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2961_14431_000027|correu à esquina do adro mas já o homem enrolara o papel se afastava majestosamente batendo nas lages com a sua vara branca e quando se voltava para espiar de novo a casa eis que os seus olhos atónitos encontram d rui|correu à esquina do adro mas já o homem enrolara o papel se afastava majestosamente batendo nas lages com a sua vara branca e quando se voltava para espiar de novo a casa eis que os seus olhos atónitos encontram d rui
2961_14431_000028|e a maior raridade era que nem no chão debaixo da varanda onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecêns deixara um vestígio aquele corpo forte caíndo de tam alto pesadamente inertemente como um fardo|e a maior raridade era que nem no chão debaixo da varanda onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecêns deixara um vestígio aquele corpo forte caíndo de tam alto pesadamente inertemente como um fardo
2961_14431_000029|daí o caminho depois corria liso e direito a cabril assim d rui meditava a sua jornada venturosa emquanto a tarde ia caíndo|daí o caminho depois corria liso e direito a cabril assim d rui meditava a sua jornada venturosa emquanto a tarde ia caíndo
2961_14431_000030|indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em que rezara se acomodou sôbre o escabelo e os seus dedos finos com muita aplicação para que a letra fôsse esmerada e clara traçaram a primeira linha curta que o senhor de lara ditara e era|indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em que rezara se acomodou sôbre o escabelo e os seus dedos finos com muita aplicação para que a letra fôsse esmerada e clara traçaram a primeira linha curta que o senhor de lara ditara e era
2961_14431_000031|em duas mulas ajaezadas à pressa ambos abalaram para o cêrro dos enforcados êle e o capelão arrastado e aturdido|em duas mulas ajaezadas à pressa ambos abalaram para o cêrro dos enforcados êle e o capelão arrastado e aturdido
2961_14431_000032|como um fardo do alto da escada pesadamente o enforcado cai sôbre a terra mole vidraças portadas do balcão logo se fecham com fragor|como um fardo do alto da escada pesadamente o enforcado cai sôbre a terra mole vidraças portadas do balcão logo se fecham com fragor
2961_14431_000033|pensou que fôra ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante e serenamente picou o cavalo sem sobressalto ou pressa como numa rua de segóvia|pensou que fôra ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante e serenamente picou o cavalo sem sobressalto ou pressa como numa rua de segóvia
2961_14431_000034|descido não se ergueram para êle ou tímidos ou desatentos com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos entre os dois lacaios como entre duas tôrres atravessou vagarosamente o adro pedra por pedra|descido não se ergueram para êle ou tímidos ou desatentos com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos entre os dois lacaios como entre duas tôrres atravessou vagarosamente o adro pedra por pedra
2961_14431_000035|e que por êsse amor vinha correndo deslumbrante encontrasse a morte no sítio da sua esperança que era o sítio do seu pecado e morto em pleno pecado rolasse para a eterna desesperança|e que por êsse amor vinha correndo deslumbrante encontrasse a morte no sítio da sua esperança que era o sítio do seu pecado e morto em pleno pecado rolasse para a eterna desesperança
2961_14431_000036|gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros para alêm rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das donas e no céu a lua ia grande e cheia|gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros para alêm rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das donas e no céu a lua ia grande e cheia
2961_14431_000037|todo o solar era como um jazigo onde jazia uma insensível e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito para se desafogar compôs com piedoso cuidado em noites veladas|todo o solar era como um jazigo onde jazia uma insensível e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito para se desafogar compôs com piedoso cuidado em noites veladas
2961_14431_000038|pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava ainda d leonor descia a nave já êle sentia dentro da alma o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lages a branca senhora passou e o mesmo distraido olhar|pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava ainda d leonor descia a nave já êle sentia dentro da alma o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lages a branca senhora passou e o mesmo distraido olhar
