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O túnel de base do São Gotardo, o mais longo e o mais caro do mundo, começa a operar em 11 de dezembro de 2016. A aprovação nas urnas em várias ocasiões desse projeto de vários bilhões de francos pode ser considerado com um "milagre da democracia direta".
Em um país de democracia direta como a Suíça é particularmente difícil realizar grandes projetos. De fato, os eleitores podem sempre bloqueá-los através de um referendo. A satisfação foi grande quando o presidente da Confederação Suíça, Johann Schneider-Ammann, inaugurou em junho o novo túnel ferroviário do São Gotardo, composto por dois tubos com 57 quilômetros de extensão.
O evento contou com a participação de importantes políticos europeus e centenas de jornalistas. A repercussão internacional foi bastante positiva e vários comentaristas lembraram desse sucesso da democracia direta na Suíça.
Ao avaliar o fim do chamado "canteiro de obras do século", o historiador suíço Georg Kreis, da Universidade de Berna, fala não somente em
"milagre" e "vitória", mas qualifica também de "chance" a aprovação de 64% dos eleitores dada nas urnas. De fato, o povo tende normalmente a vetar projetos vistos como "tecnocratas" dos "barões da finança" e do governo, pois costumam estar contra tudo o que vem "de cima", considera o acadêmico.
Mas esse não foi o caso da obra do São Gotardo. Em 1992, os eleitores deram o sinal verde a um projeto orçado em 10 bilhões de francos. Seu nome: as novas ligações ferroviárias alpinas, ou NLFA, na sigla em francês. Sua peça central: um novo túnel ferroviário através dos Alpes que poupa aos trens os fortes desníveis dessa região alpina. Em 1998, os eleitores também aprovaram um acréscimo ao orçamento para 15,5 bilhões. Atualmente, a soma total chega a 24 bilhões de francos, dos quais a metade foi gasta somente para construir o túnel de base do São Gotardo.
A democracia direta permitiu esse projeto graças ao compromisso firmado entre as regiões, um elemento fundamental do federalismo suíço. No contexto do projeto do São Gotardo, seus autores não se limitaram somente ao eixo central: também à região ocidental do país ganhou um agrado através da construção da linha ferroviária do Lötschberg. Já a Suíça oriental ganhou pequenas melhorias nos acessos de transporte.
Outro exemplo: levando-se em conta que o cantão do Uri havia solicitado em vão um prolongamento da linha do Gotardo até o lago de Uri (parte meridional do lago dos Quatro Cantões), os engenheiros planejaram o túnel para que ele eventualmente possa ser prolongado um dia. Foi um sinal de boa vontade.
Integrar as oposições para ter sucesso
Em uma democracia direta como a Suíça, o medo do referendo faz com que os grandes projetos como o túnel de base do São Gotardo tenham desde o início uma base cooperativa. "A vontade das autoridades de propor projetos suscetíveis a passar na prova das urnas complica as coisas, mas modera oposição", avalia o cientista político Claude Longchamp. "Sem um plebiscito, o projeto NLFA teria sido mais simples e, dessa forma, menos dispendioso. Por outro lado, a oposição teria sido mais forte como sempre ocorre nas grandes obras."
O túnel do Gotardo foi concretizado apesar da democracia direta também graças à integração da oposição. "A democracia direta integra de antemão toda a oposição previsívei. Assim evitamos os possíveis bloqueios", diz Longchamp.
A história das estradas de ferro na Suíça fornece também outro exemplo dessa estratégia vitoriosa: em 1891, um primeiro projeto de nacionalização das cinco ferrovias privadas foi rejeitado nas urnas, o que provocou a demissão do ministro responsável. Para evitar uma crise governamental, um dos chefes do grupo de opositores, Josef Zemp, foi eleito ao governo. Ele acabou responsável pelo dossiê e finalmente a nacionalização foi aceita pelos eleitores em 1898.
Segundo Longchamp, existe uma ligação estreita entre a história das ferrovias e a passagem de uma democracia representativa a uma democracia direta na Suíça. Como exemplo, ele cita o desenvolvimento dos movimentos democráticos em 1860. "Eles contribuíram a estabelecer novos direitos populares devido às más experiências obtidas com o direito de petição", lembra. Em outros termos: a insatisfação geral com o direito de petição levou à ideia do referendo popular."
Adaptação: Alexander Thoele