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Reabilitados: suíços que abriram as portas da Suíça para judeus e outros refugiados do Nazismo.Este conteúdo foi publicado em 28. novembro 2003 - 16:53
As condenações serão anuladas. A nova lei, recém-elaborada pelo governo federal, entra em vigor a partir do início de 2004.
Esse é um triste capítulo na história da Suíça.
A partir de 1933, quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha, muitos judeus, ciganos e pessoas “estranhas” à política da pureza racial já sabiam que seus dias estavam contados. Após a anexação da Áustria em 1938 e o início da guerra em 1939, esse medo se expandiu para quase toda a Europa.
Graças a sua neutralidade, a Suíça foi poupada da invasão das tropas nazistas. A guerra não deixou, porém, de influenciar a vida no país, que viveu racionamento de víveres, convocação geral da população para o exército e também o fechamento das suas fronteiras.
Exatamente essas fronteiras eram a esperança de muitos refugiados. Seu número aumentou de acordo com a piora da situação de vida dos judeus na Alemanha, Áustria e outros territórios ocupados.
Com medo de provocar a Hitler e de conflito interno com a população, a Suíça havia tornado suas leis de asilo político mais restritivas para impedir a chegada de grandes massas de refugiados.
Descobertos nos povoados fronteiriços, esgotados depois de várias semanas de viagem clandestina e caminhadas em florestas e montanhas gélidas na escuridão, muitas deles foram presos por policiais e militares, logo nos primeiros passos dados em solo suíço.
Essas pessoas, anônimas, sem recursos, sem respaldo de associações influentes, não conseguiam provar os motivos da fuga. O processo era curto e a decisão das autoridades amarga: recusa da solicitação de asilo e expulsão da Suíça. Elas eram levadas para os postos fronteiriços e entregues às autoridades.
Assim aconteceu com o judeu Joseph Spring. Em 1943, quando ainda tinha 16 anos, ele e seus primos Sylver e Henri Henenberg haviam conseguido duas vezes atravessar ilegalmente a fronteira da França com a Suíça. Na segunda vez que foram flagrados, as autoridades suíças cumpriram suas ameaças e entregaram os refugiados a uma patrulha do exército alemão. Através do controle dos documentos falsificados, ficou provado a origem judia dos três. Spring foi levado de volta para a França, onde passou alguns meses na prisão até ser levado, via Drancy, para o campo de concentração de Auschwitz, onde seus primos foram mortos logo após a chegada. Spring foi transferido mais tarde a um outro campo de concentração e conseguiu sobreviveu ao holocausto. Em 1946, Joseph Spring imigrou para a Austrália. Em 1988, o Conselho Federal suíço recusou seu pedido de indenização.
Heinrich Rothmund, chefe da polícia suíça entre 1929 e 1954, foi responsável pela estreita política de asilo durante o conturbado período que envolve a Segunda Guerra Mundial. Diz-se que foi também foi aquele que solicitou ao governo alemão a introdução do carimbo “J” no passaporte dos judeus alemães, fato que preparou o caminho para a “Estrela de David” amarela.
É importante lembrar que a população de muitos povoados suíços próximos da fronteira protestou energicamente contra a expulsão dos refugiados judeus. Muitas vezes a polícia era até obrigado a intervir.
Exceções
Porém nem todos suíços foram cegos cumpridores da lei vigente na época. Muitos arriscaram suas carreiras e vida para ajudar essas pessoas perseguidas. Um deles foi Paul Grüninger, chefe de polícia em St. Gallen entre 1938 e 1939.
Contrariando as instruções governamentais, ele permitiu a entrada de mais de três mil refugiados judeus e políticos na Suíça. Como resultado do ato de rebeldia, o governo do cantão demitiu-o e, em 1940, ele foi condenado pelo tribunal de St. Gallen.
Depois da guerra, Paul Grüninger foi impedido de voltar ao serviço público. Para sobreviver, o ex-policial trabalhou como vendedor e representante de firma de seguros. Pobre e esquecido, ele faleceu em 1972.
Vinte e um anos depois, Grüninger foi politicamente reabilitado pelo governo cantonal de St. Gallen. O tribunal que o havia condenado levou mais dois anos para reabrir o processo e absolvê-lo. Em 1998, a Câmara Estadual de St.Gallen aprovou uma indenização para todos os anos que Grüninger não pode trabalhar, mais a aposentadoria. O dinheiro foi entregue aos seus descendentes, que o utilizaram para criar a Fundação Paul Grüninger.
O ex-policial de St.Gallen não foi o único na história suíça a ter desobedecido a lei para salvar pessoas. Como Grüninger, muitos outros suíços também foram condenados e tiveram a vida arruinada.
Para ajudar essas pessoas, o governo federal criou uma nova lei, que a partir do início de 2004 entrará em vigor. Ela reabilita na justiça militar e civil todas as pessoas que ajudaram refugiados durante o nazismo e a Segunda Guerra Mundial.
Um detalhe: a reabilitação não garante indenizações.
swissinfo, Alexander Thoele
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