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O algoritmo é um editor? Ou o editor é um algoritmo? Ou ambos? O debate está particularmente aceso depois de o Facebook ter aberto definitivamente os seus “instant articles”. No futuro, serão as plataformas a fazer o trabalho de edição que antes era feito pelos jornalistas? E isso é bom ou é mau?
Num artigo recente publicano no The Wall Street Journal, Jeffrey Herbst argumenta que, embora não o assumindo, as plataformas como o Facebook, o Google ou o Twitter são cada vez menos apenas meios de distribuição neutros e são cada vez mais como meios de comunicação social, com uma postura editorial em relação à informação que distribuem. A questão não é nova e tem sido abordada recorrentemente, entre outros, por Emily Bell, Directora do Tow Center for Digital Journalism. Mas, claro, o tema tornou-se ainda mais incontornável depois de o Facebook ter aberto os “instant articles” a todos os media. Com os conteúdos noticiosos a serem consumidos, cada vez mais, dentro das próprias plataformas de distribuição, as decisões editoriais tendem a passar para as mãos das empresas que exploram e detêm essas plataformas.
Será o algoritmo realmente um editor?
A questão é interessante. Mas ela torna-se ainda mais interessante se a voltarmos ao contrário e perguntarmos: O editor é um algoritmo? Ambas as perguntas são igualmente pertinentes.
Claro que seria ingénuo pensar que os algoritmos não são uma forma de edição. Quando as empresas de tecnologia dizem que não são meios de comunicação social, de certa maneira têm razão. De facto, elas não produzem informação. Mas editam a informação no seu processo de distribuição. E a edição das notícias é certamente uma parte do seu processo produtivo.
Por outro lado, também seria ingénuo sustentar que o editor é uma figura neutra e que não interfere no processo. As escolhas que um editor faz quanto àquilo que deve ou não deve ser publicado são influenciadas por uma multiplicidade de fatores, alguns formais, outros mais pessoais, alguns conhecidos, outros desconhecidos. A diferença – repete-se frequentemente – é que o editor pode ser escrutinado e o algoritmo não. Mas será mesmo assim?
O algoritmo pode ser escrutinado? Não, não completamente. Alguns algoritmos podem ser objeto de escrutínio mais do que outros. Por exemplo, nós, os utilizadores, sabemos que fatores integram o algoritmo de pesquisa da Google, mas não sabemos o peso relativo de cada um. E claro que não temos qualquer influencia no processo quando a Google decide mudar o peso relativo desses fatores ou incorporar novos. Ao contrário, temos muito pouca informação sobre os critérios que o Facebook usa para decidir como exibe as notícias na nossa timeline, mas temos de facto algum grau de controlo sobre esses critérios, nomeadamente ajustando as definições e gostando ou não gostando de determinados tipos de conteúdos. Ou seja, a resposta à pergunta acima é mais complexa do que parece à primeira vista: é verdade que nós não podemos escrutinar completamente os algoritmos, mas podemos fazê-lo em maior ou menor grau. E isso certamente merece investigação.
Mas inversamente também podemos perguntar: é possível escrutinar o editor? Bem, a resposta é exatamente a mesma: não, não completamente. Claro que existe um código profissional e deontológico que o editor respeita e que nós tomamos como garantia de que o processo de edição noticiosa respeita esses critérios. Mas a verdade é que nós conhecemos o código, mas não conhecemos o agente que age em seu nome. Seria certamente ingénuo pensar que aqueles que editam as notícias não têm qualquer influencia sobre as notícias que nós, cidadãos informados, lemos, vemos ou ouvimos.
Nós sabemos que o editor de notícias respeita um determinado código de conduta (que presumimos assumido), mas também sabemos que as suas escolhas profissionais podem ser (e são-no de facto) influenciadas por uma multiplicidade de outros fatores, como a sua origem cultural, os seus gostos pessoais, as suas filiações sociais e políticas, a sua formação profissional, etc. É por causa do conjunto complexo desses fatores que um jornalista faz as escolhas que faz. E é por isso que as suas escolhas quando está a editar notícias funcionam mais ou menos como um algoritmo. Com a diferença que este é certamente um algoritmo muito mais opaco. Claro que os jornalistas profissionais são treinados para desempenhar essa função e esse treino é em si próprio uma parte importante do “algoritmo” que eles vão desempenhar no seu trabalho.
Mas desse “algoritmo” também fazem parte todos os outros fatores que influenciam ou podem influenciar o seu desempenho no cargo. Nós, os cidadãos, não podemos controlar esses fatores e não conseguimos prever como o jornalista vai agir ao nível individual. O que significa que, respondendo à pergunta acima, nós podemos certamente escrutinar o editor, mas não completamente.
Além disso, há uma outra diferença importante: o algoritmo funciona sempre da mesma maneira, exceto quando os seres humanos o alteram. Os editores humanos, pelo contrário, agem sempre de forma diferente em função de um código de conduta único. De certa forma, existe mais precisão e fiabilidade num “sistema” que funciona sempre da mesma maneira (com exceção de alterações individuais) do que num “sistema” que funciona sempre de forma diferente (a partir de um código comum). Esqueçamos por momentos que estamos a falar de humanos versus máquinas (inteligência humana e artificial, se quiserem): um “sistema” que funciona sempre de forma diferente “em cima” de um dado código de base é menos fiável e preciso do que um “sistema” que funciona sempre da mesma forma exceto quando é especificamente alterado para funcionar de maneira diferente. E claro, quando neste contexto noticioso falamos de precisão e fiabilidade, na realidade estamos a falar de… confiança.
Que obviamente é um elemento central de qualquer ecossistema noticioso, tanto daquele que tínhamos na era das notícias produzidas e editadas por jornalistas profissionais como naquele em que parece estarmos agora a entrar nesta era de distribuição de notícias através de plataformas controladas por algoritmos.
Não tenham medo do algoritmo
Claro que a nossa confiança é maior se soubermos como funciona o algoritmo e como funciona o jornalista. Isso aplica-se tanto ao algoritmo computorizado como ao editor humano. A questão muitas vezes esquecida é que – é esse o argumento deste texto – nós sabemos mais sobre o algoritmo do que sabemos sobre o editor humano e, como utilizadores de plataformas digitais, temos mais controlo sobre os algoritmos do que, como consumidores de notícias, tínhamos sobre o comportamento dos jornalistas. Isso significa que podemos ter mais confiança nos algoritmos do que nos jornalistas? Não necessariamente, mas… talvez.
Atualmente vivemos num ecossistema noticioso que é profundamente diferente daquele que conhecíamos. O fator mais importante para explicar essa diferença é a migração do analógico para o digital. Quando toda a informação é digital – incluindo a produção e distribuição de notícias – os computadores tornam-se os atores centrais do processo, uma vez que eles operam sobre o código digital e, portanto, são capazes de efetuar várias operações algorítmicas sobre esse conteúdo, incluindo naturalmente decisões editoriais em nome de instruções humanas.
A outra mudança importante é que isto ocorre no quadro da sociedade em rede, em que cada nó – ou seja, cada utilizador individual – tem a capacidade de produzir e distribuir informação (nem que seja pela sua partilha, por exemplo). A consequência é que o papel tradicional dos produtores de informação profissionais (incluindo os jornalistas) cede lugar aos utilizadores (as “pessoas anteriormente conhecidas como audiência”) como força motriz por detrás do novo ecossistema de distribuição de notícias e informação.
Não devemos esquecer que as plataformas como o Facebook, o Twitter ou o Instagram não existem para produzir conteúdos, mas sim para proporcionar aos utilizadores as ferramentas para produzirem e distribuírem os seus próprios conteúdos. Essas plataformas são, de certa forma, o veículo que materializa essa transferência de poder entre os produtores de informação no paradigma anterior e os utilizadores de informação no novo paradigma. Além disso, estas plataformas de informação (que na realidade são, cada uma delas, um conjunto de ferramentas de informação) dependem dos utilizadores para funcionarem. O que significa que, de certo modo (e isso raramente é sublinhado), os indivíduos têm mais controlo sobre estas plataformas e sobre as suas escolhas editoriais do que tinham sobre os media tradicionais e sobre o seu processo editorial.
O velho jornalismo está a morrer de velhice
No entanto, também é verdade que o jornalismo tem um papel especial a desempenhar na sociedade e os jornalistas profissionais são as pessoas que trabalham para desempenhar essa função especial. Poderá a eventual falência do jornalismo pôr em causa o funcionamento democrático das nossas sociedades complexas? Bem, o jornalismo é uma instituição (ou um complexo de instituições, para ser mais preciso) que as nossas sociedades “inventaram” para desempenhar esse tal papel especial no quadro de um determinado ecossistema noticioso, com um determinado enquadramento tecnológico. E essa foi, durante muitos anos, a resposta mais racional e eficiente que nós coletivamente conseguimos dar ao problema de produzir e distribuir socialmente informação fiável e de confiança.
Mas na era das plataformas de utilizadores governadas por algoritmos talvez precisemos de novas ou renovadas instituições sociais. Talvez isso passe por novas formas de jornalismo ou por algo completamente diferente. A verdade é que ainda não sabemos nem podemos saber. As repostas a esses desafios serão dadas à medida que eles forem surgindo e novas (ou renovadas) instituições sociais serão criadas para lhes responder.
Quanto aos algoritmos, claro que eles devem estar abertos ao escrutínio. Na verdade, devem estar abertos! Ponto final! Lá chegaremos…
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