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O livro "Defesa Civil", publicado pelo governo suíço para preparar o povo para a Guerra Fria, foi bastante criticado na época. Porém, no Japão, se transformou em um verdadeiro best-seller. O segredo está nos seus ensinamentos.
Em 1969, o chamado "Livro da Defesa Civil" foi enviado a todas os domicílios na Suíça. Por um lado, o manual destinava-se a preparar a população para um ataque e, por outro, a mantê-la vigilante contra as infiltrações do inimigo.
O artigo faz parte da série "A Suíça na Guerra Fria". swissinfo.ch esclarece vários aspectos da Suíça na época, que era um país neutro entre os blocos e, ao mesmo tempo, claramente associado ao Ocidente.
Mas o clímax da Guerra Fria e, portanto, o consenso tenaz daqueles anos já tinha acabado. O livro encontrou resistência: ele foi devolvido em protesto, jogado nas ruas em desfiles militares, e queimado em público.
O motivo da indignação foi o retrato dos opositores políticos como inimigos subversivos da democracia. O livreto estilizava todas as críticas, tais como posições pacifistas, como um tapete vermelho para os exércitos soviéticos.
Aqueles que não se sentiam atacados pelo livreto gozavam dele: dicas sobre como se preparar para a bomba atômica pareciam ingênuas no final da década de 1960 – que também era chamado de "infantilismo militar".
Hoje, muitos na Suíça consideram o livreto como uma sátira real sobre a Guerra Fria. Em outros países, fez carreira.
Tradução Japonesa em 1970
A obra produzida pela "Zivilschutz" (Defesa Civil, em tradução livre) suíça, o órgão responsável pela sua publicação terminou sendo descoberta no Japão após a sua tradução. Masato Naruse era o diretor da Hara Shobo, a editora que publicou o livro em 1970.
Naruse diz que os jovens funcionários públicos japoneses cuidaram da tradução do texto: em sessões privadas, eles leram o texto original e o traduziram para o japonês. A estrutura do livro, as ilustrações e o layout são idênticos. Até mesmo o prefácio de Ludwig von Moos, na época membro do governo federal suíço, foi adotado.
O Japão estava em um período turbulento na época: o Tratado de Segurança Nipo-Americano e a intenção de estendê-lo levou a amplos protestos estudantis.
E diante da ameaça nuclear durante a Guerra Fria, os tradutores queriam aumentar o interesse da população pela defesa civil. No "Zivilschutz" de 1971 observou-se com orgulho que os japoneses conheceram pela primeira vez "o conceito de suprimentos de emergência".
A busca por um editor tornou-se difícil. No final, a editora Hara Shobo de Tóquio, especializada na publicação de livros e textos sobre temas de guerra, imprimiu três mil exemplares.
As autoridades suíças falavam de "grande interesse em todos os círculos do povo insular". Mas Naruse coloca-o em perspectiva: "No início não era muito vendido, mas havia pessoas interessadas."
Mas a Suíça recebeu maior atenção no Japão na década de 1970. O conceito de neutralidade armada e o chamado "Milizsystem", o sistema suíço de exercício de tempo parcial nas forças armadas, em geral em funções públicas, que transformava todos os cidadãos em soldados, suscitaram interesse. Os círculos empresariais conservadores e os apoiantes das "forças de autodefesa" do Japão idealizaram a Suíça como um "Estado do ouriço" capaz de se defender.
O historiador japonês e especialista suíço Morita Yasukazu descreveu o livro como "chocante". Ele temia que a imagem da Suíça como pacifista no Japão pudesse ser usada para militarizar a sociedade japonesa.
Nova edição após o terremoto de Kobe em 1995
O livro também encontrou interesse no Japão em um contexto completamente diferente: ele foi usado como um guia para se preparar para desastres naturais.
Após o primeiro grande terremoto do pós-guerra, em 17 de janeiro de 1995, o livro veio mais uma vez aos olhos do público. O terremoto, com o seu epicentro perto da cidade de Kobe, destruiu 250 mil casas, causou graves danos a casas, ruas e linhas férreas - e custou 6.434 vidas.
Após a catástrofe, o jornalista Taro Kimura segurou o livro em frente à câmera de televisão e o recomendou como uma dica para preparação de emergência e controle de desastres. A demanda aumentou acentuadamente, mas não havia mais exemplares dos poucos milhares de cópias que estavam em estoque - eles reimprimiram. Seguiram-se novas edições, por exemplo em 2003, por ocasião da guerra do Iraque.
"Versão TOKYO" distribuída a 7,2 milhões de domicílios
Em resposta ao terremoto de Tohoku, de 11 de março de 2011, e ao acidente com o reator de Fukushima, o "Manual de Preparação para Desastres de Tóquio" foi distribuído a todos os 7,2 milhões de domicílios em Tóquio.
O livro trata principalmente de um terremoto gravíssimo e explica, por exemplo, como cuidar de pessoas feridas ou como construir um banheiro simples.
Ele contém igualmente informações pormenorizadas sobre a preparação para catástrofes, tais como a quantidade do abastecimento de alimentos e água. Não se trata apenas de catástrofes, mas também de medidas para ajudar a se proteger contra o terrorismo e os ataques armados. No entanto, não há um foco em um inimigo interno, que dominou o original suíço.
Desde 2015, os residentes do resto do país podem comprar o livro pelo equivalente a US$ 1,4 . Além do "Tokyo Metropolitan Disaster Prevention App" gratuito e uma versão e-book, há também uma versão em inglês, chinês e coreano. Até a data de hoje, foram vendidos cerca de 620 mil exemplares.
Vendas contínuas
A tradução original do "Schweizerisches Zivilverteidigungsbuch" tornou-se, entretanto, um artigo de venda contínua. Mais de 150 mil cópias foram vendidas até agora.
O editor Naruse declara: "Mesmo depois do fim da Guerra Fria, ele ainda é considerado útil para desastres. A versão original e o conteúdo de 1970 não sofreram alterações. Eu penso que é porque o que é importante para que a pessoa possa se proteger é atemporal."
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos