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A Suíça deve continuar resistindo a adesão à União Européia e reforçando sua defesa na disputa pela questão fiscal, declara o "guru" econômico John Naisbitt à swissinfo.
O autor americano de best-sellers acredita que a Europa não entende o conceito de concorrência e elogia a Suíça por ter "aderido ao mundo" ao invés de se tornar um membro da UE.
A disputa atual em torno do sistema fiscal aplicado nos cantões, que atraiu uma grande quantidade de casas-matrizes de empresas vindas de outros países europeus, desgastou nos últimos 18 meses as relações entre a Suíça e a União Européia.
Naisbitt, cujos livros intitulados "Megatrends", "Global Paradox" e "Mind Set" venderam milhões de exemplares, vive em Viena, capital da Áustria. No final de março ele esteve em Zurique para dar uma palestra na conferência organizada pela Osec, agência suíça de promoção de comércio exterior.
swissinfo: Qual sua opinião sobre a União Européia quando ela comemora seus cinqüenta anos de existência
John Naisbitt: Os primeiros quarenta anos foram um milagre extraordinário. O impulso em 1957 foi de paz. Os países europeus estavam matando uns aos outros há 700 anos, quando então eles resolveram dizer: "vamos resolver nossos problemas através de discussão e negociação". Quem poderia ter tido que essa idéia teria ido tão longe?
Porém, nos últimos seis ou sete anos, a instituição abandonou a abertura para harmonização de códigos e regulamentos "made in Brussels". O maior problema para a economia sustentável é que eles anunciam reformas econômicas, mas sem fazer nada de fato para realizá-las.
O início da queda foi a Agenda Lisboa de 2000, onde os chefes de Estado declararam que a União Européia estava à caminho de se tornar a região economicamente mais dinâmica do globo através do investimento no saber. Mas a cada ano, depois desse encontro, os países europeus perdem terreno para a economia americana, o que é ridículo.
swissinfo: O que tem de tão mal na harmonização?
J.N: Ela é muito prejudicial para os desenvolvimentos futuros. Quando a Bulgária e a Romênia aderiam à UE em janeiro de 2007, eles receberam 100 mil páginas de códigos e regulamentos. Isso é veneno para a criatividade e diversidade.
Antes que ocorram as reformas, a União Européia irá continuar nesse caminho do seguro declínio mútuo. Isso significa que os países-membros estão todos indo para o buraco em solidariedade conjunta, mantendo a crença no modelo social (a política de prover proteção para os trabalhadores e a indústria nacional).
swissinfo: Qual sua opinião em relação à disputa entre a União Européia e a Suíça na questão fiscal?
J.N: Eu apóio completamente o cantão de Zug, por eles terem diminuído os impostos para atrair pessoas e empresas. A União Européia não entende essa competição, mas isso é o que necessitamos. Eu não compreendo por que a Europa é tão hostil aos empresários. Afinal, não é possível revitalizar a economia ou criar uma nova sem apoiar o espírito de empreendedor.
swissinfo: Mas não existe o perigo da Suíça permanecer isolada pela sua posição?
J.N: O que pode ser essa isolação? O que aconteceria se a Suíça ficar fora do processo de acordos bilaterais? A cada ano a União Européia é cada vez menos dinâmica. Nesse sentido, por que você ainda estaria se esforçando para ser parte disso?
swissinfo: Nesse caso, a Suíça estaria melhor fora da União Européia?
J.N: A Suíça é um antigo mestre de jogar outros países contra eles próprios para seu próprio benefício. Mesmo hoje a Suíça adota o passo-a-passo dos acordos bilaterais, onde ela pode comprar dentro dos programas da União Européia, sem precisar aderir ao acordo.
Eu estava na Áustria quando eles votaram pela adesão do país a UE. Na época eu pensei: para que fazer isso? Por que não imitar a Suíça e aderir ao mundo?
swissinfo, Matthew Allen
Fatos
A fama de John Naisbitt vem da previsão correta que fez de varias tendências econômicas e sociais, desde a publicação do seu primeiro livro - "Megatrends – em 1982, do qual foram vendido mais de nove milhões de cópias.
Depois de ter sido secretário de Educação do presidente John F. Kennedy e assistente especial do presidente Lyndon Johnson, Naisbitt continuou a escrever livros e dar palestras nos quatro cantos do planeta. Ele também já foi executivo na IBM e Eastman Kodak, e é membro honorário da Universidade de Nanjing, na China.
Breves
A Suíça assinou um tratado de livre-comércio com a União Européia em 1972. Agora a UE diz que a Suíça está violando o acordo devido ao seu sistema de impostos nos cantões, onde muitos deles se transformam em paraísos fiscais.
Em 1992, a Suíça entregou o pedido de adesão à União Européia. No mesmo ano, o eleitor suíço disse "não" ao Espaço Econômico Europeu. Desde então as negociações estão congeladas.
Nos últimos anos a Suíça tem feito diversos acordos bilaterais com a União Européia para participar de alguns dos seus programas. O primeiro pacote de acordos levado ao plebiscito em 2000 e aprovado nas urnas em 2002. O segundo foi também aprovado nas urnas em 2005.