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O Dialäkt ÄppLink externo foi criado apenas para divertir, com um teste que indicava a cidade natal dos usuários suíços a partir do dialeto falado por eles. Quando os dados começaram a se acumular, o linguista Adrian Leemann percebeu que estava diante de algo maior. Agora, o pesquisador suíço está estudando a evolução dos dialetos para entender como as línguas mudam.
Os pesquisadores de linguística costumam analisar dados de vinte ou trinta palestrantes, diz Leemann, pesquisador associado da Universidade de Berna. Após o lançamento do aplicativo Dialäkt, em 2013, o material produzido por 100 mil falantes foi reunido para análise.
“Foi nesse momento que me deu um estalo! Percebi que ali havia um enorme potencial”, diz Leemann, linguista que trabalhava com fonética na Universidade de Zurique.
Leemann, que nasceu na cidade de Aarau, no noroeste da Suíça, tem doutorado em linguística pela Universidade de Berna e sempre se interessou por variações na linguagem. Ele é um observador atento das mudanças no ritmo e na melodia da fala e as diferenças na pronúncia das vogais. Leemann se distrai com tanto com os sons que usa fones de ouvido para ficar em silêncio absoluto enquanto trabalha durante seu trajeto de trem de Zurique a Berna.
Mas é o entusiasmo para explorar novas ideias que o impulsiona. Após o sucesso do Dialäkt Äpp, ele assumiu posições na Universidade de Lancaster e na Universidade de Cambridge, onde trabalhou em um aplicativo similar para detectar dialetos ingleses.
Agora, Leemann, de 39 anos, está de volta à Suíça e recebeu a bolsa Eccellenza Professorial FellowshipLink externo da Fundação Nacional de Ciências da Suíça (SNSF- Swiss National Science Foundation). O prêmio de 1,6 milhão de francos suíços, equivalente a US$ 1,6 milhão lhe permitirá liderar sua própria equipe de pesquisadores para conduzir um levantamento de dialetos suíço-alemães para comparação com o Sprachatlas der Deutschen SchweizLink externo, um banco de dados - ou atlas histórico - de dialetos da década de 1950, da Suíça alemã. O projeto, que começa em setembro, terá como base os dados reunidos graças ao Dialäkt App.
Dialetos mais homogêneos?
Parte da pesquisa abordará a questão da mudança. Inés de la Cuadra, vice-chefe da divisão de carreiras da SNSF, diz que há evidências de homogeneização de dialetos em toda a Europa. "Isso também vale para a Suíça?", ela se pergunta.
O Dialäkt Äpp pareceu ilustrar esse fenômeno.
“Há tendências bem claras do que chamamos de nivelamento”, diz Leemann. “Isso significa que a diversidade linguística parece estar desaparecendo em algum grau, especialmente em relação a algumas palavras do dialeto”.
Tomemos, por exemplo, o miolo da maçã.
No Dialäkt Äpp, os usuários puderam ouvir 39 variações do termo em alemão para o “Apfelüberrest”. Duas dessas variáveis são “Bäck”, usada principalmente no cantão de Schwyz na década de 1950, e “Bütschgi”, falado predominantemente no cantão de Zurique.
Mapa histórico de termos para “miolo da maçã"
“Ao olhar o mapa de hoje, é possível notar como o termo Bütschgi se espalha em direção à Suíça central [e oriental]", diz Leemann. Ele acredita que o mapa de dialetos se modifique bastante em 100 anos.
Mapa atual de termos para “miolo da maçã"
A mobilidade parece desempenhar um papel importante no nivelamento.
Leemann dá o exemplo de alguém que viaja da Suíça central para Zurique. Durante o almoço com os colegas, a expressão “miolo da maçã” pode aparecer e o passageiro pode adaptar o Bäck, comum da Suíça central para o termo Bütschgi, mais usado em Zurique, para que todos entendam.
