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Combatente das Forças Democráticas Sírias em Raqa(afp_tickers)
Ex-reduto sírio do grupo Estado Islâmico (EI), Raqa está agora nas mãos de uma aliança dominada pelos curdos, aliados de Washington, mas que poderia se aproximar do regime de Bashar al-Assad e da Rússia, neste país devastado pela guerra.
Vejas as possíveis consequências geopolíticas da derrota jihadista nesta cidade:
Aproximação entre os curdos e o regime?
A captura de Raqa, ex-"capital" do EI na Síria, é a última vitória das Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança antijihadista que recebe o apoio aéreo crucial dos Estados Unidos.
Desde 2015, elas expulsaram os extremistas de várias regiões, estabelecendo-se como uma força-chave na luta contra a organização jihadista.
Mas, conforme o autoproclamado "califado" desmorona, com o risco de desengajamento americano na Síria, as FDS podem se ver isoladas, segundo os analistas.
"Se os americanos se retirarem, as FDS vão ficar vulneráveis", aponta Aaron Stein, pesquisador do think tank Atlantic Council.
Nesse caso, os curdos, de acordo com os especialistas, poderiam se aproximar do regime de Bashar al-Assad, que os tratou até então com suspeita.
Aproveitando em 2012 a retirada do exército de Damasco - muito ocupado com a rebelião em outras partes do país - os curdos estabeleceram uma administração semi-autônoma em regiões do norte da Síria, na fronteira com a Turquia.
O anúncio do estabelecimento uma "região federal" em 2016 e da realização de suas primeiras "eleições" provocaram a ira do regime, que quer recuperar todo o território perdido desde 2011.
Mas se "os Estados Unidos retirarem suas tropas rapidamente, dentro de seis meses, os curdos (...) terão que se aproximar de Damasco" - com Moscou por trás - acredita Fabrice Balanche, analista da Hoover Institution da Universidade de Stanford.
Aaron Stein concorda, estimando que "as FDS estão bem posicionadas para negociar com o regime".
Um analista próximo ao regime também aposta que este é o momento para uma aproximação.
"As negociações de hoje são sobre negociações entre os curdos e o governo sírio", afirma Bassam Abu Abdallah, diretor do Centro de Estudos Estratégicos de Damasco.
Retorno do regime a Raqa?
O regime não reagiu oficialmente à tomada pelas FDS de Raqa, uma região que "não tem importância estratégica" para ele, segundo Balanche.
"Enquanto as FDS e os Estados Unidos se concentravam em Raqa, o exército sírio e seus aliados avançavam no deserto e se precipitavam em Deir Ezzor", explica, referindo-se à província oriental onde o EI conserva muitos setores.
As forças do regime fizeram progressos rápidos nas últimas semanas nesta província, com o apoio crucial da aviação russa.
Fabrice Balanche observa o lado "estratégico" de Deir Ezzor, região petrolífera que faz fronteira com o Iraque.
Mas isso não significa que o regime, que diz controlar 52% do território, abandonou todas as reivindicações sobre Raqa.
"Para o Estado sírio, a autoridade deve ser restaurada em toda a Síria", indica Abu Abdallah. "Uma estrutura separada (...) é inaceitável, mesmo que envolva o uso da força", continua, referindo-se à administração autônoma curda.
Além disso, dada a enorme destruição em Raqa, os curdos talvez não consigam lidar sozinhos com a reconstrução.
"Em troca da proteção russo-síria, eles entregarão Raqa ao governo de Damasco", que irá reocupar os edifícios oficiais e trazer de volta a polícia, prevê Balanche diante deste cenário.
Retirada americana?
"Não há muito o que fazer na Síria para os Estados Unidos, já que o EI foi praticamente eliminado", argumenta Fabrice Balanche. O presidente americano Donald "Trump parece querer acabar com o EI e parar por aí".
"Os Estados Unidos usam os curdos como um carta de seu baralho. Assim que atingirem alguns de seus objetivos, vão abandoná-los", garante Bassam Abu Abdallah.
O último grande reduto urbano do EI na Síria, a cidade de Boukamal, na província de Deir Ezzor, deve cair nos próximos meses, provavelmente nas mãos do regime.
Como resultado, os Estados Unidos se encontrarão "numa situação geopolítica incômoda" na Síria, de acordo com Abu Abdallah, que acrescenta: "Turquia, Rússia e Irã querem vê-los partir".
Ancara, que apoia a rebelião, e Teerã e Moscou, do lado de Damasco, se aproximaram nos últimos meses, isolando Washington no jogo sírio.
AFP