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Enquanto mísseis russos atingem a Ucrânia e o mundo se preocupa com a escalada da guerra além de suas fronteiras, nações europeias com um histórico de não envolvimento militar estão examinando se chegou a hora de abandonar sua neutralidade de longa data.Este conteúdo foi publicado em 11. abril 2022 - 15:00
Seis países da Europa adotaram a postura, embora em graus variados. A Finlândia e a Suécia foram neutras durante a Guerra Fria, mas estão inclinadas a aderir à OTAN. Já o princípio da neutralidade está inscrito nas constituições da Áustria e de Malta; enquanto Irlanda e Suíça fizeram dele uma pedra angular da política externa.
Mas pesquisas recentes sugerem que a agressão da Rússia está acelerando uma mudança na opinião pública em algumas das nações.
Pesquisas feitas logo após a invasão de fevereiro descobriram que, pela primeira vez, a maioria dos finlandeses e suecos era a favor de seus países aderirem à OTAN.
Muitos na Irlanda ainda se opõem à adesão do país à aliança ocidental, mas uma pesquisa publicada no final do mês passado descobriu que 48% agora são a favor da adesão e 46% votariam “sim” em qualquer referendo sobre se as tropas irlandesas deveriam servir em um futuro exército da UE.
Em outra pesquisa em fevereiro, quase metade dos entrevistados disse que o conceito de neutralidade de oito décadas estava desatualizado.
No entanto, os líderes políticos estão agindo com cautela ao lidar com a repulsa generalizada pela invasão da Rússia, preocupações de segurança e, em alguns casos, com a oposição política feroz à alteração de políticas de longa data.
Equilíbrio suíço
Malta – onde duas em cada três pessoas apoiam fortemente a neutralidade, de acordo com uma pesquisa publicada duas semanas antes da invasão russa – Suíça e Áustria não estão com mudanças políticas no horizonte. Mas Berna está em sintonia com os países da UE na aplicação de sanções à Rússia. E a Áustria e a Irlanda expressaram vontade de se juntar a uma força de reação rápida proposta por membros da UE que interviria em crises internacionais.
Simon Coveney, ministro das Relações Exteriores e da Defesa da Irlanda, pediu uma “reavaliação fundamental” da postura de segurança do país. Mas “não acredito que a Irlanda vá aderir à OTAN tão cedo”, disse ele em um recente seminário no Instituto de Assuntos Internacionais e Europeus em Dublin.
No entanto, a Irlanda, que está envolvida em missões de paz da ONU e está fornecendo à Ucrânia ajuda não letal, como coletes à prova de balas e combustível, “não é ética, moral ou politicamente neutra”, disse ele.
A Suíça está trilhando uma linha igualmente tênue. O país, conhecido por seu sigilo bancário, é um dos principais centros globais de riqueza russa.
Berna está aplicando as sanções da UE contra Moscou, apesar de não ser membro da OTAN nem da UE. Contas vinculadas a 223 russos já foram congeladas.
Mas o governo enfrentou fortes críticas do maior partido político do país, o populista e de direita Partido Popular. Um dos agentes de poder mais influentes do partido, o bilionário e parlamentar Christoph Blocher, disse ao jornal NZZ que a Suíça “tornou-se parte da guerra” ao decretar sanções contra a Rússia. “Quanto pior as coisas ficam no mundo, mais importante é a neutralidade”, disse ele.
O presidente federal Ignazio Cassis disse em entrevista coletiva em fevereiro que “absolutamente não” é o caso de seu país estar abandonando sua neutralidade histórica, insistindo que a política “permite um amplo escopo de ação para poder responder aos desenvolvimentos internacionais”.
Na Áustria, atípica entre as nações europeias em manter relações amistosas com a Rússia desde a década de 1950, o princípio da “neutralidade permanente” faz parte de sua constituição desde 1955, quando foi condicionada à independência do país da ocupação aliada após a Segunda Guerra Mundial.
Mas sua invasão na Ucrânia provocou uma onda de críticas. No final do mês passado, o terceiro maior partido político da Áustria, o populista Partido da Liberdade (FPO), que tem laços de longa data com o regime do presidente russo Vladimir Putin, pediu um "plano de cinco pontos" para "restaurar" a neutralidade austríaca, incluindo o abandono das sanções da UE contra a Rússia.
Os sociais-democratas, o maior partido de oposição do país, também se equivocaram sobre a Ucrânia. Em uma votação no mês passado, o partido se juntou ao FPO para se opor a permitir que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky discursasse no parlamento, argumentando que isso violaria a neutralidade austríaca, embora tenha mudado de rumo após uma reação dos apoiadores do partido.
Urgência
A geografia deu à Suécia e à Finlândia um maior senso de urgência. Ambos os países realizam regularmente exercícios militares com a OTAN e consideram que sua neutralidade terminou quando ingressaram na UE em 1995. Eles vêem o artigo 42.7 do tratado da UE, a cláusula de defesa mútua do bloco, como uma forma mais fraca do artigo 5 da OTAN, que afirma que um ataque a um Estado-Membro é um ataque a todos.
A Rússia ameaçou “sérias consequências militares e políticas” se um dos dois se juntar à aliança ocidental. Ambos estão revisando sua posição e podem tentar se candidatar à adesão este ano.
Sauli Niinisto, presidente da Finlândia, disse: “Apontamos que não somos neutros, somos militarmente não alinhados… neutralidade é uma expressão antiga e não se encaixa mais na Finlândia, por causa de nossa adesão à [UE] e nossa parceria reforçada com a OTAN.”
Um diplomata da UE na região disse: “[A Finlândia] já é 80% membro da OTAN. Mas atingir os 20% que faltam será difícil.”
No entanto, o fato de que mesmo países distantes da linha de frente da Ucrânia estão reavaliando suas políticas de defesa demonstra até que ponto o clima na Europa mudou.
A Irlanda certa vez confundiu os observadores internacionais com sua postura de segurança. Noel Dorr, um ex-funcionário público do Ministério das Relações Exteriores da Irlanda, lembrou o ex-chanceler soviético Andrei Gromyko reclamando: “Eu não entendo a Irlanda. Você não está alinhado e não está alinhado com os não alinhados.”
Isso agora parece estar mudando. Dorr disse: “Acho que o debate foi lançado”.
Adaptação: Clarissa Levy
(Edição: Fernando Hirschy)
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