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Poucos suíços têm uma presença tão forte na mídia como o colunista, hoteleiro e ex-presidente do Partido Social-Democrata, Peter Bodenmann.
Considerado por muitos como um estrategista genial, ele prefere hoje ser um analista distante dos bastidores da política. Em entrevista, ele fala sobre a crise financeira, ecologia e democracia.
Já foi fácil se sentir isolado em Brig. A cidade cercada pelas montanhas do cantão do Valais, no sudeste da Suíça, é a porta de entrada para turistas interessados nos belos cenários alpinos da região. Depois da inauguração do túnel de Lötschberg, em meados deste ano, o trajeto de Berna até o Valais não leva pouco mais de uma hora.
Peter Bodenmann está otimista em relação ao futuro. Seu moderno hotel, o "Night Inn", oferece 180 quartos bem equipados aos viajantes. Nos próximos anos, ele quer chegar aos 80 mil pernoites anuais.
Porém, o empresário não pensa só nos números. No seu pequeno escritório, ele também acompanha os acontecimentos do mundo. Suas reflexões, temperadas de ironias, ataques e análises, fizeram dele uma das vozes mais ouvidas na mídia helvética. Depois que largou todos os mandatos, o ex-presidente do Partido Social-Democrata (1990 a 1997) se considera tão independente, que até pode se dar ao luxo de publicar uma coluna em uma revista de direita, a Weltwoche. Porém, sua paixão continua sendo a política.
A Suíça ainda pode ser considerada um exemplo de democracia?
Peter Bodenmann: Na Suíça, os cidadãos têm direitos que vão um pouco mais longe do que nos outros países. Aqui é possível votar em diferentes níveis - comunal, cantonal e federal - também sobre questões concretas. Exemplos: "Será que iremos construir um prédio em uma comuna"? "Será que o cantão deve aumentar as subvenções para os seguros de saúde"? Ou "será que os caminhões devem continuar nas estradas ou não, em nível federal?". O povo vota não somente as proposições feitas pelas autoridades, mas também através de iniciativas, onde propõe novas soluções para as questões que considera importantes.
Seria possível aplicar esse modelo em outros países?
P.B.: Acho complicado, pois essa é uma estrutura desenvolvida durante séculos. O que podemos dizer é que um povo com a possibilidade de debater e votar questões concretas costuma ser mais prudente. Ele não se apressa para fazer progressos sociais ou exigir outras mudanças. Por outro lado, também é prudente nas questões de liberalização. Aqui não tivemos uma onda de privatizações como ocorreu nos outros países. Veja a Companhia Suíça de Trens, os Correios ou mesmo a Swisscom (empresa nacional de telecomunicações), cujas ações ainda pertencem majoritariamente ao Estado. Em muitas outras tentativas de privatizar em vários níveis como, por exemplo, da rede de distribuição de energia ou de geração de energia por hidroelétricas, o povo disse não. Podemos constatar que esse sistema leva a uma certa estabilidade, através das votações, algo que é desejado pelos cidadãos. Esse sistema tem suas vantagens e desvantagens.
Mas como pode o eleitor decidir em questões complexas ligadas à economia?
P.B.: A democracia não existe no setor mais importante, a economia. Pelo contrário, são os bancos e as grandes empresas do setor químico-farmacêutico que financiam os partidos burgueses na Suíça. Os partidos aqui não recebem recursos do Estado e, por isso, são dependentes das multinacionais que, por isso, lhes impõem a sua vontade. A realidade é que a classe política tenta proteger o mercado financeiro helvético ou também impedir a importação paralela de medicamentos, por exemplo.
No sistema de milícia, como pode o parlamentar ser independente se ele atua em tantos conselhos administrativos ou sindicatos?
P.B.: No passado, os parlamentares eram pagos muito mais modestamente do que hoje. Agora, quando uma pessoa é eleita para o Parlamento suíço, ela tem uma renda de aproximadamente 100 mil francos por ano graças ao mandato. Mais é claro que os sindicalistas também querem estar representados no Parlamento, assim como os agricultores, que são bem fortes, com 35 parlamentares. E na direita temos o fenômeno deles estarem mais ligados à economia.
Mas, há vinte anos, era mais importante para a economia estar representada diretamente em Berna. Hoje existem poucos políticos com mandatos importantes em conselhos de administração. O trabalho de influência é feito através de lobby. Muitos atuam no Parlamento atrás dos bastidores em tempo integral, preparando para os deputados e senadores os diferentes dossiês ou no financiamento dos partidos.
O que provocou essa mudança no cenário político, helvético?
P.B.: A globalização. Há vinte anos a economia tinha a impressão que a política era algo de extremamente importante, o que explica sua forte presença em Berna. Posteriormente seus representantes deixaram de se engajar diretamente e se voltaram mais para o trabalho de lobby. Com a crise atual do mercado financeiro, talvez possamos viver uma mudança e o Estado se tornará cada vez mais importante. Veja nos Estados Unidos, como o governo está sendo obrigado a salvar os bancos e os seguros. Na Suíça, é o Banco Nacional (Banco Central) que faz cheques de bilhões para estabilizar o sistema financeiro. Talvez isso tudo mostre que, após essa fase de desregulamentação, iremos entrar em uma época em que o Estado se tornará mais importante para regulamentar e dirigir um pouco a acumulação de capital, de forma a evitar novas crises.
Não é problemática a intervenção do Estado para salvar a economia?
P.B.: Há quatro ou cinco anos, quando o discurso neoliberal era mais forte, banqueiros do UBS e uma grande parte da mídia defendiam a idéia de que quanto mais liberdade e menos Estado, melhores seriam os resultados para a economia. Eles prometiam coisas como 10 bilhões para os acionistas, 10 bilhões de bônus para os executivos e afirmavam que o sistema iria funcionar.
Porém, se alguém argumentasse que, ao gastar tanto com os atores do sistema financeiro, seria necessário pensar também nos pequenos e médios salários e no poder de compra necessário para fazer avançar a economia, ele respondia que a solução estava no próprio mercado. Hoje vivemos uma crise grave e ninguém mais tem coragem de dizer que o mercado é capaz de resolver os problemas sozinho. Teríamos tido agora uma crise semelhante, como a que ocorreu eu 1999, se o Estado e o Banco Nacional não tivessem intervindo de uma forma maciça no mercado. Mas é estranho que, se um pequeno empresário comete erros, ele é levado à falência. Se for um grande banco ou uma seguradora, então é o Estado que deve salvá-lo. O que vivemos hoje é algo surpreendente: o discurso do neoliberalismo está sofrendo uma derrota, mas não sabemos se isso levará o Estado a regular melhor os mercados. Tudo depende da política.
Quem é o culpado pela crise atual?
P.B.: Se não formos inocentes, sabemos que o capitalismo sempre se desenvolveu de uma forma cíclica e que sempre ocorreram crises que terminaram corroendo o capital. Apesar dessa oscilação lógica, acho que se exagerou muito na Suíça. Veja o caso do UBS, onde os banqueiros pegavam para si bilhões e nunca cumpriram o que prometeram. Porém, alguns deles foram mais responsáveis e não vivem os mesmos problemas.
Qual sua opinião sobre a ascensão de líderes de esquerda na América Latina, como Morales, Chaves, Lula e Kirchner?
P.B.: Após uma fase de neoliberalismo, visivelmente o povo na América Latina estava necessitando de outra política. Ao analisar os diferentes países, vejo que eles têm governos de esquerda com conceitos diferentes. É muito difícil julgá-los com base em uma ótica suíça ou européia, de saber se eles fazem um bom trabalho ou não. O bom é o fato de estes países quererem ter mais autonomia em relação aos Estados Unidos, seja do ponto de vista político ou militar. E, de outro lado, está o fato deles tentarem definir uma política econômica que siga os seus próprios interesses. Se eles o fazem de uma forma eficaz ou social, fica aí a interrogação. Só posso dizer que existe uma nova tendência e uma procura de respostas. Isso é o que explica a vitória da esquerda nesses países.
Porém não é paradoxal que social-democratas estejam perdendo uma eleição atrás da outra na Europa?
P.B.: O que observamos na Europa é que partes importantes da social-democracia - os trabalhistas na Inglaterra e Schröder na Alemanha - deram uma guinada à direita. A princípio eles fizeram uma política que um partido de direita poderia ter feito. O resultado é que as pessoas que tradicionalmente votavam na esquerda não participaram das eleições ou preferiram votar em partidos da extrema-direita. Isso significa que as respostas que a social-democracia européia queria dar às questões atuais não eram as melhores. Um bom exemplo disso ocorre na Alemanha: o partido "Die Linke" (extrema-esquerda) dos políticos Oskar Lafontaine e Gregor Gisy tem hoje 14% dos votos, enquanto o Partido Social-Democrata ficou na base de 25%. Isso significa uma mudança enorme do peso político no interior da Alemanha, em muito pouco tempo. Muitos eleitores não querem uma política cada vez menos social, pelo contrário.
E como é a situação da esquerda na Suíça?
