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Há 50 anos, os suíços votaram para decidir se centenas de milhares de italianos teriam que retornar à sua terra natal. Isso deixou feridas em muitos. Imigrantes italianos e seus filhos, os chamados “secondos”, relembram os tempos do referendo Schwarzenbach.
"Foi uma época negra para nós", relembra a senhora de 78 anos. Giovanna Remo ainda vive em Fislisbach, no cantão de Argóvia, o mesmo vilarejo onde morava 50 anos atrás. Durante a década de 1960, o povo suíço se abriu aos poucos para os italianos. "Veio então o referendo Schwarzenbach e tudo voltou à estaca zero". Até mesmo crianças foram afetadas pela atmosfera racista.
"Você sabe quantos doces eu dei a outras crianças do bairro para que os meus filhos pudessem brincar com eles?"
A divisão entre os grupos perdurou além do domingo da votação, e só gradualmente se abrandou.
Iniciativa contra a invasão de estrangeiros ("Überfremdung")
Há 50 anos, eleitores suíços do sexo masculino (pois as mulheres então ainda nõ podiam votar) rejeitaram, com participação recorde, uma iniciativa popular "contra a infiltração de estrangeiros". [Nota da Redação: o termo "Überfremdung" em alemão não permite uma tradução direta, mas seu sentido é claro: ele exprime a reação de medo frente a um volume excessivo de "estranhos" invadindo as cidades e vizinhanças dos "nativos"].
A Iniciativa Schwarzenbach visava limitar a "população estrangeira" a 10% em todos os cantões, exceto Genebra, e teria forçado de 300.000 a 400.000 pessoas sem passaportes suíços a deixarem o país. Os italianos teriam sido particularmente duramente atingidos.
Seu promotor, e de onde a iniciativa de referendo deriva seu nome, era James Schwarzenbach, o único membro do Conselho Nacional de um pequeno partido de extrema-direita. Com a Iniciativa Schwarzenbach, seu promotor forneceu um enquadramento aos preconceitos já existentes. Em 1940, Schwarzenbach havia elogiado na mídia "os exércitos de jovens revolucionários de Hitler e Mussolini" e depois, já idoso, expressou publicamente suas simpatias às ditaduras fascistas.
A rejeição da iniciativa foi, contudo, mais limitada do que se esperava. Com 46% de aprovação e maiorias em sete cantões, a Iniciativa Schwarzenbach tinha uma vasta minoria de apoiadores. Isso apesar de todos os grandes partidos e todos os parlamentares, com exceção do populista epônimo de direita Schwarzenbach, se oporem à iniciativa.
Os promotores da iniciativa falavam da ameaça à "particularidade suíça", e mesmo alguns adversários da iniciativa de todos os campos políticos reconheciam a chamada "infiltração estrangeira" (Überfremdung) como um problema real, por razões táticas ou de convicção.
A campanha reforçou preconceitos existentes
As agressões violentas se tornaram mais frequentes. O racismo anti-italiano já existia, mas a campanha pelo referendo reforçou preconceitos e os tornou evidentes aos olhos do público.
Na fábrica de máquinas de costura onde Giovanna Remo trabalhava na época, por exemplo, o gerente sempre checava a qualidade de seu trabalho duas vezes. "Até que um dia eu disse que tinha frequentado uma escola exatamente como ele". Raramente ela se permitia retorquir dessa maneira.
"A sensação de ser indesejado"
"O clima não muda de um momento para o outro", diz o teólogo e historiador Francesco Papagni. Em 1970 Francesco Papagni era um menino de sete anos no bairro operário de Aussersihl, em Zurique. Uma vez ele chegou em casa com um broche com a inscrição "Schwarzenbach Ja", ou seja, sim para a iniciativa Schwarzenbach. Seu pai mandou que ele tirasse o broche de propaganda imediatamente. O jovem Papagni acreditava então que a iniciativa tivesse algo a ver com o grande centro comercial Spreitenbach. "Eu pensei que eles construiriam um segundo supermercado".
Mais tarde Papagni entendeu do que se tratava. "Schwarzenbach despiu os preconceitos e fez muitos se sentirem indesejados". Papagni nasceu com cidadania suíça. "Muitos italianos viviam aqui, mas tinham reservas de foro íntimo. Eu tive sorte de minha família estar aqui sem tais reservas". Enquanto outros italianos viviam na margem social como trabalhadores sazonais em alojamentos, Papagni cresceu comparativamente privilegiado como filho de um pequeno empresário com nível superior.
Seu pai dirigia uma loja de vinhos já na segunda geração e, ao contrário das áreas rurais, a comunidade italiana era forte no bairro. Ainda assim, a maioria dos suíços de Aussersihl com direito a voto votaram a favor da iniciativa Schwarzenbach.
"Depois veio a questão da identidade"
Antes da votação, o pai de Papagni escreveu cartas em colunas de leitores de jornais contra a iniciativa Schwarzenbach. Ele não apresentava argumentos morais, mas sim econômicos. Para ele, o setor de construção e a indústria da Suíça teriam entrado em colapso se de repente centenas de milhares de trabalhadores desaparecessem. O comércio de vinhos da família também teria perdido seus funcionários.
"Numa época em que todos falavam de economia, Schwarzenbach introduziu o tema da identidade", diz Francesco Papagni hoje. "Somente porque os católicos suíços votaram contra seus vizinhos católicos a iniciativa foi rejeitada com uma margem tão apertada".
A Iniciativa Schwarzenbach foi muitas coisas, e muitas coisas já foram ditas sobre ela. Fala-se sobre a aprovação da classe trabalhadora, e sobre o populismo de direita europeu que vem até os dias de hoje. Papagni, que é um católico devoto diz, por exemplo, que: "o que se subestima é que a iniciativa foi também uma fria guerra civil católica”.
Durante a crise do petróleo em meados dos anos 70, muitos italianos deixaram a Suíça. "Alguns voltaram [para a Itália] e sublimaram a questão. Muitos italianos mais velhos ainda têm mágoas até hoje”, diz Papagni.
"Algumas décadas depois, se disse que a escadaria do prédio cheirava mal quando os vizinhos tamiles, ou kosovares cozinhavam. Nos anos 70, eles diziam o mesmo sobre os italianos". Na Suíça, muitos dos preconceitos que ainda hoje são projetados sobre diversos grupos de migrantes foram, no passado, também projetados sobre os italianos.
Para Papagni, "hoje isso já nem é imaginável", não só em vista do fato de que os secondos (segunda geração) e terzios (terceira geração) italianos já fazerem parte da Suíça há muito tempo, mas também em relação aos sucessos dos populistas de direita italianos. "O fato de milhões de italianos terem emigrado no século passado é quase completamente suprimido no público italiano", diz Papagni.
Invasão estrangeira? "Um problema suíço"
Após o alto nível de aprovação da Iniciativa Schwarzenbach, o Conselho Federal decidiu criar uma comissão extraparlamentar sobre o tema. O então chanceler federal Karl Huber anunciou que "todos os grupos sociais da Suíça" devem estar representados nesta comissão. Todos, exceto aqueles sem passaporte suíço, já que as organizações de estrangeiros não foram explicitamente convidadas. "Haja vista que o problema da invasão estrangeira é, antes de tudo, um problema suíço", disse Huber em julho de 1970.
Uma pessoa que tem prestado excelentes serviços à causa de dar voz aos italianos na Suíça é Guglielmo Grossi, hoje com 74 anos. Como muitos jovens italianos na Suíça da época, Grossi ficou emocionado com a discussão sobre a Iniciativa Schwarzenbach. "Mas não tivemos oportunidade de participar do debate político. Faltava-nos uma plataforma", diz Grossi sorrindo. "Nós realmente conseguimos isso depois. Fizemos disso uma coisa óbvia e natural".
Entre outras coisas, ele foi presidente da Federazione Colonie Libere Italiane, a organização de migrantes que por vezes representava 20 mil italianos na Suíça nos anos 70 e 80. Em Thalwil, onde Grossi tinha vivido na época da Iniciativa Schwarzenbach, havia na época "pelo menos um restaurante" onde os italianos não podiam entrar. "E nos restaurantes onde éramos servidos, às vezes éramos insultados pela mesa vizinha".
Feridas que não fecham
Mais tarde, Grossi, como representante dos migrantes, sindicalista e político local do Partido Socialista suíço (SP), acompanhou todas as questões que foram decisivas para os italianos na Suíça. "Por pelo menos 20 anos, as feridas da Iniciativa Schwarzenbach continuaram. E as feridas afetaram a todos, sendo que alguns italianos me chamavam de ‘traidor’ quando eu defendia a dupla cidadania".
Desde 1992, os italianos que obtêm a cidadania suíça não perdem mais sua cidadania italiana, e vice-versa.
Giovanna Remo, que vive desde 1968 quase sem interrupção em Fislisbach, no cantão de Argóvia, nunca solicitou um passaporte suíço. Ela participou do coral da igreja, do clube de ginástica, e foi voluntária na defesa civil; aqui ela vivenciou tudo. "Agora estou quase no fim da minha vida... por que não sou suíça?" Nesse momento, Giovanna Remo muda para a sua língua materna e responde que, em seu coração, ela é suíça.
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