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Uma clara maioria na Suíça não quer minaretes no país. Para Ismael Amid, ex-presidente da Associação de Organizações Islâmicas de Zurique, o resultado do plebiscito de domingo (29/11) foi uma grande surpresa.
Ele fala de uma campanha agressiva e que induziu os eleitores em erro.
swissinfo.ch: Os eleitores disseram claramente e de forma surpreendente "sim" a uma proibição de construir novos minaretes. O senhor esperava esse resultado e com essas dimensões?
Ismael Amin: De forma nenhuma. Eu nunca imaginei que essa iniciativa fosse aceita. O resultado foi uma surpresa total para mim. Eu esperava um "não", um "não" apertado. Foi um dia triste para mim.
swissinfo.ch: Como os muçulmanos na Suíça reagiram ao resultado do plebiscito?
I.A.: Sei pouco das reações. Ontem dei alguns telefonemas para amigos. Todos estão ultrajados e decepcionados com esse resultado.
swissinfo.ch: Quase 60% dos votos foram contrários à construção de novos minaretes. Como o senhor interpreta isso?
I.A.: É decepcionante que essa iniciativa tenha sido aprovada. A campanha foi conduzida de forma pontual e agressiva. Pouco se discutiu sobre o tema dos minaretes, mais sobre o Islã, mas com argumentos falsos.
Nesse sentido falou-se de casamentos forçados e a Xaria determina que casamentos forçados são proibidos. Falou-se de mutilações genitais e todos os jurisconsultos já se manifestaram contra a mutilação genital de mulheres. Falou-se do porte da burca. Nós nunca vimos uma burca na Suíça.
Falou-se também de temas que não tem nada a ver com os minaretes. Eles aproveitaram dos temores das pessoas e da falta de conhecimento da população para instrumentalizá-los. Assim chegou-se a esse resultado decepcionante.
Porém preciso defender a população suíça. Eles foram induzidos ao engano.
swissinfo.ch: Existe também a questão da integração da população muçulmana na Suíça?
I.A.: Eu não acredito que a população muçulmana esteja má integrada na sociedade. A maior parte dos muçulmanos está bem integrada e pratica sua religião sem problemas. Não posso falar em integração deficiente.
swissinfo.ch: É mais temor do que desconfiança?
I.A.: Depois da queda da União Soviética procurou-se um novo adversário e este foi encontrado no Islã. Desde então a imagem do Islã na imprensa não é positiva. Por isso foi possível manipular tão facilmente as pessoas e agir com o seu desconhecimento. Isso ocorreu sem problemas.
swissinfo.ch: O senhor fala de desconhecimento. Isso significa que os muçulmanos da Suíça devem se abrir mais à opinião pública, procurar mais proximidade dos suíços?
I.A.: Sim, seguramente. Nós deveríamos destacar mais a nossa presença na Suíça. Não é possível permanecer sempre nos fundos dos prédios como se não existíssemos na sociedade.
A sociedade muçulmana está em pior posição socialmente, isso está bem claro. Por isso ela não pode organizar uma campanha contrária como a que pode ser feita pela UDC (n.r.: União Democrática do Centro, partido da direita nacionalista que apoiou a iniciativa).
swissinfo.ch: Na Suíça vivem 400 mil pessoas originárias de países muçulmanos. Como fica a situação agora para essa comunidade?
I.A.: É difícil de prever. Mas eu posso imaginar que as pessoas estão desoladas, procurando caminhos, discutindo entre elas e analisando o que é possível fazer e como elas devem lidar com essa nova situação.
swissinfo.ch: E o que vai ocorrer agora?
I.A.: Como percebi na imprensa, é difícil colocar em prática essa iniciativa. Possível é o recurso à Corte Europeia de Direitos Humanos em Estrasburgo. Se isso vai acontecer ou não, não sei dizer.
Gaby Ochsenbein, swissinfo.ch
(Adaptação: Alexander Thoele)
Ismael Amin
Ismael Amin é originário do Egito e vive desde 1960 na Suíça.
O arabista e islamista é ex-presidente da Associação de Organizações Islâmicas de Zurique (VIOZ, na sigla em alemão).
Muçulmanos na Suíça
Na Suíça vivem cerca de 400 mil muçulmanos.
Em 2000, a percentagem de muçulmanos entre a população suíça era de 4,26%. Isso corresponde ao terceiro maior grupo religioso do país, atrás apenas dos católicos e protestantes.
De 1990 a 2000, a população muçulmana originária dos países da ex-Iugoslávia na Suíça foi triplicada. Com uma percentagem de 56,4%, esses muçulmanos correspondem ao maior grupo islâmico na Suíça.
Em 2000, cerca de 20% dos muçulmanos na Suíça eram de origem turca, 11,7% eram suíços e 6% vinham da África, sobretudo dos países magrebinos.
Cerca de 8 a 14% dos muçulmanos na Suíça são praticantes.
Na Suíça existem quatro mesquitas com minaretes. Elas estão nas seguintes cidades: Zurique, Genebra, Winterthur e Wangen.