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Dezenas de povoados desertos, assassinatos e veículos incendiados. O exército do traficante Otoniel, na Colômbia, que o governo chegou a dar por vencido, mostra sua força a poucos dias das eleições presidenciais.
O grupo - responsável por entre 30% e 60% da cocaína que sai do país - se vingou da extradição recente de seu chefe aos Estados Unidos com uma "paralisação armada" que imobilizou uma enorme área no norte do país.
Após a captura de Otoniel em outubro, o presidente Iván Duque cantou vitória: este é um "golpe que marca o fim do Clã do Golfo".
Contudo, o grupo formado por remanescentes dos paramilitares de extrema-direita mostrou justamente o contrário. Apesar da mobilização de 52.000 militares e policiais, segundo o governo, o Clã assassinou oito pessoas, cinco delas da força pública, e restringiu o comércio, as aulas e o transporte em 141 dos 1.100 municípios colombianos, segundo estimativas oficiais.
"O Estado não sabe muito bem o que fazer. O que apresenta como êxitos na segurança, inclusive a própria extradição de Otoniel, não significa que as coisas estejam mudando no terreno", disse à AFP Kyle Johnson, analista da fundação Conflict Response.
Segundo Johnson, "nos últimos dois ou três anos, o Clã foi o grupo [armado] que mais se expandiu em território".
A Fundação Paz e Reconciliação estima que o grupo está presente em 241 municípios e conta com cerca de 3.200 integrantes, metade deles armados.
Durante a "paralisação armada", mostrou sua força em regiões que estavam relativamente livres da violência posterior ao acordo de paz com a guerrilha das Farc em 2016.
- Novas formas de luta -
O desafio agora "já não é apenas militar", afirma o governador de Sucre, um dos departamentos afetados pelo Clã, ao alertar sobre suas novas formas de luta. "Aqui temos um desafio, acredito eu, cibernético", acrescentou Héctor Espinosa em entrevista à emissora W Radio.
Através de mensagens de áudio no WhatsApp e recados no Facebook, o grupo intimida com igual ou mais efetividade do que com os fuzis.
Segundo o governador Espinosa, havia policiais suficientes para garantir a segurança, "mas as pessoas estão com medo de sair porque há redes de WhatsApp e Facebook que estão dizendo para não sair".
Um jornalista contou que foi forçado a divulgar um panfleto do Clã no perfil de seu veículo no Facebook.
"Começaram a fazer ações reais, que mostravam que eles poderiam lhe causar dano ou acabar com sua vida. [...] Então, as pessoas viram que corriam perigo e obedeceram", disse o comunicador à AFP, em condição de anonimato.
Contudo, para o especialista em investigação digital Carlos Cortés, "a ideia de que o WhatsApp seria uma nova maneira de intimidar e controlar as populações é uma cortina de fumaça política".
"A resposta não está no WhatsApp. Está na operação e na presença destes grupos no território", enfatizou.
- Mão dura ou negociação? -
Faltando pouco para a eleição presidencial de 29 de maio, o Clã do Golfo também se faz presente na campanha. O candidato da esquerda Gustavo Petro, favorito nas pesquisas, criticou a "proposta fracassada de segurança" do governo frente às drogas.
Em outras ocasiões, Petro propôs uma espécie de "submissão coletiva" para os traficantes que incluiria benefícios na Justiça para os que saíssem do negócio.
Por outro lado, o seu principal adversário, Federico Gutiérrez, de direita, pede que a Colômbia não ceda "diante destes criminosos" e que as forças de segurança continuem em seu encalço.
Diante do fracasso no combate às drogas, o debate está entre usar a "mão dura" ou apostar na negociação. "É preciso pensar em redução de penas, em um processo de desarmamento, desmobilização e reintegração, além de mecanismos para contar a verdade às vítimas", opinou Johnson.
Contudo, o especialista adverte que um eventual arranjo com o grupo só funcionaria se o Estado conseguir "retomar o território" hoje dominado pelo Clã. "No processo de paz com as Farc isso não aconteceu, e a pergunta agora é se isso é possível com o Clã", acrescentou.