CELEX: 62008CJ0054
Language: pt
Date: 2011-05-24
Title: Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 24 de Maio de 2011.#Comissão Europeia contra República Federal da Alemanha.#Incumprimento de Estado - Artigo 43.º CE - Liberdade de estabelecimento - Notários - Requisito de nacionalidade - Artigo 45.º CE - Actividades ligadas ao exercício da autoridade pública - Directivas 89/48/CEE e 2005/36/CE.#Processo C-54/08.

Processo C‑54/08
      Comissão Europeia
      contra
      República Federal da Alemanha
      «Incumprimento de Estado – Artigo 43.° CE – Liberdade de estabelecimento – Notários – Requisito da nacionalidade – Artigo 45.° CE – Actividades ligadas ao exercício da autoridade pública – Directivas 89/48/CEE e 2005/36/CE»
      Sumário do acórdão
      1.        Livre circulação de pessoas – Liberdade de estabelecimento – Livre prestação de serviços – Derrogações – Actividades que fazem
            parte do exercício da autoridade pública – Actividades notariais – Exclusão – Requisito da nacionalidade para acesso à profissão
            de notário – Inadmissibilidade
      (Artigos 43.° CE e 45.°, primeiro parágrafo, CE)
      2.        Acção por incumprimento – Objecto do litígio – Determinação durante o procedimento pré‑contencioso – Adaptação devido a uma
            alteração no direito da União – Admissibilidade – Requisitos
      (Artigo 226.° CE)
      3.        Acção por incumprimento – Exame do mérito pelo Tribunal de Justiça – Situação a tomar em consideração – Situação no termo
            do prazo fixado no parecer fundamentado – Situação de incerteza resultante de circunstâncias especiais ocorridas aquando do
            processo legislativo – Inexistência de incumprimento
      (Artigos 43.° CE, 45.°, primeiro parágrafo, CE e 226.° CE; Directiva 2005/36 do Parlamento Europeu e do Conselho)
      1.        Não cumpre as obrigações que lhe incumbem por força do disposto no artigo 43.º CE um Estado‑Membro cuja legislação impõe um
         requisito de nacionalidade para o acesso à profissão de notário, se as actividades confiadas aos notários na ordem jurídica
         desse Estado‑Membro não fizerem parte do exercício da autoridade pública na acepção do artigo 45.º, primeiro parágrafo, CE.
         A este respeito, o artigo 45.º, primeiro parágrafo, CE constitui uma derrogação à regra fundamental da liberdade de estabelecimento
         que deve ser objecto de uma interpretação que limite o seu alcance ao estritamente necessário para salvaguardar os interesses
         que esta disposição permite aos Estados‑Membros proteger. Além disso, a derrogação deve restringir‑se apenas às actividades
         que, consideradas em si mesmas, apresentem uma ligação directa e específica ao exercício da autoridade pública.
      
      Para verificar se as actividades atribuídas aos notários comportam uma ligação directa e específica ao exercício da autoridade
         pública, há que tomar em consideração a natureza das actividades exercidas pelos notários. A este respeito, uma ligação directa
         e específica ao exercício da autoridade pública na acepção do artigo 45.º, primeiro parágrafo, CE não comporta as diferentes
         actividades exercidas pelos notários, não obstante os efeitos jurídicos importantes conferidos aos seus actos, na medida em
         que um acordo de vontade entre as partes, a supervisão ou a decisão do juiz revestem uma importância especial.
      
      Com efeito, no que diz respeito aos actos autênticos, só são objecto de autenticação os actos ou as convenções a que as partes
         livremente aderiram, não podendo assim o notário alterar unilateralmente a convenção que é chamado a autenticar sem ter previamente
         obtido o consentimento das partes. Além disso, embora seja certo que a obrigação de verificação que incumbe ao notário prossegue
         um objectivo de interesse geral, contudo, a mera prossecução desse objectivo não pode justificar que as prerrogativas necessárias
         para esse fim estejam reservadas apenas aos notários nacionais do Estado‑Membro em causa nem ser suficiente para que se considere
         que uma determinada actividade está directa e especificamente ligada ao exercício da autoridade pública.
      
      Por outro lado, no que respeita à força executória, embora a aposição pelo notário da fórmula executória no acto autêntico
         confira a este último força executória, esta assenta na vontade de as partes celebrarem um acto ou uma convenção, depois de
         o notário verificar a respectiva conformidade com a lei, e de lhes conferir a referida força executória. Do mesmo modo, a
         força probatória de que goza um acto notarial decorre do regime probatório e não tem, por conseguinte, incidência directa
         na questão de saber se a actividade ao abrigo da qual esse acto é lavrado, considerada em si mesma, tem uma ligação directa
         e específica ao exercício da autoridade pública, tanto mais que o acto notarial não vincula incondicionalmente o juiz no exercício
         do seu poder de apreciação, tomando este a sua decisão de acordo com a sua convicção pessoal.
      
      Estas considerações aplicam‑se, mutatis mutandis, aos actos que devem ser celebrados através de acto notarial, sob pena de nulidade, como, nomeadamente, os contratos relativos
         à aquisição e à transferência do direito de propriedade sobre um terreno e à transferência de património actual, as promessas
         de doação, as convenções antenupciais, os pactos sucessórios bem como os contratos relativos ao repúdio de sucessão ou à legítima
         bem como no que respeita à intervenção do notário em matéria de direito das sociedades.
      
      Um Estado‑Membro também não pode invocar, a este respeito, a competência conferida aos notários num determinado Land para autenticar os actos por meio dos quais é constituída uma relação duradoura formalmente registada entre pessoas do mesmo
         sexo, uma vez que essa relação deve, além disso, para produzir os seus efeitos, ser inscrita na Conservatória do Registo Civil
         pelo conservador do registo civil, que, aliás, é responsável pela administração do referido registo.
      
      Por último, no que respeita ao estatuto específico dos notários, em primeiro lugar, resulta que a qualidade dos serviços fornecidos
         pode variar de um notário para outro, em função, nomeadamente, das aptidões profissionais das pessoas em causa que, nos limites
         das respectivas competências territoriais, os notários exercem a sua profissão em condições de concorrência, o que não constitui
         uma característica do exercício da autoridade pública. Em segundo lugar, os notários são directa e pessoalmente responsáveis,
         perante os seus clientes, pelos danos resultantes dos erros cometidos no exercício das suas actividades profissionais.
      
      (cf. n.os 83, 85‑86, 88‑89, 91‑92, 95‑97, 99‑101, 103, 106‑111, 116)
      
      2.        No âmbito de uma acção por incumprimento, embora os pedidos contidos na petição inicial não possam, em princípio, ser ampliados
         para além dos incumprimentos alegados nas conclusões do parecer fundamentado e na notificação para cumprir, na verdade, a
         Comissão pode procurar obter a declaração de um incumprimento das obrigações que têm origem na versão inicial de um acto da
         União, posteriormente alterado ou revogado, e que foram mantidas pelas disposições de um novo acto da União. Em contrapartida,
         o objecto do litígio não pode ser ampliado a obrigações resultantes de novas disposições que não tenham equivalência na versão
         inicial do acto em questão, sob pena de constituir uma violação das formalidades essenciais da regularidade do processo destinado
         a declarar o incumprimento.
      
      (cf. n.° 128)
      3.        Quando, no decurso do processo legislativo, circunstâncias específicas como a não tomada de posição clara do legislador ou
         a não precisão clara relativamente à determinação do âmbito de aplicação de uma disposição do Direito da União, dêem origem
         a uma situação de incerteza, não é possível constatar que existia, no termo do prazo concedido no parecer fundamentado, uma
         obrigação suficientemente clara de os Estados‑Membros transporem uma directiva.
      
      (cf. n.os 140‑142)
      
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Grande Secção)
      24 de Maio de 2011 (*)
      
      «Incumprimento de Estado – Artigo 43.° CE – Liberdade de estabelecimento – Notários – Requisito da nacionalidade – Artigo 45.° CE – Actividades ligadas ao exercício da autoridade pública – Directivas 89/48/CEE e 2005/36/CE»
      No processo C‑54/08,
      que tem por objecto uma acção por incumprimento nos termos do artigo 226.° CE, entrada em 12 de Fevereiro de 2008,
      Comissão Europeia, representada por H. Støvlbæk e G. Braun, na qualidade de agentes, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
      
      demandante,
      apoiada por:
      Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte, representado por S. Behzadi‑Spencer, na qualidade de agente,
      
      interveniente,
      contra
      República Federal da Alemanha, representada por M. Lumma, J. Kemper, U. Karpenstein e J. Möller, na qualidade de agentes, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
         
      
      demandada,
      apoiada por:
      República da Bulgária, representada por T. Ivanov e E. Petranova, na qualidade de agentes,
      
      República Checa, representada por M. Smolek, na qualidade de agente,
      
      República da Estónia, representada por L. Uibo, na qualidade de agente,
      
      República Francesa, representada por G. de Bergues e B. Messmer, na qualidade de agentes,
      
      República da Letónia, representada por L. Ostrovska, K. Drēviņa e J. Barbale, na qualidade de agentes,
      
      República da Lituânia, representada por D. Kriaučiūnas e E. Matulionytė, na qualidade de agentes,
      
      República da Hungria, representada por R. Somssich, K. Veres e M. Fehér, na qualidade de agentes,
      
      República da Áustria, representada por E. Riedl, G. Holley e M. Aufner, na qualidade de agentes, com domicílio escolhido no Luxemburgo,
      
      República da Polónia, representada por M. Dowgielewicz, C. Herma e D. Lutostańska, na qualidade de agentes,
      
      República da Eslovénia, representada por V. Klemenc e Ž. Cilenšek Bončina, na qualidade de agentes,
      
      República Eslovaca, representada por J. Čorba e B. Ricziová, na qualidade de agentes,
      
      intervenientes,
      O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Grande Secção),
      composto por: V. Skouris, presidente, A. Tizzano, J. N. Cunha Rodrigues, K. Lenaerts, J.‑C. Bonichot, A. Arabadjiev (relator)
         e J.‑J. Kasel, presidentes de secção, R. Silva de Lapuerta, E. Juhász, G. Arestis, M. Ilešič, C. Toader e M. Safjan, juízes,
      
      advogado‑geral: P. Cruz Villalón,
      secretário: M.‑A. Gaudissart, chefe de unidade,
      vistos os autos e após a audiência de 27 de Abril de 2010,
      ouvidas as conclusões do advogado‑geral na audiência de 14 de Setembro de 2010,
      profere o presente
      Acórdão
      1        Através da sua petição, a Comissão das Comunidades Europeias pede ao Tribunal de Justiça que declare que, ao impor um requisito
         de nacionalidade para o acesso à profissão de notário e ao não ter transposto, relativamente a esta profissão, a Directiva
         89/48/CEE do Conselho, de 21 de Dezembro de 1988, relativa a um sistema geral de reconhecimento dos diplomas de ensino superior
         que sancionam formações profissionais com uma duração mínima de três anos (JO 1989, L 19, p. 16), conforme alterada pela Directiva
         2001/19/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 14 de Maio de 2001 (JO L 206, p. 1, a seguir «Directiva 89/48»), e/ou a
         Directiva 2005/36/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 7 de Setembro de 2005, relativa ao reconhecimento das qualificações
         profissionais (JO L 255, p. 22), a República Federal da Alemanha não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força dos
         artigos 43.° CE e 45.° CE e por força destas directivas.
      
       Quadro jurídico
       Direito da União
      2        O considerando 12 da Directiva 89/48 enunciava que «o sistema geral de reconhecimento de diplomas do ensino superior em nada
         prejudica a aplicação do artigo [45.° CE]».
      
      3        O artigo 2.° da Directiva 89/48 tinha a seguinte redacção:
      
      «A presente directiva aplica‑se aos nacionais de um Estado‑Membro que desejem exercer, como independentes ou assalariados,
         uma profissão regulamentada num Estado‑Membro de acolhimento.
      
      A presente directiva não se aplica às profissões que sejam objecto de uma directiva específica que institua o reconhecimento
         mútuo de diplomas entre os Estado‑Membros.»
      
      4        A profissão de notário não foi objecto de regulamentação do tipo da visada no referido artigo 2.°, segundo parágrafo.
      
      5        A Directiva 89/48 previa um prazo de transposição que expirava, em conformidade com o disposto no seu artigo 12.°, em 4 de
         Janeiro de 1991.
      
      6        A Directiva 2005/36 revogou, nos termos do seu artigo 62.°, a Directiva 89/48, com efeitos a partir de 20 de Outubro de 2007.
      
      7        O considerando 9 da Directiva 2005/36 tem a seguinte redacção:
      
      «No que se refere à liberdade de estabelecimento, sem deixar de manter os princípios e as garantias subjacentes aos diferentes
         sistemas de reconhecimento em vigor, as regras destes sistemas deveriam ser melhoradas à luz da experiência. Além disso, as
         directivas pertinentes foram alteradas por diversas vezes, sendo necessária uma reorganização, bem como uma racionalização
         do que nelas se encontra disposto através da uniformização dos princípios aplicáveis. Para tal, é necessário substituir as
         Directivas 89/48/CEE [...]»
      
      8        O considerando 14 desta directiva enuncia:
      
      «O mecanismo de reconhecimento estabelecido [pela Directiva 89/48] mantém‑se inalterado. [...]»
      9        Nos termos do considerando 41 da Directiva 2005/36, esta «não prejudica a aplicação do n.° 4 do artigo 39.° [CE] e do artigo
         45.° [CE], designadamente no que diz respeito aos notários».
      
       Legislação nacional
       Organização geral da profissão de notário
      10      A actividade de notário, na ordem jurídica alemã, com excepção do Land de Bade‑Wurtemberg, é exercida no âmbito de uma profissão liberal. A organização da profissão de notário é regulada pelo
         Código Federal do Notariado (Bundesnotarordnung) de 24 de Fevereiro de 1961 (BGBl. 1961 I, p. 97), conforme alterado pela
         Sexta Lei de Alteração do Código Federal do Notariado (Sechstes Gesetz zur Änderung der Bundesnotarordnung) de 15 de Julho
         de 2006 (BGBl. 2006 I, p. 1531, a seguir «BNotO»).
      
      11      Os notários são nomeados pelos Länder, em conformidade com o disposto no § 1 do BNotO, na qualidade de funcionários públicos independentes, encarregados da autenticação
         de actos jurídicos e de outras funções no domínio da «administração preventiva da justiça». 
      
      12      O § 4, primeiro período, do BNotO prevê que o número de notários a nomear é o que corresponde às necessidades de uma boa administração
         da justiça.
      
      13      É atribuído ao notário, em conformidade com o disposto no § 10, n.os 1, primeiro período, e 2, primeiro período, do BNotO, um determinado lugar como sede das suas actividades, onde é obrigado
         a ter o seu escritório. Em princípio, o exercício das suas actividades é circunscrito, em conformidade com o disposto nos
         §§ 10a e 11 do BNotO, a uma determinada área territorial. 
      
      14      Nos termos do § 17, n.° 1, primeiro período, do BNotO, o notário recebe como contrapartida da sua actividade os honorários
         previstos na lei. 
      
      15      Em conformidade com o disposto no § 19, n.° 1, do BNotO, o notário é o único responsável pelos actos desempenhados no âmbito
         da sua actividade profissional, estando, a este respeito, excluída a responsabilidade do Estado.
      
      16      No Land de Bade‑Wurtemberg, em conformidade com a possibilidade prevista no § 115, n.° 1, do BNotO, a função notarial é exercida,
         no território de Bade, por «Notare im Landesdienst» (notários ao serviço do Land), que são funcionários empregados pelo Land. No restante território da República Federal da Alemanha, e consoante os Länder, o notário exerce a sua profissão, nos termos do § 3 do BNotO, a título exclusivo ou juntamente com a profissão de advogado
         («Anwaltsnotare»).
      
      17      A função de notário só pode ser exercida, nos termos do § 5 do BNotO, por um nacional alemão.
      
       Actividades notariais
      18      Em conformidade com o disposto no § 20, n.° 1, primeiro período, do BNotO, o notário é competente para proceder a qualquer
         tipo de autenticação, para reconhecer assinaturas e sinais manuscritos e para certificar cópias. A intervenção do notário
         pode ser obrigatória ou facultativa, em função do acto que seja chamado a autenticar. Quando intervém, o notário verifica
         se estão reunidos todos os requisitos legalmente exigidos para a realização do acto em causa assim como a capacidade jurídica
         e a capacidade para agir das partes em causa. 
      
      19      Em conformidade com o § 17, n.° 1, da Lei relativa à autenticação dos documentos (Beurkundungsgesetz) de 28 de Agosto de 1969
         (BGBl. 1969 I, p. 1513), conforme alterada pela Lei de 23 de Julho de 2002 (BGBl. 2002 I, p. 2850), o notário deve procurar
         determinar qual é a vontade das partes interessadas, clarificar os factos, informar as partes sobre o alcance jurídico do
         acto em questão e reproduzir por escrito as suas declarações, de forma clara e inequívoca, para evitar erros ou dúvidas e
         que uma parte inexperiente seja prejudicada. 
      
      20      Nos termos do § 4 desta lei, conforme alterada, o notário deve recusar a autenticação quando esta não seja conciliável com
         os deveres da sua função, em especial quando a sua intervenção seja solicitada para participar na prossecução de um objectivo
         manifestamente ilícito ou desonesto.
      
      21      O § 286 do Código de Processo Civil (Zivilprozessordnung), na sua versão publicada em 5 de Dezembro de 2005 (BGBl. 2005 I,
         p. 3202, e rectificações no BGBl. 2006 I, p. 431, e no BGBl. 2007 I, p. 1781, a seguir «ZPO»), consagra o princípio da livre
         apreciação da prova pelo juiz. 
      
      22      O § 415, n.° 1, do ZPO, que figura no título 9, «Provas documentais», do capítulo 1 do livro 2 deste código, prevê que os
         documentos exarados, de acordo as formalidades prescritas, por uma autoridade pública no âmbito das suas competências ou por
         uma pessoa investida de fé pública no âmbito da esfera de actividades que lhe é confiada, a saber, os actos autênticos, fazem
         prova plena e integral, quando são elaborados relativamente a uma declaração feita perante a autoridade ou a pessoa habilitada
         a exarar o documento, do evento autenticado pela autoridade ou pela pessoa em causa. Segundo o § 415, n.° 2, do ZPO, é, em
         princípio, admissível a prova de que este evento foi autenticado de forma incorrecta.
      
      23      Do mesmo modo, o §  418, n.° 1, do ZPO prevê que os actos autênticos que tenham um conteúdo diferente dos referidos no § 415
         fazem prova plena e integral dos factos que certificam, se o testemunho for baseado na percepção pessoal da autoridade pública
         ou da pessoa que beneficia da fé pública. Segundo o § 418, n.° 2, do ZPO, é, em princípio, admissível a prova de que os factos
         comprovados são incorrectos.
      
      24      Em direito civil, o § 125 do Código Civil (Bürgerliches Gesetzbuch), na sua versão publicada em 2 de Janeiro de 2002 (BGBl.
         2002 I, p. 42, e rectificações no BGBl. 2002 I, p. 2909, e no BGBl. 2003 I, p. 738), prevê que a inobservância da forma prescrita
         por lei para a realização de um acto jurídico provoca a nulidade deste.
      
      25      Neste contexto, certas transacções devem ser celebradas por acto notarial, sob pena de nulidade. Trata‑se, nomeadamente, dos
         contratos relativos à aquisição e à transferência do direito de propriedade sobre um terreno e à transferência de um património
         actual, das promessas de doação, das convenções antenupciais, dos pactos sucessórios e dos contratos relativos ao repúdio
         de sucessão ou à legítima. 
      
      26      Os notários com sede no Land da Baviera podem, nos termos do § 1, n.° 1, primeiro período, da Lei de execução da lei relativa às relações duradouras formalmente
         registadas (Gesetz zur Ausführung des Lebenspartnerschaftsgesetzes) de 26 de Outubro de 2001 (Bayerisches GVBl., p. 677),
         conforme alterada pela Lei de 10 de Dezembro de 2005 (Bayerisches GVBl., p. 586, a seguir «AGLPartG»), autenticar os actos
         por meio dos quais é constituída uma relação duradoura formalmente registada entre pessoas do mesmo sexo. De acordo com as
         disposições do § 2 da AGLPartG, o notário comunica a constituição dessa relação duradoura à Conservatória do Registo Civil
         competente, que fica encarregada de a inscrever no registo civil por si administrado.
      
      27      Em direito das sociedades, os §§ 23, n.° 1, primeiro período, 30, n.° 1, e 130, n.° 1, primeiro período, da Lei relativa às
         sociedades anónimas (Aktiengesetz) de 6 de Setembro de 1965 (BGBl. 1965 I, p. 1089), conforme alterada pela Lei de 22 de Setembro
         de 2005 (BGBl. 2005 I, p. 2802), estabelecem a exigência de autenticação notarial para os estatutos de uma sociedade anónima,
         para a nomeação do primeiro conselho de supervisão de uma nova sociedade anónima e para as deliberações da assembleia geral
         dessa sociedade. Os §§ 2, n.° 1, primeiro período, e 53, n.° 2, primeiro período, da Lei relativa às sociedades de responsabilidade
         limitada (Gesetz betreffend die Gesellschaften mit beschränkter Haftung, RGBl. 1898, p. 846), conforme alterada pela Lei de
         4 de Julho de 1980 (BGBl. 1980 I, p. 836), impõem a forma notarial para a celebração e a alteração de um contrato que cria
         uma sociedade de responsabilidade limitada. Do mesmo modo, todas as transformações de pessoas colectivas ou de entidades através
         de fusão, cessão de activos ou alteração da forma jurídica devem ser feitas através de documento notarial, nos termos dos
         §§ 6, 163, n.° 3, e 193, n.° 3, primeiro período, da Lei relativa às transformações das sociedades (Umwandlungsgesetz) de
         28 de Outubro de 1994 (BGBl. 1994 I, p. 3210, e rectificação no BGBl. 1995 I, p. 428).
      
      28      Nos termos do § 794, n.° 1, ponto 5, do ZPO, a execução coerciva tem por base, quando estejam reunidos certos requisitos,
         actos autênticos exarados por um notário alemão de acordo com a forma prescrita no âmbito das suas competências se, no acto
         autêntico, o devedor se tiver sujeitado, relativamente ao direito em causa, a uma execução coerciva imediata.
      
      29      Nos termos do § 797, n.° 2, do ZPO, o notário que conserva o acto autêntico entrega cópias executórias.
      
      30      A impugnação contra a aposição da fórmula executória prevista no § 797, n.° 3, do ZPO permite que sejam invocados fundamentos
         formais e materiais contra a aposição desta fórmula. Do mesmo modo, o § 797, n.° 4, do ZPO permite pôr em causa, no âmbito
         de um processo de oposição à execução coerciva, o direito confirmado no acto autêntico em causa.
      
       Procedimento pré‑contencioso
      31      Foi apresentada à Comissão uma queixa relativa ao requisito de nacionalidade para o acesso à profissão de notário na Alemanha.
         Depois de ter examinado esta queixa, a Comissão, por carta de 8 de Novembro de 2000, enviou à República Federal da Alemanha
         uma notificação para cumprir, para que esta, no prazo de dois meses, lhe apresentasse as suas observações a propósito, nomeadamente,
         por um lado, da conformidade do referido requisito de nacionalidade com o artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE e, por outro,
         da não transposição da Directiva 89/48, no que respeita à profissão de notário. 
      
      32      Por carta de 20 de Março de 2001, a República Federal da Alemanha respondeu à referida notificação para cumprir.
      
      33      Em 10 de Julho de 2002, a Comissão enviou a este Estado‑Membro uma notificação para cumprir complementar, na qual o acusava
         de não ter cumprido as obrigações que lhe incumbem por força dos artigos 43.° CE e 45.°, primeiro parágrafo, CE e da Directiva
         89/48.
      
      34      O referido Estado‑Membro respondeu a esta notificação para cumprir complementar, por carta de 31 de Outubro de 2002.
      
      35      Não tendo ficado convencida com os argumentos invocados pela República Federal da Alemanha, a Comissão, em 18 de Outubro de
         2006, enviou a este Estado‑Membro um parecer fundamentado, no qual concluiu que este não tinha cumprido as obrigações que
         lhe incumbem por força dos artigos 43.° CE e 45.°, primeiro parágrafo, CE e da Directiva 89/48. Esta instituição convidou
         o referido Estado‑Membro a adoptar as medidas necessárias para dar cumprimento ao parecer fundamentado no prazo de dois meses
         a contar da sua recepção.
      
      36      Por carta de 18 de Dezembro de 2006, a República Federal da Alemanha apresentou os motivos pelos quais considerava que a posição
         defendida pela Comissão não era procedente.
      
      37      Foi nestas condições que a Comissão decidiu intentar a presente acção.
      
       Quanto à acção
       Quanto ao primeiro fundamento
       Argumentos das partes
      38      Através do seu primeiro fundamento, a Comissão pede ao Tribunal de Justiça que declare que, ao reservar o acesso à profissão
         de notário unicamente aos seus próprios nacionais, a República Federal da Alemanha não cumpriu as obrigações que lhe incumbem
         por força dos artigos 43.° CE e 45.°, primeiro parágrafo, CE.
      
      39      Esta instituição sublinha, a título preliminar, que o acesso à profissão de notário não está sujeito a nenhum requisito de
         nacionalidade em certos Estado‑Membros e que este requisito foi eliminado por outros Estados‑Membros, como o Reino de Espanha,
         a República Italiana e a República Portuguesa. 
      
      40      Em primeiro lugar, a Comissão recorda que o artigo 43.° CE constitui uma das disposições fundamentais do direito da União
         que visa garantir o direito ao tratamento nacional a todos os nacionais de um Estado‑Membro que se estabeleçam noutro Estado‑Membro,
         mesmo que a título secundário, para aí exercerem uma actividade não assalariada, e proíbe qualquer discriminação em razão
         da nacionalidade.
      
      41      Esta instituição e o Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte alegam que o artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE deve
         ser objecto de uma interpretação autónoma e uniforme (acórdão de 15 de Março de 1988, Comissão/Grécia, 147/86, Colect., p. 1637,
         n.° 8). Na parte em que prevê uma excepção à liberdade de estabelecimento para as actividades ligadas ao exercício da autoridade
         pública, este artigo deve, além disso, ser interpretado de forma estrita (acórdão de 21 de Junho de 1974, Reyners, 2/74, Colect.,
         p. 325, n.° 43).
      
      42      A excepção prevista no artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE deve assim ser restringida às actividades que, em si próprias,
         constituem a participação directa e específica no exercício do poder público (acórdão Reyners, já referido, n.os 44 e 45). Segundo a Comissão, o conceito de poder público decorre de um poder de decisão que extravase do direito comum,
         que se traduz na capacidade de agir independentemente da vontade de outros sujeitos ou mesmo contra essa vontade. Em especial,
         a autoridade pública manifesta‑se, segundo a jurisprudência do Tribunal de Justiça, através do exercício de poderes para impor
         obrigações (acórdão de 29 de Outubro de 1998, Comissão/Espanha, C‑114/97, Colect., p. I‑6717, n.° 37). 
      
      43      A Comissão e o Reino Unido são de opinião de que as actividades que estão ligadas ao exercício da autoridade pública devem
         ser distinguidas das que são exercidas no interesse geral. Com efeito, são atribuídas a diversas profissões competências específicas
         no interesse geral, que não são suficientes para conferir à sua actividade a natureza de exercício da autoridade pública.
         
      
      44      Também ficam excluídas do âmbito de aplicação do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE as actividades que constituem assistência
         ou colaboração no funcionamento da autoridade pública (v., neste sentido, acórdão de 13 de Julho de 1993, Thijssen, C‑42/92,
         Colect., p. I‑4047, n.° 22). 
      
