Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02488.jsonl.gz/28

Em 30 de dezembro, pesquisadores que usavam sistemas de inteligência artificial para revisar mídias e redes sociais detectaram a propagação de uma doença incomum com sintomas de gripe em Wuhan, na China.
Isso aconteceu vários dias antes da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicar uma avaliação de risco e um mês antes que a agência da ONU declarasse uma emergência de saúde global para o novo coronavírus.
Os sistemas de inteligência artificial poderiam ter acelerado o processo e limitado ou até retardado o avanço da pandemia de COVID-19?
Clark Freifeld, cientista da computação da Northeastern University que trabalha com a plataforma de vigilância global de doenças HealthMap, uma das que detectou o surto, diz que ainda não há resposta para essa pergunta.
"Identificamos os primeiros sinais, mas a verdade é que é difícil determinar, diante de uma doença respiratória não identificada, se há uma situação séria", diz Freifeld.
Dataminr, uma empresa de tecnologia de detecção em tempo real, disse que emitiu os primeiros avisos sobre a COVID-19 em 30 de dezembro com base em relatos de testemunhas dentro de hospitais em Wuhan, fotos da desinfecção do mercado onde o vírus se originou e um alerta de um médico chinês que morreu mais tarde do vírus.
"Um dos nossos maiores desafios é reagir a essas situações", diz Kamran Khan, fundador da empresa canadense de rastreamento BlueDot, um dos sistemas que alertaram sobre a epidemia em dezembro.
"Quando lidamos com uma doença nova e emergente, não temos todas as respostas. O tempo é o nosso recurso mais valioso e não podemos desperdiça-lo", assegura.
Khan, que também é professor de medicina e saúde pública na Universidade de Toronto, disse à AFP que os dados mostraram "ecos do surto de SARS que ocorreu há 17 anos, mas não se sabia o quão contagioso era".
Em todo caso, os sistemas de inteligência artificial provaram ser valiosos na detecção de epidemias por meio de uma ampla variedade de fontes, como reservas aéreas, Twitter, notícias e sensores de dispositivos conectados.
- Decisões humanas -
No entanto, Freifeld insiste que os sistemas de inteligência artificial são limitados e que os humanos devem tomar as grandes decisões.
"Usamos a inteligência artificial como um multiplicador de forças", declara.
Esses sistemas podem ajudar de várias maneiras: desde o monitoramento do surto em si até a aceleração dos testes de medicamentos.
"Podemos fazer simulações como nunca antes, entendemos as trilhas biológicas como nunca antes e isso é devido ao poder da inteligência artificial", explica Michael Greeley, da empresa Flare Capital Partners, que investiu em várias startups de inteligência artificial médica.
Mas Greeley diz que ainda é um grande desafio aplicar essas tecnologias a setores como o de medicamentos, onde o tempo de teste pode levar anos.
Segundo Khan, a inteligência artificial está ajudando na fase de contenção com sistemas que usam informações de localização de smartphones para rastrear o progresso da doença e encontrar focos, além de determinar se as pessoas seguem as diretrizes de "distanciamento social"
Andrew Kress, diretor da empresa de tecnologia da saúde HealthVerity, afirma que continua sendo um desafio coletar informações sobre surtos de doenças, respeitando a privacidade do paciente.
É possível identificar tendências com dicas como visitas a farmácias, venda de certos medicamentos ou até pesquisas online, aponta Kress, mas compilar tudo isso tem implicações na privacidade.
"Precisamos de uma discussão real sobre equilíbrio e utilidade (...) para continuar determinando novos caminhos que nos permitirão tirar proveito de algumas dessas fontes de dados não tradicionais", diz Kress.
- Mineração de dados -
Os sistemas de inteligência artificial também estão sendo usados para revisar milhares de pesquisas em busca de pistas sobre os tratamentos que podem funcionar.
Na semana passada, pesquisadores se uniram à Casa Branca em um esforço para disponibilizar cerca de 29.000 artigos de pesquisa sobre o coronavírus, para que possam ser analisados em busca de dados.
O esforço inclui a Microsoft, a Chan Zuckerberg Initiative, a Universidade de Georgetown, entre outros.
Por meio do Kaggle, uma comunidade de aprendizado autômato e dados científicos de propriedade do Google, essas ferramentas estarão disponíveis para pesquisadores em todo o mundo.
"É difícil para as pessoas revisarem manualmente mais de 20.000 artigos e resumirem suas descobertas", aponta Anthony Goldbloom, CEO da Kaggle.
"Os recentes avanços tecnológicos podem ajudar nisso. Estamos disponibilizando versões legíveis por máquina desses artigos à nossa comunidade de mais de quatro milhões de cientistas de dados. Esperamos que a inteligência artificial possa ser usada para ajudar a encontrar respostas para perguntas-chave sobre a COVID-19 ", assegura.