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Passados quase 32 anos desde o crime, a polícia alemã prendeu preventivamente nesta terça-feira (06/06) um homem acusado de envolvimento num incêndio criminoso contra um abrigo de refugiados na cidade de Saarlouis, no estado do Sarre, próxima à fronteira com a França.
Membro da cena neonazista local nos anos 1990, o suspeito, idenfificado apenas como Peter St. – de acordo com as leis de privacidade alemãs -, é o segundo suspeito preso no âmbito da investigação. Hoje com 54 anos, ele é acusado de prover apoio moral ao ataque, que resultou na morte de Samuel Yeboah, ganense de 27 anos, e pôs em risco a vida de outras 20 pessoas na noite de 19 de setembro de 1991.
O caso foi reaberto em 2019 após uma denúncia à polícia feita por uma pessoa que afirma ter ouvido a confissão do crime de um dos acusados, durante uma conversa informal em 2007 – assassinatos não prescrevem na Alemanha.
O primeiro acusado pelo crime, identificado como Peter S., de 51 anos, acusado de iniciar o incêndio, foi preso em abril de 2022.
A vítima, Samuel Yeboah, estava no sótão do imóvel atacado e, isolado pelas chamas, morreu em decorrência das queimaduras e da intoxicação provocada pela fumaça que inalou. Outras duas pessoas que viviam no imóvel sofreram fraturas ao pular das janelas para se salvar das chamas. As demais 18 vítimas conseguiram escapar ilesas.
O episódio se insere num contexto de uma série de atentados e ataques neonazistas contra refugiados e imigrantes na Alemanha ocorridos no início dos anos 1990. Na época, muitos apontaram para a cena neonazista de Saarlouis, mas o caso acabou arquivado pelas autoridades por falta de evidências.
Desde a reabertura do caso, Peter St. já havia sido convocado pelo Tribunal Superior de Koblenz na condição de testemunha, mas permaneceu calado. Ele é representado por um dos advogados que atuou no julgamento da Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU), organização terrorista neonazista que cometeu diversos atentados de motivação racista na Alemanha no final dos anos 1990 e ao longo dos anos 2000.
Segundo a acusação, Peter St. esteve junto com outros suspeitos em um bar na noite do ataque e teria expressado apoio a ações violentas contra refugiados que ocorriam naquela época. Ao comentar os eventos em Hoyerswerda, quando trabalhadores estrangeiros recrutados pela antiga Alemanha Oriental sofreram uma série de hostilidades da população local ao longo de cinco dias, incluindo incêndios criminosos, Peter St. teria declarado que algo também deveria acontecer em Saarlouis.
Principal acusado no caso, Peter S. negou que Peter St. tivesse qualquer envolvimento maior além dos comentários feitos naquela noite.
Apesar disso, a Procuradoria alega que a declaração foi uma espécie de apoio moral à prática dos crimes de homicídio e tentativa de homicídio, independente de participação no incêndio de fato. Sem o comentário de Peter St. sobre Hoyerswerda, argumenta a acusação, talvez Peter S. não tivesse tido a ideia de atear fogo ao imóvel que abrigava refugiados.
Há investigações correndo em paralelo contra um terceiro suspeito que teve a casa revistada pelas autoridades na semana passada. Esse homem teria, segundo reportado pela imprensa alemã, estado presente à reunião no bar que precedeu o crime e foi acusado por Peter S. de idealizar o incêndio e levá-lo a cabo – o homem abandonou a extrema-direita na metade dos anos 1990 e refuta as acusações.
Crime
Nos mais de 30 anos que transcorreram da morte de Yeboah, ativistas de esquerda pediram repetidamente que o ataque fosse reconhecido como crime político e que promotores federais assumissem a investigação, o que só ocorreu em 2020.
Uma nova onda de violência de extremistas de direita após o afluxo de refugiados em 2015 aumentou a pressão sobre as autoridades alemãs para que adotassem uma postura mais dura em relação aos crimes contra estrangeiros.
A Alemanha já tinha passado por algo semelhante nos anos 1990.
Em setembro de 1991, por quase uma semana, a cidade de Hoyerswerda foi palco de ataques a refugiados e trabalhadores estrangeiros, incluindo o ataque com coquetéis molotov a um bloco de apartamentos que abrigava refugiados. Mais de 30 pessoas ficaram feridas durante os tumultos.
No ano seguinte, em Rostock, no norte da Alemanha, centenas de extremistas de direita atiraram pedras e coquetéis molotov contra um prédio que abrigava requerentes de asilo.
Em novembro de 1992, na cidade de Mölln, também no norte, dois militantes de extrema direita lançaram ataques incendiários contra casas de duas famílias turcas. Uma mulher e duas meninas morreram.
Em 1993, skinheads de extrema direita incendiaram a casa de uma família turca na cidade de Solingen, matando três meninas e duas mulheres.
Originalmente publicado em DW.