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Durante três anos, os gestores de ativos ("asset managements") europeus cruzaram os dedos, desejando fortemente que a saída do Reino Unido da União Europeia causasse um prejuízo mínimo à indústria de investimento de 25 trilhões de euros (27,8 trilhões de francos suíços). Mas uma disputa entre a UE e a Suíça, em que os serviços financeiros são uma fatalidade, está a deixar Londres e os corretores continentais ainda mais nervosos.
No final de junho, a UE permitiu que expirasse uma licença denominada equivalência, que permite que as ações suíças sejam facilmente negociadas no bloco europeu.
A Suíça retaliou com um aviso de que os bancos e os gestores de ativos seriam multados ou mesmo presos se ignorassem a proibição de transacionar ações suíças nas bolsas de valores da UE.
A disputa vem de um fracasso nas conversações sobre um acordo comercial Bruxelas-Berna. A UE e a Suíça estão tentando converter cerca de 120 acordos bilaterais separados em um quadro único. As negociações têm sido duras, com a Suíça negando-se a adotar algumas leis da UE.
A decisão de uma UE frustrada de não estender a equivalência, que permite aos investidores de países terceiros e da UE negociar livremente além-fronteiras, chocou a indústria financeira.
As autoridades admitem não saber que perturbações serão causadas pelo impasse ou pela extensão das suas implicações a longo prazo para a negociação de ações europeias.
A questão já se revelou complexa e burocrática, desencadeando telefonemas ansiosos entre os bancos de investimento, levando os reguladores a emitir conselhos de última hora e obrigando as bolsas a reformular os seus sistemas.
O receio é que alguns em Bruxelas vejam esse "cabo-de-guerra" entre a UE e a Suíça como um ensaio para uma situação semelhante que possa acontecer depois de o Reino Unido sair da UE - uma medida que teria enormes ramificações para o maior centro financeiro da Europa e para os seus investidores.
Danos colaterais
Alasdair Haynes, fundador e CEO da Aquis Exchange, uma corretora de ações do Reino Unido, sugere que as bolsas de valores podem se tornar um dano colateral no caso de um Brexit sem negociação.
"Os gestores de fundos devem estar muito preocupados", diz ele. "É claro que o que está acontecendo [com a UE não estendendo o status de equivalência da Suíça] é resultado do Brexit. Todo mundo acredita que isso é politicamente motivado. Equivalência é uma 'cortesia' da Comissão Europeia".
Michael McKee, sócio do escritório de advocacia DLA Piper, concorda que a questão suíça tem ramificações para os mercados britânicos depois da Brexit.
"A grande questão é o que acontece se este cenário se repetir numa disputa entre a UE e o Reino Unido por causa do Brexit. É claro que, quando um não quiser, dois não brigam. Se o Reino Unido tomasse uma posição semelhante à da Suíça, isso teria implicações muito maiores porque você está falando de um número muito maior de ações", diz ele.
Até recentemente, a expectativa era de que, após o final de outubro, o Reino Unido pós-Brexit seria visto como "equivalente" para o comércio de ações.
Mas a linha Suíça-UE associada ao risco de um Brexit sem negociação significa que os gestores de fundos terão de considerar o que acontecerá se não for concedida equivalência ao Reino Unido, tanto imediatamente como mais tarde.
O chamado "Brexit duro" significa que o Reino Unido saísse da UE sem um acordo, um risco que aumentou desde a demissão de Theresa May como líder do Partido Conservador no poder. Boris Johnson, o favorito para substitui-la, prometeu que o país sairá da UE até 31 de Outubro "aconteça o que acontecer".
"Não é preciso ter ganho o Prêmio Nobel para deduzir que é isso [a perda de equivalência] que poderá acontecer no caso do Reino Unido depois do Brexit", diz um executivo de gestão de ativos.
Iain Anderson, presidente executivo do Cicero Group, um grupo de lobbying, diz: "O setor de serviços financeiros do Reino Unido estará observando isso de perto, principalmente com a perspectiva presente de um Brexit duro significativamente aumentado".
Brexit tintim-por-tintim
Londres é o maior centro financeiro da Europa, com ações da Europa continental frequentemente negociadas na capital britânica, bem como em seus países de origem. Isso significa que os investidores podem comprar uma ação, digamos, da L'Oréal na França ou no Reino Unido, dependendo de onde estão os melhores preços e liquidez.
