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Em primeiro de junho os holofotes estão voltados para o São Gotardo e a abertura do túnel ferroviário mais longo do mundo. O São Gotardo é, contudo, muito mais do que "apenas" um buraco na montanha. Nesse artigo multimídia da swissinfo apresentamos os aspectos mais importantes e curiosos deste símbolo nacional da Suíça.
Monte Tremulo, Mons Ursarie, Mons Elvelinus e Monte Sancti Gutardi. Os nomes dados no passado para o que hoje é conhecido como o São Gotardo são diversos. E muitas são as histórias, os significados e visões que ao longo dos séculos têm circulado em torno deste maciço montanhoso. Massiva e não-montanha: não existe outra montanha com esse nome.
1. O São Gotardo é um mito
Teatro do juramento de fidelidade entre os primeiros suíços em 1291 e o local de resistência contra a ocupação austríaca, o São Gotardo está cercado por uma aura única. Nem o Matterhorn ou outras montanhas suíças simbolizam tanta coisa: o São Gotardo é o berço da Confederação Helvética, o centro dos Alpes, eixo de trânsito de importância fundamental, berço dos grandes rios da Europa, uma encruzilhada de culturas da Suíça e símbolo da independência, coesão e identidade do país.
Um amálgama que o professor de história medieval na Universidade de Neuchâtel, Jean-Daniel Morerod ressaltou em entrevista à swissinfo.ch como "a coincidência da importância comercial do São Gotardo, no século XIII, e a revolta das comunidades contra os Habsburgos". Para o escritor Peter von Matt, o São Gotardo pode ser considerado uma espécie de "montanha suíça do Sinai", que ajudou na "autoglorificação da Suíça".
Nem tudo o que é dito sobre o São Gotardo é verdade, no entanto, como ilustrado por Peter von Matt nesta entrevista. Durante muitos anos acreditou-se que o São Gotardo seria mais alta montanha nos Alpes, uma crença refutada apenas no século XVIII, como escreve o historiador Ralph Aschwanden.
2. O São Gotardo é uma fortaleza militar
Em julho de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a Europa é invadida pelos nazistas, a Suíça neutra se fecha como uma ostra em torno do São Gotardo. O general Guisan adota a estratégia do "Réduit", uma ampla rede de fortalezas construídas nas montanhas da região alpina e, nomeadamente, o São Gotardo.
Nas montanhas os operários escaravam abrigos, túneis, fortes e bunkers. A "Fortaleza de São Gotardo", cuja construção já começou durante a Primeira Guerra Mundial, tornou-se uma rede de fortificações militares que persistem em parte até hoje. Damian Zingg, chefe-operador da Fundação Sasso São Gotardo, nos guia por dentro do forte Sasso de Pigna, construído entre 1941 e 1943 e coberto pelo segredo militar até 2001.
Nessa aprofundada reportagem multimídia da swissinfo, apresentamos outras imagens e filmes do São Gotardo e sua história.
3. O São Gotardo é mais longo túnel ferroviário do mundo
O São Gotardo já está acostumado com recordes. O primeiro túnel ferroviário, inaugurado em 1882, já era com seus quinze quilômetros de extensão o mais longo no mundo, um recorde que durou até a abertura do túnel do Simplon em 1906. O mesmo valeu para o túnel da autoestrada (16.9 km), inaugurado em 1980, que depois perdeu o primeiro lugar para túnel de Lærdal na Noruega (24,5 km).
Com a inauguração do túnel de base do São Gotardo é estabelecido um novo recorde: 57.104 quilômetros esculpidos na rocha. Uma marca destinada a perdurar por vários anos, desde as grandes obras de construção, por exemplo, do túnel de base da linha Turim-Lyon, poucos metros mais curtos.
Os números excepcionais do novo túnel do São Gotardo vão além do seu comprimento. Aqui você pode encontrar as outras características impressionantes do projeto e descobrir o que relaciona o túnel ao Estádio de Wembley, em Londres, e o Empire State Building, em Nova York.
4. O São Gotardo está entre os túneis mais seguros do mundo
A Companhia Ferroviária Suíça (CFF, na sigla em francês) não tem dúvida: o túnel ferroviário do São Gotardo é seguro em todos os pontos de vista, seja para passageiros ou mercadorias. Os dois tubos monodirecionais evitam colisões e os diferentes sistemas de detecção se ativam em caso de incêndio, escapamento de gás, superaquecimento dos eixos dos vagões ou o deslocamento de carga. Os trens que não correspondem às normas são parados antes de entrar no túnel.
A cada 325 metros, duas galerias laterais ligam os dois tubos e permitem os viajantes de acessar rapidamente as áreas protegidas em caso de urgência. Se um trem faz disparar o alarme, o comboio é automaticamente conduzido para uma das duas estações de socorro (Sedrun ou Faido). Olhando para o interior da montanha, percebemos o complexo sistema de túneis e galerias e a maneira como funciona o sistema de segurança.
5. O São Gotardo aproxima o sul e o norte da Europa
Milão como subúrbio de Zurique? Com a entrada em serviço do túnel de base do São Gotardo e a conclusão de toda a linha, em particular do túnel do Monte Ceneri, a capital econômica da Suíça e essa importante do norte da Itália estarão mais próximas. A viagem durará menos de três horas (contra quatro atualmente).
Em um contexto mais amplo, a linha do São Gotardo representa uma das principais ligações através dos Alpes e um dos corredores ferroviários mais importantes da Europa para o tráfego de passageiros e mercadorias.
Mas o sucesso da obra e a possibilidade de transportar mercadorias entre o Mar do Norte e o Mediterrâneo não depende somente dos trabalhos efetuados na Suíça. Nos países limítrofes, as linhas de acesso ao São Gotardo devem ser adaptadas e ampliadas. Você pode ver aqui o andamento dos trabalhos realizados na Itália e na Alemanha.
6. O São Gotardo é o túnel dos mineiros e engenheiros
Canteiro de obras do século, obra-prima da arquitetura ferroviária, jovem da Suíça para a Europa: o novo túnel de base do São Gotardo é uma obra de superlativos. Mas ela é, especialmente, obra do trabalho de centenas de mineiros, operários e engenheiros, a grande parte deles estrangeiros, que em condições extremas - com temperaturas chegando até a 40 graus Celsius - trabalharam dia e noite durante 17 anos. Um trabalho não sem risco, pois chegou a custar a vida de nove pessoas.
O suor e a paixão desses homens de macacões laranja foram documentados pelo fotógrafo da swissinfo.ch, Thomas Kern, que acompanhou uma equipe de mineiros até o fundo da montanha em 2009.
7. O São Gotardo tem um futuro incerto
Nós não estamos falando aqui do novo túnel, mas da antiga linha de montanha. Com a entrada em operação do tráfego através da planície, no mês de dezembro segundo calendário previsto, o futuro da linha que liga Göschenen (Uri) e Airolo (Tessin) é incerto. A concessão para o transporte à longa distância irá expirar em 2017. Em seguida, será necessário decidir se ela continua ou se o destino da linha de trem de montanha será destinado, em parte ou inteiramente, ao tráfego regional.
O futuro da linha de montanha poderá ser garantido por uma candidatura ao patrimônio mundial da UNESCO, estima o historiador Kilian Elsasser, que evoca nesse artigo as vantagens dessa decisão. Pouco apoiada pelo governo suíço, a opção UNESCO voltou à atualidade. Segundo a organização para a proteção do patrimônio arquitetônico Patrimônio Suíço, a candidatura para a inscrição da linha na lista da UNESCO "será feita sem demora".
Por seu lado, a fundação para o patrimônio histórico da CFF, a CFF Historic, tem o objetivo de valorizar a linha de montanha ao propor passeio em trens históricos. Por exemplo, com a locomotiva elétrica RAe 1050, utilizada na lendária rede internacional Trans Europe Express.
8. O São Gotardo para (re)descobrir a pé
Vinte minutos para atravessar os Alpes. É o tempo necessário ao viajante para ir de Erstfeld, o portal norte do novo túnel de base em Bodio, no Ticino. Vinte minutos em que a história, mitos e lendas relacionadas ao São Gotardo vão fluir sem ser percebidos.
A caminhada não seria o melhor meio de (re)descobrir esse maciço e toda a região do São Gotardo? Foi o que dois jornalistas da swissinfo.ch fizeram para depois publicar suas histórias em uma grande reportagem multimídia.
Dependendo dos interesses, as opiniões e as experiências profissionais, o São Gotardo não deixa ninguém indiferente. Para o autor deste artigo, ele é sobretudo uma barreira que separa a Suíça italófona, ao sul, e a Suíça germanófona, ao norte, o lugar de nascimento até o emprego. Em termos de cultura, o estilo de vida e certamente também as condições meteorológicas, existe claramente duas versões do São Gotardo.
E para você, o que representa o São Gotardo? Envie-nos seus comentários! Compartilha suas reflexões e conte-nos suas experiências.
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch