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Se a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 ajudou a popularizar o termo "fake news", então a pandemia Covid-19 mostrou o quão perturbador o problema pode se tornar se não for controlado.Este conteúdo foi publicado em 02. novembro 2020 - 14:26
Poucos lugares no mundo foram poupados do novo coronavírus em 2020, muito menos do ataque de informações enganosas em torno da doença. A Suíça não foi exceção. Um vírus pouco conhecido que forçou o governo a encerrar a vida normal para controlar sua propagação levou as pessoas a buscarem respostas.
Teorias da conspiração e histórias da mídia alternativa ganharam popularidade e ajudaram a alimentar protestos contra as restrições do governo e o desrespeito às regras - como o uso de máscaras, destinadas a proteger a população.
Edda Humprecht, pesquisadora de comunicação da Universidade de Zurique, explica seu apelo em tempos de incerteza: "Temos uma narrativa clara - preto e branco - e alguém para culpar".
Hora de agir?
A mídia alternativa continua sendo um "nicho" neste país pequeno e linguisticamente fragmentado. Como Humprecht e outros especialistas disseram à SWI swissinfo.ch, a baixa polarização, um panorama relativamente vibrante da mídia e um maior conhecimento de notícias falsas entre o público torna menos provável que as informações intencionalmente falsas – a desinformação - se espalhe no país alpino.
No entanto, mesmo antes do início da pandemia, parece ter acontecido uma mudança do pensamento a nível político. Antes o governo estava satisfeito em simplesmente em acompanhar o problema e, como muitas nações, estava reticente em estabelecer regras básicas mais rígidas para o uso da mídia social. Mas agora o governo suíço está visualizando a necessidade de uma legislação para combater a desinformação online e o discurso de ódio.
No entanto, o problema é complexo e, como a experiência em outros países mostrou, não pode ser facilmente resolvido pelo braço da lei sem levantar preocupações sobre a liberdade de expressão ou censura.
As estratégias de desinformação mudam rapidamente. Os manipuladores estão sempre um passo à frente dos reguladores. As próprias plataformas online são um alvo móvel, pois os usuários mudam regularmente seus hábitos de consumo.
Embora o Facebook continue a ser o site de rede social mais popular do mundo, o serviço de mensagens WhatsApp foi o mais usado pelos suíços, informou o Centro de Pesquisa para a Esfera Pública e a Sociedade (Fög, na sigla em alemão) em 2019. Em conversas provadas o alerta "conteúdo problemático" pode escapar de um escrutínio mais amplo e se espalhar rapidamente através das chamadas "câmaras de eco".
Oportunidades e desafios
Para os pesquisadores suíços, há muito tempo está claro que o problema das notícias falsas oferece uma oportunidade para inovar. Alguns têm experimentado maneiras de detectar manipulações de informações cada vez mais sofisticadas, como os deepfakes.
Outros pesquisadores foram rápidos em reorientar as pesquisas em andamento para examinar o comportamento da informação durante a pandemia, apelidada de "infodêmica" pela Organização Mundial da Saúde (OMS) devido à "superabundância de informações (sobre o vírus) que torna difícil para as pessoas encontrarem fontes confiáveis."
A desinformação também tem sido uma preocupação para a grande mídia - embora de forma diferente -, que luta com mudanças no consumo de notícias digitais e queda nas receitas de publicidade, um problema agravado pela Covid-19.
"Notícias falsas? Not in the Swiss Press", escreve uma campanha da associação Mídias SuíçasLink externo, disposta a separar seus veículos de maçãs podres.
Na Suíça, a confiança dos leitores na mídia está um pouco acima da média global, informou o Instiuto ReutersLink externo em 2020. E, de acordo com os especialistas da Fög, a qualidade das reportagens sobre a pandemia foi especialmente alta. A pesquisa mostra que a população confiava mais na mídia tradicional - incluindo as emissoras da Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão (SRG SSR), da qual a SWI swissinfo.ch faz parte - do que nas redes sociais para obter informações sobre o vírus.
Resposta lenta de grande tecnologia
No entanto, as plataformas sociais, apesar de serem vetores de conteúdo enganoso, têm sido bastante complacentes. Quase sem vontade de compartilhar dados com pesquisadores de desinformação, elas também relutam em aderir aos seus próprios termos de uso, como apontou o professor de comunicação e marketing Stefan Gürtler. O Twitter fechou apenas algumas das inúmeras contas falsas que sua equipe detectou durante uma votação nacional especialmente polarizada (sobre a taxa de licença de transmissão suíça) em 2017.
A crise de saúde sem precedentes e os altos riscos em jogo na eleição presidencial de 2020 nos EUA forçaram a mão das empresas até certo ponto. Alguns fizeram promessas, inclusive de proibir informações falsas sobre a segurança das vacinas, removeram ou colocaram advertências em posts enganosos - inclusive o do presidente Donald Trump.
Mas muitos outros continuam a circular - um estudo do Reino Unido descobriu que as plataformas não conseguiram remover 95% da desinformação sobre vacinas relatada - ameaçando as instituições democráticas e a saúde pública.
Adaptação: Clarissa Levy