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Mais uma vez, o capitalismo liberal está em crise e, tal como aconteceu na sua primeira grande crise, em torno dos anos 30 do século passado, antes da II Guerra Mundial, tende a transformar-se em fascismo. Não, o modo de produção capitalista não corre o risco de ser superado por qualquer outro, que, na realidade, ainda não foi descoberto. Aliás, é precisamente por estar assustada com a hipótese virtual de o modo de produção capitalista ser trocado por outro que a burguesia liberal tende a alinhar-se com a extrema direita fascista em todo o lado.
Exemplos não faltam. Em 2018, os brasileiros optaram por um candidato inqualificável a todos os títulos e apoiante declarado da ditadura militar, tendo preterido um democrata com provas dadas pertencente ao centro-esquerda, pois o centro-direita meteu na cabeça que o Partido dos Trabalhadores é “comunista” e que o candidato fascista poderia ser “domesticado”, defendendo assim mais cabalmente os seus interesses de classe.
A extrema direita está igualmente no poder na Hungria e na Itália, sem que a União Europeia, organização de que esses países fazem parte, dê sinais de qualquer abalo (entre outros fatores, o apoio desses países à guerra na Ucrânia é quanto basta para assegurar que não constituem perigo para a democracia). Há uma semana, o candidato fascista foi eleito presidente da Argentina graças ao apoio que recebeu do liberal Macri. Nos Países Baixos, o partido da extrema direita acaba de vencer as eleições legislativas.
O mundo vive novamente o risco de ser tomado pelo fascismo, como sucedeu em alguns países europeus antes da 2ª Guerra Mundial. Contrariamente ao que aconteceu naquele período, o perigo hoje é autenticamente global, não escapando sequer dessa possibilidade o país que é considerado o exemplo e o garante da democracia não apenas no Ocidente, mas no plano universal, ou seja, os EUA (Trump está aí e Biden está a perder o apoio de setores cruciais da sua base política, como os jovens, os negros e os árabe-americanos, devido à sua desastrada política no Médio Oriente, apenas compreensível por, afinal, atender aos interesses do setor energético e petrolífero e do complexo industrial-militar).
Não me esqueço de outros fascismos, tais como as autocracias árabes, africanas e latino-americanas, a Rússia de Putin, a China e mesmo a Índia, que as forças no poder tentam converter num estado hindu, segregando as demais religiões do país. Os líderes, os propagandistas e os defensores do Ocidente limitam-se, como se sabe, a mencionar esses exemplos, quando falam em estados autoritários, ditatoriais e fascistas. Mas qual é, na realidade, a diferença essencial entre esses regimes e os países onde as forças de extrema direita têm chegado ao poder no próprio Ocidente, mesmo através de eleições (não foi assim, aliás, que Hitler chegou ao poder?). A propósito, é impossível deixar de notar que, normalmente, essas vozes esquecem-se de incluir entre os estados autoritários atuais o regime sionista, teocrático e colonialista de Israel. Tal esquecimento não é ocasional.
O que é que explica esse crescimento do fascismo em todo o lado? A crise do capitalismo, iniciada desde que o mesmo começou a concentrar o foco não na produção, mas na especulação, paralelamente ao seu processo de globalização. Com efeito, e depois de ter vivido a sua idade de ouro entre o fim da 2ª Guerra Mundial e o início dos anos 80, quando o Estado Social imperou na Europa e nos EUA, sendo capaz de combinar, pelo menos nessas duas grandes regiões, crescimento económico e bem estar das populações, com uma classe média alargada, o capitalismo, movido pela ambição do lucro infinito, introduziu, sob influência das ideias neoliberais, práticas que foram (vão) desde a deslocalização das indústrias até à sua transformação em mera “economia de casino” (a expressão é de Harvey), assente cada vez mais nos grandes bancos e nas big techs, com consequências sociais que estão a criar o caldo de cultura onde o fascismo medra.
Com efeito, na sua atual forma tecno-financeira, o capitalismo neoliberal constitui um verdadeiro ataque organizado à imprescindível dimensão social da democracia. Os resultados desse ataque ao Estado Social estão aí: concentração excessiva e verdadeiramente criminosa da riqueza; desvalorização, descaracterização e atomização do trabalho assalariado, impulsionada pelas novas tecnologias; aumento da pobreza interna e do fosso entre as nações; generalização da corrupção; e crise migratória, apenas para mencionar esses. Tudo isso provoca, naturalmente, turbulências e resistências, que poderiam pôr em xeque o próprio modo de produção capitalista, caso as forças de esquerda tivessem sabido ou podido reinventar-se após a queda do Muro de Berlim, o que não aconteceu. Assim, esse vazio está a ser ocupado pelas forças de extrema direita, com os seus discursos anti-política, a acusação de que todo o “sistema” é corrupto, o fenómeno do justicialismo, os ataques aos imigrantes, ao aumento do racismo e as diversas fobias religiosas, ações que visam desconstruir a democracia, tal como a concebemos, implantando em seu lugar uma ordem fascista.
Não se trata, diga-se a terminar, de um ataque ao modo de produção capitalista, mas ao funcionamento da democracia, sobretudo política e social. Essa a razão por que as forças da direita liberal (tradicional ou neófita) tendem a aliar-se ou a viabilizar a eventual tomada do poder pela extrema direita, precisando, para isso, de artifícios semânticos para branquear o fascismo contemporâneo, apodando-o de “populismo”, “direita radical”, “anarco-capitalismo” e até esse miserável oxímoro “democracia iliberal”. Afinal, vão os dedos, mas salvem-se os anéis.