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Com suas teses e livros provocadores, o cientista político indo-americano Parag Khanna pode ser visto em todos os canais e plataformas: seja na CNN, no Fórum Econômico Mundial de Davos, nos programas "TED" de debates ou no Facebook. Nos quatro cantos do mundo, Khanna é celebrado como um intelectual em ascensão. #DearDemocracy entrevistou Khanna em Cingapura, seu país adotivo.
Em Cingapura encontramos um pai de família que se diz um convicto partidário da "democracia entediante". Voltaremos a falar disso mais adiante. A vida desse cosmopolita é, no entanto, o oposto de entediante.
Nós nos encontramos num lobby de hotel no centro da cidade, o que soa banal, quase entediante. Mas as primeiras impressões enganam: o lobby do hotel Oasia, inaugurado há um ano, fica no décimo-segundo andar e nos dá a impressão estarmos vendo um novo mundo do futuro. Com a fachada coberta por plantas, esse hotel arranha-céu se encontra no centro daquela cidade-Estado. Aqui, no décimo-segundo andar, temos um átrio bem iluminado com estilo urbano, áreas gramadas, fontes e cascadas e, obviamente, lugares para nos sentarmos.
"Que lugar fantástico, é a primeira vez que venho aqui", jubila Parag Khanna. O autor de quarenta anos acaba de voltar de uma temporada de pesquisa de quatro meses na Alemanha. Lá ele foi pesquisador-visitante com o estipendio "Richard von Weizsäcker", da Fundação Robert Bosch de Berlim.
Esse artigo é parte da série #DearDemocracyLink externo, a plataforma para democracia direta da swissinfo.ch. Aqui são articuladas opiniões de autores de nossa redação, bem como as opiniões de autores convidados. As opiniões aqui expressas não representam necessariamente as posições da swissinfo.ch.
Cidades como centro dos acontecimentos
"Grandes cidades são o motor da globalização", diz Khanna abrindo a conversa. "Em muitas questões como a educação, o tráfego e a proteção ambiental, são os prefeitos e prefeitas de cidades como Cingapura que dão o tom da discussão". Também não é um mero acaso Khanna ter escolhido essa cidade-estado como país adotivo. Ele vive aqui com sua mulher e dois filhos.
Nascido em 1977 na populosa cidade de Kanpur, no norte da Índia, Parag Khanna não é prefeito, mas já há muitos anos é uma das personalidades que dão o tom na atualidade.
Ascenção meteórica
Tendo crescido nos Emirados Árabes, nos EUA e na Alemanha, ele se doutorou na London School of Economics, uma das melhores faculdades do mundo.
Seguiram-se posições em organizações como o World Economic Forum (WEF) e Brookings Institution. Já em 2008, com apenas 31 anos, a revista Esquire o listava como uma das 75 personalidades mais influentes do século 21".
Antes disso o ex-presidente americano Barack Obama já havia convidado o brilhante jovem a integrar sua equipe de consultores de política externa. Desde então, Khanna é um dos mais renomados especialistas na globalização. Como "Comentarista Global" da rede de televisão americana CNN, ele dá sua opinião sobre os eventos mundiais.
"Bem vindo ao Paragistão"
A presença no Facebook desse intelectual com perfil de estrela também é imponente: são 650.000 seguidores, um número que cresce a cada dia.
Khanna saúda os visitantes sem rodeios, designando sua página no Facebook de "ParagistãoLink externo", seu território ou ainda "Paraglândia". Os vídeos que apresenta podem dar a impressão de que ele está por toda a parte do globo terrestre, sempre com respostas prontas para as questões cruciais da atualidade.
Nem impostor, nem bajulador
Por detrás de seu perfil midiático, há um conhecimento científico amplo e uma paixão incontrolável por viajar pelo mundo e conversar com as pessoas lá onde elas vivem.
"Nos últimos 15 anos eu visitei mais de 100 países em todas as regiões do mundo na tentativa de entender as soluções aplicáveis para cada local", diz Khanna.
Ele condensou seus conhecimentos em vários livros nos quais ele apresenta esboços para um futuro melhor. Em seu livro "ConnectographyLink externo" (editora Weidenfeld&Nicolson, 2016), Khanna mostra como a geopolítica e a globalização já há muito tempo não podem ser mais pensadas com as estruturas de estados nacionais, mas sim, através das redes econômicas, políticas e mentais que interconectam o mundo de hoje.
Nessa linha, Khanna prega o fortalecimento da democracia em nível local, e leva sua mensagem por todos os cantos do planeta. Khanna se vê corroborado nessa atitude por seu antigo mentor na universidade californiana de Berkeley e correspondente inspirador, o teórico da democracia Benjamin Barber.
