CELEX: 62001CJ0476
Language: pt
Date: 2004-04-29
Title: Acórdão do Tribunal (Quinta Secção) de 29 de Abril de 2004. # Processo-crime contra Felix Kapper. # Pedido de decisão prejudicial: Amtsgericht Frankenthal - Alemanha. # Directiva 91/439/CEE - Reconhecimento mútuo das cartas de condução - Condição de residência - Artigo 8.º, n.º4 - Efeitos da retirada ou anulação de uma carta de condução anterior - Reconhecimento de uma nova carta emitida por outro Estado-Membro. # Processo C-476/01.

Processo C-476/01Processo penalcontraFelix Kapper(pedido de decisão prejudicial apresentado pelo Amtsgericht Frankenthal)
         
            «Directiva 91/439/CEE  –  Reconhecimento mútuo das cartas de condução  –  Condição de residência  –  Artigo 8.°, n.° 4  –  Efeitos da retirada ou anulação de uma carta de condução anterior  –  Reconhecimento de uma nova carta emitida por outro Estado-Membro»
            
               
                  Conclusões do advogado-geral P. Léger apresentadas em 16 de Outubro de 2003
                     
               
               
            
                   
               
               
            
               
                  Acórdão do Tribunal de Justiça (Quinta Secção) de 29 de Abril de 2004
                     
               
               
            
                   
               
               
            
            Sumário do acórdão
         
         
                  1.
                  Livre circulação de pessoas  –  Liberdade de estabelecimento  –  Carta de condução  –  Directiva 91/439  –  Reconhecimento mútuo das cartas de condução  –  Carta de condução emitida sem respeitar a condição de residência  –  Competência exclusiva do Estado de emissão para adoptar as medidas apropriadas[Directiva 91/439 do Conselho, artigos 1.°, n.° 2, 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.°]
         
                  2.
                  Livre circulação de pessoas  –  Liberdade de estabelecimento  –  Carta de condução  –  Directiva 91/439  –  Reconhecimento mútuo das cartas de condução  –  Recusa de um Estado‑Membro reconhecer a validade de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro(Directiva 91/439 do Conselho, artigos 1.°, n.° 2, e 8.°, n.° 4)
         
         
          
         1.
         O princípio do reconhecimento mútuo das cartas de condução estabelecido pela Directiva 91/439 opõe‑se a que o Estado‑Membro
            de acolhimento, por ocasião de um controlo rodoviário efectuado no seu território, recuse o reconhecimento de uma carta de
            condução emitida por outro Estado‑Membro ao condutor de um veículo, pela razão de, segundo as informações de que dispõe o
            primeiro Estado‑Membro, o titular da carta em questão, na data da sua emissão, ter a sua residência habitual no território
            deste Estado‑Membro e não no território do Estado de emissão.
         
         Uma vez que a Directiva 91/439 confere ao Estado‑Membro de emissão uma competência exclusiva para se assegurar de que as cartas
            de condução são emitidas no respeito da condição de residência prevista nos artigos 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° desta directiva,
            é apenas a este Estado‑Membro que incumbe tomar as medidas adequadas a respeito das cartas de condução em relação às quais
            se verifique posteriormente que os seus titulares não preenchiam a referida condição. Quando um Estado‑Membro de acolhimento
            tenha razões sérias para duvidar da regularidade de uma ou de várias cartas de condução emitidas por outro Estado‑Membro,
            incumbe‑lhe comunicá‑las a este último, no quadro da assistência mútua e da troca de informações instituídas pelo artigo 12.°,
            n.° 3, da referida directiva.
         
         
         
               (cf. n.os 47, 48, disp. 1)
               
         
         
          
         2.
         As disposições conjugadas dos artigos 1.°, n.° 2, e 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439, relativa à carta de condução, devem ser
            interpretadas no sentido de que se opõem a que um Estado‑Membro recuse o reconhecimento da validade de uma carta de condução
            emitida por outro Estado‑Membro, pela razão de o seu titular ter sido objecto, no território do primeiro Estado‑Membro, de
            uma medida de retirada ou de anulação de uma carta de condução emitida por este Estado‑Membro, quando o período da proibição
            temporária de obter neste Estado uma nova carta, que acompanhava essa medida, tiver expirado antes da data da emissão da carta
            de condução emitida pelo outro Estado‑Membro.
         
         
               (cf. n.° 78, disp. 2)
      

      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
            
            ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quinta Secção)29 de Abril de 2004(1)
         
         
               «Directiva 91/439/CEE  –  Reconhecimento mútuo das cartas de condução  –  Condição de residência  –  Artigo 8.°, n.° 4  –  Efeitos da retirada ou anulação de uma carta de condução anterior  –  Reconhecimento de uma nova carta emitida por outro Estado-Membro»
               
             No processo C-476/01,
             que tem por objecto um pedido dirigido ao Tribunal de Justiça, nos termos do artigo 234.° CE, pelo Amtsgericht Frankenthal
            (Alemanha), destinado a obter, no processo penal pendente neste órgão jurisdicional contra
            
            
            
            Felix Kapper,
            
            
            
            
            
            
             uma decisão a título prejudicial sobre a interpretação do artigo 1.°, n.° 2, da Directiva 91/439/CEE do Conselho, de 29 de
            Julho de 1991, relativa à carta de condução (JO L 237, p. 1), com a redacção dada pela Directiva 97/26/CE do Conselho, de
            2 de Junho de 1997 (JO L 150, p. 41),
            
            O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quinta Secção),,
            
             composto por: C. W. A. Timmermans, exercendo funções de presidente da Quinta Secção, A. Rosas (relator) e S. von Bahr, juízes,
            
             advogado-geral: P. Léger,secretário: H. von Holstein, secretário adjunto,
            
            
            vistas as observações escritas apresentadas:
               
               –
                em representação de F. Kapper, por W. Säftel, Rechtsanwalt,
               
               –
                em representação do Governo alemão, por W.-D. Plessing e M. Lumma, na qualidade de agentes,
               
               –
                em representação do Governo neerlandês, por H. G. Sevenster, na qualidade de agente,
               
               –
                em representação da Comissão das Comunidades Europeias, por M. Wolfcarius, G. Braun e H. M. H. Speyart, na qualidade de agentes,
               
               
            
            
            
            
            ouvidas as alegações de F. Kapper, representado por W. Säftel, da República Italiana, representada por A. Cingolo, avvocato
               dello Stato, e da Comissão, representada por G. Braun, na audiência de 8 de Maio de 2003,
            
            
            ouvidas as conclusões do advogado-geral apresentadas na audiência de 16 de Outubro de 2003,
         profere o presente
         
         
         Acórdão
         1
            
          Por decisão de 11 de Outubro de 2001, rectificada por ofício de 19 de Dezembro seguinte, entrados no Tribunal de Justiça,
         respectivamente, em 7 e 24 de Dezembro de 2001, o Amtsgericht Frankenthal submeteu, nos termos do artigo 234.° CE, uma questão
         prejudicial relativa à interpretação do artigo 1.°, n.° 2, da Directiva 91/439/CEE do Conselho, de 29 de Julho de 1991, relativa
         à carta de condução (JO L 237, p. 1), com a redacção dada pela Directiva 97/26/CE do Conselho, de 2 de Junho de 1997 (JO L 150,
         p. 41, a seguir «Directiva 91/439» ou «directiva»).
         
         
         
         2
            
          Esta questão foi suscitada no âmbito de um processo penal contra F. Kapper, condenado a uma multa por ter conduzido, em 20
         de Novembro e 11 de Dezembro de 1999, um veículo automóvel sem carta de condução válida, apesar de possuir carta de condução
         emitida pelas autoridades neerlandesas em 11 de Agosto de 1999.
         
         
            
               Enquadramento jurídico
            A regulamentação comunitária
         
         3
            
          O artigo 1.° da Directiva 91/439 dispõe:
         «1.     Os Estados‑Membros estabelecerão a carta de condução nacional segundo o modelo comunitário descrito no anexo I ou I A, nos
         termos da presente directiva. [...]
          2.       As cartas de condução emitidas pelos Estados‑Membros são mutuamente reconhecidas.
          3.       Sempre que um titular de carta de condução válida transferir a sua residência habitual para um Estado‑Membro diferente do
         que emitiu a carta, o Estado‑Membro de acolhimento pode aplicar ao titular da carta as suas disposições nacionais em matéria
         de período de validade da carta, de controlo médico e de legislação fiscal e pode inscrever na carta as referências indispensáveis
         à sua gestão.»
         
         
         
         4
            
          Nos termos do artigo 7.°, n.° 1, alínea b), da referida directiva, a emissão da carta de condução fica subordinada à «existência
         de residência habitual ou da prova da qualidade de estudante durante um período de pelo menos seis meses no território do
         Estado‑Membro emissor da carta de condução».
         
         
         
         5
            
          Nos termos do artigo 7.°, n.° 5, da mesma directiva, «[u]ma pessoa apenas pode ser titular de uma única carta de condução
         emitida por um Estado‑Membro».
         
         
         
         6
            
          O artigo 8.°, n.os 1 a 4, da directiva prevê:
         «1.     No caso de o titular de uma carta de condução válida emitida por um Estado‑Membro ter adquirido residência habitual noutro
         Estado‑Membro, pode solicitar a troca da sua carta de condução por outra carta equivalente; compete ao Estado‑Membro que proceder
         à troca verificar, se necessário, se a carta apresentada permanece efectivamente válida.
          2.       Sem prejuízo do cumprimento do princípio da territorialidade das leis penais e das disposições de polícia, o Estado‑Membro
         de residência habitual pode aplicar ao titular de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro as suas disposições
         nacionais em matéria de restrição, suspensão, retirada ou anulação do direito de conduzir e, se necessário, proceder, para
         o efeito, à troca dessa carta.
          3.       O Estado‑Membro que proceder à troca enviará a antiga carta às autoridades do Estado‑Membro que a tiver emitido, especificando
         os motivos desta formalidade.
          4.       Um Estado‑Membro pode recusar, a uma pessoa que seja objecto no seu território de uma das medidas referidas no n.° 2, reconhecer
         a validade de qualquer carta de condução emitida por outro Estado‑Membro.
          Um Estado‑Membro pode igualmente recusar emitir uma carta de condução a um candidato que seja objecto de uma dessas medidas
         noutro Estado‑Membro.»
         
         
         
         7
            
          O artigo 9.° da Directiva 91/439 tem a seguinte redacção:
         «Para efeitos da presente directiva, entende‑se por ‘residência habitual’ o local onde uma pessoa vive habitualmente, isto
         é, durante pelo menos 185 dias por ano civil, em consequência de vínculos pessoais e profissionais ou, no caso de uma pessoa
         sem vínculos profissionais, em consequência de vínculos pessoais, indiciadores de relações estreitas entre ela própria e o
         local onde vive.
          No entanto, no caso de uma pessoa cujos vínculos profissionais se situem num local diferente daquele em que tem os seus vínculos
         pessoais e que, por esse motivo, é levada a residir alternadamente em diferentes locais situados em dois ou mais Estados‑Membros,
         considera‑se que a residência habitual se situa no local onde tem os seus vínculos pessoais, com a condição de a referida
         pessoa aí regressar regularmente. Esta última condição não é exigida quando a pessoa em questão efectua uma estadia num Estado‑Membro
         para cumprimento de uma missão de duração determinada. A frequência de uma universidade ou escola não implica a transferência
         da residência habitual.»
         
         
         
         8
            
          O artigo 10.°, segundo parágrafo, da directiva tem o seguinte teor:
         «Obtido o acordo da Comissão, os Estados‑Membros poderão introduzir nas suas legislações nacionais as adaptações necessárias
         para a aplicação do disposto nos n.os 4, 5 e 6 do artigo 8.°»
         
         
         
         9
            
          Nos termos do artigo 12.°, n.° 1, da Directiva 91/439, os Estados‑Membros deviam adoptar, após consulta à Comissão, até 1
         de Julho de 1994, as disposições legislativas, regulamentares ou administrativas necessárias para darem cumprimento a essa
         directiva a partir de 1 de Julho de 1996.
         
         
         
         10
            
          O artigo 12.°, n.° 3, da Directiva 91/439 prevê que os Estados‑Membros se prestarão mutuamente assistência na aplicação desta
         directiva e trocarão, na medida do necessário, informações sobre as cartas de condução que tenham registado.
         
         A regulamentação nacional
         
         11
            
          Na República Federal da Alemanha, a questão do reconhecimento mútuo das cartas de condução, previsto pela Directiva 91/439,
         foi regulada, de 1 de Julho de 1996 a 31 de Dezembro de 1998, pelo Verordnung zur Umsetzung der Richtlinie 91/439/EWG des
         Rates vom 29 Juli 1991 über den Führerschein und zur Änderung straßenverkehrsrechtlicher Vorschriften (regulamento de transposição
         da Directiva 91/439), de 19 de Junho de 1996 (BGBl. I, p. 877, a seguir «EU‑ Führerschein‑VO 1996»).
         
         
         
         12
            
          Nos termos do § 1, n.° 4, primeiro parágrafo, do EU‑ Führerschein‑VO 1996, o direito de condução de um veículo automóvel na
         Alemanha não era reconhecido aos:
         «[…] titulares de uma carta de condução estrangeira:
          quando no momento da emissão da carta tinham a sua residência permanente no território a que se aplicava este regulamento,
         a menos que tenham permanecido no estrangeiro pelo menos seis meses unicamente para frequentar uma universidade ou uma escola;
          pelo período em que a sua carta de condução lhes tivesse sido provisoriamente retirada no território a que se aplicava este
         regulamento ou em que estivessem inibidos de obter carta de condução por decisão judicial com força de caso julgado; ou
          quando uma autoridade administrativa na Alemanha tivesse tomado uma decisão imediatamente executória ou definitiva de retirada
         da carta de condução ou se a emissão de uma carta lhes tivesse sido recusada de forma definitiva; o mesmo se aplicava caso
         não tivesse sido ordenada a retirada pela simples razão de terem entretanto renunciado à carta de condução [...]»
         
         
         
         13
            
          A partir de 1 de Janeiro de 1999 é aplicável o Verordnung über die Zulassung von Personen zum Straßenverkehr (regulamento
         relativo ao acesso das pessoas à circulação rodoviária), de 18 de Agosto de 1998, também denominado Fahrerlaubnisverordnung
         (regulamento relativo à autorização de conduzir, BGBl. I, p. 2214, a seguir «FeV 1999»).
         
         
         
         14
            
          O § 7 do FeV 1999, referente à condição da residência habitual para a emissão de carta de condução, contém disposições nacionais
         que transpõem os artigos 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° da Directiva 91/439.
         
         
         
         15
            
          O § 28 do FeV 1999, n.os 1 e 4, dispõe:
         «(1)   Os titulares de uma carta de condução válida da UE ou do EEE que tenham residência habitual, na acepção do artigo 7.°, n.os 1 ou 2, na República Federal da Alemanha estão autorizados – sem prejuízo da restrição prevista nos n.os 2 a 4 – a conduzir veículos neste país nos limites dos direitos que lhes tenham sido conferidos. As condições aplicáveis
         às cartas de condução estrangeiras também são respeitadas na Alemanha. As disposições do presente regulamento aplicam‑se a
         estas cartas de condução salvo disposição em contrário.
         […]
         (4)     A autorização a que se refere o n.° 1 não se aplica aos titulares de uma carta de condução da UE ou do EEE,
          1.       cuja carta tenha sido emitida a título provisório, seja para a aprendizagem ou por outra razão;
          2.       que, no momento da sua emissão, tinham a sua residência habitual na Alemanha, a menos que tenham obtido a carta como estudantes
         ou alunos na acepção do artigo 7.°, n.° 2, durante uma estadia de pelo menos seis meses;
          3.       cuja carta de condução tenha sido objecto, na Alemanha, da medida de retirada provisória ou definitiva tomada por um tribunal,
         ou de uma medida de retirada imediatamente executória ou definitiva tomada por uma autoridade administrativa, a quem a carta
         de condução tenha sido recusada por decisão executória ou a quem a carta de condução não tenha sido retirada unicamente por
         ter entretanto renunciado a esta, ou
          4.       que estejam sujeitos, na Alemanha, no Estado de emissão da carta de condução ou no Estado em que tenham residência habitual,
         a uma inibição de conduzir ou cuja carta de condução tenha sido confiscada, retirada ou apreendida em conformidade com o § 94
         do código de processo penal.»
         
         A tramitação processual na causa principal e a questão prejudicial
         
         16
            
          F. Kapper interpôs recurso da condenação penal proferida em 17 de Março de 2000 pelo Amtsgericht. Este órgão jurisdicional
         condenara‑o a uma multa por ter conduzido um veículo automóvel na Alemanha, em 20 de Novembro e em 11 de Dezembro de 1999,
         sem possuir a necessária carta de condução. No momento dos factos de que foi acusado, F. Kapper possuía uma carta de condução
         que lhe tinha sido emitida pelas autoridades neerlandesas em 11 de Agosto de 1999.
         
         
         
         17
            
          Por decisão penal de 26 de Fevereiro de 1998, o mesmo órgão jurisdicional tinha decidido a retirada da carta de condução alemã
         a F. Kapper e tinha dado instruções às autoridades administrativas para não lhe emitirem nova carta antes de expirado um prazo
         de nove meses, isto é, antes de 25 de Novembro de 1998.
         
         
         
         18
            
          Segundo a decisão de reenvio, F. Kapper não obteve a emissão de uma nova carta de condução na Alemanha após 25 de Novembro
         de 1998. Não há qualquer elemento dos autos que indique se, após esta data, apresentou ou não um pedido neste sentido às autoridades
         alemãs.
         
         
         
         19
            
          No âmbito do recurso interposto por F. Kapper, o Amtsgericht interroga‑se sobre a compatibilidade da regulamentação alemã
         com a Directiva 91/439, esclarecendo que, caso o Tribunal de Justiça não se julgue competente para se pronunciar sobre esta
         questão, é competente para determinar se o direito comunitário se opõe à aplicação das disposições penais que sancionam a
         violação desta regulamentação. Segundo o órgão jurisdicional de reenvio, as disposições nacionais impõem que se considere
         desprovida de validade na Alemanha a carta de condução emitida nos Países Baixos. A este respeito, remete para o § 1, n.° 4,
         primeiro parágrafo, do EU‑ Führerschein‑VO 1996, que tinha conteúdo equivalente ao do § 28, n.° 4, do FeV 1999, aplicável
         a partir de 1 de Janeiro de 1999.
         
         
         
         20
            
          Ainda segundo o órgão jurisdicional de reenvio, a aplicação da regulamentação nacional pressupõe a verificação implícita da
         residência do titular de uma carta de condução no momento em que esta foi emitida por outro Estado‑Membro. O que terá por
         consequência sujeitar o acto soberano deste Estado a uma fiscalização na Alemanha e constituirá, portanto, uma restrição ao
         princípio do reconhecimento mútuo das cartas de condução emitidas pelos Estados‑Membros, consagrado no artigo 1.°, n.° 2,
         da Directiva 91/439.
         
         
         
         21
            
          O Amtsgericht entende que o artigo 8.°, n.os 1 a 4, da directiva não permite a resolução da questão suscitada no processo principal. Esta disposição, que autoriza expressamente
         um Estado‑Membro a fiscalizar a validade de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro, aplica‑se apenas, em seu
         entender, no âmbito da troca de uma carta de condução válida, mas não permite que um Estado‑Membro considere nulo um acto
         de soberania de outro Estado‑Membro.
         
         
         
         22
            
          Neste contexto, o Amtsgericht Frankenthal decidiu suspender a instância e submeter ao Tribunal de Justiça a seguinte questão
         prejudicial:
         «O artigo 1.°, n.° 2, da [Directiva 91/439] proíbe que um Estado‑Membro recuse reconhecer uma carta de condução quando, segundo
         esse Estado‑Membro apurou, a referida carta foi concedida por outro Estado‑Membro apesar do seu titular não ter residência
         habitual neste Estado, e, portanto, a referida disposição tem eventualmente a este respeito um efeito concreto?»
         
         Quanto à admissibilidade da questão prejudicial
         
         23
            
          O Governo neerlandês suscita dúvidas quanto à admissibilidade da questão prejudicial. Entende que a decisão de reenvio não
         fornece elementos suficientes nem sobre os factos, nem sobre as disposições relevantes do direito nacional nem sobre a razão
         pela qual a resposta à questão tem interesse para a solução do processo principal. Segundo este governo, é provável que, no
         momento dos factos de que é acusado, F. Kapper estivesse ainda sujeito à medida de privação do direito de condução. Nessa
         hipótese, não seria relevante saber se possuía ou não carta de condução. Por conseguinte, também não tem interesse saber,
         por um lado, se as autoridades alemãs tinham o direito de recusar o reconhecimento da carta de condução neerlandesa que foi
         emitida a F. Kapper e, por outro, se a carta lhe foi emitida de forma ilegal devido a não ter, nesse momento, residência habitual
         nos Países Baixos.
         
         
         
         24
            
          A este respeito, há que recordar que, segundo jurisprudência constante, compete apenas aos órgãos jurisdicionais nacionais
         a quem o litígio é submetido e que devem assumir a responsabilidade da decisão judicial a proferir, apreciar, face às particularidades
         de cada caso, tanto a necessidade de uma decisão prejudicial para estarem em condição de proferir a sua decisão como a pertinência
         das questões que colocam ao Tribunal de Justiça. Consequentemente, uma vez que as questões submetidas se referem à interpretação
         do direito comunitário, o Tribunal de Justiça é, em princípio, obrigado a decidir (v., designadamente, acórdãos de 13 de Março
         de 2001, PreussenElektra, C‑379/98, Colect., p. I‑2099, n.° 38; de 22 de Janeiro de 2002, Canal Satélite Digital, C‑390/99,
         Colect., p. I‑607, n.° 18; de 27 de Fevereiro de 2003, Adolf Truley, C‑373/00, Colect., p. I‑1931, n.° 21, e de 22 de Maio
         de 2003, Korhonen e o., C‑18/01, Colect., p. I‑5321, n.° 19).
         
         
         
         25
            
          Além disso, decorre da mesma jurisprudência que a recusa de decisão quanto a uma questão prejudicial submetida por um órgão
         jurisdicional nacional só é possível quando seja manifesto que a interpretação do direito comunitário solicitada não tem qualquer
         relação com a realidade ou com o objecto do litígio no processo principal, quando o problema é hipotético ou ainda quando
         o Tribunal não disponha dos elementos de facto e de direito necessários para responder utilmente às questões que lhe são colocadas
         (v. acórdãos já referidos PreussenElektra, n.° 39; Canal Satélite Digital, n.° 19; Adolf Truley, n.° 22; e Korhonen e o.,
         n.° 20).
         
         
         
         26
            
          Não é o que ocorre no caso em apreço. É certo que a decisão de reenvio foi redigida em termos extremamente sucintos, que não
         permitem, designadamente, determinar se, no momento em que F. Kapper foi interpelado pelas autoridades policiais em 20 de
         Novembro e 11 de Dezembro de 1999, se mantinha ou não sujeito a uma medida de privação ou de restrição do direito de condução
         na Alemanha. Todavia, em resposta ao pedido de esclarecimentos que o Tribunal de Justiça lhe enviou, nos termos do artigo
         104.°, n.° 5, do Regulamento de Processo, o órgão jurisdicional de reenvio esclareceu que o período da proibição de obtenção
         de uma nova carta de condução, que acompanhava a medida da retirada da carta de condução aplicada a F. Kapper na condenação
         penal de 26 de Fevereiro de 1998, tinha expirado em 25 de Novembro de 1998. O órgão jurisdicional de reenvio acrescentou que,
         após esta data, F. Kapper teria podido apresentar às autoridades alemãs um novo pedido de emissão de carta de condução.
         
         
         
         27
            
          Resulta ainda da resposta escrita do Governo alemão às questões que lhe foram colocadas pelo Tribunal que, quando uma medida
         de retirada («Entziehung») da carta de condução for aplicada a um nacional comunitário com residência habitual na Alemanha,
         as disposições nacionais referentes às consequências da referida retirada também se aplicam quando esta pessoa é titular ou
         obtém posteriormente uma carta emitida pelas autoridades de outro Estado‑Membro. Donde resulta que esta carta de condução
         estrangeira não é reconhecida pelas autoridades alemãs.
         
         
         
         28
            
          Tendo em conta as referidas informações complementares, o Tribunal de Justiça dispõe dos elementos de facto e de direito necessários
         para responder utilmente à questão que lhe foi colocada.
         
         
         
         29
            
          Há ainda que referir que o carácter sucinto da decisão de reenvio não impediu que os governos dos Estados‑Membros que apresentaram
         observações ao Tribunal de Justiça, bem como a Comissão, tomassem posição sobre a questão prejudicial.
         
         
         
         30
            
          Por conseguinte, há que julgar admissível a questão prejudicial submetida pelo Amtsgericht.
         
         Quanto à questão prejudicial
         
         31
            
          Tendo em conta os factos na origem do processo principal, bem como o teor das observações que foram apresentadas ao Tribunal
         de Justiça, o exame da questão submetida não pode limitar‑se apenas aos aspectos explicitamente invocados pelo órgão jurisdicional
         de reenvio, mas deve igualmente tomar em consideração várias outras disposições da Directiva 91/439 que podem ter incidência
         sobre a resposta à referida questão, em especial o artigo 8.°, n.° 4, da directiva. Para dar uma resposta útil e tão completa
         quanto possível à questão prejudicial, há, portanto, que alargar o seu alcance.
         
         
         
         32
            
          Por conseguinte, há que reformular a referida questão e dividi‑la em duas partes, que serão objecto de exame separado. O órgão
         jurisdicional de reenvio pretende saber essencialmente, em primeiro lugar, se as disposições conjugadas dos artigos 1.°, n.° 2,
         7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° da Directiva 91/439 devem ser interpretadas no sentido de que se opõem a que um Estado‑Membro
         recuse o reconhecimento de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro pela razão de que, segundo as informações
         de que dispõe o primeiro Estado‑Membro, o titular da carta de condução, na data da sua emissão, tinha a sua residência habitual
         no território deste Estado‑Membro e não no território do Estado‑Membro de emissão. O órgão jurisdicional de reenvio pretende
         saber, em segundo lugar, se as disposições conjugadas dos artigos 1.°, n.° 2, e 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439 devem ser
         interpretadas no sentido de que se opõem a que um Estado‑Membro recuse o reconhecimento da validade de uma carta de condução
         emitida por outro Estado‑Membro pela razão de o seu titular ter sido objecto, no território do primeiro Estado‑Membro, de
         uma medida de retirada ou de anulação de uma carta de condução emitida por este Estado‑Membro, quando o período da proibição
         temporária de obtenção nesse Estado de uma nova carta de condução, que acompanha essa medida, tiver terminado antes da data
         da emissão da carta de condução por outro Estado‑Membro.
         
         Quanto à primeira parte da questão prejudicial Observações apresentadas ao Tribunal de Justiça
         
         
         33
            
          Segundo o Governo alemão, a Directiva 91/439, tendo em conta especialmente o seu artigo 7.°, n.° 1, alínea b), deve ser interpretada
         no sentido de que o Estado‑Membro de residência pode recusar o reconhecimento de uma carta emitida por outro Estado‑Membro
         quando um titular não tenha a sua residência habitual no Estado‑Membro que emitiu a carta. Este governo constata que a decisão
         de reenvio não fornece elementos suficientes para determinar se F. Kapper tinha efectivamente residência habitual nos Países
         Baixos na acepção do artigo 9.° da directiva. Em qualquer caso, entende que, na hipótese de esta condição não ter sido preenchida,
         a carta neerlandesa controvertida terá sido nula desde a sua origem, ou, pelo menos, ilícita. Nestas circunstâncias, as autoridades
         neerlandesas não deveriam ter emitido uma carta de condução, a qual também não poderá, devido a este erro, ser objecto de
         reconhecimento. O Governo alemão recorda que o artigo 7.°, n.° 1, alínea b), da directiva sujeita expressamente a emissão
         da carta de condução à existência da residência habitual do titular durante um período de pelo menos seis meses no território
         do Estado‑Membro que emite esta carta. 
         
         
         
         34
            
          O Governo neerlandês sustenta, pelo contrário, que decorre do princípio do reconhecimento mútuo consagrado no artigo 1.°,
         n.° 2, da Directiva 91/439 que um Estado‑Membro deve reconhecer uma carta de condução emitida validamente por outro Estado‑Membro
         e não tem o direito de examinar as condições de emissão. Observa que, no processo principal, as autoridades neerlandesas concluíram
         que F. Kapper tinha a sua residência habitual nos Países Baixos e emitiram‑lhe a carta. As autoridades alemãs não têm o direito
         de reexaminar a legalidade desta decisão e estão, por conseguinte, obrigadas a reconhecer pura e simplesmente a carta emitida.
         
         
         
         35
            
          Na medida em que a regulamentação alemã impõe condições ao reconhecimento de uma carta válida emitida por outro Estado‑Membro,
         há que examinar se o artigo 1.°, n.° 2, da Directiva 91/439 produz efeito directo. A este respeito, o Governo neerlandês recorda
         que, sempre que as disposições de uma directiva se revelem, do ponto de vista do seu conteúdo, incondicionais e suficientemente
         precisas, os particulares podem invocá‑las contra o Estado, seja quando este deixe de transpor no prazo fixado a directiva
         para o direito nacional, seja quando proceda a uma transposição incorrecta da mesma (acórdão de 8 de Outubro de 1987, Kolpinghuis
         Nijmegen, 80/86, Colect., p. 3969, n.° 7).
         
         
         
         36
            
          Sustenta que o artigo 1.°, n.° 2, da directiva impõe aos Estados‑Membros a obrigação clara e precisa de reconhecerem mutuamente
         as cartas de condução que respeitem o modelo europeu e de não obrigarem o titular de uma carta emitida por outro Estado‑Membro
         a trocá‑la, seja qual for a sua nacionalidade. Esta disposição prevê o reconhecimento mútuo, sem qualquer formalidade, das
         cartas de condução emitidas pelos Estados‑Membros (acórdão de 29 de Fevereiro de 1996, Skanavi e Chryssanthakopoulos, C‑193/94,
         Colect., p. I‑929, n.° 26). A directiva não atribui aos Estados‑Membros destinatários qualquer margem de apreciação quanto
         às medidas a adoptar para se conformarem com esta obrigação. Por conseguinte, o artigo 1.°, n.° 2, da directiva tem, segundo
         o Governo neerlandês, efeito directo (acórdão do Tribunal de Justiça de 29 de Outubro de 1998, Awoyemi, C‑230/97, Colect.,
         p. I‑6781, n.° 43).
         
         
         
         37
            
         À semelhança do Governo neerlandês, a Comissão recorda que, por força do artigo 1.°, n.° 2, da Directiva 91/439, o reconhecimento
         mútuo das cartas de condução emitidas pelos Estados‑Membros não está, em princípio, dependente de quaisquer outras condições
         e faz‑se «sem qualquer formalidade» (acórdão Skanavi e Chryssanthakopoulos, já referido, n.° 26). Assenta na confiança mútua
         no respeito de disposições já amplamente harmonizadas, pois que a directiva obriga não apenas ao reconhecimento mútuo das
         cartas de condução, mas também ao respeito das diversas condições e normas mínimas impostas à emissão destas cartas.
         
         
         
         38
            
          Sendo certo que a Directiva 91/439 prevê, a título excepcional, disposições que permitem recusar o reconhecimento da validade
         de uma carta de condução, o Estado‑Membro de acolhimento não pode automaticamente deduzir o direito de recusar o reconhecimento
         de uma carta do facto de entender que esta carta talvez tenha sido emitida noutro Estado‑Membro em violação de determinadas
         condições previstas pela directiva. O que será nomeadamente o caso se as autoridades de um Estado‑Membro tiverem verificado
         que uma carta de condução foi emitida, contrariamente ao disposto no artigo 7.°, n.° 1, alínea b), da directiva, a uma pessoa
         que não preenchia, no momento da emissão, a condição de residência mínima de seis meses no Estado‑Membro que lhe emitiu esta
         carta.
         
