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Mercadorias de segunda mão estão se tornando cada vez mais populares na Suíça, onde a moda “vintage” é apreciada tanto por sua durabilidade, quanto o que ela diz sobre o comprador.
A poucos passos da principal estação ferroviária de Zurique, um grande edifício rosa atrai pessoas à procura de móveis e roupas diferentes. Mas ao contrário da confusão e do cheiro de mofo dos velhos brechós, a loja especializada em segunda mão Zürcher Brockenhaus parece mais uma loja de departamentos bem arrumadinha.
"Esse ficou bem em você", diz uma senhora a uma jovem que experimenta um casaco de seda verde com botões brilhantes. A peça poderia ter sido usada pela senhora em seu auge, na década de 1960.
No andar de cima, um casal de meia-idade examina algumas mesas de jantar. A mulher corre a palma da mão sobre a superfície de madeira que parece velha o suficiente para ter estado lá desde a abertura da loja, em 1904. O homem se apoia sobre a mesa, como se quisesse testar as pernas.
"Parece boa e resistente", diz, balançando a cabeça em agradecimento.
Ueli Müller, gerente da Zürcher Brockenhaus, observa que muitas pessoas têm uma verdadeira paixão por coisas antigas, como se os objetos "tivessem de alguma forma um valor agregado".
Todos os anos, a loja vende meio milhão de itens de todos os gêneros. O negócio anda bem o suficiente para que a loja doe mais de 280 mil dólares por ano a obras de caridade.
Nova tendência
"Cadeiras, luminárias e cerâmicas são os artigos mais procurados, especialmente porque há sempre espaço para essas coisas em um apartamento", diz Joan Billing, especialista em tendências e fundadora da feira anual de mobiliário vintage Design+Design.ch.
Joan Billing conta que quando ela se interessou por vintage, há 25 anos, o meio era dominado por especialistas, historiadores e colecionadores.
"Este círculo realmente se expandiu ao longo da última década”, diz Joan, que se sentia uma pioneira quando lançou a feira de design, há oito anos. "Finalmente, os suíços acabaram adotando essa tendência."
Ela explica que o fato de alguns museus terem se interessado pelo vintage também ajudou para que as pessoas levassem o conceito mais a sério.
O Museu do Design de Zurique explorou o tema na exposição: Vintage – Design with a History. O museu descreve vintage como um "aumento no valor que um objeto agrega com o envelhecimento, a seleção e a escassez".
Em comparação com a atmosfera animada de um mercado de pulgas ou de um brechó, a exposição é bastante asséptica.
Itens realmente antigos aparecem ao lado de reproduções e coisas novas feitas para parecer velhas.
Para a curadora do museu, Karin Gimmi, um dos destaques da exposição é um tapete oriental feito para dar a ilusão de que está ficando puído.
Nostalgia
"Em tempos de produção em massa, esse é um contramovimento", observa Müller. "As pessoas estão à procura de objetos únicos com alguma história do passado."
Gimmi concorda que algumas pessoas fantasiam em cima de certos períodos históricos: "quem tem um objeto do passado consegue se sentir como se fizesse parte dele", diz.
Essa história pode ser muito recente - mesmo durante a vida da pessoa - ressalta o psicólogo Christian Fichter.
"Como se costuma dizer, tudo era melhor nos velhos tempos. A psicologia conseguiu mostrar que as pessoas tendem a apagar as memórias negativas, lembrando principalmente das coisas boas", conta Fichter, sugerindo que talvez por isso as pessoas fiquem ‘gravitando’ em torno dos objetos que lembram a juventude delas.
No entanto, o sentimento de nostalgia não é a única força motriz da demanda por peças vintage. Fichter diz que as pessoas também procuram esses objetos no intuito de fazer uma espécie de ‘declaração’.
"Comprando algo usado, a pessoa também está dizendo que se preocupa com a sustentabilidade. Ela poderia comprar algo caro, mas prefere usar algo que teria sido descartado", explica o psicólogo.
Ou, se a compra for um objeto de design caro, isso também poderia ser uma maneira de dizer: "Eu tenho bom gosto, olhe minha cadeira Charles Eames ou a espreguiçadeira Le Corbusier".
Billing concorda que os suíços sempre foram criteriosos com seus recursos, o que significa que a transmissão dos móveis antigos sempre foi um tema - e agora mais ainda.
Durabilidade
Para Ueli Müller, outro ponto que ajuda nas vendas de objetos vintage é a alta qualidade dos produtos.
"As coisas velhas tendem a ser mais robustas. Veja a louça Rössler, que foi exposta no Museu do Design de Zurique. É uma das mais duráveis de todos os tempos", disse Müller, acrescentando que o mesmo também vale para os móveis antigos.
"Se você pegar um armário velho, você pode montá-lo e desmontá-lo umas 20 vezes, é um companheiro constante em uma casa. Mas os modernos caem aos pedaços depois de serem desmontados apenas duas vezes. É terrível. Eu não sei por que produzem coisas como essas", disse Müller.
Christian Fichter concorda que os consumidores estão ficando fartos da mentalidade de usar e jogar fora.
“Está começando a haver um movimento contra à volatilidade, principalmente em termos de consumo. As pessoas estão procurando coisas sustentáveis", disse.
Retrô
Algumas pessoas só querem adquirir algo com um certo estilo e não se importam se o objeto não for uma verdadeira peça vintage.
A exposição Vintage – Design with a History apresentou uma mistura de peças vintage, bem como outras feitas propositalmente para parecerem velhas, como óculos de sol, tênis e jeans.
O museu também encomendou um vídeo com artesãos da Índia fazendo armários novos com aparência de usado, com a pintura descascada e marcas de uso.
Gimmi observa com ironia que nenhum consumidor indiano estaria interessado em comprá-los - um fato que para Fichter tem uma certa lógica.
"Nos países em desenvolvimento, como a Índia, os consumidores se comportam como nós há 30 anos, quando as pessoas na Suíça queriam coisas novas brilhantes", diz o psicólogo.
"Hoje em dia, as pessoas são mais minimalistas e eufêmicas", defende Fichter, é o poder de compra que distingue os suíços de outros consumidores.
"Os suíços podem comprar móveis caros. Eles podem realmente escolher o que querem, mas o que eles querem não difere necessariamente muito do que os outros europeus querem."
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch