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Durante a pandemia, alguns esquiadores têm feito exatamente isso. Mas será que essa ideia romântica corresponde à realidade?
Foi em maio – enquanto caminhava pelas florestas e cachoeiras de La Tièche, tendo como vista os picos nevados do Matterhorn e do Mont Blanc – que a treinadora fitness Jessica Z. Christensen decidiu passar mais tempo nas montanhas suíças.
Após passar uma década sendo nômade digital, a italiana e seu marido dinamarquês-alemão, Lars, criaram a empresa de esporte e coworking Mavericks, que fica na estação de esqui de Crans-Montana. “Nós nos sentimos tão sortudos de estarmos ali, num playground de aventura disponível o ano inteiro, e nos perguntamos: como podemos organizar nossa vida para que possamos fazer isso o tempo todo? Estávamos encontrando muitas pessoas do mundo inteiro que também amavam o estilo de vida ao ar livre e não queriam abrir mão disso”, diz ela.
Os frequentadores internacionais assíduos – entre eles um cientista sueco, um terapeuta holístico francês e um fundador tcheco de uma startup – não estão sozinhos na reavaliação de seus padrões de vida durante a pandemia. Retratadas como perigosas, poderosas e emocionantes, há muito tempo as montanhas têm despertado a imaginação das pessoas: desde os românticos como Shelley e Coleridge, com suas poesias em homenagem ao Mont Blanc, até o naturalista americano John Muir, que escreveu em 1873: “as montanhas têm chamado e eu devo ir (& irei trabalhar enquanto posso)”.
Voltamos ao inverno passado, quando, enfrentando o lockdown em Massachusetts, o escritor e psicólogo clínico Scott Haus descreveu seu anseio pelas grandiosas montanhas que ficam ao redor de sua segunda casa na Suíça: “Eu adoro a sensação de me soltar, de me render. A passividade que sinto quando estou nelas [nas montanhas], ironicamente, torna mais viável, para mim, criar e escrever coisas novas.”
No entanto, apesar dessa concepção romântica, como um cidadão urbano do século XXI se ajusta à imprevisibilidade e realidade da vida nas montanhas? Ter um lugar para ficar durante uma rápida escapada para os Alpes nos fins de semana é uma coisa, mas trabalhar e morar lá por longos períodos exige uma abordagem diferente. “Agora, as pessoas estão procurando uma segunda casa no sentido literal da palavra – é menos provável que ela seja no centro da agitação. Provavelmente será numa propriedade maior, nos arredores mais calmos da cidade”, diz Alex Koch de Gooreynd, da agência imobiliária Knight Frank.
Casas maiores
Isso significa que alguns donos estão aumentando o tamanho de suas casas nos Alpes para facilitar seu trabalho remoto. Uma irlandesa, que, junto à sua esposa, era proprietária de um apartamento de dois quartos na estação de esqui francesa Les Gets, preferiu se mudar para um chalé de cinco quartos, com dois escritórios para home office. A antiga cidade madeireira tem chalés tradicionais no estilo Savoyard, bem como novas propriedades construídas em estilo vernacular, com pedra e madeira.
“Por 18 meses, sentimos uma falta terrível de estar nas montanhas e poder esquiar”, diz a mulher de 45 anos, que trabalha na mídia e prefere não ser nomeada. “Percebi que era uma perda de tempo voar para Londres para uma reunião; e, se podemos trabalhar remotamente, por que não daqui? A banda larga é tão boa quanto em Londres e só de poder sair e olhar para a neve já será revigorante”.
Apenas uma vez, em 10 invernos, elas se depararam com a estrada para o vale bloqueada pela neve. Agora, elas estão equipadas com pneus de inverno iguais aos dos habitantes locais. Ela afirma que Les Gets tem uma atmosfera mais autêntica do que estações de esqui construídas especialmente para isso, como Flaine – a vila modernista dos anos 60 projetada pelo arquiteto Marcel Breuer, da Bauhaus, que os esquiadores ou amam ou odeiam. Como cidadã urbana, ela se sentiu atraída pelo estilo rústico dos chalés.
“Adoramos como a cidade é amigável, embora ela ainda não esteja preparada para que se viva nela o ano inteiro. O supermercado local fecha no outono e na primavera, quando a cidade está um pouco morta.” Com o tempo e o aumento da demanda fora de estação, isso pode mudar – como ocorreu em Méribel e Courchevel.
