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Em 8 de janeiro de 1959, Fidel Castro entrava em Havana à frente da Caravana da Liberdade. "A tirania foi derrotada", disse então. "A alegria é imensa e, no entanto, há muito por fazer (...) talvez adiante, tudo seja mais difícil."
Neste 8 de janeiro de 2009, sua reflexão continua atual. Cinquenta anos depois, a Revolução Cubana é confrontada com a incercerteza e uma profunda crise financeira.
O simples fato de celebrar este aniversário "é quase um milagre, uma façanha de uma ilha que durante 50 anos enfrentou a hostilidade aberta da maior potência mundial", afirma Beat Schmid, cooperante suíço estabelecido em Havana.
O professor Claude Auroi, presidente da Associação Suíça de Americanistas, tem a mesma opinião: "É admirável que Cuba tenha sobrevivido a uma conjuntura difícil no plano interno e externo, com o bloqueio."
Os dois especialistas concordam também que a chegada de Barack Obama à Casa Branca, que prometeu em campanha algumas medidas para abrandar o embargo, cria expectativas em Havana, disposta a negociar "de igual para igual" com o novo presidente estadunidense.
Porém, é quando se fala de Cuba é uma constante ter pontos de pontos de vista muito diferentes. Por ocasião do 50° aniversário do triunfo da Revolução Cubana, os dois conhecedores do país analisam para swissinfo o momento atual da "Pérola do Caribe", suas perspectivas e seus desafios.
"Tantas vezes me mataram..."
Para Claude Auroi, catedrático do Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Denvolvimento, (IHEID), em Genebra, o sistema político cubano está esgotado.
"Recuperar-se é impossível. Em Cuba, todo mundo sabe que é uma ilusão; as jovens gerações tentam sair do país ou são muito críticas, porém sem poder dizê-lo porque não há espaço para a livre expressão."
Auroi pensa que o momento atual em Cuba é parecido ao da véspera da queda do Muro de Berlim. "Todo mundo sabia que não havia futuro para o sistema, mas ninguém queria dizer isso em voz alta para não sofrer as consequências. É a mesma coisa que tentar revitalizar a Revolução Cubana do interior, com uma espécie de entusiasmo generalizado. Eu acho que já passou da hora."
Beat Schmid, membro da ONG Oxfam Internacional, afirma que "há duas coisas que me parecem importantes: primeiro, as mudanças em curso estão ocorrendo dentro do sistema, ou seja, não há debate em nenhum setor social relevante para colocar o sistema em questão."
Além disso, por conseguinte, "este governo e o sistema contam com amplo respaldo da população, o que não significa que as pessoas não critiquem. Há uma clara tendência de que as coisas devem melhorar pouco a pouco."
Naufragou ou é apenas vazamento?
"O governo cubano é um dos que contaram mais vezes como nocauteado, porém nunca caiu, como Fidel, que tantas vezes foi declarado moribundo ou morto. Então temos que ver as coisas com tranquilidade para julgar e avaliar", adverte Beat Schmid.
Ao longo desse meio século, a Revolução teve que driblar os desafios do bloqueio estadunidense e de seu próprio fracasso socialista.
"Estou admirado com a capacidade e energia política em relação aos gigantes, os que a apoiaram e depois também fracassaram, como os russos, ou os norte-americanos que queriam aniquilar a Revolução", sublinha o professor Auroi.
De fato, desde o século passado na Sierra Maestra até estes tempos de globalização e de crise, do combate à ditadura batista passando pela luta contra o analfabetismo e a insalubridade, a Revolução Cubana não conheceu tréguas.
Hoje, sem a ajuda de seu sócio de outrora, porém ainda submetida ao embargo, a ilha sofre também os estragos do maior embate que lhe propiciou a natureza.
Uma economia em frangalhos
Na pior temporada de furacões da história do país, Cuba foi atingida em 2008 por três fenômenos naturais que deixaram um prejuízo de aproximadamente 10 milhões de dólares, equivalente a 20% do PIB – Produto Interno Bruto – do país.
"As sequelas serão sentidas durante muito tempo", prevê Beat Schmid. "Dezenas de milhares de famílias viverão por vários anos em casas provisórias." Ainda mais que "o país não está isento da crise econômica global nem da crise dos alimentos, que afetam sua capacidade de recuperação".
Daí a austeridade nos festejos cinquentenário em 1° de janeiro, aos quais Fidel não compareceu, de uma Revolução que se tornou um símbolo de esperança para os países da América Latina e de outras latitudes – lembra Claude Auroi – e que seduziu os intelectuais da esquerda europeia.
Ele mesmo foi um entusiasta e inclusive fez uma tese intitulada La Nueva Agricultura Cubana (Editoria Antropos, Paris, 1976). Escreveu então que o caminho escolhido era impróprio: "O modelo agrícola cubano foi e ainda é um fracasso. Não saiu da era da caderneta de racionamento de alimentos durante 50 anos."
Em sua opinião, a adoção do modelo comunista como via para fortalecer a Revolução Cubana não era a única opção, embora reconheça que outra solução teria exigido concessões aos Estados Unidos e poderia ter fracassado. O esquema socialista sobreviveu, mas a que preço!", analisa Auroi.
As conquistas da Revolução
Toda a população cubana tem acesso gratuito à saúde e à educação, os dois pilares da Revolução Cubana.
Graças a isso, Cuba tem recursos humanos do mais alto nível. Como exemplo, com uma mortalidade de 5 por mil recém-nascidos, tem o melhor índice de todo o continente (incluindo Estados Unidos e Canadá), e um milhão de pessoas na América Latina foram operadas de catarata por médicos cubanos.
Porém, adverte Beat Schmid, essas conquistas da Revolução já não são vistas como tal pelas gerações jovens, mas como direitos naturais. Por isso, Cuba enfrenta agora o desafio de dar um pouco mais de bem-estar material à sua gente.
Para isso, acrescenta o cooperante suíço, é preciso produzir mais "e aí há algumas medidas que estão sendo tomadas e que, a médio prazo, devem ter algum impacto porque creio que essa é a chave para que as pessoas continuem identificadas com esse processo e tenham vontade de apostar nele."
swissinfo, Marcela Águila Rubín
Breves
A Suíça representa os interesses dos Estados Unidos em Cuba e vice-versa.
A Agência suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação (DDC) está presente em Cuba desde o final do ano 2000.
CRONOLOGIA
1° de janeiro de 1959 - Fidel Castro desce da Sierra Maestra para derrotar o ditador Fulgencio Batista.
Janeiro de 1961 – Estados Unidos rompe relações diplomáticas com Cuba em resposta à nacionalização de seus interesses na ilha. Começa quase meio século de guerra ideológica entre ambos.
16 de abril de 1961 - Castro declara que sua revolução é socialista. No
dia seguinte, exilados cubanos apoiados pela CIA tentam invadir Cuba pela Bahia dos Porcos, mas são derrotados pelas tropas de Castro.
Fevereiro de 1962 – Estados Unidos impões um embargo comercial toal a Cuba, vigente até hoje.
Outubro de 1962 - Crise dos Mísseis. Estados Unidos descobrem ogivas nucleares soviéticas em Cuba. Teme-se o início da III Guerra Mundial. A União Soviética retira seus mísseis.
Novembro de 1975 - Castro envia tropas a Angola para ajudar o governo esquerdista a combater os rebeldes da Unita apoiados pela África do Sul. Em 15 anos de guerra civil, foram enviados 300 mil soldados cubanos a Angola.
Abril-Outubro de 1980 - Êxodo de Mariel. Cuba permite que 125.000 emigrem para os Estados Unidos.
Dezembro de 1991 – O colapso da URSS provoca em Cuba uma crise econômica da qual ainda não se recuperou totalmente.
Agosto-Setembro de 1994 - Mais de 35.000 pessoas abandonam Cuba rumo aos Estados Unidos, em frágeis embarcações improvisadas.
Janeiro de 1998 - Jõao Paulo II é o primeiro Papa a visitar Cuba.
31 de julho de 2006 - Fidel entrega provisoriamente o poder a seu irmão Raúl, de uma cirurgia intestinal de urgência.
24 de fevereiro de 2008 - Raúl Castro é eleito formalmente presidente de Cuba, cinco dias depois que Fidel renuncia a reassumir o cargo devido seu frágil estado de saúde.
Dezembro de 2008 - Raúl Castro diz estar disposto a reunir-se com Barack Obama, presidente eleito dos Estados Unidos, que falou em abrandar algumas das restrições a Cuba e encontrar as autoridades da ilha.
Fonte: Agência de notícias REUTERS
"Cuba não está só"
Para Beat Schmid:
Conta com a simpatia da América Latina e o apoio de diversos países da região, em particular, da Venezuela.
Cuba foi um porto seguro para muitos sulamericanos na época sombria das ditaduras militares e símbolo de que outra América era possível.
Havana manteve 40 mil médicos na América, África e Ásia, o que criou estreitos laços humanitários com países desses continentes.
Em 2008, os dirigentes da Rússia, China e Brasil, entre outros, visitaram Cuba, que aderiu ao Grupo de Rio.
Além disso, a ilha teria reservas de petróleo em seu subsolo marítimo.
Para Claude Auroi:
A fórmula de Fidel "tudo é possível na Revolução, porém nada contra a Revolução", tolheu liberdades.
Há três cenários possíveis para o futuro de Cuba:
Uma possível contrarrevolução; evoluir para um modelo chinês, com liberalização econômica sob controle do Estado; uma democratização rápida, segundo um modelo ocidental, com diversos partidos políticos.
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