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Os meios de comunicação, as mídias, as sondagens e os analistas se enganaram nas previsões das eleições presidenciais americanas. Os padrões tradicionais de racionalidade dos votos foram alterados pelo conceito populista.
A vitória de Trump é a constatação clara e chocante, de que uma parte importante da América está submetida a estímulos extremamente simples, com ideias-chave quase caricaturais, por inseguranças e medos, por preconceitos e crenças.
Sabíamos que essa América existia mas não pensávamos que a soma de todos esses múltiplos fatores de descontentamento e de mal-estar se tranformasse em uma expressão tão forte. Trump teve a arte de saber captar em seu favor a chave para transformar esses sentimentos em votos. A democracia também é isto.
Trump ganhou depois de uma campanha que inundou a América por linhas raciais, com o candidato republicano fazendo um apelo xenófobo ao voto dos brancos e Hillary Clinton optando por um discurso elitista aos afroamericanos e aos latinos.
O triunfo de Trump é, nas suas palavras, um “Brexit plus”. As motivações dos eleitores norte-americanos e britânicos têm a mesma origem no declínio das classes médias e na resistência às mudanças que transformaram a sociedade industrial e puseram à prova a homogeneidade das comunidades nacionais: os novos déclassés – os deplorables, na frase fatal de Hillary Clinton, partilham com os seus antecessores a nostalgia de um passado perdido.
A vitória ontem alcançada por Donald Trump de fundo histórico bastante complexo, não deixa de constituir um enorme choque para todos aqueles que aprenderam a respeitar a solidez das instituições norte-americanas.
Ao longo dos últimos anos Trump foi ocupando uma parte do espaço público norte-americano, beneficiando das suas características peculiares propensas à valorização da sua personalidade narcisista. Ele não demostrou nem um pensamento político minimamente elaborado em relação ao que quer que seja, nem na política interna nem na política externa. A sua campanha ficou assinalada por uma sucessão de insultos, de declarações quase paranóicas, de considerações xenófobas, racistas e sexistas.
Para uma parte substancial da direita a vitória de Trump é uma reação da maioria da população branca que se sentiria ameaçada pelo avanço das comunidades afro-americanas e latinas.
Estaríamos, assim, perante um princípio de diferenciação étnica que, no limite, remete para uma atitude puramente racista.
Para uma certa esquerda extremista, a vitória de Trump é exclusivamente por fatores econômicos ligados ao fenomeno da globalização.
O Presidente eleito defende que a globalização é um “mau negócio” para os Estados Unidos e que os acordos multilaterais das relações econômicas internacionais beneficiam excessivamente os seus concorrentes.
Nesse contexto, quer pôr em causa os acordos da NAFTA com o Canadá e o México e a Parceria Transpacífico e, levantar barreiras alfandegárias contra a China.
A lógica protecionista de Trump pode abrir caminho para uma tendência de regionalização como alternativa à globalização.
Ele rejeita tanto as alianças tradicionais da estratégia internacional norte-americana, quanto as intervenções internacionais que servem apenas para criar novos inimigos.
Os Estados Unidos devem substituir a politica externa pela política interna e libertar-se das suas responsabilidades como a principal potência internacional, declarou o presidente eleito.
Trump insiste em sublinhar a sua distância em relação aos aliados quando defende que o Japão e a Coreia do Sul devem passar a ser potências nucleares e assegurar autonomamente a sua própria segurança. Mais uma vez, o Presidente Trump está preparado para pôr em causa um dos princípios da política externa norte-americana que visa limitar os perigos da proliferação das armas nucleares.
O seu discurso, em certos momentos, mostrou uma linguagem de natureza tipicamente fascista.
A tentação de desvalorizar as insuficiências políticas, intelectuais e éticas deste vendedor de ilusões, provou que, mesmo que o óbvio nos diga um grande « não », o voto secreto de milhões de americanos gritou « sim » !
E o que nos resta ? Aceitar e esperar os próximos capítulos da « Novela Trump ».
Por Miriam Rey