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Quando o escritor austríaco Stefan Zweig se refugiou no Brasil em 1941, fugindo do nazismo e da guerra, ele acreditava ter encontrado a terra do futuro. Um ano depois se suicidava. Exílio é o principal tema de "Vor der Morgenröte", filme da diretora alemã Maria Schrader, apresentado ontem (09.08) no Festival de Locarno.
Não é difícil imaginar a excitação do momento. Rio de Janeiro, agosto de 1936. Hitler já governava com mão-de-ferro a Alemanha há três anos. O austríaco Stefan Zweig, judeu por nascimento, era na época o mais lido escritor do espaço germanófono juntamente com Thomas Mann. Há dois anos ele vivia no exílio depois que sua casa havia sido invadida por policiais. Desde então, vagava pelo mundo como um apátrida.
Para recebê-lo no exclusivo Jockey Club do Rio de Janeiro, a nata da sociedade carioca estava presente, inclusive o ministro brasileiro do Exterior, Macedo Soarez. Na noite anterior, mais de duas mil pessoas estavam presentes para escutar a leitura dos seus livros. Os garçons decoraram a mesa para o banquete com um enorme arranjo de flores tropicais. A câmara foca nas suas cores e exotismo. Assim começa o filme "Vor der Morgenröte" (n.r.: Antes do Amanhecer), da diretora alemã diretora alemã Maria Schrader apresentado ontem no cinema a céu aberto do Festival de Locarno.
Biografia
Maria Schrader nasceu em 27 de setembro de 1965 em Hannover, Alemanha.
Em 1983 iniciou uma formação de atriz de teatro em Viena, Áustria, mas abandonou dois anos depois. Antes de começar os estudos já fazia parte do elenco efetivo do Teatro Municipal de Hannover.
Seu primeiro papel no cinema foi na comédia "RobbyKallePaul" (1989), do diretor Dani Levy, com quem participou posteriormente em mais uma dezena de filmes em vários papéis.
Depois de co-dirigir o filme "Meschugge" (1998) com o diretor Dani Levy, Schrader estreou como autora ao dirigir o filme "Liebesleben" (2005), baseado na obra da escritora Zeruya Shalev. O segundo filme (2016), baseado na biografia do escritor austríaco Stefan Zweig - "Vor der Morgenröte" - foi apresentado no Festival Internacional de Cinema de Locarno.
Maria Schrader tem uma filha e vive em Berlim.Aqui termina o infobox
"Era Stefan Zweig chegando no Brasil e sendo apresentado a esse esplendor exótico de flores, ou seja, o Brasil se apresenta à mesa", explica Schrader à swissinfo.ch. A impressão deve ter sido forte para o escritor austríaco, pois o país ao sul do equador não apenas estava distante das guerras, mas também apresentava uma história única de colonização. Uma população amalgamada em um arco-íris de raças, que conviviam aparentemente em paz. Um alivio para um judeu em tempos onde o holocausto já despontava no horizonte.
Covardia ou pacifismo?
Corte de cena. Buenos Aires, setembro de 1936. Stefan Zweig participa de um congresso de escritores. Mais de 80 vieram de todas as partes do mundo. Ele era a grande celebridade. O jornalista Joseph Brainin, também austríaco e judeu, exige de Zweig uma declaração de oposição à ditadura de Hitler para imprimir na sua publicação. Ele se recusa, justificando por uma posição radicalmente pacífica. "Nunca vou discursar contra a Alemanha. Contra nenhum país", disse. Em sua opinião, somente a sua obra é capaz de resistir e um intelectual deve sempre defender sua independência.
Entre idas e vindas à Nova Iorque, onde seu editor tenta convencê-lo a aceitar o exílio nos Estados Unidos, Stefan Zweig parece estar convencido que o Brasil é realmente o melhor lugar para viver. A motivação é tanta, que o escritor faz uma viagem de pesquisa à Bahia, onde busca elementos para o seu livro "Brasil, o país do futuro". O calor, as plantações de cana, os encontros com a população e até o coreto municipal tentando executar a valsa Danúbio Azul para homenagear a chegada do escritor no vilarejo, fazem os elementos principais dessas cenas no filme.
Para a diretora Maria Schrader, um dos pontos marcantes. "’E quando a mulher de Zweig, Lotte, conversa com um camponês brasileiro e explica para ele que a Europa se encontra em guerra e que não pode mais viver na Alemanha, pois é judia". E faz o paralelo com a atualidade. "O rosto desse camponês mostra o mesmo espanto que vemos hoje nas pessoas quando escutam sobre a guerra na Síria e a chegada de milhares de refugiados à Europa."
Superfície de projeções
As cenas tropicais do filme não foram rodadas no Brasil. A própria diretora admite que não tinha suficiente recursos financeiros, uma restrição que procurou compensar através da criatividade. "A metade do filme foi realizada em São Tomé e Príncipe, uma antiga colônia portuguesa. Uma firma portuguesa nos ajudou a executar o filme. Nós encontramos atores portugueses com experiência no Brasil e tínhamos brasileiros na equipe. E, finalmente, graças ao Street View do Google, foi possível conhecer a casa de Stefan Zweig em Petrópolis. Um amigo meu ainda esteve por lá e fez diversas fotos da casa", justificou.
Porém o fato de não ter ido ao país onde o escritor passou seus últimos anos de vida não foi um problema, a seu ver. "São Tomé e Príncipe foi perfeito, pois foi onde conseguimos encontrar a arquitetura europeia e a vegetação em situações ideais para rodar as cenas históricas. Já a casa onde Stefan Zweig viveu em Petrópolis está cercada hoje por construções modernas, em um desenvolvimento que atingiu o Brasil, mas não chegou ainda à essa ilha africana", lembra Maria Schrader.
De fato, o Brasil é apenas um coadjuvante no filme. "Embora não tenha uma estrutura clássica, eu acho que o foco do filme está no relacionamento de Stefan Zweig com a Europa. Sua primeira visita ao Brasil em 1936, fez do país uma espécie de amante substituta para ele. Assim o Brasil se tornou assim uma superfície para suas projeções, que não vinham obviamente não apenas da sua fantasia", decifra Maria Schrader.
Brasil ditatorial
Ao chegar em Petrópolis em 1914, Stefan Zweig já era um intelectual isolado. O livro "Die Welt von Gestern" (O Mundo de Ontem) já havia sido publicado e "Brasil, país do futuro" traduzido em cinco idiomas. Porém a recepção foi negativa. O governo brasileiro de Getúlio Vargas, no chamado Estado Novo, era uma ditadura feroz e perseguia opositores como outros países fascistas. A esquerda considerava a obra de Zweig covarde. Já os simpatizantes do Estado sentiam falta de brilho e agradecimento.
Porém Zweig tinha uma outra interpretação, considera a cineasta. "Se você imaginar de onde ele vinha, o fato de encontrar até ministros negros no gabinete de Getúlio Vargas e ver essa miscigenação única de raças nas suas ruas, então a sociedade brasileira parecia para ele está anos luz na frente da Europa. Ao se despedir depois da estadia de dez dias, ele chegou mesmo a se despedir com as palavras: 'Eu serei um negociador do Brasil no exterior.'"
O livro "Brasil, país do futuroLink externo" foi pano de fundo de fortes debates entre os autores. "Eu e meu co-roteirista sempre discutíamos sobre o quanto teríamos que nos concentrar na história do livro, que seguramente isolou Stefan Zweig na sociedade do Rio de Janeiro, entre todos aqueles exilados e intelectuais de esquerda para o qual ele teria se tornado uma espécie de símbolo, mas que acabaram por se distanciando dele", diz Schrader. Porém ela decidiu excluí-lo. "Decidimos não nos centrar demais no livro, pois não acreditávamos que essa grande contradição em que viveu Stefan Zweig nesse momento, foi decisiva para a decisão dele de se suicidar. Isso teria sido para nós uma causalidade excessiva."
O suicídio em Petrópolis
"Vor der Morgenröte" é dividido em seis capítulos soltos. A última parte começa em novembro de 1941. Stefan Zweig é encontrado por um amigo de Berlim enquanto passeava nos campos verdes de Petrópolis. Ele tem aniversário. Completa sessenta anos. Outros amigos no exílio se juntam à esposa para comemorar. O seu presente é um pequeno cão, para o qual o escritor parece mostrar uma grande afeição. Aos presentes, ele diz que não pode reclamar das condições. Está protegido. Porém diz: "Como é possível suportar uma situação como essa", lembrando as notícias da guerra que havia lido em um jornal americano.
O suicídio. Os rostos pálidos do casal deitado na cama são refletidos pelo espelho do quarto. Policiais averiguam o local e procuram pistas. Do outro lado, o espanto e tristeza da empregada e dos amigos que começam a chegar, ao receber a triste notícia. Stefan Zweig deixou uma carta de despedida, mas não cita nela sua esposa Lotte. Nela ele escreve: "Saúdo todos meus amigos. Espero que vocês ainda consigam ver o amanhecer (Morgenröte) depois da longa noite. Eu, impaciente, vou na frente de vocês...". Para o escritor, o suicídio era uma "saída" pessoal da catástrofe político-humanitária que se abatia sobre o continente europeu.
Stefan Zweig (1881-1942)
Nascido em uma família judia rica, viveu a efervescência cultural de Viena no começo do século XX. Amigo de grandes intelectuais e artistas, desde a Primeira Guerra Mundial se tornou pacifista. Com a ascensão do III Reich e a perseguição aos judeus, auto exilou-se, distanciando-se de seu país natal cada vez mais, à medida que a Segunda Guerra tinha início e se alastrava. Refugiou-se no Brasil em 1941, mais especificamente em Petrópolis (RJ), onde suicidou-se com a mulher no ano seguinte. É autor de romances, poemas, peças de teatro, ensaios e biografias. Além de Maria Antonieta, a Zahar publicará ainda O mundo insone: uma coletânea de ensaios, e Novelas femininas. (Fonte: Editora ZaharLink externo)
No Brasil, a "Casa Stefan ZweigLink externo" mantém um museu e um site com informações sobre o escritor.