2961_14431_000039|assim um homem e môço de certo bem nascido talvez gentil penetrava no seu destino bruscamente trazido pela mão de seu marido|assim um homem e môço de certo bem nascido talvez gentil penetrava no seu destino bruscamente trazido pela mão de seu marido
2961_14431_000040|e todavia com mão certeira e faminta de vingança três vezes êle lhe embebera a adaga no peito e no peito lha deixara e era rui de cardenas o homem que êle matara que muito bem o conhecera logo do fundo apagado do quarto de onde espreitava|e todavia com mão certeira e faminta de vingança três vezes êle lhe embebera a adaga no peito e no peito lha deixara e era rui de cardenas o homem que êle matara que muito bem o conhecera logo do fundo apagado do quarto de onde espreitava
2961_14431_000041|se catavam ao sol mas quando ao cabo de um tempo em que d rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e medo a senhora d leonor passou e se deteve molhando os dedos na pia de mármore de água benta os seus olhos sob|se catavam ao sol mas quando ao cabo de um tempo em que d rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e medo a senhora d leonor passou e se deteve molhando os dedos na pia de mármore de água benta os seus olhos sob
2961_14431_000042|d rui tivera justamente por madrinha ao nascer nossa senhora do pilar de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor|d rui tivera justamente por madrinha ao nascer nossa senhora do pilar de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor
2961_14431_000043|para alêm da porta de s mauros depois de alguns casebres de oleiros o caminho seguia esguio e negro entre altas piteiras por trás das colinas ao fundo da planície escura subia o primeiro clarão amarelo e lânguido da lua cheia ainda escondida|para alêm da porta de s mauros depois de alguns casebres de oleiros o caminho seguia esguio e negro entre altas piteiras por trás das colinas ao fundo da planície escura subia o primeiro clarão amarelo e lânguido da lua cheia ainda escondida
2961_14431_000044|tentou contra a virtude dela tentou contra a minha honra é culpado por duas culpas e merece duas mortes mas ao seu furor quási se misturou um terror|tentou contra a virtude dela tentou contra a minha honra é culpado por duas culpas e merece duas mortes mas ao seu furor quási se misturou um terror
2961_14431_000045|constantemente agora o trazia vigiado por um serviçal e conhecia todos os seus passos e pousos e os amigos com quem caçava ou folgava e até quem lhe talhava os gibões e até quem lhe polia a espada e cada hora do seu viver|constantemente agora o trazia vigiado por um serviçal e conhecia todos os seus passos e pousos e os amigos com quem caçava ou folgava e até quem lhe talhava os gibões e até quem lhe polia a espada e cada hora do seu viver
2961_14431_000046|o senhor de lara ditou atirou roucamente aos pedaços aos repelões uma carta que dizia quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula meu cavaleiro|o senhor de lara ditou atirou roucamente aos pedaços aos repelões uma carta que dizia quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula meu cavaleiro
2961_14431_000047|e de lhe pedir em três ave-marias a bênção e a graça ao escurecer mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão|e de lhe pedir em três ave-marias a bênção e a graça ao escurecer mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão
2961_14431_000048|neve redobradamente áspero então se voltava o rancor de d alonso contra o sobrinho do cónego por ter apetecido aquela pureza e aqueles cabelos côr de sol claro|neve redobradamente áspero então se voltava o rancor de d alonso contra o sobrinho do cónego por ter apetecido aquela pureza e aqueles cabelos côr de sol claro
2961_14431_000049|desde segóvia a cabril com a promessa do encantador jardim aberto da escada posta contra a janela sob a nudez e protecção da noite|desde segóvia a cabril com a promessa do encantador jardim aberto da escada posta contra a janela sob a nudez e protecção da noite
2961_14431_000050|emboscado na sombra do quarto seu marido seguramente mataria êsse homem mas se o senhor de lara esperasse fóra dos muros da quinta assaltasse brutalmente nalguma azinhaga aquele d rui de cardenas|emboscado na sombra do quarto seu marido seguramente mataria êsse homem mas se o senhor de lara esperasse fóra dos muros da quinta assaltasse brutalmente nalguma azinhaga aquele d rui de cardenas
