CELEX: 62002TJ0210
Language: pt
Date: 2006-09-13 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Segunda Secção Alargada) de 13 de Septembro de 2006. # British Aggregates Association contra Comissão das Comunidades Europeias. # Auxílios de Estado - Imposto ambiental sobre os granulados no Reino Unido - Decisão da Comissão de não levantar objecções - Recurso de anulação - Admissibilidade - Pessoa a quem um acto diz individualmente respeito - Carácter selectivo - Dever de fundamentação - Apreciação diligente e imparcial. # Processo T-210/02.

Processo T‑210/02
      British Aggregates Association
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias
      «Auxílios de Estado – Imposto ambiental sobre os granulados no Reino Unido – Decisão da Comissão de não levantar objecções – Recurso de anulação – Admissibilidade – Pessoa a quem um acto diz individualmente respeito – Carácter selectivo – Dever de fundamentação – Apreciação diligente e imparcial»
      Acórdão do Tribunal de Primeira Instância (Segunda Secção alargada) de 13 de Setembro de 2006 
      Sumário do acórdão
      1.     Recurso de anulação – Pessoas singulares ou colectivas – Actos que lhes dizem directa e individualmente respeito
      (Artigos 88.°, n.° 2, CE e 230.°, quarto parágrafo, CE)
      2.     Recurso de anulação – Pessoas singulares ou colectivas – Actos que lhes dizem directa e individualmente respeito 
      (Artigos 88.°, n.° 2 e 3.°, CE e 230.°, segundo e quarto parágrafos, CE)
      3.     Auxílios concedidos pelos Estados – Conceito – Carácter selectivo da medida
      (Artigo 87.°, n.° 1, CE)
      4.     Auxílios concedidos pelos Estados – Conceito
      (Artigos 6.° CE, 87.°, n.° 1, CE e 88.°, n.° 2 e 3.°, CE)
      5.     Auxílios concedidos pelos Estados – Conceito 
      (Artigo 87.°, n.° 1, CE)
      6.     Auxílios concedidos pelos Estados – Decisão da Comissão de não levantar objecções, no termo do procedimento preliminar de
            investigação, a um imposto ecológico sectorial
      (Artigo 88.°, n.os 2 e 3, CE e 253.° CE)
      7.     Auxílios concedidos pelos Estados – Conceito – Carácter selectivo da medida
      (Artigo 87.°, n.° 1, CE e 91.° CE)
      8.     Auxílios concedidos pelos Estados – Exame pela Comissão – Fase preliminar e fase contraditória
      (Artigo 88.°, n.os 2 e 3, CE; Regulamento n.° 659/1999 do Conselho, artigos 4.°, n.° 4, e 13.°, n.° 1)
      9.     Auxílios concedidos pelos Estados – Processo administrativo – Obrigações da Comissão – Apreciação diligente e imparcial das
            denúncias
      (Artigo 88.°, n.° 3, CE)
      1.     A circunstância de uma associação de empresas ter apresentado uma denúncia relativa a um alegado auxílio de Estado na Comissão
         e manifestado o desejo de intervir no processo na qualidade de interessada, na acepção do artigo 88.°, n.° 2, CE, não é suficiente
         para lhe conferir, enquanto tal, legitimidade própria para interpor recurso de anluação da decisão de não dar início ao procedimento
         formal de investigação. Em particular, o facto de essa denúncia, juntamente com outras, ter levado a Comissão a analisar a
         medida estatal na decisão impugnada, não permite equiparar essa associação a um comerciante cuja posição seja afectada por
         essa decisão.
      
      (cf. n.° 46)
      2.     No âmbito do procedimento de fiscalização dos auxílios de Estado previsto no artigo 88.° CE, se deve distinguir, por um lado,
         a fase preliminar de investigação dos auxílios, prevista no n.° 3 desse artigo, que tem por única finalidade permitir à Comissão
         formar uma primeira opinião sobre a compatibilidade parcial ou total do auxílio em causa e, por outro, a fase de investigação
         prevista no n.° 2 desse mesmo artigo. Só no âmbito desta última, que se destina a permitir à Comissão ter uma informação completa
         sobre todos os elementos do processo, é que o Tratado prevê a obrigação de a Comissão notificar os interessados para apresentarem
         as suas observações.
      
      Sempre que, sem ter dado início ao procedimento formal de investigação previsto no artigo 88.°, n.° 2, CE, a Comissão concluir,
         numa decisão tomada com base no n.° 3 desse mesmo artigo, que um auxílio é compatível com o mercado comum, as pessoas a quem
         as garantias processuais previstas no n.° 2 desse artigo aproveitam só podem prevalecer‑se delas se tiverem a possibilidade
         de contestar essa decisão no tribunal comunitário. Por essas razões, o juiz comunitário declara admissível um recurso com
         vista à anulação de uma decisão baseada no artigo 88.°, n.° 3, CE, interposto por um interessado na acepção do artigo 88.°,
         n.° 2, CE, sempre que o recorrente pretenda, através da sua interposição, salvaguardar os direitos processuais que extrai
         desta última disposição. Ora, os interessados na acepção do artigo 88.°, n.° 2, CE, que podem, assim, nos termos do artigo
         230.°, quarto parágrafo, CE, interpor recursos de anulação, são as pessoas, empresas ou associações eventualmente afectadas
         nos seus interesses pela concessão de um auxílio, isto é, designadamente, as empresas concorrentes e as organizações profissionais.
      
      Em contrapartida, se o recorrente puser em causa o mérito da decisão de apreciação do auxílio enquanto tal, o simples facto
         de poder ser considerado interessado na acepção do artigo 88.°, n.° 2, CE não basta para a admissibilidade do recurso. Deve,
         então, demonstrar que tem um estatuto especial, a saber, qua a decisão o afecta devido a certas qualidades que lhe são próprias
         ou a uma situação de facto que o caracteriza em relação a qualquer outra pessoa e, assim, o individualiza de maneira análoga
         à do destinatário dessa decisão. É esse o caso, nomeadamente, quando a posição do recorrente no mercado seja substancialmente
         afectada pelo auxílio objecto da decisão controvertida.
      
      Por conseguinte, é admissível o recurso de uma associação de empresas que ponha em causa o mérito de uma decisão da Comissão
         de não levantar objecções a uma medida estatal, quando esta medida possa afectar sunstancialmente o posição de pelo menos
         um dos seus membros no mercado. Neste caso, a associação tem legitimidade para invocar qualquer dos fundamentos de ilegalidade
         enumerados no artigo 230.°, segundo parágrafo, CE, e não apenas o fundamento relativo à violação da obrigação de dar início
         ao procedimento formal de investigação.
      
      (cf. n.os 49‑54, 68)
      
      3.     Para constituir um auxílio de Estado na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE, uma medida tem que, nomeadamente, ser susceptível
         de conferir uma vantagem selectiva em benefício exclusivo de certas empresas ou certos sectores de actividade. Com efeito,
         esse artigo é relativo aos auxílios que falseiem ou ameacem falsear a concorrência «favorecendo certas empresas ou certas
         produções». A este respeito, esta disposição não estabelece qualquer distinção consoante as causas ou os objectivos de uma
         medida que conceda benefícios fiscais a uma empresa normalmente tributada, definindo‑a em função dos respectivos efeitos.
         Daí decorre que nem o carácter fiscal nem o objectivo económico ou social ou os objectivos de protecção do ambiente ou da
         segurança das pessoas, eventualmente atingidas por essa medida, bastam para a subtrair a priori à aplicação da disposição cima mencionada.
      
      Na apreciação do carácter selectivo de uma medida, o juiz comunitário deve verificar se assistiu razão à Comissão ao considerar
         que a diferenciação entre empresas, em matéria de benefícios ou de tributação, instituída pela medida em causa, se inclui
         na natureza ou na estrutura do sistema geral aplicável. Se essa diferenciação tiver fundamento em objectivos diferentes dos
         prosseguidos pelo sistema geral, em princípio, considera‑se que a medida em causa preenche o requisito de selectividade previsto
         no artigo 87.°, n.° 1, CE.
      
      (cf. n.os 105‑107)
      
      4.     Um imposto ecológico é uma medida fiscal autónoma caracterizada pela sua finalidade ambiental e a sua base tributável específica.
         Prevê a tributação de determinados bens ou serviços para incluir os custos ambientais no respectivo preço e/ou tornar os produtos
         reciclados mais competitivos e orientar os produtores e os consumidores para actividades mais respeitadoras do ambiente. Importa
         salientar, a este respeito, que os Estados‑Membros, que na fase actual do direito comunitário mantêm a sua competência em
         matéria de política ambiental pelo facto de não existir coordenação nesse domínio, podem criar impostos ecológicos sectoriais,
         destinados à prossecução de determinados objectivos ambientais. Os Estados‑Membros são nomeadamente livres, na ponderação
         dos diversos interesses em causa, de definir as suas prioridades em matéria de protecção do ambiente e de determinar, consequentemente,
         os bens ou serviços que decidem sujeitar a um imposto ecológico.
      
      Por conseguinte, em princípio, o mero facto de um imposto ecológico constituir uma medida pontual, que tem por objecto determinados
         bens ou serviços específicos e não ser susceptível de recondução a um sistema geral de tributação aplicável a todas as actividades
         semelhantes com um impacto comparável no ambiente, não legitima a conclusão de que as actividades semelhantes, não sujeitas
         a esse imposto ecológico, beneficiam de uma vantagem selectiva. Em particular, a não sujeição dessas actividades semelhantes
         a um imposto ecológico aplicado a certos produtos específicos não pode ser equiparada a uma medida de desagravamento fiscal
         nesses sectores de actividade, idêntica, nomeadamente, às que estavam em causa. Com efeito, ao contrário de um imposto ecológico,
         que se caracteriza precisamente pelo seu âmbito de aplicação e pela sua finalidade próprios e, por essa razão, não poder ser,
         em princípio, reconduzido a nenhum sistema geral.
      
      Neste quadro jurídico, como os impostos ecológicos constituem por natureza medidas específicas adoptadas pelos Estados‑Membros
         no âmbito das suas políticas ambientais, domínio em que se mantêm competentes na falta de medidas de harmonização, cabe à
         Comissão, quando analisa um imposto ecológico à luz das regras comunitárias relativas aos auxílios de Estado, tomar em consideração
         as exigências ligadas à protecção do ambiente previstas no artigo 6.° CE. Com efeito, o referido artigo dispõe que essas exigências
         devem ser integradas na definição e execução, nomeadamente, de um regime que garanta que a concorrência não é falseada no
         mercado interno.
      
      Por outro lado, quando fiscaliza a legalidade de uma decisão da Comissão de não dar início ao procedimento formal de investigação
         previsto no artigo 88.°, n.° 2, CE, o Tribunal de Primeira Instância, tendo em conta o amplo poder de apreciação da Comissão
         na aplicação do artigo 88.°, n.° 3, CE, deve limitar‑se a verificar se foram respeitadas as normas processuais e de fundamentação,
         a exactidão material dos factos considerados pertinentes para tomar a opção contestada, a inexistência de erros manifestos
         na apreciação desses factos e a inexistência de desvios de poder.
      
      (cf. n.os 114‑118)
      
      5.     No quadro da sua apreciação à luz das regras comunitárias relativas aos auxílio de Estado, um imposto ecológico instituído
         por um Estado‑Membro, que incide, em princípio, sobre a comercialização dos granulados virgens – isto é, dos materiais granulosos
         de primeira extracção utilizados na construção civil e nas obras públicas – e destinado a maximizar o recurso a granulados
         reciclados ou a outros materiais de substituição dos granulados virgens, a promover uma utilização racional dos granulados
         virgens e a garantir a internalização dos custos ambientais da extracção dos granulados visados pelo imposto, de acordo com
         o princípio do poluidor‑pagador, não contém elementos de auxílio de Estado pelo facto de os materiais comercializados para
         finalidades diferentes da utilização como granulados não pertencerem ao sector sujeito ao referido imposto. Com efeito, o
         facto de esses materiais serem isentos não constitui, portanto, nenhuma derrogação em relação ao sistema do imposto ecológico
         em causa. Em particular, a decisão de criar um imposto ecológico apenas no sector dos granulados – e não, de modo geral, em
         todos os sectores de exploração das pedreiras e das minas com o mesmo impacto ambiental que a extracção dos granulados – é
         matéria da competência do Estado‑Membro em causa, que estabelece as suas prioridades em termos de política económica, fiscal
         e ambiental. Essa escolha, ainda que motivada pela preocupação de preservar a competitividade internacional de determinados
         sectores, não permite pôr em causa a coerência do imposto ecológico com os objectivos ambientais prosseguidos.
      
      Além disso, no âmbito da sua política ambiental, o Estado‑Membro em causa pode determinar livremente os materiais destinados
         a granulados que considere oportuno tributar, e excluir do âmbito de aplicação do imposto ecológico determinados materiais,
         mesmo quando utilizados como granulados a seguir à sua extracção, uma vez que, tendo em conta os objectivos ambientais prosseguidos,
         a isenção desses materiais permite a sua utilização como substitutos dos granulados virgens visados pelo imposto ecológico
         e pode, desse modo, contribuir para uma racionalização da extracção e da utilização destes últimos.
      
      Por último, a sujeição ao imposto ecológico de certos materiais não substituíveis por sucedâneos pode razoavelmente responder
         ao objectivo do imposto ecológico que consiste na internalização dos custos ambientais ligados à produção dos granulados virgens,
         quando o seu montante corresponde, aproximadamente, aos custos ambientais médios ligados à extracção dos granulados.
      
      A tributação dos produtos derivados da extracção de materiais não substituíveis pode ser igualmente justificada pelo princípio
         do poluidor‑pagador e pode igualmente justificar‑se pelo objectivo do imposto ecológico sectorial de incentivar a extracção
         e o tratamento mais racionais dos granulados, de modo a reduzir a proporção de granulados de qualidade inferior.
      
      (cf. n.os 124, 127, 128, 130, 135‑137, 139)
      
      6.     A exigência de fundamentação de uma decisão tomada em matéria de auxílios do Estado não pode ser determinada unicamente em
         função do interesse do Estado‑Membro, ao qual a decisão é dirigida, em ser informado. Em particular, incumbe à Comissão, quando
         aprova uma medida no termo da fase preliminar de investigação prevista no artigo 88.°, n.° 3, CE, expor de forma sumária as
         principais razões dessa decisão de aprovação, de modo a permitir que terceiros interessados tomem conhecimento da sua justificação
         e decidam se é oportuno interpor recurso da referida decisão para se prevalecerem dos direitos processuais que lhe são conferidos
         pelo artigo 88.°, n.° 2, CE.
      
      Quando se trate, mais especificamente, de uma decisão da Comissão de encerrar o processo preliminar de investigação que conclui
         pela inexistência de um auxílio de Estado denunciado, a Comissão é sempre obrigada a expor de forma suficiente ao denunciante
         as razões pelas quais os elementos de facto e de direito invocados na denúncia não bastaram para demonstrar a existência de
         um auxílio de Estado. Todavia, a Comissão não é obrigada a tomar posição sobre elementos manifestamente despropositados, desprovidos
         de significado ou claramente secundários.
      
      A decisão da Comissão de não levantar objecções a um imposto ecológico, no termo da fase preliminar de investigação, que expõe
         sucintamente as considerações essenciais em que se baseou não pode ser considerada viciada de falta de fundamentação relativamente
         a uma associação denunciante que agrupa operadores económicos avisados, tendo em conta, a liberdade de os Estados‑Membros
         definirem a sua política fiscal e ambiental recorrendo, como no caso em apreço, à criação de um imposto ecológico.
      
      (cf. n.os 142, 143, 146)
      
      7.     Uma vez que um imposto ecológico sobre a comercialização dos granulados, que incide sobre os produtos, e não sobre os rendimentos
         dos produtores, é um imposto indirecto, regulado enquanto tal pelo princípio da tributação no país de destino, em conformidade
         com o artigo 91.° CE, a isenção de que beneficiam os exportadores, justifica‑se pela lógica interna do sistema fiscal, pelo
         que não se pode considerar que confere uma vantagem selectiva aos exportadores e não é abrangida pelo âmbito de aplicação
         do artigo 87.°, n.° 1, CE.
      
      Ao conceder essa isenção, o Estado‑Membro em causa utiliza a faculdade de que dispõe de privilegiar as considerações ligadas
         à estrutura do regime fiscal considerado, em relação aos objectivos ambientais prosseguidos, sendo irrelevante que outros
         Estados‑Membros tenham efectuado escolhas diferentes.
      
      (cf. n.os 151‑153)
      
      8.     A obrigação de a Comissão analisar previamente um eventual auxílio ilegal juntamente com o Estado‑Membro em causa, solicitando‑lhe,
         sendo caso disso, informações, não dispensa essa instituição da sua obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação,
         nomeadamente, se, à luz das informações obtidas, se vir confrontada com sérias dificuldades de apreciação da medida considerada.
         Com efeito, essa obrigação resulta directamente do artigo 88.°, n.° 3, CE, tal como foi interpretado pela jurisprudência,
         o que é, aliás, expressamente confirmado pelas disposições conjugadas do artigo 4.°, n.° 4, e do artigo 13.°, n.° 1, do Regulamento
         n.° 659/1999, que estabelece as regras de execução do artigo [88.°], quando a Comissão conclui, após investigação preliminar,
         que a medida ilegal suscita dúvidas quanto à sua compatibilidade.
      
      Com efeito, o procedimento do artigo 88.°, n.° 2, CE reveste‑se de carácter indispensável sempre que a Comissão se depare
         com dificuldades sérias para apreciar se um auxílio é compatível com o mercado comum. Portanto, a Comissão só se pode limitar
         à fase preliminar do artigo 88.°, n.° 3, CE e adoptar uma decisão favorável a uma medida estatal notificada se tiver a convicção,
         no termo de um primeiro exame, de que essa medida não pode ser qualificada de auxílio na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE,
         ou de que, embora constituindo um auxílio, é compatível com o mercado comum. Em contrapartida, se esse primeiro exame tiver
         levado a Comissão à convicção oposta ou não lhe tiver permitido ultrapassar todas as dificuldades suscitadas pela apreciação
         da medida em causa, a instituição tem o dever de se rodear de todos os pareceres necessários e dar início, para o efeito,
         ao procedimento do artigo 88.°, n.° 2, CE.
      
      A circunstância de a Comissão ter levado em conta o interesse do Estado‑Membro em causa na obtenção rápida de uma decisão
         não permite por si só presumir que essa instituição se baseou em critérios diferentes do das sérias dificuldades de apreciação,
         para decidir não dar início ao procedimento formal de investigação.
      
      (cf. n.os 165, 166, 168)
      
      9.     Quando terceiros interessados tenham submetido à Comissão denúncias relativas a medidas estatais que não foram objecto de
         notificação nos termos do artigo 88.°, n.° 3, CE, esta instituição é obrigada, no quadro da fase preliminar prevista por esta
         disposição, a proceder a um exame diligente e imparcial dessas denúncias, no interesse de uma correcta aplicação das regras
         fundamentais do Tratado relativas aos auxílios estatais.
      
      Na inexistência de qualquer outro indício, a mera circunstância de a decisão impugnada ter sido adoptada rapidamente não permite
         concluir pela insuficiência da instrução.
      
      (cf. n.os 177, 178)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Segunda Secção alargada)
      13 de Setembro de 2006 (*)
      
      «Auxílios de Estado – Imposto ambiental sobre os granulados no Reino Unido – Decisão da Comissão de não levantar objecções – Recurso de anulação – Admissibilidade – Pessoa a quem um acto diz individualmente respeito – Carácter selectivo – Dever de fundamentação – Apreciação diligente e imparcial»
      No processo T‑210/02,
      British Aggregates Association, com sede em Lanark (Reino Unido), representada por C. Pouncey, solicitor, e L. Van Den Hende, advogado,
      
      recorrente,
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias, representada por J. Flett e S. Meany, na qualidade de agentes,
      
      recorrida,
      apoiada por
      Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte, representado inicialmente por P. Ormond, e em seguida por T. Harris e R. Caudwell, na qualidade de agentes, assistidos inicialmente
         por J. Stratford e M. Hall, barristers, e em seguida por M. Hall,
      
      interveniente,
      que tem por objecto um pedido de anulação parcial da Decisão da Comissão C (2002) 1478 final, de 24 de Abril de 2002, relativa
         ao auxílio de Estado N 863/01 – Reino Unido/Impostos sobre os granulados,
      
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIADAS COMUNIDADES EUROPEIAS (Segunda Secção alargada),
      
      composto por: J. Pirrung, presidente, A. W. H. Meij, N. J. Forwood, I. Pelikánová e S. Papasavvas, juízes,
      secretário: J. Plingers, administrador,
      vistos os autos e após a audiência de 13 de Dezembro de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
       Factos na origem do litígio
      1       A British Aggregates Association é uma associação que representa pequenas empresas independentes que exploram pedreiras no
         Reino Unido. Tem 55 membros que exploram mais de 100 pedreiras.
      
      2       Os granulados são materiais granulosos, quimicamente inertes, usados no sector da construção civil e das obras públicas. Podem
         ser utilizados enquanto tais, por exemplo, como entulho ou balastro, ou misturados com ligantes como o cimento (o que permite
         obter betão) ou o betume. Determinados materiais naturalmente granulosos, como a areia e a gravilha, podem obter‑se por peneiração.
         Outros materiais, como a rocha dura, têm que ser triturados antes da peneiração. Os granulados utilizados para diversas finalidades
         devem reunir as especificações correspondentes e as propriedades físicas do material de origem determinam se ele é adequado
         para a utilização pretendida. Assim, as especificações para entulho são menos exigentes do que as especificações para subcamadas
         das calçadas, que por sua vez são menos exigentes dos que as especificações para superfícies de uso intensivo como as camadas
         de desgaste das calçadas ou os balastros das vias férreas. Uma maior variedade de materiais pode ser utilizada como granulados
         para finalidades em que as exigências são mínimas, enquanto os materiais sujeitos a maiores exigências são menos numerosos.
      
       Finance Act 2001
      3       As sections 16 a 49 da segunda parte do Finance Act 2001 (Lei do Orçamento de Estado para o ano de 2001, a seguir «lei») e
         os seus anexos 4 a 10 criam um Aggregates Levy (imposto sobre os granulados, a seguir «AGL» ou «imposto») no Reino Unido.
      
      4       As disposições que prevêem a aplicação do AGL entraram em vigor em 1 de Abril de 2002, nos termos do regulamento de execução
         da lei.
      
      5       A lei foi alterada pelas sections 129 a 133 e pelo anexo 38 do Finance Act 2002 (Lei do Orçamento de Estado para o ano de
         2002). As disposições assim alteradas prevêem isenções para os resíduos (spoils) resultantes da extracção de certos minerais, designadamente, a ardósia, o xisto, o ball clay e o caulino. Por outro lado, concedem um período transitório para a aplicação do imposto na Irlanda do Norte.
      
      6       O AGL é aplicado à razão de 1,60 libras esterlinas (GBP) por tonelada de granulados objecto de uma exploração comercial (section
         16(4) da lei).
      
      7       A section 16(2) da lei, na versão alterada, dispõe que o AGL é devido quando granulados sujeitos ao imposto sejam objecto
         de uma exploração comercial no Reino Unido a partir da data de entrada em vigor da lei. Assim, a lei tanto é aplicável aos
         granulados importados como aos extraídos no Reino Unido.
      
      8       A section 13(2)(a) do regulamento de execução concede ao explorador um desagravamento fiscal quando os granulados sujeitos
         a impostos forem exportados ou transportados para fora do Reino Unido sem receberem qualquer outro tratamento.
      
      9       A section 17(1) da lei, na versão alterada, dispõe:
      «Para efeitos da presente secção, ‘granulados’ designa (sem prejuízo do disposto na section 18 infra) a rocha, a gravilha ou a areia, bem como todos os materiais provisoriamente nelas incorporados ou com elas naturalmente
         misturados.»
      
      10     A section 17(2) da lei dispõe que um granulado não é objecto de tributação em quatro casos: se estiver expressamente isento;
         se tiver sido previamente utilizado para finalidades de construção; se já tiver sido sujeito a um imposto sobre os granulados
         ou se, à data da entrada em vigor da lei, não se encontrar no seu local de origem.
      
      11     A section 17(3) e (4) da lei, na versão alterada, prevê determinados casos de isenção do imposto.
      12     Por outro lado, a section 18(1), (2) e (3) da lei, na versão alterada, designa os processos isentos de imposto e os materiais
         abrangidos por essa isenção.
      
       Processo administrativo e contencioso no tribunal nacional
      13     Por carta de 24 de Setembro de 2001, foi apresentada uma denúncia na Comissão (a seguir «primeira denúncia») por duas empresas
         sem nenhuma ligação com a recorrente, que solicitaram que a sua identidade não fosse revelada ao Estado‑Membro em causa, nos
         termos do artigo 6.°, n.° 2, do Regulamento (CE) n.° 659/1999 do Conselho, de 22 de Março de 1999, que estabelece as regras
         de execução do artigo [88.°] do Tratado CE (JO L 83, p. 1). As denunciantes consideravam, no essencial, que a exclusão de
         certos materiais do âmbito de aplicação do AGL, a isenção das exportações e as derrogações relativas à Irlanda do Norte constituíam
         auxílios de Estado.
      
      14     Por ofício de 20 de Dezembro de 2001, o Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte notificou a Comissão do regime de
         auxílio de Estado intitulado «Introdução faseada do imposto sobre os granulados na Irlanda do Norte».
      
      15     Por ofício de 6 de Fevereiro de 2002, a Comissão comunicou um resumo da primeira denúncia a esse Estado‑Membro e convidou‑o,
         por um lado, a apresentar as suas observações sobre essa denúncia e, por outro, a prestar informações complementares sobre
         o AGL, o que esse Estado‑Membro fez por ofício de 19 de Fevereiro de 2002.
      
      16     Em 11 de Fevereiro de 2002, a recorrente interpôs recurso contra o AGL na High Court of Justice (England & Wales), Queen’s
         Bench Division (Reino Unido). Invocava, nomeadamente, a violação das normas comunitárias em matéria de auxílios de Estado.
         Por decisão de 19 de Abril de 2002, a High Court of Justice negou provimento ao recurso, tendo autorizado a recorrente a interpor
         recurso para a Court of Appeal (England & Wales) (Reino Unido). Uma vez que a recorrente interpôs efectivamente recurso, a
         Court of Appeal ordenou a suspensão da instância, tendo em conta a interposição do presente recurso no Tribunal de Primeira
         Instância.
      
      17     Entretanto, por carta de 15 de Abril de 2002, a recorrente tinha apresentado uma denúncia contra o AGL na Comissão (a seguir
         «denúncia da recorrente»). Alegava, no essencial, que a exclusão de certos materiais do âmbito de aplicação do AGL e a isenção
         das exportações constituíam auxílios de Estado. Quanto às derrogações relativas à Irlanda do Norte, notificadas pelas autoridades
         do Reino Unido, seriam incompatíveis com o mercado comum.
      
       Decisão impugnada
      18     Em 24 de Abril de 2002, a Comissão adoptou a decisão de não levantar objecções ao AGL (a seguir «decisão impugnada»).
      19     Em 2 de Maio de 2002, a decisão impugnada foi comunicada à recorrente pelas autoridades do Reino Unido. Foi‑lhe formalmente
         notificada pela Comissão por ofício de 27 de Junho de 2002.
      
      20     Na sua decisão (considerando 43), a Comissão refere que o imposto não contém elementos de auxílio de Estado, na acepção do
         artigo 87.°, n.° 1, CE, na medida em que o seu âmbito de aplicação se justifica pela lógica e pela natureza do regime fiscal.
         Por outro lado, considera que a isenção concedida à Irlanda do Norte, que lhe foi notificada, é compatível com o mercado comum.
      
      21     Na descrição do âmbito de aplicação do AGL, a Comissão salienta, no essencial, que esse imposto será cobrado sobre os granulados
         virgens, «definidos como granulados produzidos à base de resíduos naturais de minerais que foram objecto de uma primeira extracção»,
         e compostos «de fragmentos de rochas, de areias e de gravilhas que podem ser utilizados em estado bruto ou após tratamento
         mecânico como a trituração, a lavagem e a calibragem» (considerandos 8 e 9). Quanto aos materiais excluídos e aos objectivos
         prosseguidos, refere nos considerandos 11 a 13 da decisão impugnada:
      
      «O AGL não será cobrado sobre materiais que sejam subprodutos ou resíduos de outros processos. Segundo as autoridades britânicas,
         entre esses materiais encontram‑se os resíduos de xisto e de caulino, os estéreis, as cinzas, a escória retirada dos altos‑fornos
         e os resíduos de vidro e de borracha. Do mesmo modo, o imposto também não será cobrado sobre os granulados reciclados, categoria
         em que se incluem as rochas, areias e gravilhas que tenham sido objecto de pelo menos uma primeira utilização (geralmente
         no sector da construção civil e das obras públicas).
      
      Segundo as autoridades britânicas, a exclusão desses materiais do âmbito de aplicação do AGL destina‑se a incentivar a sua
         utilização como materiais de construção e a reduzir a extracção excessiva de granulados virgens, incentivando assim uma gestão
         racional dos recursos.
      
      As projecções iniciais das autoridades britânicas contam com a possibilidade de o AGL permitir reduzir o volume da procura
         de granulados virgens em 20 milhões de toneladas por ano em média, sendo a procura anual no Reino Unido da ordem dos 230 a
         250 milhões de toneladas.»
      
      22     No que diz respeito à apreciação relativa ao âmbito de aplicação do AGL, a decisão impugnada enuncia nos considerandos 29
         e 31:
      
      «A Comissão observa que o AGL só incidirá sobre a exploração comercial de rochas, areias e gravilhas utilizadas como granulados.
         Não incidirá sobre esses materiais se forem utilizados para outros fins. O AGL só será cobrado sobre os granulados virgens.
         Não será cobrado sobre granulados extraídos como subprodutos ou resíduos de outros processos (granulados secundários), nem
         sobre os granulados reciclados. Consequentemente, a Comissão considera que o AGL só diz respeito a determinados sectores de
         actividade e a determinadas empresas. Por conseguinte, observa que há que apreciar se o âmbito de aplicação do AGL se justifica
         pela lógica e pela estrutura do sistema fiscal.
      
      […] [N]o âmbito do exercício da liberdade de determinar o seu regime fiscal nacional, o Reino Unido concebeu o AGL de modo
         a maximizar o recurso a granulados reciclados ou a outros produtos de substituição relativamente aos granulados virgens e
         a promover uma utilização racional dos granulados virgens, recurso natural não renovável. As agressões ambientais representadas
         pela extracção de granulados que o Reino Unido pretende limitar através do AGL incluem a poluição sonora, as poeiras, as agressões
         à biodiversidade e as degradações paisagísticas.»
      
      23     A Comissão conclui daí, no considerando 32, que «o AGL é um imposto específico, cujo âmbito de aplicação é muito restrito,
         definido pelo Estado‑Membro em função das características próprias do sector de actividade em causa» e que «[a] estrutura
         e o alcance do imposto reflectem a nítida distinção entre a extracção de granulados virgens, que tem consequências indesejáveis
         para o ambiente, e a produção de granulados secundários ou reciclados, que representa uma contribuição importante para o tratamento
         das rochas, gravilhas e areias resultantes de escavações, de outros trabalhos ou de tratamentos efectuados legalmente com
         objectivos diversos».
      
      24     Relativamente à isenção dos granulados exportados sem terem sofrido qualquer transformação no território do Reino Unido, a
         decisão impugnada enuncia, no considerando 33:
      
      «[…] essa solução justifica‑se pelo facto de os granulados poderem ser isentos no Reino Unido se forem utilizados em processos
         de fabrico isentos (por exemplo, o fabrico do vidro, de plásticos, de papel, de fertilizantes e de pesticidas). Uma vez que
         as autoridades britânicas não podem fiscalizar a utilização dos granulados fora do seu território, a isenção das exportações
         impõe‑se para efeitos de segurança jurídica dos exportadores de granulados e para evitar um tratamento iníquo das exportações
         de granulados que de outro modo poderiam beneficiar de uma isenção no interior do Reino Unido».
      
      25     A Comissão conclui, no considerando 34:
      «[F]az parte da natureza e da estrutura geral desse imposto que o mesmo não seja aplicável aos granulados secundários nem
         aos granulados reciclados. A aplicação de um imposto sobre a extracção de granulados virgens contribuirá para a diminuição
         da extracção de granulados primários, da utilização de recursos não renováveis e das consequências danosas para o ambiente.
         A Comissão é, por conseguinte, de opinião que as vantagens que podem resultar para certas empresas da definição do âmbito
         de aplicação do AGL se justificam pela natureza e pela estrutura geral do sistema fiscal.»
      
       Tramitação processual
      26     Por petição apresentada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 12 de Julho de 2002, a recorrente interpôs o presente
         recurso.
      
      27     Por requerimento separado apresentado na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância no mesmo dia, a recorrente pediu que
         o processo fosse julgado seguindo a tramitação acelerada prevista no artigo 76.°‑A do Regulamento de Processo do Tribunal
         de Primeira Instância. O Tribunal indeferiu esse pedido em 30 de Julho de 2002. 
      
      28     Por requerimento apresentado na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 29 de Outubro de 2002, as autoridades do Reino
         Unido pediram que fosse admitida a sua intervenção no presente processo em apoio da recorrida. Por despacho de 28 de Novembro
         de 2002, o presidente da Segunda Secção do Tribunal de Primeira Instância admitiu essa intervenção. O interveniente apresentou
         o seu articulado e as outras partes apresentaram as suas observações sobre esse articulado nos prazos fixados.
      
      29     Com base no relatório do juiz‑relator, o Tribunal de Primeira Instância (Segunda Secção alargada) decidiu iniciar a fase oral
         do processo sem instrução. As partes responderam às perguntas escritas do Tribunal de Primeira Instância e apresentaram os
         documentos solicitados nos prazos fixados.
      
      30     Foram ouvidas as alegações das partes e as suas respostas às questões do Tribunal de Primeira Instância na audiência de 13
         de Dezembro de 2005.
      
       Pedidos das partes
      31     A recorrente conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      –       anular a decisão impugnada, excepto na parte em que examina a isenção concedida à Irlanda do Norte;
      –       condenar a Comissão nas despesas.
      32     A Comissão e o interveniente concluem pedindo que o Tribunal se digne:
      –       julgar o recurso inadmissível ou negar‑lhe provimento;
      –       condenar a recorrente nas despesas.
       Quanto à admissibilidade
       Argumentos das partes
      33     Sem ter arguido formalmente uma questão prévia de admissibilidade, a Comissão contesta a admissibilidade do recurso. Alega
         que a decisão impugnada não diz individualmente respeito à recorrente, na acepção do artigo 230.°, quarto parágrafo, CE.
      
      34     A Comissão alega que uma decisão que, como a decisão impugnada, aprova um regime de auxílios constitui um acto normativo de
         alcance geral. Segundo o critério clássico da pessoa a quem o acto diz individualmente respeito (acórdão do Tribunal de Justiça
         de 25 de Julho de 2002, Unión de Pequeños Agricultores/Conselho, C‑50/00 P, Colect., p. I‑6677), a decisão de não levantar
         objecções no termo do procedimento preliminar de investigação previsto no artigo 88.°, n.° 3, CE não diz, assim, individualmente
         respeito à recorrente.
      
      35     Em particular, a recorrente não demonstrou que a decisão impugnada diga individualmente respeito a, pelo menos, um dos seus
         membros.
      
      36     Na contestação, a Comissão considera que, quando decide, como no caso em apreço, não dar início ao procedimento formal de
         investigação, há que demonstrar – para provar a existência de uma ligação individual – que a situação concorrencial de um
         membro da recorrente é afectada pelo auxílio em causa. Baseia‑se nos acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 5 de Junho
         de 1996, Kahn Scheepvaart/Comissão (T‑398/94, Colect., p. II‑477, n.os 43 e 50); de 16 de Setembro de 1998, Waterleiding Maatschappij/Comissão (T‑188/95, Colect., p. II‑3713, n.os 60 a 65); e de 21 de Março de 2001, Hamburger Hafen‑ und Lagerhaus e o./Comissão (T‑69/96, Colect., p. II‑1037, n.° 41).
      
      37     Na tréplica, a Comissão considera definitivamente que o critério aplicável para efeitos da apreciação da ligação individual
         é a posição concorrencial do recorrente ser substancialmente afectada, tanto no caso de a decisão da Comissão ser de não oposição
         como no de se tratar de uma decisão final adoptada no termo do procedimento formal de investigação (acórdão do Tribunal de
         Justiça de 28 de Janeiro de 1986, COFAZ e o./Comissão, 169/84, Colect., p. 391).
      
      38     A Comissão alega, a este respeito, que nos seus acórdãos Waterleiding Maatschappij/Comissão, já referido, e de 5 de Dezembro
         de 2002, Aktionsgemeinschaft Recht und Eigentum/Comissão (T‑114/00, Colect., p. II‑5121), o Tribunal de Primeira Instância
         cometeu um erro ao considerar que os acórdãos do Tribunal de Justiça de 19 de Maio de 1993, Cook/Comissão (C‑198/91, Colect.,
         p. I‑2487), e de 15 de Junho de 1993, Matra/Comissão (C‑225/91, Colect., p. I‑3203), consagraram um duplo critério, consoante
         a decisão tivesse sido adoptada no termo do procedimento preliminar de investigação ou no termo do procedimento formal de
         investigação. Convidada, na audiência, a tomar posição sobre o alcance do acórdão do Tribunal de Justiça de 13 de Dezembro
         de 2005, Comissão/Aktionsgemeinschaft Recht und Eigentum (C‑78/03 P, Colect., p. I‑10737), a Comissão considerou que, à luz
         das conclusões do advogado‑geral F. G. Jacobs, esse acórdão confirmava o critério de a posição concorrencial do recorrente
         ser substancialmente afectada pelo regime de auxílios em causa.
      
      39     No caso em apreço, a recorrente não prestou informações precisas sobre nenhum dos seus membros, na petição, de modo que não
         é possível demonstrar que, pelo menos, um deles tem legitimidade para recorrer.
      
      40     A Comissão acrescenta que os novos factos relativos a quatro membros da recorrente, que apenas foram alegados na fase da réplica,
         são inadmissíveis.
      
      41     De qualquer modo, esses novos elementos de facto não permitem considerar que a situação concorrencial das empresas em causa
         é substancialmente afectada pela decisão impugnada. A Comissão alega, a este respeito, que os números indicados pela recorrente
         mostram que a parte mais importante da actividade dos dois membros da recorrente, a Torrington Stone Ltd e a Cloburn Quarry
         Co. Ltd, não está sujeita ao imposto. Além disso, não basta que uma empresa seja obrigada a colocar uma parte dos seus materiais
         secundários em refugo como resíduos.
      
      42     Por último, a Comissão alega que, mesmo que o Tribunal de Primeira Instância concluísse que a recorrente tem legitimidade,
         tendo em conta o facto de a decisão impugnada ter sido adoptada no termo do procedimento preliminar de investigação, o único
         fundamento de anulação admissível seria o relativo à não abertura do procedimento formal de investigação. Com efeito, poder‑se‑ia
         remediar esse tipo de irregularidade processual dando início ao procedimento formal. No entanto, a recorrente não teria legitimidade
         para recorrer da decisão final.
      
      43     A recorrente alega que a decisão impugnada lhe diz directa e individualmente respeito, tendo em conta tanto a legitimidade
         dos seus membros como o facto de ela ser denunciante. Com efeito, um dos principais objectivos do AGL – que se destina, nomeadamente,
         a incentivar a utilização de granulados reciclados e outros substitutos dos materiais sujeitos ao imposto – é afectar a estrutura
         do mercado. Esse imposto tem, assim, um impacto negativo na posição concorrencial de todos os membros da recorrente, que produzem
         todos materiais sujeitos ao AGL. Na réplica, para ilustrar esse facto, a recorrente expôs a situação concorrencial de vários
         deles.
      
      44     A recorrente acrescenta que a distinção feita pela Comissão quanto à admissibilidade dos vários fundamentos é artificial.
         Com efeito, segundo a recorrente, se um recorrente demonstrar que a Comissão cometeu um erro manifesto de apreciação, isso
         implica necessariamente que esta se deparou com dificuldades que impunham a abertura do procedimento formal de investigação.
      
       Apreciação do Tribunal
      45     De acordo com a jurisprudência, os particulares que não sejam destinatários de uma decisão só podem afirmar que esta lhes
         diz individualmente respeito se os afectar devido a certas qualidades que lhes são próprias ou a uma situação de facto que
         os caracteriza em relação a qualquer outra pessoa e assim os individualiza de maneira análoga à do destinatário (acórdãos
         do Tribunal de Justiça de 15 de Julho de 1963, Plaumann/Comissão, 25/62, Colect. 1962‑1964, p. 279; Cook/Comissão, já referido,
         n.° 20; Matra/Comissão, já referido, n.° 14; e, por último, Comissão/Aktionsgemeinschaft Recht und Eigentum, já referido,
         n.° 33).
      
      46     No caso em apreço, a circunstância, invocada pela associação recorrente, de esta ter apresentado uma denúncia relativa ao
         AGL na Comissão e manifestado o desejo de intervir no processo na qualidade de interessada, na acepção do artigo 88.°, n.° 2,
         CE, não é suficiente para lhe conferir legitimidade própria para recorrer da decisão de não dar início ao procedimento formal
         de investigação. Em particular, o facto de a denúncia da recorrente, bem como a primeira denúncia apresentada por empresas
         terceiras, ter levado a Comissão a analisar o âmbito de aplicação do AGL na decisão impugnada, não permite equiparar a recorrente
         a um comerciante cuja posição seja afectada por essa decisão (v., neste sentido, acórdão Comissão/Aktionsgemeinschaft Recht
         und Eigentum, já referido, n.os 56 e 57).
      
      47     Em contrapartida, a recorrente recorda, correctamente, que é admissível o recurso interposto por uma associação que actue
         em representação de um ou vários dos seus membros que poderiam ter eles próprios interposto um recurso que seria admissível
         (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 6 de Julho de 1995, AITEC e o./Comissão, T‑447/93 a T‑449/93, Colect., p. II‑1971,
         n.° 60, e de 22 de Outubro de 1996, Skibsværftsforeningen e o./Comissão, T‑266/94, Colect., p. II‑1399, n.° 50).
      
      48     Assim, compete ao Tribunal verificar se, no caso vertente, se pode considerar que a decisão impugnada diz individualmente
         respeito aos membros da recorrente, ou pelo menos a alguns deles.
      
      49     A este respeito, há que recordar que, no âmbito do procedimento de fiscalização dos auxílios de Estado previsto no artigo
         88.° CE, se deve distinguir, por um lado, a fase preliminar de investigação dos auxílios, prevista no n.° 3 desse artigo,
         que tem por única finalidade permitir à Comissão formar uma primeira opinião sobre a compatibilidade parcial ou total do auxílio
         em causa e, por outro, a fase de investigação prevista no n.° 2 desse mesmo artigo. Só no âmbito desta última, que se destina
         a permitir à Comissão ter uma informação completa sobre todos os elementos do processo, é que o Tratado CE prevê a obrigação
         de a Comissão notificar os interessados para apresentarem as suas observações (acórdãos do Tribunal de Justiça Cook/Comissão,
         já referido, n.° 22; Matra/Comissão, já referido, n.° 16; de 2 de Abril de 1998, Comissão/Sytraval e Brink’s France, C‑367/95 P,
         Colect., p. I‑1719, n.° 38; e Comissão/Aktionsgemeinschaft Recht und Eigentum, já referido, n.° 34).
      
      50     Sempre que, sem ter dado início ao procedimento formal de investigação previsto no artigo 88.°, n.° 2, CE, a Comissão concluir,
         numa decisão tomada com base no n.° 3 desse mesmo artigo, que um auxílio é compatível com o mercado comum, as pessoas a quem
         as garantias processuais previstas no n.° 2 desse artigo aproveitam só podem prevalecer‑se delas se tiverem a possibilidade
         de contestar essa decisão no tribunal comunitário (acórdãos Cook/Comissão, já referido, n.° 23; Matra/Comissão, já referido,
         n.° 17; e Comissão/Sytraval e Brink’s France, já referido, n.° 40).
      
      51     Por essas razões, o juiz comunitário declara admissível um recurso com vista à anulação de uma decisão baseada no artigo 88.°,
         n.° 3, CE, interposto por um interessado na acepção do artigo 88.°, n.° 2, CE, sempre que o recorrente pretenda, através da
         sua interposição, salvaguardar os direitos processuais que extrai desta última disposição (acórdão Comissão/Aktionsgemeinschaft
         Recht und Eigentum, já referido, n.° 35).
      
      52     Ora, os interessados na acepção do artigo 88.°, n.° 2, CE, que podem, assim, nos termos do artigo 230.°, quarto parágrafo,
         CE, interpor recursos de anulação, são as pessoas, empresas ou associações eventualmente afectadas nos seus interesses pela
         concessão de um auxílio, isto é, designadamente, as empresas concorrentes e as organizações profissionais (acórdão Comissão/Sytraval
         e Brink’s France, já referido, n.° 41).
      
      53     Em contrapartida, se o recorrente põe em causa o mérito da decisão de apreciação do auxílio enquanto tal, o simples facto
         de poder ser considerado interessado na acepção do artigo 88.°, n.° 2, CE não basta para a admissibilidade do recurso. Deve,
         então, demonstrar que tem um estatuto especial na acepção da jurisprudência Plaumann/Comissão, já referida. Seria esse o caso,
         nomeadamente, se a posição do recorrente no mercado fosse substancialmente afectada pelo auxílio objecto da decisão em causa
         (acórdão Comissão/Aktionsgemeinschaft Recht und Eigentum, já referido, n.° 37).
      
      54     No presente recurso, a recorrente não se limita a contestar a recusa da Comissão de dar início ao procedimento formal de investigação,
         mas põe igualmente em causa o mérito da decisão impugnada. Assim, há que analisar se indicou de modo pertinente as razões
         pelas quais o AGL é susceptível de afectar substancialmente a posição de pelo menos um dos seus membros no mercado dos granulados.
      
      55     No caso em apreço, no que diz respeito, em primeiro lugar, ao âmbito de aplicação material do AGL, resulta claramente da decisão
         impugnada (considerandos 12 e 13) que esse imposto tem a finalidade de deslocar uma parte da procura dos granulados virgens
         para outros produtos, que são isentos para incentivar a sua utilização como granulados e diminuir a extracção de granulados
         virgens. Segundo as previsões das autoridades britânicas, retomadas na decisão impugnada e não contestadas, esse imposto permitiria
         reduzir a procura de granulados virgens em cerca de 8% a 9% por ano, em média.
      
      56     Destinando‑se o AGL, de um modo geral, a alterar a repartição do mercado entre os granulados virgens, que estão sujeitos ao
         imposto, e os produtos de substituição, que são isentos, há ainda que verificar se é susceptível de alterar efectivamente
         a situação concorrencial de alguns membros da recorrente.
      
      57     A este respeito, contrariamente ao alegado pela Comissão, os esclarecimentos prestados pela recorrente, na réplica, no que
         toca mais especificamente à situação de alguns dos seus membros, não podem ser considerados extemporâneos, nos termos do artigo
         48.°, n.° 1, do Regulamento de Processo. Com efeito, surgiram na sequência do debate entre as partes. Limitam‑se a completar,
         em resposta aos argumentos de inadmissibilidade da Comissão, a argumentação invocada na petição, segundo a qual o AGL tinha
         um impacto negativo na posição concorrencial das empresas – como os membros da recorrente – que comercializam materiais sujeitos
         ao imposto. De qualquer modo, uma vez que os requisitos de admissibilidade do recurso podem ser apreciados oficiosamente a
         todo o tempo pelo tribunal comunitário, nada se opõe a que este leve em conta indicações complementares fornecidas na réplica.
      
      58     Ora, segundo essas indicações complementares fornecidas na réplica, cuja exactidão, aliás, não foi contestada nem pela Comissão
         nem pelo interveniente, alguns membros da recorrente, nomeadamente, a Torrington Stone, a Sherburn Stone Co. Ltd e a Cloburn
         Quarry, estão em concorrência directa com produtores de materiais isentos, que se tornaram competitivos devido à criação do
         AGL.
      
      59     Em particular, a recorrente referiu que a Torrington Stone, que explora uma pedreira em Devon, produzia pedra de construção
         não talhada e pedra de revestimento, vendidas em média entre […] GBP a tonelada, à saída da pedreira, e pedra de construção
         talhada, vendida em média a […] GBP a tonelada, à saída da pedreira. Esses produtos representam 3% a 5% do volume da rocha
         extraída. Os restantes 95% são constituídos por produtos derivados ou subprodutos, no caso, entulho ordinário (vendido em
         média a […] GBP a tonelada, à saída da pedreira) e entulho triturado (vendido em média a […] GBP a tonelada à saída da pedreira).
         Só a pedra talhada para construção está isenta de AGL. Antes da criação desse imposto, os entulhos eram vendidos num raio
         de 50 quilómetros. Desde a sua criação, estão sujeitos à concorrência, nessa área, dos materiais derivados provenientes, nomeadamente,
         das pedreiras de caulino, situadas a mais de 80 quilómetros, que não estão sujeitas ao AGL.
      
      60     Quanto à Sherburn Stone, que explora, nomeadamente, a pedreira de Barton no Yorkshire, a recorrente esclareceu que produzia
         materiais com especificações técnicas elevadas destinados à produção de betão de alta performance. Esses produtos, que representam 50% das rochas extraídas e cujo preço de venda médio ascende a […] GBP a tonelada, à saída
         da pedreira, estão sujeitos ao AGL. Com os restantes 50% de rocha extraída, a Sherburn Stone produz hulha miúda e resíduos
         argilosos, que podem ser utilizados para entulho e são vendidos em média a […] GBP a tonelada à saída da pedreira. Desde a
         criação do AGL, a venda desses produtos derivados tornou‑se cada vez mais difícil e os seus stocks passaram a ser ingeríveis.
      
      61     Quanto à Cloburn Quarry, que explora uma pedreira na Escócia, a recorrente explicou que tinha orientado a sua produção para
         os granulados de elevado teor que podem suportar custos de transporte mais elevados. Todos os seus produtos estão sujeitos
         ao AGL. Os cascalhos vermelhos e o granito de elevadas especificações técnicas produzidos por essa empresa e utilizados, nomeadamente,
         como balastro ou em betão de elevada performance e com asfalto são vendidos ao preço médio de […] GBP a tonelada, à saída da pedreira, e não estão sujeitos à concorrência
         de materiais isentos do imposto, derivados da produção de caulino ou de ardósia. Ao invés, os 25% de produtos derivados extraídos
         da pedreira de Cloburn Quarry, que consistem sobretudo em hulha miúda, vendidos ao preço médio de […] GBP a tonelada, à saída
         da pedreira, para servir de entulho, estão sujeitos à concorrência de materiais isentos.
      
      62     Neste contexto, a circunstância, invocada pela Comissão para demonstrar que a situação concorrencial das referidas empresas
         não é afectada, de a maior parte da sua actividade, em termos de volume de negócios, não ter por objecto os granulados e não
         estar, portanto, sujeita ao imposto é irrelevante, uma vez que a actividade dessas empresas no mercado dos granulados não
         é meramente marginal em relação à sua actividade principal. De qualquer modo, resulta dos dados numéricos acima referidos
         que a exploração comercial dos produtos derivados como granulados representa uma parcela relativamente significativa da actividade
         das referidas empresas.
      
      63     Tendo em conta os diversos elementos acima referidos invocados pela recorrente, deve, portanto, considerar‑se que esta demonstrou
         não só que a medida estatal controvertida era susceptível de afectar a situação concorrencial de alguns dos seus membros,
         os quais têm, por conseguinte, legitimidade para contestar a decisão da Comissão de não dar início ao procedimento formal
         de investigação, mas também que essa situação concorrencial tinha sido afectada de modo substancial.
      
      64     Por conseguinte, o fundamento de inadmissibilidade arguido pela Comissão no presente recurso, na parte em que visa a aprovação,
         na decisão impugnada, da delimitação do âmbito de aplicação material do AGL, deve ser julgado improcedente.
      
      65     Em segundo lugar, no que diz respeito à isenção das exportações, a recorrente alega que essa isenção também tem efeitos negativos
         na posição concorrencial dos seus membros que exportam muito pouco ou nada, contrariamente aos seus maiores concorrentes no
         mercado do Reino Unido. Com efeito, a isenção das exportações dá a esses concorrentes, nomeadamente, ao explorador da pedreira
         de Glensanda, de onde provêm mais de 90% dos granulados exportados, a vantagem de não terem prejuízos a repercutir no preço
         dos seus produtos comercializados no Reino Unido. Ao invés, os membros da recorrente têm que vender os seus granulados tributados
         com prejuízo e repercutir o ónus do imposto sobre todos os seus produtos.
      
      66     As informações complementares prestadas pela recorrente em resposta às questões escritas do Tribunal de Primeira Instância
         permitem considerar que a posição concorrencial de pelo menos um dos seus membros é susceptível de ser substancialmente afectada
         pela isenção das exportações. Com efeito, a recorrente refere, sem que, aliás, a Comissão ou o interveniente a tenham contestado,
         que, no mercado do granito de elevadas especificações técnicas utilizado, nomeadamente, como balastro para as vias férreas
         (sujeito ao AGL), a Cloburn Quarry se encontra numa relação de concorrência directa com a pedreira de Glensanda, situada,
         tal como a explorada pela Cloburn Quarry, na Escócia. Ora, como a recorrente observa na réplica, sem ser contestada pela outra
         parte nem pelo interveniente, a pedreira de Glensanda exporta 50% da sua produção. Daí a recorrente deduz, de modo pertinente,
         que a isenção das exportações de materiais com especificações técnicas diminutas concede, assim, à empresa que explora essa
         pedreira uma vantagem concorrencial no mercado dos granulados de elevadas especificações técnicas na Escócia, na medida em
         que – contrariamente à Cloburn Quarry, que vende os seus granulados de especificações técnicas diminutas no Reino Unido com
         prejuízo e repercute esse prejuízo no preço dos materiais de elevadas especificações técnicas – o montante total de AGL que
         a pedreira de Glensanda tem que repercutir sobre os seus clientes, no mercado interno, é proporcionalmente reduzido em metade
         relativamente ao montante repercutido por um concorrente que não exporte.
      
      67     Por conseguinte, o fundamento de inadmissibilidade arguido pela Comissão no presente recurso, na parte em que respeita à aprovação,
         na decisão impugnada, da isenção das exportações, também deve ser julgado improcedente.
      
      68     Por todas as razões precedentes, também há que negar provimento à tese subsidiária da Comissão, segundo a qual só o fundamento
         relativo à violação da obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação é admissível no âmbito de um recurso
         de anulação de uma decisão da Comissão de não levantar objecções a uma medida estatal, no termo da fase preliminar de investigação
         dos auxílios de Estado. No caso vertente, tendo em conta que a situação de alguns membros da recorrente no mercado foi substancialmente
         afectada, a recorrente pode invocar qualquer dos fundamentos de ilegalidade enumerados no artigo 230.°, segundo parágrafo,
         CE (v. acórdão Comissão/Aktionsgemeinschaft Recht und Eigentum, já referido, n.° 37).
      
      69     Consequentemente, o recurso deve ser julgado admissível na íntegra.
       Quanto ao mérito
      70     Como fundamento do seu recurso, a recorrente invoca, em primeiro lugar, a violação do artigo 87.°, n.° 1, CE, em segundo lugar,
         a falta de fundamentação, em terceiro lugar, a violação, pela Comissão, da sua obrigação de dar início ao procedimento formal
         de investigação e, em quarto lugar, a inobservância, por essa instituição, das suas obrigações ao longo da investigação preliminar.
         O Tribunal considera oportuno agrupar os dois primeiros fundamentos.
      
       Quanto aos fundamentos relativos à violação do artigo 87.°, n.° 1, CE e à falta de fundamentação
       Argumentos das partes
      71     A título preliminar, a recorrente recorda que o requisito relativo à selectividade do auxílio se encontra preenchido quando
         um regime fiscal sujeita operadores que se encontram numa situação comparável em relação aos objectivos prosseguidos por esse
         regime a um tratamento diferente, que não se justifica pela natureza nem pela estrutura geral do regime (acórdão do Tribunal
         de Justiça de 8 de Novembro de 2001, Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, C‑143/99, Colect., p. I‑8365,
         n.os 41 e 42).
      
      72     Em particular, no acórdão Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, já referido, o Tribunal de Justiça declarou
         que a isenção de um imposto ecológico sobre o consumo de energia concedida a empresas cujo consumo excedia determinados limites
         era um auxílio de Estado, uma vez que essa isenção só era concedida às empresas produtoras de bens corpóreos. A recorrente
         observa, a este respeito, que a Adria‑Wien Pipeline era uma sociedade de prestação de serviços, que não estava em concorrência
         com as empresas beneficiárias da isenção.
      
      73     No caso em apreço, a qualificação do AGL como imposto excepcional, e não como benefício fiscal excepcional, é puramente formal
         e em nada altera a apreciação efectuada. A este respeito, a argumentação da Comissão baseada na aplicação sectorial do AGL
         aproxima‑se muito da análise efectuada pelo advogado‑geral J. Mischo nas suas conclusões no processo Adria‑Wien Pipeline e
         Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, já referido (Colect., p. I‑8369). Ora, no acórdão, o Tribunal de Justiça afastou a apreciação
         do advogado‑geral, que concluía pela inexistência de carácter selectivo do regime fiscal em causa pelo facto de, em primeiro
         lugar, a não tributação não constituir uma derrogação a uma regra geral, em segundo lugar, a diferença de tratamento visar
         sectores diferentes e, em terceiro lugar, o âmbito de aplicação do imposto se basear em critérios objectivos.
      
      74     No caso em apreço, a Comissão cometeu um erro manifesto de apreciação ao decidir que a delimitação do âmbito de aplicação
         material e geográfico do AGL se justificava pela lógica e pela natureza desse regime fiscal, de modo que o AGL não constituía
         um auxílio de Estado na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE.
      
      75     Em primeiro lugar, relativamente à distinção entre materiais tributados e materiais isentos, a recorrente censura à Comissão
         o facto de não ter definido de modo objectivo o mercado dos granulados virgens na decisão impugnada.
      
      76     Em seguida, a recorrente baseia‑se, principalmente, na distinção, dentro dos materiais virgens, entre o material primário,
         que é o produto principal extraído de uma pedreira, e o material secundário, que é um subproduto de diminuto valor, inevitavelmente
         resultante da extracção de um material primário.
      
      77     A recorrente é de opinião que a lógica do regime fiscal em causa implicava que o AGL se aplicasse aos materiais primários
         utilizados como granulados que podiam ser substituídos por sucedâneos (produtos secundários de pedreiras ou de minas, produtos
         reciclados ou outros materiais de substituição). Ao invés, os materiais primários que não podem ser substituídos deveriam
         ser isentos, bem como os materiais secundários produzidos aquando da extracção desses materiais primários. Com efeito, a tributação
         destas duas últimas categorias de materiais, na falta de sucedâneos dos materiais primários, não tem o efeito de deslocar
         a procura para os sucedâneos menos prejudiciais ao ambiente.
      
      78     A recorrente admite que a lei – que lista os materiais tributados e os materiais isentos – não usa os termos materiais «primários»
         e «secundários», e que as referidas definições não são as únicas possíveis. No entanto, acusa a Comissão de ter usado esses
         termos na decisão impugnada sem os definir, o que é fonte de confusão.
      
      79     Além disso, a Comissão afirmou erradamente, na decisão impugnada (considerando 29), que o AGL «não se aplicará aos granulados
         extraídos como subprodutos ou resíduos de outros processos (granulados secundários)». Ora, certos granulados secundários (como
         os produtos derivados do calcário extraído para produzir cal ou cimento, ou os produtos derivados da extracção de areia silicosa
         utilizada no fabrico do vidro) são tributados. Essa afirmação traduz, portanto, uma apreciação manifestamente errada da natureza
         do AGL pela Comissão. De resto, a decisão impugnada baseia‑se numa apreciação do AGL na versão que consta da lei.
      
      80     Por outro lado, relativamente às finalidades do AGL, a Comissão, na decisão impugnada, bem como o interveniente, apenas se
         referiu às preocupações ambientais ligadas à extracção dos materiais utilizados como granulados.
      
      81     Ora, contrariamente à tese da Comissão, a delimitação do âmbito de aplicação do imposto não corresponde ao objectivo prosseguido,
         destinando‑se, no essencial, a internalizar os custos ambientais da produção de granulados e a privilegiar a utilização de
         materiais reciclados ou de outros materiais de substituição, a fim de reduzir as consequências nefastas da extracção para
         o ambiente. Neste aspecto, a lei prevê, com efeito, diferentes tratamentos para situações semelhantes.
      
      82     Em primeiro lugar, um conjunto significativo de produtos primários – nomeadamente, a argila, a ardósia, o caulino, o ball clay e o xisto – e os respectivos produtos secundários não estão sujeitos ao AGL. A extracção desses produtos das pedreiras tem
         o mesmo impacto ambiental que a dos produtos tributados, como o calcário ou o granito. Ora, alguns desses produtos primários,
         como o ball clay utilizado para produzir ladrilhos, ou o xisto, utilizado para produzir tijolos, podem ser substituídos por materiais extraídos
         de pedreiras situadas em zonas onde o ambiente é menos frágil ou por materiais secundários, a fim de produzir outros tipos
         de ladrilhamento e perpianhos, que são substitutos dos tijolos.
      
      83     Além disso, materiais como o xisto e a ardósia de má qualidade, bem como a argila, o caulino e o ball clay extraídos de um grande número de pedreiras do Reino Unido e utilizados como materiais primários tais como os granulados,
         estão isentos, apesar de poderem ser substituídos por sucedâneos. A este respeito, a recorrente refuta a argumentação da Comissão
         e do interveniente segundo a qual esses materiais estão isentos uma vez que não são granulados. Esclarece que o termo «granulados»
         se refere ao destino final de um material, e não a um conjunto específico de materiais. Os materiais isentos acima referidos
         foram pouco utilizados como granulados no passado no Reino Unido, nomeadamente, devido aos seus custos de transporte. Todavia,
         a sua isenção incentivava a utilização desses materiais primários como granulados.
      
      84     A exclusão desses materiais do âmbito de aplicação do AGL não se justifica, assim, nem pela natureza nem pela estrutura geral
         do AGL. A recorrente invoca, a este respeito, o acórdão Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, já referido
         (n.os 52 e 53), e o acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 23 de Outubro de 2002, Diputación Foral de Guipúzcoa e o./Comissão
         (T‑269/99, T‑271/99 e T‑272/99, Colect., p. II‑4217, n.° 62).
      
      85     Em segundo lugar, outros materiais primários estão sujeitos ao AGL, apesar de não poderem ser substituídos por sucedâneos.
         A recorrente refere o cascalho vermelho, utilizado, devido à sua cor específica, para o revestimento de vias pedonais e de
         pistas para ciclistas; os granulados de elevadas especificações técnicas, como os materiais utilizados para o revestimento
         das calçadas ou o granito de elevadas especificações técnicas utilizado para o balastro das vias‑férreas; e os granulados
         utilizados para o fabrico de betão rígido ou de elevada resistência. Devido às características técnicas desses diversos materiais,
         não é possível substituí‑los por sucedâneos. Por serem mais caros, não são utilizados como entulho.
      
      86     Em terceiro lugar, estão sujeitos ao AGL os produtos secundários de um conjunto significativo de materiais primários também
         eles isentos – como o calcário destinado à produção de cimento e de cal, a pedra de cantaria e materiais como a areia silicosa
         ou o calcário destinados a determinadas aplicações industriais (por exemplo, a produção de vidro). Ora, esses materiais primários
         não podem ser substituídos por sucedâneos.
      
      87     Estas incoerências em relação à lógica e à natureza do regime fiscal invocadas pela Comissão demonstram que o âmbito de aplicação
         do AGL traduz, na realidade, a vontade de isentar determinados sectores do imposto, para proteger a sua competitividade. Esta
         asserção é confirmada por várias declarações das autoridades do Reino Unido feitas, nomeadamente, aquando da avaliação dos
         efeitos de um regulamento sobre a tributação dos granulados, junta à petição, que salienta que «alguns dos materiais [isentos]
         são componentes importantes de produtos objecto de comercialização mundial, cujos produtores no Reino Unido suportariam uma
         desvantagem concorrencial em relação aos importadores, bem como à exportação», e no âmbito de um estudo sobre os impostos
         ecológicos na União Europeia, igualmente junto à petição.
      
      88     Em segundo lugar, a recorrente alega que a isenção das exportações de granulados também é contrária às finalidades ambientais
         supostamente prosseguidas pelo AGL. Essa isenção destina‑se unicamente a preservar a competitividade dos produtores britânicos
         nos mercados de exportação. Ora, em matéria de impostos ecológicos, o princípio do poluidor‑pagador é um critério essencial
         para se concluir pela existência de um auxílio (conclusões do advogado‑geral F. G. Jacobs no processo em que foi proferido
         o acórdão do Tribunal de Justiça de 20 de Novembro de 2003, GEMO, C‑126/01, Colect., pp. I‑13769, I‑13772). A este respeito,
         a recorrente contesta a justificação invocada pela Comissão na contestação, segundo a qual o AGL é um imposto indirecto sobre
         o consumo. Essa justificação não consta da decisão impugnada e, além disso, não é correcta. Acresce que não legitima a isenção
         das exportações, como demonstra, por exemplo, o imposto sobre os granulados criado na Suécia, cujas exportações não estão
         isentas. Destinando‑se os impostos sobre os granulados a dar resposta às preocupações ambientais relativas à produção, em
         princípio, não deveriam comportar um risco de dupla tributação. Quanto à fundamentação da decisão impugnada, baseada na não
         fiscalização, pelas autoridades do Reino Unido, do destino dos granulados exportados, é errada. Com efeito, é fácil distinguir
         os granulados que se destinam a ser utilizados em processos isentos dos granulados sujeitos ao imposto, através das suas propriedades
         químicas.
      
      89     Por último, a recorrente sustenta que a decisão impugnada carece de fundamentação. A Comissão estava obrigada a tomar posição
         sobre as diferenças de tratamento acima mencionadas, que são incompatíveis com as alegadas finalidades do AGL, na medida em
         que não são «manifestamente despropositad[a]s, desprovid[a]s de significado ou claramente secundári[a]s» (acórdão Comissão/Sytraval
         e Brink’s France, já referido, n.° 64).
      
      90     A Comissão refuta esta argumentação. Alega que, no caso de uma medida sectorial, o critério da selectividade se encontra preenchido
         quando essa medida confere uma vantagem excepcional (acórdãos do Tribunal de Justiça de 17 de Junho de 1999, Bélgica/Comissão,
         dito «Maribel», C‑75/97, Colect., p. I‑3671, n.os 32 e 33, e Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, já referido, n.° 48). Ao invés, um regime que imponha
         um tributo excepcional num sector determinado não é um auxílio de Estado. Com efeito, o facto de as regras relativas aos auxílios
         de Estado serem de índole proteccionista não representa uma ameaça para o mercado interno.
      
      91     Assim, se se aplicar a um sector determinado ou se as disposições que lhe dizem respeito se incluírem na natureza ou na estrutura
         geral do sistema, um imposto excepcional não é um auxílio de Estado.
      
      92     No caso vertente, o AGL é um imposto excepcional aplicável a um sector determinado e limitado, o sector da exploração comercial
         dos granulados virgens. Não confere nenhuma vantagem selectiva e, por conseguinte, não atrai investidores ou criadores de
         emprego para o Reino Unido, não exclui os granulados provenientes de outros Estados‑Membros do mercado britânico e não subvenciona
         as exportações. Consequentemente, o AGL não está abrangido pelo disposto no artigo 87.°, n.° 1, CE, que define os auxílios
         de Estado, mas pelas disposições do Tratado aplicáveis ao domínio fiscal. Por conseguinte, o acórdão Adria‑Wien Pipeline e
         Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, já referido, invocado pela recorrente, não é pertinente no caso em apreço.
      
      93     Relativamente à alteração legislativa ocorrida depois da notificação do projecto do regime de auxílio em causa, referida pela
         recorrente, a Comissão esclarece que foi informada por escrito, e depois oralmente, dos projectos de alteração da lei antes
         da adopção da decisão impugnada.
      
      94     O AGL não contém nenhum elemento de auxílio, na medida em que as alegadas derrogações em benefício dos materiais isentos se
         incluem, segundo a Comissão, na natureza ou na estrutura do sistema.
      
      95     Em primeiro lugar, a Comissão nega as incoerências apontadas pela recorrente no que diz respeito ao âmbito de aplicação do
         AGL. Alega que só os granulados virgens estão sujeitos ao AGL.
      
      96     Por outro lado, certos materiais que podem ser utilizados como granulados, nomeadamente, devido aos seus preços inferiores,
         beneficiam de uma isenção inerente à natureza e à estrutura do sistema, na medida em que podem substituir os granulados virgens.
      
      97     Pelo contrário, o calcário ou a areia utilizados, enquanto produtos derivados da primeira extracção, como granulados podem
         ser substituídos por granulados reciclados ou por outros sucedâneos, o que justifica a sua sujeição ao AGL. Além disso, a
         sua tributação reflecte também o desejo de tomar em consideração os custos ambientais da sua extracção.
      
      98     Na medida em que a isenção de certos materiais se justifica, segundo a Comissão, pela natureza ou pela estrutura do sistema,
         a circunstância, invocada pela recorrente, de esses materiais estarem em concorrência com granulados sujeitos ao imposto não
         permite considerar que este inclui elementos de auxílio de Estado.
      
      99     Em segundo lugar, a isenção das exportações também está de acordo com a lógica do AGL.
      100   Por último, a decisão impugnada está suficientemente fundamentada.
      101   O interveniente subscreve as observações da Comissão. Salienta que o AGL foi concebido para garantir que o impacto da extracção
         dos granulados virgens no ambiente se reflicta sobre os preços. O objectivo prioritário prosseguido por esse imposto é incitar
         ao recurso a produtos de substituição, como os granulados reciclados ou outros materiais de substituição dos granulados virgens,
         e promover uma utilização eficaz dos granulados e o desenvolvimento de produtos de substituição. Um objectivo subsidiário
         é manter a competitividade do Reino Unido, tributando produtos importados e isentando as exportações.
      
      102   A estrutura e o âmbito de aplicação do AGL são compatíveis com a estrutura ou a natureza do regime fiscal, como confirmou
         a High Court of Justice na sua decisão de 19 de Abril de 2002, acima referida. Com efeito, de acordo com os seus objectivos,
         o imposto aplica‑se a todos os granulados virgens. Não se aplica aos materiais utilizados com finalidades diferentes da utilização
         enquanto granulados nem aos resíduos provenientes de outros processos de transformação.
      
      103   Em particular, o caulino e o ball clay não estão sujeitos ao AGL, uma vez que não são granulados. Os seus entulhos, resíduos ou outros subprodutos também estão
         isentos, a fim de incentivar a sua utilização como substitutos dos granulados virgens. A ardósia, o carvão, a lenhite e o
         xisto não são granulados virgens utilizados enquanto tais. Os seus resíduos são compostos pelo mesmo material e, por essa
         razão, também estão isentos. Quanto à pedra de calcário, é tributável enquanto abrangida pela categoria dos granulados virgens.
         Os seus subprodutos, idênticos do ponto de vista mineralógico, também são, portanto, tributados. Só o calcário usado para
         produzir cal ou cimento faz parte de um processo isento.
      
       Apreciação do Tribunal
      104   No caso em apreço, a controvérsia tem por objecto a aplicação do critério da selectividade efectuada pela Comissão na decisão
         impugnada, quando afastou a qualificação de auxílio de Estado pelo facto de «o âmbito de aplicação do AGL [se justificar]
         pela lógica e pela natureza do regime fiscal» (considerando 43).
      
      105   Há que recordar que, para constituir um auxílio de Estado na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE, uma medida tem que, nomeadamente,
         ser susceptível de conferir uma vantagem selectiva em benefício exclusivo de certas empresas ou certos sectores de actividade.
         Com efeito, esse artigo é relativo aos auxílios que falseiem ou ameacem falsear a concorrência «favorecendo certas empresas
         ou certas produções».
      
      106   A este respeito, de acordo com jurisprudência assente, o artigo 87.°, n.° 1, CE não estabelece qualquer distinção consoante
         as causas ou os objectivos de uma medida que conceda benefícios fiscais a uma empresa normalmente tributada, definindo‑a em
         função dos respectivos efeitos. Daí decorre que nem o carácter fiscal nem o objectivo económico ou social ou os objectivos
         de protecção do ambiente ou da segurança das pessoas, eventualmente atingidas por essa medida, bastam para a subtrair a priori à aplicação da disposição cima mencionada [v., no que diz respeito às isenções selectivas de tributos sociais, acórdãos do
         Tribunal de Justiça de 2 de Julho de 1974, Itália/Comissão, 173/73, Colect., p. 357, n.os 27 e 28, e Maribel, já referido, n.° 25; no que diz respeito a uma bonificação de juros selectiva, concedida às pequenas
         e médias empresas (PME) com a finalidade de renovar o parque automóvel dos veículos industriais numa preocupação de protecção
         do ambiente e de melhorar a segurança rodoviária, acórdão do Tribunal de Justiça de 13 de Fevereiro de 2003, Espanha/Comissão,
         C‑409/00, Colect., p. I‑1487, n.° 46, e acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 29 de Setembro de 2000, CETM/Comissão,
         T‑55/99, Colect., p. II‑3207, n.° 53].
      
      107    Na apreciação do carácter selectivo de uma medida, o juiz comunitário deve verificar se assistiu razão à Comissão ao considerar
         que a diferenciação entre empresas, em matéria de benefícios ou de tributação, instituída pela medida em causa, se inclui
         na natureza ou na estrutura do sistema geral aplicável. Se essa diferenciação tiver fundamento em objectivos diferentes dos
         prosseguidos pelo sistema geral, em princípio, considera‑se que a medida em causa preenche o requisito de selectividade previsto
         no artigo 87.°, n.° 1, CE (v., neste sentido, acórdãos Itália/Comissão, já referido, n.° 33; Maribel, já referido, n.os 33 e 39; e Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, já referido, n.° 49). Cabe ao recorrente carrear elementos
         de prova suficientes (v., neste sentido, acórdão Espanha/Comissão, já referido, n.° 53, e acórdão do Tribunal de Primeira
         Instância de 6 de Março de 2002, Diputación Foral de Álava e o./Comissão, T‑127/99, T‑129/99 e T‑148/99, Colect., p. II‑1275).
      
      108   Essa jurisprudência foi, aliás, retomada pela Comissão na sua comunicação de 10 de Dezembro de 1998 sobre a aplicação das
         regras relativas aos auxílios estatais às medidas que respeitam à fiscalidade directa das empresas (JO C 384, p. 3).
      
      109   No caso em apreço, há que analisar se, tendo em conta a sua natureza e as suas características, o imposto em causa tem carácter
         selectivo de acordo com os critérios decorrentes da jurisprudência acima referida. Para demonstrar que esses critérios se
         encontram reunidos, a recorrente invoca a incoerência em relação aos objectivos ambientais invocados, por um lado, da delimitação
         do âmbito de aplicação material do AGL e, por outro, da isenção das exportações.
      
      –       Âmbito de aplicação material do AGL
      110   A título preliminar, há que analisar o fundamento invocado pela recorrente segundo o qual a Comissão – que se limitou a remeter
         para a lista dos materiais tributados fixada por lei – se baseou, na realidade, numa definição inexacta do âmbito de aplicação
         material do AGL, o que levou a uma apreciação manifestamente errada da natureza desse imposto na decisão impugnada.
      
      111   Em primeiro lugar, a recorrente não invoca nenhum elemento sério que permita concluir que a decisão impugnada se baseia numa
         análise do AGL tal como fixado pela lei na sua versão inicial. Se é certo que quando o AGL foi notificado, por ofício de 20
         de Dezembro de 2001, as disposições pertinentes da lei que criou esse imposto ainda não tinham sido alteradas, não se pode,
         no entanto, deixar de referir que a notificação informou claramente a Comissão que iam ser introduzidas alterações pelo Finance
         Act 2002 e que o projecto que, nos termos desse ofício, faria parte desse diploma não tinha ainda sido finalizado. Além disso,
         a decisão impugnada, bem como alguns elementos dos autos, confirmam que a Comissão levou, posteriormente, em conta essas alterações
         para efeitos da adopção da decisão impugnada, em particular, na parte em que criaram uma isenção para os resíduos resultantes
         da extracção de carvão, de linhite, de ardósia, ou de xisto, ou para as substâncias enumeradas na section 18(3) da lei. Com
         efeito, no ofício que enviaram à Comissão em 19 de Fevereiro de 2002, as autoridades do Reino Unido explicaram, em resposta
         a uma questão colocada por essa instituição, que a isenção de alguns desses materiais se destinava a permitir a sua utilização
         como substitutos dos granulados virgens. Por outro lado, resulta da decisão impugnada (nomeadamente, dos considerandos 11
         e 29) que a Comissão levou em conta a isenção desses resíduos.
      
      112   Em seguida, a alegação da recorrente segundo a qual resulta, em particular, do considerando 29 da decisão impugnada que a
         Comissão cometeu o erro de considerar que todos os produtos derivados ou resíduos provenientes da extracção de rochas, de
         areia ou de gravilha estavam isentos também não deve ser acolhida. A leitura da disposição controvertida do considerando 29
         – que refere que o AGL «não se aplicará aos granulados extraídos como subprodutos ou resíduos de outros processos (granulados
         secundários)» – proposta pela recorrente baseia‑se, com efeito, numa interpretação do conceito de «granulados secundários»
         diferente da adoptada pela Comissão na decisão impugnada. De facto, resulta das respostas da recorrida às perguntas escritas
         do Tribunal que esta utilizou os termos «granulados primários» essencialmente para designar os granulados sujeitos ao AGL,
         e «granulados secundários» para se referir essencialmente aos granulados isentos enumerados de modo preciso na lei. Ao invés,
         esses termos – em relação aos quais está assente que podem abranger conceitos diferentes – são utilizados pela recorrente
         para distinguir os produtos objecto da actividade principal de uma pedreira (materiais primários), por um lado, dos produtos
         derivados, resultantes da extracção dos materiais primários (materiais secundários), por outro. Nestas condições, na estrutura
         da decisão impugnada e à luz das explicações dadas pela Comissão, a disposição controvertida do considerando 29 da decisão
         impugnada limita‑se a mencionar que o AGL não é aplicável aos produtos derivados ou aos resíduos da primeira extracção quando
         estão isentos pela versão alterada da lei. Essa leitura do considerando 29 é corroborada pelo facto de, no seu ofício de 19
         de Fevereiro de 2002 à Comissão, as autoridades do Reino Unido terem exposto de modo claro e preciso as razões pelas quais
         os granulados de qualidade inferior que são os produtos derivados de certos materiais isentos (v. n.° 137, infra) estavam sujeitos ao AGL.
      
      113   Nestas condições, a tese da recorrente, segundo a qual a decisão impugnada se baseia numa definição errada do âmbito de aplicação
         material do AGL, não deve ser acolhida.
      
      114   No que diz respeito à alegada incoerência do âmbito de aplicação do AGL em relação aos seus objectivos ambientais, há que
         observar, a título preliminar, que um imposto se pode definir como um imposto ambiental ou ecológico «quando a sua base de
         incidência tem manifestamente efeitos negativos no ambiente», como refere a Comissão na sua comunicação de 26 de Março de
         1997 sobre taxas e impostos ambientais no mercado interno [COM (97) 9 final, n.° 11]. Um imposto ecológico é, assim, uma medida
         fiscal autónoma caracterizada pela sua finalidade ambiental e a sua base tributável específica. Prevê a tributação de determinados
         bens ou serviços para incluir os custos ambientais no respectivo preço e/ou tornar os produtos reciclados mais competitivos
         e orientar os produtores e os consumidores para actividades mais respeitadoras do ambiente.
      
      115   Importa salientar, a este respeito, que os Estados‑Membros, que na fase actual do direito comunitário mantêm a sua competência
         em matéria de política ambiental pelo facto de não existir coordenação nesse domínio, podem criar impostos ecológicos sectoriais,
         destinados à prossecução de determinados objectivos ambientais, mencionados no número precedente. Os Estados‑Membros são nomeadamente
         livres, na ponderação dos diversos interesses em causa, de definir as suas prioridades em matéria de protecção do ambiente
         e de determinar, consequentemente, os bens ou serviços que decidem sujeitar a um imposto ecológico. Por conseguinte, em princípio,
         o mero facto de um imposto ecológico constituir uma medida pontual, que tem por objecto determinados bens ou serviços específicos
         e não ser susceptível de recondução a um sistema geral de tributação aplicável a todas as actividades semelhantes com um impacto
         comparável no ambiente, não legitima a conclusão de que as actividades semelhantes, não sujeitas a esse imposto ecológico,
         beneficiam de uma vantagem selectiva.
      
      116   Em particular, a não sujeição dessas actividades semelhantes a um imposto ecológico aplicado a certos produtos específicos
         não pode ser equiparada a uma medida de desagravamento fiscal nesses sectores de actividade, idêntica, nomeadamente, às que
         estavam em causa nos acórdãos Espanha/Comissão, CETM/Comissão e Diputación Foral de Álava e o./Comissão, já referidos. Com
         efeito, ao contrário de um imposto ecológico, que se caracteriza precisamente pelo seu âmbito de aplicação e pela sua finalidade
         próprios (v. n.° 114, supra) e, por essa razão, não poder ser, em princípio, reconduzido a nenhum sistema geral, as medidas de desagravamento fiscal
         acima referidas derrogam o sistema fiscal normalmente aplicável às empresas. Nos dois primeiros acórdãos acima referidos,
         estava em causa um desagravamento, sob a forma de bonificação de juros, dos impostos resultantes, em condições comerciais
         normais, da necessidade de as empresas renovarem os seus veículos industriais. No contexto desse sistema fiscal, o facto de
         essas bonificações, aliás só aplicáveis às PME, se destinarem a facilitar a renovação do parque dos veículos industriais no
         Estado‑Membro em causa, numa preocupação de protecção do ambiente e de melhorar a protecção rodoviária, não era suficiente
         para se considerar que esse benefício estava ligado a um sistema em si mesmo, que a recorrente, de resto, nem sequer identificava
         (acórdão CETM/Comissão, já referido, n.os 53 e 54). No terceiro acórdão acima referido, o Tribunal de Justiça considerou que o crédito de imposto em causa, que beneficiava
         unicamente as empresas que dispunham de meios financeiros substanciais, violava os princípios inerentes ao sistema fiscal
         do Estado‑Membro em causa (n.° 166 do acórdão).
      
      117   Neste quadro jurídico, como os impostos ecológicos constituem por natureza medidas específicas adoptadas pelos Estados‑Membros
         no âmbito das suas políticas ambientais, domínio em que se mantêm competentes na falta de medidas de harmonização, cabe à
         Comissão, quando analisa um imposto ecológico à luz das regras comunitárias relativas aos auxílios de Estado, tomar em consideração
         as exigências ligadas à protecção do ambiente previstas no artigo 6.° CE. Com efeito, o referido artigo dispõe que essas exigências
         devem ser integradas na definição e execução, nomeadamente, de um regime que garanta que a concorrência não é falseada no
         mercado interno.
      
      118   Por outro lado, há que recordar que, quando fiscaliza a legalidade de uma decisão da Comissão de não dar início ao procedimento
         formal de investigação previsto no artigo 88.°, n.° 2, CE, o Tribunal de Primeira Instância, tendo em conta o amplo poder
         de apreciação da Comissão na aplicação do artigo 88.°, n.° 3, CE, deve limitar‑se a verificar se foram respeitadas as normas
         processuais e de fundamentação, a exactidão material dos factos considerados pertinentes para tomar a opção contestada, a
         inexistência de erros manifestos na apreciação desses factos e a inexistência de desvios de poder (acórdãos Matra/Comissão,
         já referido, n.° 25, e Skibsværftsforeningen e o./Comissão, já referido, n.os 169 e 170).
      
      119   No caso em apreço, é à luz de todas essas considerações que, por conseguinte, compete ao Tribunal de Primeira Instância examinar
         se a Comissão não ultrapassou os limites do seu poder de apreciação ao considerar, na decisão impugnada, que a delimitação
         do âmbito de aplicação do AGL podia justificar‑se pela prossecução dos objectivos ambientais invocados.
      
      120   A este respeito, o presente litígio distingue‑se da controvérsia resolvida pelo acórdão Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer
         & Peggauer Zementwerke, já referido, invocado pela recorrente. Nesse acórdão, o Tribunal de Justiça foi chamado a analisar
         não a delimitação do âmbito de aplicação material de um imposto ecológico, como no caso vertente, mas a isenção parcial do
         pagamento desse imposto – instituído, no caso concreto, no quadro da Strukturanpassungsgesetz (lei austríaca relativa à adaptação
         das estruturas) de 1996, sobre o consumo de gás natural e de energia eléctrica pelas empresas – concedida apenas às empresas
         produtoras de bens corpóreos.
      
      121   No referido acórdão, a distinção contestada não dizia respeito, portanto, ao tipo de produto sujeito ao imposto ecológico
         em causa, mas aos utilizadores industriais, consoante operassem ou não nos sectores primário e secundário da estrutura nacional.
         O Tribunal de Justiça concluiu que a concessão de benefícios às empresas cuja actividade principal era o fabrico de bens corpóreos
         não se justificava pela natureza ou pela estrutura geral do sistema fiscal instituído pela Strukturanpassungsgesetz. Declarou,
         no essencial, que, na medida em que o consumo de energia pelo sector das empresas produtoras de bens corpóreos era tão prejudicial
         para o ambiente como o efectuado pelas empresas fornecedoras de serviços, as considerações de ordem ecológica na base da Strukturanpassungsgesetz
         não justificavam que esses dois sectores fossem tratados de modo diferente. Foi nesse contexto que o Tribunal de Justiça julgou
         improcedente, nomeadamente, o argumento do Governo austríaco, inspirado na ideia de preservação da competitividade das empresas
         produtoras de bens corpóreos, segundo o qual o reembolso parcial dos impostos ambientais em causa apenas a essas empresas
         se justificava pelo facto de estas serem proporcionalmente mais afectadas do que as outras pelos referidos impostos (n.os 44, 49 e 52 do acórdão).
      
      122   No caso em apreço, a recorrente alega, em apoio do seu recurso, que a definição dos materiais sujeitos ao AGL não responde
         aos objectivos ambientais invocados, traduzindo, na realidade, a vontade de isentar do imposto certos sectores e de proteger
         a sua competitividade.
      
      123   Consequentemente, há que analisar as incoerências na definição do âmbito de aplicação material do AGL alegadas pela recorrente.
      124   No caso em apreço, resulta expressamente da notificação e da decisão impugnada (considerandos 5, 16 e 31) que, em princípio,
         o AGL se destina, por um lado, a maximizar o recurso a granulados reciclados ou outros materiais de substituição dos granulados
         virgens e a promover uma utilização racional dos granulados virgens, recursos naturais não renováveis. Por outro lado, a notificação
         e a decisão impugnada referem‑se também, de modo mais implícito, à internalização dos custos ambientais, de acordo com o princípio
         do poluidor‑pagador, quando enunciam, no âmbito da determinação dos objectivos do AGL, que «os custos para o ambiente da extracção
         de granulados objecto do imposto englobam a poluição sonora, as poeiras, os prejuízos para a biodiversidade e as degradações
         paisagísticas». Esses objectivos foram explicitados no ofício das autoridades do Reino Unido à Comissão de 19 de Fevereiro
         de 2002.
      
      125   Na decisão impugnada (considerando 8), os granulados virgens são definidos como «granulados produzidos a partir de resíduos
         naturais de minerais objecto de uma primeira extracção» e «fragmentos de rochas, de areias e de gravilhas que podem ser utilizados
         em estado bruto ou após tratamento mecânico como a trituração, a lavagem e a calibragem».
      
      126   Está assente que o termo «granulados» não define um conjunto específico de materiais caracterizados pelas suas propriedades
         físico‑químicas. A utilização de um material (rocha, areia ou gravilha) como granulado depende também do preço desse material
         e dos custos de transporte. Está igualmente assente que determinados materiais isentos do pagamento do imposto, como o xisto
         e a ardósia de má qualidade, a argila, o caulino e o ball clay são, em certos casos, objecto de uma primeira utilização como granulados, após extracção.
      
      127   O AGL é, assim, um imposto ecológico que incide, em princípio, sobre a comercialização dos granulados virgens – isto é, dos
         materiais granulosos de primeira extracção utilizados na construção civil e nas obras públicas – com excepção de determinados
         materiais especificados na lei. Há que analisar a coerência desse âmbito de aplicação em relação aos objectivos ambientais
         prosseguidos (v. n.° 124, supra).
      
      128   Em primeiro lugar, não se pode deixar de referir que os materiais comercializados para finalidades diferentes da utilização
         como granulados não pertencem ao sector sujeito ao AGL. Contrariamente à tese da recorrente, o facto de serem isentos não
         constitui, portanto, nenhuma derrogação em relação ao sistema do imposto ecológico em causa. Em particular, a decisão de criar
         um imposto ecológico apenas no sector dos granulados – e não, de modo geral, em todos os sectores de exploração das pedreiras
         e das minas com o mesmo impacto ambiental que a extracção dos granulados – é matéria da competência do Estado‑Membro em causa,
         que estabelece as suas prioridades em termos de política económica, fiscal e ambiental. Essa escolha, ainda que motivada pela
         preocupação de preservar a competitividade internacional de determinados sectores, não permite pôr em causa a coerência do
         AGL com os objectivos ambientais prosseguidos (v. n.° 115, supra).
      
      129   Neste contexto, os argumentos da recorrente relativos à isenção de materiais como, nomeadamente, a ardósia e o xisto de qualidade
         superior, o ball clay, o caulino, o carvão e a linhite, em princípio, inadequados para serem utilizados em granulados devido às suas propriedades
         físicas ou ao seu preço, não são pertinentes no presente caso.
      
      130   Em segundo lugar, há que observar que, no âmbito da sua política ambiental, o Estado‑Membro em causa pode determinar livremente
         os materiais destinados a granulados que considere oportuno tributar, e excluir do âmbito de aplicação do AGL, tendo em conta
         os objectivos ambientais prosseguidos, determinados materiais – nomeadamente, o xisto e a ardósia de má qualidade, a argila
         e os resíduos de caulino e de ball clay – mesmo quando utilizados como granulados a seguir à sua extracção. A este respeito, a explicação dada pelo interveniente
         e pela Comissão, segundo a qual a isenção desses materiais – até agora pouco utilizados como granulados devido ao elevados
         custos de transporte – permite a sua utilização como substitutos dos granulados virgens visados pelo imposto ecológico e pode,
         desse modo, contribuir para uma racionalização da extracção e da utilização destes últimos, é admissível à luz dos objectivos
         ambientais prosseguidos.
      
      131   Com efeito, decorre do âmbito de aplicação do AGL, bem como do ofício das autoridades do Reino Unido à Comissão de 19 de Fevereiro
         de 2002, que a criação do AGL se destina precisamente a reduzir e a racionalizar a extracção dos materiais habitualmente utilizados
         como granulados, que representam 70% dos minerais extraídos no Reino Unido, nomeadamente, incentivando a sua substituição
         por produtos reciclados ou por outros materiais virgens isentos, como os entulhos ou resíduos de ardósia, de xisto, de argila,
         de caulino ou de ball clay.
      
      132   Além disso, a Comissão referiu, não tendo a recorrente contestado essa afirmação, que existiam stocks significativos, e frequentemente antigos, de entulhos de ardósia (ou ardósia de qualidade inferior) em aterros de entulho
         no País de Gales, e de caulino e ball clay em Devon e na Cornualha. Esses stocks são actualmente considerados resíduos e degradam as paisagens. Por vezes, segundo informações contidas no ofício das autoridades
         do Reino Unido de 19 de Fevereiro de 2002, estão situados em parques nacionais. A isenção da comercialização desses materiais
         para serem utilizados como granulados torna‑os competitivos em relação aos outros granulados virgens e permite, assim, uma
         reabsorção dos stocks. De resto, a Comissão esclareceu, na audiência, que o calcário podia ser extraído sem produzir muitos resíduos, ao contrário
         da ardósia, frágil, cuja extracção produz inevitavelmente resíduos em muito elevada quantidade.
      
      133   Neste contexto, o argumento da recorrente relativo ao impacto ambiental da extracção de ardósia, de xisto, de argila, de caulino
         e de ball clay não é suficiente para se concluir que a isenção desses materiais contraria os objectivos ambientais prosseguidos e confere,
         assim, uma vantagem selectiva aos sectores de actividade em causa. A este respeito, a recorrente não invoca nenhum argumento
         convincente que permita pôr em dúvida a legitimidade, à luz dos alegados objectivos, da opção do legislador nacional de sujeitar
         ao AGL apenas a comercialização dos granulados cuja extracção é considerada a principal fonte de degradação do ambiente, como
         resulta do ofício de 19 de Fevereiro de 2002, acima referido.
      
      134   Nestas condições, há que considerar que a isenção de certos materiais virgens utilizados como granulados, prevista pela versão
         alterada da lei, não contraria os objectivos ambientais invocados e pode razoavelmente justificar‑se pela natureza e pela
         estrutura do AGL.
      
      135   Em terceiro lugar, há que analisar os argumentos da recorrente relativos ao carácter incoerente da sujeição ao AGL, nomeadamente,
         dos granulados de elevadas especificações técnicas (materiais utilizados para o revestimento das calçadas, granito utilizado
         para o balastro, granulados utilizados para o fabrico de betão rígido ou de elevada resistência) e de gravilha vermelha (utilizados
         para o revestimento de vias pedonais e de pistas para ciclistas), que não podem ser substituídos por sucedâneos. É certo que,
         como alega a recorrente, a tributação desses materiais – que não são utilizados como entulho devido ao seu preço mais elevado
         –, em princípio, não tem o efeito de deslocar a procura para produtos de substituição como os granulados reciclados, de modo
         a reduzir a extracção de granulados virgens. Todavia, não se pode deixar de referir que essa tributação poderia razoavelmente
         responder a um dos objectivos do AGL, que consiste na internalização dos custos ambientais ligados à produção dos granulados
         virgens.
      
      136   A este respeito, há que observar que, no caso vertente, o montante do imposto, de 1,60 GBP por tonelada de granulados tributáveis,
         corresponde aproximadamente aos custos ambientais médios ligados à extracção dos granulados no Reino Unido, avaliados em 1,80 GBP
         por tonelada, de acordo com as indicações fornecidas no relatório do mês de Abril de 2001 elaborado pelo Ecotec Research &
         Consulting, «Study on the Economic and Environmental Implications of the use of Environmental Taxes and Charges in the European
         Union and its Member States» (Estudo relativo às consequências económicas e ambientais da aplicação de impostos e taxas ambientais
         na União Europeia e nos seus Estados‑Membros), apresentado pela recorrente. Esse relatório salienta, aliás, a importância
         de o imposto ser suficientemente elevado. As mencionadas indicações confirmam, assim, que a tributação dos materiais em causa
         pode ser considerada legítima à luz das exigências do princípio do poluidor‑pagador.
      
      137   O princípio do poluidor‑pagador permite também justificar a sujeição dos produtos derivados da extracção de materiais não
         substituíveis por sucedâneos, em particular a sujeição dos granulados de qualidade inferior que são os produtos derivados
         da extracção do calcário destinado à produção de cimento e de cal, das pedras de cantaria e da areia silicosa utilizada no
         fabrico do vidro, como resulta do ofício das autoridades do Reino Unido de 19 de Fevereiro de 2002. Além disso, a tributação
         desses produtos pode igualmente justificar‑se pelo objectivo – também invocado pelo interveniente no mencionado ofício – de
         incentivar a extracção e o tratamento mais racionais dos granulados, de modo a reduzir a proporção de granulados de qualidade
         inferior. Com efeito, essa proporção, variável de pedreira para pedreira, como salienta a recorrente, pode, no entanto, ser
         alterada para uma só pedreira. Ora, a Comissão realça a este respeito, nomeadamente, na contestação, não tendo a recorrente
         contraditado essa asserção, a diferença de preço relativamente baixa entre os granulados de qualidade inferior e os materiais
         não substituíveis de que são subprodutos.
      
      138   Daí decorre claramente que toda a argumentação da recorrente relativa a supostas incoerências na definição do âmbito de aplicação
         material do AGL à luz dos objectivos ambientais prosseguidos não tem qualquer fundamento.
      
      139   Por conseguinte, a recorrente não demonstrou que a decisão impugnada está viciada por um erro manifesto de apreciação na parte
         em que conclui que a definição do âmbito de aplicação material do AGL não contém elementos de auxílios de Estado.
      
      140   Há que analisar, nesta fase, o fundamento relativo à falta de fundamentação da decisão impugnada no que diz respeito à apreciação
         do âmbito de aplicação material do AGL. A recorrente acusa a Comissão, nesta matéria, de não ter fundamentado as diferenças
         de tratamento que acabaram de ser analisadas, quanto à sujeição ao AGL.
      
      141   Segundo jurisprudência assente, a fundamentação exigida pelo artigo 253.° CE deve ser adaptada à natureza do acto em causa
         e deixar transparecer, de forma clara e inequívoca, o raciocínio da instituição autora do acto, de forma a permitir aos interessados
         conhecer as razões da medida adoptada e ao órgão jurisdicional competente exercer a sua fiscalização. A exigência de fundamentação
         deve ser apreciada em função das circunstâncias do caso em apreço, designadamente, do conteúdo do acto, da natureza dos fundamentos
         invocados e do interesse que os destinatários ou outras pessoas a quem o acto diga directa e individualmente respeito podem
         ter em obter explicações. Não é exigido que a fundamentação especifique todos os elementos de facto e de direito pertinentes,
         na medida em que a questão de saber se a fundamentação de um acto satisfaz as exigências do artigo 253.° CE deve ser apreciada
         à luz não somente do seu teor mas também do seu contexto e do conjunto das normas jurídicas que regem a matéria em causa (acórdãos
         Comissão/Sytraval e Brink’s France, já referido, n.° 63, e do Tribunal de Primeira Instância de 13 de Janeiro de 2004, Thermenhotel
         Stoiser Franz e o./Comissão, T‑158/99, Colect., p. II‑1, n.° 94).
      
      142   Daí decorre que a exigência de fundamentação de uma decisão tomada em matéria de auxílios do Estado não pode ser determinada
         unicamente em função do interesse do Estado‑Membro, ao qual a decisão é dirigida, em ser informado (acórdão do Tribunal de
         Primeira Instância de 25 de Junho de 1998, British Airways e o. e British Midland Airways/Comissão, T‑371/94 e T‑394/94, Colect.,
         p. II‑2405, n.° 92). Em particular, incumbe à Comissão, quando aprova uma medida no termo da fase preliminar de investigação
         prevista no artigo 88.°, n.° 3, CE, expor de forma sumária as principais razões dessa decisão de aprovação, de modo a permitir
         que terceiros interessados tomem conhecimento da sua justificação e decidam se é oportuno interpor recurso da referida decisão
         para se prevalecerem dos direitos processuais que lhe são conferidos pelo artigo 88.°, n.° 2, CE.
      
      143   Quando se trate, mais especificamente, de uma decisão da Comissão de encerrar o processo preliminar de investigação que conclui
         pela inexistência de um auxílio de Estado denunciado, a Comissão é sempre obrigada a expor de forma suficiente ao denunciante
         as razões pelas quais os elementos de facto e de direito invocados na denúncia não bastaram para demonstrar a existência de
         um auxílio de Estado. Todavia, a Comissão não é obrigada a tomar posição sobre elementos manifestamente despropositados, desprovidos
         de significado ou claramente secundários (acórdão Comissão/Sytraval e Brink’s France, já referido, n.° 64).
      
      144   No caso em apreço, resulta, nomeadamente, dos considerandos 31, 32 e 34 da decisão impugnada que a Comissão concluiu que o
         âmbito de aplicação do AGL se justificava pela lógica e pela natureza desse regime fiscal, uma vez que o AGL constitui um
         imposto ecológico específico cujo âmbito de aplicação muito restrito foi definido pelo Estado‑Membro em causa, que é livre
         de adoptar o seu regime fiscal nacional, em função das características próprias do sector de actividade em causa. A Comissão
         salientou, no essencial, que a distinção estabelecida entre os sectores tributados e os isentos se justificava pela preocupação,
         por um lado, de reduzir a extracção de granulados que traz consequências indesejáveis para o ambiente e de promover uma utilização
         racional desses granulados e, por outro, de incentivar a utilização de granulados reciclados ou de outros materiais de substituição,
         de modo a reduzir a utilização de recursos não renováveis e as respectivas consequências prejudiciais para o ambiente.
      
      145   Assim, a Comissão expôs, de modo sintético mas claro, as razões pelas quais tinha afastado os fundamentos – que são reproduzidos,
         no essencial, de modo muito sucinto, nos considerandos 14 e 15 da decisão impugnada – invocados pela recorrente na sua denúncia.
         Com efeito, a recorrente, tinha criticado a distinção operada entre, por um lado, os materiais sujeitos ao AGL, como certos
         produtos derivados de qualidade inferior (como os produtos derivados do calcário extraído para produzir cal ou cimento) ou
         o grés que, segundo a recorrente, é tributado apesar de não se destinar a ser utilizado como granulado e, por outro lado,
         certos produtos derivados isentos (como os resíduos de ardósia e de caulino, utilizados como granulados, mencionados no considerando
         11 da decisão impugnada). A recorrente alegou que essa distinção era susceptível de falsear a concorrência entre essas diversas
         categorias de materiais e não se justificava pela natureza nem pela lógica do sistema.
      
      146   Nestas condições, tendo em conta, por um lado, a liberdade de os Estados‑Membros – referida na decisão impugnada (considerandos
         31 e 32) – definirem a sua política fiscal e ambiental recorrendo, como no caso em apreço, à criação de um imposto ecológico
         sectorial (v. n.os 115, 116, 128 e 130, supra) e, por outro, a circunstância de a recorrente ser uma associação que representa operadores económicos avisados, não se pode
         considerar que a decisão impugnada, que expõe sucintamente as considerações essenciais em que se baseou, está viciada de falta
         de fundamentação.
      
      –       Isenção das exportações
      147   A recorrente alega que a isenção das exportações de granulados também está em contradição com as finalidades ambientais alegadamente
         prosseguidas pelo AGL. Essa isenção destina‑se unicamente a preservar a competitividade dos produtores britânicos nos mercados
         de exportação.
      
      148   Há que recordar, a título preliminar, que o AGL incide sobre a utilização ou a comercialização dos granulados virgens no Reino
         Unido. A importação de granulados virgens é tributada e a exportação desses materiais está isenta, de modo a, segundo as autoridades
         do Reino Unido, «garantir a igualdade de tratamento entre os granulados virgens produzidos no Reino Unido e os produzidos
         noutros Estados‑Membros» (considerando 22 da decisão impugnada). A Comissão justifica essa isenção, na decisão impugnada (considerando
         33), pelo facto de as autoridades do Reino Unido não poderem fiscalizar a utilização dos materiais como granulados fora do
         seu território.
      
      149   A Comissão e o interveniente precisaram essa fundamentação perante o Tribunal. A Comissão salientou, nomeadamente, que o AGL
         era um imposto indirecto sobre o consumo, em princípio aplicável nos Estados‑Membros em que o consumo tem lugar, para evitar
         uma eventual dupla tributação dos produtos exportados. O interveniente observou, por sua vez, que o artigo 91.° CE autoriza
         a isenção de um imposto interno sobre as exportações desde que o montante da isenção não ultrapasse o montante do imposto
         pago.
      
      150   Essa fundamentação, assente na natureza de imposto indirecto do AGL, deve ser levada em conta na medida em que, contrariamente
         à tese da recorrente, está relacionada com as razões expostas pela Comissão na decisão impugnada e não pode, por conseguinte,
         ser considerada uma fundamentação suplementar invocada posteriormente à adopção dessa decisão. Com efeito, o realce dado à
         fiscalização da utilização dos materiais em causa como granulados indica que a Comissão se referiu, na decisão impugnada,
         ao facto de a medida considerada constituir um imposto indirecto que incide sobre os próprios produtos, e não sobre as empresas.
      
      151   No caso em apreço, não se pode deixar de observar que o AGL, que, contrariamente à análise da recorrente, se aplica à comercialização
         dos granulados e incide, assim, sobre os produtos, e não sobre os rendimentos dos produtores, é efectivamente um imposto indirecto,
         regulado pelo princípio da tributação no país de destino, em conformidade com o artigo 91.° CE.
      
      152   Ora, de acordo com a jurisprudência, uma medida fiscal específica que se justifica pela lógica interna do sistema fiscal não
         é abrangida pelo âmbito de aplicação do artigo 87.°, n.° 1, CE (acórdãos Diputación Foral de Álava e o./Comissão, já referido,
         n.° 164, e Diputación Foral de Guipúzcoa e o./Comissão, já referido, n.° 61).
      
      153   No caso em apreço, não se pode considerar, por conseguinte, que a isenção das exportações confere uma vantagem selectiva aos
         exportadores, na medida em que se justifica pela natureza de imposto indirecto do AGL. Com efeito, o Estado‑Membro em causa
         podia privilegiar as considerações ligadas à estrutura do regime fiscal considerado, em relação aos objectivos ambientais
         prosseguidos. A circunstância, alegada pela recorrente, de outros Estados‑Membros efectuarem escolhas diferentes não é pertinente.
      
      154   Por conseguinte, a Comissão não cometeu qualquer erro manifesto de apreciação ao concluir, na decisão impugnada, que a isenção
         das exportações não constituía um auxílio de Estado.
      
      155   Por outro lado, relativamente à fundamentação da decisão impugnada, a Comissão, baseando‑se na estrutura do AGL, justificou
         suficientemente a rejeição dos fundamentos invocados pela recorrente na sua denúncia no que diz respeito à vantagem selectiva
         supostamente conferida aos exportadores devido à isenção das exportações.
      
      156   Por todas as considerações precedentes, os fundamentos relativos à violação do artigo 87.°, n.° 1, CE e à falta de fundamentação
         devem improceder.
      
       Quanto ao fundamento relativo à violação da obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação
       Argumentos das partes
      157   A recorrente sustenta que as incoerências alegadas na delimitação do âmbito de aplicação do AGL conduzem inevitavelmente à
         conclusão de que a qualificação do AGL suscitou sérias dificuldades. Essas dificuldades foram igualmente corroboradas pelas
         importantes exposições efectuadas pela High Court of Justice, na sua decisão de 19 de Abril de 2002, acima referida, bem como
         pelas declarações das autoridades do Reino Unido segundo as quais o âmbito de aplicação do AGL foi definido de modo a proteger
         a competitividade internacional dos sectores isentos. Além disso, a isenção do xisto e da ardósia, bem como das exportações,
         é contrária ao princípio do poluidor‑pagador. A própria Comissão, aliás, admitiu, na sua resposta, que a qualificação do AGL
         à luz do artigo 87.°, n.° 1, CE, suscitava um grande número de questões complexas, nomeadamente, no que diz respeito à delimitação
         do mercado em causa.
      
      158   Além disso, o documento de consulta publicado em 9 de Dezembro de 2002 pelas autoridades do Reino Unido demonstra que estas
         tiveram dificuldades no que diz respeito à coerência do âmbito de aplicação do AGL com os objectivos ambientais prosseguidos.
      
      159   Por outro lado, a invocação, na contestação, do interesse do Estado‑Membro em causa na rápida obtenção de uma decisão, bem
         como do risco de mau funcionamento do sistema de fiscalização dos auxílios de Estado, demonstra que a Comissão se baseou em
         critérios diferentes do das «sérias dificuldades».
      
      160   Nestas circunstâncias, mesmo admitindo que a decisão impugnada não está viciada de um erro manifesto de apreciação, o que
         a recorrente contesta, não é menos verdade que a mesma viola o artigo 88.°, n.° 3, CE, que obriga a Comissão a dar início
         ao procedimento formal de investigação.
      
      161   A Comissão contrapõe que era óbvio que o AGL constituía um imposto excepcional não abrangido pelas regras relativas aos auxílios
         de Estado, que a exclusão dos substitutos da categoria dos granulados virgens se justificava pela natureza ou pela estrutura
         geral do sistema e que o mecanismo habitual aplicável aos impostos indirectos sobre o consumo não se incluía no domínio dos
         auxílios de Estado.
      
      162   O interveniente esclarece que a consulta sobre os granulados provenientes de resíduos, lançada em 9 de Dezembro de 2002, se
         destinava a recolher informações relativas aos granulados para analisar se os mesmos deveriam ser isentos, e se essa isenção
         trazia proveitos à indústria e podia ser efectuada sem encargos excessivos para as empresas nem riscos de abusos. O documento
         de consulta invocado pela recorrente não indiciava que o tratamento dos resíduos era incompatível com os objectivos do imposto.
      
       Apreciação do Tribunal
      163   A título preliminar, há que analisar o argumento da Comissão segundo o qual, contrariamente à tese da recorrente, baseada
         na jurisprudência anterior à entrada em vigor do Regulamento n.° 659/1999, em Abril de 1999, a existência de sérias dificuldades
         de apreciação de uma medida de auxílio deixa de a obrigar a dar início ao procedimento formal de investigação. A Comissão
         alega, em particular, que, no caso de um auxílio não notificado, tem o direito de, sem dar início ao procedimento previsto
         no artigo 88.°, n.° 2, CE, obter previamente as informações necessárias junto do Estado‑Membro em causa, nos termos do artigo
         10.°, n.° 2, do Regulamento n.° 659/1999.
      
      164   No caso em apreço, o Tribunal observa que a medida estatal controvertida só tinha sido notificada na parte em que previa uma
         isenção a favor da Irlanda do Norte, e não no que toca à definição do âmbito de aplicação do AGL, única questão que está em
         causa no presente processo.
      
      165   A este respeito, há que salientar que a obrigação de a Comissão analisar previamente um eventual auxílio ilegal juntamente
         com o Estado‑Membro em causa, solicitando‑lhe, sendo caso disso, informações (acórdão do Tribunal de Justiça de 10 de Maio
         de 2005, Itália/Comissão, C‑400/99, Colect., p. I‑3657, n.os 29 e 30), não dispensa essa instituição da sua obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação, nomeadamente,
         se, à luz das informações obtidas, se vir confrontada com sérias dificuldades de apreciação da medida considerada. Com efeito,
         essa obrigação resulta directamente do artigo 88.°, n.° 3, CE, tal como foi interpretado pela jurisprudência, o que é, aliás,
         expressamente confirmado pelas disposições conjugadas do artigo 4.°, n.° 4, e do artigo 13.°, n.° 1, do Regulamento n.° 659/1999,
         quando a Comissão conclui, após investigação preliminar, que a medida ilegal suscita dúvidas quanto à sua compatibilidade
         (acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 30 de Abril de 2002, Government of Gibraltar/Comissão, T‑195/01 e T‑207/01,
         Colect., p. II‑2309, n.os 69 e 72).
      
      166   Com efeito, de acordo com jurisprudência assente, o procedimento do artigo 88.°, n.° 2, CE reveste‑se de carácter indispensável
         sempre que a Comissão se depare com dificuldades sérias para apreciar se um auxílio é compatível com o mercado comum. Portanto,
         a Comissão só se pode limitar à fase preliminar do artigo 88.°, n.° 3, CE e adoptar uma decisão favorável a uma medida estatal
         notificada se tiver a convicção, no termo de um primeiro exame, de que essa medida não pode ser qualificada de auxílio na
         acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE, ou de que, embora constituindo um auxílio, é compatível com o mercado comum. Em contrapartida,
         se esse primeiro exame tiver levado a Comissão à convicção oposta ou não lhe tiver permitido ultrapassar todas as dificuldades
         suscitadas pela apreciação da medida em causa, a instituição tem o dever de se rodear de todos os pareceres necessários e
         dar início, para o efeito, ao procedimento do artigo 88.°, n.° 2, CE (acórdãos Matra/Comissão, já referido, n.° 33, e Comissão/Sytraval
         e Brink’s France, já referido, n.° 39; acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 10 de Maio de 2000, SIC/Comissão, T‑46/97,
         Colect., p. II‑2125, n.° 71, e de 15 de Março de 2001, Prayon‑Rupel/Comissão, T‑73/98, Colect., p. II‑867, n.° 42).
      
      167   Essa obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação impõe‑se, em particular, quando, depois de ter procedido,
         com base nas informações prestadas pelo Estado‑Membro em causa, a uma análise suficiente da medida estatal controvertida,
         a Comissão continua a ter dúvidas sobre a qualificação da medida examinada como auxílio na acepção do artigo 87.°, n.° 1,
         CE, bem como sobre a sua compatibilidade com o mercado comum (acórdão de 10 de Maio de 2005, Itália/Comissão, já referido,
         n.os 47 e 48).
      
      168   No caso em apreço, há que referir que, contrariamente às alegações da recorrente, a circunstância de a Comissão ter levado
         em conta o interesse do Estado‑Membro em causa na obtenção rápida de uma decisão não permite por si só presumir que essa instituição
         se baseou em critérios diferentes do das sérias dificuldades de apreciação, para decidir não dar início ao procedimento formal
         de investigação.
      
      169   Quanto ao documento de consulta de 9 de Dezembro de 2002, posterior à adopção da decisão impugnada, não pode ser levado em
         conta na apreciação da legalidade dessa decisão. Com efeito, de acordo com jurisprudência assente, no quadro de um recurso
         de anulação, as apreciações complexas efectuadas pela Comissão só devem ser examinadas em função dos elementos de informação
         de que esta podia dispor no momento em que as efectuou (acórdãos do Tribunal de Primeira Instância de 6 de Outubro de 1999,
         Kneissl Dachstein/Comissão, T‑110/97, Colect., p. II‑2881, n.° 47, e Salomon/Comissão, T‑123/97, Colect., p. II‑2925, n.° 48).
      
      170   Daí decorre que apenas os argumentos pertinentes invocados pela recorrente em apoio do presente fundamento, relativos às alegadas
         incoerências na delimitação do âmbito de aplicação do AGL, retomam os que a mesma tinha invocado no âmbito do fundamento relativo
         à violação do artigo 87.°, n.° 1, CE.
      
      171   Ora, como o Tribunal de Primeira Instância já declarou, a delimitação do âmbito de aplicação material de um imposto ecológico
         como o AGL é da competência do Estado‑Membro em causa, livre de estabelecer as suas prioridades em matéria de política ambiental
         (v. n.os 115 e 116, supra). Neste contexto, decorre das considerações precedentes (v. n.os 138 e 139, supra) que a Comissão não cometeu qualquer erro manifesto de apreciação ao considerar que não havia dúvidas de que a delimitação
         do âmbito de aplicação material do AGL não continha elementos de auxílio de Estado. Por outro lado, a isenção das exportações
         podia incontestavelmente justificar‑se pela natureza de imposto indirecto do AGL (v. n.os 152 e 153, supra). Nestas condições, nem os desenvolvimentos da decisão da High Court of Justice de 19 de Abril de 2002, nem as declarações
         do interveniente que explicam a sua escolha de não sujeitar determinados materiais ao AGL pela preocupação de preservar a
         competitividade internacional dos sectores em causa, nem a alegada complexidade da delimitação do mercado em causa, invocados
         pela recorrente, revelam a existência de sérias dificuldades no que diz respeito à qualificação do AGL à luz do critério da
         selectividade.
      
      172   Nestas condições, não se pode deixar de concluir que a Comissão não excedeu os limites do seu poder de apreciação ao considerar
         que a fiscalização, à luz do artigo 87.°, n.° 1, CE, tanto da delimitação do âmbito de aplicação material do AGL como da isenção
         das exportações, não apresentava nenhuma dificuldade séria que lhe impusesse a obrigação de dar início ao procedimento formal
         de investigação.
      
      173   Por conseguinte, o fundamento relativo à violação da obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação deve ser
         julgado improcedente.
      
       Quanto ao fundamento relativo à violação, pela Comissão, das suas obrigações na investigação preliminar
       Argumentos das partes
      174   A recorrente alega que a Comissão não procedeu a uma análise imparcial e diligente da sua denúncia. A Comissão, aliás, admitiu,
         na contestação, ter adoptado rapidamente a decisão impugnada a pedido do interveniente.
      
      175   Por outro lado, na decisão impugnada, a Comissão não expôs suficientemente as razões da rejeição da sua denúncia. Não abordou
         a questão das incoerências realçadas pela recorrente na sua denúncia, como a tributação dos materiais secundários resultantes
         da produção de calcário não tributado e a não tributação do xisto extraído com o objectivo de ser utilizado como granulado.
         Por outro lado, no que respeita às exportações, a decisão impugnada não analisou a questão da isenção das exportações dos
         materiais de qualidade inferior.
      
      176   A Comissão contesta esta argumentação. Responde que todas as questões suscitadas nessa denúncia, aliás idênticas às que tinham
         sido invocadas na primeira denúncia, foram analisadas na decisão impugnada. Só o calendário pode explicar a falta de menção
         à denúncia da recorrente, no considerando 3 da decisão impugnada, que faz referência à primeira denúncia.
      
       Apreciação do Tribunal
      177   De acordo com a jurisprudência, quando terceiros interessados tenham submetido à Comissão denúncias relativas a medidas estatais
         que não foram objecto de notificação nos termos do artigo 88.°, n.° 3, CE, esta instituição é obrigada, no quadro da fase
         preliminar prevista por esta disposição, a proceder a um exame diligente e imparcial dessas denúncias, no interesse de uma
         correcta aplicação das regras fundamentais do Tratado relativas aos auxílios estatais (acórdãos Comissão/Sytraval e Brink’s
         France, já referido, n.° 62, e SIC/Comissão, já referido, n.° 105).
      
      178   No caso em apreço, a recorrente não invoca nenhum elemento sério que permita concluir que a Comissão não procedeu a uma instrução
         suficiente nos autos. Pelo contrário, resulta dos elementos dos autos que essa instituição convidou as autoridades do Reino
         Unido a apresentarem as suas observações sobre os principais fundamentos enunciados na primeira denúncia – no essencial, semelhantes
         aos fundamentos que constam da denúncia da recorrente, e que lhes solicitou informações complementares, que foram prestadas
         pelo ofício de 19 de Fevereiro de 2002, acima referido. Neste contexto, na inexistência de qualquer outro indício, a mera
         circunstância de a decisão impugnada ter sido adoptada rapidamente não permite concluir pela insuficiência da instrução.
      
      179   Por outro lado, há que observar que a Comissão comunicou à recorrente a decisão impugnada, destinada ao Estado‑Membro em causa,
         em conformidade com o princípio da boa administração. Ora, essa decisão expõe suficientemente as razões da rejeição dos fundamentos
         invocados na denúncia da recorrente, como já foi decidido (v. n.os 144, 145 e 155, supra).
      
      180   Por conseguinte, o fundamento relativo à violação, pela Comissão, das suas obrigações na investigação preliminar deve ser
         julgado improcedente.
      
      181   Por todas estas razões, deve ser negado provimento ao recurso na íntegra.
       Quanto às despesas
      182   Por força do disposto no n.° 2 do artigo 87.° do Regulamento de Processo, a parte vencida é condenada nas despesas, se a parte
         vencedora o tiver requerido. Tendo a recorrente sido vencida, há que condená‑la nas despesas, em conformidade com o pedido
         da Comissão.
      
      183   Por força do disposto no artigo 87.°, n.° 4, primeiro parágrafo, do Regulamento de Processo, os Estados‑Membros que intervenham
         no processo devem suportar as respectivas despesas. Por conseguinte, o Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte suportará
         as suas próprias despesas.
      
      Pelos fundamentos expostos,
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Segunda Secção alargada)
      decide:
      1)      É negado provimento ao recurso.
      2)      A recorrente suportará, para além das suas próprias despesas, as despesas da Comissão.
      3)      O interveniente suportará as suas próprias despesas.
      
               Pirrung
            
            
               Meij
            
            
               Forwood
            
         
               Pelikánová
            
             
            
                     Papasavvas
            
         Proferido em audiência pública no Luxemburgo, em 13 de Setembro de 2006.
      
               O secretário
            
             
            
                     O presidente
            
         
               E. Coulon
            
             
            
                     J. Pirrung
            
         Índice
      Factos na origem do litígio
      Finance Act 2001
      Processo administrativo e contencioso no tribunal nacional
      Decisão impugnada
      Tramitação processual
      Pedidos das partes
      Quanto à admissibilidade
      Argumentos das partes
      Apreciação do Tribunal
      Quanto ao mérito
      Quanto aos fundamentos relativos à violação do artigo 87.°, n.° 1, CE e à falta de fundamentação
      Argumentos das partes
      Apreciação do Tribunal
      – Âmbito de aplicação material do AGL
      – Isenção das exportações
      Quanto ao fundamento relativo à violação da obrigação de dar início ao procedimento formal de investigação
      Argumentos das partes
      Apreciação do Tribunal
      Quanto ao fundamento relativo à violação, pela Comissão, das suas obrigações na investigação preliminar
      Argumentos das partes
      Apreciação do Tribunal
      Quanto às despesas
      * Língua do processo: inglês.