CELEX: 62010CJ0131
Language: pt
Date: 2010-12-22 00:00:00
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Quarta Secção) de 22 de Dezembro de 2010. # Corman SA contra Bureau d’intervention et de restitution belge (BIRB). # Pedido de decisão prejudicial: Tribunal de première instance de Bruxelles - Bélgica. # Protecção dos interesses financeiros da União Europeia - Regulamento (CE, Euratom) n.º 2988/95 - Artigo 3.º - Prescrição dos procedimentos - Prazo - Regulamentação sectorial - Regulamento (CE) n.º 2571/97 - Aplicação diferenciada das regras de prescrição em caso de irregularidade cometida pelo beneficiário da subvenção ou por co-contratantes do mesmo. # Processo C-131/10.

Processo C-131/10
      Corman SA
      contra
      Bureau d’intervention et de restitution belge (BIRB)
      (pedido de decisão prejudicial apresentado pelo tribunal de première instance de Bruxelles)
      «Protecção dos interesses financeiros da União Europeia – Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95 – Artigo 3.° – Prescrição dos procedimentos – Prazo – Regulamentação sectorial – Regulamento (CE) n.° 2571/97 – Aplicação diferenciada das regras de prescrição em caso de irregularidade cometida pelo beneficiário da subvenção ou por
         co‑contratantes do mesmo»
      
      Sumário do acórdão
      1.        Recursos próprios da União Europeia – Regulamento relativo à protecção dos interesses financeiros da União – Procedimentos
            por irregularidades – Prazo de prescrição – Irregularidades cometidas no âmbito de operações de adjudicação no sector da manteiga
      (Regulamento n.° 2988/95 do Conselho, artigo 3.°, n.os 1, primeiro parágrafo, e 3; Regulamento n.° 2571/97 da Comissão)
      2.        Recursos próprios da União Europeia – Regulamento relativo à protecção dos interesses financeiros da União – Procedimentos
            por irregularidades – Prazo de prescrição – Irregularidades cometidas no âmbito de operações de adjudicação no sector da manteiga
      (Regulamento n.° 2988/95 do Conselho, artigos 1.° e 3.°, n.° 3; Regulamento n.° 2571/97 da Comissão)
      1.        Na medida em que não prevê uma regra de prescrição dos procedimentos aplicável à execução de garantias constituídas no âmbito
         de operações de adjudicação no sector da manteiga, da manteiga concentrada e da nata, o Regulamento n.° 2571/97, relativo
         à venda a preço reduzido de manteiga e à concessão de uma ajuda à nata, à manteiga e à manteiga concentrada destinadas ao
         fabrico de produtos de pastelaria, de gelados alimentares e de outros produtos alimentares, não constitui uma regulamentação
         sectorial que prevê um «prazo mais reduzido» na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, segunda frase, do Regulamento
         n.° 2988/95, relativo à protecção dos interesses financeiros das Comunidades Europeias. Por conseguinte, o prazo de prescrição
         de quatro anos definido no artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, primeira frase, deste último regulamento aplica‑se a essa
         execução, sem prejuízo, contudo, da possibilidade que os Estados‑Membros conservam, nos termos do n.° 3 do referido artigo
         3.°, de prever prazos de prescrição mais longos.
      
      (cf. n.° 50, disp. 1)
      2.        Quando iniciam um procedimento por irregularidade nos termos do artigo 1.° do Regulamento n.° 2988/95, relativo à protecção
         dos interesses financeiros das Comunidades Europeias, os Estados‑Membros conservam a possibilidade de aplicar prazos de prescrição
         mais longos, nos termos do artigo 3.°, n.° 3, deste regulamento, inclusivamente no contexto do Regulamento n.° 2571/97, relativo
         à venda a preço reduzido de manteiga e à concessão de uma ajuda à nata, à manteiga e à manteiga concentrada destinadas ao
         fabrico de produtos de pastelaria, de gelados alimentares e de outros produtos alimentares, em situações em que as irregularidades
         pelas quais o adjudicatário deve responder tenham sido cometidas pelos seus co‑contratantes.
      
      Com efeito, no âmbito da derrogação prevista no artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95, os Estados‑Membros conservam
         um amplo poder de apreciação quanto à fixação de prazos de prescrição mais longos que entendam aplicar num caso de irregularidade
         que lese os interesses financeiros da União.
      
      (cf. n.os 54, 62, disp. 2)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quarta Secção)
      22 de Dezembro de 2010 (*)
      
      «Protecção dos interesses financeiros da União Europeia – Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95 – Artigo 3.° – Prescrição dos procedimentos – Prazo – Regulamentação sectorial – Regulamento (CE) n.° 2571/97 – Aplicação diferenciada das regras de prescrição em caso de irregularidade cometida pelo beneficiário da subvenção ou por
         co‑contratantes do mesmo»
      
      No processo C‑131/10,
      que tem por objecto um pedido de decisão prejudicial nos termos do artigo 267.° TFUE, apresentado pelo tribunal de première
         instance de Bruxelles (Bélgica), por decisão de 26 de Fevereiro de 2010, entrado no Tribunal de Justiça em 12 de Março de
         2010, no processo
      
      Corman SA
      contra
      Bureau d’intervention et de restitution belge (BIRB),
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Quarta Secção),
      composto por: J.‑C. Bonichot, presidente de secção, K. Schiemann, L. Bay Larsen, C. Toader (relatora) e E. Jarašiūnas, juízes,
      advogado‑geral: E. Sharpston,
      secretário: A. Calot Escobar,
      vistos os autos,
      vistas as observações apresentadas:
      –        em representação da Corman SA, por L. Defalque, avocat,
      –        em representação do Governo belga, por J.‑C. Halleux, na qualidade de agente,
      –        em representação do Governo austríaco, por E. Riedl, na qualidade de agente,
      –        em representação da Comissão Europeia, por F. Clotuche‑Duvieusart, na qualidade de agente,
      vista a decisão tomada, ouvida a advogada‑geral, de julgar a causa sem apresentação de conclusões,
      profere o presente
      Acórdão
      1        O pedido de decisão prejudicial tem por objecto a interpretação do artigo 3.°, n.os 1 e 3, do Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95 do Conselho, de 18 de Dezembro de 1995, relativo à protecção dos interesses
         financeiros das Comunidades Europeias (JO L 312, p. 1), conjugado com o Regulamento (CE) n.° 2571/97 da Comissão, de 15 de
         Dezembro de 1997, relativo à venda a preço reduzido de manteiga e à concessão de uma ajuda à nata, à manteiga e à manteiga
         concentrada destinadas ao fabrico de produtos de pastelaria, de gelados alimentares e de outros produtos alimentares (JO L 350,
         p. 3), conforme alterado pelo Regulamento (CE) n.° 1550/98 da Comissão, de 17 de Julho de 1998 (JO L 202, p. 27, a seguir
         «Regulamente n.° 2571/97»).
      
      2        Este pedido foi apresentado no âmbito de um litígio que opõe a Corman SA (a seguir «Corman») ao Bureau d’intervention et de
         restitution belge (BIRB) a propósito da recusa de reembolso por parte deste de várias cauções constituídas pela Corman no
         âmbito de operações de adjudicação abrangidas pelo Regulamento n.° 2571/97.
      
       Quadro jurídico
       Regulamentação da União
       Regulamento n.° 2988/95
      3        Nos termos do terceiro considerando do Regulamento n.° 2988/95, «importa combater em todos os domínios os actos lesivos dos
         interesses financeiros das Comunidades».
      
      4        O quinto considerando deste regulamento enuncia que «os comportamentos que constituem irregularidades, bem como as medidas
         e sanções administrativas que lhes dizem respeito, estão previstos em regulamentos sectoriais em conformidade com o presente
         regulamento».
      
      5        O artigo 1.° do referido regulamento dispõe:
      
      «1.      Para efeitos da protecção dos interesses financeiros das Comunidades Europeias, é adoptada uma regulamentação geral em matéria
         de controlos homogéneos e de medidas e sanções administrativas relativamente a irregularidades no domínio do direito comunitário.
      
      2.      Constitui irregularidade qualquer violação de uma disposição de direito comunitário que resulte de um acto ou omissão de um
         agente económico que tenha ou possa ter por efeito lesar o orçamento geral das Comunidades ou orçamentos geridos pelas Comunidades,
         quer pela diminuição ou supressão de receitas provenientes de recursos próprios cobradas directamente por conta das Comunidades,
         quer por uma despesa indevida.»
      
      6        O artigo 3.°, n.os 1 e 3, do Regulamento n.° 2988/95 prevê:
      
      «1.      O prazo de prescrição do procedimento é de quatro anos a contar da data em que foi praticada a irregularidade referida no
         n.° 1 do artigo 1.° Todavia, as regulamentações sectoriais podem prever um prazo mais reduzido, que não pode ser inferior
         a três anos.
      
      O prazo de prescrição relativo às irregularidades continuadas ou repetidas corre desde o dia em que cessou a irregularidade.
         […]
      
      A prescrição do procedimento é interrompida por qualquer acto, de que seja dado conhecimento à pessoa em causa, emanado da
         autoridade competente tendo em vista instruir ou instaurar procedimento por irregularidade. O prazo de prescrição corre de
         novo a contar de cada interrupção.
      
      […]
      3.      Os Estados‑Membros conservam a possibilidade de aplicar um prazo mais longo que [o previsto no n.° 1].»
      7        O artigo 4.° do Regulamento n.° 2988/95 dispõe:
      
      «1.      Qualquer irregularidade tem como consequência, regra geral, a retirada da vantagem indevidamente obtida:
      […]
      –        através da perda total ou parcial da garantia constituída a favor do pedido de uma vantagem concedida ou aquando do recebimento
         de um adiantamento.
      
      […]
      4.      As medidas previstas no presente artigo não são consideradas sanções.»
       Regulamentação relativa à organização comum no sector do leite e dos produtos lácteos
      –       Regulamento (CEE) n.° 804/68
      8        O artigo 6.° do Regulamento (CEE) n.° 804/68 do Conselho, de 27 de Junho de 1968, que estabelece a organização comum de mercado
         no sector do leite e dos produtos lácteos (JO L 148, p. 13; EE 03 F2 p. 146), conforme alterado pelo Regulamento (CE) n.° 2807/94
         do Conselho, de 14 de Novembro de 1994 (JO L 298, p. 1), dispõe:
      
      «1.      Durante toda a campanha leiteira, o organismo de intervenção designado por cada um dos Estados‑Membros comprará ao preço de
         intervenção, em condições a determinar, a manteiga produzida directa e exclusivamente a partir de nata pasteurizada numa empresa
         aprovada da Comunidade […]
      
      […]
      3.      O escoamento da manteiga comprada pelos organismos de intervenção será efectuado a um preço mínimo e em condições a determinar,
         de forma a não comprometer o equilíbrio do mercado e a assegurar a igualdade de tratamento e de acesso dos compradores à manteiga
         à venda. […]
      
      […]
      6.      As modalidades de aplicação do presente artigo, nomeadamente o montante das ajudas concedidas à armazenagem privada, serão
         adoptadas de acordo com o procedimento previsto no artigo 30.°»
      
      –       Regulamento n.° 2571/97
      9        O artigo 1.°, n.° 1, do Regulamento n.° 2571/97 dispõe:
      
      «Nas condições previstas no presente regulamento, proceder‑se‑á:
      a)      À venda de manteiga de intervenção adquirida em conformidade com o n.° 1 do artigo 6.° do Regulamento [...] n.° 804/68 e entrada
         em armazém antes de uma data a determinar;
      
      b)      À concessão de uma ajuda à utilização da manteiga, da manteiga concentrada e da nata referidas no n.° 2.»
      10      Nos termos do artigo 2.° do Regulamento n.° 2571/97, «[a] venda da manteiga de intervenção e a concessão da ajuda aos produtos
         referidos no n.° 2 do artigo 1.° efectuam‑se pelo processo de concurso permanente assegurado por cada um dos organismos de
         intervenção».
      
