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Genebra é mais conhecida como um centro de organizações internacionais e negociações de paz, ou pelo papel que desempenha na corrupção mundial e nos escândalos fiscais?
"Para a maior parte do mundo, Genebra Internacional significa muita corrupção", comentou Jamil Chade, correspondente do jornal brasileiro O Estado de São Paulo, em um encontro de jornalistas promovido pelo Clube Suíço da Imprensa sobre a melhor forma de informar sobre a comunidade internacional de Genebra.
Os escândalos de lavagem de dinheiro e de corrupção, muitas vezes envolvendo contas bancárias ilícitas ou bens ligados a pessoas politicamente expostas - como o ditador haitiano deposto Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier ou o ex-presidente da República Democrática do Congo Mobutu Sese Seko – colocaram no passado Genebra nas manchetes.
Mais recentemente, foram os casos de roubo de dados bancários de clientes da filial do HSBC de Genebra e informações de denúncias sobre uma conta não declarada do ex-ministro francês da fazenda Jérôme Cahuzac.
Chade disse que cerca de 80% de seus artigos de Genebra estão ligados a histórias de corrupção, onde investigou as atividades financeiras de "vigaristas" latino-americanos.
Mais recentemente, ele cobriu o escândalo de subornos da Odebrecht que abrange vários países latino-americanos com fundos supostamente depositados em bancos suíços.
Delphine Dezempte, analista da Alaco, uma empresa de inteligência comercial que investiga os perfis de pessoas públicas e privadas, disse para swissinfo.ch que tem impressões semelhantes.
Falta de transparência
"Embora Genebra tenha tentado promover iniciativas internacionais, a cidade continua sendo um lugar de jurisdição opaca. Genebra não é sempre a melhor em termos de promover a transparência em registros corporativos, litígios ou regimes tributários", diz.
A consultoria na qual Dezempte trabalha é encarregada por instituições financeiras suíças e comerciantes de commodities de investigar potenciais clientes, a fim de cumprir os requisitos “Know Your Client” (KYC).
Ela observou uma falta de transparência dos bancos locais nos processos de congelamento de ativos, como no caso dos ditadores da Líbia, Moammar Gaddafi, e da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali.
"Isso vai contra a imagem que Genebra gostaria de manter de ser uma cidade internacional que acolhe pessoas de diferentes setores de todo o mundo."
Essa imagem - empacotada por Genebra e as autoridades suíças - visa projetar a cidade como um centro de resolução de contendas para os países do mundo.
Falar de paz é bom para a economia
Dezenas de organizações internacionais e centenas de missões permanentes e grupos não-governamentais estão baseados na cidade, que tem sido palco de muitas negociações de paz ao longo dos anos.
As autoridades têm fortes incentivos econômicos para mantê-los na cidade.
De acordo com um estudo de 2012 da Universidade de Genebra, organizações internacionais, ONGs, missões e consulados gastam cerca de CHF3,3 bilhões no cantão. E um em cada dez empregos está no setor.
É por isso que, de acordo com um representante do governo cantonal, é tão importante promover Genebra como uma cidade internacional.
"O nome dá um sentido de comunidade a todos os atores internacionais baseados em Genebra que se esforçam para construir um mundo melhor", diz o representante. Quanto mais cooperam, mais compartilham recursos, mais eficientes são e mais forte fica a Genebra internacional".
Moradores excluídos
Mas as autoridades não estão apenas lutando para convencer o mundo exterior do lugar preeminente da cidade globalmente, mas também os locais que sentiram os efeitos colaterais negativos. Entre eles estão preocupações sobre o aumento da criminalidade e a justiça das isenções fiscais para os funcionários das organizações internacionais.
Recentemente, a Presença Suíça, órgão do governo federal responsável pela imagem da Suíça no exterior, colaborou com a ONU em Genebra em um programa para promover o trabalho da comunidade internacional localmente.
O Projeto de Mudança de Percepção incluiu trabalhos de estudantes, iniciativas com hospitais locais, bem como um livro de contos interativo sobre como as agências de Genebra estão envolvidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
Aziyadé Poltier-Mutal, que lidera o programa, disse que isso oferece uma oportunidade para mudar a narrativa para além do que a mídia fala sobre as atividades da ONU.
Nicolas Bideau, embaixador e chefe da Presença Suíça, admite, no entanto, que a promoção da Genebra Internacional é uma tarefa difícil.
Impacto mundial da cidade
De acordo com o monitoramento da imprensa internacional pelo seu gabinete, os meios de comunicação se concentram nas negociações ou decisões tomadas em Genebra - seja no programa nuclear iraniano ou nas negociações de paz sírias - e não no local onde foram realizadas.
"Não é Genebra Internacional como tal que é percebida no exterior", diz Bideau. "Há trabalho a ser feito para reforçar a percepção da Genebra Internacional. Não queremos que as organizações deixem Genebra."
Para isso, a Presença Suíça vai promover a cidade na feira mundial deste ano em Astana. Seu plano é destacar o papel de Genebra no apoio aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU na exposição que será realizada na capital do Cazaquistão.
"Temos um problema de imagem. A maioria das pessoas não percebe como Genebra é importante para a estabilidade do mundo."
A Presença Suíça também está trabalhando com os bancos, já que as atividades de alguns deles levaram à má imprensa no exterior.
Alterando as regras do jogo
Para Bideau, as regras do jogo mudaram nos últimos anos com o fim do sigilo bancário suíço e a implementação na Suíça do padrão internacional para o intercâmbio de informações para fins fiscais.
Dezempte não está convencida de que estes movimentos por si só fariam muita diferença para melhorar a imagem de Genebra no exterior.
"Ainda há muitas coisas obscuras acontecendo em segundo plano", comentou.
De volta ao clube da imprensa, alguns jornalistas argumentaram que a marca internacional da cidade teria mais impacto se os repórteres tivessem maior acesso a conferências e palestras importantes que acontecem na cidade.
Mas para outros, como Philippe Mottaz, ex-diretor de notícias da emissora pública suíça RTS, sempre haverá dois lados para a mesma moeda. "Temos que aceitar a Genebra Internacional com todas as suas contradições, um lugar que onde a gigante do tabaco JTI e a Organização Mundial da Saúde estão ambas sedeadas".
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch