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Pessoas participam de vigília em Finsbury Park, no dia 20 de junho de 2017(afp_tickers)
O atentado contra a mesquita londrina de Finsbury Park foi o resultado lógico da demonização dos muçulmanos feita por tabloides e algumas figuras da extrema direita, lamentaram analistas britânicos e líderes islâmicos.
Políticos da oposição, a escritora J.K. Rowling e os chargistas da imprensa de esquerda condenaram a retórica inflamada que, segundo eles, contribuiu para que, passada a meia-noite de domingo, um homem branco de 47 anos decidisse atropelar um grupo de fiéis que acabava de sair da mesquita do norte de Londres aos gritos de "quero matar todos os muçulmanos!".
Os vizinhos de Darren Osborne, o homem de Cardiff preso pelo ataque, dizem que ele bebia muito e que sua raiva contra os muçulmanos aumentou após o atentado cometido por islamitas em 3 de junho em Borough Market.
Tommy Robinson, antigo líder do grupo de extrema direita Liga de Defesa Inglesa (EDL), classificou como "vingança" o atentado de Osborne.
J.K. Rowling, por sua vez, criticou a retórica da colunista do Daily Mail Katie Hopkins: "falemos de como o terrorista de Finsbury Park se radicalizou".
Depois do atentado suicida em um show da cantora pop Ariana Grande em Manchester, no qual 22 pessoas morreram, muitas delas adolescentes, Hopkins tuitou: "Homens ocidentais. Essas são suas esposas. Suas filhas. Seus filhos. Levantem-se. Ergam-se. Exijam ações. Não sigam como sempre. Indignem-se".
Segundo as estatísticas do governo, das 260 prisões por terrorismo em 2016, 91 foram de alvos britânicos, um aumento de 28% em relação a 2015, e o único grupo étnico a registrar um aumento.
Os crimes de ódio contra muçulmanos também crescem ano após ano, especialmente depois dos atentados.
- "Ciberarmadilhas" e vendas -
Até esta semana, o assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, cometido há um ano, havia sido o crime de extrema direita mais relevante no Reino Unido.
Mas muitos muçulmanos denunciam que frequentemente recebem insultos e que a situação piorou desde a chegada à Europa de inúmeros refugiados da guerra na Síria, além da vitória do Brexit no referendo sobre a União Europeia, em junho de 2016.
Fiyaz Mughal, fundador do "Tell Mama", grupo que registra incidentes contra muçulmanos, admitiu que o ódio que moveu Osborne veio principalmente da violência islamita.
"Mas, infelizmente", quando acontece um atentado islamita, "há títulos e colunistas que vomitam o conteúdo mais inflamado, simplesmente como 'ciberarmadilhas' e para vender jornais", disse Mughal à AFP.
Raffaello Pantucci, especialista em contraterrorismo do Royal United Services Institute, concordou que "a retórica venenosa" dos sites de extrema direita e de alguns meios de comunicação conservadores pode ter influenciado o ataque de Finsbury.
"Infelizmente, é um círculo vicioso", acrescentou, prevendo que o ataque irá alimentar reações de raiva de alguns muçulmanos. "E será difícil detê-los neste ambiente agitado", sentenciou.
Martin Rowson, cartunista do The Guardian, respondeu ao ataque de Finsbury Park com uma charge que mostra a van usada por Osborne com um anúncio: "Leiam o The Sun e o Daily Mail".
- "Nos odeiam" -
Em novembro de 2015, o The Sun publicou uma matéria com o título "Um em cada cinco muçulmanos britânicos simpatiza com os extremistas", que o órgão de controle da imprensa classificou como "significativamente enganoso" por ser uma interpretação livre da estatística.
Alguns muçulmanos sustentam que há uma indiferença oficial e criticaram o fato de a polícia ter demorado três horas para caracterizar o ataque de Finsbury Park como terrorista, mais tempo do que em outros casos.
Mughal mostrou a sua simpatia por uma polícia que se encontra sob enorme pressão e que enfrenta ameaças de todos os lados com recursos limitados.
Mas concordou com a imagem do círculo vicioso. "Quando falo com eles, não consigo que me entendam. 'Nos odeiam', dizem. Digo-lhes que este é o seu país e me dizem 'não, não é'", explicou Mughal.
Mohammed Kozbar, presidente da mesquita de Finsbury Park, insistiu que os extremistas, de todas as cores, são a minoria, e usou como exemplo a ajuda das pessoas de todas as crenças na homenagem às vítimas ocorrida na segunda-feira à noite.
"O terrorismo não tem fé, não tem religião, estão tentando prejudicar as nossas relações: não deixaremos", explicou à AFP.
AFP