CELEX: 62004CJ0394
Language: pt
Date: 2005-12-01
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Terceira Secção) 1 de Dezembro de 2005. # Diagnostiko & Therapeftiko Kentro Athinon-Ygeia AE contra Ypourgos Oikonomikon. # Pedido de decisão prejudicial: Symvoulio tis Epikrateias - Grécia. # Sexta Directiva IVA - Artigo 13.º, A, n.º 1, alínea b) - Isenções - Operações estreitamente conexas com a hospitalização ou a assistência médica - Fornecimento de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas - Fornecimento de dormidas e refeições aos seus acompanhantes. # Processos apensos C-394/04 e C-395/04.

Processos apensos C‑394/04 e C‑395/04
      Diagnostiko & Therapeftiko Kentro Athinon-Ygeia AE
      contra
      Ypourgos Oikonomikon
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo Symvoulio tis Epikrateias)
      «Sexta Directiva IVA – Artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b) – Isenções – Operações estreitamente conexas com a hospitalização ou a assistência médica – Fornecimento de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas – Fornecimento de dormidas e refeições aos seus acompanhantes»
      Conclusões do advogado‑geral P. Léger apresentadas em 15 de Setembro de 2005 
      Acórdão do Tribunal de Justiça (Terceira Secção) de 1 de Dezembro de 2005 
      Sumário do acórdão
      Disposições fiscais – Harmonização das legislações – Impostos sobre o volume de negócios – Sistema comum do imposto sobre
            o valor acrescentado – Isenções previstas pela Sexta Directiva – Isenção da hospitalização e dos cuidados médicos, bem como
            das operações que lhes estão estreitamente conexas – Conceito de «operações estreitamente conexas»» e de «assistência médica»
            – Fornecimento de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas, bem como fornecimento
            de dormidas e refeições aos seus acompanhantes – Não aplicação – Excepção – Condições – Apreciação pelo juiz nacional 
      [Directiva 77/388 do Conselho, artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b)]
      O fornecimento, pelas pessoas visadas no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da Sexta Directiva 77/388 relativa à harmonização
         das legislações dos Estados‑Membros respeitantes aos impostos sobre o volume de negócios, de serviços telefónicos e de locação
         de postos de televisão às pessoas hospitalizadas, bem como o fornecimento, por essas mesmas pessoas, de dormidas e refeições
         aos seus acompanhantes, não constituem, regra geral, operações estreitamente conexas com a hospitalização e com a assistência
         médica na acepção dessa disposição. Com efeito, a isenção das operações prevista no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da directiva
         destina‑se a garantir que o benefício da assistência médica e hospitalar não se torne inacessível em razão do acréscimo de
         custos dessa assistência se ela própria, ou as operações com ela estreitamente conexas, estiver sujeita a imposto sobre o
         valor acrescentado. Ora, a assistência médica e hospitalar visada nessa disposição é, segundo a jurisprudência, a que tem
         por finalidade diagnosticar, tratar e, na medida do possível, curar doenças ou anomalias de saúde. Por isso, tendo em conta
         o objectivo prosseguido pela isenção prevista no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da referida directiva, conclui‑se que só
         as prestações de serviços que se inscrevem logicamente no quadro do fornecimento dos serviços de hospitalização e de assistência
         médica e que constituem uma etapa indispensável no processo de prestação desses serviços para atingir as finalidades terapêuticas
         prosseguidas por estes são susceptíveis de constituir «operações [...] estreitamente conexas» na acepção dessa disposição.
      
      O fornecimento das referidas prestações só pode constituir uma operação «estreitamente conexa» se essas prestações revestirem
         um carácter indispensável para atingir as finalidades terapêuticas prosseguidas pela hospitalização e pela assistência médica
         e se não se destinarem essencialmente a obter receitas suplementares para a pessoa que as fornece, através da realização de
         operações efectuadas em concorrência directa com as de empresas comerciais sujeitas a imposto sobre o valor acrescentado.
         Cabe ao órgão jurisdicional de reenvio, tendo em conta todos os elementos concretos dos litígios que lhe foram submetidos
         e, sendo caso disso, o conteúdo das receitas médicas passadas aos doentes em causa, determinar se as prestações fornecidas
         preenchem essas condições.
      
