CELEX: 62002TJ0273
Language: pt
Date: 2005-04-20
Title: Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Quarta Secção) de 20 de Abril de 2005. # Krüger GmbH & Co. KG contra Instituto de Harmonização do Mercado Interno (marcas, desenhos e modelos) (IHMI). # Marca comunitária - Processo de oposição - Pedido de marca nominativa comunitária CALPICO - Marca nacional anterior CALYPSO - Artigo 8.º, n.º 1, alínea b), do Regulamento (CE) n.º 40/94 - Direito de ser ouvido. # Processo T-273/02.

Processo T‑273/02
      Krüger GmbH & Co. KG
      contra
      Instituto de Harmonização do Mercado Interno       (marcas, desenhos e modelos) (IHMI)
      «Marca comunitária – Processo de oposição – Pedido de marca nominativa comunitária CALPICO – Marca nacional anterior CALYPSO – Artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento (CE) n.° 40/94 – Direito de ser ouvido»
      Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Quarta Secção) de 20 de Abril de 2005 
      Sumário do acórdão
      1.     Marca comunitária – Definição e aquisição da marca comunitária – Motivos relativos de recusa – Oposição do titular de uma
            marca anterior idêntica ou semelhante registada para produtos ou serviços idênticos ou semelhantes – Risco de confusão com
            a marca anterior – Marcas nominativas CALPICO e CALYPSO
      [Regulamento n.° 40/94 do Conselho, artigo 8.°, n.° 1, alínea b)]
      2.     Marca comunitária – Processo de recurso – Câmaras de Recurso – Qualificação enquanto administração do Instituto – Direito
            das partes a um «processo» equitativo – Inexistência
      (Regulamento n.° 40/94 do Conselho, artigos 60.° a 62.° )
      3.     Marca comunitária – Decisões do Instituto – Respeito dos direitos de defesa – Alcance do princípio
      (Regulamento n.° 40/94 do Conselho, artigo 73.°)
      1.     Não existe, para o consumidor médio alemão, risco de confusão entre o sinal nominativo CALPICO, cujo registo enquanto marca
         comunitária é pedido para «águas minerais e gasosas e outras bebidas não alcoólicas, especialmente bebidas destinadas a uma
         utilização fisiológica; bebidas à base de fruta e sumos de fruta, bem como bebidas à base de sumos de fruta; xaropes e outras
         preparações para fazer bebidas» abrangidas pelas classes 29, 30 e 32 na acepção do Acordo de Nice, e a marca nominativa CALYPSO,
         registada anteriormente na Alemanha para «fruta em pó e preparações não alcoólicas à base de fruta para produzir bebidas não
         alcoólicas (todos estes produtos também sob a forma de produtos instantâneos)» abrangidas pela classe 32 do referido Acordo,
         na medida em que, apesar de os produtos designados pelas marcas em conflito serem parcialmente idênticos e parcialmente altamente
         semelhantes, a diferença visual e as claras diferenças fonética e conceptual entre as marcas em conflito permitem afastar,
         no espírito do público pertinente, qualquer risco de confusão entre essas marcas e isto mesmo que o consumidor visado não
         preste uma atenção especial a destas últimas.
      
      (cf. n.os 45, 54, 55)
      
      2.     Está excluída a aplicação às Câmaras de Recurso do Instituto de Harmonização do Mercado Interno (marcas, desenhos e modelos)
         do direito a um «processo» equitativo na acepção do artigo 6.°, n.° 1, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, uma vez
         que o processo perante as Câmaras de Recurso não reveste natureza jurisdicional mas sim administrativa.
      
      (cf. n.° 62)
      3.     Embora o direito de ser ouvido, como consagrado no artigo 73.°, segundo período, do Regulamento n.° 40/94 sobre a marca comunitária,
         seja extensivo a todos os elementos de facto ou de direito, bem como aos elementos de prova que constituem o fundamento do
         acto decisório do Instituto de Harmonização do Mercado Interno (marcas, desenhos e modelos), todavia não se aplica à posição
         final que a administração tenciona adoptar.
      
      (cf. n.° 65)
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Quarta Secção)
      20 de Abril de 2005 (*)
      
      «Marca comunitária – Processo de oposição – Pedido de marca nominativa comunitária CALPICO – Marca nacional anterior CALYPSO – Artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento (CE) n.° 40/94 – Direito de ser ouvido»
      No processo T‑273/02,
      Krüger GmbH & Co. KG, com sede em Bergisch Gladbach (Alemanha), representada por S. von Petersdorff‑Campen, advogado,
      
      recorrente,
      contra
      Instituto de Harmonização do Mercado Interno (marcas, desenhos e modelos) (IHMI), representado por G. Schneider, na qualidade de agente,
      
      recorrido,
      sendo a outra parte no processo que correu os seus termos na Câmara de Recurso do IHMI, interveniente no Tribunal de Primeira
         Instância,
      
      Calpis Co. Ltd, com sede em Tóquio (Japão), representada por O. Jüngst e M. Schork, advogados,
      
      que tem por objecto um recurso interposto da decisão da Primeira Câmara de Recurso do IHMI, de 25 de Junho de 2002 (processo
         R 484/2000‑1), relativa a um processo de oposição entre a Calpis Co. Ltd e a Krüger GmbH & Co. KG,
      