Outro indicador do aumento da residência pessoal é a diminuição do número de proprietários franceses que colocam seus imóveis para locação, diz Charles Antoine, da agência imobiliária Athena Advisers. Há um abatimento de 20% no IVA (imposto sobre o valor agregado) disponível para quem disponibilizar um imóvel novo para locação. Os próprios registros da agência mostram que o número de pessoas que utilizou o abatimento diminuiu de 57% na estação de inverno de 2018-19 para 28% em 2020-21.
Uma proprietária, do norte de Londres, espera alugar seu novo apartamento de dois quartos em Val d'Isère, mas também sonha em passar invernos inteiros no local quando não estiver trabalhando tanto. A estação (assim como a estação de Tignes) está a meio caminho da instalação da banda larga de fibra ótica, o que ajudará em qualquer trabalho remoto.
“Temos esquiado em família ano após ano, e eu sempre quis ter uma casa nas montanhas”, diz a engenheira, que prefere não ser nomeada. Com a mudança climática em mente, ela escolheu uma estação de alta altitude – se as pistas mais baixas perderem neve, ela ainda poderá esquiar. “Esse é um lugar para os meus filhos, e, posteriormente, para os seus filhos.” O problema é que agora ela está sujeita ao limite imposto aos cidadãos de fora da UE, que permite uma estadia de 90 dias num período de 180 dias. Por isso, para poder passar o inverno inteiro na França, ela precisará sair por um mês e depois voltar.
Efeitos do Brexit e outros limites
No entanto, a saída do Reino Unido da UE fez com que um proprietário britânico e sua esposa, que passaram 14 invernos administrando um chalé de esqui com oito quartos no vale do Mont Blanc, reconsiderassem sua permanência. Eles vinham desfrutando de uma vida dividida ao meio, passando metade do tempo em Londres e a outra metade na natureza gelada do Haute Savoie. Contudo, eles agora enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores britânicos sazonais. “Agora, não temos como administrá-lo como fazíamos antes sem nos mudar completamente para a França, o que não queremos fazer por razões fiscais”, afirma o proprietário. “Talvez tenhamos que vender o chalé e comprar uma casa de férias menor. Nós 'funcionamos' quando estamos longe das montanhas, mas só 'vivemos' verdadeiramente quando voltamos.”
Os proprietários de dentro e fora da UE precisarão manter suas estadias menores que 183 dias para evitar se tornarem residentes fiscais no local onde sua estação de esqui se encontra. Comprar uma propriedade não é tão fácil em estações de esqui suíças e austríacas, onde as segundas residências são rigorosamente regulamentadas. Nas estações de esqui suíças, o número de segundas residências está limitado a 20% do estoque habitacional de um município, e a grande demanda doméstica durante a pandemia fez com que os preços aumentassem.
Em Verbier, preferido por sua prática de esqui freeride, há poucas opções sobrando, diz Florian Steiger, da agência suíça Steiger & Cie. Entre os compradores que procuram residências maiores, estão pessoas que moram em Genebra e que desejam trocar sua residência principal pela sua casa de férias no Valais. O fato de que 96% da população suíça desfruta de uma cobertura 5G ajuda bastante. Verbier está mais acessível agora que o teleférico de Le Châble (junto à linha de trem para Genebra) fica aberto até as 23 horas.
O fácil acesso de trem de Genebra foi uma das razões pelas quais o gerente de ativos Dominick Barto, que mora no Texas, escolheu, em setembro, a estação vizinha a Nendaz para comprar um chalé de quatro quartos. Ele afirma que as quedas verticais de até 2.134 metros são duas vezes mais dramáticas do que as das estações de esqui do Colorado, as mais próximas de sua casa. “Eu adoro o fato de poder esquiar sem parar, e as vistas panorâmicas ao redor de Nendaz me lembram o Alasca”. Foi uma decisão baseada tanto na reavaliação de vida motivada pela pandemia quanto no investimento. “Não queríamos investir tudo nos EUA e o chalé pode até se tornar uma residência permanente. Meus filhos começam a escola em quatro anos – as opções suíças não são ruins”.
Educação
Em janeiro, a Copperfield International School, em Le Hameau (Verbier), foi inaugurada pelo ex-professor da Harrow e da Sevenoaks School, Hugh McCormick. Oferecendo um ensino em pequenos grupos, a escola é baseada no modelo estabelecido pelo professor em Londres, durante o ano de 2020, para auxiliar as crianças durante o período de lockdown. “Fomos contatados por várias famílias que gostariam de se estabelecer em Verbier, mas que desejam ter uma escola de alta qualidade que ofereça o IB [International Baccalaureate]”, diz ele. “Estamos chegando à capacidade máxima, com mais de 40 alunos, e esperamos oferecer a possibilidade de internato no próximo ano.”
As anuidades chegam a CHF 40.000 (US$ 43.000) para o último ano, mas McCormick não quer que a escola seja vista como de elite ou apenas um acampamento de inverno para cuidar das crianças. 10% dos alunos serão da área de Le Châble (onde vivem muitos trabalhadores locais) e receberão bolsas, e a maioria das famílias está comprometida a longo prazo.
Muitas delas também já possuem chalés, como Arne Zimmerman, nascido em Stuttgart. Já é o segundo inverno em que ele levará suas duas filhas à escola e administrará remotamente sua galeria de arte em Tribeca. “A pandemia foi o gatilho para que fugíssemos [de Nova York] para o nosso chalé”, diz ele. “Já esquiamos na América do Norte, mas as meninas adoraram a aventura de estar em Verbier. Estar aqui é um contraste refrescante com o ambiente competitivo de Nova York, todos são acolhedores e respeitosos. Tem sido o melhor momento que já tivemos enquanto família”.
As matrículas estão aumentando 35% a cada ano na Escola Internacional Le Régent, em Crans-Montana, que conta com uma nova colaboração com o Institut Le Rosey, o renomado internato. Dos 78 novos alunos que ingressaram em setembro, a maioria é da França, Reino Unido, Itália, Japão e México. No entanto, com a partida de algumas famílias asiáticas no início da pandemia, ainda há vagas para novos alunos. "A estação se tornou um lugar mais dinâmico para se viver, e o atraente regime fiscal do Valais também ajuda”, diz Mathieu Lafond-Puyo, diretor de admissão.
Do outro lado da fronteira
Nos Alpes franceses, novas formas de trabalho continuam atraindo as pessoas para os pequenos vilarejos, onde, diferente das grandes estações de esqui, a vida é mais constante durante o ano e o dinheiro rende mais.
“Houve uma verdadeira mudança em direção a locais onde os proprietários de segundas residências podem se inserir na comunidade local em vez de querer estar perto do teleférico de esqui”, diz Andrew Beale, da corretora imobiliária Free Spirit Alpine. “Recentemente, num pequeno vilarejo, um comprador quis uma lista de quem seriam seus vizinhos, porque pretende passar muito tempo lá".
Por sua vez, os habitantes locais – muitos dos quais estão envolvidos no setor do turismo das cidades – acolhem os recém-chegados que se interessam em se integrar na comunidade. Eles vendem os velhos edifícios agrícolas que não estão sendo utilizados para quem quiser renová-los. Beale afirma que, no vilarejo de Villarabout, as casas renovadas custam 10.000 euros (CHF 10.500) por metro quadrado, em contraste com os 14.500 euros da cidade vizinha de Saint-Martin-de-Belleville. Esses vilarejos clássicos estão sendo bastante procurados, com suas casas antigas em ardósia e seus interiores modernos.
Nas proximidades, está a pequena cidade de Les Allues, popular entre expatriados britânicos, para onde os esquiadores Robert e Charlotte Smith se mudaram em outubro de 2020, deixando para trás sua casa em Londres. A redundância de seu trabalho em TI possibilitou que Robert tentasse realizar o sonho de ser um instrutor de esqui. Seu plano não foi colocado em prática no inverno passado, mas seu treinamento começará ainda este ano.
“Sempre sonhamos em dividir nossa vida entre o Reino Unido e a Europa e nos perguntamos: qual o melhor lugar para construir uma boa vida?” diz Charlotte, editora freelancer de livros. O casal comprou uma casa de fazenda com cinco quartos, que fica próxima a um punhado de restaurantes, um local onde podem conseguir croissants frescos e em uma rota de ônibus grátis para o teleférico de esqui (Charlotte não dirige).
“Sentimos falta da diversidade dos restaurantes, da possibilidade de comer dim sum num dia e comida do Sri Lanka no outro, dos shows de música e das galerias, mas as desvantagens da vida londrina tinham começado a superar os benefícios. Estou olhando pela janela, para o céu azul acima das incríveis cores outonais do vale Bozel, em vez de olhar para um bloco de apartamentos no bairro de Bow”, diz ela. “Viemos para esquiar por algumas semanas, mas descobrimos que há muito mais para se fazer. Não somos os únicos que vieram para o inverno e ficaram para o verão.”
Copyright The Financial Times Limited 2021
Adaptação: Clarice Dominguez
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