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Suíça é criticada pela China, mas não muito
A China aumentou o tom das críticas depois da decisão do governo suíço de acolher dois detentos uigures de Guantânamo.
Isso vai prejudicar as relações bilaterais, declarou o Ministério chinês das Relações Exteriores. Mas Pequim não explica que tipo de sanções poderia tomar.
Será que o embaixador suíço na China, Blaise Godet, levou um puxão de orelhas quando visitou o Ministério chinês das Relações Exteriores quinta-feira (04/02)? Mistério, só foi publicada uma curta declaração fatual.
"O embaixador da Suíça na China pediu esta manhã um encontro ao Ministério chinês das Relações Exteriores a fim de explicar a decisão suíça referente a dois uigures detidos em Guantânamo. O conversa ocorreu por volta do meio-dia. As autoridades chinesas tomaram conhecimento da posição suíça, comunicaram ao embaixador seu descontentamento e protestaram contra a decisão tomada ontem em Berna."
No mesmo dia, Ma Zhaoxu, porta-voz do Ministério chinês das Relações Exteriores, falou do caso diante da imprensa: "Não há dúvida de que a decisão suíça afetará as relações entre a China e Suíça", explicou.
E acrescentou: "Esses suspeitos uigures eram membros da organização do Movimento Islâmico do Turcomenistão oriental, um grupo considerado terrorista pelas Nações Unidas. Todo país deve honrar seus compromissos internacionais. Como membro da ONU, a Suíça também deve respeitá-los", acrescentou o porta-voz.
Acordo de livre-comércio em perigo?
Então, o que vai acontecer? A Suíça será alvo de sanções chinesas? As negociações em curso para um acordo de livre-comércio estão comprometidas?
"Com relação às consequências desse caso para as relações bilaterais e o acordo de livre-comércio, vale lembrar que exprimimos nossa posição nas discussões preparatórias", disse Ma Zhaoxu.
Em abril do ano passado, um grupo de homens de negócios e de diplomatas chineses e suíços se reuniram em Pequim para lançar um estudo de viabilidade para um acordo de livre-comércio. Naquela ocasião, Pequim havia advertido a Suíça de que acolher os dois detentos uigures poderia prejudicar as relações bilaterais.
Prejudicar como? A China evita a questão. Quanto a saber se o acolho dos dois uigures poderia não afetar em nada o acordo de livre-comércio, o porta-voz responde: "Sim, podemos dizer isso". Talvez
Ma Zhaoxu tenha entendido mal a pergunta.
Viagem de Doris Leuthard anulada
Também pode ser que o porta-voz exprima a realidade, como sugere um velho conhecedor da China, correspondente de uma grande revista alemã: "Os chineses têm atualmente tanta crítica na imprensa que evitam abrir novas brechas. Eles procuram acalmar o jogo."
Ou será que as sanções já começam a ser aplicadas? A ministra da Economia, Doris Leuthard, que também ocupa este ano a presidência rotativa da Suíça, havia anunciado há bastante tempo uma viagem à China no início de fevereiro. "Ela anulou a viagem, oficialmente por uma questão de agenda, mas acho que ela não era bem-vinda por causa do caso dos uigures", acrescenta o jornalista alemão.
Se o descontentamento com a Suíça é bem real, ele parece pequeno comparado ao furação que atinge nas últimas semanas as relações da China com os Estados Unidos.
Inquetude dos suíços da China
Isso não impediu a comunidade suíça na China de manifestar uma certa inquietude, no momento em que ocorre a primeira reunião do grupo de trabalho bilateral que estuda a viabilidade do acordo de livre-comércio, em Pequim.
Os diplomatas e empresários suíços não querem falar abertamente, mas muitos deles estimam que o acolho dos dois uigures não facilita as coisas.
É a opinião de Uli Sigg, ex-embaixador da Suíça na China, que declarou ao jornal Tages Anzeiger que "não acredita em uma crise profunda, mas que os chineses vão exprimir seu mau humor".
Nicolas Musy, diretor do Swiss Center Shanghai, responde que sua "impressão pessoal é que esses dois uigures não farão uma grande diferença de imediato. Talvez no futuro, se eles forem ativos politicamente, criem problemas".
De qualquer maneira, a tradição humanitária da Suíça primou sobre as considerações econômicas e de política estrangeira, como explicou a ministra da Justiça, Eveline Widmer-Schlumpf.
Os dois irmãos uigures Bahtiyar e Arkin Mahnut – detidos em Guantânamo sem indiciamento nem julgamento – vão recomeçar a vida nas montanhas do Jura (oeste). Alguns murmuram, em Pequim, que se eles foram acolhidos é também porque, ao fazerem ameaças claras, os chineses prejudicaram sua própria causa. Se recusasse acolhê-los, a Suíça daria a impressão de se dobrar a Pequim.
Alain Arnaud, Pequim, swissinfo.ch
(Adaptação: Claudinê Gonçalves)
CONTEXTO
No caso do acolho dos dois irmãos uigures, a Suíça estava entre a cruz e a espada.
Berna havia denunciado o “escândalo de Guantânamo” e pedido a Barack Obama de fechar o mais rápido possível o centro de detenção da parte norte-americana de Cuba.
Se recusasse a acolher os dois uigures, desagradaria a Washington. Ao aceitá-los desagradou Pequim.
Como teve problemas com Washington no ano passado, principalmente por conta do UBS, isso certamente pesou na decisão de Berna.
Mas se existe um país onde a reputação da Suíça ainda não abalada, é justamente a China. A decisão de acolher os dois uigures no estado do Jura cria um precedente.
Inocentes que incomodam
Bahtiyar e Arkin Mahnut ainda estão em Guantânamo, onde chegaram por engano oito anos atrás.
Considerados “libertáveis” pelos norte-americanos em 2003, eles estão detidos em condições menos inumanas do que quando foram presos.
Presos no Afeganistão em 2002 quanto procurava seu irmão, Arkin o encontrou ao chegar à Guantânamo. Submetidos durante muito tempo ao isolamento total e a pressões muito duras, ele sofre atualmente de estresse pós-traumático.
Uma delegação suíça esteve no ano passado em Guantânamo para selecionar candidatos ao acolho e obter garantia da inocência deles.
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