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA DAS COMUNIDADES EUROPEIAS (Quarta Secção),
      composto por: H. Legal, presidente, P. Mengozzi e I. Wiszniewska‑Białecka, juízes,
      secretário: I. Natsinas, administrador,
      vista a petição apresentada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 6 de Setembro de 2002,
      vista a contestação apresentada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 18 de Dezembro de 2002,
      visto o articulado da interveniente apresentado na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 27 de Dezembro de 2002,
      após a audiência de 17 de Novembro de 2004,
      profere o presente
      Acórdão
       Antecedentes do litígio
      1       Em 1 de Abril de 1996, The Calpis Food Industry Co. Ltd, que passou a Calpis Co. Ltd (a seguir «interveniente»), apresentou
         um pedido de marca comunitária ao Instituto de Harmonização do Mercado Interno (marcas, desenhos e modelos) (IHMI), ao abrigo
         do Regulamento (CE) n.° 40/94 do Conselho, de 20 de Dezembro de 1993, sobre a marca comunitária (JO 1994, L 11, p. 1), na
         actual versão.
      
      2       A marca cujo registo era pedido é o sinal nominativo CALPICO.
      3       Os produtos para os quais foi pedido o registo fazem parte das classes 29, 30 e 32 na acepção do Acordo de Nice relativo à
         Classificação Internacional dos Produtos e dos Serviços para o registo de marcas, de 15 de Junho de 1957, como revisto e alterado,
         e correspondem, no que respeita à classe 32, à seguinte descrição: «águas minerais e gasosas e outras bebidas não alcoólicas,
         especialmente bebidas destinadas a uma utilização fisiológica; bebidas à base de fruta e sumos de fruta, bem como bebidas
         à base de sumos de fruta; xaropes e outras preparações para fazer bebidas».
      
      4       Em 28 de Setembro de 1998, o pedido de marca foi publicado no Boletim de Marcas Comunitárias n.° 74/98.
      
      5       Em 11 de Novembro de 1998, a Krüger GmbH & Co. KG (a seguir «recorrente») deduziu oposição ao registo do sinal CALPICO invocando
         o risco de confusão, na acepção do artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento n.° 40/94, com a marca nacional nominativa
         anterior CALYPSO, registada na Alemanha, de que era titular. Os produtos para que fora registada a marca anterior integram
         a classe 32 na acepção do acordo de Nice e correspondem à seguinte descrição: «fruta em pó e preparações não alcoólicas à
         base de fruta para produzir bebidas não alcoólicas (todos estes produtos também sob a forma de produtos instantâneos)».
      
      6       Por decisão de 13 de Março de 2000, a Divisão de Oposição negou provimento à oposição com o fundamento de que as duas marcas
         em conflito eram suficientemente diferentes em termos visuais, fonéticos e conceptuais para que não existisse qualquer risco
         de confusão na acepção do artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento n.° 40/94.
      
      7       Em 5 de Maio de 2000, a recorrente recorreu da decisão da Divisão de Oposição no IHMI.
      8       Por decisão de 25 de Junho de 2002 (a seguir «decisão impugnada»), a Primeira Câmara de Recurso do IHMI negou provimento ao
         recurso. A Câmara de Recurso considerou, essencialmente, que, embora os produtos em causa fossem parcialmente idênticos (preparações
         para bebidas) e parcialmente muito semelhantes (outros produtos), as diferenças visual, fonética e conceptual entre os sinais
         em conflito não autorizavam a que se concluísse pela existência de um risco de confusão.
      
       Pedidos das partes
      9       A recorrente conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      –       anular a decisão impugnada;
      –       condenar o IHMI nas despesas.
      10     O IHMI e a interveniente concluem pedindo que o Tribunal se digne:
      –       negar provimento ao recurso;
      –       condenar a recorrente nas despesas.
       Questão de direito
      11     Em apoio do seu recurso, a recorrente invoca dois fundamentos. O primeiro decorre da violação do artigo 8.°, n.° 1, alínea
         b), do Regulamento n.° 40/94 e o segundo da violação do direito de ser ouvido, a que se refere o artigo 61.°, n.° 2, do Regulamento
         n.° 40/94, conjugado com a regra 20, n.° 2, primeiro período, do Regulamento (CE) n.° 2868/95 da Comissão, de 13 de Dezembro
         de 1995, relativo à execução do Regulamento n.° 40/94 (JO L 303, p. 1), e o artigo 6.°, n.° 1, da Convenção Europeia para
         a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (CEDH).
      
       Quanto ao primeiro fundamento, decorrente da violação do artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento n.° 40/94
       Argumentos das partes
      12     A recorrente considera, em primeiro lugar, que a Câmara de Recurso, ao proceder a uma análise das semelhanças visual, fonética
         e conceptual dos sinais em conflito, procedeu a um exame cumulativo manifestamente erróneo do risco de confusão. Segundo a
         recorrente, quando se conclua pela existência de uma dessas semelhanças, por exemplo a visual, e esta seja de importância
         decisiva, não é necessário examinar a semelhança conceptual dos sinais em conflito, mesmo que não exista qualquer semelhança
         fonética. Ora, ao proceder a um exame cumulativo, a Câmara de Recurso desprezou a jurisprudência recordada nos acórdãos do
         Tribunal de Justiça de 11 de Novembro de 1997, SABEL (C‑251/95, Colect., p. I‑6191), e de 22 de Junho de 1999, Lloyd Schuhfabrik
         Meyer (C‑342/97, Colect., p. I‑3819, n.° 27).
      
      13     Em segundo lugar, a recorrente afirma que a Câmara de Recurso não apreciou correctamente os factos e que não podia concluir
         pela inexistência de semelhanças entre as marcas em conflito.
      
      14     Antes de mais, sustenta que foi erradamente que a Câmara de Recurso considerou que, devido à abundância de oferta no sector
         dos sumos de fruta e das bebidas, o nível de atenção do consumidor médio não devia ser considerado diminuto. A recorrente
         não contesta a existência de uma abundante oferta no sector dos sumos de fruta e das bebidas, embora considere que a fundamentação
         da Câmara de Recurso é contraditória. Se, como se apontou, se tratasse, no caso em apreço, de produtos que são comprados rapidamente,
         o nível de atenção do consumidor não podia ser elevado. Além disso, a abundância de oferta favorecia o risco de confusão entre
         as marcas. Por outro lado, a própria Câmara de Recurso sublinhou que o preço dos produtos era baixo. Ora, no entender da recorrente,
         o consumidor médio presta menos atenção a um produto barato do que a um produto mais caro.
      
      15     Em seguida, a recorrente sustenta existir uma semelhança visual entre os sinais CALYPSO e CALPICO. Ambos eram constituídos
         por sete letras e incluíam a letra «p» no meio da palavra. Além disso, as letras comuns aos dois sinais («cal» e «o») estavam
         situadas no início e no final do sinal. Ora, a recorrente afirma que os elementos determinantes na impressão visual deixada
         por um sinal são os elementos que se encontram no início e no fim do sinal nominativo. A conclusão da Câmara de Recurso, de
         que existem diferenças visuais entre as duas sequências de letras «pic» e «yps», era irrelevante pois estas encontram‑se no
         meio da palavra. Além disso, a recorrente sublinha que os sinais em causa são, em primeiro lugar, percebidos visualmente,
         só sendo percebidos foneticamente pelo consumidor se este os examinar com mais atenção. Ora, como o seu nível de atenção é
         fraco, a maior parte das vezes os sinais só eram percebidos visualmente. É a razão pela qual importa reconhecer à semelhança
         visual uma importância decisiva.
      
      16     Segundo a recorrente, o risco de confusão decorrente da semelhança visual é reforçado pela semelhança fonética existente entre
         os sinais. Com efeito, estes têm em comum a sequência de vogais «a‑i‑o», pronunciando‑se letra «y» do sinal CALYPSO como um
         «i». A sequência vocálica era assim determinante para a percepção fonética das palavras em causa. Por outro lado, a recorrente
         sustenta que, como o sinal CALPICO é considerado uma palavra estrangeira na Alemanha, uma grande parte dos consumidores pronuncia‑o
         como se se tratasse de uma palavra italiana ou espanhola, ou seja, «kalpitscho» ou «kalpizo». Existia, portanto, para o consumidor
         alemão, uma incerteza quanto à pronúncia do sinal nominativo CALPICO, o que incitava o consumidor a pronunciá‑lo da mesma
         forma que o sinal CALYPSO, que já tinha ouvido. A afirmação da Câmara de Recurso segundo a qual a letra «c» de CALPICO era
         pronunciada como um «k», porque em alemão o «c» pronuncia‑se sempre assim quando está antes de um «o», era, portanto, irrelevante,
         pois CALPICO não é uma palavra alemã.
      
      17     Ademais, a recorrente considera que a falta de semelhança conceptual entre os dois sinais não permite concluir pela inexistência
         de qualquer risco de confusão. Na medida em que a palavra «calypso» possui em alemão diversos significados – designa uma dança
         rítmica originária das Antilhas, uma ninfa da mitologia grega ou um satélite de Saturno – e a palavra «calpico» não possui
         nenhum, o consumidor podia, devido às semelhanças visual e fonética existentes entre os dois sinais, atribuir à palavra «calpico»
         significados que são os da palavra «calypso». Além disso, a Câmara de Recurso não demonstrou por que é que entre os diferentes
         significados da palavra «calypso» os consumidores o associam às Caraíbas, ao Sul e a ritmos balançados.
      
      18     Por último, a recorrente alega que a Câmara de Recurso não atendeu à interdependência entre a semelhança dos sinais e a dos
         produtos na apreciação do risco de confusão. Com efeito, tendo chegado à conclusão de que existia uma semelhança entre os
         produtos, a Câmara de Recurso, com base nas semelhanças visual e fonética entre os sinais, devia concluir que existia um risco
         de confusão.
      
      19     Em terceiro lugar, a recorrente sustenta que a decisão controvertida é contrária à prática decisória do IHMI, em especial
         às decisões R 488/2000‑4, de 28 de Fevereiro de 2002, Robert Krups/Lidl Stiftung, R 622/1999‑3, de 3 de Abril de 2001, Almirall
         Prodesfarma/Mundipharma, e R 251/2000‑3, de 12 de Fevereiro de 2001, Karlsberg Brauerei/Mystery Drinks.
      
      20     O IHMI responde, em primeiro lugar, que a Câmara de Recurso não afirmou que, para se concluir pela existência de risco de
         confusão, é necessário que se verifique simultaneamente uma semelhança visual, uma semelhança fonética e uma semelhança conceptual.
      
      21     Em segundo lugar, o IHMI sustenta que a Câmara de Recurso apreciou correctamente os factos e concluiu acertadamente pela inexistência
         de qualquer risco de confusão.
      
      22     Antes de mais, o IHMI sustenta que, mesmo para a aquisição de produtos de grande consumo, se deve partir da hipótese de um
         nível de atenção médio do consumidor, e não de um baixo nível de atenção. Assim, a recorrente tinha de demonstrar que, no
         caso em apreço, não era o que se passava para os sumos de fruta. Ora, a simples afirmação de que a prática é essa não pode
         ser considerada uma prova suficiente. Na verdade, no entender do IHMI, o consumidor alemão é muito sensível às marcas de sumos
         de fruta. O grande sucesso de algumas marcas no mercado alemão, bem como as frequentes campanhas publicitárias na rádio e
         na televisão indicam, segundo o IHMI, que o consumidor presta pelo menos uma atenção média à marca quando escolhe uma bebida
         desse tipo.
      
      23     Em seguida, o IHMI considera que os dois sinais se distinguem claramente nos planos conceptual, fonético e visual, o que obsta
         à existência de um risco de confusão entre as marcas.
      
      24     A interveniente afirma, em primeiro lugar, não detectar nenhuma apreciação cumulativa na decisão impugnada. Segundo a interveniente,
         a recorrente confundiu dois exames. O primeiro era o da apreciação da semelhança entre os sinais. Dos acórdãos SABEL e Lloyd
         Schuhfabrik Meyer, já referidos, resulta que havia que examinar o grau de semelhança visual, fonética e conceptual a fim de
         se determinar a semelhança dos sinais em conflito. O segundo era o da apreciação do risco de confusão. Bastava que a semelhança
         existisse apenas num dos planos para que houvesse risco de confusão. No entender da interveniente, se, desde a fase de exame
         da semelhança dos sinais, a Câmara de Recurso concluísse que os sinais se distinguem um do outro, não tinha que se interrogar
         sobre se bastava a existência de uma dessas três semelhanças para se verificar um risco de confusão. Foi o que, no entender
         da interveniente, fez a Câmara de Recurso no caso em apreço.
      
      25     Além disso, a interveniente rejeita o argumento da recorrente segundo o qual importava atribuir à semelhança fonética uma
         importância menor do que à semelhança visual entre os sinais, pois as marcas nominativas eram percebidas principalmente através
         da sua forma escrita. Com efeito, segundo a interveniente, a percepção fonética deixada pelas marcas é fundamental. Eram ouvidas
         através dos media muito antes de ser lidas.
      
      26     Em segundo lugar, a interveniente sustenta que a Câmara de Recurso podia concluir pela inexistência de qualquer risco de confusão.
      27     A este respeito, considera, antes de mais, que, no caso em apreço, o nível de atenção do consumidor médio não é diminuto.
         Ao sublinhar que o consumidor, porque está habituado a dispor de uma ampla escolha de sumos de fruta, atribui importância
         às embalagens e às marcas, a Câmara de Recurso seguia a jurisprudência do Tribunal de Justiça, que exige que se atenda ao
         facto de que «o nível de atenção do consumidor médio é susceptível de variar em função da categoria de produtos ou serviços
         em causa» (acórdão Lloyd Schuhfabrik Meyer, já referido, n.° 26). Assim, havia que qualificar a atenção do consumidor produto
         a produto, mesmo que se trate de produtos de consumo corrente, em vez de consagrar o princípio de uma atenção diminuta do
         consumidor médio a todos os produtos de consumo corrente, sejam eles quais forem. Como as bebidas em causa eram fabricadas
         por inúmeras empresas, o consumidor examinava‑as de uma forma relativamente atenta. A conclusão a que chegou a Câmara de Recurso
         quanto ao nível de atenção do consumidor não era, portanto, «oposta» à da Divisão de Oposição, pois esta apenas apreciava
         os factos de uma forma diferente da primeira.
      
      28     Em seguida, quanto à comparação dos sinais, a interveniente associa‑se, em substância, à posição do IHMI.
      29     Por último, relativamente ao argumento da recorrente de que a Câmara de Recurso, na apreciação do risco de confusão, não atendeu
         à interdependência entre a semelhança das marcas e a dos produtos, a interveniente também considera que não é procedente.
      
       Apreciação do Tribunal
      30     Nos termos do artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento n.° 40/94, após oposição do titular de uma marca anterior, o pedido
         de registo de marca será recusado quando, devido à sua identidade ou semelhança com a marca anterior e devido à identidade
         ou semelhança dos produtos ou serviços designados pelas duas marcas, exista risco de confusão no espírito do público do território
         onde a marca anterior está protegida.
      
      31     Segundo jurisprudência constante, constitui risco de confusão o risco de que o público possa crer que os produtos ou serviços
         em causa provêm da mesma empresa ou, eventualmente, de empresas ligadas economicamente.
      
      32     Segundo esta mesma jurisprudência, o risco de confusão deve ser apreciado globalmente, segundo a percepção que o público pertinente
         tem dos sinais e dos produtos ou serviços em causa e atentos todos os factores relevantes do caso, nomeadamente a interdependência
         entre a semelhança dos sinais e a dos produtos ou serviços designados [v. acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 9 de
         Julho de 2003, Laboratorios RTB/IHMI – Giorgio Beverly Hills (GIORGIO BEVERLY HILLS), T‑162/01, Colect., p. II‑2821, n.os 31 a 33, e jurisprudência referida].
      
