CELEX: 62009CJ0395
Language: pt
Date: 2010-09-30 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Sétima Secção) de 30 de Septembro de 2010.#Oasis East sp. z o.o. contra Minister Finansów.#Pedido de decisão prejudicial: Naczelny Sąd Administracyjny - Polónia.#Sexta Directiva IVA - Directiva 2006/112/CE - Adesão de um novo Estado-Membro - Direito a dedução do imposto pago a montante - Regulamentação nacional que exclui o direito a dedução do imposto relativo a certas prestações de serviços - Parceiros comerciais com sede num território qualificado como ‘paraíso fiscal’ - Faculdade de os Estados-Membros manterem normas de exclusão do direito a dedução na data da entrada em vigor da Sexta Directiva IVA.#Processo C-395/09.

Processo C‑395/09
      Oasis East sp. z o.o.
      contra
      Minister Finansów
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo Naczelny Sąd Administracyjny)
      «Sexta Directiva IVA – Directiva 2006/112/CE – Adesão de um novo Estado‑Membro – Direito a dedução do imposto pago a montante – Regulamentação nacional que exclui o direito a dedução do imposto relativo a certas prestações de serviços – Parceiros comerciais com sede num território qualificado como ‘paraíso fiscal’ – Faculdade de os Estados‑Membros manterem normas de exclusão do direito a dedução na data da entrada em vigor da Sexta Directiva
         IVA»
      
      Sumário do acórdão
      Disposições fiscais – Harmonização das legislações – Impostos sobre o volume de negócios – Sistema comum do imposto sobre
            o valor acrescentado – Dedução do imposto pago a montante – Exclusões do direito a dedução – Faculdade de os Estados‑Membros
            manterem as exclusões existentes no momento da entrada em vigor da Sexta Directiva
      (Directiva 77/388 do Conselho, artigo 17.°, n.° 6)
      O artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva 77/388, relativa à harmonização das legislações dos Estados‑Membros respeitantes
         aos impostos sobre o volume de negócios, conforme alterada pela Directiva 95/7, cujas disposições foram, no essencial, retomadas
         no artigo 176.° da Directiva 2006/112, relativa ao sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado, deve ser interpretado
         no sentido de que não autoriza a manutenção de uma legislação nacional, aplicável na data da entrada em vigor da Sexta Directiva
         no Estado‑Membro em causa, que exclui, de modo geral, o direito a dedução do imposto sobre o valor acrescentado pago a montante
         no acto da aquisição de serviços importados, cujo preço é directa ou indirectamente pago a uma pessoa estabelecida num Estado
         ou num território qualificado como «paraíso fiscal» pela referida legislação.
      
      Com efeito, os Estados‑Membros não estão habilitados a manter exclusões do referido direito aplicáveis genericamente a qualquer
         despesa relacionada com a aquisição de bens ou serviços.
      
      (cf. n.os 30, 32, disp.)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Sétima Secção)
      30 de Setembro de 2010 (*)
      
      «Sexta Directiva IVA – Directiva 2006/112/CE – Adesão de um novo Estado‑Membro – Direito a dedução do imposto pago a montante – Regulamentação nacional que exclui o direito a dedução do imposto relativo a certas prestações de serviços – Parceiros comerciais com sede num território qualificado como ‘paraíso fiscal’ – Faculdade de os Estados‑Membros manterem normas de exclusão do direito a dedução na data da entrada em vigor da Sexta Directiva
         IVA»
      
      No processo C‑395/09,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentado pelo Naczelny Sąd Administracyjny
         (Polónia) por decisão de 6 de Agosto de 2009, entrado no Tribunal de Justiça em 13 de Outubro de 2009, no processo
      
      Oasis East sp. z o.o.
      contra
      Minister Finansów,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Sétima Secção),
      composto por: R. Silva de Lapuerta (relatora), presidente de secção, J. Malenovský e T. von Danwitz, juízes,
      advogado‑geral: P. Mengozzi,
      secretário: C. Strömholm, administradora,
      vistos os autos e após a audiência de 7 de Julho de 2010,
      vistas as observações apresentadas:
      –        em representação da Oasis East sp. z o.o., por M. Wojda e J. Martini, 
      –        em representação do Governo polaco, por M. Szpunar e M. Jarosz, na qualidade de agentes,
      –        em representação da Comissão Europeia, por M. Owsiany‑Hornung, K. Herrmann e D. Triantafyllou, na qualidade de agentes,
      vista a decisão tomada, ouvido o advogado‑geral, de julgar a causa sem apresentação de conclusões, 
      profere o presente
      Acórdão
      1        O pedido de decisão prejudicial tem por objecto a interpretação do artigo 17.°, n.os 2 e 6, da Sexta Directiva 77/388/CEE do Conselho, de 17 de Maio de 1977, relativa à harmonização das legislações dos Estados‑Membros
         respeitantes aos impostos sobre o volume de negócios – Sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado: matéria colectável
         uniforme (JO L 145, p. 1; EE 09 F1 p. 54), conforme alterada pela Directiva 95/7/CE do Conselho, de 10 de Abril de 1995 (JO
         L 102, p. 18) (a seguir «Sexta Directiva»), cujas disposições foram, no essencial, retomadas no artigo 176.° da Directiva
         2006/112/CE do Conselho, de 28 de Novembro de 2006, relativa ao sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado (JO L 347,
         p. 1). 
      
      2        Este pedido foi apresentado no âmbito de um litígio que opõe a Oasis East sp. z o.o. (a seguir «Oasis East») ao Minister Finansów
         (Ministério das Finanças polaco). 
      
       Quadro jurídico 
       Regulamentação da União
      3        Nos termos do artigo 17.°, n.os 2 e 6, da Sexta Directiva, na redacção que lhe foi dada pelo artigo 28.°‑F da mesma:
      
      «2.      Desde que os bens e os serviços sejam utilizados para os fins das próprias operações tributáveis, o sujeito passivo está autorizado
         a deduzir do imposto de que é devedor:
      
      a)      O imposto sobre o valor acrescentado [(a seguir «IVA»)] devido ou pago no território do país em relação a bens que lhe sejam
         ou venham a ser entregues e em relação a serviços que lhe sejam ou venham a ser prestados por outro sujeito passivo;
      
      […]
      6.      O mais tardar antes de decorrido o prazo de quatro anos a contar da data da entrada em vigor da presente directiva, o Conselho,
         deliberando por unanimidade, sob proposta da Comissão, determinará quais as despesas que não conferem direito à dedução do
         [IVA]. Serão excluídas do direito à dedução, em qualquer caso, as despesas que não tenham carácter estritamente profissional,
         tais como despesas sumptuárias, recreativas ou de representação.
      
      Até à entrada em vigor das disposições acima referidas, os Estados‑Membros podem manter todas as exclusões previstas na legislação
         nacional respectiva no momento da entrada em vigor da presente directiva.»
      
      4        A Sexta Directiva foi revogada e substituída pela Directiva 2006/112.
      
      5        Nos termos do artigo 176.° desta última directiva: 
      
      «O Conselho, deliberando por unanimidade, sob proposta da Comissão, determina quais as despesas que não conferem direito à
         dedução do IVA. Em qualquer caso, são excluídas do direito à dedução as despesas que não tenham carácter estritamente profissional,
         tais como despesas sumptuárias, recreativas ou de representação. 
      
      Até à entrada em vigor das disposições referidas no primeiro parágrafo, os Estados‑Membros podem manter todas as exclusões
         previstas na respectiva legislação nacional em 1 de Janeiro de 1979 ou, no que respeita aos Estados‑Membros que tenham aderido
         à Comunidade após essa data, na data da respectiva adesão.»
      
       Legislação nacional
      6        O artigo 25.°, n.° 1, ponto 1a, da Lei relativa ao imposto sobre o valor acrescentado (ustawa o podatku VAT z roku 1993),
         de 8 de Janeiro de 1993 (a seguir «Lei de 1993 sobre o IVA»), dispõe: 
      
      «Não dão lugar a redução do montante ou a reembolso da diferença do imposto devido os serviços importados, adquiridos pelo
         sujeito passivo, cujo preço é directa ou indirectamente pago a uma pessoa com domicílio, sede ou administração num dos territórios
         ou num dos países indicados no anexo 9 da lei.»
      
      7        No anexo 9 da Lei de 1993 sobre o IVA, sob a epígrafe «Lista dos países (territórios) em relação aos quais o montante do IVA
         sobre a importação de serviços não dá lugar a redução do montante do IVA devido nem ao reembolso da diferença do IVA devido»,
         figura a seguinte lista:
      
      «1)       Principado de Andorra;
      2)      Anguila, território autónomo dependente do Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte; 
      3)       Antígua e Barbuda; 
      4)       Aruba, território autónomo do Reino dos Países Baixos;
      5)       Comunidade das Baamas;
      6)       Estado do Bahrein; 
      7)      Barbados; 
      8)       Belize; 
      9)       Bermudas, dependência do Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte;
      10)       Ilhas Virgens, dependência do Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte;
      11)       Ilhas Cook, território autónomo associado à Nova Zelândia; 
      12)      Comunidade da Domínica; 
      13)       Gibraltar, dependência da Coroa Britânica; 
      14)       Granada; 
      15)       Guernesey/Sark/Aurigny, dependência da Coroa Britânica; 
      16)       Hong Kong, região administrativa especial da República Popular da China;
      17)       Jersey, dependência da Coroa Britânica;
      18)       Ilhas Caimão, dependência do Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte; 
      19)       República da Libéria; 
      20)       Principado do Liechtenstein;
      21)       Macau, região administrativa especial da República Popular da China; 
      22)       República das Maldivas; 
      23)       Ilha de Man, dependência da Coroa Britânica; 
      24)      República das Ilhas Marshall; 
      25)       República da Maurícia;
      26)       Principado do Mónaco; 
      27)       Montserrat, dependência do Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte; 
      28)       República de Nauru; 
      29)       Antilhas Neerlandesas, dependência do Reino dos Países Baixos; 
      30)       Niue, território autónomo associado à Nova Zelândia;
      31)       República do Panamá; 
      32)       Estado independente da Samoa; 
      33)       República das Seychelles; 
      34)       Federação de São Cristóvão e Nevis;
      35)      Santa Lúcia; 
      36)       São Vicente e Granadinas;
      37)       Reino de Tonga; 
      38)       Ilhas Turcas e Caicos, dependência do Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte;
      39)       Ilhas Virgens dos Estados Unidos, território não integrado nos Estados Unidos; 
      40)       República de Vanuatu; 
      41)       Emirados Árabes Unidos.»
      8        Este regime fiscal manteve‑se, no essencial, nas disposições da Lei relativa ao Imposto sobre o Valor Acrescentado (ustawa
         o podatku VAT z roku 2004), de 11 de Março de 2004 (a seguir «Lei de 2004 sobre o IVA»), a saber, no artigo 88.°, n.° 1, ponto 1,
         desta lei, lido em conjugação com o respectivo anexo 5, cuja lista contém 39 Estados e territórios, em vez de 41. Estas disposições
         entraram em vigor em 1 de Maio de 2004.
      
       Litígio no processo principal e questão prejudicial
      9        A Oasis East produz e vende fontes de água refrigerada. No quadro das suas actividades, que compreendem igualmente serviços
         pós‑venda, recorre à prestação de serviços propostos por uma empresa com sede num dos territórios enumerados no anexo 9 da
         Lei de 1993 sobre o IVA, o qual foi substituído pelo anexo 5 da Lei de 2004 sobre o IVA. Esta empresa presta à Oasis East
         serviços de gestão e assistência técnica. Estas prestações referem‑se, nomeadamente, às seguintes actividades: marketing, organização e participações no domínio das feiras internacionais, operações no âmbito da planificação da produção, serviços
         de engenharia, consultoria financeira e contabilística, organização de transportes, serviços relacionados com a gestão de
         sistemas informáticos, coordenação em matéria de compras e vendas.
      
      10      Em 28 de Dezembro de 2007, a Oasis East submeteu ao Director das Finanças de Katowice a questão de saber se poderia deduzir,
         a partir de 1 de Maio de 2004, o montante do imposto pago a montante no acto da importação de serviços administrativos cujo
         preço é pago a uma empresa com sede num dos territórios que figura no anexo 5 da Lei de 2004 sobre o IVA.
      
      11      O Director das Finanças de Katowice, por decisão de 4 de Abril de 2008, deu resposta negativa à questão submetida pela Oasis
         East. Considerou que esta não podia deduzir o imposto pago a montante, dado que o preço dos serviços em causa era pago a uma
         empresa com domicílio, sede ou administração num dos Estados ou territórios mencionados no anexo 5 da Lei de 2004 sobre o
         IVA.
      
      12      O Director das Finanças de Katowice salientou que a legislação nacional não era incompatível com o direito da União, dado
         que o artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva permitia aos Estados‑Membros manter todas as exclusões previstas na legislação
         nacional na data da entrada em vigor desta directiva. Daí inferiu que a República da Polónia podia continuar a manter em vigor
         as restrições em matéria de dedução do IVA, existentes na data da sua adesão à União Europeia.
      
      13      Em 18 de Junho de 2008, a Oasis East interpôs recurso da referida decisão de 4 de Abril de 2008 no Wojewódzki Sąd Administracyjny
         w Gliwicach (Tribunal Administrativo de voïevodie de Gliwice).
      
      14      Este órgão jurisdicional negou provimento ao recurso da Oasis East, por decisão de 22 de Dezembro de 2008. Considerou que
         a manutenção, na ordem jurídica nacional, da exclusão referida no artigo 88.°, n.° 1, ponto 1, da Lei de 2004 sobre o IVA
         não constituía uma infracção ao artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva.
      
      15      No recurso de cassação interposto em 9 de Março de 2009, a Oasis East reiterou a argumentação invocada anteriormente. Nestas
         condições, o Naczelny Sąd Administracyjny decidiu suspender a instância e submeter ao Tribunal de Justiça a seguinte questão
         prejudicial:
      
      «O direito comunitário, em especial o artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva [...] (actual artigo 176.° da Directiva 2006/112/CE
         [...]), permite a um Estado‑Membro aplicar disposições nacionais que excluam o direito de o sujeito passivo reduzir o montante
         do imposto devido ou obter o reembolso da diferença do imposto devido em caso de aquisição de serviços importados, cujo preço
         seja directa ou indirectamente pago a uma pessoa que tenha estabelecido o seu domicílio, a sua sede ou a sua administração
         num dos territórios ou num dos países designados pela legislação nacional como ‘paraíso fiscal’, tendo em conta que esta exclusão
         era aplicada antes da adesão do Estado‑Membro à Comunidade?»
      
       Quanto à questão prejudicial
      16      Com a sua questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta se o artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva, cujas disposições
         foram, no essencial, retomadas no artigo 176.° da Directiva 2006/112, autoriza a manutenção de uma legislação nacional, aplicável
         na data da entrada em vigor da Sexta Directiva no Estado‑Membro em causa, que exclui, de modo geral, o direito a dedução do
         IVA pago a montante no acto da aquisição de serviços importados, cujo preço é directa ou indirectamente pago a uma pessoa
         estabelecida num Estado ou num território qualificado como «paraíso fiscal» por esta legislação.
      
      17      Dado que a questão submetida evoca simultaneamente o artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva e o artigo 176.° da Directiva
         2006/112, importa salientar, a título preliminar, que estas duas disposições são, no essencial, idênticas.
      
      18      A fim de responder à referida questão, importa recordar que o direito a dedução, previsto no artigo 17.°, n.° 2, da Sexta
         Directiva, constitui, enquanto parte integrante do mecanismo do IVA, um princípio fundamental inerente ao sistema comum do
         IVA e não pode, em princípio, ser limitado (v. acórdãos de 8 de Janeiro de 2002, Metropol e Stadler, C‑409/99, Colect., p. I‑81,
         n.° 42; de 26 de Maio de 2005, Kretztechnik, C‑465/03, Colect., p. I‑4357, n.° 33; e de 15 de Abril de 2010, X Holding e Oracle
         Nederland, C‑538/08 e C‑33/09, ainda não publicado na Colectânea, n.° 37). 
      
      19      O princípio do direito a dedução do IVA é, todavia, mitigado pela disposição derrogatória prevista no artigo 17.°, n.° 6,
         da Sexta Directiva. Os Estados‑Membros estão, com efeito, autorizados a manter a sua legislação existente em matéria de exclusão
         do direito a dedução, na data da entrada em vigor da Sexta Directiva, até que o Conselho adopte as disposições previstas nesse
         artigo (v. acórdão de 11 de Dezembro de 2008, Danfoss e AstraZeneca, C‑371/07, Colect., p. I‑9549, n.° 28, e acórdão X Holding
         e Oracle Nederland, já referido, n.° 38).
      
      20      Uma vez que o Conselho não adoptou essas disposições, os Estados‑Membros podem manter a sua legislação existente em matéria
         de exclusão do direito a dedução do IVA. Por conseguinte, o direito da União não contém actualmente nenhuma disposição que
         enumere as despesas excluídas do direito a dedução (v. acórdãos de 8 de Dezembro de 2005, Jyske Finans, C‑280/04, Colect.,
         p. I‑10683, n.° 23, e Danfoss e AstraZeneca, já referido, n.° 29).
      
      21      Quanto ao alcance do regime derrogatório previsto no artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva, o Tribunal de Justiça decidiu,
         todavia, que esta disposição pressupõe que as exclusões que os Estados‑Membros podem manter eram legais em virtude da Segunda
         Directiva 67/228/CEE do Conselho, de 11 de Abril de 1967, relativa à harmonização das legislações dos Estados‑Membros respeitantes
         aos impostos sobre o volume de negócios – Estrutura e modalidades de aplicação do sistema comum de imposto sobre o valor acrescentado
         (JO 1967, 71, p. 1303, a seguir «Segunda Directiva»), anterior à Sexta Directiva (v. acórdão de 5 de Outubro de 1999, Royscot
         e o., C‑305/97, Colect., p. I‑6671, n.° 21, e acórdão X Holding e Oracle Nederland, já referido, n.° 40).
      
      22      A este respeito, o artigo 11.° da Segunda Directiva estabelecia, no seu n.° 1, o direito a dedução e, ao mesmo tempo, previa,
         no seu n.° 4, que os Estados‑Membros podiam excluir do regime de dedução certos bens e serviços, designadamente os que fossem
         susceptíveis de ser, exclusiva ou parcialmente, utilizados para as necessidades privadas do sujeito passivo ou do seu pessoal.
      
      23      Consequentemente, a faculdade concedida aos Estados‑Membros no artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva não constitui um poder
         discricionário absoluto de excluir todos os bens e serviços ou a quase totalidade destes do direito a dedução do IVA e de
         esvaziar, assim, do seu conteúdo, o regime criado pelo artigo 11.°, n.° 1, da Segunda Directiva. A referida faculdade não
         tem por objecto, portanto, exclusões gerais e não dispensa os Estados‑Membros da obrigação de precisar suficientemente quais
         os bens e serviços para os quais está excluído o direito a dedução (v., neste sentido, acórdãos Royscot e o., já referido,
         n.os 22 e 24, e de 14 de Julho de 2005, Charles e Charles‑Tijmens, C‑434/03, Colect., p. I‑7037, n.os 33 e 35).
      
      24      Além disso, uma vez que se trata de um regime que constitui uma derrogação ao princípio do direito a dedução do IVA, esse
         regime é de interpretação restritiva (v. acórdão Metropol e Stadler, já referido, n.° 59, e acórdão de 22 de Dezembro de 2008,
         Magoora, C‑414/07, Colect., p. I‑10921, n.° 28).
      
      25      No que diz respeito ao processo principal e à eventual aplicabilidade do regime derrogatório previsto no artigo 17.°, n.° 6,
         da Sexta Directiva, importa salientar que a referida directiva entrou em vigor na Polónia, na data de adesão deste Estado‑Membro
         à União, ou seja, em 1 de Maio de 2004. Assim, esta data é relevante para efeitos da aplicação da disposição supra‑referida,
         no que diz respeito a este Estado‑Membro (v. acórdão Magoora, já referido, n.° 27).
      
      26      Uma vez que o Governo polaco evocou o facto de que a redacção do artigo 176.° da Directiva 2006/112 estabelece uma distinção
         entre os Estados‑Membros que aderiram à União antes de 1 de Janeiro de 1979 e os Estados‑Membros, como a República da Polónia,
         cuja adesão é posterior a esta data, basta observar que esta diferenciação tem apenas por objectivo determinar a data anteriormente
         à qual as despesas que não conferem direito a dedução do IVA deviam estar previstas na legislação nacional.
      
      27      Consequentemente, o artigo 176.° da Directiva 2006/112 não pode dar lugar a uma interpretação diferente, quanto ao alcance
         das exclusões consideradas, consoante o Estado‑Membro em causa tenha aderido à União antes de 1 de Janeiro de 1979 ou posteriormente
         a esta data. Nestas condições, a inclusão deste artigo 176.° não teve incidência na jurisprudência relativa à interpretação
         do artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva.
      
      28      A fim de apreciar a legislação nacional em causa no processo principal, tendo em conta o regime derrogatório nela previsto,
         há que declarar que, como salientou também o órgão jurisdicional de reenvio, esta legislação constitui uma medida de carácter
         geral que restringe o direito a dedução do IVA pago a montante por qualquer aquisição de serviços importados, cujo preço é
         directa ou indirectamente pago a uma pessoa estabelecida num Estado ou num território qualificado como «paraíso fiscal» pela
         referida legislação.
      
      29      Ora, essa legislação implica uma limitação do direito a dedução do IVA que excede a que é autorizada no artigo 17.°, n.° 6,
         da Sexta Directiva.
      
      30      Com efeito, o Tribunal de Justiça precisou que os Estados‑Membros não estão habilitados a manter exclusões do direito a dedução
         do IVA aplicáveis genericamente a qualquer despesa relacionada com a aquisição de bens ou serviços (v., neste sentido, acórdão
         de 23 de Abril de 2009, PARAT Automotive Cabrio, C‑74/08, Colect., p. I‑3459, n.os 28 e 29, e acórdão X Holding e Oracle Nederland, já referido, n.° 44).
      
      31      Por fim, no que se refere à argumentação apresentada pelo Governo polaco, segundo a qual a legislação nacional controvertida
         responde à necessidade de prevenir fraudes fiscais, importa salientar que, embora seja verdade que o Tribunal de Justiça reconheceu,
         no n.° 70 do seu acórdão de 21 de Fevereiro de 2006, Halifax e o. (C‑255/02, Colect., p. I‑1609), que o princípio da proibição
         de práticas abusivas é aplicável no domínio do IVA, o referido princípio não pode permitir que os Estados‑Membros alarguem
         o âmbito de aplicação do regime derrogatório em causa. Além disso, embora, como indica o órgão jurisdicional de reenvio, as
         restrições previstas no direito polaco fossem motivadas pela necessidade de evitar determinadas fraudes ou evasões fiscais,
         o artigo 27.° da Sexta Directiva prevê, para este efeito, um procedimento especial que permite ao Conselho autorizar um Estado‑Membro
         a introduzir medidas derrogatórias especiais. 
      
      32      Tendo em conta o exposto, deve responder‑se à questão submetida que o artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva, cujas disposições
         foram, no essencial, retomadas no artigo 176.° da Directiva 2006/112, deve ser interpretado no sentido de que não autoriza
         a manutenção de uma legislação nacional, aplicável na data da entrada em vigor da Sexta Directiva no Estado‑Membro em causa,
         que exclui, de modo geral, o direito a dedução do IVA pago a montante no acto da aquisição de serviços importados, cujo preço
         é directa ou indirectamente pago a uma pessoa estabelecida num Estado ou num território qualificado como «paraíso fiscal»
         pela referida legislação.
      
       Quanto às despesas
      33      Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         de reenvio, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Sétima Secção) declara:
      O artigo 17.°, n.° 6, da Sexta Directiva 77/388/CEE do Conselho, de 17 de Maio de 1977, relativa à harmonização das legislações
            dos Estados‑Membros respeitantes aos impostos sobre o volume de negócios – Sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado:
            matéria colectável uniforme, conforme alterada pela Directiva 95/7/CE do Conselho, de 10 de Abril de 1995, cujas disposições
            foram, no essencial, retomadas no artigo 176.° da Directiva 2006/112/CE do Conselho, de 28 de Novembro de 2006, relativa ao
            sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado, deve ser interpretado no sentido de que não autoriza a manutenção de
            uma legislação nacional, aplicável na data da entrada em vigor da Sexta Directiva 77/388 no Estado‑Membro em causa, que exclui,
            de modo geral, o direito a dedução do imposto sobre o valor acrescentado pago a montante no acto da aquisição de serviços
            importados, cujo preço é directa ou indirectamente pago a uma pessoa estabelecida num Estado ou num território qualificado
            como «paraíso fiscal» pela referida legislação.
      Assinaturas
      * Língua do processo: polaco.