CELEX: 62009CJ0347
Language: pt
Date: 2011-09-15
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Quarta Secção) de 15 de Septembro de 2011.#Processo-crime contra Jochen Dickinger e Franz Ömer.#Pedido de decisão prejudicial: Bezirksgericht Linz - Áustria.#Livre prestação de serviços - Liberdade de estabelecimento - Legislação nacional que estabelece um monopólio de exploração dos jogos de casino na Internet - Requisitos de admissibilidade - Política comercial expansionista - Fiscalizações dos operadores de jogos de fortuna ou azar efectuadas noutros Estados-Membros - Atribuição do monopólio a uma sociedade de direito privado - Possibilidade de obter o monopólio reservada exclusivamente às sociedades de capitais com sede social no território nacional - Proibição de o titular do monopólio criar uma sucursal fora do Estado-Membro da sede.#Processo C-347/09.

Processo C‑347/09
      Processo penal
      contra
      Jochen Dickinger
      e
      Franz Ömer
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo Bezirksgericht Linz)
      «Livre prestação de serviços – Liberdade de estabelecimento – Legislação nacional que estabelece um monopólio de exploração dos jogos de casino na Internet – Requisitos de admissibilidade – Política comercial expansionista – Fiscalizações dos operadores de jogos de fortuna ou azar efectuadas noutros Estados‑Membros – Atribuição do monopólio a uma sociedade de direito privado – Possibilidade de obter o monopólio reservada exclusivamente às sociedades de capitais com sede social no território nacional
         – Proibição de o titular do monopólio criar uma sucursal fora do Estado‑Membro da sede»
      
      Sumário do acórdão
      1.        Livre prestação de serviços – Restrições – Jogos de fortuna ou azar – Legislação nacional que estabelece um monopólio da exploração
            dos jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet – Sanções penais contra os infractores desse monopólio –
            Admissibilidade – Requisitos
      (Artigo 49.° CE)
      2.        Livre prestação de serviços – Disposições do Tratado – Âmbito de aplicação – Serviços de jogos de fortuna ou azar comercializados
            através da Internet – Utilização de intermediários estabelecidos no mesmo Estado‑Membro que os destinatários dos serviços
            do prestador estrangeiro – Irrelevância
      (Artigo 49.° CE)
      3.        Livre prestação de serviços – Restrições – Jogos de fortuna ou azar – Legislação nacional que estabelece um monopólio da exploração
            dos jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet – Justificação
      (Artigos 49.° CE e 55.° CE)
      4.        Livre prestação de serviços – Restrições – Jogos de fortuna ou azar – Legislação nacional que estabelece um monopólio da exploração
            dos jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet – Possibilidade de o titular do monopólio levar a cabo uma
            política de expansão – Justificação
      (Artigo 49.° CE)
      5.        Livre prestação de serviços – Restrições – Jogos de fortuna ou azar – Operador autorizado a oferecer jogos de fortuna ou azar
            pelo Estado‑Membro em que está estabelecido – Impossibilidade de esse operador oferecer esses serviços, através da Internet,
            noutro Estado‑Membro, devido a um monopólio do sector
      (Artigo 49.° CE)
      1.        O direito da União, em especial o artigo 49.° CE, opõe‑se a que seja punida criminalmente a violação de um monopólio da exploração
         dos jogos de fortuna ou azar, como o monopólio da exploração dos jogos de casino comercializados através da Internet previsto
         numa legislação nacional, se essa legislação não estiver em consonância com as disposições do referido direito.
      
      Com efeito, o direito da União impõe limites à competência dos Estados‑Membros em matéria penal, não podendo a legislação nesse domínio
         restringir, nomeadamente, as liberdades fundamentais garantidas pelo direito da União. Assim, quando um regime de monopólio
         é incompatível com o artigo 49.° CE, a violação desse regime por um operador económico não pode ser criminalmente punida.
      
      (cf. n.os 31‑32, 43, disp. 1)
      
      2.        O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que é aplicável aos serviços de jogos de fortuna ou azar comercializados
         através da Internet, no território do Estado‑Membro de acolhimento, por um operador estabelecido noutro Estado‑Membro, ainda
         que esse operador:
      
      – Tenha instalado, no Estado‑Membro de acolhimento, uma determinada infra‑estrutura de apoio informático, como um servidor,
         e
      
      – Recorra a serviços de apoio informático de um prestador estabelecido no Estado‑Membro de acolhimento, para prestar os seus
         serviços a consumidores igualmente estabelecidos nesse Estado‑Membro.
      
      Com efeito, o artigo 49.° CE aplica‑se a um operador de jogos de fortuna ou azar, estabelecido num Estado‑Membro, que propõe
         os seus serviços noutro Estado‑Membro, mesmo que recorra, para esse efeito, a intermediários estabelecidos no mesmo Estado‑Membro
         que os destinatários dos referidos serviços. Por maioria de razão, esse mesmo artigo aplica‑se quando o operador de jogos
         de fortuna ou azar não recorre a intermediários, mas sim a um simples prestador de serviços de apoio informático no Estado‑Membro
         de acolhimento.
      
      (cf. n.os 37‑38, disp. 2)
      
      3.        O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que um Estado‑Membro que procure garantir um nível particularmente elevado
         de protecção dos consumidores no sector dos jogos de fortuna ou azar pode ter razões para considerar que só a instituição
         de um monopólio a favor de um organismo único, sujeito a um controlo estreito por parte das autoridades públicas, é susceptível
         de permitir controlar a criminalidade ligada a esse sector e prosseguir o objectivo de prevenção do incentivo a despesas excessivas
         ligadas aos jogos e de luta contra a dependência do jogo de uma forma suficientemente eficaz.
      
      (cf. n.os 48, 100, disp. 3)
      
      4.        O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que, para ser coerente com os objectivos de luta contra a criminalidade
         e de reduzir as ocasiões de jogo, uma legislação nacional que institua um monopólio em matéria de jogos de fortuna ou azar
         que permita ao titular do monopólio levar a cabo uma política de expansão deve:
      
      – Assentar na constatação de que as actividades criminosas e fraudulentas ligadas ao jogo e a dependência do jogo constituem
         um problema no território do Estado‑Membro interessado, que uma expansão das actividades autorizadas e regulamentadas pode
         solucionar;
      
      – Permitir apenas a realização de publicidade moderada e estritamente limitada ao necessário para canalizar dessa forma os
         consumidores para as redes de jogo controladas;
      
      Para atingir esse objectivo de canalização para circuitos controlados, os operadores autorizados devem constituir uma alternativa
         fiável, mas simultaneamente atractiva, a actividades não regulamentadas, o que pode em si mesmo implicar a oferta de uma vasta
         gama de jogos, uma publicidade de certa envergadura e o recurso a novas técnicas de distribuição.
      
      A publicidade eventualmente feita pelo titular de um monopólio público deve ser moderada e estritamente limitada ao necessário
         para canalizar dessa forma os consumidores para as redes de jogo controladas. Em contrapartida, essa publicidade não pode,
         nomeadamente, ter por fim encorajar a propensão natural dos consumidores para o jogo, estimulando‑os a participar activamente
         neste, nomeadamente banalizando o jogo ou dando deste uma imagem positiva ligada ao facto de as receitas recolhidas serem
         afectadas a actividades de interesse geral ou ainda aumentando o poder de atracção do jogo por meio de mensagens publicitárias
         cativantes anunciando ganhos significativos.
      
      (cf. n.os 64, 68, 100, disp. 3)
      
      5.        O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que a circunstância de um Estado‑Membro ter escolhido um sistema de protecção
         diferente do adoptado por outro Estado‑Membro não pode ter incidência na apreciação da necessidade e da proporcionalidade
         das disposições tomadas nessa matéria, que devem ser apreciadas apenas à luz dos objectivos prosseguidos pelas autoridades
         competentes do Estado‑Membro interessado e do nível de protecção que as mesmas pretendem garantir.
      
      Face à inexistência de harmonização, ao nível da União, da legislação do sector dos jogos de fortuna ou azar e às significativas
         divergências entre os objectivos prosseguidos e entre os níveis de protecção pretendidos pelas legislações dos vários Estados‑Membros,
         o simples facto de um operador oferecer legalmente serviços noutro Estado‑Membro, onde tem a sede e já está, em princípio,
         sujeito aos requisitos legais e ao controlo por parte das autoridades competentes desse Estado‑Membro, não pode ser considerado
         uma garantia suficiente de protecção dos consumidores nacionais contra os riscos de fraude e de criminalidade no Estado‑Membro
         de acolhimento.
      
      (cf. n.os 96‑97, 100, disp. 3)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quarta Secção)
      15 de Setembro de 2011 (*)
      
      «Livre prestação de serviços – Liberdade de estabelecimento – Legislação nacional que estabelece um monopólio de exploração dos jogos de casino na Internet – Requisitos de admissibilidade – Política comercial expansionista – Fiscalizações dos operadores de jogos de fortuna ou azar efectuadas noutros Estados‑Membros – Atribuição do monopólio a uma sociedade de direito privado – Possibilidade de obter o monopólio reservada exclusivamente às sociedades de capitais com sede social no território nacional
         – Proibição de o titular do monopólio criar uma sucursal fora do Estado‑Membro da sede»
      
      No processo C‑347/09,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 234.° CE, apresentado pelo Bezirksgericht Linz (Áustria),
         por decisão de 10 de Abril de 2009, entrada no Tribunal de Justiça em 31 de Agosto de 2009, no processo penal contra
      
      Jochen Dickinger,
      Franz Ömer,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quarta Secção),
      composto por: J.‑C. Bonichot, presidente de secção, K. Schiemann (relator), L. Bay Larsen, A. Prechal e E. Jarašiūnas, juízes,
      advogado‑geral: Y. Bot,
      secretário: K. Malacek, administrador,
      vistos os autos e após a audiência de 27 de Janeiro de 2011,
      vistas as observações apresentadas:
      –        em representação de J. Dickinger e F. Ömer, por W. Denkmair e O. Plöckinger, Rechtsanwälte,
      –        em representação do Governo austríaco, por C. Pesendorfer e J. Bauer, na qualidade de agentes,
      –        em representação do Governo belga, por L. Van den Broeck e M. Jacobs, na qualidade de agentes, assistidas por A. Hubert e
         P. Vlaemminck, avocats,
      
      –        em representação do Governo grego, por E.‑M. Mamouna, M. Tassopoulou e G. Papadaki, na qualidade de agentes,
      –        em representação do Governo maltês, por A. Buhagiar e J. Borg, na qualidade de agentes,
      –        em representação do Governo português, por L. Inez Fernandes e A. Barros, na qualidade de agentes,
      –        em representação da Comissão Europeia, por E. Traversa e B.‑R. Killmann, na qualidade de agentes,
      ouvidas as conclusões do advogado‑geral na audiência de 31 de Março de 2011,
      profere o presente
      Acórdão
      1        O pedido de decisão prejudicial tem por objecto a interpretação dos artigos 43.° CE e 49.° CE.
      
