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O populismo é algo a ser erradicado? O jornalista alemão Ralf Schuler, autor do livro "Sejamos populistas", afirma que esses movimentos são expressões saudáveis da discórdia nas democracias. Os políticos precisam escutar os populistas, diz Schuler.
swissinfo.ch: O "populismo" existe?
Ralf Schuler: O populismo existe, sem dúvida. Mas a palavra é utilizada erroneamente. "Populismo" não é uma categoria política como liberalismo, socialismo ou conservadorismo. É uma técnica política de importância crescente que oferece respostas simples para questões complexas e conduzem as pessoas na direção errada. A democracia é o governo do medíocre, da mediana; nem os idiotas nem (infelizmente) os mais inteligentes conseguem fazer a maioria nela. Assim, em lugar de oferecer soluções complexas, a tentação é oferecer soluções simples que pareçam boas para atrair o maior número possível de eleitores.
swissinfo.ch: O populismo está crescendo na Europa?
R.S.: Sim. Movimentos sob a denominação geral de populistas estão claramente em ascensão. Há exemplos nos países nórdicos (o Partido dos Finlandeses, o Partido dos Democratas Suecos), na França (a Frente Nacional), na Grã-Bretanha (o UKIP, o Partido do Brexit) e também no sul da Europa, com grupos esquerdistas como o Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia.
Mas não devemos tentar acabar com eles. Em vez disso, temos de considerar é que os "populistas" são uma espécie de sinal de alerta para as democracias: são movimentos levantam questões que os partidos tradicionais ignoravam. Frequentemente, nas sociedades ocidentais, esses temas são a migração, a identidade nacional ou a integração do Islã. A ascensão do populismo também representa uma grave crise de confiança nos partidos tradicionais, nos seus políticos e em suas políticas.
swissinfo.ch: Como você chegou a essa conclusão de que o populismo não é um fenômeno negativo?
R.S.: Onde o populismo é forte, as pessoas se manifestam porque querem que os políticos resolvam determinados problemas. É um sinal positivo: em vez de cair na apatia ou deixar de votar, as pessoas se expressam democraticamente. Na maioria dos casos, o populismo leva a um comparecimento maior às urnas, porque também obriga seus adversários a agir.
Os problemas começam quando os outros partidos não aceitam os populistas como concorrentes legítimos no mercado de opiniões. Tentam excluir os populistas e restringir seu acesso a plataformas. Só que esse cordão de isolamento não funciona na era digital: os populistas simplesmente criam seus próprios espaços na internet e neles criam suas próprias verdades – e é progressivamente mais difícil lidar com essas verdades quando elas retornam à arena política "real". Os resultados são a polarização e as diferenças irreconciliáveis.
Ralf Schuler, nascido em Berlim Oriental em 1965, é o editor da seção parlamentar do diário Bild, da Alemanha. Seu livro "Lass uns Populisten sein: Zehn Thesen für eine neue StreitkulturLink externo" ("Sejamos populistas: dez teses para uma nova cultura de debate") foi publicado pela editora Herder.
swissinfo.ch: Que mudanças você espera quando diz "sejamos populistas"?
R.S.: Em termos bastante simplificados, o populismo é um ingrediente básico de todo sistema político e diz respeito ao centro da sociedade, não às suas margens. A política, como arte de conduzir a "polis" (a cidade, em grego), precisa representar as preocupações das pessoas. A política tradicional precisa voltar para o povo.
Muitas vezes parece que os eleitores são vistos pelos políticos como uma chateação. Mas é assim que tem de ser. Os políticos precisam ser mais conscientes, escutar mais, observar mais, olhar os problemas que estão agitando a internet. Precisam reconhecer quando a migração provoca divisões na sociedade, quando as vendas de armas de festim e spray de pimenta disparam, quando o medo está no ar.
A globalização, o comércio internacional, a União Europeia – os bons políticos não entregam essas questões de bandeja para aqueles que estão gritando nas margens da sociedade; eles as colocam no centro dos debates, onde podem ser tratadas com princípios humanitários e claramente democráticos.
swissinfo.ch: Deixando de lado a expressão "populista", qual seria a melhor maneira de descrever as semelhanças entre políticos como Marine Le Pen, Matteo Salvini e Geert Wilders, entre outros?
R.S.: Muitos desses chamados populistas são, na realidade, conservadores nacionalistas. Geert Wilders [do holandês Partido da Liberdade], por exemplo, se concentra quase exclusivamente em uma questão, o Islã. Mas, embora o termo conservadorismo nacionalista seja politicamente mais preciso, eu entendo por que o termo "populista" é utilizado no debate político. É uma expressão pejorativa, excludente, muito útil aos adversários desses movimentos.
Até mesmo o Centro Federal Alemão para Educação Política classifica o populismo como "palavra estigmatizada", que serve para desacreditar adversários políticos. O termo é bastante vago e abstrato, e existe o perigo implícito de que seja usado para delinear uma espécie de zona de exclusão política, separada da política séria. Isso não vai dar certo.
swissinfo.ch: Como a mídia deve utilizar a palavra "populismo"?
R.S.: Acima de tudo, deve usá-la com moderação. E, quando o fizer, deve usá-la para descrever o que significa: a simplificação exagerada, a venda de soluções fáceis que provavelmente não vão resolver o problema, a alimentação de falsas esperanças, a determinação de manter os eleitores presos na ignorância.
Para a democracia, o perigo é que muitos eleitores são seduzidos por essas soluções fáceis e, quando elas fracassam, isso gera ainda mais frustração e radicalização. Mas, embora a maioria dos movimentos populistas possa ser analisada [pela mídia] sem o uso dessa expressão matadora, "populismo", entendo que seja difícil.
swissinfo.ch: Você considera a Suíça um país populista?
R.S.: Se eu tivesse de usar a expressão, diria que a Suíça é um país populista na melhor acepção da palavra. A tradição que permite que as pessoas decidam pelo voto temas atuais e importantes garante uma conexão sólida entre os políticos e os cidadãos. Sou um grande admirador do modelo suíço, mas sei que não é fácil transplantar essa tradição para países que não estão acostumados com ela.
swissinfo.ch: Existem países, culturas ou idiomas mais suscetíveis que outros à política populista?
R.S.: Não. Não vejo conexão entre populismo e nações, idiomas ou culturas. De outro lado, é importante notar que os movimentos populistas sempre florescem onde problemas evidentes não são resolvidos; na maioria dos países europeus, isso significa migração, integração, Islã e coesão social.
Outro fator importante é a grande divisão entre as áreas urbanas e rurais. Não é o caso só dos Estados Unidos, mas também da Grã-Bretanha, da Alemanha e da França. Nesses lugares, uma elite metropolitana concluiu erroneamente que sua visão de mundo e seu estilo de vida eram representativos de todos. Mas temas como a abertura à globalização, a sustentabilidade, a migração e a diversidade de gênero são encaradas de modos muito diferentes nas cidades e no campo. E é fácil esquecer que, em uma democracia, a maioria é que decide, não a moralidade ou as atitudes.
swissinfo.ch: Existe conexão direta entre a retórica e a política populistas e a democracia direta?
R.S.: Para os políticos, a democracia direta implica o desafio extra de tornar suas propostas claras, atraentes, de ir diretamente ao ponto, até de modo exagerado. Mas a democracia direta não está necessariamente ligada a retórica agressiva, ataques ou perseguição.
De novo, vejo que a retórica fica mais radical onde a política tradicional insistentemente se recusa a lidar com questões controversas. Os movimentos populistas atraem pessoas das margens que são sensíveis aos seus argumentos.
swissinfo.ch: Você diz que a era digital expandiu as vozes e o debate público, o que contribuiu para as atuais fraturas da política europeia.
R.S.: Sim. Vinte anos atrás, os meios de comunicação de massa detinham o monopólio da informação, ao passo que hoje as massas tomaram os meios em suas próprias mãos. Hoje, no que diz respeito aos debates em sociedade, a questão não é mais saber se um tema será debatido, mas onde.
Quando o rádio, a televisão e os jornais não tratam desses temas, eles se deslocam para as redes, onde desenvolvem uma dinâmica própria, que às vezes volta – com mais força – para a sociedade.
O melhor exemplo foi o debate em torno do Pacto de Migração da ONU, que no verão de 2018 já estava fervendo na internet e não era tratado nem pela mídia tradicional nem pelos parlamentos. O resultado foi uma desconfiança desse tipo de acordo internacional, e vários Estados se retiraram dele.
swissinfo.ch: Que mudanças podemos esperar no futuro?
R.S.: Se quisermos evitar mais polarização e mais radicalização na sociedade, a política terá de ser mais rápida, mais direta e mais confiável no tratamento das questões urgentes. Por exemplo: os políticos precisam estabelecer limites efetivos de migração para a Europa e dentro dela, para não tensionar o nível de aceitação da população que recebe os migrantes e para que a integração destes contribua para o crescimento orgânico da sociedade.
Os protestos contra o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) entre os Estados Unidos e a União Europeia mostraram que é preciso explicar ampla e claramente o livre comércio e os benefícios mútuos que ele traz. Talvez a cooperação europeia e internacional tenha de ser redefinida: menos centrada em unanimidade e mais aberta a divergências nacionais e identidades.
A Europa precisa se concentrar na regulação das coisas importantes, aquelas que estão além da capacidade dos estados-nações, e não na regulação da vida cotidiana das pessoas. O G7 ou o G20 precisam enxergar o diálogo e a troca como fins em si mesmos, em vez de produzir documentos com conclusões vazias. A retórica política precisa se tornar simples e compreensível, os atores políticos têm de transmitir credibilidade e devem estar sempre atentos ao que as pessoas estão dizendo.
Adaptação: Lucia Boldrini