No entanto, no final de maio, a Autoridade Européia de Valores Mobiliários e Mercados, o regulador pan-europeu, emitiu uma lista de 6.200 ações que os investidores da UE só poderiam negociar na UE no caso de um Brexit duro.
Há também preocupação quanto ao efeito sobre os investidores se o regulador do Reino Unido aplicar a mesma restrição do seu lado, o que as autoridades britânicas já aventaram.
Isso pode significar que os investidores da UE terão de comprar ações da L'Oreal na UE, enquanto os investidores do Reino Unido terão que negocia-las em Londres - independentemente dos melhores preços ou liquidez.
"Isso seria uma péssima notícia para os investidores finais", diz Haynes, alertando que isso poderia criar uma liquidez fragmentada nas ações.
"Não tenho certeza de que nenhum dos políticos esteja considerando os mercados financeiros e os danos a longo prazo que podem causar. Este é o seu e o meu dinheiro, e o dinheiro dos fundos de pensão que vai ser afetado", acrescenta.
Outros, no entanto, sugerem que as chances dos mercados financeiros serem apanhados em um Brexit duro são pequenas, especialmente porque o Reino Unido é um mercado tão importante. Olivier Carré, especialista em regulação da auditora PwC em Luxemburgo, diz: "A probabilidade deste risco se materializar é muito, muito baixa. A UE não está muito interessada em ter de lidar com mercados desajustados ao lado do Brexit."
Carré sugere que a Grã-Bretanha poderia, ao invés disso, ter a equivalência concedida, pelo menos para o mercado de ações, por, digamos, um ano, com uma revisão ou renovação a seguir dependendo de como as negociações do Brexit seguirem.
"A suposição que os clientes tinham até agora é que Londres seria um mercado regulado equivalente. A única coisa que estamos tirando dessa disputa entre a Suíça e a UE é que a equivalência poderia ser retirada em algum momento", sugeriu ele. "Tudo dependerá das negociações que a UE e o Reino Unido possam ter após um Brexit duro."
Independentemente disso, muitos especialistas em regulação e corretores estão observando de perto a situação suíça. "Francamente, isso é o que acontece quando burocratas e políticos usam os serviços financeiros como um garoto de chicote. Ninguém ganha, é apenas caro para todo mundo", diz um veterano da indústria de gestão de ativos.
O rolo Suíça-EU
A proibição de negociação de ações fora da Suíça já atingiu o centro financeiro de Londres desde a sua introdução na segunda-feira.
Bolsas como a Aquis, que representa cerca de 5% da movimentação de ações suíças, tiveram que impedir os investidores de usar seus sistemas para negociar ações da Nestlé à Novartis.
Em vez disso, se um investidor quiser comprar ou vender algumas das ações mais negociadas na Europa, incluindo o UBS e a Roche, terá de recorrer a um banco ou corretor na Suíça. Zurique é o quarto maior mercado de ações na Europa, segundo a Cboe Europe.
O efeito total da proibição ainda não se tornou evidente. Uma fonte governamental disse ao Financial Times: "Pode levar semanas ou meses para a poeira assentar."
Iain Anderson, da Cícero, diz que"as discussões bilaterais em curso sobre uma série de questões entre a UE e a Suíça decorrem há muitos anos e as questões têm sido difíceis de resolver. Subsiste a questão de saber se terá ou não um impacto material nas operações".
Existe a preocupação de que a concentração do comércio na Suíça possa prejudicar a concorrência. Executivos do mercado financeiro esperam que o edital suíço resulte na mudança da maior parte das operações para Zurique. Ainda há áreas cinzentas com mercados privados administrados por bancos e plataformas de alta frequência fora do escopo das regras suíças.
Há também medo de que, com a maioria dos negócios passando pela Suíça, a bolsa local possa aumentar os custos de negociação. Alguns números da indústria sugerem que isso tornará mais difíceis as transações.
Chris Cummings, presidente executivo da Associação de Investimento, o órgão de regulação financeira do Reino Unido, diz: "O fim da equivalência para a Suíça corre o risco de criar incerteza operacional e reduzir a liquidez do mercado. É essencial que os reguladores trabalhem em conjunto para minimizar os efeitos da decisão ou os investidores serão prejudicados".
Ele acrescenta que a indústria precisa de mais clareza por parte das autoridades reguladoras em toda a Europa sobre "como elas darão à indústria a certeza de que ela precisa para continuar a gerenciar o dinheiro de nossos clientes de forma eficaz e eficiente".
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