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Um leitor nos perguntou se alguns suíços são tão pobres que nem conseguem pagar o seguro de saúde. Outro simplesmente questionou: "É verdade que os suíços são ricos? Fomos checar se existe algo por trás dos clichês.
A reputação da riqueza helvética é inabalável. Por anos consecutivos a Suíça liderou o ranking das nações mais ricas do globo, em termos de renda per capita. E há pouco, dois estudos realizados separadamente mostraram que o país está entre os dez com a maior quantidade de milionários.
Mas ser rico no papel é apenas uma parte da história. swissinfo.ch analisa mais profundamente questões - ou afirmações - enviadas pelos leitores e as publica em uma série de artigos. O objetivo: descobrir o que está por traz delas. Por exemplo, ao falar sobre a riqueza, descobrimos que ela pode ser relativa.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro
Jatinhos privados, mansões à beira do lago, férias de esqui em estações de luxo nos Alpes. Na imaginação coletiva, a Suíça e os milionários vivem quase em simbiose. O banco Credit Suisse estima que 2.650 pessoas no país têm fortunas declaradas de pelo menos 50 milhões de dólaresLink externo. Eles fazem parte, assim, do exclusivo clube dos super-ricos. Já o grupo de milionários é maior: 384 mil a 500 mil lares (para uma população de 8,4 milhões de habitantes).
Indiscutível: os super-ricos têm dinheiro de sobra. Mas quanto é necessário para que o resto da população possa ser considerada também rica?
O Departamento Federal de Estatísticas (BFSLink externo, na sigla em alemão) afirma que não há uma definição objetiva de "rico" na Suíça. Assim o faz também o banco UBS, que se declara o maior gestor de fortunas do mundo.
Na ausência de fatores para definir a "riqueza", dados estatísticos sobre a distribuição de renda podem ajudar. Eles não separam os habitantes em categorias de bilionários ou milionários, mas sim entre os que têm fortunas de 100 mil (dólares) a um milhão.
De fato, os números mostram que há menos milionários e bilionários do que pessoas com menos de 10 mil dólares. Outro fato que denota sobriedadeLink externo: os 20% de pessoas no alto da escala ganham cinco vezes mais do que os 20% na escala inferior. Isso significa que as disparidades de riqueza são tão grandes na Suíça como em outras partes das economias desenvolvidas.
O governo suíço não define a maioria da população como rica ou pobre: 57.5% dos habitantes são considerados com pertencentes à "classe médiaLink externo". São lares onde a renda bruta fica entre 70% e 150% da renda média nacional. Os que tem uma renda média acima desses valores são considerados membros da categoria de "alta renda", explicam os técnicos do Departamento Federal de Estatísticas.
Rico para alguns
Analisando todos esses dados, poderia se imaginar que a classe média suíça é, de fato, abastada. Para começar, os habitantes da nação alpina têm a segunda maior renda média disponívelLink externo (em poder de compra) de todos os países da Europa, perdendo apenas para Luxemburgo.
Mas o conceito de riqueza depende do lugar de residência. Viver na Suíça, considerada por muitos como a "ilha dos preços elevados" na Europa, significa ver a conta bancária se esvaziar rapidamente até o final do mês. Em nenhum outro país as roupas, comida, hotéis ou restaurantes são tão caros como na Suíça.
A média de salário bruto mensal em 2016 foi de 6.502 francos (6.597 dólares), uma quantia que é suficiente apenas para cobrir o custo de vida. Ao descontar o aluguel, impostos, seguro de saúde, descontos da previdência social e despesas cotidianas, uma família mediana na Suíça consegue economizar apenas 15% da renda, como mostram os dados nesse gráficoLink externo (clicar no link).
Os lares com uma renda abaixo dos cinco mil francos mensais não conseguem economizar nenhum centavo. Muitos dessas pessoas, especialmente os aposentados, são obrigados a tirar dinheiro da poupança para poder sobreviver.
Linha de pobreza
Se os estatísticos não definem o que significa ser "rico", pelo menos o fazem com os "pobres". O número de lares nessa categoria (dois adultos e duas crianças, com renda mensal abaixo dos 3.990 francos) aumenta continuamente desde 2014. Dois anos depois, chegou a dar um salto de 10%. O fato é que a pobreza afeta hoje 8,2% da população helvética.
Outros 15% correm o risco de ficar abaixo da linha da pobrezaLink externo. São famílias monoparentais ou nas quais algum dos membros não concluiu o ensino obrigatório, assim como desempregados.
Embora encontrar um trabalho é o caminho mais seguro para sair da pobreza. Porém na Suíça, 4,3% delas são consideradas "working poor". Traduzindo: elas ganham o suficiente para arcar com as despesas do dia-a-dia. Um em dez empregos na Suíça tem salários extremamente baixos. Aproximadamente 12% dos suíços fazem parte desse grupo de trabalhadores, muitos dos quais são mulheres ou estrangeiros.
Saúde cara
Ninguém escapa de determinadas despesas. Uma delas é o seguro de saúde que, na Suíça, é obrigatório independentemente da renda familia. As contas das seguradoras são caras. As mensalidades aumentam anualmente, consumindo uma boa parte da renda familiar. Segundo os estatísticos oficiais, um lar médio no país gasta hoje 6,2% da renda (dados de 2016) com essa conta.
Outro leitor tinha razão ao ressaltar: um quarto da população necessita de ajuda financeira da assistência socialLink externo para pagar o seguro de saúde. Grande parte dos fundos vem dos caixas dos cantões (governos estaduais) e uma parte do governo federal. Famílias, especialmente as monoparentais, dependem desse apoio.
Veredito
Sim, muitos bilionários vivem na Suíça. Porém mais da metade da população é classe média. No papel, os suíços possuem mais dinheiro do que outras populações, mas a verdade é que ganham apenas o suficiente para viver em um país com um dos maiores custos de vida do planeta.
Rico ou não, o que os suíços podem declarar com segurança é que vivem em um país com um dos padrões de vida mais elevados na EuropaLink externo. A maioria dos habitantes se considera mais satisfeita com a vida do que seus vizinhos europeusLink externo, apesar de não terem necessariamente uma mansão na beira do lago ou um iate no porto.
Esse artigo faz parte da série "Verificando os fatos". As ideias são enviadas pelos leitores através de perguntas, sugestões e comentários. Nós verificamos então se os fatos apresentados condizem com a realidade. Escreva-nos se houver algo sobre a Suíça que você sempre quis compreender.
Adaptação: Alexander Thoele