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(Arquivo) Um homem vende apetrechos a favor da candidata presidencial peruana Veronika Mendoza, em Lima, no dia 7 de abril de 2016(afp_tickers)
Verónika Mendoza tem 35 anos, Pedro Pablo Kuczynski, 77. Ela, de esquerda, aposta em um modelo econômico alternativo; ele acredita no livre mercado. Os dois lutam para chegar ao segundo turno com a favorita, Keiko Fujimori, na disputa pela presidência do Peru.
O destino quis que a aspirante mais jovem e o candidato mais velho, que além disso se posicionam em extremos políticos opostos, tivessem que brigar voto a voto pela segunda posição, em um país onde, mais que ideologias, o eleitor privilegia pessoas e rostos.
Até dezembro, Verónika, que fala quechua, era uma desconhecida. Diante das consequências de uma lei eleitoral que expulsou candidatos e em meio à eterna busca do eleitorado por um "outsider", Mendoza avançou explorando uma imagem de decência e honestidade, prometendo mudanças radicais na economia e resistindo a críticas até da Igreja católica por sua postura a favor da união civil gay e do aborto.
Quechua e francês
Verónika tem uma voz calma e nasceu em Santiago, distrito de Cusco. Sua mãe, uma francesa amante da história andina, pensou em chamá-la de Micaela, em homenagem à esposa do líder indígena Túpac Amaru, que se rebelou contra a colônia espanhola. Mas seu pai, que falava quechua, escolheu "Vero". Quando era criança gostava de se vestir de Ñusta - princesa inca - e hoje alimenta a ideia de se converter na primeira presidente do Peru.
Seus pais, professores, sempre foram de esquerda, mas tomaram cuidado para não influenciar suas três filhas. Em vão: aos 19 anos, a candidata percebeu que a arqueologia não era para ela e decidiu viajar à França, onde estudou Psicologia na Universidade Denis Diderot e fez um mestrado em Antropologia na Sorbonne Nouvelle.
Ingressou no hoje governante Partido Nacionalista, onde foi eleita congressista em 2011, mas renunciou um ano depois, ao divergir da forma como o governo administrava os conflitos sociais. Casada e mãe de uma filha, fez uma façanha.
Aos que quiseram ridicularizá-la entrevistando-a em francês - língua que domina - ela respondeu em quechua, língua de seus ancestrais, falada hoje por uma minoria. Promete destinar 6% do PIB à educação.
Se vencer as eleições proporá uma nova Constituição com "transformações radicais" e, por temas ambientais, questiona projetos de mineração em um país onde a extração de recursos naturais é chave para a economia.
Defende um modelo alternativo à extração mineradora e acredita que o Estado deve recuperar a soberania dos recursos naturais, embora não goste dos mercados.
Chamou de golpista a oposição venezuelana, mas voltou atrás depois, fato que foi aproveitado pelos seus eleitores, que a chamaram de "chavista" e a vincularam aos grupos armados maoistas e guevaristas que semearam o terror no país entre 1980 e 2000.
Mendoza afirma que não aplicará no Peru o modelo da Venezuela, e nega qualquer vínculo com organizações extremistas. "É revoltante que a dor que o terrorismo causou ao nosso povo seja utilizada para uma guerra suja contra nossa proposta de mudança", afirmou.
O flautista economista
"Meus amigos me disseram que poderia ir embora tranquilo, descansar, com minha (motocicleta) Harley (Davidson)", afirma Pedro Pablo Kuczynski, com experiência nos cargos de primeiro-ministro e ministro, que quer sacudir a imagem de "gringo".
"Eu não sou político, sou um economista que quer fazer algo por seu país", declarou o também concertista de flauta transversa do Royal College of Music, que trocou a música clássica pela música andina.
De pai alemão e mãe franco-suíça, o popular "PPK" é primo do diretor de cinema Jean-Luc Godard e sua vida foi de cinema: nasceu no Peru e acompanhou seu pai, médico, em trabalhos sociais nas florestas do país, mas foi educado no Reino Unido, Suíça e Estados Unidos. Em 2011 esteve próximo de passar ao segundo turno e atualmente insiste novamente com o Peruanos Por el Kambio, que carrega suas iniciais.
Precisou renunciar a sua nacionalidade americana - sua esposa a ostenta - em meio ao receio de seus compatriotas, que temem que isso possa servir para que ele fuja da justiça, como fez o peruano-japonês Alberto Fujimori. Explora sua imagem de experiência, valorizada pelos mercados.
Integrou diretórios de várias empresas, razão pela qual seus opositores temem que, se chegar à presidência do Peru, defenderá interesses particulares. "São besteiras", adverte. "Minhas mãos estão limpas", afirma.
AFP