CELEX: 62005FJ0095
Language: pt
Date: 2007-12-13
Title: Acórdão do Tribunal da Função Pública (Segunda Secção) de 13 de Dezembro de 2007. # N contra Comissão das Comunidades Europeias. # Função pública - Recrutamento - Países terceiros. # Processo F-95/05.

ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DA FUNÇÃO PÚBLICA (Segunda Secção)
      
      13 de Dezembro de 2007
      Processo F‑95/05
      N
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias
      «Função pública – Agentes temporários – Recrutamento – Lugar de chefe da administração – País terceiro – Parecer desfavorável do serviço médico»
      Objecto: Recurso, interposto nos termos dos artigos 236.° CE e 152.° EA, pelo qual a parte recorrente pede, no essencial, por um lado,
         a anulação da decisão do director da Direcção K «Serviço Externo» da Direcção‑Geral «Relações Externas» da Comissão, de 15
         de Abril de 2005, que a informou de que não seria recrutada na qualidade de chefe da administração da delegação da Comissão
         situada na Guiné e, por outro, a condenação da Comissão no pagamento de uma indemnização pelos prejuízos materiais e morais
         alegadamente sofridos.
      
      Decisão: A decisão do director da Direcção K «Serviço Externo» da Direcção‑Geral «Relações Externas» da Comissão, de 15 de Abril de
         2005, que informou a recorrente de que não seria recrutada na qualidade de chefe da administração da delegação situada na
         Guiné, é anulada. É negado provimento ao recurso quanto ao mais. A Comissão é condenada nas despesas.
      
      Sumário
      1.      Funcionários – Recrutamento – Aptidão física – Respeito dos direitos de defesa
      (Estatuto dos Funcionários, artigo 33.°, segundo parágrafo; Regime aplicável aos outros agentes, artigo 13.°)
      2.      Tramitação processual – Petição inicial – Requisitos de forma
      [Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância, artigo 44.°, n.° 1, alínea c)]
      1.      No âmbito de um processo de recrutamento, um procedimento de elaboração do parecer médico que não garanta a consideração,
         na elaboração do parecer médico definitivo, do parecer de um médico livremente escolhido pelo candidato em causa viola as
         disposições do artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto, aplicável, dada a sua finalidade de garantir o respeito pelos
         direitos de defesa e dada a inexistência de disposições que instituam um procedimento autónomo ou de outros motivos pertinentes,
         aos agentes temporários afectados num país terceiro.
      
      (cf. n.os 70 e 76)
      
      2.      Nos termos do artigo 44.°, n.° 1, alínea c), do Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância, a petição deve,
         designadamente, indicar o objecto do litígio e fazer uma exposição sumária dos fundamentos invocados. Para satisfazer estas
         exigências, uma petição que vise a reparação de danos causados por uma instituição comunitária deve conter os elementos que
         permitam identificar o comportamento que o recorrente imputa à instituição, as razões pelas quais considera que existe um
         nexo de causalidade entre o comportamento e o prejuízo que alega ter sofrido, bem como a natureza e a extensão deste prejuízo.
         Em contrapartida, um pedido destinado a obter uma indemnização indefinida carece da precisão necessária e deve, por conseguinte,
         ser considerado inadmissível.
      
      É esse o caso quando o recorrente se limita a reclamar que lhe se reconhecido o seu direito a ser indemnizado, por um montante
         a fixar ulteriormente, para reparação de um prejuízo alegadamente sofrido, sem sequer indicar elementos de facto que permitam
         determinar a sua extensão, nem demonstrar ou invocar a existência de circunstâncias particulares que o pudessem dispensar
         de fornecer essas precisões.
      
      Relativamente ao prejuízo moral, quer a sua reparação seja pedida a título simbólico ou para efeitos de obtenção de uma verdadeira
         indemnização, compete ao recorrente precisar a natureza do prejuízo moral alegado, face ao comportamento imputado à instituição,
         e depois precisar, mesmo que de forma aproximativa, a avaliação do todo esse prejuízo.
      
      (cf. n.os 86 a 88, 90 e 91)
      
      Ver: 
      Tribunal de Justiça: 2 de Dezembro de 1971, Zuckerfabrik Schöppenstedt/Conselho, 5/71, Colect., p. 375, Recueil, p. 975, n.° 9;
         23 de Setembro de 2004, Hectors/Parlamento, C‑150/03 P, Colect., p. I‑8691, n.° 62
      
      Tribunal de Primeira Instância: 1 de Julho de 1994, Osório/Comissão, T‑505/93, ColectFP, pp. I‑A‑179 e II‑581, n.os 33 e 35; 15 de Fevereiro de 1995, Moat/Comissão, T‑112/94, ColectFP, pp. I‑A‑37 e II‑135, n.os 32, 35, 37 e 38; 7 de Fevereiro de 2007, Gordon/Comissão, T‑175/04, ColectFP, pp. I‑A‑2‑0000 e II‑A‑2‑0000, n.os 42 e 45
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DA FUNÇÃO PÚBLICA DA UNIÃO EUROPEIA (Segunda Secção)
      13 de Dezembro de 2007 (*)
      
      «Função pública – Agentes temporários – Recrutamento – Lugar de chefe da Administração – País terceiro – Parecer desfavorável do serviço médico»
      No processo F‑95/05,
      que tem por objecto um recurso nos termos do artigo 236.° CE e do artigo 152.° EA,
      N, agente contratual da Comissão das Comunidades Europeias, residente em Bruxelas (Bélgica), inicialmente representada por
         K. H. Hagenaar, advogado, em seguida por J. van Drooghenbroeck e T. Demaseure, advogados, e finalmente por I. Kletzlen, advogado,
      
      recorrente,
      contra
      Comissão das Comunidades Europeias, representada por J. Currall e K. Herrmann, na qualidade de agentes,
      
      recorrida,
      O TRIBUNAL DA FUNÇÃO PÚBLICA (Segunda Secção),
      composto por: S. Van Raepenbusch, presidente, I. Boruta e H. Kanninen (relator), juízes,
      secretário: S. Boni, administrador,
      vistos os autos e após a audiência de 28 de Junho de 2007,
      profere o presente
      Acórdão
      1        Por petição que deu entrada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância das Comunidades Europeias em 5 de Outubro de 2005,
         por fax (o original foi entregue em 11 de Outubro), a recorrente pede, em substância, por um lado, a anulação da decisão do
         director da Direcção K «Serviço Externo» da Direcção‑Geral (DG) «Relações Externas» da Comissão das Comunidades Europeias,
         de 15 de Abril de 2005, informando‑a de que não será recrutada como chefe da Administração da delegação da Comissão situada
         na Guiné e, por outro, a condenação da Comissão no pagamento de uma indemnização por danos materiais e morais que alega ter
         sofrido.
      
