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Foto de arquivo de setembro de 2015 mostra Muhammad Ali (D) recebendo um prêmio das mãos do então editor do grupo Sports Illustrated, Paul Fichtenbaum, em Louisville, Kentucky(afp_tickers)
Uma das maiores batalhas de Muhammad Ali não foi no ringue, mas contra o mal de Parkinson, que prejudicou severamente sua fala e habilidades motoras nos últimos 30 anos de vida.
Para muitos especialistas, o transtorno neurológico incapacitante de Ali não foi um acidente, mas o resultado trágico da carreira de mais de três décadas como boxeador.
Ali foi diagnosticado com Parkinson em 1984, aos 42 anos, três anos depois de ter se aposentado, com 61 lutas profissionais no currículo.
Na época, especialistas falaram de "demência pugilística", também conhecida como "síndrome do pugilista", para descrever os danos cerebrais observados em esportistas que acumulam múltiplos impactos violentos ao longo de suas carreiras.
"Não podemos afirmar com certeza, mas há fortes suspeitas", disse à AFP Andre Monroche, chefe da comissão médica da Federação Francesa de Esportes de Contato.
"Hoje nós sabemos que golpes repetidos alteram as células nervosas, especialmente em um cérebro que não descansou", disse o especialista.
- 'Anormalidades profundas' -
Jean-François Chermann, neurologista no Leopold Bellan Hospital, em Paris, é categórico.
Em um livro de 2010 sobre o impacto dos golpes no boxe, Chermann afirma que Ali "no final das suas sessões de treinamento baixava a guarda e pedia ao seu parceiro de luta que lhe golpeasse na cabeça, para mostrar que ele era o mais forte".
"Há uma conexão entre sua doença atual e aquele tipo de práticas", escreveu Chermann na época.
Estudos médicos alertaram por muito tempo sobre as consequências do boxe e de outros esportes nos quais a cabeça recebe impactos frequentes.
Um estudo de 2008 da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, escaneou os cérebros de 42 boxeadores e de 37 não-boxeadores. Foram encontradas "micro-hemorragias" nos cérebros de três dos pugilistas - provavelmente resultado do forte impacto dos golpes nos ringues, que danificaram o tecido cerebral.
"Essas alterações são prováveis precursoras de danos cerebrais mais graves, como a doença de Parkinson ou a demência", disseram os autores do estudo.
Em 2013, uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports revelou "anormalidades profundas" na atividade cerebral de jogadores de futebol americano aposentados.
Atividades incomuns no lobo frontal, observadas em ex-jogadores da National Football League (NFL) durante testes cognitivos, estavam em consonância com registros de golpes fortes que eles tinham recebido em campo.
Cerca de 30% dos pugilistas desenvolvem dificuldades neurológicas após a carreira, de acordo com Chermann. "Quanto mais nocautes você sofre, maiores os riscos".
Os riscos são ainda maiores para os pugilistas amadores, segundo o especialista. "Eles têm mais lutas, são menos monitorados e gastam menos tempo trabalhando na sua defesa em comparação com os profissionais", disse Chermann.
- Síndrome do segundo impacto -
Os nocautes são apenas a ponta do iceberg quando se trata de ferimentos na cabeça sofridos em uma gama de esportes, desde o rúgbi e o hóquei no gelo até o esqui, o judô e o hipismo, para citar apenas alguns.
Enquanto no boxe você vê os golpes chegando, em outros esportes as lesões podem passar despercebidas, disse Monroche.
"Também poderia ser um jogador de futebol que cabeceia muito. No boxe há um árbitro. Em outros esportes, ninguém intervém", afirma.
Desde que Ali pendurou as luvas, pesquisas mostraram a importância de pelo menos cinco dias de descanso para os atletas que sofrem golpes violentos, para evitar a "síndrome do segundo impacto" - uma condição responsável por dezenas de mortes de atletas todos os anos.
Em 2013, o rúgbi francês tomou uma iniciativa em relação ao problema, introduzindo monitoramento neurológico para jogadores profissionais. Nos Estados Unidos, jogadores de futebol americano e de hóquei no gelo também são observados de perto em caso de ferimentos na cabeça.
AFP