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Donald Trump, Marine Le Pen, Geert Wilders, Nigel Farage, Beppe Grillo, Viktor Orban; Lech Kaczinsky. Ou o suíço Christoph Blocher: os populistas representam uma crise sistemática para a democracia? Como lidar com eles? Hanspeter Kriesi, o cientista político de maior experiência na Suíça, tem as respostas.
swissinfo.ch: Um dos fatores que contribuíram para o voto do Brexit no Reino Unido foi seguramente a invenção de um número divulgado em que se dizia que o país transferiria semanalmente 350 milhões de libres esterlinas à União Europeia. Como os opositores da UE conseguiram convencer os eleitores com essa inverdade?
Hanspeter Kriesi: O número era, de fato, incorreto, mas tenho dúvidas se isso foi realmente algo decisivo. A votação foi ganha não com essa ou outras mentiras. Os britânicos, inclusive os das elites, sempre foram muito céticos em relação à União Europeia. Decisivo foi o fato de que o partido do governo, os "tories", estavam divididos entre si.
Texto publicado no site#DearDemocracy, a plataforma sobre a democracia direta da swissinfo.ch.Aqui termina o infobox
swissinfo.ch: Em 1992, o político suíço Christoph Blocher conseguiu convencer os eleitores suíços a bloquear a adesão do país ao Espaço Econômico Europeu (EWR, na sigla em alemão), o precursor da UE. Esse pode ser visto como o nascimento do populismo de direita na Suíça?
HP.K.: Sim, a ascensão do Partido do Povo Suíço (SVP) na Suíça começou com essa votação. Ao contrário de outros partidos populistas de direita, o SVP não mobilizou inicialmente contra a migração, mas sim contra a UE. Já em 1986 eles mobilizavam contra a adesão da Suíça à Organização das Nações Unidas (ONU), porém sem sucesso. Com sua campanha contra a EEE eles ganharam, apesar de por uma margem bastante apertada. Só depois é que descobriram o tema da imigração. Mais tarde, o Islã.
Não é uma coincidência que os populistas de direita tenham conseguido mobilizar os eleitores graças aos dois temas: integração europeia e migração. Pois eles os convidam a defender o Estado-nação. A soberania nacional e a cultura devem ser defendidas contra o multiculturalismo, integração europeia e globalização.
swissinfo.ch:. A Suíça seria vista na Europa como uma pioneira em populismo de direita?
HP.K.: A tendência do populismo começou no início dos anos 1980 com o Front Nacional na França. Como citei, em 1992 começou a ascensão do SVP na Suíça. Nesse sentido ele não teve nenhum papel de modelo, mas sim muito mais o Front National.
Biografia
Hanspeter Kriesi, 67 anos, é um dos mais conhecidos cientistas políticos da Suíça.
Desde 2012 é professor de ciências politicas no Instituto Europeu em Florença, Itália.
Entre 2005-2012 foi diretor do programa de pesquisa "Desafios para a Democracia no Século 21", do Fundo Nacional Suíço (SNF).
Já atuou como professor em universidades em Amsterdam, Genebra, Cornell, Berlim e Zurique.Aqui termina o infobox
swissinfo.ch: A campanha presidencial na França terminou para os dois partidos governamentais em um fiasco. Juntos, os dois receberam apenas um quarto dos votos. Os grandes partidos populares chegaram ao seu fim para dar lugar a movimentos como o de Macron, o "En Marche"?
HP.K.: Ao contrário de outros países, os partidos na França são geralmente fracos. Na Suíça eles são muitos mais fortes e consolidados. Essa relativa volatilidade dos partidos franceses não é uma novidade. Os gaullistas, por exemplo, sempre modificaram o nome do seu partido. O que é especial é a dimensão dos seus problemas. Pode ser que o movimento de Macron acabe se transformando em um partido de centro-esquerda, que terminará substituindo o Partido Socialista.
swissinfo.ch: A Alemanha é uma democracia robusta com uma economia robusta, mas uma oposição de direita bastante radical contra a chanceler Angela Merkel e seu partido CDU, mas também contra os sociais democratas. Podemos falar de uma crise sistêmica, cujas causas podem ser encontradas na crise dos bancos e financeira de 2007/2009, como alguns avaliam?
HP.K.: Eu questiono essa afirmação de que em um país como a Alemanha a gente esteja vivendo uma crise sistêmica. Os partidos já não eram há muito tempo as organizações mais confiáveis, não apenas na Alemanha. Mas nesse país a satisfação dos cidadãos com a democracia não decaiu, assim como a confiança no governo.
Ao norte da Europa a satisfação com a democracia não foi atingida geralmente pela crise financeira e econômica. Pois os grandes partidos não tomaram para si da oposição de direita o ceticismo contra a Europa e rejeição da imigração e do Islã. Já no sul do continente houve, sim, uma grande perda de confiança.
swissinfo.ch: A Itália é uma democracia que vive em permanente crise política. Matteo Renzi fracassou não apenas na sua tentativa de reforma constitucional, mas também como primeiro-ministro. Ele queria melhorar a governabilidade através da redução do tamanho do senado. Antes outros já haviam sido derrotados nessa tentativa, inclusive o próprio Berlusconi. Existiria em sua opinião uma democracia sem esperança?
