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Pelo menos 62 detentos morreram nesta terça-feira (23) em uma onda de violência desatada simultaneamente em três presídios do Equador, segundo um relatório atualizado da autoridade responsável pelas penitenciárias.
O país vive uma crise carcerária sem precedentes: 33 presos morreram no presídio de Turi, na cidade de Cuenca (sul); 21 na Regional de Guayaquil (sudoeste) e oito em Latacunga (centro), relatou Edmundo Moncayo, diretor do Serviço Nacional para Pessoas Privadas de Liberdade (SNAI).
Moncayo descartou mortes entre funcionários dos presídios, mas falou em “polícias feridos”, sem especificar o número.
Nos arredores da penitenciária de Guayaquil, cerca de 40 mulheres tentaram receber notícias de parentes presos. Daniela Soria, mãe de 29 anos, afirmou ter recebido uma mensagem de voz de Ricardo, seu marido condenado a três anos por tráfico de drogas.
"Eles vão me matar, me tire daqui. Diga a eles que me mudem de pavilhão!", diz o homem ouvido na mensagem de WhatsApp que Soria compartilhou com um jornalista da AFP.
“Queremos que eles nos passem a lista de mortes. Sabemos que os problemas continuam porque todo mundo tem um telefone lá e meu marido não me liga”, gritou a mulher em meio ao alvoroço das ambulâncias.
O Ministério Público informou que o dia violento foi desencadeado por "confrontos de gangues criminosas".
Por sua vez, o presidente equatoriano Lenín Moreno denunciou um ataque simultâneo de "organizações criminosas". As autoridades "estão agindo para retomar o controle das prisões", garantiu o presidente no Twitter.
À noite, a polícia e os guardas das prisões conseguiram restaurar a ordem, disse uma fonte do SNAI à AFP. As Forças Armadas também foram mobilizadas para os arredores das prisões.
- Prisões tomadas -
A autoridade carcerária descreveu a acirrada disputa entre gangues organizadas que se alimentam do narcotráfico e que usam as prisões como base de operações.
Segundo Moncayo, na segunda-feira os guardas apreenderam duas armas de fogo que seriam usadas para aniquilar os líderes de uma das organizações opositoras que estão presos em Guayaquil. Seus inimigos queriam antecipar "ações violentas" e ordenaram o "assassinato de prisioneiros em outros centros", disse ele.
O oficial mencionou grupos como Los Pipos, Los Lobos, Tigrones e Chone Killers.
“Lá dentro é como um mercado. Tem de tudo: drogas, armas, até cachorros. Está tudo à venda”, conta Soria. “Quando os presos veem a violência chegando, eles se trancam nas celas”, disse ela antes de correr atrás de uma ambulância.
O governo ativou um posto de comando unificado para enfrentar a crise, que coincide com a mobilização de centenas de indígenas em Quito que exigem recontagem de votos após o primeiro turno presidencial, em 7 de fevereiro. Seu candidato, o ambientalista Yaku Pérez, denuncia ter sido vítima de uma suposta fraude que o excluiu do segundo turno, que acontecerá em abril.
Em dezembro, vários distúrbios nas prisões equatorianas atribuídos a disputas de poder entre organizações criminosas e do narcotráfico deixaram onze presos mortos e sete feridos.
O sistema penitenciário do Equador é composto por cerca de 60 centros com capacidade para abrigar 29.000 pessoas e 1.500 guardas. No entanto, a superlotação gira em torno de 30% (38.000 presos).
O governo decretou um estado de exceção penitenciária que terminou em novembro e que basicamente buscava retomar o controle das prisões. Em 2020, disputas violentas na prisão deixaram 51 mortos.
Desde janeiro e até esta terça-feira, a polícia informou a morte de três pessoas em confrontos entre presidiários.
O órgão governamental responsável pelas prisões, SNAI, reconheceu a falta de pessoal de segurança, o que "dificulta as ações de resposta imediata" diante das revoltas de prisioneiros.
Em meio à pandemia de covid-19 e para reduzir a superlotação das prisões, o Equador aplicou no ano passado medidas alternativas para aqueles que cumpriam penas por crimes menores, o que reduziu a superlotação de 42% para 30%.