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Paulo A. Santos foi mais uma das centenas de "mulas" estrangeiras a ser flagrada no aeroporto de Zurique pela polícia. Ele tentava trazer cocaína para a Suíça.
Condenado a 30 meses de prisão, o brasileiro conta a swissinfo sua experiência nas penitenciárias helvéticas.
A sala de visitas na Colônia Penal de Ringwil (ler reportagem "Uma prisão cinco estrelas") é um espaço discreto. Os cinco metros quadrados se constituem de três cadeiras, duas mesas, um telefone e uma janela sem grades, coberta apenas por uma cortina branca.
O rapaz que bate na porta e pede licença para entrar não parece um presidiário. Com cabelos compridos amarrados num pequeno rabo-de-cavalo, colete de nylon por cima da camiseta esportiva e um relógio de estilo clássico no pulso, ele até poderia se passar por um estudante. Porém Paulo A. Santos, 29 anos, brasileiro nascido em São José dos Campos, não veio aprender. Ele foi condenado por tráfico de drogas.
Paulo admite que cometeu um grande erro. Para swissinfo, ele conta que estava passando uma situação difícil, com dívidas e problemas com a justiça e a família, quando foi convencido por um amigo a trabalhar para um grupo de nigerianos. Ele transportaria para eles uma mercadoria de São Paulo até Zurique e, em troca, receberia de graça uma passagem de avião e mais mil dólares. Seu sonho era se estabelecer na Europa e ganhar dinheiro suficiente para colocar seus três filhos em escola particular.
Ele não era inocente, pois sabia que teria algo ilegal na bagagem. Mas os nigerianos lhe explicaram que tudo iria dar certo, pois conheceriam todos os "esquemas" nos aeroportos. Além disso, outras "mulas" também estariam no avião.
Depois de ter sido flagrado com uma grande quantidade de cocaína ao desembarcar no aeroporto de Zurique, Paulo foi preso e condenado a 30 meses de prisão. Era sua primeira viagem de avião.
No dia 30 de maio ele terá cumprido dois terços da pena. A polícia irá buscá-lo em Ringwil para levar ao mesmo lugar que chegou: o aeroporto de Zurique.
Paulo A. Santos contou sua história a swissinfo. Leia aqui a entrevista e escute os áudios para ter mais detalhes.
Paulo, de onde você vem no Brasil? Fale um pouco sobre a sua família.
Eu venho de São José dos Campos, no Estado de São Paulo. Venho de uma família grande. Somos sete irmãos e só temos a mãe. Não tem pai. Eu vivi com a minha mãe até os treze anos. Depois me juntei com uma mulher e aos quatorze já era pai. Agora tenho três filhos que estão no Brasil. A mais velha tem 13 anos, a outra tem 11 e o mais novo, seis anos.
Você freqüentou a escola ou concluiu alguma formação profissional?
Eu fiz até a oitava série e depois tive de parar para começar a trabalhar. No começo vendia carros e depois passei a trabalhar como pedreiro na construção civil. Cheguei até a fazer um curso técnico nessa área.
E quando surgiu a vontade de ir para o exterior?
Acho que foi aos 19 anos, quando comecei a sonhar em sair do Brasil. Você sabe como é a vida por lá, a dificuldade de encontrar emprego, a batalha diária. Eu queria ir para a Espanha, pois lá se fala um idioma que eu entendo melhor. Então comecei a juntar dinheiro para fazer essa viagem, mas é difícil quando você tem três filhos, alguns deles sempre doentes. Eu também vivia me separando da mulher, tendo casos com outras, vivendo lá e cá. Depois tive um problema com a justiça devido à separação e por não pagar pensão. Cheguei até a colocar uma arma na cabeça de um juiz no desespero e fui procurado pela polícia. Perdi tudo e voltei para a casa da minha mãe sem nada. Era uma espécie de ovelha negra na família.
E então surgiu uma possibilidade que acabou levando você para fora do país?
Nessa época eu conheci um rapaz. Depois ele me emprestou um dinheiro. Um dia ele me contou que trabalhava com uma coisa e que conhecia pessoas que poderiam me levar para o exterior e me arrumar um emprego por lá. Aí eu perguntei: - mas em troca do quê? Ele não quis dar muitos detalhes, mas pediu que eu arrumasse meus documentos, arrumasse alguém para cuidar do filho e me preparasse para viajar para Zurique. Eu teria apenas que levar uma encomenda.
E você não perguntou o que era?
Eu não quis saber do que se tratava. Eu disse simplesmente que ia. Na verdade queria mesmo era sair do Brasil. Eu nunca tinha mexido com esse negócio de cocaína, drogas. Meu negócio era trabalhar de pedreiro. O único vício que tenho na vida é mulher. Sempre tive muitas namoradas ao mesmo tempo. Assim eu comecei a levantar meus papéis. Ele pagou a documentação para mim, ajudou-me a tirar o passaporte e me deu mais dinheiro para cuidar do meu filho. Depois não tinha mais como dizer não para ele. Eu podia até morrer, pois não conhecia o cara direito.
Esse amigo fazia parte de um grupo criminoso?
Mais tarde eu descobri que ele estava envolvido com uma quadrilha de criminosos, mas na minha cidade era visto como um pai de família. Não sabia que ele ganhava comissão por cada pessoa que mandava ao exterior. Uma semana antes de vir, ele me apresentou uns nigerianos lá em São Paulo. Um deles me falou que eu iria entregar uma mala para um conhecido dele em Zurique. Eles também me prometeram mil dólares para a viagem e mil e quinhentos depois, quando eu retornasse para o Brasil.
Assim você descobriu que iria transportar cocaína para a Suíça?
Não, ele falou que eu iria transportar algo de ilegal. Eu ainda perguntei e ele respondeu que seria uma droga, apenas isso. Quando quis saber o que poderia acontecer comigo se a polícia me pegasse, o nigeriano disse que não haveria problema, pois no Brasil dava para passar tranqüilo e na Suíça eles organizariam tudo no aeroporto. Então eu recebi uma mala, pequena como as de mulher, e um pedaço de papel com um número telefônico. Eu também lhes disse que era a primeira vez que estava viajando de avião.
Como você foi pego no aeroporto de Zurique pela polícia?
A viagem decorreu normalmente. Desci em Lisboa, onde troquei de avião. A mala foi transferida automaticamente e eu então cheguei em Zurique. Depois de buscar a mala na esteira rolante, a polícia veio direto para mim. Era como se eles já estivessem sabendo de tudo. Não acredito que eles tivessem desconfiado de mim, pois não dava para perceber nada, mas acho que alguém já havia os informado.
E como você se sentiu?
No início eu fiquei meio apavorado, mas a polícia me tratou muito bem. Eles até falavam uma mistura de espanhol e italiano comigo. Não havia armas ou violência. Mas tarde tentei ligar para as pessoas que haviam me enviado para essa viagem, mas o conhecido na minha cidade já havia desaparecido. Depois fiquei sabendo que um dos brasileiros que tinham viajado comigo conseguiu voltar a nossa cidade para recebeu o resto do seu pagamento. Parece que o esquema dessas máfias é de tentar com quatro pessoas ou mais, sabendo que um pode ser pego.
Então você foi imediatamente preso?
A polícia me explicou que eu seria preso por estar trazendo cocaína na bagagem. Então eles me levaram para um lugar horrível chamado "caserna" (nota da redação: prisão temporária para pessoas que estão sendo investigadas). Nesse local fiquei uma semana.
A polícia começou logo então a investigar a sua viagem?
Eu era levado todos os dias para uma sala onde estava um investigador e uma intérprete. Eles me faziam todos os tipos de perguntas e diziam que iriam checar a verdade no Brasil. Nesse meio tempo eu fiquei doente e tive de ir para o hospital. Eu estava com pedra nos rins. Lá fui muito bem tratado por uma médica simpática que até falava espanhol. Ela me conseguiu café, mortadela e pão francês como no Brasil. Quando melhorei, eles me transferiam de prisão. Quando cheguei nesse local fui ver por que era tão bom estar na Suíça. Eu saí de um buraco negro, de onde você praticamente conhecia o diabo lá dentro, para ir para um lugar onde estava Deus. Era praticamente um hotel o local onde eu fui transferido.
Como se chamava a prisão para onde você foi?
Fui para a BGZ (nota da redação: sigla para "Bezirkgefängnis Zürich", prisão municipal de Zurique), um prédio com quatro andares, o último até para mulheres. Logo de cara, quando cheguei, eu olhei e pensei que estava num hotel. Depois de receber algumas roupas, material de higiene e umas bolachas, fui levado para uma cela onde já havia um outro brasileiro. Lá havia televisão, playstation, cafeteira e tudo mais que é necessário para o conforto. Eu perguntei a ele como era estar na prisão e ele respondeu que até preferia ficar por lá do que na rua. Isso, pois a vida na rua também tem suas regras, enquanto que na prisão existem as regras também. Mas lá, quem as fazia éramos nós, os brasileiros, pelo menos naquele espaço em que vivíamos.
Como era o dia-a-dia nessa prisão?
A gente ficava o dia inteiro na cela. A porta só era aberta das nove até as dez, o tempo necessário para o passeio. Para mim isso não era um problema, pois tudo que a gente precisava tinha dentro da cela. A gente conversava com outros gritando através das grades - "escuta aí vagabundo, como é que é?". O único problema que senti nessa prisão é que só podia tomar banho duas vezes por semana, sempre em grupo de quatro presos e, no máximo, por vinte minutos. Quanto ao trabalho, eles levavam para as nossas cela algumas coisas de montar, como colocar estampas em bonés da Adidas. O dinheiro era colocado numa conta e eu já comecei a mandar uma parte para casa.
Foi fácil trabalhar na prisão?
Sim! Eu logo disse que era pedreiro e que queria trabalhar. Assim o diretor fez um teste comigo: ele me mostrou uma parede que precisava ser renovada e eu dei cabo dela em uma semana. No início, apesar de não entender as palavras em alemão para cimento ou areia, comecei a misturar tudo até conseguir a fórmula correta. Eu recebia 25 francos por dia e até um pouco mais quando continuava a trabalhar dentro da cela.
Quanto tempo você ficou na BGZ e o que aconteceu depois?
Lá eu fiquei quatro meses. Nesse meio tempo eu sempre ia para investigação, brigava com um policial que fumava um cachimbo fedorento e tentava explicar a minha história para eles. Eu dizia que o combinado era se encontrar com alguém num bordel, mas eles falavam que esse lugar não existia. Eu falava que iria trabalhar e eles diziam que não era possível trabalhar legalmente na Suíça. Mas muitos outros presos já tinham feito o mesmo. No final da investigação, eu recebi uma carta dizendo que iria trocar de prisão. Era uma pena, pois cheguei a ganhar nela 1.500 francos por mês, um dinheiro bom que mandava para o Brasil. Eu contei para a minha mãe que estava preso por drogas, mas que tentaria ajudar o meu filho mesmo estando na prisão.
Você foi julgado então...
Então fui mandado para a prisão de Regensdorf. Depois ocorreu o julgamento, que foi uma palhaçada, não tenho medo de dizer aqui na entrevista. O juiz foi um louco. Ele colocou uns quarenta alunos de 10 a 15 anos atrás de mim no tribunal, fez umas perguntas ao meu advogado, que foi pago pelo Estado. Depois eles disseram que eu cometi um crime grave, que prejudiquei as crianças trazendo droga para a Suíça e até me chamaram de "mula". Então o juiz me sentenciou com uma pena de 30 meses de prisão, vinte em regime fechado e dez em aberto. No dia 30 de maio serei expulso da Suíça.
Você ficou também numa das maiores prisões da Suíça, a de Regensdorf. Como foi lá?
Foi uma prisão muito boa também. Eu trabalhava todos os dias. Tinha mais horas livres e também o direito de telefonar. O único problema é que gastava muito dinheiro nele.
Você ficou também numa das maiores prisões da Suíça, a de Regensdorf. Como foi lá?
Foi uma prisão muito boa também. Eu trabalhava todos os dias, tinha mais horas livres e também o direito de telefonar. O único problema é que gastava muito dinheiro ligando. Lá haviam também muitos brasileiros presos.
Nesse local não havia problemas de violência, de gangs ou pessoas perigosas?
Não muito. Haviam os viciados em droga que podiam roubar as nossas coisas. Mas sempre que tinha briga, os policiais separavam. Os mais duros eram os albaneses, mas eles não mexiam com os brasileiros. Eu mesmo só briguei duas vezes, pelo uso do telefone. Mas você dá a porrada que a pessoa merece e a história termina por aí. Foi com um africano e um dominicano. Mas nesse caso os próprios presos nos separam. Quanto à questão da disciplina, quando não cumpríamos as regras da prisão, éramos levados para o chamado "bunker", um quartinho escuro onde a pessoa fica sozinha de castigo. Isso valia também para quem usava drogas. Uma pessoa chegou a ficar dez dias depois de esfaquear o colega de quarto depois de brigar pela televisão.
No final da sua pena você foi transferido para a Colônia Penal de Ringwil?
