CELEX: 62004CJ0344
Language: pt
Date: 2006-01-10
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 10 de Janeiro de 2006. # The Queen, a pedido de International Air Transport Association e European Low Fares Airline Association contra Department for Transport. # Pedido de decisão prejudicial: High Court of Justice (England & Wales), Queen's Bench Division (Administrative Court) - Reino Unido. # Transporte aéreo - Regulamento (CE) n.º 261/2004 - Artigos 5.º, 6.º e 7.º - Indemnização e assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso considerável dos voos - Validade - Interpretação do artigo 234.º CE. # Processo C-344/04.

Processo C‑344/04
      The Queen, a pedido de:
      International Air Transport Association
      e
      European Low Fares Airline Association
      contra
      Department for Transport
      [pedido de decisão prejudicial apresentado pela High Court of Justice (England & Wales), Queen’s Bench Division (Administrative
         Court)]
      
      «Transporte aéreo – Regulamento (CE) n.° 261/2004 – Artigos 5.°, 6.° e 7.° – Indemnização e assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso
         considerável dos voos – Validade – Interpretação do artigo 234.° CE»
      
      Conclusões do advogado-geral L. A. Geelhoed apresentadas em 8 de Setembro de 2005 
      Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 10 de Janeiro de 2006 
      Sumário do acórdão
      1.     Questões prejudiciais – Reenvio ao Tribunal – Impugnação da validade de um acto comunitário no órgão jurisdicional nacional
      (Artigo 234.°, segundo parágrafo, CE)
      2.     Transportes – Transportes aéreos – Regulamento n.° 261/2004 – Medidas de assistência aos passageiros em caso de atraso considerável
            de um voo
      (Regulamento n.° 261/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigo 6.°; Convenção de Montreal de 1999)
      3.     Actos das instituições – Fundamentação – Dever – Âmbito 
      (Artigo 253.° CE; Regulamento n.° 261/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigos 5.°, 6.° e 7.°)
      4.     Transportes – Transportes aéreos – Regulamento n.° 261/2004 – Medidas de assistência e de indemnização dos passageiros em
            caso de anulação ou atraso considerável de um voo
      (Regulamento n.° 261/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigos 5.°, 6.° e 7.°)
      5.     Transportes – Transportes aéreos – Regulamento n.° 261/2004 – Medidas de assistência e de indemnização dos passageiros em
            caso de anulação ou atraso considerável de um voo
      (Regulamento n.° 261/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigos 5.°, 6.° e 7.°)
      1.     A existência de impugnação da validade de um acto comunitário num órgão jurisdicional nacional não basta, por si só, para
         justificar o reenvio de uma questão prejudicial para o Tribunal de Justiça.
      
      Com efeito, os órgãos jurisdicionais cujas decisões são susceptíveis de recurso judicial de direito interno podem apreciar
         a validade de um acto comunitário e, se não considerarem procedentes os fundamentos de invalidade invocados pelas partes,
         podem rejeitar esses fundamentos, concluindo que o acto é plenamente válido, dado que, ao agirem deste modo, não põem em causa
         a existência do acto comunitário.
      
      Em contrapartida, se esses órgãos jurisdicionais julgarem procedentes um ou vários fundamentos de invalidade de um acto comunitário
         invocados pelas partes ou, se for caso disso, suscitados ex officio, devem suspender a instância e apresentar ao Tribunal um pedido de decisão prejudicial quanto à validade do acto comunitário.
      
      (cf. n.os 28‑30, 32, disp. 1)
      
      2.     As medidas de assistência aos passageiros em caso de atraso considerável de um voo, previstas no artigo 6.° do Regulamento
         n.° 261/2004 que estabelece regras comuns para a indemnização e a assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso
         de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso considerável dos voos, constituem medidas de reparação uniforme e imediata
         dos prejuízos ligados aos inconvenientes devidos aos atrasos no transporte aéreo de passageiros.
      
      Estas medidas não se incluem entre aquelas cujas condições de exercício são fixadas pela Convenção de Montreal para a unificação
         de certas regras relativas ao Transporte Aéreo Internacional e não podem, por isso, ser consideradas incompatíveis com esta
         Convenção.
      
      Com efeito, a referida convenção regula as condições em que, posteriormente ao atraso de um voo, podem ser propostas, pelos
         passageiros interessados, acções destinadas a obter a reparação individualizada dos danos, isto é, uma indemnização, por parte
         das transportadoras responsáveis, pelos danos causados por esse atraso, sem contudo subtrair as referidas transportadoras
         a qualquer outra forma de intervenção.
      
      As medidas de assistência uniformes e imediatas previstas no referido artigo 6.° não obstam a que os passageiros interessados,
         caso esse atraso lhes cause ainda danos que confiram direito a indemnização, possam, por outro lado, propor acções de indemnização
         pelos referidos danos, nas condições fixadas na Convenção de Montreal.
      
      (cf. n.os n.os 44‑48)
      
      3.     Os artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004, que estabelece regras comuns para a indemnização e a assistência aos
         passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso considerável dos voos, não são
         inválidos por violação do princípio da segurança jurídica ou do dever de fundamentação.
      
      Com efeito, dado que o Regulamento n.° 261/2004 traduz o essencial do objectivo prosseguido pelas instituições, não é exigido
         que o mesmo contenha uma fundamentação específica para cada uma das escolhas técnicas efectuadas. Neste aspecto, uma vez que
         o objectivo de protecção dos passageiros exige a adopção de medidas de reparação uniformes e eficazes, que não se possam prestar
         a discussão no preciso momento em que devem ser aplicadas, o que a exoneração por circunstâncias extraordinárias não deixaria
         de provocar, o legislador comunitário pôde, sem faltar ao seu dever de fundamentação, abster‑se de explicar os motivos por
         que entendeu que as transportadoras aéreas operadoras não podiam invocar essa exoneração para se eximirem das obrigações de
         assistência previstas nos artigos 5.° e 6.° daquele regulamento. Da mesma forma, o legislador comunitário pôde, sem ferir
         o acto em causa de ilegalidade, fixar no artigo 7.° do referido regulamento o princípio e o montante da indemnização fixa
         em caso de cancelamento do voo, sem explicar os motivos por que optou por essa medida e por esse montante.
      
      (cf. n.os 69, 70, 72, 77)
      
      4.     Tendo em conta o amplo poder de apreciação reconhecida ao legislador comunitário em matéria de política comum dos transportes,
         só o carácter manifestamente inadequado de uma medida adoptada neste domínio, em relação ao objectivo que a instituição competente
         pretende prosseguir, pode afectar a legalidade de tal medida do ponto de vista do dever de respeito pelo princípio da proporcionalidade.
      
      A esse respeito, as medidas de assistência e de indemnização aos passageiros, previstas nos artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento
         n.° 261/2004 que estabelece regras comuns para a indemnização e a assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso
         de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso considerável dos voos, não se afiguram manifestamente inadequadas ao objectivo
         pretendido pelo legislador comunitário, que se prende com o reforço da protecção dos passageiros vítimas de cancelamento ou
         atraso considerável dos voos. Pelo contrário, as medidas previstas nos artigos 5.° e 6.° do referido regulamento são, por
         si só, susceptíveis de reparar imediatamente alguns dos prejuízos sofridos por aqueles passageiros e permitem assim garantir
         um nível elevado de protecção dos interessados. Acresce que os critérios estabelecidos para determinar o direito dos passageiros
         a beneficiar dessas medidas, ou seja, a duração do atraso e da espera pelo próximo voo ou a rapidez com que os interessados
         foram informados do cancelamento do voo, não se revelam de modo nenhum alheios ao requisito da proporcionalidade. Do mesmo
         modo, dado que as medidas de reparação uniforme e imediata em causa variam consoante a importância dos prejuízos sofridos
         pelos passageiros, muito menos se pode dizer que apresentam um carácter manifestamente inadequado só pelo facto de as transportadoras
         não poderem invocar a exoneração por circunstâncias extraordinárias.
      
      Além disso, não está provado que a subscrição, pelos passageiros, de seguros facultativos para cobrir os riscos inerentes
         aos atrasos e cancelamentos de voos permitiria sempre remediar os prejuízos sofridos na altura pelos interessados. Por isso,
         tal medida não pode ser tida como mais adequada ao objectivo pretendido do que as adoptadas pelo legislador comunitário.
      
      Do mesmo modo, dado que as consequências prejudiciais provocadas pelo atraso não têm qualquer relação com o custo do bilhete
         adquirido, o argumento de que as medidas adoptadas para atenuar as referidas consequências deveriam ter sido estabelecidas
         na proporção desse custo não pode ser acolhido.
      
      Por último, quanto à indemnização prevista no artigo 7.° do referido regulamento, que os passageiros podem exigir se tiverem
         sido informados demasiado tarde do cancelamento do voo, não se afigura manifestamente inadequada ao objectivo pretendido,
         tendo em conta a existência da exoneração por circunstâncias extraordinárias que permite às transportadoras aéreas eximirem‑se
         do pagamento dessa indemnização e as condições restritivas para a concretização desta obrigação. Por outro lado, muito menos
         o montante da indemnização, fixada consoante a distância dos voos em causa, se revela excessivo.
      
      (cf. n.os 80, 82, 84‑88, 91)
      
      5.     As disposições dos artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004, que estabelece regras comuns para a indemnização e
         a assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso considerável
         dos voos, que impõem as mesmas obrigações a todas as transportadoras aéreas, não são inválidas por violação do princípio da
         igualdade de tratamento, apesar de não serem impostas obrigações desse tipo aos restantes meios de transporte.
      
      Com efeito, por um lado, a situação das empresas que operam no sector de actividade dos diferentes meios de transporte não
         é comparável, dado que estes meios de transporte não são, quanto às suas condições de utilização, intermutáveis.
      
      Por outro, em matéria de transporte aéreo, os passageiros vítimas de cancelamento ou atraso considerável de um voo encontram‑se
         numa situação objectivamente diferente daquela em se vêem os passageiros dos outros meios de transporte em incidentes da mesma
         natureza.
      
      Além disso, os prejuízos sofridos pelos passageiros dos transportes aéreos em caso de cancelamento ou atraso considerável
         de voos são análogos, sejam quais forem as companhias com que contrataram, e não têm relação com as políticas de preços praticadas
         por estas. Por isso e a não ser que o princípio da igualdade viesse a ser infringido face ao objectivo, pretendido pelo regulamento,
         de reforçar a protecção de todos os passageiros das transportadoras aéreas, o legislador comunitário tinha de tratar de forma
         idêntica todas as companhias aéreas.
      
      (cf. n.os 96‑99)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Grande Secção)
      10 de Janeiro de 2006 (*)
      
      «Transporte aéreo – Regulamento (CE) n.° 261/2004 – Artigos 5.°, 6.° e 7.° – Indemnização e assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso
         considerável dos voos – Validade – Interpretação do artigo 234.° CE»
      
      No processo C‑344/04,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentado pela High Court of Justice
         (England & Wales), Queen’s Bench Division (Administrative Court) (Reino Unido), por decisão de 14 de Julho de 2004, entrado
         no Tribunal de Justiça em 12 de Agosto de 2004, no processo
      
      The Queen, a pedido de:
      
      International Air Transport Association,
      European Low Fares Airline Association
      contra
      Department for Transport,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Grande Secção),
      composto por: V. Skouris, presidente, P. Jann, C. W. A. Timmermans, A. Rosas, K. Schiemann e J. Malenovský (relator), presidentes
         de secção, C. Gulmann, R. Silva de Lapuerta, K. Lenaerts, P. Kūris, E. Juhász, G. Arestis e A. Borg Barthet, juízes,
      
      advogado‑geral: L. A. Geelhoed,
      secretário: L. Hewlett, administradora principal,
      vistos os autos e após a audiência de 7 de Junho de 2005,
      vistas as observações apresentadas:
      –       em representação da International Air Transport Association, por M. Brealey, QC, e M. Demetriou, barrister, mandatados por
         J. Balfour, solicitor,
      
      –       em representação da European Low Fares Airline Association, por G. Berrisch, Rechtsanwalt, e C. Garcia Molyneux, abogado,
      –       em representação do Governo do Reino Unido, por M. Bethell, na qualidade de agente, assistido por C. Lewis, barrister,
      –       em representação do Parlamento Europeu, por K. Bradley e M. Gómez Leal, na qualidade de agentes,
      –       em representação do Conselho da União Europeia, por E. Karlsson, K. Michoel e R. Szostak, na qualidade de agentes,
      –       em representação da Comissão das Comunidades Europeias, por F. Benyon e M. Huttunen, na qualidade de agentes,
      ouvidas as conclusões do advogado‑geral na audiência de 8 de Setembro de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
      1       O pedido de decisão prejudicial tem por objecto, por um lado, a validade dos artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento (CE) n.° 261/2004
         do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de Fevereiro de 2004, que estabelece regras comuns para a indemnização e a assistência
         aos passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de cancelamento ou atraso considerável dos voos e que
         revoga o Regulamento (CEE) n.° 295/91 (JO L 46, p. 1). Por outro lado, o pedido tem por objecto a interpretação do segundo
         parágrafo do artigo 234.° CE.
      
      2       Este pedido foi apresentado no âmbito do litígio que opõe a International Air Transport Association (a seguir «IATA») e a
         European Low Fares Airline Association (a seguir «ELFAA») ao Department for Transport (Ministério dos Transportes) relativamente
         à execução do Regulamento n.° 261/2004.
      
       Quadro jurídico
       Regulamentação internacional
      3       A Convenção para a unificação de certas regras relativas ao Transporte Aéreo Internacional foi aprovada por decisão do Conselho,
         de 5 de Abril de 2001 (JO L 194, p. 38, a seguir «Convenção de Montreal»).
      
      4       Os artigos 17.° a 37.° da Convenção de Montreal constituem o capítulo III da mesma, sob a epígrafe «Responsabilidade da transportadora
         e limites da indemnização por danos».
      
      5       O artigo 19.° desta convenção, sob a epígrafe «Atrasos», dispõe:
      «A transportadora é responsável pelo dano resultante de atraso no transporte aéreo de passageiros, bagagens ou mercadorias.
         Não obstante, a transportadora não será responsável pelo dano resultante de atraso se provar que ela ou os seus trabalhadores
         ou agentes adoptaram todas as medidas que poderiam razoavelmente ser exigidas para evitar o dano ou que lhes era impossível
         adoptar tais medidas.»
      
      6       O artigo 22.°, n.° 1, da referida convenção limita a responsabilidade da transportadora por um atraso ao montante de 4 150
         direitos de saque especiais por passageiro. O n.° 5 do mesmo artigo prevê, no essencial, que esta limitação não se aplica
         se o dano tiver resultado de acto ou omissão da transportadora, cometido com a intenção de causar dano ou de forma imprudente
         e com consciência de que poderia provavelmente ocorrer dano.
      
      7       O artigo 29.° da mesma convenção, sob a epígrafe «Fundamento dos pedidos», tem a seguinte redacção:
      «No transporte de passageiros, bagagens e mercadorias, as acções por danos, qualquer que seja o seu fundamento, quer este
         resida na presente convenção, em contrato, em acto ilícito ou em qualquer outra causa, só podem ser intentadas sob reserva
         das condições e limites de responsabilidade previstos na presente convenção, sem prejuízo da determinação de quais as pessoas
         com legitimidade para a acção e de quais os direitos que lhes assistem. Em tais acções, as transportadoras não podem ser condenadas
         no pagamento de indemnizações punitivas, exemplares ou outras indemnizações não compensatórias.»
      
       Regulamentação comunitária
       Regulamento (CE) n.° 2027/97
      8       O Regulamento (CE) n.° 2027/97 do Conselho, de 9 de Outubro de 1997, relativo à responsabilidade das transportadoras aéreas
         em caso de acidente (JO L 285, p. 1), foi alterado pelo Regulamento (CE) n.° 889/2002 do Parlamento Europeu e do Conselho,
         de 13 de Maio de 2002 (JO L 140, p. 2, a seguir «Regulamento n.° 2027/97»).
      
      9       O artigo 3.°, n.° 1, do Regulamento n.° 2027/97 dispõe:
      «A responsabilidade das transportadoras aéreas comunitárias relativamente aos passageiros e à sua bagagem regula‑se por todas
         as disposições da Convenção de Montreal aplicáveis a essa responsabilidade.»
      
      10     O anexo ao Regulamento n.° 2027/97 inclui, designadamente, as seguintes disposições, sob a epígrafe «Atrasos dos passageiros»:
      «Em caso de atraso do passageiro, a transportadora aérea é responsável pelos prejuízos causados, a menos que tenha tomado
         todas as medidas razoáveis para os evitar ou tenha sido impossível tomar essas medidas. A responsabilidade pelos atrasos dos
         passageiros é limitada a 4 150 DSE (montante aproximado na divisa local).»
      
       Regulamento n.° 261/2004
      11     Os primeiro e segundo considerados do Regulamento n.° 261/2004 têm o seguinte teor:
      «(1)      A acção da Comunidade no domínio do transporte aéreo deve ter, entre outros, o objectivo de garantir um elevado nível de protecção
         dos passageiros. Além disso, devem ser tidas plenamente em conta as exigências de protecção dos consumidores em geral.
      
      (2)      As recusas de embarque e o cancelamento ou atraso considerável dos voos causam sérios transtornos e inconvenientes aos passageiros.»
      12     Nos termos do décimo segundo considerando do referido regulamento:
      «Os transtornos e inconvenientes causados aos passageiros pelo cancelamento dos voos deverão igualmente ser reduzidos. Para
         esse efeito, as transportadoras aéreas deverão ser persuadidas a informar os passageiros sobre os cancelamentos antes da hora
         programada de partida e, além disso, a oferecer‑lhes um reencaminhamento razoável, por forma a permitir‑lhes tomar outras
         disposições. Caso assim não procedam, as transportadoras aéreas deverão indemnizar os passageiros, a menos que o cancelamento
         se tenha ficado a dever a circunstâncias excepcionais que não poderiam ter sido evitadas mesmo que tivessem sido tomadas todas
         as medidas razoáveis.»
      
      13     Segundo o décimo quarto considerando do mesmo regulamento:
      «Tal como ao abrigo da Convenção de Montreal, as obrigações a que estão sujeitas as transportadoras aéreas operadoras deverão
         ser limitadas ou eliminadas nos casos em que a ocorrência tenha sido causada por circunstâncias extraordinárias que não poderiam
         ter sido evitadas mesmo que tivessem sido tomadas todas as medidas razoáveis. Essas circunstâncias podem sobrevir, em especial,
         em caso de instabilidade política, condições meteorológicas incompatíveis com a realização do voo em causa, riscos de segurança,
         falhas inesperadas para a segurança do voo e greves que afectem o funcionamento da transportadora aérea.»
      
      14     O artigo 5.° do Regulamento n.° 261/2004, sob a epígrafe «Cancelamento», dispõe:
      «1.      Em caso de cancelamento de um voo, os passageiros em causa têm direito a:
      a)      Receber da transportadora aérea operadora assistência nos termos do artigo 8.°; e
      b)      Receber da transportadora aérea operadora assistência nos termos da alínea a) do n.° 1 e do n.° 2 do artigo 9.°, bem como,
         em caso de reencaminhamento quando a hora de partida razoavelmente prevista do novo voo for, pelo menos, o dia após a partida
         que estava programada para o voo cancelado, a assistência especificada nas alíneas b) e c) do n.° 1 do artigo 9.°; e
      
      c)      Receber da transportadora aérea operadora indemnização nos termos do artigo 7.°, salvo se:
      i)      tiverem sido informados do cancelamento pelo menos duas semanas antes da hora programada de partida, ou
      ii)      tiverem sido informados do cancelamento entre duas semanas e sete dias antes da hora programada de partida e se lhes tiver
         sido oferecido reencaminhamento que lhes permitisse partir até duas horas antes da hora programada de partida e chegar ao
         destino final até quatro horas depois da hora programada de chegada, ou
      
      iii)      tiverem sido informados do cancelamento menos de sete dias antes da hora programada de partida e se lhes tiver sido oferecido
         reencaminhamento que lhes permitisse partir até uma hora antes da hora programada de partida e chegar ao destino final até
         duas horas depois da hora programada de chegada.
      
      2.      Ao informar os passageiros do cancelamento, devem ser prestados esclarecimentos sobre eventuais transportes alternativos.
      3.      A transportadora aérea operadora não é obrigada a pagar uma indemnização nos termos do artigo 7.°, se puder provar que o cancelamento
         se ficou a dever a circunstâncias extraordinárias que não poderiam ter sido evitadas mesmo que tivessem sido tomadas todas
         as medidas razoáveis.
      
      4.      O ónus da prova relativamente à questão de saber se e quando foi o passageiro informado do cancelamento recai sobre a transportadora
         aérea operadora.»
      
      15     O artigo 6.° do Regulamento n.° 261/2004, sob a epígrafe «Atrasos», tem a seguinte redacção:
      «1.      Quando tiver motivos razoáveis para prever que em relação à sua hora programada de partida um voo se vai atrasar:
      a)      Duas horas ou mais, no caso de quaisquer voos até 1 500 quilómetros; ou
      b)      Três horas ou mais, no caso de quaisquer voos intracomunitários com mais de 1 500 quilómetros e no de quaisquer outros voos
         entre 1 500 e 3 500 quilómetros; ou
      
      c)      Quatro horas ou mais, no caso de quaisquer voos não abrangidos pelas alíneas a) ou b),
      a transportadora aérea operadora deve oferecer aos passageiros:
      i)      a assistência especificada na alínea a) do n.° 1 e no n.° 2 do artigo 9.°, e
      ii)      quando a hora de partida razoavelmente prevista for, pelo menos, o dia após a hora de partida previamente anunciada, a assistência
         especificada nas alíneas b) e c) do n.° 1 do artigo 9.°, e
      
      iii)      quando o atraso for de, pelo menos, quatro horas, a assistência especificada na alínea a) do n.° 1 do artigo 8.°
      2.      De qualquer modo, a assistência deve ser prestada dentro dos períodos fixados no presente artigo para cada ordem de distância.»
      16     O artigo 7.° do Regulamento n.° 261/2004, sob a epígrafe «Direito a indemnização», dispõe:
      «1.      Em caso de remissão para o presente artigo, os passageiros devem receber uma indemnização no valor de:
      a)      250 euros para todos os voos até 1 500 quilómetros;
      b)      400 euros para todos os voos intracomunitários com mais de 1 500 quilómetros e para todos os outros voos entre 1 500 e 3 500
         quilómetros;
      
      c)      600 euros para todos os voos não abrangidos pelas alíneas a) ou b).
      Na determinação da distância a considerar, deve tomar‑se como base o último destino a que o passageiro chegará com atraso
         em relação à hora programada devido à recusa de embarque ou ao cancelamento.
      
      2.      Quando for oferecido aos passageiros reencaminhamento para o seu destino final num voo alternativo nos termos do artigo 8.°,
         cuja hora de chegada não exceda a hora programada de chegada do voo originalmente reservado:
      
      a)      Em duas horas, no caso de quaisquer voos até 1 500 quilómetros; ou
      b)      Em três horas, no caso de quaisquer voos intracomunitários com mais de 1 500 quilómetros e no de quaisquer outros voos entre
         1 500 e 3 500 quilómetros; ou
      
      c)      Em quatro horas, no caso de quaisquer voos não abrangidos pelas alíneas a) ou b),
      a transportadora aérea operadora pode reduzir a indemnização fixada no n.° 1 em 50%.
      3.      A indemnização referida no n.° 1 deve ser paga em numerário, através de transferência bancária electrónica, de ordens de pagamento
         bancário, de cheques bancários ou, com o acordo escrito do passageiro, através de vales de viagem e/ou outros serviços.
      
      4.      As distâncias referidas nos n.os 1 e 2 devem ser medidas pelo método da rota ortodrómica.»
      
      17     Nos termos do artigo 8.° do Regulamento n.° 261/2004, sob a epígrafe «Direito a reembolso ou reencaminhamento»:
      «1.      Em caso de remissão para o presente artigo, deve ser oferecida aos passageiros a escolha entre:
      a)      –       O reembolso no prazo de sete dias, de acordo com as modalidades previstas no n.° 3 do artigo 7.°, do preço total de compra
         do bilhete, para a parte ou partes da viagem não efectuadas, e para a parte ou partes da viagem já efectuadas se o voo já
         não se justificar em relação ao plano inicial de viagem, cumulativamente, nos casos em que se justifique,
      
               –       um voo de regresso para o primeiro ponto de partida;
      b)      O reencaminhamento, em condições de transporte equivalentes, para o seu destino final, na primeira oportunidade; ou
      c)      O reencaminhamento, em condições de transporte equivalentes, para o seu destino final numa data posterior, da conveniência
         do passageiro, sujeito à disponibilidade de lugares.
      
      2.      A alínea a) do n.° 1 aplica‑se igualmente aos passageiros cujos voos fazem parte de uma viagem organizada, salvo quanto ao
         direito a reembolso quando este se constitua ao abrigo da Directiva 90/314/CEE.
      
      3.      Sempre que uma cidade ou região for servida por vários aeroportos e uma transportadora aérea operadora oferecer aos passageiros
         um voo para um aeroporto alternativo em relação àquele para o qual tinha sido feita a reserva, a transportadora aérea operadora
         deve suportar o custo da transferência do passageiro desse aeroporto alternativo para o aeroporto para o qual a reserva tinha
         sido feita, ou para outro destino próximo acordado com o passageiro.»
      
      18     Segundo o artigo 9.° do Regulamento n.° 261/2004, sob a epígrafe «Direito a assistência»:
      «1.      Em caso de remissão para o presente artigo, devem ser oferecidos a título gratuito aos passageiros:
      a)      Refeições e bebidas em proporção razoável com o tempo de espera;
      b)      Alojamento em hotel:
      –       caso se torne necessária a estadia por uma ou mais noites, ou
      –       caso se torne necessária uma estadia adicional à prevista pelo passageiro;
      c)      Transporte entre o aeroporto e o local de alojamento (hotel ou outro).
      2.      Além disso, devem ser oferecidas aos passageiros, a título gratuito, duas chamadas telefónicas, telexes, mensagens via fax
         ou mensagens por correio electrónico.
      
      3.      Ao aplicar o presente artigo, a transportadora aérea operadora deve prestar especial atenção às necessidades das pessoas com
         mobilidade reduzida e de quaisquer acompanhantes seus, bem como às necessidades das crianças não acompanhadas.»
      
       Litígio no processo principal e questões prejudiciais
      19     A IATA é uma associação que agrupa 270 companhias aéreas distribuídas por 130 países, que transportam 98% dos passageiros
         das linhas aéreas regulares em todo o mundo. A ELFAA é uma associação constituída de facto em Janeiro de 2004 que representa
         os interesses de 10 companhias aéreas de baixo custo de 9 países europeus. Estas duas associações interpuseram, na High Court
         of Justice (England & Wales), Queen’s Bench Division (Administrative Court), contra o Ministério dos Transportes, dois recursos
         de fiscalização da legalidade («judicial review») das medidas de execução do Regulamento n.° 261/2004.
      
      20     Por entender que os argumentos das recorrentes no processo principal não eram infundados, a High Court of Justice decidiu
         submeter ao Tribunal as sete questões prejudiciais que as mesmas tinham proposto para impugnar a validade do Regulamento n.° 261/2004.
         Como o Ministério dos Transportes suscitou dúvidas quanto à oportunidade de submeter seis destas questões, na medida em que,
         segundo o Ministério, não suscitavam dúvidas sérias quanto à validade do referido regulamento, a High Court of Justice pretendeu
         saber que critério deverá ser aplicado ou qual o requisito mínimo a ser preenchido para que uma questão relativa à validade
         de um instrumento comunitário possa ser submetida ao Tribunal nos termos do artigo 234.°, segundo parágrafo, CE. Nestes termos,
         a High Court of Justice (England & Wales), Queen’s Bench Division (Administrative Court), decidiu suspender a instância e
         submeter ao Tribunal as seguintes questões prejudiciais:
      
      «1)      O artigo 6.° do Regulamento n.° 261/2004 é inválido por ser incompatível com a [...] Convenção de Montreal [...], e, em especial,
         com os seus artigos 19.°, 22.° e 29.°, e isso afecta (em conjugação com quaisquer outros factores relevantes) a validade do
         regulamento no seu todo?
      
      2)      A emenda do artigo 5.° do [R]egulamento [n.° 261/2004] durante a apreciação do seu projecto pelo Comité de Conciliação foi
         efectuada de [um] modo que viola as exigências processuais estabelecidas no artigo 251.° CE e, nesse caso, o artigo 5.° d[esse]
         regulamento é inválido e, em caso afirmativo, isso afecta (em conjugação com quaisquer outros factores relevantes) a validade
         do regulamento no seu todo?
      
      3)      Os artigos 5.° e 6.° do Regulamento n.° 261/2004 (ou parte deles) são inválidos por violarem o princípio da segurança jurídica,
         e, em caso afirmativo, isso afecta (em conjugação com quaisquer outros factores relevantes) a validade do regulamento no seu
         todo?
      
      4)      Os artigos 5.° e 6.° do Regulamento n.° 261/2004 (ou parte deles) são inválidos por não estarem devidamente fundamentados,
         e, em caso afirmativo, isso afecta (em conjugação com quaisquer outros factores relevantes) a validade do regulamento no seu
         todo?
      
      5)      Os artigos 5.° e 6.° do Regulamento n.° 261/2004 (ou parte deles) são inválidos por violarem o princípio da proporcionalidade
         exigido para qualquer medida [...] [da Comunidade Europeia], e, em caso afirmativo, isso afecta (em conjugação com quaisquer
         outros factores relevantes) a validade do regulamento no seu todo?
      
      6)      Os artigos 5.° e 6.° do Regulamento n.° 261/2004 (ou parte deles) são inválidos por discriminarem, designadamente, os membros
         da organização da segunda recorrente de modo arbitrário e sem justificação objectiva, e, em caso afirmativo, isso afecta (em
         conjugação com quaisquer outros factores relevantes) a validade do regulamento no seu todo?
      
      7)      O artigo 7.° do regulamento (ou parte dele) é nulo ou inválido por a imposição de uma indemnização fixa em caso de cancelamento
         de voo por motivos não abrangidos pela excepção de circunstâncias extraordinárias ser discriminatória, não preencher os requisitos
         de proporcionalidade exigidos para qualquer medida comunitária, ou não ser suficientemente fundamentado, e, em caso afirmativo,
         isso afecta (em conjugação com quaisquer outros factores relevantes) a validade do regulamento no seu todo?
      
      8)      Quando um órgão jurisdicional nacional tenha recebido um pedido que suscita questões de validade de disposições de um acto
         comunitário e o considere admissível e não infundado, existem princípios de direito comunitário quanto a qualquer [critério]
         ou [requisito] mínimo que o órgão jurisdicional nacional deva aplicar ao decidir, nos termos do [...] artigo 234.°, [segundo
         parágrafo], CE, se deve apresentar essas questões de validade ao [Tribunal de Justiça]?»
      
      21     Por despacho do presidente do Tribunal de Justiça de 24 de Setembro de 2004, o pedido do órgão jurisdicional de reenvio de
         que o presente processo fosse submetido à tramitação acelerada prevista no artigo 104.°‑A, primeiro parágrafo, do Regulamento
         de Processo foi indeferido.
      
       Quanto às questões prejudiciais
       Quanto à oitava questão
      22     Com a oitava questão, que importa apreciar em primeiro lugar, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se
         o artigo 234.°, segundo parágrafo, CE deve ser interpretado no sentido de que um órgão jurisdicional de reenvio só é obrigado
         a submeter ao Tribunal uma questão prejudicial sobre a apreciação da validade de um acto comunitário a partir de um determinado
         grau de dúvida quanto a essa validade.
      
       Quanto à admissibilidade
      23     O Parlamento Europeu sustenta que a questão é inadmissível porquanto a resposta que o Tribunal lhe poderá dar não tem qualquer
         utilidade para a resolução do litígio submetido ao órgão jurisdicional de reenvio, que diz respeito à validade do Regulamento
         n.° 261/2004.
      
      24     A este respeito, resulta de jurisprudência assente que só é possível indeferir um pedido apresentado por um órgão jurisdicional
         nacional quando se verifique de forma manifesta que a interpretação solicitada do direito comunitário não tem qualquer relação
         com a realidade ou com o objecto do litígio no processo principal ou quando o problema é de natureza hipotética e o Tribunal
         de Justiça não disponha dos elementos de facto e de direito necessários para responder utilmente às questões que lhe são colocadas
         (v., designadamente, acórdãos de 15 de Dezembro de 1995, Bosman, C‑415/93, Colect., p. I‑4921, n.° 61; de 5 de Junho de 1997,
         Celestini, C‑105/94, Colect., p. I‑2971, n.° 22, e de 7 de Setembro de 1999, Beck e Bergdorf, C‑355/97, Colect., p. I‑4977,
         n.° 22). Salvo nestas hipóteses, o Tribunal de Justiça é, em princípio, obrigado a decidir sobre as questões prejudiciais
         relativas à interpretação das normas de direito comunitário (v. acórdão Bosman, já referido, n.° 59).
      
      25     No processo principal, uma vez que as recorrentes impugnaram a validade do Regulamento n.° 261/2004 perante o órgão jurisdicional
         de reenvio, este foi confrontado com a questão de saber se essa impugnação da validade do referido regulamento justificava
         a apresentação de um pedido de decisão prejudicial ao Tribunal, nas condições previstas no artigo 234.° CE. Por isso, não
         se pode dizer que a interpretação do referido artigo que este órgão jurisdicional pede na presente questão não tem nenhuma
         relação com o objecto do litígio do processo principal. A circunstância de o referido órgão jurisdicional ter concomitantemente
         submetido ao Tribunal questões sobre a validade do Regulamento n.° 261/2004 e de as respostas que lhe forem dadas serem susceptíveis
         de resolver o litígio no processo principal não pode pôr em causa a relevância que, por si só, a interpretação do artigo 234.° CE
         apresenta.
      
      26     Por conseguinte, há que responder à questão submetida.
       Quanto ao mérito
      27     Recorde‑se que, segundo jurisprudência assente, os órgãos jurisdicionais nacionais não têm poder para declarar inválidos os
         actos das instituições comunitárias. Efectivamente, as competências conferidas ao Tribunal de Justiça pelo artigo 234.° CE
         visam essencialmente garantir uma aplicação uniforme do direito comunitário pelos órgãos jurisdicionais nacionais. Esta exigência
         de uniformidade é especialmente imperiosa quando está em causa a validade de um acto comunitário. Divergências entre os órgãos
         jurisdicionais dos Estados‑Membros quanto à validade dos actos comunitários seriam susceptíveis de comprometer a própria unidade
         da ordem jurídica comunitária e de prejudicar a exigência fundamental da segurança jurídica (acórdãos de 22 de Outubro de
         1987, Foto‑Frost, 314/85, Colect., p. 4199, n.° 15; de 15 de Abril de 1997, Bakers of Nailsea, C‑27/95, Colect., p. I‑1847,
         n.° 20, e de 6 de Dezembro de 2005, Gaston Schul Douane‑expediteur, C‑461/03, ainda não publicado na Colectânea, n.° 21).
         O Tribunal de Justiça é, portanto, o único competente para declarar a invalidade de um acto comunitário (acórdãos de 21 de
         Fevereiro de 1991, Zuckerfabrik Süderdithmarschen e Zuckerfabrik Soest, C‑143/88 e C‑92/89, Colect., p. I‑415, n.° 17, e de
         21 de Março de 2000, Greenpeace France e o., C‑6/99, Colect., p. I‑1651, p. 54).
      
      28     Note‑se, a este respeito, que o artigo 234.° CE não constitui uma via de recurso para as partes num litígio pendente num tribunal
         nacional e que não basta, portanto, que uma das partes alegue que o litígio suscita uma questão de validade do direito comunitário
         para que o tribunal em questão seja obrigado a considerar que se suscita uma questão nos termos do artigo 234.° CE (v., neste
         sentido, acórdão de 6 de Outubro de 1982, Cilfit e o., 283/81, Recueil, p. 3415, n.° 9). Daqui resulta que a existência de
         impugnação da validade de um acto comunitário num órgão jurisdicional nacional não basta, por si só, para justificar o reenvio
         de uma questão prejudicial para o Tribunal.
      
      29     No que se refere aos órgãos jurisdicionais nacionais cujas decisões são susceptíveis de recurso judicial de direito interno,
         o Tribunal decidiu que os mesmos podem apreciar a validade de um acto comunitário e, se não considerarem procedentes os fundamentos
         de invalidade invocados pelas partes, podem rejeitar esses fundamentos, concluindo que o acto é plenamente válido. Com efeito,
         ao agirem deste modo, não põem em causa a existência do acto comunitário (acórdão Foto‑Frost, já referido, n.° 14).
      
      30     Em contrapartida, se esses órgãos jurisdicionais julgarem procedentes um ou vários fundamentos de invalidade de um acto comunitário
         invocados pelas partes ou, se for caso disso, suscitados ex officio (v., neste sentido, acórdão de 16 de Junho de 1981, Salonia, 126/80, Recueil, p. 1563, n.° 7), compete‑lhes suspender a instância
         e apresentar ao Tribunal um pedido de decisão prejudicial quanto à validade do acto comunitário.
      
      31     Por outro lado, o espírito de cooperação que deve presidir ao funcionamento do reenvio prejudicial implica que o órgão jurisdicional
         nacional exponha, na sua decisão de reenvio, os motivos pelos quais entende ser necessário esse reenvio.
      
      32     Consequentemente, há que responder à oitava questão que, se um órgão jurisdicional cujas decisões são susceptíveis de recurso
         judicial de direito interno julgar procedentes um ou vários fundamentos de invalidade de um acto comunitário invocados pelas
         partes ou, se for caso disso, suscitados ex officio, o mesmo deve suspender a instância e apresentar ao Tribunal um pedido de decisão prejudicial quanto à validade do acto comunitário.
      
       Quanto às demais questões
      33     Com as sete primeiras questões, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se os artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento
         n.° 261/2004 são inválidos e, se for caso disso, se essa invalidade é susceptível de implicar a do regulamento no seu todo.
      
       Quanto à compatibilidade do artigo 6.° do Regulamento n.° 261/2004 com a Convenção de Montreal
      34     Com a sua primeira questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se o artigo 6.° do Regulamento n.° 261/2004
         é incompatível com o disposto nos artigos 19.°, 22.° e 29.° da Convenção de Montreal.
      
      35     A título preliminar, recorde‑se que, por força do artigo 300.°, n.° 7, CE, «[o]s acordos celebrados nas condições definidas
         no presente artigo são vinculativos para as instituições da Comunidade e para os Estados‑Membros». Segundo a jurisprudência
         do Tribunal, estes acordos prevalecem sobre os diplomas de direito comunitário derivado (acórdãos de 10 de Setembro de 1996,
         Comissão/Alemanha, C‑61/94, Colect., p. I‑3989, n.° 52, e de 1 de Abril de 2004, Bellio F.lli, C‑286/02, Colect., p. I‑3465,
         n.° 33).
      
      36     A Convenção de Montreal, assinada pela Comunidade em 9 de Dezembro de 1999 ao abrigo do artigo 300.°, n.° 2, CE, foi aprovada
         por decisão do Conselho de 5 de Abril de 2001 e entrou em vigor, no que à Comunidade diz respeito, em 28 de Junho de 2004.
         Daqui resulta que, a partir desta última data e segundo jurisprudência assente, as disposições daquela convenção fazem parte
         integrante da ordem jurídica comunitária (acórdãos de 30 de Abril de 1974, Haegeman, 181/73, Colect., p. 251, n.° 5, e de
         30 de Setembro de 1987, Demirel, 12/86, Colect., p. 3719, n.° 7). Foi posteriormente a essa data que, por decisão de 14 de
         Julho de 2004, tomada no âmbito dos pedidos de «judicial review» que lhe foram apresentados, o órgão jurisdicional de reenvio
         submeteu ao Tribunal de Justiça o presente pedido de decisão prejudicial.
      
      37     O artigo 6.° do Regulamento n.° 261/2004 dispõe que, em caso de atraso considerável de um voo, a transportadora aérea operadora
         deve oferecer assistência aos passageiros em causa. O mesmo artigo não prevê que essa transportadora se possa eximir dessas
         obrigações nos casos de circunstâncias extraordinárias que não poderiam ter sido evitadas mesmo que tivessem sido tomadas
         todas as medidas razoáveis.
      
      38     A IATA e a ELFAA sustentaram, no pedido apresentado ao órgão jurisdicional de reenvio, e sustentam, perante o Tribunal, que
         este artigo 6.° é por isso incompatível com as disposições da Convenção de Montreal, que contém, nos artigos 19.° e 22.°,
         n.° 1, cláusulas de exoneração ou limitação da responsabilidade da transportadora aérea no caso de atraso no transporte de
         passageiros, e dispõe, no artigo 29.°, que as acções por danos, qualquer que seja o seu fundamento, só podem ser intentadas
         sob reserva das condições e limites previstos na referida convenção.
      
      39     Note‑se, a este respeito, que os artigos 19.°, 22.° e 29.° da Convenção de Montreal fazem parte das normas face às quais o
         Tribunal fiscaliza a validade dos actos das instituições comunitárias, uma vez que, por um lado, a isso não obstam a natureza
         nem a sistemática da referida convenção e, por outro, as disposições destes três artigos, do ponto de vista do conteúdo, se
         revelam incondicionais e suficientemente precisas.
      
      40     Quanto à interpretação dos referidos artigos, sublinhe‑se que, de acordo com jurisprudência assente, um tratado internacional
         deve ser interpretado não apenas em função dos termos em que está redigido mas também à luz dos seus objectivos. Os artigos
         31.° das Convenções de Viena, de 23 de Maio de 1969, sobre o Direito dos Tratados, e de 21 de Março de 1986, sobre o Direito
         dos Tratados entre Estados e Organizações Internacionais ou entre Organizações Internacionais, que exprimem neste sentido
         o direito internacional geral consuetudinário, a este respeito, que um tratado deve ser interpretado de boa fé, segundo o
         sentido comum atribuível aos termos do tratado no seu contexto, e à luz dos respectivos objecto e fim (v., neste sentido,
         acórdão de 20 de Novembro de 2001, Jany e o., C‑268/99, Colect., p. I‑8615, n.° 35).
      
      41     Resulta do preâmbulo da Convenção de Montreal que os Estados partes reconheceram «a importância de assegurar a protecção dos
         interesses dos utilizadores do transporte aéreo internacional, bem como a necessidade de uma indemnização equitativa com base
         no princípio da restituição». É, pois, face a este objectivo que se deve apreciar o alcance que os autores da referida convenção
         quiseram atribuir aos artigos 19.°, 22.° e 29.°
      
      42     Resulta das referidas disposições da Convenção de Montreal, constantes do seu capítulo III, sob a epígrafe «Responsabilidade
         da transportadora e limites da indemnização por danos», que as mesmas fixam as condições em que podem ser propostas acções
         de indemnização por dano pelos passageiros que invoquem danos sofridos devido a um atraso. As mesmas limitam a responsabilidade
         da transportadora ao montante de 4 150 direitos de saque especiais por passageiro.
      
      43     Refira‑se que todo e qualquer atraso no transporte aéreo de passageiros, especialmente se for considerável, pode provocar,
         num plano geral, dois tipos de prejuízo. Por um lado, um atraso muito considerável vai causar prejuízos, quase idênticos para
         todos os passageiros, cuja reparação pode ter a forma de assistência, uniforme e imediata, a todos os interessados mediante
         o oferecimento, por exemplo, de bebidas, refeições, alojamento e chamadas telefónicas. Por outro lado, os passageiros são
         susceptíveis de sofrer prejuízos individuais, inerentes ao motivo da sua deslocação, cuja reparação exige a apreciação, caso
         a caso, da extensão dos danos causados e consequentemente só pode ser objecto de indemnização a posteriori individualizada.
      
      44     Ora, resulta claramente do disposto nos artigos 19.°, 22.° e 29.° da Convenção de Montreal que os mesmos se limitam a reger
         as condições em que, posteriormente ao atraso de um voo, podem ser propostas, pelos passageiros interessados, acções destinadas
         a obter a reparação individualizada dos danos, isto é, uma indemnização, por parte das transportadoras responsáveis, pelos
         danos causados por esse atraso.
      
      45     Não resulta destes artigos nem de nenhuma outra disposição da Convenção de Montreal que os autores desta última pretenderam
         subtrair as referidas transportadoras a qualquer outra forma de intervenção, nomeadamente àquela que poderia ser pretendida
         pelas autoridades públicas para reparar, de forma uniforme e imediata, os prejuízos constituídos pelos inconvenientes devidos
         aos atrasos no transporte aéreo de passageiros, sem que estes tenham de suportar os inconvenientes inerentes à propositura
         de acções de indemnização nos tribunais.
      
      46     A Convenção de Montreal não podia, portanto, obstar à intervenção do legislador comunitário para fixar, no âmbito das competências
         atribuídas à Comunidade em matéria de transportes e de protecção dos consumidores, as condições em que há que reparar os prejuízos
         associados aos inconvenientes supramencionados. Uma vez que as medidas de assistência aos passageiros a que se refere o artigo
         6.° do Regulamento n.° 261/2004 em caso de atraso considerável de um voo constituem tais medidas de reparação uniforme e imediata,
         as mesmas não se encontram entre aquelas cujas condições de exercício são fixadas pela referida convenção. Assim, o dispositivo
         previsto no referido artigo 6.° posiciona‑se simplesmente a montante daquele que resulta da Convenção de Montreal.
      
      47     Por si só, as medidas de assistência uniformes e imediatas não obstam a que os passageiros interessados, caso esse atraso
         lhes cause ainda danos que confiram direito a indemnização, possam, por outro lado, propor acções de indemnização pelos referidos
         danos, nas condições fixadas na Convenção de Montreal.
      
      48     Por conseguinte, estas medidas, que melhoram a protecção dos interesses dos passageiros e as condições em que perante estes
         se aplica o princípio da reparação, não podem ser consideradas incompatíveis com a Convenção de Montreal.
      
       No que respeita à validade do artigo 5.° do Regulamento n.° 261/2004 face ao artigo 251.° CE
      49     Com a sua segunda questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se, ao emendar o artigo 5.° do projecto
         do Regulamento n.° 261/2004, tal como resultava da Posição Comum (CE) n.° 27/2003, de 18 de Março de 2003 (JO C 125 E, p. 63,
         a seguir «projecto de regulamento»), o Comité de Conciliação previsto no artigo 251.° CE respeitou os requisitos processuais
         constantes desta última disposição.
      
      50     A título preliminar, recorde‑se o contexto em que o referido Comité de Conciliação interveio no processo de adopção do Regulamento
         n.° 261/2004, especialmente face às preocupações do legislador comunitário relativas à consideração ou não de circunstâncias
         que permitem às transportadoras aéreas eximirem‑se das suas obrigações de assistência aos passageiros no caso de cancelamento
         ou atraso considerável de um voo.
      
      51     Na sua Posição Comum n.° 27/2003, o Conselho decidiu que as transportadoras aéreas poderiam eximir‑se das obrigações de indemnização
         e de assistência previstas para os casos de cancelamento de voos, pelo artigo 5.° do projecto de regulamento, e de assistência,
         para os casos de atraso considerável, pelo artigo 6.° do mesmo projecto, se os interessados pudessem provar que o cancelamento
         ou o atraso se ficaram a dever a circunstâncias excepcionais que não poderiam ter sido evitadas mesmo que tivessem sido tomadas
         todas as medidas razoáveis.
      
      52     Quando apreciou esta posição comum, em 3 de Julho de 2003, em segunda leitura, o Parlamento não propôs nenhuma emenda ao artigo
         5.° do projecto de regulamento. Em contrapartida, adoptou, entre outras, uma emenda n.° 11 ao artigo 6.° desse mesmo projecto,
         nomeadamente no sentido de se suprimir toda e qualquer referência à cláusula de exoneração da responsabilidade por força de
         circunstâncias extraordinárias (a seguir «exoneração por circunstâncias extraordinárias»).
      
      53     Por ofício de 22 de Setembro de 2003, o Conselho fez saber que não estava em condições de aprovar todas as emendas do Parlamento
         e o presidente do Conselho, com o acordo do presidente do Parlamento, convocou uma reunião do Comité de Conciliação.
      
      54     Este, durante a sua reunião de 14 de Outubro de 2003, chegou a acordo sobre um projecto comum, aprovado em 1 de Dezembro de
         2003, nos termos do qual, nomeadamente, era suprimida, no artigo 5.° do projecto de regulamento, toda e qualquer referência
         à exoneração por circunstâncias extraordinárias que permite às transportadoras aéreas eximirem‑se das suas obrigações de assistência
         em caso de cancelamento de voos. O regulamento foi adoptado, segundo esse projecto comum do Comité de Conciliação, pelo Parlamento
         em terceira leitura, em 18 de Dezembro de 2003, e pelo Conselho, em 26 de Janeiro de 2004.
      
      55     As recorrentes no processo principal alegam que, ao alterar o artigo 5.° do projecto de regulamento, quando o mesmo não tinha
         sido objecto de nenhuma emenda pelo Parlamento em segunda leitura, o Comité de Conciliação ultrapassou as competências que
         lhe são conferidas pelo artigo 251.° CE.
      
      56     Quanto a este ponto, importa recordar que o Comité de Conciliação é convocado, no âmbito do processo de co‑decisão, em caso
         de divergência por parte do Conselho quanto às emendas propostas pelo Parlamento em segunda leitura. É pacífico que se verificou
         essa divergência no processo de adopção do Regulamento n.° 261/2004, justificando‑se a convocação do referido comité.
      
      57     Contrariamente ao que sustenta a IATA, o Comité de Conciliação, uma vez convocado, não tem por missão alcançar um acordo sobre
         as emendas propostas pelo Parlamento mas sim, como resulta dos próprios termos do artigo 251.° CE, «chegar a acordo sobre
         um projecto comum», mediante a análise da posição comum adoptada pelo Conselho, com base nas emendas propostas pelo Parlamento.
         O texto do artigo 251.° CE não contém, pois, em si nenhuma restrição quanto ao conteúdo das medidas a adoptar para permitir
         que se chegue a acordo sobre um projecto comum.
      
      58     Ao recorrer ao termo «conciliação», os autores do Tratado quiseram dar efeito útil ao processo adoptado e atribuir ao Comité
         de Conciliação um amplo poder de apreciação. Ao estabelecer esta forma de resolver a divergência, procuraram precisamente
         que a aproximação dos pontos de vista do Parlamento e do Conselho se fizesse com base na análise de todos os aspectos dessa
         divergência, com a participação activa da Comissão das Comunidades Europeias nos trabalhos do Comité de Conciliação, competindo
         àquela tomar «todas as iniciativas necessárias para promover uma aproximação das posições do Parlamento [...] e do Conselho».
      
      59     Nesta perspectiva e tendo em conta o poder de mediação assim atribuído à Comissão e a liberdade que, em última análise, o
         Parlamento e o Conselho têm de dar ou não o seu acordo ao projecto comum aprovado pelo Comité de Conciliação, o artigo 251.° CE
         não pode ser interpretado no sentido de que limita, por princípio, o poder do referido comité. O mero facto de, no caso vertente,
         o artigo 5.° do projecto de regulamento não ter sido objecto de emenda pelo Parlamento em segunda leitura não é susceptível
         de provar que o referido comité desrespeitou a extensão das competências que lhe são conferidas pelo artigo 251.° CE.
      
      60     Por outro lado, as recorrentes no processo principal sustentam que o facto de as reuniões do Comité de Conciliação não terem
         natureza pública é lesivo dos princípios da democracia representativa.
      
      61     É certo que a participação efectiva do Parlamento no processo legislativo da Comunidade, segundo os procedimentos previstos
         no Tratado, representa um elemento essencial do equilíbrio institucional pretendido pelo mesmo Tratado. Todavia, é pacífico
         que o próprio Parlamento está representado no seio do Comité de Conciliação e que essa representação é, de resto, composta
         consoante a importância relativa de cada grupo político no seio do Parlamento. Além disso, o projecto comum adoptado pelo
         Comité de Conciliação deve ainda ser submetido, por força do artigo 251.°, n.° 5, CE, à apreciação do próprio Parlamento para
         aprovação. Assim, esta apreciação, que tem necessariamente lugar nas condições habituais de transparência dos trabalhos desta
         assembleia, assegura sempre a participação efectiva do Parlamento no processo legislativo com observância dos princípios da
         democracia representativa.
      
      62     Refira‑se que, a avaliar pelos elementos dos autos, no caso vertente a divergência submetida ao Comité de Conciliação incidia
         nomeadamente sobre a questão de saber se as transportadoras aéreas podiam ou não invocar a exoneração por circunstâncias extraordinárias
         para se eximirem das suas obrigações de assistência aos passageiros, previstas no artigo 6.° do projecto de regulamento, em
         caso de atraso considerável de um voo. O Comité de Conciliação chegou a acordo no sentido de ser suprimida do artigo 6.° desse
         projecto toda e qualquer referência à exoneração por circunstâncias extraordinárias, para que seja garantida aos passageiros
         assistência imediata, seja qualquer for a causa do atraso. Concomitantemente, o comité acordou, para garantir uma abordagem
         coerente e simétrica, em suprimir do artigo 5.° do mencionado projecto essa mesma referência, no que respeita às obrigações
         de assistência aos passageiros em caso de cancelamento de um voo.
      
      63     Nestas condições, o Comité de Conciliação não ultrapassou os limites das suas atribuições ao alterar o artigo 5.° do projecto
         de regulamento.
      
       No que respeita ao dever de fundamentação e à observância do princípio da segurança jurídica
      64     Com as suas terceira e quarta questões, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se os artigos 5.° e 6.° do
         Regulamento n.° 261/2004 são inválidos por não serem conformes com o princípio da segurança jurídica ou não obedecerem ao
         dever de fundamentação. Com a sua sétima questão, interroga‑se também sobre a observância deste dever pelo artigo 7.° do referido
         regulamento.
      
      65     As recorrentes no processo principal alegam que o regulamento impugnado contém ambiguidades, lacunas ou contradições que põem
         em causa a sua legalidade face quer ao dever de fundamentação quer à observância do princípio da segurança jurídica.
      
      66     Há que lembrar que, embora a fundamentação exigida pelo artigo 253.° CE deva revelar, de forma clara e inequívoca, o percurso
         lógico seguido pela autoridade comunitária de que emana o acto em causa, de modo a permitir aos interessados conhecer as razões
         que justificaram a medida adoptada e possibilitar ao Tribunal de Justiça o exercício da sua fiscalização, não se exige, porém,
         que essa fundamentação especifique todos os elementos de facto ou de direito pertinentes (v., nomeadamente, acórdãos de 29
         de Fevereiro de 1996, Comissão/Conselho, C‑122/94, Colect., p. I‑881, n.° 29; de 14 de Dezembro de 2004, Swedish Match, C‑210/03,
         Colect., p. I‑11893, n.° 63, e de 12 de Julho de 2005, Alliance for Natural Health e o., C‑154/04 e C‑155/04, ainda não publicado
         na Colectânea, n.° 133).
      
      67     Por outro lado, o respeito do dever de fundamentação deve ser apreciado em razão não apenas do texto do acto mas também do
         seu contexto, bem como do conjunto das regras jurídicas que regem a matéria em causa. Quando se trata, como no caso vertente,
         de um acto de aplicação geral, a fundamentação pode limitar‑se a indicar, por um lado, a situação de conjunto que levou à
         sua adopção e, por outro, os objectivos gerais que se propõe atingir (v., nomeadamente, acórdão de 10 de Março de 2005, Espanha/Conselho,
         C‑342/03, Colect., p. I‑1975, n.° 55). Se resultar do acto impugnado o essencial do objectivo prosseguido pelas instituições,
         será inútil exigir uma fundamentação específica para cada uma das escolhas técnicas efectuadas (v., nomeadamente, acórdãos
         de 5 de Julho de 2001, Itália/Conselho e Comissão, C‑100/99, Colect., p. I‑5217, n.° 64, e Alliance for Natural Health e o.,
         já referido, n.° 134).
      
      68     Quanto ao princípio da segurança jurídica, este constitui um princípio fundamental do direito comunitário que exige, designadamente,
         que uma regulamentação seja clara e precisa, a fim de que os administrados possam conhecer sem ambiguidade os seus direitos
         e obrigações e agir em conformidade (v. acórdãos de 9 de Julho de 1981, Gondrand Frères e Garancini, 169/80, Recueil, p. 1931;
         de 13 de Fevereiro de 1996, Van Es Douane Agenten, C‑143/93, Colect., p. I‑431, n.° 27, e de 14 de Abril de 2005, Bélgica/Comissão,
         C‑110/03, Colect., p. I‑2801, n.° 30).
      
      69     À luz da jurisprudência referida, importa observar, em primeiro lugar, que as disposições dos artigos 5.° e 6.° do Regulamento
         n.° 261/2004 fixam com precisão e de forma clara as obrigações que incumbem à transportadora aérea operadora nos casos de
         cancelamento ou atraso considerável de um voo. O objectivo destas disposições resulta, de forma igualmente clara, dos primeiro
         e segundo considerandos desse regulamento, nos termos dos quais a acção da Comunidade no domínio do transporte aéreo deve
         ter, entre outros, o objectivo de garantir um elevado nível de protecção dos passageiros e deve ter em conta as exigências
         de protecção dos consumidores em geral, porquanto o cancelamento ou atraso considerável dos voos causam sérios inconvenientes
         aos passageiros.
      
      70     Além disso, os décimo segundo e décimo terceiro considerandos do mesmo regulamento dispõem que os passageiros cujos voos sejam
         cancelados deverão poder ser indemnizados se não tiverem sido informados em tempo útil do cancelamento, reembolsados do pagamento
         dos seus bilhetes ou reencaminhados em condições satisfatórias e deverão receber assistência adequada enquanto aguardam um
         voo posterior. O décimo sétimo considerando do referido regulamento explana que os passageiros cujos voos registem um atraso
         com uma determinada duração deverão receber assistência adequada e poder cancelar os seus voos, com reembolso dos seus bilhetes,
         ou prossegui‑los em condições satisfatórias. Estes elementos põem em destaque, pois, o essencial do objectivo prosseguido.
      
      71     Por outro lado, é pacífico que são reais os diversos prejuízos de que os passageiros são vítimas no caso de cancelamento ou
         atraso considerável de um voo. Não está provado, e de resto nem foi alegado, que os incidentes desta natureza apenas constituem
         um fenómeno insignificante. Ora, não resulta do artigo 253.° CE nem de outra disposição que a validade do acto comunitário
         em causa está sujeita à condição de incluir estatísticas precisas que justifiquem a necessidade de intervenção do legislador
         comunitário.
      
      72     Não seria exigível, tão‑pouco, que o Regulamento n.° 261/2004 contivesse uma fundamentação específica para cada uma das escolhas
         técnicas efectuadas. Neste aspecto, uma vez que o objectivo de protecção dos passageiros exige a adopção de medidas de reparação
         uniformes e eficazes, que não se possam prestar a discussão no preciso momento em que devem ser aplicadas, o que é manifesto
         que a exoneração por circunstâncias extraordinárias não deixaria de provocar, o legislador comunitário pôde, sem faltar ao
         seu dever de fundamentação, abster‑se de explicar os motivos por que entendeu que as transportadoras aéreas operadoras não
         podiam invocar essa exoneração para se eximirem das obrigações previstas nos artigos 5.° e 6.° daquele regulamento. Da mesma
         forma, ao contrário do que sustenta a ELFAA, o legislador comunitário pôde, sem ferir o acto em causa de ilegalidade, fixar
         no artigo 7.° do referido regulamento o princípio e o montante da indemnização fixa em caso de cancelamento do voo, sem explicar
         os motivos por que optou por essa medida e por esse montante.
      
      73     Em segundo lugar, as medidas uniformes e imediatas previstas no artigo 6.° do Regulamento n.° 261/2004 não se encontram entre
         aquelas cujas condições de exercício são fixadas pelas Convenção de Montreal e não são incompatíveis com esta convenção. Daqui
         resulta que as disposições daquele regulamento que regem desta forma determinados direitos dos passageiros em caso de atraso
         considerável dos voos podiam ser sujeitas a condições diferentes das fixadas pela referida convenção para outros direitos.
         Por conseguinte, as mesmas disposições não são de modo nenhum contrárias às constantes do Regulamento n.° 2027/97, que foram
         adoptadas, conforme o seu artigo 1.°, para dar execução às disposições relevantes da Convenção de Montreal.
      
      74     Nestes termos, por um lado, as recorrentes no processo principal não podem sustentar que, por não referir este último regulamento,
         o Regulamento n.° 261/2004 foi adoptado com desrespeito do dever de fundamentação. Por outro lado, o artigo 6.° deste regulamento
         não pode ser interpretado no sentido de que, desrespeitando o princípio da segurança jurídica, privou as empresas representadas
         pelas recorrentes no processo principal da possibilidade de conhecerem, sem ambiguidade, as obrigações que lhes incumbem por
         força do dispositivo resultante do Regulamento n.° 2027/97.
      
      75     Em terceiro lugar, as recorrentes no processo principal sustentam que o Regulamento n.° 261/2004 prevê, de forma incoerente,
         nos seus décimo quarto e décimo quinto considerandos, que circunstâncias extraordinárias podem limitar ou eximir a transportadora
         aérea operadora da sua responsabilidade nos casos de cancelamento ou atraso considerável dos voos, ao passo que os artigos
         5.° e 6.° deste regulamento, que regem as suas obrigações naqueles casos, não mantêm, salvo no que respeita à obrigação de
         indemnizar, semelhante exoneração da responsabilidade.
      
      76     Porém, a este respeito, há que observar, por um lado, que embora o preâmbulo de um acto comunitário seja susceptível de precisar
         o conteúdo deste (v. acórdão Alliance for Natural Health e o., já referido, n.° 91) não poderá ser invocado para derrogar
         as próprias disposições do acto em causa (acórdãos de 19 de Novembro de 1998, Nilsson e o., C‑162/97, Colect., p. I‑7477,
         n.° 54, e de 24 de Novembro de 2005, Deutsches Milch‑Kontor, C‑136/04, ainda não publicado na Colectânea, n.° 32). Por outro
         lado, é certo que a redacção daqueles considerandos dá a entender que, de um modo geral, a transportadora aérea operadora
         deveria ser eximida de todas as suas obrigações no caso de circunstâncias extraordinárias, dando, por isso, origem a uma certa
         ambiguidade entre a intenção, expressa dessa forma pelo legislador comunitário, e o próprio conteúdo dos artigos 5.° e 6.°
         do Regulamento n.° 261/2004, que não conferem um carácter tão geral a essa exoneração da responsabilidade. Todavia, essa ambiguidade
         não tem um alcance tal que torne incoerente o dispositivo concretizado nesses dois artigos, os quais, por seu lado, são desprovidos
         de qualquer ambiguidade.
      
      77     Resulta das considerações que antecedem que os artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004 não são inválidos por violação
         do princípio da segurança jurídica ou do dever de fundamentação.
      
       No que respeita à observância do princípio da proporcionalidade
      78     Com as quinta e sétima questões, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se os artigos 5.°, 6.° e 7.° do
         Regulamento n.° 261/2004 são inválidos por violação do princípio da proporcionalidade.
      
      79     A título preliminar, recorde‑se que o princípio da proporcionalidade, que faz parte dos princípio gerais do direito comunitário,
         exige que os instrumentos que uma disposição comunitária põe em execução sejam aptos a realizar o objectivo visado e não vão
         além do que seja necessário para o atingir [v., nomeadamente, acórdãos de 11 de Julho de 2002, Käserei Champignon Hofmeister,
         C‑210/00, Colect., p. I‑6453, n.° 59; de 10 de Dezembro de 2002, British American Tobacco (Investments) e Imperial Tobacco,
         C‑491/01, Colect., p. I‑11453, n.° 122, e Swedish Match, já referido, n.° 47].
      
      80     Quanto à fiscalização jurisdicional das condições indicadas no número anterior, saliente‑se que há que reconhecer ao legislador
         comunitário um amplo poder de apreciação em domínios que implicam, da sua parte, opções de natureza política, económica e
         social em que é chamado a efectuar apreciações complexas. Por conseguinte, só o carácter manifestamente inadequado de uma
         medida adoptada nesses domínios, em relação ao objectivo que a instituição competente pretende prosseguir, pode afectar a
         legalidade de tal medida [v., neste sentido, acórdãos de 12 de Novembro de 1996, Reino Unido/Conselho, C‑84/94, Colect., p. I‑5755,
         n.° 58; de 13 de Maio de 1997, Alemanha/Parlamento e Conselho, C‑233/94, Colect., p. I‑2405, n.os 55 e 56; de 5 de Maio de 1998, National Farmers’ Union e o., C‑157/96, Colect., p. I‑2211, n.° 61, e British American Tobacco
         (Investments) e Imperial Tobacco, já referido, n.° 123]. É o que sucede, especialmente, em matéria de política comum dos transportes
         (v., neste sentido, nomeadamente, acórdãos de 17 de Julho de 1997, SAM Schiffahrt e Stapf, C‑248/95 e C‑249/95, Colect., p. I‑4475,
         n.° 23, e de 12 de Março de 2002, Omega Air e o., C‑27/00 e C‑122/00, Colect., p. I‑2569, n.° 63).
      
      81     As recorrentes no processo principal alegam que as medidas de assistência e de indemnização dos passageiros previstas nos
         artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004, para os casos de cancelamento ou atraso considerável de um voo, não permitem
         alcançar o objectivo de reduzir esses casos de cancelamento e atraso e são, de qualquer das formas, totalmente desproporcionadas
         face ao objectivo a alcançar, devido aos consideráveis encargos financeiros que fazem recair sobre as transportadoras aéreas
         comunitárias.
      
      82     Entrando na apreciação da necessidade das medidas em questão, há que salientar que o objectivo imediato pretendido pelo legislador
         comunitário, tal como resulta dos quatro primeiros considerandos do Regulamento n.° 261/2004, é o de reforçar a protecção
         dos passageiros vítimas de cancelamento ou atraso considerável dos voos, mediante a reparação, de forma uniforme e imediata,
         de determinados prejuízos causados aos interessados colocados nessas situações.
      
      83     É certo que, para além deste objectivo directo, expressamente referido pelo legislador comunitário, o referido regulamento,
         tal como qualquer outro acto normativo genérico, pode incluir outros objectivos secundários, designadamente o de, como sustentam
         as recorrentes no processo principal, reduzir a montante o número de cancelamentos e de atrasos consideráveis de voos. Incumbe
         ao Tribunal de Justiça apreciar, antes de mais, se as medidas tomadas são manifestamente inadequadas face ao objectivo explícito
         do regulamento de reforçar a protecção dos passageiros, cuja legitimidade não é, em si, contestada.
      
      84     Observe‑se, em primeiro lugar, que as medidas previstas nos artigos 5.° e 6.° do Regulamento n.° 261/2004 são, por si só,
         susceptíveis de reparar imediatamente alguns dos prejuízos sofridos por aqueles passageiros em caso de cancelamento ou atraso
         considerável de um voo e permitem assim garantir um nível elevado de protecção dos interessados, pretendido pelo regulamento.
      
      85     Em segundo lugar, é pacífico que a amplitude das diversas medidas adoptadas pelo legislador comunitário varia em função da
         importância dos prejuízos sofridos pelos passageiros, importância essa que é apreciada em função quer da duração do atraso
         e da espera pelo próximo voo quer da rapidez com que os interessados foram informados do cancelamento do voo. Os critérios
         assim estabelecidos para determinar o direito dos passageiros a beneficiar dessas medidas não se revelam de modo nenhum alheios
         ao requisito da proporcionalidade.
      
      86     Em terceiro lugar, quanto às medidas de reparação uniforme e imediata, tais como o reencaminhamento dos passageiros ou o fornecimento
         de bebidas, refeições ou alojamento ou a disponibilização de meios de comunicação com terceiros, as mesmas destinam‑se a prover,
         in loco, às necessidades imediatas dos passageiros, seja qual for a causa do cancelamento ou atraso do voo. Atendendo a que, como
         se referiu no número anterior do presente acórdão, as referidas medidas variam consoante a importância dos prejuízos sofridos
         pelos passageiros, muito menos se pode dizer que, só pelo facto de as transportadoras não poderem invocar a exoneração por
         circunstâncias extraordinárias, as medidas têm um carácter manifestamente inadequado.
      
      87     Em quarto lugar, não está provado que a subscrição, pelos passageiros, de seguros facultativos para cobrir os riscos inerentes
         aos atrasos e cancelamentos de voos, tal como preconizado pela ELFAA, permitiria sempre remediar os prejuízos sofridos na
         altura pelos interessados. Por isso, tal medida não pode ser tida como mais adequada ao objectivo pretendido do que as adoptadas
         pelo legislador comunitário.
      
      88     Em quinto lugar, as consequências prejudiciais provocadas pelo atraso e que o Regulamento n.° 261/2004 pretende remediar não
         têm qualquer relação com o custo do bilhete adquirido. Assim, o argumento de que as medidas adoptadas para atenuar as referidas
         consequências deveriam ter sido estabelecidas na proporção do custo do bilhete não pode ser acolhido.
      
      89     Em sexto lugar, muito embora a IATA e a ELFAA sustentem que as referidas medidas têm o risco de acarretarem consideráveis
         consequências para os encargos financeiros das transportadoras e não são adequadas ao objectivo secundário do regulamento
         de reduzir o número de cancelamentos e de atrasos consideráveis de voos, verifica‑se que as discussões no Tribunal não revelaram
         quaisquer estatísticas sobre a frequência destes cancelamentos e atrasos. Por isso, os custos teóricos que aquelas medidas
         representam para as companhias aéreas, apresentados pelas interessadas, não permitem, de modo algum, dar por provado que tais
         encargos são desproporcionais ao interesse das referidas medidas.
      
      90     Observe‑se ainda que o cumprimento das obrigações previstas no Regulamento n.° 261/2004 não prejudica o direito das transportadoras
         aéreas de exigirem indemnização, incluindo a terceiros, nos termos do direito nacional, conforme dispõe o artigo 13.° do referido
         regulamento. Esta indemnização é, pois, susceptível de atenuar, senão mesmo de eliminar, o encargo financeiro suportado pelas
         referidas transportadoras em consequência daquelas obrigações. Além disso, não se vê que seja desrazoável que estas últimas
         sejam suportadas de imediato, sob reserva do direito a indemnização supramencionado, pelas transportadoras aéreas a que os
         passageiros em causa estão vinculados por um contrato de transporte que lhes dá direito a um voo que não deve ser cancelado
         nem atrasado.
      
      91     Em sétimo lugar, quanto à indemnização prevista no artigo 7.° do Regulamento n.° 261/2004, que os passageiros podem exigir
         ao abrigo do artigo 5.°, se tiverem sido informados demasiado tarde do cancelamento do voo, as transportadoras aéreas podem
         eximir‑se do pagamento dessa indemnização se provarem que o cancelamento se ficou a dever a circunstâncias extraordinárias
         que não poderiam ter sido evitadas mesmo que tivessem sido tomadas todas as medidas razoáveis. Tendo em conta a existência
         desta causa de exoneração da responsabilidade e as condições restritivas para a concretização desta obrigação, a que as transportadoras
         não estão sujeitas se a informação for suficientemente precoce ou acompanhada por ofertas de reencaminhamento, a referida
         obrigação não se revela manifestamente inadequada face ao objectivo pretendido. Por outro lado, muito menos o montante da
         indemnização, fixado em 250, 400 e 600 EUR, consoante a distância dos voos em causa, se revela excessivo, correspondendo,
         de resto – como sustenta a Comissão nas suas observações, sem ser contestada – à actualização do nível das indemnizações previsto
         no Regulamento (CEE) n.° 295/91 do Conselho, de 4 de Fevereiro de 1991, que estabelece regras comuns relativas a um sistema
         de compensação por recusa de embarque de passageiros nos transportes aéreos regulares (JO L 36, p. 5), tendo em conta a inflação
         verificada após a entrada em vigor deste.
      
      92     Resulta das considerações expostas que os artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004 não são inválidos por violação
         do princípio da proporcionalidade.
      
       No que respeita à observância do princípio da igualdade de tratamento
      93     Com as suas sexta e sétima questões, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se os artigos 5.°, 6.° e 7.°
         do Regulamento n.° 261/2004 são inválidos por violação do princípio da igualdade de tratamento.
      
      94     A ELFAA alega que as companhias aéreas de baixo custo que representa sofrem um tratamento discriminatório por as medidas previstas
         nos referidos artigos imporem as mesmas obrigações a todas as transportadoras aéreas, sem distinção com base nas suas políticas
         de preços e nos serviços que oferecem. Além disso, o direito comunitário não faz impender as mesmas obrigações sobre os outros
         meios de transporte.
      
      95     Segundo jurisprudência assente, o princípio da igualdade de tratamento ou da não discriminação exige que situações comparáveis
         não sejam tratadas de maneira diferente e que situações diferentes não sejam tratadas de maneira igual, a não ser que tal
         tratamento seja objectivamente justificado (acórdão Swedish Match, já referido, n.° 70).
      
      96     A este respeito, observe‑se, antes de mais, que, tendo em conta as respectivas formas de funcionamento, as condições para
         o respectivo acesso e a distribuição das respectivas redes, os diversos meios de transporte não são, quanto às suas condições
         de utilização, intermutáveis (v., neste sentido, acórdão SAM Schiffahrt e Stapf, já referido, n.° 34). Por isso, a situação
         das empresas que operam no sector de actividade de cada um dos meios de transporte não é comparável.
      
      97     Refira‑se, de seguida, que em matéria de transporte aéreo os passageiros vítimas de cancelamento ou atraso considerável de
         um voo se encontram numa situação objectivamente diferente daquela em se vêem os passageiros dos outros meios de transporte
         em incidentes da mesma natureza. Com efeito, devido, sobretudo, à localização dos aeroportos, geralmente fora dos centros
         urbanos, e às formas específicas de registo e de recuperação das bagagens, os inconvenientes sofridos pelos passageiros com
         tais incidentes não são comparáveis.
      
      98     Por último, os prejuízos sofridos pelos passageiros dos transportes aéreos em caso de cancelamento ou atraso considerável
         de voos são análogos, sejam quais forem as companhias com que contrataram, e não têm relação com as políticas de preços praticadas
         por estas. Por isso e a não ser que o princípio da igualdade viesse a ser infringido face ao objectivo, pretendido pelo Regulamento
         n.° 261/2004, de reforçar a protecção de todos os passageiros das transportadoras aéreas, o legislador comunitário tinha de
         tratar de forma idêntica todas as companhias aéreas.
      
      99     Daqui se conclui que as disposições dos artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004 não são inválidas por violação
         do princípio da igualdade de tratamento.
      
      100   Por todo o exposto, há que responder às sete primeiras questões submetidas que a respectiva apreciação não revelou nenhum
         elemento susceptível de afectar a validade das disposições dos artigos 5.°, 6.° e 7.° do Regulamento n.° 261/2004.
      
       Quanto às despesas
      101   Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         nacional, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Grande Secção) declara:
      1)      Se um órgão jurisdicional cujas decisões são susceptíveis de recurso judicial de direito interno julgar procedentes um ou
            vários fundamentos de invalidade de um acto comunitário invocados pelas partes ou, se for caso disso, suscitados ex officio, o mesmo deve suspender a instância e apresentar ao Tribunal de Justiça um pedido de decisão prejudicial quanto à validade
            do acto comunitário.
      2)      A apreciação das questões submetidas não revelou nenhum elemento susceptível de afectar a validade das disposições dos artigos
            5.°, 6.° e 7.° do Regulamento (CE) n.° 261/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de Fevereiro de 2004, que estabelece
            regras comuns para a indemnização e a assistência aos passageiros dos transportes aéreos em caso de recusa de embarque e de
            cancelamento ou atraso considerável dos voos e que revoga o Regulamento (CEE) n.° 295/91.
      Assinaturas
      * Língua do processo: inglês.