      33     Como também resulta da jurisprudência, a apreciação global do risco de confusão deve, em matéria de semelhança visual, fonética
         ou conceptual dos sinais em conflito, basear‑se na impressão de conjunto produzida por estes, atendendo, em especial, aos
         seus elementos distintivos e dominantes [v. acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 14 de Outubro de 2003, Phillips‑Van
         Heusen/IHMI – Pash Textilvertrieb und Einzelhandel (BASS), T‑292/01, Colect., p. II‑4335, n.° 47, e jurisprudência referida].
      
      34     No caso em apreço, o litígio é relativo à comparação dos sinais. Os caracteres parcialmente idênticos e parcialmente semelhantes
         dos produtos designados pelas marcas em conflito não são objecto de contestação.
      
      35     Estando a marca anterior registada na Alemanha, o público pertinente é o consumidor médio alemão.
      36     Importa sublinhar, antes de mais, que, contrariamente ao que sustenta a recorrente, não se pode concluir pela existência de
         um risco de confusão sem se proceder a um exame prévio da semelhança entre os sinais nos planos visual, fonético e conceptual.
         Com efeito, a tese da recorrente, segundo a qual se pode concluir pela existência de risco de confusão sempre que, num dos
         três planos indicados, exista semelhança entre os sinais, é contrária à jurisprudência comunitária invocada no n.° 33, supra, e segundo a qual a apreciação global do risco de confusão deve, no que respeita à semelhança visual, fonética ou conceptual
         dos sinais em conflito, basear‑se na impressão de conjunto produzida por estes, tendo em atenção, designadamente, os respectivos
         elementos distintivos e dominantes. É no quadro desta comparação global que se deve, eventualmente, proceder a uma ponderação
         das diferenças e dos elementos de semelhança entre os sinais.
      
      37     Nestas condições, cabe examinar se a Câmara de Recurso infringiu o artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento n.° 40/94,
         ao concluir pela inexistência de semelhança visual, fonética e conceptual entre os sinais em causa susceptível de excluir,
         face a produtos idênticos ou muito semelhantes, qualquer risco de confusão entre as marcas em conflito.
      
      38     Quanto à comparação visual entre os sinais em causa, a Câmara de Recurso sublinhou, no n.° 20 da decisão impugnada:
      «As duas marcas são constituídas por sete letras, cujas três primeiras (‘CAL’) e a última (‘O’) são idênticas. A mesma letra
         (‘P’) surge na parte central das duas marcas. Isto não obsta a que as duas marcas produzam uma impressão de conjunto claramente
         diferente. Com efeito, a sequência das letras ‘PIC’ no meio da marca pedida distingue‑se claramente da sequência de letras
         ‘YPS’ da marca do opositor.»
      
      39     Esta apreciação não pode ser infirmada. De um modo geral, quando estão em causa sinais nominativos relativamente curtos, como
         os do caso em apreço, os elementos centrais são tão importantes como os elementos iniciais e finais [v., neste sentido, acórdão
         do Tribunal de Primeira Instância de 6 de Julho de 2004, Grupo El Prado Cervera/IHMI – Herdeiros Debuschewitz (CHUFAFIT),
         T‑117/02, ainda não publicado na Colectânea, n.° 48]. Ora, os sinais em conflito possuem efectivamente diferenças no plano
         visual, decorrentes da sequência das letras «pic» na marca comunitária pedida e «yps» na marca nacional anterior, que não
         permitem que se conclua pela existência de uma semelhança visual entre os sinais em conflito.
      
      40     Quanto à comparação fonética, a Câmara de Recurso indicou, no n.° 21 da decisão impugnada:
      «Contrariamente ao opositor, a Câmara de Recurso não detecta nenhuma razão que permita afirmar que, na Alemanha, a marca solicitada
         se pronuncia ‘KALPITZO’ ou ‘KALPISO’. Em alemão, quando a letra ‘C’ antecede um ‘O’, é sempre pronunciada como ‘K’, como nas
         palavras ‘Collage’, ‘Computer’, ‘Container’, ‘Coburg’ ou ‘Coca‑Cola®’. Trata‑se, portanto, de uma consoante dura. Linguisticamente,
         a marca requerida decompõe‑se em três sílabas: CAL‑PI‑CO (que se pronunciam ‘KAL‑PI‑KO’), sendo a primeira a sílaba tónica.
         Embora, linguisticamente, a marca do opositor também tenha três sílabas, ou seja, CA‑LY‑PSO (que se pronunciam ‘KA‑LU‑PSO’),
         aqui a sílaba tónica é a segunda. Concluindo, as duas marcas em conflito são claramente diferentes no plano fonético.»
      
      41     Esta apreciação só pode ser aprovada. Com efeito, importa sublinhar que os sinais em conflito possuem duas sílabas nitidamente
         diferentes no plano fonético, que a sílaba tónica nos dois sinais não é a mesma e que a letra «y» não se pronuncia, em alemão,
         da mesma forma que o «i». Por outro lado, quanto ao argumento da recorrente segundo o qual o consumidor alemão pronunciava
         o sinal nominativo CALPICO como «kalpitscho» ou «kalpizo», como se pronunciava em italiano ou em espanhol, importa sublinhar
         que, mesmo que se aceite que o público pertinente tem conhecimentos bastantes das línguas italiana e espanhola, CALPICO não
         se pronuncia «kalpitscho» ou «kalpizo» nem em italiano nem em espanhol. Além disso, mesmo admitindo, como a recorrente sustenta,
         que o consumidor alemão, reconhecendo o sinal CALPICO como uma palavra estrangeira, adopte uma pronúncia fantasista e incerta
         que corresponda à que imagina ser a correcta em italiano ou em espanhol, esse consumidor não será, todavia, levado a pronunciar
         esse termo de uma forma análoga ao sinal nominativo CALYPSO, cuja forma de pronunciar é constante na língua alemã. Esta diferença
         contribui para afastar a existência de qualquer semelhança fonética entre os dois sinais.
      
      42     Relativamente à comparação conceptual efectuada pela Câmara de Recurso, esta sublinha, no n.° 22 da decisão impugnada, que
         o termo «calpico» é uma «palavra absolutamente fantasista, sem qualquer conteúdo semântico», enquanto o termo «calypso» evoca
         ou «as Caraíbas, o Sul e balanceamento rítmicos», ou a ninfa da mitologia grega junto de quem Ulisses se refugiou após ter
         naufragado. Nestas condições, concluiu que os sinais em conflito não possuem «qualquer semelhança conceptual».
      
      43     A este respeito, basta sublinhar que, para o público pertinente, o termo «calypso» possui efectivamente, pelo menos, os dois
         significados evocados pela Câmara de Recurso, ao passo que o termo «calpico» não possuiu nenhum. Do ponto de vista conceptual,
         o público pertinente poderá, portanto, claramente distinguir os dois sinais em conflito, seja qual for o significado preciso,
         entre as duas acepções evocadas pela Câmara de Recurso, que atribua ao termo «calypso». Além disso, mesmo que se admita, como
         a recorrente pretende, que o público pertinente associa o termo «calypso» a um dos satélites de Saturno, esta circunstância
         não dava azo a qualquer semelhança conceptual com o termo «calpico».
      
      44     Por conseguinte, foi correctamente que a Câmara de Recurso concluiu pela inexistência de semelhança visual, fonética e conceptual
         entre os sinais em conflito.
      
      45     Nestas condições, apesar de os produtos designados pelas marcas em conflito serem parcialmente idênticos e parcialmente altamente
         semelhantes, a diferença visual e as claras diferenças fonética e conceptual entre as marcas em conflito permitem afastar,
         no espírito do público pertinente, qualquer risco de confusão entre essas marcas.
      
      46     Esta conclusão não é posta em causa pelos outros argumentos da recorrente.
      47     Quanto à alegação da recorrente de que a impressão de conjunto das marcas em conflito era dominada pela impressão visual,
         basta sublinhar que, mesmo que se justifique, não permitia a conclusão de que existia um risco de confusão entre as marcas
         em conflito pois não existe semelhança visual entre os sinais.
      
      48     Quanto ao argumento da recorrente assente na anterior prática decisória do IHMI, também deve ser rejeitado pois a legalidade
         das decisões das Câmaras de Recurso deve, segundo jurisprudência bem assente, ser apreciada unicamente com base no Regulamento
         n.° 40/94, como interpretado pelo órgão jurisdicional comunitário, e não com base numa tal prática decisória anterior [acórdãos
         do Tribunal de Primeira Instância de 5 de Dezembro de 2002, Sykes Enterprises/IHMI (REAL PEOPLE, REAL SOLUTIONS), T‑130/01,
         Colect., p. II‑5179, n.° 31, e de 3 de Julho de 2003, Alejandro/IHMI – Anheuser‑Busch (BUDMEN), T‑129/01, Colect., p. II‑2251,
         n.° 61].
      
      49     Além disso, relativamente à decisão da Câmara de Recurso Karlsberg Brauerei/Mystery Drinks, referida no n.° 19, supra, que a recorrente e a interveniente debateram entre si e que foi objecto de recurso para o Tribunal de Primeira Instância
         [acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 15 de Janeiro de 2003, Mystery Drinks/IHMI – Karlsberg Brauerei (MYSTERY), T‑99/01,
         Colect., p. II‑43], a recorrente não demonstrou a existência de uma situação comparável à desse processo, pois, no caso em
         apreço, os sinais em conflito possuem diferenças fonéticas nítidas, enquanto no processo que deu lugar ao acórdão MYSTERY
         os sinais em causa foram considerados foneticamente semelhantes.
      
      50     Por último, a recorrente acusa a Câmara de Recurso de ter tomado em consideração, para efeitos da apreciação do risco de confusão
         entre as marcas em conflito, um nível de atenção não desprezível do público pertinente, contrariamente à análise efectuada
         pela Divisão de Oposição, que tinha considerado que o público pertinente comprava os produtos designados pelas marcas em conflito
         com uma certa negligência.
      
      51     A este respeito, importa sublinhar que, na sua decisão de rejeição da oposição devido à inexistência de risco de confusão,
         a Divisão de Oposição indicou:
      
      «Embora no caso em apreço estejam em causa produtos idênticos, as diferenças entre os sinais comparados bastam para distinguir
         [as marcas] com alguma certeza. É certo que, no caso em apreço, se devem aplicar critérios estritos no que respeita à diferença
         que deve existir entre as marcas, designadamente porque os produtos comparados são artigos de consumo corrente que, como a
         experiência revela, são adquiridos com uma certa negligência e sem que as designações dos produtos sejam objecto de uma atenção
         muito especial.»
      
      52     Quanto à Câmara de Recurso, importa recordar que, no n.° 23 da decisão impugnada, esclareceu:
      «Os produtos representados por cada uma das marcas são produtos da vida quotidiana que o consumidor adquire geralmente de
         passagem nos supermercados e nas lojas de bebidas. O preço desses artigos é de tal ordem que podem ser qualificados de artigos
         de baixo custo. Mas, tendo em atenção a abundância da oferta no sector dos sumos de fruta e das bebidas, importa considerar
         que a atenção do cliente médio não será desprezível. Com efeito, habituado a ver‑se confrontado com uma abundante oferta de
         sumos de fruta e de produtos do mesmo género, como os pós apresentados em embalagens semelhantes, o consumidor prestará atenção
         ao acondicionamento de cada um deles ou examinará as marcas com mais atenção, aquando de uma compra.»
      
      53     Como os produtos designados pelas marcas em conflito são produtos de consumo corrente, tanto a Divisão de Oposição como a
         Câmara de Recurso consideraram que o nível de atenção do público pertinente não era elevado. É certo que o n.° 23 da decisão
         impugnada difere da decisão da Divisão de Oposição quanto à apreciação do grau exacto de atenção que o público pertinente
         dispensará às marcas em conflito, devido à influência que a abundância da oferta no sector dos sumos de fruta e bebidas pode
         exercer sobre essa atenção. Todavia, embora a Câmara de Recurso tenha considerado que a abundância de oferta no sector dos
         sumos de fruta e bebidas possa levar o público pertinente a prestar especial atenção às marcas em conflito, não considerou
         que essa atenção era elevada.
      
      54     De qualquer modo, a diferença de apreciação entre as decisões das duas instâncias do IHMI não afecta as conclusões a que essas
         instâncias chegaram quanto à inexistência de semelhanças entre os sinais em conflito e ao risco de confusão entre as marcas.
         Com efeito, atentas as diferenças visual, fonética e conceptual entre os sinais em conflito, recordadas nos n.os 38 a 43, supra, o consumidor médio alemão não atribuirá a mesma origem comercial aos produtos designados pelas marcas em conflito, mesmo
         que não preste uma atenção especial a essas marcas.
      
      55     Nestas circunstâncias, foi correctamente que a Câmara de Recurso considerou que não existia risco de confusão entre as marcas
         em conflito, na acepção do artigo 8.°, n.° 1, alínea b), do Regulamento n.° 40/94.
      
      56     Assim, há que rejeitar o primeiro fundamento.
       Quanto ao segundo fundamento, decorrente da violação do direito de ser ouvido a que se refere o artigo 61.°, n.° 2, do Regulamento
            n.° 40/94, conjugado com a regra 20, n.° 2, primeiro período, do Regulamento n.° 2868/95, e o artigo 6.°, n.° 1, da CEDH
       Argumentos das partes
      57     A recorrente sublinha que, segundo a Câmara de Recurso, o nível de atenção do consumidor médio não era diminuto devido à variedade
         e à abundância da oferta no sector dos sumos de fruta e das bebidas. Ora, a Câmara não convidou a recorrente a apresentar‑lhe
         as suas observações sobre a apreciação que fez do nível de atenção do consumidor médio, o que constituía uma violação do seu
         direito de ser ouvida, na acepção do artigo 61.°, n.° 2, do Regulamento n.° 40/94, conjugado com a regra 20, n.° 2, primeiro
         período, do Regulamento n.° 2868/95, e do artigo 6.°, n.° 1, da CEDH.
      
      58     O IHMI sublinha que tanto a Divisão de Oposição como a recorrente se exprimiram sobre a questão do nível de atenção do consumidor
         antes de esta ter sido examinada pela Câmara de Recurso. A decisão impugnada podia, portanto, afastar‑se da argumentação que
         as partes lhe haviam apresentado sem necessidade de as informar previamente. O IHMI sustenta que a acusação relativa à violação
         do direito de ser ouvido não tem, portanto, qualquer fundamento.
      
      59     A interveniente considera que a recorrente se refere ao artigo 73.°, segundo período, do Regulamento n.° 40/94, que obriga
         o IHMI a indicar às partes se pretende basear a sua decisão em fundamentos de facto ou de direito sobre os quais estas não
         se pronunciaram. Segundo a interveniente, a questão do nível de atenção do consumidor faz parte da apreciação da matéria de
         facto. Embora a Câmara de Recurso e a Divisão de Oposição apreciem os factos de uma forma ligeiramente diferente, isso não
         transforma esses factos em factos novos. Segundo a interveniente, esses factos foram exaustivamente expostos tanto na decisão
         da Divisão de Oposição como na decisão impugnada. Nestas condições, a interveniente entende que uma nova apreciação dos factos
         já conhecidos não constitui uma violação do direito de ser ouvido. Além disso, a interveniente sublinha que a recorrente sabia
         que a apreciação do risco de confusão era efectuada em função da atenção do consumidor. Assim, a recorrente tinha a possibilidade
         de desenvolver este argumento, o que não fez.
      
       Apreciação do Tribunal
      60     Nos termos do artigo 61.°, n.° 2, do Regulamento n.° 40/94, «[d]urante o exame do recurso, a Câmara de Recurso convidará as
         partes, tantas vezes quantas forem necessárias, a apresentar, num prazo que lhes fixará, as suas observações sobre as notificações
         que lhes enviou ou sobre as comunicações das outras partes». Além disso, a regra 20, n.° 2, primeiro período, do Regulamento
         n.° 2868/95 prevê que, quando o acto de oposição não inclua indicações detalhadas sobre os factos, comprovativos e argumentos,
         previstos na regra 16, n.os 1 e 2, do mesmo diploma, o IHMI deve convidar o opositor a apresentar‑lhos no prazo que fixar.
      
      61     Ora, no que toca à alegação da recorrente relativa à violação destas duas disposições pela Câmara de Recurso, basta observar,
         por um lado, que a recorrente não demonstrou não ter sido convidada a apresentar observações sobre uma «notificação» proveniente
         da Câmara de Recurso ou sobre uma «comunicação» proveniente da interveniente, na acepção do artigo 61.°, n.° 2, do Regulamento
         n.° 40/94, e, por outro, dos autos não resulta que o acto de oposição não continha as indicações referidas na regra 20, n.° 2,
         primeiro período, do Regulamento n.° 2868/95. Assim, a acusação da recorrente relativa à violação dessas disposições deve
         ser rejeitada.
      
      62     Quanto à alegada violação do artigo 6.°, n.° 1, da CEDH, cabe esclarecer que o Tribunal excluiu a aplicação às Câmaras de
         Recurso do IHMI do direito a um «processo» equitativo, uma vez que o processo perante as Câmaras de Recurso não reveste natureza
         jurisdicional mas sim administrativa [v., neste sentido, acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 12 de Dezembro de 2002,
         Procter & Gamble/IHMI (Forma de um sabão), T‑63/01, Colect., p. II‑5255, n.os 22 e 23].
      
      63     Todavia, como a interveniente correctamente considera, a recorrente, através do seu segundo fundamento decorrente da violação
         do direito de ser ouvida, visa, em definitivo, o alegado desrespeito pela Câmara de Recurso do artigo 73.°, segundo período,
         do Regulamento n.° 40/94, nos termos do qual «[as decisões] do Instituto serão fundamentadas. Essas decisões só se podem basear
         em motivos a respeito dos quais as partes tenham podido pronunciar‑se», que constitui a expressão, no quadro do Regulamento
         n.° 40/94, do princípio geral do respeito do direito de defesa.
      
      64     No caso em apreço, importa recordar que a recorrente acusa a Câmara de Recurso de não ter respeitado o seu direito de ser
         ouvida pois não a convidou a apresentar observações sobre a atenção «não desprezível» do público pertinente que pretendia
         afirmar na decisão impugnada. Em contrapartida, é certo que a recorrente não acusa a Câmara de Recurso de não a ter convidado
         a apresentar as suas observações sobre a existência de uma abundante oferta no sector dos sumos de fruta e das bebidas, elemento
         de facto, de resto também não contestado, que serviu de base ao nível de atenção do público pertinente acolhido pela Câmara
         de Recurso.
      
      65     Ora, há que considerar que, embora o direito de ser ouvido, como consagrado no artigo 73.°, segundo período, do Regulamento
         n.° 40/94, seja extensivo a todos os elementos de facto ou de direito, bem como aos elementos de prova que constituem o fundamento
         do acto decisório, todavia não se aplica à posição final que a administração tenciona adoptar [v., neste sentido, acórdãos
         do Tribunal de Primeira Instância de 21 de Janeiro de 1999, Neue Maxhütte Stahlwerke e Lech Stahlwerke/Comissão, T‑129/95,
         T‑2/96 e T‑97/96, Colect., p. II‑17, n.° 231, e de 3 de Dezembro de 2003, Audi/IHMI (TDI), T‑16/02, ainda não publicado na
         Colectânea, n.os 71 e 75].
      
      66     Por conseguinte, como a apreciação factual em causa se inclui na posição final da Câmara de Recurso, esta última não era obrigada
         a ouvir a recorrente a seu respeito.
      
      67     Importa acrescentar que, como resulta do exame do primeiro fundamento, a diferença de apreciação entre as duas instâncias
         do IHMI quanto ao grau exacto de atenção do público pertinente não tem qualquer consequência no que respeita às conclusões
         a que essas instâncias chegaram quanto à falta de semelhança entre os sinais em causa e ao risco de confusão entre as marcas
         em conflito.
      
      68     Segue‑se que, mesmo admitindo que a Câmara de Recurso seja culpada de uma violação do direito de ser ouvida da recorrente,
         essa violação não podia afectar a legalidade da decisão impugnada.
      
      69     Assim, o segundo fundamento deve ser rejeitado, devendo ser integralmente negado provimento ao recurso.
       Quanto às despesas
      70     Nos termos do artigo 87.°, n.° 2, do Regulamento de Processo, a parte vencida é condenada nas despesas se a parte vencedora
         o tiver requerido.
      
      71     Tendo a recorrente sido vencida, há que condená‑la nas despesas, em conformidade com o pedido nesse sentido do IHMI e da interveniente.
      Pelos fundamentos expostos,
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Quarta Secção)
      decide:
      1)      É negado provimento ao recurso.
      2)      A recorrente é condenada nas despesas.
      
               Legal
            
            
               Mengozzi
            
            
               Wiszniewska‑Białecka
            
         Proferido em audiência pública no Luxemburgo, em 20 de Abril de 2005.
      
               O secretário
            
             
            
                     O presidente
            
         
               H. Jung
            
             
            
                     H. Legal
            
         * Língua do processo: alemão.