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A Argentina inicia a semana sob risco de cair em nova moratória, caso não alcance um acordo antes de quarta-feira com os fundos especulativos no litígio sobre os títulos não renegociados da sua dívida soberana. O governo considera a possibilidade de moratória possível, mas tenta transmitir tranquilidade.
O governo argentino tem 48 horas -até a última hora do dia 30 de julho- para obter um entendimento com os fundos que chama de "abutres". Esses fundos ganharam uma decisão da justiça americana que obriga o país a chegar a um acordo com os demandantes antes de continuar pagando a dívida renegociada em 2005 e 2010.
Funcionários argentinos do Ministério da Economia viajam para Nova York nesta segunda-feira para se reunir na quarta-feira com o mediador Daniel Pollack, designado pelo juiz federal Thomas Griesa para conseguir que a sua sentença de pagamento de 1,33 bilhão de dólares aos fundos especulativos seja cumprida.
Enquanto isso, a presidente Cristina Kirchner foi para a Venezuela em busca de apoio na cúpula do Mercosul, antes de retornar na terça-feira a Buenos Aires.
A Argentina depositou os pagamentos aos credores reestruturados no dia 26 de junho, mas o juiz bloqueou esse dinheiro destinado a bancos intermediários em Nova York. Caso os pagamentos não sejam feitos até quarta-feira, a terceira maior economia da América Latina entraria em moratória.
Este seria o segundo default, depois de o governo argentino ter suspendido em 2001 o pagamento de 100 bilhões de dólares, que representavam 166% do PIB do país.
"Os argentinos precisam estar tranquilos porque a vida continua", afirmou o chefe de Gabinete Jorge Capitanich, porta-voz da presidente Cristina Kirchner.
O secretário-geral da presidência, Oscar Parrilli, garantiu nesta segunda-feira que "não vai acontecer nada" e que a Argentina "de forma alguma está em default" porque o problema é com uma minoria de 7% dos credores privados que não se somaram à renegociação da dívida.
Sebastian Briozzo, diretor de Classificação Soberana da agência Standard & Poor's em Buenos Aires, explicou à AFP que o periodo de carência "vence na última hora de quarta-feira. Se não houver um acordo nesse dia, a agência atribuirá na primera hora de quinta-feira a nota de 'Selective Default'".
- Recessão acelerada -
"No dia 30 não acontecerá nada", disse na sexta-feira o ministro da Economia, Axel Kicillof, mas analistas garantem que uma moratória potencializaria os sinais de recessão frágil economia argentina, que acumula no primeiro semestre uma inflação de 15% e queda de sua atividade econômica.
Carlos Caicedo, principal analista da IHS (empresa de informação econômica) para América Latina, advertiu na segunda-feira que uma suspensão dos pagamentos resultaria em mais desvalorização, inflação e marginalização dos mercados de capitais, ao considerar que as autoridades argentinas "estão vendo a opção do default como a menos custosa".
Um relatório da consultora Abeceb.com apontou que "uma queda de 3,5% do PIB, com a inflação anual alcançando 41% e uma retração do consumo de 3,8%, são as principais variáveis para 2014 em caso de default".
Se houver acordo, o mesmo informe afirma que os indicadores teriam "um recuo de 1,5% do PIB, uma inflação de 34,5% e uma redução do consumo de 1,8%".
"Tudo o que a Argentina está vivendo hoje pode ser potencializado", afirmou à AFP o economista Fausto Spotorno, diretor do Centro de Estudos Econômicos Orlando Ferreres.
- A importância do 'stay' -
Capitanich reiterou a condição para chegar a um acordo: "A Argentina precisa de tempo para negociar e esse tempo se chama 'stay'", como é chamada em inglês a medida cautelar suspensa por Griesa quando sua decisão foi ratificada pela Suprema Corte em junho, e que prorroga o pagamento das obrigações até janeiro de 2015, quando vence a denominada "cláusula Rufo" dos títulos.
Essa cláusula, que a Argentina quer evitar a todo custo, estabelece que o país não pode melhorar antes desse prazo a oferta recebida pelos credores que aderiram à reestruturação, sob pena de ter que estender os benefícios aos demais credores.
Uma moratória, portanto, também não seria conveniente aos fundos litigantes, já que, se a Argentina tiver que reestruturar novamente a sua dívida, eles perderiam a atual posição de credores privilegiados e teriam que negociar como qualquer credor.