2961_14431_000051|janela considerando aquela negra porta recoberta de ferragens como se fôsse a do paraíso e por ela devesse saír um anjo para lhe anunciar a bemaventurança até que chegou o vagaroso domingo e passando êle no adro à hora de prima|janela considerando aquela negra porta recoberta de ferragens como se fôsse a do paraíso e por ela devesse saír um anjo para lhe anunciar a bemaventurança até que chegou o vagaroso domingo e passando êle no adro à hora de prima
2961_14431_000052|nenhum encontro o inquietou até à porta de s mauros aí um mendigo agachado na escuridão dum arco e que tocava monótonamente a sua sanfona|nenhum encontro o inquietou até à porta de s mauros aí um mendigo agachado na escuridão dum arco e que tocava monótonamente a sua sanfona
2961_14431_000053|mas a mão do enforcado lívida na escuridão bruscamente lhe arrancou o sombreiro da cabeça lhe puxou a capa do braço e já se cobria já se embuçava murmurando agora numa súplica ansiosa|mas a mão do enforcado lívida na escuridão bruscamente lhe arrancou o sombreiro da cabeça lhe puxou a capa do braço e já se cobria já se embuçava murmurando agora numa súplica ansiosa
2961_14431_000054|e logo em grande pressa o enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel todo se arrepiou o bom cavaleiro ao sentir nas suas costas o roçar daquele corpo morto dependurado de uma forca atravessado por uma adaga|e logo em grande pressa o enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel todo se arrepiou o bom cavaleiro ao sentir nas suas costas o roçar daquele corpo morto dependurado de uma forca atravessado por uma adaga
2961_14431_000055|mas que tristeza chegar à doce porta docemente prometida com tal intruso ao seu lado sob aquele céu todo claro|mas que tristeza chegar à doce porta docemente prometida com tal intruso ao seu lado sob aquele céu todo claro
2961_14431_000056|e tal susto em quem devia ser indiferente a perigos humanos foi lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança que tirava o punhal da baínha enrodilhava a capa no braço e marchava em defesa|e tal susto em quem devia ser indiferente a perigos humanos foi lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança que tirava o punhal da baínha enrodilhava a capa no braço e marchava em defesa
2961_14431_000057|mas que a voz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto grande covardia era abalar espavoridamente sem a atender e a ouvir|mas que a voz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto grande covardia era abalar espavoridamente sem a atender e a ouvir
2961_14431_000058|vinde esta noite entrai pela porta do jardim do lado da azinhaga passando o tanque até ao terraço aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa que é a janela do meu quarto|vinde esta noite entrai pela porta do jardim do lado da azinhaga passando o tanque até ao terraço aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa que é a janela do meu quarto
2961_14431_000059|não tardara em contar ao senhor de lara que um môço audaz de gentil parecer novo morador nas vélhas casas do arcediago|não tardara em contar ao senhor de lara que um môço audaz de gentil parecer novo morador nas vélhas casas do arcediago
2961_14431_000060|essa casa que lhe legara seu tio arcediago e mestre em cânones ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de nossa senhora do pilar|essa casa que lhe legara seu tio arcediago e mestre em cânones ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de nossa senhora do pilar
2961_14431_000061|vinte e cinco anos êle se era o mesmo de quem se lembrava pálido e tam airoso com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão à porta da igreja em segóvia|vinte e cinco anos êle se era o mesmo de quem se lembrava pálido e tam airoso com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão à porta da igreja em segóvia
2961_14431_000062|emquanto êle rondava aqueles muros do jardim maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros já ela lhe dera a sua alma|emquanto êle rondava aqueles muros do jardim maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros já ela lhe dera a sua alma
2961_14431_000063|esperando que o seu coração serenasse e se consolasse sob a influência de aquela que tudo consola e serena mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras|esperando que o seu coração serenasse e se consolasse sob a influência de aquela que tudo consola e serena mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras
2961_14431_000064|e o ar e a côr com que recolhia da igreja mas tam inalteradamente serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora d leonor que nem o ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve|e o ar e a côr com que recolhia da igreja mas tam inalteradamente serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora d leonor que nem o ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve
2961_14431_000065|o homem curvou o espinhaço a que se viam os ossos todos mais agudos que os dentes de uma serra através de um longo rasgão da camisa de estamenha senhor suplicou não mo|o homem curvou o espinhaço a que se viam os ossos todos mais agudos que os dentes de uma serra através de um longo rasgão da camisa de estamenha senhor suplicou não mo
2961_14431_000066|rosário porque não lhe marcara d leonor a hora naquela carta tam clara e tam pensada então a sua imaginação corria adiante rompia pelo jardim de cabril galgava aladamente a escada prometida e|rosário porque não lhe marcara d leonor a hora naquela carta tam clara e tam pensada então a sua imaginação corria adiante rompia pelo jardim de cabril galgava aladamente a escada prometida e
2961_14431_000067|embuçado numa capa com o ombro contra uma esquina lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias negras e grossas como as dum cárcere os muros não se fendiam das grades não saía sequer um rasto de luz prometedora|embuçado numa capa com o ombro contra uma esquina lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias negras e grossas como as dum cárcere os muros não se fendiam das grades não saía sequer um rasto de luz prometedora
2961_14431_000068|e uma lâmina de adaga faisca e cai e outra vez se ergue e rebrilha e se abate e ainda refulge e ainda se embebe|e uma lâmina de adaga faisca e cai e outra vez se ergue e rebrilha e se abate e ainda refulge e ainda se embebe
2961_14431_000069|os sinos tocaram a matinas os mercadores com os gibões mal abotoados saíam a erguer as portadas das lojas a pendurar as taboletas|os sinos tocaram a matinas os mercadores com os gibões mal abotoados saíam a erguer as portadas das lojas a pendurar as taboletas
2961_14431_000070|como quereis que vos pendure exclamou àquele pedaço de corda não posso chegar com a mão nem eu só basto para lá vos içar senhor respondeu o homem aí a um canto deve haver um longo rôlo de corda uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço|como quereis que vos pendure exclamou àquele pedaço de corda não posso chegar com a mão nem eu só basto para lá vos içar senhor respondeu o homem aí a um canto deve haver um longo rôlo de corda uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço
2961_14431_000071|não se travara uma grande briga não se encontrara ferido na estrada de cabril um cavaleiro môço muito falado o intendente encolhia os ombros nada ouvira pela cidade de brigas ou de cavaleiros feridos com um acêno desabrido d alonso despediu o intendente|não se travara uma grande briga não se encontrara ferido na estrada de cabril um cavaleiro môço muito falado o intendente encolhia os ombros nada ouvira pela cidade de brigas ou de cavaleiros feridos com um acêno desabrido d alonso despediu o intendente
2961_14431_000072|que espalhava com ternura e cuidado galante em frente ao altar da senhora a esta venerada igreja do pilar vinha tambêm cada domingo d leonor a tam falada e formosa mulher do senhor de lara acompanhada por uma aia carrancuda|que espalhava com ternura e cuidado galante em frente ao altar da senhora a esta venerada igreja do pilar vinha tambêm cada domingo d leonor a tam falada e formosa mulher do senhor de lara acompanhada por uma aia carrancuda
2961_14431_000073|num brusco furor o senhor de lara arrancou do cinto um punhal que lhe agitou junto à face rugindo surdamente ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm ou por deus que vos varo o coração|num brusco furor o senhor de lara arrancou do cinto um punhal que lhe agitou junto à face rugindo surdamente ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm ou por deus que vos varo o coração
2961_14431_000074|numeroso povo de segóvia se ajuntara já no cêrro pasmando para o maravilhoso horror o morto que fôra morto todos se arredaram ante o nobre senhor de lara que arremessando se pelo cabeço acima estacara a olhar esgazeado e lívido|numeroso povo de segóvia se ajuntara já no cêrro pasmando para o maravilhoso horror o morto que fôra morto todos se arredaram ante o nobre senhor de lara que arremessando se pelo cabeço acima estacara a olhar esgazeado e lívido
2961_14431_000075|jardim convêm que aqui deixeis o cavalo amarrado a uma árvore se o tendes por seguro e fiel que na emprêsa em que vamos já é de mais o rumor dos nossos pés|jardim convêm que aqui deixeis o cavalo amarrado a uma árvore se o tendes por seguro e fiel que na emprêsa em que vamos já é de mais o rumor dos nossos pés
