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Documentos vazados à imprensa revelam como a mulher mais rica de África desviou milhões de dólares de dinheiro público de Angola para contas offshore. O dinheiro foi usado até para a compra de uma joalheria suíça. A empresária rejeita as acusações.
A grande reportagem intitulada "Luanda Leaks" é a nova investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês). Jornalistas de 36 mídias investigaram 700 mil documentos que revelam como bancos, advogados, contabilistas, funcionários governamentais e empresas de gestão de fortunas ajudaram Isabel dos Santos, filha do ex-presidente da Angola, José Eduardo dos Santos, e seu marido Sindika Dokolo, a esconder bens das autoridades fiscais e a depositá-las em contas no exterior.
Os jornais suíços Tribune de Genève e Tagesanzeiger, que participam do consórcio, publicaram um artigo na segunda-feira, revelando que De Grisogno, uma joalheria de Genebra, teria sido comprada por mais de 140 milhões de dólares oriundos de fundos estatais angolanos.
Segundo o Tagesanzeiger, a empresa estava endividada e quase à beira da falência em 2011, quando então o resgate veio diretamente de Angola. Sodiam, a empresa de diamantes estatal de Angola, e o genro do então presidente, Sindika Dokolo, compraram a empresa por 25.7 milhões de francos através de uma estrutura financeira montada em Malta.
Depois, o Estado angolano teria investido pelo menos 140 milhões de dólares na De Grisogono, sem nunca ter tido retorno financeiro. Pelo contrário: a empresa suíça registra ainda grandes perdas na ordem de 20 milhões por ano, como mostra um balanço de novembro de 2015.
De Grisogono desperdiçou dinheiro público de Angola em festas de luxo e investimentos especulativos. Ela convidava regularmente VIPs para eventos exclusivos em Cannes, St. Moritz, Gstaad ou Porto Cervo. Também gastou vastas somas de dinheiro no desenvolvimento de relógios ostentosos que não encontravam compradores. Um dos mais caros tinha o formato de um crânio e custava 700 mil francos.
Isabel dos Santos, filha do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos, foi nomeada pela Forbes como a mulher mais rica de África, com uma fortuna estimada em mais de 2 bilhões de dólares. Ela declara nunca ter se beneficiado de fundos públicos, mas para os críticos se tornou o símbolo da corrupção no continente.
No final de 2019, o governo angolano apreendeu os bens domésticos de Isabel dos Santos, alegando que ela e o marido haviam desviado um bilhão de dólares da empresa petrolífera estatal Sonangol e da Sodiam, empresas das quais eram acionistas.
A filha do ex-presidente nega as acusações e considera que elas são ataques direto ao seus, o ex-presidente José Eduardo, que governou o país por quase quatro décadas, para esconder os fracassos do governo do atual presidente, João Lourenço.
Desde que Lourenço sucedeu a Eduardo em 2017, a família dos Santos foi afastada das empresas estatais e do poder. Isabel dos Santos foi destituída do cargo de presidente da Sonangol. Seu irmão, do fundo soberano.
Dos Santos declarou à BBC que as acusações são falsas e faziam parte de uma campanha de "caça às bruxas". Em sua resposta às alegações dos jornais suíços, dos Santos e Dokolo defenderam a legalidade dos investimentos realizados na De Grisogono. Alegam que os computadores de suas empresas foram invadidos e que a informação foi vazada para a imprensa para prejudicá-los.
Dokolo, por sua vez, acusou Sodiam de exagerar os prejuízos financeiros na De Grisogono e "destruir deliberadamente" o valor da joalheria suíça ao divulgar informações confidenciais. Ele argumentou que o investimento não está perdido, já que De Grisogono ainda continua a atuar no mercado.
Adaptação: Alexander Thoele, ICIJ/Tribune de Genève/BBC/sb