É um fenômeno conhecido como acomodação de curto prazo. Se isso acontecer várias vezes, uma pessoa começa a usar a nova palavra automaticamente em casa, onde os membros da família também passam a adotá-lo, levando a mudanças de longo prazo.
Uma nova abordagem para pesquisa sobre os dialetos
Leemann enfrentará vários desafios para realizar sua pesquisa histórica sobre dialetos. Primeiro, ele terá apenas cinco anos para conclui-la, comparado com os quase 20 anos de coleta e registro de dados no atlas histórico, que datam de 1939 até o final dos anos 1950.
Das 2.500 variáveis linguísticas identificadas no atlas, Leemann examinará cerca de 300. Por exemplo, uma delas poderia ser o som da vogal inicial da palavra para o entardecer em alemão, Abend. No dialeto a pronúncia é Aabe ou Oabe, entre outras possibilidades. Por enquanto, ele planeja gravar um homem e uma mulher de cada uma das 550 aldeias ou cidades suíças. A transcrição automática acelerará o processo e as interfaces dos computadores poderão vincular a escolha de palavras aos mapas regionais.
Os participantes também serão mais jovens do que em estudos anteriores. Anteriormente, os pesquisadores se preocupavam com o fato de os antigos dialetos estarem desaparecendo, de modo que o atlas histórico documentou a fala de pessoas mais velhas, principalmente homens, para captar os dialetos da virada do século, diz Leemann.
Essa nova abordagem intrigou a Fundação Nacional de Ciências da Suíça. A vice-chefe da fundação, de la Cuadra, diz que os especialistas que avaliam sua proposta de pesquisa aprovam a nova estratégia de pesquisa de questionar tanto homens quanto mulheres, que percorrem cerca de 12 quilômetros por dia, em vez de se concentrarem em homens mais velhos que trabalham na agricultura.
Ciência aplicada
Mas por que investir CHF1,6 milhão para determinar quem diz Bütschgi em vez de Bäck?
Os dados podem ser usados para uma infinidade de propósitos, como melhorar as tecnologias de reconhecimento de voz para que entendam dialetos ou até identificar alguém que fazia ameaças por telefone. Foi o que aconteceu quando um especialista em fonética estudou uma gravação de áudio de um homem que alegava ser o Yorkshire Ripper da Inglaterra. O especialista foi capaz de estudar as variações na fala do interlocutor e determinar a localização dele em uma área não muito distante de quem recebeu a chamada.
O dialeto também é um tema presente na cultura pop. Quando comentaristas disseram que o inglês americano da Duquesa de Sussex Meghan Markle estava se adaptando ao inglês britânico, Leemann se juntou a seus colegas para fazer comparações técnicas - e não encontrou nenhuma evidência que confirmasse isso.
E o público está interessado no assunto, conforme evidenciado pelas dezenas de milhares de usuários do aplicativo.
Leemann diz que as pessoas acham os aplicativos sobre o dialeto intrigantes porque desvendam a identidade de alguém “como um crachá pendurado no pescoço”.
"Especialmente na Suíça de língua alemã, o dialeto é uma grande parte da identidade das pessoas, raízes locais e tradições", diz ele.
Quais dialetos suíços são mais atraentes?
Leemann realizou um estudoLink externo com sentenças gravadas pelo mesmo palestrante em alemão padrão, bem como dialetos de Berna e Zurique. Em seguida, mostrou as gravações de pessoas de Berna, Zurique e Lucerna e perguntou-lhes com qual deles prefeririam fazer a cirurgia, quem contratariam como assistente ou com quem sairiam de férias. Os participantes de todos os três locais preferiram o locutor de Zurique em alemão para cada cenário, embora o falante de alemão de Berna tenha tenha feito muitos pontos como companhia adequada para sair de férias.
Leemann diz que no estudo, o falante de Zurique foi percebido como o mais competente, apesar de ter sido considerado estereotipado por alguns. O alemão de Berna, apesar de ser o mais apreciado, não foi avaliado como alguém realmente competente.Aqui termina o infobox
Tradução: Heloísa Broggiato