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Como um suíço se integra na Rússia? A resposta de Daniel Rehmann: fazer amigos russos e aprender literatura, história, cultura e esporte do país. Esse imigrante suíço de 45 anos representa hoje seus concidaçãos no grande país do Leste.
swissinfo.ch: Por que você emigrou para a Rússia? Foi um golpe do destino ou algo planejado?
Daniel Rehmann: A minha migração ocorreu quando abria o meu próprio negócio na Rússia. Na época eu também fazia um curso na Universidade de São Petersburgo.
Na verdade, não planejei nada. Durante uma viagem conheci algumas pessoas em São Petersburgo, que propuseram uma cooperação na montagem de um negócio na área de turismo. Esse foi meu início. Era uma época de forte crescimento econômico na Rússia, com muitas possiblidades de negócio. Porém preferi abrir uma pequena agência e continua a fazer o meu curso em uma universidade local.
As opiniões manifestadas neste artigo, dentre outros sobre o país de acolho e sua política, são pessoais e não correspondem às posições da plataforma de informaões swissinfo.ch.
swissinfo.ch: Como você imaginava como seria a vida na Rússia? Tinha muitas expectativas?
D.R.: Eu já havia visitado algumas vezes a Rússia e feito alguns contatos. Por isso posso dizer que já estava um pouco preparado. Tinha, obviamente, algumas expectativas, mas que nem sempre me permitiram reconhecer as chances e os riscos. O crescimento econômico entre 2002 e 2008 foi bastante impressionante. Moscou e St. Petersburg mudaram e se modernizaram bastante.
Nem sempre pensei nos riscos políticos para um estrangeiro na Rússia. Isso ficou bastante claro depois de 2014 (n.r.: com o conflito na Ucrânia).
swissinfo.ch: Como você se sentia nessa grande metrópole?
D.R.: Me sentia muito seguro e havia tanto a descobrir. Entre 1998 e 1999, sem internet, você tinha de se informar perguntando às pessoas. O mais importante era entender como funcionava o metro em Moscou e São Petersburgo.
swissinfo.ch: Quando você percebeu que iria ficar mais tempo na Rússia e que sua estadia era mais do que uma simples viagem de negócios?
D.R.: Foi quando recebi meu primeiro contrato e consegui concluir com sucesso um projeto. Também quando passei na prova de admissão da universidade. E afinal, quando já podia sair com os amigos que tinha feito em São Petersburgo e comecei a descobrir a Rússia através de viagens feitas a outras regiões.
swissinfo.ch: Como é a mentalidade russa? Seu "caráter especial" ou "grande alma" seriam apenas clichés?
D.R.: Sim e não. Você se adapta, aprende o idioma e se acostuma à vida "russa". Porém eu fui socializado na Suíça. Assim não irei entender nunca "os russos", apesar de poder compreender muita coisa. Sim, na Rússia muitas pessoas expressam suas emoções e para os suíços, essas emoções podem ser difíceis a compreender.
Importante como estrangeiro é você ter amigos russos e um certo conhecimento de literatura, história, cultura e do mundo esportivo russos. Então a integração fica mais fácil.
swissinfo.ch: Quais sãos as dificuldades que você teve no trabalho e na vida privada?
D.R.: No trabalho: fazer negócios na Rússia é muito diferente da Suíça. Aqui você tem de aprender no esquema de "learning by doing", ou seja, na prática. Existem muitas diferenças entre o que está previsto na lei e como as coisas funcionam na realidade. As condições econômicas na Rússia são ainda muito determinadas pelas decisões tomadas no mundo político.
Na vida privada: aprender o russo e encontrar por si mesmo o caminho para se integrar na sociedade russa, mas mantendo também a sua própria identidade.
swissinfo.ch: Como você avalia as relações entre a Rússia e a Suíça? Elas influenciam o sistema político na Rússia?
D.R.: Dentro das atuais condições políticas, eu diria que as relações oficiais entre a Suíça e a Rússia são relativamente boas.
No cenário político houve a visita recíproca de delegações de parlamentares, assim como a visita do ministro suíço da Economia, Johann Schneider-Ammann em julho passado, em Moscou.
Do ponto de vista econômico, o comércio entre a Suíça e a Rússia em 2017 voltou a crescer pela primeira vez desde 2014. A crise econômica na Rússia parece ter sido superada.
Existe bastante potencial de melhorar no intercâmbio comercial. Por exemplo, um tratado de livre comercio entre a Suíça e a União Econômica Euroasiática poderia ajudar pequenas e medias empresas suíças na Rússia. Ao mesmo tempo poderia fazer algo para diminuir as tensões políticas entre o Leste e o Oeste.
Culturalmente ainda existem um grande intercambio entre a Rússia e a Suíça.
swissinfo.ch: Você sente falta de alguma coisa da Suíça na Rússia, ou vice-versa quando está na Suíça?
D.R.: Sinto falta da pontualidade, da fiabilidade, do bom queijo ;-), da natureza, do clube de futebol FC Basel. Quando estou em São Petersburgo, sinto falta das montanhas.
Na Suíça sinto falta dessa espontaneidade e emotividade dos russos. Muita coisa que parece impossível, acaba sendo possível na Rússia através da enorme capacidade de improvisação e flexibilidade (a mentalidade de "last minute") desse povo.
swissinfo.ch: Você acompanha o debate público na Suíça? Participa das votações? O voto eletrônico para suíços não funciona sempre na Rússia...
D.R.: Sim. Além disso, também posso votar pela via eletrônica. Porém o voto eletrônico só funciona para uma parte dos suíços do estrangeiro na Rússia.
swissinfo.ch: Existem propostas no Parlamento de limitar o direito de voto para os suíços do estrangeiro que já não vivem há muito tempo no país. Qual a sua opinião sobre essa questão?
D.R.: Obviamente sou contra. A maioria dos suíços dos estrangeiros, que já vivem há muito tempo no exterior, ainda mantem fortes seus laços com a Suíça. Muitos suíços também estão no exterior à trabalho só por alguns anos. Eles não devem perder seu contato com os acontecimentos políticos na Suíça. Muitas vezes recebemos com atraso o material eleitoral, o que nos impede praticamente de poder votar nos plebiscitos.
swissinfo.ch: Qual é a sua função como representante dos suíços do estrangeiro na Rússia?
D.R.: Fui eleito em 2017 para ser representante dos suíços do estrangeiro na Rússia no Parlamento dos Suíços do Estrangeiro. (Auslandschweizerrat). Nesse papel sou a pessoa de contato dos suíços na Rússia para falar dos seus problemas, observações e experiências e levá-las à Organização do Suíço do Estrangeiro (OSE) e aos políticos suíços, assim como informar os suíços na Rússia sobre as mudanças mais importantes na política suíça.
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Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch