CELEX: 62003TJ0391
Language: pt
Date: 2006-07-06
Title: Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Terceira Secção) de 6 de Julho de 2006.#Yves Franchet e Daniel Byk contra Comissão das Comunidades Europeias.#Acesso aos documentos - Regulamento (CE) n.º 1049/2001 - Inquéritos do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) - Eurostat - Recusa de acesso - Actividades de inspecção e de inquérito - Processos judiciais - Direitos de defesa.#Processos apensos T-391/03 e T-70/04.

Processos apensos T‑391/03 e T‑70/04
      Yves Franchet e Daniel Byk
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias
      «Acesso aos documentos – Regulamento (CE) n.° 1049/2001 – Inquéritos do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) – Eurostat – Recusa de acesso – Actividades de inspecção e de inquérito – Processos judiciais − Direitos de defesa»
      Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Terceira Secção) de 6 de Julho de 2006 
      Sumário do acórdão
      1.     Recurso de anulação – Actos susceptíveis de recurso – Conceito – Actos que produzem efeitos jurídicos obrigatórios 
      (Artigo 230.° CE; Regulamento n.° 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigo 8.°; Decisão 2001/937 da Comissão,
            anexo, artigos 3.° e 4.°)
      2.     Comunidades Europeias – Instituições – Direito de acesso do público aos documentos – Regulamento n.° 1049/2001
      (Regulamentos do Parlamento Europeu e do Conselho n.° 1073/1999, artigo 9.°, n.° 2, e n.° 1049/2001, artigo 4.°, n.° 2)
      3.     Comunidades Europeias – Instituições – Direito de acesso do público aos documentos – Regulamento n.° 1049/2001
      (Regulamento n.° 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigo 4.°, n.° 2)
      4.     Comunidades Europeias – Instituições – Direito de acesso do público aos documentos – Regulamento n.° 1049/2001
      (Regulamento n.° 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigo 4.°)
      5.     Comunidades Europeias – Instituições – Direito de acesso do público aos documentos – Regulamento n.° 1049/2001
      (Regulamento n.° 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigos 2.°, n.° 1, e 4.°, n.° 2)
      1.     Só as medidas que produzem efeitos jurídicos obrigatórios susceptíveis de afectar os interesses de um recorrente, alterando
         de forma caracterizada a sua situação jurídica, constituem actos susceptíveis de ser objecto de um recurso de anulação na
         acepção do artigo 230.° CE. Quando se trate de actos ou de decisões cuja elaboração se efectua em várias fases, nomeadamente
         no termo de um processo interno, só constituem, em princípio, actos susceptíveis de serem objecto de um recurso de anulação
         as medidas que fixam definitivamente a posição da instituição no termo desse processo, com exclusão das medidas intermédias
         cujo objectivo é preparar a decisão final.
      
      A este respeito, no âmbito do processo relativo ao acesso do público a documentos relativos às actividades do Organismo Europeu
         de Luta Antifraude (OLAF), resulta claramente da aplicação conjugada dos artigos 3.° e 4.° do anexo da Decisão 2001/937, que
         altera o regulamento interno da Comissão, bem como do artigo 8.° do Regulamento n.° 1049/2001, relativo ao acesso do público
         aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão, que uma resposta ao pedido inicial de acesso constitui apenas
         uma primeira tomada de posição, que confere aos interessados a possibilidade de convidar o secretário‑geral da Comissão ou
         o director do OLAF a reexaminar a posição em causa. Por conseguinte, apenas a medida adoptada por estes últimos, uma vez que
         tem a natureza de uma decisão e substitui na íntegra a tomada de posição antecedente, é susceptível de produzir efeitos jurídicos
         que podem afectar os interesses dos recorrentes, e, consequentemente, ser objecto de recurso de anulação com base no artigo
         230.° CE.
      
      (cf. n.os 46‑48)
      
      2.     As excepções previstas no artigo 4.° do Regulamento n.° 1049/2001, relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento
         Europeu, do Conselho e da Comissão, devem ser interpretadas e aplicadas de forma restritiva, a fim de não porem em causa a
         aplicação do princípio geral de acesso aos documentos consagrado nesse regulamento.
      
      Quanto à excepção relativa à protecção de processos judiciais e pareceres jurídicos a expressão «processos judiciais» deve
         ser interpretada no sentido de que a protecção do interesse público se opõe à divulgação do conteúdo de documentos redigidos
         unicamente para efeitos de um processo judicial particular, ou seja, os articulados ou requerimentos apresentados, os documentos
         internos respeitantes à instrução do processo em curso, as comunicações relativas ao processo entre a direcção‑geral em causa
         e o Serviço Jurídico ou um gabinete de advogados. Em contrapartida, a excepção relativa à protecção dos processos judiciais
         não pode permitir à instituição subtrair‑se à obrigação de comunicar documentos que foram elaborados no âmbito de um dossier
         meramente administrativo.
      
      A este respeito, considerar que os diferentes documentos comunicados pelo Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) às autoridades
         nacionais, por força do artigo 10.°, n.os 1 e 2, do Regulamento n.° 1073/1999, relativo aos inquéritos efectuados pela OLAF, ou a uma instituição, por força do artigo
         10.°, n.° 3, do mesmo regulamento, foram redigidos somente para efeitos de um processo judicial colide com a obrigação de
         interpretar e aplicar as excepções de forma restritiva. Com efeito, em conformidade com o disposto no artigo 9.°, n.° 2, do
         Regulamento n.° 1073/1999, os relatórios do OLAF constituem elementos de prova admissíveis em procedimentos administrativos
         ou judiciais do Estado‑Membro em que a sua utilização se revele necessária. O seguimento que as autoridades nacionais competentes
         ou as instituições dão aos relatórios e informações transmitidos pelo OLAF é, no entanto, da exclusiva e inteira responsabilidade
         dessas autoridades.
      
      Além disso, o respeito das regras de processo nacionais está suficientemente garantido se a instituição se certificar de que
         a divulgação dos documentos não constitui uma infracção ao direito nacional. Assim, em caso de dúvida, o OLAF deve consultar
         o órgão jurisdicional ou a autoridade nacional e só deve recusar o acesso se esta se opuser à divulgação dos referidos documentos.
      
      (cf. n.os 84, 88, 90, 91, 94, 95, 97, 98)
      
      3.     O artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001, relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento
         Europeu, do Conselho e da Comissão, deve ser interpretado no sentido de que esta disposição, que visa proteger «os objectivos
         de actividades de inspecção, inquérito e auditoria», só é aplicável se a divulgação dos documentos em questão puder pôr em
         perigo a conclusão das actividades de inspecção, inquérito ou auditoria.
      
      Os diferentes actos de inquérito ou de inspecção podem ficar abrangidos pela excepção relativa à protecção de actividades
         de inspecção, inquérito e auditoria enquanto as actividades de inquérito ou de inspecção prosseguem, mesmo que esteja terminado
         o inquérito ou a inspecção particular que deu lugar ao relatório ao qual o acesso é pedido.
      
      Todavia, admitir que os diferentes documentos relativos a actividades de inspecção, inquérito ou auditoria estão abrangidos
         pela excepção constante do artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001 enquanto o seguimento a dar
         a esses procedimentos não estiver decidido equivale a submeter o acesso aos referidos documentos a um acontecimento aleatório,
         futuro e eventualmente longínquo, dependente da celeridade e da diligência das diferentes autoridades.
      
      (cf. n.os 109‑111)
      
      4.     O exame que se exige para o tratamento de um pedido de acesso a documentos, apresentado no âmbito do processo previsto no
         Regulamento n.° 1049/2001, relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão,
         deve revestir carácter concreto. Com efeito, por um lado, a simples circunstância de um documento respeitar a um interesse
         protegido por excepções previstas no referido regulamento não basta para justificar a aplicação desta última. Por outro lado,
         o risco de ser lesado um interesse protegido deve ser razoavelmente previsível e não puramente hipotético. Por conseguinte,
         o exame ao qual deve proceder a instituição a fim de aplicar uma excepção deve ser efectuado de forma concreta e deve resultar
         dos fundamentos da decisão.
      
      Um exame concreto e individual de cada documento é também necessário uma vez que, mesmo na hipótese de ser claro que um pedido
         de acesso se refere a documentos abrangidos por uma excepção, apenas este exame pode permitir à instituição apreciar a possibilidade
         de conceder um acesso parcial ao requerente, em conformidade com o disposto no artigo 4.°, n.° 6, do referido Regulamento
         n.° 1049/2001. Cabe, portanto, à instituição examinar, em primeiro lugar, se o documento pedido integra o âmbito de uma das
         excepções previstas no artigo 4.° do referido regulamento, em segundo lugar, em caso de resposta afirmativa, se a necessidade
         de protecção relativa à excepção em causa é real e, em terceiro lugar, se se aplica a todo o documento.
      
      (cf. n.os 115, 117, 118)
      
      5.     O Regulamento n.° 1049/2001, relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão,
         destina‑se a garantir o acesso de todos aos documentos públicos e não apenas o acesso do requerente aos documentos que a ele
         se refiram. Por consequência, o interesse particular que um requerente possa invocar para ter acesso a um documento que lhe
         diz pessoalmente respeito não pode ser tomado em consideração para justificar a divulgação deste, nos termos do artigo 4.°,
         n.° 2, do referido regulamento.
      
      A este respeito, os direitos de defesa manifestam‑se através do interesse subjectivo dos interessados em se defenderem e,
         portanto, não implicam um interesse geral, mas um interesse privado. Por consequência, estes direitos não constituem um interesse
         público superior na acepção do artigo 4.°, n.° 2, do referido regulamento, que justifiquem a divulgação dos documentos pedidos.
      
      (cf. n.os 136‑139)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Terceira Secção)
      6 de Julho de 2006 (*)
      
      «Acesso aos documentos – Regulamento (CE) n.° 1049/2001 – Inquéritos do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) – Eurostat – Recusa de acesso – Actividades de inspecção e de inquérito – Processos judiciais − Direitos de defesa»
      Nos processos apensos T‑391/03 e T‑70/04,
      Yves Franchet  e Daniel Byk, funcionários da Comissão das Comunidades Europeias, residentes no Luxemburgo (Luxemburgo), representados por G. Vandersanden
         e L. Levi, advogados,
      
      recorrentes,
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias, representada por D. Maidani, J.‑F. Pasquier e P. Aalto, na qualidade de agentes, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
      
      recorrida,
      que têm por objecto um pedido de anulação das decisões do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) e da Comissão que recusam
         aos recorrentes o acesso a certos documentos relativos a um inquérito respeitante ao Eurostat,
      
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIADAS COMUNIDADES EUROPEIAS (Terceira Secção),
      
      composto por: M. Jaeger, presidente, V. Tiili e O. Czúcz, juízes,
      secretário: I. Natsinas, administrador,
      vistos os autos e após a audiência de 15 de Setembro de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
       Quadro jurídico
      1       Nos termos do artigo 255.° CE:
      «1. Todos os cidadãos da União e todas as pessoas singulares ou colectivas que residam ou tenham a sua sede social num Estado‑Membro
         têm direito de acesso aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão, sob reserva dos princípios e condições
         a definir nos termos dos n.os 2 e 3.
      
      2. Os princípios gerais e os limites que, por razões de interesse público ou privado, hão‑de reger o exercício do direito
         de acesso aos documentos serão definidos pelo Conselho, deliberando nos termos do artigo 251.°, no prazo de dois anos a contar
         da data da entrada em vigor do Tratado de Amesterdão. 
      
      […]»
      2       O Regulamento (CE) n.° 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 30 de Maio de 2001, relativo ao acesso do público
         aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão (JO L 145, p. 43), define os princípios, as condições e os
         limites do direito de acesso aos documentos dessas instituições previsto no artigo 255.° CE. Este regulamento é aplicável
         desde 3 de Dezembro de 2001.
      
      3       O artigo 2.°, n.os 1 e 3, do Regulamento n.° 1049/2001 dispõe:
      
      «1. Todos os cidadãos da União e todas as pessoas singulares ou colectivas que residam ou tenham a sua sede social num Estado‑Membro
         têm direito de acesso aos documentos das instituições, sob reserva dos princípios, condições e limites estabelecidos no presente
         regulamento.
      
      […]
      3. O presente regulamento é aplicável a todos os documentos na posse de uma instituição, ou seja, aos documentos por ela elaborados
         ou recebidos que se encontrem na sua posse, em todos os domínios de actividade da União Europeia.»
      
      4       Segundo o artigo 4.° do Regulamento n.° 1049/2001, relativo às excepções ao direito de acesso antes referido:
      «[…]
      2. As instituições recusarão o acesso aos documentos cuja divulgação pudesse prejudicar a protecção de:
      […]
      –      processos judiciais e consultas jurídicas, 
      –      objectivos de actividades de inspecção, inquérito e auditoria,
      excepto quando um interesse público superior imponha a divulgação.
      […]
      6. Quando só algumas partes do documento pedido forem abrangidas por qualquer das excepções, as restantes partes do documento
         serão divulgadas.
      
      […]»
      5       O artigo 6.°, n.° 1, do Regulamento n.° 1049/2001 prevê que «[…] [o] requerente não é obrigado a declarar as razões do pedido».
      6       Segundo o artigo 8.°, n.° 1, do Regulamento n.° 1049/2001:
      «Os pedidos confirmativos devem ser prontamente tratados. No prazo de 15 dias úteis a contar da data de registo do pedido,
         a instituição concederá acesso ao documento solicitado e facultará, dentro do mesmo prazo, o acesso ao mesmo nos termos do
         artigo 10.° ou, mediante resposta por escrito, indicará os motivos pelos quais recusa total ou parcialmente o acesso. No caso
         de a instituição recusar total ou parcialmente o acesso, deve informar o requerente das vias de recurso possíveis, ou seja,
         a interposição de recurso judicial contra a instituição e/ou a apresentação de queixa ao Provedor de Justiça Europeu, nos
         termos previstos, respectivamente, nos artigos 230.° e 195.° do Tratado CE.»
      
      7       A Decisão 2001/937/CE, CECA, Euratom da Comissão, de 5 de Dezembro de 2001, que altera o seu regulamento interno (JO L 345,
         p. 94), revogou a Decisão 94/90/CECA, CE, Euratom da Comissão, de 8 de Fevereiro de 1994, relativa ao acesso do público aos
         documentos da Comissão (JO L 46, p. 58), que assegurava a aplicação, no que respeita à Comissão, do código de conduta em matéria
         de acesso do público aos documentos do Conselho e da Comissão (JO 1993, L 340, p. 41, a seguir «código de conduta»), aprovado
         pelo Conselho e pela Comissão em 6 de Dezembro de 1993.
      
      8       O artigo 3.° do anexo da Decisão 2001/937 prevê:
      «Processamento dos pedidos iniciais
      […]
      O requerente é informado do seguimento dado ao seu pedido quer pelo director‑geral ou pelo chefe de serviço a que se destina
         o pedido, quer por um director designado para o efeito no âmbito do Secretariado‑Geral ou por um director designado no âmbito
         do OLAF [Organismo Europeu de Luta Antifraude], no caso de pedidos que incidam sobre documentos relativos às actividades do
         OLAF previstas nos n.os 1 e 2 do artigo 2.° da Decisão 1999/352/CE, CECA, Euratom da Comissão, que institui o OLAF, ou ainda pelo funcionário que
         for designado para esse efeito.
      
      Qualquer resposta, mesmo parcialmente negativa, deve informar o requerente do seu direito de apresentar, no prazo de quinze
         dias úteis após a recepção da resposta, um pedido confirmativo ao secretário‑geral da Comissão ou ao director do OLAF, quando
         o pedido confirmativo disser respeito a documentos relativos às actividades do OLAF previstas nos n.os 1 e 2 do artigo 2.° da Decisão 1999/352/CE, CECA, Euratom.»
      
      9       Além disso, no que respeita ao processamento dos pedidos confirmativos, o artigo 4.° do anexo da Decisão 2001/937 dispõe:
      «Nos termos do artigo 14.° do regulamento interno da Comissão, o poder de decisão relativamente aos pedidos confirmativos
         é delegado no secretário‑geral. No entanto, quando o pedido confirmativo disser respeito a documentos relativos às actividades
         do OLAF previstas nos n.os 1 e 2 do artigo 2.° da Decisão 1999/352/CE, CECA, Euratom, o poder de decisão é delegado no director do OLAF.
      
      A direcção‑geral ou o serviço assiste o Secretariado‑Geral na preparação da decisão.
      A decisão é tomada pelo secretário‑geral ou pelo director do OLAF após acordo do Serviço Jurídico.
      A decisão é comunicada ao requerente por escrito, eventualmente por via electrónica, informando‑o do seu direito de interpor
         recurso para o Tribunal de Primeira Instância ou de apresentar queixa ao Provedor de Justiça Europeu.»
      
      10     Nos termos do artigo 8.°, n.° 2, do Regulamento (CE) n.° 1073/1999 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Maio de 1999,
         relativo aos inquéritos efectuados [pelo Organismo] Europeu de Luta Antifraude (OLAF) (JO L 136, p. 1):
      
      «Confidencialidade e protecção de dados
      […]
      2. As informações comunicadas ou obtidas no âmbito dos inquéritos internos, seja qual for a sua forma, ficam abrangidas pelo
         segredo profissional e beneficiam da protecção concedida pelas disposições aplicáveis às instituições das Comunidades Europeias.
         
      
      Essas informações não podem ser comunicadas a outras pessoas além daquelas que, nas instituições das Comunidades Europeias
         ou nos Estados‑Membros, devam conhecê‑las em razão das suas funções, nem ser utilizadas para outros fins que não sejam os
         de assegurar a luta contra a fraude, contra a corrupção e contra qualquer outra actividade ilegal.»
      
      11     O artigo 9.° do Regulamento n.° 1073/1999 dispõe:
      «Relatório de inquérito e sequência dos inquéritos 
      1. No termo de qualquer inquérito realizado [pelo OLAF], [o organismo] elaborará, sob a autoridade do director, um relatório
         que incluirá nomeadamente os factos verificados, o prejuízo financeiro, se for caso disso, e as conclusões do inquérito, incluindo
         as recomendações do director [do OLAF] sobre o seguimento a dar ao mesmo.
      
      2. Os relatórios serão elaborados tendo em conta os requisitos processuais exigidos pela legislação nacional do Estado‑Membro
         em causa. Os relatórios assim estabelecidos constituirão, nas mesmas condições e com o mesmo valor que os relatórios administrativos
         elaborados pelos inspectores administrativos nacionais, elementos de prova admissíveis nos processos administrativos ou judiciais
         do Estado‑Membro em que a sua utilização se revele necessária. Ficarão sujeitos às mesmas regras de apreciação que as aplicáveis
         aos relatórios administrativos elaborados pelos inspectores administrativos nacionais e terão idêntico valor.
      
      3. Os relatórios elaborados na sequência dos inquéritos externos e todos os respectivos documentos úteis serão transmitidos
         às autoridades competentes dos Estados‑Membros em causa, em conformidade com a regulamentação relativa aos inquéritos externos.
      
      4. Os relatórios elaborados na sequência dos inquéritos internos e todos os respectivos documentos úteis serão enviados à
         instituição, órgão ou organismo em causa. As instituições, órgãos e organismos darão aos inquéritos internos o seguimento,
         designadamente a nível disciplinar e judicial, requerido pelos respectivos resultados e informarão o director [do OLAF], num
         prazo por este estabelecido nas conclusões do seu relatório, do seguimento dado ao inquérito.»
      
      12     Nos termos do artigo 10.° do Regulamento n.° 1073/1999:
      «Transmissão de informações [pelo OLAF]
      1. Sem prejuízo do disposto nos artigos 8.°, 9.° e 11.° do presente regulamento e das disposições contidas no Regulamento
         (Euratom, CE) n.° 2185/96, [o OLAF] poderá transmitir a qualquer momento às autoridades competentes dos Estados‑Membros em
         causa informações obtidas durante os inquéritos externos.
      
      2. Sem prejuízo do disposto nos artigos 8.°, 9.° e 11.° do presente regulamento, o director [do OLAF] transmitirá às autoridades
         judiciárias do Estado‑Membro em causa as informações colhidas [pelo OLAF], aquando de inquéritos internos, sobre factos susceptíveis
         de processo penal. Sob reserva das necessidades do inquérito, informará simultaneamente o Estado‑Membro em causa.
      
      3. Sem prejuízo do disposto nos artigos 8.° e 9.° do presente regulamento, [o OLAF] poderá transmitir a qualquer momento à
         instituição, órgão ou organismo em causa informações obtidas durante inquéritos internos.»
      
       Factos que deram origem ao litígio
      13     Os recorrentes, Yves Franchet e Daniel Byk, são, respectivamente, o antigo director‑geral e o antigo director do Eurostat
         (Serviço de Estatística das Comunidades Europeias). 
      
      14     Várias auditorias internas do Eurostat puseram em evidência eventuais irregularidades na sua gestão financeira. Consequentemente,
         o OLAF instaurou vários inquéritos respeitantes, nomeadamente, aos contratos celebrados pelo Eurostat com as sociedades Eurocost,
         Eurogramme e Datashop – Planistat e às subvenções que lhes foram concedidas.
      
      15     Em 4 de Julho de 2002, o OLAF enviou às autoridades judiciárias luxemburguesas, em conformidade com o disposto no artigo 10.°
         do Regulamento n.° 1073/1999, um processo relativo ao inquérito interno respeitante à Eurocost em que Y. Franchet era posto
         em causa, bem como um outro processo relativo ao inquérito externo respeitante à Eurogramme. Em 19 de Março de 2003, o OLAF
         enviou igualmente às autoridades judiciárias francesas um processo relativo ao assunto Datashop – Planistat em que os dois
         recorrentes eram postos em causa.
      
      16     Em 21 de Maio de 2003, os recorrentes, a seu pedido, foram objecto de uma mutação.
      17     Em 11 de Junho de 2003, a Comissão mandatou o serviço de auditoria interno (SAI) para examinar contratos celebrados e subvenções
         concedidas pelo Eurostat no contexto do seguimento do procedimento de quitação. O SAI elaborou três relatórios, o primeiro
         em 7 de Julho, o segundo em 24 de Setembro e o terceiro (a seguir «relatório final do SAI») em 22 de Outubro de 2003.
      
      18     Em 9 de Julho de 2003, a Comissão decidiu instaurar um procedimento disciplinar aos recorrentes. Esse procedimento foi imediatamente
         suspenso devido ao facto de o inquérito do OLAF estar ainda em curso. A Comissão pôs igualmente em funcionamento uma task force multidisciplinar.
      
      19     Por requerimento de 25 de Julho de 2003, os recorrentes pediram, invocando um princípio geral de transparência e um direito
         fundamental de acesso aos documentos, consagrado no artigo 42.° da Carta dos direitos fundamentais da União Europeia proclamada
         em 7 de Dezembro de 2000 em Nice (JO 2000, C 364, p. 1), bem como as disposições do Regulamento n.° 1049/2001 e a Decisão
         2001/937, o acesso aos seguintes documentos:
      
      «–      o ou os ofícios enviados pelo OLAF às autoridades judiciárias luxemburguesas relativos aos processos Eurocost e Eurogramme
         com os seus anexos e a lista desses anexos;
      
      –      os ofícios enviados pelo OLAF às autoridades judiciárias francesas no processo Datashop‑Planistat com os seus anexos e a lista
         desses anexos. Está sobretudo em causa um ofício datado, provavelmente, de 19 de Março de 2003 (n.° 003441) com […] referência
         CMS n.° IO/2002/510 ‑ Eurostat/Datashop/Planistat;
      
      –      a comunicação que o OLAF transmitiu à Comissão e referenciada num comunicado de imprensa com data de 19 de Maio de 2003 (IP/03/[709]);
      –      Todas as outras comunicações do OLAF à Comissão».
      20     O acesso foi recusado por ofício do OLAF de 18 de Agosto de 2003 (a seguir «decisão de 18 de Agosto de 2003»). Nos termos
         desse ofício:
      
      «[…]
      As excepções que se aplicam aos documentos que V. Ex.a pediu no primeiro e segundo requerimentos são as relativas à protecção dos processos judiciais e dos objectivos de actividades
         de inspecção, de inquérito e de auditoria. Os ofícios solicitados nos dois requerimentos são uma parte essencial do processo
         enviado pelo OLAF às autoridades judiciárias dos Estados‑Membros para os processos judiciais nacionais e dizem respeito a
         matérias ainda sob inquérito. Assim, estão protegidas pelas excepções supramencionadas.
      
      No que respeita ao terceiro requerimento, a comunicação à qual é pedido acesso foi feita pelo OLAF à Comissão com base no
         artigo 10.°, [n.°] 3, do Regulamento [n.°] 1073/1999, de 25 de Maio de 1999, que permite ao OLAF, no quadro da sua missão
         de inquérito, informar a instituição. Como se trata de um documento enviado pelo OLAF no quadro do seu inquérito, está coberto
         pela excepção relativa à protecção dos objectivos das actividades de inspecção, inquérito e auditoria.
      
      No que respeita ao quarto requerimento, o pedido de V. Ex.a carece de precisões. Infelizmente, não conseguimos identificar o ou os documentos em questão. Ficaria reconhecido, portanto,
         a V. Ex.a que envidasse esforços no sentido de fornecer informações complementares para precisar o seu pedido inicial.
      
      […]»
      21     Em 8 de Setembro de 2003, os recorrentes apresentaram um pedido confirmativo.
      22     O pedido confirmativo dos recorrentes foi indeferido por ofício de 1 de Outubro de 2003 do OLAF (a seguir «primeira decisão
         impugnada»). Aí se expõe o seguinte:
      
      «[…]
      Após exame aprofundado do requerimento de V. Ex.a e da resposta inicial que lhe foi transmitida pelo OLAF, confirmo pela presente que o OLAF não lhe pode comunicar nesta fase
         os documentos solicitados.
      
      1. V. Ex.a afirma que os documentos identificados no quadro do primeiro e segundo requerimento foram, irregularmente, tornados públicos.
         Com efeito, esses documentos nunca foram legalmente tornados públicos.
      
      V. Ex.a afirma que ‘Y. Franchet e D. Byk são directamente postos em causa nesses processos e, portanto, interessados em primeira
         linha em ter acesso a esses documentos’. O direito do público de aceder aos documentos com base no Regulamento [n.°] 1049/2001
         deve distinguir‑se do direito de acesso ao processo por uma pessoa afectada. O primeiro é um direito garantido a qualquer
         pessoa singular ou colectiva e aplica‑se a todos os documentos conservados por uma instituição. Esta regulamentação não exige
         que o requerente faça prova de interesse para ser autorizado a aceder aos documentos. O acesso aos documentos deve ser autorizado
         salvo se estiverem cobertos por uma das excepções enumeradas no [artigo] 4.° do regulamento. No presente caso, o OLAF é de
         opinião, pelas razões a seguir expostas, que nenhum dos documentos objecto do pedido de acesso de V. Ex.a pode ser divulgado por força do Regulamento [n.°] 1049/2001.
      
      Em contrapartida, uma pessoa afectada por processos judiciais nacionais e/ou disciplinares comunitários tem o direito de aceder
         ao processo que lhe diz respeito em conformidade com a regulamentação adequada.
      
      Na medida em que inquéritos judiciais estão em curso em França e no Luxemburgo, o acesso ao processo rege‑se pelas regras
         de processos aplicáveis nesses dois países. É possível a V. Ex.a abordar as autoridades francesas e/ou luxemburguesas competentes, a fim de lhes pedir o direito de aceder ao processo que
         lhes foi enviado. Cabe‑lhes decidir quanto a isso, e o OLAF não levantará objecção à sua decisão.
      
      V. Ex.a afirma que existe um interesse público superior para a colocação à disposição de D. Byk e Y. Franchet dos documentos relativos
         aos primeiros e segundo pedidos. No entanto, consideramos os direitos de defesa de Y. Franchet e D. Byk como interesses privados
         e não como interesses públicos superiores. Como se indicou, terão o direito de aceder à totalidade do processo em tempo útil
         no quadro dos eventuais procedimentos disciplinares ou judiciais.
      
      2. Afirma V. Ex.a que é inexacto sustentar que qualquer documento enviado pelo OLAF no quadro de um inquérito ficará ipso facto abrangido pela excepção relativa à protecção dos objectivos de actividades de instrução, inquérito e auditoria prevista pelo
         [artigo] 4.° do regulamento. Contudo, não foi isso que o OLAF sustentou.
      
      Com efeito, invocámos essa excepção relativamente aos documentos específicos que V. Ex.a pediu, mais precisamente: os ofícios enviados às autoridades francesas e luxemburguesas e à Comissão. Esses ofícios dirigidos
         às autoridades judiciárias nacionais contêm um resumo dos resultados de inquéritos do OLAF. Se o OLAF disponibilizasse esses
         ofícios, iria prejudicar os processos judiciais nacionais na medida em que fazem parte integrante dos processos judiciais
         e não podem, por isso, ser comunicados antes de os processos nacionais o preverem.
      
      A comunicação à Comissão contém igualmente um resumo dos resultados de inquérito que o OLAF julgou importantes para a Comissão,
         a fim de esta poder tomar todas as medidas necessárias para a protecção dos seus interesses. Por conseguinte, as razões pelas
         quais o OLAF recusou a divulgação dos documentos são específicas aos documentos pedidos e não constituem uma argumentação
         geral, como V. Ex.a sugeriu.
      
      3. No que respeita ao quarto requerimento, identificámos 35 comunicações do OLAF ao secretário‑geral da Comissão relativas
         aos inquéritos respeitantes ao Eurostat, transmitidas entre 23 de Setembro de 1999 e 25 de Setembro de 2003. Todas essas comunicações
         contêm resultados de inquérito cuja divulgação prejudicaria os processos judiciais em curso em França e no Luxemburgo. Estão,
         por conseguinte, abrangidas pela excepção relativa às actividades de inspecção, inquérito e auditoria bem como pela excepção
         relativa aos processos judiciais.
      
      […]»
      23     O relatório final respeitante à Eurogramme foi elaborado em Julho de 2002.
      24     Em 25 de Setembro de 2003, o OLAF elaborou os relatórios finais de inquérito, na acepção do artigo 9.° do Regulamento n.° 1073/1999,
         nos processos Eurocost e Datashop – Planistat. Em 10 de Outubro de 2003, os recorrentes receberam cópia desses relatórios.
         Na mesma data, receberam, além disso, cópia do relatório intercalar do SAI de 7 de Julho de 2003, mas sem os seus anexos.
      
      25     Por carta de 21 de Outubro de 2003, os recorrentes apresentaram novo pedido de acesso aos diferentes documentos, nomeadamente,
         ao relatório final SAI. Em 29 de Outubro de 2003, fizeram um pedido complementar que visava os anexos do relatório do SAI
         de 7 de Julho de 2003, relatório que lhes foi comunicado por ofício de 10 de Outubro de 2003.
      
      26     Não tendo estes pedidos obtido resposta, os recorrentes apresentaram um pedido confirmativo em 2 de Dezembro de 2003.
      27     Esse pedido confirmativo foi indeferido por decisão da Comissão de 19 de Dezembro de 2003 (a seguir «segunda decisão impugnada»).
         O indeferimento está fundamentado da seguinte forma:
      
      «[…]
      Lamento ter de informar V. Ex.a de que esses documentos não lhe podem ser comunicados. A sua divulgação prejudicaria, com efeito, o objectivo desse inquérito
         pois perturbaria a concretização das acções necessárias para lhe dar o seguimento adequado. Por isso, em conformidade com
         as disposições do artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento […] n.° 1049/2001, deve recusar‑se o acesso a esses
         documentos. Atenta a sensibilidade da matéria e a estrutura dos documentos, torna‑se impossível um acesso parcial, previsto
         no artigo 4.°, n.° 6, do referido regulamento. Por outro lado, não disponho de qualquer elemento que me permita concluir que,
         nesse caso concreto, o interesse público da divulgação das informações contidas nos documentos pedidos prime sobre a necessidade
         de proteger o objectivo do inquérito. 
      
      […]»
       Tramitação processual
      28     Por petição apresentada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 27 de Novembro de 2003, os recorrentes interpuseram
         o recurso T‑391/03 da decisão de 18 de Agosto de 2003 e da primeira decisão impugnada.
      
      29     Por requerimento separado apresentado no mesmo dia, pediram que esse recurso fosse apreciado seguindo uma tramitação acelerada,
         em conformidade com o disposto no artigo 76.°‑A do Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância.
      
      30     A Quarta Secção do Tribunal de Primeira Instância, à qual foi atribuído então o processo, indeferiu o pedido de tramitação
         acelerada por decisão de 17 de Dezembro de 2003, notificada aos recorrentes em 22 de Dezembro de 2003.
      
      31     Por petição apresentada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 19 de Fevereiro de 2004, os recorrentes interpuseram
         o recurso T‑70/04 da decisão tácita da Comissão de indeferimento dos seus pedidos de acesso a diferentes documentos apresentados
         em 21 e 29 de Outubro de 2003 bem como da segunda decisão impugnada.
      
      32     Tendo a composição das secções do Tribunal de Primeira Instância sido modificada a partir do novo ano judicial, o juiz‑relator
         foi afectado à Terceira Secção, à qual o presente processo foi, por conseguinte, atribuído.
      
      33     Por despacho do presidente da Terceira Secção do Tribunal de Primeira Instância de 13 de Julho de 2005, os processos T‑391/03
         e T‑70/04 foram apensados para efeitos da fase oral e do acórdão, em conformidade com o disposto no artigo 50.° do Regulamento
         de Processo.
      
      34     Com base em relatório do juiz‑relator, o Tribunal de Primeira Instância (Terceira Secção) decidiu abrir a fase oral do processo
         e, no quadro das medidas de organização do processo previstas no artigo 64.° do Regulamento de Processo, colocou por escrito
         várias questões aos recorrentes e à Comissão. As partes aquiesceram nos prazos estabelecidos.
      
      35     As partes foram ouvidas em alegações e nas suas respostas às questões que o Tribunal lhes colocou na audiência de 15 de Setembro
         de 2005.
      
      36     Por despacho de 26 de Setembro de 2005, nos termos do disposto no artigo 65.°, alínea b), no artigo 66.°, n.° 1, e no artigo
         67.°, n.° 3, terceiro parágrafo, do Regulamento de Processo, o Tribunal ordenou à recorrida que apresentasse os documentos
         controvertidos, prevendo contudo que esses documentos não seriam comunicados aos recorrentes no âmbito do presente processo.
         Esse pedido foi satisfeito. 
      
      37     A fase oral do processo terminou por decisão do presidente da Terceira Secção de 8 de Novembro de 2005.
       Pedidos das partes
      38     No quadro do recurso T‑391/03, os recorrentes concluem pedindo que o Tribunal se digne:
      –       anular a decisão de 18 de Agosto de 2003 bem como a primeira decisão impugnada;
      –      condenar a Comissão na totalidade das despesas.
      39     A Comissão conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      –       declarar os pedidos do recurso inadmissíveis na medida em que visam a anulação da decisão de 18 de Agosto de 2003;
      –       negar provimento aos pedidos de anulação da primeira decisão impugnada;
      –       condenar os recorrentes nas despesas.
      40     No quadro do recurso T‑70/04, os recorrentes concluem pedindo que o Tribunal se digne:
      –       anular a decisão tácita da Comissão de indeferimento dos seus pedidos de acesso a diferentes documentos apresentados em 21
         e 29 de Outubro de 2003 bem como a segunda decisão impugnada;
      
      –       condenar a Comissão na totalidade das despesas.
      41     A Comissão conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      –       declarar os pedidos do recurso inadmissíveis na medida em que visam a anulação da decisão tácita de indeferimento;
      –       negar provimento aos pedidos apresentados de anulação da segunda decisão impugnada;
      –       condenar os recorrentes nas despesas.
       Questão de direito
       Quanto à admissibilidade
       Argumentos das partes
      42     No quadro do recurso T‑391/03, a Comissão considera que a decisão de 18 de Agosto de 2003 não é um acto definitivo e não pode,
         por isso, ser objecto de recurso de anulação.
      
      43     Quanto ao recurso T‑70/04, a Comissão sustenta que o recurso interposto da decisão tácita de indeferimento dos pedidos de
         21 e 29 de Outubro de 2003 é inadmissível, dado que não se trata de um acto definitivo.
      
      44     Os recorrentes consideram que, à semelhança do procedimento pré‑contencioso da função pública, poderá considerar‑se que a
         fundamentação da primeira decisão impugnada completa a fundamentação da decisão de 18 de Agosto de 2003 e que esta constitui
         o acto impugnável. O mesmo argumento se aplicará ao acto tácito de indeferimento dos pedidos de 21 e 29 de Outubro de 2003.
      
      45     Todavia, interrogados sobre esta questão pelo Tribunal na audiência, os recorrentes remeteram‑se ao entendimento do Tribunal.
       Apreciação do Tribunal
      46     É de jurisprudência constante que só as medidas que produzem efeitos jurídicos obrigatórios susceptíveis de afectar os interesses
         de um recorrente, alterando de forma caracterizada a sua situação jurídica, constituem actos susceptíveis de ser objecto de
         um recurso de anulação na acepção do artigo 230.° CE. Quando se trate de actos ou de decisões cuja elaboração se efectua em
         várias fases, nomeadamente no termo de um processo interno, só constituem, em princípio, actos susceptíveis de serem objecto
         de um recurso de anulação as medidas que fixam definitivamente a posição da instituição no termo desse processo, com exclusão
         das medidas intermédias cujo objectivo é preparar a decisão final (acórdão do Tribunal de Justiça de 11 de Novembro de 1981,
         IBM/Comissão, 60/81, Recueil, p. 2639, n.° 10, e acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 22 de Maio de 1996, AITEC/Comissão,
         T‑277/94, Colect., p. II‑351, n.° 51).
      
      47     Resulta claramente da aplicação conjugada dos artigos 3.° e 4.° do anexo da Decisão 2001/937 bem como do artigo 8.° do Regulamento
         n.° 1049/2001 que a resposta ao pedido inicial constitui apenas uma primeira tomada de posição, que confere aos recorrentes
         a possibilidade de convidar o secretário‑geral da Comissão ou o director do OLAF a reexaminar a posição em causa.
      
      48     Por conseguinte, apenas a medida adoptada pelo secretário‑geral da Comissão ou pelo director do OLAF, uma vez que tem a natureza
         de uma decisão e substitui na íntegra a tomada de posição antecedente, é susceptível de produzir efeitos jurídicos que podem
         afectar os interesses dos recorrentes, e, consequentemente, ser objecto de recurso de anulação com base no artigo 230.° CE
         (acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 16 de Outubro de 2003, Co‑Frutta/Comissão, T‑47/01, Colect., p. II‑4441, n.° 31).
         
      
      49     Assim, o recurso T‑391/03, na parte em que diz respeito à decisão de 18 de Agosto de 2003, e o recurso T‑70/04, na parte em
         que diz respeito à decisão tácita de indeferimento dos pedidos dos recorrentes de 21 e 29 de Outubro de 2003, são inadmissíveis.
      
       Quanto ao mérito
       Argumentos das partes
      50     Em apoio dos seus recursos, os recorrentes invocam um fundamento único relativo à violação dos artigos 2.° e 4.° do Regulamento
         n.° 1049/2001, à violação do «direito fundamental de acesso aos documentos», a um erro manifesto de apreciação, à violação
         do princípio da proporcionalidade bem como ao carácter erróneo e contraditório da fundamentação das decisões impugnadas. 
      
      51     Alegam que o OLAF interpretou extensivamente as excepções ao direito de acesso aos documentos, que visam a protecção de processos
         judiciais e dos objectivos das actividades de inspecção, inquérito e auditoria. Lembram que as excepções ao direito de acesso
         aos documentos devem ser interpretadas restritivamente, de forma a não pôr em causa a aplicação do princípio geral que consiste
         em conferir ao público o mais amplo acesso possível aos documentos.
      
      52     Os recorrentes consideram que a interpretação da Comissão conduz a um resultado em que os documentos que relevam das actividades
         do OLAF estariam, por natureza, excluídos do direito de acesso. Ora, esta abordagem viola a interpretação restritiva de que
         devem ser objecto as excepções, sobretudo quando se trate de excepções a um direito fundamental.
      
      53     A esse propósito, os recorrentes sustentam que a Comissão não teve razão ao considerar que o OLAF beneficiava de um regime
         particular, ou mesmo derrogatório das regras respeitantes ao acesso aos documentos. Esta derrogação não encontrava justificação
         nem no Regulamento n.° 1049/2001 nem na regulamentação orgânica do OLAF. Os recorrentes consideram que nem a exigência de
         confidencialidade dos inquéritos nem a independência do OLAF pode conduzir a que todo o pedido de acesso aos documentos seja
         recusado.
      
      54     No que respeita à excepção relativa à protecção dos processos judiciais, os recorrentes consideram, referindo‑se ao acórdão
         do Tribunal de Primeira Instância de 7 de Dezembro de 1999, Interporc/Comissão (T‑92/98, Colect., p. II‑3521, a seguir «acórdão
         Interporc II»), que essa excepção não se aplica no presente processo. Com efeito, essa excepção diz respeito somente a documentos
         elaborados na pendência de um processo judicial. Ora, as comunicações do OLAF apenas se destinam a informar as autoridades
         judiciárias ou as instituições de factos susceptíveis de dar origem a procedimentos penais ou disciplinares. Assim, surgem
         fora dos processos judiciais em curso. A este propósito, os recorrentes lembram que o OLAF é um serviço administrativo da
         Comissão que constitui processos administrativos e elabora relatórios administrativos. São as instituições e as autoridades
         nacionais que dão aos inquéritos o seguimento, nomeadamente disciplinar e judicial, que os seus resultados reclamam.
      
      55     Os recorrentes alegam que o OLAF também não pode fugir às obrigações da regulamentação relativa ao direito de acesso do público
         aos documentos, considerando que o acesso aos seus documentos deve ser apreciado segundo as regras nacionais ou as que integram
         o procedimento disciplinar.
      
      56     No que respeita aos documentos que o OLAF transmitiu às autoridades francesas e luxemburguesas, os recorrentes consideram
         igualmente que o OLAF cometeu, por uma dupla razão, um erro manifesto de apreciação ao desrespeitar a sua obrigação de consultar
         as autoridades nacionais sobre a questão de saber se se opunham à divulgação dos documentos em questão. Baseando‑se no acórdão
         Interporc II e no acórdão do Tribunal de Justiça de 11 de Janeiro de 2000, Países Baixos e van der Wal/Comissão (C‑174/98 P
         e C‑189/98 P, Colect., p. I‑1, a seguir «acórdão van der Wal»), consideram que a Comissão deveria ter questionado as autoridades
         judiciárias nacionais cuja intervenção tinha solicitado para apreciar não apenas se essa divulgação era prejudicial mas também
         se constituía uma infracção ao direito nacional.
      
      57     No que respeita aos documentos que o OLAF transmitiu à Comissão, os recorrentes consideram que a recusa de acesso a esses
         documentos também não se justificava. Observam que não cabia ao OLAF apreciar os interesses da Comissão e o seu grau de protecção
         eventual, mas somente interrogar a Comissão sobre esse aspecto, como se indica no acórdão van der Wal.
      
      58     No que respeita à excepção relativa à protecção dos objectivos das actividades de inspecção, inquérito e auditoria, os recorrentes
         contestam que esta excepção fosse aplicável no caso em apreço, já que a Comissão não aduziu qualquer elemento a esse título
         para justificar a recusa de divulgação.
      
      59     Os recorrentes alegam que o OLAF devia ter indicado as razões específicas pelas quais as excepções se aplicavam no caso em
         apreço e examinar em relação a cada documento solicitado se o seu conteúdo impedia a sua divulgação. Os recorrentes sustentam
         que, segundo a jurisprudência, a excepção não pode aplicar‑se, mesmo que o documento contenha informações relativas a um inquérito,
         se a divulgação não o prejudicar. Ora, o OLAF não examinou, em relação a cada documento pedido, se o seu conteúdo se opunha
         à sua divulgação, tendo justificado a recusa de acesso de forma geral. Por outro lado, não é certo que ainda haja inquéritos
         em curso.
      
      60     Os recorrentes sustentam que o OLAF não verificou, contrariamente às exigências do princípio da proporcionalidade, se era
         possível uma divulgação parcial dos documentos. Referem‑se ao acórdão do Tribunal de Justiça de 22 de Janeiro de 2004, Mattila/Conselho
         e Comissão (C‑353/01 P, Colect., p. I‑1073), e alegam que a decisão de recusa de acesso aos documentos deve ser anulada se
         a Comissão não tiver examinado a possibilidade de um acesso parcial aos documentos.
      
      61     Os recorrentes afirmam igualmente que a fundamentação da decisão de 18 de Agosto de 2003 e da primeira decisão impugnada é
         contraditória. Quanto aos documentos que o OLAF transmitiu às autoridades judiciárias luxemburguesas e francesas, o OLAF justificou
         a recusa de acesso indicando que os documentos pedidos continham um resumo dos resultados de inquéritos do OLAF. Ora, em 3
         de Abril de 2003, isto é, em data posterior à comunicação dos documentos às autoridades nacionais, o OLAF informara o secretário‑geral
         de que os inquéritos estavam em curso. Os recorrentes sublinham, a este propósito, que foi só a 25 de Setembro de 2003 que
         o OLAF apresentou os seus relatórios finais de inquéritos.
      
      62     Além disso, os recorrentes consideram que a referência que a Comissão fez ao despacho do Tribunal de Primeira Instância de
         18 de Dezembro de 2003, Gómez‑Reino/Comissão (T‑215/02, ColectFP, p. I‑A‑345 e II‑1685), não é aqui pertinente. Alegam que
         a solução constante desse despacho torna, na realidade, ineficaz e inútil o direito fundamental do respeito dos direitos de
         defesa. Com efeito, segundo os recorrentes, resulta desse despacho que os actos adoptados pelo OLAF no quadro das suas actividades
         não constituem actos que causam prejuízo, mas simplesmente actos preparatórios, só a decisão final eventualmente vincula a
         instituição podendo apresentar as características de um acto que causa prejuízo. Conclui‑se que o conjunto da actividade do
         OLAF escapa à fiscalização jurisdicional.
      
      63     No que respeita ao relatório final do SAI bem como aos anexos do relatório do SAI de 7 de Julho de 2003, os recorrentes acrescentam
         que a fundamentação da segunda decisão impugnada, como não comporta qualquer elemento de informação próprio a este caso e
         não explica as razões pelas quais a comunicação dos documentos pedidos apenas ao recorrente era prejudicial, é demasiado geral.
         A fundamentação também era insuficiente em relação à questão de saber se um acesso parcial era possível. Além disso, a fundamentação
         não era plausível, dado que os três relatórios do SAI foram objecto de ampla difusão. Os recorrentes sublinham que a Comissão
         lhes deu acesso aos dois primeiros relatórios do SAI sem explicar as razões pelas quais o acesso ao relatório final do SAI
         e aos anexos do relatório do SAI de 7 de Julho de 2003 devia ser tratado de forma diferente.
      
      64     Contestam, além disso, a aplicação da excepção relativa à protecção dos objectivos das actividades de inspecção, inquérito
         e auditoria ao relatório final do SAI alegando que, no momento da adopção da segunda decisão impugnada, as actividades de
         auditoria do SAI estavam terminadas. Assim, a Comissão podia opor‑se indefinidamente a um pedido de acesso abstendo‑se de
         determinar o destino que devia ser dado a um inquérito. 
      
      65     Finalmente, os recorrentes sustentam que os direitos de defesa representam um interesse público superior, a que se refere
         o artigo 4.°, n.° 2, do Regulamento n.° 1049/2001, e alegam que, embora os direitos de defesa protejam em primeiro lugar um
         interesse privado, trata‑se também de direitos superiores que constituem o fundamento do Estado de Direito e da democracia.
         Em particular, estava em causa o acesso à justiça e a uma protecção jurisdicional efectiva. Acrescentam que a Comissão não
         ponderou os interesses em causa.
      
      66     A Comissão observa que o recurso visa a anulação da recusa de acesso a documentos que foram pedidos exclusivamente com base
         na regulamentação relativa ao direito de acesso do público aos documentos. Por consequência, o pedido dos recorrentes devia
         ser tratado como um pedido de acesso proveniente de um qualquer representante do público.
      
      67     Sublinha que a especificidade das funções do OLAF deve ser tomada em conta no exame do pedido de acesso aos documentos em
         questão, lembrando, no entanto, que o OLAF não beneficia, enquanto tal, de um regime especial ou derrogatório das regras respeitantes
         ao acesso aos documentos. Considera que resulta do conjunto das disposições do Regulamento n.° 1073/1999 que as funções do
         OLAF não podem reduzir‑se às de um serviço puramente administrativo, que elabora processos ou documentos administrativos como
         os evocados no acórdão Interporc II ou elaborados por qualquer outra direcção‑geral no quadro das funções habituais da Comissão.
         Alega que os inquéritos levados a cabo pelo OLAF são susceptíveis de ter implicações disciplinares ou penais. Assim, requerem
         um elevado grau de confidencialidade, como resulta do artigo 8.°, n.° 2, e do artigo 12.°, n.° 3, do Regulamento n.° 1073/1999,
         e estão abrangidos, devido à sua própria natureza, pela excepção que visa a protecção dos inquéritos. Considera igualmente
         que, na medida em que inquéritos em curso, ou mesmo terminados, possam ter ligações com processos judiciais instaurados ou
         a instaurar, a excepção que visa a protecção dos processos judiciais acresce inevitavelmente à relativa às actividades de
         inquérito.
      
      68     A Comissão lembra que, no caso em apreço, os processos submetidos às autoridades luxemburguesas são actualmente objecto de
         instrução e os submetidos às autoridades francesas foram remetidos a um juiz.
      
      69     Considera que as duas excepções em causa abrangem obrigatoriamente não só os documentos que formam os processos do OLAF ou
         os transmitidos a autoridades judiciárias mas também as comunicações trocadas a esse respeito entre o OLAF e as instituições.
      
      70     Sustenta que a exigência de confidencialidade proíbe encarar a hipótese do acesso do público a qualquer documento que inclua
         a parte essencial de um inquérito do OLAF, mesmo encerrado, pelo menos enquanto as autoridades judiciárias competentes ou
         a autoridade investida do poder de nomeação (a seguir «AIPN») não tiverem tomado uma decisão definitiva. Baseia‑se na interpretação
         analógica do acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 11 de Dezembro de 2001, Petrie e o./Comissão (T‑191/99, Colect.,
         p. II‑3677). Considera que a exigência de confidencialidade é tanto mais justificada quanto se sabe que os inquéritos do OLAF
         podem conduzir à acusação de pessoas a nível penal ou disciplinar e que, caso seja instaurado um procedimento penal ou disciplinar,
         essas pessoas têm o direito ao respeito da presunção de inocência.
      
      71     Alega que, no caso em apreço, o acesso aos documentos pedidos foi recusado, nomeadamente, por abrangerem uma parte essencial
         dos inquéritos do OLAF e por estes não terem dado lugar a qualquer decisão definitiva nem das autoridades judiciárias competentes
         nem da AIPN. Se isso tivesse acontecido, a análise da Comissão poderia ter sido outra. Com efeito, os documentos em causa
         poderiam ter sido comunicados nos termos do Regulamento n.° 1049/2001, eventualmente omitindo o nome das pessoas singulares
         ou colectivas mencionadas.
      
      72     A Comissão acrescenta que, no despacho Gómez‑Reino/Comissão, já referido, o Tribunal considerou que o OLAF não era obrigado
         a conceder a um funcionário comunitário, pretensamente afectado por um inquérito interno, antes da ocorrência de uma decisão
         final da AIPN que lhe cause prejuízo, o acesso aos documentos objecto desse inquérito ou elaborados pelo OLAF. Segundo a Comissão,
         se esse acesso pode ser recusado em relação a um funcionário interessado, deve ser admitida uma recusa em relação a um pedido
         de acesso a documentos de inquérito formulado de harmonia com o disposto no Regulamento n.° 1049/2001.
      
      73     A Comissão considera que não há incoerência ou contradição na fundamentação das decisões e que os recorrentes confundem os
         inquéritos externos e internos conduzidos pelo OLAF. Ora, a divergência dos termos constantes das decisões impugnadas resultam
         do facto de as autoridades judiciárias nacionais terem sido chamadas a conhecer, em Julho de 2002 e em Março de 2003, resultados
         de inquéritos externos que são independentes do prosseguimento dos inquéritos internos levados a cabo pelo OLAF. Além disso,
         em 18 de Agosto de 2003, os inquéritos internos do OLAF estavam ainda em curso. Em contrapartida, em 1 de Outubro de 2003,
         esses inquéritos estavam terminados, o que explica os termos diferentes da primeira decisão impugnada.
      
      74     Quanto à suficiência da fundamentação, a Comissão sustenta que deve tomar‑se em conta tanto a fundamentação da decisão de
         18 de Agosto de 2003 como a da primeira decisão impugnada bem como as outras informações que os recorrentes tiveram à sua
         disposição. Lembra que, segundo o acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 5 de Março de 1997, WWF UK/Comissão (T‑105/95,
         Colect., p. II‑313), a Comissão nem sempre tem a possibilidade de indicar as razões que justificam a confidencialidade de
         um documento sem divulgar o seu conteúdo e, portanto, privar a excepção da sua finalidade essencial.
      
      75     A Comissão considera que o princípio da proporcionalidade também não foi violado. Pensa que, para assegurar a protecção das
         investigações e dos inquéritos bem como dos processos judiciais, nem mesmo um acesso parcial aos diferentes documentos pedidos
         podia ser concedido ao público sem privar as excepções em causa do seu efeito útil.
      
      76     Quanto aos documentos objecto do recurso T‑70/04, a Comissão alega que aplicou correctamente a excepção constante do artigo
         4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001 dado que, embora as actividades de auditoria do SAI estivessem
         terminadas, o inquérito e a respectiva análise pela Comissão estavam ainda em curso e esses relatórios podiam ainda ser explorados
         pelo OLAF no quadro dos seus próprios inquéritos.
      
      77     A Comissão lembra que os documentos que o secretário‑geral da Comissão comunicou aos recorrentes em anexo à sua resposta de
         10 de Outubro de 2003 o foram a título de informação geral respeitante a um procedimento disciplinar instaurado contra eles
         e imediatamente suspenso, e não em resposta a um pedido de acesso nos termos do disposto no Regulamento n.° 1049/2001, e que
         o acesso a esses documentos, pedido de harmonia com o disposto no Regulamento n.° 1049/2001, lhes foi recusado.
      
      78     A Comissão sublinha que foi na sequência de duas resoluções do Parlamento Europeu que a Comissão encarregou o SAI, por decisão
         de 11 de Junho de 2003, de examinar a legalidade e a regularidade dos contratos celebrados e das subvenções concedidas pelo
         Eurostat ou por outra direcção‑geral a pedido do Eurostat, com a finalidade de responder ao pedido do Parlamento mas também
         de detectar eventuais irregularidades ou anomalias e daí extrair as consequências. Os relatórios que o SAI elaborou, nesse
         quadro, são, portanto, documentos sensíveis, tanto pelo seu objecto como pelo seu conteúdo. A Comissão contesta que esses
         documentos tenham sido amplamente difundidos. Pelo contrário, foram objecto de uma difusão particularmente restrita. O público
         nunca teve acesso a esses documentos.
      
      79     A Comissão observa que reconhecer razão aos recorrentes equivale a tornar os documentos acessíveis a toda a gente.
      80     Finalmente, a Comissão considera que, tendo em conta a especificidade do presente processo, nenhum interesse público superior
         pode justificar a divulgação ao público dos documentos relativos aos inquéritos do OLAF. Sublinha que o Regulamento n.° 1049/2001
         não visa regular o acesso aos processos das pessoas eventualmente afectadas por um inquérito do OLAF com vista a permitir‑lhes
         assegurar a sua defesa. 
      
       Apreciação do Tribunal
      –       Observações preliminares
      81     Há que observar, a título preliminar, que os presentes processos devem ser examinadas à luz do Regulamento n.° 1049/2001.
         Com efeito, não se contesta que as decisões impugnadas foram adoptadas com fundamento no referido regulamento.
      
      82     Importa recordar que, nos termos do artigo 6.°, n.° 1, do Regulamento n.° 1049/2001, o requerente não é obrigado a justificar
         o seu pedido e, portanto, não tem que demonstrar qualquer interesse para ter acesso aos documentos pedidos (v., no tocante
         à aplicação da Decisão 94/90, acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 6 de Fevereiro de 1998, Interporc/Comissão, T‑124/96,
         Colect., p. II‑231, n.° 48, e Interporc II, n.° 44). Conclui‑se que o pedido dos recorrentes deve ser examinado da mesma forma
         que o seria um pedido emanado de qualquer outra pessoa.
      
      83     Há que recordar igualmente que o acesso aos documentos das instituições representa o princípio e que uma decisão de recusa
         só é válida se tiver por base uma das excepções previstas no artigo 4.° do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      84     Em conformidade com jurisprudência constante, estas excepções devem ser interpretadas e aplicadas de forma restritiva, a fim
         de não porem em causa a aplicação do princípio geral consagrado nesse regulamento (v. acórdão van der Wal, n.° 27, e acórdão
         do Tribunal de Primeira Instância de 7 de Fevereiro de 2002, Kuijer/Conselho, T‑211/00, Colect., p. II‑485, n.° 55 e jurisprudência
         aí indicada).
      
      85     No quadro do recurso T‑391/03, a Comissão considera que a divulgação dos documentos controvertidos não deve ter lugar por
         duas razões, isto é, por um lado, porque se trata de documentos ligados a actividades de inquérito, inspecção e auditoria
         e, por outro, porque se trata, ao mesmo tempo, de documentos redigidos para efeitos de um processo judicial. Assim, a Comissão
         invoca, na primeira decisão impugnada, as excepções previstas no artigo 4.°, n.° 2, segundo e terceiro travessões, do Regulamento
         n.° 1049/2001 para recusar aos requerentes o acesso aos documentos solicitados.
      
      86     No quadro do recurso T‑70/04, os recorrentes pedem para ter acesso ao relatório final do SAI e aos anexos do relatório intercalar
         do SAI de 7 de Julho de 2003. A Comissão suscita, a este propósito, apenas a excepção relativa à protecção dos objectivos
         de actividades de inquérito, inspecção e auditoria, prevista no artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      87     É à luz da jurisprudência referida no n.° 84 que se deve examinar a aplicação que a Comissão fez das excepções do artigo 4.°,
         n.° 2, segundo e terceiro travessões, do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      –       Quanto à excepção relativa à protecção de processos judiciais
      88     A expressão «processos judiciais» foi interpretada pelo Tribunal de Primeira Instância, no quadro da aplicação da Decisão
         94/90, no sentido de que a protecção do interesse público se opõe à divulgação do conteúdo de documentos redigidos unicamente
         para efeitos de um processo judicial particular (acórdão Interporc II, n.° 40).
      
      89     Tendo, assim, o conceito de «processos judiciais» já sido interpretado, no contexto do direito de acesso do público aos documentos
         das instituições, deve considerar‑se que essa definição também é pertinente no âmbito do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      90     Da mesma forma, o Tribunal de Primeira Instância já declarou que a expressão «documentos redigidos apenas para efeitos de
         um processo judicial particular» deve ser entendida no sentido de abranger os articulados ou requerimentos apresentados, os
         documentos internos respeitantes à instrução do processo em curso, as comunicações relativas ao processo entre a direcção‑geral
         em causa e o Serviço Jurídico ou um gabinete de advogados. Esta delimitação do âmbito de aplicação da excepção tem por objectivo
         garantir, por um lado, a protecção do trabalho interno da Comissão e, por outro, a confidencialidade e a salvaguarda do princípio
         do segredo profissional dos advogados (acórdão Interporc II, n.° 41). 
      
      91     Em contrapartida, o Tribunal de Primeira Instância considerou que a excepção relativa à protecção do interesse público (processos
         judiciais) constante do código de conduta não pode permitir à Comissão subtrair‑se à obrigação de comunicar documentos que
         foram elaborados no quadro de um dossier meramente administrativo. Este princípio deve ser respeitado mesmo que a produção
         desses documentos num processo perante o tribunal comunitário possa ser prejudicial à Comissão. O facto de um recurso de anulação
         ter sido interposto da decisão adoptada no termo do processo administrativo é irrelevante a este propósito (acórdão Interporc
         II, n.° 42).
      
      92     Há que examinar, à luz dessa jurisprudência, se os documentos que o OLAF comunicou às autoridades luxemburguesas e francesas
         e os que comunicou à Comissão são documentos que foram redigidos unicamente para efeitos de um processo judicial particular.
      
      93     Resulta do considerando 1 do Regulamento n.° 1073/1999 que os inquéritos do OLAF têm por finalidade a protecção dos interesses
         financeiros das Comunidades e a luta contra a fraude e todas as outras actividades ilegais lesivas dos interesses financeiros
         comunitários. Nos termos do considerando 5 desse regulamento, a responsabilidade do OLAF diz respeito, para além da protecção
         dos interesses financeiros, ao conjunto das actividades relacionadas com a defesa dos interesses comunitários em relação a
         comportamentos irregulares, susceptíveis de dar ensejo a processos administrativos ou penais. É, portanto, para atingir esses
         objectivos que o OLAF efectua os inquéritos internos e externos cujos resultados são apresentados num relatório de inquérito,
         nos termos do artigo 9.° do Regulamento n.° 1073/1999, e que transmite informações às autoridades nacionais e às instituições,
         em conformidade com o disposto no artigo 10.° do Regulamento n.° 1073/1999.
      
      94     Em conformidade com o artigo 9.°, n.° 2, do Regulamento n.° 1073/1999, os relatórios do OLAF constituem, nas mesmas condições
         e com o mesmo valor que os relatórios administrativos elaborados pelos inspectores administrativos nacionais, elementos de
         prova admissíveis em procedimentos administrativos ou judiciais do Estado‑Membro em que a sua utilização se revele necessária.
      
      95     O seguimento que as autoridades nacionais competentes ou as instituições dão aos relatórios e informações transmitidos pelo
         OLAF é, no entanto, da exclusiva e inteira responsabilidade dessas autoridades [despacho do presidente do Tribunal de Justiça
         de 19 de Abril de 2005, Tillack/Comissão, C‑521/04 P(R), Colect., p. I‑3103, n.° 32].
      
      96     Assim, pode acontecer que uma comunicação feita pelo OLAF às autoridades nacionais, por força do artigo 10.°, n.os 1 e 2, do Regulamento n.° 1073/1999, ou a uma instituição, por força do artigo 10.°, n.° 3, do mesmo regulamento, não conduza
         à abertura de um processo judicial a nível nacional ou de um procedimento disciplinar ou administrativo a nível comunitário.
      
      97     Considerar, nestas circunstâncias, que os diferentes documentos comunicados pelo OLAF foram redigidos somente para efeitos
         de um processo judicial não corresponde à interpretação que a jurisprudência fez dessa excepção e colide com a obrigação de
         interpretar e aplicar as excepções de forma restritiva (v. n.° 84, supra).
      
      98     Além disso, o respeito das regras de processo nacionais está suficientemente garantido se a instituição se certificar de que
         a divulgação dos documentos não constitui uma infracção ao direito nacional. Assim, em caso de dúvida, o OLAF deveria consultar
         o órgão jurisdicional nacional e só devia recusar o acesso se este se opusesse à divulgação dos referidos documentos (acórdão
         van der Wal, n.° 28).
      
      99     Ora, resulta claramente dos autos que essa consulta não teve lugar, o que, de resto, a Comissão admitiu na audiência ao responder
         a uma questão colocada pelo Tribunal. 
      
      100   Com efeito, a primeira decisão impugnada expõe somente a esse respeito:
      «Na medida em que inquéritos judiciais estão em curso em França e no Luxemburgo, o acesso ao processo rege‑se pelas regras
         de processos aplicáveis nesses dois países. É possível a V. Ex.a abordar as autoridades francesas e/ou luxemburguesas competentes, a fim de lhes pedir o direito de aceder ao processo que
         lhes foi enviado. Cabe‑lhes decidir quanto a isso, e o OLAF não levantará objecção à sua decisão.»
      
      101   Esta abordagem não está em conformidade com o que o Tribunal de Justiça decidiu no acórdão van der Wal (n.° 29). Segundo o
         Tribunal de Justiça, um procedimento em que a instituição consulta o órgão jurisdicional nacional em caso de dúvida evita
         que o recorrente tenha que se dirigir, em primeiro lugar, ao órgão jurisdicional competente e, a seguir, à Comissão, caso
         este entenda que o direito nacional não obsta à divulgação dos documento solicitados, mas considere que a aplicação das regras
         comunitárias pode levar a uma solução diferente. Corresponde, pois, também, às exigências de uma boa administração.
      
      102   Por consequência, há que declarar que a primeira decisão impugnada está afectada por erro na medida em que aí se declarou
         que os documentos pedidos no quadro do recurso T‑391/03 estão abrangidos pela excepção relativa à protecção dos processos
         judiciais na acepção do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      103   Todavia, tendo o OLAF também invocado outra excepção para recusar o acesso a esses documentos, há que examinar se o acesso
         podia ser recusado com fundamento no artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      –       Quanto à excepção relativa à protecção dos objectivos de actividades de inspecção, inquérito e auditoria
      104   Há que de imediato reconhecer que as partes não contestaram que todos os documentos aos quais foi pedido o acesso têm a ver,
         efectivamente, com essas actividades.
      
      105   Ora, a circunstância de um documento respeitar a uma actividade de inspecção não basta, por si só, para justificar a aplicação
         da excepção invocada. Segundo a jurisprudência, qualquer excepção ao direito de acesso aos documentos da Comissão deve ser
         interpretada e aplicada em termos estritos (acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 13 de Setembro de 2000, Denkavit
         Nederland/Comissão, T‑20/99, Colect., p. II‑3011, n.° 45). 
      
      106   A este propósito, há que recordar que, no que respeita aos documentos em causa no recurso T‑391/03, as actividades de inquérito
         do OLAF já estavam terminadas no momento da adopção da primeira decisão impugnada, em 1 de Outubro de 2003. Com efeito, o
         relatório final do inquérito no processo Eurogramme foi elaborado em Julho de 2002. Além disso, em 25 de Setembro de 2003,
         o OLAF elaborou os relatórios finais de inquérito na acepção do artigo 9.° do Regulamento n.° 1073/1999 respeitantes aos processos
         Eurocost e Datashop ‑ Planistat. Os recorrentes receberam, enquanto pessoas indiciadas nesses relatórios, uma sua cópia por
         ofício de 10 de Outubro de 2003.
      
      107   Além disso, no que respeita ao recurso T‑70/04, o inquérito do SAI terminou com o relatório final de 22 de Outubro de 2003.
      108   Assim, no caso em apreço, importa verificar se os documentos relacionados com actividades de inspecção, inquérito e auditoria
         estavam abrangidos pela excepção referida no artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001, porquanto
         as inspecções, inquéritos ou auditorias particulares tinham terminado, tendo redundado na elaboração de relatórios finais,
         embora o seguimento a dar a esses relatórios não estivesse ainda decidido.
      
      109   Segundo o Tribunal de Primeira Instância, o artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001 deve ser interpretado
         no sentido de que esta disposição, que visa proteger «os objectivos de actividades de inspecção, inquérito e auditoria», só
         é aplicável se a divulgação dos documentos em questão puder pôr em perigo a conclusão das actividades de inspecção, inquérito
         ou auditoria.
      
      110   Na verdade, resulta da jurisprudência que os diferentes actos de inquérito, ou de inspecção podem ficar abrangidos pela excepção
         relativa à protecção de actividades de inspecção, inquérito e auditoria enquanto as actividades de inquérito ou de inspecção
         prosseguem, mesmo que esteja terminado o inquérito ou a inspecção particular que deu lugar ao relatório ao qual o acesso é
         pedido (v., neste sentido, acórdão Denkavit Nederland/Comissão, já referido, n.° 48).
      
      111   Todavia, admitir que os diferentes documentos relativos a actividades de inspecção, inquérito ou auditoria estão abrangidos
         pela excepção constante do artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001 enquanto o seguimento a dar
         a esses procedimentos não estiver decidido equivale a submeter o acesso aos referidos documentos a um acontecimento aleatório,
         futuro e eventualmente longínquo, dependente da celeridade e da diligência das diferentes autoridades.
      
      112   Esta solução colide com o objectivo que consiste em garantir o acesso do público aos documentos relativos a eventuais irregularidades
         cometidas na gestão dos interesses financeiros, com a finalidade de dar aos cidadãos a possibilidade de controlar de forma
         mais efectiva a legalidade do exercício do poder público (v., neste sentido, acórdão do Tribunal de Primeira Instância de
         12 de Outubro de 2000, JT’s Corporation/Comissão, T‑123/99, Colect., p. II‑3269, n.° 50). 
      
      113   Assim, importa verificar se, no momento da adopção das decisões impugnadas, estavam ainda em curso actividades de inspecção
         e inquérito, que poderiam ter sido postas em causa pela divulgação dos documentos pedidos, e se a prossecução dessas actividades
         ocorreu num prazo razoável.
      
      114   A este respeito, há que recordar que, segundo jurisprudência constante, a legalidade do acto individual impugnado deve ser
         apreciada em função dos elementos de facto e de direito existentes na data de adopção do acto (acórdãos do Tribunal de Justiça
         de 7 de Fevereiro de 1979, França/Comissão, 15/76 e 16/76, Colect., p. 145, n.° 7, e de 17 de Maio de 2001, IECC/Comissão,
         C‑449/98 P, Colect., p. I‑3875, n.° 87). 
      
      115   Além disso, segundo jurisprudência constante, o exame que se exige para o tratamento de um pedido de acesso a documentos deve
         revestir carácter concreto. Com efeito, por um lado, a simples circunstância de um documento respeitar a um interesse protegido
         por uma excepção não basta para justificar a aplicação desta última (v., neste sentido, acórdão Denkavit Nederland/Comissão,
         já referido, n.° 45). Por outro lado, o risco de ser prejudicado um interesse protegido deve ser razoavelmente previsível
         e não puramente hipotético. Por conseguinte, o exame ao qual deve proceder a instituição a fim de aplicar uma excepção deve
         ser efectuado de forma concreta e deve resultar dos fundamentos da decisão (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de
         6 de Abril de 2000, Kuijer/Conselho, T‑188/98, Colect., p. II‑1959, n.° 38, e de 13 de Abril de 2005, Verein für Konsumenteninformation/Comissão,
         T‑2/03, Colect., p. II‑1121, a seguir «acórdão VKI », n.os 69 e 72).
      
      116   Este exame concreto deve, além disso, ser realizado para cada documento a que se refere o pedido. Com efeito, decorre do Regulamento
         n.° 1049/2001 que todas as excepções mencionadas nos n.os 1 a 3 do seu artigo 4.° são enunciadas como devendo ser aplicadas «a um documento» (acórdão VKI, n.° 70).
      
      117   Um exame concreto e individual de cada documento é também necessário uma vez que, mesmo na hipótese de ser claro que um pedido
         de acesso se refere a documentos abrangidos por uma excepção, apenas este exame pode permitir à instituição apreciar a possibilidade
         de conceder um acesso parcial ao requerente, em conformidade com o disposto no artigo 4.°, n.° 6, do Regulamento n.° 1049/2001.
         De resto e no quadro da aplicação do código de conduta, o Tribunal de Primeira Instância já rejeitou como sendo insuficiente
         uma apreciação de documentos efectuada por categorias e não com base nos elementos de informação concretos que comportavam
         estes documentos, devendo o exame que se exige a uma instituição permitir‑lhe apreciar concretamente se uma excepção invocada
         se aplica realmente ao conjunto das informações constantes dos referidos documentos (acórdãos JT’s Corporation/Comissão, já
         referido, n.° 46, e VKI, n.° 73).
      
      118   Cabe, portanto, à instituição examinar, em primeiro lugar, se o documento pedido integra o âmbito de uma das excepções previstas
         no artigo 4.° do Regulamento n.° 1049/2001, em segundo lugar, em caso de resposta afirmativa, se a necessidade de protecção
         relativa à excepção em causa é real e, em terceiro lugar, se se aplica a todo o documento.
      
      119   O Tribunal deve, portanto, examinar se as decisões impugnadas foram adoptadas em conformidade com as regras que acabam de
         ser expostas.
      
      120   No que respeita aos documentos transmitidos às autoridades francesas e luxemburguesas, há que recordar que o inquérito levado
         a cabo pelo OLAF estava terminado e não se contesta que, no momento da adopção da primeira decisão impugnada, nem as autoridades
         luxemburguesas nem as autoridades francesas tinham decidido do seguimento a dar às informações transmitidas pelo OLAF ao abrigo
         do artigo 10.° do Regulamento n.° 1073/1999.
      
      121   As informações transmitidas às autoridades nacionais destinavam‑se a fornecer‑lhes os elementos que o OLAF considerava serem
         passíveis de demonstrar diferentes irregularidades e que, em conformidade com o disposto no artigo 9.°, n.° 2, do Regulamento
         n.° 1073/1999, podiam constituir elementos de prova que as primeiras podiam aceitar.
      
      122   Permitir o acesso a esses documentos, mesmo parcial, podia comprometer a utilização efectiva desses elementos pelas autoridades
         nacionais, dado que as pessoas implicadas nas eventuais irregularidades podiam ter agido de maneira a impedir o bom desenrolar
         dos diferentes procedimentos ou inquéritos que essas autoridades podiam decidir encetar. Com efeito, os documentos transmitidos
         comportavam, nomeadamente, relatórios de auditoria de empresas, actas das audições dos funcionários do Eurostat, relatórios
         de controlo de despesas bem como relatórios de inspecção cuja divulgação podia informar as pessoas afectadas sobre os actos
         que as autoridades nacionais iam realizar.
      
      123   Além disso, no momento da adopção da primeira decisão impugnada, ou seja, em 1 de Outubro de 2003, ainda não tinha decorrido
         um prazo razoável para efeitos da decisão do seguimento a dar às informações transmitidas pelo OLAF, já que a transmissão
         às autoridades luxemburguesas só teve lugar em 4 de Julho de 2002 e a às autoridades francesas em 19 de Março de 2003.
      
      124   Conclui‑se que a Comissão não cometeu erros de direito nem erros de apreciação ao considerar que, no momento da adopção da
         primeira decisão impugnada, o acesso aos documentos transmitidos às autoridades francesas e luxemburguesas devia ser recusado
         pois a divulgação desses documentos punha em causa a protecção dos objectivos de actividades de inspecção, inquérito e auditoria.
      
      125   O mesmo se deve concluir a respeito do relatório final do SAI. No momento da adopção da segunda decisão impugnada, ou seja,
         em 19 de Dezembro de 2003, o inquérito respeitante ao Eurostat ainda não estava terminado e a Comissão ainda não tinha decidido
         das consequências do relatório final do SAI. Assim, a divulgação do referido relatório, mesmo numa versão tornada anónima,
         podia dar às pessoas em causa a possibilidade de tentar influenciar o resultado dos inquéritos, das inspecções ou das auditorias
         seguintes. 
      
      126   No tocante à comunicação do OLAF à Comissão a que se refere o comunicado de imprensa de 19 de Maio de 2003, o Tribunal pôde
         verificar que também contém informações de tal forma precisas sobre o desenrolar dos diferentes inquéritos respeitantes ao
         Eurostat que a recusa da sua divulgação, por prejudicar a protecção dos objectivos de actividades de inspecção, inquérito
         e auditoria pelas razões expostas supra, se justificava quando foi adoptada a primeira decisão impugnada.
      
      127   Quanto às outras comunicações do OLAF à Comissão, a primeira decisão impugnada expõe que «todas essas comunicações contêm
         resultados de inquérito cuja divulgação prejudicaria os processos judiciais em curso em França e no Luxemburgo».
      
      128   Resulta destas considerações vagas e gerais que o OLAF se pronunciou in abstracto sobre o risco que a divulgação dos documentos em causa podia acarretar para as medidas que a Comissão considerava necessárias
         para a protecção dos seus interesses e para os processos judiciais em curso em França e no Luxemburgo, sem demonstrar de forma
         bastante que a divulgação desses documentos prejudicaria concretamente a protecção dos objectivos de actividades de inspecção,
         inquérito e auditoria e que a excepção em causa se aplicava realmente ao conjunto das informações contidas nos referidos documentos.
      
      129   Por consequência, há que salientar não estar demonstrado, no presente caso, que as actividades de inquérito ou de inspecção
         seriam concretamente postas em causa pela divulgação das outras comunicações do OLAF à Comissão que não aquela a que se refere
         o comunicado de imprensa de 19 de Maio de 2003.
      
      130   Por outro lado, o OLAF não indicou na primeira decisão impugnada se os riscos que descrevia se aplicavam realmente ao conjunto
         das informações que se encontram nos referidos documentos. Resulta da primeira decisão impugnada que o OLAF baseou as suas
         apreciações na natureza dos documentos pedidos em vez de as basear nos elementos de informação que se encontram realmente
         nos documentos em questão. Ora, trata‑se de uma erro de direito que impõe a anulação da decisão impugnada (acórdão do Tribunal
         de Justiça de 6 de Dezembro de 2001, Conselho/Hautala, C–353/99 P, Colect., p. I‑9565, n.° 31). 
      
      131   Por consequência, não ficou suficientemente demonstrado que a excepção relativa à protecção dos objectivos de actividades
         de inspecção e de inquérito, a supô‑la aplicável no caso em apreço, se aplicava ao conjunto das comunicações do OLAF à Comissão
         que não aquela a que se refere o comunicado de imprensa de 19 de Maio de 2003.
      
      132   O Tribunal pôde verificar que pelo menos uma parte desses documentos de modo algum parecia integrar a excepção consagrada
         no artigo 4.°, n.° 2, terceiro travessão, do Regulamento n.° 1049/2001.
      
      133   Ora, não cabe ao Tribunal substituir a Comissão e indicar os documentos a que devia ter sido permitido um acesso total ou
         parcial, sendo a instituição obrigada, na execução do presente acórdão, a tomar em consideração os fundamentos que a este
         respeito nele figuram.
      
      134   As mesmas conclusões se aplicam aos anexos do relatório do SAI de 7 de Julho de 2003 cujo acesso foi recusado pela Comissão
         pelo simples motivo de o inquérito e a apreciação a que devia proceder para dele retirar as respectivas consequências ainda
         estavam em curso e de os relatórios poderem ainda ser explorados pelo OLAF no quadro dos seus próprios inquéritos.
      
      –       Quanto à existência de um interesse público superior
      135   Há que examinar ainda se existe um interesse público superior susceptível de justificar a divulgação dos documentos transmitidos
         às autoridades francesas e luxemburguesas, da comunicação do OLAF à Comissão a que se refere o comunicado de imprensa de 19
         de Maio de 2003 bem como do relatório final do SAI.
      
      136   A este propósito, deve recordar‑se que, por força do artigo 2.°, n.° 1, do Regulamento n.° 1049/2001, os beneficiários do
         direito de acesso aos documentos das instituições são «[t]odos os cidadãos da União e todas as pessoas singulares ou colectivas
         que residam ou tenham a sua sede social num Estado‑Membro». Conclui‑se que este regulamento se destina a garantir o acesso
         de todos aos documentos públicos e não apenas o acesso do requerente aos documentos que a ele se refiram.
      
      137   Por consequência, o interesse particular que um sujeito possa invocar para ter acesso a um documento que lhe diz pessoalmente
         respeito não pode ser tomado em consideração.
      
      138   O interesse geral que os recorrentes invocam reside nos direitos de defesa. É, por certo, verdade que a própria existência
         dos direitos de defesa tem interesse geral. Todavia, o facto de esses direitos aqui se manifestarem através do interesse subjectivo
         dos recorrentes em se defenderem implica que o interesse que os recorrentes invocam não é um interesse geral, mas um interesse
         privado.
      
      139   Por consequência, a Comissão não cometeu erro de direito ao considerar que os direitos de defesa que os recorrentes invocam
         como um interesse superior não constituíam um interesse público superior que justifique a divulgação dos documentos pedidos.
      
      140   De tudo o que precede conclui‑se que há que anular a primeira decisão impugnada, na medida em que aí se recusa o acesso ao
         conjunto das comunicações do OLAF à Comissão que não aquela a que se refere o comunicado de imprensa de 19 de Maio de 2003,
         bem como a segunda decisão impugnada na medida em que aí se recusa o acesso aos anexos do relatório do SAI de 7 de Julho de
         2003.
      
       Quanto às despesas
      141   Por força do disposto no artigo 87.°, n.° 3, do Regulamento de Processo, se cada parte obtiver vencimento parcial, o Tribunal
         pode determinar que as despesas sejam repartidas entre as partes ou que cada uma das partes suporte as suas próprias despesas.
         Nas circunstâncias do caso em apreço, há que decidir que a Comissão suportará um terço das despesas dos recorrentes. As partes
         suportarão o resto das suas próprias despesas.
      
      Pelos fundamentos expostos,
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Terceira Secção)
      decide:
      1)      Os pedidos de anulação da decisão de 18 de Agosto de 2003 bem como da decisão tácita de indeferimento dos pedidos dos recorrentes
            de 21 e 29 de Outubro de 2003 são julgados inadmissíveis.
      2)      É anulada a decisão do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) de 1 de Outubro de 2003, na medida em que aí se recusa
            o acesso ao conjunto das comunicações do OLAF à Comissão que não aquela a que se refere o comunicado de imprensa de 19 de
            Maio de 2003, bem como a decisão da Comissão, de 19 de Dezembro de 2003, na medida em que aí se recusa o acesso aos anexos
            do relatório do serviço de auditoria interno I de 7 de Julho de 2003.
      3)      Quanto ao mais, é negado provimento aos recursos.
      4)      A Comissão suportará um terço das despesas dos recorrentes. As partes suportarão o resto das suas próprias despesas.
      
               Jaeger
            
            
               Tiili
            
            
               Czúcz
            
         Proferido em audiência pública no Luxemburgo, em 6 de Julho de 2006.
      
               O secretário
            
             
            
                     O presidente
            
         
               E. Coulon
            
             
            
                     M. Jaeger
            
         * Língua do processo: francês.