audio_name|transcripts|normalized_transcripts
stringlengths
38
742
2961_14431_000127|mas como agora sabia que o senhor d rui de cardenas escapara miraculosamente à emboscada de cabril e como cada manhã espreitando|mas como agora sabia que o senhor d rui de cardenas escapara miraculosamente à emboscada de cabril e como cada manhã espreitando
2961_14431_000128|toda a noite d alonso velou remoendo incansavelmente o mesmo espanto como pudera escapar aquele homem com uma adaga atravessada no coração como pudera|toda a noite d alonso velou remoendo incansavelmente o mesmo espanto como pudera escapar aquele homem com uma adaga atravessada no coração como pudera
2961_14431_000129|e apenas sentado ao tôpo da mesa na sua alta séde de couro lavrado mandou chamar o intendente a quem ofereceu logo com estranha familiaridade um copo de vinho vélho|e apenas sentado ao tôpo da mesa na sua alta séde de couro lavrado mandou chamar o intendente a quem ofereceu logo com estranha familiaridade um copo de vinho vélho
2961_14431_000130|sem dúvida êle surpreendera olhares passos tenções dêste senhor d rui mal acautelado por bem namorado mas como quando|sem dúvida êle surpreendera olhares passos tenções dêste senhor d rui mal acautelado por bem namorado mas como quando
2961_14431_000131|muito silenciosamente sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima dos muros desceram a vélha ponte romana|muito silenciosamente sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima dos muros desceram a vélha ponte romana
2961_14431_000132|a manhã clareava quando êle transpôs a porta de s mauros no ar fino os sinos claros tocavam a matinas e entrando na igreja de nossa senhora do pilar ainda no desalinho da sua terrível jornada d rui de rôjo ante o altar narrou|a manhã clareava quando êle transpôs a porta de s mauros no ar fino os sinos claros tocavam a matinas e entrando na igreja de nossa senhora do pilar ainda no desalinho da sua terrível jornada d rui de rôjo ante o altar narrou
2961_14431_000133|de novo d rui estacou e virado sôbre a sela encarou afoitamente os quatro corpos pendurados das traves do lado dêles soava a voz que sendo humana só podia saír de forma humana|de novo d rui estacou e virado sôbre a sela encarou afoitamente os quatro corpos pendurados das traves do lado dêles soava a voz que sendo humana só podia saír de forma humana
2961_14431_000134|o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural era pois certo que essa mulher de divina formosura famosa em castela|o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural era pois certo que essa mulher de divina formosura famosa em castela
2961_14431_000135|enforcado com os longos dedos descarnados alargou o nó da corda que ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente senhor eu tenho de ir convosco a cabril onde vós ides|enforcado com os longos dedos descarnados alargou o nó da corda que ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente senhor eu tenho de ir convosco a cabril onde vós ides
2961_14431_000136|de gibão claro de plumas claras com uma das mãos pousando na cinta a outra meneando distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro|de gibão claro de plumas claras com uma das mãos pousando na cinta a outra meneando distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro
2961_14431_000137|a lua ia alta no céu d rui considerava com amargura aquele disco cheio e lustroso que espargia tanta claridade e tam indiscreta sôbre o seu segredo ah como se estragava a noite que devia ser divina|a lua ia alta no céu d rui considerava com amargura aquele disco cheio e lustroso que espargia tanta claridade e tam indiscreta sôbre o seu segredo ah como se estragava a noite que devia ser divina
2961_14431_000138|compreendeu e ajoelhando devotamente sôbre o chão de dor e morte rezou uma longa oração por aquele bom enforcado depois galopou para segóvia|compreendeu e ajoelhando devotamente sôbre o chão de dor e morte rezou uma longa oração por aquele bom enforcado depois galopou para segóvia
2961_14431_000139|pararam ambos sob a trave vazia em tôrno das outras traves pendiam as outras carcassas o silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da terra|pararam ambos sob a trave vazia em tôrno das outras traves pendiam as outras carcassas o silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da terra
2961_14431_000140|nem vos agasteis senhor que eu vivo para vos obedecer e servir agora mandai que eu escreverei então com os punhos cerrados nas bordas da mesa onde pousara o punhal esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava|nem vos agasteis senhor que eu vivo para vos obedecer e servir agora mandai que eu escreverei então com os punhos cerrados nas bordas da mesa onde pousara o punhal esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava
2961_14431_000141|d rui ajoelhou pousou o sombreiro nas lages e com as mãos erguidas muito zelosamente rezou uma salve rainha o clarão amarelo da luz envolvia o rosto da senhora|d rui ajoelhou pousou o sombreiro nas lages e com as mãos erguidas muito zelosamente rezou uma salve rainha o clarão amarelo da luz envolvia o rosto da senhora
2961_14431_000142|cipreste mas essa curta visita a nossa senhora do pilar bastou para que d rui se namorasse dela tresloucadamente na manhã de maio em que a viu de joelhos ante o altar numa réstea de sol aureolada pelos seus cabelos de oiro|cipreste mas essa curta visita a nossa senhora do pilar bastou para que d rui se namorasse dela tresloucadamente na manhã de maio em que a viu de joelhos ante o altar numa réstea de sol aureolada pelos seus cabelos de oiro
2961_14431_000143|e tirando o sombreiro limpando com as costas da mão o suor que o alagava contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro|e tirando o sombreiro limpando com as costas da mão o suor que o alagava contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro
2961_14431_000144|d alonso de lara desceu à sua câmara lívido pensando que não houvera certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar e no portão da rua os moços folgam então bateu as palmas pediu furiosamente a ceia|d alonso de lara desceu à sua câmara lívido pensando que não houvera certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar e no portão da rua os moços folgam então bateu as palmas pediu furiosamente a ceia
2961_14431_000145|e que tam inteiramente se alheava dela que uma manhã estando rente da arcada e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer|e que tam inteiramente se alheava dela que uma manhã estando rente da arcada e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer
2961_14431_000146|d alonso de lara ali parava considerando o balcão medindo a altura da escada olhando esgazeadamente os goivos direitos frescos sem uma haste ou fôlha vergada|d alonso de lara ali parava considerando o balcão medindo a altura da escada olhando esgazeadamente os goivos direitos frescos sem uma haste ou fôlha vergada
2961_14431_000147|na tentativa de alcançar o cavalo e abalar de cabril mas com aquela rija adaga que êle três vezes lhe enterrara no peito e que no peito lhe deixara não se arrastaria o vilão por muitas jardas e nalgum canto devia jazer frio e|na tentativa de alcançar o cavalo e abalar de cabril mas com aquela rija adaga que êle três vezes lhe enterrara no peito e que no peito lhe deixara não se arrastaria o vilão por muitas jardas e nalgum canto devia jazer frio e
2961_14431_000148|mandaria realmente o senhor de lara encostar uma escada à janela de certo para com mais facilidade o poderem matar ao pobre e doce e inocente môço quando êle subisse mal seguro sôbre um frágil degrau|mandaria realmente o senhor de lara encostar uma escada à janela de certo para com mais facilidade o poderem matar ao pobre e doce e inocente môço quando êle subisse mal seguro sôbre um frágil degrau
2961_14431_000149|e retomava o passo penoso sentindo o coração contra o peito como ave presa que bate às grades assim chegou ao cruzeiro onde a estrada se fendia em duas mais juntas que as pontas de uma forquilha ambas cortando através de pinheiral|e retomava o passo penoso sentindo o coração contra o peito como ave presa que bate às grades assim chegou ao cruzeiro onde a estrada se fendia em duas mais juntas que as pontas de uma forquilha ambas cortando através de pinheiral
2961_14431_000150|depois ao entrar na azinhaga bebeu muito tempo e consoladamente de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro|depois ao entrar na azinhaga bebeu muito tempo e consoladamente de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro
2961_14431_000151|uma noite em que d leonor no seu quarto rezava o terço com as aias à luz duma tocha de cera o senhor de lara entrou muito vagarosamente trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso|uma noite em que d leonor no seu quarto rezava o terço com as aias à luz duma tocha de cera o senhor de lara entrou muito vagarosamente trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso
2961_14431_000152|quando êle à claridade da lua veio através do terraço confiado ligeiro com a mão na cintura a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo|quando êle à claridade da lua veio através do terraço confiado ligeiro com a mão na cintura a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo
2961_14431_000153|para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito era a sua adaga fôra êle que matara o morto galopou espavoridamente para cabril|para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito era a sua adaga fôra êle que matara o morto galopou espavoridamente para cabril
2961_14431_000154|já sôbre o rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso d rui olhava desesperadamente com os olhos com a alma com todo o seu ser|já sôbre o rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso d rui olhava desesperadamente com os olhos com a alma com todo o seu ser
2961_14431_000155|e a submissão às ordens de deus que sentia sôbre si pesarem dum alto da estrada de repente avistaram cabril as torres do convento franciscano alvejando ao luar os casais adormecidos entre as hortas|e a submissão às ordens de deus que sentia sôbre si pesarem dum alto da estrada de repente avistaram cabril as torres do convento franciscano alvejando ao luar os casais adormecidos entre as hortas
2961_14431_000156|descoberto diante da imagem crucificada d rui teve um instante de angústia pois não se recordava qual delas levava ao cêrro dos enforcados|descoberto diante da imagem crucificada d rui teve um instante de angústia pois não se recordava qual delas levava ao cêrro dos enforcados
2961_14431_000157|cavaleiro pois o cêrro estava perto e já lhe avistava na claridade desmaiada os pilares e as traves negras em breve estacou o cavalo que tremia branqueado de espuma|cavaleiro pois o cêrro estava perto e já lhe avistava na claridade desmaiada os pilares e as traves negras em breve estacou o cavalo que tremia branqueado de espuma
2961_14431_000158|onde haveria maior ofensa e tambêm quanta imprudência bem poderia esse d rui de cardenas desconfiar não aceder a convite tam abertamente amoroso|onde haveria maior ofensa e tambêm quanta imprudência bem poderia esse d rui de cardenas desconfiar não aceder a convite tam abertamente amoroso
2961_14431_000159|muito mal haveis compreendido ou muito mal pagais o amor que vos tenho e que não vos pude nunca em segóvia mostrar claramente agora aqui estou em cabril ardendo por vos ver|muito mal haveis compreendido ou muito mal pagais o amor que vos tenho e que não vos pude nunca em segóvia mostrar claramente agora aqui estou em cabril ardendo por vos ver
2961_14431_000160|d rui fez avançar para diante dêle o cavalo não lhe distinguia a face enterrada no peito escondida pelas longas e negras melenas pendentes|d rui fez avançar para diante dêle o cavalo não lhe distinguia a face enterrada no peito escondida pelas longas e negras melenas pendentes
2961_14431_000161|eu vou trepar àquela escada e espreitar para aquele quarto e se fôr como desejais aqui voltarei e com deus sêde feliz d rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela e bateu o pé gritou surdamente não por deus|eu vou trepar àquela escada e espreitar para aquele quarto e se fôr como desejais aqui voltarei e com deus sêde feliz d rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela e bateu o pé gritou surdamente não por deus
2961_14431_000162|d rui ia num assombro num tormentoso cuidado bem compreendia agora que era aquele um cadáver reanimado por deus para um estranho e encoberto serviço|d rui ia num assombro num tormentoso cuidado bem compreendia agora que era aquele um cadáver reanimado por deus para um estranho e encoberto serviço
2961_14431_000163|que já na madureza da sua idade todo grisalho desposara uma menina falada em castela pela sua alvura cabelos côr de sol claro e colo de garça rial|que já na madureza da sua idade todo grisalho desposara uma menina falada em castela pela sua alvura cabelos côr de sol claro e colo de garça rial
2961_14431_000164|já os hortelões picando os burros carregados de ceiras atiravam os pregões de hortaliça fresca e frades descalços com o alforge aos ombros pediam esmola benziam as moças|já os hortelões picando os burros carregados de ceiras atiravam os pregões de hortaliça fresca e frades descalços com o alforge aos ombros pediam esmola benziam as moças
2961_14431_000165|que tramava êle o destro enganador tudo no desabrido fidalgo se exacerbou ciume rancor vigilância pesar da sua idade grisalha e feia|que tramava êle o destro enganador tudo no desabrido fidalgo se exacerbou ciume rancor vigilância pesar da sua idade grisalha e feia
2961_14431_000166|d rui abalou com um fundo suspiro e no seu quarto pôs devotamente ante a imagem da virgem as flores que não oferecera na igreja ao seu altar toda a sua vida se tornou então um longo queixume|d rui abalou com um fundo suspiro e no seu quarto pôs devotamente ante a imagem da virgem as flores que não oferecera na igreja ao seu altar toda a sua vida se tornou então um longo queixume
2961_14431_000167|ao passar no cruzeiro murmurou senhor valei me para alêm do cruzeiro de repente estremeceu com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando|ao passar no cruzeiro murmurou senhor valei me para alêm do cruzeiro de repente estremeceu com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando
2961_14431_000168|e depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam nos derradeiros tempos tam enrugado e taciturno seu marido e senhor|e depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam nos derradeiros tempos tam enrugado e taciturno seu marido e senhor
2961_14431_000169|balbuciando com uma prece ingrata as três ave-marias com que cada manhã sadava maria apanhou o seu sombreiro desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou esperando por ela entre os mendigos lazarentos|balbuciando com uma prece ingrata as três ave-marias com que cada manhã sadava maria apanhou o seu sombreiro desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou esperando por ela entre os mendigos lazarentos
2961_14431_000170|como um foragido penetrou no seu palácio pela porta do pomar e o seu primeiro cuidado foi correr à galeria de abóbada destrancar as portadas da janela e espreitar ávidamente a casa de d rui de|como um foragido penetrou no seu palácio pela porta do pomar e o seu primeiro cuidado foi correr à galeria de abóbada destrancar as portadas da janela e espreitar ávidamente a casa de d rui de
2961_14431_000171|como podia ser cousa tam rara um corpo mortal sobrevivendo a um ferro que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica cravado|como podia ser cousa tam rara um corpo mortal sobrevivendo a um ferro que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica cravado
2961_14431_000172|serenos em que não luzia curiosidade nem mesmo consciência de se estarem trocando com outros tam acesos e ennegrecidos pelo desejo o môço cavalheiro não entrou na igreja com piedoso receio de não prestar à sua madrinha divina|serenos em que não luzia curiosidade nem mesmo consciência de se estarem trocando com outros tam acesos e ennegrecidos pelo desejo o môço cavalheiro não entrou na igreja com piedoso receio de não prestar à sua madrinha divina
2961_14431_000173|à sua divina madrinha a ruim tenção que o levara a cabril o socorro que do céu recebera e com quentes lágrimas de arrependimento e gratidão lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do mundo|à sua divina madrinha a ruim tenção que o levara a cabril o socorro que do céu recebera e com quentes lágrimas de arrependimento e gratidão lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do mundo
2961_14431_000174|d rui subiu atontado e espreitou e oh maravilha era êle d rui todo êle na figura e no modo aquele homem que por entre os canteiros e o buxo curto avançava airoso e leve com a mão na cintura|d rui subiu atontado e espreitou e oh maravilha era êle d rui todo êle na figura e no modo aquele homem que por entre os canteiros e o buxo curto avançava airoso e leve com a mão na cintura
2961_14431_000175|tanta firmeza tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida com que impaciência olhava então o sol tam desapressado nessa tarde em descer para os montes|tanta firmeza tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida com que impaciência olhava então o sol tam desapressado nessa tarde em descer para os montes
2961_14431_000176|a outra ponta a arremessareis por cima da trave e puxando depois forte como sois bem me podereis reenforcar ambos curvados com passos lentos procuraram o rôlo de corda e foi o enforcado que o encontrou o desenrolou|a outra ponta a arremessareis por cima da trave e puxando depois forte como sois bem me podereis reenforcar ambos curvados com passos lentos procuraram o rôlo de corda e foi o enforcado que o encontrou o desenrolou
2961_14431_000177|degraus e ao fundo dum jardim sem árvores todo em canteiros de flores bem recortados orlados de buxo curto avistaram um lado da casa batido pela lua cheia|degraus e ao fundo dum jardim sem árvores todo em canteiros de flores bem recortados orlados de buxo curto avistaram um lado da casa batido pela lua cheia
2961_14431_000178|bem o conhecia tambêm êsse sítio de tristeza e pavor com os seus quatro pilares de pedra onde se enforcavam os criminosos e onde os seus corpos ficavam balouçados da ventania ressequidos do sol|bem o conhecia tambêm êsse sítio de tristeza e pavor com os seus quatro pilares de pedra onde se enforcavam os criminosos e onde os seus corpos ficavam balouçados da ventania ressequidos do sol
2961_14431_000179|tam ciumento era o senhor d alonso que só por lho haver severamente ordenado o seu confessor e com medo de ofender a senhora sua vizinha permitia esta visita fugitiva|tam ciumento era o senhor d alonso que só por lho haver severamente ordenado o seu confessor e com medo de ofender a senhora sua vizinha permitia esta visita fugitiva
2961_14431_000180|um dêsses enforcados pois o chamara com tanta pressa e ânsia restaria nalguns por maravilhosa mercê de deus alento e vida|um dêsses enforcados pois o chamara com tanta pressa e ânsia restaria nalguns por maravilhosa mercê de deus alento e vida
2961_14431_000181|e do lado do jardim a récua de machos carregados de baús presos às argolas sob o sol e a mosca aturdiam a viela com o tilintar dos guizos|e do lado do jardim a récua de machos carregados de baús presos às argolas sob o sol e a mosca aturdiam a viela com o tilintar dos guizos
2961_14431_000182|a cavalo senhor e abalar que o encontro não era de amor mas de morte ambos descem arrebatadamente a avenida costeiam o tanque sob o refúgio dos arbustos em flor|a cavalo senhor e abalar que o encontro não era de amor mas de morte ambos descem arrebatadamente a avenida costeiam o tanque sob o refúgio dos arbustos em flor
2961_14431_000183|todas as gelosias da vélha morada do arcediago estavam escuras abertas respirando a fresquidão da noite e à porta sentado num banco de pedra um môço de cavalariça afinava preguiçosamente a bandurra|todas as gelosias da vélha morada do arcediago estavam escuras abertas respirando a fresquidão da noite e à porta sentado num banco de pedra um môço de cavalariça afinava preguiçosamente a bandurra
2961_14431_000184|e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita oh mal avisado que não me entendeste vem quem te desanimou já te pertence houvera jàmais igual ventura|e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita oh mal avisado que não me entendeste vem quem te desanimou já te pertence houvera jàmais igual ventura
2961_14431_000185|descobrira com muito pasmo e muito escândalo que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito fôra gracejo de um pícaro sinistro vingança que nem a morte saciara|descobrira com muito pasmo e muito escândalo que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito fôra gracejo de um pícaro sinistro vingança que nem a morte saciara
2961_14431_000186|as finas roupas as finas rendas um gibão de veludo negro e as essências perfumadas duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado|as finas roupas as finas rendas um gibão de veludo negro e as essências perfumadas duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado
2961_14431_000187|desatento e calmo que espalhou pelos mendigos e pelo adro o deixou escorregar sôbre êle ou porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tam pálido ou porque não o diferenciava ainda das cousas e das formas indiferentes|desatento e calmo que espalhou pelos mendigos e pelo adro o deixou escorregar sôbre êle ou porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tam pálido ou porque não o diferenciava ainda das cousas e das formas indiferentes
2961_14431_000188|nesses dias da sua estada em cabril nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração o intendente limpou os beiços para afirmar que nada ocorrera em segóvia de que andasse murmuração|nesses dias da sua estada em cabril nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração o intendente limpou os beiços para afirmar que nada ocorrera em segóvia de que andasse murmuração
2961_14431_000189|quer eu não posso foi um sonho que findou e nossa senhora a ambos nos tenha na sua graça e como era cavaleiro muito discreto desde que a reconheceu assim inabalável na sua indiferença não a procurou nem sequer ergueu mais|quer eu não posso foi um sonho que findou e nossa senhora a ambos nos tenha na sua graça e como era cavaleiro muito discreto desde que a reconheceu assim inabalável na sua indiferença não a procurou nem sequer ergueu mais
2961_14431_000190|pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura quando de madrugada saíndo dos divinos braços êle recolhesse a segóvia a sua leonor o bem sublime da sua vida tam inesperadamente adquirido por um instante|pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura quando de madrugada saíndo dos divinos braços êle recolhesse a segóvia a sua leonor o bem sublime da sua vida tam inesperadamente adquirido por um instante
2961_14431_000191|sôbre o pergaminho trovas gementes que o não desafogavam diante do altar da senhora do pilar sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada pousava êle os joelhos e ficava sem palavras de oração num scismar amargo e doce|sôbre o pergaminho trovas gementes que o não desafogavam diante do altar da senhora do pilar sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada pousava êle os joelhos e ficava sem palavras de oração num scismar amargo e doce
2961_14431_000192|a virgem das sete espadas sorria docemente o toque de agonia não era pois de mau preságio d rui cavalgou alegremente e partiu|a virgem das sete espadas sorria docemente o toque de agonia não era pois de mau preságio d rui cavalgou alegremente e partiu
2961_14431_000193|logo o enforcado sem rumor escorregou da garupa segurou como bom serviçal o estribo de d rui e com a caveira erguida a língua negra mais saída de entre os dentes brancos murmurou em respeitosa súplica|logo o enforcado sem rumor escorregou da garupa segurou como bom serviçal o estribo de d rui e com a caveira erguida a língua negra mais saída de entre os dentes brancos murmurou em respeitosa súplica
2961_14431_000194|altar por lo que sabeis virgem purissima cuidadosamente visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar|altar por lo que sabeis virgem purissima cuidadosamente visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar
2961_14431_000195|ainda que sendo de sangue bravo e alegre amava as armas a caça os saraus bem galanteados e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e picheis de vinho|ainda que sendo de sangue bravo e alegre amava as armas a caça os saraus bem galanteados e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e picheis de vinho
2961_14431_000196|e mais ansiosamente ainda vigiava d leonor cada um dos seus movimentos os mais fugitivos modos os silêncios e o conversar com as aias as distracções sôbre o bordado o geito de scismar sob as árvores do jardim|e mais ansiosamente ainda vigiava d leonor cada um dos seus movimentos os mais fugitivos modos os silêncios e o conversar com as aias as distracções sôbre o bordado o geito de scismar sob as árvores do jardim
2961_14431_000197|e erguido sôbre os estribos atirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo só avistou o cêrro áspero a água rebrilhante e muda os madeiros os mortos|e erguido sôbre os estribos atirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo só avistou o cêrro áspero a água rebrilhante e muda os madeiros os mortos
2961_14431_000198|o homem encolheu os ombros com lentidão senhor não sei quem sabe o que é a vida quem sabe o que é a morte mas que queres de mim|o homem encolheu os ombros com lentidão senhor não sei quem sabe o que é a vida quem sabe o que é a morte mas que queres de mim
2961_14431_000199|e ela o seu amor o seu corpo eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso|e ela o seu amor o seu corpo eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso
2961_14431_000200|no peito conservava a adaga cravada por cima dois corvos dormiam quietos e agora que mais quereis perguntou d rui começando a calçar as luvas sumidamente do alto o enforcado murmurou|no peito conservava a adaga cravada por cima dois corvos dormiam quietos e agora que mais quereis perguntou d rui começando a calçar as luvas sumidamente do alto o enforcado murmurou
2961_14431_000201|com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no chão onde jazeu um momento estirado mas imediatamente se endireitou sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes e|com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no chão onde jazeu um momento estirado mas imediatamente se endireitou sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes e
2961_14431_000202|então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu do alto da corda muito quieta e naturalmente como um homem que conversa da sua janela para a rua senhor fui eu|então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu do alto da corda muito quieta e naturalmente como um homem que conversa da sua janela para a rua senhor fui eu
2961_14431_000203|sem repouso no seu quarto com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada|sem repouso no seu quarto com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada
2961_14431_000204|o quarto dentro apagado era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar banhava e arrimada contra o balcão estava uma escada com degraus de corda|o quarto dentro apagado era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar banhava e arrimada contra o balcão estava uma escada com degraus de corda
2961_14431_000205|nunca o avistava agora nem à porta da igreja às horas de missa nem recolhendo do campo a cavalo ao toque de ave-marias e por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados é que mais o suspeitava dentro do coração de d leonor|nunca o avistava agora nem à porta da igreja às horas de missa nem recolhendo do campo a cavalo ao toque de ave-marias e por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados é que mais o suspeitava dentro do coração de d leonor
2961_14431_000206|por vós é que eu vim chamado senhora e ali trazia sôbre o coração a carta dela com seu nome que a sua mão traçara|por vós é que eu vim chamado senhora e ali trazia sôbre o coração a carta dela com seu nome que a sua mão traçara
2961_14431_000207|mais branca que a cera da tocha que os alumiava com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia num terror supremo e que tudo aceitava d leonor murmurou pela virgem maria não me façais mal|mais branca que a cera da tocha que os alumiava com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia num terror supremo e que tudo aceitava d leonor murmurou pela virgem maria não me façais mal
2961_14431_000208|emfim uma noite depois de muito trilhar o lagedo da galeria remoendo surdamente desconfianças e ódios gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras|emfim uma noite depois de muito trilhar o lagedo da galeria remoendo surdamente desconfianças e ódios gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras
2961_14431_000209|como a azinhaga era muito estreita êle caminhava adiante do cavaleiro todo curvado os braços cruzados fortemente sôbre o peito sem um rumor|como a azinhaga era muito estreita êle caminhava adiante do cavaleiro todo curvado os braços cruzados fortemente sôbre o peito sem um rumor
2961_14431_000210|só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas e tambêm soltos os pés nus já ressequidos e da côr do betume que me queres o enforcado suspirando murmurou|só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas e tambêm soltos os pés nus já ressequidos e da côr do betume que me queres o enforcado suspirando murmurou
2961_14431_000211|no sossêgo de d leonor suspeitou manha e fingimento e imediatamente lhe vedou as visitas à senhora do pilar nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário a levar as desculpas de d leonor que no|no sossêgo de d leonor suspeitou manha e fingimento e imediatamente lhe vedou as visitas à senhora do pilar nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário a levar as desculpas de d leonor que no
2961_14431_000212|com o olhar faiscando como num caminho de emboscada e briga assim chegaram a uma porta baixa que o enforcado empurrou e que se abriu sem gemer nos gonzos|com o olhar faiscando como num caminho de emboscada e briga assim chegaram a uma porta baixa que o enforcado empurrou e que se abriu sem gemer nos gonzos
2961_14431_000213|gozando de certo como encarcerada o desafogado ar e o livre sol que o inundavam e foi um espanto para d rui quando ela penetrou na sombria arcada de grossos pilares sôbre que assentava o palácio e desapareceu|gozando de certo como encarcerada o desafogado ar e o livre sol que o inundavam e foi um espanto para d rui quando ela penetrou na sombria arcada de grossos pilares sôbre que assentava o palácio e desapareceu
2961_14431_000214|então resignado submisso aos mandados do alto d rui apeou e começou a seguir o homem que subia para o cêrro pensativamente vergando o dorso de onde saía espetada e luzidia a ponta da adaga|então resignado submisso aos mandados do alto d rui apeou e começou a seguir o homem que subia para o cêrro pensativamente vergando o dorso de onde saía espetada e luzidia a ponta da adaga
2961_14431_000215|ao luzir da manhã tomou uma capa um largo sombreiro desceu ao adro todo embuçado e encoberto e ficou rondando por diante da casa de d rui|ao luzir da manhã tomou uma capa um largo sombreiro desceu ao adro todo embuçado e encoberto e ficou rondando por diante da casa de d rui
2961_14431_000216|num relance d rui compreendera a traição arrancara a espada recuando para a escuridão da avenida quando oh milagre correndo através do terraço aparece o enforcado que lhe agarra a manga e lhe grita|num relance d rui compreendera a traição arrancara a espada recuando para a escuridão da avenida quando oh milagre correndo através do terraço aparece o enforcado que lhe agarra a manga e lhe grita
2961_14431_000217|e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga que faria ela virgem mãe oh de certo repeliria soberbarmente o môço temerário mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado|e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga que faria ela virgem mãe oh de certo repeliria soberbarmente o môço temerário mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado
2961_14431_000218|apenas ceara parcamente logo voltou à galeria a espreitar as janelas de d rui estavam agora cerradas na última da esquina tremeluzia uma claridade|apenas ceara parcamente logo voltou à galeria a espreitar as janelas de d rui estavam agora cerradas na última da esquina tremeluzia uma claridade
2961_14431_000219|de noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado à cabeceira do vasto leito junto da mesa onde ficava a lâmpada um relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as|de noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado à cabeceira do vasto leito junto da mesa onde ficava a lâmpada um relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as
2961_14431_000220|e diante dêles alvejava o comprido muro da quinta do senhor de lara tendo aí um mirante com varandins de pedra e todo revestido de hera|e diante dêles alvejava o comprido muro da quinta do senhor de lara tendo aí um mirante com varandins de pedra e todo revestido de hera
2961_14431_000221|instante recaíria logo sob o poder de outro amo que importava viessem depois dores e zelos aquela noite era esplêndidamente sua|instante recaíria logo sob o poder de outro amo que importava viessem depois dores e zelos aquela noite era esplêndidamente sua
2961_14431_000222|e aí se encerrou com o seu segredo começando logo a amarelecer a definhar sempre arredado da senhora d leonor escondido pelas ruas sombrias do jardim|e aí se encerrou com o seu segredo começando logo a amarelecer a definhar sempre arredado da senhora d leonor escondido pelas ruas sombrias do jardim
2961_14431_000223|diante dêles quatro degraus de pedra subiam a um terraço onde a claridade era larga e livre agachados treparam os degraus e ao|diante dêles quatro degraus de pedra subiam a um terraço onde a claridade era larga e livre agachados treparam os degraus e ao
2961_14431_000224|que de repente do quarto negro surge um negro vulto uma furiosa voz brada vilão|que de repente do quarto negro surge um negro vulto uma furiosa voz brada vilão
2961_14431_000225|e aquele colo de garça rial que eram só seus para esplêndido gôsto da sua vida e quando passeava na sombria galeria do solar|e aquele colo de garça rial que eram só seus para esplêndido gôsto da sua vida e quando passeava na sombria galeria do solar
2961_14431_000226|e cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se erguia ansiosa à espera do seu consentimento fez um lento e largo sinal da cruz|e cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se erguia ansiosa à espera do seu consentimento fez um lento e largo sinal da cruz