2961_14431_000076|lá sobe o maldito rugiu d rui o enforcado subia já a alta figura que era dêle d rui estava a meio da escada toda negra contra a parede branca parou não não parara subia chegava|lá sobe o maldito rugiu d rui o enforcado subia já a alta figura que era dêle d rui estava a meio da escada toda negra contra a parede branca parou não não parara subia chegava
2961_14431_000077|e fáceis senhora disse quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm escrever tam costumada era nela a submissão que sem outro reparo ou curiosidade|e fáceis senhora disse quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm escrever tam costumada era nela a submissão que sem outro reparo ou curiosidade
2961_14431_000078|não mo negueis senhor que se vos fizer grande serviço ganharei grande mercê e galgou os degraus estava no alumiado e largo terraço|não mo negueis senhor que se vos fizer grande serviço ganharei grande mercê e galgou os degraus estava no alumiado e largo terraço
2961_14431_000079|para morrer de certo porque nunca o senhor de lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta assim aquele môço morria por amor dela e por um amor que sem lhe valer nunca um gôsto lhe valia logo a morte|para morrer de certo porque nunca o senhor de lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta assim aquele môço morria por amor dela e por um amor que sem lhe valer nunca um gôsto lhe valia logo a morte
2961_14431_000080|com vagarosa cautela e na ponta dos pés nus avançava agora o enforcado vigiando o alto do muro sondando a negrura da sebe parando a escutar rumores que só para êle eram percebíveis porque nunca d rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda|com vagarosa cautela e na ponta dos pés nus avançava agora o enforcado vigiando o alto do muro sondando a negrura da sebe parando a escutar rumores que só para êle eram percebíveis porque nunca d rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda
2961_14431_000081|uma enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar um enforcado descia da forca para o seguir e tudo saber deus assim o ordenara|uma enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar um enforcado descia da forca para o seguir e tudo saber deus assim o ordenara
2961_14431_000082|um geito de arreganhar silenciosamente o beiço como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre e todo o interêsse da sua vida se concentrara num serviçal que constantemente galopava entre segóvia e cabril|um geito de arreganhar silenciosamente o beiço como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre e todo o interêsse da sua vida se concentrara num serviçal que constantemente galopava entre segóvia e cabril
2961_14431_000083|murmurando palavras ao vento até que na madrugada de s joão uma serva que voltava da fonte com a sua bilha o encontrou morto por baixo do balcão de pedra todo estirado no chão com os dedos encravados no canteiro de goivos|murmurando palavras ao vento até que na madrugada de s joão uma serva que voltava da fonte com a sua bilha o encontrou morto por baixo do balcão de pedra todo estirado no chão com os dedos encravados no canteiro de goivos
2961_14431_000084|mas já o pavoroso homem o empurrava o apressava a cavalo senhor e abalar que ainda está sôbre nós a traição arrepiado numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror d rui colheu as rédeas cavalgou sôfregamente|mas já o pavoroso homem o empurrava o apressava a cavalo senhor e abalar que ainda está sôbre nós a traição arrepiado numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror d rui colheu as rédeas cavalgou sôfregamente
2961_14431_000085|com que desespêro galopou então pela estrada infindável em carreira tam violenta o enforcado nem oscilava rígido sôbre a garupa como um bronze num pedestal|com que desespêro galopou então pela estrada infindável em carreira tam violenta o enforcado nem oscilava rígido sôbre a garupa como um bronze num pedestal
2961_14431_000086|rebuscou então cada rua cada sombra cada maciço de arbustos e maravilhoso caso não descobria o corpo nem pgadas nem terra que houvesse sido remexida nem sequer rasto de sangue sôbre a terra|rebuscou então cada rua cada sombra cada maciço de arbustos e maravilhoso caso não descobria o corpo nem pgadas nem terra que houvesse sido remexida nem sequer rasto de sangue sôbre a terra
2961_14431_000087|um leve fio de água sussurrava entre relvas pelos troncos subiam rosas trepadeiras que cheiravam docemente|um leve fio de água sussurrava entre relvas pelos troncos subiam rosas trepadeiras que cheiravam docemente
2961_14431_000088|que eu tenho a receber grande salário se vos fizer grande serviço então d rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável do demónio|que eu tenho a receber grande salário se vos fizer grande serviço então d rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável do demónio
2961_14431_000089|e já abalava na ponta das alpercatas leves quando com um acêno d rui ainda o deteve escuta que caminho tomas tu para cabril o mais certo e sòzinho para gente afoita que é pelo cêrro dos enforcados bem|e já abalava na ponta das alpercatas leves quando com um acêno d rui ainda o deteve escuta que caminho tomas tu para cabril o mais certo e sòzinho para gente afoita que é pelo cêrro dos enforcados bem
2961_14431_000090|e a aldeia apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano e a vélha ponte romana com o seu calvário e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de lara|e a aldeia apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano e a vélha ponte romana com o seu calvário e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de lara
2961_14431_000091|por amor e pelas facilidades desta santa vizinhança tomara êle o piedoso costume desde a sua chegada a segóvia de visitar todas as manhãs à hora de prima a sua divina madrinha|por amor e pelas facilidades desta santa vizinhança tomara êle o piedoso costume desde a sua chegada a segóvia de visitar todas as manhãs à hora de prima a sua divina madrinha
2961_14431_000092|assim d rui soube a jornada do senhor de lara e assim a soube toda a cidade fôra um grande contentamento para d leonor que gostava de cabril dos seus viçosos pomares dos jardins para onde abriam rasgadamente e sem grades|assim d rui soube a jornada do senhor de lara e assim a soube toda a cidade fôra um grande contentamento para d leonor que gostava de cabril dos seus viçosos pomares dos jardins para onde abriam rasgadamente e sem grades
2961_14431_000093|ajoelhado diante do altar onde depusera o seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos ao rumor das sêdas finas ergueu os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste como se um anjo o chamasse d|ajoelhado diante do altar onde depusera o seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos ao rumor das sêdas finas ergueu os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste como se um anjo o chamasse d
2961_14431_000094|para d rui uma face morta que era uma caveira com a pele muito colada e mais amarela que a lua que nela batia os olhos não tinham movimento nem brilho ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido|para d rui uma face morta que era uma caveira com a pele muito colada e mais amarela que a lua que nela batia os olhos não tinham movimento nem brilho ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido
2961_14431_000095|como se enganava as noites agora eram de lua e êle saíria de segóvia caladamente pela porta de s mauros um galope curto o punha no cêrro dos enforcados|como se enganava as noites agora eram de lua e êle saíria de segóvia caladamente pela porta de s mauros um galope curto o punha no cêrro dos enforcados
2961_14431_000096|observara os giros as esperas os olhares dardejados daquele môço galante e puxara as barbas de furor|observara os giros as esperas os olhares dardejados daquele môço galante e puxara as barbas de furor
2961_14431_000097|então num relance d leonor compreendeu a verdade a vergonhosa verdade que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado|então num relance d leonor compreendeu a verdade a vergonhosa verdade que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado
2961_14431_000098|não tendo para se recrear e respirar mesmo nas calmas do estio mais que um fundo de jardim verde negro cercado de tam altos muros que apenas se avistava emergindo dêles aqui alêm alguma ponta de triste|não tendo para se recrear e respirar mesmo nas calmas do estio mais que um fundo de jardim verde negro cercado de tam altos muros que apenas se avistava emergindo dêles aqui alêm alguma ponta de triste
2961_14431_000099|negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam em pregas duras sôbre as lages da capela vélhas lages de sepulturas quando depois dum momento de enleio e de delicioso pasmo|negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam em pregas duras sôbre as lages da capela vélhas lages de sepulturas quando depois dum momento de enleio e de delicioso pasmo
2961_14431_000100|mas realizada com aparato e demora ficando a liteira diante da arcada a esperar longas horas de cortinas abertas emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo enxairelada à mourisca|mas realizada com aparato e demora ficando a liteira diante da arcada a esperar longas horas de cortinas abertas emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo enxairelada à mourisca
2961_14431_000101|todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova como se sôbre êle nunca houvesse passado nem o vento que desfolha nem o sol que murcha|todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova como se sôbre êle nunca houvesse passado nem o vento que desfolha nem o sol que murcha
2961_14431_000102|tam alta tam rara era que de certo atrás dela se não erra a lei humana já devia caminhar a desventura já na verdade caminhava|tam alta tam rara era que de certo atrás dela se não erra a lei humana já devia caminhar a desventura já na verdade caminhava
2961_14431_000103|de entre os dentes muito brancos surdia uma ponta de língua muito negra d rui não mostrou terror nem asco e embainhando serenamente a espada tu estás morto ou vivo perguntou|de entre os dentes muito brancos surdia uma ponta de língua muito negra d rui não mostrou terror nem asco e embainhando serenamente a espada tu estás morto ou vivo perguntou
2961_14431_000104|onde parecia ter longamente esgravatado a terra a procurar v para fugir a tam lamentáveis memórias a senhora d leonor herdeira de todos os bens da casa de lara recolheu ao seu palácio de segóvia|onde parecia ter longamente esgravatado a terra a procurar v para fugir a tam lamentáveis memórias a senhora d leonor herdeira de todos os bens da casa de lara recolheu ao seu palácio de segóvia
2961_14431_000105|galgou as escadas de pedra e no seu aposento sem mesmo tirar o sombreiro de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino em que d leonor o chamava de noite ao seu quarto à posse inteira do seu ser|galgou as escadas de pedra e no seu aposento sem mesmo tirar o sombreiro de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino em que d leonor o chamava de noite ao seu quarto à posse inteira do seu ser
2961_14431_000106|o moço do campo insistia inquieto aviai senhor aviai nem precisais responder basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado muito pálido d rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz que o môço enrolou e sumiu no surrão|o moço do campo insistia inquieto aviai senhor aviai nem precisais responder basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado muito pálido d rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz que o môço enrolou e sumiu no surrão
2961_14431_000107|ela ficara sôbre o escabelo as mãos cansadas e caídas no regaço num infinito espanto o olhar perdido na escuridão da noite silente|ela ficara sôbre o escabelo as mãos cansadas e caídas no regaço num infinito espanto o olhar perdido na escuridão da noite silente
2961_14431_000108|como em segóvia na galeria sonora de grande abobada sem descanso passeava enterrado na sua samarra com o bico da barba espetado para diante a grenha basta erriçada para trás|como em segóvia na galeria sonora de grande abobada sem descanso passeava enterrado na sua samarra com o bico da barba espetado para diante a grenha basta erriçada para trás
2961_14431_000109|e êle de certo a conhecia a encontrara a seguira ao menos com os olhos pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa|e êle de certo a conhecia a encontrara a seguira ao menos com os olhos pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa
2961_14431_000110|que sem sentir as dores dos sete ferros ou como se êles só déssem inefáveis gozos sorria com os lábios muito vermelhos emquanto êle rezava no convento de são domingos ao lado a sineta começou a tocar a agonia|que sem sentir as dores dos sete ferros ou como se êles só déssem inefáveis gozos sorria com os lábios muito vermelhos emquanto êle rezava no convento de são domingos ao lado a sineta começou a tocar a agonia
2961_14431_000111|a face erguida risonhamente para a janela a longa pluma escarlate do chapéu balançando em triunfo o homem avançava no luar esplêndido o quarto amoroso lá estava esperando aberto e negro|a face erguida risonhamente para a janela a longa pluma escarlate do chapéu balançando em triunfo o homem avançava no luar esplêndido o quarto amoroso lá estava esperando aberto e negro
2961_14431_000112|desgraçada dela se o senhor de lara morresse a deixasse solitária sem defesa naquela vasta casa aberta mas quanto desgraçada tambêm se aquele môço chamado por ela e que a amava|desgraçada dela se o senhor de lara morresse a deixasse solitária sem defesa naquela vasta casa aberta mas quanto desgraçada tambêm se aquele môço chamado por ela e que a amava
