Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02584.jsonl.gz/0

Os leitores devem estar a pensar: "O que esta matéria tem a ver com o blog?"
Antes de continuar com as habituais publicações, quero mostrar com esta história, a importância de haver pesquisadores independentes. Por causa deles, muitas coisas já foram descobertas, mesmo lutando contra o preconceito da classe profissional, dos ataques que tentam ridicularizá-los,etc.
Até a segunda metade do século XVIII da era cristã, a cidade de Tróia não passava de uma lenda supostamente criada por um escritor grego e relatada em um poema composto a partir da tradição oral dos aedos. Contudo, um arqueólogo amador alemão provou que a história contada por Homero podia ser real.
O arqueólogo, na realidade, era um sonhador que havia se apaixonado pela narrativa de Tróia durante a infância, e encontrá-la tornou-se sua grande obsessão - mesmo que todos tentassem demovê-lo da idéia de buscar o fictício lar de Príamo.
O garoto não se conformava com o fato, narrado pelo pai, que nenhum vestígio da cidade de Tróia fora até então encontrado, o que remetia a famosa batalha entre gregos e troianos para o campo das lendas e dos mitos. Nada havia, histórica ou cientificamente, que comprovasse a existência real daquela saga.
Mas o menino sonhava e dizia para o pai: "Quando eu for grande, hei de encontrar Tróia e também o tesouro do rei". Esse menino, nascido na Alemanha em 1822, chamava-se Heinrich Schliemann e esta é sua incrível história.
Heinrich, por necessidade, parou de estudar aos 14 anos e foi trabalhar numa loja de secos e molhados. Um dia, um bêbado entra na loja e começa, entre soluços, a declamar estranhos versos.
O menino nada entende, mas, quando descobre que são versos da Ilíada de Homero, paga ao ébrio alguns goles a mais para que ele os repita.
Começa a demonstrar então uma incrível facilidade no aprendizado de línguas. Em pouco tempo, domina o inglês, o francês, o holandês, o italiano, o espanhol e o português.
A firma em que trabalha mantém relações comerciais com a Rússia, mas ninguém conhece o idioma. Rapidamente, o jovem Schliemann domina o russo, o que lhe vale sucessivas promoções.
Mas um novo objetivo estava nascendo na imaginação do incansável Schliemann: achar os restos da cidade de Micenas, o rico reino dos Pelópidas. E, como sempre, ele foi buscar orientação nas obras clássicas de Ésquilo, Sóflocles e Eurípedes e nos relatos de viagens de Pausânias. Outros haviam tentado o mesmo caminho sem êxito, fracasso atribuído por Schliemann a traduções incorretas dos textos clássicos.
Aos 46 anos, já homem de muitas posses e realizado profissionalmente, no auge de sua carreira comercial, resolve abandonar tudo que construiu e dedicar-se integralmente à realização de seu sonho de infância, jamais esquecido: descobrir Tróia! Em 1868 parte para Ítaca, a ilha onde nascera Ulisses, o herói mitológico da Odisséia de Homero.
E é lendo os poemas de Homero que Schliemann se convence, cada vez mais, da existência real de Tróia. Não é possível que a riqueza de detalhes que Homero imprime em suas obras tenha sido inventada. Ele resolve então seguir, passo a passo, as descrições contidas na Ilíada e na Odisséia.
Uma estranha figura fazia aquele alemão obstinado que, com um relógio em uma das mãos e o livro de Homero na outra, percorria à pé as terras da Frígia, hoje Turquia, nas margens do Mar Egeu, medindo distâncias, comparando citações, identificando os lugares geográficos descritos, relocando as fontes de água que existiam e desapareceram com o tempo, enfim, reconstituindo toda uma época, trazendo-a para o presente.
Quando ele chega à Colina de Hissarlik (que quer dizer "palácio"), todas as descrições de Homero parecem coincidir com o que ele vê e sente. Levanta seu olhar cansado e vê, ao longe, o Monte Ida do cume do qual, segundo o poeta, Júpiter dominava a cidade de Tróia.
Não há mais dúvidas. Schliemann se põe a escavar com a ajuda de cerca de 100 trabalhadores. Muitos o chamam de louco - afinal, o alemão não era um arqueólogo no conceito que se tinha dessa profissão no século XIX, ou seja, estudiosos que não saíam da luz dos seus gabinetes e jamais se aventurariam ao sol escaldante das escavações.
Mas o alemão não desiste: enfrenta todas as agruras e as supera, pois move-lhe o impulso irrefreável de realizar seu sonho de criança.
De repente, começam a surgir objetos diversos, armas e utensílios domésticos. Ali deve haver uma cidade! E realmente havia, não uma, mas nove, construídas em épocas diferentes, umas sobre as outras. Qual das nove seria Tróia?
Ao descobrir vestígios de fogo nos restos da sétima e oitava camada, julgou ter encontrado Tróia e seus relatos, além de darem à Arqueologia uma nova dimensão, trouxeram-lhe fama, reconhecimento e muitas críticas pelo método de trabalho que utilizara.
Hoje sabe-se que a Tróia descrita por Homero corresponde aos estratos 6 e 7 (1900 a 1100 a.C.) e que a Guerra de Tróia realmente ocorreu como descrita pelo poeta, no começo do século XII a.C. e teria sido ocasionada por uma disputa comercial entre os Aqueus (Gregos) e os Troianos (Frígios dos Balcãs, aparentados com os gregos), com a vitória dos primeiros.
Sabe-se também que a Tróia mais antiga, correspondendo ao último estrato, remonta à Idade do Bronze, cerca de 3000 a.C.. A Primeira Tróia, Nova Ílion, seria do período latino que vai de 85 a.C. a 324 d.C. e o tesouro que foi considerado como sendo de Príamo, na realidade, pertencera a um rei mil anos mais antigo do que ele. Depois de Schliemann, críticas à parte, a Arqueologia nunca mais foi a mesma.
(fonte)