CELEX: 62009CJ0463
Language: pt
Date: 2011-01-20
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Terceira Secção) de 20 de Janeiro de 2011. # CLECE SA contra María Socorro Martín Valor e Ayuntamiento de Cobisa. # Pedido de decisão prejudicial: Tribunal Superior de Justicia de Castilla-La Mancha - Espanha. # Política social - Directiva 2001/23/CE - Transferência de empresas - Manutenção dos direitos dos trabalhadores - Conceito de ‘transferência’ - Actividades de limpeza - Actividade assegurada directamente por um município, com recrutamento de novo pessoal. # Processo C-463/09.

Processo C‑463/09
      CLECE SA
      contra
      María Socorro Martín Valor
      e
      Ayuntamiento de Cobisa
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo 
      Tribunal Superior de Justicia de Castilla‑La Mancha)
      «Política social – Directiva 2001/23/CE – Transferência de empresas – Manutenção dos direitos dos trabalhadores – Conceito de ‘transferência’ – Actividades de limpeza – Actividade assegurada directamente por um município, com recrutamento de novo pessoal»
      Sumário do acórdão
      Política social – Aproximação das legislações – Transferências de empresas – Manutenção dos direitos dos trabalhadores – Directiva
            2001/23 – Âmbito de aplicação
      [Directiva 2001/23 do Conselho, artigo 1.°, n.° 1, alínea a), e b)]
      O artigo 1.°, n.° 1, alíneas a) e b), da Directiva 2001/23, relativa à aproximação das legislações dos Estados Membros respeitantes
         à manutenção dos direitos dos trabalhadores em caso de transferência de empresas ou de estabelecimentos, ou de partes de empresas
         ou de estabelecimentos, deve ser interpretado no sentido de que esta última não se aplica a uma situação em que um município,
         que confiava a limpeza das suas instalações a uma empresa privada, decide pôr termo ao contrato que o vinculava à segunda
         e exercer, ele próprio, essas actividades de limpeza, recrutando novo pessoal para o efeito.
      
      É certo que uma actividade de limpeza pode ser considerada uma actividade que assenta essencialmente na mão‑de‑obra e, consequentemente,
         uma colectividade de trabalhadores que exerce duradouramente uma actividade comum de limpeza pode, na falta de outros factores
         de produção, corresponder a uma entidade económica. Porém, é ainda necessário que a identidade desta última seja mantida para
         além da operação em causa. Ora, a mera circunstância de a actividade exercida por uma empresa privada e a exercida pelo município
         serem semelhantes, senão mesmo idênticas, não permite concluir pela manutenção da identidade de uma entidade económica. Com
         efeito, uma entidade não pode ser reduzida à actividade de que está encarregada. A sua identidade resulta de uma multiplicidade
         indissociável de elementos como o pessoal que a compõe, o seu enquadramento, a organização do seu trabalho, os seus métodos
         de exploração ou ainda, sendo caso disso, os meios de exploração à sua disposição. Em especial, a identidade de uma entidade
         económica não pode ser mantida se o essencial dos seus efectivos não for retomado pelo presumido cessionário.
      
      (cf. n.os 39, 41, 43 e disp.)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção)
      20 de Janeiro de 2011 (*)
      
      «Política social – Directiva 2001/23/CE – Transferência de empresas – Manutenção dos direitos dos trabalhadores – Conceito de ‘transferência’ – Actividades de limpeza – Actividade assegurada directamente por um município, com recrutamento de novo pessoal»
      No processo C‑463/09,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentado pelo Tribunal Superior de
         Justicia de Castilla‑La Mancha (Espanha), por decisão de 20 de Outubro de 2009, entrado no Tribunal de Justiça em 25 de Novembro
         de 2009, no processo
      
      CLECE SA
      contra
      María Socorro Martín Valor,
      Ayuntamiento de Cobisa,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção),
      composto por: K. Lenaerts, presidente de secção, D. Šváby, R. Silva de Lapuerta, E. Juhász e J. Malenovský (relator), juízes,
      advogado‑geral: V. Trstenjak,
      secretário: A. Calot Escobar,
      vistos os autos,
      vistas as observações apresentadas:
      –        em representação do Governo espanhol, por F. Díez Moreno, na qualidade de agente,
      –        em representação da Comissão Europeia, por J. Enegren e R. Vidal Puig, na qualidade de agentes,
      ouvidas as conclusões da advogada‑geral na audiência de 26 de Outubro de 2010,
      profere o presente
      Acórdão
      1        O pedido de decisão prejudicial tem por objecto a interpretação do artigo 1.°, n.° 1, da Directiva 2001/23/CE do Conselho,
         de 12 de Março de 2001, relativa à aproximação das legislações dos Estados‑Membros respeitantes à manutenção dos direitos
         dos trabalhadores em caso de transferência de empresas ou de estabelecimentos, ou de partes de empresas ou de estabelecimentos
         (JO L 82, p. 16).
      
      2        Este pedido foi apresentado no âmbito de um litígio que opõe a CLECE SA (a seguir «CLECE») a M. S. Martín Valor e ao Ayuntamiento
         de Cobisa (município de Cobisa) a propósito do despedimento de M. S. Martín Valor.
      
       Quadro jurídico
       Direito da União
      3        A Directiva 2001/23 constitui a codificação da Directiva 77/187/CEE do Conselho, de 14 de Fevereiro de 1977, relativa à aproximação
         das legislações dos Estados‑Membros respeitantes à manutenção dos direitos dos trabalhadores em caso de transferência de empresas,
         estabelecimentos ou partes de estabelecimentos (JO L 61, p. 26; EE 05 F2 p. 122), conforme alterada pela Directiva 98/50/CE
         do Conselho, de 29 de Junho de 1998 (JO L 201, p. 88).
      
      4        O terceiro considerando da Directiva 2001/23 enuncia que «[é] necessário adoptar disposições para proteger os trabalhadores
         em caso de mudança de empresário especialmente para assegurar a manutenção dos seus direitos».
      
      5        Nos termos do artigo 1.°, n.° 1, desta directiva:
      
      «a)      A presente directiva é aplicável à transferência para outra entidade patronal de uma empresa, estabelecimento ou parte de
         empresa ou estabelecimento, quer essa transferência resulte de uma cessão convencional quer de uma fusão.
      
      b)      Sob reserva do disposto na alínea a) e das disposições seguintes do presente artigo, é considerada transferência, na acepção
         da presente directiva, a transferência de uma entidade económica que mantém a sua identidade, entendida como um conjunto de
         meios organizados, com o objectivo de prosseguir uma actividade económica, seja ela essencial ou acessória.
      
      c)      A presente directiva é aplicável a todas as empresas, públicas ou privadas, que exercem uma actividade económica, com ou sem
         fins lucrativ[o]s. A reorganização administrativa de instituições oficiais ou a transferência de funções administrativas entre
         instituições oficiais não constituem uma transferência na acepção da presente directiva.»
      
      6        O artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, da referida directiva dispõe:
      
      «Os direitos e obrigações do cedente emergentes de um contrato de trabalho ou de uma relação de trabalho existentes à data
         da transferência são, por esse facto, transferidos para o cessionário.»
      
      7        O artigo 4.°, n.° 1, primeiro parágrafo, da Directiva 2001/23 tem a seguinte redacção:
      
      «A transferência de uma empresa ou estabelecimento ou de uma parte de em[pr]esa ou de estabelecimento não constitui em si
         mesma fundamento de despedimento por parte do cedente ou do cessionário. Esta disposição não constitui obstáculo aos despedimentos
         efectuados por razões económicas, técnicas ou de organização que impliquem mudanças da força de trabalho.»
      
       Direito nacional
      8        A Directiva 2001/23 foi transposta para o direito espanhol pelo artigo 44.° do Real Decreto Legislativo 1/1995, que aprova
         o texto consolidado da Lei do estatuto dos trabalhadores (Real Decreto Legislativo 1/1995, por el que se aprueba el texto
         refundido de la Ley del Estatuto de los Trabajadores), de 24 de Março de 1995 (BOE n.° 75, de 29 de Março de 1995, p. 9654,
         a seguir «estatuto dos trabalhadores»).
      
      9        O artigo 44.°, n.os 1 e 2, do estatuto dos trabalhadores dispõe:
      
      «1.      A mudança de titularidade de uma empresa, de um centro de trabalho ou de uma unidade produtiva autónoma não extingue só por
         si a relação laboral, ficando o novo titular sub‑rogado nos direitos e obrigações laborais e de segurança social do anterior,
         incluindo obrigações relativas a pensões nos termos previstos na respectiva legislação específica, e, em geral, todas as obrigações
         do cedente no domínio da protecção social complementar.
      
      2.      Para efeitos do disposto no presente artigo, considera‑se que existe sucessão de empresa quando a transmissão afecte uma entidade
         económica que mantenha a sua identidade, entendida como um conjunto de meios organizados com o objectivo de exercer uma actividade
         económica, essencial ou acessória.»
      
      10      O artigo 14.° da convenção colectiva do sector da limpeza dos edifícios e instalações da província de Toledo dispõe o seguinte:
      
      «Quando uma empresa, que tenha vindo a assegurar o seu serviço de limpeza através de contrato de prestação de serviços, assuma
         directamente esse serviço, não terá de continuar com o pessoal do prestador de serviços adjudicatário se a limpeza for realizada
         pelos seus próprios trabalhadores, devendo, em contrapartida, assumir os trabalhadores do adjudicatário se, para esse serviço
         de limpeza, tiver de contratar novo pessoal.»
      
       Litígio no processo principal e questão prejudicial
      11      A CLECE, empresa que prestava serviços de limpeza, celebrou com o Ayuntamiento de Cobisa, em 27 de Maio de 2003, um contrato
         que tinha por objecto a limpeza de escolas e instalações municipais, sem que tivesse sido estipulado que a prestação dos serviços
         em causa necessitava da utilização de elementos materiais específicos.
      
      12      Com base neste contrato, M. S. Martín Valor trabalhava para a CLECE como empregada de limpeza desde 25 de Março de 2004.
      
      13      Em 9 de Novembro de 2007, o Ayuntamiento de Cobisa notificou a CLECE da sua decisão de resolver, com efeitos a 31 de Dezembro
         de 2007, o contrato que o vinculava a essa sociedade.
      
      14      Em 2 de Janeiro de 2008, a CLECE informou M. S. Martín Valor de que ficava, a partir de 1 de Janeiro de 2008, integrada no
         pessoal do Ayuntamiento de Cobisa, visto que este último passaria a assegurar a limpeza das instalações em causa. Com efeito,
         segundo a CLECE, por força do artigo 14.° da convenção colectiva do sector da limpeza dos edifícios e instalações da província
         de Toledo, o Ayuntamiento de Cobisa ficava sub‑rogado em todos os direitos e obrigações dessa sociedade atinentes à relação
         laboral em causa no processo principal.
      
      15      No mesmo dia, M. S. Martín Valor deslocou‑se às instalações do Ayuntamiento de Cobisa, mas não foi autorizada a lá trabalhar.
         A CLECE, por seu turno, não reafectou a interessada a nenhum outro posto de trabalho.
      
      16      Em 10 de Janeiro de 2008, o Ayuntamiento de Cobisa recrutou, através de uma bolsa de emprego, cinco trabalhadoras para a limpeza
         das suas instalações.
      
      17      M. S. Martín Valor propôs então, no Juzgado de lo Social n.° 2 de Toledo, uma acção por despedimento ilícito contra a CLECE
         e o Ayuntamiento de Cobisa.
      
      18      Por sentença de 13 de Maio de 2008, o Juzgado de lo Social n.° 2 de Toledo entendeu que o artigo 14.° da convenção colectiva
         do sector da limpeza dos edifícios e instalações da província de Toledo não era aplicável e, consequentemente, o Ayuntamiento
         de Cobisa não tinha legitimidade passiva. O referido órgão jurisdicional declarou ainda que M. S. Martín Valor tinha sido
         ilicitamente despedida pela CLECE e condenou esta última a reintegrar a interessada em condições idênticas às vigentes antes
         do despedimento ou a pagar‑lhe uma indemnização no montante de 6 507,10 euros. Cada uma destas possibilidades incluía o pagamento
         das retribuições habituais que M. S. Martín Valor não recebera.
      
      19      Em 26 de Dezembro de 2008, a CLECE recorreu da referida sentença para o Tribunal Superior de Justicia de Castilla‑La Mancha.
         Nesse recurso, a CLECE alega, nomeadamente, que o Ayuntamiento de Cobisa ficou sub‑rogado no contrato de trabalho celebrado
         com M. S. Martín Valor, por força do artigo 14.° da convenção colectiva do sector da limpeza dos edifícios e instalações da
         província de Toledo, conjugado com o artigo 44.° do estatuto dos trabalhadores e com a jurisprudência que a CLECE cita.
      
      20      O órgão jurisdicional de reenvio observa que resulta, no essencial, de jurisprudência uniformizada por acórdão do Tribunal
         Supremo de 10 de Dezembro de 2008 que o disposto numa convenção colectiva do sector da limpeza dos edifícios e instalações
         não é aplicável a uma empresa principal que se consagra a uma actividade distinta e, quando resolve um contrato celebrado
         com uma empresa de limpeza, decide assegurar directamente a limpeza das suas instalações, visto que não se pode considerar
         que essa empresa principal esteja abrangida pelo âmbito de aplicação daquela convenção colectiva.
      
      21      Neste contexto, o órgão jurisdicional de reenvio interroga‑se sobre a questão de saber se há que considerar abrangida pelo
         âmbito de aplicação do artigo 1.°, n.° 1, alíneas a) e b), da Directiva 2001/23 uma situação em que um município decide assegurar,
         com o seu próprio pessoal, a limpeza das suas várias instalações, quando anteriormente essa actividade era exercida por uma
         empresa de limpeza ao abrigo de um contrato que foi resolvido, a referida empresa principal recrutou pessoal novo para realizar
         esses trabalhos de limpeza e a convenção colectiva do sector da limpeza dos edifícios e instalações, que institui a obrigação
         de sub‑rogação nessa situação, não lhe era aplicável.
      
      22      O órgão jurisdicional de reenvio pergunta, em especial, se, no processo principal, há que extrair as consequências decorrentes
         do artigo 1.°, n.° 1, alíneas a) e b), da Directiva 2001/23, embora a convenção colectiva do sector da limpeza dos edifícios
         e instalações da província de Toledo não seja aplicável ao Ayuntamiento de Cobisa e essa entidade tenha a particularidade
         de ser um empregador público, o que tem a consequência de introduzir especificidades nas suas relações laborais, em consonância
         com o artigo 103.°, n.° 3, da Constituição espanhola.
      
      23      Nestas condições, o Tribunal Superior de Justicia de Castilla‑La Mancha decidiu suspender a instância e submeter ao Tribunal
         de Justiça a seguinte questão prejudicial:
      
      «Deve considerar‑se abrangido pelo âmbito de aplicação da Directiva [2001/23], constante do seu artigo 1.°, n.° 1, alíneas
         a) e b), um caso de reversão ou em que uma câmara municipal, contratando novo pessoal, assume a actividade de limpeza das
         suas diversas instalações, que antes era assegurada por uma empresa contratada para o efeito?»
      
       Quanto à questão prejudicial
      24      Com a sua questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se o artigo 1.°, n.° 1, alíneas a) e b), da Directiva
         2001/23 deve ser interpretado no sentido de que esta se aplica a uma situação em que um município, que confiava a limpeza
         das suas instalações a uma empresa privada, decide pôr termo ao contrato que o vinculava à segunda e exercer, ele próprio,
         essas actividades de limpeza, recrutando novo pessoal para o efeito.
      
      25      Há que começar por recordar que, por força do seu artigo 1.°, n.° 1, alínea c), a Directiva 2001/23 se aplica às empresas,
         públicas ou privadas, que exercem uma actividade económica, com ou sem fins lucrativos.
      
      26      O Tribunal de Justiça decidiu, assim, que o simples facto de o cessionário ser uma pessoa colectiva de direito público, no
         caso concreto um município, não permitia excluir a existência de uma transferência abrangida pelo âmbito de aplicação da Directiva
         2001/23 (v. acórdãos de 26 de Setembro de 2000, Mayeur, C‑175/99, Colect., p. I‑7755, n.os 29, 33 e 34, e de 29 de Julho de 2010, UGT‑FSP, C‑151/09, ainda não publicado na Colectânea, n.° 23).
      
      27      Por conseguinte, o facto de, como sucede no processo principal, um dos interessados ser um município não obsta, por si só,
         a que a Directiva 2001/23 seja aplicável.
      
      28      Em seguida, nos termos do seu artigo 1.°, n.° 1, alínea a), a Directiva 2001/23 é aplicável a qualquer transferência para
         outra entidade patronal de empresa ou de estabelecimento ou de parte de empresa ou estabelecimento, quer essa transferência
         resulte de uma cessão convencional quer de uma fusão.
      
      29      A este respeito, decorre de jurisprudência bem assente que o alcance da referida disposição não pode ser apenas apreciado
         com base na interpretação literal. Dadas as diferenças entre as versões linguísticas desta directiva e as divergências entre
         as legislações nacionais sobre o conceito de cessão convencional, o Tribunal de Justiça interpretou este conceito de modo
         suficientemente flexível para satisfazer o objectivo da dita directiva que, como decorre do seu terceiro considerando, é o
         de proteger os trabalhadores em caso de mudança de empresário (v., neste sentido, acórdão de 13 de Setembro de 2007, Jouini
         e o., C‑458/05, Colect., p. I‑7301, n.° 24 e jurisprudência referida).
      
      30      O Tribunal decidiu, assim, que a Directiva 77/187, codificada pela Directiva 2001/23, era aplicável a todas as situações de
         mudança, no âmbito de relações contratuais, da pessoa singular ou colectiva responsável pela exploração da empresa, que contrai
         as obrigações de entidade patronal relativamente aos empregados da empresa (v. acórdãos de 7 de Março de 1996, Merckx e Neuhuys,
         C‑171/94 e C‑172/94, Colect., p. I‑1253, n.° 28, e de 10 de Dezembro de 1998, Hernández Vidal e o., C‑127/96, C‑229/96 e C‑74/97,
         Colect., p. I‑8179, n.° 23).
      
      31      O Tribunal decidiu igualmente que pode entrar no âmbito de aplicação da Directiva 77/187 uma situação em que uma empresa,
         que recorria a outra empresa para a limpeza das suas instalações ou de uma parte delas, decide pôr termo ao contrato que a
         vinculava a esta e assegurar, a partir daí, ela própria esses trabalhos (v. acórdão Hernández Vidal e o., já referido, n.° 25).
      
      32      Daqui se conclui que não se pode excluir desde logo a aplicabilidade da Directiva 2001/23 em circunstâncias como as do processo
         principal, em que um município decide resolver unilateralmente o contrato que o vinculava a uma empresa privada e exercer
         ele próprio as actividades de limpeza que confiava à segunda.
      
      33      Contudo, para que a Directiva 2001/23 seja aplicável, a transferência deve ter por objecto, de acordo com o artigo 1.°, n.° 1,
         alínea b), desta directiva, uma entidade económica que mantém a sua identidade após a mudança de empresário.
      
      34      Para determinar se essa entidade mantém a sua identidade, há que tomar em consideração todas as circunstâncias de facto que
         caracterizam a operação em causa, entre as quais figuram, designadamente, o tipo de empresa ou de estabelecimento de que se
         trata, a transferência ou não de elementos corpóreos, como os edifícios e os bens móveis, o valor dos elementos incorpóreos
         no momento da transferência, a reintegração ou não do essencial dos efectivos pelo novo empresário, a transferência ou não
         da clientela, bem como o grau de similitude das actividades exercidas antes e depois da transferência e a duração da eventual
         suspensão destas actividades. Estes elementos constituem apenas aspectos parciais da avaliação de conjunto que se impõe e
         não podem, por isso, ser apreciados isoladamente (v., designadamente, acórdãos de 18 de Março de 1986, Spijkers, 24/85, Colect.,
         p. 1119, n.° 13; de 19 de Maio de 1992, Redmond Stichting, C‑29/91, Colect., p. I‑3189, n.° 24; de 11 de Março de 1997, Süzen,
         C‑13/95, Colect., p. I‑1259, n.° 14; e de 20 de Novembro de 2003, Abler e o., C‑340/01, Colect., p. I‑14023, n.° 33).
      
      35      O Tribunal de Justiça sublinhou anteriormente que uma entidade económica pode, em certos sectores, funcionar sem elementos
         do activo, corpóreos ou incorpóreos, significativos, de tal forma que a manutenção da sua identidade para além da operação
         de que é objecto não pode, por hipótese, depender da cessão de tais elementos (v. acórdãos, já referidos, Süzen, n.° 18; Hernández
         Vidal e o., n.° 31; e UGT‑FSP, n.° 28).
      
      36      Assim, o Tribunal de Justiça declarou que, na medida em que, em certos sectores nos quais a actividade assenta essencialmente
         na mão‑de‑obra, um conjunto de trabalhadores que executa de forma durável uma actividade comum pode corresponder a uma entidade
         económica, essa entidade é susceptível de manter a sua identidade para além da sua transferência quando o novo empresário
         não se limita a prosseguir a actividade em causa mas também retoma uma parte essencial, em termos de número e de competências,
         dos efectivos que o seu predecessor afectava especialmente a essa missão. Nessa situação, a nova entidade patronal adquire,
         com efeito, um conjunto organizado de elementos que lhe permitirá a prossecução, de modo estável, das actividades ou de parte
         das actividades da empresa cedente (v. acórdãos Süzen, já referido, n.° 21; Hernández Vidal e o., já referido, n.° 32; de
         10 de Dezembro de 1998, Hidalgo e o., C‑173/96 e C‑247/96, Colect., p. I‑8237, n.° 32; de 24 de Janeiro de 2002, Temco, C‑51/00,
         Colect., p. I‑969, n.° 33; e UGT‑FSP, já referido, n.° 29).
      
      37      Neste aspecto e como resulta do n.° 31 do presente acórdão, pouco importa que a retoma de uma parte essencial dos efectivos
         seja efectuada no âmbito de uma cessão convencional negociada entre o cedente e o cessionário ou resulte da decisão unilateral
         do anterior empresário de resolver os contratos de trabalho dos efectivos transferidos, seguida da decisão unilateral do novo
         empresário de contratar o essencial dos mesmos efectivos para executarem as mesmas tarefas.
      
      38      Com efeito, se, no caso da retoma de uma parte essencial dos efectivos, a existência de uma transferência, na acepção da Directiva
         2001/23, estivesse exclusivamente sujeita ao requisito da origem contratual dessa retoma, a protecção dos trabalhadores pretendida
         por esta directiva ficaria à discrição dos empresários, os quais, mediante a não celebração de um contrato, poderiam contornar
         a aplicação da referida directiva, em detrimento da manutenção dos direitos dos trabalhadores transferidos, que no entanto
         é garantida pelo artigo 3.°, n.° 1, da Directiva 2001/23.
      