HP.K.: A Itália parece, de fato, uma país sem esperança. Mas preciso fazer uma correção em um determinado ponto: como primeiro-ministro, Renzi não fracassou completamente. Seu governo conseguiu fazer mais reformas do que todos os outros precedentes e isso, apesar das grandes barreiras institucionais.
A Itália tem um sistema parlamentar absolutamente simétrico. Nele, as duas câmaras têm exatamente as mesmas competências. O partido de Renzi detinha a maioria apenas na primeira câmara e não no Senado, o que naturalmente dificultou a aplicação de reformas no seu governo.
swissinfo.ch: Existe uma saída?
HP.K.: Uma saída teria sido o "sim" no plebiscito. Isso teria possibilitado que o sistema se tornasse mais eficiente. Mas o problema, ou a questão da falta de esperança na democracia italiana, é que os próprios cidadãos não querem que a política funcione de forma mais eficiente. Essa é a minha suposição. Eles preferem mais um sistema que não funciona do que um que lhes diga, de forma eficiente, o que fazer.
swissinfo.ch: Na Áustria, o chanceler Wolfang Schüssel trouxe para o governo o partido populista de direita FPÖ. Qual é a melhor receita para combater o populismo? Integrá-lo no poder ou isolá-lo, como Merkel, com o seu CDU e o SPD o pratica na Alemanha?
HP.K.: Também a Suíça integrou o SVP. Há décadas ele faz parte do governo. Na Holanda houve um governo de minoria que foi apoiado pelo partido de Geert Wilders. O mesmo ocorreu durante dez anos na Dinamarca. Na Finlândia temos o "True Finns" no governo, assim como populistas na Noruega. Existem muitos exemplos que mostram que isso funciona sem problemas, quando os populistas de direita são levados ao governo. Eu acredito que os movimentos populistas de direitas podem se transformar em partidos normais, pois eles defendem posições importantes da população. Em muitos pontos, não necessariamente os seus centrais, é possível cooperar sem problemas com eles.
swissinfo.ch: Isso vale para todos?
HP.K.: Crucial para isso é o sistema democrático: as democracias de consenso citadas acima se confrontam com as democracias de maiorias. Dentre elas, incluem-se a França, Grã-Bretanha e, há pouco, também a Polônia e a Hungria. Nelas a questão não é um trabalho conjunto com os populistas, mas sim se eles ganham as eleições e conquistam, dessa forma, o poder para governar sozinhos.
Na eleição na França era tudo ou nada. Na Hungria ou Polônia, Viktor Orban e Lech Kaczynski não representam uma boa experiência. Todavia elas são democracias, nos quais os políticos são eleitos por uma maioria e não conquistaram o poder através da violência. Porém eles têm uma visão não muito liberal da democracia: eles defendem as maiorias e deixam sem proteção as minorias. Ao mesmo tempo são abatidos o pluralismo, diferentes ideias, opiniões e a oposição.
Divisão de poderes é um grande problema par eles. Eles combatem a Justiça e as mídias críticas. Eles tornam as ONGs ilegais. A Hungria chega mesmo até fechar universidades. O problema é que esses líderes se baseiam unicamente no princípio democrático das eleições através de uma maioria. Porém eles escondem que as eleições envolvem processos de formação de opinião, na qual os interesses das minorias precisam levados em consideração e as barreiras judiciais observadas. O problema são também os populistas em sistemas presidencialistas e parlamentaristas fortemente orientados a uma maioria. Os populistas ferem os principais liberais da democracia ao apelar para si os princípios democráticos.
swissinfo.ch: A historiadora americana Anne Applebaum vê na atualidade paralelos com os anos 1930. Isso devido ao populismo. Ela teme até uma nova guerra. Você compartilha esse pessimismo?
HP.K.: Eu sou otimista. Os europeus podem estar insatisfeitos com a democracia, mas eles sentem-se fortemente ligados aos princípios democráticos. A Espanha mostrou que quanto mais as pessoas estão insatisfeitas com a economia e o governo, mais elas querem defender os princípios democráticos. Em 2011, no ponto alto da crise econômica, surgiu um movimento chamado "Indignados". Essas pessoas insatisfeitas exigiam "a democracia agora". Através de uma pesquisa mostramos que quanto pior vai a economia de um país, mais insatisfeitas elas estão com o governo, mais elas defendem os princípios democráticos.
swissinfo.ch: O populismo como meio para revitalizar as democracias?
HP.K.: O desafio através dos populistas obriga as elites a também a se destacar como defensores dos seus valores. Tipicamente, quem nos deu esse exemplo foi o novo presidente Emmanuel Macron, que defende posições pró-europeias. Ele é o melhor europeu. Imagine se Martin Schulz se tornar no outono o novo chanceler da Alemanha, como antigo presidente do Parlamento Europeu. Ao mesmo tempo, da Comissão Europeia fazem parte personalidades como Pierre Moscovici, que defendem uma visão de uma Europa cada vez mais integrada. Da atual crise da Europa poderemos tem em um futuro breve um desenvolvimento nessa direção. Porém é preciso que as elites pró-europeias defendam melhor a sua visão.
Você acha que a melhor forma de combater o populismo é integrá-lo ao poder? Participe da discussão conosco aqui nos comentários!
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch