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Gondoleiro vota em Veneza(afp_tickers)
Depois de uma vitória com folga a favor da autonomia nos dois referendos realizados neste domingo na Lombardia e em Vêneto, as duas regiões do norte da Itália anunciaram nesta segunda-feira que exigirão de Roma um controle maior de suas próprias finanças.
Em Vêneto, a participação nesta consulta popular atingiu 57% e o sim venceu com 98%. Na Lombardia, onde os números oficiais ainda não foram anunciados em razão de problemas com as urnas eletrônicas, cerca de 38% dos eleitores votaram, 95% pelo sim.
O Vêneto (5 milhões de habitantes) e a Lombardia (10 milhões) estão entre as regiões mais ricas da Itália e, em conjunto, representam 30% do PIB nacional.
As duas regiões acusam Roma de desperdiçar seus impostos e querem negociar a natureza e a extensão de sua autonomia, que deverá então ser validada pelo Parlamento.
O presidente do Vêneto, Luca Zaia, membro do partido de extrema direita Liga do Norte, falou em um "Big Bang" institucional, ressaltando que o desejo por autonomia era compartilhado "por uma população inteira", e não apenas por seu movimento político.
O conselho regional se reunia nesta segunda-feira para discutir o projeto a ser apresentado ao governo central.
"Nós vamos pedir 23 competências, o federalismo fiscal e os 9/10 de impostos, exatamente como a Constituição prevê", disse Zaia, que exigirá que Vêneto se torne uma "região de status especial".
Além do reforço das competências em matéria de infraestrutura, saúde e educação, as duas regiões também pretendem obter o retorno de grande parte do seu saldo tributário: seus habitantes pagam atualmente 70 bilhões de euros por ano em impostos que não recebem em despesas públicas.
Esta situação é ainda mais inaceitável para os líderes das duas regiões, uma vez que os fundos públicos são, de acordo com eles, mal administrados em Roma e poderiam ser muito mais eficientes, inclusive através de parcerias entre regiões.
Neste sentido, Zaia denunciou "30 bilhões de euros" desperdiçados todos os anos.
Primeiro membro do governo central de centro-esquerda a se expressar, o ministro da Agricultura, Maurizio Martina, também subsecretário do Partido Democrata, assegurou que "as questões fiscais, assim como a segurança", não são negociáveis.
Mas Zaia respondeu ao ministro , ressaltando que seu "único interlocutor" era o chefe de governo, Paolo Gentiloni.
A votação ganhou um tom particular após o referendo de autodeterminação da Catalunha, mesmo que seus organizadores tenham reiterado diversas vezes a legalidade da consulta dentro da unidade italiana. Os separatistas são minoritários nessas regiões.
"Mais de 5 milhões de pessoas votaram pela mudança", Vêneto e Lombardia "deram uma lição de democracia a toda a Europa, escolhemos o caminho legal, pacífico e constitucional", comemorou Matteo Salvini, líder da Liga do Norte.
"Todos nós queremos menos desperdício, menos impostos, menos burocracia, menos restrições estatais e da União Europeia, mais eficiência, mais empregos e mais segurança", afirmou.
Paralelamente à crise na Catalunha, ao Brexit e ao referendo de independência que fracassou parcialmente na Escócia, a consulta italiana se inscreve num quadro de "desespero" em relação aos Estados centrais e à União Europeia, de acordo com Lorenzo Codogno, especialista da LC Macro Advisors.
A sua incapacidade de "fornecer respostas apropriadas é um terreno fértil para protestos, movimentos 'antiestablishment', nacionalismo e regionalismo", adverte.
E embora o processo de autonomia em Vêneto e na Lombardia "não ameace a unidade (da península), corre o risco de abrir a caixa de Pandora e colocar em ação grandes forças centrífugas na Itália", aponta Codogno.
Para o comentarista político italiano Stefano Folli, esta votação ocorre em "uma Europa que tende a uma fragmentação", e o resultado, que "capturou a crescente divisão entre Norte e Sul", poderia piorar esta desconfiança.
AFP