Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02456.jsonl.gz/54

Pular da janela, dando de encontro ao calçamento em frente ao prédio, é mais do que um ato desesperado. Aliás, é muito mais do que um pedido de socorro. Aliás, é muito, mais muito mais do que estar sozinho, desamparado, desamado ou qualquer coisa que o valha.
Pense em um incêndio em seu apartamento no 15º andar. Quais seriam as condições de proximidade do fogo e da morte por sufocamento, para que você decidisse arriscar-se a tirar a própria vida?
Walter Benjamin, um dos grandes pensadores do início do século XX, suicidou-se quando seu grupo de refugiados foi detido nos Pirineus, na Espanha. Benjamin, assim como outros no grupo, fugia do regime nazista alemão.
Por outro lado, Viktor Frankel, outro importante pensador dessa época. Foi preso pelos nazistas, viveu por anos em campos de concentração. Acompanhou a morte de milhares de companheiros de prisão, seja por suicídio, seja pelas câmaras de gás ou pelas condições de inanição. Sobreviveu a esse tempo para compor uma das mais belas, robustas (e funcionais) teorias da psicologia.
Read here in English!
Frankel se perguntou a mesma coisa, se fez a mesma pergunta com a qual comecei esse texto: “O que leva o sujeito a essa escolha fatídica?”. Dessa resposta ele construiu sua teoria e sistema. Mas, de forma simples, Viktor Frankel percebeu durante os anos no campo de concentração que, aqueles que encontrava um sentido naquele processo, tinham maior facilidade ou tendência a sobrevier.
Fosse ajudando o próximo, ou se envolvendo de cabeça nas atividades às quais eram obrigados a executar, quando era encontrado um sentido, a sobrevivência era mais fácil. Em última instância, garantia mais um dia de existência.
Esse sentido não era exatamente uma direção, mas um significado para o processo. Assim, quando a pessoa passava a se identificar com a limpeza das latrinas e fazia disso o significado daquele momento da vida, essa relação aumentava o vínculo com a vida e permitia o apego à vida por mais um dia. Preenchia o indivíduo.
Vemos isso todos os dias, e, de formas diferentes, fazemos essa mesma pergunta para situações diferentes: “como ela pode se manter casado com esse cara?”, “como ele suporta esse trabalho?”, “como eles aguentam essa situação de vida?”.
Veja, essas perguntas são a mesma pergunta do segundo parágrafo: “Quais seriam as condições de proximidade do fogo e da morte por sufocamento, para que você decidisse arriscar-se a tirar a própria vida?”. Aqui, a pergunta é sobre o que precisaria acontecer para que o sentido da sua vida se perdesse. No parágrafo anterior, a pergunta é o que sustenta o sentido da sua vida frente a tantas dificuldades.
O que leva uma pessoa a pular de uma janela, então, não é o desespero, mas a perda do sentido da vida.
Imagine-se de encontro as labaredas, espremido entre a janela e o calor vermelho e laranja. Sem escape. Esse é um ponto em que tudo o que se acredita não faz mais sentido. Todas as crenças que compões, guiam e regem a vida se desfazem. Diz a lenda, que Walter Benjamin pôde ouvir, enquanto estava trancado em sua sela, o fuzilamento dos demais refugiados.
O fogo fechou todas as saídas, menos a janela. Não há mais sentido em tudo o que se fez, em tudo o que se viveu. Certo?
Para a maior parte de nós, não. Mas, para alguns, sim. E a ruptura desse tecido de sentidos que compõe a vida cotidiana pode ser absolutamente desastroso. O fim de um emprego imbuído de sonhos, a morte de um filho, o fim de um casamento há muito sonhado vem para muitos, acompanhado de um desfazer de uma teia de sentidos e significado que compunham a vida e que agora se desfazem. Tirando o vínculo, a perspectiva e a capacidade de se relacionar com a própria existência acaba.
Pense nas pequenas experiências do cotidiano: tomar banho, cozinhar, sentir o rumor da água na mão quando lavamos embaixo da torneira. Pense na sensação do creme hidratante sobre a pele da mão, imagine essa sensação perdendo seu sentido. Mais, imagine o vínculo com as pessoas amadas, com filhos, pais, irmãos, perdendo seu significado frente a vida. Isso está além do desespero.
O amor pelas pessoas ao redor não acaba, mas se torna um fardo, porque ele perde o sentido e ganha um significado muito mais próximo de um castigo ou fardo do que de uma experiência amorosa propriamente dita. Os vínculos de amor se tornam pontos de culpa, remorso e vergonha. A caminhada para a janela, faz o amor se transformar em um fardo porque ele dificulta o pulo.
Muitas vezes, na depressão, na ansiedade, ou na psicose, o pensamento negativo ou delirante também descontrói essa teia. Jogando o sujeito num mar vazio de sentido e significados.
Em ambas as situações: no rompimento brutal de uma perda severa, ou no desconstruir gradativo da depressão, a perda do sentido da vida está muito além do desespero. O desespero já ficou há muito tempo para trás. O desespero, a dor, o desamparo, só são possíveis de existir quando ainda há um sentido para a vida, muitas vezes tão forte, que permita se reconhecer o tamanho da perda e, portanto, da dor. Quando o sentido se esvai, sobra só o nada.
Inimaginável, né?
E o nada deve ser foda. Foi lá que outros filósofos chegaram em suas carreiras de pensadores. Alguns deles não aguentaram se fizerem partir.
Foucault, um filósofo da segunda metade do século XX, colocava o suicídio mais ou menos como um ponto de fuga. Como se fosse a última instância entre a fuga-e-luta. Como se fosse, ainda, uma força de combate e não como uma desistência propriamente dita. Um último exercício de poder sobre si. Um exercício extremo de liberdade sobre si.
Não sei muito bem entender essa leitura do Foucault, nem quero muito! Eu não concordo com isso. Acho que sempre temos espaço para mais batalha, para mais persistência, mesmo que não estejamos vendo mais sentido na luta pela vida. Tenho barreiras pessoais do tipo: “lutar até o fim”, ou “nunca desistir” (coisas que ouvi muito da minha avó).
Mas, ele analisou isso a partir de um ponto de vista meio arqueológico-histórico e, levando em conta outros modelos de cultura e pensamento. Daí, nessa visão nua e crua, suicídio, como o sexo, nem sempre foram um tabu. Tendo, em alguns lugares e tempos, sido visto como algo que faz parte do processo do viver e do morrer. Hoje não é mais assim, essa não é a nossa regra cultural. Morrer não é legal, principalmente tirar a própria vida.
Para o suicida, pedir ajuda, principalmente quando tudo parece ter perdido o sentido, é muito difícil, praticamente impossível. A voz não sai. Assim, a ajuda deve vir sem que o pedido esteja presente. A mão que se estende para ajudar, precisa deixar de ser passiva e precisa agarrar pelo colarinho daquele que sofre. Abraçar com força, até que a última gota de lágrima tenha escorrido de traz do vazio. Mas, se isso não for possível, entender que a culpa não foi sua, mas do vazio, é fundamental para que os outros possam continuar as suas vidas sem o peso da culpa.
Pode ser uma leitura preconceituosa da minha parte, mas acho que a intervenção é necessária, obrigatória. Não acredito no direito à morte. Sei, e já vi muitas vezes, que o vazio e a falta de sentido, assim como a dor e o medo, também passam. O sentido retorna com o tempo e uma boa ajuda.
O suicídio é o ponto de ruptura do sentido da vida após toda a luta. E Frankel, dizia que podemos (re)encontrar o sentido para a vida de três formas:
1 – Já tendo sabido esse sentido da vida, e reencontrar com ele, voltar a acreditar nele,
2 – Descobrindo ao longo da jornada da vida qual é o novo sentido dela, quando o anterior se desfez;
3 – Nunca encontrar pessoalmente o sentido da vida.
Mas, nesse terceiro caso, o que Frankel diz, é que o sentido da vida está lá, mesmo que você nunca tenha visto ou encontrado, o sentido da sua vida está lá e, com certeza as pessoas ao seu redor enxergam esse sentido na sua vida. Bastaria, então, que você passasse a acreditar nelas, no que elas te dizem sobre o seu papel na vida delas.
Retomar o sentido da vida, passa por um recontrato com a vida. Inicialmente, formal: “só por hoje, viverei mais um dia”. E, com esse tempo contratado, ir passo a passo reencontrando o sentido das pequenas coisas da vida (fazer a unha, tomar banho, cozinhar). Depois, devagar, quando for possível, resgatar os grandes vínculos, como os de amor.
A vontade de morrer e a ideação (mentalização) do suicídio são assuntos frequentes no consultório de psicologia. Vi muitas histórias de dor e morte. Morrer não é uma solução. Apenas uma vez, em 18 anos, a morte e o gás do fogão venceram. Todas as outras se tornaram histórias fantásticas, lindas. Histórias que remontam ao mito do herói que, derrotado, se reinventa mais forte e capaz.
Me lembro de muitas: “o sujeito que virou professor de elefantes”, “a moça que se reinventou nos grupos de A.A.”, “a moça que mudou-se para São Paulo, virou executiva e assumiu um viúvo e sua família para si”, “a moça que passou a lutar pelo direito dos animais”, “o cara que faliu a empresa, e reencontrou com a família e a religião”.
O sentido da vida vem. Ele retorna, mesmo depois de ter partido, mesmo que tenha sido pisoteado, a vida o reinventa. Como a flor que nasce entre o concreto da calçada, a vida nos leva até a luz, mas o vazio machuca e é preciso agir rápido.