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Opositor Guaidó e o desafio de ser profeta na Venezuela
De volta à Venezuela após uma turnê internacional, Juan Guaidó quer ser um profeta em sua terra natal. Com o apoio renovado de seus aliados, o opositor tenta aumentar a pressão contra o presidente Nicolás Maduro, mas enfrenta desânimo popular com a crise econômica.
Ignorando a proibição de deixar o país, Guaidó visitou Colômbia, Europa, Canadá e Estados Unidos, onde se encontrou com líderes como o britânico Boris Johnson e o francês Emmanuel Macron e foi recebido por Donald Trump, que prometeu esmagar a "tirania" de Maduro.
Seu desafio agora é que esse apoio não se reduza a um álbum de fotos, mas que reacenda sua ofensiva.
Guaidó, cuja chefia do Parlamento não é reconhecida pelo governo de Maduro, pede uma "grande mobilização" contra o presidente, a quem acusa de ter sido reeleito de forma fraudulenta em 2018.
Enfrenta, no entanto, a apatia de opositores que experimentam uma "queda das expectativas", disse à AFP Benigno Alarcón, diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello.
Sua turnê será "efêmera, se não concretizar sua oferta de mudança", diz o presidente da Datanalisis, Luis Vicente León.
O líder de 36 anos não alcançou a prometida "cessação da usurpação", o primeiro passo em sua estratégia para um governo de transição.
Depois de atraírem milhares de pessoas no início de 2019, seus protestos não atraíram mais do que centenas de participantes nos últimos meses, e sua popularidade, de acordo com o Datanalisis, caiu de 63% para 38,9%.
"Nada vai acontecer. Seu próprio povo vai comê-lo vivo", previu o número dois do chavismo, Diosdado Cabello.
Desde 2014, a Venezuela atravessou várias ondas de protestos contra Maduro, que deixaram cerca de 200 mortos.
Nesta quarta-feira, houve uma primeira disputa. Estudantes universitários protestaram contra Maduro em Caracas e o mandatário mobilizou seus partidários em direção ao palácio presidencial.
- Mais sanções -
Após o encontro Trump-Guaidó, Washington sancionou a companhia aérea estatal Conviasa.
Ampliou, assim, uma bateria de punições que inclui um embargo de petróleo desde abril de 2019 e um bloqueio financeiro que impede a renegociação de uma dívida de cerca de 140 bilhões de dólares.
Em Bruxelas, Guaidó exortou a União Europeia a impedir a exportação de petróleo.
"Um esquema de sanções com maior coordenação internacional" está previsto, segundo Alarcón.
"Virão novas sanções (...) a todos que respaldarem a ditadura", anunciou Guaidó nesta quarta.
A recepção de Guaidó na Casa Branca e sua ovação durante o discurso sobre o Estado da União de Trump, no Congresso americano, fizeram ressurgir os pedidos de uma intervenção militar, evocada por Washington em várias ocasiões.
"Trump tem poucas opções", porém, diante do desinteresse da população americana por ações "belicosas" contra Maduro, diz Paul Angelo, especialista do Council on Foreign Relations, com sede em Nova York.
Alexander Main, do Centro de Pesquisa Econômica e Política, disse à AFP que a ação contra a Venezuela "está intimamente relacionada a uma estratégia eleitoral" em favor da conquista do voto latino na Flórida nas eleições presidenciais de novembro.
A Flórida é o lar de uma importante colônia de venezuelanos, dos 4,8 milhões que, segundo a ONU, emigraram desde o final de 2015, devido à crise em sua terra natal.
Maduro se declara pronto para retomar o diálogo com a oposição liderada por Guaidó, após frustradas negociações mediadas pela Noruega em 2019.
Apoiado pelas Forças Armadas, assim como por Rússia, China e Cuba, o governo de Maduro permanece em uma "posição de supremacia" diante de seus adversários, de modo que um acordo é difícil, apontou Alarcón, sem descartar negociações com "atores internacionais".
Este ano estão previstas eleições legislativas, sem data, nas quais o chavismo tentará recuperar a Câmara, o único poder nas mãos da oposição, mas cujas decisões são consideradas nulas pela Justiça, de linha oficialista.
O "grande debate da oposição" é se irá participar das legislativas, assegura León.
Aqueles que se opõem a Maduro também enfrentam o risco de maiores divisões em um contexto em que o governo conseguiu desgastar Guaidó, sem prendê-lo.
Em 5 de janeiro, Luis Parra, ex-aliado de Guaidó, proclamou-se presidente do Parlamento com o apoio do chavismo, em meio a denúncias de corrupção no entorno do líder opositor e de pagamento de propinas do governo a dissidentes.