      39      É certo que, como resulta da jurisprudência do Tribunal, uma actividade de limpeza como a que está em causa no processo principal
         pode ser considerada uma actividade que assenta essencialmente na mão‑de‑obra (v., neste sentido, acórdãos, já referidos,
         Hernández Vidal e o., n.° 27; Hidalgo e o., n.° 26; e Jouini e o., n.° 32) e, consequentemente, uma colectividade de trabalhadores
         que exerce duradouramente uma actividade comum de limpeza pode, na falta de outros factores de produção, corresponder a uma
         entidade económica (v., neste sentido, acórdão Hernández Vidal e o., já referido, n.° 27). Porém, é ainda necessário que a
         identidade desta última seja mantida para além da operação em causa.
      
      40      A este respeito, resulta da decisão de reenvio que o Ayuntamiento de Cobisa, para exercer ele próprio as actividades de limpeza
         das suas escolas e das suas instalações, anteriormente confiadas à CLECE, contratou pessoal novo, sem retomar os trabalhadores
         anteriormente afectados a essas actividades pela CLECE, nem tão‑pouco nenhum elemento dos activos corpóreos ou incorpóreos
         dessa empresa. Nestas condições, o único elemento que estabelece um nexo entre as actividades exercidas pela CLECE e as retomadas
         pelo Ayuntamiento de Cobisa é o objecto da actividade em causa, a saber, a limpeza de instalações.
      
      41      Ora, a mera circunstância de a actividade exercida pela CLECE e a exercida pelo Ayuntamiento de Cobisa serem semelhantes,
         senão mesmo idênticas, não permite concluir pela manutenção da identidade de uma entidade económica. Com efeito, uma entidade
         não pode ser reduzida à actividade de que está encarregada. A sua identidade resulta de uma multiplicidade indissociável de
         elementos como o pessoal que a compõe, o seu enquadramento, a organização do seu trabalho, os seus métodos de exploração ou
         ainda, sendo caso disso, os meios de exploração à sua disposição (v., neste sentido, acórdãos, já referidos, Süzen, n.° 15;
         Hernández Vidal e o., n.° 30; e Hidalgo e o., n.° 30). Em especial, a identidade de uma entidade económica como a que está
         em causa no processo principal, que assenta essencialmente na mão‑de‑obra, não pode ser mantida se o essencial dos seus efectivos
         não for retomado pelo presumido cessionário.
      
      42      Daqui se conclui que, sem prejuízo da eventual aplicabilidade das regras de protecção nacionais, a simples retoma, no processo
         principal, pelo Ayuntamiento de Cobisa, das actividades de limpeza anteriormente confiadas à CLECE não pode, por si só, revelar
         a existência de uma transferência na acepção da Directiva 2001/23.
      
      43      Consequentemente, há que responder à questão submetida que o artigo 1.°, n.° 1, alíneas a) e b), da Directiva 2001/23 deve
         ser interpretado no sentido de que esta última não se aplica a uma situação em que um município, que confiava a limpeza das
         suas instalações a uma empresa privada, decide pôr termo ao contrato que o vinculava à segunda e exercer, ele próprio, essas
         actividades de limpeza, recrutando novo pessoal para o efeito.
      
       Quanto às despesas
      44      Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         de reenvio, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Terceira Secção) declara:
      O artigo 1.°, n.° 1, alíneas a) e b), da Directiva 2001/23/CE do Conselho, de 12 de Março de 2001, relativa à aproximação
            das legislações dos Estados‑Membros respeitantes à manutenção dos direitos dos trabalhadores em caso de transferência de empresas
            ou de estabelecimentos, ou de partes de empresas ou de estabelecimentos, deve ser interpretado no sentido de que esta última
            não se aplica a uma situação em que um município, que confiava a limpeza das suas instalações a uma empresa privada, decide
            pôr termo ao contrato que o vinculava à segunda e exercer, ele próprio, essas actividades de limpeza, recrutando novo pessoal
            para o efeito.
      Assinaturas
      * Língua do processo: espanhol.