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A Suíça caiu dez lugares em um índice internacional de diferenças de gênero no ambiente de trabalho, para a 21ª posição, bem atrás dos países nórdicos em termos de progresso. O ambiente de trabalho e as escolhas educacionais são os principais fatores desse declínio.
Segundo o Índice de Diferenças de salário entre homens e mulheres do Fórum Econômico Mundial 2017 (WEF, na sigla em inglês), a Islândia continua a ser o país mais igualitário do mundo, uma posição que tem ocupado nos últimos nove anos.
O Índice, divulgado hoje (02.11), examina as diferenças entre homens e mulheres nas áreas de saúde, educação, economia e política em 144 países. No geral, o relatório de 2017 descobriu que a diferença de paridade global se ampliou em todas as quatro áreas pela primeira vez desde que começou a ser realizada em 2006. No ritmo atual de progresso, a diferença global de gênero levará 100 anos para desaparecer, calcula o WEF, baseado em Genebra.
A Suíça costumava ocupar as posições mais elevadas do índice por vários anos, tendo logrado diminuir 74% da diferença econômica por gênero, e ocupando o 11º lugar no ano passado e o 8º em 2015. No entanto, não acompanha o progresso alcançado por outros países, diz Saadia Zahidi, chefe da iniciativa Educação, gênero e sistema de trabalho no Fórum Econômico Mundial (WEF).
"Os países nórdicos estão mantendo sua posição privilegiada nos rankings porque continuam a progredir todos os anos, de modo que suas porcentagens e pontuações estão indo mais adiante, enquanto a Suíça está praticamente estaganada", explica.
Por exemplo, a Suíça é apenas mediana quando se trata do número de mulheres parlamentares, observa Zahidi. E o país caiu do primeiro ao 31° lugar em um índice de participação econômica e oportunidade para as mulheres.
"É uma enorme discrepância, em comparação com outras economias avançadas, ter apenas 47% dos cargos executivos ocupados por mulheres na Suíça", diz ela. "Na maioria das economias ao redor do mundo, há uma diferença reversa de gênero com mais mulheres do que homens ocupando esses cargos profissionais e técnicos".
Zahidi também ressalta que apenas 35,6% dos cargos de liderança na Suíça, como legisladores, diretores e gerentes, são ocupados por mulheres, tornando o país o 43º nessa categoria.
Educação
Nas últimas semanas a mídia suíça levantou o debate sobre a discrepância entre a superioridade de desempenho das meninas sobre os garotos na escola, e a falta de mobilidade para elas no local de trabalho. As estatísticas mostram que, na Suíça, as meninas são já maioria no ensino secundário acadêmico e mais frequentemente progridem para a universidade do que os meninos, mas permanecem sub-representadas em liderança e cargos de colarinho branco (gerencial e executivo), como aponta o Índice da WEF.
Zahidi disse que o nível de escolaridade superior das meninas era bastante consistente em todo o mundo em comparação com os homens, seja em economias avançadas ou emergentes. No entanto, em praticamente todos os países, exceto na Suíça, esse sucesso tende a se estender ao local de trabalho.
Então, por que a exceção suíça? Várias análises na imprensa apontaram o fato de que as mulheres na Suíça muitas vezes escolhem as ciências humanas e sociais como carreiras de estudos, em vez de economia ou ciência e tecnologia, campos mais propensos a conduzir a empregos com níveis mais altos de responsabilidade.
O WEF também encontra muitas mulheres trabalhando nos setores de educação e sem fins lucrativos, por exemplo, mas muito mais homens na área de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC), um setor de alto crescimento e com mais potencial para criar novas posições altamente qualificadas. A busca por um maior equilíbrio em termos de gênero neste setor deve ser abordada, disse Zahidi.
O WEF relatou também que a Suíça possui uma das maiores disparidades de gênero do mundo para graduados nos campos das TIC, onde as mulheres representam apenas 13% do número total de graduados do sexo masculino.
Falta de equilíbrio também em casa
O Índice da WEF também mostra que, em termos gerais, as empresas em todo o mundo não conseguem oferecer condições equitativas para as mulheres. Zahidi diz que as colaborações público-privadas ou o intercâmbio de informações sobre melhores práticas podem ajudar a resolver o problema.
Por fim, a distribuição do trabalho doméstico também agrava as diferenças de gênero.
"Há uma diferença de gênero no trabalho remunerado e uma diferença de gênero no não remunerado, basicamente o fato de que as mulheres dispendem muito mais tempo com as responsabilidades familiares do que os homens", explica Zahidi.
"Em alguns casos, trata-se de uma questão de conscientização e mudança cultural, que levam mais tempo para avançar, mas em geral são resultado de políticas muito específicas relacionadas à assistência à infância, horário escolar, licença paternidade e licença maternidade".
Os eleitores e os políticos suíços debatem regularmente políticas e medidas que deixem as crianças ficar na escola depois das aulas (para pais que trabalham o dia inteiro), licença paternidade mais longa e maneiras de abordar seus custosos cuidados infantis.
O fosso de gênero educacional
Estatísticas destacadas pelo jornal Tages-Anzeiger mostram que, no ano passado, 43,6% das meninas suíças obtiveram um diploma de ensino secundário (tanto do ensino profissionalizante como do pré-acadêmico), em comparação com 33,1% dos meninos - uma discrepância que se fortaleceu nos últimos 15 anos. Até a década de 1990, havia mais meninos tirando essa qualificação.
Os especialistas apontaram como explicação uma mudança em relação à atitude das mulheres sobre o investimento em sua formação, junto com o fato de o sistema escolar estar sendo cada vez mais adaptado às meninas durante a adolescência (as meninas geralmente apresentam níveis de concentração mais altos). Alguns dizem que o tipo de ensino empregado, como o trabalho grupal com ênfase em habilidades sociais, pode favorecer as meninas.
No entanto, esse domínio não se reproduz no local de trabalho. Os meninos tendem a escolher assuntos como economia, tecnologia e ciência que os conduzam a tarefas de responsabilidade superior. Mais mulheres optam por estudos em ciências humanas ou sociais (metade destes na universidade, por exemplo) que tendem a oferecer menos oportunidades de avanço. As mulheres também são mais propensas a trabalhar em tempo parcial ou a tirar licenças do trabalho por razões familiares.
Adaptação: Eduardo Simantob, swissinfo.ch