      2        Este pedido foi apresentado no âmbito de processos‑crime desencadeados contra J. Dickinger e F. Ömer pela inobservância, pela
         sociedade de direito austríaco bet‑at‑home.com Entertainment GmbH (a seguir «bet‑at‑home.com Entertainment»), de que são gerentes,
         da legislação austríaca relativa à exploração de jogos de fortuna ou azar, mais precisamente no que respeita à oferta de jogos
         de casino pela Internet.
      
       Quadro jurídico
      3        A Lei Federal relativa aos jogos de fortuna ou azar (Glücksspielgesetz, BGBl. 620/1989), na versão aplicável ao processo principal
         (a seguir «GSpG»), estipula no seu artigo 3.°, sob a epígrafe «Monopólio dos jogos de fortuna ou azar», que o direito de organizar
         jogos de fortuna ou azar é reservado ao Estado federal. Os § 14 e 21 da GSpG estipulam, em paralelo, que o Ministro Federal
         das Finanças pode atribuir concessões para, por um lado, a organização de lotarias, e, por outro, a exploração de casinos.
         As apostas desportivas, dado não serem consideradas jogos de fortuna ou azar stricto sensu, não estão sujeitas ao regime estabelecido pela GSpG, com excepção de um tipo de aposta mútua denominado «Toto».
      
      4        Por força do § 12a da GSpG, os jogos de casino são equiparados às lotarias, pelo que estão sujeitos ao regime de concessão
         de lotarias e não ao regime de concessão de casinos. Esse § 12a, introduzido na GSpG em 1997 (BGBl. I, 69/1997), contém, a
         este respeito, a seguinte definição de «lotarias electrónicas»:
      
      «lotarias para as quais o contrato de jogo é celebrado por meios electrónicas, a decisão sobre ganhos e perdas é dada ou colocada
         à disposição de maneira central e o participante pode tomar conhecimento do resultado imediatamente após a participação no
         jogo».
      
      5        Por força do § 14, n.° 2, da GSpG, uma concessão de organização de lotarias só pode ser atribuída a um operador que:
      
      «1.      Seja uma sociedade de capitais com sede no território nacional;
      2.      Não tenha proprietários (sócios) que disponham de uma influência dominante e que não permita garantir a fiabilidade da sociedade
         do ponto de vista regulamentar;
      
      3.      Disponha de um conselho geral e de supervisão e de um capital social realizado de, pelo menos, 109 milhões de euros, devendo
         a proveniência lícita dos dinheiros ser demonstrada de forma adequada;
      
      4.      Nomeie directores que, devido à sua formação, sejam profissionalmente competentes, disponham das características e da experiência
         necessárias para a exploração correcta da actividade e contra os quais não exista nenhum motivo de exclusão nos termos do
         § 13 do Código das Profissões artesanais, comerciais e industriais de 1973 (Gewebeordnung 1973) […]
      
      5.      Tendo em conta as circunstâncias (em especial, as experiências, os conhecimentos e os meios próprios), permita a expectativa
         de que conseguirá, para o Governo federal, as melhores receitas (taxa de concessão e tributos sobre as apostas), e
      
      6.      Em relação ao qual a estrutura eventual do grupo a que pertençam o ou os titulares de participação qualificada na empresa
         não dificulte um controlo eficaz do concessionário.»
      
      6        Nos termos do § 14, n.° 3, da GSpG, a concessão pode ser atribuída por um período máximo de quinze anos.
      
      7        O § 14, n.° 5, primeira período, da GSpG dispõe que, enquanto uma concessão de lotaria estiver em vigor, nenhuma outra poderá
         ser atribuída.
      
      8        Se vários candidatos que cumprem os requisitos estabelecidos no § 14, n.° 2, do GSpG requererem a atribuição de uma concessão,
         o Ministro Federal das Finanças é obrigado, por força do n.° 5, segundo período, do mesmo parágrafo, a tomar a sua decisão
         com base no critério estabelecido no ponto 5 do referido n.° 2 e, portanto, a atribuir a concessão ao operador de que for
         de esperar que obtenha as melhores receitas para o governo federal.
      
      9        Por força do § 15, n.° 1, da GSpG, o concessionário não tem o direito de constituir uma sucursal fora do território austríaco.
         Além disso, a aquisição, pelo concessionário, de participações qualificadas noutras sociedades requer uma autorização do Ministro
         Federal das Finanças. Nos termos do § 15 a da GSpG, esta autorização é igualmente exigida para a extensão da actividade comercial
         do concessionário e apenas deve ser atribuída se não for de recear uma descida de receitas do Governo federal provenientes
         da taxa de concessão ou dos tributos sobre as apostas.
      
      10      O § 16 da GSpG obriga o concessionário a estabelecer as condições para os jogos de fortuna ou azar cuja organização lhe foi
         confiada. Estas condições, que têm de ser aprovadas pelo Ministro Federal das Finanças, são publicadas no Amsblatt zur Wiener Zeitung e afixadas, para consulta, nas instalações comerciais do concessionário e nos seus pontos de venda.
      
      11      O concessionário deve, por força do § 18, n.° 1, do GSpG, comunicar todos os anos ao Ministro Federal das Finanças a identidade
         das pessoas que têm participações no capital social da empresa. Por outro lado, por força do § 19, n.° 1, da GSpG, o concessionário
         está sujeito a fiscalização pelo Ministro Federal das Finanças. Este está habilitado, para tanto, a consultar as contas e
         outros documentos do concessionário e pode efectuar inspecções nas instalações ou pedir a contabilistas ou outros peritos
         que efectuem inspecções. Os custos da fiscalização são da conta do concessionário e são‑lhe facturados anualmente pelo Ministro
         Federal das Finanças.
      
      12      O § 19, n.° 2, da GSpG prevê, além disso, a nomeação, pelo Ministro Federal das Finanças, de um comissário do Estado («Staatskommissär»),
         o qual, nos termos do § 26 da Lei do crédito (Kreditwesengesetz, BGBl. 63/1979), tem o direito de assistir às assembleias
         dos accionistas e às reuniões do conselho geral e de supervisão do concessionário. O comissário do Estado tem de ser um funcionário
         de uma autarquia local, ou advogado ou revisor oficial de contas, está sujeito à autoridade do Ministro Federal das Finanças
         e pode ser exonerado das suas funções a todo o tempo. O comissário do Estado tem, nomeadamente, a incumbência de se opor a
         qualquer decisão dos órgãos da sociedade que considere ilegal. Essa oposição tem como consequência a suspensão dos efeitos
         da decisão em causa até ser proferida decisão pelas autoridades competentes.
      
      13      Nos termos do § 19, n.° 3, da GSpG, o Ministro Federal das Finanças e o organismo federal dos desportos têm o direito de nomear,
         cada um, um membro do conselho geral e de supervisão do concessionário.
      
      14      O § 19, n.° 4, da GSpG obriga o concessionário a transmitir ao Ministro Federal das Finanças o balanço anual, o relatório
         de gestão e o balanço consolidado do grupo, assim como os relatórios dos revisores oficiais de contas sobre os referidos documentos,
         no prazo de seis meses contados do termo do exercício social em causa.
      
      15      Os §§ 17 e 20 da GSpG tratam da afectação das receitas dos jogos de fortuna ou azar. O § 17, n.° 3, ponto 6, fixa a taxa de
         concessão para as lotarias electrónicas em 24% dos rendimentos brutos anuais, após dedução dos lucros distribuídos. Por força
         do § 20, 3% das receitas das lotarias, montante que em caso algum pode ser inferior a 40 milhões de euros, são afectados ao
         desenvolvimento do desporto.
      
      16      Os artigos 21.° a 31.° da GSpG contêm disposições semelhantes que regulam a atribuição de doze concessões para a exploração
         de casinos, a fiscalização dos concessionários e o desenvolvimento dos jogos de casino.
      
      17      A organização, com fins lucrativos, de jogos de fortuna ou azar por uma pessoa não titular de uma concessão de exploração
         é passível de acção penal na Áustria. É punível, nos termos do § 168 do Código Penal austríaco (Strafgesetzbuch, a seguir
         «StGB»), «quem organizar um jogo formalmente proibido ou cujo resultado favorável ou desfavorável dependa exclusiva ou principalmente
         da sorte, ou quem promover uma reunião com vista à organização desses jogos, a fim de obter uma vantagem pecuniária dessa
         organização ou dessa reunião ou proporcionar essa vantagem a um terceiro». As penas previstas são a prisão até seis meses
         ou multa até trezentos e sessenta dias.
      
       Litígio no processo principal e questões prejudiciais
      18      A Österreichische Lotterien GmbH (a seguir «Österreichische Lotterien») é uma sociedade por quotas de direito privado. Por
         força de uma decisão do Ministro Federal das finanças, obteve a concessão única da organização das lotarias na Áustria no
         período compreendido entre 1 de Dezembro de 1994 e 31 de Dezembro de 2004. Após a instituição das «lotarias electrónicas»,
         mediante a introdução, em 2007, do § 12a na GSpG, a concessão da referida sociedade foi alargada a esse tipo de lotaria e
         prorrogada até 2012 por decisão do Ministro Federal das Finanças de 2 de Outubro de 1997. A duração da concessão foi fixada,
         atendendo à duração máxima de quinze anos permitida por lei, para o período compreendido entre 1 de Outubro de 1997 e 30 de
         Setembro de 2012.
      
      19      O sócio maioritário da Österreichische Lotterien é a Casinos Austria AG (a seguir «Casinos Austria»), uma sociedade anónima
         de direito privado que detém as doze concessões de exploração de casinos previstas na GSpG (v., a este respeito, acórdão de
         9 de Setembro de 2010, Engelmann, C‑64/08, ainda não publicado na Colectânea, n.os 13 a 15). À data dos factos no processo principal, um terço das quotas que constituíam o capital social da Casinos Austria
         era detido indirectamente pelo Estado, encontrando‑se as quotas restantes nas mãos de investidores privados.
      
      20      J. Dickinger e F. Ömer, nacionais austríacos, são os fundadores do grupos de jogos multinacional em linha bet‑at‑home.com.
         A sociedade‑mãe deste grupo é a sociedade de direito alemão bet‑at‑home.com AG, com sede em Düsseldorf (Alemanha).
      
      21      A sociedade de direito austríaco bet‑at‑home.com Entertainment, que tem sede em Linz (Áustria) e exerce actividades no domínio
         dos «serviços de tratamento automático de dados e das técnicas da informação», é uma das filiais da bet‑at‑home.com AG. J. Dickinger
         e F. Ömer são os gerentes da bet‑at‑home Entertainment. Esta sociedade dispõe de uma licença austríaca que lhe permite propor
         apostas desportivas.
      
      22      A Bet‑at‑home.com Entertainment, enquanto filial, detém a sociedade de direito maltês bet‑at‑home.com Holding Ltd, a qual,
         por seu turno, tem três filiais, a saber, as sociedades de direito maltês bet‑at‑home.com Internet Ltd, bet‑at‑home Entertainment
         Ltd e bet‑at‑home.com Internationale Ltd (a seguir, conjuntamente, as «filiais maltesas»).
      
      23      Duas das filiais maltesas propõem jogos de fortuna ou azar e apostas desportivas através da Internet, no sítio www.bet‑at‑home.com.
         Nesse sentido, dispõem de uma licença maltesa («Class One Remote Gaming License») válida para os jogos de fortuna ou azar
         em linha e de uma licença maltesa («Class Two Remote Gaming License») válida para as apostas desportivas em linha. O sítio
         Internet é acessível em espanhol, alemão, grego, inglês, italiano, húngaro, neerlandês, polaco, esloveno, russo e turco, mas
         não em maltês. Nesse sítio são propostos, nomeadamente, jogos de casino, como o poker, o black‑jack, o bacará, a roleta e jogos em máquinas de moedas virtuais. É possível jogar em todos estes jogos sem limite de apostas.
      
      24      A exploração do sítio Internet www.bet‑at‑home.com é assegurada exclusivamente pelas filiais maltesas, que organizam os jogos
         em questão e são proprietárias das licenças de utilização de software necessárias à exploração da plataforma de jogo.
      
      25      As filiais maltesas utilizaram, pelo menos até Dezembro de 2007, um servidor instalado em Linz, que lhes fora disponibilizado
         pela bet‑at‑home.com Entertainment, que assegurava igualmente a manutenção do sítio Internet e do software necessário para
         os jogos e o apoio aos utilizadores.
      
      26      Foi iniciada uma acção penal contra J. Dickinger e F. Ömer, enquanto gerentes da sociedade bet‑at‑home.com Entertainment,
         devido a actos que constituíam uma infracção ao § 168, n.° 1, do StGB. O despacho de acusação tem a seguinte redacção:
      
      «[J.] Dickinger e [F.] Ömer, na qualidade de responsáveis da [bet‑at‑home.com Entertainment], cometeram, de 1 de Janeiro de
         2006 e até ao presente, a infracção de organizar jogos de fortuna ou azar em violação do § 168.°, n.° 1, do [StGB], em proveito
         da [bet‑at‑home.com Entertainment], mediante a oferta, pela Internet, de jogos cujas perdas e ganhos dependem exclusiva ou
         principalmente do acaso, ou que são expressamente proibidos, a saber, vários tipos de poker (‘Texas Hold’em’, ‘Seven Card Stud’, etc.), black‑jack, bacará, jogos de mesa como a roleta e máquinas de ‘jackpot’ virtuais, com apostas de montante ilimitado, tudo com a finalidade
         de obter, ou proporcionar a terceiros, em especial a [bet‑at‑home.com Entertainment], um benefício financeiro.»
      
      27      J. Dickinger e F. Ömer arguiram a ilegalidade da legislação nacional aplicável aos jogos de fortuna ou azar, à luz dos artigos
         43.° CE e 49.° CE.
      
      28      O órgão jurisdicional de reenvio duvida que as disposições do StGB, lidas em conjugação com as regras austríacas aplicáveis
         aos jogos de fortuna ou azar em causa no processo principal, sejam compatíveis com o direito da União, sobretudo no tocante
         ao que qualifica de «publicidade ofensiva» da Casinos Austria à sua oferta de jogos de fortuna ou azar.
      
      29      Nestas circunstâncias, o Bezirksgericht Linz suspendeu a instância e submeteu ao Tribunal de Justiça as seguintes questões:
      
      «1.      a)     Os artigos 43.° e 49.° CE devem ser interpretados no sentido de que se opõem, por princípio, a uma disposição nacional como
         o § 3, em conjugação com os §§ 14 e seguintes e § 21, da Glückspielgesetz (lei austríaca relativa aos jogos de fortuna ou
         azar), nos termos da qual:
      
      –        uma concessão para sorteios (por exemplo, lotarias, lotarias electrónicas, etc.) apenas pode ser atribuída a um único candidato
         à concessão, por um período máximo de 15 anos, devendo este, entre outras condições, ser uma sociedade de capitais com sede
         em território nacional, não constituir quaisquer [sucursais] no estrangeiro e dispor de um capital social realizado de, no
         mínimo, 109 000 000 euros, e devendo ainda, de acordo com as circunstâncias do caso concreto, existir a expectativa de o Estado
         Federal [austríaco] poder auferir receitas fiscais optimizadas;
      
      –        uma concessão para casas de jogo apenas pode ser atribuída a um máximo de doze candidatos à concessão por um período máximo
         de 15 anos, devendo estes, entre outras condições, ser uma sociedade anónima com sede em território nacional, não constituir
         quaisquer sucursais no estrangeiro e dispor de um capital social realizado de 22 000 000 euros, e devendo ainda, de acordo
         com as circunstâncias do caso concreto, existir a expectativa de as administrações locais poderem auferir receitas fiscais
         optimizadas;
      
      Estas questões colocam se sobretudo tendo em conta que a sociedade [Casinos Austria] é detentora do conjunto das doze concessões
         para casas de jogo atribuídas em 18 de Dezembro de 1991 pelo período máximo de 15 anos e que, entretanto, foram prorrogadas
         sem ter sido realizado um concurso público ou dado conhecimento público do mesmo.
      
      b)      Em caso de resposta afirmativa, uma regulamentação desse tipo pode também ser justificada por razões de interesse geral numa
         limitação da actividade de apostas quando os concessionários prosseguem, por via de campanhas publicitárias de grande alcance,
         uma política expansionista no domínio dos jogos de fortuna ou azar com base numa estrutura tendencialmente monopolista?
      
      c)      Em caso de resposta afirmativa, ao analisar a proporcionalidade de uma regulamentação desse tipo, que prossegue o objectivo
         de dissuadir actividades ilícitas ao sujeitar os operadores económicos que exercem a sua actividade neste sector a um controlo
         e canalizando as actividades de jogos de fortuna ou azar para circuitos desse modo controlados, o órgão jurisdicional de reenvio
         deve ter em consideração o facto de essa regulamentação abranger assim também prestadores de serviços transfronteiriços, os
         quais, estão, em qualquer caso, sujeitos no Estado Membro da sua sede a obrigações e controlos muito rígidos relacionados
         com a sua concessão?
      
      2.      As liberdades fundamentais do Tratado CE, em particular a livre prestação de serviços consagrada no artigo 49.° CE, devem
         ser interpretadas no sentido de que, independentemente da manutenção da competência que por princípio pertence aos Estados
         Membros para aprovarem o seu direito penal, uma disposição penal nacional também deve ser avaliada à luz do direito comunitário
         quando é susceptível de impedir ou restringir o exercício de uma das liberdades fundamentais?
      
      3.      a)     O artigo 49.° CE, em conjugação com o artigo 10.° CE, deve ser interpretado no sentido de que os controlos realizados no Estado
         de estabelecimento de um prestador de serviços e as garantias aí prestadas devem ser tidas em consideração no Estado da prestação
         de serviços, em conformidade com o princípio da confiança mútua?
      
      b)      Em caso de resposta afirmativa, o artigo 49.° CE deve ainda ser interpretado no sentido de que, no caso de uma restrição à
         livre prestação de serviços justificada por motivos de interesse geral, deve ser tido em atenção se o referido interesse geral
         não foi já suficientemente tido em consideração através da legislação, dos controlos e das verificações aos quais o prestador
         de serviços está sujeito no Estado em que esteja estabelecido?
      
      c)      Em caso de resposta afirmativa, na apreciação da proporcionalidade de uma disposição nacional que prescreve sanções penais
         para a oferta transfronteiriça de prestações de serviços no domínio dos jogos de fortuna ou azar sem uma licença nacional,
         deve ser tido em consideração que os interesses de ordem pública invocados pelo Estado da prestação de serviços para justificar
         a restrição da liberdade fundamental já foram suficientemente acautelados no Estado de estabelecimento através de um procedimento
         de autorização e de supervisão muito rigoroso?
      
      d)      Em caso de resposta afirmativa, o órgão jurisdicional de reenvio deve, no âmbito da apreciação da proporcionalidade de uma
         restrição desse tipo, ter em consideração o facto de as disposições em causa serem até mais rigorosas, no que diz respeito
         ao nível do controlo exercido, no Estado em que o prestador de serviços está estabelecido do que no Estado da prestação de
         serviços?
      
      e)      No caso de uma proibição – sob pena de sanções penais – dos jogos de fortuna ou azar imposta por motivos de ordem pública,
         designadamente a protecção dos jogadores e o combate à criminalidade, o princípio da proporcionalidade exige, para além disso,
         que o órgão jurisdicional de reenvio proceda a uma diferenciação entre os operadores que disponibilizam os jogos de fortuna
         ou azar sem qualquer licença, por um lado, e aqueles que estão estabelecidos e detêm uma concessão noutros Estados‑Membros
         da [União], exercendo a sua actividade ao abrigo da sua liberdade de prestação de serviços, por outro?
      
      f)      Por fim, no âmbito da apreciação da proporcionalidade de uma disposição nacional que proíbe a prestação transfronteiriça de
         serviços no domínio dos jogos de fortuna ou azar sem uma concessão ou licença nacional, prescrevendo sanções penais em caso
         de violação desta proibição, deve ser tido em consideração o facto de não ter sido possível a um prestador de serviços no
         domínio dos jogos de fortuna ou azar, devidamente licenciado noutro Estado‑Membro, obter uma licença nacional, em virtude
         de limitações ao acesso objectivas e indirectamente discriminatórias, e de os procedimentos de licenciamento e de controlo
         no Estado de estabelecimento apresentarem um nível de protecção pelo menos equiparável ao nacional?
      
      4.      a)     O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que o carácter temporário dos serviços prestados exclui a possibilidade
         de o prestador de serviços criar uma determinada infra‑estrutura (como, por exemplo, um servidor) no Estado‑Membro de acolhimento
         sem que seja considerado como estando estabelecido no referido Estado‑Membro?
      
      b)      O artigo 49.° CE deve, para além disso, ser interpretado no sentido de que uma proibição, imposta a prestadores de serviços
         de apoio nacionais, de facilitar a um prestador com sede noutro Estado‑Membro a prestação do seu serviço também representa
         uma limitação à livre prestação de serviços deste prestador quando os prestadores de serviços de apoio têm sede no mesmo Estado‑Membro
         que uma parte dos destinatários do serviço?»
      
       Quanto às questões prejudiciais
       Quanto à segunda questão
      30      Com a sua segunda questão, que importa apreciar em primeiro lugar, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial,
         se legislação do Estado‑Membro que institui sanções penais contra quem infringe um monopólio de exploração de jogos de fortuna
         ou azar, como o previsto na legislação nacional em causa, tem de estar em consonância com as liberdades fundamentais garantidas
         pelo Tratado, em especial pelo artigo 49.° CE.
      
      31      A este respeito, como o advogado‑geral salientou nos n.os 45 a 50 das suas conclusões, resulta de jurisprudência assente que o direito da União impõe limites à competência dos Estados‑Membros
         em matéria penal, não podendo a legislação nesse domínio restringir, nomeadamente, as liberdades fundamentais garantidas pelo
         direito da União (v., nesse sentido, acórdãos de 2 de Fevereiro de 1989, Cowan, 186/87, Colect., p. 195, n.° 19, e de 19 de
         Janeiro de 1999, Calfa, C‑348/96, Colect., p. I‑11, n.° 17).
      
      32      Consequentemente, há que responder à segunda questão que o direito da União, em especial o artigo 49.° CE, opõe‑se a que seja
         punida criminalmente a violação de um monopólio da exploração dos jogos de fortuna ou azar, como o monopólio da exploração
         dos jogos de casino comercializados através da Internet previsto na legislação em causa no processo principal, se essa legislação
         não estiver em consonância com as disposições do referido direito.
      
       Quanto à quarta questão
      33      Com a sua quarta questão, que importa apreciar em segundo lugar, o órgão jurisdicional de reenvio procura determinar quais
         são as liberdades fundamentais aplicáveis às restrições impostas às filiais maltesas pela legislação nacional em causa no
         processo principal. O órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se o artigo 49.° CE deve ser interpretado no
         sentido de que é aplicável aos serviços de jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet, no território do
         Estado‑Membro de acolhimento, por um operador estabelecido noutro Estado‑Membro, ainda que esse operador:
      
      –        Tenha instalado, no Estado‑Membro de acolhimento, uma determinada infra‑estrutura de apoio informático, como um servidor,
         o que pode levar à aplicação das disposições sobre a liberdade de estabelecimento, e
      
      –        Recorra a serviços de apoio de um prestador estabelecido no Estado‑Membro de acolhimento, para prestar os seus serviços a
         consumidores nesse mesmo Estado‑Membro, o que poderá ter como consequência a inaplicabilidade do artigo 49.° CE.
      
      34      Como o advogado‑geral observou nos n.os 57 a 62 das suas conclusões, o simples facto de um prestador de jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet
         recorrer a meios materiais de comunicação fornecidos por uma terceira empresa estabelecida no Estado‑Membro de acolhimento
         não é, em si mesmo, susceptível de demonstrar que esse prestador dispõe, nesse Estado, de um estabelecimento estável comparável
         a uma agência, o que tem como consequência a aplicação das disposições do Tratado sobre a liberdade de estabelecimento.
      
      35      Com efeito, resulta da jurisprudência do Tribunal que, para gerar um estabelecimento na acepção do Tratado, uma relação comercial
         estabelecida entre um operador estabelecido num Estado‑Membro e operadores estabelecidos no Estado‑Membro de acolhimento tem
         de implicar a possibilidade de esse operador participar, de forma estável e contínua, na vida económica desse Estado‑Membro
         de acolhimento, configurando‑se, pois, de um modo que permite aos clientes beneficiar dos serviços propostos por meio de uma
         presença permanente nesse Estado‑Membro de acolhimento, que pode ser exercida por meio de um simples escritório eventualmente
         gerido por uma pessoa independente, mas mandatada para agir permanentemente por conta do referido operador como se fosse uma
         agência (v., nesse sentido, acórdão de 8 de Setembro de 2010, Stoß e o., C‑316/07, C‑358/07 a C‑360/07, C‑409/07 e C‑410/07,
         ainda não publicado na Colectânea, n.os 59 e 60).
      
      36      Ora, é pacífico que, longe de estar mandatada para agir permanentemente pelas filiais maltesas no mercado dos jogos de fortuna
         ou azar na Áustria, a bet‑at‑home.com Entertainment não intervém na relação entre essas filiais e os respectivos clientes.
         A exploração da plataforma bet‑at‑home.com é assegurada exclusivamente pelas filiais maltesas, que são responsáveis pela organização
         dos jogos e com as quais os clientes celebram os contratos correspondentes. Nestas condições, os serviços de apoio informático
         prestados pela bet‑at‑home Entertainment poderiam ser confiados a um outro operador, estabelecido noutro Estado‑Membro, sem
         que os consumidores austríacos sequer se dessem conta.
      
      37      Por outro lado, resulta da jurisprudência do Tribunal de Justiça que o artigo 49.° CE se aplica a um operador de jogos de
         fortuna ou azar, estabelecido num Estado‑Membro, que propõe os seus serviços noutro Estado‑Membro, mesmo que recorra, para
         esse efeito, a intermediários estabelecidos no mesmo Estado‑Membro que os destinatários dos referidos serviços (acórdão de
         6 de Novembro de 2003, Gambelli e o., C‑243/01, Colect., p. I‑13031, n.° 58). Por maioria de razão, esse mesmo artigo aplica‑se
         quando o operador de jogos de fortuna ou azar não recorre a intermediários, mas sim a um simples prestador de serviços de
         apoio informático no Estado‑Membro de acolhimento.
      
      38      Consequentemente, há que responder à quarta questão que o artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que é aplicável
         aos serviços de jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet, no território do Estado‑Membro de acolhimento,
         por um operador estabelecido noutro Estado‑Membro, ainda que esse operador:
      
      –        Tenha instalado, no Estado‑Membro de acolhimento, uma determinada infra‑estrutura de apoio informático, como um servidor,
         e
      
      –        Recorra a serviços de apoio informático de um prestador estabelecido no Estado‑Membro de acolhimento, para prestar os seus
         serviços a consumidores igualmente estabelecidos nesse Estado‑Membro.
      
       Quanto à primeira e terceira questões
      39      A primeira e terceira questões, que importa apreciar conjuntamente, dizem respeito às condições em que o artigo 49.° CE permite
         a instituição de um monopólio da organização de jogos de fortuna ou azar comercializados através da Internet, a favor de um
         operador único, como o do processo principal.
      
