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De cães de rua latindo a vendedores ambulantes e mendigos cantando, dois amigos suíços tentaram gravar a essência da cidade indiana de Calcutá (Kolkata). Suas paisagens sonoras e imagens podem agora ser vistas em uma exposição virtual através de um museu de Zurique.Este conteúdo foi publicado em 15. maio 2020 - 10:00
Thomas Kaiser tem um fraco por corvos indianos. Um terreno arborizado e vazio atrás de seu hotel preferido de Kolkata (antiga Calcutá) atraía esses pássaros cantadores durante todo o dia.
"Eu até buscava reservar um quarto no telhado para poder alimentá-los", diz ele.
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Os corvos de Calcutá, sempre presentes:
Os corvos, a cidade e seu povo fizeram Kaiser voltar ao mesmo bairro de Gariahat em Calcutá por um período de quase 15 anos (1994 a 2008) para gravar os sons da região. Para alguém que trabalha com rádio na Suíça, a densidade acústica nessa grande cidade do leste da Índia, antigas capital da colônia durante o domínio britânico, não se compara a qualquer outro lugar.
Vishnupada Das, cantor de música 'baul':
O tilintar dos sinos dos riquixás puxados à mão, a balada cheia de sentimento do cantor folclórico de música "baul" tentando ganhar algumas moedas, e os gritos ritmados dos vendedores ambulantes chamando a clientela na rua se somavam à rica paisagem sonora da cidade.
Camelôs na Chowringhee Road:
Mas apesar de seus milhões de habitantes, Calcutá não é uma cacofonia o tempo todo.
"Fiquei fascinado com a noite em Calcutá, pois é uma cidade enorme que se torna muito tranquila depois das 22h. Quase parecia um vilarejo do interior onde o único som era de cães vadios latindo", diz ele.
Cães de rua à meia-noite no velho templo de Kali:
A coleção de paisagens sonoras de Kolkata realizada por Kaiser está sendo exibida atualmente no Museu Etnográfico da Universidade de Zurique, onde ele supervisiona os arquivos de som. A exposição será sua última contribuição ao museu, pois ele completa 65 anos este ano e se aposentará em dezembro. As restrições da Covid-19 lhe deram um banho de água fria, mas uma exposição virtualLink externo pode potencialmente garantir que seu trabalho tenha um público muito maior.
Charanga (banda de metais) na Mahatma Gandhi Road:
"Esculturas sociais"
Quando estudava artes plásticas na universidade alemã de Düsseldorf, Kaiser foi influenciado pelo artista alemão Joseph Beuys, que desenvolveu o conceito de "esculturas sociais". Ele considerava a sociedade como o material maleável da arte.
"Ele dizia que a arte não se trata de pinturas e esculturas, mas também de interações entre as pessoas. Eu queria ver se esse conceito teria algum significado em um contexto não-ocidental", diz Kaiser.
Sara (habitante local) prepara seu jantar:
Ao ouvir os relatos de amigos sobre suas experiências em Calcutá, ele quis ir até lá.
"O que eles nos contaram foi bem diferente das histórias que se ouve normalmente, sobre pessoas pobres, favelas e Madre Teresa, que eram óbvias na época. Mas eles falavam de poetas, escritores, cineastas e artistas", conta ele.
Mendigo na Chowringhee Road tocando harmônio:
Kaiser convenceu o amigo fotógrafo Samuel Schütz a se juntar a ele em uma viagem para a metrópole indiana, que continuava em plena expansão. Schütz trouxe vários equipamentos fotográficos, incluindo material necessário para a revelação de filmes em seu quarto de hotel. Ele não sabia o que esperar. Após algumas experiências, ele se contentou com a opção mais rudimentar: uma simples caixa de sapatos que serviria como câmera obscura ou câmera "pinhole". A técnica fotográfica data do início do século XIX.
"Eu não queria andar com uma câmera como um turista clicando o que eu achava interessante", diz Schütz.
A câmera da caixa de sapatos tinha que ser colocada no chão ou em uma parede, o que significava que Schütz tinha que desistir da ideia de ter 100% de controle da imagem. Ele só podia escolher parcialmente sobre o que focar. A caixa só pode tirar uma foto por vez, depois troca-se o filme, e assim, não se podia ter pressa.
"Isso me permitiu coletar fotos ao invés de tirá-las", diz Schütz, que agora tem 57 anos.
Pedaços de som
Kaiser, por sua vez, utilizou o melhor equipamento possível para gravar áudio de alta qualidade. No entanto, como Schütz, ele adotou uma abordagem lenta para capturar a essência de Calcutá.
"A gravação de som requer paciência e você tem que revisitar as pessoas até que elas se abram e comecem a falar", diz ele. "Eu acho que essa maneira lenta foi ideal para o que nós estávamos tentando capturar".
Sadhu (homem santo) solitário se banhando no canal de Tolly:
Como arquivista de som, Kaiser naturalmente sente que o som é o seu próprio elemento. Ele lamenta que o som fique sendo em segundo plano nos museus (isso se eles se dão ao trabalho de manter um arquivo de sons). Kaiser cita a tribo Naga no nordeste da Índia, que usa trajes cerimoniais coloridos, como um exemplo de som que está sendo esquecido.
"Museus costumavam colecionar os adornos de cabeça e colares Naga, mas ignoravam o fato de que o núcleo de sua vida tradicional era a canção, que era usada para transferir conhecimento. Entrevistei alguns mestres cantores e eles me disseram que um jovem que não sabia cantar era considerado ignorante e nunca encontraria um cônjuge", diz ele.
Tambores da casta dos Doms perto do velho templo de Kali:
Portanto, não é surpresa que a última exposição de Kaiser tenha como tema central o som. O único objeto no espaço expositivo é uma efígie da deusa hindu Kali, emulando o templo de Kali no centro do bairro de Kalighat em Calcutá, onde Kaiser e Schütz trabalharam.
Segundo Kaiser, a paisagem sonora de sua parte favorita de Calcutá não mudou muito em 20 anos. Neste aspecto, é como Zurique, onde ele mora.
"Acusticamente Zurique não mudou muito nos últimos anos, mas muito nos últimos meses. Agora você ouve pássaros que não ouvia antes das restrições do coronavírus", diz ele de sua casa.
Sons matinais na (rua) Dover Lane, onde Kaiser e Schütz ficaram hospedados:
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