         
         
         39
            
          Segundo a Comissão, em caso de irregularidades manifestas, as autoridades do Estado‑Membro de acolhimento podem, em conformidade
         com o disposto no artigo 12.°, n.° 3, da directiva, solicitar explicações ao Estado‑Membro que emitiu a carta. Se um Estado
         verificar abusos manifestos e sistemáticos na emissão das cartas de condução pelas autoridades de outro Estado‑Membro, poderá
         instaurar, contra este Estado, o procedimento previsto no artigo 227.° CE. 
         
         
         
         40
            
          No que toca ao efeito directo do artigo 1.°, n.° 2, da directiva, a Comissão salienta, em primeiro lugar, que o Tribunal de
         Justiça já confirmou, no n.° 43 do seu acórdão Awoyemi, já referido, que esta disposição é incondicional e suficientemente
         precisa.
         
         
         
         41
            
          A Comissão observa que, na medida em que o § 28 do FeV 1999 se aplica a pessoas que obtiveram a carta de condução num Estado‑Membro
         da União Europeia ou do Espaço Económico Europeu que não a Alemanha, quando tinham residência neste país, essa disposição
         contradiz o princípio do reconhecimento mútuo. Contudo, não resulta desta disposição que as autoridades alemãs procedem a
         um controlo sistemático do eventual desrespeito, pelas autoridades de outros Estados‑Membros, das condições de emissão das
         cartas de condução. Segundo a Comissão, só quando as autoridades alemãs verificam, com base nas suas próprias informações,
         que o titular de uma carta de condução estrangeira não podia preencher a condição de residência prevista pela directiva, pois
         residia na Alemanha, é que estas autoridades recusam o reconhecimento da carta em questão.
         
         
         
         42
            
          A condição de residência serve, designadamente, de freio ao «turismo das cartas de condução». Desempenha um papel importante
         no sistema em vigor, pois que, apesar dos progressos registados na harmonização das regulamentações nacionais referentes às
         cartas de condução, subsistem numerosos domínios (período de validade, exames médicos periódicos, etc.) em que são diferentes
         as regras de um Estado‑Membro para outro. A condição de residência é uma consequência da harmonização incompleta e tem tendência
         a perder importância à medida que esta progride, permitindo a execução integral do princípio do reconhecimento mútuo.
         
         
         
         43
            
          Segundo a Comissão, enquanto se mantiver em vigor a condição de residência, todos os Estados‑Membros estão obrigados a respeitá‑la.
         Todavia, incumbe ao Estado‑Membro que emite ou renova uma carta de condução verificar o respeito da referida condição e os
         demais Estados‑Membros estão obrigados a respeitar o princípio do reconhecimento mútuo.
         
         
         
         44
            
          A Comissão entende que a regulamentação alemã se situa no limite destes dois requisitos. A restrição ao princípio do reconhecimento
         mútuo que esta regulamentação contém revela‑se justificada. Além disso, o Estado‑Membro de acolhimento não pode ser obrigado
         a deixar de ter em conta os factos ocorridos no seu próprio território e que se prendem directamente com a questão de saber
         onde tinha o interessado a sua residência no momento em que obteve a sua carta de condução. A Comissão invoca, a este respeito,
         o acórdão de 27 de Setembro de 1989, Van de Bijl (130/88, Colect., p. 3039, n.os 24 a 26).
         
          Resposta do Tribunal de Justiça
         
         
         45
            
          Segundo jurisprudência constante, o artigo 1.°, n.° 2, da Directiva 91/439 prevê o reconhecimento mútuo, sem qualquer formalidade,
         das cartas de condução emitidas pelos Estados‑Membros (acórdãos já referidos Skanavi e Chryssanthakopoulos, n.° 26, bem como
         Awoyemi, n.° 41). Esta disposição impõe aos Estados‑Membros uma obrigação clara e precisa, que não deixa qualquer margem de
         apreciação quanto às medidas a adoptar para com esta se conformarem (acórdãos Awoyemi, já referido, n.° 42, e de 10 de Julho
         de 2003, Comissão/Países Baixos, C‑246/00, Colect., p. I‑7485, n.° 61).
         
         
         
         46
            
          Assim, o Tribunal de Justiça já afastou explicitamente, no seu acórdão Comissão/Países Baixos, já referido, a possibilidade
         de o Estado‑Membro de acolhimento instituir procedimentos de controlo sistemático destinados a assegurar‑se de que a condição
         de residência do Estado‑Membro de emissão, prevista nos artigos 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° da Directiva 91/439, estava efectivamente
         preenchida pelos titulares de cartas de condução emitidas por outros Estados‑Membros. Com efeito, no n.° 75 deste acórdão,
         declarou, por um lado, que incumbe às autoridades que emitem uma carta de condução verificar que o requerente tem a sua residência
         habitual no Estado de emissão e, por outro lado, que a posse de uma carta de condução emitida por um Estado‑Membro constitui
         a prova de que o titular da referida carta satisfez as condições de emissão previstas pela Directiva 91/439. Por conseguinte,
         o Estado‑Membro de acolhimento não pode, sem violar o princípio do reconhecimento mútuo das cartas de condução, exigir que
         o referido titular faça uma vez mais a prova de que satisfez efectivamente as condições previstas nos artigos 7.°, n.° 1,
         alínea b), e 9.° da Directiva 91/439.
         
         
         
         47
            
          Donde se conclui que o princípio do reconhecimento mútuo das cartas de condução se opõe também a que o Estado‑Membro de acolhimento,
         por ocasião de um controlo rodoviário efectuado no seu território, recuse o reconhecimento de uma carta de condução emitida
         por outro Estado‑Membro ao condutor de um veículo, pela razão de, segundo as informações de que dispõe o primeiro Estado‑Membro,
         o titular da carta em questão, na data da sua emissão, ter a sua residência habitual no território deste Estado‑Membro e não
         no território do Estado de emissão (despacho de 11 de Dezembro de 2003, Silva Carvalho, C‑408/02, não publicado na Colectânea,
         n.° 22). Com efeito, como entendeu o advogado‑geral no n.° 44 das suas conclusões, as considerações contidas no n.° 75 do
         acórdão Comissão/Países Baixos, já referido, referentes à prova sistemática da condição de residência pelo próprio titular
         da carta de condução, no quadro de um procedimento de registo num Estado‑Membro diferente do da emissão, valem também para
         as verificações ou investigações ocasionais a que proceda esse Estado‑Membro para aceitar ou recusar o reconhecimento da referida
         carta.
         
         
         
         48
            
          Uma vez que a Directiva 91/439 confere ao Estado‑Membro de emissão uma competência exclusiva para se assegurar de que as cartas
         de condução são emitidas no respeito da condição de residência prevista nos artigos 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° desta directiva,
         é apenas a este Estado‑Membro que incumbe tomar as medidas adequadas a respeito das cartas de condução em relação às quais
         se verifique posteriormente que os seus titulares não preenchiam a referida condição. Quando um Estado‑Membro de acolhimento
         tenha razões sérias para duvidar da regularidade de uma ou de várias cartas de condução emitidas por outro Estado‑Membro,
         incumbe‑lhe comunicá‑las a este último, no quadro da assistência mútua e da troca de informações instituídas pelo artigo 12.°,
         n.° 3, da referida directiva. Caso o Estado‑Membro de emissão não tome as medidas adequadas, o Estado‑Membro de acolhimento
         poderá eventualmente instaurar contra este Estado o procedimento previsto no artigo 227.° CE, destinado a obter a declaração
         pelo Tribunal de Justiça do incumprimento das obrigações decorrentes da Directiva 91/439.
         
