colect., p. 447, n.os 172 a 176) que a infracção constitui o pressuposto quer da existência da sanção quer da sua intensidade.
      
      260   Por conseguinte, ao considerar a situação da empresa posteriormente à época em que foi cometida a infracção, a Comissão baseou
         o cálculo do montante da coima unicamente no objectivo de dissuasão e prevenção, sem levar em conta a relação entre a sanção
         e a gravidade dos danos causados.
      
      261   Quanto ao primeiro destes argumentos, a Comissão reconhece que o volume de negócios mundial da recorrente em 2000 era de 10,715
         mil milhões de EUR, segundo os dados fornecidos na carta de 5 de Junho de 2002. Porém, afirma que este número está manifestamente
         errado.
      
      262   A este respeito, em primeiro lugar, a Comissão recorda que a recorrente indicou, no seu relatório de actividades de 2000,
         um volume de negócios de 16,9 mil milhões de EUR. Este número foi reproduzido na comunicação de acusações e posteriormente,
         dado não ter suscitado objecções por parte da recorrente na resposta à referida comunicação, na decisão.
      
      263   Em segundo lugar, a Comissão sublinha que o relatório de actividades e o relatório de gestão para o ano de 2000 mencionam
         um volume de negócios pro forma de 20,3 mil milhões de EUR e um volume de negócios, excluída a compra e venda de metais preciosos, de 16,9 mil milhões de
         EUR. O resumo da conta de lucros e perdas do grupo Degussa, que inclui os resultados da Degussa‑Hüls entre 1 de Janeiro e
         31 de Dezembro de 2000 e os da SKW de 1 de Julho a 31 de Dezembro de 2000, apresenta receitas de 18,198 mil milhões de EUR
         em 31 de Dezembro de 2000. A Comissão deduziu daí que o volume de 10,715 mil milhões de EUR, adiantado pela recorrente na
         sua carta de 5 de Junho de 2002 e apresentado como o volume de negócios da Degussa‑Hüls, incluindo o volume de negócios realizado
         pela SKW nos seis meses seguintes à fusão destas duas empresas, está errado.
      
      264   Além disso, a recorrente indicou, no seu relatório de gestão, que a avaliação pro forma, uma vez que abrange os resultados da Degussa‑Hüls e da SKW para um período de doze meses, devia ser considerada «mais significativa
         do ponto de vista económico» do que a apreciação em boa e devida forma, a qual contabiliza os resultados da SKW unicamente
         para um período de seis meses. A gestão interna e orientação estratégica da empresa foram, assim, estabelecidas com base nestes
         dados. Nestas circunstâncias, a Comissão considera que a recorrente não a pode censurar por ter levado em conta números que
         ela própria considerava economicamente mais significativos e punha em evidência no seu relatório de actividades destinado
         ao público.
      
      265   De qualquer modo, a Comissão alega que a tomada em consideração do volume de negócios com exclusão dos resultados pro forma (da ordem dos 2 mil milhões de EUR) da SKW para o primeiro semestre de 2000 teria levado a um resultado pouco diferente.
      
      266   Por último, a Comissão supõe que a recorrente pretende alegar o facto de a fusão da Degussa‑Hüls com a SKW só ter sido inscrita
         no registo comercial em 9 de Fevereiro de 2001 e que, por isso, só o volume de negócios da Degussa‑Hüls, que era talvez de
         10,715 mil milhões de EUR, podia ser tomado em conta para o exercício de 2000. A Comissão observa, por um lado, que nesse
         caso a recorrente não deveria ter indicado, na sua carta de 5 de Junho de 2002, que o montante de 10,715 mil milhões de EUR
         incluía o volume de negócios da SKW realizado nos seis meses seguintes à fusão com a Degussa‑Hüls e, por outro, que, segundo
         o relatório de actividades da recorrente, as duas sociedades se fundiram com efeitos retroactivos a 30 de Junho de 2000, como
         de resto o comprova o facto de a recorrente ter podido organizar as contas do grupo em 31 de Dezembro de 2000, cumulando as
         da Degussa‑Hüls e as da SKW.
      
      267   Quanto ao segundo desses argumentos, em primeiro lugar, a Comissão alega que teve em conta, no cálculo do montante da coima
         em função da gravidade da infracção, além do volume de negócios da recorrente, a participação desta numa infracção muito grave
         (considerando 293) e a quota de mercado da recorrente a nível mundial e ao nível do EEE em 1998.
      
      268   Em segundo lugar, a Comissão observa que a infracção prosseguiu até Fevereiro de 1999, ou seja, posteriormente à fusão da
         Degussa com a Hüls (considerando 306). A este respeito, a recorrente mencionou, no procedimento administrativo, um volume
         de negócios de 12,354 mil milhões de EUR correspondentes ao exercício de 1998/1999.
      
      269   Ora, segundo a Comissão, um volume de negócios de 8,1, 10,715, 12,354 ou 16,9 mil milhões de EUR justifica, em qualquer caso,
         a qualificação de grande empresa atribuída à recorrente e, portanto, um agravamento da coima pelos motivos expostos no considerando
         303.
      
      b)     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      270   No essencial, a recorrente acusa a Comissão de, por um lado, ter cometido um erro de facto quanto ao montante do seu volume
         de negócios para o ano de 2000 e, por outro, de ter cometido um erro de direito ao considerar, para efeitos da determinação
         do agravamento da coima, o seu volume de negócios para o ano de 2000, quando, segundo a decisão, a infracção cessou em Fevereiro
         de 1999.
      
      271   Importa examinar antes de mais o segundo destes argumentos.
       Quanto à tomada em consideração do volume de negócios da recorrente para o ano de 2000
      272    Na determinação do montante das coimas por infracção ao direito da concorrência, a Comissão deve não só ter em consideração
         a gravidade da infracção e as circunstâncias específicas do caso concreto, mas também o contexto em que a infracção foi cometida
         e zelar pelo carácter dissuasivo da sua acção, sobretudo para os tipos de infracção particularmente nocivos para a realização
         dos objectivos da Comunidade (v., neste sentido, acórdão Musique diffusion française e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 106).
      
      273   A este respeito, as orientações prevêem, de resto, que, além da própria natureza da infracção, do seu impacto concreto no
         mercado e da dimensão geográfica deste, é necessário tomar em consideração a capacidade económica efectiva dos autores da
         infracção de causarem um prejuízo importante aos outros operadores, nomeadamente aos consumidores, e determinar um montante
         da coima que assegure a esta um carácter suficientemente dissuasivo (ponto 1 A, quarto parágrafo).
      
      274   Pode ser também tomado em consideração o facto de as empresas de grandes dimensões poderem melhor apreciar o carácter infractor
         do seu comportamento e as consequências que daí decorrem (ponto 1 A, quinto parágrafo).
      
      275   No caso vertente, a Comissão, sem se referir expressamente às ditas orientações, observou, no considerando 303, que importava
         «garantir [… à] coima um efeito dissuasivo suficiente e toma[r] em consideração o facto de [que] as grandes empresas disp[unha]m
         de conhecimentos jurídicos e económicos e de infra‑estruturas que lhes permit[ia]m mais facilmente reconhecer que o seu comportamento
         constitu[ía] uma infracção e estarem conscientes das consequências que dela decorr[ia]m nos termos da legislação da concorrência».
         Assim, a Comissão entendeu, nos considerandos 304 e 305, que, face aos volumes de negócios globais da Aventis, da Degussa
         e da Nippon Soda, ou seja, respectivamente 22,3 mil milhões de EUR, 16,9 mil milhões de EUR e 1,6 mil milhões de EUR para
         o exercício de 2000, havia que agravar em 100% o montante inicial das coimas, calculado em função da importância relativa
         no mercado em causa, de forma a tomar em consideração a dimensão e os recursos globais respectivos da Aventis e da Degussa.
      
      276   Nos termos da decisão, a Comissão considerou correctamente, como foi declarado anteriormente, que a infracção cessou em Fevereiro
         de 1999. Ora, há que constatar, como observa a recorrente, que a Comissão baseou a sua apreciação do agravamento do montante
         de base da coima nos volumes de negócios realizados pelas empresas em causa durante o exercício de 2000 (considerando 304),
         portanto posteriormente à cessação da infracção. Ao contrário do afirmado pela recorrente, esta circunstância não é susceptível
         de viciar o método de cálculo seguido pela Comissão.
      
      277   Resulta do considerando 303 que a Comissão atendeu a dois elementos que justificam o agravamento do montante de base em 100%
         no que respeita à Aventis e à Degussa. Este agravamento teria sido necessário, por um lado, para garantir à coima um efeito
         dissuasivo suficiente e, por outro, para ter em conta o facto de as grandes empresas disporem de infra‑estruturas jurídico‑económicas
         que lhes permitam apreciar melhor o carácter infractor do seu comportamento.
      
      278   Quanto ao primeiro destes elementos, recorde‑se que o objectivo de dissuasão que a Comissão pode prosseguir na fixação do
         montante de uma coima tem em vista assegurar o respeito, por parte das empresas, das regras de concorrência previstas no Tratado
         para a condução das suas actividades na Comunidade ou no EEE. Ora, o Tribunal de Primeira Instância entende que este objectivo
         só pode ser validamente alcançado se se considerar a situação da empresa no dia em que a coima é aplicada.
      
      279   Com efeito, há que distinguir entre, por um lado, a amplitude da infracção no mercado e a parte de responsabilidade que cabe
         a cada participante no acordo (situação abrangida pelo ponto 1 A, quarto e sexto parágrafos, das orientações) e, por outro,
         o efeito dissuasivo que deve revestir a imposição da coima.
      
      280   Quanto à amplitude da infracção no mercado e à parte de responsabilidade que cabe a cada participante no acordo, já foi declarado
         que a parte do volume de negócios que provém das mercadorias que são objecto da infracção é susceptível de dar uma indicação
         ajustada da extensão da infracção no mercado em causa (v., nomeadamente, acórdãos Musique diffusion française e o./Comissão,
         referido no n.° 58 supra, n.° 121, e Mayr‑Melnhof/Comissão, referido no n.° 222 supra, n.° 369) e que o volume de negócios relativo aos produtos que foram objecto de uma prática restritiva constitui um elemento
         objectivo que dá uma medida ajustada da nocividade desta prática para o jogo normal da concorrência (acórdão do Tribunal de
         Primeira Instância de 11 de Março de 1999, British Steel/Comissão, T‑151/94, Colect., p. II‑629, n.° 643).
      
      281   De resto, a Comissão seguiu esta metodologia nos considerandos 294 a 302, na determinação do montante da infracção da coima
         em função da gravidade da infracção. A Comissão tomou em consideração, nessa ocasião, a quota de mercado mundial e no EEE
         de cada uma das empresas presentes no mercado da metionina em 1998, último ano civil da infracção, e deduziu daí que a Aventis
         e a Degussa representavam uma primeira categoria e a Nippon Soda uma segunda, pelo que lhes devia ser aplicado um tratamento
         diferenciado. De resto, a recorrente não contesta esta conclusão.
      
      282   Por conseguinte, há que observar, nesta fase, que o argumento da recorrente de que a Comissão considerou somente o volume
         de negócios da nova entidade Degussa AG (Düsseldorf), criada em 2000, e, assim, baseou o seu raciocínio unicamente no objectivo
         de dissuasão, sem levar em conta os danos para concorrência resultantes do seu comportamento à data da infracção, é improcedente.
      
      283   Porém, o segundo destes conceitos, ou seja, a necessidade de assegurar à coima um efeito dissuasivo suficiente, quando não
         dá origem ao aumento geral do nível das coimas no quadro da aplicação de uma política de concorrência, exige que o montante
         da coima seja modulado de forma a levar em conta o impacto pretendido na empresa à qual é aplicada, e isso para que a coima
         não se torne irrisória, ou pelo contrário excessiva, face, nomeadamente, à capacidade financeira da empresa em questão, de
         acordo com as exigências relativas, por um lado, à necessidade de garantir a eficácia da coima e, por outro, do respeito do
         princípio da proporcionalidade.
      
      284   Assim, o Tribunal de Primeira Instância já referiu que uma das empresas em causa, «devido ao seu enorme volume de negócios
         global relativamente ao dos outros membros do cartel, mobilizaria mais facilmente os fundos necessários ao pagamento da sua
         coima, o que justificava, na perspectiva de um efeito dissuasivo suficiente desta última, a aplicação de um multiplicador»
         (acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 29 de Abril de 2004, Tokai Carbon e o./Comissão, T‑236/01, T‑239/01, T‑244/01
         a T‑246/01, T‑251/01 e T‑252/01, Colect., p. I‑0000, n.° 241).
      
      285   Ora, devido, nomeadamente, a operações de cessão ou de concentração, os recursos globais de uma empresa podem variar, diminuindo
         ou aumentando de forma significativa num lapso de tempo relativamente curto, em especial entre a cessação da infracção e a
         adopção da decisão que aplica a coima. Daqui se conclui que os referidos recursos devem ser avaliados, para alcançar correctamente
         o objectivo de dissuasão, e isso com observância do princípio da proporcionalidade, no dia em que a coima é aplicada. A este
         respeito, pelos mesmos motivos há que notar que, no âmbito do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, o limite superior
         da coima fixado em 10% do volume de negócios da empresa interessada é determinado em função do volume de negócios realizado
         durante o exercício social anterior à adopção da decisão (acórdão Sarrió/Comissão, referido no n.° 193 supra, n.° 85).
      
      286   Daqui se conclui que não se pode considerar que a Comissão tenha cometido um erro de direito quando se baseou nos volumes
         de negócios relativos a um exercício posterior à cessação da infracção. Porém, há que observar que, conforme se explicou anteriormente
         e atendendo a que a decisão foi adoptada em 2 de Julho de 2002, em princípio a Comissão deveria ter considerado, para assegurar
         à coima um efeito dissuasivo suficiente, o volume de negócios realizado pelos diferentes destinatários da decisão no exercício
         social de 2001. Porém, em resposta a uma questão do Tribunal de Primeira Instância na audiência, a Comissão indicou, por um
         lado, que os volumes de negócios da Sumitomo e da Nippon Soda para esse exercício não estavam disponíveis à data da adopção
         da decisão e, por outro, que os volumes de negócios realizados pelas empresas em causa em 2000 tinham sido objecto de verificação
         das contas. Ora, há que considerar que estas circunstâncias, não contestadas pela recorrente, são susceptíveis de justificar
         o facto de a Comissão não ter tomado em consideração, os volumes de negócios realizados em 2001 pelas empresas em causa, mas
         os volumes de negócios mais recentes que tinha à sua disposição, ou seja, os relativos ao exercício social de 2000.
      
      287   Daqui se conclui que a Comissão não pode ser censurada por ter tomado em consideração, na determinação no agravamento da coima
         em função do efeito dissuasivo, o volume de negócios realizado pela recorrente em 2000.
      
      288   O argumento da recorrente de que a Comissão tomou, indevidamente, em conta o volume de negócios resultante das fusões verificadas,
         respectivamente, entre a Degussa e a Hüls em 1998, e a Degussa‑Hüls e a SKW em 2000, as quais são posteriores à cessação da
         infracção, além de, em parte, não ter suporte na matéria de facto, visto que foi demonstrado que a infracção tinha cessado
         em Fevereiro de 1999, é portanto improcedente, a este respeito. Refira‑se, além do mais, que as circunstâncias do caso concreto
         ilustram precisamente a necessidade de avaliar os recursos globais da empresa em causa em função do seu último volume de negócios
         disponível.
      
      289   Quanto ao segundo elemento levado em conta pela Comissão para efeitos do agravamento do montante de base da coima, a saber,
         as infra‑estrututuras jurídico‑económicas de que as empresas dispõem e que lhes permitem apreciar do carácter infractor do
         seu comportamento, refira‑se, por oposição ao que ficou exposto anteriormente, que o mesmo se destina a punir em maior medida
         as grandes empresas, que se presume terem os conhecimentos e meios estruturais suficientes para terem consciência do carácter
         infractor do seu comportamento e avaliarem os benefícios dele decorrentes.
      
      290   Ora, há que considerar que, nesta hipótese, o volume de negócios com base no qual a Comissão determina a dimensão das empresas
         em causa, e portanto a sua capacidade para determinar a natureza e consequências do seu comportamento, deve reportar‑se à
         sua situação no momento da infracção. No caso vertente e no que toca a este aspecto, a Comissão não podia, pois, levar em
         conta o volume de negócios realizado pela recorrente em 2000, visto a infracção ter cessado em Fevereiro de 1999.
      
      291   Porém, esta conclusão não é, por si só, susceptível de alterar a validade da conclusão da Comissão segundo a qual o montante
         de base da coima aplicada à recorrente deve ser agravado em 100%.
      
      292   De facto, por um lado, os considerandos 303 a 305 da decisão dispõem:
      «Efeito dissuasivo suficiente
      (303) Por forma a garantir que a coima produz um efeito dissuasivo suficiente e toma em consideração o facto de as grandes empresas
         disporem de conhecimentos jurídicos e económicos e de infra‑estruturas que lhes permitem mais facilmente reconhecer que o
         seu comportamento constitui uma infracção e estarem conscientes das consequências que dela decorrem nos termos da legislação
         da concorrência, a Comissão determinará seguidamente se é necessário qualquer outro ajustamento ao montante inicial para qualquer
         das empresas.
      
      (304) Com volumes de negócios a nível mundial de respectivamente 22,3 mil milhões de euros e 16,9 mil milhões de euros em 2000,
         a Aventis e a Degussa são operadores de muito maiores dimensões do que a Nippon Soda (volume de negócios a nível mundial de
         1,6 mil milhões de euros em 2000). Neste contexto, a Comissão considera que o ponto de partida adequado para uma coima resultante
         do critério da importância relativa no mercado relevante, necessita de um novo ajustamento no sentido da subida, por forma
         a tomar em consideração a dimensão e os recursos globais da Aventis e da Degussa, respectivamente
      
      (305) Com base no que precede, a Comissão considera que, para garantir um efeito suficientemente dissuasivo, é necessário que o
         ponto de partida da coima determinada nos termos do considerando 302 seja aumentado em 100% (× 2), para 70 milhões de euros,
         no que se refere à Degussa e à Aventis [...].»
      
      293   Resulta do que antecede que, embora a Comissão tenha mencionado o elemento relativo às infra‑estruturas jurídico‑económicas,
         na realidade justificou o agravamento do montante de base da coima essencialmente pela necessidade de assegurar à coima um
         efeito dissuasivo suficiente, como comprovam a conclusão que figura no considerando 305 e a própria epígrafe da rubrica.
      
      294   Por outro lado, observe‑se que, em qualquer caso, o volume de negócios global da recorrente no exercício de 1997/1998 eleva‑se,
         de acordo com os dados fornecidos por esta, a cerca de 15,9 mil milhões de DEM. Ora, não se pode sustentar que, por este motivo,
         a recorrente não dispunha das infra‑estruturas jurídico‑económicas de que dispõem as empresas de dimensão importante, o que
         de resto a recorrente não alega. A tomada em consideração do volume de negócios da recorrente em 2000 (fixado pela Comissão
         em 16,9 mil milhões de EUR) não pode, pois, ter nenhuma repercussão no entendimento da Comissão de que o montante de base
         da coima devia ser agravado para levar em conta o facto da recorrente dispor dos recursos necessários para lhe permitir apreciar
         do carácter infractor do seu comportamento e as consequências dele decorrentes.
      
      295   Daqui se conclui que o argumento da recorrente de que a Comissão cometeu um erro de direito ao levar em conta, para fundamentar
         o agravamento do montante da coima determinado em função da gravidade da infracção, o seu volume de negócios no exercício
         de 2000, não pode justificar a anulação da decisão nem a redução do montante da coima.
      
       Quanto ao erro de facto relativamente ao montante do volume de negócios da recorrente em 2000
      296   A recorrente alega que o volume de negócios no ano 2000 (16,9 mil milhões de EUR) considerado pela Comissão está errado, que
         o mesmo ascende, na realidade, a 10,715 mil milhões de EUR, como resulta da carta enviada pela recorrente à Comissão em 5
         de Junho de 2002, em resposta a um pedido desta última de 28 de Maio de 2002.
      
      297   Nas suas respostas às questões escritas do Tribunal de Primeira Instância e na audiência, a recorrente indicou que o volume
         de negócios de 10,715 mil milhões de EUR foi o único que foi certificado por auditores como conforme aos princípios contabilísticos
         dos Estados Unidos geralmente aceites (United States generally accepted accounting principles). A recorrente sustenta que,
         na falta de disposições comunitárias que definam as regras de cálculo do volume de negócios das empresas, a segurança jurídica
         exige que só sejam considerados os volumes de negócios determinados e certificados de acordo com as regras aplicáveis à empresa
         em causa, ou seja, no caso vertente, os referidos princípios contabilísticos.
      
      298   A Comissão alega que o montante de 16,9 mil milhões de EUR que tomou em conta resulta do relatório de gestão da recorrente
         elaborado para 2000. Porém, na audiência, a Comissão admitiu que o volume de negócios a tomar em consideração devia reflectir
         a situação real da empresa e que, por conseguinte, atendendo a que a fusão da recorrente com a SKW tivera lugar em 1 de Julho
         de 2000, não havia que considerar o volume de negócios pro forma realizado pela SKW de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2000.
      
      299   Resultam dos autos, designadamente das respostas da recorrente às questões escritas do Tribunal de Primeira Instância, os
         seguintes elementos:
      
      –       O montante de 16,9 mil milhões de EUR levado em conta pela Comissão inclui uma avaliação pro forma do volume de negócios da SKW de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2000, bem como o volume de negócios realizado em três sectores
         de actividade não essenciais (dmc², Dental e Phenolchemie), cedidos pela recorrente em 2001 (a seguir «volume de negócios
         realizado nos três sectores de actividade cedidos em 2001»);
      
      –       O montante de 10,175 mil milhões de EUR, invocado pela recorrente, só inclui o volume de negócios da SKW para o período compreendido
         entre 1 de Julho e 31 de Dezembro de 2000 e exclui o volume de negócios realizado nos três sectores de actividade cedidos
         em 2001;
      
      –       O volume de negócios realizado nos três sectores de actividade cedidos em 2001 ascende a 4,131 mil milhões de EUR.
      300   Na audiência, as partes concordaram com estes dados, facto que o Tribunal de Primeira Instância registou.
      301   Resulta do que antecede que a diferença entre os volumes de negócios declarados pelas partes se explica pelo facto de esses
         valores não incluírem os mesmos elementos. Enquanto o montante tomado em conta pela Comissão inclui tanto o volume de negócios
         realizado pela sociedade SKW de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2000 como o volume de negócios realizado nos três sectores
         de actividade cedidos em 2001, o volume de negócios invocado pela recorrente, por um lado, só inclui o volume de negócios
         realizado pela SKW no período compreendido entre 1 de Julho e 31 de Dezembro de 2000 e, por outro, não inclui o volume de
         negócios realizado nos três sectores de actividade cedidos em 2001.
      
      302   Ora, o Tribunal de Primeira Instância considera que, como se explicou anteriormente, no âmbito da determinação do eventual
         agravamento da coima com vista a garantir que esta produza um efeito dissuasivo, importa ter em conta a capacidade financeira
         e os recursos reais da empresa no momento em que a coima lhe é aplicada e não a avaliação pro forma inscrita no seu balanço, que é fictícia por natureza e resulta da aplicação das regras contabilísticas que a empresa em causa
         impôs a si própria.
      
      303   Por isso, não é de considerar o volume de negócios pro forma da SKW durante o período compreendido entre 1 de Janeiro e 30 de Junho de 2000 nem a subtracção pro forma do volume de negócios realizado nos três sectores de actividade cedidos em 2001.
      
      304   Com efeito, não se pode deixar de observar que, no exercício social de 2000, que devia ser tomado em conta na determinação
         do agravamento da coima para assegurar a esta última um efeito dissuasivo suficiente, conforme se explicou atrás, a recorrente,
         por um lado, não incorporou o volume de negócios realizado pela SKW de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2000, dado que a fusão
         desta sociedade com a recorrente teve lugar a 1 de Julho de 2000, mas, por outro, incorporou efectivamente o volume de negócios
         proveniente dos três sectores de actividade cedidos em 2001.
      
      305   Por conseguinte, o volume de negócios pertinente no caso vertente resulta da adição do volume de negócios de 10,715 mil milhões
         de EUR invocado pela recorrente e do volume de negócios de 4,131 mil milhões de euros realizado nos três sectores de actividade
         cedidos em 2001, ou seja, 14,846 mil milhões de EUR.
      
      306   Nenhum dos argumentos expendidos pela Comissão, que de resto admitiu, na audiência, que o volume de negócios tido em conta
         na decisão estava errado, é susceptível de pôr em causa esta conclusão.
      
      307   Em primeiro lugar, o facto de, na sua resposta, de 10 de Janeiro de 2002, à comunicação de acusações, de 1 de Outubro de 2001
         (a seguir «CA»), a recorrente não ter suscitado nenhuma objecção quanto à consideração do montante de 16,9 mil milhões de
         EUR, não só não é em si decisivo como, além disso, não é pertinente, na medida em que a Comissão apenas evocou aquele montante
         na parte descritiva dos membros do acordo, uma vez que a CA não contém, de resto, nenhuma avaliação da coima aplicável. Se
         a Comissão tivesse pretendido ter, de qualquer modo, em conta, em todo o caso, o montante indicado na CA, suscitar‑se‑iam,
         além disso, interrogações quanto aos motivos que a levaram a enviar à recorrente, em 28 de Maio de 2002, um pedido de informações
         com vista a obter dados relativos ao volume de negócios desta. Além disso, não se pode deixar de observar que, na sua resposta
         de 5 de Junho de 2002 a esse pedido de informações, a recorrente mencionou expressamente que o volume de negócios, no montante
         de 10,715 mil milhões de EUR, indicado para o exercício de 2000, incluía unicamente o volume de negócios realizado pela SKW
         de 1 de Julho a 31 de Dezembro de 2000. Daqui se conclui que a Comissão podia dar‑se conta da discordância entre este montante
         e o montante de 16,9 mil milhões de EUR indicado na CA. Nestas circunstâncias, a Comissão poderia ou mesmo deveria ter pedido
         à recorrente informações complementares para se certificar da exactidão do montante a tomar em consideração.
      
      308   Em segundo lugar, o facto de a avaliação pro forma  mencionada no relatório de gestão da recorrente aí ser considerada por esta última mais significativa do ponto de vista económico,
         por um lado, não foi provado pela Comissão e, por outro, não é de qualquer modo susceptível de infirmar a conclusão de que
         a Comissão, na apreciação do efeito dissuasivo que a coima deve revestir, é obrigada a tomar em consideração a situação real
         da empresa no momento em que avalia a coima que projecta aplicar‑lhe, o que de resto aquela admitiu na audiência.
      
      309   Em terceiro e último lugar e ao contrário do que a Comissão supôs, sublinhe‑se que a recorrente não afirma de modo nenhum
         que só o volume de negócios da Degussa‑Hüls, com exclusão do da SKW, deve ser tomado em conta na determinação do montante
         do seu volume de negócios para o ano de 2000 em razão da inscrição da fusão no registo comercial em 9 de Fevereiro de 2001.
         De resto, a carta de 5 de Junho de 2002, enviada pela recorrente à Comissão, menciona inequivocamente que o volume de negócios
         indicado inclui o realizado pela SKW no segundo semestre de 2000. Por isso, o argumento da Comissão assente nesta consideração
         é inoperante.
      
      310   Resulta das considerações que antecedem que o volume de negócios levado em conta pela Comissão na determinação do agravamento
         da coima com vista a assegurar a esta última um efeito dissuasivo suficiente, está errado. Este montante não constitui, contudo,
         o necessário suporte para a conclusão da Comissão de que se verificou a infracção em que a recorrente participou. Com efeito,
         o erro cometido pela Comissão só poderia ter repercussões na determinação do montante da coima, domínio em que o Tribunal
         de Primeira Instância dispõe de competência de plena jurisdição. Daqui se conclui que o erro no volume de negócios tomado
         em consideração pela Comissão não é susceptível de acarretar a anulação da decisão. O pedido da recorrente neste sentido deve,
         pois, ser indeferido.
      
      311   Porém, cabe ao Tribunal de Primeira Instância examinar se esta circunstância é susceptível de levar à violação do princípio
         da igualdade de tratamento e, portanto, de justificar a redução da coima.
      
      2.     Quanto à violação do princípio da legalidade das penas, do dever de fundamentação e dos princípios da proporcionalidade e
         da igualdade de tratamento no agravamento do montante da coima em função do efeito dissuasivo
      
      a)     Quanto à violação do princípio da legalidade das penas e do dever de fundamentação
       Argumentos das partes
      312   A recorrente sustenta que a Comissão não cumpriu, quando da determinação do agravamento do montante de base, o seu dever de
         fundamentação, a qual deve deixar transparecer os critérios de determinação da coima (acórdão do Tribunal de Primeira Instância
         de 14 de Maio de 1998, Buchmann/Comissão, T‑295/94, Colect., p. II‑813, n.° 173). A recorrente contesta, além disso, a majoração
         de 100% do montante de base efectuado pela Comissão em função do efeito dissuasivo que a coima deve revestir, porquanto o
         referido agravamento se revela arbitrário e não pode ser objecto de nenhuma fiscalização de legalidade. Com efeito, este método
         acaba por deixar à Comissão uma liberdade total de decisão na determinação do montante coima, seja qual for o montante de
         base da coima inicialmente determinado.
      
      313   A Comissão entende que esta argumentação é improcedente. Sustenta que a decisão explica claramente os motivos que a levaram
         a duplicar o montante de base da coima aplicada à recorrente, nos considerandos 303 a 305 da referida decisão.
      
       Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      314   Antes de mais, no que toca à alegada violação, pela Comissão, do dever de fundamentação, não se pode deixar de observar que
         a decisão indica claramente, nos considerandos 303 a 305, que a majoração de 100%, relativamente à recorrente, do montante
         de base da coima determinado em função da gravidade da infracção tem fundamento na necessidade de assegurar à coima um efeito
         dissuasivo suficiente, atenta a dimensão e recursos globais da recorrente, e de levar em conta o facto de as grandes empresas
         disporem de conhecimentos e de infra‑estruturas jurídico‑económicos que lhes permitem apreciar melhor a natureza e consequências
         do seu comportamento. De seguida, a decisão refere expressamente o volume de negócios realizado pela recorrente em 2000 para
         justificar o agravamento do montante inicial da coima.
      
      315   Desta forma, a decisão deixa transparecer claramente o raciocínio da Comissão, permitindo desse modo à recorrente conhecer
         os elementos de apreciação tomados em conta para agravar o montante da coima e, assim, contestar o fundamento desses elementos,
         e ao Tribunal de Primeira Instância exercer a sua fiscalização. O argumento da recorrente relativo à violação do dever de
         fundamentação neste ponto deve, portanto, ser rejeitado.
      
      316   Na medida em que a recorrente considera, além disso, que o método que consiste em duplicar o montante de base é arbitrário
         e constitui uma violação do princípio da legalidade das penas, recorde‑se que a necessidade de assegurar à coima produza efeito
         dissuasivo suficiente é um objectivo legítimo que a Comissão pode prosseguir na fixação do montante de uma coima e tem em
         vista assegurar que as empresas respeitem as regras de concorrência previstas no Tratado. Não obstante, como se referiu no
         âmbito do primeiro fundamento, a Comissão está obrigada a respeitar os princípios gerais do direito, nomeadamente os princípios
         da igualdade de tratamento e da proporcionalidade, não só na determinação do montante de base, mas também quando do agravamento
         desse montante com o objectivo de assegurar à coima um efeito suficientemente dissuasivo.
      
      317   Daqui se conclui que, embora a Comissão beneficie efectivamente de uma necessária margem de apreciação na fixação da taxa
         de agravamento em função do efeito dissuasivo, não é menos verdade que o seu poder é limitado pelo respeito dos referidos
         princípios, o qual é susceptível de fiscalização jurisdicional, no âmbito da qual o Tribunal de Primeira Instância dispõe,
         de resto, de competência de plena jurisdição. O argumento da recorrente deve, pois, ser afastado.
      
      b)     Quanto à violação dos princípios da proporcionalidade e da igualdade de tratamento
       Argumentos das partes
      318   A recorrente sustenta que a majoração de 100%, pela Comissão, do montante da coima determinado em função da gravidade da infracção
         (35 milhões de EUR) para assegurar à referida coima um efeito dissuasivo suficiente constitui uma violação do princípio da
         igualdade de tratamento.
      
      319   A recorrente afirma que, segundo as suas estimativas, em 2000 a dimensão da Degussa por muito pouco atingia metade da da Aventis.
         Ao impor o mesmo agravamento da coima às duas empresas, a Comissão violou assim o princípio da igualdade de tratamento, inclusivamente
         no caso de se ter em conta o montante erradamente considerado pela Comissão. Tendo em conta que o seu volume de negócios se
         situa entre o da Nippon Soda e o da Aventis, a recorrente sustenta que o agravamento que lhe deveria ter sido aplicado corresponde
         à metade do aplicado à Aventis, ou seja, um resultado de 27,5 milhões de EUR.
      
      320   Além disso, a recorrente considera que a duplicação do montante de base constitui uma violação do princípio da proporcionalidade
         da pena, porquanto foi dada importância excessiva ao objectivo de dissuasão face ao comportamento infractor que lhe é censurado.
      
      321   A Comissão sustenta que a duplicação do montante de base da coima da Aventis e da Degussa reflecte o facto de estas duas empresas,
         atenta a sua dimensão e os seus recursos globais, serem claramente mais importantes do que a Nippon Soda (considerando 304).
      
      322   A Comissão recorda, a este propósito, que o agravamento do montante de base da coima responde à necessidade de assegurar à
         coima um efeito dissuasivo suficiente e, eventualmente, de levar em conta que as grandes empresas dispõem de conhecimentos
         económicos e de infra‑estruturas mais importantes (considerando 303). Ora, no caso vertente importa, antes de mais, ter em
         conta a diferença de dimensão entre a recorrente a Aventis, por um lado, e a Nippon Soda, por outro (considerando 304). Com
         efeito, no caso de ser necessário tomar em consideração o montante indicado pela recorrente, o volume de negócios desta última
         corresponderia a 6,7 vezes o da Nippon Soda ao passo que o volume de negócios da Aventis representaria apenas o dobro do da
         recorrente. Por isso, a Comissão tinha, de qualquer modo, de dar o mesmo tratamento à recorrente e à Aventis. Além disso,
         a Comissão recorda que não é necessário aplicar uma fórmula aritmética que preveja um aumento do montante da coima proporcionalmente
         ao volume de negócios da empresa em causa, pois os objectivos prosseguidos pelo agravamento das coimas podem ser desde logo
         alcançados através da categorização das empresas segundo a sua dimensão (acórdão de 15 de Outubro de 2002, Limburgse Vinyl
         Maatschappij e o./Comissão, C‑238/99 P, C‑244/99 P, C‑245/99 P, C‑247/99 P, C‑250/99 P a C‑252/99 P e C‑254/99 P, Colect.,
         p. I‑8375, n.° 464).
      
       Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      323   No que respeita ao argumento da recorrente relativo à violação do princípio da igualdade de tratamento, recorde‑se que, como
         observa a Comissão, a metodologia que consiste em repartir os membros de um acordo em várias categorias, o que implica a fixação
         de um montante inicial idêntico para as empresas que pertençam à mesma categoria, embora acabe por ignorar as diferenças de
         dimensão entre empresas de uma mesma categoria, não pode, em princípio, ser censurada (acórdão Tokai Carbon e o./Comissão,
         referido no n.° 284 supra, n.os 217 a 221). Com efeito, a Comissão não é obrigada, ao proceder à determinação do montante das coimas, a assegurar, no caso
         de as coimas serem aplicadas a várias empresas envolvidas numa mesma infracção, que os montantes finais das coimas traduzam
         qualquer diferenciação entre elas quanto ao seu volume de negócios global (v. acórdão CMA CGM e o./Comissão, referido no n.° 252
         supra, n.° 385, e jurisprudência referida).
      
      324   Não é menos verdade que, segundo a jurisprudência, essa repartição por categorias deve respeitar o princípio da igualdade
         de tratamento segundo o qual é proibido tratar situações comparáveis de modo diferente e situações diferentes de modo igual,
         a não ser que esse tratamento seja objectivamente justificado (acórdão CMA CGM e o./Comissão, referido no n.° 252 supra, n.° 406). Nesta mesma óptica, as orientações prevêem no seu ponto 1 A, sexto parágrafo, que uma disparidade «considerável»
         na dimensão das empresas autoras de uma infracção da mesma natureza é, designadamente, susceptível de justificar uma diferenciação
         para efeitos da apreciação da gravidade da infracção. Por outro lado, segundo a jurisprudência, o montante das coimas deve,
         pelo menos, ser proporcionado relativamente aos elementos tidos em conta para apreciar a gravidade da infracção (acórdão Tate & Lyle
         e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 106).
      
      325   Consequentemente, quando a Comissão reparte as empresas envolvidas em categorias para efeitos da fixação do montante das coimas,
         a determinação dos limiares para cada uma das categorias assim identificadas deve ser coerente e objectivamente justificada
         (acórdãos CMA CGM e o./Comissão, referido no n.° 252 supra, n.° 416, e LR AF 1998/Comissão, referido no n.° 46 supra, n.° 298).
      
      326   No caso vertente, há que sublinhar que a classificação das empresas por categorias consoante as suas quotas de mercado foi
         efectuada pela Comissão nos considerandos 294 a 301 da decisão. Esta classificação não é contestada pela recorrente e levou,
         no considerando 302, à fixação de um montante de base determinado em função da gravidade da infracção de 35 milhões de euros
         para a Degussa e a Aventis e de 8 milhões de EUR para a Nippon Soda.
      
      327   Contudo, a recorrente contesta o facto de a Comissão ter aplicado a esse montante, para assegurar à coima um efeito dissuasivo
         suficiente, a mesma taxa de majoração para a Degussa e para a Aventis (100%) tendo em consideração os volumes de negócios
         globais destas empresas, quando, segundo afirma, esses valores são díspares.
      
      328   Ora, há que sublinhar que, face ao objectivo que prossegue, ou seja, a adopção do montante da coima em função dos recursos
         globais da empresa e da capacidade para mobilizar os fundos necessários para pagar a referida coima, a fixação da importância
         da taxa de agravamento do montante de base para assegurar um efeito suficientemente dissuasivo à coima destina‑se mais a garantir
         a eficácia da coima do que a prestar contas da nocividade da infracção para o jogo normal da concorrência e portanto da gravidade
         da referida infracção.
      
      329   Daqui resulta que a exigência relativa ao carácter objectivamente justificado do método que consiste em classificar as empresas
         por categorias deve interpretar‑se de forma mais estrita no caso de essa classificação ser efectuada não para efeitos da determinação
         do montante da coima em função da gravidade da infracção, mas para efeitos da determinação do agravamento do montante de base,
         com o objectivo de assegurar um efeito dissuasivo suficiente à coima aplicada.
      
      330   Com efeito, recorde‑se que, segundo a jurisprudência, no âmbito da determinação do montante da coima em função da gravidade,
         mesmo que, devido à repartição em grupos, seja aplicado a determinadas empresas um montante de base idêntico apesar de terem
         dimensões diferentes, esta diferença de tratamento é objectivamente justificada devido à preeminência acordada à natureza
         da infracção relativamente à dimensão das empresas quando da determinação da gravidade da infracção (v., neste sentido, acórdão
         do Tribunal de Justiça de 8 de Novembro de 1983, IAZ e o./Comissão, 96/82 a 102/82, 104/82, 105/82, 108/82 e 110/82, Recueil,
         p. 3369, n.os 50 a 53, e acórdão CMA CGM e o./Comissão, referido no n.° 252 supra, n.° 411).
      
      331   Contudo, esta justificação não é susceptível de se aplicar à determinação da taxa de agravamento da coima com o objectivo
         de assegurar a esta um efeito dissuasivo suficiente, atendendo a que esse agravamento se baseia essencial e objectivamente
         na dimensão e nos recursos das empresas e não na natureza da infracção. De resto, sublinhe‑se que, a taxa de agravamento com
         a finalidade de assegurar à coima um efeito dissuasivo suficiente foi fixada na decisão, ao passo que o montante de base em
         função da gravidade tinha sido previamente determinado (considerando 303).
      
      332   Além disso, resulta do considerando 304 da decisão, que refere que «o ponto de partida adequado para uma coima resultante
         do critério da importância relativa no mercado relevante, necessita de um novo ajustamento no sentido da subida, por forma
         a tomar em consideração a dimensão e os recursos globais da Aventis e da Degussa», que a Comissão não menciona, por outro
         lado, nenhum elemento, para além da posse, pela recorrente, de infra‑estruturas jurídico‑económicas que lhe permitem avaliar
         a natureza anticoncorrencial e as consequências do seu comportamento, susceptível de justificar objectivamente que os montantes
         relativos à recorrente e à Aventis tinham sido objecto do mesmo agravamento.
      
      333   Nestas circunstâncias e atendendo a que a Comissão se baseou expressamente, no considerando 304, nos volumes de negócios globais
         respectivos das empresas em causa, há que considerar que a taxa de agravamento do montante da coima determinada em função
         da gravidade da infracção deveria ter reflectido, pelo menos aproximativamente, a diferença significativa que se verifica
         entre esses volumes de negócios.
      
      334   Ora, embora a Comissão tenha podido considerar que os volumes de negócios respectivos da Degussa (16,9 mil milhões de EUR)
         e da Aventis (22,3 mil milhões de EUR) em 2000 demonstravam que estas empresas eram «operadores de muito maiores dimensões
         do que a Nippon Soda» (1,6 mil milhões de EUR) e que, assim, a coima aplicada a esta última não tinha de ser agravada para
         assegurar à coima um efeito dissuasivo suficiente, não se pode deixar de observar que a Comissão aplicou a mesma taxa de agravamento
         à Degussa e à Aventis quando, de acordo com os seus próprios dados, o volume de negócios da Degussa era aproximadamente 25%
         inferior ao da Aventis. Esta proporção ascende mesmo a mais de 33%, se se tomar em conta o volume de negócios de 14,846 mil
         milhões de EUR, de acordo com o explicado nos n.os 302 a 305 supra.
      
      335   Por conseguinte, a Comissão não podia, sem violar o princípio da igualdade de tratamento, agravar o montante da coima determinado
         em função da gravidade da infracção por aplicação da mesma taxa que a aplicada à Aventis.
      
      336   Nenhum dos argumentos da Comissão é susceptível de pôr em causa esta conclusão.
      337   Em primeiro lugar, embora seja certo que havia que tomar em conta a diferença importante de dimensão entre a Degussa e a Aventis,
         por um lado, e a Nippon Soda, por outro, diferença essa que justificava, relativamente a esta última, o não agravamento da
         coima em função do efeito dissuasivo, esta consideração não podia dispensar a Comissão de levar também em conta a diferença
         de dimensão entre a Degussa, por um lado, e a Aventis, por outro. Esta análise impõe‑se tanto mais que o volume de negócios
         errado tido em conta pela Comissão levou, na realidade, a subestimar esta diferença.
      
      338   Em segundo lugar e como se observou anteriormente, embora seja certo que a Comissão não é obrigada, ao proceder à determinação
         do montante das coimas, a assegurar, no caso de as coimas serem impostas a várias empresas envolvidas numa mesma infracção,
         que os montantes finais das coimas traduzam qualquer diferencia entre as empresas em causa, quanto ao seu volume de negócios
         global (v. acórdão CMA CGM e o./Comissão, referido no n.° 252 supra, n.° 385, e jurisprudência citada), não é menos verdade que a classificação das empresas por categorias deve, de acordo com
         o princípio da igualdade de tratamento, ser objectivamente justificada, devendo esta exigência ser objecto de interpretação
         mais estrita no caso de a referida classificação visar não a determinação do peso específico do comportamento infractor de
         cada empresa, mas sim a fixação da taxa de agravamento do montante da coima determinado em função da gravidade da infracção
         para assegurar à coima um efeito dissuasivo suficiente, fixação esta que prossegue uma finalidade diferente e autónoma e se
         baseia numa apreciação objectiva da capacidade das empresas para mobilizar os fundos necessários para pagar a coima.
      
      339   Por conseguinte, o Tribunal de Primeira Instância considera que, no exercício da sua competência de plena jurisdição em matéria
         de coimas, há lugar à redução da taxa de agravamento do montante, determinado em função da gravidade da infracção, da coima
         aplicada à Degussa, de modo a que esse agravamento reflicta a significativa diferença de dimensão entre a Degussa e a Aventis
         (v., neste sentido, acórdão Tokai Carbon e o./Comissão, referido no n.° 284 supra, n.os 244 a 249).
      
      340   Para este efeito, há que observar, contudo, que a Comissão, embora tenha baseado a determinação da taxa de agravamento da
         coima essencialmente na necessidade de assegurar a esta um efeito dissuasivo suficiente, como resulta quer da epígrafe da
         rubrica que abrange os considerandos 303 a 305 como dos próprios considerandos 304 e 305, a Comissão teve igualmente em conta,
         no considerando 303, o facto de as grandes empresas disporem de conhecimentos e de infra‑estruturas jurídico‑económicas que
         lhes permitem melhor apreciar o carácter infractor do seu comportamento e as consequências que dele decorriam. Ora, como observa
         a Comissão e foi referido anteriormente, não há que distinguir, a este respeito, entre duas empresas cujos volumes de negócios
         justificam, de qualquer modo, a qualificação das mesmas como grandes empresas que dispõem de tais infra‑estruturas.
      
      341   Daqui se conclui que há que ter em conta este aspecto e considerar que o elemento comum à Aventis e à Degussa, a saber, como
         se viu anteriormente, a posse de uma infra‑estrutura jurídico‑económica em razão da sua grande dimensão, justifica que a taxa
         de agravamento não traduza todas as diferenças entre os volumes de negócios destas empresas.
      
      342   Por todo o exposto, o Tribunal de Primeira Instância, no exercício da sua competência de plena jurisdição, entende que importa
         agravar o montante da coima determinado em função da gravidade da infracção fixado para a recorrente, ou seja, 30 milhões
         de EUR, conforme o n.° 254 supra, em 80%, para atingir 54 milhões de EUR.
      
      343   Nestas circunstâncias, quanto ao segundo fundamento, invocado pela recorrente na réplica, relativo à violação do princípio
         da proporcionalidade, o Tribunal de Primeira Instância entende que a majoração de 80% do montante de base da coima, atendendo
         à dimensão global da recorrente, não deve ser considerada desproporcionada em relação à sua responsabilidade dentro do acordo
         e à sua capacidade para causar um prejuízo importante à concorrência, as quais resultam da quota substancial de mercado que
         ela detinha no mercado da metionina durante o período em que foi cometida a infracção (da ordem dos 25% do mercado no EEE
         em 1998), que a Comissão levou devidamente em conta (considerandos 297 a 301). Esse agravamento não pode, assim, levar a que
         se dê ao objectivo de dissuasão uma importância excessiva relativamente ao comportamento censurado à recorrente. O presente
         argumento deve, pois, ser afastado.
      
      3.     Quanto ao erro de apreciação relativamente ao efeito dissuasivo da coima em relação ao comportamento da recorrente posteriormente
         à cessação da infracção
      
      a)     Argumentos das partes
      344   A recorrente sustenta que, ao considerar que o montante de base da coima devia ser duplicado, a Comissão apreciou de maneira
         exagerada o efeito dissuasivo da referida coima, ao não ter em conta o facto de a Degussa já ter posto termo à infracção antes
         da abertura do procedimento pela Comissão e de, a seguir, ter tomado imediatamente medidas destinadas a evitar qualquer infracção
         no futuro, ou seja, um «programa de cumprimento das normas em vigor». Em especial, a Comissão rejeitou sem razão, no considerando
         330 da decisão, os referidos esforços da recorrente, afirmando que os mesmos não podem constituir circunstâncias atenuantes
         face às orientações. Com efeito, tal atitude não recompensa as empresas que querem assegurar‑se do respeito das disposições
         do direito da concorrência e que, por isso, não necessitam que sejam tomadas, em relação a elas, medidas tendo em vista um
         efeito dissuasivo suplementar.
      
      345   A recorrente observa que, se as orientações forem interpretadas no sentido de que a atitude da recorrente não teve, no caso
         vertente, nenhuma incidência sobre o montante da coima, elas estariam nesta medida em contradição com o princípio da proporcionalidade
         dos delitos e das penas, que se aplica à ordem comunitária enquanto princípio do Estado de Direito geralmente reconhecido,
         nos termos do artigo 6.°, n.° 1, UE.
      
      346   Por último, a recorrente nota que o conceito de dissuasão inclui um aspecto preventivo relativamente ao autor da infracção
         (prevenção especial) e aos outros actores económicos susceptíveis, no futuro, de cometer uma infracção semelhante (prevenção
         geral). No caso vertente, a prevenção especial já é garantida pela adopção, pela recorrente, do programa de cumprimento das
         normas em vigor. Ora, a recorrente entende que, se considerar que o agravamento é unicamente guiado por considerações de prevenção
         geral, a Comissão entra em contradição com a jurisprudência do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Primeira Instância (acórdãos
         do Tribunal de Justiça de 28 de Outubro de 1975, Rutili, 36/75, Colect., p. 415, n.os 51 a 53; de 27 de Outubro de 1977, Bouchereau, 30/77, Colect., p. 715, n.os 27 a 30; e de 10 de Fevereiro de 2000, Nazli e o., C‑340/97, Colect., p. I‑957, n.os 63).
      
      347   A Comissão entende que este argumento não tem fundamento.
      b)     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      348   No essencial, a recorrente acusa a Comissão de não ter tomado em conta, quando apreciou o efeito dissuasivo que a coima deve
         revestir, o facto, por um lado, de que a recorrente tinha posto termo à infracção antes da abertura do procedimento pela Comissão
         e, por outro, de que tinha adoptado um programa interno de cumprimento do direito comunitário da concorrência.
      
      349   Quanto ao primeiro destes elementos, basta recordar que, embora, de acordo com a decisão, a infracção tenha realmente cessado
         em Fevereiro de 1999, ou seja, antes da abertura do procedimento em 1 de Outubro de 2001, essa cessação teve lugar por iniciativa
         da Rhône‑Poulenc, como o indica o considerando 185. Além disso, a recorrente, que não contesta verdadeiramente esta conclusão,
         limita‑se, de qualquer forma, a afirmar que a infracção cessou em 1997 na sequência da partida do Sr. H. da Rhône‑Poulenc
         e da política levada a cabo pelos seus sucessores. Assim, a recorrente não pode invocar esta circunstância para aspirar à
         redução do agravamento em função da necessidade de assegurar à coima um efeito dissuasivo. Além do mais, o facto de a infracção
         já ter cessado no dia da abertura do procedimento não pode, em caso algum, constituir um elemento concludente que demonstre
         que a recorrente pretendia, no futuro, cumprir definitivamente as normas comunitárias da concorrência. Ora, o objectivo de
         prevenção especial prosseguido pela aplicação da coima, a que a recorrente alude, destina‑se não só a fazer cessar a infracção,
         mas também a evitar que os seus autores reincidam posteriormente no seu comportamento.
      
      350   Quanto ao segundo destes elementos, resulta de jurisprudência assente que, embora seja importante que uma empresa tenha tomado
         medidas para impedir que novas infracções ao direito comunitário da concorrência sejam cometidas no futuro por membros do
         seu pessoal, este facto em nada altera a realidade da infracção verificada. Daí resulta que o simples facto de, em determinados
         casos, a Comissão ter tido em conta, na sua prática decisória, a aplicação de um programa de alinhamento enquanto circunstância
         atenuante não implica que tenha a obrigação de proceder da mesma forma num caso determinado (acórdãos do Tribunal de Primeira
         Instância, Hercules Chemicals/Comissão, referido no n.° 133 supra, n.° 357; de 14 de Maio de 1998, Mo och Domsjö/Comissão, T‑352/94, Colect., p. II‑1989, n.os 417 e 419; e Archer Daniels Midland e Archer Daniels Ingredients/Comissão, referido no n.° 53 supra, n.° 280).
      
      351   Segundo esta jurisprudência, a Comissão não tem, assim, que tomar em consideração esse elemento como circunstância atenuante
         na medida em que ela actue em conformidade com o princípio da igualdade de tratamento, o que implica que não se proceda a
         uma apreciação diferente quanto a esse ponto entre as empresas destinatárias da mesma decisão (acórdão Archer Daniels Midland
         e Archer Daniels Midland Ingredients/Comissão, referido no n.° 53 supra, n.° 281).
      
      352   Embora a recorrente invoque esta circunstância no âmbito do agravamento do montante de base da coima em função do efeito dissuasivo,
         e não a invoque formalmente enquanto circunstância atenuante, a mesma solução deve ser aplicada no caso vertente.
      
      353   Ora, não resulta de ponto algum da decisão que a Comissão tenha procedido, quanto a este ponto, a uma apreciação diferente
         entre as três empresas destinatárias, o que de resto a recorrente não afirma.
      
      354   Daqui se conclui que a Comissão não pode ser censurada por não ter levado em conta o facto de a recorrente ter adoptado um
         programa de cumprimento do direito comunitário da concorrência após a cessação da infracção.
      
      355   Nenhum dos argumentos da recorrente põe em causa esta conclusão.
      356   Em primeiro lugar, quanto à alegada violação do princípio da proporcionalidade, há que sublinhar que, de acordo com a jurisprudência
         anteriormente evocada, a atitude da recorrente posterior à infracção em nada altera a existência e gravidade desta (v., neste
         sentido, acórdão Dansk Rørindustri e o./Comissão, referido no n.° 82 supra, n.° 373), que constitui uma violação duradoura e manifesta do artigo 81.°, n.° 1, CE. Tendo em conta estas circunstâncias,
         o princípio da proporcionalidade, que implica que a coima aplicada não seja excessiva face às características da infracção,
         não obrigava a Comissão a levar em conta a atitude da recorrente posterior à cessação da referida infracção.
      
      357   Daqui se conclui que não se pode, com este fundamento, considerar que nem a decisão nem as orientações que, de qualquer forma,
         não prevêem nem excluem a tomada em consideração destas circunstâncias violam o princípio da proporcionalidade.
      
      358   Em segundo lugar, quanto ao argumento de que a Comissão, ao recusar‑se a levar em conta a adopção do programa de cumprimento
         da recorrente, se baseou, sem razão, exclusivamente num objectivo de prevenção geral, em contradição com a jurisprudência
         do Tribunal de Justiça, sublinhe‑se que a jurisprudência citada pela recorrente diz respeito às medidas de expulsão tomadas
         pelos Estados‑Membros contra nacionais de outros Estados‑Membros por motivos de ordem pública. Neste âmbito, o Tribunal de
         Justiça decidiu que, em conformidade com o artigo 3.° da Directiva 64/221/CEE do Conselho, de 25 de Fevereiro de 1964, para
         a coordenação de medidas especiais relativas aos estrangeiros em matéria de deslocação e estada justificadas por razões de
         ordem pública, segurança pública e saúde pública (JO 1964, 56, p. 850; EE 05 F1 p. 36), para serem justificadas, tais medidas
         devem basear‑se exclusivamente no comportamento pessoal do indivíduo que delas é alvo (v., recentemente, acórdão do Tribunal
         de Justiça de 29 de Abril de 2004, Orfanopoulos e Oliveri, C‑482/01 e C‑493/01, Colect., p. I‑5257, n.° 66). O Tribunal de
         Justiça concluiu daqui, nomeadamente, que o direito comunitário se opõe à expulsão de um cidadão de um Estado‑Membro decidida
         por motivos de prevenção geral, ou seja, que foi decidida com um fim de dissuasão em relação a outros estrangeiros, em particular
         quando essa medida é proferida de forma automática na sequência de uma condenação penal, sem ter em conta o comportamento
         pessoal do autor da infracção nem o perigo que ele representa para a ordem pública (acórdãos do Tribunal de Justiça de 26
         de Fevereiro de 1975, Bonsignore, 67/74, Colect., p. 125, n.° 7; Nazli e o., referido no n.° 346 supra, n.° 59; e Orfanopoulos e Oliveri, referido, n.° 68).
      
      359   Daqui resulta que, longe de constituir um princípio geral, a proibição dos motivos de prevenção geral se aplica à situação
         especial das medidas derrogatórias do princípio da livre circulação dos cidadãos da União, consagrado no artigo 18.°, n.° 1,
         CE, tomadas pelos Estados‑Membros por motivos de ordem pública. É manifesto que esta proibição não pode, assim, ser pura e
         simplesmente transposta para o quadro das coimas aplicadas pela Comissão às empresas por infracção ao direito comunitário
         da concorrência.
      
      360   Pelo contrário, resulta de jurisprudência assente que a Comissão pode ter em conta o facto de as práticas anticoncorrenciais
         como as do caso vertente, embora a sua ilegalidade tenha sido declarada desde o início da política comunitária da concorrência,
         ainda serem relativamente frequentes devido aos lucros que certas empresas interessadas podem extrair dessas práticas e, por
         isso, decidir que há lugar ao aumento do montante das coimas com vista a reforçar o seu efeito dissuasivo (v., por exemplo,
         acórdão Musique diffusion française e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 108), o que responde, pelo menos parcialmente, à necessidade de conferir às coimas um efeito dissuasivo em relação a
         outras empresas diferentes daquelas a que essas coimas são aplicadas.
      
      361   Além disso, refira‑se que não há dúvidas que a mera adopção, por uma empresa, de um programa de cumprimento das normas de
         concorrência não pode constituir uma garantia válida e certa da observância futura e duradoura, por parte daquela, das referidas
         regras, pelo que tal programa não pode obrigar a Comissão a diminuir a coima pelo motivo de o objectivo de prevenção que esta
         última prossegue já ter sido atingido, pelo menos parcialmente. Por outro lado, ao contrário do alegado pela recorrente, não
         resulta de modo nenhum da decisão que a Comissão tenha baseado o agravamento do montante de base da coima exclusivamente na
         necessidade de assegurar um efeito dissuasivo face a outras empresas.
      
      362   Com efeito, por um lado, a tomada em consideração da dimensão da recorrente, nos considerandos 303 a 305, e o agravamento
         do montante de base que daí resulta constituem precisamente um elemento destinado a adaptar a coima em função de factores
         próprios a esta última. Por outro lado, resulta do considerando 330 que a Comissão rejeitou como circunstância atenuante a
         adopção do programa de cumprimento pelo facto de que «esta iniciativa [chegava] demasiado tarde e não pode, enquanto instrumento
         de prevenção, dispensar a Comissão do seu dever de penalizar uma infracção das regras de concorrência cometida pela Degussa
         no passado». Isto deve ser entendido no sentido de que, justamente, como a recorrente sublinha no âmbito do fundamento relativo
         à excepção de ilegalidade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17, que a coima prossegue um objectivo não só de prevenção
         mas também de repressão. Por isso, não foi só para dissuadir empresas alheias à infracção que a Comissão rejeitou o argumento
         da recorrente quanto a este ponto, mas também porque considerou que o programa de cumprimento não justificava que a sanção
         da infracção cometida fosse reduzida.
      
      363   O facto de a recorrente presentemente apresentar este argumento no âmbito da apreciação do efeito dissuasivo da coima e não
         no âmbito das circunstâncias atenuantes é, a este respeito, indiferente, atendendo a que a necessidade de assegurar esse efeito
         não corresponde unicamente ao objectivo de prevenção prosseguido pela coima, como a recorrente parece considerar, mas também
         ao de repressão.
      
      364   Resulta do exposto que o fundamento da recorrente relativo ao erro manifesto de apreciação, pela Comissão, do efeito dissuasivo
         da coima face ao seu comportamento posterior à cessação da infracção deve ser julgado improcedente.
      
      C –  Quanto à cooperação da recorrente
      1.     Argumentos das partes
      365   A recorrente contesta a recusa, por parte da Comissão, de lhe conceder uma redução da coima ao abrigo da secção D, ponto 2,
         segundo travessão, da comunicação sobre a cooperação, por ter contestado os factos relativos à duração do acordo, tal como
         apresentados na CA. A recorrente sustenta, com efeito, que reconheceu a prova documental produzida mas que emitiu simplesmente
         uma opinião divergente quanto à interpretação dada pela Comissão aos referidos documentos, o que levou a apreciações jurídicas
         e conclusões diferentes. Assim, a determinação da duração da infracção não constitui, no caso vertente, uma constatação de
         facto mas sim uma questão de qualificação jurídica, conceitos que a Comissão confundiu no título C da CA.
      
      366   A Comissão entende que este fundamento é improcedente.
      2.     Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      367   Recorde‑se que, nos termos dos considerandos 353 e 354 da decisão, a recorrente beneficiou de uma redução do montante da coima
         de 25%, por aplicação do título D, ponto 2, primeiro travessão, da comunicação sobre a cooperação.
      
      368   O título D da comunicação sobre a cooperação tem a seguinte redacção:
      «1.      A partir do momento em que uma empresa se propõe cooperar sem se encontrarem preenchidas todas as condições expostas nos pontos
         B ou C, a mesma beneficiará de uma redução de 10% a 50% do montante da coima que lhe teria sido aplicada na falta da sua cooperação.
      
      2.      Esta situação pode verificar‑se, nomeadamente, se:
      –       uma empresa, antes do envio de uma comunicação de acusações, fornecer à Comissão informações, documentação ou outras provas
         que contribuam para confirmar a existência da infracção,
      
      –       uma empresa, após ter recebido a comunicação de acusações, informar a Comissão de que não contesta a materialidade dos factos
         em que a Comissão baseia as suas acusações.»
      
      369   Porém, a Comissão entendeu, no considerando 354, que a Degussa tinha contestado os factos expostos na CA no que respeita à
         duração do acordo. Concluiu daí que esta não preenchia as condições previstas na secção D, ponto 2, segundo travessão, da
         comunicação sobre a cooperação, pelo que não podia beneficiar de uma redução suplementar do montante da coima ao abrigo desta
         disposição.
      
      370   Por conseguinte, há que determinar se a decisão enferma de um erro de facto quanto à questão de saber se a recorrente contestou,
         posteriormente à CA, a materialidade dos factos em que a Comissão baseou as suas alegações.
      
      371   Para este efeito, há que examinar a resposta da recorrente à CA.
      372   Em primeiro lugar, como observa a recorrente, este documento indica que a exposição dos factos apresentada na CA «no essencial,
         não é contestada» (pp. 3 e 9 da resposta à CA). Ora, ao contrário da interpretação que dela faz a recorrente, esta afirmação
         destinava‑se precisamente a demonstrar que os factos foram parcialmente contestados, além de que não permitia à Comissão determinar
         com certeza os factos que foram contestados e quais os que o não foram. De resto, esta consideração é reforçada pela indicação
         da recorrente (p. 9 da resposta à CA) de que a apresentação, pela Comissão, dos factos relativos à duração da infracção é
         parcialmente inexacta. A recorrente acrescentou mesmo, no ponto 12 da sua resposta (p. 14 da resposta à CA), que a exposição
         dos factos só estava exacta a partir de meados de 1992, data em que a Degussa participou na infracção por ocasião da reunião
         de Barcelona, precisando porém que a duração do acordo se limitava aos anos de 1992 a 1997 (p. 33 da resposta à CA).
      
      373   Embora estes elementos formais não possam, por si só, levar a concluir que a recorrente contestou, no essencial, a materialidade
         dos factos apresentados pela Comissão na CA, em todo o caso, os mesmos bastam para provar que a recorrente não deixou claro
         que não contestava a totalidade da CA. Pelo contrário, a recorrente criou uma ambiguidade, no que diz respeito, em relação
         à Comissão, à questão de saber se contestava ou não a materialidade dos factos alegados e, em caso afirmativo, quais eram
         precisamente os factos que eram contestados.
      
      374   Em segundo lugar, embora, sob a epígrafe «D. Os factos» (p. 9 da resposta à CA), a recorrente tenha efectivamente apresentado
         comentários que contestavam a posição da Comissão, há contudo que admitir que, na sua maioria, estes comentários se destinam,
         no essencial, não a refutar directamente a materialidade desses factos (nomeadamente a realização das reuniões e os temas
         nelas abordados), mas sim a contradizer a interpretação que a Comissão fez dos mesmos e a conclusão a que esta chegou quanto
         à existência de uma infracção antes de 1992 e após 1997.
      
      375   Ora, é verdade que não se pode equiparar a contestação da apreciação jurídica feita pela Comissão de determinados factos a
         uma contestação da própria existência desses factos, mesmo que, no caso vertente, a distinção entre estes dois conceitos se
         revele ambígua.
      
      376   No entanto, de qualquer forma, não se pode deixar de observar, como a Comissão refere, que no ponto 13 da sua resposta à CA
         a recorrente afirmou que, em seu entender, após a reunião «cimeira» de Copenhaga em 1997 não houvera mais reuniões nas quais
         tivessem sido fixados preços‑alvo. Ora resulta do n.° 61 da CA que a Comissão explicou claramente que a Degussa e a Rhône‑Poulenc
         se tinha encontrado em Heidelberg no fim do Verão ou princípio do Outono de 1998 e que, nessa ocasião, fora decidido um aumento
         dos preços. A Comissão acrescentou que uma reunião entre estas duas empresas se realizara de seguida em Nancy, em 4 de Fevereiro
         de 1999, que culminara na fixação de um preço‑alvo de 3,20 USD/kg (5,30 DEM/kg). Por conseguinte, verifica‑se que, pelo menos
         na medida atrás descrita, a recorrente contestou a materialidade dos factos expostos pela Comissão, posteriormente à CA.
      
      377   Além disso, há que notar que, na sua resposta, sob a epígrafe «E. Apreciação jurídica», a recorrente afirmou, na parte dedicada
         à duração da infracção, que não dispunha de nenhuma informação sobre a existência de reuniões durante o período de 1989/1990
         e, por isso, não podia explicitamente contestar a realização dessas reuniões (p. 29 da resposta à CA) nem confirmá‑la (p. 30
         da resposta da CA). Ora, a Comissão descreveu em detalhe, nos n.os 22 a 29 da CA, três reuniões em que a Degussa participara durante aquele período (em Agosto de 1989 em local não determinado,
         a 10 de Junho de 1990 em Frankfurt e em Novembro de 1990 em Hong Kong e/ou Seul). Por isso, mais uma vez, embora a formulação
         ambígua da recorrente não permita concluir que esta negou a realização destas reuniões, não se pode, no entanto, deixar de
         observar que a mesma também não permitia à Comissão considerar que a recorrente reconhecia os factos quanto a este ponto.
      
      378   Da mesma forma, embora na CA a Comissão tenha descrito o acordo como tendo tido início em Fevereiro de 1986 (v., nomeadamente,
         os n.os 18 a 21 e 97), não se pode deixar de observar que a recorrente não tomou explicitamente posição, na sua resposta à CA, sobre
         as afirmações da Comissão relativas ao período compreendido entre Fevereiro de 1986 e o fim de 1988, embora precisasse que,
         em seu entender, o acordo só durara de 1992 a 1997.
      
      379   Daqui decorre que a Comissão não cometeu nenhum erro de facto quando concluiu que a recorrente contestara parcialmente a materialidade
         dos factos expostos na CA.
      
      380   Quanto à questão de saber se a Comissão podia considerar, com este fundamento, que a recorrente não podia beneficiar de uma
         redução suplementar do montante da coima por aplicação do título D, ponto 2, segundo travessão, da comunicação sobre a cooperação,
         recorde‑se que, segundo a jurisprudência, a redução das coimas em caso de cooperação por parte das empresas que participaram
         em infracções ao direito comunitário da concorrência tem fundamento na consideração de que essa cooperação facilita a tarefa
         da Comissão (acórdãos BPB de Eendracht/Comissão, referido no n.° 80 supra, n.° 325, e Finnboard/Comissão, referido no n.° 233 supra, n.° 363, confirmado em sede de recurso por acórdão do Tribunal de Justiça de 16 de Novembro de 2000, Metsä‑Serla Sales Oy/Comissão,
         C‑298/98 P, Colect., p. I‑10157, e acórdão Mayr‑Melnhof/Comissão, referido no n.° 222 supra, n.° 330).
      
      381   A este respeito, já foi, porém, decidido que uma empresa que se limitou, ao longo do procedimento administrativo, a não tomar
         posição sobre as alegações de facto apresentadas pela Comissão, e, portanto, não reconheceu a sua veracidade, não contribui
         para facilitar efectivamente a tarefa desta última (acórdão do Tribunal de Justiça de 16 de Novembro de 2000, SCA Holding/Comissão,
         C‑297/98 P, Colect., p. I‑10101, n.° 37).
      
      382   Da mesma forma, não basta que uma empresa afirme genericamente que não contesta os factos alegados, em conformidade com a
         comunicação sobre a cooperação, se, no caso concreto, essa afirmação não apresentar a mínima utilidade para a Comissão (acórdão
         do Tribunal de Primeira Instância de 8 de Julho de 2004, Corus UK/Comissão, T‑48/00, Colect., p. II‑0000, n.° 193).
      
      383   Por último, uma redução com base na comunicação sobre a cooperação só pode ser justificada se for possível considerar que
         as informações prestadas e, mais genericamente, o comportamento da empresa em causa, a este propósito, demonstram uma verdadeira
         cooperação da parte desta. Tal como resulta do próprio conceito de cooperação, conforme utilizado no texto da comunicação
         sobre a cooperação, designadamente, na introdução e no capítulo D, ponto 1, desta comunicação, é, com efeito, unicamente quando
         o comportamento da empresa em causa é testemunho desse espírito de cooperação que uma redução com base nessa comunicação pode
         ser concedida (acórdão Dansk Rørindustri e o./Comissão, referido no n.° 82 supra, n.os 395 e 396).
      
      384   Resulta do exposto que, no caso vertente, o reconhecimento ambíguo, por parte da recorrente, de determinados factos alegados
         na CA, sendo certo que impugnou outros, não contribuiu para facilitar a tarefa da Comissão de forma suficientemente efectiva
         para que esse reconhecimento possa ser considerado no quadro da aplicação da comunicação sobre a cooperação. Assim, a Comissão
         pôde considerar, sem cometer nenhum erro manifesto de apreciação, que esse reconhecimento não era susceptível de justificar
         uma minoração do montante da sua coima face à referida comunicação, tal como interpretada pela jurisprudência.
      
      385   Daqui se conclui que o fundamento relativo, no essencial, a um erro de facto e/ou um erro manifesto de apreciação quanto à
         cooperação da recorrente no procedimento administrativo deve ser julgado improcedente.
      
      D –  Quanto à violação do princípio da irretroactividade das penas
      386   Na audiência, a recorrente sustentou que, ao aplicar os novos critérios de fixação das coimas constantes das orientações a
         infracções anteriores à adopção, em 1998, das referidas orientações, a Comissão violou o princípio da irretroactividade das
         penas.
      
      387   Sem ser necessário indagar da admissibilidade desta argumentação desenvolvida na audiência, à luz do artigo 48.°, n.° 2, do
         Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância, nomeadamente quanto à questão de saber se se trata de um fundamento
         novo ou da simples ampliação de um fundamento enunciado na petição que apresenta um nexo estreito com este, basta notar que
         o Tribunal de Justiça e o Tribunal de Primeira Instância já se pronunciaram sobre a procedência da referida argumentação.
      
      388   Ora, nos termos dos n.os 224 a 231 do acórdão Dansk Rørindustri e o./Comissão, referido no n.° 82 supra, para controlar o respeito do princípio da irretroactividade, há que verificar se a modificação da política geral de concorrência
         da Comissão em matéria de coimas, resultante nomeadamente das orientações, era razoavelmente previsível quando foram cometidas
         as infracções em causa.
      
      389   A este propósito, observe‑se que a principal inovação das orientações consiste em tomar como ponto de partida do cálculo um
         montante de base, determinado a partir de margens previstas para este efeito pelas referidas orientações, reflectindo essas
         margens diferentes graus de gravidade das infracções, mas que, enquanto tais, não têm relação com o volume de negócios pertinente.
         Este método assenta essencialmente numa tarificação, ainda que relativa e flexível, das coimas.
      
      390   Importa, pois, verificar se este novo método de cálculo das coimas, a admitir‑se que teve um efeito agravante no nível das
         coimas aplicadas, era razoavelmente previsível quando foram cometidas as infracções em causa.
      
      391   Ora, resulta da jurisprudência do Tribunal de Justiça que o facto de a Comissão ter aplicado, no passado, coimas de um certo
         nível a diferentes tipos de infracções não a pode privar da possibilidade de aumentar esse nível dentro dos limites indicados
         no Regulamento n.° 17, se isso se revelar necessário para assegurar que seja posta em prática a política comunitária de concorrência,
         mas que, pelo contrário, a aplicação eficaz das regras comunitárias da concorrência exige que a Comissão possa, em qualquer
         momento, adaptar o nível das coimas às necessidades dessa política (acórdãos do Tribunal de Justiça Musique diffusion française
         e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.° 109, e de 2 de Outubro de 2003, Aristrain/Comissão, C‑196/99 P, Colect., p. I‑11005).
      
      392   Daí decorre que as empresas implicadas num procedimento administrativo que possa dar lugar a uma coima não podem fundar uma
         confiança legítima no facto de que a Comissão não ultrapassará o nível das coimas praticado anteriormente nem num método de
         cálculo destas últimas.
      
      393   Por conseguinte, as referidas empresas devem contar com a possibilidade de que, em qualquer momento, a Comissão decidir, na
         observância das normas que se impõem à sua acção, aumentar o nível do montante das coimas em relação ao aplicado no passado.
      
      394   Isto é válido não só quando a Comissão procede a um aumento do nível do montante das coimas, fixando coimas em decisões individuais,
         mas também quando este aumento é efectuado mediante a aplicação, a casos concretos, de regras de conduta de alcance geral
         como é o caso das orientações.
      
      395   De resto, decorre da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que a previsibilidade da lei não se opõe a que
         a pessoa em causa recorra a aconselhamento especializado a fim de avaliar, com um grau razoável nas circunstâncias da causa,
         as consequências que podem resultar de um acto determinado. É, em especial, o que acontece com os profissionais, habituados
         a ter de demonstrar grande prudência no exercício da sua profissão. Por conseguinte, pode esperar‑se que estes avaliem com
         especial cuidado os riscos que a mesma implica (acórdão Cantoni c. França de 15 de Novembro de 1996, Colectânea dos acórdãos e decisões, 1996‑V, § 35).
      
      396   Daqui deve concluir‑se que as orientações e, em especial, o novo método de cálculo das coimas que as mesmas comportam, admitindo
         que tenha tido um efeito agravante quanto ao nível das coimas aplicadas, eram razoavelmente previsíveis para empresas como
         a recorrente na época em que a infracção em causa foi cometida.
      
      397   Por isso, ao aplicar na decisão, no essencial, as orientações a infracções cometidas antes da adopção dessas orientações,
         a Comissão não violou o princípio da irretroactividade.
      
      398   Daqui se conclui que o fundamento deduzido pela recorrente, relativo à violação do princípio da irretroactividade das penas,
         deve ser julgado improcedente.
      
      IV –  Quanto ao quarto fundamento, relativo à violação do segredo profissional, do princípio da boa administração e da presunção
            da inocência
      A –  Argumentos das partes
      399   A recorrente afirma que a Comissão, ainda antes de ter adoptado a decisão, forneceu informações confidenciais à imprensa,
         violando assim o segredo profissional protegido pelo artigo 287.° CE, o princípio da boa administração e da presunção de inocência.
      
      400   A recorrente recorda que, com efeito, na terça‑feira, 2 de Julho de 2002, o jornal «Handelsblatt» publicou um artigo intitulado
         «A Degussa tem de pagar mais de 100 milhões». O artigo referia que o jornal fora informado por fonte próxima da Comissão em
         Bruxelas e precisava que «o Sr. Monti [tinha] reconhe[cido] que o grupo químico de Düsseldorf era a força motriz de um cartel
         nos aminoácidos que, durante uma década, [tinha] repart[ido] o mercado dos aditivos para animais através de acordos sistemáticos
         sobre os preços».
      
      401   Ora as informações publicadas não podiam ter sido obtidas sem a colaboração de um funcionário da Comissão, o que constitui
         uma violação do dever de respeitar o segredo profissional, previsto no artigo 287.° CE. Com efeito, o Tribunal de Primeira
         Instância decidiu que, em processos contraditórios susceptíveis de levar a uma condenação, a natureza e o quantum da sanção proposta estão, por natureza, cobertos pelo segredo profissional, enquanto a sanção não for definitivamente aprovada
         e proferida. Este princípio decorre, nomeadamente, da necessidade de respeitar a reputação e a dignidade do interessado enquanto
         não for condenado (acórdão Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153 supra, n.° 281).
      
      402   A recorrente entende que a forma pela qual a Comissão informou a imprensa é indiferente, na medida em que só importa o facto
         de a Comissão ter estado na origem de uma situação em que a empresa foi informada através da imprensa do teor exacto da sanção
         que, com toda a probabilidade, lhe seria aplicada (acórdão Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153 supra, n.° 281). Ora a Comissão não contestou expressamente o facto de um dos seus funcionários ter divulgado as informações confidenciais
         em causa. De qualquer modo, só a Comissão pode ter estado na origem desta divulgação. Nestas circunstâncias, compete à Comissão
         provar o contrário, visto que o artigo em questão menciona que a informação provinha de «meios próximos da Comissão em Bruxelas».
      
      403   A recorrente entende, além disso, que a Comissão violou o princípio da boa administração, consagrado no artigo 41.°, n.° 1,
         da Carta, por força do qual «[t]odas as pessoas têm direito a que os seus assuntos sejam tratados pelas instituições e órgãos
         da União de forma imparcial, equitativa e num prazo razoável». Com efeito, a divulgação na origem da qual está a Comissão
         deixa transparecer a sua parcialidade para com a recorrente.
      
      404   Por último, a Comissão é culpada de violação do princípio da presunção de inocência, previsto no artigo 6.°, n.° 2, da CEDH,
         e no artigo 48.°, n.° 1, da Carta e que faz parte dos direitos fundamentais da ordem jurídica comunitária (acórdão Hüls/Comissão,
         referido no n.° 115 supra, n.° 149). Em conformidade com a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, do Tribunal de Justiça e do Tribunal
         de Primeira Instância, este princípio aplica‑se aos processos relativos a violações das regras de concorrência (acórdãos Öztürk
         e Alemanha, referido no n.° 38 supra, § 46; Hüls/Comissão, já referido no n.° 115 supra, n.° 150; e Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153 supra, n.° 281). Ao revelar à imprensa o conteúdo da decisão, antes da apresentação desta ao colégio de comissários para deliberação
         e antes, portanto, da condenação da empresa, a Comissão violou manifestamente o princípio da presunção de inocência.
      
      405   A recorrente refuta a argumentação da Comissão de que a divulgação à imprensa das informações em causa não lhe é imputável.
         Segundo afirma, pouco importa que as informações tenham sido transmitidas de forma oficial. Com efeito, em conformidade com
         o artigo 288.° CE, a Comissão é responsável por uma infracção cometida por um dos seus funcionários se essa infracção estiver
         directamente ligada ao exercício das suas funções (acórdão do Tribunal de Justiça de 10 de Julho de 1969, Sayag e o., 9/69,
         Recueil, p. 329, Colect. 1969‑1970, p. 123), o que sucede no caso vertente. A questão de saber se a infracção foi autorizada
         ou não pela Comissão é, pois, desprovida de pertinência, por analogia com a imputação a uma empresa das infracções a concorrência
         cometidas pelos seus colaboradores (acórdão Musique diffusion française e o./Comissão, referido no n.° 58 supra, n.os 37 a 70 e 112).
      
      406   A recorrente conclui daqui que a efectividade da protecção dos direitos fundamentais exige que a Decisão seja anulada com
         este fundamento (acórdão do Tribunal de Justiça de 15 de Maio de 1986, Johnston, 222/84, Colect., p. 1651, n.° 19). Isso tornou‑se
         mais pelo facto de este tipo de violação por parte da Comissão ser corrente (acórdãos Suiker Unie e o./Comissão, referido
         no n.° 101 supra, n.° 90; Dunlop Slazenger/Comissão, referido no n.° 114 supra, n.° 27; e Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153 supra). Além disso, a jurisprudência segundo a qual essa irregularidade só justifica a anulação da decisão recorrida se se provar
         que, na falta dessa irregularidade, a referida decisão teria tido um conteúdo diferente, não tem manifestamente nenhum efeito
         dissuasivo e exige à empresa a apresentação de provas que esta não está em condições de produzir. Por isso, esta jurisprudência
         não preenche a exigência da protecção efectiva dos direitos em causa e coloca a empresa em causa numa situação prejudicial
         face aos seus clientes, colaboradores e accionistas e aos media, sem ter em conta o princípio da «igualdade de armas».
      
      407   A recorrente entende, assim, que basta demonstrar que não se pode excluir que a decisão podia ter tido um conteúdo diferente
         sem a revelação prematura das informações em causa, tal como se decidiu em matéria de vícios processuais (acórdão do Tribunal
         de Justiça de 23 de Fevereiro de 1988, Reino Unido/Conselho, 68/86, Colect., p. 855, n.° 49; acórdão do Tribunal de Primeira
         Instância de 23 de Fevereiro de 1994, CB e Europay/Comissão, T‑39/92 e T‑40/92, Colect., p. II‑49, n.° 58). Tal sucede no
         caso vertente, atendendo a que a divulgação do conteúdo da decisão antes da sua adopção impossibilitou a adopção, pela Comissão,
         de uma decisão diversa da da anunciada à imprensa, decisão essa que constituiria uma desautorização, dificilmente concebível,
         do membro da Comissão responsável pela concorrência.
      
      408   A Comissão entende que este fundamento é improcedente.
      B –  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      409   Recorde‑se que o artigo 287.° CE impõe aos membros, funcionários e agentes das instituições da Comunidade a obrigação de «não
         divulgar as informações que, por sua natureza, estejam abrangidas pelo segredo profissional, designadamente as respeitantes
         às empresas e respectivas relações comerciais ou elementos dos seus preços de custo». Embora esta disposição tenha sobretudo
         em vista as informações recolhidas nas empresas, o advérbio «designadamente» mostra que se trata de um princípio geral que
         se aplica também a outras informações confidenciais (acórdão do Tribunal de Justiça de 7 de Novembro de 1985, Adams/Comissão,
         145/83, Recueil, p. 3539, n.° 34, e acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 18 de Setembro de 1996, Postbank/Comissão,
         T‑353/94, Colect., p. II‑921, n.° 86).
      
      410   Ora, sublinhe‑se que, em processos contraditórios susceptíveis de levar a uma condenação, a natureza e o quantum da sanção proposta estão, por natureza, cobertos pelo segredo profissional, enquanto a sanção não for definitivamente aprovada
         e proferida. Este princípio decorre, nomeadamente, da necessidade de respeitar a reputação e a dignidade do interessado enquanto
         este não for condenado (acórdão Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153 supra, n.° 281).
      
      411   Assim, o dever da Comissão de não divulgar à imprensa informações sobre a sanção precisa que se previa aplicar não coincide
         apenas com a sua obrigação de respeitar o segredo profissional mas também com a sua obrigação de boa administração. Finalmente,
         é útil recordar que o princípio da presunção de inocência se aplica aos processos relativos a violações das regras da concorrência
         por empresas e que sejam susceptíveis de conduzir à aplicação de coimas ou de sanções pecuniárias compulsórias (acórdãos Hüls/Comissão,
         referido no n.° 115 supra, n.° 150; Öztürk e Alemanha, referido no n.° 38 supra, e Lutz e Alemanha, referido no n.° 115 supra). É manifesto que esta presunção não é respeitada pela Comissão quando, antes de condenar formalmente a empresa que acusa,
         comunica à imprensa o veredicto submetido à deliberação do comité consultivo e do colégio dos comissários (acórdão Volkswagen/Comissão,
         referido no n.° 153 supra, n.° 281).
      
      412   Porém, no caso vertente, observe‑se que, ao contrário da situação que deu origem ao acórdão Volkswagen/Comissão, referido
         no n.° 153 supra, não está provado que a Comissão esteja na origem da divulgação, pela imprensa, do teor da decisão. Com efeito, ao passo
         que, no processo referido, era pacífico que o membro da Comissão, responsável pela concorrência, à data dos factos anunciara
         à imprensa, ainda antes da decisão da Comissão, o montante da coima que seria aplicada à Volkswagen, no caso vertente, a recorrente
         indica ela própria que o artigo em causa se limita a mencionar que a informação provinha de meios próximos da Comissão («Kommissionskreisen»).
         Além disso, ao contrário do afirmado pela recorrente, observe‑se que a Comissão não admitiu a sua responsabilidade nesta questão.
         Embora seja provável que a Comissão possa estar na origem dessa fuga, essa eventualidade, só por si, não basta, como pretende
         a recorrente, para fazer recair sobre a Comissão o ónus de provar o contrário.
      
      413   De qualquer forma, ainda que se possa admitir que os serviços da Comissão são efectivamente responsáveis pela divulgação relatada
         pelo artigo de imprensa ao qual a recorrente se refere, esta circunstância não tem qualquer incidência sobre a legalidade
         da decisão.
      
      414   Com efeito, por um lado, quanto ao argumento da recorrente de que esta divulgação demonstra a parcialidade da Comissão em
         relação à recorrente, observe‑se que a materialidade de uma infracção efectivamente demonstrada no termo do procedimento administrativo
         não pode ser posta em causa pela prova da manifestação prematura, por parte da Comissão, da sua crença na existência da infracção
         e do montante da coima que, consequentemente, prevê impor a uma empresa. De resto, já se explicou, quando do exame dos diversos
         fundamentos aduzidos pela recorrente, que a decisão está correctamente fundamentada, de facto e de direito, no que toca à
         existência e aos elementos constitutivos da infracção.
      
      415   Além disso, não se pode afirmar que a divulgação, pela Comissão, do conteúdo de uma decisão no termo do procedimento administrativo
         e na véspera da sua adopção formal é, por si só, susceptível de demonstrar que a Comissão tomou a decisão com base num juízo
         antecipado ou que conduziu o inquérito com ideias preconcebidas (v., neste sentido, Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153
         supra, n.os 270 a 272).
      
      416   Por outro lado, é jurisprudência assente que uma irregularidade como a que a recorrente alega pode provocar a anulação da
         decisão em causa se se provar que, na falta dessa irregularidade, a referida decisão teria tido um conteúdo diferente (acórdãos
         Suiker Unie e o./Comissão, referido no n.° 101 supra, n.° 91; Dunlop Slazenger/Comissão, referido no n.° 114 supra, n.° 29; e Volkswagen/Comissão, referido no n.° 153 supra, n.° 283).
      
      417   Ora, no caso vertente há que observar que a recorrente não produziu tal prova. Com efeito, nada permite supor que, se as informações
         em causa não tivessem sido divulgadas, o colégio dos comissários teria alterado o montante da coima ou o conteúdo da decisão
         propostos. Além disso, ao contrário das alegações, puramente hipotéticas, da recorrente e tendo em conta o princípio da colegialidade
         a que as decisões da Comissão devem obedecer, não se pode presumir que os membros da Comissão foram condicionados por um sentimento
         de solidariedade para com o seu colega responsável pela concorrência ou que tenham sido efectivamente impedidos de aplicar
         uma coima de montante inferior.
      
      418   Daqui se conclui que o presente fundamento deve ser julgado improcedente.
      419   Nenhum dos argumentos da recorrente pode pôr em causa esta conclusão.
      420   A recorrente alega que a jurisprudência atrás referida não preenche as exigências decorrentes do princípio da protecção jurisdicional
         efectiva. A fim de respeitar este princípio haveria, para justificar a anulação da decisão, que considerar suficiente a prova
         de que não se pode excluir que a decisão podia ter um conteúdo diferente se não tivesse ocorrido a revelação em causa.
      
      421   A este propósito, recorde‑se que, segundo jurisprudência assente, os particulares devem poder beneficiar de uma protecção
         jurisdicional efectiva dos direitos que lhes são conferidos pela ordem jurídica comunitária, uma vez que o direito a essa
         protecção parte dos princípios gerais de direito que decorrem das tradições constitucionais comuns aos Estados‑Membros. Esse
         direito foi igualmente consagrado nos artigos 6.° e 13.° da CEDH (v., nomeadamente, acórdãos do Tribunal de Justiça, Johnston,
         referido no n.° 406 supra, n.° 18; de 27 de Novembro de 2001, Comissão/Áustria, C‑424/99, Colect., p. I‑9285, n.° 45; e de 25 de Julho de 2002, Unión
         de Pequeños Agricultores/Conselho, C‑50/00 P, Colect., p. I‑6677, n.° 39).
      
      422   Porém, este princípio deve ser conciliado com o princípio da segurança jurídica e com a presunção de legalidade de que gozam
         os actos das instituições comunitárias (acórdão do Tribunal de Justiça de 15 de Junho de 1994, Comissão/BASF e o., C‑137/92 P,
         Colect., p. I‑2555, n.° 48), a qual implica que cabe a quem invoca a ilegalidade desse acto produzir a prova.
      
      423   Ora, como se explicou anteriormente, a alegada divulgação, pela Comissão, do conteúdo de uma decisão antes da sua adopção
         formal não pode ter, por si só, ao contrário da inobservância das formalidades essenciais, nenhuma incidência sobre a legalidade
         da referida decisão.
      
      424   Além disso, não se pode deixar de observar, por um lado, que a solução que emana da jurisprudência referida no n.° 416 supra não impede a recorrente de fazer a prova da ilegalidade da decisão devido à irregularidade constatada nem tão‑pouco torna
         essa prova excessivamente difícil e, por outro, que mesmo admitindo que a recorrente não logra demonstrar que a decisão teria
         sido diferente se não se tivesse verificado a referida irregularidade, a acção prevista no artigo 288.° CE permite‑lhe, se
         for caso disso, reclamar a reparação do prejuízo causado pela Comunidade devido a esse facto.
      
      425   Por conseguinte, não é de considerar que o princípio da protecção jurisdicional efectiva se opõe à exigência de que, perante
         uma irregularidade do tipo da alegada no caso vertente, cabe à recorrente, para justificar a anulação da decisão, demonstrar,
         que se não tivesse havido essa irregularidade, o conteúdo desta teria sido diferente.
      
      426   Pelo exposto, o fundamento relativo à violação do segredo profissional, do princípio da boa administração e da presunção de
         inocência deve ser julgado improcedente.
      
       Conclusão
      427   Em conformidade com o n.° 254 supra, o Tribunal de Primeira Instância considera que há que reduzir, de 35 milhões de EUR para 30 milhões de EUR, o montante de
         base da coima calculado em função da gravidade da infracção da recorrente. Em conformidade com o n.° 343 supra, esse montante deve ser agravado, no que respeita à recorrente, em 80%, para assegurar à coima um efeito dissuasivo suficiente,
         ascendendo assim a 54 milhões de EUR.
      
      428   Além disso, verificou‑se que a Comissão tinha determinado correctamente a duração da infracção, a qual justifica a majoração
         daquele montante em 125%. Por último, há que tomar em conta a redução de 25% da coima que a Comissão concedeu à recorrente,
         em aplicação do título D, ponto 2, primeiro travessão, da comunicação sobre a cooperação.
      
      429   Pelo exposto, há lugar à redução do montante da coima aplicada à recorrente fixando‑o em 91 125 000 EUR.
       Quanto às despesas
      430   Nos termos do artigo 87.°, n.° 3, do Regulamento de Processo, o Tribunal de Primeira Instância pode repartir as despesas ou
         determinar que cada uma das partes suporte as suas próprias despesas, se cada parte obtiver vencimento respectivamente em
         relação a um ou a vários fundamentos, entendendo‑se que, em conformidade com o artigo 87.°, n.° 4, do referido regulamento,
         os Estados‑Membros e as instituições que intervenham no processo suportarão as respectivas despesas. Uma vez que o recurso
         só parcialmente foi julgado procedente, será feita uma justa apreciação das circunstâncias da causa ao decidir que a recorrente
         suportará as suas próprias despesas, bem como 75% das despesas efectuadas pela Comissão, e que a Comissão suportará 25% das
         suas próprias despesas.
      
      Pelos fundamentos expostos,
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Terceira Secção)
      decide:
      1)      O montante da coima aplicada à recorrente no artigo 3.° da Decisão 2003/674/CE da Comissão, de 2 de Julho de 2002, relativa
            a um processo nos termos do artigo 81.° do Tratado CE e do artigo 53.° do acordo EEE (processo C.37.519 – Metionina), é reduzido
            para 91 125 000 EUR.
      2)      É negado provimento ao recurso quanto ao restante.
      3)      A recorrente suportará as suas próprias despesas e 75% das despesas efectuadas pela Comissão.
      4)      A Comissão suportará 25% das suas próprias despesas.
      5)      O Conselho suportará as suas próprias despesas.
      
               Jaeger 
            
            
                Tiili 
            
            
                Czúcz
            
         Proferido em audiência pública no Luxemburgo, em 5 de Abril de 2006.
      
               O secretário 
            
             
            
                      O presidente
            
         
               E. Coulon 
            
             
            
                     M. Jaeger
            
         Índice
      Factos na origem do litígio
      Tramitação processual e pedidos das partes
      Questão de direito
      I –  Quanto ao primeiro fundamento, relativo à violação do princípio da legalidade das penas
      A –  Quanto à excepção de ilegalidade do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17
      1.  Argumentos das partes
      2.  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      B –  Quanto à interpretação do artigo 15.°, n.° 2, do Regulamento n.° 17 à luz do princípio da legalidade das penas
      II –  Quanto ao segundo fundamento, relativo a um erro de apreciação quanto ao carácter único e continuado e à duração da
         infracção
      
      A –  Quanto à interrupção da infracção entre 1988 e 1992
      1.  Argumentos das partes
      2.  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      a)  Quanto à participação da recorrente num acordo e/ou numa prática concertada entre 1988 e 1992
      Quanto ao período compreendido entre o fim de 1988 e o fim do Verão de 1990
      Quanto ao período compreendido entre o Verão de 1990 e Março de 1992
      b)  Quanto ao carácter único e continuado da infracção
      B –  Quanto ao fim da infracção
      1.  Argumentos das partes
      2.  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      C –  Quanto à suspensão do acordo
      III –  Quanto ao terceiro fundamento, relativo a erros de apreciação, a um erro de direito e de facto, a violação dos princípios
         da proporcionalidade, da igualdade de tratamento e da não retroactividade das penas, bem como do dever de fundamentação na
         determinação do montante da coima
      
      A –  Quanto à gravidade da infracção
      1.  Quanto à fundamentação da gravidade da infracção
      a)  Argumentos das partes
      b)  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      2.  Quanto à extensão do mercado geográfico em causa
      a)  Argumentos das partes
      b)  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      3.  Quanto à apreciação do impacto da infracção no mercado
      a)  Argumentos das partes
      b)  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      4.  Conclusão quanto à determinação do montante da coima em função da gravidade da infracção
      B –  Quanto ao agravamento da coima para assegurar um efeito dissuasivo suficiente
      1.  Quanto ao erro de direito e ao erro de facto relativamente ao volume de negócios da recorrente
      a)  Argumentos das partes
      b)  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      Quanto à tomada em consideração do volume de negócios da recorrente para o ano de 2000
      Quanto ao erro de facto relativamente ao montante do volume de negócios da recorrente em 2000
      2.  Quanto à violação do princípio da legalidade das penas, do dever de fundamentação e dos princípios da proporcionalidade
         e da igualdade de tratamento no agravamento do montante da coima em função do efeito dissuasivo
      
      a)  Quanto à violação do princípio da legalidade das penas e do dever de fundamentação
      Argumentos das partes
      Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      b)  Quanto à violação dos princípios da proporcionalidade e da igualdade de tratamento
      Argumentos das partes
      Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      3.  Quanto ao erro de apreciação relativamente ao efeito dissuasivo da coima em relação ao comportamento da recorrente posteriormente
         à cessação da infracção
      
      a)  Argumentos das partes
      b)  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      C –  Quanto à cooperação da recorrente
      1.  Argumentos das partes
      2.  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      D –  Quanto à violação do princípio da irretroactividade das penas
      IV –  Quanto ao quarto fundamento, relativo à violação do segredo profissional, do princípio da boa administração e da presunção
         da inocência
      
      A –  Argumentos das partes
      B –  Apreciação do Tribunal de Primeira Instância
      Conclusão
      Quanto às despesas
      * Língua do processo: alemão.