      (cf. n.os 23‑25, 30, 35, disp. 1, 2)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção)
      1 de Dezembro de 2005 (*)
      
      «Sexta Directiva IVA – Artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b) – Isenções – Operações estreitamente conexas com a hospitalização ou a assistência médica – Fornecimento de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas – Fornecimento de dormidas e refeições aos seus acompanhantes»
      Nos processos apensos C‑394/04 e C‑395/04,
      que têm por objecto pedidos de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentados pelo Symvoulio tis Epikrateias
         (Grécia), por decisões de 16 de Junho de 2004, entrados no Tribunal de Justiça em 17 de Setembro de 2004, nos processos
      
      Diagnostiko & Therapeftiko Kentro Athinon‑Ygeia AE
      contra
      Ypourgos Oikonomikon,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção),
      composto por: A. Rosas, presidente de secção, J.‑P. Puissochet, S. von Bahr, U. Lõhmus e A. Ó Caoimh (relator), juízes,
      advogado‑geral: P. Léger,
      secretário: L. Hewlett, administradora principal,
      vistos os autos e após a audiência de 29 de Junho de 2005,
      vistas as observações apresentadas:
      –       em representação da Diagnostiko & Therapeftiko Kentro Athinon‑Ygeia AE, por K. Karlis, dikigoros,
      –       em representação do Governo grego, por E.‑M. Mamouna, S. Trekli e V. Kyriazopoulos, na qualidade de agentes,
      –       em representação do Governo alemão, por W.‑D. Plessing e A. Tiemann, na qualidade de agentes,
      –       em representação do Governo cipriota, por A. Miltiadou‑Omirou, na qualidade de agente,
      –       em representação da Comissão das Comunidades Europeias, por D. Triantafyllou, na qualidade de agente,
      ouvidas as conclusões do advogado‑geral na audiência de 15 de Setembro de 2005,
      profere o presente
      Acórdão
      1       Os pedidos de decisão prejudicial têm por objecto a interpretação do artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da Sexta Directiva
         77/388/CEE do Conselho, de 17 de Maio de 1977, relativa à harmonização das legislações dos Estados‑Membros respeitantes aos
         impostos sobre o volume de negócios – Sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado: matéria colectável uniforme (JO
         L 145, p. 1; EE 09 F1 p. 54; a seguir «Sexta Directiva»).
      
      2       Estes pedidos foram apresentados no quadro de litígios que opõem a Diagnostiko & Therapeftiko Kentro Athinon‑Ygeia AE (a seguir
         «Ygeia»), pessoa colectiva de direito privado cujo objecto social consiste em fornecer assistência hospitalar e médica, ao
         Ypourgos Oikonomikon (Ministro das Finanças), a respeito da recusa de o Dimosia Oikonomiki Ypiresia Forologias Anonymon Emborikon
         Etairion Athinon (serviço de contribuições de Atenas encarregado da fiscalidade das sociedades anónimas) isentar do imposto
         sobre o valor acrescentado (a seguir «IVA»), como operações estreitamente conexas com a hospitalização e com os cuidados de
         saúde, o fornecimento de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas, bem como o de
         dormidas e refeições aos seus acompanhantes.
      
       Quadro jurídico
       Regulamentação comunitária
      3       O artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da Sexta Directiva dispõe:
      «1.      Sem prejuízo de outras disposições comunitárias, os Estados‑Membros isentarão, nas condições por eles fixadas com o fim de
         assegurar a aplicação correcta e simples das isenções a seguir enunciadas e de evitar qualquer possível fraude, evasão e abuso:
      
      […]
      b)      A hospitalização e a assistência médica, e bem assim as operações com elas estreitamente conexas, asseguradas por organismos
         de direito público ou, em condições sociais análogas às que vigoram para estes últimos, por estabelecimentos hospitalares,
         centros de assistência médica e de diagnóstico e outros estabelecimentos da mesma natureza devidamente reconhecidos.»
      
      4       O artigo 13.°, A, n.° 2, alínea b), da Sexta Directiva prevê:
      «b)      As prestações de serviços e as entregas de bens ficam excluídas do benefício da isenção prevista nas alíneas b), g), h), i),
         l), m) e n) do n.° 1, se:
      
      –       não forem indispensáveis à realização das operações isentas;
      –       se destinarem, essencialmente, a obter para o organismo receitas suplementares mediante a realização de operações efectuadas
         em concorrência directa com as empresas comerciais sujeitas ao imposto sobre o valor acrescentado.»
      
       Legislação nacional
      5       O artigo 18.°, n.° 1, alínea d), da Lei n.° 1642/1986, relativa à aplicação do imposto sobre o valor acrescentado e de outras
         disposições» (FEK A’ 125), estabelece: 
      
      «São isentas de imposto: 
      […]
      d)      as prestações de serviços de hospitalização e de assistência médica, bem como o fornecimento de bens e a prestação de serviços
         com eles estreitamente conexos, efectuadas por pessoas que actuem nos termos da lei. São equiparados a estes serviços os serviços
         prestados pelos estabelecimentos de cura e termais.»
      
       Os litígios nos processos principais e a questão prejudicial
      6       Após fiscalização dos livros da escrita da Ygeia relativamente aos exercícios fiscais de 1992 e 1993, o Dimosia Oikonomiki
         Ypiresia Forologias Anonymon Emborikon Etairion Athinon considerou que as receitas realizadas por esta, a título, por um lado,
         do fornecimento de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas e, por outro, do de
         dormidas e refeições aos seus acompanhantes, deviam ser sujeitas a IVA, pela razão de que essas prestações não podem ser consideradas
         operações estreitamente conexas com a hospitalização e com a assistência médica. Por conseguinte, rectificou a dívida fiscal
         daquela sociedade através de duas decisões distintas relativas a cada um dos dois anos em causa.
      
      7       A Ygeia interpôs recursos dessas decisões para o Dioikitiko Protodikeio Athinon (Tribunal Administrativo de Primeira Instância
         de Atenas), e, mais tarde, recorreu para o Dioikitiko Efeteio Athinon (Tribunal Administrativo de Recurso de Atenas). Em apoio
         dos seus recursos, a Ygeia alegou que as prestações de serviços em causa contribuem para os cuidados das pessoas hospitalizadas
         e para a manutenção das suas relações sociais e, por consequência, para a aceleração do seu restabelecimento através da criação
         de um estado psicológico favorável. Foi negado provimento a esses recursos, pela razão de que as prestações controvertidas,
         uma vez que visam facilitar a estada dos doentes nos estabelecimentos hospitalares, sem contribuírem para os cuidados que
         lhes são dispensados, não podem ser consideradas estreitamente conexas com a hospitalização.
      
      8       A Ygeia interpôs recurso de revista para o Symvoulio tis Epikrateias (Conselho de Estado) dos acórdãos proferidos pelo Dioikitiko
         Efeteio Athinon.
      
      9       Nas suas decisões de reenvio, o Symvoulio tis Epikrateias indica que é claro que a Ygeia, enquanto pessoa colectiva de direito
         privado, preenche as condições de isenção do IVA no que respeita à assistência hospitalar e à assistência médica assim como
         às operações estreitamente conexas com estas. A única questão que se coloca, em sua opinião, incide sobre a questão de saber
         se as prestações controvertidas estão ou não abrangidas pelo conceito de «operações [...] estreitamente conexas» com a hospitalização
         e com a assistência médica.
      
      10     O órgão jurisdicional de reenvio salienta, a este propósito, que esse conceito não está definido no artigo 13.°, A, n.° 1,
         da Sexta Directiva. Observa, todavia, que, com base nos critérios enunciados no artigo 13.°, A, n.° 2, alínea b), dessa directiva,
         poderá considerar‑se que uma operação está estreitamente conexa com a hospitalização e com a assistência médica, quando, por
         um lado, for indispensável para levar a cabo as operações isentas e, por outro, não se destinar a obter receitas suplementares
         para quem realiza as prestações isentas. Acrescenta, por outro lado, que, no seu acórdão de 6 de Novembro de 2003, Dornier
         (C‑45/0l, Colect., p. I‑12911, n.os 33 à 35), o Tribunal de Justiça admitiu que a questão de saber se uma operação é abrangida pelo conceito de «operações [...]
         estreitamente conexas» depende do seu carácter acessório. Isso implica que se tenha de determinar se essa operação constitui
         para os destinatários um meio que lhes permite beneficiar de outras prestações, nas melhores condições, ou se constitui antes
         para eles um fim em si.
      
      11     Nestas condições, o Symvoulio tis Epikrateias decidiu, no quadro do recurso que se refere ao exercício fiscal de 1992, suspender
         a instância e submeter ao Tribunal de Justiça a seguinte questão prejudicial (processo C‑394/04):
      
      «As prestações efectuadas pelas pessoas referidas no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da [Sexta Directiva], que consistem
         na concessão do uso do telefone e da televisão aos pacientes e ainda no fornecimento de refeições e dormidas aos seus acompanhantes,
         devem ser qualificadas como estreitamente conexas com a hospitalização e a assistência médica, na acepção da citada disposição,
         por serem acessórias da assistência médica e para ela indispensáveis?»
      
      12     No que respeita ao exercício fiscal de 1993, esse órgão jurisdicional decidiu suspender a instância no recurso que lhe foi
         submetido até que o Tribunal de Justiça tenha respondido à questão supramencionada (processo C‑395/04).
      
      13     Por despacho do presidente do Tribunal de Justiça de 14 de Outubro de 2004, os processos C‑394/04 e C‑395/04 foram apensos
         para efeitos das fases escrita e oral do processo, bem como do acórdão.
      
       Quanto à questão prejudicial
      14     Com a sua questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, em substância, se o fornecimento, por um estabelecimento de
         assistência visado no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da Sexta Directiva, de serviços telefónicos e de locação de postos
         de televisão às pessoas hospitalizadas assim como o fornecimento, por esse estabelecimento, de dormidas e refeições aos seus
         acompanhantes constituem operações estreitamente conexas com a hospitalização e com a assistência médica na acepção dessa
         disposição.
      
      15     A título preliminar, há que recordar que, segundo a jurisprudência, os termos empregados para designar as isenções referidas
         no artigo 13.° da Sexta Directiva são de interpretação estrita, dado que constituem derrogações ao princípio geral de que
         o IVA é cobrado sobre todas as prestações de serviços efectuadas a título oneroso por um sujeito passivo (acórdãos de 20 de
         Junho de 2002, Comissão/Alemanha, C‑287/00, Colect., p. I‑5811, n.° 43, e de 26 de Maio de 2005, Kingscrest Associates e Montecello,
         C‑498/03, Colect., p. I‑4427, n.° 29). As referidas isenções constituem conceitos autónomos do direito comunitário, que têm
         como objectivo evitar divergências na aplicação do regime do IVA de um Estado‑Membro para outro (acórdãos de 25 de Fevereiro
         de 1999, CPP, C‑349/96, Colect., p. I‑973, n.° 15, e de 8 de Março de 2001, Skandia, C‑240/99, Colect., p. I‑1951, n.° 23).
      
      16     Além disso, o artigo 13.°, A, da Sexta Directiva visa isentar de IVA certas actividades de interesse geral. Essa disposição,
         no entanto, não exclui da aplicação do IVA todas as actividades de interesse geral, mas unicamente as que nela são enumeradas
         e descritas de forma detalhada (v., nomeadamente, acórdãos de 12 de Novembro de 1998, Institute of the Motor Industry, C‑149/97,
         Colect., p. I‑7053, n.° 18, e de 20 de Novembro de 2003, Taksatorringen, C‑8/01, Colect., p. I‑13711, n.° 60).
      
      17     Tal como o Tribunal de Justiça já declarou, o artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da referida directiva não contém nenhuma definição
         do conceito de «operações [...] estreitamente conexas» com a hospitalização ou com a assistência médica (acórdão de 11 de
         Janeiro de 2001, Comissão/França, C‑76/99, Colect., p. I‑249, n.° 22). Todavia, resulta dos próprios termos dessa disposição
         que esta não visa prestações que não apresentem qualquer conexão com a hospitalização dos destinatários dessas prestações
         nem com a assistência médica eventualmente recebida por estes (acórdão Dornier, já referido, n.° 33).
      
      18     Por isso, as prestações só são abrangidas pelo conceito de «operações [...] estreitamente conexas» com a hospitalização ou
         a assistência médica que figura no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), dessa directiva, quando forem efectivamente fornecidas
         como prestações acessórias da hospitalização dos destinatários ou da assistência médica recebidas por estes e que constituem
         a prestação principal (acórdão Dornier, já referido, n.° 35).
      
      19     Resulta da jurisprudência que uma prestação pode ser considerada acessória de uma prestação principal quando constituir não
         um fim em si, mas o meio de beneficiar nas melhores condições do serviço principal do prestador (v., neste sentido, nomeadamente,
         acórdãos de 22 de Outubro de 1998, Madgett e Baldwin, C‑308/96 e C‑94/97, Colect., p. I‑6229, n.° 24, e Dornier, já referido,
         n.° 34).
      
      20     A este propósito, a Ygeia sustenta que as prestações de alojamento e de alimentação fornecidas aos acompanhantes, que têm
         por efeito apoiar no plano psicológico as pessoas hospitalizadas e ajudá‑las nos casos em que, devido ao seu estado, já não
         conseguem realizar os gestos simples da vida quotidiana, permitem um melhor restabelecimento da sua saúde, reduzindo, simultaneamente,
         em parte, a carga de trabalho do pessoal auxiliar dos hospitais. Quanto aos serviços telefónicos e de locação de postos de
         televisão fornecidos às pessoas hospitalizadas, permitem que estas permaneçam em contacto com o mundo exterior, o que lhes
         proporciona um estado psicológico susceptível de assegurar uma convalescença mais rápida e reduz, por essa razão, o custo
         final da hospitalização. Daí resulta, segundo a Ygeia, que o critério pertinente para efeitos de determinar se tais prestações
         são ou não abrangidas pelo conceito de «operações [...] estreitamente conexas» com a hospitalização e com a assistência médica
         é a vontade do próprio doente, que pediu para beneficiar das referidas prestações porque as julgou necessárias ao seu restabelecimento.
      
      21     Esta argumentação não poderá ser acolhida.
      22     Para determinar se prestações como as que estão em causa nos processos principais constituem o meio de beneficiar nas melhores
         condições dos serviços de hospitalização e de assistência médica dispensados pela Ygeia, deve ter‑se em conta, como sublinharam
         todos os governos dos Estados‑Membros que apresentaram observações e a Comissão das Comunidades Europeias, a finalidade com
         que as referidas prestações são efectuadas (v., neste sentido, acórdão Comissão/França, já referido, n.° 24).
      
      23     Com efeito, a isenção das operações estreitamente conexas com a hospitalização e com a assistência médica, prevista no artigo
         13.°, A, n.° 1, alínea b), da Sexta Directiva, destina‑se a garantir que o benefício da assistência médica e hospitalar não
         se torne inacessível em razão do acréscimo de custos dessa assistência se ela própria, ou as operações com ela estreitamente
         conexas, estiver sujeita a IVA (acórdão Comissão/França, já referido, n.° 23).
      
      24     Ora, a assistência médica e hospitalar visada nessa disposição é, segundo a jurisprudência, a que tem por finalidade diagnosticar,
         tratar e, na medida do possível, curar doenças ou anomalias de saúde (acórdão Dornier, já referido, n.° 48).
      
      25     Por isso, tendo em conta o objectivo prosseguido pela isenção prevista no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da referida directiva,
         conclui‑se que só as prestações de serviços que se inscrevem logicamente no quadro do fornecimento dos serviços de hospitalização
         e de assistência médica e que constituem uma etapa indispensável no processo de prestação desses serviços para atingir as
         finalidades terapêuticas prosseguidas por estes são susceptíveis de constituir «operações [...] estreitamente conexas» na
         acepção dessa disposição. Com efeito, só tais prestações são susceptíveis de influir no custo dos cuidados de saúde cuja isenção
         em questão permite torná‑los acessíveis aos particulares.
      