A caminho da "tecnocracia direta"
Vista superficialmente, essa visão contrasta com seu mais recente trabalho intitulado "Tecnocracia na AméricaLink externo", onde ele apoia um sistema de "tecnocracia direta".
Ele cita Singapura, o país em que escolheu viver, e a Suíça como modelos de futuros sistemas de governo. "Ambos os países têm marcantes diferenças em relação a sistemas representativos de governo como o da Grã-Bretanha e dos EUA", diz Khanna.
O autor nos explica que os títulos escolhidos pelas editoras para seus livros são em certa medida equívocos. "Eu não sou pela abolição da democracia, e sim por seu fortalecimento".
Contradição apenas aparente
O fato de Singapura se encontrar em posições ruins nos rankings internacionais de democracia e liberdade contradiz suas teses.
"Na minha opinião, esses rankings utilizam metodologias ultrapassadas e se baseiam exageradamente nas democracias eletivas tradicionais", afirma ele relativizando aqueles resultados.
Em seu entendimento, o estado de partido único que é Singapura só é tão bem-sucedido e estável porque a liderança política concerta diariamente suas medidas com as preferências de cidadãos e cidadãs através das mais modernas formas de comunicação digital.
Antes das revoluções
Fundada em 1965 como estado independente em meio aos distúrbios políticos e econômicos do sudeste asiático, Singapura conseguiu desenvolver um modelo de negócios extremamente bem-sucedido e de grande projeção internacional nos últimos cinquenta anos.
A sustentabilidade desse modelo é, para Parag Khanna, uma questão em aberto. Nos próximos anos haverá o fim definitivo da dinastia iniciada pelo fundador do estado, Lee Kuan Yew (1923-2015). Seu filho, Lee Hsien Loong, vai continuar dirigindo o país como chefe de governo até as próximas eleições em 2020.
Não se pode falar em "co-determinação" no contexto de Singapura sem se utilizar as aspas. Os cidadãos podem de fato opinar, mas até hoje esse processo tem apenas caráter consultivo, ou seja, depende da boa vontade da família que governa o país.
Democracia direta levada a sério
Por essa razão, Parag Khanna propõe, além de maior enraizamento político local e digitalização, mais direitos para o povo nos moldes suíços.
"Democracia representativa sem a possibilidade de participação entre os pleitos degenera em um governo representativo como o que se vê em muitos sistemas presidenciais", diz ele.
É interessante notar que Khanna reconhece várias semelhanças entre Singapura e Suíça. "Devido ao seu modelo consensual, a Suíça coopta forças políticas importantes de caráter muito mais tecnocrático que se admite", diz Khanna. Uma interessante visão do exterior que suscitaria opiniões divergentes na Suíça.
"Tédio": continuidade ao invés alvoroço
Ao defender democracias mais diretas, digitais e localmente enraizadas, Parag Khanna se vê como um democrata convicto. E ele se revela como um grande adepto do "tédio político". Para mim, a expressão soa estranha; peço então esclarecimentos.
"Os dramas e tragédias nas democracias, como na eleição do presidente americano Donald Trump, só trazem alvoroço para o povo. É muito melhor quando as mesmas forças políticas se juntam para compartilhar a responsabilidade mantendo, ao mesmo tempo, o intercâmbio e o diálogo diários com cidadãos e cidadãs. Isso é o que se vê em Singapura e na Suíça."
Ao final da conversa, Khanna está claramente satisfeito com suas propostas. Sua autoconfiança lhe dá a convicção da aplicabilidade universal de suas propostas.
Contudo, muito trabalho de persuasão ainda vai ter que ser feito antes que seja instaurado o "Paragistão" em escala mundial.
Volta ao mundo da democracia
O correspondente internacional da democracia na #DearDemocracy/swissinfo.ch está em uma viajem pelo mundo desde outubro de 2017. Até maio de 2018 ele estará sentindo o pulso de democracias em mais de 20 países em quatro continentes.
Seu itinerário é financiado principalmente pela Fundação Democracia SuíçaLink externo (Schweizer Demokratie Stiftung), onde Kaufmann é responsável pela cooperação internacional. A Fundação tem parcerias com as organizações Democracy International, Direct Democracy NavigatorLink externo e com o Instituto Europeu para Iniciativas e ReferendosLink externo (IRI) entre outras.
#DearDemocracy vai trazer reportagens em várias línguas ao longo de seu itinerário.Aqui termina o infobox
Adaptação: Danilo v.Sperling