CELEX: 62006FJ0111
Language: pt
Date: 2007-09-20
Title: Acórdão do Tribunal da Função Pública (Segunda Secção) de 20 de Septembro de 2007. # Nikos Giannopoulos contra Conselho da União Europeia. # Função pública - Funcionários - Recrutamento - Igualdade de tratamento -- Admissibilidade. # Processo F-111/06.

ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DA FUNÇÃO PÚBLICA (Segunda Secção)
      20 de Setembro de 2007
      Processo F‑111/06
      Nikos Giannopoulos
      contra
      Conselho da União Europeia
      «Função pública – Funcionários – Recrutamento – Nomeação em grau – Pedido de reclassificação – Igualdade de tratamento – Experiência profissional – Dever de fundamentação – Facto novo – Admissibilidade»
      Objecto : Recurso, interposto ao abrigo dos artigos 236.° CE e 152.° CE, mediante o qual N. Giannopoulos pede, designadamente, a anulação
         da decisão da autoridade investida do poder de nomeação do Conselho, de 29 de Novembro de 2005, que indeferiu o seu pedido,
         apresentado ao abrigo do artigo 90.°, n.° 1, do Estatuto, destinado a obter a sua reclassificação em grau, bem como o pagamento
         de uma indemnização.
      
      Decisão : É negado provimento ao recurso. Cada parte suportará as suas próprias despesas. 
      
      Sumário
      1.      Funcionários – Recurso – Reclamação administrativa prévia – Prazos – Preclusão – Reabertura – Condição 
      (Estatuto dos Funcionários, artigos 90.° e 91.°)
      2.      Funcionários – Recrutamento – Nomeação em grau – Nomeação no grau superior da carreira 
      (Estatuto dos Funcionários, artigo 31.°, n.° 2)
      3.      Funcionários – Recrutamento – Nomeação em grau – Nomeação no grau superior da carreira 
      (Estatuto dos Funcionários, artigos 5.° e 31.°, n.° 2)
      4.      Funcionários – Recrutamento – Decisão de classificação no grau – Dever de fundamentação – Alcance 
      (Estatuto dos Funcionários, artigo 25.°, n.° 2, e 31.°)
      5.      Funcionários – Recrutamento – Nomeação em grau – Nomeação no grau superior da carreira 
      (Estatuto dos Funcionários, artigos 1.°‑D, n.° 1, e 31.°, n.° 2)
      1.      Embora, nos termos do artigo 90.°, n.° 1, do Estatuto, os funcionários possam pedir à autoridade investida do poder de nomeação
         que tome uma decisão a seu respeito, esta faculdade não permite ao funcionário derrogar os prazos previstos nos artigos 90.°
         e 91.° para a apresentação de uma reclamação e de um recurso, pondo indirectamente em causa, através de um requerimento, uma
         decisão anterior não impugnada dentro do prazo. Só a existência de factos novos substanciais pode justificar a apresentação
         de um pedido de reexame dessa decisão.
      
      É este o caso do pedido de um funcionário requerendo o reexame da classificação de que foi objecto no momento da sua titularização,
         quando a administração, antes do seu pedido, reexaminou o seu processo juntamente com os processos de outros funcionários
         cuja classificação também se tornou definitiva, tendo em vista a sua reclassificação, sem porém ter dado a conhecer ao interessado
         essa informação. Esta circunstância justifica, com efeito, em conformidade com o princípio de acesso à justiça, que o Tribunal
         possa fiscalizar a justeza da recusa de proceder à reclassificação do recorrente.
      
      (cf. n.os 28 e 31)
      
      2.       As qualificações excepcionais que permitem a aplicação do artigo 31.°, n.° 2, do Estatuto devem ser apreciadas, não à luz
         da população no seu conjunto, mas tomando como referência o perfil médio dos candidatos aprovados em concursos similares,
         os quais já constituem uma população seleccionada de forma bastante rigorosa, em conformidade com as exigências do artigo
         27.° do Estatuto.
      
      No que respeita à duração da experiência profissional de um funcionário recém‑recrutado, a circunstância de uma pessoa poder
         demonstrar que possui vários anos de experiência profissional não pode, por si só, conferir‑lhe o direito de ser nomeado no
         grau superior da carreira. O simples facto de essa experiência ser superior à duração mínima exigida para se poder apresentar
         ao concurso em que o funcionário foi aprovado não basta para demonstrar o carácter excepcional da duração dessa experiência,
         a qual deve ser apreciada tendo por referência a duração da experiência profissional de outros candidatos aprovados em concursos
         organizados em conformidade com processos de selecção comparáveis. De qualquer modo, mesmo supondo que a duração da experiência
         profissional devesse ter sido considerada excepcional, essa apreciação não lhe conferiria contudo o direito de ser classificado
         no grau superior da sua carreira. Com efeito, ainda que um funcionário recém‑recrutado reúna as condições de aplicação do
         artigo 31.°, n.° 2, do Estatuto para poder ser classificado no grau superior da sua carreira, não tem um direito subjectivo
         a tal classificação. Esta apreciação vale a fortiori para um funcionário que não reúna todos os critérios examinados pela autoridade investida do poder de nomeação no quadro
         da sua apreciação da existência eventual de qualificações excepcionais.
      
      No que respeita à qualidade da experiência profissional, a mesma deve ser avaliada não em abstracto, mas unicamente em função
         das exigências do lugar confiado ao interessado aquando da sua entrada em funções.
      
      (cf. n.os 57, 60 e 62 a 64)
      
      Ver:
      Tribunal de Justiça: 29 de Junho de 1994, Klinke/Tribunal de Justiça, C‑298/93 P, Colect., p. I‑3009, n.° 30
      Tribunal de Primeira Instância: 5 de Novembro de 1997, Barnett/Comissão, T‑12/97, ColectFP, pp. I‑A‑313 e II‑863, n.° 50;
         6 de Julho de 1999, Forvass/Comissão, T‑203/97, ColectFP, pp. I‑A‑129 e II‑705, n.° 49; 11 de Julho de 2002, Wasmeier/Comissão,
         T‑381/00, ColectFP, pp. I‑A‑125 e II‑677, n.os 56, 57, 65 e 125; 3 de Outubro de 2002, Platte/Comissão, T‑6/02, ColectFP, pp. I‑A‑189 e II‑973, n.° 38; 17 de Dezembro de
         2003, Chawdhry/Comissão, T‑133/02, ColectFP, pp. I‑A‑329 e II‑1617, n.° 102; 15 de Novembro de 2005, Righini/Comissão, T‑145/04,
         ColectFP, pp. I‑A‑349 e II‑1547, n.° 92; 15 de Março de 2006, Herbillon/Comissão, T‑411/03, ColectFP, pp. I‑A‑2‑45 e II‑A‑2‑193,
         n.° 62; 15 de Março de 2006, Valero Jordana/Comissão, T‑429/03, ColectFP, pp. I‑A‑2‑51 e II‑A‑2‑217, n.os 89 e 91; 10 de Maio de 2006, R/Comissão, T‑331/04, não publicado na Colectânea, n.os 72 e 74
      
      Tribunal da Função Pública: 26 de Abril de 2006, Falcione/Comissão, F‑16/05, ColectFP, pp. I‑A‑1‑3 e II‑A‑1‑7, n.os 55 e 56
      
      3.      A possibilidade de classificar no grau superior da carreira um candidato à função pública europeia particularmente qualificado,
         em razão das necessidades específicas do serviço, tem por finalidade permitir à instituição em causa, na sua qualidade de
         empregador, assegurar os serviços de uma pessoa que, no contexto do mercado de trabalho, pode ser objecto de numerosas solicitações
         de outros potenciais empregadores, correndo, assim, o risco de ficar privada dos seus serviços. De qualquer modo, o artigo
         31.°, n.° 2 do Estatuto impõe uma comparação das qualificações do interessado com as exigências do lugar ao qual foi afectado
         na qualidade de funcionário no momento do seu recrutamento.
      
      Nestas condições, um funcionário recém‑recrutado só pode comprovar uma violação, por parte da sua instituição, das necessidades
         específicas do serviço se o anúncio do concurso em que foi aprovado, o aviso de vaga relativo ao seu primeiro lugar que ocupou
         ou a natureza das funções que efectivamente exerceu no quadro desse lugar comportarem indicações a favor da sua classificação
         no grau superior da sua carreira.
      
      A este respeito, a existência, num dado momento, de uma necessidade acrescida de funcionários especializados no domínio do
         funcionário recém‑recrutado no âmbito da sua instituição não permite, por si só, concluir que esta se tenha deparado com dificuldades
         especiais para recrutar pessoal apto a desempenhar as tarefas em questão.
      
      (cf. n.os 67 a 69 e 71)
      
      Ver:
      Tribunal de Primeira Instância: 26 de Outubro de 2004, Brendel/Comissão, T‑55/03, ColectFP, p. I‑A‑311 e II‑1437, n.° 112;
         R/Comissão, já referido, n.os 36 e 39
      
      4.      Embora seja de lamentar, à luz do dever de boa administração, que a administração não tenha considerado necessário informar
         um funcionário de que a sua classificação em grau tinha sido objecto de um reexame pelos serviços competentes em vista de
         uma eventual reclassificação no grau superior da carreira, esta circunstância não comporta uma violação do dever de fundamentação
         da decisão da autoridade investida do poder de nomeação que recusa o reexame pedido pelo interessado, quando essa decisão
         enuncie, de maneira clara, os critérios e índices em que a referida autoridade se baseou para avaliar o carácter excepcional
         da formação e da experiência profissional do recorrente. Tendo em conta o amplo poder de apreciação da autoridade investida
         do poder de nomeação, tal fundamentação é de natureza a permitir ao recorrente conhecer o fundamento individual e pertinente
         em que essa autoridade se baseou para lhe recusar a classificação no grau superior. Para satisfazer o dever de fundamentação,
         não se exige que a autoridade investida do poder de nomeação precise, além do mais, o tipo de formação e a duração da experiência
         profissional necessários para a atribuição do grau suplementar solicitado pelo recorrente, sendo esse exame efectuado caso
         a caso.
      
      (cf. n.° 84)
      5.      A avaliação das qualificações excepcionais de um funcionário tendo em vista a sua classificação em grau não pode ser efectuada
         em abstracto, devendo ser feita tendo em conta o lugar para o qual é recrutado. Ora, o juiz comunitário não pode apreciar
         um fundamento relativo à violação do princípio da igualdade de tratamento fazendo uma avaliação detalhada das qualificações
         de candidatos comparáveis, o que o poderia levar a substituir‑se à autoridade investida do poder de nomeação, violando assim
         o amplo poder de apreciação de que esta dispõe. Além disso, a natureza da avaliação efectuada, caso a caso, em conformidade
         com o artigo 31.°, n.° 2, do Estatuto, opõe‑se, em princípio, a que um funcionário possa invocar utilmente uma violação desse
         princípio.
      
      (cf. n.os 94 e 95)
      
      Ver:
      Tribunal de Primeira Instância: Chawdhry/Comissão, já referido, n.° 102; Brendel/Comissão, já referido, n.° 129; R/Comissão,
         já referido, n.° 104