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Os mediadores africanos enviados a Abidjan não conseguiram (04.01) convencer o presidente Laurent Gbagbo a ceder o poder a seu adversário Alassane Ouattara.
A solução desse impasse na Costa do Marfim servirá de referência a uma dezena de eleições presidenciais previstas em 2011.
A saga pós-eleitoral na Costa do Marfim é acompanhada atentamente no continente africano, inclusive com debates inflamados e nas mídias nacionais, com posições em favor de Alassane Ouattara, vencedor das eleições, ou do presidente Laurent Gbagbo que se agarra ao poder. Ele se coloca como vítima de um complô internacional e como resistente contra o “neocolonialismo”.
Começou no Gabão, no mês passado, quando várias centenas de pessoas da oposição desfilaram afirmando: “Gabão-Costa do Marfim, dois pesos e duas medidas”, estimando que se a comunidade internacional – e principalmente a França – se mobilizou para conter o “golpe de estado eleitoral” de Laurent Gbagbo, ela fez vista grossa ao golpe de Ali Bongo em agosto de 2009.
Camarões e Tchad
O que vai então ocorrer este ano quando o presidente camaronês Pau Byia, no poder há 28 anos, disputará um novo mandato, depois de ter mudado a constituição para se candidatar mais uma vez, sem que a comunidade internacional nada dissesse? O mesmo cenário ocorre no Tchad, onde as presidenciais são previstas em abril após modificação da constituição para permitir ao presidente Idriss Déby de candidatar. Todos se lembram do apoio aéreo da França para conter uma rebelião que ameaçava diretamente o poder.
Na Costa do Marfim, foram necessários cinco anos, sob a égide das Nações Unidas, para organizar eleições e um verdadeiro trabalho de educação cívica. Resultado: mais de 80% da população cumpriram seu dever de cidadão e compareceram às urnas.
Essas foram as primeiras eleições realmente democráticas da história do país depois de anos problemas e de guerra civil embrionária. Essas eleições, como fora combinado por todas as partes, foram validadas pelas Nações Unidas, garantidora de todo o processo. Quando a derrota do presidente Gbagbo foi anunciada, a máquina infernal foi acionada, com contestações, novos apelos ao ódio. As Nações Unidas foram convidadas a deixar o país.
Uma só voz
Frente a esse absurdo, cabe saudar o que também ocorre pela primeira vez no continente africano: a reação unânime da comunidade internacional, incluindo a União Africana e a CEDEAO, que congrega os países do oeste africano e dirige uma mediação difícil com aquele que é qualificado em Abidjan de “novo Bokassa”.
A opção militar, que pode expor à represálias as comunidades oeste-africanas que vivem na Costa do Marfim, é uma opção para tirar Laurent Gbagbo do palácio presidencial de onde ele recusa sair, mesmo se todo mundo gostaria de evitá-la. Gbagbo procura ganhar tempo e espera que a paralisia do país acabará lhe sendo favorável.
Um sinal forte
Resta saber se a comunidade internacional restará unida e continuar exigindo que o voto do povo marfinense seja reconhecido e aplicado. De fato, está na hora de apoiar as populações dos países africanos que aspiram a uma democracia real, como foi o caso nos anos 1990 para os países da Europa do Leste. E que a célebre fórmula de “a África não está madura para a democracia”, seja definitivamente enterrada.
É evidente que alternância democrática é um sistema político capaz de limitar a predação e as tentações de presidência vitalícia, na África como alhures.
O que ocorre na Costa do Marfim é portanto um sinal forte para todos os potentados africanos que, nos próximos meses, tentarão como Laurent Gbagbo de manter a qualquer custo no poder para perpetrar predação, regime autoritário e manter a população como refém.
Sinal dos tempos ? Na vizinha Guiné, depois de 26 anos de regime militar, o opositor histórico Alpha Condé acaba de ser eleito democraticamente. Resta esperar que ele não siga o exemplo de Laurent Gbagbo na Costa do Marfim, que também foi um opositor histórico.
Os bilhões do clan Gbagbo
Lugares mais seguros – Em sua edição de 1° de janeiro, o jornal suíço
Le Matin Dimanche revela, segundo fontes fidedignas, que a fortuna formada durante dez anos pelo presidente marfinense Laurent Gbagbo e sua esposa Simone totaliza 6,5 bilhões de francos suíços (4,3 bilhões para ele; 3,23 bilhões para ela) “não se encontra mais na Suíça há muito tempo, tendo sido transferida para lugares mais seguros como o Líbano, Irã, África do Sul, Índia ou Portugal.”Aqui termina o infobox
Catherine Morand
Jornalista. Catherine Morand trabalhou vários anos como correspondente de jornais suíços na África. Ela morava em Abidjan, capital da Costa do Marfim.
Swissaid. Ela é atualmente porta-voz de Swissaid, ONG suíça ativa no setor de cooperação ao desenvolvimento.Aqui termina o infobox
Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch