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A imprensa da Suíça foi surpreendida, assim como todos outros observadores, com a vitória de Trump nas eleições presidenciais nos Estados Unidos. A grande questão é saber como o controverso empresário irá tratar a política externa dessa grande nação.
O comentário do NZZ sobre os resultados afirma que Trump "seria o presidente incorreto". O jornal diz que a grande questão agora é saber até que ponto o "presidente" Trump será diferente do "candidato" Trump.
"Estados Unidos da América, o país das oportunidades, está cumprindo suas promessas, mas de uma forma negativa. O país elegeu um presidente sem experiência política e até agora só conhecido como magnata do mercado imobiliário e estrela de televisão. Ainda não está claro o significado da eleição, já que a sua única convicção parece ser o oportunismo."
O NZZ escreve que o excelente sistema de freios e contrapesos no sistema político dos Estados Unidos deve agora entrar em vigor para limitar o poder de Trump até que a maioria republicana no Congresso assuma seu papel com seriedade.
Todavia a política externa é um caso diferente, já que nela o presidente tem bastante autonomia. "Ninguém pode impedir que o político de 70 anos cumpra a promessa de campanha de retirar o apoio dos EUA aos países membros da OTAN, se juntar ao Putin e remover os conselheiros militares da Síria e do Iraque. Trump será o comandante do exército mais poderoso do mundo. Mesmo sem a aprovação do Congresso ele poderá enviar os soldados à guerra no espaço de noventa dias."
O jornal Tages-Anzeiger, de Zurique, afirma que o presidente poderia transformar tudo em sua cabeça: partindo do tratado global do clima, às negociações de livre-comércio e o acordo firmado com o Irã na questão das armas nucleares.
O correspondente do jornal em Washington considera que os resultados do voto "deverão convulsionar o mundo nos próximos ano. Não é particularmente reconfortante escutar do campo de Trump que o novo presidente deve nomear Newt Gingrich para secretário de Estado. Não apenas os Estados Unidos precisam se preparar para um período turbulento no futuro."
O jornal genebrino descreve o resultado como um "salto ao vazio" e continua: "Trump reinventou um estilo de campanha apostando na provocação e na omnipresença da mídia". Ele não tem um programa real, mas "uma mensagem poderosa, simples e emocional", que é a de fazer dos Estados Unidos mais uma vez um grande país.
Suas promessas foram uma ilusão, mas foram tranquilizadoras para americanos, cujas vidas foram afetadas pelos "choques de globalização e sociedade 2.0."
"Os americanos estavam prontos para uma pausa, preferindo a incerteza de um presidente errático à segurança de uma política democrática em linha com aquelas defendidas por Obama e Bill Clinton."
"Os Estados Unidos mostraram mais uma vez a tendência de exercer um papel de laboratório social e democrático. Um gigantesco laboratório, cujos experimentos terão um impacto no mundo do amanhã."
Trump deve fazer uma limpeza no chamado "establishment" (n.r.: poder instalado), começando com o seu próprio partido. Republicanos de peso que se opuseram a ele irão pagar caro. "O inverso é espetacular, não apenas para Clinton, mas também para o sistema político-financeiro que nunca deixou de ser egoísta."
O jornal populista denominou a vitória de Trump como "castigo dos negligenciados". Seu editorial acompanha o NZZ ao questionar se o sistema americano de freios e contrapesos prevalecerá. O Blick culpa em grande parte a mídia americana por não tê-lo levado à sério, assim como seu passado repleto de escândalos.
"Agora é a vez do presidente de rir. Já o mundo não ri mais. A maioria dos eleitores americanos está emocionada e a vitória de Trump será a confirmação. Esse é o direito (do voto). Mas só o tempo dirá quanto a excitação do eleitorado deve durar."
O jornal lembra um paradoxo que apenas os Estados Unidos seriam capazes de produzir: o país mais poderoso do mundo elege um empresário "sexista e xenofóbico" com uma personalidade "imprevisível e com tendências ao borderline."
A presidência digna de Obama foi incapaz de "aplacar a raiva profunda que impera sobre essa grande democracia", e continua: "As desigualdades criadas por um sistema obcecado com o crescimento econômico sem ser capaz de distribuir seus frutos de forma equitativa. Gente em demasia ficou à margem da sociedade."
Os excluídos como a maioria branca empobrecida e minorias que querem parecer integrados abraçaram o "lado negro da alma americana". A "campanha marcou o fim da abordagem do politicamente correto com os setores mais fracos da sociedade e as minorias. A eleição de Trump mostra que a maioria nutre um "ódio à elite, incluindo a mídia".
Os republicanos foram incapazes de conter a ascensão de Trump, enquanto os democratas foram forçados a reconhecer a popularidade de Bernie Sanders e sua política de esquerda. Para ambas as partes, a reconstrução será um exercício difícil.
O jornal do cantão da Argóvia denominou a vitória de Trump como "Um levante popular". "O aspecto histórico da sua eleição não é que uma mulher poderia ter entrado na Casa Branca pela primeira vez, mas alguém de fora entrou, uma pessoa que sofria oposição do próprio partid. Ele será o 45° presidente dos Estados Unidos."
O jornal acusou Clinton de perder para esse "candidato absurdo" apesar do apoio absoluto do partido, de grande parte da mídia, dos financistas de Wall Street e das estrelas de Hollywood.
"Mas foi esse exatamente o problema. O triunfo de Trump foi um voto na desconfiança - um levante popular se você quiser: contra a clã dos Clinton, os partidos, a cooperação internacional, a migração, Washington, as mídias, as elites e os políticos."
O que você acha da eleição de Donald Trump como próximo presidente dos Estados Unidos? Escreva seu comentário.
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch