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Dois jornalistas que trabalham na Suíça realizam um documentário resgatando a memória do diplomata que salvou das mãos de Hitler 62 mil judeus húngaros. O filme foi produzido pela Televisão Suíça de língua italiana (TSI).
Se a Suíça foi acusada de excesso de neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, se pode dizer que o diplomata Carl Lutz salvou a honra da pátria.
Como vice-cônsul em Budapeste, na Hungria, ele evitou que milhares de judeus subissem nos trens da morte rumo a Auschwitz, um dos campos de concentração nazista.
Antes da chegada do Terceiro Reich, na "Paris do Leste", na primavera de 1944, a comuniade judaica contava com 762 mil pessoas. Ao final da guerra sobraram apenas 219 mil para contar a história. E boa parte dos sobreviventes deve a vida a Carl Lutz.
Documentário baseado em livro
"Eu era apenas um dente de uma roda que girava graças a Carl Lutz. Eu estou entre as 62 mil pessoas salvas por le. Gostaria de saber se ele, enquanto viveu, recebeu 62 mil cartas de agradecimento", relata um judeu húngaro, membro da resistência e encarregado de conseguir papel- mercadoria rara - para o diplomata escrever as cartas de salvo-conduto. Nelas se lia: "o detentor deste documento está sob a proteção do Governo Helvético". Embaixo constava a assinatura do vice-consul Lutz.
Como ele muitos outros companheiros escaparam graças às "cartas de proteção" (muito mais do que as 8 mil autorizadas) e a implantação do "status" de território suíço em 72 prédios nos arredores de Budapeste e em uma velha fábrica no centro da cidade, mais tarde conhecida como a Casa de Vidro, e tambem chamada de "sub-consulado".
Mesmo assim, mais de meio milhão de judeus húngaros foram deportados. Nunca tantos trens partiram em tão pouco tempo graças a eficiência logística do oficial da SS Adolf Eichmann e do embaixador alemão Edmund Veesenmayer. O diplomata suíco travou um combate corpo-a-corpo com o militar por cada ser humano inocente, dentro dos gabinetes da embaixada.
Ambiente de terror
Eichmann não aceitava a rede de proteção criada por Lutz e o embaixador Veesenmayer chegou a telegrafar um pedido de autorizacao a Berlim - nunca respondido - de assassinar o "incomodo" diplomata.
Numa outra frente, ele desafiava os próprios superiores em Berna, os "nyilas"(partidários húngaros de Hitler) e o governo local aliado do Fuher.
"Meu pai era um homem muito religioso, cresceu com valores muito fortes, de fazer bem ao próximo e foi desta educação que ele tirou a força de fazer o que fez. Mas, diante de tanto horror se perguntava constantemente: "se Deus existe onde ele está"?", revelou a swissinfo, Agnes Lutz, durante o lançamento do filme, em Milão.
A sua história foi contada no livro "A Casa de Vidro", por Theo Tschuy, prestes a chegar nas livrarias italianas e ponto de partida para a realizacao de um homônino documentário dos jornalistas Aldo Sofia e Enrico Pasotti. Ele foi produzido pela Televisão Suíça de língua italiana (TSI), onde trabalham os dois jornalistas, e enriquecido com os depoimentos de quem conviveu com Carl Lutz no período da guerra.
O filme foi apresentado quinta-feira (10/11) no auditório lotado do Centro Cultural Suíço, no centro da capital da Lombardia: pela primeira vez, são apresentadas algumas entrevistas inéditas com testemunhas húngaras das ações de Lutz. E conta ainda com a interpretação de atores e também com fotografias e cenas filmadas pelo próprio diplomata.
Reconhecimento tardio
"Eu era um jovem ainda mas no começo dos anos 60 meus pais já falavam com grande admiração de Carl Lutz', disse o cônsul geral David Volgelsander antes da exibição do filme. "Ele merece um grande respeito e admiração por ter feito o que fez numa época em que o nosso país era muito temeroso e prudente diante da guerra", reconhece o cônsul geral.
Mas o governo suíço demorou a admitir a importância do simples diplomata. Somente em 1995 ele foi considerado um herói nacional, 20 anos depois da sua morte.
"Um dia, viajando de carro pelo país, meu pai foi parado na alfândega. O soldado não o reconheceu e perguntou se ele tinha alguma mercadoria para declarar. Ele respondeu sorrindo que nao", disse a filha adotiva Agnes Lutz, se referindo ao fato de que o pai impediu a deportação de milhares de judeus como mercadorias condenadas a incineração.
Ela própria foi uma das pessoas acolhidadas pelo diplomata na mansao de 52 quartos, no alto de uma colina, com vista para o rio Danúbio. Mais tarde, depois da guerra, Carl Lutz se divorciaria de Gertrud, sua mulher, e se casaria com Magda, a mãe de Agnes, e também uma das refugiadas na embaixada.
Mostrar nas escolas
"Mas lembro também que meu pai, voltando para casa, viu uma execução sumária na estrada perto do rio. Ele notou que uma das vítimas boiava mas se mexia. Ele foi ate lá, trouxe a mulher para dentro do carro e voltou para casa. A mulher tinha um ferimento na barriga e foi operada por um médico hebraico que também buscava abrigo na nossa mansão", lembra Agnes.
Carl Lutz mantinha um diário. As informações recolhidas por ele ajudaram a reconstruir e a esclarecer alguns pontos obscuros da diplomacia suíça durante a guerra. "Nao se pode ser neutro diante da ameaça de matar 100, 200 judeus para cada cristão morto por um bombardeio aliado. Eles(seus superiores de Berna) não estão vendo o que acontece. Eu sim, com os meus olhos", diria o vice-cônsul à esposa, ao saber da ameaça de Hitler temendo os ataques dos inimigos do Eixo.
"Carl Lutz foi um grande desobediente e lamento profundamente que os jovens não conheçam sua história", comenta o diretor do filme, Aldo Sofia, jornalista e correspondente em Bruxelas.
Mas os ventos começam a mudar. No ano que vem, as escolas do Cantão do Ticino, de língua italiana, vão incluir o documentário no currículo escolar e manter viva a memória do herói suíço.
Guilherme Aquino, Milão
Fatos
Carl Lutz era um diplomata suíço em posto em Budapeste, durante a Segunda Guerra Mundial.
Na Hungria ocupada pelos nazistas, Lutz conseguiu evitar, em 1944, a deportação de 62 mil judeus, salvando-lhes a vida.
Seu feito foi oficialmente reconhecido na Suíça somente em 1995, 20 anos depois da morte de Carl Lutz.
O documentário dos jornalistas Aldo Sofia e Henrico Pasotti ajuda a resgatar a memória histórica do diplomata suíço.