      40      Para responder utilmente a estas questões, importa, em primeiro lugar, recordar as condições em que o artigo 49.° CE permite
         a instituição de um monopólio em matéria de jogos de fortuna ou azar como o em causa no processo principal. Em segundo lugar,
         é necessário verificar em que medida a prossecução de uma política comercial expansionista pela entidade dotada de um monopólio
         em matéria de jogos de fortuna ou azar pode ser coerente com os objectivos prosseguidos pelo regime de monopólio. Em terceiro
         lugar, importa dar ao órgão jurisdicional de reenvio indicações sobre a compatibilidade, com o artigo 49.° CE, de uma série
         de restrições específicas impostas ao titular do monopólio pela legislação nacional, relativamente à sua forma jurídica, à
         localização da sua sede e à possibilidade de constituir sucursais noutros Estados‑Membros. Em último lugar, importa apreciar
         a relevância das fiscalizações aos operadores de jogos de fortuna ou azar efectuadas noutros Estados‑Membros, e das garantias
         dadas nessas fiscalizações, para a apreciação da proporcionalidade de medidas restritivas impostas por um Estado‑Membro que
         procura regular os jogos de fortuna ou azar, para prossecução de um ou mais objectivos reconhecidos pela jurisprudência do
         Tribunal.
      
      41      É pacífico que uma legislação de um Estado‑Membro, como a que está em causa no processo principal, que sujeita a organização
         e a promoção dos jogos de fortuna ou azar a um regime de exclusividade a favor de um único operador e que proíbe qualquer
         outro operador, inclusivamente um operador estabelecido noutro Estado‑Membro, de propor, através da Internet, no território
         do primeiro Estado‑Membro, serviços abrangidos pelo referido regime, constitui uma restrição à livre prestação de serviços
         garantida pelo artigo 49.° CE (v., nesse sentido, acórdão de 3 de Junho de 2010, Sporting Exchange, C‑203/08, ainda não publicado
         na Colectânea, n.os 22 e 24, e jurisprudência aí referida).
      
      42      Contudo, semelhante restrição à livre prestação de serviços pode ser admitida como derrogação expressamente prevista nos artigos
         45.° CE e 46.° CE, aplicáveis nesta matéria nos termos do artigo 55.° CE, ou pode ser justificada, em conformidade com a jurisprudência
         do Tribunal de Justiça, por razões imperiosas de interesse geral (acórdãos de 8 de Setembro de 2009, Liga Portuguesa de Futebol
         Profissional e Bwin International, C‑42/07, Colect., p. I‑7633, n.os 55 e 56, e de 30 de Junho de 2011, Zeturf, C‑212/08, ainda não publicado na Colectânea, n.° 37).
      
      43      Importa sublinhar desde já, no contexto do processo principal, que, se um regime de monopólio em matéria de jogos de fortuna
         ou azar for estabelecido por um Estado‑Membro e esse regime for incompatível com o artigo 49.° CE, a violação desse regime
         por um operador económico não pode ser criminalmente punida (acórdão de 6 de Março de 2007, Placanica e o., C‑338/04, C‑359/04
         e C‑360/04, Colect., p. I‑1891, n.os 63 e 69).
      
       Quanto às condições para a instituição de um monopólio em matéria de jogos de fortuna ou azar
      44      No que respeita às justificações que podem ser admitidas, o Tribunal de Justiça observou que os objectivos prosseguidos pelas
         legislações nacionais adoptadas no domínio dos jogos de fortuna ou azar e das apostas, vistos no seu conjunto, estão mais
         frequentemente ligados à protecção dos destinatários dos serviços em causa e, mais em geral, dos consumidores, e à protecção
         da ordem social. Salientou igualmente que esses objectivos fazem parte das razões imperiosas de interesse geral que podem
         justificar restrições à livre prestação de serviços (acórdão de 8 de Setembro de 2010, Stoß e o., já referido, n.° 74 e jurisprudência
         aí referida).
      
      45      Por outro lado, o Tribunal de Justiça tem repetidamente decidido que as particularidades de ordem moral, religiosa ou cultural
         e as consequências moral e financeiramente prejudiciais para o indivíduo e para a sociedade que envolvem os jogos de fortuna
         ou azar e as apostas podem ser susceptíveis de justificar a existência de um poder suficiente de apreciação das autoridades
         nacionais para determinarem, segundo a sua própria escala de valores, as exigências da protecção do consumidor e da ordem
         social (acórdão Stoß e o., já referido, n.° 76 e jurisprudência aí referida).
      
      46      A mera circunstância de um Estado‑Membro ter escolhido um sistema de protecção diferente do adoptado por outro Estado‑Membro
         não pode ter incidência na apreciação da necessidade e da proporcionalidade das disposições tomadas nessa matéria. Estas devem
         ser apreciadas apenas à luz dos objectivos prosseguidos pelas autoridades competentes do Estado‑Membro interessado e do nível
         de protecção que as mesmas pretendem garantir (acórdão Liga Portuguesa de Futebol Profissional e Bwin International, já referido,
         n.° 58).
      
      47      Por conseguinte, os Estados‑Membros têm, em princípio, a faculdade de fixar os objectivos da sua política em matéria de jogos
         de fortuna e azar e, eventualmente, de definir com precisão o nível de protecção pretendido (v., neste sentido, acórdão Liga
         Portuguesa de Futebol Profissional e Bwin International, já referido, n.° 59).
      
      48      Um Estado‑Membro que procure garantir um nível particularmente elevado de protecção pode, por conseguinte, como o Tribunal
         de Justiça admitiu na sua jurisprudência, ter razões para considerar que só a concessão de direitos exclusivos a um organismo
         único, sujeito a um controlo estreito por parte das autoridades públicas, é susceptível de lhes permitir controlar os riscos
         ligados ao sector dos jogos de fortuna e azar e prosseguir o objectivo legítimo de prevenção do incentivo a despesas excessivas
         ligadas aos jogos e de luta contra a dependência do jogo de uma forma suficientemente eficaz (v., neste sentido, acórdãos
         Stoß e o., já referido, n.os 81 e 83, e Zeturf, n.° 41).
      
      49      Com efeito, as autoridades públicas de um Estado‑Membro podem considerar que o facto de, na sua qualidade de fiscalizadoras
         do organismo titular do monopólio, disporem de meios adicionais que lhes permitem ter influência na conduta desse organismo,
         fora dos mecanismos legais de regulação e de vigilância, é susceptível de lhes garantir um melhor controlo da oferta de jogos
         de fortuna e azar e melhores garantias de eficácia na execução da sua política do que no caso de exercício dessas actividades
         por operadores privados em situação de concorrência, mesmo que estes estivessem sujeitos a um regime de autorização e a um
         regime de controlo e de sanções (acórdão Stoß e o., já referido, n.° 82).
      
      50      As restrições impostas pelos Estados‑Membros devem, no entanto, preencher as condições que resultam da jurisprudência do Tribunal
         de Justiça quanto à sua proporcionalidade, o que cabe aos órgãos jurisdicionais nacionais verificar (acórdãos já referidos
         Liga Portuguesa de Futebol Profissional e Bwin International, n.os 59 e 60, e Stoß e o., n.os 77 e 78).
      
      51      Sublinhe‑se que a questão de saber quais os objectivos efectivamente prosseguidos pela legislação nacional, no âmbito de um
         processo de que o Tribunal de Justiça é chamado a conhecer nos termos do artigo 267.° TFUE, é da competência do órgão jurisdicional
         de reenvio.
      
      52      Segundo o Governo austríaco, a legislação em causa no processo principal prossegue, por um lado, um objectivo de combate à
         criminalidade, em especial através da protecção dos consumidores de jogos de fortuna ou azar contra a fraude e outros delitos,
         e, por outro, um objectivo de prevenção do incentivo das despesas excessivas associadas aos jogos, mediante o estabelecimento
         de medidas adequadas de protecção dos jogadores, como, nomeadamente, a fixação vinculativa de limites às apostas pessoais,
         participando assim na protecção da ordem social em geral.
      
      53      J. Dickinger e F. Ömer, assim como o Governo maltês, alegam, ao invés, que decorre expressamente da letra da GSpG que o seu
         objectivo principal é aumentar as receitas tributárias geradas pelos jogos de fortuna ou azar. Observam, especificamente,
         que, por força do § 14, n.° 5, da GSpG, a concessão é atribuída sistematicamente ao operador do qual é de esperar que obtenha
         as melhores receitas para o governo federal. Além disso, qualquer extensão territorial ou material da actividade comercial
         do concessionário pressupõe a autorização do Ministro Federal das Finanças, a qual só é dada se não for de recear nenhuma
         diminuição das receitas do Governo Federal.
      
      54      Incumbe ao órgão jurisdicional de reenvio verificar se as autoridades nacionais visavam verdadeiramente, à data dos factos
         no processo principal, assegurar um nível de protecção particularmente elevado e se, atendendo a esse nível de protecção pretendido,
         a instituição de um monopólio podia efectivamente ser considerada necessária (acórdão Zeturf, já referido, n.° 47). Neste
         contexto, é ao Estado‑Membro que pretende invocar um objectivo adequado para legitimar o entrave à livre prestação de serviços
         que cabe apresentar ao tribunal que vai julgar essa questão todos os elementos susceptíveis de permitir que esse tribunal
         se assegure de que essa medida preenche efectivamente os requisitos resultantes do princípio da proporcionalidade (acórdão
         Stoß e o., já referido, n.° 71).
      
      55      Nesse sentido, o mero objectivo de maximizar as receitas da Fazenda Pública não pode permitir semelhante restrição à livre
         prestação de serviços.
      
      56      Neste contexto, recorde‑se, em especial, que uma legislação nacional só é apta a garantir a realização do objectivo invocado
         se responder verdadeiramente à intenção de o alcançar de maneira coerente e sistemática. Consequentemente, incumbe aos órgãos
         jurisdicionais nacionais garantir, nomeadamente em face das modalidades concretas de aplicação da regulamentação restritiva
         em causa, que esta responde verdadeiramente à preocupação de reduzir as ocasiões de jogo e de limitar as actividades nesse
         domínio, de maneira coerente e sistemática (v., neste sentido, acórdão Stoβ, já referido, Zenatti, n.os 88, 97 e 98).
      
      57      Consequentemente, o órgão jurisdicional de reenvio terá de verificar, nomeadamente à luz da evolução do mercado dos jogos
         de fortuna ou azar na Áustria, se as fiscalizações pelo Estado a que estão sujeitas as actividades do titular do monopólio
         são susceptíveis de garantir que este poderá efectivamente prosseguir, de maneira coerente e sistemática, os objectivos invocados,
         através de uma oferta quantitativamente moderada e qualitativamente adequada em função dos referidos objectivos (v., nesse
         sentido, acórdãos de 3 de Junho de 2010, Ladbrokes Betting & Gaming e Ladbrokes International, C‑258/08, ainda não publicado
         na Colectânea, n.° 37, e Stoß e o., já referido, n.° 83).
      
      58      Por outro lado, a política comercial prosseguida pelo titular do monopólio tem uma certa relevância para a apreciação da forma
         como os referidos objectivos são prosseguidos.
      
       Quanto à prossecução de uma política comercial expansionista pela entidade dotada de um monopólio em matéria de jogos de azar
      59      O órgão jurisdicional de reenvio expressa dúvidas quanto à questão de saber se se pode considerar que o monopólio estabelecido
         pela legislação nacional em causa no processo principal é adequado à concretização do objectivo de prevenção do incentivo
         a despesas excessivas ligadas ao jogo e de luta contra a dependência do mesmo, devido à política expansionista levada a cabo
         pelo titular do monopólio por meio de actividades publicitárias intensas.
      
      60      J. Dickinger e F. Ömer, assim como o Governo maltês, sustentam, a este respeito, que o sistema austríaco permitiu uma expansão
         constante da oferta de jogos de fortuna ou azar e um crescimento contínuo das despesas com publicidade constantemente destinada
         a alvos publicitários novos, antes de mais nada os jovens, em especial no âmbito da plataforma de jogo na Internet www.win2day.at,
         lançada pela Österreischichen Lotterien, cujos rendimentos largamente ultrapassaram os de todos os casinos tradicionais.
      
      61      A este respeito, importa observar que o crescimento das actividades comerciais de um operador a que foram atribuídos direitos
         exclusivos no domínio dos jogos de fortuna ou azar e o aumento significativo das receitas que aquele aufere destes exigem
         uma atenção particular na apreciação da coerência e carácter sistemático da legislação em causa e, por conseguinte, da sua
         adequação à prossecução dos objectivos reconhecidos pela jurisprudência do Tribunal de Justiça. Com efeito, resulta dessa
         jurisprudência que o financiamento de actividades de utilidade pública por meio de receitas provenientes dos jogos de fortuna
         ou azar não deve constituir o real objectivo de uma política restritiva estabelecida nesse sector, apenas podendo ser considerada
         uma consequência benéfica acessória (v., nomeadamente, acórdãos de 24 de Março de 1992, Schindler, C‑275/92, Colect., p. I‑1039,
         n.os 57 e 60; de 21 de Setembro de 1999, Läärä e o., C‑124/97, Colect., p. I‑6067, n.os 32 e 37; de 21 de Outubro de 1999, Zenatti, C‑67/98, Colect., p. I‑7289, n.os 35 e 36, e Gambelli e o., já referido, n.os 61 e 62).
      
      62      Consequentemente, um Estado‑Membro não pode invocar razões de ordem pública atinentes à necessidade de reduzir as ocasiões
         de jogo, na medida em que as autoridades públicas desse Estado‑Membro incentivem e encorajem os consumidores a participar
         em jogos de fortuna ou azar para que a Fazenda Pública daí retire benefícios (acórdão Gambelli e o., já referido, n.° 69).
      
      63      Todavia, o Tribunal de Justiça decidiu também que uma política de expansão controlada das actividades de jogos de fortuna
         e azar pode ser coerente com o objectivo de as canalizar para circuitos controlados, atraindo jogadores que levam a cabo actividades
         de jogos e de apostas clandestinas proibidas para actividades autorizadas e regulamentadas. Com efeito, essa política pode
         ser simultaneamente coerente tanto com o objectivo de evitar a exploração das actividades de jogos de fortuna e azar para
         fins criminosos ou fraudulentos, como com o objectivo de prevenção do incentivo a despesas excessivas ligadas ao jogo e de
         luta contra a dependência deste, orientando os consumidores para a oferta do titular do monopólio público, oferta essa que
         se presume simultaneamente desprovida de elementos criminosos e concebida para melhor defender os consumidores contra despesas
         excessivas e a dependência do jogo (acórdão Stoß e o., já referido, n.os 101 e 102).
      
      64      Para atingir esse objectivo de canalização para circuitos controlados, os operadores autorizados devem constituir uma alternativa
         fiável, mas simultaneamente atractiva, a actividades não regulamentadas, o que pode em si mesmo implicar a oferta de uma vasta
         gama de jogos, uma publicidade de certa envergadura e o recurso a novas técnicas de distribuição.
      
      65      Incumbe ao órgão jurisdicional de reenvio apreciar, perante as circunstâncias do litígio que lhe foi submetido, se se pode
         considerar que a política comercial do titular do monopólio, quer ao nível da amplitude da publicidade efectuada quer da criação
         de novos jogos, se inscreve no âmbito dessa política de expansão controlada no sector dos jogos de fortuna e azar, que se
         destina efectivamente a canalizar a vontade de jogar para os circuitos controlados (v. acórdãos já referidos Ladbrokes Betting
         & Gaming e Ladbrokes International, n.° 37, e Zeturf, n.° 69).
      
      66      No âmbito dessa apreciação, cabe nomeadamente ao órgão jurisdicional de reenvio verificar se, por um lado, as actividades
         criminosas e fraudulentas ligadas ao jogo e, por outro, a dependência do jogo podiam, à data dos factos do processo principal,
         constituir um problema na Áustria e se uma expansão das actividades autorizadas e regulamentadas podia solucionar esse problema
         (acórdão Ladbrokes Betting & Gaming e Ladbrokes International, já referido, n.° 29).
      
      67      Uma vez que o objectivo de proteger os consumidores contra a dependência do jogo é, em princípio, dificilmente compatível
         com uma política de expansão dos jogos de fortuna ou azar, que se caracteriza nomeadamente pela criação de novos jogos e pela
         publicidade que deles é feita, essa política só pode ser considerada coerente se as actividades ilegais revestirem uma dimensão
         considerável e se as medidas adoptadas se destinarem a canalizar a vontade de jogar dos consumidores para os circuitos legais
         (acórdão Ladbrokes Betting & Gaming e Ladbrokes International, já referido, n.° 30).
      
      68      Em todo o caso, a publicidade eventualmente feita pelo titular de um monopólio público deve ser moderada e estritamente limitada
         ao necessário para canalizar dessa forma os consumidores para as redes de jogo controladas. Em contrapartida, essa publicidade
         não pode, nomeadamente, ter por fim encorajar a propensão natural dos consumidores para o jogo, estimulando‑os a participar
         activamente neste, nomeadamente banalizando o jogo ou dando deste uma imagem positiva ligada ao facto de as receitas recolhidas
         serem afectadas a actividades de interesse geral ou ainda aumentando o poder de atracção do jogo por meio de mensagens publicitárias
         cativantes anunciando ganhos significativos (acórdão Stoß e o., n.° 103).
      
      69      Importa, em especial, efectuar uma distinção entre as estratégias do beneficiário de um monopólio que apenas têm o finalidade
         de informar os potenciais clientes da existência de produtos e servem para garantir um acesso regular aos jogos de fortuna
         ou azar mediante a canalização dos jogadores para os circuitos controlados e as que convidam a uma participação activa nesses
         jogos e a estimulam. Há, pois, que efectuar uma distinção entre uma política comercial restrita, que procura somente captar
         ou fidelizar o mercado existente em proveito do organismo que beneficia de um monopólio, e uma política comercial expansionista,
         cujo objectivo é a ampliação do mercado global das actividades de jogos.
      
       Quanto à compatibilidade das restrições específicas impostas ao titular do monopólio com o artigo 49.° CE
      70      O órgão jurisdicional de reenvio interroga o Tribunal sobre a compatibilidade com o artigo 49.° CE de uma série de restrições
         específicas impostas ao titular do monopólio pela legislação nacional em causa no processo principal, no tocante à sua forma
         jurídica, à localização da sua sede social e à possibilidade de constituir sucursais em Estados‑Membros diferentes daquele
         em que esse titular tem sede.
      
      71      A este respeito importa, a título preliminar, recordar que, como o advogado‑geral salientou no n.° 97 das suas conclusões,
         na medida em que um monopólio constitui uma medida particularmente restritiva, este deve destinar‑se a garantir um nível particularmente
         elevado de protecção dos consumidores, pelo que deve ser acompanhado pela criação de um quadro normativo adequado a garantir
         que o titular desse monopólio poderá prosseguir, de maneira coerente e sistemática, os objectivos assim fixados, por meio
         de uma oferta quantitativamente moderada e qualitativamente adequada em função desse objectivo e sujeita a um controlo rigoroso
         das autoridades públicas (acórdãos já referidos Stoß e o., n.° 83, e Zeturf, n.° 58).
      
      72      Consequentemente, a imposição de determinadas restrições ao titular de um monopólio em matéria de jogos de fortuna ou azar
         em princípio não só é compatível com o direito com o direito da União como também é por este exigida. É ainda necessário que
         essas restrições estejam em consonância com as exigências decorrentes do direito da União quanto à sua proporcionalidade,
         em especial, é necessário que sejam adequadas a garantir que os objectivos prosseguidos pela instituição de um regime de monopólio
         serão alcançados e que não vão além do necessário para esse fim. Embora essa verificação incumba, em princípio, ao órgão jurisdicional
         de reenvio, as indicações que se seguem podem ser‑lhe úteis para esse efeito.
      