P.B.: A situação aqui é diferente. A esquerda, da qual fazem parte também os verdes, têm um terço do eleitorado, uma situação que continuou estável por bastante tempo. Mas, nas últimas eleições, foi a UDC (n.r.: União Democrática do Centro), a nossa extrema-direita, que marcou pontos. Eles foram mais hábeis em mobilizar os eleitores. Mas o problema é o mesmo: se a esquerda não está lá para defender o social, avançar a ecologia e impedir o discurso xenófobo da direita, então irá perder. Nos próximos anos, tudo depende de saber se nós, social-democratas, seremos capazes de formular políticas que visam mudar as estruturas, de uma parte, e aumentar a segurança social de outra. Também precisamos resolver os problemas ecológicos mais prementes. E neste ponto é que a social-democracia está atrasada, como vemos também na Itália.
A questão energética é constante nas suas colunas. Como você vê o problema?
P.B.: Estamos em uma fase decisiva. Nossas reservas de energia fóssil estão chegando ao limite e os preços aumentam sem cessar. O mais fantástico é que existe um desenvolvimento enorme de tecnologias no setor de energia alternativa. Sou da opinião que não devemos dizer para acabar com o consumo na Suíça, parar de construir prédios ou utilizar qualquer forma de mobilidade, pois a tecnologia atual nos permite construir prédios que não consomem energia.
No setor de energia solar temos empresas como a Oerlikon Solar, que já dizem que, em três ou quatro anos, será possível produzir células fotovoltaicas que produzem energia a preços comparáveis às novas instalações a gás, carvão ou óleo, para a produção de energia. Essa é uma fase extremamente interessante que vivemos e não vejo razão de frear o crescimento, pelo contrário. Se o Estado criar boas condições, poderemos entrar em uma nova fase do crescimento mundial, onde iremos falar não em capitalismo fóssil, mas sim de capitalismo solar, que necessitaria de um programa de investimentos enorme. Se isso ocorrer, é possível que, em 20 ou 30 anos, todos os problemas ligados à catástrofe climática poderão ser solucionados. Se a política fizer o seu trabalho, o capitalismo tem um grande potencial de superar crises criadas por ele próprio.
A energia nuclear voltou a ser opção para muitos países, inclusive para o Brasil.
P.B.: Se observamos os avanços do setor fotovoltaico, iremos produzir uma economia que será capaz de substituir a cada quatro ou cinco anos inúmeras centrais nucleares. Não devemos levar a sério os anúncios de construção de novas centrais, mas ver quantas usinas foram verdadeiramente construídas. Se pegarmos o exemplo da Finlândia: lá eles necessitaram o dobro do tempo previsto para construir sua última usina. Os preços mais do que dobraram. Essa é uma tecnologia que não se domina integralmente.
Quais são os problemas fundamentais do uso de energia nuclear?
P.B.: Essa tecnologia tem três fraquezas. A primeira delas é que as reservas de matéria-prima são limitadas e, nesse sentido, o preço delas tende a aumentar, aumentando também o preço da energia que será gerada pelas usinas. Em segundo, as instalações nucleares não são seguras. Elas são em princípios bombas atômicas no meu país e frágeis em caso de ataque terrorista. Em terceiro está o fato do problema do lixo nuclear ainda não ter sido resolvido. Temos uma energia em que se investiu muito dinheiro, mas que não conseguiu ainda ser segura e coloca problemas em longo prazo. Já as fontes de energia renováveis fizeram muito progresso em pouco tempo.
swissinfo, Alexander Thoele
Pequena biografia
Peter Bodenmann nasceu em 30 de março de 1952. Ele é cidadão do cantão do Valais.
De 1990 a 1997 foi presidente do Partido Social-Democrata da Suíça. De 1987 a 1997 foi deputado federal da legenda.
Ao sair da política em 1997, Bodenmann abriu um hotel em Brig (Good Night Inn). Desde 2002, ele escreve colunas para jornais e revistas na Suíça, como Blick, L'Hebdo e Die Weltwoche sobre temas atuais.
O Partido Social-Democrata
Nas últimas eleições federais de outubro de 2007, o Partido Social-Democrata (PS, na sigla em francês) recebeu 19,5% dos votos, contra 23,3% das eleições precedentes (2003).
Segundo partido do país em número de eleitores, mas minoritário no governo e no Parlamento como os outros partidos helvéticos.
Em nível federal, o PS tem atualmente dois dos sete ministros que formam o governo federal - Micheline Calmy-Rey (Ministério das Relações Exteriores) e Moritz Leuenberger (Transportes, Meio Ambiente e Comunicação) - 43 deputados federais e nove senadores.