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Enquanto as indústrias manufatureiras, relojoeiras e bancos fazem as manchetes dos jornais, as empresas suíças de comercialização de matérias-primas têm progredido em grande parte na surdina.
No ano passado, os negócios feitos na área de commodities como petróleo, grãos e eletricidade contribuíram com cerca de 2% do PIB suíço - quase tanto quanto o turismo. Mas esse setor discreto passa também por mudanças.
A Suíça tem sido há muito tempo um centro global de negócios na área de commodities graças à sua posição central no continente europeu, a forte tradição bancária e um sistema econômico e político estável.
O fluxo de algodão e café passou pelas fronteiras suíças durante vários séculos, enquanto o "boom" da indústria petroleira no Oriente Médio e na Rússia aumentou a importância da Suíça. Mas mudanças recentes no setor de comercialização de matérias-primas, através da utilização de instrumentos financeiros cada vez mais complexos para negociar e especular, levou a uma explosão das atividades no cantão de Zug e também em Genebra.
"Houve um enorme impulso para esse setor há dez anos", explica Emmanuel Fragnière, vice-diretor do programa de bacharelado em comércio exterior na Escola de Administração de Friburgo. "Com o passar do tempo, os negócios nessa área começaram a parodiar o setor financeiro. Foi no momento em que o mercado de commodities se tornou mais volátil."
"Isso criou uma nova demanda de infraestrutura de apoio, como informática, assistência jurídica e serviços de consultoria operacional."
Grandes nomes, nomes pequenos
Também há indícios anedóticos de que os comerciantes de commodities estejam começando a fugir de Londres devido ao recente aumento de impostos. Em todo caso, assim como a indústria dos fundos hedge, o êxodo se parece mais com um gotejamento constante do que uma verdadeira torrente.
Economistas estão começando a levar mais a sério o setor de negociação de commodities, uma vez que sua contribuição ao PIB aumentou de menos de 0,5% em 2003 para 2% no ano passado. O Instituto Econômico Suíço (KOF, na sigla em alemão), da Escola Politécnica de Zurique, dá agora mais peso ao setor quando realiza suas previsões econômicas para o país.
Com seis mil empregos apenas na região de Genebra - e mais ainda nos gigantes de Zug como a empresa Glencore - a Suíça é vista como um dos mais importantes atores globais no comércio de commodities, ao lado de Londres e Cingapura.
Inúmeras multinacionais de peso tem hoje uma presença importante na Suíça. Glencore, Vitol, Trafigura, Guvnor e Mercuria são apenas alguns dos bem estabelecidos grandes nomes, gerando bilhões de dólares de lucros no ano passado.
Os gigantes globais são complementados por uma profusão de empresas menores na região de Genebra, todas especializadas em serviços de nicho e comércio. No entanto, a crise financeira cobrou sua parte das pequenas empresas quando os lucros caíram juntamente com o preço das commodities no ano passado e o crédito nesse setor volátil se tornou mais difícil de encontrar.
Impacto da crise financeira
Todo o panorama do setor se transformou no ano passado, como avalia o operador Samir Zreikat, baseado em Genebra. As empresas mais afetadas pelas turbulências foram aquelas que eram suficientemente grandes para estar mal expostas, mas pequenas demais para lidar sozinhas com as consequências financeiras.
"Estamos testemunhando uma mudança no setor, onde os grandes "players" se tornam cada vez maiores e as menores empresas, e de melhor desempenho, se tornam cada vez mais dinâmicas", conta à swissinfo.ch. "Estamos vendo uma deslocação para os extremos no momento em que os atores medianos começam a desaparecer."
Outra ameaça para o sucesso contínuo dos negociantes de commodities baseados na Suíça é a pressão sobre o sigilo bancário. Confidencialidade desempenha um papel importante na realização de negócios com governos e também na habilidade de colocar a carta certa na mesa ao especular sobre a flutuação de preços.
A Suíça foi forçada a ceder terreno no ano passado durante uma cruzada internacional contra o sigilo no seu sistema financeiro. "Embora o comércio de commodities não tenha ligações com evasão fiscal, o sigilo bancário tem um papel fundamental pelo fato de o setor ter se tornado mais financeiro em sua natureza", avalia Fragnière.
"Obscuridade faz parte do negócio", declara. "Transparência não é sempre uma boa coisa quando se faz negócios com um governo, pois em muitos casos se está próximo demais de uma situação política delicada."
Mundo secreto
Por vezes, essa obscuridade mancha a reputação do setor, particularmente quando os negócios são realizados com regimes não democráticos em partes do mundo em conflito. Mineração e produção de petróleo são muitas vezes associados à exploração, enquanto empresas podem se encontrar facilmente em situações complicadas por ter negociado com os regimes incorretos.
Muito tem sido feito através de tentativas recentes através da Glenclore de comprar publicamente a gigante do setor de mineradoras Xstrata. Havia fortes rumores de que ela também entraria na bolsa, acompanhando uma oferta de 2,2 bilhões de dólares (2,35 bilhões de francos) em títulos em dezembro passado.
Porém observadores acreditam que o setor de commodities está predestinado a crescer ainda mais no futuro, impulsionado pela demanda maciça de petróleo e minerais por parte de países como a China, a nova tendência do biocombustível e invocações recentes como o comércio de créditos de carbono.
"Haverá possivelmente poucos atores no futuro e que se parecerão cada vez mais com bancos", prevê Zreikat. "Mas a principal atividade do setor continua sendo essencialmente transportar mercadorias de um lado para o outro. Os operadores continuam tendo um papel importante frente à necessidade de países e populações do mundo."
Matthew Allen, swissinfo.ch
(Adaptação: Alexander Thoele)
Indústria de commodities na Suíça
Cidades suíças como Winterthur, Lucerna e Lausanne têm uma longa tradição na área de comércio de matérias-primas (commodities) como algodão ou café. Elas aproveitam-se da localização central da Suíça no continente europeu.
Após duas guerras mundiais, as empresas comerciantes de commodities começaram a olhar com maior atenção para a neutra Suíça, cuja estrutura política e econômica sobreviveu incólume aos conflitos.
A primeira empresa comerciante de grãos surgiu em Genebra nos anos 1920, quando a Suíça se ofereceu como plataforma neutra para empresas americanas no comércio com países do bloco soviético durante a Guerra Fria.
A popularidade de Genebra como destino para viajantes do Oriente Médio deu à cidade uma vantagem quando a indústria petroleira começou a explodir na região. Negociantes de petróleo foram logo acompanhados por comerciantes de algodão, que escaparam do Egito nos anos 1960.
As preocupações da Rússia em relação ao suprimento de petróleo nos anos 1990 fez com que se estabelecesse uma indústria de commodities no cantão de Zug, na Suíça central.
O impacto exato da indústria suíça de comércio de commodities é difícil avaliar devido ao sigilo com que ela trabalha. Mas alguns observadores estimam que na Suíça seja negociado cerca de 70% do petróleo russo. O país dos Alpes teria uma parte semelhante no comércio mundial de outras commodities.
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