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Começou nas redes sociais, passou a ser escrito em todos os muros de Santiago e terminou como o lema que melhor resume as raízes do descontentamento social chileno: "Evade", como uma forma de desafiar os pilares do agora questionado modelo econômico chileno.
Por um lado, a palavra chama a não pagar o bilhete do metrô, por considerar o preço abusivo, e por outro incentiva a imitar as manobras da elite política e econômica, que segundo os manifestantes tem ignorado durante anos os atos de corrupção no país.
Grupos de estudantes foram os primeiros a adotar o lema, pulando as catracas do metrô de Santiago, o que deu início à maior onda de protesto social no Chile em décadas.
"Anos de manifestações pacíficas não serviram para nada, por isto tivemos que fazer algo mais forte para que nos escutem", disse à AFP "Tam", uma estudante de 27 anos.
"Estamos fartos do abuso e, se é preciso destruir, vamos fazer isto porque é a única forma de sermos ouvidos. O Chile precisa de uma reestruturação", avaliou "Tam".
Alejandra Lunecke, pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Urbano Sustentável da Universidade Católica, recordou que no Chile "os jovens têm sido os porta-vozes do descontentamento, têm movido fronteiras".
Atrás deles foi uma sociedade "que não suportou mais pagar e pagar, apertaram muito o parafuso e chegou um momento que tinha que arrebentar", opinou Marcela Paz, professora de 51 anos.
O agora questionado modelo chileno se mantém como herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), que instaurou um sistema de aposentadoria pioneiro em estabelecer uma capitalização absolutamente individual do trabalhador e privatizou grande parte da saúde e da educação.
Mas após vários anos, os benefícios deste modelo beneficiam apenas alguns. As aposentadorias pagas à maioria dos aposentados são baixíssimas, e a saúde pública atende a poucos, da mesma forma que a educação.
Apenas 1% da população concentra 26,5% da riqueza líquida do país. No outro lado, 50% dos lares menos favorecidos têm apenas 2,1% da riqueza líquida, segundo dados da Cepal
Estes números se encondem em uma renda per capita de mais de 20 mil dólares, a mais elevada da região.
- Abusos e corrupção -
Grande parte da população olha com receio a comunhão entre as famílias mais ricas do Chile - uma dúzia de sobrenomes que concentra grande parte da riqueza do país - e o poder político, no momento liderado pelo magnata Sebastián Piñera.
Para os manifestantes, estas elites "evadem" em sua responsabilidade diante dos casos de corrupção, que nos últimos anos estiram relacionados com o financiamento ilegal de campanhas políticas e casos de conluio empresarial, sem a prisão de qualquer dos envolvidos.
O próprio Piñera obteve um acordo judicial este ano para pagar impostos territoriais de uma de suas propriedades no sul do Chile, que por décadas evadiu.
"Há uma sensação de que a justiça não é a mesma para a elite e para o povo. Então, o "evade" também diz que os ricos escapam das leis e das condenações, que são mínimas para eles", disse à AFP Emmanuelle Barozet, socióloga da Universidade do Chile e pesquisadora do Centro de Estudos de Coesão e Conflito Social.
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