      26     Esta conclusão é confirmada, tal como alegam, com razão, os referidos governos que apresentaram observações, pelo artigo 13.°,
         A, n.° 2, alínea b), primeiro travessão, dessa directiva, segundo o qual os Estados‑Membros devem excluir do benefício da
         isenção as prestações de serviços previstas, nomeadamente, no n.° 1, alínea b), do mesmo artigo, se não forem indispensáveis
         à realização das operações isentas. Com efeito, tal como o advogado‑geral observou nos n.os 30 a 32 das suas conclusões, essa disposição, que reveste carácter obrigatório para os Estados‑Membros, enuncia condições
         que devem ser tomadas em conta para a interpretação dos diferentes casos de isenção que ela visa, os quais, à semelhança do
         previsto no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da mesma directiva, dizem respeito a prestações ou entregas que estão «estreitamente
         conexas» ou que têm uma «conexão estreita» com uma actividade de interesse geral.
      
      27     Além disso, há que salientar que, nos n.os 48 e 49 do acórdão Comissão/Alemanha, já referido, o Tribunal de Justiça já decidiu, no que toca à isenção prevista no artigo
         13.°, A, n.° 1, alínea i), da Sexta Directiva para as prestações de serviços «estreitamente conexas» com o ensino universitário,
         que a realização, a título oneroso, de projectos de investigação, se bem que possa ser considerada muito útil para o ensino
         universitário, não é indispensável para atingir o objectivo visado por este, isto é, nomeadamente, a formação dos estudantes
         com vista a permitir‑lhes exercer uma actividade profissional, e que, portanto, não poderá ser abrangida pela referida isenção.
      
      28     Tendo em conta a finalidade da isenção prevista no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da referida directiva, e tendo em conta
         os termos do n.° 2, alínea b), desse artigo, essas declarações valem igualmente, tal como o advogado‑geral indicou, em substância,
         no n.° 35 das suas conclusões, para a interpretação do conceito de «operação estreitamente conexa» com a hospitalização e
         com os cuidados de saúde, que figura na primeira dessas disposições.
      
      29     Daí resulta que as prestações de serviços que, à semelhança das que estão em causa nos processos principais, são susceptíveis
         de melhorar o conforto e o bem‑estar das pessoas hospitalizadas, não são, regra geral, susceptíveis de beneficiar da isenção
         prevista no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), dessa directiva. Só assim não será se essas prestações revestirem um carácter
         indispensável para atingir as finalidades terapêuticas prosseguidas pelos serviços de hospitalização e de assistência médica
         no âmbito dos quais foram fornecidas.
      
      30     Cabe ao órgão jurisdicional de reenvio, tendo em conta todos os elementos concretos dos litígios que lhe foram submetidos
         e, sendo caso disso, o conteúdo das receitas médicas passadas aos doentes em causa, determinar o carácter indispensável ou
         não das prestações fornecidas. 
      
      31     Estas conclusões não são postas em causa pela argumentação exposta pela Ygeia, segundo a qual o conceito de «operação […]
         estreitamente conexa» com a hospitalização e com a assistência médica, que figura no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da
         Sexta Directiva, não requer, tendo em conta a finalidade da isenção, uma interpretação particularmente estrita (acórdão Comissão/França,
         já referido, n.° 23). Com efeito, tal como resulta do n.° 25 do presente acórdão, sujeitar a IVA prestações que não revestem
         carácter acessório não tem por efeito aumentar o custo da hospitalização e da assistência médica cujo acesso essa disposição
         pretende garantir aos particulares, uma vez que essas prestações não são indispensáveis para atingir as finalidades terapêuticas
         prosseguidas por estas (v., neste sentido, acórdão de 20 de Novembro de 2003, D’Ambrumenil e Dispute Resolution Services,
         C‑307/01, Colect., p. I‑13989, n.° 59).
      
