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Cada dia que passa traz mais revelações: o suposto escândalo dos jogos manipulados, que também atinge a Suíça, ganha proporções inimagináveis.
"Você ainda não viu nada", prevê, portanto, o canadense Declan Hill, autor de um livro sobre as apostas esportivas ilegais.
O suposto escândalo dos jogos manipulados que abala o esporte europeu e suíço não surpreende Declan Hill. Jornalista independente, o canadense realizou uma vasta investigação para sua tese de doutorado na Universidade em Oxford, que o levou até à Ásia, onde as tríades mafiosas orquestram essa rede tentacular do mercado de apostas esportivas, movimentando bilhões de dólares por ano.
Autor do livro "Como manipular uma partida de futebol", lançado no ano passado pela editora Florent Massot, ele revela as engrenagens dessa máquina e solta uma verdadeira bomba, afirmando que quatro jogos da Copa do Mundo de 2006 foram manipulados.
swissinfo.ch: Declan Hill, esse caso dos jogos manipulados na Europa e na Suíça o surpreende?
Declan Hill: De forma nenhuma! E eu posso mesmo dizer que você ainda não viu nada. Nessas duas próximas semanas, uma grande quantidade de novos jogos manipulados serão revelados em outras ligas europeias, na Inglaterra, Itália, França e Espanha.
swissinfo.ch: Justamente, como é possível manipular uma partida?
D.H.: No século passado, toda uma série de esportes como o remo ou as competições de atletismo foram atingidas pelas apostas ilegais. O futebol estava, até então, relativamente protegido. Vinte e dois jogadores, os árbitros, os cartolas e ainda o público que assiste aos encontros, tudo isso complica evidentemente as coisas. Podemos dizer que manipular uma partida é, em todo caso, possível. Para isso, é necessário, no mínimo, corromper três ou quatro jogadores da equipe mais fraca.
swissinfo.ch: Você falou a equipe mais fraca?
D.H.: Sim, pois se uma equipe fraca perde de propósito, ninguém suspeita. Seus jogadores ganham, em princípio, salários mais baixos e, portanto, são mais fáceis de subornar. Isso também vale para as grandes competições internacionais. As mais vulneráveis são as seleções da América Latina, África e Europa do leste. A prova? Durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, os quatro jogos manipulados seriam os de Gana (contra o Brasil e a Itália, ndr.), Equador (contra a Inglaterra) e Ucrânia (contra a Itália).
swissinfo.ch: Em todo caso é necessário encontrar esses jogadores e depois atraí-los com uma isca?
D.H.: Em uma partida fraudulenta, existe de um lado o mercado dos apostadores e, de outro, o mundo do futebol. É raro que os contatos entre as duas partes sejam diretos pois existem os intermediários entre os corruptores e os jogadores. Esses intermediários são ex-treinadores ou ex-jogadores que estão procurando ganhar dinheiro depois de terminada a carreira. Eles gozam de uma boa reputação e têm acesso fácil às suas presas.
swissinfo.ch: No seu livro, você também fala do recurso a prostitutas. Como é isso?
D.H.: Durante minhas investigações, muitas coisas me impressionaram mas, sobretudo, duas. A primeira foi a presença patente de corruptores nos grandes torneios internacionais como a Copa do Mundo, o Mundial feminino ou as Olimpíadas. A segunda foi o recurso ao sexo de certos grandes clubes europeus em favor dos árbitros, um fenômeno presente nesses últimos anos e que todos os dirigentes e pessoas do meio do futebol conheciam. Ao chegarem ao hotel, os árbitros sabiam que em meia-hora as meninas estariam lá.
swissinfo.ch: Por que essas apostam vêm da Ásia?
D.H.: O mundo dos apostadores e quase mais difícil de corromper do que o do futebol. Então as organizações criminosas agem onde há mais oportunidades. Na Ásia, o mercado é três vezes maior do que na Europa. Talvez isso seja até subestimado, mas continua enorme e ilegal. Não me surpreende que, nessas condições, todos os apostadores, incluindo também os europeus, encontram seu paraíso.
swissinfo.ch: Os apostadores asiáticos colocam centenas de milhares de francos sobre uma partida da segunda divisão suíça, entre Gossau e Yverdon. Não existe algo de estranho nisso?
D.H.: Isso ocorre na Suíça, mas não só aqui. A Bélgica, a Finlândia ou a República Tcheca conhecem o mesmo fenômeno. É difícil acreditar que os asiáticos se divertem em manipular jogos de segunda divisão com 200 torcedores e a milhares de quilômetros de distância. Mas o mercado de apostas ilegais é gigantesco na Ásia. Estima-se que ele movimenta 400 bilhões de dólares. Seus atores estão sempre dispostos a procurar novas oportunidades.
E ainda existe algo mais inquietante do que uma segunda divisão suíça. Doravante eles apostam em alguns campeonatos europeus de juniores disputados por adolescentes de 16 anos. Tenho inclusive uma anedota que resume bem a situação. Lembro-me de um encontro na Malásia com um rapaz que trabalha para as máfias locais. Esse cara conhecia tudo, mas tudo sobre o futebol islandês. Um verdadeiro especialista: ele me recitava os nomes dos clubes de primeira divisão, dos quais eu nem sabia da existência, mas também os das equipes de vilarejos com menos de cinco mil habitantes. Ele também era imbatível no futebol feminino.
Vincent Chobaz, Pascal Dupasquier/La Liberté, swissinfo.ch
(Adaptação: Alexander Thoele)
Contexto
Escândalo. Revelado na sexta-feira passada (20/11) na Alemanha, o caso dos jogos manipulados no futebol abala o esporte europeu. Mais de 200 jogos, das divisões inferiores até a Liga dos Campeões, teriam sido comprados em nove países europeus permitindo o enriquecimento ilícito de apostadores baseados na Ásia.
Suíça. 28 jogos relacionados diretamente ou indiretamente a equipes suíças estão sob suspeita. Os clubes da liga Challenge (segunda divisão) de Gossau e Thun estão sendo investigados pela justiça por terem perdido jogos em condições suspeitas.
Medidas. A UEFA (União Europeia de Futebol) reuniu quarta-feira (25/11) nove federações atingidas pelo escândalo na sede da organização em Nyon, Suíça. A Associação Suíça de Futebol (ASF) e seu presidente, Peter Gilliéron, estiveram presentes. Ao final, a UEFA anunciou a abertura de um inquérito sobre cinco jogos suspeitos na classificação para a Liga dos Campeões.
As soluções de Declan Hill
Primeira medida: "No ano passado, após o lançamento do meu livro, a FIFA e outras instâncias do futebol internacional preferiram negar em bloco a existência de jogos manipulados ao invés de investigar. A única exceção foi a UEFA, que criou uma célula permanente especializada na luta contra esse fenômeno. Cada federação nacional deveria, seguindo o exemplo da UEFA, criar um grupo antifraude capaz de recolher o máximo de informações.
Segunda medida: "É necessário educar os jogadores. Um vigarista arrependido me disse que, a partir do momento em que um jogador aceita o primeiro centavo, 'ele se transforma em meu escravo'. Se o suborno ocorre, o cúmplice fica com os pés e mãos atadas. É necessário agir na raiz do problema para que os jogadores aprendam a evitar a armadilha."
Terceira medida: "Redistribuir uma parte dos lucros das apostas diretamente aos jogadores. Eles têm carreiras muito breves. Se prometemos uma aposentadoria integral a todos aqueles que não se envolvem com apostas ilegais, essa medida evitaria a tentação."
swissinfo.ch