      11      O artigo 3.° do Regulamento n.° 2571/97 prevê:
      
      «O proponente só pode participar no concurso se se comprometer por escrito a incorporar ou a fazer incorporar a manteiga ou
         a manteiga concentrada, exclusivamente e sem prejuízo, se for caso disso, dos produtos intermédios referidos no artigo 8.°,
         nos produtos finais referidos no artigo 4.° e, no que se refere à nata, directa e exclusivamente nos produtos finais referidos
         no n.° 1, fórmula B, do artigo 4.° […]
      
      […]»
      12      Nos termos do artigo 10.°, n.° 1, do Regulamento n.° 2571/97, «[o] fabrico da manteiga concentrada referido no n.° 2, alínea
         b), do artigo 1.°, a transformação da manteiga em manteiga concentrada referida no artigo 5.°, a adição dos marcadores referida
         no artigo 6.°, o reacondicionamento da manteiga concentrada referido no n.° 1, segundo parágrafo, do artigo 7.°, a incorporação
         em produtos intermédios referida no artigo 8.° e, em caso de aplicação da alínea b) do artigo 3.°, a incorporação da manteiga,
         da manteiga concentrada, dos produtos intermédios e da nata nos produtos finais efectuar‑se‑ão num estabelecimento aprovado».
      
      13      O artigo 11.° deste regulamento previa, na sua versão inicial, que os produtos referidos no artigo 1.° serão laborados e incorporados
         nos produtos finais na Comunidade num prazo de seis meses a partir do mês do termo do prazo para a apresentação das propostas
         relativas ao concurso especial fixado no n.° 2 do artigo 14.° Após várias alterações desse artigo, designadamente pela adopção
         do Regulamento (CE) n.° 494/1999 da Comissão, de 5 de Março de 1999 (JO L 59, p. 17), esse prazo foi reduzido para quatro
         meses:
      
      14      O artigo 12.° do Regulamento n.° 2571/97 dispõe:
      
      «1.      O adjudicatário deve:
      a)      Executar ou fazer executar em seu nome e por sua conta as operações relativas ao fabrico da manteiga concentrada e à adição
         dos marcadores;
      
      b)      Manter uma contabilidade que indique, para cada entrega, os nomes e os endereços dos compradores e as quantidades correspondentes
         e que especifique o seu destino (fórmula A ou fórmula B) e, ou o prazo de incorporação referido no artigo 11.°, ou o número
         da adjudicação, eventualmente em código. Se o adjudicatário laborar produtos que beneficiem de uma ajuda ou de uma redução
         de preços no âmbito de diversos regimes comunitários, deve ser mantida uma contabilidade separada para cada regime;;
      
      c)      Prever, em cada contrato de venda:
      i)      a obrigação de, em caso de fabrico de produtos intermédios, respeitar as disposições dos artigos 8.° e 9.°,
      ii)      a obrigação de, se for caso disso, respeitar o compromisso referido na alínea b) do artigo 3.°,
      iii)      a obrigação de incorporação nos produtos finais, com especificação do destino (fórmula A ou fórmula B), no prazo referido
         no artigo 11.°,
      
      iv)      se for caso disso, a obrigação relativa à manutenção da contabilidade referida na alínea b),
      v)      a obrigação de respeitar o disposto no artigo 10.°,
      vi)      a obrigação de manter registos idênticos aos referidos no n.° 2, alínea c), do artigo 10.° no caso da incorporação de produtos
         marcados nos produtos finais,
      
      vii)      a obrigação de o contratante fornecer os dados previstos nos Anexos IX a XIII, no que lhe disser respeito, ao organismo competente
         de acordo com as regras estabelecidas pelo Estado‑Membro,
      
      viii) se for caso disso, a obrigação de fornecer o programa de fabrico.
      2.      Se o adjudicatário for o fabricante dos produtos finais, deve manter os registos referidos no n.° 2, alínea c), do artigo
         10.° e transmitir o seu programa de fabrico em conformidade com o n.° 2, alínea d), do artigo 10.°»
      
      15      O artigo 13.° do Regulamento n.° 2571/97 prevê:
      
      «1.      Será publicado no Jornal Oficial das Comunidades Europeias um anúncio de concurso permanente pelo menos oito dias antes do termo do primeiro prazo previsto para a apresentação das
         propostas.
      
      2.      O organismo de intervenção elaborará um anúncio de concurso que indique, nomeadamente, o prazo e o local de apresentação das
         propostas.
      
      [...]»
      16      O artigo 14.° do Regulamento n.° 2571/97 dispõe:
      
      «1.      Durante o período de eficácia do concurso permanente, o organismo de intervenção organizará concursos especiais.
      2.      O prazo para a apresentação das propostas relativas a cada um dos concursos especiais terminará em cada segunda e quarta terça‑feira
         do mês, às 12 horas […]»
      
      17      O artigo 17.° do Regulamento n.° 2571/97 tem a seguinte redacção:
      
      «1.      Constituem exigências principais cuja satisfação será assegurada pela constituição de uma garantia de concurso de ‘180 ecus’
         por tonelada, a manutenção da proposta após o termo do prazo para a apresentação das propostas e, consoante o caso:
      
      a)      Tratando‑se de manteiga proveniente de intervenção, a constituição da garantia de transformação referida no n.° 2 do artigo
         18.° e o pagamento do preço no prazo fixado no n.° 2 do artigo 20.°;
      
      b)      Tratando‑se dos produtos referidos no n.° 2 do artigo 1.° e em caso de aplicação da alínea a) do artigo 3.°, a constituição
         da garantia de transformação referida no n.° 2 do artigo 18.° ou, em caso de aplicação do n.° 3, segundo parágrafo, do artigo
         22.°, a sua incorporação nos produtos finais;
      
      c)      Tratando‑se dos produtos referidos no n.° 2 do artigo 1.° e em caso de aplicação da alínea b) do artigo 3.°, a sua incorporação
         nos produtos finais.
      
      2.      A garantia de concurso será constituída no Estado‑Membro em que a proposta for apresentada.
      […]»
      18      O artigo 18.° do Regulamento n.° 2571/97 prevê:
      
      «1.      Tendo em conta as propostas recebidas para cada concurso especial e pelo processo previsto no artigo 30.° do Regulamento [...]
         n.° 804/68, será fixad[o] um preço mínimo de venda da manteiga de intervenção e um montante máximo da ajuda para a nata, a
         manteiga e a manteiga concentrada […]
      
      [...]
      2.      Simultaneamente à fixação do ou dos preços mínimos de venda e do ou dos montantes máximos da ajuda, e pelo processo previsto
         no artigo 30.° do Regulamento […] n.° 804/68, fixar‑se‑á o ou os montantes das garantias de transformação por 100 quilogramas
         em função da diferença entre o preço de intervenção da manteiga e os preços mínimos fixados ou dos montantes da ajuda.
      
      A garantia de transformação destina‑se a assegurar a satisfação das exigências principais relativas:
      a)      Ou, tratando‑se de manteiga proveniente de intervenção:
      i)      à transformação da manteiga em manteiga concentrada em conformidade com o artigo 5.° e à eventual adição dos marcadores ou
         à adição dos marcadores à manteiga,
      
      e
      ii)      à incorporação da manteiga ou da manteiga concentrada, adicionadas ou não dos marcadores, nos produtos finais;
      b)      Ou, tratando‑se dos produtos referidos no n.° 2 do artigo 1.° e em caso de aplicação da alínea a) do artigo 3.°, à incorporação
         nos produtos finais.
      
      3.      As provas necessárias para obter a liberação das garantias de transformação referidas no n.° 2 devem ser apresentadas à autoridade
         competente designada pelo Estado‑Membro no qual a garantia tiver sido constituída no prazo de 12 meses a contar do termo do
         prazo previsto no artigo 11.°
      
      Se o prazo fixado no artigo 11.° for excedido em menos de 60 dias, no total, a garantia de transformação será executada à
         razão de 6 ecus por tonelada e por dia. Decorrido aquele período, aplicar‑se‑ão as disposições do artigo 23.° do Regulamento
         (CEE) n.° 2220/85 da Comissão[, de 22 de Julho de 1985, que fixa as regras comuns de aplicação do regime de garantias para
         os produtos agrícolas (JO L 205, p. 5),] ao montante restante.
      
      4.      Se, no prazo previsto no artigo 11.°, a não satisfação das exigências principais referidas na alínea a) do n.° 2 resultar
         do facto de a manteiga proveniente de intervenção se revelar imprópria para consumo, as garantias de transformação serão,
         não obstante, liberadas, desde que tenham sido tomadas medidas apropriadas, sujeitas à fiscalização das autoridades do Estado‑Membro
         em causa, após acordo da Comissão.»
      
      19      Resulta do artigo 19.°, n.os 1 e 2, do Regulamento n.° 2571/97 que será adjudicatário da manteiga de intervenção o proponente que oferecer o preço mais
         elevado, se o preço proposto não for inferior ao preço mínimo ou se o montante proposto para a ajuda não for superior ao montante
         máximo da mesma.
      
      20      Nos termos do n.° 4 do referido artigo 19.°, «[o]s direitos e obrigações decorrentes do concurso não são transmissíveis».
      
      21      O artigo 27.° do Regulamento n.° 2571/97 dispõe:
      
      «Salvo disposição explícita em contrário, aplica‑se o Regulamento […] n.° 2220/85. A sanção do desrespeito de uma obrigação
         subordinada prevista no presente regulamento exclui as sanções previstas pelo Regulamento […] n.° 2220/85.»
      
       Regulamento n.° 2220/85
      22      O artigo 29.° do Regulamento n.° 2220/85, na versão resultante do Regulamento (CE) n.° 3403/93 da Comissão, de 10 de Dezembro
         de 1993 (JO L 310, p. 4, a seguir «Regulamento n.° 2220/85»), dispõe:
      
      «Logo que a autoridade competente tenha conhecimento de elementos que impliquem a execução da garantia, na sua totalidade
         ou em parte, exigirá, de imediato, ao interessado o pagamento do montante executado no prazo de 30 dias a contar da data da
         recepção do pedido de pagamento.
      
      Se esse pagamento não tiver sido efectuado no prazo prescrito, a autoridade competente:
      a)      Cobrará, de imediato e definitivamente, a garantia referida no n.° 1, alínea a), do artigo 8.°;
      b)      Exigirá de imediato que o organismo que presta a caução referida no n.° 1, alínea b), do artigo 8.° proceda ao pagamento no
         prazo de 30 dias a contar da data da recepção do pedido de pagamento;
      
      c)      Tomará, de imediato, as medidas necessárias para que:
      i)      as garantias referidas no n.° 2, alíneas a), c), d) e e), do artigo 8.° sejam convertidas em dinheiro a fim de que o montante
         executado lhe seja pago;
      
      ii)      os fundos bloqueados no banco [...] sejam transferidos para a sua própria conta.
      A autoridade competente pode cobrar, de imediato e definitivamente, a garantia referida no n.° 1, alínea a), do artigo 8.°
         sem pedir previamente o pagamento ao interessado.
      
      [...]»
       Regulamento (CEE) n.° 4045/89
      23      O Regulamento (CEE) n.° 4045/89 do Conselho, de 21 de Dezembro de 1989, relativo aos controlos, pelos Estados‑Membros, das
         operações que fazem parte do sistema de financiamento pelo Fundo Europeu de Orientação e de Garantia Agrícola, Secção «Garantia»,
         e que revoga a Directiva 77/435/CEE (JO L 388, p. 18), prevê, no seu artigo 4.°, por um lado, que as empresas devem conservar
         alguns documentos comerciais como os seus livros, registos, notas e documentos comprovativos durante pelo menos três anos
         a contar do final do ano da sua emissão e, por outro, que os Estados‑Membros podem prever um período mais longo para a conservação
         desses documentos.
      
       Direito nacional
      24      O artigo 2262.° bis do Código Civil belga, introduzido pelo artigo 5.° da Lei de 10 de Junho de 1998, que altera certas disposições em matéria
         de prescrição (Moniteur belge de 17 de Julho de 1998, p. 23544), dispõe:
      
      «§ 1. Todas as acções pessoais prescrevem decorrido o prazo de dez anos.
      Por derrogação do primeiro parágrafo, qualquer acção de reparação de um dano baseada numa responsabilidade extracontratual
         prescreve decorrido o prazo de cinco anos a contar do dia seguinte ao dia em que a pessoa lesada teve conhecimento do dano
         ou da sua agravação e da identidade da pessoa responsável.
      
      As acções referidas no segundo parágrafo prescrevem em qualquer caso decorridos vinte anos a partir do dia seguinte ao dia
         em que ocorreu o facto gerador do dano.
      
      […]»
       Litígio no processo principal e questões prejudiciais
      25      Durante os anos de 1998 a 2000, a Corman, estabelecimento aprovado na acepção do artigo 10.° do Regulamento n.° 2571/97, participou
         em várias adjudicações especiais organizadas pelo BIRB, organismo de intervenção na acepção do artigo 6.°, n.° 1, do Regulamento
         n.° 804/68, e as suas propostas foram aceites.
      
      26      Na qualidade de empresa adjudicatária, a Corman teve de constituir diversas garantias para assegurar o respeito das exigências
         do Regulamento n.° 2571/97. Essas garantias cobriam tanto a execução das operações relativas ao fabrico de manteiga concentrada
         e a adição dos marcadores pela Corman como a correcta utilização da manteiga, da manteiga concentrada ou das natas, bem como
         a sua integração, pelos utilizadores finais a quem essa empresa revenderia os seus produtos, nos produtos finais como os bolos,
         os gelados, os biscoitos ou os chocolates.
      
      27      Tendo verificado que os referidos utilizadores finais procediam a operações de misturas de manteiga concentrada abrangidas
         pelo regime de intervenção com manteiga ou natas de mercado, o BIRB mostrou dúvidas quanto à regularidade dessas práticas
         à luz do Regulamento n.° 2571/97 e informou oficialmente a Corman desse facto em 26 de Abril de 2000.
      
      28      A Comissão foi alertada para essa questão por duas vezes pelo BIRB, durante os meses de Março e de Agosto de 2002, e deu explicações
         nas respostas de Junho de 2002 e durante o ano de 2006, na sequência das quais o BIRB liberou certas garantias de transformação
         constituídas pela Corman.
      
      29      Contudo, no que se refere a algumas outras operações de incorporação, o BIRB considerou que devia executar as garantias constituídas
         pela Corman, ou devido a ter decorrido o prazo de quatro meses para a incorporação de manteiga nos produtos finais, ou devido
         a utilizações finais desconformes com o Regulamento n.° 2571/97, ou, por último, devido a falhas de produção de algumas quantidades
         adjudicadas. Assim, durante os anos de 2006 e 2007, o BIRB enviou a essa sociedade avisos de débito que executavam essas garantias
         até ao montante de 202 999,58 euros. Esses avisos foram formalizados numa decisão de 17 de Janeiro de 2007.
      
      30      Por citação de 22 de Maio de 2007, a Corman interpôs recurso dessa decisão para o tribunal de première instance de Bruxelles
         e pediu o reembolso das garantias relativas à transformação em causa, no montante de 173 361,88 euros. Em apoio desse pedido,
         a Corman alega que, atendendo ao prazo de prescrição de quatro anos previsto no artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, do
         Regulamento n.° 2988/95, as execuções das garantias em causa eram irregulares na medida em que tinha ocorrido a prescrição.
         Além disso, supondo que esse prazo não é aplicável, a Corman defendeu que o Regulamento n.° 2571/97, na medida em que constitui
         uma regulamentação sectorial na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, segunda frase, do Regulamento n.° 2988/95,
         se opunha à aplicação de um prazo de prescrição nacional mais longo com base no n.° 3 do referido artigo.
      
      31      O BIRB considerou, por sua vez, que não se podia invocar a prescrição para impedir as execuções em causa, na medida em que,
         de acordo com o artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95, os Estados‑Membros conservam a faculdade de aplicar prazos
         de prescrição mais longos resultantes de disposições de direito comum, como o de trinta anos aplicável na Bélgica antes de
         1998 e o de dez anos que passou a ser aplicável.
      
      32      Nestas condições, o tribunal de première instance de Bruxelles decidiu suspender a instância e submeter ao Tribunal de Justiça
         as seguintes questões prejudiciais:
      
      «1)      As disposições do Regulamento [n.°] 2571/97 […] constituem uma regulamentação sectorial comunitária que estabelece uma excepção
         ao artigo 3.°, n.° 1, do Regulamento […] n.° 2988/95 [...] e que se opõe à aplicação das disposições nacionais em matéria
         de prescrição?
      
      2)      Deve entender‑se que a aplicação do artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95 [se deve limitar] aos casos em que a irregularidade
         é cometida pelo beneficiário da subvenção, de modo que a regra geral da prescrição de quatro anos é aplicável a todas as irregularidades
         cometidas por quem celebre contratos com o beneficiário, tendo em conta o prazo máximo de quatro anos aplicável ao regime
         normativo dos co‑contratantes no âmbito da organização comum do mercado do leite e dos produtos lácteos?»
      
       Quanto às questões prejudiciais
       Quanto à primeira questão
      33      Através da primeira questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta, no essencial, se se pode considerar que o Regulamento
         n.° 2571/97 constitui uma regulamentação sectorial que prevê um prazo de prescrição na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro
         parágrafo, segunda frase, do Regulamento n.° 2988/95. Se a resposta for afirmativa, esse órgão jurisdicional pergunta‑se sobre
         se a existência dessa regulamentação sectorial priva os Estados‑Membros da possibilidade que lhes é conferida pelo artigo
         3.°, n.° 3, deste último regulamento de aplicar um prazo de prescrição mais longo do que o previsto no n.° 1, primeiro parágrafo,
         do referido artigo 3.°
      
      34      A Corman sustenta no essencial que, ao adoptar o Regulamento n.° 2571/97, e ainda que este não preveja um prazo de prescrição
         preciso aplicável à execução de garantias de adjudicação e/ou de transformação, o legislador da União entendeu tornar aplicável
         aos processos de adjudicação regulados pelo referido regulamento a regra de prescrição de quatro anos prevista de forma genérica
         pelo artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, primeira frase, do Regulamento n.° 2988/95. Nessa matéria, o Regulamento n.° 2571/97
         constitui uma regulamentação sectorial que se opõe à possibilidade de os Estados‑Membros aplicarem nesse sector, com base
         no artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95, prazos de prescrição superiores a quatro anos.
      
      35      Ao invés, os Governos belga e austríaco, bem como a Comissão, entendem que o Regulamento n.° 2571/97 não constitui uma regulamentação
         sectorial que preveja um prazo de prescrição inferior na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, segunda frase,
         do Regulamento n.° 2988/95. Além disso, mesmo pressupondo que o Regulamento n.° 2571/97 institui um prazo de prescrição inferior
         a quatro anos na acepção dessa disposição, estes sustentam que a existência desse prazo de prescrição não pode afectar a faculdade
         que os Estados‑Membros conservam, nos termos do n.° 3 do referido artigo 3.°, de prever prazos de prescrição mais longos.
      
      36      Antes de mais, há que recordar que o artigo 1.°, n.° 1, do Regulamento n.° 2988/95 institui uma «regulamentação geral em matéria
         de controlos homogéneos e de medidas e sanções administrativas relativamente a irregularidades no domínio do direito comunitário»,
         e isso, como resulta do terceiro considerando do referido regulamento, a fim de «combater em todos os domínios os actos lesivos
         dos interesses financeiros das Comunidades» (acórdão de 24 de Junho de 2004, Handlbauer, C‑278/02, Colect., p. I‑6171, n.° 31).
      
      37      Como resulta do artigo 4.°, n.° 1, deste regulamento, essas medidas administrativas podem consistir, como acontece no processo
         principal, na revogação de um benefício indevidamente obtido pela perda total ou parcial da garantia constituída em apoio
         do pedido desse benefício.
      
      38      O artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, do Regulamento n.° 2988/95 fixa, em matéria de procedimentos, um prazo de prescrição
         que é contado a partir da data em que foi praticada a irregularidade, a qual, segundo o artigo 1.°, n.° 2, do mesmo regulamento,
         consiste em «[q]ualquer violação de uma disposição de direito comunitário que resulte de um acto ou omissão de um agente económico
         que tenha ou possa ter por efeito lesar o orçamento geral das Comunidades […]» (v. acórdãos Handlbauer, já referido, n.os 32 e 33, e de 29 de Janeiro de 2009, Josef Vosding Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., C‑278/07 a C‑280/07, Colect.,
         p. I‑457, n.os 21 e 22).
      
      39      Ao adoptar o Regulamento n.° 2988/95, em particular o seu artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, o legislador da União pretendeu
         instituir uma regra geral de prescrição aplicável na matéria e mediante a qual procurava, por um lado, definir um prazo mínimo
         aplicado em todos os Estados‑Membros e, por outro, renunciar à possibilidade de abrir um procedimento devido a uma irregularidade
         que lesa os interesses financeiros da União Europeia depois de decorrido um período de quatro anos posterior à realização
         desta irregularidade (v. acórdão Josef Vosding Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., já referido, n.° 27).
      
      40      Daqui resulta que, a partir da data de entrada em vigor do Regulamento n.° 2988/95, qualquer irregularidade que lese os interesse
         financeiros da União pode, em princípio, com excepção dos sectores para os quais o legislador da União previu um prazo inferior,
         iniciar um procedimento pelas autoridades competentes dos Estados‑Membros, no prazo de quatro anos (v. acórdão Josef Vosding
         Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., já referido, n.° 28).
      
      41      No artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, segunda frase, do Regulamento n.° 2988/95, estão em causa regulamentações sectoriais
         adoptadas ao nível da União, como o confirma o quinto considerando deste regulamento, e não regulamentações sectoriais nacionais
         (acórdão Josef Vosding Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., já referido, n.° 44).
      
      42      Por outro lado, a regra que prevê uma prescrição de quatro anos, inserida no artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, primeira
         frase, do Regulamento n.° 2988/95, que é directamente aplicável nos Estados‑Membros, só pode ser afastada pela existência
         de uma regulamentação sectorial na acepção da segunda frase do referido artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, quando essa
         regulamentação sectorial prevê um prazo mais curto, mas não inferior a três anos (v., neste sentido, acórdão Handlbauer, já
         referido, n.° 35).
      
      43      A este respeito, o Regulamento n.° 2571/97 prevê, na verdade, prazos específicos que se aplicam, consoante o caso, ao proponente
         e ao adjudicatário no âmbito do regime de intervenção a favor da manteiga. Assim, em conformidade com o artigo 11.° deste
         regulamento, os produtos referidos no artigo 1.° do mesmo devem ser utilizados e incorporados num prazo de quatro meses seguintes
         ao mês em que expira o prazo para a apresentação de propostas e, nos termos do artigo 18.°, n.° 3, do referido regulamento,
         compete ao adjudicatário apresentar num prazo de doze meses seguintes ao termo do prazo previsto no referido artigo 11.° as
         provas necessárias para obter a liberação das garantias de transformação.
      
      44      Todavia, há que observar, à semelhança dos Governos belga e austríaco, bem como da Comissão, que este regulamento não prevê
         nenhuma regra de prescrição dos procedimentos que se aplicam ao organismo nacional de intervenção quando, depois de descobrir
         uma irregularidade, procede à execução das garantias constituídas pelo adjudicatário.
      
      45      Esta conclusão não pode ser posta em causa pelo facto de o artigo 29.° do Regulamento n.° 2220/85, que se tornou aplicável
         ao regime de intervenção no sector da manteiga pelo artigo 27.° do Regulamento n.° 2571/97, prever que, quando a autoridade
         competente tem conhecimento dos elementos que implicam a execução da garantia na totalidade ou em parte, pode pedir imediatamente
         ao interessado o pagamento do montante da garantia e que esse pagamento deve então ser feito num prazo máximo de 30 dias a
         contar do dia da recepção do pedido.
      
      46      Com efeito, partindo do princípio de que o dito artigo 29.° é aplicável no processo principal, o facto de, nos termos desse
         artigo, a autoridade competente dever agir «de imediato» não permite considerar que lhe é imposto um prazo determinado, contrariamente
         ao que a Corman sustenta.
      
      47      Por conseguinte, há que declarar que, nos processos de adjudicação como os que estão em causa no processo principal, a regulamentação
         aplicável ao regime de intervenção no sector da manteiga, ainda que pudesse constituir uma regulamentação sectorial na acepção
         do Regulamento n.° 2988/95, não previa um prazo de prescrição inferior a quatro anos na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro
         parágrafo, segunda frase, deste regulamento. Por isso, não há que questionar, no âmbito do presente processo, se a existência
         desse prazo constituiria um obstáculo à aplicação de prazos de prescrição mais longos pelos Estados‑Membros nos termos do
         artigo 3.°, n.° 3, do referido regulamento.
      
      48      No processo principal, as execuções das garantias podiam, na falta de acto suspensivo, prescrever no fim de um período de
         quatro anos a contar do cometimento da irregularidade, desde que, contudo, o Estado‑Membro em que as irregularidades foram
         cometidas não tivesse feito uso da faculdade que lhe é oferecida pelo artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95 de prever
         um prazo de prescrição mais longo (v. acórdão Josef Vosding Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., já referido, n.° 36).
      
      49      Com efeito, ao abrigo dessa disposição, os Estados‑Membros podem, por um lado, continuar a aplicar prazos de prescrição mais
         longos, existentes à data da adopção do referido regulamento, e, por outro, introduzir novas regras de prescrição que prevejam
         esses prazos após essa data. Além disso, a referida disposição não pode ser interpretada no sentido de que, no contexto da
         mesma, os Estados‑Membros são obrigados, quando prevêem prazos de prescrição mais longos, a fazê‑lo em legislações específicas
         e/ou sectoriais, de modo que esses prazos podem resultar de disposições de direito comum (v., neste sentido, acórdão Josef
         Vosding Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., já referido, n.os 42, 46 e 47).
      
      50      Tendo em conta as considerações precedentes, há que responder à primeira questão submetida que, na medida em que não prevê
         uma regra de prescrição dos procedimentos aplicável à execução de garantias constituídas no âmbito de operações de adjudicação
         no sector da manteiga, da manteiga concentrada e da nata, o Regulamento n.° 2571/97 não constitui uma regulamentação sectorial
         que prevê um «prazo mais reduzido» na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, segunda frase, do Regulamento n.° 2988/95.
         Por conseguinte, o prazo de prescrição de quatro anos definido no artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo, primeira frase, deste
         último regulamento aplica‑se a essa execução, sem prejuízo, contudo, da possibilidade que os Estados‑Membros conservam, nos
         termos do n.° 3 do referido artigo 3.°, de prever prazos de prescrição mais longos.
      
       Quanto à segunda questão
      51      Através da segunda questão, o órgão jurisdicional de reenvio pergunta se os prazos de prescrição mais longos que os Estados‑Membros
         podem continuar a aplicar ao abrigo do artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95 só podem referir‑se às situações em que
         a irregularidade é cometida pelo beneficiário do benefício obtido irregularmente em detrimento do orçamento da União.
      
      52      Noutro termos, esse órgão jurisdicional interroga‑se sobre a questão de saber se, na hipótese de a regulamentação prever um
         determinado prazo de prescrição aplicável às acções propostas pelo beneficiário de um regime de intervenção contra os seus
         co‑contratantes, os Estados‑Membros ainda conservam a possibilidade de fixar prazos de prescrição mais longos, na acepção
         do referido artigo 3.°, n.° 3, em situações em que as irregularidades tenham sido cometidas pelos referidos co‑contratantes.
      
      53      A Corman sustenta que, na medida em que a regulamentação aplicável prevê prazos referentes à transmissão das provas necessárias
         à liberação de certas garantias, o BIRB devia ter sido incitado a tratar em tempo útil as irregularidades cometidas anteriormente
         pelos co‑contratantes desta sociedade. Ora, ao agir mais de quatro anos após a prática das referidas irregularidades, o BIRB
         colocou a Corman na impossibilidade de repercutir sobre os seus co‑contratantes os montantes das cauções executadas, pois
         essa acção estava abrangida pelo prazo de prescrição de cinco anos previsto pelo direito belga em matéria de responsabilidade
         extracontratual. Além disso, na medida em que o artigo 4.° do Regulamento n.° 4045/89 impõe às empresas que participam nas
         acções financiadas pelo Fundo Europeu de Orientação e de Garantia Agrícola (FEOGA) a obrigação de conservarem os seus documentos
         comerciais apenas durante um período de três anos, não se deve permitir às autoridades nacionais que instaurem procedimentos
         por irregularidades para além desse prazo.
      
      54      Antes de mais, impõe‑se observar que, no âmbito da derrogação prevista no artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95, os
         Estados‑Membros conservam um amplo poder de apreciação quanto à fixação de prazos de prescrição mais longos que entendam aplicar
         num caso de irregularidade que lese os interesses financeiros da União.
      
      55      Com efeito, o Regulamento n.° 2988/95 não prevê nenhum mecanismo de informação ou de notificação relativo ao uso feito pelos
         Estados‑Membros da sua faculdade de preverem prazos de prescrição mais longos, em conformidade com o seu artigo 3.°, n.° 3.
         Assim, ao nível da União, não se previu nenhuma forma de fiscalização no que respeita tanto aos prazos de prescrição derrogatórios
         aplicados pelos Estados‑Membros ao abrigo dessa disposição como aos sectores em que estes tenham decidido aplicar esses prazos
         (acórdão Josef Vosding Schlacht‑, Kühl‑ und Zerlegebetrieb e o., já referido, n.° 45).
      
      56      Em seguida, ao invés do que a Corman sustenta, o artigo 4.° do Regulamento n.° 4045/89 não é susceptível de pôr em causa esta
         afirmação. Com efeito, há que observar, por um lado, que, mesmo prevendo que as empresas conservam alguns documentos comerciais
         durante um período de pelo menos três anos, essa disposição precisa que os Estados‑Membros podem prever um período mais longo
         para a conservação desses documentos. Por outro lado, nada impede que uma empresa diligente conserve os seus documentos comerciais
         por mais tempo do que o imposto pela regulamentação em vigor.
      
      57      Por último, na medida em que, nos termos do artigo 19.°, n.° 4, do Regulamento n.° 2571/97, «[o]s direitos e obrigações decorrentes
         do concurso não são transmissíveis», o adjudicatário permanece o responsável pelo destino final da manteiga e deve responder
         pelo comportamento dos seus co‑contratantes, bem como pelo dos compradores ulteriores (v., por analogia, acórdão de 5 de Dezembro
         de 1985, Corman, 124/83, Recueil, p. 3777, n.° 19).
      
      58      Assim, nos termos do artigo 12.°, n.° 1, alínea c), do Regulamento n.° 2571/97, o adjudicatário deve prever em cada contrato
         de venda a obrigação de incorporação nos produtos finais, bem como a obrigação de respeitar, designadamente, as disposições
         do artigo 10.° deste regulamento e o compromisso referido no artigo 3.°, alínea b), do dito regulamento.
      
      59      A este respeito, o Tribunal de Justiça já salientou que um adjudicatário diligente pode utilizar diversos meios, como a exigência
         de uma caução ou a inserção de uma cláusula indemnizatória no contrato de empreitada ou no contrato de venda, para evitar
         o incumprimento das suas obrigações pelos co‑contratantes subsequentes. Além disso, o Tribunal de Justiça já declarou que
         uma cláusula inserida por precaução pelo adjudicatário no contrato de venda não esgota todas as medidas possíveis para se
         precaver contra a eventualidade do incumprimento, pelos compradores ulteriores, das suas obrigações (v., por analogia, acórdão
         de 1 de Outubro de 1985, Corman, 125/83, Recueil, p. 3039, n.os 29 e 30).
      
      60      De qualquer forma, o controlo que o adjudicatário pode exercer em seguida sobre o respeito dessas obrigações ocorre no seu
         próprio interesse e não tem influência sobre a sua responsabilidade para com o organismo de venda (v., por analogia, acórdão
         de 5 de Dezembro de 1985, Corman, já referido, n.° 20).
      
      61      Por conseguinte, a circunstância de, usando a faculdade que lhe é conferida pelo artigo 3.°, n.° 3, do Regulamento n.° 2988/95,
         um Estado‑Membro fixar um prazo de prescrição mais longo do que o previsto no n.° 1 do referido artigo 3.° e poder, assim,
         tornar mais difícil a possibilidade de um adjudicatário como a Corman poder repercutir sobre os seus co‑contratantes as consequências
         financeiras das irregularidades cometidas por estes últimos não é susceptível, de qualquer forma, de limitar a referida faculdade.
      
      62      Tendo em conta o exposto, há que responder à segunda questão submetida que, quando iniciam um procedimento por irregularidade
         nos termos do artigo 1.° do Regulamento n.° 2988/95, os Estados‑Membros conservam a possibilidade de aplicar prazos de prescrição
         mais longos, nos termos do artigo 3.°, n.° 3, deste regulamento, inclusivamente no contexto do Regulamento n.° 2571/97, em
         situações em que as irregularidades pelas quais o adjudicatário deve responder tenham sido cometidas pelos seus co‑contratantes.
      
       Quanto às despesas
      63      Revestindo o processo, quanto às partes na causa principal, a natureza de incidente suscitado perante o órgão jurisdicional
         de reenvio, compete a este decidir quanto às despesas. As despesas efectuadas pelas outras partes para a apresentação de observações
         ao Tribunal de Justiça não são reembolsáveis.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Quarta Secção) declara:
      1)      Na medida em que não prevê uma regra de prescrição dos procedimentos aplicável à execução de garantias constituídas no âmbito
            de operações de adjudicação no sector da manteiga, da manteiga concentrada e da nata, o Regulamento (CE) n.° 2571/97 da Comissão,
            de 15 de Dezembro de 1997, relativo à venda a preço reduzido de manteiga e à concessão de uma ajuda à nata, à manteiga e à
            manteiga concentrada destinadas ao fabrico de produtos de pastelaria, de gelados alimentares e de outros produtos alimentares,
            não constitui uma regulamentação sectorial que prevê um «prazo mais reduzido» na acepção do artigo 3.°, n.° 1, primeiro parágrafo,
            segunda frase, do Regulamento (CE, Euratom) n.° 2988/95 do Conselho, de 18 de Dezembro de 1995, relativo à protecção dos interesses
            financeiros das Comunidades Europeias. Por conseguinte, o prazo de prescrição de quatro anos definido no artigo 3.°, n.° 1,
            primeiro parágrafo, primeira frase, deste último regulamento aplica‑se a essa execução, sem prejuízo, contudo, da possibilidade
            que os Estados‑Membros conservam, nos termos do n.° 3 do referido artigo 3.°, de prever prazos de prescrição mais longos.
      2)      Quando iniciam um procedimento por irregularidade nos termos do artigo 1.° do Regulamento n.° 2988/95, os Estados‑Membros
            conservam a possibilidade de aplicar prazos de prescrição mais longos, nos termos do artigo 3.°, n.° 3, deste regulamento,
            inclusivamente no contexto do Regulamento n.° 2571/97, em situações em que as irregularidades pelas quais o adjudicatário
            deve responder tenham sido cometidas pelos seus co‑contratantes.
      Assinaturas
      * Língua do processo: francês.