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A vergonha de ser analfabeto
No cantão de Berna, cerca de 100.000 adultos não sabem ler ou escrever corretamente. Destes, apenas 400 freqüentam um curso para corrigir este problema.
swissinfo conversou com Rosita Della Morte, coordenadora do programa "Lesen und Schreiben" (Ler e Escrever) em Berna.
Cerca de 16% dos suíços têm dificuldades para ler ou escrever, apesar dos nove anos de escola obrigatória. Qual a explicação para este fenômeno?
Rosita Della Morte: Não há uma explicação clara. Nós constatamos que as pessoas que nos procuram simplesmente não têm muita prática com leitura ou escrita. Na maioria das vezes, pela falta de prática, elas acabam esquecendo o que já sabiam.
Como vocês atingem o público-alvo destes cursos?
R.D.M.: Este é o nosso grande problema. Divulgamos nosso trabalho nos jornais diários oficiais do cantão de Berna (distribuídos gratuitamente em todas as residências) e em associações, escolas e instituições de assistência social. Constatamos que nossos alunos demoram a entrar em contato conosco, por falta de coragem.
Quem são as pessoas que freqüentam o curso "Ler e Escrever"?
R.D.M.: Cerca de 30% dos nossos alunos têm entre 25 e 35 anos, outros 30% têm entre 35 e 45 anos. O restante são pessoas bem jovens ou já mais maduras.
Temos, por exemplo, pais e mães de família que querem ajudar seus filhos nos deveres da escola. Ou pessoas que, devido a uma reestruturação na empresa em que trabalham, precisam usar o computador ou fazer relatórios - este grupo tem crescido bastante. Uma boa parte dos nossos alunos vive sob grande pressão no emprego.
Mas as novas tecnologias também têm aspectos positivos. A internet é uma boa fonte de lazer, e as pessoas se divertem, seja em salas de chat ou trocando emails. Embora eu não acredite que a internet contribua para melhorar a capacidade de leitura.
Os alunos do curso são exclusivamente de classes sociais mais baixas?
R.D.M.: Basicamente sim, especialmente trabalhadores da indústria, instaladores, etc. De acordo com nossas estatísticas, 50% dos alunos concluíram uma aprendizagem profissional. Isso significa que freqüentaram os nove anos de escola obrigatória e mais o curso profissionalizante. Alguns poucos possuem o certificado da escola secundária (nível de ensino médio).
O diretor de uma escola de aprendizagem profissional confirmou a minha suspeita, de que os alunos são tecnicamente competentes, mas possuem sérias dificuldades com a leitura e a escrita.
Isso significa que o problema deve ser combatido já na escola?
R.D.M.: Nossa área não é a prevenção, mas é claro que apoiamos todas as organizações e instituições que atuam na área de prevenção. A pesquisa realizada pelo PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) desencadeou algumas reações positivas neste sentido.
Nós fomos convidados a apresentar um painel sobre o nosso programa na Conferência dos Diretores de Escola, no ano passado, coisa que há dois anos atrás seria impensável, por falta de interesse pelo nosso trabalho.
Este problema só foi reconhecido nos últimos dez anos. Mas não se trata de um fenômeno bem mais antigo?
R.D.M.: Nosso programa de cursos de leitura e escrita para adultos já existe há 16 anos. Sabe-se, porém, que este problema sempre existiu e provavelmente vai continuar existindo.
Não creio que todas as pessoas que têm dificuldades para ler ou escrever queiram freqüentar um curso. Várias pessoas têm habilidades suficientes nas suas respectivas áreas e podem levar uma vida absolutamente normal, sem se preocupar com a leitura e a escrita. Estas pessoas não precisam do nosso curso.
Quais são as causas do iletrismo?
RDM.: Um dos motivos é a situação familiar. Quando os pais não conseguem transmitir aos seus filhos entusiasmo pela escola, ou quando não são, eles próprios, exemplos a serem seguidos, torna-se difícil para as crianças desenvolver um interesse mais profundo pela leitura e a escrita. Ambientes familiares em que o alcoolismo ou a violência estão presentes também se revelam desfavoráveis para que a criança desenvolva interesse pela escola.
Às vezes também é negligência dos professores. Há casos em que o professor percebe a dificuldade de escrita do aluno, mas não toma as medidas necessárias para reverter o problema.
swissinfo - Entrevista: Gaby Ochsenbein
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