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O convento de Saint-Maurice, na entrada do cantão do Valais, é um dos mais antigos do mundo cristão. Há um ano, ele festeja seus 15 séculos de história, religiosa e profana, entre cânticos de cânones e cantos de rua.
Durante séculos, homens armados e homens de batina dominaram St-Maurice de Agaune. Porta natural sobre o vale do rio Ródano, seu estreito desfiladeiro entre as falésias constitui um ponto estratégico fácil de controlar sobre uma das estradas principais ligando o norte e o sul dos Alpes. Daí uma presença militar importante até o fim do século 20.
Quanto à religião, a Abadia de St-Maurice, fundada em 515, tem o privilégio de reivindicar “o mais antigo lugar do Ocidente cristão, depois de Roma”. “Para dizer a verdade, existem conventos mais antigos”, concede o padre abade Joseph Roduit, que acaba de passar a liderança durante o ano de celebrações dos 1.500°. “Mas somos o mais antigo que sempre funcionou durante esses 15 séculos. Nós rezamos aqui a cada dia que Deus fez”.
Maior do que o Vaticano
St-Maurice continua a beneficiar da imediação pontifical: a abadia não depende de uma diocese, mas diretamente do Vaticano (nullius diœcesisLink externo). Devido conflitos frequentes com o bispo de Sion, o papa decidiu em 1840 de tornar o padre abade de St-Maurice um bispo como os outros, mas o concílio Vaticano II suprimiu esse estatuto. Isso nunca impediu as pessoas de Agaune de chamar de “monsenhor” seus abades, que continuam, aliás, membros de peno direito da Conferência dos Bispos Suíços.
Hoje, St-Maurice é uma das onze últimas abadias territoriais da cristandade romana, um relicário da Idade Média, como Einsiedeln, na Suíça central. Seu território não se limita a cinco paróquias, mas seus cânones (uns 40 atualmente) ajudam também paróquias vizinhas pertencentes à diocese de Sion.
“Em 1993, quando o território foi alterado, meu predecessor Henri Salina foi convocado em Roma”, lembra-se Joseph Roduit. “Eles mostrou um mapa do território da abadia ao papa João Paulo II, que disse “mas é muito pequeno!’ E monsenhor Salina teve a audácia de lhe responder ‘mas é maior do que o Vaticano’. O papa sorriu e disse ‘de fato, e é muito antigo. Então eu mantenho o território da Abadia de St-Maurice’”.
Pequeno por seu território, esse burgo de 4.500 habitantes é bem maior pelo seu esplendor devido a notoriedade de Maurice, seu ilustre mártir. Hoje, centenas de paróquias e igrejas de toda a Europa e alhures lhe são dedicadas. Mas é no planalto de VérolliezLink externo (o “verdadeiro lugar”, segundo a etimologia popular), há algumas centenas de metros da vila atual, que ocorreu o suplício de Maurice e de sua legião tebana. “Segundo a tradição”, precisa monsenhor Roduit.
Lenda e história
A tradição situa o drama por volta do ano 300. Para ser breve, Maurice e seus homens recebem ordem de adorar o imperador e se preparar para matar cristãos. Ora, Maurice e seus homens – que foram recrutados no Alto Egito e são, portanto, provavelmente negros – também são cristãos. Frente à recusa da ordem, a legião é dizimada. E até várias vezes, deixando centenas de cadáveres.
Arqueólogo cantonal do Valais desde 1987, François Wiblé não pode considerar a história como verídica. “Os fatos foram relatados em dois textos escritos 100 anos depois. Mas não são tratados de história. Finalmente, o essencial é que as pessoas acreditaram na época”, afirma o historiador que não quer causar polêmica, embora haja incoerência nos relatos. “Não há legiões tebanas no fim do século 3”. Outro anacronismo: a dizimação, punição brutal que consistia em passar a espada um em cada dez homens não era uma prática do exército imperial. Segundo François Wiblé, ela não estava mais em vigor depois da república romana.
“É um período bem documentado”, prossegue o arqueólogo. “Existem muitos textos dos séculos 3 e 4 e nenhum autor da época menciona esse massacre da legião tebana. Portanto, teria sido um bom relato de propaganda para os pagãos como para os cristãos”. Se esse último argumento lhe parece capital, François Wiblé admite que a lenda tem forçosamente um fundo histórico. “Certamente houve uma batalha em Vérolliez naquela época, talvez cristãos tenham sido massacrados. Existe uma inscrição que menciona um oficial romano morto em combate”.
Um farol na noite
O que é estabelecido, em contrapartida, é a fundação da Abadia em 515, por Sigismond, rei das Borgondes – que será canonizado posteriormente. Farol na noite dos tempos obscuros depois da queda de Roma – como são todos os conventos da época – a Abadia, situada ao pé de uma falésia vai tornar-se centro espiritual do reinado de Borgonha, depois do ducado de Savoie. Ela terá ao longo dos séculos fortunas, declínios e renascimentos, mas também pilhagens, incêndios, deslizamentos e reconstruções.
Ela também vai reunir um tesouro de relicários, tidos hoje como um dos mais importantes do mundo cristão. Esses cofres, vasos ou estátuas de ouro e prata incrustados de pedras preciosas testemunham do incrível refinamento de artistas medievais e contém, ao lado dos restos dos mártires tebanos, os de Saint Sigismond e de alguns outros. Sem esquecer os dois fragmentos de um espinho reputado provir da coroa do Cristo e oferecidos à Abadia por volta de 1262 por Saint Louis, rei da França.
Esse tesouro, até aqui confinado em uma cripta estreita, ganhou uma visibilidade nova em prelúdio às celebrações do 1500eLink externo. Durante a instalação desses novos lugares de exposição, as mais belas peças foram emprestadas na primavera de 2014 ao museu do LouvreLink externo em Paris. Desde que voltaram, os visitantes podem admirá-las em seu esplendor.
15 séculos em 5 quadros
Abertas em 22 de setembro de 2014, as festividades do jubileu vão terminar um ano depois, dia de St.Maurice – onde as relíquias saem tradicionalmente em procissão nas ruas. Isso sem visita do Papa, como esperado durante muito tempo, mas François tem uma boa desculpa: nesse dia, ele estará em Cuba.
Enquanto espera ser entregue aos mártires, as ruas de pedra de Agaune vão ressoar até 6 de setembro aos passos, gritos e cantos de saltimbancos. Essa foi a vontade do comité (laico) do 1500°: um espetáculo de rua itinerante que faz reviver os 15 séculos em cinco espetáculos. Com muitos recursos e uma companhia profissional e 40 figurantes amadores.
“Eles quiseram algo popular, baseado na história, mas um pouco em decalagem, burlesco, com muita emoção”, conta Joseph Roduit, que foi visto rindo no dia da estreia. Cabe ressaltar que St-Maurice organiza também todo ano, o segundo maior carnaval do Valais, que nunca deixa de satirizar padres, abades e cânones, “toda vez, somos mostrados em ridículos, mas nunca de maneira negativa”, se diverte monsenhor.
Viva a révolução!
“Mesmo se adoro o humor, tem uma parte íntima em mim que é fascinada pela transcendência. E eu acho que o teatro sem espiritualidade, não é muito forte”, explica por sua fez Cyril Kaiser, diretor dessa criação intitulada “Homens e Séculos”.
Um ano de celebrações
Festejada de 22 de setembro de 2014 a 22 setenbro de 2015, a Abadia pretende deixar trações duráveis. A começar pelos dois livros históricos, que constituem o promeiro recolho completo dos conhecimentos científicos sobre a Abadia: trinta autores suíços e franceses para quase 1.000 páginas e 1.200 ilustrações.
Também haverá concertos, missas, venda de moeda comemorativa, perfumes para ambiente, colóquios históricos sobre a laicidade e sobre o ecumenismo, um filme documentário (“Le Sang et la SèveLink externo”) e o famoso teatro de rua. Quanto ao financiamento, só o espetáculo custou 450.000 francos suíços, cobertos pelo cantão, a comuna e a Loteria Romanda, com bastante ajuda de fundações e dons privados.Aqui termina o infobox
Cyril Kaiser, conhecedor das técnicas da Commedia dell’arte não teme os anacronismos e a mistura de gêneros. Os atores interpelam os espectadores, que se tornam figurantes e as cenas de êxtase mística ou de pura tragédia alternam com passagens burlescas, máscaras e figuras grotescas. “É no espírito dos mistérios da idade Média, quando ninguém se preocupava de realismo”, explica o diretor.
Tudo num ritmo dinâmico, dado pelo movimento de um carro de boi que leva costumes, mulheres e crianças do povo e críticos de Napoleão. E frente ao Primeiro Cônsul, a multidão canta A Marselhesa e grita “viva a revolução¨”.
Saint Maurice, modelo de pacifismo que preferiu morrer do que pegar em armas, símbolo guerreiro depois, quando Saint Louis vem buscar proteção antes de partir em cruzada, de repente vira revolucionário. É a força dos mitos. Eles são multiuso.
Adaptaçao: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch