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A manutenção dos contratos bilaterais com a União Europeia e o desenvolvimento e implementação de uma virada energética planejada. Estas são as duas prioridades do Partido Burguês-Democrático Suíço – BDP para o próximo período legislativo. Entrevista com Martin Landolt, presidente do partido.
"Começamos mal o ano eleitoral", admite abertamente Martin Landolt - oriundo do cantão de Glarus e membro do Conselho Nacional -, após a derrota nas eleições cantonais. Mas ele está confiante de que os eleitores escolherão outros parâmetros nas eleições nacionais e que o partido e a política de centro sairão fortalecidos.
swissinfo.ch: Quais são as duas principais prioridades do Partido Burguês-Democrático – BDP para o próximo período legislativo?
A entrevista foi realizada em março de 2015.Aqui termina o infobox
Martin Landolt: Em primeiro lugar a manutenção e defesa dos contratos bilaterais com a União Europeia, um esclarecimento das nossas relações com a Europa e uma redução do período de incertezas em relação aos detalhes e à implementação da Iniciativa contra a Imigração de Massa.
O segundo ponto é o desenvolvimento e implementação de uma virada energética planejada. Queremos aproveitar bem esta chance econômica, e uma primeira parte já está sendo elaborada no Parlamento. A segunda parte, a reforma tributária ecológica com um sistema condutor, será outro tema que vamos defender com afinco.
swissinfo.ch: Vocês querem defender os acordos bilaterais com a União Europeia. O quanto o BDP está disposto a avançar a fim de salvar estes acordos?
M.L.: Para nós, os acordos bilaterais são centrais. Há três possibilidades de manter uma relação com a Europa. Uma delas seria o isolamento e outra seria a adesão como país membro. Não queremos nenhuma das duas.
Então nos restam os acordos bilaterais, que queremos ancorar na constituição, para que fiquem esclarecidos. Achamos que esta é a vontade do povo, mesmo depois da votação de 9 de fevereiro de 2014 (votação da Iniciativa contra a Imigração de Massa), pois nesta votação o povo demonstrou que gostaria de diminuir a imigração.
Nós fomos o único partido até agora que apresentou caminhos para colocar este desejo do povo em prática, diminuindo a imigração através de priorização da força de trabalho dos cidadãos suíços, sem com isso colocar em risco os acordos bilaterais.
swissinfo.ch: Que receita o BDP possui para minimizar os efeitos da alta valorização do franco suíço?
M.L.: A resposta mais honesta seria nenhuma. A valorização do franco suíço tornou-se um fenômeno importante e representa um grande desafio. A valorização do franco não é algo novo, há décadas temos uma moeda forte e mesmo assim mantemos uma indústria de exportação bem-sucedida.
O que não faremos é cair agora em oportunismo político, tentando usar a valorização do franco para apoiar projetos menos populares. Se encontrarmos medidas específicas eficientes a curto prazo – e estamos procurando –, estamos dispostos a implementá-las.
Mas não iremos simplesmente nos aliar ao grito coletivo por desregulamentação e redução da burocracia, que não é muito concreto e está há anos nas plataformas dos partidos.
swissinfo.ch: Nos últimos anos, o islamismo tem gerado polêmicas como o debate sobre o uso do véu, radicalismo, atos terroristas. Que lugar o Islâ deve ter na sociedade suíça?
M.L.: Separando bem estado e religião, o islã tem que ter espaço na Suíça, mas não deve tornar-se uma religião como a católica ou a luterana, que estão ancoradas no currículo escolar.
Sou a favor de uma sociedade liberal, e esta é a postura do Partido Burguês-Democrata Suíço – BDP. Temos que dar ao islã o seu lugar, e às pessoas, temos que dar a liberdade de seguirem a sua fé, contanto que elas respeitem as regras gerais da nossa convivência, o modo como a nossa sociedade está estruturada.
swissinfo.ch: O Partido Burguês-Democrático Suíço – BDP sofreu algumas derrotas nas eleições cantonais nos últimos tempos. Qual é a reação do partido visando as eleições nacionais?
M.L.: Foram duas eleições cantonais. Não há nada para ser amenizado. Sofremos duas grandes derrotas nos cantões de Berna e Basileia-Estado. Analisamos estas duas derrotas e, até agora, constatamos motivos diferentes, que não apresentam nenhuma relação com as eleições nacionais.
Mesmo assim, é claro que sempre é difícil dizer que uma derrota não tem nada a ver com as eleições nacionais.
Começamos o ano eleitoral mal. Mas partimos do pressuposto de que os eleitores têm outros parâmetros para a eleições nacionais e que seremos avaliados por questões nacionais, e que, como partido presente no Conselho Federal, teremos outras possibilidades de trabalhar buscando soluções, mais do que é possível fazer a nível cantonal.
swissinfo.ch: Atualmente o Partido Burguês-Democrático Suíço parece permanecer forte apenas nos cantões em que já possuia uma base anterior (Graubünden, Glarus, Berna). Como vocês pretendem ampliar a presença a nível nacional, especificamente na Suíça de língua francesa?
M.L.:Temos três categorias de cantões. Primeiramente os três cantões fundadores: Glarus, Berna e Graubünden, onde somos relevantes e podemos atuar no governo.
Depois, temos cantões onde não temos nenhum cargo administrativo. Nestes cantões fica difícil nos apresentarmos politicamente, embora tenhamos muitos afiliados lá.
Por último, existe uma estrutura central, em cujos parlamentos cantonais estamos presentes e em parte somos aliados da bancada. Aí realmente não conseguimos utilizar esta plataforma para nos qualificarmos a nível cantonal. Foi o que mostrou a análise realizada em Basileia-Estado. Por isso acreditamos que estamos construindo bem a campanha para a eleição nacional, pois estamos apresentando bandeiras pelas quais o Partido Burguês-Democrático lutou com sucesso nos últimos anos e pelas quais quer continuar lutando no futuro.
E se estes temas e os resultados que obtivemos servirem de parâmetros para nosso trabalho, acredito que seremos recompensados por um número significativo de eleitores.
swissinfo.ch: Muitos dizem que o Partido Burguês-Democrático – BDP "é um partido minúsculo que se dá o luxo de ter um representante no Conselho Federal". Que chances o senhor acha que o seu partido tem de manter o lugar no governo depois das eleições? Será que com uma votação de pouco mais de 5% ainda será possível manter o posto no governo?
M.L.: Somos o menor partido presente no Conselho Federal, temos consciência disso. Não pretendemos parecer maiores do que somos. Não fomos nós que escolhemos este caminho, mas o surgimento do PBD foi muito especial. Ele foi um partido que cresceu de cima para baixo, e não de baixo para cima.
Mesmo assim queremos nos engajar e consolidar nossa posição como um partido que busca soluções juntamente com a nossa conselheira federal, mas também independentemente dela. Temos a convicção de que os partidos que buscam soluções sairão fortalecidos desta eleição para o Parlamento, e que, fazendo parte destes partidos, participaremos da maioria no Parlamento e no Conselho Federal.
No Conselho Federal, nossa conselheira é uma pessoa importante. Além do excelente trabalho que realiza, ela também vai garantir a maioria a fim de que projetos de longo prazo, como a mudança energética, a reforma dos impostos para empresários, a reforma financeira e a manutenção dos acordos bilaterais com a UE possam ter continuidade e não haja uma virada de 180 graus na formação da maioria no Conselho Federal.
swissinfo.ch: O senhor vê o seu partido em 2016 ainda com um posto no Governo Federal?
M.L.: Parto do pressuposto de que teremos uma conselheira federal do Partido Burguês-Democrático em 2016 e que ela será apoiada por um partido fortalecido e por uma política de centro mais fortalecida.
Partido Burguês-Democrático
O partido surgiu depois da não reeleição do conselheiro federal Christoph Blocher,do Partido do Povo Suíço – SVP, em dezembro de 2007. Ele foi fundado no cantão de Glarus a 1° de novembro de 2008.
Com a ministra das Finanças Eveline Widmer-Schlumpf, que entrou no lugar de Christoph Blochers, o partido passou a ter uma representante no Conselho Federal, órgão máximo do governo.
Nos cantões de Berna, Graubünden e Glarus, o Partido do Povo Suíço – SVP foi fundado em 1971 a partir do Partido Democrático, respectivamente do partido dos agricultores, da indústria e dos burgueses (Cantão de Berna), por isso o Partido Burguês-Democrático Suíço ganhou afiliados rapidamente nestes cantões. Atualmente o partido possui 17 partidos cantonais.
Nas últimas eleições, em outubro de 2011, o partido contabilizou ganhos: tornou-se efetivo da bancada do Parlamento com 5,4 % de eleitores e entrou com nove representantes para o Conselho Nacional e com uma pessoa para o Conselho dos Estados.Aqui termina o infobox
Adaptação: Fabiana Macchi