Fiquei dez meses em Regensdorf. Depois vim para cá por bom comportamento e, quando terminar de cumprir dois terços da pena, volto para o Brasil. O problema aqui em Ringwil é que a gente trabalha muito e ganha pouco. Por outro lado eu tenho dias de saída, que eu aproveito para visitar um amigo, um peruano que conheci na prisão. Eu já estive duas vezes na casa dele e ele me levou para passear em Zurique. Além disso, também me encontro com o pessoal da igreja latina, que me ajuda muito com apoio espiritual, me dando tranqüilidade. Na colônia somos cinco brasileiros. Cada um tem um trabalho diferente. Eu fico mais no jardim, outros trabalham na mata ou nas oficinas (nota da redação: ler reportagem "Uma prisão cinco estrelas")
Faltam dois meses para você terminar de cumprir a pena e ser expulso para o Brasil. Quais são seus planos agora?
Eu vou continuar a trabalhar e rezar para o tempo passar devagar. A verdade é que eu gostaria muito de ficar mais um tempo na prisão e não voltar agora para o Brasil. Se eu ficasse preso aqui mais um ou dois anos poderia juntar um dinheiro para poder ter uma vida melhor no Brasil. Cheguei até mesmo pedir ao juiz para ficar, porém ele não autorizou. Para que eu vou voltar ao Brasil? Você sabe como é a vida por lá, como é complicado encontrar um emprego de uma hora para outra. Mesmo fechado na prisão, aqui você não arruma problema, ninguém te mata. No Brasil a história é diferente. Eu gostaria de trabalhar num serviço honesto aqui na Suíça, mas se não for possível, ficaria até mesmo na prisão. Em Ringwil posso tirar mil francos por mês. No Brasil esse é o salário de um engenheiro. Minha mãe trabalha há dez anos na prefeitura e ganha apenas 600 por mês.
Depois da expulsão, o que você planeja fazer no Brasil?
Não sei! Eu não gostaria nem de voltar para a casa da minha mãe, pois tenho medo das pessoas que arrumaram a minha viagem para cá. O lance é que eu não menti para a polícia. O que eles me perguntaram, eu contei. Eu dei todos os nomes que tinha.
E saindo da Suíça o seu nome fica sujo na Europa?
Acho que não. Como o juiz me explicou, o nome só fica sujo aqui na Suíça. Mas na verdade ele não fica sujo, pois eu já estou pagando a minha dívida com a sociedade. Depois de dois anos eu poderia voltar (nota da redação: segundo o Departamento Federal de Imigração, a Suíça ainda não está no espaço Schengen, e dessa forma os dados sobre pessoas que cometeram crimes não são ainda trocados com países como Alemanha, Espanha, Itália ou Portugal).
Mesmo você descrevendo algumas prisões como hotéis, a questão é que na Suíça você perdeu a sua liberdade. Que lição você vai levar para o Brasil depois de vinte meses de cárcere?
Foi uma experiência nova para mim. Eu nunca tinha sido preso na minha vida. Para muitas pessoas perder a liberdade é a pior coisa do mundo, pois a família e tudo está em primeiro lugar. Para mim foi...eu não senti diferença, foi igual, pois eu estava preso dentro de muitos problemas. Que liberdade é essa? Liberdade de aprontar alguma coisa errada na rua?
Você se tornou uma pessoa melhor?
Sim, eu acho que melhorei cem por cento. O pensamento é outro agora. Eu aprendi a ter uma certa disciplina, pois aqui tem hora para tudo. Também fiz muitas amizades. Uma coisa que descobri é que o latino é realmente muito mais carinhoso do que o suíço. Aqui parece que todo mundo funciona como um robô: se apertar o botão, apaga. Veja no Brasil: quando a mãe quer visitar o filho na cadeira, ela chega a ficar horas no sol para poder vê-lo. Aqui a mãe liga e fala apenas alguns minutos com o filho no telefone. Acho que isso é a única coisa que não quis aprender.
swissinfo, Alexander Thoele
Breves
Em 2005, a Polícia Cantonal e a Guarda de Fronteira no aeroporto de Zurique confiscaram 209 quilos de cocaína, 88 quilos de heroína, 112 quilos de haxixe e 3 toneladas de maconha.
Em 2005, o Consulado Brasileiro em Zurique registrou 47 brasileiros em prisões suíças. Porém o número não espelha a realidade, já que a maior parte dos brasileiros não entra em contato com as representações diplomáticas do Brasil e nem as autoridades suíças têm obrigação de contatá-las.
No primeiro trimestre de 2006, a polícia cantonal prendeu no aeroporto de Zurique um brasileiro que tinha dois quilos de cocaína escondidos em frascos de xampu. Pouco antes do natal de 2005, a polícia prendeu outro brasileiro que havia escondido um quilo de cocaína escondido em pacotes de presente de natal.