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O líder da oposição boliviana, Luis Fernando Camacho, reuniu aliados nesta quinta-feira (5) para encurralar o presidente Evo Morales, a quem pretende entregar pessoalmente uma carta de renúncia, enquanto os protestos no país estavam aumentando.
"Vamos entregar essa carta unidos", declarou Camacho, líder do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz (leste), em um comício em La Paz com plantadores de coca dos Yungas (vales subandinos) que não apoiam Morales, acrescentando que possivelmente levarão o documento à sede do governo na segunda-feira.
"Não é mais apenas de Santa Cruz (a carta), mas de toda a Bolívia", acrescentou Camacho, que além dos plantadores de coca reuniu outro apoio: os sindicatos de agricultores e pecuaristas de sua região, a mais rica da Bolívia, e o Conade, um comitê para a democracia liderado - entre outros - por Waldo Albarracín, reitor da Universidad Mayor de San Andrés, a principal do país.
"Como produtores, declaramos que liberdade e democracia são nossos princípios de vida", afirmou a Câmara Agrícola do Oriente em comunicado.
Mais cedo, Camacho disse: "Não vamos desistir até que possamos entregar a carta" nas mãos de Morales.
Paralelamente, os pedidos de diálogo se multiplicavam nesta quinta-feira, após violentos confrontos entre partidários e opositores de Morales, no poder desde 2006 e reeleito para um quarto mandato nas disputadas eleições de 20 de outubro.
Os bispos bolivianos iniciaram negociações preliminares com as autoridades para estabelecer um diálogo. "Já entramos em contato com o governo (...) estamos aguardando a resposta", afirmou o arcebispo de Sucre (sul), Jesús Juárez.
Coincidindo com a chegada de Camacho a La Paz, os protestos na Bolívia pioraram: uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas na cidade de Cochabamba (centro).
Desde o início dos protestos contra a reeleição de Morales, há mais de duas semanas, três pessoas morreram e outras 200 ficaram feridas.
O ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005), segundo colocado no pleito, culpou os simpatizantes de Morales pela violência em Cochabamba.
- Prefeita agredida e humilhada -
Além disso, a prefeita de Vinto, cidade vizinha a Cochabamba, Patricia Arce (ligada a Morales), foi agredida por um grupo de manifestantes na quarta-feira, um ato que foi reprovado dentro e fora do país por parte de setores do governo e da ONU.
Os manifestantes bateram na prefeita, cortaram seu cabelo, jogaram tinta vermelha em sua cabeça e a obrigaram a caminhar descalça pelas ruas da cidade.
Os agressores colocaram ainda uma faca no pescoço de Arce e exigiram que ela renegasse seus ideais políticos, mas a prefeita afirmou que preferia morrer. Em seguida, foi resgatada pela polícia. Os agressores ainda incendiaram a sede da Prefeitura.
"As Nações Unidas deploram a violência e o tratamento desumano da prefeito do município de Vinto, bem como os ataques contra outras mulheres, homens, jovens, meninas e meninos", informou o escritório local da organização.
- Pedido de diálogo -
A Bolívia está mergulhada no radicalismo após a polêmica eleição que garantiu no primeiro turno o quarto mandato de Morales.
O presidente reeleito não dá atenção às reclamações dos opositores que o acusam de tentar ganhar tempo para seguir no poder depois de aceitar uma auditoria eleitoral questionada da Organização dos Estados Americanos (OEA).
A oposição exige sua renúncia, a anulação das eleições e a convocação de um novo pleito sem a sua participação.
Já Morales afirma que todo processo de eleitoral foi limpo e exige que os resultados sejam respeitados.
O ex-presidente boliviano Eduardo Rodríguez-Veltzé (2005-2006) fez um apelo ao diálogo: "Somente paz, tolerância, respeito pela vida e dignidade nos permitirão abrir um diálogo construtivo para garantir a coexistência democrática", escreveu no Twitter.
Aliada do governo, a Central Trabalhista Boliviana (COB, pelas siglas em inglês) também fez um "apelo pela paz a todo o povo boliviano", através de seu principal líder, Juan Carlos Huarachi.
"Há uma via para o diálogo, uma saída institucional, que é o relatório feito pela OEA", disse nesta quinta-feira o vice-presidente boliviano Álvaro García Linera.
O processo de verificação "foi aceito pelos Estados Unidos, pela União Europeia, pelos Países Não Alinhados e pela comunidade internacional", acrescentou.
- A carta e a Bíblia -
Camacho tentou chegar a La Paz na terça-feira com a carta de renúncia para Morales, mas ele não conseguiu sair do aeroporto por causa da presença de manifestantes governistas e voltou para Santa Cruz.
Sem revelar dia e hora, esse advogado de 40 anos disse que, juntamente com outros oponentes, levaria a carta a Morales acompanhada de uma Bíblia "para que Deus volte ao palácio" do governo.
A carta "não será deixada em nenhuma janela", disse Camacho, líder do Comitê Cívico de Santa Cruz, que insistiu na rejeição da auditoria eleitoral da OEA.
O ministro da Defesa, Javier Zavaleta, declarou que Camacho "pode entregar as cartas que ele quiser" na sede do governo, mas descartou que Morales a receba.