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Luiz Loures, diretor da UNAIDS(afp_tickers)
Uma investigação de abuso sexual que inocentou um alto funcionário brasileiro das Nações Unidas levantou questionamentos sobre a capacidade do órgão mundial de apurar irregularidades de seus líderes.
As alegações contra o diretor-executivo da UNAIDS, o brasileiro Luiz Loures, lembra outros casos que vieram à tona com o movimento #MeToo. Ele foi acusado de má conduta por uma colega mais jovem.
Uma investigação interna da ONU, à qual a AFP teve acesso, conclui que não há provas de que o brasileiro abusou ou assediou sexualmente sua acusadora, cuja identidade foi protegida.
Entretanto, ativistas e especialistas disseram que a investigação foi mal feita.
"A ONU é completamente mal-equipada para investigar este tipo de coisa. Eles não deveriam estar apurando abusos sexuais", disse Ed Flaherty, advogado que representou funcionários públicos internacionais por mais de duas décadas.
"A ONU não é uma autoridade soberana dotada de direito para investigar ações criminosas", acrescentou. "Quando há uma queixa de uma ação criminosa, a ONU deveria envolver autoridades domésticas".
Um porta-voz da UNAIDS disse, nesta quarta-feira, que Loures não queria comentar o caso. Em duas notas à imprensa recentes, o órgão destacou sua "tolerância zero" para o assédio sexual e afirmou sua confiança nos processos investigativos internos.
- Contato físico -
O caso foi descrito em um relatório de setembro de 2017 do Escritório de Serviços de Supervisão Interna (IOS, na sigla em inglês) da Organização Mundial de Saúde (OMS), que tem elos administrativos com a UNAIDS.
Em novembro de 2016, uma funcionária fez uma queixa ao diretor-executivo da UNAIDS, Michel Sidibe, afirmando que Loures começou a assediá-la sexualmente em 2011 e abusou dela em maio de 2015.
O assédio incluiria comentários sobre sua aparência e toques, disse ela aos investigadores.
Loures afirmou ao IOS que usava muito contato físico no cumprimento aos colegas, homens e mulheres, e admitiu ter beijado e segurado a mão da acusadora ocasionalmente.
O IOS decidiu que o comportamento de Loures "pode ser visto como inapropriado, especialmente dada sua posição sênior", mas determinou ter provas insuficientes para sustentar as acusações de abuso sexual.
- O abuso -
O abuso ter acontecido em um hotel em Bangcoc, onde a UNAIDS organizava um evento antes de uma reunião importante.
A acusadora disse que Loures pressionou-a a tomar uma bebida no hotel, mas longe da recepção. Ele negou isso, mas confirmou a conversa privada ao IOS.
A acusadora disse que a conversa começou com assuntos relacionados ao trabalho, mas depois se tornou mais pessoal, embora nada de excepcional tenha sido discutido.
Ela afirma que, no elevador, depois disso, Loures se projetou sobre ela, beijando-a e apalpando seus seios.
Quando o elevador parou em seu andar, ele tentou puxá-la, numa aparente tentativa de levá-la ao seu quarto, segundo ela.
Loures negou o abuso e disse que, enquanto bebiam, a acusadora expôs detalhes sobre suas preferências sexuais.
Questionado sobre por que uma jovem funcionária falaria de informações tão íntimas com um superior, os investigadores disseram que Loures não conseguiu responder plenamente.
Imediatamente após o episódio, a acusadora ligou para sua mãe e uma amiga para contar o que tinha acontecido.
Três colegas que a viram no hotel descreveram como estava "angustiada, chorando e muito abalada", segundo o IOS.
A acusadora também contactou seu chefe após o suposto incidente. Ele deu a mesma descrição de seu estado.
- Ônus da prova -
O IOS concluiu que não havia provas para sustentar as acusações de que Loures cometeu abuso sexual.
Para Paula Donovan, ativista da Campanha Código Azul, que trabalha para expor abusos sexuais dentro da ONU, o caso Loures é mais um exemplo da incapacidade da instituição de investigar membros de seu alto escalão.
Ela também disse que o IOS tenha uma "abordagem antiquada" às denúncias de abuso, com um padrão de ônus da prova que está com "décadas de atraso em relação a muitos países".
"Não importa para a ONU, para a UNAIDS, se a acusadora falou com sua mãe, uma amiga íntima e seu chefe imediatamente após o abuso. Isso é tratado como 'ele disse, ela disse'", explicou Donovan à AFP.
Donovan e Flaherty concordaram que uma investigação séria deveria envolver uma análise mais minuciosa de Loures, para averiguar se há um padrão de comportamento inadequado, especialmente considerando sua alegação superficial de que teve uma conversa sexual explícita com uma colega mulher.
"O IOS leva em consideração provas circunstanciais fortes para fazer recomendações", disse a UNAIDS em nota.
"O órgão tem independência para adotar a linha de investigação que escolher", acrescentou, embora tenha se negado a comentar detalhes do caso Loures.
AFP