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Cidadãs e cidadãos da cidade de Zurique apinham-se dos dois lados do rio Limmat para acompanhar a macabra cena que se passa no meio do rio. Felix Manz tem as mãos e os pés amarrados, está agachado sobre a plataforma de uma cabana de pescadores e canta a plenos pulmões o Salmo "Na suas mãos, Senhor, entrego a minha alma". De cima de uma canoa, um religioso faz um sermão eloquente, enquanto um carrasco puxa com toda a força a corda que acaba de amarrar no pescoço do homem condenado à morte. Gritos desesperados ecoam sobre as águas. Trata-se da mãe de Manz, que, da margem do rio, encoraja-o para permanecer firme na fé.
Ninguém contava com este terrível fim. Originalmente, Felix Manz era um homem de confiança de Ulrich Zwingli e trabalhava com ele na nova tradução da Bíblia. Mas em breve as divergências começariam a aparecer. Manz e seus amigos acusaram Zwingli de retardar a Reforma e de fazer acordos com as autoridades. Eles eram jovens e radicais, mas, na verdade, não faziam nada além do que o próprio Zwingli pregava: eles tomavam a Escritura Sagrada como único princípio da sua fé e de suas ações. Contestavam, portanto, entre outras coisas, a existência do purgatório e exigiam a abolição da santa missa e do batismo para crianças, porque em nenhum lugar da Bíblia havia menção a estas duas práticas.
Uma semana para batizar
No dia 17 de janeiro de 1525, Zwingli e seus antagonistas mais radicais entram pela primeira vez publicamente em uma disputa. Segundo Manz e seus companheiros de fé, o batismo só faria sentido se a pessoa batizada pudesse "ela própria dar testemunho da sua fé". Zwingli contesta esta ideia, e o governo de Zurique alia-se a ele. O governo ordena que todas as crianças que ainda não haviam sido batizadas fossem batizadas no período de uma semana, do contrário seus pais teriam que deixar o município de Zurique.
Quatro dias depois, o governo proibia os adeptos do batismo na idade adulta de falarem em público. Nesta mesma noite, aconteceriam os primeiros batismos de adultos em Zurique, justamente na casa da família Manz. Com certeza tratava-se de um protesto consciente, semelhante ao "caso das salsichas", com o qual Zwingli e seus amigos radicais anunciaram a Reforma – só que desta vez o reformador estava em concordância com as autoridades.
Recém batizado, Felix Manz começou imediatamente a divulgar o batismo adulto. Dez dias depois, ele foi preso, e Zwingli tentou convencê-lo a ceder. Mas Manz permaneceu firme nas suas ideias. Quando conseguiu fugir da prisão e se refugiar nos Grisões, continuou a catequizar. Alguns meses mais tarde, Manz foi preso novamente e levado para Zurique. Ele era "uma pessoa teimosa e obstinada", descreveram as autoridades de Coira. Nem mesmo a ameaça de pena de morte o demoveu de continuar a batizar adultos.
Evasão espetacular
A agitação dos anabatistas tornou-se cada vez mais ousada. Eles obtinham muitas adesões dos camponeses, que tinham esperanças que uma interpretação literal da Bíblia fosse contribuir para a melhoria de sua condição social e para a abolição do ônus fiscal. No verão de 1525, aconteceu uma caminhada pelas ruas de Zurique na qual os anabatistas insultavam Zwingli chamando-o de dragão satânico que desencaminhava o mundo.
Eles gritavam a todo volume: "Pobre, Zurique!" Os anabatistas causavam tanta confusão, que as autoridades de Zurique promoveram, no início de novembro de 1525, um debate de três dias de duração com especialistas que discutiram sobre o batismo adulto. Com isso, eles esperavam solucionar o problema de uma vez por todas. A procura por este evento foi tão grande que ele teve de ser transferido para a catedral de Zurique.
Felix Manz, que tinha sido solto da prisão, defendeu sua posição teológica contra a de Zwingli. Os nervos estavam à flor da pele. Um anabatista de Zollikon exigia, "em grande gritaria", que Zwingli finalmente reconhecesse a verdade. Zwingli repreendeu-o, chamando-o de "camponês rebelde, desajeitado e rude". Em breve ficaria claro que os anabatistas não tinham chances. Quando Manz se recusou a abrir mão de suas opiniões, foi jogado em uma masmorra junto com seus irmãos de credo. Depois de um inverno passado a pão e água, em março de 1526 o tribunal condenou-o à prisão perpétua. Quase concomitantemente, o governo aprovou uma lei que ameaçava os anabatistas reincidentes com a pena de morte.
Duas semanas mais tarde, Felix Manz conseguiu fugir da prisão de forma espetacular. Juntamente com treze homens e sete mulheres que também estavam presos, ele consegue passar por um buraco no teto da cela e, com uma corda, escalar o muro exterior da torre em que ficava a prisão. Mais uma vez ele circulou pelo país pregando e batizando, até que, em dezembro do mesmo ano, foi novamente preso e levado ao tribunal. Desta vez, por sua "natureza rebelde" e por "se insurgir contra as autoridades", ele foi condenado à morte por afogamento, uma forma de execução que era considerada muito humilhante, pois era a forma de execução destinada às mulheres.
Água da morte
No dia 5 de janeiro de 1527, Felix Manz é lançado por seu carrasco ao gélido rio Limmat. Pouco antes de ser executado, na prisão ele escreveu: "Isto é o que fazem os falsos profetas e hipócritas deste mundo, que, com a mesma boca, amaldiçoam e suplicam, cuja vida é desordenada, que imploram às autoridades para que nos matem e, com isso, destroem a essência do Cristo".
Em 1983, a igreja reformada desculpou-se oficialmente pela primeira vez pelo sofrimento causado ao anabatistas. Em 2004, foi colocada uma placa na margem do rio Limmat em homenagem a Felix Manz e seu irmão de fé Hans Landis, que foi decapitado no Mercado de Peixes de Zurique.
Adaptação: Fabiana Macchi