         
         
         49
            
          Vistas as considerações precedentes, há que responder à primeira parte da questão prejudicial que as disposições conjugadas
         dos artigos 1.°, n.° 2, 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° da Directiva 91/439 devem ser interpretadas no sentido de que se opõem
         a que um Estado‑Membro recuse o reconhecimento de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro pela razão de, segundo
         as informações de que dispõe o primeiro Estado‑Membro, o titular da carta, na data da sua emissão, ter a sua residência habitual
         no território deste Estado‑Membro e não no território do Estado‑Membro de emissão.
         
         Quanto à segunda parte da questão prejudicial Observações apresentadas ao Tribunal de Justiça
         
         
         50
            
          F. Kapper sustenta que as disposições que constam do § 28 do FeV 1999 não são conformes com as da Directiva 91/439. Através
         destas disposições, o legislador alemão terá pretendido, quando estejam preenchidas certas condições, considerar nulas as
         cartas de condução legalmente obtidas noutro Estado‑Membro e privá‑las de efeitos no seu território. Estas disposições serão
         contrárias à ideia fundamental do reconhecimento mútuo dos actos adoptados pelas autoridades administrativas dos diferentes
         Estados‑Membros. Terão mesmo carácter retrógrado relativamente ao direito em vigor antes da Directiva 91/439, nos termos do
         qual as cartas emitidas por outros Estados‑Membros mantinham uma validade de pelo menos doze meses em caso de mudança de residência.
         
         
         
         51
            
          F. Kapper reconhece que a Directiva 91/439 prevê certas excepções ao princípio do reconhecimento mútuo consagrado no seu artigo
         1.°, n.° 2. Cita a este respeito o n.° 3 do mesmo artigo, nos termos do qual, em caso de mudança de residência, o Estado‑Membro
         de acolhimento pode adoptar regras nacionais com vista à inscrição na carta de condução de certas menções indispensáveis à
         sua gestão. Todavia, esta disposição não permite a este Estado recusar pura e simplesmente o reconhecimento da carta emitida
         por outro Estado‑Membro. Tratando‑se de excepções ao princípio do reconhecimento mútuo, estão em princípio sujeitas a interpretação
         restritiva.
         
         
         
         52
            
          O artigo 8.° da directiva também não autoriza o legislador alemão a adoptar as disposições criticadas.
         
         
         
         53
            
          Versa exclusivamente sobre certas questões que se colocam no caso de uma eventual troca da carta. Em apoio desta interpretação,
         F. Kapper observa que os n.os 1, 2, 3 e 6 do artigo 8.° da Directiva 91/439 mencionam expressamente no seu texto diversos procedimentos a seguir na hipótese
         da troca de carta. Não seria lógico que os dois outros números do mesmo artigo, ou seja, os n.os 4 e 5, contivessem regras absolutamente gerais e que nada tivessem a ver com a problemática da troca.
         
         
         
         54
            
          F. Kapper admite que as autoridades alemãs poderão não reconhecer a validade de uma carta estrangeira no território nacional
         enquanto uma medida como a suspensão ou a anulação do direito de condução durante determinado período produzir os seus efeitos
         nesse país. Todavia, não dispõem certamente dessa possibilidade relativamente ao período posterior.
         
         
         
         55
            
          F. Kapper salienta que a falta de limitação temporal do período de duração dos efeitos de uma suspensão ou de uma anulação,
         provisória ou definitiva, da carta de condução conduziria a resultados intoleráveis. O nacional alemão a quem a sua carta
         nacional tivesse sido retirada na Alemanha e que tivesse ido viver para outro Estado‑Membro não poderia utilizar uma carta
         de condução emitida por este Estado ao regressar ao seu país de origem, mesmo quando esta nova carta tivesse sido obtida vários
         anos após a retirada da carta alemã. A obtenção de uma carta alemã, independentemente da falta de competência deste Estado,
         também lhe seria proibida nos termos do artigo 7.°, n.° 5, da directiva.
         
         
         
         56
            
          Além disso, F. Kapper entende necessário examinar se a República Federal da Alemanha obteve o acordo da Comissão para as disposições
         em questão, como impõe o artigo 10.° da directiva.
         
         
         
         57
            
          O Governo alemão sustenta que a Directiva 91/439, em especial o seu artigo 8.°, n.os 2 e 4, deve ser interpretada no sentido de que o Estado‑Membro de residência tem o direito de recusar o reconhecimento de
         uma carta emitida por outro Estado‑Membro quando tiver sido retirada a carta nacional.
         
         
         
         58
            
          Na sua opinião, resulta do contexto normativo da Directiva 91/439 que a disposição de carácter muito geral que consta do seu
         artigo 1.°, n.° 2, não basta, por si só, para consagrar uma validade automática e incondicional das cartas estrangeiras em
         países diversos dos Estados‑Membros que as emitiram. Pelo contrário, o reconhecimento está subordinado às diferentes condições
         expostas nas disposições mais detalhadas da directiva, designadamente nos seus artigos 2.° a 12.°
         
         
         
         59
            
          O Governo alemão salienta que o artigo 8.°, n.° 2, da directiva dispõe expressamente que o Estado‑Membro de residência habitual
         pode aplicar ao titular de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro as suas disposições nacionais respeitantes
         à retirada do direito de condução. Os nacionais comunitários com residência habitual na Alemanha estão, portanto, sempre sujeitos
         às disposições alemãs referentes à retirada do direito de condução, não apenas no que respeita às cartas emitidas pelas autoridades
         alemãs, mas também às emitidas pelas autoridades de outro Estado‑Membro.
         
         
         
         60
            
          O artigo 8.°, n.° 4, prevê mesmo expressamente que o Estado‑Membro tem a possibilidade de recusar o reconhecimento da validade
         de qualquer carta de condução emitida por outro Estado‑Membro à pessoa que seja objecto, no território do primeiro Estado,
         de uma medida de retirada da carta de condução.
         
         
         
         61
            
          O Governo alemão não partilha da tese restritiva do órgão jurisdicional de reenvio, nos termos da qual as disposições do artigo
         8.°, n.os 2 e 4, só se aplicam na hipótese da troca de uma carta de condução dentro do respectivo período de validade. Em seu entender,
         resulta pelo, contrário, da redacção do artigo 8.°, n.° 2, que esta disposição também se aplica, mas de forma alguma de modo
         exclusivo, aos casos de troca de carta.
         
         
         
         62
            
          Quanto ao eventual efeito directo das disposições da directiva, só será possível nos casos em que as disposições em questão
         sejam suficientemente concretas e não tenham sido correctamente transpostas no direito alemão. Ora, estará demonstrado que
         o § 28, n.° 4, ponto 3, do FeV 1999 transpõe correcta e plenamente o direito comunitário.
         
         
         
         63
            
          Na sua resposta escrita às questões colocadas pelo Tribunal, o Governo alemão acrescentou que o Verordnung zur Änderung der
         Fahrerlaubnisverordnug und Straßenverkehrsrechtlicher Vorschriften (regulamento que altera o regulamento sobre a carta de
         condução e outras disposições relativas ao direito da circulação), de 7 de Agosto de 2002 (BGBl. I, p. 3267, a seguir «FeV 2002»),
         entrado em vigor em 1 de Setembro de 2002, alterou, designadamente, o § 28 do FeV 1999, inserindo‑lhe um novo n.° 5. Esta
         última disposição prevê explicitamente a possibilidade de as autoridades competentes concederem, a pedido, o direito de fazer
         uso na Alemanha de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro, quando já não existam os motivos que justificaram
         que o seu titular fosse objecto de uma das medidas mencionadas no n.° 4, pontos 3 e 4, do mesmo § 28.
         
         
         
         64
            
          O Governo italiano, que interveio na fase oral do presente processo, entende que o artigo 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439
         consagra o princípio de que as regras nacionais penais em matéria de limitação do direito de condução prevalecem sobre o reconhecimento
         automático das cartas de condução emitidas por outro Estado‑Membro. Esta disposição tem por objectivo evitar que as sanções
         penais que aplicam a retirada da carta de condução sejam contornadas, no Estado‑Membro que pronunciou estas sanções, pela
         utilização de outra carta de condução obtida posteriormente noutro Estado‑Membro, independentemente da regularidade da obtenção
         desta última carta. Todavia, o teor do artigo 8.°, n.° 4, da directiva contém uma referência implícita ao carácter actual
         da sanção em questão. Tendo em conta que o princípio fundamental da directiva consiste no reconhecimento recíproco e mútuo
         das cartas de condução, e que o artigo 8.°, n.° 4, constitui uma derrogação a este princípio, há que interpretar esta disposição
         de forma restritiva, no sentido de que um Estado‑Membro não pode invocá‑la para recusar o reconhecimento de uma carta emitida
         por outro Estado‑Membro quando a medida de limitação do direito de condução já não está em vigor.
         
         
         
         65
            
          Nas suas observações escritas, a Comissão alega que a recusa de reconhecimento da carta neerlandesa emitida a F. Kapper podia
         legitimamente fundar‑se na medida de retirada da carta de que o seu titular tinha sido objecto na Alemanha, medida que consta
         entre aquelas a que se refere o artigo 8.°, n.° 2, da Directiva 91/439. Esta recusa de reconhecimento é conforme com o artigo
         8.°, n.° 4, da directiva, que foi transposta para a ordem jurídica alemã pelo § 28, n.° 4, ponto 3, do FeV 1999.
         
         
         
         66
            
          Segundo a Comissão, a aplicação desta disposição não se limita aos casos de troca de uma carta de condução durante o respectivo
         período de validade. A disposição em causa é bem entendido aplicável quando o titular pedir a troca da sua carta estrangeira.
         Todavia, não é aplicável exclusivamente a essa hipótese. Este ponto de vista, contrário ao expresso pelo órgão jurisdicional
         de reenvio, está confirmado pelo teor do artigo 8.°, n.os 2 e 4, da directiva.
         
         
         
         67
            
          Além disso, a recusa de reconhecimento da validade de uma carta estrangeira em casos tão estritamente circunscritos não contradiz
         o princípio do reconhecimento mútuo consagrado no artigo 1.°, n.° 2, da directiva, uma vez que todos os Estados‑Membros têm
         interesse em que sejam respeitadas as medidas nacionais a que se refere o artigo 8.°, n.° 2, da mesma directiva. É neste sentido
         que há que interpretar o último considerando da directiva. A Comissão invoca também, a este respeito, a jurisprudência do
         Tribunal de Justiça, nos termos da qual os Estados‑Membros têm o direito de tomar as medidas destinadas a impedir que, com
         base nas facilidades criadas por força do Tratado CE, alguns dos seus nacionais tentem subtrair‑se abusivamente à aplicação
         da sua legislação nacional e que os particulares se prevaleçam abusiva ou fraudulentamente das normas comunitárias (acórdão
         de 9 de Março de 1999, Centros, C‑212/97, Colect., p. I‑1459, n.° 24).
         
         
         
         68
            
          Na audiência, a Comissão entendeu, contudo, que os factos na origem do processo principal, como decorrem dos esclarecimentos
         fornecidos pelo órgão jurisdicional de reenvio em resposta ao pedido do Tribunal, a obrigavam a completar as suas observações
         sobre essa questão. Com efeito, há que tomar em consideração que, após estes esclarecimentos, a medida de restrição do direito
         de condução aplicada na Alemanha se limitava a nove meses e que, na data da emissão da carta de condução neerlandesa, F. Kapper
         teria podido, em princípio, requerer a emissão de uma nova carta de condução no seu país de origem. Vistos estes elementos,
         a Comissão sustenta que o artigo 8.°, n.° 4, da directiva não deve ser interpretado no sentido de que permite a um Estado‑Membro
         continuar a recusar o reconhecimento de qualquer carta de condução emitida por outro Estado‑Membro durante um período indeterminado
         que vai para além do momento a partir do qual o interessado teria podido obter uma nova carta no primeiro Estado‑Membro.
         
         
         
         69
            
          A Comissão também completou na audiência a resposta que tinha fornecido por escrito a uma questão colocada pelo Tribunal respeitante
         à obtenção pela República Federal da Alemanha do acordo referido no artigo 10.°, segundo parágrafo, da Directiva 91/439. A
         Comissão afirmou que deu o seu acordo tácito quanto às disposições constantes do § 28 do FeV 1999, na medida em que estas
         disposições lhe foram notificadas e não lhe suscitaram qualquer objecção, contrariamente a outras disposições do FeV 1999,
         que são objecto de um processo por incumprimento. O artigo 10.°, segundo parágrafo, da directiva não impõe que a Comissão
         adopte decisões formais que atestem o seu acordo explícito com as disposições nacionais que lhe são comunicadas pelos Estados‑Membros.
         
          Resposta do Tribunal de Justiça
         
         
         70
            
          O artigo 8.°, n.° 4, primeiro parágrafo, da Directiva 91/439, na medida em que permite a um Estado‑Membro recusar o reconhecimento
         da validade de qualquer carta de condução emitida por outro Estado‑Membro se o titular for objecto, no território do primeiro
         Estado‑Membro, de uma medida de restrição, de suspensão, retirada ou anulação do direito de condução, constitui uma derrogação
         ao princípio geral do reconhecimento mútuo das cartas de condução emitidas pelos Estados‑Membros, consagrado no artigo 1.°,
         n.° 2, da mesma directiva.
         
         
         
         71
            
          Como decorre do seu primeiro considerando, este princípio foi instituído para facilitar a circulação das pessoas que se estabelecem
         num Estado‑Membro diverso daquele em que passaram o exame de condução. A este respeito, o Tribunal considerou que as regulamentações
         referentes à emissão ou ao reconhecimento mútuo das cartas de condução pelos Estados‑Membros têm influência simultaneamente
         directa e indirecta sobre o exercício dos direitos garantidos pelas disposições do Tratado referentes à livre circulação de
         trabalhadores, à liberdade de estabelecimento e à livre prestação de serviços. Com efeito, tendo em conta a importância dos
         meios de transporte individuais, a posse de uma carta de condução devidamente reconhecida pelo Estado de acolhimento pode
         ter incidência sobre o exercício efectivo, pelas pessoas às quais se aplica o direito comunitário, de um grande número de
         actividades profissionais, assalariadas ou independentes e, de um modo mais geral, da liberdade de circulação (acórdãos de
         28 de Novembro de 1978, Choquet, 16/78, Recueil, p. 2293, n.° 4, Colect. p. 791, e Skanavi e Chryssanthakopoulos, já referido,
         n.° 23).
         
         
         
         72
            
          Segundo jurisprudência assente, as disposições de uma directiva que derroga um princípio geral instituído por esta mesma directiva
         devem ser objecto de interpretação estrita (v., no que respeita às derrogações do princípio geral segundo o qual o imposto
         sobre o valor acrescentado é cobrado sobre cada prestação de serviços efectuada a título oneroso por um sujeito passivo, acórdão
         de 10 de Setembro de 2002, Kügler, C‑141/00, Colect., p. I‑6833, n.° 28, e, no que respeita às derrogações do princípio geral
         do reconhecimento das formações profissionais que dão acesso a uma profissão regulamentada, acórdão de 29 de Abril de 2004,
         Beuttenmüller, C‑102/02, ainda não publicado na Colectânea, n.° 64). A fortiori, o mesmo vale quando este princípio geral se destina a facilitar o exercício das liberdades fundamentais garantidas pelo
         Tratado, como as referidas no n.° 71 do presente acórdão.
         
         
         
         73
            
          Contudo, há que precisar que, contrariamente à opinião expressa pelo órgão jurisdicional de reenvio, a aplicação do artigo
         8.°, n.° 4, da directiva não se limita aos casos em que é apresentado às autoridades de um Estado‑Membro, pelo titular de
         uma carta emitida por outro Estado‑Membro, um pedido de troca desta carta. Com efeito, apesar de o artigo 8.° da directiva
         conter várias disposições que regulam especificamente as condições substantivas e adjectivas aplicáveis à troca ou à substituição
         de uma carta, quando o titular apresente um pedido neste sentido às autoridades competentes, os n.os 2 e 4 deste artigo têm um objecto diferente, ou seja, permitir aos Estados‑Membros aplicar, no seu território, as suas disposições
         nacionais em matéria de retirada, suspensão e anulação da carta de condução. O exercício pelos Estados‑Membros da faculdade
         que lhes é reconhecida pelo artigo 8.°, n.os 2 e 4, da directiva não pode, portanto, ficar subordinada a um acto voluntário do titular de uma carta de condução emitida
         por outro Estado‑Membro, como a apresentação de um pedido de troca desta carta. Há que recordar que, segundo a jurisprudência,
         a Directiva 91/439 pretendeu expressamente abolir os sistemas de troca de cartas de condução e proíbe que os Estados‑Membros
         exijam o registo ou a troca de cartas de condução que não sejam emitidas pelas suas próprias autoridades quando os titulares
         das referidas cartas se estabeleçam no seu território (v. acórdão Comissão/Países Baixos, já referido, n.° 72, e despacho
         de 29 de Janeiro de 2004, Krüger, C‑253/01, ainda não publicado na Colectânea, n.os 30 a 32).
         
         
         
         74
            
          No caso em apreço, resulta dos autos e das observações apresentadas ao Tribunal que, no âmbito do processo principal, o órgão
         jurisdicional nacional deve ter em conta, entre outras disposições, as do § 28, n.° 4, pontos 3 e 4, do FeV 1999. Estas disposições,
         aplicáveis quando o titular de uma carta de condução tenha a sua residência habitual na República Federal da Alemanha, impedem
         que as autoridades alemãs reconheçam a validade de uma carta emitida por outro Estado‑Membro, designadamente, quando o titular
         seja objecto na Alemanha de uma medida de retirada da sua carta de condução aplicada por um tribunal. Segundo a regulamentação
         aplicável, o interessado que se encontre em semelhante situação só pode obter uma carta de condução válida na Alemanha caso
         apresente às autoridades competentes um novo pedido de emissão de carta e preencha as correspondentes condições e exames.
         Todavia, após 1 de Setembro de 2002, o § 28, n.° 5, do FeV 2002 prevê explicitamente que as autoridades alemãs podem autorizar
         que o interessado utilize a sua carta emitida por outro Estado‑Membro quando já não existam os motivos que justificaram a
         retirada da carta ou a interdição temporária de obtenção de uma nova carta.
         
         
         
         75
            
          Também resulta dos autos que a medida de retirada ou de anulação da carta de condução aplicada a F. Kapper pela condenação
         penal de 26 de Fevereiro de 1998 estava acompanhada de uma proibição temporária de obtenção de uma nova carta, que terminou
         em 25 de Novembro de 1998. Após esta data, F. Kapper teria podido, segundo o órgão jurisdicional de reenvio, apresentar às
         autoridades alemãs um pedido com o objectivo de obter uma nova carta de condução. Nestas circunstâncias, há que concluir que,
         quando foi emitida a F. Kapper uma carta de condução pelas autoridades neerlandesas em 11 de Agosto de 1999, já não era objecto,
         no território alemão, de uma proibição temporária de apresentar às autoridades competentes da República Federal da Alemanha
         um pedido de emissão de uma nova carta.
         
         
         
         76
            
          Decorre do teor do artigo 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439 que um Estado‑Membro pode recusar o reconhecimento, a uma pessoa
         que seja objecto no seu território de uma das medidas referidas no n.° 2 do mesmo artigo, da validade de qualquer carta de
         condução emitida por outro Estado‑Membro. Uma vez que esta disposição é de interpretação estrita, não pode ser invocada por
         um Estado‑Membro para se recusar indefinidamente a reconhecer, à pessoa que tenha sido objecto no seu território de uma medida
         de retirada ou de anulação de uma carta anteriormente emitida por este Estado, a validade de qualquer carta que possa posteriormente
         ser emitida por outro Estado‑Membro. Com efeito, quando o período de proibição temporária de obtenção de uma nova carta, que
         acompanhava a medida em questão, tenha já expirado no território de um Estado‑Membro, as disposições conjugadas dos artigos
         1.°, n.° 2, e 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439 opõem‑se a que este Estado‑Membro continue a recusar o reconhecimento da validade
         de qualquer carta de condução posteriormente emitida ao interessado por outro Estado‑Membro.
         
         
         
         77
            
          Não se pode objectar a esta conclusão que as disposições nacionais aplicáveis, designadamente as do § 28 do FeV 1999, se destinam
         precisamente a prorrogar por período indeterminado os efeitos no tempo de uma medida de retirada ou de anulação de uma carta
         anterior e a reservar às autoridades alemãs a competência para a emissão de uma nova carta. Como salientou o advogado‑geral
         no n.° 75 das suas conclusões, admitir que um Estado‑Membro tem o direito de se basear nas suas disposições nacionais para
         se opor indefinidamente ao reconhecimento de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro corresponderia à própria
         negação do princípio do reconhecimento mútuo das cartas, que constitui a pedra angular do sistema instituído pela Directiva
         91/439.
         
         
         
         78
            
          Tendo em conta o conjunto das considerações precedentes, há que responder à segunda parte da questão prejudicial que as disposições
         conjugadas dos artigos 1.°, n.° 2, e 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439 devem ser interpretadas no sentido de que se opõem a
         que um Estado‑Membro recuse o reconhecimento da validade de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro pela razão
         de o seu titular ter sido objecto, no território do primeiro Estado‑Membro, de uma medida de retirada ou de anulação de uma
         carta de condução emitida por este Estado‑Membro, quando o período da proibição temporária de obter neste Estado uma nova
         carta, que acompanhava essa medida, tiver expirado antes da data da emissão da carta de condução emitida pelo outro Estado‑Membro.
         
         
         Quanto às despesas
         79
            
          As despesas efectuadas pelos Governos alemão, italiano e neerlandês, bem como pela Comissão, que apresentaram observações
         ao Tribunal, não são reembolsáveis. Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado
         perante o órgão jurisdicional nacional, compete a este decidir quanto às despesas.
         
         
         Pelos fundamentos expostos,
         
         
         
            
            O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quinta Secção),
         
         
          pronunciando‑se sobre a questão submetida pelo Amtsgericht Frankenthal, por decisão de 11 de Outubro 2001, rectificada por
         ofício de 19 de Dezembro seguinte, declara:
         
            
            
            
               1)
                  As disposições conjugadas dos artigos 1.°, n.° 2, 7.°, n.° 1, alínea b), e 9.° da Directiva 91/439/CEE do Conselho, de 29
                     de Julho de 1991, relativa à carta de condução, com a redacção dada pela Directiva 97/26/CE do Conselho, de 2 de Junho de
                     1997, devem ser interpretadas no sentido de que se opõem a que um Estado‑Membro recuse o reconhecimento de uma carta de condução
                     emitida por outro Estado‑Membro pela razão de, segundo as informações de que dispõe o primeiro Estado‑Membro, o titular da
                     carta, na data da sua emissão, ter a sua residência habitual no território deste Estado‑Membro e não no território do Estado‑Membro
                     de emissão.
                  
               
            
            
            
            
               2)
                  As disposições conjugadas dos artigos 1.°, n.° 2, e 8.°, n.° 4, da Directiva 91/439 devem ser interpretadas no sentido de
                     que se opõem a que um Estado‑Membro recuse o reconhecimento da validade de uma carta de condução emitida por outro Estado‑Membro
                     pela razão de o seu titular ter sido objecto, no território do primeiro Estado‑Membro, de uma medida de retirada ou de anulação
                     de uma carta de condução emitida por este Estado‑Membro, quando o período da proibição temporária de obter neste Estado uma
                     nova carta, que acompanhava essa medida, tiver expirado antes da data da emissão da carta de condução emitida pelo outro Estado‑Membro.
                  
               
            
            
                  Timmermans
               
               
                  Rosas
               
               
                  von Bahr
               
            
                  
               
               
                  
               
               
                  
               
            
                  
               
               
                  
               
               
                  
               
            
                  
               
               
                  
               
               
                  
               
            
                  
               
               
                  
               
               
                  
               
            
            
            
            
            
            
            
            
         
         
          Proferido em audiência pública no Luxemburgo, em 29 de Abril de 2004.
         
         
         
         
                  O secretário
               
               
                  O presidente
               
            
         
         
         
                  R. Grass
               
               
                  V. Skouris
               
            
      
      
          1 –
            
            Língua do processo: alemão.