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Estela Carlotto conta as horas para abraçar seu neto, um bebê nascido e roubado de sua filha Laura poco antes de ser assassinada durante a ditadura argentina (1976-83), um fato pessoal que não impedirá sua luta para encontrar "todos os netos perdidos".
"Essa história não termina aqui, seguirei lutando. Vou seguir com as avós para encontrar todos aqueles que faltam", prometeu a ativista de 83 anos, que nesta quarta-feira estampava um sorriso a poucas horas do encontro tão esperado com o neto.
Carlotto se referia às quase 400 pessoas que ainda não foram encontradas, um dia depois de ter encontrado o neto 114, que se revelou sendo o seu, filho de Laura, sequestrada em 1977 e morta no ano seguinte.
Ela não quis revelar a data do encontro para "não forçar nenhuma situação", mas a reunião deverá acontecer em La Plata, cidade onde vive a senhora, 60 km ao sul de Buenos Aires.
Uma fonte da entidade indicou à AFP que este encontro será "estritamente familiar".
"É um dia muito especial. É como se eu estivesse sonhando", declarou a dezenas de jornalistas reunidos em frente a sua casa.
Estela Barnes de Carlotto, mãe de quatro filhos, era professora de uma escola primária quando sua filha desapareceu, junto a um namorado que ela não conhecia. Os dois militavam na organização guerrilheira Montoneros (peronista de esquerda).
Carlotto não sabia da gravidez da filha no momento de seu sequestro.
"Casei-me com meu primeiro e único namorado, Guido", contou recentemente durante uma entrevista.
Esse nome foi, segundo testemunhas que estiveram presas com Laura, o nome escolhido para batizar o filho, levado pelos militares cinco horas depois de seu nascimento em um centro de detenção clandestino na periferia norte de Buenos Aires.
A força do destino
Carlotto nasceu em 22 de outubro de 1930 na cidade de La Plata, onde levava uma vida tranquila em uma família de classe média quando sua filha desapareceu grávida de dois meses. A criança nasceu em 26 de junho de 1978.
"Estela", como é chamada, é uma mulher baixa de cabelos brancos, que sorri com doçura apesar das dificuldades encontradas durante toda a vida.
A detenção e desaparecimento de sua filha após o golpe militar de março de 1976 na Argentina marcou de forma radical o restante de seus dias.
A organização Avós da Praça de Maio foi criada em outubro de 1977 por Isabel "Chicha" de Mariani. Carlotto ingressou no grupo em 1978. Em 1990 foi eleita sua presidente.
Durante sua trajetória, recebeu diversos prêmios internacionais, incluindo a Legião de Honra francesa.
Fez vários doutorados em direitos humanos em universidades estrangeiras e, atualmente, ministra cursos livres em direitos humanos na Faculdade de Jornalismo de La Plata.
Em 2010, as Avós da Praça de Maio foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz, candidatura considerada por Carlotto como "alimento para a luta".
"Os prêmios são bons porque permitem confirmar que você está no caminho certo", disse a avó, cuja história teve um impacto global.
De acordo com as agências humanitárias, 30.000 pessoas, das quais 500 crianças, desapareceram na Argentina durante a ditadura.
A luta incansável das Avós da Praça de Maio permitiu encontrar 114 pessoas, como a mais recente de descoberta de Ignacio Hurban, procurado como Guido Carlotto.