      45      Além disso, a Comissão e o Reino Unido recordam que o artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE visa, em princípio, actividades
         determinadas, e não uma profissão na sua totalidade, a menos que as actividades em causa não sejam destacáveis do conjunto
         das que são exercidas no âmbito da referida profissão. 
      
      46      A Comissão procede, em segundo lugar, ao exame das diferentes actividades exercidas pelo notário na ordem jurídica alemã.
         
      
      47      No que respeita à autenticação dos actos e das convenções, a Comissão alega que o notário se limita a testemunhar a vontade
         das partes, depois de as ter aconselhado, e a conferir efeitos jurídicos a essa vontade. No exercício desta actividade, o
         notário não dispõe de poder decisório relativamente às partes. 
      
      48      O facto de esta actividade ser considerada na legislação alemã como pertencente ao domínio da «justiça preventiva» não põe
         em causa esta análise, uma vez que a actividade dos notários não está ligada ao exercício da autoridade pública, na medida
         em que não têm poder para impor decisões.
      
      49      Assim, a autenticação efectuada pelo notário mais não é do que a confirmação de um acordo prévio entre as partes. O facto
         de certos actos deverem obrigatoriamente ser autenticados não é relevante, uma vez que vários procedimentos têm carácter obrigatório,
         sem, no entanto, constituírem a manifestação do exercício da autoridade pública.
      
      50      Sucede o mesmo com as especificidades do regime da prova respeitante aos actos notariais, sendo também conferida força probatória
         comparável a outros actos que não estão abrangidos pelo exercício da autoridade pública, como os autos levantados pelos guardas‑rurais,
         pelos guardas‑florestais, pelos guardas‑florestais auxiliares e pelos guarda‑rios ajuramentados. O facto de o notário se responsabilizar
         no momento em que são lavrados os actos notariais também não é pertinente. Com efeito, é o que acontece com a maioria dos
         profissionais independentes, como os advogados, os arquitectos ou os médicos.
      
      51      Quanto à força executória dos actos autênticos, a Comissão considera que a aposição da fórmula executória antecede a execução
         propriamente dita, sem dela fazer parte. Deste modo, esta força executória não confere aos notários o poder para impor obrigações.
         Por outro lado, as eventuais impugnações são decididas não pelo notário mas pelo juiz.
      
      52      A actividade de consultor jurídico, ligada, regra geral, à actividade de autenticação, exercida pelo notário na ordem jurídica
         alemã, também não constitui uma actividade ligada ao exercício da autoridade pública.
      
      53      A Comissão é da opinião de que, diversamente do que sucede com os conservadores do registo civil, os notários são, regra geral,
         encarregados, não da constituição e da alteração do estado civil mas da regulação da partilha dos bens entre parceiros. As
         funções confiadas, na Baviera, aos notários em matéria de parcerias duradouras formalmente registadas entre pessoas do mesmo
         sexo não permite fazer nenhuma dedução no que respeita à apreciação, à luz do direito da União, da intervenção qualificada
         dos notários no exercício da autoridade pública.
      
      54      Em terceiro lugar, a Comissão considera, à semelhança do Reino Unido, que as regras do direito da União que contêm referências
         à actividade notarial não prejudicam a aplicação dos artigos 43.° CE e 45.°, primeiro parágrafo, CE a esta actividade. 
      
      55      Com efeito, no que respeita ao Regulamento (CE) n.° 44/2001 do Conselho, de 22 de Dezembro de 2000, relativo à competência
         judiciária, ao reconhecimento e à execução de decisões em matéria civil e comercial (JO 2001, L 12, p. 1), e ao Regulamento
         (CE) n.° 805/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de Abril de 2004, que cria o título executivo europeu para créditos
         não contestados (JO L 143, p. 15), a Comissão considera que estes regulamentos se limitam a prever a obrigação de os Estados‑Membros
         reconhecerem e conferirem força executória a actos recebidos e executórios noutro Estado‑Membro.
      
      56      Além disso, o Regulamento (CE) n.° 2157/2001 do Conselho, de 8 de Outubro de 2001, relativo ao estatuto da sociedade europeia
         (SE) (JO L 294, p. 1), o Regulamento (CE) n.° 1435/2003 do Conselho, de 22 de Julho de 2003, relativo ao Estatuto da Sociedade
         Cooperativa Europeia (SCE) (JO L 207, p. 1), e a Directiva 2005/56/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de  26 de Outubro
         de 2005, relativa às fusões transfronteiriças das sociedades de responsabilidade limitada (JO L 310, p. 1), não são pertinentes
         para a resolução do presente litígio, uma vez que se limitam a atribuir aos notários, bem como a outras autoridades competentes
         designadas pelos Estados‑Membros, a função de certificar a realização de certos actos e formalidades prévios à transferência
         de sede, à constituição e à fusão de sociedades.
      
      57      Por seu turno, a Resolução do Parlamento Europeu de 23 de Março de 2006 sobre as profissões jurídicas e o interesse geral
         no funcionamento da ordem jurídica (JO C 292E, p. 105, a seguir «Resolução de 2006») constitui um acto puramente político,
         cujo conteúdo é ambíguo porque, por um lado, no n.° 17 desta resolução, o Parlamento Europeu afirmou que o artigo 45.° CE
         se deve aplicar à profissão de notário, quando, por outro, no seu n.° 2, confirmou a posição formulada na sua Resolução de
         18 de Janeiro de 1994 sobre a situação e organização do notariado nos doze Estados‑Membros da Comunidade (JO C 44, p. 36,
         a seguir «Resolução de 1994»), na qual manifestava o desejo de que o requisito da nacionalidade para o acesso à profissão
         de notário, previsto na regulamentação de vários Estados‑Membros, fosse eliminado.
      
      58      A Comissão e o Reino Unido acrescentam que o processo que deu origem ao acórdão de 30 de Setembro de 2003, Colegio de Oficiales
         de la Marina Mercante Española (C‑405/01, Colect., p. I‑10391), ao qual vários Estados‑Membros se referem nas suas observações
         escritas, dizia respeito ao exercício, por parte dos capitães e dos imediatos de navios   mercantes, de um vasto conjunto
         de funções de manutenção da segurança, de poderes de polícia, bem como de competências em matéria notarial e de registo civil.
         Deste modo, o Tribunal de Justiça não teve a ocasião de examinar em pormenor as diferentes actividades exercidas pelos notários,
         à luz do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE. Por conseguinte, este acórdão não é suficiente para se concluir pela aplicação
         desta disposição aos notários.
      
      59      Por outro lado, contrariamente ao que afirma a República Federal da Alemanha, a jurisprudência do Tribunal de Justiça distingue
         os notários das autoridades públicas, quando reconhece que um acto autêntico pode ser elaborado por uma autoridade pública
         ou qualquer outra autoridade para isso habilitada (acórdão de 17 de Junho de 1999, Unibank, C‑260/97, Colect., p. I‑3715,
         n.os 15 e 21).
      
      60      A República Federal da Alemanha, apoiada pela República da Bulgária, pela República Checa, pela República da Estónia, pela
         República Francesa, pela República da Letónia, pela República da Lituânia, pela República da Hungria, pela República da Áustria,
         pela República da Polónia, pela República da Eslovénia e pela República Eslovaca, alega que as actividades dos notários estão
         ligadas ao exercício da autoridade pública na acepção do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE.
      
      61      A República Federal da Alemanha considera, à semelhança da Comissão, que o conceito de «autoridade pública», na acepção do
         artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE, deve ser interpretado de forma autónoma e que este conceito deve ser objecto de interpretação
         estrita. Este Estado‑Membro, a República da Estónia, a República da Polónia e a República Eslovaca consideram, contudo, que
         o exercício de prerrogativas exorbitantes e de poderes de coerção assim como a existência de uma relação hierárquica com os
         cidadãos não constituem as únicas formas de exercício da autoridade pública. Do mesmo modo, a República da Letónia observa
         que as actividades ligadas ao exercício da autoridade pública não se limitam apenas às actividades de tomada de decisões independentemente
         da vontade dos interessados.
      
      62      Segundo a República Federal da Alemanha, outras actividades podem também fazer parte do conceito de exercício da autoridade
         pública, quando se caracterizem por atribuições especiais relativamente aos cidadãos, quando não sejam simplesmente preparatórias
         ou de natureza técnica, mas vinculativas relativamente à autoridade que toma as decisões, e quando não sejam apenas esporádicas.
         
      
      63      Este Estado‑Membro considera que as actividades atribuídas aos notários na ordem jurídica alemã fazem parte da «administração
         preventiva da justiça», que tem uma função complementar da justiça contenciosa. No âmbito das suas actividades, os notários
         conservam uma atitude tão objectiva e independente relativamente às partes como um tribunal comum, quando é chamado a dirimir
         um litígio.
      
      64      Todas as actividades atribuídas aos notários na ordem jurídica alemã são actividades que produzem efeitos relativamente aos
         cidadãos. Além disso, as actividades ligadas ao exercício da autoridade pública não são esporádicas, antes constituindo a
         parte essencial das actividades dos notários. 
      
      65      A missão de «justiça preventiva» é assim transferida pelo Estado para os notários, a fim de aliviar os órgãos jurisdicionais,
         com excepção do Land de Bade‑Wurtemberg, onde o próprio Estado continua a desempenhar essa missão. Ao proceder à autenticação de um acto ou de
         uma convenção, o notário decide de forma definitiva e vinculativa a questão de saber se a celebração do acto jurídico sujeito
         a um requisito formal respeitou as condições pretendidas pelas partes. Antes de proceder à autenticação, o notário verifica
         se estão reunidos os requisitos gerais e informa com imparcialidade as partes sobre as consequências jurídicas do acto. Também
         controla a licitude dos acordos celebrados pelas partes.
      
      66      Além disso, o acto notarial tem força probatória, que vincula, segundo a República Federal da Alemanha, os órgãos jurisdicionais,
         na sua apreciação das provas.
      
      67      No que respeita à elaboração de títulos executivos e à atribuição de fórmula executória, este Estado‑Membro alega que os contratos
         celebrados perante notário são, na ordem jurídica alemã, títulos executivos cuja execução coerciva pode ser obtida com base
         numa fórmula executória aposta pelo notário, sem intervenção de um órgão jurisdicional.
      
      68      Segundo o referido Estado‑Membro, a autenticação de um acto ou de uma convenção dá origem a um título vinculativo que, caso
         nesse acto ou convenção o devedor se tenha submetido a uma execução coerciva imediata, equivale a uma decisão judicial que
         adquiriu força de caso julgado.
      
      69      Além disso, no âmbito da execução coerciva desencadeada com base num acto notarial e numa fórmula executória notarial, a autoridade
         de execução está vinculada pelas constatações relativas ao crédito constantes do referido acto e pela fórmula executória.
          A elaboração de um título executivo e a aposição da fórmula executória comportam, assim, o exercício de poderes especiais
         relativamente aos cidadãos, independentemente da vontade destes, podendo as partes, no entanto, pedir a extinção da execução
         e contestar a licitude da aposição da referida fórmula.
      
      70      Além disso, a República Federal da Alemanha alega que, na Baviera, os notários são competentes para celebrar parcerias duradouras
         formalmente registadas entre pessoas do mesmo sexo.
      
      71      Por outro lado, os actos do direito da União mencionados nos n.os 55 e 56 do presente acórdão colocam os actos notariais ao mesmo nível das decisões judiciais.
      
      72      A República Federal da Alemanha, a República da Estónia, a República da Letónia, a República da Lituânia, a República da Áustria,
         a República da Polónia e a República da Eslovénia também alegam que, no seu acórdão Colegio de Oficiales de la Marina Mercante
         Española, já referido, o Tribunal de Justiça qualificou, para efeitos do artigo 39.°, n.° 4, CE, as funções notariais dos
         capitães dos navios espanhóis como actividades ligadas ao exercício da autoridade pública. Além disso, resulta do acórdão
         Unibank, já referido, que a elaboração de actos autênticos por um funcionário público como o notário constitui uma actividade
         que está ligada directa e especificamente ao exercício da autoridade pública.
      
       Apreciação do Tribunal de Justiça
      –       Considerações preliminares
      73      Através do seu primeiro fundamento, a Comissão acusa a República Federal da Alemanha de criar obstáculos ao estabelecimento,
         com vista ao exercício da profissão de notário, dos nacionais dos outros Estados‑Membros no seu território, reservando o acesso
         a esta profissão aos seus próprios nacionais, em violação do artigo 43.° CE. 
      
      74      Este fundamento tem assim por objecto apenas o requisito de nacionalidade, exigido pela legislação alemã em causa, para o
         acesso à referida profissão, à luz do artigo 43.° CE.
      
      75      Por conseguinte, há que precisar que o referido fundamento não tem por objecto o estatuto e a organização do notariado na
         ordem jurídica alemã nem os requisitos de acesso, para além do que se refere à nacionalidade, à profissão de notário neste
         Estado‑Membro.
      
      76      De resto, importa sublinhar, como a Comissão indicou na audiência, que o primeiro fundamento também não se refere à aplicação
         das disposições do Tratado CE relativas à livre prestação de serviços. 
      
      77      Do mesmo modo, não sendo a aplicação das disposições do Tratado relativas à livre circulação dos trabalhadores objecto do
         presente fundamento, este não tem por objecto a função notarial exercida pelos «Notare im Landesdienst» no Land de Bade‑Wurtemberg, que são funcionários empregados pelo Land.
      
      –       Quanto ao mérito
      78      Há que recordar, em primeiro lugar, que o artigo 43.° CE constitui uma das disposições fundamentais do direito da União (v.,
         neste sentido, nomeadamente, acórdão Reyners, já referido, n.° 43). 
      
      79      O conceito de estabelecimento, na acepção desta disposição, é um conceito muito amplo, que implica a possibilidade de um nacional
         da União participar, de modo estável e contínuo, na vida económica de um Estado‑Membro diferente do seu Estado‑Membro de origem,
         e de dela tirar proveito, favorecendo assim a interpenetração económica e social no interior da União Europeia no domínio
         das actividades não assalariadas (v., nomeadamente, acórdão de 22 de Dezembro de 2008, Comissão/Áustria, C‑161/07, Colect.,
         p. I‑10671, n.° 24).
      
      80      A liberdade de estabelecimento reconhecida aos nacionais de um Estado‑Membro no território de outro Estado‑Membro comporta,
         nomeadamente, o acesso às actividades não assalariadas e o seu exercício nas mesmas condições que as definidas pela legislação
         do Estado‑Membro de estabelecimento para os seus próprios nacionais (v., nomeadamente, acórdão de 28 de Janeiro de 1986, Comissão/França,
         270/83, Colect., p. 273, n.° 13, e, neste sentido, acórdão Comissão/Áustria, já referido, n.° 27). Por outras palavras, o
         artigo 43.° CE proíbe que cada Estado‑Membro preveja na sua legislação, para as pessoas que exercem a liberdade de nele se
         estabelecer, requisitos para o exercício das suas actividades diferentes dos definidos para os seus próprios nacionais (acórdão
         Comissão/Áustria, já referido, n.° 28). 
      
      81      O artigo 43.° CE visa, assim, garantir o direito ao tratamento nacional a todos os nacionais de um Estado‑Membro que se estabeleçam
         noutro Estado‑Membro para aí exercerem uma actividade não assalariada e proíbe qualquer discriminação em razão da nacionalidade,
         resultante das legislações nacionais, enquanto restrição à liberdade de estabelecimento (acórdão Comissão/França, já referido,
         n.° 14). 
      
      82      Ora, no presente caso, a legislação nacional controvertida reserva o acesso à profissão de notário aos cidadãos alemães, consagrando
         assim uma diferença de tratamento em razão da nacionalidade, proibida, em princípio, pelo artigo 43.° CE. 
      
      83      A República Federal da Alemanha alega, no entanto, que as actividades notariais não são abrangidas pelo âmbito de aplicação
         do artigo 43.° CE, porque estão ligadas ao exercício da autoridade pública na acepção do artigo 45.°, primeiro parágrafo,
         CE. Assim, num primeiro momento, há que examinar o alcance do conceito de exercício da autoridade pública na acepção desta
         última disposição e, num segundo momento, verificar se as actividades confiadas aos notários na ordem jurídica alemã são abrangidas
         por este conceito.
      
      84      Relativamente ao conceito de «exercício da autoridade pública» na acepção do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE, importa
         sublinhar que a apreciação deste deve tomar em consideração, segundo jurisprudência constante, o carácter, próprio ao direito
         da União, dos limites impostos por esta disposição às excepções permitidas ao princípio da liberdade de estabelecimento, para
         evitar que o efeito útil do Tratado em matéria de liberdade de estabelecimento seja neutralizado por disposições unilaterais
         adoptadas pelos Estados‑Membros (v., neste sentido, acórdãos, já referidos, Reyners, n.° 50, e Comissão/Grécia, n.° 8; e acórdão
         de 22 de Outubro de 2009, Comissão/Portugal, C‑438/08, Colect., p. I‑10219, n.° 35).
      
      85      É também jurisprudência constante que o artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE constitui uma derrogação à regra fundamental da
         liberdade de estabelecimento. Como tal, esta derrogação deve ser objecto de uma interpretação que limite o seu alcance ao
         estritamente necessário para salvaguardar os interesses que esta disposição permite aos Estados‑Membros proteger (acórdãos,
         já referidos, Comissão/Grécia, n.° 7, e Comissão/Espanha, n.° 34; acórdão de 30 de Março de 2006, Servizi Ausiliari Dottori
         Commercialisti, C‑451/03, Colect., p. I‑2941, n.° 45; acordãos de 29 de Novembro de 2007, Comissão/Áustria, C‑393/05, Colect.,
         p. I‑10195, n.° 35, e Comissão/Alemanha, C‑404/05, Colect., p. I‑10239, n.os 37 e 46; e acórdão Comissão/Portugal, já referido, n.° 34).
      
      86      Além disso, o Tribunal de Justiça já sublinhou repetidamente que a derrogação prevista no artigo 45.°, primeiro parágrafo,
         CE se deve restringir apenas às actividades que, consideradas em si mesmas, apresentem uma ligação directa e específica ao
         exercício da autoridade pública (acórdãos, já referidos, Reyners, n.° 45; Thijssen, n.° 8; Comissão/Espanha, n.° 35; Servizi
         Ausiliari Dottori Commercialisti, n.° 46; Comissão/Alemanha, n.° 38; e Comissão/Portugal, n.° 36).
      
      87      A este respeito, o Tribunal de Justiça já teve ocasião de considerar que estão excluídas da derrogação prevista no artigo
         45.°, primeiro parágrafo, CE certas actividades que são auxiliares ou preparatórias relativamente ao exercício da autoridade
         pública (v., neste sentido, acórdãos, já referidos, Thijssen, n.° 22; Comissão/Espanha, n.° 38; Servizi Ausiliari Dottori
         Commercialisti, n.° 47; Comissão/Alemanha, n.° 38; e Comissão/Portugal, n.° 36), ou certas actividades cujo exercício, embora
         comporte contactos, ainda que regulares e orgânicos, com autoridades administrativas ou judiciárias, ou uma contribuição,
         mesmo que obrigatória, para o seu funcionamento, deixe intactos os poderes de apreciação e de decisão das referidas autoridades
         (v., neste sentido, acórdão Reyners, já referido, n.os 51 e 53), ou ainda certas actividades que não comportam o exercício de poderes decisórios (v., neste sentido, acórdãos, já
         referidos, Thijssen, n.os 21 e 22; de 29 de Novembro de 2007, Comissão/Áustria, n.os 36 e 42; Comissão/Alemanha, n.os 38 e 44; e Comissão/Portugal, n.os 36 e 41), de poderes para impor obrigações (v., neste sentido, nomeadamente, acórdão Comissão/Espanha, já referido, n.° 37)
         ou de poderes de coerção (v., neste sentido, acórdão de 30 de Setembro de 2003, Anker e o., C‑47/02, Colect., p. I‑10447,
         n.° 61, e acórdão Comissão/Portugal, já referido, n.° 44).
      
      88      Há que verificar, à luz das considerações precedentes, se as actividades confiadas aos notários na ordem jurídica alemã têm
         uma ligação directa e específica ao exercício da autoridade pública. 
      
      89      Para este efeito, há que tomar em consideração a natureza das actividades exercidas pelos membros da profissão em causa (v.,
         neste sentido, acórdão Thijssen, já referido, n.° 9). 
      
      90      A República Federal da Alemanha e a Comissão estão de acordo sobre o facto de que a actividade principal dos notários na ordem
         jurídica alemã, que há que examinar em primeiro lugar, consiste em lavrar, com as formalidades exigidas, actos autênticos.
         Para tal, o notário deve verificar, nomeadamente, se estão reunidos todos os requisitos legalmente exigidos para a realização
         do acto. Além disso, o acto autêntico goza de força probatória e de força executória.
      
      91      A este respeito, há que sublinhar que são objecto de autenticação, por força da legislação alemã, os actos ou as convenções
         a que as partes livremente aderiram. Com efeito, estas decidem, dentro dos limites impostos por lei, do alcance dos respectivos
         direitos e obrigações e escolhem livremente as estipulações a que se querem submeter quando apresentam para autenticação ao
         notário um acto ou uma convenção. A intervenção deste pressupõe, assim, a existência prévia de um consentimento ou de um acordo
         de vontade entre as partes. 
      
      92      Além disso, o notário não pode alterar unilateralmente a convenção que é chamado a autenticar, sem ter previamente obtido
         o consentimento das partes.
      
      93      Assim, a actividade de autenticação confiada aos notários não está, em si mesma, directa e especificamente ligada ao exercício
         da autoridade pública na acepção do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE.
      
      94      O facto de certos actos ou certas convenções deverem obrigatoriamente ser objecto de autenticação, sob pena de nulidade, não
         é susceptível de pôr em causa esta conclusão. Com efeito, é frequente que a validade dos actos mais diversos seja submetida,
         nas ordens jurídicas nacionais e segundo as modalidades previstas, a requisitos formais ou ainda a procedimentos obrigatórios
         de validação. Esta circunstância não é, assim, suficiente para sustentar a tese defendida pela República Federal da Alemanha.
      
      95      A obrigação de os notários verificarem, antes de procederem à autenticação de um acto ou de uma convenção, que estão reunidos
         todos os requisitos legalmente exigidos para a realização desse acto ou dessa convenção e, se tal não suceder, de recusarem
         proceder a essa autenticação também não é susceptível de pôr em causa a conclusão acima exposta.
      
      96      É certo que, como sublinha a República Federal da Alemanha, o notário exerce essa verificação, prosseguindo um objectivo de
         interesse geral, isto é, garantir a legalidade e a segurança jurídica dos actos celebrados entre particulares. No entanto,
         a mera prossecução desse objectivo não pode justificar que as prerrogativas necessárias para esse fim estejam reservadas apenas
         aos notários nacionais do Estado‑Membro em causa. 
      
      97      O facto de agir prosseguindo um objectivo de interesse geral não basta, por si só, para que se considere que uma determinada
         actividade está directa e especificamente ligada ao exercício da autoridade pública. Com efeito, é ponto assente que as actividades
         exercidas no âmbito de diversas profissões regulamentadas implicam frequentemente, nas ordens jurídicas nacionais, para as
         pessoas que as exercem, a obrigação de prosseguirem esse objectivo, sem que essas actividades façam parte, no entanto, do
         exercício dessa autoridade. 
      
      98      Contudo, o facto de as actividades notariais prosseguirem objectivos de interesse geral, que visam, nomeadamente, garantir
         a legalidade e a segurança jurídica dos actos celebrados entre particulares, constitui uma razão imperiosa de interesse geral
         que permite justificar eventuais restrições ao artigo 43.° CE, decorrentes das especificidades próprias da actividade notarial,
         como sejam o enquadramento de que os notários são objecto através dos processos de recrutamento que lhes são aplicáveis, a
         limitação do seu número e das suas competências territoriais ou ainda o seu regime de remuneração, de independência, de incompatibilidades
         e de inamovibilidade, desde que essas restrições permitam alcançar os referidos objectivos e sejam necessárias para esse efeito.
         
      
      99      Também é verdade que o notário deve recusar autenticar um acto ou uma convenção que não preencha os requisitos legalmente
         exigidos, fazendo‑o independentemente da vontade das partes. No entanto, na sequência dessa recusa, estas são livres de corrigir
         a ilegalidade constatada, de alterar as estipulações do acto ou da convenção em causa, ou ainda de renunciar a esse acto ou
         a essa convenção. 
      
      100    Relativamente à força probatória e à força executória de que o acto notarial beneficia, não se pode contestar que estas conferem
         aos referidos actos efeitos jurídicos importantes. No entanto, o facto de uma determinada actividade comportar a elaboração
         de actos dotados de tais efeitos não basta para que se considere que essa actividade está directa e especificamente ligada
         ao exercício da autoridade pública na acepção do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE. 
      
      101    Com efeito, no que respeita, em especial, à força probatória de que goza um acto notarial, há que precisar que esta decorre
         do regime probatório consagrado por lei na ordem jurídica em causa. Assim, os §§ 415 e 418 do ZPO, que estabelecem a força
         probatória do acto autêntico, fazem parte do título 9, «Das provas documentais», do capítulo 1 do livro 2 deste código. A
         força probatória conferida por lei a um determinado acto não tem, portanto, incidência directa na questão de saber se a actividade
         ao abrigo da qual esse acto é lavrado, considerada em si mesma, tem uma ligação directa e específica ao exercício da autoridade
         pública, como exigido pela jurisprudência (v., neste sentido, acórdãos, já referidos, Thijssen, n.° 8, e Comissão/Espanha,
         n.° 35).
      
      102    Além disso, como decorre, em especial, dos §§ 415, n.° 2, e 418, n.° 2, do ZPO, é, em princípio, admissível a prova de que
         o evento que foi objecto de autenticação foi autenticado de forma incorrecta ou de que os factos comprovados estão errados.
      
      103    Não se pode assim alegar que o acto notarial, devido à sua força probatória, vincula incondicionalmente o juiz, no exercício
         do seu poder de apreciação, uma vez que está assente que este toma a sua decisão de acordo com a sua convicção pessoal, tomando
         em consideração todos os factos e provas recolhidos durante o processo judicial. O princípio da livre apreciação das provas
         pelo juiz está, por outro lado, consagrado no § 286 do ZPO.
      
      104    No que respeita à força executória do acto autêntico, há que indicar, como alega a República Federal da Alemanha, que permite
         que a obrigação contida nesse acto seja executada sem a intervenção prévia do juiz.
      
      105    No entanto, a força executória do acto autêntico não se traduz, para o notário, em poderes que têm uma ligação directa e específica
         ao exercício da autoridade pública. Com efeito, como decorre do § 794, n.° 1, ponto 5, do ZPO, a força executória do acto
         notarial depende, nomeadamente, de o devedor aceitar sujeitar‑se a uma eventual execução coerciva desse acto, sem necessidade
         de desencadear um procedimento prévio. Daqui resulta que o acto notarial não goza de força executória sem o acordo do devedor.
         Deste modo, embora a aposição, pelo notário, da fórmula executória no acto autêntico confira a este força executória, esta
         assenta na vontade de as partes celebrarem um acto ou uma convenção, depois de o notário verificar a respectiva conformidade
         com a lei, e de lhes conferirem a referida força executória.
      
      106    As considerações que precedem aplicam‑se, mutatis mutandis, aos actos que devem ser celebrados através de acto notarial, sob pena de nulidade, como, nomeadamente, os contratos relativos
         à aquisição e à transferência do direito de propriedade sobre um terreno e à transferência de património actual, as promessas
         de doação, as convenções antenupciais, os pactos sucessórios bem como os contratos relativos ao repúdio de sucessão ou à legítima.
         
      
      107    Estas mesmas considerações impõem‑se, aliás, no que respeita à intervenção do notário em matéria de direito das sociedades,
         descrita no n.° 27 do presente acórdão. 
      
      108    A República Federal da Alemanha também não pode basear a sua tese na competência, conferida unicamente aos notários no Land da Baviera, para autenticar os actos por meio dos quais é constituída uma relação duradoura formalmente registada entre pessoas
         do mesmo sexo, uma vez que, para além do que se afirmou, resulta das disposições do § 2 da AGLPartG que essa relação deve,
         além disso, para produzir os seus efeitos, ser inscrita na Conservatória do Registo Civil pelo conservador do registo civil,
         que, aliás, é responsável pela administração do referido registo.
      
      109    Em segundo lugar, no que se refere ao estatuto específico dos notários na ordem jurídica alemã, basta recordar, como resulta
         dos n.os 86 e 89 do presente acórdão, que é à luz da natureza das actividades em causa, consideradas em si mesmas, e não à luz desse
         estatuto enquanto tal, que há que verificar se essas actividades são abrangidas pela derrogação prevista no artigo 45.°, primeiro
         parágrafo, CE. 
      
      110    Impõem‑se, no entanto, duas precisões a este respeito. Primeiro, é ponto assente que, em princípio, as partes são livres de
         escolher o notário. Embora seja verdade que os honorários dos notários são fixados por lei, não deixa de ser verdade que a
         qualidade dos serviços fornecidos pode variar de um notário para outro, em função, nomeadamente, das aptidões profissionais
         das pessoas em causa. Daqui resulta que, nos limites das respectivas competências territoriais, os notários exercem a sua
         profissão, como salientou o advogado‑geral no n.° 18 das suas conclusões, em condições de concorrência, o que não constitui
         uma característica do exercício da autoridade pública. 
      
      111    Segundo, há que salientar que, em conformidade com o § 19, n.° 1, da BNotO, o notário é o único responsável pelos actos realizados
         no âmbito da sua actividade profissional. 
      
      112    Em terceiro lugar, o argumento que a República Federal da Alemanha retira de certos actos da União também não é convincente.
         Com efeito, relativamente aos regulamentos indicados no n.° 55 do presente acórdão, há que salientar que têm por objecto o
         reconhecimento e a execução de actos autênticos recebidos e executórios num Estado‑Membro e não afectam, por conseguinte,
         a interpretação do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE. Esta constatação também não é posta em causa pelos actos da União
         mencionados no n.° 56 do presente acórdão, uma vez que se limitam, como alega correctamente a Comissão, a confiar aos notários,
         bem como a outras autoridades competentes designadas pelos Estados‑Membros, a função de certificar a realização de certos
         actos e formalidades prévios à transferência da sede, à constituição e à fusão de sociedades.
      
      113    Quanto às Resoluções de 1994 e de 2006, mencionadas no n.° 57 do presente acórdão, há que sublinhar que não produzem efeitos
         jurídicos, uma vez que não constituem, por natureza, actos vinculativos. De resto, embora indiquem que a profissão de notário
         é abrangida pelo artigo 45.° CE, o Parlamento, na Resolução de 1994, manifestou expressamente o desejo de que fossem adoptadas
         medidas para eliminar o requisito da nacionalidade para o acesso à profissão de notário, tendo esta posição sido de novo implicitamente
         confirmada na Resolução de 2006.
      
      114    No que respeita, em quarto lugar, ao argumento que a República Federal da Alemanha retira do acórdão Colegio de Oficiales
         de la Marina Mercante Española, já referido, há que precisar que o processo que deu origem a esse acórdão tinha por objecto
         a interpretação do artigo 39.°, n.° 4, CE, e não do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE. Além disso, resulta do n.° 42 do
         referido acórdão que, quando declarou que as funções confiadas aos capitães e aos imediatos de navios constituem uma actividade
         ligada ao exercício de prerrogativas de poder público, o Tribunal de Justiça tinha em vista todas as funções exercidas por
         estes. O Tribunal de Justiça não examinou assim a única atribuição em matéria notarial confiada aos capitães e aos imediatos
         de navios, ou seja, a recepção, o depósito e a entrega de testamentos, separadamente das suas outras competências, como, por
         exemplo, os poderes de coerção ou de sanção de que estão investidos.
      
      115    Quanto ao acórdão Unibank, já referido, ao qual a República Federal da Alemanha também se refere, há que constatar que o processo
         que deu origem a esse acórdão não tinha de modo nenhum por objecto a interpretação do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE.
         Além disso, o Tribunal de Justiça declarou, no n.° 15 do referido acórdão, que, para que um acto seja qualificado de acto
         autêntico na acepção do artigo 50.° da Convenção de 27 de Setembro de 1968 relativa à competência judiciária e à execução
         de decisões em matéria civil e comercial (JO 1989, L 285, p. 24), é necessária a intervenção de uma autoridade pública ou
         de qualquer outra autoridade habilitada pelo Estado de origem. 
      
      116    Nestas condições, há que concluir que as actividades notariais, conforme definidas no estado actual da ordem jurídica alemã,
         não estão ligadas ao exercício da autoridade pública na acepção do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE. 
      
      117    Por conseguinte, há que declarar que o requisito de nacionalidade exigido pela legislação alemã para o acesso à profissão
         de notário constitui uma discriminação baseada na nacionalidade, proibida pelo artigo 43.° CE. 
      
      118    Atendendo a todas as considerações precedentes, há que julgar o primeiro fundamento procedente. 
      
       Quanto ao segundo fundamento
       Argumentos das partes
      119    A Comissão acusa a República Federal da Alemanha de não ter transposto, no que respeita à profissão de notário, a Directiva
         89/48, em relação ao período até 20 de Outubro de 2007, e a Directiva 2005/36, a partir dessa data. Segundo esta instituição,
         o âmbito da Directiva 2005/36 não excede, no que respeita aos notários, o da Directiva 89/48.
      
      120    A Comissão, à semelhança do Reino Unido, considera que a profissão de notário é uma profissão regulamentada na acepção do
         artigo 1.°, alínea c), da Directiva 89/48 e, por conseguinte, é abrangida pelo seu âmbito de aplicação. O considerando 41
         da Directiva 2005/36 não tem por efeito excluir esta profissão do âmbito de aplicação desta directiva, a menos que a referida
         profissão seja abrangida pelo artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE, o que, no presente caso, é contestado pela Comissão. Além
         disso, se o legislador da União tivesse pretendido excluir os notários do âmbito de aplicação da referida directiva, tê‑lo
         ia feito expressamente.
      
      121    A Comissão recorda que as Directivas 89/48 e 2005/36 permitem que os Estados‑Membros prevejam um teste de aptidão ou um estágio
         de adaptação que sejam susceptíveis de assegurar o elevado nível de qualificação exigido aos notários. Além disso, a aplicação
         destas directivas não tem por efeito impedir o recrutamento de notários através de concurso, mas apenas permitir o acesso
         a esse concurso aos nacionais dos outros Estados‑Membros. Tal aplicação também não tem incidência no processo de nomeação
         dos notários. 
      
      122    A República Federal da Alemanha, à semelhança da República da Letónia e da República da Eslovénia, considera que o segundo
         fundamento da Comissão é inadmissível na medida em que se refere a uma pretensa não transposição tanto da Directiva 89/48
         como da Directiva 2005/36.
      
      123    Com efeito, por um lado, a Comissão criticou, no seu parecer fundamentado, a não transposição da Directiva 89/48, quando,
         à data da emissão do referido parecer fundamentado, a Directiva 2005/36, que revogou a Directiva 89/48, já tinha sido adoptada.
      
      124    Por outro lado, a referência à Directiva 2005/36, feita pela Comissão, pela primeira vez, na petição inicial, teve por efeito
         alargar o objecto do litígio tal como foi determinado durante o procedimento pré‑contencioso. Com efeito, o alcance desta
         directiva ultrapassa de longe o da Directiva 89/48.
      
      125    Quanto ao mérito, a República Federal da Alemanha, a República da Bulgária, a República da Letónia, a República da Hungria,
         a República da Áustria, a República da Polónia, a República da Eslovénia e a República Eslovaca alegam que estas directivas
         não se aplicam aos notários pelo facto de as actividades exercidas por estes estarem ligadas ao exercício da autoridade pública.
      
       Apreciação do Tribunal de Justiça
      –       Quanto à admissibilidade
      126    É jurisprudência constante que a existência de um incumprimento, no âmbito de uma acção intentada ao abrigo do artigo 226.° CE,
         deve ser apreciada à luz da legislação da União em vigor no termo do prazo que a Comissão concedeu ao Estado‑Membro em causa
         para dar cumprimento ao seu parecer fundamentado (v., nomeadamente, acórdãos de 9 de Novembro de 1999, Comissão/Itália, C‑365/97,
         Colect., p. I‑7773, n.° 32; de 5 de Outubro de 2006, Comissão/Bélgica, C‑275/04, Colect., p. I‑9883, n.° 34; e de 19 de Março
         de 2009, Comissão/Alemanha, C‑270/07, Colect., p. I‑1983, n.° 49).
      
      127    No presente caso, o referido prazo terminou em 18 de Dezembro de 2006. Ora, nessa data, a Directiva 89/48 ainda estava em
         vigor, uma vez que a Directiva 2005/36 só a revogou a partir de 20 de Outubro de 2007. Por conseguinte, na medida em que assenta
         numa pretensa não transposição da Directiva 89/48, o presente fundamento não está desprovido de objecto (v., por analogia,
         acórdão de 11 de Junho de 2009, Comissão/França, C‑327/08, n.° 23).
      
      128    Relativamente à admissibilidade do presente fundamento, na medida em que se refere à pretensa não transposição da Directiva
         2005/36, há que recordar que, como o Tribunal de Justiça já declarou, embora os pedidos contidos na petição inicial não possam,
         em princípio, ser ampliados para além dos incumprimentos alegados nas conclusões do parecer fundamentado e na notificação
         para cumprir, na verdade, a Comissão pode procurar obter a declaração de um incumprimento das obrigações que têm origem na
         versão inicial de um acto da União, posteriormente alterado ou revogado, e que foram mantidas pelas disposições de um novo
         acto da União. Em contrapartida, o objecto do litígio não pode ser ampliado a obrigações resultantes de novas disposições
         que não tenham equivalência na versão inicial do acto em questão, sob pena de constituir uma violação das formalidades essenciais
         da regularidade do processo destinado a declarar o incumprimento (v., a este respeito, acórdão de 9 de Novembro de 1999, Comissão/Itália,
         já referido, n.° 36; e acórdãos de 12 de Junho de 2003, Comissão/Itália, C‑363/00, Colect., p. I‑5767, n.° 22, e de 10 de
         Setembro de 2009, Comissão/Grécia, C‑416/07, Colect., p. I‑7883, n.° 28).
      
      129    Por conseguinte, os pedidos contidos na petição inicial da Comissão, que visam obter a declaração de que a República Federal
         da Alemanha não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força da Directiva 2005/36, são, em princípio, admissíveis, na
         condição de as obrigações decorrentes desta directiva serem análogas às que decorrem da Directiva 89/48 (v., por analogia,
         acórdão de 10 de Setembro de 2009, Comissão/Grécia, já referido, n.° 29).
      
      130    Ora, como resulta do considerando 9 da Directiva 2005/36, embora vise melhorar, reorganizar e racionalizar as disposições
         existentes, através de uma uniformização dos princípios aplicáveis, esta directiva mantém, no que se refere à liberdade de
         estabelecimento, os princípios e as garantias subjacentes aos diferentes sistemas de reconhecimento em vigor, como o instaurado
         pela Directiva 89/48. 
      
      131    Do mesmo modo, o considerando 14 da Directiva 2005/36 enuncia que o mecanismo de reconhecimento estabelecido, nomeadamente,
         pela Directiva 89/48 se mantém inalterado.
      
      132    No presente caso, a acusação que a Comissão faz à República Federal da Alemanha visa, no que se refere à profissão de notário,
         a falta de transposição, não de uma determinada disposição da Directiva 2005/36 mas desta directiva na sua totalidade. 
      
      133    Nestas condições, há que constatar que a pretensa obrigação de transposição da Directiva 2005/36 para a profissão de notário
         é análoga à que decorre da Directiva 89/48, na medida em que, por um lado, os princípios e as garantias subjacentes ao mecanismo
         de reconhecimento criado por esta última directiva são mantidos na primeira e, por outro, este mecanismo de reconhecimento
         não foi alterado depois da adopção da Directiva 2005/36.
      
      134    Por conseguinte, o presente fundamento é admissível. 
      
      –       Quanto ao mérito
      135    A Comissão acusa a República Federal da Alemanha de não ter transposto as Directivas 89/48 e 2005/36, no que respeita à profissão
         de notário. Por conseguinte, há que examinar se as referidas directivas são aplicáveis a esta profissão.
      
      136    A este respeito, há que tomar em consideração o contexto legislativo em que estas se inscrevem.
      
      137    Importa assim salientar que o legislador previu expressamente, no considerando 12 da Directiva 89/48, que o sistema geral
         de reconhecimento de diplomas do ensino superior, criado por esta, «em nada prejudica a aplicação do artigo [45.° CE]». A
         reserva assim emitida traduz a vontade do legislador de deixar as actividades abrangidas pelo artigo 45.°, primeiro parágrafo,
         CE fora do âmbito de aplicação desta directiva.
      
      138    Ora, no momento em que a referida directiva foi adoptada, o Tribunal de Justiça ainda não tinha tido a oportunidade de se
         pronunciar sobre a questão de saber se as actividades notariais são ou não abrangidas pelo artigo 45.°, primeiro parágrafo,
         CE.
      
      139    Nos anos que se seguiram à adopção da Directiva 89/48, o Parlamento, nas suas Resoluções de 1994 e de 2006, mencionadas nos
         n.os 57 e 113 do presente acórdão, afirmou, por um lado, que o artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE se devia aplicar integralmente
         à profissão de notário enquanto tal, ao passo que, por outro, manifestou o desejo de que o requisito da nacionalidade para
         o acesso a esta profissão fosse eliminado.
      
      140    Além disso, no momento da adopção da Directiva 2005/36, que substituiu a Directiva 89/48, o legislador da União teve o cuidado
         de precisar, no considerando 41 da primeira destas directivas, que esta não prejudica a aplicação do artigo 45.° CE, «designadamente
         no que diz respeito aos notários». Ora, ao emitir esta reserva, o legislador da União não tomou posição sobre a aplicabilidade
         do artigo 45.°, primeiro parágrafo, CE, e, por conseguinte, da Directiva 2005/36, às actividades notariais.
      
      141    Este facto é, nomeadamente, comprovado pelos trabalhos preparatórios desta última directiva. Com efeito, o Parlamento tinha
         proposto, na sua Resolução legislativa sobre uma proposta de directiva do Parlamento Europeu e do Conselho relativa ao reconhecimento
         das qualificações profissionais (JO 2004, C 97E, p. 230), adoptada em primeira leitura, em 11 de Fevereiro de 2004, que fosse
         expressamente indicado no texto da Directiva 2005/36 que esta não se aplica aos notários. Se esta posição não foi incluída
         na Proposta alterada de Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho relativa ao reconhecimento das qualificações profissionais
         [COM(2004) 317 final], nem na Posição Comum (CE) n.° 10/2005, de 21 de Dezembro de 2004, adoptada pelo Conselho, deliberando
         nos termos do procedimento previsto no artigo 251.° do Tratado que institui a Comunidade Europeia, tendo em vista a adopção
         de uma directiva do Parlamento Europeu e do Conselho relativa ao reconhecimento das qualificações profissionais (JO 2005,
         C 58E, p. 1), não foi por a directiva em causa se dever aplicar à profissão de notário, mas, nomeadamente, por «[o] artigo
         45.°[, primeiro parágrafo,] do Tratado […] prev[er] uma derrogação ao princípio da liberdade de estabelecimento e da livre
         prestação de serviços para as actividades que impliquem uma participação directa e específica no exercício da autoridade pública».
         
      
      142    A este respeito, atendendo a todas as circunstâncias específicas que caracterizaram o processo legislativo e a situação de
         incerteza que dele resultou, como decorre do contexto legislativo acima recordado, não é possível constatar que existia, no
         termo do prazo concedido no parecer fundamentado, uma obrigação suficientemente clara de os Estados‑Membros transporem as
         Directivas 89/48 e 2005/36, no que respeita à profissão de notário.
      
      143    Por conseguinte, há que julgar improcedente o segundo fundamento.
      
      144    Atendendo a todas as considerações precedentes, há que declarar que, ao impor um requisito de nacionalidade para o acesso
         à profissão de notário, a República Federal da Alemanha não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força do disposto no
         artigo 43.° CE e julgar a acção improcedente quanto ao restante.
      
       Quanto às despesas
      145    Nos termos do artigo 69.°, n.° 3, do Regulamento de Processo, se cada parte obtiver vencimento parcial, o Tribunal pode determinar
         que as despesas sejam repartidas entre as partes ou que cada uma das partes suporte as suas próprias despesas. Na medida em
         que a acção da Comissão só foi julgada parcialmente procedente, cada parte suportará as suas próprias despesas.
      
      146    Nos termos do artigo 69.°, n.° 4, primeiro parágrafo, deste mesmo regulamento, os Estados‑Membros que intervenham no processo
         devem suportar as suas próprias despesas. Por conseguinte, a República da Bulgária, a República Checa, a República da Estónia,
         a República Francesa, a República da Letónia, a República da Lituânia, a República da Hungria, a República da Áustria, a República
         da Polónia, a República da Eslovénia, a República Eslovaca e o Reino Unido suportarão as suas próprias despesas.
      
      Pelos fundamentos expostos, o Tribunal de Justiça (Grande Secção) decide:
      1)      Ao impor um requisito de nacionalidade para o acesso à profissão de notário, a República Federal da Alemanha não cumpriu as
            obrigações que lhe incumbem por força do disposto no artigo 43.° CE.
      2)      A acção é julgada improcedente quanto ao restante.
      3)      A Comissão Europeia, a República Federal da Alemanha, a República da Bulgária, a República Checa, a República da Estónia,
            a República Francesa, a República da Letónia, a República da Lituânia, a República da Hungria, a República da Áustria, a República
            da Polónia, a República da Eslovénia, a República Eslovaca e o Reino Unido da Grã‑Bretanha e da Irlanda do Norte suportam
            as suas próprias despesas.
      Assinaturas
      * Língua do processo: alemão.