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Reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova York, 18 de janeiro de 2018(afp_tickers)
Seu perfil é uma espécie de canivete suíço: experiência internacional, gosto pelo jogo, determinação e ser casca-grossa para resistir à pressão.
A ONU tem cerca de 20 emissários em todo o mundo para tentar pacificar países em conflito, muitas vezes uma missão impossível.
"São funcionários motivados por suas convicções, e uma parte, pelo ego. Ser chamado para a missão já é um grande privilégio", resume um funcionário da ONU, que não quis ser identificado.
É o caso do britânico Martin Griffiths, que acaba de ser escolhido emissário para o Iêmen. Os homens e mulheres que assumem a responsabilidade de tentar pôr fim a um conflito parecem ter a vocação necessária para enfrentar os horrores vividos por países como a Síria, a Líbia, ou a República Democrática do Congo.
Outras missões são menos perigosas como, por exemplo, reunificar o Chipre, encontrar um nome para a Macedônia que agrade à Grécia, ou resolver décadas de divergências no Saara Ocidental. E, às vezes, o desafio pode ser muito difícil.
A ONU tem cerca de 20 emissários espalhados pelo mundo, com missões muito pontuais, como o secretário-geral adjunto de Assuntos Políticos, o americano Jeffrey Feltman, que viajou para Pyongyang no final de 2017.
"A viagem mais importante da minha carreira", admitiu.
O trabalho dos emissários é "um trabalho sujo, um trabalho de cão", assinalam alguns diplomatas sob anonimato, explicando que alguns deles têm em suas mãos a responsabilidade sobre milhares de Capacetes Azuis.
"Às vezes, faz falta um pouco de humildade e paciência. E é preciso saber aproveitar as oportunidades para criar as condições de diálogo", explica um dos diplomatas.
"É preciso ser um grande jogador de xadrez e saber pedir aos outros que movam as peças", afirma outro.
- Sem vida pessoal -
Os requisitos para o sucesso de uma missão são "a vontade das partes, a unidade do Conselho de Segurança e as qualidades do mediador", afirma a ONU.
Os mediadores dos conflitos maiores - como Síria, Líbia e Iêmen - estão ao nível do secretário-geral da ONU e ganham 12.000 dólares por mês.
Ao aceitar sua missão, perdem grande parte de sua vida pessoal, comprometem-se a multiplicar suas viagens e regularmente têm de prestar contas de seus avanços e recuos em Nova York.
O apoio dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China) é indispensável para uma candidatura, assim como a aceitação das partes em conflito e dos atores regionais.
O predecessor de Martin Griffiths, por exemplo, foi rejeitado pelos rebeldes huthis do Iêmen, o que contribuiu para o fracasso da missão.
Frequentemente dotados de um nível internacional reconhecido, os emissários são propostos por seu país, podem apresentar uma candidatura espontânea, ou são solicitados pela ONU.
- Prova de fogo -
No Oriente Médio, são colocados à prova com dureza.
Nos últimos meses, o ítalo-sueco Staffan de Mistura, que se define como um "otimista incansável" e que sucedeu no conflito sírio a vários emissários que acabaram se demitindo, foi chamado à ordem.
"Ele tem tanta gana de conseguir (a solução), que incorporou demais as teses russas", alfineta um diplomata.
"Os emissários mais perspicazes vão embora antes que sejam dispensados", destaca outro diplomata.
A vida da ONU está marcada por esse eterno jogar a toalha quando não se consegue atingir uma paz impossível.
"Meu sonho secreto é ser o último enviado especial na Líbia. E que depois deixem que o país se desenvolva sozinho", disse o libanês Ghassan Salamé à AFP, no final de 2017.
"Não quero ficar eternamente nesse papel", acrescentou.
Às vezes, os emissários perdem sua vida na missão. Na Líbia, ou no Iêmen, alguns deles foram atingidos por balas.
Em Bagdá, em 2003, um atentado cobrou a vida do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, um dos melhores funcionários da organização.
E, em 1961, o então secretário-geral da ONU, o sueco Dag Hammarskjöld, morreu em um acidente de avião na África, em circunstâncias nunca esclarecidas.
AFP