      32     Por outro lado, tal como o advogado‑geral salientou no n.° 47 das suas conclusões, a sujeição de tais prestações a IVA está
         em conformidade com o princípio da neutralidade fiscal, que se opõe, nomeadamente, a que prestações de serviços semelhantes,
         que se encontrem, portanto, em concorrência entre si, sejam tratadas de maneira diferente do ponto de vista do IVA (v. acórdão
         de 23 de Outubro de 2003, Comissão/Alemanha, C‑109/02, Colect., p. I‑12691, n.° 20).
      
      33     Com efeito, contrariamente ao que sustenta a Ygeia e como o Governo alemão alegou com razão, um estabelecimento de assistência,
         quando fornece prestações como as prestações controvertidas, encontra‑se em concorrência com os sujeitos passivos que fornecem
         prestações da mesma natureza, tais como os fornecedores de serviços telefónicos e de televisão, no que diz respeito aos serviços
         dessa natureza propostos às pessoas hospitalizadas, e como os hotéis e os restaurantes, no que diz respeito às prestações
         de alojamento para os seus acompanhantes.
      
      34     Por isso, em conformidade com o disposto no artigo 13.°, A, n.° 2, alínea b), segundo travessão, da Sexta Directiva, as prestações
         como as que estão em causa nos processos principais devem igualmente ser excluídas do benefício da isenção prevista no artigo
         13.°, A, n.° 1, alínea b), da mesma directiva, se se destinarem essencialmente a obter receitas suplementares para a pessoa
         que as fornece, o que cabe ao órgão jurisdicional de reenvio apurar com base nos elementos concretos dos litígios que lhe
         foram submetidos.
      
      35     Por conseguinte, há que responder à questão submetida que o fornecimento, pelas pessoas visadas no artigo 13.°, A, n.° 1,
         alínea b), da Sexta directiva, de serviços telefónicos e de locação de postos de televisão às pessoas hospitalizadas, bem
         como o fornecimento, por essas mesmas pessoas, de dormidas e refeições aos seus acompanhantes, não constituem, regra geral,
         operações estreitamente conexas com a hospitalização e com a assistência médica na acepção dessa disposição. Só assim não
         será se essas prestações revestirem um carácter indispensável para atingir as finalidades terapêuticas prosseguidas pela hospitalização
         e pela assistência médica e se não se destinarem essencialmente a obter receitas suplementares para a pessoa que as fornece,
         através da realização de operações efectuadas em concorrência directa com as de empresas comerciais sujeitas a IVA. 
      
      Cabe ao órgão jurisdicional de reenvio, tendo em conta todos os elementos concretos dos litígios que lhe foram submetidos
         e, sendo caso disso, o conteúdo das receitas médicas passadas aos doentes em causa, determinar se as prestações fornecidas
         preenchem essas condições.
      
       Quanto às despesas
      36     Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         de reenvio, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Terceira Secção) declara:
      1)      O fornecimento, pelas pessoas visadas no artigo 13.°, A, n.° 1, alínea b), da Sexta Directiva 77/388/CEE do Conselho, de 17
            de Maio de 1977, relativa à harmonização das legislações dos Estados‑Membros respeitantes aos impostos sobre o volume de negócios
            – Sistema comum do imposto sobre o valor acrescentado: matéria colectável uniforme, de serviços telefónicos e de locação de
            postos de televisão às pessoas hospitalizadas, bem como o fornecimento, por essas mesmas pessoas, de dormidas e refeições
            aos seus acompanhantes, não constituem, regra geral, operações estreitamente conexas com a hospitalização e com a assistência
            médica na acepção dessa disposição. Só assim não será se as prestações revestirem um carácter indispensável para atingir as
            finalidades terapêuticas prosseguidas pela hospitalização e pela assistência médica e se não se destinarem essencialmente
            a obter receitas suplementares para a pessoa que as fornece, através da realização de operações efectuadas em concorrência
            directa com as de empresas comerciais sujeitas a IVA.
      2)      Cabe ao órgão jurisdicional de reenvio, tendo em conta todos os elementos concretos dos litígios que lhe foram submetidos
            e, sendo caso disso, o conteúdo das receitas médicas passadas aos doentes em causa, determinar se as prestações fornecidas
            preenchem essas condições.
      Assinaturas
      * Língua do processo: grego.