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Saint Imier é uma pequena cidade com pouco menos do que 4.800 habitantes. Seu passado anarquista está por todos os lados: entre seus relojoeiros, no movimento libertário Federação Jurassiana e nos livros de Bakunin.
No presente, o anarquismo é vivido no dia-a-dia de um centro cultural e político único na Suíça: o Espace Noir.
Se um dia for publicado um guia turístico para anarquistas, ele seguramente terá um capítulo para Saint Imier.
Esse pequeno povoado de 4.709 habitantes está localizado no centro do chamado “Vale dos Relógios”, uma região da Suíça que começa em Genebra e vai até a Basiléia. Nos seus vales e áreas urbanas são fabricados os melhores relógios do mundo desde o século XVI.
Em St. Imier os famosos e caros relógios “Longines” são fabricados desde 1866. Sua principal rua tem o nome do fundador da empresa, Ernest Francillon.
Berço do anarquismo
Alguns especialistas afirmam que o anarquismo nasceu entre Le Locle e St. Imier. Essas duas cidades da região montanhosa do Jura, no noroeste suíço, têm uma longa história ligada à indústria relojoeira suíça.
No final do século XIX, a revolução industrial caiu como uma bomba nessa região. A relojoaria, inicialmente uma atividade artesanal de especialistas, passou a se transformar numa indústria de linha de produção. As condições de trabalho eram péssimas e os salários mal eram suficientes para a alimentação das famílias.
Essas foram as condições necessárias para o nascimento da “Federação Jurassiana”, um movimento revolucionário anarquista organizado por relojoeiros da região do Jura.
Ele nasce a partir de um congresso organizado em St. Imier, entre 15 a 16 de setembro de 1872, pelos anarquistas Michail Bakunin e James Guillaume, que acabavam de ser expulsos da Primeira Internacional de Marx.
No antigo “Hotel Central”, que hoje está em ruínas no centro de St. Imier, foi formulado o documento de fundação do movimento libertário: um pacto de solidariedade entre federações autônomas de trabalhadores. Dentre eles, os relojoeiros sonhavam em constituir pequenas comunidades autônomas, sem o controle do Estado e contra o capitalismo.
Também foi em St. Imier que o anarquista Bakunin discursou três vezes para os relojoeiros presentes nas reuniões da Federação Jurassiana. Suas palavras que foram impressas posteriormente sob o título “Três discursos para os trabalhadores do vale de Saint-Imier”.
Tempos modernos
O anarquismo histórico morreu. Bakunin está enterrado em Berna e a região relojoeira do Jura nunca mais recuperou o seu apogeu.
Porém, além dos punks anarquistas das cidades, ainda existem centros libertários na Suíça. Um deles está em Saint Imier.
Fundado em 1984 por um pequeno grupo de estudantes e intelectuais, o centro anarquista “Espace Noir” localiza-se num prédio construído em 1845 e que abrigou a primeira manufatura de relógios, substituindo as oficinas espalhadas pelas fazendas da região.
Nos seus 20 anos de existência, depois de muitas reformas e dissidências, o espaço oferece uma sala de cinema, a única da região do vale de Saint Imier, uma livraria, um teatro, uma galeria de arte, um bar e também palco para shows alternativos.
O balanço cultural da casa não é ruim: anualmente são apresentadas a média de 24 peças, 45 filmes, 10 exposições de arte, concertos e muitas palestras.
Anarquia na prática
Quanto à organização, ela não foge dos preceitos libertários da anarquia.
“Nossa casa pertence a uma cooperativa com 300 membros, a cooperativa Imagine, onde todos os simpatizantes investiram um pouco do seu capital”, explica Michel Nemitz, um dos membros do coletivo anarquista.
“Ao mesmo tempo temos uma outra cooperativa, a cooperativa Espace Noir, que é responsável pela programação cultural e social do centro”, continua Nemitz. “As duas são independentes, evitando assim o esquema patrão-empregado”.
Os sete colaboradores do Espace Noir reúnem-se em “assembléias gerais”, abertas a todos os participantes e simpatizantes. Nos seus debates acalorados são tomadas as decisões do centro.
Michel Nemitz prefere, porém, utilizar um outro termo para explicar sua posição política. “Sou um socialista libertário”.
swissinfo, Alexander Thoele em Saint Imier