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A morte de George Floyd gera debate sobre monumentos e estátuas comprometidas em várias cidades nos Estados Unidos e na Europa. Na Suíça, algumas delas lembram figuras polêmicas como David de Pury, um banqueiro suíço-português que fez fortuna no tráfico negreiro.Este conteúdo foi publicado em 12. junho 2020 - 09:00
Nos EUA, Grã-Bretanha e Bélgica, várias estátuas controversas foram derrubadas por manifestantes, removidas pelas autoridades locais ou depredadas (ler infobox). "Black Lives Matter" (n.r.: A vida de negros é importante), o movimento antirracismo, ataca agora a história colonial de vários países depois que um homem negro de 46 anos morreu através de uma ação de policiais em Minneapolis, EUA, em 25 de maio.
Na Suíça, mais de duas mil pessoas assinaram uma petição pedindo a remoção da estátua de David de Pury de uma praça no centro de Neuchâtel, capital do cantão com o mesmo nome ao noroeste da Suíça.
O "Coletivo pela Memória", que lançou a petição em 8 de junho, diz que banqueiro suíço-português, que morreu em 1786, fez sua fortuna através de investimentos e comércio de madeira preciosa e diamantes no Brasil. Mas ressalta que sua fortuna feita graças ao tráfico de escravos africanos.
De Pury nasceu em Neuchâtel e morreu em Lisboa, Portugal. Após morrer, doou uma fortuna equivalente hoje a 600 milhões de francos (US$ 636 milhões) à cidade natal. Os recursos foram aplicados em projetos de caridade e na construção de um novo prédio para a prefeitura local, um hospital e uma escola. Uma praça local foi batizada com o seu nome.
Ação "educativa"
Os autores da petição exigem que a cidade substitua a estátua de David de Pury por uma placa comemorativa em homenagem às vítimas do racismo. Segundo eles, o objetivo da ação é "educar" e não reescrever a história do país. "Queremos que esse capítulo da história de Neuchâtel seja ensinado na escola", declarou Mattia Ida à televisão pública suíça, RTS, na quarta-feira.
"É uma questão complexa", retrucou o professor Mohamed Mahmoud Mohamedou, do Instituto de Pós-Graduação de Genebra. "Nunca é uma boa ideia limpar a história", disse à televisão. "É preciso haver um debate público. O prefeito de Londres criou, por exemplo, uma comissão para analisar o fundamento histórico das estátuas da cidade. É o tipo de engajamento democrático que precisamos".
Esta não é a primeira vez que Neuchâtel debate a questão racial e seu patrimônio histórico. Em 2018, a cidade trocou o nome da rua Louis-Agassiz, próxima a universidade local, por Tilo Frey. O primeiro nome lembrava um famoso cientista suíço-americano do século 19, controverso devido as suas posições abertamente racistas. O segundo homenageia a primeira mulher a ser eleita para o Parlamento cantonal e para a Câmara dos Deputados em Berna, uma mulher de origem suíça e africana (Camarões).
Mas Agassiz se tornou mais uma vez tema de debate. Ativistas antirracismo escreveram às autoridades locais pedindo novamente que a montanha Agassizhorn, nos Alpes Berneses, seja rebatizada. Uma moção parlamentar também deverá ser apresentada em Berna nos próximos dias. Uma exigência semelhante foi rejeitada por políticos locais no passado.
Suíça não foi potência colonial
O governo sempre ressaltou que a Suíça nunca esteve envolvida na escravidão e nunca foi uma potência colonial. Porém nas últimas décadas, vários historiadores suíços se dedicaram a investigar a questão. Em suas descobertas, ressaltam que muitas empresas, bancos, governos locais, mercenários, soldados e pessoas privadas lucraram com o tráfico de escravos. Portais como louverture.ch e cooperaxion.ch dão a lista de todos os suíços envolvidos com o tráfico negreiro9.
