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Há uma camiseta que, por algum tempo, teve uma certa popularidade nos Estados Unidos. Ela era até vendida no Walmart, gigante do varejo on-line. Tinha um slogan simples, e talvez até um pouco cômico: "Corda, Árvore, Jornalista: requer uma festa". A implicação perturbadora; que linchar jornalistas era uma ideia bacana, ou mais que isso, uma atividade divertida inclusive.
Nos últimos dois anos, meus colegas da América do Norte viram esta camiseta aparecer nos comícios do Trump, os mesmos comícios nos quais os jornalistas estão confinados à áreas de imprensa e regularmente cercados e vaiados por multidões, alguns deles usando essas camisetas.
Enquanto isso, os políticos que discursavam nesses comícios, incluindo o presidente dos Estados Unidos, descreviam os jornalistas como fornecedores de “notícias falsas”, “perdedores” e “inimigos do povo”.
As cenas levaram o ex-comissário de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad al Hussein, a deixar o cargo no mês passado, alertando sobre “uma campanha contra a mídia que, potencialmente, e praticamente, coloca em andamento uma cadeia de eventos que de uma hora para outra pode causar danos a jornalistas que estão apenas realizando seu trabalho”.
Liberdade para trabalhar com segurança
Aqui em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU se interessa pela liberdade de imprensa: uma resolução sobre a segurança dos jornalistas foi aprovada em 2016, e o Relator Especial da ONU para a promoção e proteção do direito à liberdade de opinião e expressão chama atenção regularmente à repressão dos meios de comunicação na Turquia, Mianmar, e Rússia - para citar só três dos vários países onde a liberdade de imprensa é cerceada. Sem contar os casos dentro da própria União Europeia, como Polônia e Hungria.
Talvez não seja um debate em que nós, jornalistas de Genebra, nos concentramos tanto quanto deveríamos. Nossas prioridades de notícias estão em outro lugar: as negociações na Síria, a crise do Iêmen ou as negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Mas a visita do mês passado a Genebra do novo conselheiro de segurança nacional dos EUA, John Bolton, fez-me refletir sobre nossa profissão e a liberdade, ou não, com a qual trabalhamos.
Depois de conversas com seu colega russo, Bolton deu uma coletiva de imprensa solitária, na qual lhe fizeram várias perguntas. Em especial uma ao final da sessão, se Boltonele, como Conselheiro de Segurança Nacional, não se preocupa se o fato, assumido, de Donald Trump pagar pelo silêncio de mulheres que tenham informações prejudiciais sobre ele, não torne o próprio presidente um risco de segurança nacional.
Bolton, obviamente, não gostou da pergunta, e deu uma curta resposta ("isso é uma pergunta ridícula") antes de sair. Poucos minutos depois, a jornalista que fez a pergunta (revelação: fui eu mesma) foi levada sozinha para uma sala afastada onde tomei uma bronca do porta-voz de Bolton aos gritos.
‘Uma desgraça’
Este indivíduo, que deve permanecer anônimo para que ele possa pelo menos sofrer em particular a subsequente vergonha que eu espero que ele sinta, colocou seu rosto na fremte do meu, me disse que minha pergunta era "uma desgraça", que eu "deveria ter vergonha" e "para dizer as seus chefes que nunca mais vamos trabalhar com a BBC ”.
Quando ele voltou a respirar, sugeri que sua posição não era sensata, desejei-lhe um bom vôo de volta a Washington e me juntei novamente aos meus colegas.
Voltei ilesa deste encontro, mas a minha profissão não. Desde quando é aceitável que um porta-voz de um departamento governamental de uma democracia evoluída tente intimidar a imprensa? O que estava passando pela mente desse indivíduo quando ele escolheu essa abordagem?
Eu suspeito que ele baseou-se no exemplo de seu chefe supremo, o presidente Trump. Os ataques verbais contra a mídia desferidos constantemente pelo presidente tornaram a hostilidade e até mesmo a intimidação da mídia um comportamento "salonfähig", como dizem os falantes de alemão, que quer dizer "socialmente aceitável".
Sinos de alarme
Esse tipo de comportamento deveria estar soando alarmes. Voltemos aos comentários de Zeid Ra'ad al Hussein sobre a campanha contra a mídia: “Nesse contexto”, diz ele, “isso está muito perto de incitação à violência”.
Rebecca Vincent, diretora da organização Repórteres Sem Fronteiras do Reino Unido, diz que desde 2016 “o que realmente notamos é que países que uma vez vimos como exemplos [no tocante à liberdade de imprensa] estão escorregando ladeira abaixo”.
A RSF produz um índice anual de liberdade de imprensa mundial: este ano os EUA estão em 45º entre 180 países e, diz Vincent, irão cair novamente no próximo ano. O escritório da RSF nos EUA também produz um rastreador de liberdade de imprensa nos Estados Unidos, detalhando múltiplos incidentes, desde um repórter preso em Denver por tirar fotos, a um correspondente da CNN em Washington que teve seu acesso à Casa Branca negado por causa de "perguntas inapropriadas".
Pode-se argumentar que esses incidentes não são especialmente sérios, mas são muitos, Vincent, entre outros, teme que um clima no qual os jornalistas são intimidados possa levar, talvez gradualmente, talvez sem percebermos, a uma situação em que os jornalistas não consigam mais credenciamento, tenham seus equipamentos confiscados, ou que sejam mesmo presos, espancados na prisão, e finalmente mortos.
Ano mortal
Vincent ressalta que o ano de 2018 já é um dos mais letais registrados pelos jornalistas; 69 morreram no cumprimento de seu ofício somente este ano, em comparação com 65 para o total de 2017. Alguns, segundo a RSF, foram alvos deliberados.
"Estamos vendo uma conexão direta entre essa retórica hostil ... que praticamente encoraja a violência", diz ela.
Aqui, diz Vincent, a ONU tem um papel importante a desempenhar. Para começar, aponta ela, a ONU é muitas vezes o único órgão através do qual grupos como a RSF podem levantar preocupações sobre a segurança dos jornalistas com países nos quais eles podem estar em risco.
E a RSF gostaria de ver um especialista da ONU nomeado com um mandato específico relacionado à segurança da mídia. O relator especial sobre liberdade de expressão é, acredita Vincent, muito importante, mas esse mandato está se tornando muito amplo.
Convenção para jornalistas?
Outra organização menor dedicada à segurança dos jornalistas é a Press Emblem Campaign (PEC), com sede em Genebra. Seu presidente, Hedayat Abdelnabi, acredita que deveria haver uma convenção internacional para proteger os jornalistas.
“A ausência de tal convenção ajuda a impunidade e a disseminação de ataques contra jornalistas”, diz ela.
A PEC gostaria de ver uma conferência internacional dedicada à criação de tal convenção, um processo que Abdelnabi acredita estar "muito atrasado".
Certamente nós, jornalistas, deveríamos estar incentivando os diplomatas a colocarem essa questão na agenda da ONU, mostrar solidariedade aos colegas que trabalham nas regiões mais perigosas e repressivas do mundo e impedir a erosão insidiosa de nossa liberdade de trabalho, que estamos testemunhando mesmo nas democracias mais liberais.
Porque a altercação que vivi aqui em Genebra por fazer uma pergunta incômoda está se transformando, em cada vez mais lugares, em algo muito mais sinistro.
Você pode seguir Imogen Foulkes no Twitter @imogenfoulkes e enviar suas perguntas e sugestões sobre tópicos da ONU.
Adaptação: Eduardo Simantob, swissinfo.ch