CELEX: 62003CJ0088
Language: pt
Date: 2006-09-06 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 6 de Septembro de 2006. # República Portuguesa contra Comissão das Comunidades Europeias. # Recurso de anulação - Auxílios de Estado - Decisão 2003/442/CE - Medidas fiscais adoptadas por uma colectividade regional ou local - Redução das taxas do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e colectivas com domicílio fiscal nos Açores - Qualificação como auxílio de Estado - Carácter selectivo - Justificação pela natureza e pela economia do sistema fiscal - Dever de fundamentação - Compatibilidade com o mercado comum. # Processo C-88/03.

Processo C‑88/03
      República Portuguesa
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias
      «Recurso de anulação – Auxílios de Estado – Decisão 2003/442/CE – Medidas fiscais adoptadas por uma colectividade regional ou local – Redução das taxas do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e colectivas com domicílio fiscal nos Açores – Qualificação como auxílio de Estado – Carácter selectivo – Justificação pela natureza e pela economia do sistema fiscal – Dever de fundamentação – Compatibilidade com o mercado comum»
      Conclusões do advogado‑geral L. A. Geelhoed apresentadas em 20 de Outubro de 2005 
      Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 6 de Setembro de 2006 
      Sumário do acórdão
      1.     Auxílios concedidos pelos Estados – Conceito – Carácter selectivo da medida
      (Artigo 87.°, n.° 1, CE)
      2.     Auxílios concedidos pelos Estados – Conceito – Carácter selectivo da medida
      (Artigo 87.°, n.° 1, CE)
      3.     Actos das instituições – Fundamentação – Dever – Âmbito
      (Artigos 87.°, n.° 1, CE e 253.° CE)
      4.     Auxílios concedidos pelos Estados – Proibição – Derrogações – Poder de apreciação da Comissão
      (Artigo 87.°, n.° 3, CE)
      1.     O artigo 87.°, n.° 1, CE proíbe os auxílios que «favoreçam certas empresas ou certas produções», relativamente a outras que,
         à luz do objectivo prosseguido pelo referido regime, se encontrem numa situação factual e jurídica comparável, isto é, os
         auxílios selectivos. Todavia, o conceito de auxílio de Estado não abrange as medidas estatais que introduzem uma diferenciação
         entre empresas, e que, portanto, são a priori selectivas, quando essa diferenciação resulta da natureza ou da economia do sistema de imposições em que se inscrevem.
      
      Uma medida que constitui uma excepção à aplicação do sistema fiscal geral pode ser justificada pela natureza e pela economia
         geral do sistema fiscal se o Estado‑Membro em causa conseguir demonstrar que tal medida resulta directamente dos princípios
         fundadores ou directores do seu sistema fiscal. A este respeito, deve fazer‑se uma distinção entre, por um lado, os objectivos
         de um dado regime fiscal, que lhe são exteriores, e, por outro, os mecanismos inerentes ao próprio sistema fiscal, que são
         necessários para a realização de tais objectivos.
      
      (cf. n.os 52, 54, 81)
      
      2.     Quando se trata de analisar se uma medida reveste um carácter selectivo, a determinação do quadro de referência é fundamental
         e este quadro não deve necessariamente ser definido nos limites do território nacional.
      
      Por esse motivo, para apreciar a selectividade de uma medida adoptada por uma entidade infra‑estatal e que tem por objectivo
         fixar, numa parte apenas do território de um Estado‑Membro, uma taxa de imposto reduzida em relação à taxa em vigor no resto
         do referido Estado‑Membro, importa examinar se a referida medida foi adoptada por essa entidade no exercício de poderes suficientemente
         autónomos em relação ao poder central e, caso assim seja, apurar se se aplica efectivamente a todas as empresas estabelecidas
         ou a todas as produções realizadas no território em que essa entidade exerce a sua competência.
      
      Na hipótese de uma autoridade regional ou local adoptar, no exercício de poderes suficientemente autónomos em relação ao poder
         central, uma taxa de imposto inferior à taxa nacional e que é aplicável unicamente às empresas presentes no território sob
         jurisdição dessa autoridade, o quadro jurídico pertinente para apreciar a selectividade de uma medida fiscal pode limitar‑se
         à zona geográfica em questão no caso de a entidade infra‑estatal, designadamente em razão do seu estatuto e dos seus poderes,
         desempenhar um papel fundamental na definição do contexto político e económico em que operam as empresas presentes no território
         sob sua jurisdição.
      
      Para que se possa considerar que uma decisão tomada em tais circunstâncias foi adoptada no exercício de poderes suficientemente
         autónomos, importa, em primeiro lugar, que essa decisão tenha sido adoptada por uma autoridade local dotada, no plano constitucional,
         de um estatuto político e administrativo distinto do do Governo central. Em seguida, deve ter sido adoptada sem que o Governo
         central possa intervir directamente no seu conteúdo. Finalmente, as consequências financeiras de uma redução da taxa de imposto
         nacional aplicável às empresas presentes na região não devem ser compensadas por contribuições ou subvenções provenientes
         das outras regiões ou do Governo central.
      
      (cf. n.os 56‑58, 62, 65‑67)
      
      3.     A fundamentação exigida pelo artigo 253.° CE deve ser adaptada à natureza do acto em causa e revelar, de forma clara e inequívoca,
         o raciocínio da instituição autora do acto, de forma a permitir que os interessados conheçam as razões da medida adoptada
         e que o órgão jurisdicional competente exerça a sua fiscalização. Não se exige que a fundamentação especifique todos os elementos
         de facto e de direito pertinentes, na medida em que a questão de saber se a fundamentação de um acto cumpre as exigências
         do artigo 253.° CE deve ser apreciada à luz não somente do seu teor mas também do seu contexto e do conjunto das normas jurídicas
         que regem a matéria em causa.
      
      Aplicado à qualificação de uma medida de auxílio, este princípio exige que sejam indicadas as razões pelas quais a Comissão
         considera que a medida em causa se enquadra no âmbito de aplicação do artigo 87.°, n.° 1, CE. A este respeito, mesmo nos casos
         em que resulta das circunstâncias em que esse auxílio foi concedido que este é susceptível de afectar as trocas comerciais
         entre Estados‑Membros e de falsear ou de ameaçar falsear a concorrência, incumbe à Comissão, pelo menos, evocar essas circunstâncias
         nos fundamentos da sua decisão.
      
      (cf. n.os 88‑89)
      
      4.     Na aplicação do artigo 87.°, n.° 3, CE, a Comissão goza de um amplo poder de apreciação, cujo exercício envolve avaliações
         de ordem económica e social que devem ser efectuadas num contexto comunitário. O juiz comunitário, ao fiscalizar a legalidade
         do exercício dessa liberdade, não pode substituir a apreciação do autor da decisão pela sua própria apreciação na matéria,
         devendo limitar‑se a examinar se aquela está viciada por erro manifesto ou por desvio de poder.
      
      (cf. n.° 99)

      
      
      ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Grande Secção)
      6 de Setembro de 2006 (*)
      
      «Recurso de anulação – Auxílios de Estado – Decisão 2003/442/CE – Medidas fiscais adoptadas por uma colectividade regional ou local – Redução das taxas do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e colectivas com domicílio fiscal nos Açores – Qualificação como auxílio de Estado – Carácter selectivo – Justificação pela natureza e pela economia do sistema fiscal – Dever de fundamentação – Compatibilidade com o mercado comum»
      No processo C‑88/03,
      que tem por objecto um recurso de anulação nos termos do artigo 230.° CE, entrado em 24 de Fevereiro de 2003,
      República Portuguesa, representada por L. Fernandes, na qualidade de agente, assistido por J. da Cruz Vilaça e L. Romão, advogados, com domicílio
         escolhido no Luxemburgo,
      
      recorrente,
      apoiada por:
      Reino de Espanha, representado por N. Díaz Abad, na qualidade de agente, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
      
      Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte, representado por R. Caudwell, na qualidade de agente, assistida por D. Anderson, QC, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
      
      intervenientes,
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias, representada por V. Di Bucci e F. de Sousa Fialho, na qualidade de agentes, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
      
      recorrida,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Grande Secção),
      composto por: V. Skouris, presidente, P. Jann, C. W. A. Timmermans, A. Rosas (relator) e J. Malenovský, presidentes de secção,
         J.‑P. Puissochet, R. Schintgen, N. Colneric, S. von Bahr, J. Klučka e U. Lõhmus, juízes,
      
      advogado‑geral: L. A. Geelhoed,
      secretário: M. Ferreira, administradora principal,
      vistos os autos e após a audiência de 6 de Setembro de 2005,
      ouvidas as conclusões do advogado‑geral na audiência de 20 de Outubro de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
      1       Com o seu recurso, a República Portuguesa pede a anulação da Decisão 2003/442/CE da Comissão, de 11 de Dezembro de 2002, relativa
         à parte do regime que adapta o sistema fiscal nacional às especificidades da Região Autónoma dos Açores referente à vertente
         das reduções das taxas do imposto sobre o rendimento (JO L 150, p. 52, a seguir «decisão impugnada»).
      
       Quadro jurídico
       Regulamentação comunitária
      2       O artigo 87.°, n.° 1, CE estabelece:
      «Salvo disposição em contrário do presente Tratado, são incompatíveis com o mercado comum, na medida em que afectem as trocas
         comerciais entre os Estados‑Membros, os auxílios concedidos pelos Estados ou provenientes de recursos estatais, independentemente
         da forma que assumam, que falseiem ou ameacem falsear a concorrência, favorecendo certas empresas ou certas produções.»
      
      3       A Comunicação da Comissão, de 10 de Dezembro de 1998, sobre a aplicação das regras relativas aos auxílios estatais às medidas
         que respeitam à fiscalidade directa das empresas (JO C 384, p. 3, a seguir «comunicação relativa aos auxílios de Estado no
         domínio da fiscalidade directa»), indica, no seu ponto 2, que se propõe fornecer esclarecimentos quanto à qualificação como
         auxílio nos termos do n.° 1 do artigo 87.°, no caso das medidas fiscais.
      
      4       O artigo 87.°, n.° 3, CE prevê que podem ser considerados compatíveis com o mercado comum:
      «a)      Os auxílios destinados a promover o desenvolvimento económico de regiões em que o nível de vida seja anormalmente baixo ou
         em que exista grave situação de subemprego;
      
      […]
      c)      Os auxílios destinados a facilitar o desenvolvimento de certas actividades ou regiões económicas, quando não alterem as condições
         das trocas comerciais de maneira que contrariem o interesse comum;
      
      [...]»
      5       O artigo 299.°, n.° 2, CE indica que o disposto no Tratado é aplicável aos departamentos franceses ultramarinos, aos Açores,
         à Madeira e às ilhas Canárias. Todavia, o legislador comunitário pode adoptar medidas específicas destinadas, em especial,
         a estabelecer as condições de aplicação do presente Tratado a essas regiões, tendo em conta que a sua situação social e económica
         estrutural é agravada por certos factores cuja persistência e conjugação prejudicam gravemente o seu desenvolvimento.
      
      6       Nos termos do ponto 4.15 das Orientações da Comissão sobre os auxílios estatais com finalidade regional (JO 1998, C 74, p. 9),
         conforme alteradas em 9 de Setembro de 2000 (JO C 258, p. 5, a seguir «orientações sobre os auxílios estatais com finalidade
         regional»), são proibidos os auxílios regionais destinados a reduzir as despesas correntes de uma empresa, isto é, os auxílios
         ao funcionamento.
      
      7       Todavia, nos termos do ponto 4.16.2 das referidas orientações, nas regiões ultraperiféricas que beneficiam da derrogação prevista
         no n.° 3, alíneas a) e c), do artigo 87.° CE, podem ser autorizados auxílios que não sejam simultaneamente degressivos e limitados
         no tempo, na medida em que contribuam para compensar os custos adicionais do exercício da actividade económica inerentes aos
         factores enunciados no n.° 2 do artigo 299.° CE, cuja persistência e conjugação prejudicam gravemente o desenvolvimento destas
         regiões. É igualmente indicado neste ponto que compete ao Estado‑Membro avaliar a importância desses custos e demonstrar a
         sua correlação com os referidos factores. Além disso, os auxílios previstos devem justificar‑se pelo seu contributo para o
         desenvolvimento regional e pela sua natureza, e o seu nível deve ser proporcional aos custos adicionais que visam compensar.
      
       Legislação nacional
      8       A Constituição da República Portuguesa, de 2 de Abril de 1976, dispõe que «os arquipélagos dos Açores e da Madeira constituem
         regiões autónomas dotadas de estatutos político‑administrativos e de órgãos de governo próprios». Contém, para tanto, várias
         disposições que regulam os poderes, atribuições e competências destas regiões e os respectivos órgãos políticos e administrativos.
      
      9       Resulta destas disposições que as regiões autónomas dispõem de receitas fiscais próprias e de uma participação nas receitas
         fiscais do Estado, estabelecida de acordo com um princípio que assegura a efectiva solidariedade nacional. Além disso, é da
         competência exclusiva das assembleias legislativas destas regiões exercer, nas condições estabelecidas numa lei‑quadro adoptada
         pela Assembleia da República, um poder tributário próprio, bem como adaptar o sistema fiscal nacional às especificidades regionais.
      
      10     Pela Lei n.° 13/98, de 24 de Fevereiro, Lei de Finanças das Regiões Autónomas (Diário da República,  I série‑A, n.° 46, de 24 de Fevereiro de 1998, p. 746, a seguir «Lei n.° 13/98»), o Estado português definiu de forma precisa
         as condições dessa autonomia financeira. Esta lei enuncia os princípios e os objectivos da autonomia financeira regional,
         prevê a coordenação das finanças das regiões autónomas com as finanças do Estado, estabelece o princípio da solidariedade
         nacional e a obrigação de cooperação entre o Estado e as regiões autónomas.
      
      11     No que respeita à cooperação entre o Estado e as regiões autónomas, o artigo 5.°, n.os 1 a 3, da Lei n.° 13/98 dispõe, designadamente:
      
      «1.      No cumprimento do dever constitucional e estatutário de solidariedade, o Estado, que deverá ter em conta as suas disponibilidades
         orçamentais e a necessidade de assegurar um tratamento igual a todas as parcelas do território nacional, participa com as
         autoridades das Regiões Autónomas na tarefa de desenvolvimento económico, na correcção das desigualdades derivadas da insularidade
         e na convergência económica e social com o restante território nacional e com a União Europeia.
      
      2.      A solidariedade nacional traduz‑se, designadamente, no plano financeiro, nas transferências orçamentais previstas no presente
         diploma e deverá adequar‑se, em cada momento, ao nível de desenvolvimento das Regiões Autónomas, visando sobretudo criar as
         condições que venham a permitir uma melhor cobertura financeira pelas suas receitas próprias. 
      
      3.      A solidariedade nacional visa assegurar um princípio fundamental de tratamento igual de todos os cidadãos portugueses e a
         possibilidade de todos eles terem acesso às políticas sociais definidas a nível nacional, bem como auxiliar a convergência
         económica e social com o restante território nacional e com a União [...], e traduz‑se, designadamente, nas transferências
         orçamentais a concretizar de harmonia com o disposto no presente diploma.»
      
      12     Como é recordado no ponto 7 dos fundamentos da decisão impugnada, a Lei n.° 13/98 prevê, em particular, que o imposto sobre
         o rendimento das pessoas singulares e o imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas constituem receita das regiões autónomas,
         nas condições que ela própria determina. Nos termos do artigo 37.° desta lei, as Assembleias Legislativas Regionais são autorizadas,
         nomeadamente, a diminuir as taxas do imposto sobre o rendimento que são aplicáveis nas respectivas regiões, até ao limite
         de 30% das taxas previstas pela legislação nacional.
      
       Regime especial da Região Autónoma dos Açores
      13     Através do Decreto Legislativo Regional n.° 2/99/A, de 20 de Janeiro de 1999, conforme alterado pelo Decreto Legislativo Regional
         n.° 33/99/A, de 30 de Dezembro de 1999 (a seguir «Decreto n.° 2/99/A»), o órgão legislativo da Região dos Açores aprovou as
         modalidades de adaptação do sistema fiscal nacional às especificidades regionais, em aplicação das competências que lhe estão
         atribuídas na matéria. Este decreto legislativo produz efeitos desde 1 de Janeiro de 1999 e inclui, em especial, uma vertente
         relativa às reduções das taxas dos impostos sobre o rendimento.
      
      14     Essas reduções das taxas são automaticamente aplicáveis a todos os agentes económicos (pessoas singulares e colectivas). Segundo
         as autoridades portuguesas, têm por objectivo, nomeadamente, permitir às empresas instaladas nos Açores ultrapassar as desvantagens
         estruturais decorrentes da sua localização numa região insular e ultraperiférica. A este título, todos os sujeitos passivos
         do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e do imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas na Região dos
         Açores beneficiam de reduções das taxas destes impostos, que podem atingir 20% (15% em 1999) para o primeiro destes impostos
         e 30% para o segundo. O custo orçamental desta medida é considerado pelas autoridades portuguesas, com base na perda de receitas
         fiscais que daí resultam, em cerca de 26,25 milhões de euros por ano.
      
       Decisão impugnada
      15     Por carta de 5 de Janeiro de 2000, as autoridades portuguesas notificaram a Comissão das Comunidades Europeias de um regime
         de adaptação do sistema fiscal nacional às especificidades da Região Autónoma dos Açores. Este regime, que foi notificado
         tardiamente, em resposta a um pedido de informações formulado pelos serviços da Comissão em 7 de Dezembro de 1999 na sequência
         de artigos publicados pela imprensa, e que entrou em vigor sem autorização da Comissão, foi inscrito no registo dos auxílios
         não notificados.
      
      16     Após ter examinado as informações transmitidas pelas autoridades portuguesas, a Comissão decidiu dar início ao procedimento
         previsto no artigo 88.°, n.° 2, CE, em relação à parte do regime referente à vertente das reduções das taxas dos impostos
         sobre o rendimento. No âmbito desse procedimento, o Governo regional das ilhas Åland (Finlândia) apresentou as suas observações
         à Comissão, em apoio da posição portuguesa.
      
      17     No termo desse procedimento, a Comissão adoptou a decisão impugnada.
      18     No ponto 23 dos fundamentos desta decisão, referindo‑se à sua comunicação relativa aos auxílios de Estado no domínio da fiscalidade
         directa, a Comissão recorda os critérios da definição de um auxílio estatal na acepção do n.° 1 do artigo 87.° CE. A medida
         em questão deve dar aos seus beneficiários uma vantagem que reduza os encargos que normalmente oneram o seu orçamento. Tal
         vantagem deve ser concedida pelo Estado ou através de recursos estatais, independentemente da sua forma. A medida em causa
         deve afectar a concorrência e as trocas comerciais entre os Estados‑Membros. Por último, deve ser específica ou selectiva,
         no sentido de que favorece certas empresas ou produções.
      
      19     No ponto 24 dos fundamentos da decisão impugnada, a Comissão conclui que cada um destes critérios está preenchido no que respeita
         às reduções das taxas dos impostos sobre o rendimento em causa. Considera, em especial, relativamente aos três primeiros critérios,
         que:
      
      –       «[…] [n]a medida em que as reduções das taxas do imposto em análise se aplicam a empresas, proporcionam [...] uma vantagem
         que reduz os encargos que oneram normalmente os seus orçamentos,
      
      –       a concessão de uma redução de imposto implica uma perda de receitas fiscais, que [...] ‘é equivalente ao consumo de recursos
         estatais na forma de despesas fiscais’. Na medida em que este princípio é aplicável igualmente no caso de auxílios atribuídos
         por entidades regionais e locais dos Estados‑Membros [...], as reduções das taxas do imposto em análise são concedidas mediante
         recursos estatais, ou seja, recursos que no sistema das finanças públicas portuguesas são afectados à Região Autónoma dos
         Açores,
      
      –       o critério de a concorrência e as trocas comerciais entre Estados‑Membros serem afectadas pressupõe que o beneficiário da
         medida exerce uma actividade económica, independentemente do seu estatuto jurídico ou do seu modo de financiamento. De acordo
         com uma jurisprudência constante, esta condição da afectação das trocas comerciais encontra‑se preenchida, dado que as empresas
         beneficiárias exercem uma actividade económica que é objecto de comércio entre os Estados‑Membros [...]. Tendo em conta a
         extensão do seu âmbito de aplicação sectorial e na medida em que pelo menos uma parte das empresas em causa exercerá uma actividade
         que é objecto de trocas comerciais entre os Estados‑Membros, é este o caso das reduções do imposto em análise».
      
      20     No que diz respeito ao elemento da selectividade, a Comissão cita o ponto 17 da sua comunicação relativa aos auxílios de Estado
         no domínio da fiscalidade directa, onde se indica que a prática decisória da Comissão demonstra que «apenas as medidas cujo
         âmbito abrange a totalidade do território do Estado escapam ao critério de especificidade estabelecido no n.° 1 do artigo
         87.° [CE]», que «[o] próprio Tratado qualifica como auxílios as medidas destinadas a promover o desenvolvimento económico
         de uma região». A Comissão considera que as reduções das taxas de imposto em causa constituem, para as empresas situadas numa
         determinada região de Portugal, uma vantagem de que não podem beneficiar as empresas que pretendem realizar operações económicas
         análogas noutras regiões de Portugal. Segundo o ponto 24 dos fundamentos da decisão impugnada, tais reduções favorecem, portanto,
         na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE, as empresas que devem pagar imposto na Região Autónoma dos Açores em relação a todas
         as outras empresas portuguesas.
      
      21     A Comissão baseia esta conclusão no seguinte raciocínio, exposto nos pontos 26, 27, 31 e 33 dos fundamentos da decisão impugnada.
      22     Em primeiro lugar, na medida em que o elemento de selectividade no conceito de auxílio assenta numa comparação entre dois
         grupos de empresas que se encontram no mesmo quadro de referência (as que beneficiam da vantagem e as que dela não beneficiam),
         não pode ser estabelecido senão em relação a uma tributação definida como normal. Segundo a Comissão, «resulta simultaneamente
         da economia do Tratado, que visa os auxílios concedidos pelo Estado ou através de recursos do Estado, e do papel fundamental
         que desempenham, na definição do ambiente político e económico em que as empresas operam, as autoridades centrais dos Estados‑Membros,
         graças às medidas que tomam, aos serviços que prestam e, eventualmente, às transferências financeiras que operam, que o quadro
         em que se deve proceder a tal comparação é o espaço económico do Estado‑Membro. [...] A prática constante da Comissão [...]
         consiste [...] em classificar como auxílios os regimes fiscais aplicáveis em determinadas regiões ou territórios e que são
         favoráveis em comparação com o regime geral de um Estado‑Membro [...]».
      
      23     Em segundo lugar, é inconciliável com o conceito de auxílio, que engloba todas as intervenções que diminuem os encargos que
         normalmente oneram o orçamento de uma ou de várias empresas, independentemente da sua finalidade, da sua justificação, do
         seu objectivo e do estatuto da autoridade pública que as institui ou cujo orçamento suporta o encargo, defender, como as autoridades
         portuguesas, que os benefícios com um alcance territorial limitado passariam a ser medidas gerais na região em causa, pelo
         simples facto de não terem sido instituídas pela autoridade central, mas sim pela autoridade regional, e de se aplicarem em
         todo o território sujeito à jurisdição da região. «Uma distinção baseada unicamente na entidade que decide da medida retiraria
         qualquer efeito útil ao artigo 87.° [CE], que pretende abranger as medidas em questão exclusivamente em função dos seus efeitos
         sobre a concorrência e sobre as trocas comunitárias [...]».
      
      24     A Comissão acrescenta que «a presente decisão não diz respeito a um mecanismo que permita ao conjunto das colectividades locais
         de determinado nível (regiões, concelhos ou outras) instituir e cobrar impostos locais, sem qualquer relação com a fiscalidade
         nacional. Pelo contrário, trata‑se, no caso vertente, de uma redução aplicável unicamente nos Açores da taxa de imposto fixada
         pela legislação nacional e aplicável na parte continental de Portugal. Nestas circunstâncias, é evidente que a medida adoptada
         pelas autoridades regionais constitui uma derrogação ao sistema fiscal nacional».
      
      25     Em terceiro lugar, as reduções das taxas dos impostos acima mencionadas não podem justificar‑se pela natureza ou pela economia
         do sistema fiscal português. A Comissão considera que, em especial, e «na medida em que estas reduções não resultam da aplicação
         de princípios como a proporcionalidade ou a progressividade fiscal, favorecendo pelo contrário empresas localizadas numa região
         específica, independentemente da sua situação financeira, os objectivos de desenvolvimento regional que lhes são atribuídos
         não podem ser considerados como inerentes ao referido sistema fiscal português».
      
      26     Depois de, no ponto 34 dos fundamentos da decisão impugnada, ter qualificado as medidas em causa como auxílios de Estado,
         a Comissão considera, no ponto 35 dos referidos fundamentos, que esses auxílios, tendo em conta que têm por objectivo ultrapassar
         as desvantagens estruturais permanentes decorrentes do carácter insular da Região dos Açores e do seu afastamento dos centros
         económicos continentais, mediante uma redução das despesas correntes das empresas, constituem auxílios ao funcionamento. Acrescenta
         que tais auxílios podem ser autorizados se se destinarem a reduzir os custos adicionais do exercício da actividade económica
         inerentes às desvantagens enunciadas no n.° 2 do artigo 299.° CE, no respeito das condições estabelecidas no ponto 4.16.2
         das orientações sobre os auxílios estatais com finalidade regional, ou seja, justificar‑se pelo seu contributo para o desenvolvimento
         regional e pela sua natureza, e o seu nível deve ser proporcional aos custos adicionais que visam compensar.
      
      27     A este respeito, a Comissão afirma, no ponto 38 dos fundamentos da decisão impugnada, que, na medida em que as referidas reduções
         das taxas do imposto sobre o rendimento serão aplicáveis a «empresas que operam fora do sector financeiro», a Comissão pode
         igualmente considerá‑los compatíveis com o mercado comum ao abrigo da derrogação prevista no n.° 3, alínea a), do artigo 87.° CE.
      
      28     Em contrapartida, segundo a Comissão, na medida em que se aplicam a empresas que operam no sector financeiro, as reduções
         das taxas do imposto sobre o rendimento não se justificam em função do seu contributo para o desenvolvimento regional e o
         seu nível não é proporcional às deficiências que visariam atenuar. A Comissão não pode assim considerar que essas reduções
         constituem auxílios compatíveis com o mercado comum, na acepção do n.° 3, alínea a), do artigo 87.° CE, tanto mais que continuam
         a faltar elementos quantificados que permitam medir objectivamente o nível dos custos adicionais com que se defrontam as sociedades
         financeiras sujeitas a imposto na Região dos Açores. Por conseguinte, esses auxílios também não podem ser abrangidos por outras
         derrogações previstas no Tratado.
      
      29     Importa assinalar que, no ponto 18 dos fundamentos da decisão impugnada, a Comissão tinha assinalado, no diz respeito ao estudo
         apresentado pelas autoridades portuguesas, a ausência de empresas do sector financeiro entre as empresas da amostra de base.
         Tinha sublinhado que as autoridades portuguesas se tinham limitado a justificar essa ausência por falta de dados estatísticos
         relativos ao sector, reconhecendo por isso que, em relação a tais actividades, não lhes seria possível demonstrar de maneira
         rigorosa que as reduções das taxas do imposto em questão seriam, pela sua natureza e o seu nível, susceptíveis de resolver
         os problemas específicos da Região dos Açores.
      
      30     Por outro lado, a Comissão acrescenta, no ponto 42 dos fundamentos da decisão impugnada, que, por razões de transparência
         e de segurança jurídica, há que excluir igualmente do benefício de uma decisão de compatibilidade com o mercado comum «as
         actividades do tipo ‘serviços intragrupo’ (actividades cujo fundamento económico é prestar serviços às empresas pertencentes
         a um mesmo grupo, como centros de coordenação, de tesouraria ou de distribuição)». Considera, com efeito, que «tais actividades
         não participam suficientemente no desenvolvimento regional e não podem por isso ser declaradas compatíveis por força do n.° 3,
         alínea a), do artigo 87.°, nem a título de outras derrogações previstas pelo Tratado, pelas mesmas razões indicadas a propósito
         do sector financeiro».
      
      31     Consequentemente, no artigo 1.° da decisão impugnada, a Comissão declara compatível com o mercado comum a parte do regime
         que adapta o sistema fiscal nacional às especificidades da Região Autónoma dos Açores a que se refere a vertente relativa
         às reduções das taxas dos impostos sobre o rendimento, sob reserva do disposto no artigo 2.°, nos termos do qual a parte do
         regime de auxílios referida no artigo 1.° é incompatível com o mercado comum desde que seja aplicável a empresas que exerçam
         actividades financeiras, bem como a empresas que exerçam actividades do tipo «serviços intragrupo». No artigo 3.° da decisão
         impugnada, a Comissão intima Portugal a adoptar as medidas necessárias para recuperar, junto das empresas que exercem as actividades
         mencionadas no artigo 2.°, os auxílios pagos a título da parte do regime de auxílios referida no artigo 1.°
      
       Pedidos das partes
      32     Por despacho do presidente do Tribunal de Justiça de 16 de Setembro de 2003, foi admitida a intervenção do Reino Unido da
         Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte em apoio dos pedidos da República Portuguesa.
      
      33     Por despacho do presidente do Tribunal de Justiça de 9 de Junho de 2005, foi admitida a intervenção do Reino de Espanha em
         apoio dos pedidos da República Portuguesa.
      
      34     A República Portuguesa conclui pedindo que o Tribunal de Justiça se digne:
      –       declarar o recurso admissível;
      –       declarar o recurso procedente e, em consequência, anular a decisão impugnada, na medida em que esta considera que as reduções
         das taxas do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e colectivas com residência fiscal na Região Autónoma dos Açores
         constituem auxílios de Estado;
      
      –       se assim não se entender e sem prescindir, declarar o recurso procedente e decretar a anulação parcial da decisão impugnada,
         na medida em que esta declara incompatível com o mercado comum as reduções das taxas do imposto aplicáveis às empresas que
         operam no sector financeiro, bem como às empresas que exercem actividades do tipo «serviço intragrupo», e em que, no seu artigo
         3.°, intima a República Portuguesa a recuperar o seu montante;
      
      –       condenar a Comissão no pagamento de todas as despesas, incluindo as suportadas pela República Portuguesa.
      35     A Comissão das Comunidades Europeias pede que o Tribunal de Justiça se digne:
      –       rejeitar o recurso como infundado;
      –       condenar a República Portuguesa nas despesas.
      36     O Reino Unido, que interveio em apoio dos pedidos de Portugal, conclui pedindo que o Tribunal de Justiça dê provimento ao
         recurso e que, em consequência, anule a decisão impugnada, na medida em que considera que as reduções das taxas do imposto
         sobre o rendimento das pessoas singulares e do imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas que, para efeitos fiscais,
         residem ou têm sede nos Açores constituem auxílios de Estado.
      
       Quanto ao recurso
      37     O Governo português invoca três fundamentos de recurso. Em primeiro lugar, em sua opinião, a decisão impugnada baseia‑se num
         erro de direito na aplicação do artigo 87.°, n.° 1, CE, em dois sentidos. Em segundo lugar, a decisão está insuficientemente
         fundamentada, o que constitui uma violação do artigo 253.° CE. Em terceiro lugar, contém um erro manifesto de apreciação dos
         factos que condicionam a aplicação do artigo 87.°, n.° 3, alínea a), CE.
      
       Quanto ao primeiro fundamento, baseado num erro de direito na aplicação do artigo 87.°, n.° 1, CE
       Argumentos das partes
      38     Através do seu primeiro fundamento, o Governo português sustenta que as reduções das taxas dos impostos sobre o rendimento
         previstas pelo Decreto n.° 2/99/A a favor das pessoas singulares e colectivas instaladas nos Açores não constituem medidas
         selectivas, mas medidas de carácter geral, e que, de qualquer forma, a diferenciação que essas reduções operam em matéria
         de encargos se justifica pela natureza ou pela economia do sistema fiscal português.
      
      39     Quanto à apreciação do carácter selectivo de tais medidas, o Governo português começa por afirmar que a Comissão tomou erradamente
         como quadro de referência a totalidade do território português. Para apreciar a selectividade de uma medida, não há que situar
         necessariamente a referida medida num quadro de referência nacional. Assim, quando uma autoridade infra‑estatal, em relação
         à parte do território que é da sua competência, concede vantagens fiscais cujo alcance é limitado a uma parte do território,
         o quadro de referência deveria ser a região em causa. Na medida em que vantagens fiscais concedidas em tais condições sejam
         aplicáveis a todas as empresas submetidas a imposto nessa região, essas vantagens constituem medidas gerais, e não medidas
         selectivas.
      
      40     Em seguida, este governo sublinha que as reduções das taxas de imposto em causa emanam directamente dos princípios fundadores
         do sistema fiscal português, em especial dos princípios da redistribuição e da solidariedade nacional, bem como do grau de
         autonomia da região em causa. São o resultado do exercício da soberania constitucional e são motivadas pelos factores definidos
         no n.° 2 do artigo 299.° CE, ou seja, a insularidade, o clima difícil e a dependência económica dos Açores dum pequeno número
         de produtos.
      
      41     De qualquer forma, segundo o Governo português, a decisão impugnada ignora o facto de as reduções fiscais em causa serem justificadas
         pela natureza e pela economia do sistema fiscal português. Defende, a este respeito, que estas medidas contribuem para a realização
         dos objectivos estruturantes do sistema fiscal português, designadamente uma distribuição da carga fiscal em consonância com
         a capacidade contributiva, com uma finalidade redistributiva. Recorda também que existem diferenças objectivas entre os contribuintes
         com residência fiscal no território continental português e os contribuintes com residência fiscal nos Açores. Estes dois
         elementos têm, de resto, origem directamente nos textos constitucionais e legais que estabelecem os princípios fundadores
         do sistema fiscal português e a autonomia das regiões ultraperiféricas.
      
      42     Segundo a Comissão, resulta do sistema do Tratado que a selectividade de uma medida deve ser apreciada em relação ao quadro
         nacional. Tomar como quadro de referência a região que adopta a medida seria ignorar a função e a razão de ser das regras
         que o Tratado consagra sobre os auxílios estatais. Mesmo na ausência de selectividade material, medidas reservadas às empresas
         que operam em certas regiões de um Estado‑Membro têm carácter selectivo e constituem obviamente auxílios estatais. No caso
         vertente, as reduções das taxas do imposto em causa favorecem as empresas que são passíveis do imposto na Região dos Açores,
         em relação a todas as outras empresas portuguesas, uma vez que, nas regiões de Portugal continental, os impostos nacionais
         em questão não podem ser modulados em baixa pelas autoridades locais e são aplicáveis à taxa plena, o que basta para se concluir
         pela selectividade da medida em questão, na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE. O facto de as reduções fiscais em causa terem
         sido decididas por uma entidade diferente do Estado central é desprovido de qualquer pertinência: só os efeitos da medida,
         e não a sua forma, podem ser tomados em conta para a sua qualificação.
      
      43     A Comissão considera, além disso, que o grau de autonomia da Região Autónoma dos Açores é, na realidade, limitado. O Estado
         central português continua a desempenhar um papel fundamental na definição do contexto político e económico em que as empresas
         operam. A título de exemplo, empresas que operam nos Açores podem beneficiar de infra‑estruturas financiadas pelo Estado central
         ou de um sistema de segurança social cujo equilíbrio financeiro é assegurado por esse mesmo Estado central. Por outro lado,
         a diminuição das receitas fiscais resultante, para a região em causa, das reduções das taxas de imposto em causa é indirectamente
         compensada, no plano orçamental, por transferências provenientes do Estado central, em nome do princípio da solidariedade
         financeira.
      
      44     Quanto à justificação das vantagens fiscais em questão pela natureza e pela economia do sistema fiscal português, a Comissão
         alega que só poderia ser admitida se tais vantagens decorressem de diferenças objectivas entre os contribuintes. Ora, a Comissão
         considera que não é o caso das reduções em questão, visto que se aplicam a todas as empresas situadas nos Açores, independentemente
         da sua situação financeira, e decorrem das características económicas da região, que constituem elementos extrínsecos ao sistema
         de imposição. A Comissão indica que o conceito de natureza ou de economia do sistema fiscal remete para a lógica interna do
         sistema de imposições obrigatórias e para diferenciações técnicas necessárias e proporcionadas às situações objectivamente
         diferentes às quais se aplica o sistema de imposição e que respondem à exigência de fazer funcionar o melhor possível um tal
         sistema em todas as hipóteses que lhe dizem respeito.
      
      45     O Governo do Reino Unido, que interveio em apoio da República Portuguesa, concentrou a sua argumentação na apreciação do critério
         da selectividade. Afastando o argumento da Comissão segundo o qual as medidas cujo alcance não se estenda ao conjunto do território
         de um Estado‑Membro satisfazem o critério de especificidade estabelecido no artigo 87.°, n.° 1, CE, alega que esse critério
         pode, por vezes, não ser preenchido pelas medidas fiscais que são adoptadas pelas regiões descentralizadas ou autónomas, que
         se aplicam ao conjunto do território sob sua jurisdição e que não são específicas a certos sectores.
      
      46     Segundo o Governo do Reino Unido, quando, como no caso vertente, o legislador de uma região autónoma institui impostos a uma
         taxa que aplica uniformemente na região, mas que é mais baixa do que a que é aplicada, por decisão do legislador nacional,
         noutras partes do Estado em questão, a selectividade da medida não pode ser deduzida do simples facto de as outras regiões
         estarem submetidas a um nível de imposição diferente. Conforme as circunstâncias, o quadro no âmbito do qual a selectividade
         deve ser apreciada é a própria região, e não o Estado‑Membro como um todo. É o que acontece quando existe um sistema constitucional
         que reconhece uma autonomia fiscal suficiente para que se possa considerar que uma redução de impostos decretada por uma colectividade
         local foi decidida por uma região autónoma ou descentralizada que não só tem o poder de tomar essa decisão, mas que, além
         disso, deve suportar as suas consequências financeiras e políticas.
      
      47     Por conseguinte, antes de qualificar como auxílios de Estado as taxas reduzidas de tributação regionais relativamente à taxa
         de imposto nacional, a Comissão deveria ter tido em conta, segundo este governo, o grau de autonomia da autoridade infra‑estatal
         que instituiu essas taxas reduzidas à luz de diversos factores, como o facto de a competência em matéria fiscal fazer parte
         de um sistema constitucional que confere à região um grau significativo de poder político, de a decisão de instituir reduções
         da tributação ser tomada por um órgão eleito pela população da região responsável perante esta e de as consequências financeiras
         da decisão serem suportadas pela região, sem existir qualquer subsídio ou contribuição em contrapartida de outras regiões
         ou do poder central.
      
      48     Segundo o Governo do Reino Unido, a apreciação da natureza de um sistema fiscal regional relativamente aos auxílios de Estado
         suscita problemas mais amplos no que respeita à autonomia regional, que revestem grande importância no plano constitucional.
         Em especial, o sistema constitucional de descentralização «assimétrica» do Reino Unido poderia ser posto em causa, tendo em
         conta a situação da Escócia e da Irlanda do Norte.
      
      49     O Reino de Espanha, que também intervém em apoio da República Portuguesa, sublinha que a atribuição de competências, quando
         prevista, integra o quadro constitucional dos Estados‑Membros. Por conseguinte, concordar com os argumentos da Comissão implicaria
         ignorar esta estrutura constitucional, designadamente na medida em que a política de tributação directa permanece na competência
         exclusiva dos Estados‑Membros.
      
      50     Nas suas observações sobre as alegações de intervenção do Reino Unido, a Comissão contesta que a abordagem adoptada pela Comissão
         na decisão impugnada impeça o exercício, pela Escócia ou pela Irlanda do Norte, dos poderes fiscais que lhes são reconhecidos.
      
      51     A Comissão acrescenta que o facto de tratar da mesma maneira, por um lado, as reduções do imposto aplicáveis numa determinada
         região e decididas centralmente e, por outro lado, as reduções idênticas decididas por uma autoridade regional é coerente
         com o princípio segundo o qual a natureza do auxílio se define em função dos efeitos da medida no que diz respeito às empresas
         ou aos produtores, sem que seja necessário ter em conta as suas causas ou os seus objectivos, nem tão‑pouco a situação dos
         organismos distribuidores ou gestores do auxílio (acórdãos de 2 de Julho de 1974, Itália/Comissão, 173/73, Colect., p. 357,
         n.os 27 e 28, e de 22 de Março de 1977, Steinike & Weinlig, 78/76, Colect., p. 203, n.° 21). Em contrapartida, os critérios propostos
         pelo Reino Unido, que pretendem que, «conforme as circunstâncias», a selectividade de uma medida seja analisada no quadro
         da região ou no quadro do Estado‑Membro como um todo, são incompatíveis com aquele princípio e conduziriam a uma insegurança
         jurídica que comprometeria o controlo dos auxílios de Estado.
      
       Apreciação do Tribunal de Justiça
      52     O artigo 87.°, n.° 1, CE proíbe os auxílios que «favoreçam certas empresas ou certas produções», isto é, os auxílios selectivos
         (v. acórdão de 15 de Dezembro de 2005, Itália/Comissão, C‑66/02, Colect., p. I‑10901, n.° 94). Todavia, é jurisprudência assente
         que o conceito de auxílio de Estado não abrange as medidas estatais que introduzem uma diferenciação entre empresas, e que,
         portanto, são a priori selectivas, quando essa diferenciação resulta da natureza ou da economia do sistema de imposições em que se inscrevem (v.,
         neste sentido, acórdãos de 2 de Julho de 1974, Itália/Comissão, já referido, n.° 33, e de 15 de Dezembro de 2005, Unicredito
         Italiano, C‑148/04, Colect., p. I‑11137, n.° 51).
      
      53     Assim, importa, antes de mais, determinar se as medidas de redução das taxas de imposto em causa têm carácter selectivo e,
         caso assim seja, apurar se, como defende o Governo português, tais medidas se justificam pela natureza e a economia do sistema
         fiscal português.
      
      54     No que respeita à apreciação da condição de selectividade, constitutiva do conceito de auxílio de Estado, é jurisprudência
         assente que o artigo 87.°, n.° 1, CE impõe que se determine se, no quadro de um dado regime jurídico, uma medida estatal é
         susceptível de favorecer «certas empresas ou certas produções» relativamente a outras que, à luz do objectivo prosseguido
         pelo referido regime, se encontrem numa situação factual e jurídica comparável (v., neste sentido, acórdãos de 8 de Novembro
         de 2001, Adria‑Wien Pipeline e Wietersdorfer & Peggauer Zementwerke, C‑143/99, Colect., p. I‑8365, n.° 41; de 29 de Abril
         de 2004, GIL Insurance e o., C‑308/01, Colect., p. I‑4777, n.° 68; e de 3 de Março de 2005, Heiser, C‑172/03, Colect., p. I‑1627,
         n.° 40).
      
      55     Tal análise impõe‑se igualmente em relação a uma medida adoptada não pelo legislador nacional mas por uma autoridade infra‑estatal,
         uma vez que uma medida adoptada por uma colectividade territorial e não pelo poder central é susceptível de constituir um
         auxílio se preencher os requisitos do artigo 87.°, n.° 1, CE (v. acórdão de 14 de Outubro de 1987, Alemanha/Comissão, 248/84,
         Colect., p. 4013, n.° 17).
      
      56     Resulta de quanto precede que, para apreciar a selectividade da medida em questão, há que analisar se, no quadro de um dado
         regime jurídico, a referida medida constitui uma vantagem para certas empresas em relação a outras que se encontrem numa situação
         factual e jurídica comparável. A determinação do quadro de referência reveste importância acrescida no caso das medidas fiscais,
         dado que a própria existência de uma vantagem só pode ser afirmada em relação a uma imposição dita «normal». A taxa de imposto
         normal é a taxa em vigor na zona geográfica que constitui o quadro de referência.
      
      57     A este respeito, o quadro de referência não deve necessariamente ser definido nos limites do território do Estado‑Membro em
         causa, de modo que uma medida que concede uma vantagem numa parte apenas do território nacional não é, por esse simples facto,
         selectiva na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE.
      
      58     Não se pode excluir que uma entidade infra‑estatal disponha de um estatuto de direito e de facto suficientemente autónomo
         em relação ao Governo central de um Estado‑Membro, para que, pelas medidas que adopta, seja essa entidade, e não o Governo
         central, que desempenha um papel fundamental na definição do contexto político e económico em que operam as empresas. Em tal
         caso, é o território onde exerce a sua competência a entidade infra‑estatal, autora da medida, e não o território nacional
         no seu conjunto, que constitui o contexto pertinente para determinar se uma medida adoptada por essa entidade favorece certas
         empresas em relação a outras que se encontrem numa situação factual e jurídica comparável, tendo em atenção o objectivo prosseguido
         pela medida ou o regime jurídico em causa.
      
      59     A argumentação da Comissão, segundo a qual tal análise contraria a letra do Tratado e uma jurisprudência bem estabelecida
         na matéria, não pode ser acolhida.
      
      60     É certo que o Tribunal de Justiça já decidiu que o facto de um programa de auxílios ter sido adoptado por uma colectividade
         territorial não impede a aplicação do artigo 87.°, n.° 1, CE, desde que estejam preenchidos os requisitos estabelecidos por
         esta disposição (v., neste sentido, acórdão Alemanha/Comissão, já referido, n.° 17). Por outro lado, como sublinhou a Comissão
         no ponto 26 dos fundamentos da decisão impugnada, o próprio texto do Tratado, que, no artigo 87.°, n.° 3, alíneas a) e c),
         qualifica como auxílios estatais susceptíveis de serem declarados compatíveis as medidas destinadas «a promover o desenvolvimento
         económico de uma região», indica que os benefícios cujo alcance se limite a uma parte do território do Estado sujeito à disciplina
         dos auxílios são susceptíveis de constituir benefícios selectivos. Todavia, daí não se pode deduzir que uma medida é selectiva,
         na acepção do artigo 87.°, n.° 1, CE, pelo simples facto de apenas se aplicar numa zona geográfica limitada de um Estado‑Membro.
      
      61     Também não se pode deduzir do acórdão de 19 de Setembro de 2000, Alemanha/Comissão (C‑156/98, Colect., p. I‑6857), que uma
         medida cujo benefício é reservado às empresas situadas em certas regiões é, por esse simples facto, selectiva. No n.° 23 desse
         acórdão, o Tribunal de Justiça considerou que o facto de uma redução fiscal beneficiar determinadas empresas estabelecidas
         nos novos Länder e em Berlim Ocidental lhe retirava a natureza de medida geral de política fiscal ou económica. Mas a medida de redução fiscal
         em causa tinha sido adoptada pelo legislador nacional e aplicava‑se a uma parte apenas das empresas estabelecidas em certas
         regiões da Alemanha, ou seja, as que empregavam no máximo 250 trabalhadores e cuja sede social e direcção efectiva se encontravam
         nos novos Länder ou em Berlim Ocidental, em derrogação do regime nacional que, à parte esta excepção, era uniforme.
      
      62     Para apreciar a selectividade de uma medida adoptada por uma entidade infra‑estatal e que tem por objectivo, como a medida
         em causa, fixar, numa parte apenas do território de um Estado‑Membro, uma taxa de imposto reduzida em relação à taxa em vigor
         no resto do referido Estado‑Membro, importa, como se declarou no n.° 58 do presente acórdão, examinar se a referida medida
         foi adoptada por essa entidade no exercício de poderes suficientemente autónomos em relação ao poder central e, caso assim
         seja, apurar se se aplica efectivamente a todas as empresas estabelecidas ou a todas as produções realizadas no território
         em que essa entidade exerce a sua competência.
      
      63     O advogado‑geral identificou, nos n.os 50 e seguintes das suas conclusões, três hipóteses em que se pode colocar a questão da qualificação como auxílio de Estado
         de uma medida destinada a estabelecer, para uma zona geograficamente limitada, taxas de imposto reduzidas em relação às taxas
         em vigor a nível nacional.
      
      64     Na primeira hipótese, o Governo central decide, unilateralmente, aplicar numa determinada área geográfica uma taxa de imposto
         mais baixa do que aquela que é aplicável a nível nacional. A segunda hipótese corresponde a um modelo de repartição das competências
         fiscais no qual todas as autoridades locais de determinado nível (regiões, concelhos ou outras) dispõem do poder de fixar
         livremente, dentro dos limites das competências de que dispõem, a taxa do imposto aplicável no território sob sua jurisdição.
         A Comissão reconheceu, à semelhança dos Governos português e do Reino Unido, que uma medida tomada por uma autoridade local
         nesta segunda hipótese não é selectiva, uma vez que não é possível determinar um nível de tributação normal, susceptível de
         constituir o parâmetro de referência.
      
      65     Na hipótese evocada em terceiro lugar, uma autoridade regional ou local adopta, no exercício de poderes suficientemente autónomos
         em relação ao poder central, uma taxa de imposto inferior à taxa nacional e que é aplicável unicamente às empresas presentes
         no território sob jurisdição dessa autoridade.
      
      66     Nesta última hipótese, o quadro jurídico pertinente para apreciar a selectividade de uma medida fiscal poderia limitar‑se
         à zona geográfica em questão no caso de a entidade infra‑estatal, designadamente em razão do seu estatuto e dos seus poderes,
         desempenhar um papel fundamental na definição do contexto político e económico em que operam as empresas presentes no território
         sob sua jurisdição.
      
      67     Para que se possa considerar que uma decisão tomada em tais circunstâncias foi adoptada no exercício de poderes suficientemente
         autónomos, importa, em primeiro lugar, como o advogado‑geral sublinhou no n.° 54 das suas conclusões, que essa decisão tenha
         sido adoptada por uma autoridade local dotada, no plano constitucional, de um estatuto político e administrativo distinto
         do do Governo central. Em seguida, deve ter sido adoptada sem que o Governo central possa intervir directamente no seu conteúdo.
         Finalmente, as consequências financeiras de uma redução da taxa de imposto nacional aplicável às empresas presentes na região
         não devem ser compensadas por contribuições ou subvenções provenientes das outras regiões ou do Governo central.
      
      68     Resulta do que precede que uma autonomia política e fiscal relativamente ao Governo central, que seja suficiente no que respeita
         à aplicação das regras comunitárias relativas aos auxílios de Estado, supõe, como sublinhou o Governo do Reino Unido, que
         a entidade infra‑estatal disponha não apenas da competência para adoptar, no território sob sua jurisdição, medidas de redução
         da taxa de imposto, independentemente de qualquer consideração relacionada com o comportamento do Estado central, mas que
         assuma, além disso, as consequências políticas e financeiras de tal medida.
      
      69     Uma vez que o Governo português contesta a apreciação, pela Comissão, da selectividade das medidas de redução fiscais em causa,
         importa analisar se essas medidas, que são vantajosas para as empresas que devem pagar imposto na Região dos Açores, preenchem
         os requisitos estabelecidos nos n.os 67 e 68 do presente acórdão.
      
      70     A este respeito, importa sublinhar que, por força da Constituição da República Portuguesa, os Açores constituem uma região
         autónoma dotada de um estatuto político administrativo e de órgãos de governo próprios, que têm o poder de exercer as suas
         próprias competências fiscais e de adaptar o sistema fiscal nacional às especificidades regionais, em conformidade com o disposto
         na Lei n.° 13/98 e no Decreto n.° 2/99/A.
      
      71     No que respeita à autonomia em termos económicos, o Governo português, em resposta à argumentação da Comissão relativa à falta
         de autonomia da Região Autónoma dos Açores em razão da existência de transferências financeiras compensatórias provenientes
         do Estado central, limitou‑se a sublinhar que a Comissão não tinha provado a razão de ser desta argumentação, mas ele próprio
         não demonstrou que a Região Autónoma dos Açores não recebe nenhum financiamento do Estado para compensar a redução de receitas
         fiscais eventualmente decorrente das reduções das taxas de imposto.
      
      72     A este respeito, há que assinalar que, ao abrigo do artigo 5.°, n.° 1, da Lei n.° 13/98 e no quadro da adaptação do sistema
         fiscal nacional às especificidades regionais, o princípio constitucional da solidariedade nacional foi precisado no sentido
         de que o Estado central participa, com as autoridades das regiões autónomas, na tarefa de desenvolvimento económico, na correcção
         das desigualdades derivadas da insularidade e na convergência económica e social com o restante território nacional.
      
      73     Segundo o artigo 32.° da referida lei, a aplicação deste princípio traduz‑se num dever, que incumbe tanto às autoridades centrais
         como regionais, de promover a correcção das desigualdades decorrentes da insularidade, com a consequente diminuição das pressões
         fiscais regionais, bem como num dever de assegurar um nível adequado de serviços públicos e de actividades privadas.
      
      74     Como reconhece o Governo português, foi como corolário deste edifício constitucional e legal que o Decreto n.° 2/99/A procedeu
         à adaptação do sistema fiscal nacional às especificidades regionais.
      
      75     Embora a diminuição de receitas fiscais que decorre eventualmente, para a Região dos Açores, das reduções das taxas de imposto
         em causa possa afectar a realização do objectivo, reconhecido pelo Governo português, de correcção das desigualdades em matéria
         de desenvolvimento económico, essa diminuição é, de qualquer modo, compensada por um mecanismo de financiamento gerido a nível
         central. No caso vertente, esse financiamento está expressamente previsto no artigo 5.°, n.° 2, da Lei n.° 13/98, sob a forma
         de transferências orçamentais.
      
      76     Daqui resulta que os dois aspectos da política fiscal do Governo regional, ou seja, por um lado, a decisão de diminuir a pressão
         fiscal regional exercendo o seu poder de redução das taxas de imposto sobre o rendimento e, por outro, o cumprimento da sua
         missão de correcção das desigualdades decorrentes da insularidade, estão indissociavelmente ligados e dependem, do ponto de
         vista financeiro, das transferências orçamentais geridas pelo Governo central.
      
      77     Neste contexto, há que concluir que a decisão do Governo da Região Autónoma dos Açores de exercer o seu poder de redução das
         taxas do imposto nacional sobre o rendimento, para permitir aos operadores económicos da região ultrapassar os inconvenientes
         estruturais decorrentes da sua localização insular e ultraperiférica, não foi adoptada no respeito de todos os requisitos
         estabelecidos nos n.os 67 e 68 do presente acórdão.
      
      78     Consequentemente, o quadro jurídico pertinente para apreciar a selectividade das medidas fiscais em causa não pode ser definido
         exclusivamente nos limites geográficos da Região dos Açores. Essas medidas devem ser apreciadas em relação ao conjunto do
         território português, no quadro do qual são selectivas.
      
      79     Daqui resulta que a Comissão considerou com razão, na decisão impugnada, que as reduções das taxas de imposto em causa constituem
         medidas selectivas, e não medidas de carácter geral.
      
      80     Em conformidade com a jurisprudência citada no n.° 52 do presente acórdão, importa portanto determinar se as medidas fiscais
         em causa podem ser justificadas pela natureza ou pela economia do sistema fiscal português, o que incumbe ao Estado‑Membro
         demonstrar.
      
      81     Uma medida que constitui uma excepção à aplicação do sistema fiscal geral pode ser justificada pela natureza e pela economia
         geral do sistema fiscal se o Estado‑Membro em causa conseguir demonstrar que tal medida resulta directamente dos princípios
         fundadores ou directores do seu sistema fiscal. A este respeito, deve fazer‑se uma distinção entre, por um lado, os objectivos
         de um dado regime fiscal, que lhe são exteriores, e, por outro, os mecanismos inerentes ao próprio sistema fiscal, que são
         necessários para a realização de tais objectivos.
      
      82     Ora, não se pode considerar que medidas como as que estão em causa, que se aplicam a qualquer operador económico sem distinção
         segundo a sua situação financeira, respondem a uma preocupação de respeito da capacidade contributiva numa lógica de redistribuição.
         Embora seja verdade que as desvantagens ligadas à insularidade dos Açores podem, em princípio, afectar qualquer operador económico,
         independentemente da sua situação financeira, o simples facto de o sistema fiscal regional estar concebido de forma a assegurar
         a correcção de tais desigualdades não permite considerar que qualquer benefício fiscal concedido pelas autoridades da Região
         Autónoma em causa seja justificado pela natureza e pela economia do sistema fiscal nacional. O facto de se actuar com base
         numa política de desenvolvimento regional ou de coesão social não basta para que uma medida adoptada no quadro de tal política
         possa considerar‑se justificada por esse simples facto.
      
      83     Consequentemente, o Governo português não demonstrou que a adopção, pela Região Autónoma dos Açores, das medidas em causa
         fosse necessária para o funcionamento e a eficácia do sistema fiscal geral. Limitou‑se a fazer uma afirmação genérica neste
         sentido, sem fornecer elementos precisos em seu apoio. Assim, não demonstrou que as medidas em causa fossem justificadas pela
         natureza ou pela economia do sistema fiscal português.
      
      84     Por conseguinte, a Comissão considerou com razão, na decisão impugnada, que a diferenciação em matéria de encargos resultante
         das reduções das taxas de imposto em causa não se justificava pela natureza ou pela economia do sistema fiscal português.
      
      85     Decorre de todas estas considerações que o primeiro fundamento do recurso deve ser julgado improcedente.
       Quanto ao segundo fundamento, relativo a fundamentação insuficiente quanto à existência de afectação das trocas comerciais
            intracomunitárias e de restrição sensível da concorrência
       Argumentos das partes
      86     Através do seu segundo fundamento, o Governo português sustenta, em substância, que a fundamentação da decisão impugnada não
         responde às exigências do artigo 253.° CE, na medida em que a referida decisão não precisa nem justifica o impacto das reduções
         das taxas de imposto em causa sobre as trocas comerciais entre os Estados‑Membros, nem o efeito sensível de distorção da concorrência
         dessas medidas.
      
      87     A Comissão contesta esta alegação, baseando‑se, designadamente, na jurisprudência do Tribunal de Justiça segundo a qual, quando
         está em causa um regime de auxílios de alcance geral, basta indicar que, pelo menos no caso de certos beneficiários, a medida
         afecta as trocas comerciais, não sendo a Comissão obrigada a ir mais ao pormenor quanto a esta questão nas suas decisões (acórdão
         de 7 de Março de 2002, Itália/Comissão, C‑310/99, Colect., p. I‑2289). No caso vertente, as reduções das taxas de imposto
         aplicam‑se a todos os operadores económicos que devem pagar impostos na Região dos Açores. Dado que pelo menos uma parte das
         empresas em causa exerce uma actividade que é objecto de trocas comerciais entre os Estados‑Membros e que está sujeita à concorrência
         comunitária, a decisão está, segundo a Comissão, suficientemente fundamentada.
      
       Apreciação do Tribunal de Justiça
      88     Segundo jurisprudência constante, a fundamentação exigida pelo artigo 253.° CE deve ser adaptada à natureza do acto em causa
         e revelar, de forma clara e inequívoca, o raciocínio da instituição autora do acto, de forma a permitir que os interessados
         conheçam as razões da medida adoptada e que o órgão jurisdicional competente exerça a sua fiscalização. Não se exige que a
         fundamentação especifique todos os elementos de facto e de direito pertinentes, na medida em que a questão de saber se a fundamentação
         de um acto cumpre as exigências do artigo 253.° CE deve ser apreciada à luz não somente do seu teor mas também do seu contexto
         e do conjunto das normas jurídicas que regem a matéria em causa (v., nomeadamente, acórdãos de 29 de Fevereiro de 1996, Bélgica/Comissão,
         C‑56/93, Colect., p. I‑723, n.° 86; de 15 de Maio de 1997, Siemens/Comissão, C‑278/95 P, Colect., p. I‑2507, n.° 17; e de
         15 de Julho de 2004, Espanha/Comissão, C‑501/00, Colect., p. I‑6717, n.° 73).
      
      89     Aplicado à qualificação de uma medida de auxílio, este princípio exige que sejam indicadas as razões pelas quais a Comissão
         considera que a medida em causa se enquadra no âmbito de aplicação do artigo 87.°, n.° 1, CE. Assim, mesmo nos casos em que
         resulta das circunstâncias em que esse auxílio foi concedido que este é susceptível de afectar as trocas comerciais entre
         Estados‑Membros e de falsear ou de ameaçar falsear a concorrência, incumbe à Comissão, pelo menos, evocar essas circunstâncias
         nos fundamentos da sua decisão (acórdãos de 7 de Junho de 1988, Grécia/Comissão, 57/86, Colect., p. 2855, n.° 15; de 24 de
         Outubro de 1996, Alemanha e o./Comissão, C‑329/93, C‑62/95 e C‑63/95, Colect., p. I‑5151, n.° 52; e de 19 de Setembro de 2000,
         Alemanha/Comissão, já referido, n.° 98).
      
      90     No caso vertente, basta sublinhar, a este respeito, que a decisão impugnada indica claramente e aplica à situação em apreço
         os critérios que uma medida deve satisfazer para constituir um auxílio de Estado.
      
      91     Quanto à apreciação, pela Comissão, dos efeitos do auxílio nas trocas comerciais intracomunitárias, refira‑se que a decisão
         impugnada, no ponto 24 dos seus fundamentos, como se recordou no n.° 19 do presente acórdão, deduz logicamente das características
         do sistema em causa e do alcance geral das reduções de tributação que este sistema implica, uma vez que tais reduções se aplicam
         a todos os sectores económicos dos Açores, que pelo menos uma parte das empresas em questão exercerá uma actividade económica
         que é objecto de tais trocas e que, portanto, as trocas comerciais entre Estados‑Membros são susceptíveis de ser afectadas.
      
      92     Resulta de quanto precede que o segundo fundamento invocado pelo Governo português, relativo à insuficiência de fundamentação,
         deve ser julgado improcedente.
      
       Quanto ao terceiro fundamento, relativo a um erro manifesto de apreciação na aplicação do artigo 87.°, n.° 3, alínea a), CE
       Argumentos das partes
      93     No seu terceiro fundamento, o Governo português acusa a Comissão de ter cometido um erro manifesto de apreciação na aplicação
         do artigo 87.°, n.° 3, alínea a), CE, ao excluir da derrogação prevista por esta disposição as reduções das taxas de imposto
         em causa na medida em que se aplicam às empresas que exercem actividades financeiras ou actividades do tipo «serviços intragrupo»
         e ao declará‑las incompatíveis com o mercado comum no artigo 2.° da decisão impugnada.
      
      94     Ora, segundo o Governo português, por um lado, actividades do tipo «serviços intragrupo» não existem na ordem jurídica portuguesa
         e, por outro lado, as empresas que operam no sector financeiro são susceptíveis de suportar os mesmos custos acrescidos decorrentes
         do carácter ultraperiférico e da insularidade da Região dos Açores que os que foram identificados, para outros sectores da
         economia, num estudo realizado pelo Centre for European Policy Studies, apresentado em 3 de Novembro de 1999 no quadro de
         um processo em matéria de auxílios de Estado relativo à Região Autónoma da Madeira. Esse estudo teve por objecto determinar
         as implicações do artigo 299.°, n.° 2, CE em relação às Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.
      
      95     A Comissão contesta ter cometido um erro manifesto de apreciação e recorda, em primeiro lugar, que, no que respeita à apreciação
         da compatibilidade dos auxílios, goza de um amplo poder de apreciação cujo exercício implica avaliações de ordem económica
         e social.
      
      96     A Comissão alega, em segundo lugar, que o estudo do Centre for European Policy Studies, em que se baseia o Governo português,
         não é pertinente para apreciar a compatibilidade das reduções das taxas de imposto aplicáveis às empresas que operam no sector
         financeiro. Esse estudo enumera os custos ligados à situação ultraperiférica da região em causa, sem quantificar o impacto
         dos custos sobre os diferentes sectores económicos. Ora, apesar de se poder razoavelmente admitir que todas as empresas localizadas
         na Região dos Açores estão confrontadas com as mesmas desvantagens estruturais permanentes, que decorrem do carácter insular
         do arquipélago dos Açores e do seu afastamento dos centros económicos continentais, daí não decorre que o impacto de tais
         desvantagens sobre os custos adicionais do exercício da actividade económica seja idêntico em todos os sectores.
      
      97     Segundo a Comissão, tendo em conta a extrema mobilidade dos serviços que oferece, o sector financeiro encontra‑se numa situação
         diferente do resto da economia dos Açores. Por esta razão, desde o início do procedimento, a Comissão convidou repetidamente
         as autoridades portuguesas a fornecer‑lhe elementos demonstrativos de que os benefícios concedidos ao sector financeiro eram
         justificados. A Comissão alega que, na falta de tais elementos individualizados, não pôde, com base na documentação fornecida
         pelas autoridades portuguesas, considerar que as reduções fiscais aplicáveis às empresas que operam neste sector são auxílios
         compatíveis com o mercado comum nos termos da derrogação prevista pelo artigo 87.°, n.° 3, alínea a), CE.
      
      98     A Comissão recorda ainda que se um Estado‑Membro não lhe fornece as informações pedidas ou se apenas lhe fornece informações
         parcelares, a legalidade da sua decisão terá de ser apreciada em função dos elementos de informação de que dispunha no momento
         em que a adoptou (acórdão de 13 de Junho de 2002, Países Baixos/Comissão, C‑382/99, Colect., p. I‑5163, n.° 49). Este princípio
         deve ser aplicado ainda com mais rigor no caso em apreço, já que foram enviados vários pedidos de informação às autoridades
         portuguesas e incumbe ao Estado‑Membro o ónus da prova de que os auxílios eram justificados, de acordo com o ponto 4.16.2
         das orientações sobre os auxílios estatais com finalidade regional.
      
       Apreciação do Tribunal de Justiça
      99     A título preliminar, há que recordar que a Comissão, na aplicação do artigo 87.°, n.° 3, CE, goza de um amplo poder de apreciação,
         cujo exercício envolve avaliações de ordem económica e social que devem ser efectuadas num contexto comunitário. O Tribunal
         de Justiça, ao fiscalizar a legalidade do exercício dessa liberdade, não pode substituir a apreciação do autor da decisão
         pela sua própria apreciação na matéria, devendo limitar‑se a examinar se aquela está viciada por erro manifesto ou por desvio
         de poder (v., nomeadamente, acórdãos de 7 de Março de 2002, Itália/Comissão, já referido, n.os 45 e 46; de 12 de Dezembro de 2002, França/Comissão, C‑456/00, Colect., p. I‑11949, n.° 41; e de 15 de Dezembro de 2005,
         Itália/Comissão, já referido, n.° 135).
      
      100   As orientações sobre os auxílios estatais com finalidade regional proíbem os auxílios regionais destinados a reduzir as despesas
         correntes de uma empresa, ou seja, os auxílios ao funcionamento. Todavia, nos termos do ponto 4.16.2 das referidas orientações,
         nas regiões ultraperiféricas que beneficiam da derrogação prevista no n.° 3, alíneas a) e c), do artigo 87.° CE, podem ser
         autorizados auxílios ao funcionamento na medida em que contribuam para compensar os custos adicionais do exercício da actividade
         económica inerentes aos factores enunciados no n.° 2 do artigo 299.° CE, cuja persistência e conjugação prejudicam gravemente
         o desenvolvimento destas regiões.
      
      101   É indicado neste ponto que compete ao Estado‑Membro avaliar a importância desses custos adicionais e demonstrar a sua correlação
         com os referidos factores. Tais auxílios devem justificar‑se pelo seu contributo para o desenvolvimento regional e pela sua
         natureza, e o seu nível deve ser proporcional aos custos adicionais que visam compensar.
      
      102   Importa sublinhar que, quando alega que as medidas em causa preenchem os critérios previstos pelas referidas orientações não
         só no que respeita aos sectores da actividade económica que não sejam serviços financeiros, como admite a Comissão na decisão
         impugnada, mas também no que respeita ao referido sector, o Governo português não contesta os termos das orientações sobre
         os auxílios estatais com finalidade regional. Este governo contesta unicamente o modo como a Comissão aplicou estas últimas
         ao sector financeiro da Região dos Açores. Considera, com efeito, ter demonstrado que as empresas que exercem actividades
         financeiras devem fazer face aos mesmos custos decorrentes da especificidade geográfica da região em causa que qualquer outra
         empresa que aí esteja estabelecida.
      
      103   Como se recordou no n.° 101 do presente acórdão, segundo as orientações sobre os auxílios estatais com finalidade regional,
         compete ao Estado‑Membro que concedeu os auxílios avaliar a sua importância e demonstrar que se justificam pelo seu contributo
         para o desenvolvimento regional e que o nível das vantagens assim concedidas é proporcional aos custos adicionais que visam
         compensar. Ora, resulta dos autos e do ponto 18 dos fundamentos da decisão impugnada que as autoridades portuguesas não forneceram
         tais elementos em relação ao sector financeiro.
      
      104   Embora seja verdade que a decisão impugnada não indica a razão pela qual a Comissão tinha considerado necessário dispor de
         elementos de prova quantificados no que respeita ao sector financeiro, não se pode daí concluir que esta instituição tenha
         excedido os limites do seu poder de apreciação.
      
      105   Assim, ao declarar incompatível com o mercado comum a parte do regime de auxílios referida no artigo 1.° da decisão impugnada
         na medida em que se aplica às empresas que exercem actividades financeiras, a Comissão não cometeu um erro manifesto de apreciação.
      
      106   Por outro lado, cabe sublinhar, no que respeita às empresas que exercem actividades do tipo «serviços intragrupo», que, em
         resposta ao argumento das autoridades portuguesas de que tais actividades não existem actualmente na ordem jurídica portuguesa,
         a Comissão declarou, no ponto 42 dos fundamentos da decisão impugnada, que, por razões de transparência e de segurança jurídica,
         no caso de tais actividades, na prática, poderem ser exercidas no âmbito de serviços fornecidos principalmente às empresas
         de um grupo, as reduções das taxas de imposto aplicáveis às empresas que exercem tais actividades devem, tal como acontece
         com as empresas do sector financeiro, ser excluídas de jure do benefício da derrogação prevista pelo artigo 87.°, n.° 3, alínea a), CE. Na verdade, a Comissão considera que, uma vez
         que os seus efeitos sobre a decisão de localização das empresas de um grupo e as suas externalidades sobre a economia local
         são fracos, tais actividades não participam suficientemente no desenvolvimento regional para que as medidas em causa, aplicadas
         a tais actividades, possam ser declaradas compatíveis com o mercado comum por força do n.° 3, alínea a), do artigo 87.° CE
         ou a título de outras derrogações previstas pelo Tratado, pelas mesmas razões indicadas a propósito do sector financeiro e
         independentemente da questão de saber se tais actividades existem num dado momento na ordem jurídica portuguesa. Na falta
         de argumentos desenvolvidos pelo Governo português contra estas afirmações, não ficou demonstrado que tenha sido cometido
         um erro manifesto de apreciação relativamente a tais empresas.
      
      107   Consequentemente, o terceiro fundamento do recurso, relativo a uma violação do artigo 87.°, n.° 3, alínea a), CE, deve ser
         julgado improcedente.
      
      108   Não tendo nenhum dos fundamentos invocados pelo Governo português merecido acolhimento, há que negar provimento ao recurso.
       Quanto às despesas
      109   Por força do disposto no artigo 69.°, n.° 2, do Regulamento de Processo, a parte vencida é condenada nas despesas se a parte
         vencedora o tiver requerido. Tendo a Comissão pedido a condenação da República Portuguesa e tendo esta sido vencida, há que
         condená‑la nas despesas. Nos termos do artigo 69.°, n.° 4, primeiro parágrafo, do mesmo regulamento, os Estados‑Membros que
         intervieram no litígio suportarão as suas próprias despesas.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Grande Secção) decide:
      1)      É negado provimento ao recurso.
      2)      A República Portuguesa é condenada nas despesas.
      3)      O Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte e o Reino de Espanha suportarão as suas próprias despesas.
      Assinaturas
      * Língua do processo: português.