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O ministro suíço das Relações Exteriores, Didier Burkhalter, assume hoje a presidência rotativa da Confederação Helvética. Em entrevista cedida à swissinfo.ch, ele aponta os principais temas de 2014: o futuro da via bilateral com a União Europeia, a presidência da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e um plebiscito crucial sobre a imigração em fevereiro.
O novo presidente do colegiado governamental, que sucede ao ministro da Defesa, Ueli Maurer, ressalta a importância de manter boas relações com os países vizinhos, apesar das diferenças na questão da fiscalidade.
swissinfo.ch: Seu antecessor gostava de retratar a Suíça como um pequeno país sob pressão do exterior. No seu caso, que imagem gostaria de dar em nível internacional?
Didier Burkhalter: gostaria de dizer que tenho boas relações com o Ueli Maurer. Nós temos outras concepções e outras visões, mas conseguimos muito frequentemente estar de acordo. É o milagre suíço do colegiado governamental de levar personalidades diferentes a se chocarem positivamente para tentar encontrar a melhor solução para todos.
Nós definimos claramente a visão da presidência. Desejamos que haja um debate sobre a posição e os valores da Suíça no mundo. Entretanto, um debate concreto e não ideológico, que se baseia nas discussões em torno de três pontos fundamentais: a juventude, o trabalho e a abertura.
Presidente da Confederação Helvética
Eleito por um mandato de um ano entre os sete membros do Conselho Federal (o governo), o presidente é considerado "primus inter pares" (primeiro entre iguais). Ele dirige sessões do Conselho Federal e se encarrega de trabalhos de representação. A função não confere nenhum poder suplementar à pessoa que o ocupa.Aqui termina o infobox
swissinfo.ch: Nesse ano o senhor será ao mesmo tempo o ministro das Relações Exteriores, presidente da Confederação Helvética e presidente da OSCE. Como será possível organizar as prioridades?
D. B. : A atividade governamental implica ir ao essencial e dar prioridade ao que merece. Evidentemente, as prioridades estão claramente marcadas pelas necessidades e as grandes linhas da presidência da Confederação.
Basicamente a presidência da OSCE é só uma adição. Mas positivo é o fato de que isso se ajusta em vários pontos. O fator de ser presidente da Confederação permite, por exemplo, ter um contato mais fácil no nível de chefe de Estados.
swissinfo.ch: O senhor é descrito por vezes, especialmente pelas mídias, como um político sem contornos. O senhor irá aproveitar do ano presidencial para mudar a sua imagem perante a população?
D. B. : A presidência significa mais carga de trabalho e responsabilidades. Eu terei de estar um pouco mais presente tanto na Suíça como no exterior. Mas vou continuar a ser eu mesmo. Não vou mudar pelo fato de ser presidente. Tenho uma linha e a mantenho.
swissinfo.ch: As relações com a União Europeia continuarão este ano ainda um dos grandes temas da política suíça. Como o senhor vê a evolução dessa questão?
D. B. : Trata-se de resolver algumas questões institucionais, dentre elas a adoção das leis europeias necessárias para a aplicação dos nossos acordos bilaterais. O objetivo é permitir que as empresas suíças atuantes no mercado interno da União Europeia tenham as mesmas chances do que as outras.
Nós fizemos propostas para resolver essas questões seguindo dois objetivos: que a Suíça possa manter seu nível de prosperidade mantendo, ao mesmo tempo, sua soberania. Essas propostas foram bem acolhidas pelos cantões e as comissões parlamentares. Além disso, o governo aprovou o mandato de negociação em 18 de dezembro passado. Agora aguardamos o mandato de negociações da UE para poder iniciar as negociações. Ao final, serão o Parlamento e, possivelmente, os eleitores que darão a palavra final.
O objetivo do governo é de mostrar que o objetivo é claramente relançar a via bilateral e que esta é a única a ter um futuro na Suíça, em todo o caso pelas próximas décadas. Essa renovação é necessária se quieremos conservar a via bilateral. Todos nós temos interesse a ter um relacionamento forte entre a Suíça e a UE.
swissinfo.ch: Em fevereiro, os eleitores votarão uma iniciativa popular exigindo limitar a imigração. Sua aprovação poderá arranhar as relações com a UE. Como o senhor irá convencer os cidadãos a rejeitá-la?
D. B. : A resposta pode ser dada em três pontos. Inicialmente é necessário passar claramente a mensagem que a Suíça se encontra em uma situação bastante favorável ao longo desse último quarto de século, especialmente graças aos acordos bilaterais e, mais particularmente, à livre circulação de pessoas. O sistema suíço de imigração e integração, mas também o das bilaterais, mostraram que funcionam.
Em seguida, é necessário reconhecer que há problemas como o dumping salarial. Mas esses problemas são levados a sério pelo governo federal. Medidas de acompanhamento foram decididas e os controles são mais sistemáticos. Já falando dos outros problemas muito citados como o das infraestruturas, eles não são unicamente ligados à livre circulação de pessoas. Lá o governo federal já está tomando medidas. Em nove de fevereiro, os eleitores irão votar também um decreto permitindo financiar as melhorias na malha ferroviária.
Finalmente é necessário insistir no fato que a iniciativa não resolve nada. O sistema de quotas que ela propõe é extremamente pesado, burocrático e muito caro para as empresas. A Suíça se tornará dessa forma menos atraente. É importante também lembrar que, no passado, a Suíça conheceu um sistema de quotas que não impediu a imigração. Nos anos 1960 ela era duas vezes mais forte do que hoje em dia.
swissinfo.ch: Ao assumir o ministério das Relações Exteriores há dois anos, o senhor havia colocado as relações com os países vizinhos como primeira prioridade. Porém essas relações não são muito boas atualmente, especialmente na questão fiscal.
D. B. : Ela continua verdadeiramente uma das grandes prioridades da nossa política estrangeira. Penso que é necessário investir ainda mais esforços nessa área.
Observe que existe com os nossos vizinhos um certo número de aspectos positivos. Com a França conseguimos abrir um diálogo fiscal estruturado que gostaríamos de prosseguir. A Suíça foi também a primeira a se lançar no projeto da exposição universal de 2015 que irá ocorrer em Milão. As relações com a Itália são muito boas. Nós também lançamos com os nossos vizinhos iniciativas contra a pena de morte ou pela proteção da esfera privada.
Então, posso repetir, muitas coisas vão bem. Mas é verdade que precisamos avançar nas questões fiscais e dos transportes. Nós esperamos muito alcançar esse objetivo graças a uma intensificação dos contatos com os países vizinhos nesse ano e nos próximos.
swissinfo.ch: Os suíços do estrangeiro não estão muito satisfeitos com a reorganização dos consulados feita pelo seu ministério. Qual é a mensagem que o senhor gostaria de passar?
D. B. : Penso que a Suíça tem muita sorte de ter cidadãos vivendo no exterior. De certa forma eles são nossos embaixadores. Nós estamos perfeitamente conscientes da importância da chamada 5° Suíça.
Com relação aos consulados, nós decidimos utilizar o máximo possível as novas formas de trabalho com o objetivo de manter a qualidade dos serviços. Assim, com os consulados móveis, é possível ir às regiões onde não estávamos presentes ou onde os suíços estão realmente instalados. Também temos os instrumentos dados pelas novas tecnologias. Quase todos os assuntos consulares podem hoje em dia ser resolvidos via internet ou por telefone. Os solicitantes precisam raramente comparecer pessoalmente ao consulado. Outro exemplo, o ministério das Relações Exteriores criou um serviço telefônico para responder às questões dos suíços no exterior. Esse serviço começou a funcionar em 1° de maio de 2012, 24 horas por dia e 365 dias por ano.
Em nossa opinião, mais do que diminuir, o nosso leque de serviços até aumentou. Estamos convencidos de que a reorganização era necessária, especialmente levando-se em consideração que os recursos da rede diplomática - 400 milhões por ano - não foram aumentados ao longo dos últimos anos.
A Suíça dispõe atualmente de 170 representações no exterior, dos quais 103 embaixadas e 31 consulados. Comparado a outros países com as mesmas dimensões da Suíça, a rede exterior helvética é uma das mais densas.
Didier Burkhalter
Nasceu em 17 de abril de 1960 no cantão de Neuchâtel (oeste da Suíça).
O político do Partido Liberal-Radical (PLR, na sigla em francês) era senador até sua eleição, em 16 de setembro de 2009, para o Conselho Federal, o órgão executivo do país, composto de sete ministros.
Ao ser eleito, assumiu o ministério do Interior. Em dezembro de 2011 passou para o ministério das Relações Exteriores.
Burkalter é formado em economia pela Universidade de Neuchâtel.
Segundo seu currículo oficial, o ministro também é oficial de reserva do exército, no setor de imprensa e rádio.
Como hobbies, ele declara gostar de esportes, sobretudo futebol, esqui e caminhadas.
Também lançou, na primavera de 2007, um livro intitulado "La Maladière - um sentimento de eternidade", sobre a reconstrução do principal estádio de futebol da cidade de Neuchâtel.
De 1988 a 1990, Burkhalter foi vereador na comuna de Hauterive (cantão de Neuchâtel)
De 1991 a 2005, foi membro do governo executivo da cidade de Neuchâtel.
De 1990 a 2001, foi deputado estadual (Neuchâtel)
De dezembro de 2003 a dezembro de 2007 foi deputado federal.
De 2007 a 2009 foi senador.
É a primeira vez que é nomeado presidente da Confederação Helvética.Aqui termina o infobox
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch