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Credit Suisse abandona gigante imobiliária chinesa
O Credit Suisse, outrora o maior subscritor internacional dos títulos da Evergrande, vendeu toda a sua participação na conturbada empresa do setor imobiliário chinês no final do ano passado, de acordo com pessoas familiarizadas com a decisão.
A medida protegerá o banco suíço de perdas significativas caso a construtora mais endividada do mundo não cumpra com suas obrigações. Decisões anteriores, contudo, poderiam suscitar novas preocupações acerca do credor, que ainda está se recuperando dos escândalos Greensill e Archegos.
Ao longo da última década, o Credit Suisse ajudou a negociar US$ 4,6 bilhões em títulos para a Evergrande, cerca de 13% do valor total, ficando atrás apenas da China Securities Co, de acordo com dados da Dealogic. No entanto, faz dois anos que o Credit Suisse não subscreve nenhuma dívida da empresa, devido à sua preocupação com a situação financeira da construtora.
Dos títulos negociados pelo Credit Suisse, pelo menos US$ 4,2 bilhões ainda estão pendentes. Eles foram vendidos a contrapartes tais como gestores de ativos, fundos de hedge e clientes privados ultrarricos do credor, que poderiam agora perder grandes quantias de dinheiro, uma vez que se teme que a Evergrande possa começar a não pagar sua dívida internacional.
O Credit Suisse decidiu vender sua própria participação, que havia acumulado enquanto era subscritor, porque “não gostou do que estava vendo”, disseram as pessoas familiarizadas com o assunto.
Preocupações internas
No dia 23 de setembro, o Credit Suisse informou seus investidores e clientes de gestão de ativos que os fundos do banco detinham muito pouca dívida da Evergrande e que a instituição em geral tinha uma participação mínima.
Em declaração, o Credit Suisse disse que “não é um credor da Evergrande e nós não temos participação direta de empréstimos à empresa”.
Internamente, o Credit Suisse tem manifestado preocupações acerca da Evergrande por pelo menos três anos, de acordo com fontes dentro do banco. Um incidente que chamou a atenção do alto escalão do banco foi um pedido de empréstimo do presidente da empresa, Hui Ka Yuan, no final de 2018.
A Evergrande havia criado recentemente um título de US$ 1,8 bilhão para ajudar a pagar um dividendo especial aos investidores. Devido à falta de demanda, Hui, que era então o terceiro homem mais rico da China, teve que investir US$ 1 bilhão de seu próprio dinheiro para financiar o negócio, informou o Financial Times na época.
Na época, Hui procurou o Credit Suisse para um empréstimo que seria usado para comprar valores mobiliários da Evergrande, oferecendo o título como garantia. Quando a transação foi submetida para análise, os gerentes de risco criticaram sua estrutura por ter características de financiamento circular, disseram as pessoas envolvidas ao FT.
Sinal de alerta
Também havia preocupações com as dívidas da empresa, que então somavam mais de US$ 100 bilhões. Posteriormente, esse valor chegou a cerca de US$ 305 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 20 bilhões são títulos internacionais.
“A transação era errada tanto financeira quanto moralmente”, disse uma das pessoas. “Além disso, a Evergrande tinha a situação financeira mais frágil [entre as construtoras chinesas] e nitidamente estava enfrentando uma crise de liquidez”.
No fim, o Credit Suisse rejeitou o empréstimo e começou a diminuir sua relação de investimento com a Evergrande logo em seguida. Ainda assim, Hui continuou a ser um cliente do banco privado, disseram as pessoas envolvidas.
“Na época, os mecanismos de risco realmente funcionaram... [mas] foi um sinal de alerta sobre o tipo de acordo que estava sendo feito” por banqueiros e gestores de riqueza na Ásia, acrescentaram.
Ao pedir por e-mail que a Evergrande comentasse o caso, não obtivemos nenhuma resposta.
Acordos que azedaram
Embora fosse o maior subscritor internacional, o Credit Suisse estava longe de ser o único banco ocidental envolvido com a Evergrande. O UBS e o BNP Paribas também negociaram títulos para a construtora. A BlackRock, o HSBC e o UBS têm exposição direta à empresa, e agora eles e seus clientes estão enfrentando grandes perdas após terem aumentado suas participações nos títulos da Evergrande apenas meses antes do colapso de seus preços.
A divulgação do antigo envolvimento do Credit Suisse com a Evergrande chega num momento difícil para o credor suíço, que já enfrenta a raiva dos investidores e processos judiciais movidos pela potencial perda de bilhões de dólares após o fechamento de fundos ligados ao Greensill Capital. Esses fundos somavam US$ 10 bilhões.
Sob a nova presidência de António Horta-Osório, o banco está revisando seus sistemas de gerenciamento de risco e revendo as relações com os clientes após uma perda comercial de US$ 5,5 bilhões de dólares devido ao fracasso da Archegos Capital.
Outros negócios que azedaram na região incluem o Luckin Coffee, da China. O Credit Suisse patrocinou sua oferta pública inicial em 2019, apenas para ver, no ano passado, suas ações despencarem após alegações de fraude, o que fez com que os proprietários não cumprissem com o pagamento de um empréstimo com margem de US$ 518 milhões.
Participação adicional de Hudson Lockett em Hong Kong
Copyright The Financial Times Limited 2021
Adaptação: Clarice Dominguez
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