       Quadro jurídico
      2        Nos termos do artigo 12.°, n.° 2, alínea d), do Regime aplicável aos outros agentes das Comunidades Europeias (a seguir «ROA»):
      
      «Não pode ser admitido como agente temporário quem:
      […]
      d)      Não preencher as condições de aptidão física requeridas para o exercício das suas funções;
      […]».
      3        O artigo 13.°, primeiro parágrafo, do ROA, dispõe que «[a]ntes de se proceder à sua admissão, o agente temporário é submetido
         a exame médico por um médico‑assistente da instituição, a fim de que esta se certifique que preenche as condições exigidas
         no n.° 2, alínea d), do artigo 12.°»
      
      4        O artigo 13.°, segundo parágrafo, do ROA prevê que «[o] segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto [dos Funcionários das
         Comunidades Europeias] aplica‑se por analogia».
      
      5        Nos termos do artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto dos Funcionários das Comunidades Europeias (a seguir «Estatuto»),
         «[q]uando o exame médico, previsto no primeiro parágrafo, tiver dado origem a um parecer médico negativo, o candidato pode
         pedir, no prazo de vinte dias a contar da notificação que lhe tiver sido feita pela instituição, que o seu caso seja submetido
         ao parecer de uma junta médica composta por três médicos escolhidos pela entidade competente para proceder a nomeações, dentre
         os médicos‑assistentes das instituições [; o] médico‑assistente que tiver emitido o primeiro parecer negativo é ouvido pela
         junta médica [; o] candidato pode submeter à junta médica o parecer de um médico da sua escolha [; s]e o parecer da junta
         médica confirmar as conclusões do exame médico previsto no primeiro parágrafo os honorários e despesas acessórias são suportados,
         até metade, pelo candidato».
      
       Matéria de facto na origem do litígio
      6        A recorrente trabalhou ao serviço da Comissão na qualidade de agente auxiliar, de Junho de 1993 a Maio de 1994, e depois como
         agente temporária nos termos do artigo 2.°, alínea b), do ROA, de 1 de Julho de 2002 a 31 de Julho de 2004. No decurso deste
         último período, a recorrente foi primeiro afectada à DG «Controlo Financeiro» e, em seguida, a partir de 1 de Março de 2003,
         à DG «Justiça e assuntos internos».
      
      7        A recorrente esteve de licença por doença de 27 de Outubro de 2003 a 31 de Março de 2004. Em 16 de Março de 2004 foi afectada
         ao Serviço de Gestão e Liquidação dos Direitos Individuais (PMO), onde trabalhou como agente temporária até 31 de Julho de
         2004, e depois como agente contratual a partir de 1 de Agosto de 2004.
      
      8        Em 7 de Julho de 2004, a recorrente apresentou a sua candidatura ao lugar de chefe da Administração da delegação da Comissão
         situada no Congo, na sequência da publicação do anúncio de vaga COM/2004/2982/F.
      
      9        Em 5 de Janeiro de 2005, a DG «Relações Externas» informou a recorrente que tinha passado com êxito a fase da selecção e perguntou‑lhe
         se aceitaria uma afectação numa delegação que não fosse a situada no Congo. Em caso de resposta positiva da sua parte, a recorrente
         era convidada a estabelecer uma lista de prioridade entre quatro delegações.
      
      10      Por correio electrónico de 7 de Janeiro de 2005, a recorrente comunicou à DG «Relações Externas» que confirmava o seu interesse
         numa afectação no Congo e manifestou o mesmo interesse pela delegação situada na Guiné.
      
      11      O anúncio de vaga COM/2204/3510/F relativo ao lugar de chefe da Administração da delegação na Guiné especificava que «[a]
         nomeação do funcionário […] está sujeita ao parecer favorável prévio do [s]erviço [m]édico […]».
      
      12      Em 15 de Fevereiro de 2005 a recorrente apresentou‑se ao exame médico imposto pelo anúncio de vaga COM/2004/3510/F.
      
      13      Em 17 de Fevereiro de 2005 uma nota da DG «Relações Externas» foi dirigida à DG «Pessoal e Administração» a fim de a entidade
         habilitada a concluir contratos de admissão (a seguir a «EHCC») proceder o mais rapidamente possível ao recrutamento como
         chefes da Administração de delegações, na qualidade de agentes temporários nos termos do artigo 2.°, alínea b), do ROA, das
         pessoas que figuram numa lista que contém o nome da recorrente.
      
      14      Em 28 de Fevereiro de 2005 a recorrente recebeu os resultados dos exames médicos efectuados com vista à sua nomeação para
         a delegação.
      
      15      Em 1 de Março de 2005 o médico A, médico‑assistente da Comissão, informou a recorrente das suas reservas quanto à sua partida
         para África. Segundo a Comissão, o médico A convidou então a recorrente a entrar em contacto com o médico B, psiquiatra que
         consta da lista de peritos médicos independentes da Comissão, a fim de obter uma perícia externa.
      
      16      Em 2 de Março de 2005, a recorrente teve uma entrevista com o médico B, tendo o respectivo relatório sido recebido pelo médico
         A em 7 de Março de 2005. Nas suas conclusões, o médico B apresentou reservas quanto à saúde psíquica da recorrente, no que
         respeita a um lugar de responsabilidade em África.
      
      17      Por correio electrónico de 3 de Março de 2005, a DG «Relações Externas» informou a recorrente que esperava o acordo do serviço
         médico para dar seguimento ao processo do seu recrutamento na qualidade de chefe da Administração de delegação.
      
      18      Em 9 de Março de 2005 a recorrente teve uma nova entrevista com o médico A que lhe reiterou as suas reticências quanto à sua
         partida para a Guiné, com fundamento no relatório do médico B.
      
      19      Por nota de 17 de Março de 2005 o médico A comunicou à DG «Relações Externas» que a recorrente não possuía aptidão física
         para o exercício das funções de chefe da Administração na delegação na Guiné.
      
      20      Em 22 de Março de 2005 o médico A comunicou por fax à recorrente, a pedido desta, os nomes e endereços de três peritos em
         psiquiatria que constam da lista de médicos peritos da Comissão. A recorrente não consultou nenhum desses três médicos.
      
      21      Em 4 de Abril de 2005 a recorrente apresentou ao médico A os relatórios periciais de quatro psiquiatras que tinha consultado
         por sua própria iniciativa. Tratava‑se de um atestado de 10 de Março de 2005 do médico C, de um relatório de 31 de Março de
         2005 do médico D e de um relatório pericial médico‑psicológico, de 4 de Abril de 2005, assinado conjuntamente pelos médicos
         E e F.
      
      22      Por nota de 15 de Abril de 2005, o director da Direcção K «Serviço Externo» da DG «Relações Externas» informou a recorrente
         que, «dado o resultado negativo notificado em 17 de Março de 2005 pelo [s]erviço [m]édico, o pedido enviado à DG [‘Pessoal
         e Administração’] com data de 17 [de Fevereiro de 2005] para o [seu] recrutamento no lugar em questão não pod[ia] conduzir
         a uma oferta de contrato de agente temporário [nos termos do artigo 2.°, do ROA] e […] [a sua] entrada em funções na Guiné
         […] não podia verificar‑se» (a seguir «decisão impugnada»).
      
      23      Em 18 de Abril de 2005, o médico E enviou ao médico A uma carta em que fazia referência ao relatório do médico B e ao relatório
         assinado nomeadamente pelo médico F. O médico E verificou, na sua carta, que o médico B «coloc[ava] em evidência o princípio
         da precaução com base nos antecedentes e nas características da personalidade», ao passo que o médico F e ele próprio «não
         [descobriram], nem no exame médico‑psicológico, nem nas avaliações psicométricas, nenhuma patologia mental que contra‑indique
         o acesso a um posto de trabalho como o solicitado pela [recorrente]».
      
      24      Na sua nota de 19 de Abril de 2005, dirigida ao director da Direcção K «Serviço Externo» da DG «Relações Externas», a recorrente
         sustentou que:
      
      «[…] ao contrário da nota do médico‑[a]ssistente […] de 17 de Março, posso confirmar‑vos que os resultados médicos apresentados
         pelos serviços médicos e de que recebi cópia são positivos e, portanto, equivalentes a um ‘SIM’ quanto à aptidão médica.
      
      Tendo em conta o [artigo] 33.° do Estatuto: ‘Antes que se proceda à sua nomeação, o candidato escolhido é submetido a um exame
         médico efectuado por um médico‑assistente da instituição a fim de permitir a esta verificar se o candidato preenche as condições
         exigidas na alínea e) do artigo 28.°’ – [artigo] 28.°, [alínea] e): ‘Não pode ser nomeado funcionário quem […] [n]ão preencher
         as condições de aptidão física requeridas para o exercício das suas funções’. Espanta‑me, portanto, a comunicação do médico
         [A] de 17 de Março de 2005 relativa à minha ‘aptidão médica’, conforme é indicado na vossa carta. No caso de pretenderdes
         uma cópia dos resultados dos testes efectuados, poderei fornecer‑vo‑los.»
      
      25      A recorrente enviou ao director da Direcção C «Política social, Pessoal do Luxemburgo, Saúde, Higiene» da DG «Pessoal e Administração»,
         uma nota datada de 20 de Abril de 2005 que é, em substância, idêntica à nota de 19 de Abril de 2005 acima referida.
      
      26      Por nota com data de 26 de Abril de 2005, redigida a pedido do director da Direcção C «Política social, Pessoal do Luxemburgo,
         Saúde, Higiene» da DG «Pessoal e Administração» o chefe de unidade do serviço médico da referida direcção respondeu à nota
         da recorrente de 20 de Abril de 2005. Aí se explica que «qualquer pessoa candidata a partir em delegação é submetida a uma
         consulta médica prévia [; foi] nesse quadro e não no do [artigo] 33.° do [E]statuto que a recorrente […] foi objecto de um
         parecer negativo por parte do médico‑assistente quanto a uma eventual afectação na Guiné […] [; e]sse parecer destina‑se à
         [entidade competente para proceder a nomeações] da [DG ‘Relações Externas’] que deverá tomar uma decisão final, sendo o parecer
         apenas um dos elementos que deve ter em conta para esse efeito.»
      
      27      Em 19 de Maio de 2005, a recorrente apresentou uma reclamação ao abrigo do artigo 90.°, n.° 2, do Estatuto, contra a decisão
         impugnada.
      
      28      Por decisão de 5 de Julho de 2005, a Autoridade investida do poder de nomeação (a seguir «AIPN») indeferiu a reclamação.
      
       Tramitação processual e pedidos das partes
      29      O presente recurso deu inicialmente entrada no Tribunal de Primeira Instância com o número T‑377/05.
      
      30      Por despacho de 15 de Dezembro de 2005, o Tribunal de Primeira Instância, em aplicação do artigo 3.°, n.° 3, da Decisão 2004/752/CE,
         Euratom do Conselho, de 2 de Novembro de 2004, que institui o Tribunal da Função Pública da União Europeia (JO L 333, p. 7),
         remeteu o presente processo para este último Tribunal. O recurso deu entrada na Secretaria com o número F‑95/05.
      
      31      Por despacho de 24 de Maio de 2007, o Presidente da Segunda Secção do Tribunal da Função Pública concedeu à recorrente o apoio
         judiciário.
      
      32      A recorrente conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      
      –        anular a decisão impugnada;
      –        condenar a Comissão a pagar‑lhe, em reparação dos prejuízos materiais e morais sofridos, o montante provisional de 1 euro,
         a título provisório e com todas as reservas;
      
      –        condenar a Comissão nas despesas.
      33      A Comissão conclui pedindo que o Tribunal se digne:
      
      –        negar provimento ao recurso;
      –        decidir sobre as despesas em conformidade com as disposições legais aplicáveis.
       Quanto ao pedido de anulação
       Quanto ao alcance dos fundamentos suscitados pela recorrente
      34      Em apoio do seu pedido de anulação da decisão impugnada, a recorrente invoca, na sua petição, diversos fundamentos relativos,
         em primeiro lugar, à incompetência do director da Direcção K «Serviço Externo» da DG «Relações Externas» para a adopção da
         decisão impugnada; em segundo lugar, ao desvio de poder cometido pelo médico A, pela DG «Relações Externas» e pela AIPN; e,
         em terceiro lugar, à violação, pelo médico A, do dever de fundamentação do parecer médico.
      
      35      Segundo a Comissão, a recorrente invocou antes de mais o fundamento relativo à incompetência do director da Direcção K «Serviço
         Externo» da DG «Relações Externas» para a adopção da decisão impugnada. O segundo fundamento refere‑se ao desvio de poder
         cometido pelo director da Direcção K «Serviço Externo» da DG «Relações Externas» na adopção da referida decisão. Por fim,
         o terceiro fundamento refere‑se a erro manifesto de apreciação, desvio de poder e falta de fundamentação do parecer médico
         emitido pelo médico A.
      
      36      Na sua réplica, a recorrente precisou a base dos seus segundo e terceiro fundamentos tal como foram apresentados pela Comissão.
         Por um lado, salienta que o segundo fundamento se baseia na violação do dever de fundamentação previsto no artigo 25.°, segundo
         parágrafo, do Estatuto, bem como na violação do princípio da protecção da confiança legítima. Por outro lado, indica que o
         terceiro fundamento se baseia na violação do dever de fundamentação, do princípio da protecção da confiança legítima e do
         dever de solicitude.
      
      37      Resulta dos articulados das partes que a recorrente suscita, em substância, três fundamentos principais. Em primeiro lugar,
         alega a incompetência do director da Direcção K «Serviço Externo» da DG «Relações Externas» para a adopção da decisão impugnada.
         Em segundo lugar, a recorrente sustenta que a decisão impugnada é irregular porque os relatórios e perícias dos médicos que
         consultou por sua própria iniciativa não foram tidos em consideração durante o processo. Além disso, a recorrente alega que,
         em conformidade com o disposto no artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto, dispunha da faculdade de recorrer a uma junta
         médica para obter um parecer, depois de o médico A ter proferido o seu parecer negativo. Em terceiro lugar, a recorrente salienta
         que a decisão impugnada e o parecer médico emitido pelo médico A não preenchem as exigências do dever de fundamentação. Acresce
         que a argumentação da recorrente contém elementos que visam demonstrar a existência de um desvio de poder e de um erro manifesto
         de apreciação.
      
      38      Esta apresentação dos fundamentos invocados pela recorrente resulta do relatório preparatório da audiência, notificado às
         partes em 24 de Maio de 2007. Nem a recorrente nem a Comissão formularam observações a respeito do referido relatório. Há
         que analisar em primeiro lugar o segundo fundamento.
      
       Quanto ao segundo fundamento
       Argumentos das partes
      39      Em primeiro lugar, segundo a recorrente, o médico A, a DG «Relações Externas» e a AIPN não tiveram em consideração o atestado
         do médico C, nem o relatório do médico D, nem o relatório explícito e favorável dos médicos E e F, nem a carta de 18 de Abril
         de 2005 escrita pelo médico E.
      
      40      Por conseguinte, é manifesto que a decisão impugnada foi tomada para fins diferentes dos alegados. Ao ignorar os referidos
         documentos médicos, a administração agiu de má fé para com a recorrente. Nenhuma disposição exclui a possibilidade de ter
         em consideração os relatórios periciais externos.
      
      41      A recorrente acrescenta que o médico A não transmitiu à administração os pareceres dos especialistas que ela tinha consultado.
         A este respeito, sustenta que é particularmente significativo que este médico generalista, tendo tomado conhecimento de relatórios
         extremamente pormenorizados de ordem psiquiátrica e psicológica elaborados por quatro especialistas na matéria, tenha mantido
         o seu breve diagnóstico de ordem física. A recorrente considera que teve razão ao não consultar os médicos recomendados pelo
         médico A.
      
      42      Em segundo lugar, a recorrente alega que, em conformidade com o disposto no artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto, tinha
         a faculdade de solicitar o parecer de uma junta médica, depois de o médico A ter proferido um parecer negativo. Ora, a recorrente
         sublinha que recebeu, na sequência da sua nota de 20 de Abril de 2005, uma carta da DG «Pessoal e Administração», com data
         de 26 de Abril, indicando‑lhe que o procedimento previsto no artigo 33.° do Estatuto não se aplicava no seu caso. Deste modo,
         a Comissão induziu‑a em erro sobre a possibilidade de recorrer a esse procedimento. 
      
      43      A Comissão salienta que, no caso vertente, a decisão impugnada foi adoptada na sequência da notificação do parecer de serviço
         médico de 17 de Março de 2005, que declarou a inaptidão física da recorrente para o exercício das suas funções na Guiné.
      
      44      A Comissão sublinha que o anúncio de vaga COM/2004/3510/F exigia um parecer favorável prévio do serviço médico. Com efeito,
         qualquer pessoa candidata a partir para uma delegação num país terceiro é submetida a um exame médico efectuado por um médico‑assistente
         da Comissão, a fim de permitir ao serviço de afectação verificar se possui a aptidão física exigida para cumprir todas as
         obrigações susceptíveis de lhe incumbir, tendo em conta a natureza das suas funções e as condições existentes no local em
         que devem ser exercidas.
      
      45      A este respeito, o parecer de aptidão, emitido na sequência do exame médico a que foi submetida a recorrente, em virtude do
         artigo 28.° do Estatuto e do artigo 13.° do ROA, com vista à sua contratação na qualidade de agente temporária em Julho de
         2002, para o exercício de funções em Bruxelas, não podia avaliar a sua aptidão para ser afectada a outros locais anos mais
         tarde.
      
      46      Um exame médico específico justifica‑se tanto mais quanto, por um lado, a particularidade das funções exercidas numa delegação
         num país terceiro resulta das disposições especiais e derrogatórias do Anexo X do Estatuto e, por outro, o ambiente sanitário,
         as condições climatéricas e de segurança, bem como o grau de isolamento podem diferir das condições habituais na Comunidade
         de tal modo que justificam, por vezes, o pagamento de indemnizações compensatórias.
      
      47      Por conseguinte, a exigência de um parecer médico para decidir tais afectações é plenamente justificada no interesse do serviço.
         Esse parecer não pode limitar‑se ao estado físico do candidato mas deve ter igualmente em conta o seu estado psíquico, incluindo
         o estabelecimento de um prognóstico de perturbações futuras susceptíveis de pôr em causa, num futuro previsível, o cumprimento
         normal das funções em causa e/ou que poderiam implicar o repatriamento antecipado do funcionário ou do agente.
      
      48      A este respeito, a Comissão refere que a recorrente qualifica erradamente a nota de 28 de Fevereiro de 2005, pela qual lhe
         foram comunicados os resultados dos exames médicos efectuados com vista à sua afectação numa delegação externa, de parecer
         favorável tal como é exigido pelo anúncio de vaga COM/2004/3510/F. Esta nota apenas transmite à recorrente os resultados dos
         exames médicos considerando‑os normais, à excepção de alguns. Além disso, resulta do seu conteúdo que não pode constituir
         o parecer médico que é exigido pelo referido anúncio de vaga. Aliás, esta nota não constitui, para a própria recorrente, o
         parecer médico em questão, uma vez que, na sua petição esta declara que a DG «Relações Externas» a informou em 3 de Março
         de 2005 que continuava à espera do acordo dos serviços médicos.
      
      49      No que se refere aos relatórios e perícias efectuados pelos médicos especialistas escolhidos pela recorrente, a Comissão entende
         que não podem vincular a DG «Relações Externas» nem a EHCC para efeitos da contratação da interessada, na medida em que não
         foram realizados no quadro do reexame do parecer médico do médico A.
      
      50      A Comissão não contesta que o agente confrontado com um parecer médico negativo possa dispor de vias de recurso no plano médico.
         Aliás, a Comissão afirma que foi para permitir que a recorrente fizesse uso dessa faculdade que o médico A lhe comunicou os
         contactos de três médicos especialistas em psiquiatria, a fim de esta poder obter um parecer contraditório no quadro do procedimento
         de afectação na delegação. A este respeito, a Comissão sublinhou, na audiência, que o legislador comunitário não previu um
         procedimento de contestação do parecer médico no que se refere às nomeações no serviço externo.
      
      51      O recurso a um parecer complementar de um dos peritos independentes indicados pelo médico A teria sido decisivo para resolver
         as contradições das perícias do médico B e dos médicos E e F. Portanto, é incompreensível que a recorrente não tenha consultado
         esses peritos, quando foi ela que pediu para conhecer os respectivos nomes.
      
      52      A Comissão acrescenta que o facto de a recorrente não ter seguido o procedimento previsto para a partida para a delegação
         não lhe conferia o direito a que os pareceres que tinha obtido por sua própria iniciativa fossem tidos em conta. Segundo a
         Comissão, o funcionário ou o agente não pode substituir o parecer do médico que tem a função estatutária de emitir o parecer
         exigido pelo parecer dos médicos que tomou a iniciativa de consultar. A única forma de a recorrente contestar o parecer do
         médico A teria sido consultar um dos médicos‑assistentes indicados por este no seu fax de 22 de Março de 2005.
      
      53      Segundo a Comissão, o parecer favorável do serviço médico previsto pelo anúncio de vaga COM/2004/3510/F devia ser elaborado
         em circunstâncias diferentes das do exame médico de admissão, na acepção do artigo 33.° do Estatuto e do artigo 13.° do ROA.
         Estas disposições não são, portanto, aplicáveis no caso vertente. Além disso, nenhum texto regulamentar rege o procedimento
         médico em caso de afectação a um país terceiro. Por conseguinte, a Comissão seguiu um procedimento autónomo, elaborado com
         base no anúncio de vaga e adoptado no interesse do serviço.
      
      54      Na audiência, a Comissão precisou que o procedimento previsto no artigo 59.° do Estatuto também não é aplicável ao provimento
         de um lugar no serviço externo. 
      
      55      A Comissão sublinha em seguida que, mesmo supondo que o parecer do médico A seja equiparado ao parecer médico de admissão
         previsto no artigo 33.° do Estatuto, há que concluir que a recorrente não pediu o reexame do parecer do médico A segundo o
         procedimento previsto no artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto.
      
      56      Daí resulta que, na falta de um parecer contrário ao do médico A em aplicação do procedimento previsto para esse efeito, a
         decisão impugnada não está viciada de desvio de poder por se basear unicamente no parecer do médico A.
      
      57      No que respeita ao desvio de poder pretensamente cometido pelo médico A, a Comissão indica que este estava autorizado a emitir
         um parecer negativo tendo em conta, por um lado, o seu conhecimento do processo médico da recorrente e da perícia do médico
         B e, por outro, a falta de parecer contraditório. Portanto, o médico A apenas emitiu um juízo profissional. Além disso, a
         recorrente não alega nem demonstra que o médico A agiu por outros motivos.
      
       Apreciação do Tribunal
      58      Segundo o artigo 10.°, quarto parágrafo, do ROA, o título VIII‑A do Estatuto, relativo às disposições especiais e derrogatórias
         aplicáveis aos funcionários cujo lugar de afectação seja um país terceiro, aplica‑se por analogia aos agentes temporários
         afectados a um país terceiro. Nos termos do artigo 101.°‑A do Estatuto, que é o único artigo do referido título, «[sem] prejuízo
         das outras disposições do Estatuto, o Anexo X estabelece as disposições especiais e derrogatórias aplicáveis aos Funcionários
         cujo lugar de afectação seja um país terceiro».
      
      59      Há que salientar que o Anexo X do Estatuto não contém disposições especiais ou derrogatórias relativas ao exame médico aquando
         do recrutamento.
      
      60      Em contrapartida, tal como prevê o artigo 33.°, primeiro parágrafo, do Estatuto relativo aos funcionários, o artigo 13.°,
         primeiro parágrafo, do ROA, dispõe que o agente temporário é submetido a exame médico por um médico‑assistente da instituição,
         antes de se proceder à sua admissão, a fim de se verificar se preenche as condições exigidas no n.° 2, alínea d), do artigo
         12.° do ROA, para o exercício das suas funções.
      
      61      Além disso, o artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto, aplicável por analogia aos agentes temporários, em virtude do artigo
         13.°, segundo parágrafo, do ROA, prevê um procedimento interno de recurso contra o parecer emitido pelo médico‑assistente
         da instituição.
      
      62      A este respeito, há que observar que ao instituir no artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto, uma junta médica de recurso,
         o legislador teve por objectivo criar uma garantia suplementar para os candidatos e, desse modo, melhorar a protecção dos
         seus direitos (acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 14 de Abril de 1994, A/Comissão, T‑10/93, ColectFP, p. I‑A‑119
         e II‑397, n.° 23).
      
      63      Com efeito, em primeiro lugar, uma junta médica constituída por três médicos, da qual não faz parte o médico‑assistente que
         emitiu o parecer inicial de inaptidão, escolhidos dentre os médicos‑assistentes das instituições, e não apenas dentre os médicos‑assistentes
         da instituição em questão, representa uma efectiva garantia suplementar para os candidatos (acórdão A/Comissão, já referido,
         n.° 24). Em segundo lugar, resulta do segundo parágrafo do artigo 33.°, do Estatuto, que o candidato pode submeter à junta
         médica o parecer de um médico da sua escolha. Além disso, um candidato pode sempre solicitar e conseguir que os fundamentos
         de um parecer de inaptidão sejam comunicados a um médico da sua escolha. Esta comunicação pode ser feita antes da convocação
         da junta médica (acórdão A/Comissão, já referido, n.° 25). Em terceiro lugar, resulta do segundo parágrafo do artigo 33.°,
         do Estatuto, que a junta médica se deve apoiar no processo médico organizado no seio da instituição, ouvido o médico‑assistente
         que emitiu o parecer de inaptidão, assim como, se for caso disso, no parecer de um médico escolhido livremente pelo candidato.
         A junta médica pode igualmente basear‑se numa entrevista com o candidato e/ou o seu médico‑assistente e em todos os documentos
         que aquele considere útil apresentar‑lhe. De resto, a junta médica pode, caso o considere oportuno, submeter o candidato a
         novo exame médico, ordenando eventualmente a realização de testes complementares ou solicitando o parecer de outros médicos
         especialistas. De onde se conclui que a junta médica se encontra em posição de proceder a um reexame completo e imparcial
         da situação do candidato (acórdão A/Comissão, já referido, n.° 27).
      
      64      Além disso, há que referir que o Estatuto prevê igualmente, para situações que não sejam as de recrutamento, mecanismos que
         permitem ao funcionário dar conhecimento da sua opinião no decurso dos procedimentos de exame médico. Assim, os quinto, sexto
         e sétimo parágrafos do artigo 59.°, n.° 1, do Estatuto, prevêem o recurso a um sistema de arbitragem quando o funcionário
         considere que as conclusões do exame médico, organizado pela AIPN no quadro de uma licença por doença, são injustificadas
         do ponto de vista médico. Quanto ao procedimento de concessão de um subsídio de invalidez, o artigo 7.°, primeiro parágrafo,
         do Anexo II do Estatuto prevê que o funcionário pode designar um dos três médicos que compõem a comissão encarregada de apreciar
         a existência de uma invalidez.
      
      65      No caso vertente, há que recordar, em primeiro lugar, que a recorrente trabalhava ao serviço da Comissão no momento da entrega
         da sua candidatura ao lugar de chefe da Administração da delegação na Guiné e que estava previsto recrutá‑la para o lugar
         referido, como agente temporária nos âmbito do artigo 2.°, alínea b), do ROA, tal como resulta da nota de 17 de Fevereiro
         de 2005 da DG «Relações Externas».
      
      66      Em segundo lugar, nos termos do anúncio de vaga COM/2004/3510/F, a nomeação do candidato ao lugar de chefe da Administração
         da delegação na Guiné «[estava] sujeita ao parecer prévio favorável do [s]erviço [m]édico […]». No caso vertente, o serviço
         médico emitiu um parecer de inaptidão da recorrente para o seu recrutamento no lugar em causa. Portanto, através da decisão
         impugnada, a recorrente foi informada de que não seria recrutada.
      
      67      Segundo a Comissão, nenhum texto prevê a faculdade de a recorrente obter, através de um procedimento especial, o reexame médico
         do parecer de inaptidão emitido pelo médico‑assistente com vista à afectação a uma delegação. A Comissão não contesta, todavia,
         que o destinatário de um parecer médico negativo possa dispor de vias de recurso no plano médico. Aliás, a Comissão afirma
         que o médico‑assistente comunicou à recorrente os contactos de três médicos especialistas em psiquiatria, a fim de esta poder
         obter um parecer contraditório.
      
      68      A recorrente sustenta, por um lado, que os pareceres médicos dos médicos que ela tinha escolhido deveriam ter sido tidos em
         conta no quadro do processo de recrutamento. Por outro lado, considera que a possibilidade de recorrer ao parecer da junta
         médica, prevista no artigo 33.°, segundo parágrafo, do Estatuto, era aplicável no seu caso. Importa, pois, entender a posição
         da recorrente no sentido de que diz respeito aos direitos de defesa, dado que não teve a possibilidade de ser ouvida de modo
         útil antes de ser tomada a decisão impugnada, designadamente através da intervenção de um médico da sua escolha, como prevê
         o segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto.
      
      69      Antes de mais, há que referir que o procedimento observado pela Comissão, com base no qual se adoptou a decisão impugnada,
         não respeitou as garantias relacionadas com os direitos de defesa, como previstas no segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto.
      
      70      Com efeito, ainda que, no caso vertente, se deva admitir que o procedimento de elaboração do parecer médico não era desprovido
         de todas as garantias próprias de um procedimento contraditório, uma vez que a recorrente tinha a possibilidade de consultar
         outros peritos independentes para contrabalançar o parecer do médico A e a perícia do médico B, há todavia, que reconhecer
         que este procedimento é essencialmente diferente dos procedimentos expostos nos n.os 63 e 64 supra, uma vez que não garante, designadamente, que o parecer de um médico escolhido livremente pelo candidato seja tido em conta
         na elaboração do parecer médico definitivo.
      
      71      Além disso, há que salientar que não resulta da argumentação da Comissão que o procedimento seguido no caso vertente estivesse
         previsto num texto jurídico. Aliás, este procedimento não decorre de uma prática previamente estabelecida que as pessoas em
         questão conheçam antecipadamente.
      
      72      A Comissão afirma todavia que o interesse do serviço exige, devido às condições particulares em certos países terceiros, que
         o serviço médico emita o seu parecer em condições diferentes das do exame médico previsto no artigo 13.° do ROA para os agentes
         temporários e do exame previsto no artigo 33.° do Estatuto, que apenas dizem respeito ao primeiro recrutamento. Segundo a
         Comissão, o processo aplicável no caso vertente é autónomo, efectuado com base no anúncio de vaga e no interesse do serviço.
      
      73      No entanto, a Comissão não explicou, na audiência, as razões pelas quais, no procedimento previsto no artigo 13.° do ROA e
         no artigo 33.° do Estatuto, não podem ser tidas em conta as exigências especiais quanto à aptidão física dos candidatos aos
         lugares situados em países terceiros. Também não precisou de que modo o interesse do serviço justifica ou exige que o referido
         candidato ao recrutamento não beneficie de garantias análogas às previstas no artigo 13.° do ROA e no artigo 33.° do Estatuto.
      
      74      Por fim, nada nas disposições do artigo 13.° do ROA e do artigo 33.° do Estatuto permite concluir que o procedimento que prevêem
         apenas possa aplicar‑se aos agentes temporários contratados pela primeira vez pelas Comunidades. A este respeito, a afirmação
         da Comissão segundo a qual os candidatos recrutados novamente pela Comissão com vista a serem afectados a países terceiros
         foram submetidos a dois exames médicos, um previsto pelo artigo 33.° do Estatuto e o segundo previsto pelo anúncio de vaga,
         não é convincente. Aliás, na sua resposta à reclamação introduzida pela recorrente, a AIPN faz uma remissão explícita para
         o disposto no artigo 33.° do Estatuto e no artigo 13.° do ROA.
      
      75      Resulta do conjunto das considerações precedentes que o legislador comunitário estabeleceu, em matéria de procedimento de
         exame médico, mecanismos que oferecem aos candidatos ao recrutamento, aos funcionários ou aos agentes a possibilidade de fazerem
         valer de modo útil a sua opinião, permitindo‑lhes, designadamente, a intervenção de um médico da sua escolha.
      
      76      Tendo em conta o objectivo de garantir o respeito dos direitos de defesa pelos mecanismos acima referidos, e na falta, por
         um lado, de disposições que instituam um procedimento autónomo aplicável aos agentes temporários cujo lugar de afectação seja
         um país terceiro ou de outros motivos pertinentes e, por outro, de razões que justifiquem a inaplicabilidade, nas circunstâncias
         do caso vertente, do segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto, há que considerar que o procedimento de recrutamento desses
         agentes deve respeitar o segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto. No caso em apreço, conforme o exposto nos n.os 69 e 70 do presente acórdão, o procedimento observado infringiu o disposto no segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto.
      
      77      Por conseguinte, há que concluir que a decisão impugnada violou o segundo parágrafo do artigo 33.° do Estatuto.
      
      78      Daí resulta que a decisão impugnada deve ser anulada, sem que haja necessidade de analisar os outros fundamentos suscitados
         pela recorrente no quadro do seu pedido de anulação.
      
       Quanto ao pedido de indemnização
       Argumentos das partes
      79      A recorrente sustenta que sofreu, devido à decisão impugnada, um prejuízo excepcional resultante da oportunidade perdida e
         de irregularidades.
      
      80      A recorrente pede que seja reconhecida a existência de um direito a indemnização por motivos de ordem material (preparação
         da mudança, rendas, etc.) e moral. Na sua réplica, a recorrente pede que lhe seja pago a título provisional, provisoriamente
         e com todas as reservas, o montante de 1 euro, em reparação dos seus prejuízos materiais e morais. 
      
      81      A Comissão sustenta, em primeiro lugar, que quando o prejuízo resulta de um comportamento da administração desprovido de carácter
         decisório, o procedimento administrativo deve ter início com a introdução de um requerimento ao abrigo do artigo 90.°, n.° 1,
         do Estatuto. No caso em apreço, a recorrente não observou este procedimento. O seu pedido de indemnização é, portanto, inadmissível.
      
      82      Em segundo lugar, a Comissão sustenta que a recorrente não precisou, na sua petição, a extensão exacta dos danos sofridos.
         Por conseguinte, não preencheu os requisitos do artigo 44.°, n.° 1, do Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância.
         A Comissão refere que apesar de o Tribunal de Primeira Instância ter reconhecido que, em certos casos especiais, não é indispensável
         indicar na petição a extensão exacta dos danos sofridos, no caso vertente a recorrente não demonstrou nem sequer alegou a
         existência de circunstâncias que justifiquem tal omissão.
      
      83      Em terceiro lugar, a Comissão indica que a decisão impugnada não é ilegal e, por conseguinte, não há que conceder uma indemnização
         à recorrente.
      
       Apreciação do Tribunal
      84      O artigo 44.°, n.° 1, alínea c), do Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância, era aplicável mutatis mutandis ao Tribunal da Função Pública, em virtude do artigo 3.°, n.° 4, da Decisão 2004/752, até à entrada em vigor do Regulamento
         de Processo deste último, ou seja, 1 de Novembro de 2007.
      
      85      Tendo a petição dado entrada na Secretaria do Tribunal de Primeira Instância em 5 de Outubro de 2005, o disposto no artigo
         44.°, n.° 1, alínea c), do Regulamento de Processo do referido Tribunal da Função Pública é aplicável ao presente processo.
      
      86      Nos termos deste artigo, a petição deve, designadamente, indicar o objecto do litígio e a exposição sumária dos fundamentos
         invocados. Para cumprir estas exigências, uma petição que se destine à reparação de danos causados por uma instituição comunitária
         deve conter elementos que permitam identificar o comportamento que o recorrente reprova à instituição, as razões pelas quais
         considera que existe um nexo de causalidade entre o comportamento e o prejuízo que pretende ter sofrido, bem como a natureza
         e extensão deste prejuízo. Em contrapartida, um pedido de indemnização indeterminada carece da necessária precisão e deve,
         por isso, ser julgado inadmissível (acórdão do Tribunal de Justiça de 2 de Dezembro de 1971, Zuckerfabrik Schöppenstedt/Conselho,
         5/71, Colect., p. 375, n.° 9; despachos do Tribunal de Primeira Instância de 1 de Julho de 1994, Osório/Comissão, T‑505/93,
         ColectFP, p. I‑A‑179 e II‑581, n.° 33, e de 15 de Fevereiro de 1995, Moat/Comissão, T‑112/94, ColectFP, p. I‑A‑37 e II‑135,
         n.° 32; acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 7 de Fevereiro de 2006, Gordon/Comissão, T‑175/04, ainda não publicado
         na Colectânea, n.° 42).
      
      87      No caso vertente, há que observar que, ao reclamar, na sua petição, que «[se] [r]econheça […] a existência do seu direito
         a indemnização a quantificar posteriormente, que resulta dos danos materiais e morais […] infligidos pela [Comissão]», a recorrente
         não quantificou o montante do prejuízo que entende ter sofrido. O facto de ter pedido, na sua réplica, a condenação da Comissão
         a indemnizá‑la «pelo prejuízo material e moral sofrido, limitado provisoriamente e com todas as reservas ao montante provisional
         de 1 euro», não fornece as precisões exigidas pela jurisprudência acima referida.
      
      88      A recorrente também não indicou os elementos de facto que permitiriam apreciar a extensão do prejuízo alegadamente sofrido
         (despacho Moat/Comissão, já referido, n.° 35). É certo que indicou ao Tribunal que sofreu um prejuízo material devido à perda
         de remuneração decorrente da recusa de a recrutar e dos preparativos para a sua partida, a saber, um arrendamento de curta
         duração para seu alojamento, formações, vacinações, etc. Todavia, estas indicações sumárias não são susceptíveis de permitir
         uma apreciação precisa da extensão do prejuízo.
      
      89      Ora, admitindo que está demonstrado, há que considerar que o prejuízo material era perfeitamente avaliável, desde a fase da
         reclamação e, a fortiori, aquando da introdução da petição, dado que esse prejuízo material se funda, por um lado, numa perda de rendimentos resultante
         do não recrutamento e, por outro, nas despesas incorridas pela recorrente com vista à sua partida para África.
      
      90      Além disso, apesar de o juiz comunitário ter admitido que, em circunstâncias especiais, não é indispensável precisar na petição
         a extensão exacta do prejuízo e quantificar o montante da reparação pedida (acórdão do Tribunal de Justiça de 23 de Setembro
         de 2004, Hectors/Parlamento Europeu, C‑150/03 P, Colect., p. I‑8691, n.° 62; despacho Osório/Comissão, já referido, n.° 35)
         há que salientar que, no caso vertente, a recorrente não demonstrou nem sequer invocou a existência de tais circunstâncias
         (v., neste sentido, despachos Osório/Comissão, já referido, n.° 35 e Moat/Comissão, já referido, n.° 37).
      
      91      Quanto ao dano moral, há que sublinhar que, além da total falta de avaliação desse dano, a recorrente não colocou o Tribunal
         na posição de poder apreciar a respectiva extensão e carácter. Ora, quer a reparação do dano moral invocado seja pedida a
         título simbólico quer o seja para efeitos de obter uma verdadeira indemnização, incumbe ao recorrente precisar a natureza
         do dano moral invocado, à luz do ou dos comportamentos censurados à Comissão, e seguidamente detalhar, ainda que de modo aproximativo,
         a avaliação global desse dano (despacho Moat/Comissão, já referido, n.° 38; acórdão Gordon/Comissão, já referido, n.° 45).
      
      92      Daí resulta que o pedido de indemnização não preenche as condições de admissibilidade.
      
      93      Aliás, convém acrescentar que, mesmo admitindo que a recorrente apenas tenha pedido uma condenação simbólica, há que considerar
         que a anulação da decisão impugnada constitui, no caso vertente, uma reparação suficiente e adequada dos seus prejuízos (v.,
         neste sentido, acórdão do Tribunal de Primeira Instância de 9 de Março de 2000, Vicente Nuñez/Comissão, T‑10/99, Colect.,
         I‑A‑47 e II‑203, n.° 48).
      
      94      Resulta das considerações expostas que há que dar provimento ao recurso, no que respeita ao pedido de anulação da decisão
         impugnada, e negar provimento ao pedido indemnizatório.
      
       Quanto às despesas
      95      Em virtude do artigo 122.° do Regulamento de Processo, as disposições do capítulo VIII do título II do referido regulamento,
         relativas às despesas e aos encargos judiciais, apenas se aplicam aos processos intentados no Tribunal da Função Pública,
         e isto a contar da data de entrada em vigor do Regulamento de Processo. As disposições do Regulamento de Processo do Tribunal
         de Primeira Instância pertinentes na matéria continuam a aplicar‑se mutatis mutandis aos processos pendentes no Tribunal antes dessa data.
      
      96      Nos termos do artigo 87.°, n.° 2, do Regulamento de Processo do Tribunal de Primeira Instância, a parte vencida é condenada
         nas despesas se a parte vencedora o tiver requerido. Todavia, em virtude do artigo 88.° do mesmo Regulamento, nos litígios
         entre as Comunidades e os seus agentes, as despesas efectuadas pelas instituições ficam a cargo destas. Se cada parte obtiver
         vencimento parcial, o Tribunal pode determinar, em aplicação do artigo 87.°, n.° 3, primeiro parágrafo, do mesmo regulamento,
         que as despesas sejam repartidas ou que cada uma das partes suporte as suas próprias despesas.
      
      97      Tendo a Comissão sido vencida no essencial dos seus fundamentos, há que condená‑la nas despesas.
      
      Pelos fundamentos expostos,
      O TRIBUNAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA (Segunda Secção)
      decide:
      1)      A decisão do director da Direcção K «Serviço Externo» da Direcção‑Geral «Relações Externas» da Comissão das Comunidades Europeias,
            de 15 de Abril de 2005, que informou a recorrente de que não seria recrutada na qualidade de chefe da Administração da delegação
            situada na Guiné, é anulada.
      2)      É negado provimento ao recurso quanto ao mais.
      3)      A Comissão das Comunidades Europeias é condenada nas despesas.
      
               Van Raepenbusch
            
            
               Boruta
            
            
               Kanninen
            
         Proferido em audiência pública no Luxemburgo, em 13 de Dezembro de 2007.
      
               O secretário
            
             
            
                     O presidente
            
         
               W. Hakenberg
            
             
            
                     S. Van Raepenbusch
            
         
         O texto da presente decisão, bem como os das decisões das jurisdições comunitárias nela citadas ainda não publicadas na Colectânea
            estão disponíveis no sítio Internet do Tribunal de Justiça, www.curia.europa.eu 
         
      
      * Língua do processo: francês.