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O chanceler venezuelano, Samuel Moncada, em Caracas, em 18 de julho de 2017(afp_tickers)
O governo da Venezuela advertiu os Estados Unidos que avançará com a eleição da Assembleia Constituinte, apesar da ameaça de sanções econômicas como parte de uma crescente pressão internacional que busca obrigar o presidente Nicolás Maduro a retirar o projeto.
"Nada nem ninguém poderá detê-la, a Constituinte acontecerá. Hoje o povo venezuelano é livre e responderá unido à insolente ameaça planejada por um império xenófobo e racista", afirmou o chanceler venezuelano, Samuel Moncada, em uma declaração pública.
Maduro convocou ao palácio presidencial de Miraflores os membros do Conselho de Defesa, integrado pelos líderes dos poderes públicos, "para responder integralmente a ameaça imperial".
Imagens transmitidas pela televisão estatal mostraram Maduro acompanhado, entre outros, pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e pelos presidentes do Supremo Tribunal e do Poder Eleitoral, Maikel Moreno e Tibisay Lucena.
O presidente americano, Donald Trump, assegurou na segunda-feira que "tomará rápidas e fortes medidas econômicas" se Maduro persistir em realizar, no dia 30 de julho, a eleição da Constituinte, que a oposição considera uma "fraude" do chavismo para se perpetuar no poder e fazer da Venezuela "outra Cuba".
"Os Estados Unidos não ficarão passivos enquanto a Venezuela desmorona", afirmou Trump em nota oficial, sem detalhar o alcance das medidas.
Segundo o presidente americano, apesar de 7,6 milhões de venezuelanos terem votado contra a Constituinte no domingo em um plebiscito simbólico organizado pela oposição, essas ações são "ignoradas por um mau líder que sonha se tornar um ditador".
O país petroleiro, que vive uma profunda crise econômica pela queda dos preços do petróleo, exporta para os Estados Unidos cerca de 800.000 barris diários (bpd), de uma produção relatada pela estatal PDVSA de 1.972.000 bpd.
Além da escassez de alimentos e medicamentos e de uma descontrolada inflação, a Venezuela vive há quase quatro meses protestos que deixaram 96 mortos, com os quais a oposição rejeita a Constituinte e exige a saída de Maduro do poder.
- Cerco internacional -
O cerco internacional se estende. Além dos Estados Unidos, a União Europeia (UE), o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, e os governos de Espanha, Alemanha, Canadá, Brasil, Argentina, México, Colômbia, Peru e Panamá pediram a Maduro que retirasse o projeto.
O mandatário rechaçou esses pedidos e chamou de "insolente" a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, que não descartou sanções.
A França pediu, na segunda-feira, "diálogo sincero" para resolver a crise, enquanto uma centena de legisladores da Colômbia e do Chile denunciaram Maduro à procuradoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia por violação de direitos humanos.
"A pressão internacional por si só não vai conseguir algo crucial, mas poderá, sim, facilitar o desenlace da crise", pois a Constituinte traz "custos para os interesses econômicos e políticos do governo", reduz sua margem de ação, comentou à AFP Mariano De Alba, especialista em assuntos internacionais.
Segundo o analista, é possível que "as ameaças da comunidade internacional convençam pelo menos certos grupos que apoiam o regime de que o mais conveniente é buscar uma saída negociada, pois isso seria melhor do que perder abruptamente o controle do país".
Moncada assegurou que, com suas ameaças, os Estados Unidos "cavam" um "fosso" em suas relações com a Venezuela -ambos os países estão sem embaixadores desde 2010-, e acrescentou que, por ordem de Maduro, fará uma revisão profunda dos vínculos bilaterais. "Não aceitamos humilhações de ninguém", manifestou.
O chanceler anunciou que a Venezuela declarou 'persona non grata' os ex-presidentes Vicente Fox (México), Jorge Quiroga (Bolívia), Andrés Pastrana (Colômbia), Laura Chinchilla e Miguel Ángel Rodríguez (Costa Rica), observadores do plebiscito e que defenderam uma maior pressão internacional para deter a Constituinte.
Em um áudio distribuído à imprensa, o chanceler da Costa Rica, Manuel González, defendeu os ex-presidentes mencionados e qualificou a declaração do governo venezuelano de "censurável".
Segundo González, a declaração reflete uma atitude comum de Caracas, "que tem um desprezo por aquelas pessoas que pensam diferente, que lutam por uma solução pacífica para o retorno da democracia na Venezuela".
De volta ao país, o ex-presidente Rodríguez disse ao jornal local La Nación que não há "honra maior para um costarriquenho que ser 'persona non grata' para uma ditadura".
Por outra parte, o presidente da Bolívia, Evo Morales, aliado de Maduro, considerou como uma "conspiração econômica" a advertência de Trump.
- "Paralisação total" -
Animada pelo plebiscito, a oposição ativou nesta segunda-feira o início da "hora zero", uma estratégia que combina aumento de protestos e a conformação de poderes estatais paralelos àqueles que estariam a serviço do governo.
Nesta terça-feira, o Parlamento, de maioria opositora, iniciou o trâmite para a designação de novos magistrados da alta corte.
Como preâmbulo da "escalada definitiva para a próxima semana", a oposição convocou uma greve cívica na quinta-feira, pedindo que empresários, comerciantes e funcionários de meios de transporte suspendam suas atividades, e que a população não saia para trabalhar.
"Significa a paralisação total. Todos os cidadãos têm o dever de pressionar pela restituição da ordem constitucional. A mensagem é que este país não vai tolerar uma fraude constituinte", assegurou nesta terça-feira o dirigente opositor Freddy Guevara.
Maduro, que considerou "ilegal" o plebiscito por não ter tido aval do poder eleitoral -acusado de governista- assegura que a oposição busca derrotá-lo com o apoio dos Estados Unidos, que segundo diz financia os protestos.
Maduro pediu uma chance para sua Constituinte, um "suprapoder" que regirá o país por tempo indefinido, sob a promessa de que trará a paz e a recuperação econômica.
AFP