CELEX: 62004CJ0030
Language: pt
Date: 2005-07-21 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal (Primeira Secção) de 21 de Julho de 2005.#Ursel Koschitzki contra Istituto nazionale della previdenza sociale (INPS).#Pedido de decisão prejudicial: Tribunale di Bolzano - Itália.#Segurança social dos trabalhadores migrantes - Regulamento (CEE) n.º 1408/71 - Pensão de velhice - Cálculo do montante teórico da prestação - Tomada em consideração do montante necessário para atingir a pensão mínima prevista pela legislação nacional.#Processo C-30/04.

Processo C‑30/04
      Ursel Koschitzki
      contra
      Istituto nazionale della previdenza sociale (INPS)
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo Tribunale di Bolzano)
      «Segurança social dos trabalhadores migrantes – Regulamento (CEE) n.° 1408/71 – Pensão de velhice – Cálculo do montante teórico da prestação – Tomada em consideração do montante necessário para atingir a pensão mínima prevista pela legislação nacional»
      Conclusões do advogado‑geral F. G. Jacobs apresentadas em 4 de Maio de 2005 
      Acórdão do Tribunal de Justiça (Primeira Secção) de 21 de Julho de 2005 
      Sumário do acórdão
      Segurança social dos trabalhadores migrantes – Seguro de velhice e morte – Cálculo das prestações – Determinação do montante
            teórico – Tomada em consideração de um complemento para se atingir a pensão mínima prevista pela legislação de um Estado‑Membro
            – Inexistência – Condições
      [Regulamento n.° 1408/71 do Conselho, artigo 46.°, n.° 2, alínea a)]
      O artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71, relativo à aplicação dos regimes de segurança social aos trabalhadores
         assalariados, aos trabalhadores não assalariados e aos membros da sua família que se deslocam no interior da Comunidade, na
         redacção alterada e actualizada pelo Regulamento n.° 2001/83, na redacção dada, por sua vez, pelo Regulamento n.° 3096/95,
         deve ser interpretado no sentido de que, para se determinar o montante teórico da pensão que serve de base ao cálculo da pensão
         proporcional, a instituição competente não é obrigada a tomar em consideração um complemento para se atingir a pensão mínima
         prevista pela legislação nacional, quando, devido à ultrapassagem dos limites de rendimento fixados pela legislação nacional
         relativa ao referido complemento, um contribuinte que exerceu toda a sua actividade profissional no Estado‑Membro em causa
         não tem direito a tal complemento.
      
      (cf. n.° 38, disp.)
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Primeira Secção)
      21 de Julho de 2005 (*)
      
      «Segurança social dos trabalhadores migrantes – Regulamento (CEE) n.° 1408/71 – Pensão de velhice – Cálculo do montante teórico da prestação – Tomada em consideração do montante necessário para atingir a pensão mínima prevista pela legislação nacional»
      No processo C‑30/04,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentado pelo Tribunale di Bolzano
         (Itália), por decisão de 9 de Janeiro de 2004, entrado no Tribunal de Justiça em 28 de Janeiro de 2004, no processo
      
      Ursel Koschitzki
      contra
      Istituto nazionale della previdenza sociale (INPS),
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Primeira Secção),
      composto por: K. Lenaerts, presidente da Quarta Secção, exercendo funções de presidente da Primeira Secção, N. Colneric (relator),
         K. Schiemann, E. Juhász e M. Ilešič, juízes,
      
      advogado‑geral: F. G. Jacobs,
      secretário: L. Hewlett, administradora principal,
      vistos os autos e após a audiência de 17 de Março de 2005,
      vistas as observações escritas apresentadas:
      –       em representação de U. Koschitzki, por M. Rossi, R. Ciancaglini e K. de Guelmi Cuccurullo, avvocati,
      –       em representação do Istituto nazionale della previdenza sociale (INPS), por A. Todaro, A. Riccio e N. Valente, avvocati,
      –       em representação da Comissão das Comunidades Europeias, por L. Pignataro e D. Martin, na qualidade de agentes,
      ouvidas as conclusões do advogado‑geral apresentadas na audiência de 4 de Maio de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
      1       O pedido de decisão prejudicial tem por objecto a interpretação do artigo 46.°, n.° 2, alínea b), do Regulamento (CEE) n.° 1408/71
         do Conselho, de 14 de Junho de 1971, relativo à aplicação dos regimes de segurança social aos trabalhadores assalariados,
         aos trabalhadores não assalariados e aos membros da sua família que se deslocam no interior da Comunidade, na redacção alterada
         e actualizada pelo Regulamento (CEE) n.° 2001/83 do Conselho, de 2 de Junho de 1983 (JO L 230, p. 6), na redacção dada, por
         sua vez, pelo Regulamento (CE) n.° 3096/95 do Conselho, de 22 de Dezembro de 1995 (JO L 335, p. 10, a seguir «Regulamento
         n.° 1408/71»).
      
      2       Esse pedido foi apresentado no âmbito de um litígio que opõe U. Koschitzki ao Istituto nazionale della previdenza sociale
         (Instituto Nacional de Segurança Social, a seguir «INPS»), a respeito do cálculo da pensão proporcional de velhice de U. Koschitzki.
      
       Quadro jurídico
       Regulamentação comunitária
      3       O artigo 1.° do Regulamento n.° 1408/71 prevê:
      «Para efeitos de aplicação do presente regulamento:
      [...]
      t)      Os termos ‘prestações’, ‘pensões’ e ‘rendas’ designam quaisquer prestações, pensões e rendas, incluindo todos os elementos
         a cargo dos fundos públicos, os acréscimos de actualização ou subsídios suplementares, sem prejuízo do disposto no título
         III, bem como as prestações em capital, que podem substituir as pensões ou rendas e os pagamentos efectuados a título de reembolsos
         de contribuições.»
      
      4       O artigo 46.°, n.os 1 a 3, do Regulamento n.° 1408/71, intitulado «Liquidação das prestações», dispõe:
      
      «1.      Quando as condições exigidas pela legislação de um Estado‑Membro para haver direito às prestações se encontrem preenchidas
         sem que seja necessário aplicar o disposto no artigo 45.° nem no n.° 3 do artigo 40.°, aplicar‑se‑ão as seguintes regras:
      
      a)      a instituição competente calcula o montante da prestação devida:
      i)      por um lado, unicamente por força das disposições da legislação por ela aplicada;
      ii)      por outro lado, nos termos do n.° 2;
      [...]
      2.      Quando as condições exigidas pela legislação de um Estado‑Membro para a obtenção do direito às prestações só estiverem preenchidas
         tendo em conta o disposto no artigo 45.° e/ou no n.° 3 do artigo 40.°, aplicar‑se‑ão as seguintes regras:
      
      a)      A instituição competente calcula o montante teórico da prestação que o interessado poderia pretender se todos os períodos
         de seguro e/ou de residência cumpridos ao abrigo das legislações dos Estados‑Membros às quais esteve sujeito o trabalhador
         assalariado ou não assalariado tivessem sido cumpridos no Estado‑Membro em causa e ao abrigo da legislação por ela aplicada
         à data da liquidação da prestação. Se, nos termos desta legislação, o montante da prestação não depender da duração dos períodos
         cumpridos, considera‑se este montante como o montante teórico referido na presente alínea;
      
      b)      Em seguida, a instituição competente determina o montante efectivo da prestação com base no montante teórico referido na alínea
         anterior, na proporção da duração dos períodos de seguro ou de residência cumpridos antes da ocorrência do risco ao abrigo
         da legislação que aplica, em relação à duração total dos períodos de seguro e de residência cumpridos, antes da ocorrência
         do risco, ao abrigo das legislações de todos os Estados‑Membros em causa.
      
      3.      O interessado tem direito, por parte da instituição competente de cada Estado‑Membro em causa, ao montante mais elevado calculado
         em conformidade com o disposto nos n.os 1 e 2, sem prejuízo, se for caso disso, da aplicação das cláusulas de redução, de suspensão ou de supressão previstas pela
         legislação por força da qual esta prestação é devida.
      
      Se assim for, a comparação a efectuar incide sobre os montantes calculados após a aplicação das referidas cláusulas.»
      5       O artigo 46.°‑A do mesmo regulamento, intitulado «Disposições gerais relativas às cláusulas de redução, suspensão ou supressão
         aplicáveis às prestações de invalidez, de velhice ou de sobrevivência por força das legislações dos Estados‑Membros», dispõe
         no seu n.° 3:
      
      «Para a aplicação das cláusulas de redução, suspensão ou supressão previstas pela legislação de um Estado‑Membro em caso de
         cumulação de uma prestação de invalidez, velhice ou sobrevivência com uma prestação da mesma natureza ou uma prestação de
         natureza diferente ou com outros rendimentos, são aplicáveis as seguintes regras:
      
      a)      as prestações adquiridas por força da legislação de outro Estado‑Membro ou os rendimentos adquiridos noutro Estado‑Membro
         apenas são tomados em consideração se a legislação do primeiro Estado‑Membro previr a tomada em consideração das prestações
         ou dos rendimentos adquiridos no estrangeiro;
      
      b)      é tomado em consideração o montante das prestações a pagar por outro Estado‑Membro antes da dedução do imposto, das contribuições
         de segurança social e de quaisquer outros descontos individuais;
      
      c)      não é tomado em consideração o montante das prestações adquiridas por força da legislação de outro Estado‑Membro que sejam
         concedidas com base num seguro voluntário ou facultativo continuado;
      
      d)      no caso de serem aplicáveis cláusulas de redução, de suspensão, ou de supressão nos termos da legislação de um único Estado‑Membro
         pelo facto de o interessado beneficiar de prestações da mesma natureza ou de natureza diferente, por força da legislação de
         outros Estados‑Membros ou de outros rendimentos adquiridos no território de outros Estados‑Membros, a prestação devida nos
         termos da legislação do primeiro Estado‑Membro só pode ser reduzida até ao limite do montante das prestações devidas nos termos
         da legislação ou dos rendimentos adquiridos no território dos outros Estados‑Membros.»
      
      6       O artigo 46.°‑C do Regulamento n.° 1408/71, intitulado «Disposições especiais aplicáveis em caso de cumulação de uma ou mais
         prestações referidas no n.° 1 do artigo 46.°‑A com uma ou várias prestações de natureza diferente ou com outros rendimentos,
         quando estão implicados dois ou mais Estados‑Membros», dispõe no seu n.° 2:
      
      «Se se tratar de uma prestação calculada em conformidade com o n.° 2 do artigo 46.°, a prestação ou as prestações de natureza
         diferente dos demais Estados‑Membros ou os outros rendimentos e todos os elementos previstos pela legislação do Estado‑Membro
         para aplicação das cláusulas de redução, suspensão ou supressão são tomados em consideração em função da relação entre os
         períodos de seguro e/ou de residência previstos no n.° 2, alínea b), do artigo 46.° e utilizados para o cálculo da referida
         prestação.»
      
       Legislação nacional
      7       O complemento para se atingir a pensão mínima é uma prestação que a República Italiana paga, por intermédio do INPS, designadamente,
         ao titular de uma pensão de invalidez ou de velhice, ou aos sobrevivos, para completar a própria pensão, se o montante desta,
         resultante do cálculo das contribuições pagas, for inferior ao «mínimo vital». O montante da pensão mínima, fixado anualmente
         e sujeito a determinados requisitos no que respeita aos rendimentos, está totalmente a cargo do sistema fiscal geral.
      
      8       O artigo 6.° do Decreto‑Lei n.° 463, de 12 de Setembro de 1983, que adopta medidas urgentes em matéria de segurança social
         e de controlo das despesas públicas, disposições para vários sectores da Administração Pública e que prorroga determinados
         prazos (GURI n.° 250, de 12 de Setembro de 1983, a seguir «Decreto‑Lei n.° 463/83»), que passou, após alteração, a Lei n.° 638,
         de 11 de Novembro de 1983 (GURI n.° 310, de 11 de Novembro de 1983, a seguir «Lei n.° 638/83»), fez depender o direito ao
         complemento do requisito geral de o beneficiário não possuir rendimentos superiores a um determinado limite, nem rendimentos
         acumulados com os do seu cônjuge que ultrapassem um limite superior, através de determinadas excepções estabelecidas pela
         lei.
      
      9       O artigo 4.° do Decreto legislativo n.° 503, de 30 de Dezembro de 1992 (suplemento ordinário ao GURI n.° 305, de 30 de Dezembro
         de 1992, a seguir «Decreto legislativo n.° 503/92»), que dá nova redacção ao artigo 6.° da Lei n.° 638/83, estabeleceu novos
         limites de rendimento para se atingir esse complemento. No cálculo do limite de rendimentos, foi incluído o rendimento do
         cônjuge coabitante, não separado legalmente.
      
      10     O artigo 1.°, n.° 16, da Lei n.° 335, de 8 de Agosto de 1995, que altera o regime da pensão obrigatória e complementar (suplemento
         ordinário ao GURI n.° 190, de 16 de Agosto de 1995, a seguir «Lei n.° 335/95»), institui o princípio geral segundo o qual
         «[a]s disposições relativas ao complemento para se atingir o montante mínimo só se aplicam às pensões liquidadas exclusivamente
         segundo o regime de contribuições».
      
      11     Nos termos do artigo 3.°, n.° 15, da Lei n.° 335/95:
      «A partir da data de entrada em vigor da presente lei, o montante mensal das pensões, cujo direito é ou foi adquirido por
         força do cúmulo dos períodos de seguro e de contribuição previsto por acordos ou convenções internacionais em matéria de segurança
         social, não pode ser inferior, por ano de contribuição, a um quadragésimo da pensão mínima em vigor na data de entrada em
         vigor da presente lei, ou na data de admissão à pensão, se esta for posterior à referida data. Em caso de ano incompleto,
         o referido montante não pode ser inferior a 6 000 liras por mês.»
      
       Litígio no processo principal e questão prejudicial
      12     U. Koschitzki é titular de uma pensão italiana de velhice, desde Outubro de 1996. Totalizou 262 semanas de contribuições em
         Itália e 533 semanas na Alemanha, ou seja, um total de 795 semanas de contribuições.
      
      13     U. Koschitzki dispunha, em Outubro de 1996, de um rendimento familiar superior ao limite indicado no artigo 4.° do Decreto
         legislativo n.° 503/92. Em 1996, o rendimento familiar, representado pelo seu rendimento e o do seu cônjuge coabitante, foi
         de 39 769 000 ITL, ou seja, 20 538,97 EUR. No mesmo ano, o limite indicado no artigo 6.° da Lei n.° 638/83, na redacção dada
         pelo artigo 4.° do Decreto legislativo n.° 503/92, estava fixado em 660 300 ITL, ou seja, 341,01 EUR por mês.
      
      14     U. Koschitzki e o INPS não estão de acordo quanto à questão de saber se o complemento para se atingir a pensão mínima italiana
         deve ser tomado em consideração para se determinar o montante teórico da pensão que serve de base ao cálculo da pensão proporcional.
      
      15     Invocando o acórdão de 24 de Setembro de 1998, Stinco e Panfilo (C‑132/96, Colect., p. I‑5225), U. Koschitzki considera que
         há que responder afirmativamente a essa questão. Alega que a pensão proporcional italiana, que começou a gozar em 1 de Outubro
         de 1996, deve ser calculada do seguinte modo: pensão mínima de 1996 (660 300 ITL = 341,01 EUR) x coeficiente de redução proporcional
         nos termos da alínea b) do n.° 2 do artigo 46.° do Regulamento n.° 1408/71 (262 semanas : 795 semanas = 0,32956) = 217 600 ITL
         (112,38 EUR).
      
      16     Segundo o INPS, não há que tomar em consideração, no caso vertente, o complemento em causa para se determinar o montante teórico.
         Este montante é de 36 540 ITL (18,87 EUR), o que conduz a uma pensão proporcional italiana de 12 042 ITL (6,21 EUR) por mês.
      
      17     O INPS decidiu finalmente pagar uma pensão no montante de 83 000 ITL, ou seja, 42,86 EUR por mês.
      18     Na sua decisão de reenvio, o Tribunale di Bolzano salienta que o texto do acórdão Stinco e Panfilo, já referido, parece dar
         razão a U. Koschitzki no que respeita ao modo de cálculo. No entanto, parece‑lhe que este acórdão não especificou se o referido
         complemento, que constitui a base de cálculo para a pensão proporcional italiana, deve ser sempre tomado em consideração,
         mesmo se o rendimento familiar superar o limite indicado pela lei italiana.
      
      19     No processo principal, o rendimento familiar, ou seja, o rendimento de U. Koschitzki e o do seu cônjuge coabitante, ultrapassou
         incontestavelmente o rendimento‑limite. Segundo a legislação italiana, U. Koschitzki não tem direito ao complemento para se
         atingir a pensão mínima italiana.
      
      20     O órgão jurisdicional de reenvio refere que, segundo a tese do INPS, o método de cálculo proposto pela recorrente produz um
         resultado injusto na óptica da igualdade de tratamento entre o pensionista italiano e o pensionista «internacional». Se o
         Tribunal de Justiça considerar válida a tese do INPS, na parte decisória do acórdão Stinco e Panfilo, já referido, deveria
         ser acrescentada a precisão: «se não forem ultrapassados os limites de rendimento e as outras condições nela previstas».
      
      21     Nestas circunstâncias, o Tribunale di Bolzano decidiu suspender a instância e submeter ao Tribunal de Justiça a seguinte questão
         prejudicial:
      
      «À luz do artigo 42.° […] [CE] […], que, em matéria de segurança social, impõe a adopção das medidas necessárias ao estabelecimento
         da livre circulação dos trabalhadores, deve o artigo 46.°, n.° 2, alínea b), do Regulamento (CEE) n.° 1408/71 ser interpretado
         no sentido de que a base de cálculo da pensão proporcional italiana deve ser sempre constituída pela pensão virtual acrescida
         do complemento para a pensão mínima, ainda que sejam ultrapassados os limites de rendimento previstos na lei nacional italiana
         para a concessão do complemento para se atingir a pensão mínima (artigo 6.° da Lei n.° 638/83, alterado pelo artigo 4.° do
         Decreto legislativo n.° 503/92), ou no sentido de que a base de cálculo da pensão proporcional italiana deve ser constituída
         pela pensão virtual pura (montante teórico não acrescido do referido complemento) nos casos em que o pensionista supere os
         limites de rendimento previstos pela lei italiana para o direito a esse complemento?»
      
       Quanto à questão prejudicial
      22     O artigo 46.°, n.° 2, alínea b), do Regulamento n.° 1408/71, a que se refere a questão submetida, remete para o montante teórico
         mencionado na alínea a) do seu n.° 2. O órgão jurisdicional de reenvio pergunta, essencialmente, se, para se determinar, nos
         termos do artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71, o montante teórico da pensão que serve de base ao cálculo
         da pensão proporcional, deve ser tomado em consideração o complemento para se atingir a pensão mínima prevista pela legislação
         nacional, quando os limites de rendimento fixados pela legislação nacional relativa a esse complemento forem ultrapassados.
      
      23     Para responder a essa questão, há que recordar que o Tribunal de Justiça, no n.° 22 do acórdão Stinco e Panfilo, já referido,
         declarou que o artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71 deve ser interpretado no sentido de que obriga a
         instituição competente, na determinação do montante teórico da pensão que serve de base ao cálculo da pensão proporcional,
         a ter em conta um complemento para se atingir a pensão mínima prevista na lei nacional.
      
      24     No processo que originou esse acórdão, o INPS atribuiu a A. Stinco e a C. Panfilo pensões proporcionais, em conformidade com
         o artigo 46.°, n.° 2, do Regulamento n.° 1408/71, calculadas com base nas pensões fictícias que os demandantes teriam recebido
         se tivessem trabalhado em Itália durante toda a sua vida profissional. O montante dessas pensões fictícias era de um nível
         tal que se os interessados tivessem efectivamente tido direito a pensões nacionais desse montante, o complemento previsto
         pela lei italiana ter‑lhes‑ia sido concedido a fim de atingirem a pensão mínima (v. acórdão Stinco e Panfilo, já referido,
         n.° 8).
      
      25     No caso vertente, em razão da ultrapassagem dos limites de rendimento fixados pela legislação nacional relativa ao complemento
         para se atingir a pensão mínima, um contribuinte na situação de U. Koschitzki, que exerceu toda a sua actividade no Estado‑Membro
         em causa, não pode exigir esse complemento.
      
      26     Para determinar se, nessas condições, o complemento em causa deve ser tomado em consideração para o cálculo do montante teórico
         referido no artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71, há que interpretar esta disposição à luz da sua redacção
         e da sua finalidade.
      
      27     Resulta das disposições expressas do artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71 que o montante teórico deve
         ser calculado como se o segurado tivesse exercido toda a sua actividade profissional unicamente no Estado‑Membro em causa
         (acórdão de 26 de Junho de 1980, Menzies, 793/79, Recueil, p. 2085, n.° 10).
      
      28     Quanto à finalidade desse artigo, o Tribunal de Justiça já declarou que o cálculo a efectuar por força dessa disposição tem
         por objectivo assegurar ao trabalhador o montante teórico máximo a que tem direito se todos os seus períodos de contribuição
         tivessem sido cumpridos no Estado em causa (acórdão Menzies, já referido, n.° 11).
      
      29     Daí resulta que, embora a legislação do Estado‑Membro em causa preveja que o direito ao complemento depende do requisito geral
         de o beneficiário não possuir rendimentos superiores a determinado limite, nem rendimentos acumulados com os do seu cônjuge
         coabitante que ultrapassem um limite superior, esta disposição deve igualmente ser tomada em consideração para o cálculo do
         montante teórico referido no artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71.
      
      30     No entanto, U. Koschitzki sustenta que se impõe outra solução. A este respeito, alega, por um lado, que é necessário ter em
         conta a definição do termo «prestação», constante do artigo 1.°, alínea t), do Regulamento n.° 1408/71, que dispõe que «[o]s
         termos ‘prestações’, ‘pensões’ e ‘rendas’ designam quaisquer prestações, pensões e rendas, incluindo todos os elementos a
         cargo dos fundos públicos […]». Uma vez que se trata de um elemento da prestação de base, o complemento para se atingir a
         pensão mínima não pode ser excluído da determinação da pensão teórica.
      
      31     No entanto, para se determinar o montante teórico de uma pensão, a simples qualificação do referido complemento como «prestação»,
         na acepção do artigo 1.°, alínea t), do Regulamento n.° 1408/71, em nada prejudica a forma como o complemento deve ser tomado
         em consideração. A obrigação de tomar em consideração esse complemento não implica a obrigação de lhe atribuir um conteúdo
         diferente daquele que tem sob a legislação nacional.
      
      32     Daí resulta que a qualificação como «prestação» do complemento para se atingir a pensão mínima italiana não obriga a incluir,
         na determinação do montante teórico referido no artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71, um complemento
         a que um pensionista não teria direito se lhe fosse aplicada apenas a legislação nacional.
      
      33     Por outro lado, U. Koschitzki invoca determinados argumentos baseados numa interpretação dos artigos 46.°, n.° 3, 46.°‑A e
         46.°‑C do Regulamento n.° 1408/71. Alega, em primeiro lugar, que a fixação do limite de rendimentos pela legislação italiana
         deve ser analisada como uma cláusula de redução, na acepção dos referidos artigos 46.°‑A e 46.°‑C. Em segundo lugar, considera
         que, nos termos do artigo 46.°, n.° 3, desse regulamento, o cálculo do seu direito a pensão, nos termos do n.° 2 desse artigo,
         deve ser efectuado, numa primeira fase, sem ter em conta as disposições da legislação nacional relativas à redução. A aplicação
         das cláusulas de redução ocorre apenas na segunda fase do cálculo, quando é feita uma comparação entre o montante da prestação
         devida nos termos unicamente da legislação nacional, com aplicação das suas disposições anticúmulo, e o montante da prestação
         devida por força do direito comunitário, com aplicação das suas disposições anticúmulo. A este respeito, refere o acórdão
         de 11 de Junho de 1992, Di Crescenzo e Casagrande (C‑90/91 e C‑91/91, Colect., p. I‑3851, n.° 27).
      
      34     Essas considerações baseiam‑se numa leitura errada do Regulamento n.° 1408/71.
      35     É jurisprudência assente que uma disposição nacional deve ser qualificada de cláusula de redução, na acepção do Regulamento
         n.° 1408/71, se o cálculo a que obriga conduz a reduzir o montante da pensão a que o interessado tem direito pelo facto de
         beneficiar de uma prestação noutro Estado‑Membro (v., nomeadamente, acórdãos de 22 de Outubro de 1998, Conti, C‑143/97, Colect.,
         p. I‑6365, n.° 25, e de 7 de Março de 2002, Insalaca, C‑107/00, Colect., p. I‑2403, n.° 16).
      
      36     No entanto, uma disposição nacional, como a em causa no processo principal, não constitui uma cláusula de redução, na acepção
         dos artigos 46.°, n.° 3, 46.°‑A e 46.°‑C do Regulamento n.° 1408/71.
      
      37     No que respeita ao acórdão Di Crescenzo e Casagrande, já referido, este tinha por objecto uma situação em que estava em causa
         uma cláusula de redução das prestações na acepção do Regulamento n.° 1408/71. Por conseguinte, este acórdão não confirma a
         tese defendida pela recorrente.
      
      38     Resulta do exposto que há que responder à questão submetida que o artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento n.° 1408/71
         deve ser interpretado no sentido de que, para se determinar o montante teórico da pensão que serve de base ao cálculo da pensão
         proporcional, a instituição competente não é obrigada a tomar em consideração um complemento para se atingir a pensão mínima
         prevista pela legislação nacional, quando, devido à ultrapassagem dos limites de rendimento fixados pela legislação nacional
         relativa ao referido complemento, um contribuinte que exerceu toda a sua actividade profissional no Estado‑Membro em causa
         não tem direito a tal complemento.
      
       Quanto às despesas
      39     Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         nacional, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Primeira Secção) declara:
      O artigo 46.°, n.° 2, alínea a), do Regulamento (CEE) n.° 1408/71 do Conselho, de 14 de Junho de 1971, relativo à aplicação
            dos regimes de segurança social aos trabalhadores assalariados, aos trabalhadores não assalariados e aos membros da sua família
            que se deslocam no interior da Comunidade, na redacção alterada e actualizada pelo Regulamento (CEE) n.° 2001/83 do Conselho,
            de 2 de Junho de 1983, na redacção dada, por sua vez, pelo Regulamento (CE) n.° 3096/95 do Conselho, de 22 de Dezembro de
            1995, deve ser interpretado no sentido de que, para se determinar o montante teórico da pensão que serve de base ao cálculo
            da pensão proporcional, a instituição competente não é obrigada a tomar em consideração um complemento para se atingir a pensão
            mínima prevista pela legislação nacional, quando, devido à ultrapassagem dos limites de rendimento fixados pela legislação
            nacional relativa ao referido complemento, um contribuinte que exerceu toda a sua actividade profissional no Estado‑Membro
            em causa não tem direito a tal complemento.
      Assinaturas
      * Língua do processo: italiano.