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Com sete mil tubos, o órgão da catedral de Lausanne é considerado um dos instrumentos mais caros do mundo. Porém a experiência de escutar o poder do seu som e harmonia única não tem preço.
O instrumento também é o primeiro órgão de tubos do mundo capaz de tocar quatro estilos, a ser projetado por um designer e o primeiro numa catedral européia a ser construído por uma empresa americana.
"Precisamos esperar até o início do século XIX para ter esse fantástico órgão", declara Jean-Christophe Geiser, organista da catedral de Lausanne desde 1991, em entrevista à swissinfo.
Quando o sistema de transmissão eletro-pneumático do órgão construído em 1955 aprestou os primeiros problemas de passagem de ar, o governo do cantão de Vaud decidiu aprovar a construção de um novo instrumento. O primeiro passo foi publicar uma licitação para contratar dois diferentes construtores: um designer e outro construtor de órgãos.
Em 1998, o governo publicou o nome das empresas escolhidas: C.B. Fisk, sediada em Massachusetts (EUA) seria a construtora e a italiana Giugiaroo, o designer.
O novo "rei dos instrumentos" de Lausanne foi inaugurado em 2003, depois de dez anos de trabalho e custos da ordem de cinco milhões de francos (US$ 4,2 milhões). A festa ocorreu também para marcar o 200o aniversário da adesão do cantão de Vaud à Confederação Helvética (a união dos cantões suíços).
O antigo órgão foi transportado e instalado na Filarmônica de Gdansk, na Polônia.
Tubos de sonhos
Todos os órgãos de tubos são únicos, porém alguns são mais únicos do que outros.
"Só existe um outro instrumento na Suíça com um número maior de tubos, porém o tamanho não é exatamente o critério mais importante", explica Geiser, a força-motriz atrás do novo órgão.
"Sua principal característica é ter quatro estilos: França clássica, França sinfônica, França romântica e Alemanha do norte barroca. Colocar esses quatro estilos num só instrumento é algo único no mundo".
Órgãos são essencialmente uma coleção de apitos, porém sua tonalidade e altura do som variam dramaticamente dependendo do tamanho, forma e material utilizado.
Como um artista misturando tintas na prancheta, um organista tem de selecionar as "chaves dos instrumentos de sopro" (o conjunto de tubos). Apenas ele tem o ouvido para julgar se a escolha possibilita a melhor execução musical – levando em conta também a acústica do local onde o instrumento é instalado. A empresa Fisk tem 100 conjuntos.
"O ponto forte deste instrumento é sua incrível versatilidade. Por exemplo, o órgão Mooser na catedral de Friburgo limita o organista a um determinado tipo de música. O mesmo ocorre com o órgão Silbermann em Arlesheim, onde só é possível executar música romântica francesa", explica.
Esforço global
Por décadas todos os novos órgãos nas catedrais suíços eram também construídos por empresas helvéticas.
"Nós queríamos criar um instrumento com esses quatro estilos, porém se escolhêssemos um construtor de órgãos francês ou alemão, você teria obrigatoriamente um instrumento excessivamente alemão ou francês. Também teríamos o mesmo problema com um construtor suíço", lembra Gêiser, justificando dessa forma a escolha da Fisk pelo seu excelente conhecimento de estilos europeus de órgãos.
Outro detalhe interessante do novo instrumento é a escolha de um designer para elaborar a caixa do órgão. Giugiaro, que assina o Lamborghini e vários outros modelos de carros, modelou o "corpo" do órgão como um anjo flutuando sobre uma nuvem de luzes.
A construção de um órgão é um trabalho complexo – é impossível de encontrar um desses instrumentos numa loja. O órgão construído pela Fisk consumiu 150 mil horas de trabalho de precisão. Geiser conta que a comunicação necessária durante a construção, que envolveu equipes em seis diferentes países, mostra que o trabalho de elaborar um órgão desse tipo não teria sido possível sem a Internet. "Mesmo há quinze anos atrás", analisa.
Nova audiência
Umas das características especiais do design é que a catedral precisava assumir o papel de "pavilhão de concertos com um órgão" e não apenas uma igreja. Isso devido ao fato de Lausanne – a quarta maior cidade suíça – não oferece nenhum espaço para a execução de um repertório para órgão e orquestra, ao contrário das outras grandes metrópoles helvéticas.
Finalmente, o órgão construído pelos americanos da Fisk é o único a ter dois teclados: o primeiro com um sistema de transmissão mecânico na galeria e o segundo é uma plataforma com sistema de transmissão eletrônico que pode ser deslocado por toda a nave da catedral.
O teclado móvel permite à platéia uma visão mais generosa do organista, que normalmente costuma ficar escondido na galeria. Dessa forma a performance do músico pode ser admirada por todos em "close-up", incluindo a difícil arte de tocar com os pés e as mãos ao mesmo tempo.
Comparado com a execução de uma fuga de Bach em seis partes, sentar e deliciar-se com um dos instrumentos musicais mais interessantes já construídos é uma tarefa vergonhosamente fácil.
swissinfo, Thomas Stephens
Breves
O maior órgão suíço está na igreja Klosterkirche, no vilarejo de Engelberg (Suíça central). O instrumento dispõe de 9.097 tubos.
Em comparação, o maior órgão já construído no mundo, instalado no Atlantic City Convention Hall (EUA), tem sete teclados e mais de 32 mil tubos.
O órgão mais antigo está na igreja de Notre-Dame-de-Valère em Sion, capital do cantão do Valais (sudoeste da Suíça). Suas partes mais antigas datam de 1435, porém se limitam à caixa de madeira e não mais do que 12 tubos originais.
Fatos
O órgão Fisk da catedral de Lausanne, inaugurado em 2003, tem 100 conjuntos e 6.737 tubos. Eles podem ter apenas alguns centímetros e chegar a dez metros de altura, pesando nesse caso 400 quilos.
O trabalho de construção do instrumento durou 10 anos. Custos: 5 milhões de francos, financiados pelo cantão de Vaud (a metade), patrocínio de empresas e doações populares. Horas de trabalho: 150 mil.
Catedral de Lausanne
Construída sobre a colina da cidade, a catedral de Lausanne a vista da cidade.
Ela foi construída em estilo gótico a partir do século XIII. A catedral era consagrada à Virgem Maria sob o vocábulo de "Notre-Dame" antes da Reforma Protestante, que a consagra ao culto em 1536.
História: a catedral foi construída entre 1170 e 1235. Ela foi inaugurada em 20 de outubro de 1275 pelo Papa Gregório X e contando com a presença do imperador Rodolpho de Habsburgo.