CELEX: 62005CJ0279
Language: pt
Date: 2007-01-11 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Primeira Secção) de 11 de Janeiro de 2007. # Vonk Dairy Products BV contra Productschap Zuivel. # Pedido de decisão prejudicial: College van Beroep voor het bedrijfsleven - Países Baixos. # Agricultura - Organização comum dos mercados - Queijo - Artigos 16.º a 18.º do Regulamento (CEE) n.º 3665/87 - Restituições à exportação diferenciadas - Reexportação quase imediata a partir do país de importação - Prova de uma prática abusiva - Repetição do indevido - Artigo 3.º, n.º 1, segundo parágrafo, do Regulamento (CE, Euratom) n.º 2988/95 - Irregularidade continuada ou repetida. # Processo C-279/05.

Processo C‑279/05
      Vonk Dairy Products BV
      contra
      Productschap Zuivel
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo College van Beroep voor het bedrijfsleven)
      «Agricultura – Organização comum de mercado – Queijo – Artigos 16.° a 18.° do Regulamento (CEE) n.° 3665/87 – Restituições à exportação diferenciadas – Reexportação quase imediata a partir do país de importação – Prova de uma prática abusiva – Repetição do indevido – Artigo 3.°, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95 – Irregularidade continuada ou repetida»
      Conclusões da advogada‑geral E. Sharpston apresentadas em 7 de Junho de 2006 
      Acórdão do Tribunal de Justiça (Primeira Secção) de 11 de Janeiro de 2007 
      Sumário do acórdão
      1.     Agricultura – Organização comum de mercado – Restituições à exportação – Restituição diferenciada 
      (Regulamento n.° 3665/87 da Comissão)
      2.     Recursos próprios das Comunidades Europeias – Regulamento relativo à protecção dos interesses financeiros da Comunidade
      (Regulamento n.° 2988/95 do Conselho, artigo 3.°, n.° 1, segundo parágrafo)
      1.     No âmbito de um processo de revogação e recuperação de restituições à exportação diferenciadas pagas a título definitivo com
         base no Regulamento n.° 3665/87, que estabelece regras comuns de execução do regime das restituições à exportação para os
         produtos agrícolas, a consideração de que essas restituições são indevidas deve‑se basear em provas de uma prática abusiva
         por parte do exportador, prova essa feita de acordo com as regras do direito nacional.
      
      Essa prova inclui, por um lado, um conjunto de circunstâncias objectivas das quais resulte que, apesar do respeito formal
         das condições previstas na legislação comunitária, o objectivo pretendido por essa legislação não foi alcançado e, por outro,
         um elemento subjectivo que consiste na vontade de obter um benefício resultante da legislação comunitária, criando artificialmente
         as condições exigidas para a sua obtenção. A existência desse elemento subjectivo pode ser demonstrada, designadamente, pela
         prova de colusão entre o exportador, beneficiário das restituições, e o importador do produto num país terceiro diferente
         do país de importação.
      
      É ao órgão jurisdicional de reenvio que compete verificar, em conformidade com as regras de prova do direito nacional e desde
         que a eficácia do direito comunitário não seja posta em causa, se os elementos constitutivos de tal prática abusiva estão
         preenchidos no processo principal.
      
      (cf. n.os 33, 34, 38, disp. 1)
      
      2.     Na acepção do artigo 3.°, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento n.° 2988/95, relativo à protecção dos interesses financeiros
         das Comunidades Europeias, uma irregularidade é continuada ou repetida quando for cometida por um operador comunitário que
         retire benefícios económicos de um conjunto de operações similares que violem a mesma disposição de direito comunitário. Não
         tem qualquer importância para esse efeito o facto de a irregularidade respeitar a uma parte relativamente pequena do conjunto
         das operações efectuadas num período determinado e de as operações consideradas irregulares respeitarem sempre a lotes diferentes.
      
      (cf. n.os 41, 42, 44, disp. 2)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Primeira Secção)
      11 de Janeiro de 2007 (*)
      
      «Agricultura – Organização comum de mercado – Queijo – Artigos 16.º a 18.º do Regulamento (CEE) n.º 3665/87 – Restituições à exportação diferenciadas – Reexportação quase imediata a partir do país de importação – Prova de uma prática abusiva – Repetição do indevido – Artigo 3.º, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento (CE, Euratom) n.º 2988/95 – Irregularidade continuada ou repetida»
      No processo C‑279/05,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentado pelo College van Beroep voor
         het bedrijfsleven (Países Baixos), por decisão de 30 de Junho de 2005, entrado no Tribunal de Justiça em 11 de Julho de 2005,
         no processo
      
      Vonk Dairy Products BV
      contra
      Productschap Zuivel,
      
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Primeira Secção),
      composto por: P. Jann, presidente de secção, K. Lenaerts, J. N. Cunha Rodrigues, M. Ilešič (relator) e E. Levits, juízes,
      advogada-geral: E. Sharpston,
      secretário: B. Fülöp, administrador,
      vistos os autos e após a audiência de 29 de Março de 2006,
      vistas as observações apresentadas:
      –       em representação da Vonk Dairy Products BV, por J. H. Peek, advocaat,
      –       em representação do Reino dos Países Baixos, por H. G. Sevenster e M. de Mol, na qualidade de agentes,
      –       em representação da República Helénica, por I. Chalkias e S. Papaioannou, na qualidade de agentes,
      –       em representação da Comissão das Comunidades Europeias, por C. Cattabriga e M. van Heezik, na qualidade de agentes,
      ouvidas as conclusões da advogada‑geral na audiência de 7 de Junho de 2006,
      profere o presente
      Acórdão
      1       O pedido de decisão prejudicial tem por objecto a interpretação dos artigos 16.º a 18.º do Regulamento (CEE) n.º 3665/87 da
         Comissão, de 27 de Novembro de 1987, que estabelece regras comuns de execução do regime das restituições à exportação para
         os produtos agrícolas (JO L 351, p. 1), e 3.º, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95 do Conselho,
         de 18 de Dezembro de 1995, relativo à protecção dos interesses financeiros das Comunidades Europeias (JO L 312, p. 1).
      
      2       Este pedido foi apresentado no âmbito de um litígio entre a Vonk Dairy Products BV e a Productschap Zuivel (associação de
         produtores da indústria leiteira), a respeito da retirada e da recuperação, com um acréscimo de 15%, de uma restituição à
         exportação diferenciada recebida pela recorrente no processo principal.
      
       Quadro jurídico 
       A regulamentação comunitária
       O Regulamento n.º 3665/87
      3       O artigo 1.º do Regulamento n.º 3665/87 dispõe:
      «O presente regulamento estabelece, sem prejuízo de disposições derrogatórias previstas na regulamentação comunitária específica
         de determinados produtos, as regras comuns de execução do regime das restituições à exportação, a seguir denominadas restituições,
         instituído ou previsto por:
      
      [...]
      – o artigo 17.º do Regulamento (CEE) n.° 804/68 (leite e produtos lácteos),
      [...]»
      4       Os artigos 4.º a 6.º do mesmo regulamento referem:
      «Artigo 4.º
      1.      Sem prejuízo do disposto nos artigos 5.° e 16.°, o pagamento da restituição fica subordinado à apresentação da prova de que
         os produtos para os quais foi aceite uma declaração de exportação deixaram, no mesmo estado, o território aduaneiro da Comunidade,
         o mais tardar no prazo de 60 dias a contar da data dessa aceitação.
      
      [...]
      Artigo 5.º
      1.      O pagamento da restituição diferenciada ou não diferenciada fica sujeito, para além da condição de que o produto tenha deixado
         o território aduaneiro da Comunidade, à condição de que o produto [...] tenha sido importado num país terceiro e, se for caso
         disso, num país terceiro determinado, nos doze meses seguintes à data de aceitação da declaração de exportação:
      
      a) Sempre que existam sérias dúvidas quanto ao destino real do produto,
      [...]
      O disposto no n.° 3 do artigo 17.° e no artigo 18.° é aplicável nos casos referidos no primeiro parágrafo.
      Além disso, os serviços competentes dos Estados‑Membros podem exigir provas suplementares que constituam demonstração bastante
         perante as autoridades competentes de que o produto foi efectivamente introduzido, no mesmo estado, no mercado do país terceiro
         de importação.
      
      [...]
      Sempre que existam sérias dúvidas quanto ao destino real dos produtos, a Comissão pode pedir aos Estados‑Membros que apliquem
         o disposto no n.° 1.
      
      [...]
      Artigo 6.º
      Se, antes de deixar o território aduaneiro da Comunidade, um produto para o qual foi aceite a declaração de exportação atravessar
         territórios da Comunidade diferentes dos do Estado‑Membro em cujo território essa declaração foi aceite, a prova de que esse
         produto deixou o território aduaneiro da Comunidade deve ser efectuada pela apresentação do original devidamente anotado do
         exemplar de controlo T 5 referido no artigo 1.º do Regulamento (CEE) n.° 2823/87.
      
      [...]» 
      5       Os artigos 16.º e 17.º do Regulamento n.º 3665/87 dispõem:
      «Artigo 16.º      
      
      1.      Caso a taxa da restituição seja diferenciada conforme o destino, o pagamento da restituição está subordinado às condições
         suplementares definidas nos artigos 17.º e 18.º
      
      [...]
      Artigo 17.º
      1.      O produto deve ter sido importado no mesmo estado no país terceiro ou num dos países terceiros para os quais está prevista
         a restituição, nos doze meses seguintes à data da aceitação da declaração de exportação; [...]
      
      [...]
      3.      O produto é considerado importado quando tiverem sido cumpridas as formalidades aduaneiras de introdução no consumo no país
         terceiro.»
      
      6       O artigo 18.º do mesmo regulamento contém a lista taxativa de todas as provas documentais que os exportadores devem apresentar
         para demonstrarem que o produto foi sujeito a todas as formalidades aduaneiras de introdução no consumo. Entre as provas exigidas
         por essa disposição, consta uma cópia do documento de transporte.
      
      7       O referido artigo 18.º, durante o período a que se reportam os factos, foi alterado por diversas vezes, mas sem qualquer incidência
         na decisão da causa principal.
      
      8       O artigo 23.º do Regulamento n.º 3665/87 dispõe:
      «1.      Quando o montante pago antecipadamente for superior ao montante efectivamente devido para a exportação em causa ou para uma
         exportação equivalente, o exportador reembolsará a  diferença entre estes dois montantes, acrescida de 15%.
      
      [...]»
       O Regulamento n.º 2988/95
      9       O artigo 1.º do Regulamento n.º 2988/95 dispõe:
      «1.      Para efeitos da protecção dos interesses financeiros das Comunidades Europeias, é adoptada uma regulamentação geral em matéria
         de controlos homogéneos e de medidas e sanções administrativas relativamente a irregularidades no domínio do direito comunitário.
      
      2.      Constitui irregularidade qualquer violação de uma disposição de direito comunitário que resulte de um acto ou omissão de um
         agente económico que tenha ou possa ter por efeito lesar o orçamento geral das Comunidades ou orçamentos geridos pelas Comunidades,
         quer pela diminuição ou supressão de receitas provenientes de recursos próprios cobradas directamente por conta das Comunidades,
         quer por uma despesa indevida.» 
      
      10     Nos termos do artigo 3.º, n.° 1, do Regulamento n.º 2988/95:
      «O prazo de prescrição do procedimento é de quatro anos a contar da data em que foi praticada a irregularidade referida no
         n.º 1 do artigo 1.º Todavia, as regulamentações sectoriais podem prever um prazo mais reduzido, que não pode ser inferior
         a três anos.
      
      O prazo de prescrição relativo às irregularidades continuadas ou repetidas corre desde o dia em que cessou a irregularidade.
         O prazo de prescrição no que se refere aos programas plurianuais corre em todo o caso até ao encerramento definitivo do programa.
      
      [...]»
       A regulamentação nacional
      11     O artigo 9.º da lei da importação e exportação de bens (wet houdende een regeling op het gebied van de invoer en de uitvoer
         van goederen), de 5 de Julho de 1962 (Stb. 1962, n.° 295), na redacção dada pela lei de 4 de Junho de 1992 (Stb. 1992, n.° 422),
         dispõe:
      
      «1.      O ministro competente pode revogar qualquer autorização, restituição, subvenção ou isenção quando se verifique que os dados
         fornecidos para a sua obtenção são de tal forma incorrectos ou incompletos que o pedido teria sido objecto de decisão diferente
         se as circunstâncias exactas tivessem sido conhecidas no momento da sua análise.
      
      2.      Qualquer subvenção ou restituição concedida no âmbito da execução de um regulamento adoptado por uma instituição das Comunidades
         Europeias pode ser igualmente revogada se resultar de uma disposição aplicável adoptada por uma dessas instituições que o
         beneficiário não tinha direito a essa subvenção ou restituição.»
      
      12     De acordo com os artigos 1.º, 85.º e 118.º e com o anexo I do regulamento relativo à importação e exportação de produtos agrícolas
         (regeling in‑ en uitvoer landbouwgoederen), de 9 de Março de 1981 (Stcrt. 1981, n.º 50), disposições aprovadas com base no
         artigo 11.º da lei referida no número anterior, a Productschap Zuivel é a entidade competente para conceder e revogar as restituições
         aplicáveis no que respeita ao queijo.
      
       O litígio no processo principal e as questões prejudiciais
      13     De 1988 a 1994, a recorrente no processo principal exportou por ano, para os Estados Unidos da América, 300 lotes de queijo
         italiano «pecorino», isto é, 2 100 lotes, no total.
      
      14     Por essas exportações, recebeu da recorrida no processo principal as restituições diferenciadas concedidas com base no Regulamento
         n.º 3665/87, que se tornaram definitivas com a extinção das garantias constituídas quando a referida recorrida recebeu os
         documentos comprovativos de que os referidos lotes tinham entrado em livre prática nos Estados Unidos.
      
      15     O montante dessas restituições relativas ao queijo em causa nas exportações para os Estados Unidos era superior ao relativo
         às exportações para o Canadá.
      
      16     Resulta dos autos no Tribunal de Justiça que o Algemene Inspectiedienst (Serviço Geral de Inspecção, a seguir «AID») do ministerie
         van Landbouw, Natuurbeheer en Visserij (Ministério da Agricultura, da Natureza e das Pescas) procedeu a uma primeira investigação
         relativa às exportações de queijo em causa no processo principal.
      
      17     Tendo essa investigação revelado irregularidades relativas à recorrente no processo principal, o AID pediu aos US Customs
         (autoridades aduaneiras dos Estados Unidos) de Nova Iorque a abertura de uma investigação administrativa relativa às referidas
         exportações efectuadas no período de 1988 a 1994.
      
      18     Essa segunda investigação revelou que, durante esse período, 75 lotes de queijo (isto é, cerca de 1,47 milhões de quilogramas)
         foram quase imediatamente reexportados para o Canadá pela Orlando Food Corporation, intermediária da referida recorrente nos
         Estados Unidos, na maior parte dos casos com destino à National Cheese & Food Company, empresa estabelecida no Ontário. A
         mesma investigação demonstrou, igualmente, que o papel da recorrente no processo principal não se limitou à exportação dos
         lotes de queijo em causa para os Estados Unidos, pois estava informada das transferências para o Canadá e estava igualmente
         envolvida na venda dos referidos lotes nesse país. Além disso, existiu troca de correspondência a esse respeito entre a recorrente
         no processo principal e a empresa National Cheese & Food Company.
      
      19     Na sequência dessa segunda investigação, o Officier van Justitie (procurador) de Roermond (Países Baixos) abriu inquérito
         judiciário contra a recorrente no processo principal e contra os seus responsáveis por falsificação de documentos, uma vez
         que os pedidos de restituição diferenciada eram considerados constitutivos de falsificação ao mencionarem os Estados Unidos
         como destino para consumo, quando determinados lotes de queijo foram enviados para o Canadá onde foram comercializados. O
         AID consignou em relatório de 5 de Março de 1997 os resultados da primeira investigação.
      
      20     Por ofício de 18 de Setembro de 1997, a recorrida no processo principal informou a recorrente de que tinha recebido o relatório
         mencionado no número anterior, cuja cópia se encontrava junto ao referido ofício.
      
      21     Por decisão de 18 de Abril de 2001, a recorrida no processo principal revogou as decisões de concessão de restituições relativamente
         aos 75 lotes em causa e exigiu o reembolso do montante de 2 795 841,72 NLG, correspondente à diferença entre as restituições
         diferenciadas aplicáveis às restituições às exportações para os Estados Unidos, por um lado, e às exportações para o Canadá,
         por outro, acrescido de 15%.
      
      22     Tendo a recorrida no processo principal indeferido a reclamação dessa decisão, a recorrente no processo principal interpôs
         recurso para o órgão jurisdicional de reenvio. Como fundamento de recurso, a recorrente no processo principal alega que cumpriu
         todas as condições previstas nos artigos 4.º, 17.º, n.° 3, e 18.º do Regulamento n.º 3665/87 para receber as restituições
         diferenciadas pelos lotes de queijo em causa e que a posterior reexportação de alguns desses lotes para o Canadá não tinha
         qualquer consequência na concessão dessas restituições. Quanto a esse ponto, baseia-se no acórdão de 14 de Dezembro de 2000,
         Emsland‑Stärke (C‑110/99, Colect., p. I‑11569), considerando que a recorrida no processo principal não demonstrou a existência
         de uma prática abusiva da sua parte na acepção do referido acórdão. Assim, a recorrente no processo principal entende que
         foi indevidamente que as restituições em causa não lhe foram pagas, tendo-se convertido em definitivas depois de a referida
         recorrente ter feito a prova da importação e da entrada no consumo nos Estados Unidos.
      
      23     A recorrente no processo principal alega, igualmente, que a irregularidade que lhe é imputada não é continuada nem repetida,
         pois a maior parte dos lotes que exportou para os Estados Unidos não foi reexportada, inferindo daí que não se interrompeu
         o prazo de prescrição. Com efeito, o inquérito judiciário é relativo a falsificação de documentos e não à anulação das restituições
         ou ao pedido de reembolso. De resto, o referido inquérito foi levado a cabo por outras autoridades diferentes da recorrida
         no processo principal, pelo que não pode ser considerado um acto interruptivo. A recorrente no processo principal acrescenta
         que nem o relatório de 5 de Março de 1997 nem a carta da recorrida no processo principal, de 18 de Setembro de 1997, esclarecem
         sobre que actos recaíam as suspeitas.
      
      24     Por último, a recorrente no processo principal considera que a recorrida no mesmo processo não podia basear no Regulamento
         n.º 3665/87 a sua decisão de aumentar em 15% o montante a reembolsar, pois a restituição diferenciada só foi instituída por
         motivos políticos.
      
      25     A recorrida no processo principal considera o recurso improcedente. Alega que é essencial, no que respeita ao pagamento das
         restituições diferenciadas, que os produtos por elas abrangidos cheguem efectivamente ao seu mercado de destino. Infere daí
         que o facto de uma determinada quantidade do queijo em causa ter sido exportada para o Canadá implica o reembolso das restituições
         diferenciadas em causa no processo principal. Com base no acórdão de 31 de Março de 1993, Möllmann-Fleisch (C‑27/92, Colect., p. I‑1701),
         entende que os documentos de importação não constituem mais do que um indício refutável no que respeita à concessão das restituições
         diferenciadas na acepção do Regulamento n.º 3665/87. Considera, portanto, que as referidas restituições foram indevidamente
         pagas.
      
      26     Quanto à prescrição, a recorrida no processo principal alega que a decisão de 18 de Abril de 2001, pela qual pediu o reembolso,
         foi tomada no prazo previsto no Regulamento n.º 2988/95. Com efeito, esse prazo só começou a correr com a última operação
         de exportação, a qual, de acordo com a declaração de exportação, se realizou em 28 de Setembro de 1994. Seguidamente, o prazo
         de prescrição foi interrompido em Julho de 1997, devido a inspecções realizadas no âmbito do inquérito judiciário, bem como
         em 18 de Setembro de 1997, com o envio do relatório de 5 de Março de 1997 à recorrente no processo principal.
      
      27     Nestas circunstâncias, o College van Beroep voor het bedrijfsleven suspendeu a instância e submeteu ao Tribunal de Justiça
         as seguintes questões prejudiciais:
      
      «1)      Devem os artigos 16.° a 18.° do Regulamento (CEE) n.° 3665/87, na redacção em vigor à data relevante para o presente processo,
         ser interpretados no sentido de que, se forem definitivamente pagas restituições diferenciadas após a aceitação dos documentos
         de importação, a posterior prova de que as mercadorias foram reexportadas só pode levar a que o pagamento seja considerado
         indevido em caso de prática abusiva do exportador?
      
      2)      Em caso de resposta negativa à questão 1), quais os critérios que permitem determinar quando a reexportação de mercadorias
         leva necessariamente à conclusão de que o pagamento definitivo das restituições diferenciadas foi indevido?
      
      3)      Quais os critérios que permitem determinar se a irregularidade é continuada ou repetida na acepção do artigo 3.°, n.° 1, segundo
         parágrafo, do Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95? Em especial, [...] uma irregularidade é continuada ou repetida no caso
         de respeitar a uma parte relativamente pequena de todas as transacções efectuadas num determinado período e de as transacções
         relativamente às quais foi constatada uma irregularidade se referirem sempre a lotes diferentes[?]»
      
       Quanto às questões prejudiciais
       Quanto à primeira questão 
      28     Com a primeira questão, o órgão jurisdicional de reenvio pretende saber, no essencial, se, no âmbito de um procedimento de
         revogação e recuperação de restituições diferenciadas, que foram pagas a título definitivo com base no Regulamento n.º 3665/87,
         para se declarar que essas restituições foram indevidamente pagas, é necessário que se faça prova de uma prática abusiva por
         parte do exportador.
      
      29     Importa, desde já, referir que a concessão de restituições diferenciadas está sujeita às condições previstas no Regulamento
         n.º 3665/87 e que constam dos seus artigos 4.º a 6.º, por um lado, e 16.º a 18.º, por outro. Ora, resulta dos autos no Tribunal
         de Justiça que a recorrente no processo principal cumpriu no plano formal todas as condições previstas no referido regulamento,
         pelo que as restituições em causa lhe foram pagas a título definitivo. Em particular, resulta da decisão de reenvio que a
         recorrida no processo principal não fez uso da faculdade, prevista nos artigos 5.º, n.° 1, alínea a), quarto parágrafo, e
         18.º, n.° 2, do Regulamento n.º 3665/87, de pedir, antes de as restituições em causa se converterem em definitivas, provas
         suplementares que pudessem demonstrar que os produtos em causa tinham sido efectivamente introduzidos, no mesmo estado, no
         mercado do país terceiro de importação.
      
      30     Refira-se que, segundo a decisão de reenvio, a decisão de exigir o reembolso das referidas restituições não se baseia nas
         deficiências dos documentos de importação entregues pela recorrente no processo principal, mas sim no facto de determinados
         lotes de queijo terem sido reexportados para outro país terceiro quase imediatamente a seguir à sua importação nos Estados
         Unidos.
      
      31     A este respeito, há que lembrar que a aplicação dos regulamentos comunitários não pode ser de tal forma alargada que dê cobertura
         a práticas abusivas de operadores económicos (acórdãos de 11 de Outubro de 1977, Cremer, 125/76, Recueil, p. 1593, n.° 21,
         Colect., p. 561, e Emsland-Stärke, já referido, n.° 51).
      
      32     Para se considerar que são indevidas as restituições diferenciadas concedidas a título definitivo na acepção do Regulamento
         n.º 3665/87, é necessário, portanto, quando uma parte dos produtos em causa tiver sido quase imediatamente exportada para
         outro país terceiro, fazer prova de uma prática abusiva por parte do exportador.
      
      33     Essa prova inclui, por um lado, um conjunto de circunstâncias objectivas das quais resulte que, apesar do respeito formal
         das condições previstas na legislação comunitária, o objectivo pretendido por essa legislação não foi alcançado e, por outro,
         um elemento subjectivo que consiste na vontade de obter um benefício resultante da legislação comunitária, criando artificialmente
         as condições exigidas para a sua obtenção (acórdão de 21 de Julho de 2005, Eichsfelder Schlachtbetrieb, C‑515/03, Colect.,
         p. I‑7355, n.° 39 e jurisprudência aí referida). A existência desse elemento subjectivo pode ser demonstrada, designadamente,
         pela prova de colusão entre o exportador, beneficiário das restituições, e o importador do produto num país terceiro diferente
         do país de importação.
      
      34     É ao órgão jurisdicional de reenvio que compete verificar, em conformidade com as regras de prova do direito nacional e desde
         que a eficácia do direito comunitário não seja posta em causa, se os elementos constitutivos de tal prática abusiva estão
         preenchidos no processo principal (acórdãos Emsland-Stärke, já referido, n.° 54 e jurisprudência aí referida, e Eichsfelder
         Schlachtbetrieb, já referido, n.° 40).
      
      35     O Governo neerlandês alega, a esse respeito, que a prova de uma prática abusiva, na acepção do acórdão Emsland‑Stärke, já
         referido, do exportador só tem que ser feita nos casos em que estejam preenchidas todas as condições formais para a concessão
         de restituições, o que não acontece no processo principal, pois, uma vez que os lotes de queijo reexportados para o Canadá
         não foram introduzidos no consumo no mercado dos Estados Unidos, não foi cumprida a condição de introdução no consumo no país
         terceiro na acepção do artigo 17.º, n.° 3, do Regulamento n.º 3665/87.
      
      36     Este argumento não pode ser acolhido. Com efeito, por um lado, resulta do n.° 28 do presente acórdão que a recorrente no processo
         principal cumpriu, no plano formal, todas as condições que o Regulamento n.º 3665/87 prevê para a concessão das restituições
         diferenciadas em causa, incluindo as previstas no artigo 17.º, n.° 3, do referido regulamento, pelo que essas restituições
         lhe foram pagas a título definitivo sem que os serviços competentes do Estado‑Membro em causa tenham julgado oportuno exigir
         previamente, com base no artigo 5.º, n.° 1, alínea a), quarto parágrafo, desse regulamento, provas suplementares de que o
         produto tinha efectivamente sido introduzido, no mesmo estado, no mercado do país terceiro de importação. Por outro lado,
         tal como acima referido no n.° 32, o Estado‑Membro em causa no processo principal não tem o direito de exigir o reembolso
         de restituições definitivamente pagas, a menos que se demonstre uma prática abusiva por parte do exportador.
      
      37     Tal como o Governo neerlandês, também o Governo grego salienta que o facto de não ter sido cumprida a condição de introdução
         no consumo no mercado do país terceiro de importação no caso em apreço no processo principal implica que o reembolso das restituições
         diferenciadas indevidamente pagas pode ser exigido com base nas disposições do Regulamento n.º 2988/95, sem ser necessário
         demonstrar uma prática abusiva por parte do exportador. Este argumento não colhe, pois, tal como referido no n.° 32 do presente
         acórdão, o reembolso das restituições diferenciadas indevidamente pagas, no que respeita às operações em causa no processo
         principal e que remontam ao período entre 1988 e 1994, exige a prova de uma prática abusiva por parte do exportador. Por conseguinte,
         o conceito de irregularidade, na acepção do artigo 1.º do Regulamento n.º 2988/95, não pode ser tido em conta a este respeito.
      
      38     Em face do exposto, há que responder à primeira questão colocada que, no âmbito de um processo de revogação e recuperação
         de restituições diferenciadas pagas a título definitivo com base no Regulamento n.º 3665/87, a consideração de que essas restituições
         são indevidas deve‑se basear na prova de uma prática abusiva por parte do exportador, prova essa feita de acordo com as regras
         do direito nacional.
      
       Quanto à segunda questão
      39     Tendo em conta a resposta afirmativa dada à primeira questão, não é necessário responder à segunda.
       Quanto à terceira questão
      40     Com a terceira questão, o órgão jurisdicional de reenvio pretende, no essencial, conhecer os critérios que permitam apreciar
         se uma irregularidade deve ser considerada continuada ou repetida, na acepção do artigo 3.º, n.° 1, segundo parágrafo, do
         Regulamento n.º 2988/95. O órgão jurisdicional questiona-se, em particular, sobre uma situação em que a irregularidade respeite
         a uma parte relativamente pequena do conjunto das operações efectuadas em determinado período e respeite sempre a lotes diferentes.
      
      41     Tal como, no essencial, salienta a advogada‑geral no n.° 82 das suas conclusões, uma irregularidade é continuada ou repetida,
         na acepção do artigo 3.º, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento n.º 2988/95, quando for cometida por um operador comunitário
         que retire benefícios económicos de um conjunto de operações similares que violem a mesma disposição de direito comunitário.
      
      42     A esse respeito, não tem qualquer importância o facto de, como no caso presente, a irregularidade dizer respeito a uma parte
         relativamente pequena do conjunto das operações efectuadas num período determinado e de as operações consideradas irregulares
         respeitarem sempre a lotes diferentes. Com efeito, essas circunstâncias não são determinantes para que se considere existir
         uma irregularidade continuada ou repetida, sob pena de se incentivar os operadores a tentarem subtrair‑se à aplicação do artigo
         3.º, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento n.º 2988/95, procedendo a uma divisão artificial das suas operações.
      
      43     Cabe ao órgão jurisdicional de reenvio verificar, de acordo com as regras de prova do direito nacional e desde que a eficácia
         do direito comunitário não seja posta em causa, se os elementos constitutivos de uma irregularidade continuada ou repetida
         estão reunidos no processo principal.
      
      44     Em face do exposto, há que responder à terceira questão colocada que, na acepção do artigo 3.º, n.° 1, segundo parágrafo,
         do Regulamento n.º 2988/95, uma irregularidade é continuada ou repetida quando for cometida por um operador comunitário que
         retire benefícios económicos de um conjunto de operações similares que violem a mesma disposição de direito comunitário. Não
         tem qualquer importância para esse efeito o facto de a irregularidade respeitar a uma parte relativamente pequena do conjunto
         das operações efectuadas num período determinado e de as operações consideradas irregulares respeitarem sempre a lotes diferentes.
      
       Quanto às despesas
      45     Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         nacional, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes, para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça, não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Primeira Secção) declara:
      1)      No âmbito de um processo de revogação e recuperação de restituições à exportação diferenciadas pagas a título definitivo com
            base no Regulamento (CEE) n.º 3665/87 da Comissão, de 27 de Novembro de 1987, que estabelece regras comuns de execução do
            regime das restituições à exportação para os produtos agrícolas, a consideração de que essas restituições são indevidas deve‑se
            basear na prova de uma prática abusiva por parte do exportador, prova essa feita de acordo com as regras do direito nacional.
      2)      Na acepção do artigo 3.º, n.° 1, segundo parágrafo, do Regulamento (CE, Euratom) n.º 2988/95 do Conselho, de 18 de Dezembro
            de 1995, relativo à protecção dos interesses financeiros das Comunidades Europeias, uma irregularidade é continuada ou repetida
            quando for cometida por um operador comunitário que retire benefícios económicos de um conjunto de operações similares que
            violem a mesma disposição de direito comunitário. Não tem qualquer importância para esse efeito o facto de a irregularidade
            respeitar a uma parte relativamente pequena do conjunto das operações efectuadas num período determinado e de as operações
            consideradas irregulares respeitarem sempre a lotes diferentes.
      Assinaturas
      * Língua do processo: neerlandês.