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Trump descarta uma saída rápida do Afeganistão mas admite um possível acordo no futuro com o Talibã.(afp_tickers)
O presidente Donald Trump descartou na segunda-feira (21) uma saída rápida das tropas americanas do Afeganistão, o que deixaria um "vácuo" de poder, mas admitiu um possível acordo no futuro com o movimento islâmico fundamentalista Talibã.
"As consequências de uma saída rápida são previsíveis e inaceitáveis", disse o presidente dos EUA ao discursar para a Nação da base de Fort Myer, a sudoeste de Washington.
"Uma retirada precipitada criaria um vácuo que os terroristas - incluindo o ISIS e a Al-Qaeda - preencheriam instantaneamente, assim como aconteceu antes do 11 de Setembro", declarou Trump, usando um acrônimo para o grupo Estado Islâmico.
"Não falaremos de número de soldados" no Afeganistão, porque "os inimigos dos Estados Unidos não devem conhecer jamais nossos projetos".
"Meu instinto era nos retirarmos e, geralmente, costumo seguir meu instinto", reconheceu o presidente.
"Mas as decisões são muito diferentes quando você está no Salão Oval", afirmou.
Fontes da Casa Branca assinalaram que Trump autorizou o envio de mais 3.900 homens ao Afeganistão.
Segundo o presidente, "algum dia, depois de um esforço militar efetivo, talvez seja possível ter um acordo político que inclua elementos do Talibã no Afeganistão (...) mas ninguém sabe se, ou quando, isso acontecerá".
Trump deixou claro que "os EUA continuarão a apoiar o governo e os militares afegãos enquanto enfrentarem os talibãs no campo" de batalha, mas advertiu que Cabul não deve considerar o apoio dos EUA como um "cheque em branco".
"A América trabalhará com o governo afegão, desde que vejamos determinação e progresso. No entanto, nosso compromisso não é ilimitado, e nosso apoio não é um cheque em branco. O povo americano espera ver reformas reais e resultados reais", frisou.
No mesmo discurso, Trump advertiu que os Estados Unidos não vão mais tolerar que o Paquistão seja "um refúgio" para extremistas.
"Não podemos continuar nos calando sobre o Paquistão ser um refúgio para organizações terroristas".
"O Paquistão tem muito a ganhar, caso colabore com nossos esforços no Afeganistão (...), e muito a perder se continuar acolhendo criminosos e terroristas", advertiu.
Trump deu a entender que a ajuda militar dada ao Paquistão - que compartilha uma longa fronteira com o Afeganistão - está em risco, se o país não colocar um freio nos extremistas.
"Pagamos ao Paquistão trilhões e trilhões de dólares, enquanto eles acolhem os mesmos terroristas contra os quais lutamos. Isso tem que mudar e mudará imediatamente. É hora de o Paquistão se dedicar à ordem e à paz", insistiu.
Em outro trecho, o presidente pediu unidade a todos os americanos, em referência à violência racial deflagrada há algumas semanas entre supremacistas brancos e antifascistas.
"O amor pelos Estados Unidos requer amor para todos os seus cidadãos. Quando abrimos nossos corações, não há lugar para o fanatismo e para a tolerância pelo ódio".
"Se um cidadão é vítima de uma injustiça, todos somos vítimas".
"Os homens e mulheres que enviamos para lutar em nossas guerras merecem encontrar em sua volta um país que não está em guerra consigo mesmo".
- Mais tropas para forçar a paz -
O secretário americano da Defesa, Jim Mattis, declarou após o discurso que os Estados Unidos e seus aliados estão dispostos a aumentar suas tropas no Afeganistão.
"Consultarei o secretário-geral da Otan e nossos aliados, muitos dos quais já se comprometeram a aumentar o número de soldados", afirmou o chefe do Pentágono, dando a entender que os Estados Unidos aplicarão essa medida.
Em uma primeira reação, o secretário-geral da Otan, Jens Stolenberg, celebrou a medida de Trump, afirmando que a Aliança Atlântica não deixará que o Afeganistão se transforme em um "refúgio para terroristas".
No momento, há cerca de 8.400 soldados americanos e 5.000 militares da Otan dando suporte às forças de segurança do Afeganistão na luta contra os talibãs e contra outros militantes. Mas a situação continua complicada no terreno, com mais de 2.500 policiais e soldados afegãos mortos entre 1º de janeiro e 8 de maio deste ano.
O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, disse que a decisão de Trump de pressionar o Paquistão e intensificar as operações militares no Afeganistão poderá ajudar os diplomatas dos EUA a construírem uma solução política.
"Estamos deixando claro para o Talibã que eles não vão ganhar no campo de batalha. O Talibã tem um caminho para a paz e para a legitimidade política, através de um acordo político negociado para acabar com a guerra", disse o secretário.
"Estamos prontos para apoiar negociações de paz entre o governo afegão e o Talibã sem condições prévias", declarou Tillerson.
"Acenamos para a comunidade internacional, particularmente para os vizinhos do Afeganistão, para que se juntem no apoio a um processo de paz afegão".
O senador republicano John McCain qualificou a estratégia de Trump como "um grande passo na direção correta".
Já Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara de Representantes, considerou o anúncio "um compromisso sem limites com as vidas de cidadãos americanos e sem consultar o povo americano".
- "Nada de novo" -
Em sua primeira reação, o porta-voz dos talibãs, Zabiullah Mujahid, declarou à AFP que a estratégia apresentada por Trump é inócua e que "não há nada de novo" no discurso do presidente, que "foi confuso".
Um alto comandante dos talibãs disse à AFP que Trump se limita a perpetuar a "conduta arrogante" dos presidentes americanos anteriores, como George W. Bush. "Simplesmente estão desperdiçando soldados americanos. Sabemos como defender nosso país", e a nova estratégia "não vai mudar nada".
"Se os Estados Unidos não retirarem suas tropas, o Afeganistão se tornará em breve um cemitério para esta superpotência do século XXI", afirmou Zabiullah Mujahid.
"Enquanto restar um único soldado americano no nosso solo e continuarem nos impondo a guerra, continuaremos com nossa jihad", ameaçaram. Além disso, reivindicaram o lançamento de um foguete contra a embaixada americana em Cabul na segunda-feira.
AFP