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Espremida entre a principal via de acesso e a linha de trem, além de estar distante uma longa caminhada do centro da cidade, Mülital é o tipo de bairro que os habitantes desejam abandonar.
Em uma noite típica, muitas das 60 crianças residentes se divertem ao longo de um caminho entre os blocos residenciais, construídos nos anos sessenta, e uma fila de garagens.
Mülital é parte do vilarejo de Schmitten no cantão de Friburgo (oeste), mas também um lugar que não pertence a ele, um lugar que a maioria dos habitantes de Schmitten nunca visita. Alguns descrevem o bairro como uma espécie de "gueto".
Mas o Mülital também tem alguns fãs e se tornou foco do tipo de trabalho comunitário que promete dar resultados.
Recentemente, ativistas distribuíram panfletos aos moradores com informações sobre um programa de eventos para crianças e adultos com duração de uma semana. Eles estavam disponíveis em idiomas como o albanês, servo-croata, curdo, turco, português e também a língua local, o alemão.
O objetivo do projeto é de firmar contatos entre a comunidade do Mülital e o restante dos habitantes de Schmitten, tanto em um nível formal como também informal.
Batendo nas portas
E como realizar isso na prática? swissinfo.ch participou de um dos eventos, uma noite informativa ao ar livre no Mülital, onde clubes e associações locais apresentariam suas atividades a um público que eles provavelmente não atingem de outras formas.
Uma das organizadoras, Yvette El-Fen, bateu em cada porta no bairro para encorajar as pessoas a participar. Ela achau fácil de encontrar os habitantes do Mülital, já que ela foi professora de alemão de muitos deles.
El-Fen é a pessoa que elas gostam de procurar nas horas complicadas. Como, por exemplo, para preencher formulários ou responder questões sobre o sistema de ensino ou dos vários tipos de problemas ligados à burocracia.
"Gosto do meu trabalho de ensinar e ajudar as famílias, pois vejo resultados. Cada comunidade deveria ter o tipo de cursos de língua como o oferecido em Schmitten", afirmou.
Mas esse projeto vai além de simplesmente aproximar as pessoas e encontrar novos membros para o clube de badminton, como exemplo. Os organizadores querem entregar a iniciativa aos próprios moradores. O que acontecerá depois depende dos habitantes do Mülital.
Três gerações
Ao falar com as pessoas sobre seus desejos, o primeiro tópico que surge é a necessidade de encontrar um local para as crianças brincarem.
Três gerações da família Limani vivem em um apartamento térreo no Mülital. Ramadan Limani trabalha em Schmitten e domina bem o alemão. Ele chegou à Suíça originário do Kosovo quando ainda era criança. Sua esposa e a mãe frequentam os cursos de língua de El Fen.
"Nós embelezamos o jardim para as crianças, mas você não pode mantê-las o tempo todo por lá. Preocupamos-nos com a segurança", disse Ramadan. "Nós necessitamos de muros melhores nos dois lados, o da linha de trem e o da rua. Talvez também um meio de parar os carros em alta velocidade."
Os Limanis sonham em se mudar um dia para a colina próxima ao vilarejo. "Lá existem algumas áreas muito bonitas."
Provavelmente é mais fácil atender as necessidades das crianças mais jovens. Assim que começam a frequentar a escola, elas dispõem de cursos adicionais de línguas, clubes de artesanato ou de esporte.
Lições de vida
Mas as necessidades dos grupos que já saíram da escola precisam ser levadas em consideração. "As crianças mais velhas precisam de acompanhamento. É necessário prepará-las melhor para a vida e impedir que tomem decisões erradas", completou Limani.
Decisões erradas feitas por antigos moradores do
Mülital colocaram Schmitten no foco de publicidade negativa, algo que os habitantes da cidade levam tempo para perdoar. O pior caso de estupro cometido por uma gangue ocorreu há quatro anos. Na mídia a história ficou conhecida como "O caso de Schmitten".
A ideia de estender a mão ao Mülital veio de Kevin Auderset, membro do conselho comunal (municipal) e responsável pela pasta da juventude. "Apesar de ter nascido em Schmitten, não conhecia realmente o Mülital. Isso, porque nunca havia visitado o lugar", revelou.
Esse desconhecimento durou até o outono do ano passado, quando a curiosidade levou Auderset a caminhar pela área. Quando percebeu o desconforto em que viviam as crianças, ele decidiu tomar providências. Então solicitou a ajuda da Mano Verde. Agora essa organização caritativa em prol do desenvolvimento está ativa na área com monitores jovens, assistentes sociais e até escoteiros.
Juntos, eles desenvolveram um programa semanal de eventos para crianças e adultos que terminou no último sábado (14/05) com uma caça ao tesouro na floresta acima do Mülital.
Embaixadores locais
"A primeira parte do projeto foi conhecer os moradores e encontrar pessoas-chave que poderiam representar essa comunidade", explicou Auderset.
Um dos melhores "embaixadores" do Mülital é Rewan Muhamad, um jovem confiante e caloroso de apenas 18 anos. Além de frequentar o ginásio em Friburgo, ele também tem um emprego parcial em um call-center, além de ser líder escoteiro.
"Gostaria de ir à universidade e, talvez, me tornar assistente social", disse o primogênito de uma família com cinco crianças em um excelente inglês, com sua irmã pequena sentada no seu colo. Rewan chegou à Suíça com sua família em 2000, originários do Iraque. Eles eram solicitantes de asilo político.
A segunda parte do projeto é de juntar moradores motivados em um workshop em junho para falar sobre as carências do bairro e trazer ideias de melhora e mudança. "O objetivo é que as pessoas reflitam sobre sua situação e decidam, eles mesmos, o que pode ser mudado. Isso tem de vir deles", afirmou Auderset.
Christoph Oesch, da Mano Verde, está otimista com as perspectivas do Mülital. "A comunidade (as autoridades de Schmitten) está disposta a se comprometer em longo prazo uma vez que o impulso foi dado pelos moradores. Eles podem se candidatar a bolsas de diferentes órgãos assim que tiverem uma ideia do que é necessário."
Projeto de integração
O projeto Mülital recebeu o apoio de 5 mil francos das autoridades comunais (municipais), 3 mil da paráquia católica e mais 3.500 da Secretaria Cantonal da Juventude.
Supervisionado por Kevin Auderset, um membro do conselho local responsável pela juventude, o projeto envolveu assistentes sociais, professores de língua e escoteiros.
A equipe de Schmitten contratou os serviços da instituição de caridade Mano Verde, que se especializou em eventos jovens e projetos participativos.Aqui termina o infobox
Cantão de Friburgo
Sete distritos, 168 comunas (municípios), incluindo Schmitten.
População (estimativas de 2009): 277.811
População estrangeira (estimativas de 2009): 50.843
Naturalizações: (2009): 833Aqui termina o infobox
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch