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Escreveu, em comentário, um dos nossos leitores.
"Gostava de ver estudos críticos e credíveis sobre a realidade da evolução do ensino em Portugal, em vez de opiniões, mais ou menos acaloradas, que só servem para dispersar a atenção e o interesse. Toda a gente diz que antigamente é que era bom, mas isso é falso. Se quiserem defender alguma comparação histórica, façam-no com dados e números, realidades, que nos permitam pensar em vez de fantasiar. Estamos todos interessados (ou antes, é do nosso interesse e é do interesse nacional e internacional) em saber se os alunos aprendiam mais e melhor, antes dos telemóveis, quaisquer que tenham sido as reformas. Ninguém parece focado no problema."O problema que o Carlos Soares apresenta é, há muito, mesmo muito tempo, central nas "reformas" da educação escolar. Talvez seja, até, "o" eterno problema dessas "reformas".
E, como bem sugere: quem equaciona esse problema começa por apontar para o passado, considerando-o (em função do seu modo próprio de pensar) o inferno, de onde é preciso sair rapidamente, ou o paraíso perdido, ao qual é preciso regressar o mais depressa possível.
Mas, que passado está em causa? O nosso? O europeu? O desta década? O deste século? O da primeira metade do século passado? Ou da sua segunda metade? O do pré ou pós-Estado Novo? O da pré ou pós-República?
Qualquer discussão racional confronta-se com este "pormenor", mas também se confronta com outro de igual monta. O que comparamos? As finalidades da educação? Os conteúdos? Os métodos e os recursos? A avaliação? Tudo isto? Mais do que isto? Menos do que isto? E comparamos por referência a quê? O que é que, em educação, é considerado certo, de modo a poder ser assumido como bitola confiável?
(Não, não estou a adoptar uma atitude subjectivista e relativista, da qual sempre me tenho demarcado; estou simplesmente a dizer que os problemas em educação, como em medicina, como em ecologia, etc. ganham em ser abordados com profundidade e estratégia e não superficialmente e ao acaso).Sem a preocupação de localizarmos esse passado, de definirmos o que comparamos nesse passado e sem um método, ficamos incapazes de formar uma opinião que não vá além do senso-muito-comum. Lamentavelmente, é o que, por sistema, acontece, tanto ao nível da comunicação social como da política, como da prática, como da academia. É um fenómeno transversal porque, em educação, todos pensam que sabem e que podem...
Se conseguíssemos demarcar, concretamente, no passado da educação escolar um tempo e um espaço, e também um objecto - os conteúdos, por exemplo -, bem como o método e o instrumento apropriados, e, sobretudo, se abandonássemos os nossos preconceitos pseudo-pedagógicos, poderíamos, fazer comparações confiáveis.
Não existindo (pelo menos, por enquanto) uma máquina do tempo será de todo impossível fazer comparações entre aspectos concretos da educação escolar actual e passada? Não, não é: podemos, de facto, estudar esses aspectos e tirar conclusões, as quais não devem, no entanto, ir além dos dados.
Exemplifico com um trabalho de Maria Filomena Mónica intitulado Os filhos de Rousseau: ensaio sobre os exames, publicado em finais dos anos de 1990. Independentemente da polémica que, à altura, provocou (e que não interessa retomar), esta socióloga comparou exames nacionais em dois períodos, um pré e outro pós revolução de Abril, tendo verificado que os mais recentes eram mais simples, se quisermos, menos exigentes.
Significava isto uma defesa da educação escolar do antigo regime político? Não, disse Mónica claramente no livro e repetiu-o na televisão e nos jornais. Mas significava um alerta: em democracia, estávamos a baixar a exigência e não o devíamos fazer. Com todas as crianças e jovens na escola, o compromisso era ensiná-los por referência a padrões elevados.
Revisitar o possível no passado respeitante à educação formal, com a abordagem científica correcta, à margem de ideologias, é fundamental para se analisar o presente, mas sobretudo para se delinear o futuro. No passado encontramos o que de melhor e de pior conseguimos, como humanidade, construir, nessa dimensão da educação, e que, nessa medida, nos pode ajudar a direccioná-la.
Nem tudo nele é mau, nem tudo nele é bom, pelo menos em função do que hoje queremos para as novas gerações. Há muitas propostas de excelência, há muitas outras que, em circunstância alguma, devemos retomar. Não servem, pois, os discursos que parecem ser diferentes mas que, na sua essência, são iguais: de regresso ou de rejeição do passado.