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Washington agradeceu a Berna – que representa os interesses dos Estados Unidos no Irã – pela ajuda prestada no caso da jornalista iraniana-norte-americana Roxana Saberi, libertada na segunda-feira.
A embaixadora Suíça em Teerã, Livia Leu-Agosti, confirmou à swissinfo sua intervenção na questão, que fora abordada num encontro entre os presidentes suíço Hans-Rudolf Merz e iraniano Mahmoud Ahmadinejad, em Genebra.
Segundo Leu-Agosti, como defensora dos interesses dos EUA, a Suíça se engaja pelos cidadãos norte-americanos no Irã desde 1980. Nessa função, ela havia exigido um tratamento justo a Saberi, informa um comunicado do Ministério suíço das Relações Exteriores.
Roxana Saberi, de 32 anos, que tem dupla nacionalidade, havia sido condenada em 18 de abril passado, a oito anos de prisão, acusada de espionagem. Seu advogado recorreu da sentença de primeira instância.
O Irã não reconhece a dupla nacionalidade e considera Saberi apenas iraniana. Por isso, Teerã não permitiu acesso consular à jornalista durante sua permanência na prisão.
Libertação
Após quase quatro meses de prisão, ela foi libertada na segunda-feira (11/5), quando um tribunal de apelação transformou a pena de oito anos em dois anos de liberdade condicional. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, disse que foi informada sobre a libertação através do embaixador suíço em Washington.
O próprio presidente dos EUA, Barack Obama, havia se empenhado pela libertação da repórter e "ex-Miss North Dakota", que trabalha para a BBC, a cadeia de rádios públicas NPR (EUA) e para a Fox News, e estava escrevendo um livro sobre o Irã. Ele havia dito que as acusações de espionagem eram infundadas e pediu a libertação de Saberi.
"Estou bem; não quero dizer mais nada", declarou Roxana Saberi, após sua libertação. Seu pai disse que não esperava uma "libertação tão rápida". Ele anunciou que a filha retornará logo aos EUA.
Pais não sabiam da prisão
Os pais de Saberi só descobriram um mês após seu desaparecimento que ela estava presa. "E isso ainda na prisão de Evin, para presos políticos, o que é o pior", disse seu pai, Reza Saberi, à swissinfo.ch.
Segundo ele, Roxana estava sozinha, não podia ver ninguém, fora seus pais, que vivem nos EUA. Por isso, ele teria levado o caso a público. "Ela foi acusada de ter repassado fotos, mas nunca se disse quais foram essas fotos e para quem foram repassadas", disse o escritor.
Ele emigrou para os EUA há 36 anos e desde então não retornou mais ao país de origem. Ele disse que não se alegrou com a decisão tomada há seis anos pela filha, nascida nos EUA, de ir para o Irã, onde nunca tinha estado antes.
Merz com Ahmadinejad
O julgamento no tribunal de apelação de Teerã começou no último domingo a portas fechadas. Roxana aparentava estar cansada e tinha emagrecido. Na semana passada, seu pai disse que ela tinha encerrado uma greve de fome de duas semanas e estava debilitada.
A sentença de primeira instância teria sido revogada porque Saberi agora não estaria mais sendo acusada de "cooperação com um Estado hostil", disse um advogado da jornalista. Apesar de declarar que "os EUA não são mais um Estado inimigo" do Irã, o tribunal teria concluído que Saberi "juntou documentos secretos".
Também o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad tinha conclamado os juízes a analisar minuciosamente a sentença de primeira instância. O presidente concorre à reeleição em 12 de junho.
Segundo Mohammad-Reza Djalili, do Instituto de Estudos Internationais e do Desenvolvimento, em Genebra, "a libertação [de Saberi] foi completamente política e relacionada às eleições. Haverá muitos jornalistas estrangeiros no Irã na corrida às eleições [presidenciais] de 12 de junho. Estou convencido de que muitos desses jornalistas estariam mais preocupados com o caso Sabari do que as próprias eleições se ela tivesse permanecido na prisão ... Não havia interesse [para o regime] em manutê-la na prisão."
Instrumentalização política
A prisão de Saberi também foi tema de um polêmico encontro de Ahmadinejad com presidente suíço, Hans-Rudolf Merz, em Genebra, por ocasião da Conferência da ONU Antirracismo, disse Lars Knuchel, porta-voz do Ministério suíço das Relações Exteriores à agência de notícias SDA.
Merz foi muito criticado na ocasião por ter sido fotografado em clima descontraído com Ahmadinejad. Como reação, Israel chegou a retirar temporariamente seu embaixador de Berna.
Segundo o jornal Tagesanzeiger.ch, a anulação da sentença de prisão abre as portas para especulações. Com a libertação da jornalista, considerada uma vitória da ala moderada iraniana, a Justiça em Teerã removeu o último obstáculo ao diálogo que o presidente Obama pretende manter com o Irã, acrescenta o diário de Zurique.
Mohammad-Reza Djalili relativiza essa interpretação do jornal suíço. "Com o caso [Saberi] em andamento, esse diálogo seria difícil. Mas não creio que o diálogo seja iminente entre os EUA e o Irã, por duas razões. Em primeiro lugar, até agora os iranianos não pareciam estar tão interessados como os americanos e, em segundo lugar, é necessário esperar as eleições de junho e a clarificação da situação política interna no Irã, antes que essas negociações possam começar", disse o perito à swissinfo.ch.
Susan Abdallah, swissinfo.ch
(com colaboração de Clare O'Dea Zbinden e adaptação de Geraldo Hoffmann)
Reação de Berna
Leia a íntegra do comunicado divulgado no dia 11 de maio de 2009 pelo Ministério Suíço das Relações Exteriores sobre o caso Saberi:
"A Suíça saúda a libertação da cidadã de dupla nacionalidade iraniana-norte-americana Roxana Saberi. Como defensora dos interesses dos EUA, a Suíça ocupa-se dos cidadãos norte-americanos no Irã. No âmbito desse mandato, a Suíça empenhou, através de sua embaixada em Teerã junto às autoridades iranianas, por um tratamento justo da cidadã iraniana-norte-americana. As autoridades dos EUA agradeceram o governo suíço por isso."
Direitos humanos
Segundo Mohammad-Reza Djalili, do Instituto de Estudos Internationais e do Desenvolvimento, em Genebra, "pelo menos 14 jornalistas ou blogueiros foram detidos recentemente no Irã".
Segundo ele, "Saberi recebeu enorme apoio público, até mesmo de chefes de Estado, incluindo Obama. Ela teve sorte, em comparação com os outros que definham nas prisões da República Islâmica. A situação dos direitos humanos está longe melhorar no Irã", disse à swissinfo.ch.