2961_14431_000113|tam íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida sem que ela se apercebesse que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim e contra a sua janela para êle subir se arrumava de noite uma escada|tam íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida sem que ela se apercebesse que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim e contra a sua janela para êle subir se arrumava de noite uma escada
2961_14431_000114|e assim ia a turbulência dos tempos que nem os mortos se furtavam a ultrajes d alonso escutava com as mãos a tremer os pêlos arrepiados|e assim ia a turbulência dos tempos que nem os mortos se furtavam a ultrajes d alonso escutava com as mãos a tremer os pêlos arrepiados
2961_14431_000115|se o pudesse avisar bem cedo de madrugada como se não havia em cabril serviçal ou aia de quem se fiasse mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração|se o pudesse avisar bem cedo de madrugada como se não havia em cabril serviçal ou aia de quem se fiasse mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração
2961_14431_000116|d rui que êle matara e que vinha caminhando para a igreja de nossa senhora ligeiro airoso a face risonha e erguida no fresco ar da manhã|d rui que êle matara e que vinha caminhando para a igreja de nossa senhora ligeiro airoso a face risonha e erguida no fresco ar da manhã
2961_14431_000117|quando ao alvorecer depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite encerrara d leonor êle descera subtilmente ao jardim|quando ao alvorecer depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite encerrara d leonor êle descera subtilmente ao jardim
2961_14431_000118|e era seu marido que muito secretamente escancarava a porta e muito secretamente levantava a escada para que|e era seu marido que muito secretamente escancarava a porta e muito secretamente levantava a escada para que
2961_14431_000119|no ano de que foi por toda a cristandade tam abundante em mercês divinas reinando em castela el-rei henrique|no ano de que foi por toda a cristandade tam abundante em mercês divinas reinando em castela el-rei henrique
2961_14431_000120|mas para que lhe dava deus tam medonho companheiro para o proteger para impedir que d leonor amada do céu pela sua piedade caísse em culpa mortal|mas para que lhe dava deus tam medonho companheiro para o proteger para impedir que d leonor amada do céu pela sua piedade caísse em culpa mortal
2961_14431_000121|duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de d leonor e dobrando os joelhos levantando a alma toda para o céu onde a lua se começava a levantar murmurou numa infinita mágoa e fé|duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de d leonor e dobrando os joelhos levantando a alma toda para o céu onde a lua se começava a levantar murmurou numa infinita mágoa e fé
2961_14431_000122|e o rijo cavaleiro fincando os pés retezando os braços puxou içou o homem até êle se quedar suspenso negro no ar como um enforcado natural entre os outros enforcados|e o rijo cavaleiro fincando os pés retezando os braços puxou içou o homem até êle se quedar suspenso negro no ar como um enforcado natural entre os outros enforcados
2961_14431_000123|d rui marchava a passo receando chegar a cabril muito cedo antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário|d rui marchava a passo receando chegar a cabril muito cedo antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário
2961_14431_000124|desde então na verdade a sua mais intensa ocupação era odiar d rui o impudente sobrinho do cónego que ousava erguer o seu baixo desejo até à alta senhora de lara|desde então na verdade a sua mais intensa ocupação era odiar d rui o impudente sobrinho do cónego que ousava erguer o seu baixo desejo até à alta senhora de lara
2961_14431_000125|das traves pendiam quatro enforcados negros e rígidos no ar parado e mudo tudo em tôrno parecia morto como êles|das traves pendiam quatro enforcados negros e rígidos no ar parado e mudo tudo em tôrno parecia morto como êles
2961_14431_000126|permanecera de costas voltadas sem se mover rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho tam bem afectada indiferença só servia de certo pensou d alonso a esconder alguma bem danada tenção|permanecera de costas voltadas sem se mover rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho tam bem afectada indiferença só servia de certo pensou d alonso a esconder alguma bem danada tenção