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A prefeita de San Juan, Carmen Yulin Cruz,em Carolina, Porto Rico, no dia 3 de outubro de 2017(afp_tickers)
Cercada pelos escombros, Carmen Yulín Cruz inspeciona a destruição deixada pelo furacão Maria em um parque em San Juan, a capital de Porto Rico. "O poder é para fazer coisas", observa a prefeita, que ganhou fama internacional ao enfrentar o presidente americano, Donald Trump.
"Prefiro dar prioridade ao cálculo humano e não às consequências políticas", diz a autoridade, que usa botas de caminhada, boné e óculos cor marfim.
Ela se senta nos degraus de uma escadaria do parque Luis Muñoz Marín. Tira duas fatias de pão da mochila e abre uma tigela com uma mistura para sanduíches, que espalha no pão.
Não se ouvem os barulhos típicos de um parque. Os chafarizes onde as crianças brincavam estão desligados. Os balanços estão vazios.
"Por que me envergonharia de preparar um sanduíche se tenho fome?", questiona Yulín, como prefere ser chamada, à AFP.
A prefeita ganhou notoriedade quando reclamou publicamente do presidente Trump por demorar em fornecer ajuda a Porto Rico, que é território americano associado.
Atingido por dois furacões seguidos - Irma e Maria - entre setembro e outubro, Porto Rico ainda luta contra a devastação e 81% dos seus 3,4 milhões de habitantes seguem sem eletricidade.
Em sua última troca de tuítes na semana passada, depois que Trump ameaçou retirar a ajuda a Porto Rico, Yulín reagiu: "Não é que você não entenda; é que você é incapaz de cumprir o imperativo moral de ajudar o povo de Porto Rico".
Seu marido, o psicanalista Alfredo Carrasquillo, relata à AFP que Yulín "pode ser muito dura com pessoas que tentam atingir a dignidade humana".
- "Tolerância zero" -
"Tenho zero tolerância à injustiça. Não consigo entender como uma pessoa é melhor do que outra por causa de sua posição social, cor de sua pele ou preferência sexual. Temos que construir uma sociedade baseada em nossas diferenças", declarou Yulín no parque.
Membro do opositor Partido Popular Democrático (centro-direita), a prefeita de 54 anos é muitas vezes apelidada de "Pitirre", um pássaro muito pequeno que se defende ferozmente contra seus predadores.
Seus amigos, conselheiros políticos e familiares concordam em definir Yulín como uma pessoa espontânea, genuína e inclusiva em seu trato com o próximo.
"Sua liderança e coragem são exemplares", diz Elsa Marín, sua amiga de infância.
Elsa é uma das melhores amigas de Yulín, de um seleto grupo de cinco mulheres, o Yaya's Sisterhood, que existe há mais de 40 anos.
"Nunca brigamos. Yulín sempre me faz lembrar: 'você é a única pessoa que em 50% das vezes não me diz o que quero escutar'", comenta Elsa à AFP.
- "Estamos morrendo" -
A troca de declarações com Trump começou quando Yulín apareceu na imprensa local e internacional nove dias após a passagem de Maria para denunciar que o governo federal estava demorando em responder à tragédia.
"Estamos morrendo e estão nos matando com sua ineficiência", declarou Yulín com uma voz sufocada. "Estou implorando, implorando que nos ouça para que nos salve da morte".
Trump defendeu sua administração no dia seguinte, acusando a prefeita de responder à agenda de seus adversários democratas.
Segundo o advogado Noel Colon Martinez, um de seus conselheiros políticos, a prefeita "neste momento de emergência desponta como uma trabalhadora incansável e como a crítica mais acertada à resposta da administração Trump a esta profunda crise humanitária, à qual os Estados Unidos não prestaram muita atenção".
Depois de se destacar como líder estudantil e estrela esportiva em Porto Rico, Yulín estudou na Universidade de Boston e na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburg, Pensilvânia.
Morou nos Estados Unidos por doze anos e retornou a Porto Rico, onde trabalhou no setor privado antes de começar a carreira política. Desde 2013 atua como prefeita.
"Temos de celebrar as nossas diferenças com base na equidade. Com educação para todos, recursos energéticos acessíveis e habitação justa", reflete Yulín.
E tira o celular para fotografar um arco-íris em meio aos destroços do parque Luis Muñoz Marín.
AFP