Em meio ao debate internacional sobre o racismo, personagens históricas da Suíça são analisadas mais de perto. "Como devemos lidar com a estátua de Alfred Escher em Zurique?", questionou o portal de informações Watson.ch em 11 de junho. Alfred Escher foi um dos mais importantes políticos e pioneiros industriais que, dentre outros, fundou bancos, universidades e introduziu o transporte ferroviário na Suíça. Sua família foi proprietária de uma plantação de café em Cuba entre 1815 e 1845, onde eram empregados escravos, confirmou um historiador suíço.
"Talvez seja importante refletir se a sua estátua não estaria mais bem abrigada em um museu", declarou o historiador suíço Hans Fässler à Watson.ch, e completa. "Devemos lembrar dele não apenas como alguém que revolucionou o país, mas que também tem o sangue de escravos nas suas mãos". O historiador considera que pelo menos uma placa deveria ser acrescentada à estátua para lembrar o "outro" lado do seu legado.
Em dezembro de 2019, Fässler, apoiado por dezenas de figuras públicas, criou um comitê para defender o pagamento de indenizações pela Suíça pelas atividades ligadas ao tráfico negreiro.
O Comitê Suíço de Reparação da Escravatura (SCORES) defende que as reparações devem ser negociadas através do diálogo entre os beneficiários do tráfico e os descendentes das vítimas.
Monumentos questionados
Estados Unidos
O presidente Donald Trump excluiu a possibilidade de mudar o nome de bases militares dos EUA que foram batizadas com os nomes de líderes confederados. Enquanto isso, a Associação Nacional de Stock Car (Nascar, na sigla em inglês) baniu a bandeira confederada das corridas.
A presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, exigiu que onze estátuas de confederados que se opunham ao fim da escravidão sejam removidas do Capitólio em um momento de intenso debate após a morte de um cidadão negro pela polícia.
Manifestantes derrubaram 11 de junho, em Richmond, Virgínia, uma estátua de Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados da América durante a Guerra Civil Americana.
O governador da Virgínia, Ralph Northam, ordenou na semana passada a remoção da estátua do general Robert E. Lee, que comandou o exército dos Estados Confederados americanos nos anos 1860. Porém um juiz embargou a ação.
Estátuas de Cristóvão Colombo foram vandalizadas em várias cidades dos Estados Unidos, durante protestos contra a morte de George Floyd. Na Filadélfia as autoridades removeram a estátua de Frank Rizzo, ex-prefeito e comissário da polícia. E em Dallas, Texas, a do policial Jay Banks.
Várias universidades e cidades do Sul renomearam edifícios e estradas com o nome de líderes do movimento confederado, que defendiam a escravidão. O Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA proibiu a exibição pública da bandeira confederada nas suas instalações. Birmingham, Alabama, removeu um monumento confederado na semana passada.
Grã-Bretanha
A estátua de um traficante de escravos Edward Colston, derrubada na cidade inglesa de Bristol no início da semana por manifestantes antirracistas, foi retirada do rio de onde foi jogada. Segundo as autoridades locais, ela "foi levada para um local seguro e depois será exposta em um museu."
Uma estátua de Robert Milligan, um comerciante de escravos do século 18, foi retirada de sua base na entrada de um museu londrino. Protestantes em Oxford pediram a remoção de uma estátua do colonialista britânico Cecil Rhodes, do século 19. Políticos de Poole, vilarejo no sul da Inglaterra, declararam que a estátua de Robert Baden-Powell, fundador do movimento mundial de escotismo, também será removida.
Belgica
A cidade de Antuérpia, no norte da Bélgica, retirou no início da semana uma estátua vandalizada do rei Leopoldo II, personagem do passado colonizador do país. Descendente da dinastia alemã Saxe-Coburgo-Gota, Leopoldo II foi rei dos belgas de 1865 a 1909 e é especialmente lembrado pela colonização do Congo Belga. Além dos protestos sob o lema 'Black Lives Matter' na Antuérpia, em Bruxelas, ou em Liège, no fim de semana, o racismo e a violência contra os negros são alvo de um abaixo-assinado recente na Bélgica. Um grupo chamado 'Vamos reparar a história' exige a retirada de todas as estátuas de Leopoldo II que estão em espaços públicos de Bruxelas. Os signatários desta petição acusam o ex-monarca de ter "exterminado" milhões de congoleses.
Fonte: agênciasEnd of insertion