      –       Quanto à forma jurídica e ao montante do capital social do titular do monopólio
      73      Resulta do § 14, n.° 2, pontos 1 e 3, da GSpG que o titular do monopólio da exploração das lotarias electrónicas deve, por
         um lado, ser uma sociedade de capitais e, por outro, dispor de um capital social realizado de, pelo menos, 109 000 000 euros.
      
      74      Segundo o Governo austríaco, a condição relativa à forma jurídica responde à vontade de impor ao titular do monopólio uma
         estrutura empresarial transparente, para evitar o branqueamento de capitais e a fraude. Esse governo sublinha que o direito
         da União prescreve a mesma exigência de forma jurídica no que respeita ao domínio dos seguros. No que diz respeito ao montante
         do capital social, o mesmo governo alega que é proporcionado face ao montante dos lucros que o titular do monopólio pode ser
         levado a pagar no âmbito dos diferentes jogos que está autorizado à comercializar através da Internet, os quais podem compreender
         um jackpot de vários milhões de euros.
      
      75      Pelo contrário, J. Dickinger e F. Ömer alegam que o montante do capital social exigido, 109 000 000 euros, é desproporcionado,
         atendendo a que o capital exigido para uma instituição de crédito é de apenas 5 000 000 euros na Áustria.
      
      76      Como o Tribunal de Justiça decidiu no n.° 30 do acórdão Engelmann, já referido, a exigência de uma forma jurídica específica
         para os operadores em matéria de jogos de fortuna ou azar pode, dadas as obrigações a que estão sujeitos determinados tipos
         de sociedade, nomeadamente no tocante à respectiva organização interna, à conservação das contas, às fiscalizações de que
         podem ser alvo e às relações com terceiros, ser justificada pelo objectivo de evitar o branqueamento de capitais e a fraude,
         objectivo esse invocado pelo Governo austríaco no caso vertente.
      
      77      Bem assim, a exigência de que o operador disponha de um capital social de determinado montante pode ser útil para garantir
         que tem determinada capacidade financeira e está em condições de cumprir as obrigações que poderá contrair para com os apostadores
         vencedores. Contudo, importa recordar que a observância do princípio da proporcionalidade exige, nomeadamente, que a restrição
         imposta não ultrapasse o necessário para alcançar o objecto pretendido. Caberá ao órgão jurisdicional de reenvio verificar,
         face às outras possibilidades de garantir que os créditos dos jogadores vencedores são honrados pelo operador, o carácter
         proporcionado da exigência em causa.
      
      –       Quanto à localização da sede do titular do monopólio
      78      O § 14, n.° 2, ponto 1, da GSpG prevê que o titular do monopólio da exploração das lotarias deve ter a sua sede social no
         território nacional.
      
      79      Como o advogado‑geral salientou no n.° 120 das suas conclusões, essa exigência constitui uma restrição discriminatória que
         só pode, por isso, ser justificada por um dos motivos enunciados no artigo 46.° CE, a saber, a protecção da ordem pública,
         da segurança pública ou da saúde pública.
      
      80      O Governo austríaco sustenta que a presença da sede social no território nacional é necessária para permitir uma fiscalização
         eficaz dos jogos em linha e que as autoridades austríacas não têm as mesmas possibilidade de fiscalização dos operadores económicos
         estabelecidos noutros Estados‑Membros. Alega também que a presença de um comissário do Estado nos órgãos de supervisão do
         titular do monopólio, nos termos do § 19, n.° 2, da GSpG, permite às autoridades nacionais competentes fiscalizar efectivamente
         as decisões e a gestão do titular do monopólio. Estas autoridades têm, assim, a possibilidade de conhecer essas decisões antes
         da sua aplicação, podendo opor‑se às mesmas caso violem os objectivos da política nacional em matéria de jogos. Segundo esse
         Governo, as referidas autoridades não dispõem das mesmas possibilidades em relação a um operador estabelecido noutro Estado‑Membro.
      
      81      Como se salientou no n.° 53 do presente acórdão, J. Dickinger e F. Ömer, assim como o Governo maltês, apoiando‑se, em especial,
         no §14, n.° 5, da GSpS, alegam, ao invés, que o objectivo principal da legislação em causa é aumentar as receitas tributárias
         geradas pelos jogos de fortuna ou azar. Embora a interpretação desta disposição da legislação nacional seja da competência
         do órgão jurisdicional de reenvio, há que observar, em todo o caso, que um sistema de atribuição de concessões assente no
         critério da maximização das receitas da Fazenda Pública, que prejudica sistematicamente os operadores estabelecidos noutros
         Estados‑Membros diferentes da Áustria pelo mero facto de um operador que tem sede social na Áustria ser susceptível de pagar
         mais impostos na Áustria do que um operador estabelecido noutro Estado‑Membro, não pode ser considerado compatível com o direito
         da União.
      
      82      No que respeita, mais especificamente, ao objectivo da fiscalização e supervisão do titular do monopólio e ao argumento relativo
         à necessidade de assegurar uma fiscalização eficaz dos operadores económicos, nomeadamente pela presença de comissários do
         Estado, invocados pelo Governo austríaco, importa recordar que resulta de jurisprudência assente que o conceito de ordem pública,
         por um lado, pressupõe uma ameaça real e suficientemente grave que afecte um interesse fundamental da sociedade e, por outro,
         enquanto justificação de uma derrogação de um princípio fundamental do Tratado, deve ser interpretado de forma restritiva
         (v., nesse sentido, acórdãos de 18 de Maio de 1982, Adoui e Cornuaille, 115/81 e 116/81, Colect., p. 1665, n.° 8; Calfa, já
         referido, n.os 21 e 23; de 20 de Novembro de 2001, Jany e o., C‑268/99, Colect., p. I‑8615, n.° 59, e de 22 de Dezembro de 2008, Comissão/Áustria,
         C‑161/07, Colect., p. I‑10671, n.° 35 e jurisprudência aí referida).
      
      83      Por conseguinte, cabe ao órgão jurisdicional de reenvio determinar, em primeiro lugar, se os objectivos invocados pelo Governo
         austríaco são susceptíveis de entrar nesse conceito e, em segundo lugar, se for caso disso, se a obrigação relativa à sede
         social em causa no processo principal cumpre os critérios de necessidade e proporcionalidade previstos na jurisprudência do
         Tribunal de Justiça.
      
      84      O órgão jurisdicional de reenvio terá, nomeadamente, de verificar se existem outros meios menos restritivos para garantir
         um nível de fiscalização das actividades dos operadores estabelecidos em Estados‑Membros diferentes da República da Áustria
         equivalente ao da fiscalização susceptível de ser efectuada aos operadores cuja sede se situa no território austríaco.
      
      –       Quanto à proibição de constituir sucursais noutros Estados‑Membros
      85      Por força do § 15, n.° 1, da GSpG, o concessionário não tem o direito de constituir sucursais fora do território austríaco.
      
      86      Segundo o Governo austríaco, essa proibição tão‑só concretiza a ideia de que cabe a cada Estado‑Membro regular a exploração
         dos jogos de fortuna ou azar no seu território.
      
      87      No entanto, a liberdade, de cada Estado Membro, de regular a exploração dos jogos de fortuna ou azar no seu território não
         constitui, por si só, um objectivo legítimo de interesse geral que possa justificar uma restrição às liberdades fundamentais
         garantidas pelo Tratado.
      
      88      Conclui‑se, pois, que não foi invocada no Tribunal nenhuma justificação válida para a proibição de o titular do monopólio
         em causa no processo principal constituir sucursais fora do território austríaco.
      
       Quanto à consideração das fiscalizações aos operadores de jogos de fortuna ou azar efectuadas noutros Estados‑Membros
      89      No contexto do processo principal, o órgão jurisdicional de reenvio interroga‑se se as fiscalizações aos operadores de jogos
         de fortuna ou azar efectuadas noutros Estados‑Membros são relevantes para a apreciação da proporcionalidade da opção do legislador
         nacional de estabelecer um monopólio no tocante aos jogos de casino na Internet.
      
      90      Resulta da redacção da terceira questão que o órgão jurisdicional de reenvio parece partir da premissa de que, por um lado,
         os interesses de regulação invocados pelo Estado‑Membro de acolhimento, a saber, a República da Áustria, para justificar a
         restrição à livre prestação de serviços em causa no processo principal, são já suficientemente levados em conta no Estado‑Membro
         da sede, no caso vertente a República de Malta, e, por outro, as disposições em vigor nesse Estado excedem até, em termos
         de intensidade, as aplicáveis no Estado‑Membro de acolhimento.
      
      91      O Governo maltês afirma, neste contexto, que o Estado maltês foi o primeiro a desenvolver um sistema de regulação destinado
         especificamente a fiscalizar e supervisionar os jogos de fortuna ou azar na Internet que, simultaneamente, assentava em princípios
         idênticos aos da regulação dos canais tradicionais de comercialização desses serviços mas foi concebido com o objectivo de
         responder aos riscos intrínsecos associados a esses sistemas de exploração modernos. As fiscalizações efectuadas no território
         maltês vão além, nomeadamente, do exame superficial efectuado no território de Gibraltar, no processo que deu origem ao acórdão
         Liga Portuguesa de Futebol Profissional e Bwin International, já referido.
      
      92      Por outro lado, J. Dickinger e F. Ömer, assim como o Governo maltês, alegam que os jogos de fortuna ou azar comercializados
         através da Internet podem ser fiscalizados de uma forma muito mais eficaz do que os comercializados pelos canais tradicionais,
         devido à rastreabilidade de todas as transacções efectuadas num suporte informático, o que permite, nomeadamente, detectar
         facilmente operações problemáticas ou suspeitas. Além disso, devido à necessidade de os jogadores disporem de uma conta bancária
         para o pagamento dos ganhos, é possível assegurar uma transparência acrescida face aos canais tradicionais.
      
      93      Os operadores malteses do grupo bet‑at‑home.com foram alvo de estritos controlos de acesso, que implicavam a apreciação das
         respectivas qualidades profissionais e da respectiva integridade. Esses operadores continuaram sujeitos à fiscalização e supervisão
         contínua das autoridades maltesas competentes para regular esse sector, nomeadamente, a Lotteries and Gaming Authority. Esta
         última estabeleceu, em todo o caso, sistemas de regulação avançados e robustos, que incluem fiscalizações às pessoas envolvidas
         e aos sistemas e procedimentos utilizados pelo operador.
      
      94      J. Dickinger e F. Ömer, assim como o Governo maltês, invocam a jurisprudência assente do Tribunal de Justiça segundo a qual
         não é conforme com a livre prestação de serviços submeter um prestador a restrições para proteger interesses gerais na medida
         em que estes interesses já estejam salvaguardados pelas regras a que o prestador está sujeito no Estado‑Membro em que está
         estabelecido (v., nomeadamente, acórdãos de 17 de Dezembro de 1981, Webb, 279/80, Recueil, p. 3305, n.° 17; de 23 de Novembro
         de 1999, Arblade e o., C‑369/96 e C‑376/96, Colect., p. I‑8453, n.os 34 e 35, e de 22 de Janeiro de 2002, Canal Satélite Digital, C‑390/99, Colect., p. I‑607, n.° 38).
      
      95      Consequentemente, alegam que, dado as qualidades e integridade profissionais das filiais maltesas serem já garantidas pelas
         fiscalizações a que são sujeitas em Malta, é contrário ao artigo 49.° CE que as autoridades austríacas as excluam do mercado
         austríaco devido à alegada prossecução do objectivo de protecção dos jogadores contra as fraudes cometidas pelos operadores
         de jogos de azar.
      
      96      A este respeito, recorde‑se desde já que nenhuma obrigação de reconhecimento mútuo das autorizações concedidas pelos diversos
         Estados‑Membros pode existir no estado actual do direito da União (acórdão Stoβ e o., n.° 112). Com efeito, face à inexistência
         de harmonização, ao nível da União, da legislação do sector dos jogos de fortuna ou azar e às significativas divergências
         entre os objectivos prosseguidos e entre os níveis de protecção pretendidos pelas legislações dos vários Estados‑Membros,
         o simples facto de um operador oferecer legalmente serviços noutro Estado‑Membro, onde tem a sede e já está, em princípio,
         sujeito aos requisitos legais e ao controlo por parte das autoridades competentes desse Estado‑Membro, não pode ser considerado
         uma garantia suficiente de protecção dos consumidores nacionais contra os riscos de fraude e de criminalidade, à luz das prováveis
         dificuldades encontradas, nesse contexto, pelas autoridades do Estado‑Membro de estabelecimento, em avaliar as qualidades
         e a integridade profissionais dos operadores (acórdão Liga Portuguesa de Futebol Profissional e Bwin International, já referido,
         n.° 69).
      
      97      Por outro lado, como já se recordou no n.° 46 do presente acórdão, a mera circunstância de um Estado‑Membro ter escolhido
         um sistema de protecção diferente do adoptado por outro Estado‑Membro não pode ter incidência na apreciação da necessidade
         e da proporcionalidade das disposições tomadas nessa matéria, que devem ser apreciadas apenas à luz dos objectivos prosseguidos
         pelas autoridades competentes do Estado‑Membro interessado e do nível de protecção que as mesmas pretendem garantir.
      
      98      Com efeito, os vários Estados‑Membros não dispõem necessariamente dos mesmos meios técnicos para fiscalizar os jogos de fortuna
         ou azar em linha e não fazem forçosamente as mesmas opções nessa matéria. Embora o próprio Governo maltês tenha afirmado que
         a República de Malta foi a primeira a desenvolver um sistema de regulação destinado especificamente a fiscalizar e supervisionar
         os jogos de fortuna ou azar na Internet, o facto de um nível específico de protecção dos consumidores contra fraudes do operador
         poder ser alcançado através da aplicação de técnicas sofisticadas de fiscalização e supervisão não permite concluir que o
         mesmo nível de protecção pode ser alcançado noutros Estados‑Membros que não dispõem desses meios técnicos ou que não fizeram
         as mesmas opções. Um Estado‑Membro pode, por outro lado, ser legitimamente levado a querer supervisionar uma actividade económica
         desenvolvida no seu território, o que lhe será impossível se tiver de confiar em fiscalizações efectuadas pelas autoridades
         de outro Estado‑Membro por meio de sistemas de regulação que ele próprio não domina.
      
      99      Consequentemente, a jurisprudência invocada por J. Dickinger e F. Ömer, assim como pelo Governo maltês, segundo a qual não
         é conforme com o artigo 49.° CE submeter um prestador a restrições para proteger interesses gerais na medida em que estes
         interesses já estejam salvaguardados no Estado‑Membro de estabelecimento, não é, no estado actual do desenvolvimento do direito
         da União, aplicável num domínio como o dos jogos de fortuna ou azar, que não está harmonizado ao nível da União e no qual
         os Estados‑Membros dispõem de uma ampla margem de apreciação no tocante aos objectivos que visam prosseguir e ao nível de
         protecção que pretendem.
      
      100    Consequentemente, há que responder à primeira e terceira questões que o artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de
         que:
      
      a)      Um Estado‑Membro que procure garantir um nível particularmente elevado de protecção dos consumidores no sector dos jogos de
         fortuna ou azar pode ter razões para considerar que só a instituição de um monopólio a favor de um organismo único, sujeito
         a um controlo estreito por parte das autoridades públicas, é susceptível de permitir controlar a criminalidade ligada a esse
         sector e prosseguir o objectivo de prevenção do incentivo a despesas excessivas ligadas aos jogos e de luta contra a dependência
         do jogo de uma forma suficientemente eficaz;
      
      b)      Para ser coerente com os objectivos de luta contra a criminalidade e de reduzir as ocasiões de jogo, uma legislação nacional
         que institua um monopólio em matéria de jogos de fortuna ou azar que permita ao titular do monopólio levar a cabo uma política
         de expansão deve:
      
      –        Assentar na constatação de que as actividades criminosas e fraudulentas ligadas ao jogo e a dependência do jogo constituem
         um problema no território do Estado‑Membro interessado, que uma expansão das actividades autorizadas e regulamentadas pode
         solucionar;
      
      –        Permitir apenas a realização de publicidade moderada e estritamente limitada ao necessário para canalizar dessa forma os consumidores
         para as redes de jogo controladas;
      
      c)      A circunstância de um Estado‑Membro ter escolhido um sistema de protecção diferente do adoptado por outro Estado‑Membro não
         pode ter incidência na apreciação da necessidade e da proporcionalidade das disposições tomadas nessa matéria, que devem ser
         apreciadas apenas à luz dos objectivos prosseguidos pelas autoridades competentes do Estado‑Membro interessado e do nível
         de protecção que as mesmas pretendem garantir.
      
       Quanto às despesas
      101    Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         de reenvio, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Quarta Secção) declara:
      1)      O direito da União, em especial o artigo 49.° CE, opõe‑se a que seja punida criminalmente a violação de um monopólio da exploração
            dos jogos de fortuna ou azar, como o monopólio da exploração dos jogos de casino comercializados através da Internet previsto
            na legislação em causa no processo principal, se essa legislação não estiver em consonância com as disposição do referido
            direito.
      2)      O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que é aplicável aos serviços de jogos de fortuna ou azar comercializados
            através da Internet, no território do Estado‑Membro de acolhimento, por um operador estabelecido noutro Estado‑Membro, ainda
            que esse operador:
      –      Tenha instalado, no Estado‑Membro de acolhimento, uma determinada infra‑estrutura de apoio informático, como um servidor,
            e
      –      Recorra a serviços de apoio informático de um prestador estabelecido no Estado‑Membro de acolhimento, para prestar os seus
            serviços a consumidores igualmente estabelecidos nesse Estado‑Membro.
      3)      O artigo 49.° CE deve ser interpretado no sentido de que:
      a)      Um Estado‑Membro que procure garantir um nível particularmente elevado de protecção dos consumidores no sector dos jogos de
            fortuna ou azar pode ter razões para considerar que só a instituição de um monopólio a favor de um organismo único, sujeito
            a um controlo estreito por parte das autoridades públicas, é susceptível de permitir controlar a criminalidade ligada a esse
            sector e prosseguir o objectivo de prevenção do incentivo a despesas excessivas ligadas aos jogos e de luta contra a dependência
            do jogo de uma forma suficientemente eficaz;
      b)      Para ser coerente com os objectivos de luta contra a criminalidade e de reduzir as ocasiões de jogo, uma legislação nacional
            que institua um monopólio em matéria de jogos de fortuna ou azar que permita ao titular do monopólio levar a cabo uma política
            de expansão deve:
      –        Assentar na constatação de que as actividades criminosas e fraudulentas ligadas ao jogo e a dependência do jogo constituem
            um problema no território do Estado‑Membro interessado, que uma expansão das actividades autorizadas e regulamentadas pode
            solucionar;
      –        Permitir apenas a realização de publicidade moderada e estritamente limitada ao necessário para canalizar dessa forma os consumidores
            para as redes de jogo controladas;
      c)      A circunstância de um Estado‑Membro ter escolhido um sistema de protecção diferente do adoptado por outro Estado‑Membro não
            pode ter incidência na apreciação da necessidade e da proporcionalidade das disposições tomadas nessa matéria, que devem ser
            apreciadas apenas à luz dos objectivos prosseguidos pelas autoridades competentes do Estado‑Membro interessado e do nível
            de protecção que as mesmas pretendem garantir.
      Assinaturas
      * Língua do processo: alemão.