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Um estudo recente realizado pela Universidade de Estocolmo, na Suécia, indica que 72% da população mundial vive em países considerados autocráticos. Somente 13% é governada por democracias plenas, índice comparável ao ano de 1986, antes da queda do Muro de Berlim, o que, desde logo, tem de obrigar-nos a colocar uma questão: então a luta contra o comunismo, organizado em torno da antiga União Soviética, não se destinava a implantar a democracia universal? Se era, então a humanidade falhou, pelo menos até agora.
O Ocidente Alargado – os seus políticos hegemónicos, os seus intelectuais orgânicos, os seus jornalistas e demais porta-vozes, bem como a maioria dos seus cidadãos – tende a apontar o dedo aos “outros” (os russos, os chineses, os africanos, os árabes, os “bolivarianos”, seja lá o que isso for), culpando-os pela sua alegada incapacidade de viverem em democracia. O crescimento da Extrema-Direita nos seus países deveria obrigá-los a abandonar esse complexo de superioridade moral chamado “eurocentrismo”, mas que ninguém espere que isso aconteça: a maioria dos democratas ocidentais não hesitará em aliar-se à Extrema-Direita e ao fascismo, caso os seus interesses de classe estejam em risco; já está a fazê-lo, um pouco por todo o lado.
Não me refiro unicamente a casos óbvios, como a aliança com países que estão entre a ditadura aberta e as “democracias” musculadas e autoritárias, como a Arábia Saudita, Turquia, Hungria, Israel e outros, para só mencionar os casos presentes. Também não me atenho apenas ao processo de normalização da Extrema-Direita nos países do Ocidente Alargado, o que pode levá-la, inclusive, a chegar ao poder ou próximo dele. Pergunto: quando um país com a tradição democrática, social e “internacionalista” da Suécia não hesita em trair um povo inteiro (os curdos) em troca da sua entrada na NATO, o que dizer do estado da democracia no Ocidente Alargado?
Mas é mais do que isso. Em texto contundente publicado no passado dia 2 de julho e a que tive acesso pelas redes sociais, a jornalista brasileira Milly Lacombe traduziu em miúdos a célebre frase de Churchill sobre a relatividade da democracia. “Nos Estados Unidos, quando Hillary Clinton e Bernie Sanders concorriam por uma vaga na chapa democrática para enfrentar Donald Trump, em 2015, todas as artimanhas foram executadas para tirar Sanders do jogo. Como ele falava palavras do tipo “revolução” e dizia que iria para cima dos bilionários, Sanders não era um ator legítimo para a democracia estadunidense. Dançou. E Hillary perdeu para o nazifascista”, escreveu ela, mostrando os limites da democracia (e, reafirme-se, a sua relação com a luta de classes).
Para evitar mal-entendidos, esclareço que não tenho quaisquer dúvidas em partilhar da certeza de Churchill segundo a qual a democracia, apesar das suas limitações, é o melhor regime disponível, pelo qual, por conseguinte, vale a pena lutar. Mas, tal como a maioria dos democratas do Sul Global, insisto em dois pontos: primeiro, democracia sem dimensão social não passa de ficção, o que a coloca numa situação de risco permanente; segundo, a democracia não pode ser implantada à força de canhões e drones a partir do exterior, como nos querem fazer crer os bem-pensantes democratas do Ocidente Alargado, incluindo a “Esquerda neoliberal”, esse perverso oximoro dos nossos tempos.
A pergunta que tem de ser feita é: por que razão, 34 anos após a queda do Muro de Berlim, a democracia não avança? A atual crise universal da democracia tem várias causas, mas a principal, na verdade, é o ataque deliberado e estrutural do capitalismo tecno-financeiro à dimensão social de que a mesma carece para manter-se e desenvolver-se. A erosão do Estado de bem-estar social criado após o fim da 2.ª Guerra Mundial, a financeirização da economia, o uso desregulado da tecnologia e a globalização seletiva do capital explicam as várias crises, dúvidas, distúrbios e ataques internos à democracia; no plano externo, a retórica “democracia versus ditadura” em que o Ocidente Alargado insiste para justificar as suas intervenções em outros países mal esconde as lutas atuais pelo controlo dos mercados.
Nesta crise não há, pois, bons, nem maus. Os diferentes atores deveriam lembrar-se de um provérbio camaronês, que aconselha a não apontar o dedo indicador a ninguém, para acusá-lo; nesses casos, o polegar vira-se sempre contra quem acusa.
João Melo
Escritor e jornalista angolano.
Diretor da revista África 21