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Na Suíça existe uma grande demanda por alemães bem qualificados. Porém muitos suíços têm reservas em relação a essa população crescente no país. Dois especialistas analisam a relação entre os dois povos, que há cem anos era bem diferente.
A matéria-prima da Suíça é a educação e conhecimento. Através desses fundamentos, o país se transformou em um dos mais importantes centros de pesquisa do mundo.
Porém como as universidades helvéticas formam poucos talentos, a Suíça é obrigada a procurar acadêmicos no exterior.
O mais importante reservatório de graduados é a Alemanha: desde a entrada em vigor das regras de livre circulação de mão de obra com a União Europeia (UE) em 2002, o número de cidadãos alemães passou de 140 mil a 280 mil.
A relação dos suíços com os vizinhos do chamado "grande cantão", como a Alemanha é muitas vezes ironizada entre os suíços germanófonos, não é completamente descontraída, especialmente depois do Terceiro Reich de Hitler e a Segunda Guerra Mundial.
Portanto não surpreende que a crescente presença de alemães no país - a maioria vive na parte germanófona - provoque críticas, sobretudo dos setores de direita.
Trauma da guerra
"Temos alemães demais na Suíça", declarou a deputada federal Natalie Rickli do Partido do Povo Suíço (UDC, na sigla em francês) há alguns meses, exigindo ao mesmo tempo limitar a imigração.
Wilhelm zu Dohna compreende o medo sentido na Suíça pelo crescimento da comunidade alemã. Uma das razões está na proporção de estrangeiros em relação à população local: 22%. Ao mesmo tempo existiria ainda o trauma em relação à predominância da Alemanha e dos alemães, como explica à swissinfo.ch
Dohna, médico anestesista de 56 anos e originário de Berna, escreveu há dois anos um livro intitulado "Amor sem fronteiras: pode um alemão se tornar suíço?", considerado por críticos como uma análise lúcida, mas original e até um pouco provocante sobre a tradicional e frágil relação entre os dois países.
O autor, que se considera um "andarilho entre helvécios e germânicos", tem origens migratórias nos dois países. Como descendente de uma linhagem nobre originária da Saxônia e Prússia e também cidadão de Berna (Bernburger), um título adquirido pelos antepassados na metade do século 17 - e cidadão com a dupla nacionalidade, vivendo na Suíça desde 1975.
Acadêmicos alemães se destacam na Suíça, pois vêm de um meio muito mais competitivo e tem por objetivo apenas evoluluir como profissionais.
Preconceitos
Com seu livro, Dohna quer combater os preconceitos, erros, equívocos e armadilhas. "Alemães e suíços leem os mesmos escritores como Dürrenmatt, Frisch, Hölderlin ou Goethe", afirma. Porém se existe uma cultura elevada comum aos dois povos, a cultura do cotidiano é bastante diferente. "E é exatamente esse erro que muitos alemães cometem: eles veem a Suíça como uma espécie de extensão do seu país e acreditam que conhecem a sua cultura. Mas na verdade, eles acabam tendo apenas os clichés na cabeça."
Para Dohna, a maior diferença está na língua. O idioma oficial é nos dois países o alemão, apesar de que a Suíça ainda tem o francês, italiano e reto-romano como línguas oficiais. Na Suíça germanófona, porém, fala-se o dialeto suíço-alemão. Na prática, as crianças se comunicam em dialeto em casa ou na rua, mas nas escolas aprendem o "bom alemão" como língua estrangeira.
"É muito importante que os alemães na Suíça se convençam de que o dialeto é o verdadeiro idioma oficial e que eles o aprendam e falem", declara Wilhelm zu Dohna em perfeito suíço-alemão. Afinal, todos os imigrantes devem aprender o idioma do país em que vivem.
Porém, muitas vezes, os próprios suíços recomendam os alemães a desistirem de tentar falar o dialeto. "Mas se eles conseguem, então as pessoas se admiram e perguntam como se conseguiu o feito", diz. "O resultado é visto com bons olhos, mas o caminho para chegar até ele é refutado", conclui segundo sua própria experiência.
Em seu ambiente, vários colegas já seguiram seu exemplo. "Eles aprenderam bem rápido", acrescenta Dohna.
O ex-presidente da Comissão Federal contra Racismo (EKR, na sigla em alemão), o suíço e historiador Georg Kreis, também já foi confrontado à tensão que existe no relacionamento entre os dois povos.
Como no passado
Manchetes como "Os alemães estão chegando" ou "Temos alemães demais!" lhe causam desconforto. "De forma analógica quando alguém levanta a questão dos judeus do período entre guerras, o mesmo vale para a questão 'dos alemães'", diz Kreis.
Talvez os alemães sejam, de fato, concorrentes desagradáveis no mercado de trabalho e de moradia. "Porém médicos e enfermeiros alemães dão uma contribuição valiosa à saúde no país", constata o historiador.
O ex-chefe da EKS também considera uma agressão a exposição de indivíduos que pertencem a um mesmo grupo. "Não precisamos falar logo que os direitos humanos foram feridos. Mas criar uma figura inimiga prejudica a coexistência pacífica."
Esse ato de demonizar um grupo já não existia desde o início do século 20. E isso, apesar da percentagem de alemães no total da população suíça ter chegado a quase 6% em 1910, o que corresponde ao dobro do que temos hoje em dia (3,5%).
A Suíça já não é "um paraíso de povos diversos" desde 1914. Mas a forte presença de alemães antes da Primeira Guerra Mundial nunca chegou a representar um problema, como explica o professor aposentado de história na Universidade da Basileia.
O mais famoso dos alemães na época se chamava Albert Einstein, cuja Teoria da Relatividade foi desenvolvida em Berna. A maioria dos imigrantes eram, segundo Kreis, pessoas não acadêmicas, mas sim mestres de ofício e operários da construção civil.
"Na época já existia uma espécie de liberdade de circulação, pois os trabalhadores estrangeiros podiam se estabelecer e trabalhar sem problemas", relata Kreis.
De 1870 até 1914 a Suíça orientava-se fortemente ao Império alemão. "Em 1912, ou seja, há cem anos, o Imperador Wilhelm II. visitava a Suíça para participar de manobras militares e descobrir se os soldados suíços poderiam realmente funcionar como uma barreira de proteção contra a França, como havia sido combinado."
Antes da 1a Guerra Mundial ocorreu repentinamente uma ruptura, pois milhares de estrangeiros, especialmente alemães, se mobilizaram para participar da guerra. "O paradoxo é que essa emigração de retorno foi acompanhada por um aumento da xenofobia", analisa.
No debate sobre as diferenças, Georg Kreis considera que, "ao lado de diferenças culturais ou históricas, talvez as semelhanças é que trariam problemas."