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No primeiro Dia Mundial da Malária, instituições públicas e privadas suíças dizem que o governo do país ainda não faz o suficiente para ajudar a combater a doença no mundo.
Especialistas dizem que são necessários mais recursos e uma diversificação do tratamento para erradicar a malária. O mais novo medicamento vem do Brasil.
"O governo suíço tem feito muitas declarações sobre o que pode ou deve ser feito", disse o diretor do Instituto Tropical Suíça (ITS), Marcel Tanner, à swissinfo. No entanto, a Suíça é uma das nações industrializadas que menos contribui com a luta contra a malária, acrescentou.
O ITS estima em cerca de cinco milhões de dólares por ano os recursos públicos suíços destinados ao combate da doença que mata mais de um milhão de pessoas anualmente, principalmente na África.
Os EUA, por exemplo, ajudam com 200 milhões de dólares por ano. Segundo o instituto, são necessários recursos da ordem de 2 bilhões de dólares anuais para a luta contra a epidemia.
Em conversa com swissinfo, Christian Lenger, do ITS, e Hans Rietveld, da gigante do setor farmacêutico Novartis, que integram o Grupo Suíço da Malária (organização formada por instituições públicas e privadas), explicam porque é necessário mais dinheiro para erradicar a malária.
swissinfo: A distribuição de medicamentos e o acesso ao tratamento são fatores decisivos para controlar a malária?
Hans Rietveld: A distribuição é um desafio. Em muitos países do sul da África, a malária é o maior problema de saúde. Devido à precária infra-estrutura da área, ainda é difícil proporcionar a todas as pessoas acesso aos medicamentos necessários e eficientes.
Em regiões urbanas, a situação está melhorando e também há progressos nas regiões rurais. No período das chuvas, porém, muitas estradas ficam intransitáveis. A boa notícia é que, desde 2001, a Novartis forneceu aos países mais atingidos 160 de unidades de tratamento a preço de custo.
swissinfo: O Instituto Tropical da Suíça lançou um programa para melhorar o acesso aos medicamentos. Como a distribuição pode ser melhorada?
Christian Lengeler: É preciso considerar diversos aspectos. Até agora constatamos que os pacientes reconhecem a doença e tomam as medidas corretas. Mas daí muitas vezes eles são abandonados pelas instituições do sistema de saúde. Eles não recebem o medicamento certo ou a dose certa.
O que então precisa ser feito?
C.L.: É preciso melhorar o gerenciamento e a qualidade do tratamento. Paradoxalmente, todos sabem como o sistema deveria funcionar.
swissinfo: Ainda há mais de um milhão de vítimas da malária por ano. E isso embora hoje a luta contra a doença disponha de centenas de milhões de dólares, bem mais do que as algumas dezenas de milhões dos anos 1990.
H.R.: Hoje há muito mais dinheiro à disposição do que antigamente e isso é bom. Mas muitos países têm capacidade limitada para absorver esse dinheiro em seus sistemas de saúde e gastá-lo com responsabilidade.
A questão é se existe pessoal suficiente, se as estruturas do sistema de saúde e toda a infra-estrutura podem ser melhoradas. Ainda é um longo caminho. Mas também vemos progressos. Muitos Estados informaram nos últimos tempos que sua taxa de mortalidade ligada à malária caiu.
swissinfo: Quais países?
H.R.: Ruanda, Etiópia e Zâmbia, por exemplo. A queda da taxa de mortalidade pode realmente ser atribuída à melhor prevenção e ao uso de medicamentos mais eficientes.
swissinfo: Quanto diminuiu a taxa de mortalidade nesses países?
H.R.: Na Zâmbia caiu 33%, na Ruanda, 66%.
C.L.: Realmente temos problema para usar os recursos financeiros. Mas é importante lembrar que gastamos cerca de dois bilhões de dólares por ano para o controle da malária. E cerca de dois bilhões de pessoas estão ameaçadas pela malária. Isso resulta num gasto de um dólar por pessoa por ano.
swissinfo: Isso é suficiente para um tratamento com Coartem (red.: remédio contra a malária desenvolvido pela Novartis, que o vende à Organização Mundial de Saúde pelo preço de custo: US$ 2,50 o tratamento completo para os adultos).
C.L.: Sim, isso é suficiente para um ciclo de tratamento – ou para cobrir 1/3 dos custos de um mosquiteiro. Ainda não atingimos a dimensão financeira correta. E isso ainda vai demorar, porque os países não podem absorver tudo de uma vez. Apesar disso, precisamos de mais dinheiro.
swissinfo: A maior doadora de dinheiro, a Fundação Milinda Gates, pede que se concentre as atenção na eliminação da malária. Críticos dizem que, caso se persiga esse objetivo, havia menos dinheiro para medidas necessárias agora para conter a doença.
H.R.: Penso que é necessário estabelecer metas ambiciosas, lembrando o sucesso com que a malária foi eliminada na Europa. Por causa da situação na África, no entanto, será complexo atingir esse objetivo.
C.L.: Com os medicamentos atuais não o conseguiremos. Precisamos de uma vacina, mosquitos geneticamente manipulados, melhores inseticidas e também um sortimento de diferentes medicamentos, porque a resistências a inseticidas e a medicamentos são ameaças reais para os próximos anos. A meta de eliminar a malária nos próximos 30 a 40 anos talvez seja realista, mas em dez anos é impossível.
swissinfo entrevita, Dale Bechtel
A malária em números
A malaria é a maior causa de morbidade e mortalidade no mundo: reduz o crescimento econômico das áreas endêmicas em 1,3% ao ano
Presente em mais de 100 países, ameaça metade da população mundial
Por ano, ocorrem de 350 a 500 milhões de casos de malária, e mais de 1 milhão de mortes
Fonte: Fiocruz
O remédio da Fiocruz
A Fundação Osvaldo Cruz, através do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), em parceria internacional com a iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), lançou no último dia 17 de abril o ASMQ, a nova combinação em dose fixa do artesunato (AS) e mefloquina (MQ), para o controle da malária, já registrado e disponível no Brasil.
O ASMQ é um tratamento de primeira linha para crianças e adultos afetados pela malária P. falciparum na América Latina e Ásia. Por ano, há aproximadamente 1 milhão de casos de malária na América Latina (25% por P. falciparum, e a maioria no Brasil), e 3 milhões de casos na Ásia, onde se localiza 30% da mortalidade por malária no mundo.
99% dos casos de malária no Brasil se encontram na bacia Amazônica, onde as autoridades brasileiras do Programa do Controle da Malária realizaram um estudo de intervenção com o uso programático do ASMQ.
Fonte: Fiocruz
Grupo Suíço da Malária
O Swiss Malaria Group (SMG) é constituído por 11 integrantes da política, economia e sociedade, entre eles, representantes da agraindústria do setor farmacêutico, de organizações filantrópicas e de política desenvolvimentista e instituições de pesquisa.
O grupo pretende despertar a consciência para os esforços necessários para um combate eficiente da malária, quer divulgavar inovações suíças nesse setor e incentivar as pessoas a fazer doações para a luta contra a doença.