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Os eleitores suíços gostam dos caminhos transitáveis. É a lição transmitida pela maioria dos comentários publicados na imprensa helvética um dia após o grande dia de plebiscitos em 5 de junho. Foi um domingo de vitória para o governo e derrota para os conservadores do Partido do Povo Suíço em sua área predileta: o do asilo político.
"O veredito de domingo é o da carteira de dinheiro", escreveu o jornal Le Temps. "E não foi qualquer um, mas sim o do governo federal. Pois ele seria o maior desafiado, caso as iniciativas populares fossem aceitas nas urnas."
"Utopia interessante, a renda básica incondicional não era possível de se financiar. A iniciativa intitulada 'Vaca leiteira' morre de um problema similar. Ela teria privado o orçamento federal de 1,5 bilhões por ano. O mesmo pode se analisar da iniciativa sobre o serviço público. Ela teria privado a Confederação de um bilhão de dividendos e impostos, sem que a certeza que o dinheiro poupado nessas empresas de capital público seria utilizado no sentido esperado pelos iniciadores", avalia o jornal.
Derrotados
"O Partido do Povo Suíço foi derrotado na questão do asilo", titulou o Neue Zürcher Zeitung (NZZ), considerando ao mesmo tempo que o partido conservador não combateu a lei por ela própria, mas "no seu próprio interesse" segundo uma lógica de "oposição como um fim em si", enquanto ele próprio foi o mais virulento a pedir leis mais rígidas. Para o jornal zuriquense, o veredito das urnas é claro: "os cidadãos querem soluções e não uma gestão de problemas".
"Em alemão, ela se diz o 'Partido do Povo Suíço'. Portanto, aqui, esse mesmo povo puniu o SVP pela segunda vez consecutiva na questão da imigração, seu tema favorito, acrescenta o jornal La Liberté, de Friburgo. "A formação nacional-conservadora não convenceu um eleitor em três, quase o seu próprio eleitorado em número. Não podemos ver aqui o fosso entre as 'elites' e as pessoas da rua, como sempre denuncia o partido populista".
Para o 24 Heures, "o SVP está habituado a conduzir sozinho seus combates, mas se encontrou dessa vez em uma situação difícil. Ele fracassou em explicar ao seu eleitorado a razão por qual se opunha a uma lei que tinha por fim acelerar os processos de pedido de asilo. O SVP sabia, porém, muito bem que o sucesso de um tema nas urnas é inversamente proporcional ao seu grau de complexidade."
No cantão do Valais, o jornal Le Nouvelliste revela que "o fato marcante na campanha foi a atitude do SVP. O partido que lançou o referendo fez como se não acreditasse verdadeiramente no seu próprio combate."
O Corriere del Ticino fala de "um outro golpe de espada na água para o SVP". Com esse referendo "lançado em plena campanha eleitoral, no ponto culminante de duas legislaturas nas quais o SVP recorreu (com sucesso) a arma da consulta popular" e que rapidamente "alcançou uma amplitude temerária, com seus argumentos especiais e incompreensíveis".
No Ticino, a La Regione lembra que a "aceleração dos processos de asilo é um tema dificilmente contestável. Nada surpreendente ao ver que o SVP, após a derrota em 28 de fevereiro com a sua iniciativa de expulsão dos estrangeiros criminosos, tenha voltado a fazer campanha com um dos seus temas de predileção". O jornal ainda adverte que o partido deverá ser mais prudente no momento em que se aventurar no terreno da democracia direta.
"Um pouco louco"
Menos diplomata, o Bieler Tagblat julga que “o SVP queria uma reforma do direito de asilo à sua maneira. Tudo ou nada. O conceito é um pouco louco. Nada mais fácil do que permanecer inflexível em suas exigências máximas, de rejeitar um compromisso amplamente apoiado e depois declinar de toda a responsabilidade. Isso se chama fazer da oposição fundamental um objetivo em si e a qualquer preço”.
Finalmente, o Basler Zeitung, que frequentemente tem posições próximas do SVP, parece o único a encontrar virtude nesse referendo contra a lei do asilo. Para o jornal, é graças a ele que “o governo federal, a maioria do parlamento e a maioria dos partidos tiveram frente ao dever” de cumprir suas promessas de processos de asilo mais rápidos, mais corretos e mais baratos.
Não toque em serviço público
Quanto à iniciativa “em favor do serviço público”, o Neue Luzerner Zeitung julga que ela nos fez viver “um domingo de votações chato, no melhor sentido do termo”. Ou seja, um domingo “em que refutam todo aspecto aventureiro, como fizeram de maneira muito clara” sobre esse assunto.
Apesar de tudo, prediz o diário, a discussão acerca dos salários dos patrões das empresas públicas vai continuar, como propostas da esquerda e o apoio dois membros importantes do SVP tem uma limitação. Resta saber o que restará dessa iniciativa.
O Aargauer Zeitung considera por sua vez o veredito das urnas como “uma recusa clara da limitação de salários” para os patrões de Swisscom, dos Correios e das Ferrovias Federais (CFF). “As propostas dos anticapitalistas de esquerda e dos defensores da privatização de direita devem ser rejeitadas. O governo federal deve continuar a controlar que não haja excesso, mas limites impostos pelo Estado não são uma solução na economia liberal de mercado”, escreve o diário.
Uma ideia avançada
Acerca da renda básica incondicional, O Nouveliste destaca que ela nos ofereceu “um sacramento de rico sujeito a debate. Um debate sobre a nossa maneira de viver e de trabalhar. Hoje, amanhã, dentro de 50 anos”.
“Ontem em Basileia os que lançaram a iniciativa festejavam”, escreve o diário do cantão do Valais. Eles perderam a votação mas sabem que empresários e filósofos pensam o mundo do trabalho das próximas décadas. A renda básica incondicional chegou cedo demais. Impossível de aceitar o que não se conhece. Tomenos o tempo de conhece-la melhor. Para estar prontos, dentro de algumas décadas quanto de tanto falar ela se tornará uma evidência”.
Na mesma linha, o Aargauer Zeitung escreve que “a ideia veio muito cedo” porque “nosso Estado social funciona finalmente bem e nossa economia também, ou pelo menos não tão mal”. Resta que a iniciativa “ coloca questões às quais estamos longe de responder: como imaginar o futuro do trabalho e do Estado providência? Estamos dispostos para a robotização? Vamos ver desaparecer muitos empregos? Ou eles vão simplesmente mudar de setor? Será preciso refletir sobre essas questões”.
Adaptação: Alexander Thoele e Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch