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Os dois ex-presidentes debateram em Paris o ousado projeto da Suíça: devolver à União Europeia seu poder no cenário internacional… optando pela neutralidade.Este conteúdo foi publicado em 30. setembro 2021 - 15:00
E se a União Europeia adotasse uma política de neutralidade ativa? Essa ideia um tanto maluca, é defendida pela ex-conselheira federal Micheline Calmy-Rey em um livro publicado na primavera passada, Pour une neutralité active (Por uma neutralidade ativa, em tradução livre). A socialista de Genebra tentou converter seu “camarada” François Hollande ao seu projeto revolucionário.
“Impossível, impraticável'', respondeu polidamente por correio o ex-presidente francês, que no entanto concordou em prefaciar seu trabalho e discuti-lo em público. "A provocação de Micheline tem o mérito de nos fazer pensar", concluiu François Hollande, após um animado debate realizado na embaixada da Suíça em Paris.
Os dois políticos aposentados agora têm tempo para refletir sobre seu histórico e formular propostas ousadas. Em seu best-seller The Lessons of Power (Lições do Poder, em tradução livre), Hollande tenta repensar a social-democracia e ressuscita velhos conceitos de esquerda, em particular a autogestão. Sem esquecer de criticar severamente seu sucessor, Emmanuel Macron, que foi seu ministro.
Não é uma neutralidade substituta
Micheline Calmy-Rey, natural de Valais, atualmente leciona no Global Studies Institute da Universidade de Genebra. “Foi conversando com meus alunos que percebi que o conceito de neutralidade não era bem compreendido”, conta.
Sobre a "neutralidade'', a ex-chefe da diplomacia suíça almeja um tipo de neutralidade ativa. “Não se trata de indiferença ou de reclusão”, especifica Calmy-Rey. Contra a neutralidade ausente, ou mesmo de interesses econômicos, que levou a Suíça a rejeitar as sanções internacionais contra o regime racista da África do Sul na década de 1980, Calmy-Rey defende a neutralidade com base no direito internacional. Exemplo: a independência de Kosovo, que a Suíça reconheceu sem alienar a Sérvia e a Rússia.
No entanto, a União Europeia “segue uma política que se assemelha furiosamente à neutralidade ativa”, aponta o ex-chefe do Departamento Federal de Relações Exteriores (FDFA). Dividida entre os estados membros da OTAN, que contam com o "Tio Sam" para sua defesa estratégica e outros como a França que defendem uma verdadeira defesa europeia, a UE está avançando sem bússola.
"A neutralidade ativa permitiria à União Europeia se destacar no cenário internacional como um jogador não agressivo", disse Micheline Calmy-Rey. Dividida e ilegível, a UE já não pesa muito em certas questões internacionais, em particular nos conflitos do Oriente Médio. Por que não ser claramente neutro, o que não impede a participação em intervenções externas, no âmbito das resoluções da ONU? A neutralidade armada ao estilo suíço também inclui a defesa do território nacional, se for atacado, lembra Calmy-Rey.
Poderes cada vez mais agressivos
“Certamente”, responde François Hollande, “mas a ameaça muitas vezes ocorre longe das fronteiras nacionais”. O ex-presidente vê como prova as operações que fez no Sahel em 2013, ou que apoiou, nomeadamente no Afeganistão e na Síria.
A Suíça enviou soldados ao Sahel ou a outras intervenções da ONU na África, na República Democrática do Congo? "Alguns", responde, sem convencê-lo, Micheline Calmy-Rey. No cenário internacional, “não se pode mais contar com a razão e o diálogo. As potências agora estão se mostrando mais agressivas”, acrescentou Hollande, citando China, Rússia, Turquia e Irã. “O que me entristece é que alguns na UE pensam que os Estados Unidos estarão sempre lá para os defender”, nota o ex-presidente, que defende a construção de uma verdadeira defesa europeia.
“Sabe”, diz François Hollande, que parece aliviado por não estar mais no Elysee, “passei noites inteiras ″ conversando ″ com Vladimir Putin. Você mal começa a falar e ele se lança em um monólogo de uma hora”. Você tem que ser neutro até certo ponto e ativo depois de um limite, acrescenta Hollande.
Neutralidade? Um conceito mal compreendido na França
Criticada e assimilada à problemática diplomacia da Suíça durante a Segunda Guerra Mundial, a neutralidade não gera boa impressão na França. “Há muitos candidatos para as próximas eleições presidenciais, não conheço nenhum que faça campanha pela ideia da neutralidade”, ironiza o ex-presidente. Micheline Calmy-Rey reconhece que o termo é mal compreendido e que a expressão “autonomia estratégica” seria, sem dúvida, mais significativa, para descrever a mesma política.
Na plateia, bem abastecida de diplomatas europeus, a ideia maluca de Calmy-Rey luta para convencer. “Para a Suíça rodeada de montanhas, a neutralidade é simples”, testemunha o embaixador tcheco na França, Michel Fleischmann. “Mas e para nós, para quem fazia parte do bloco soviético, e tem medo? ”
Os dois aposentados políticos fizeram sua “turnê” em setembro em Lausanne, convidados pela Fundação Jean MonnetLink externo.
Adaptação: Clarissa Levy
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