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Ela estudou engenharia em uma universidade de elite e se tornou funcionária do Estado francês. Porém ao contrário de segurança, essa franco-suíça preferiu emigrar ao Brasil, onde tornou ativista política. Ao votar pela primeira vez na Suíça, Florence Poznanski descobriu as vantagens da democracia direta. Hoje tenta mudar o mundo.
Descobrir Florence Poznanski não é difícil. Uma simples busca no motor de busca Google já revela dezenas de fotos e vídeos dessa franco-suíça de 34 anos, que vive no Brasil há pouco mais de oito anos. Cabelos longos, um sorriso aberto no rosto, olhos vivos e esbelta: em grande parte nas imagens, ela aparece segurando um microfone, discutindo com autoridades políticas, falando para o público, dando entrevistas ou participando de alguma manifestação. Não é difícil perceber que seu mundo é a política.
Nascida em 23 de janeiro de 1985 em Paris, as origens de Florence são um reflexo da Europa. O pai é francês, de origem polonesa. A mãe é suíça, originária de uma família italiana que imigrou da região do Veneto nos início do século 20 para Altdorf, capital do cantão do Uri. Os dois se conheceram nos anos 1980 em Paris e sua mãe, professora de francês, se mudou para capital francesa e tornou-se professora de alemão. "Minha mãe sempre brincava que vinha das montanhas "primitivas". Viu pela primeira vez, aos dezoito anos, um casal se beijando em um filme de Walt Disney", lembra-se a franco-suíça.
Quando criança, Florence dividia suas férias entre a Suíça e a Itália. Porém se lembra dos passeios na capital do cantão de Uri, onde a gigantesca estatua de Guilherme Tell com seu filho é uma das principais atrações turísticas. Com os avos suíços falava italiano. "Acho que, por isso, me identificava mais com a Itália do que com a Suíça. Não dominava o dialeto alemão falado nessa parte do país". Porém a Suíça alcançava a família em Paris através de típicas instituições helvéticas. "Minha mãe recebia pelo correio cassetes da Radio Suíça Internacional (RSI, predecessora da swissinfo.ch) com notícias e reportagens da sua terra natal e também assinava o jornal Tages-Anzeiger", recorda-se Florance.
Voto chega por correspondência
Ele começou a se sentir mais suíça também através da política. "Minha mãe e meu pai costumavam discutir em casa sobre os resultados dos referendos na Suíça, achando, por vezes, que as pessoas em Uri tinham votado errado", brinca, lembrando que se trata de um cantão conservador. Ao completar 18 anos, Florence recebeu pela primeira vez na casa, em Paris, o famoso envelope com um selo da Suíça.
Trata-se de uma correspondência que chega quatro vezes por ano nas caixas postais de todos os eleitores suíços, no país ou no exterior. O envelope contém cédulas de voto e os livretos explicativos dos plebiscitos e referendos. Para ela não foi apenas o sentimento de estar sendo lembrada como membro de uma comunidade. "Foi nesse momento que percebi: um suíço tem mais poder de decidir as coisas na política do que um francês", lembra sem esconder um certo orgulho.
Hoje, apesar de viver no Brasil, Florence sempre tenta não perder nenhum plebiscito na Suíça. "Há temas muito importantes até mesmo fora da Suíça como, por exemplo a iniciativa '1:12 - Por salários justos'". A proposta levada à plebiscito em 2013 tratava de uma questão universal: a diferença salarial entre patrões e empregados. Todavia, terminou sendo rejeitada nas urnas.
Orçamento participativo no Brasil
Ao concluir o ensino médio, Florence passou no concurso da Escola Nacional de Trabalhos Públicos do Estado (ENTPELink externo, na sigla em francês), onde estudou engenharia civil e se tornou funcionária pública. Em 2006 viajou pela primeira vez ao Brasil para fazer um estágio na área de urbanismo, mas acabou pesquisando orçamento participativo, o que lhe despertou o interesse pela política. "Nunca fui muito militante, apesar do meu pai ter sido membro do Partido Comunista", lembra-se a franco-suíça.
Em Recife conheceu um jovem brasileiro, com quem enamorou-se. Porém teve de retornar à França para cumprir suas obrigações de funcionária pública e trabalhou três anos na área de moradia social, e reabilitação de periferias, até retornar à universidade. "Pedi licença do trabalho para fazer um mestrado em ciência política na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESSLink externo)".
Seu projeto de pesquisa era orçamento participativo, o que permitiu retornar várias vezes ao Brasil a partir de 2011, até se instalar definitivamente no país, em 2014. Escolheu a cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, onde vivia o companheiro. O interesse pela política aumentou. "Entrevistava muitas pessoas para entender o que significava para elas participar no processo decisório democrático de determinar como o dinheiro público deve ser gasto", resume Florence. Como imigrante se sentia bem, lembrando uma piada caseira. "A cada geração, as mulheres na nossa família emigram."
Povo com sorriso no rosto
No Brasil o que mais lhe atraiu foi o povo. "Quando vi como as pessoas sorriam para mim, achava que nunca havia sorrido daquele jeito", lembra. Porém sabia que a vida não era fácil para a maioria delas. A vontade de participar nos debates aumentou. Ao concluir o mestrado, decidiu que uma forma seria focalizar em um problema especifico no Brasil. "Eu entendi que, além de estudar as melhores formas de processos participativos, importava mais ainda o acesso à informação. Você só pode participar politicamente e formar uma opinião se tiver uma visão critica em relação à informação."
Em 2014, Florence abriu no Brasil o escritório da "Internet sem FronteirasLink externo", uma ong fundada sete anos antes na França por um grupo de militantes da sociedade civil, com o objetivo de defender "liberdades e direitos numéricos e lutar contra todas as formas de censura nas redes. Nesse trabalho, participa de congressos, debates e outros encontros da sociedade civil, assim como também organiza programas educacionais como o "#MídiaNascola", que tem por fim criar uma rede de formação de professores para ensinar comunicação nas escolas, capacitando os alunos a desenvolver leitura crítica e produzir conteúdo para rádio, jornal ou internet.
Apesar de não poder votar no Brasil, Florence se envolveu também na política local. Em sua opinião, o país viveu um retrocesso com a eleição de Jair Bolsonaro. "Em minha opinião é um governo que prevê mais repressão e menos Estado, mais concorrência e menos participação social", critica a franco-suíça, para quem a vitória da direita deve-se a um conluio de forças que une grupos midiáticos privados, bancos, grandes proprietários de terra e igrejas evangélicas.
Seu interesse pela política também se estende ao país de origem da mãe. "A Suíça é de alguma forma um país muito contraditório. Por um lado, oferece uma qualidade de vida elevada para os suíços através do seu sistema de bem-estar; por outro, tem bancos e multinacionais que causam também danos em todo o mundo", reflete Florence. A jovem ativista considera que a democracia direta - e o espirito de "consenso dos suíços" - serviriam para ajudar a melhorar a política em sociedades polarizadas como Brasil e a França.
Questionada sobre o futuro, Florence afirma que pretende continuar no Brasil, onde tem amigos e um trabalho voltado à sociedade. Mas paradoxalmente se sente mais próxima da Suíça. "O fato de morar no Brasil me faz ser ainda mais internacionalista: aqui conheci gente com histórias de vida bem semelhantes à minha, a de um povo de imigrantes."
Um olhar suíço sobre as eleições federais em seis países!
Antes das eleições federais na Suíça, previstas para ocorrer em 20 de outubro de 2019, swissinfo.ch encontra suíços do estrangeiro em seis diferentes países.
O objetivo é saber o que pensam os membros da chamada "Quinta Suíça", que corresponde a 11% da população do país ou 760.200 pessoas.
Os jornalistas da swissinfo.ch visitam associações e clubes suíços na Alemanha, França, Itália, Brasil, Argentina e Estados Unidos e escrevem reportagens e perfis de seus membros, além de organizar uma mesa-redonda para discutir temas de política e sociedade.
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