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Há dez anos, os bancos suíços aceitaram devolver os bens de vítimas do Holocausto. Isso ajudou a "lavar a honra" do país, diz um dos arquitetos do acordo de 1,250 bilhão de dólares.
A conclusão do acordo, em 12 de agosto de 1998, marcou uma guinada no doloroso processo de elaboração do passado suíço referente à Segunda Guerra Mundial e afastou o risco de sanções.
Quando, em meados dos anos 90, organizações judaicas começaram a investigar o destino de contas inativas em bancos helvéticos com bens de vítimas do nazismo, ninguém imaginava a tempestade que isso desencadearia.
A pressão aumentou quando o governo dos Estados Unidos entrou no debate. Duas comissões, uma delas criada pelo Conselho Federal (Executivo suíço), relevaram que refugiados judeus foram rejeitados, firmas suíças lucraram com a máquina de guerra nazista e que o Banco Nacional Suíço (BNS) havia comprado ouro roubado dos judeus.
A controvérsia atingiu o auge quando os EUA entraram com uma ação coletiva contra os bancos suíços nas cortes de Nova York. "O clima era muito polarizado e agressivo entre os lados envolvidos", diz Stuart Eizenstat à swissinfo. Ele representou o governo dos EUA nas negociações. "Para a Suíça, foi um acontecimento traumático e um choque para a alma do país", acrescenta.
Confrontados com as acusações e com ameaças de boicote, o UBS e o Credit Suisse, os dois grandes bancos suíços, publicaram detalhes das contas das vítimas do Holocausto e aceitaram devolver o dinheiro.
Governo fica de fora
Decisivo para o acordo pode ser sido também a fusão de dois bancos suíços para formar o UBS – uma decisão que dependia da aprovação das autoridades norte-americanas.
"Na época da fusão do UBS, não era útil ter uma ação coletiva no pescoço. Foi um negócio financeiro no interesse de todos os envolvidos", lembra Rolf Bloch, então presidente da Comunidade Israelita Suíça (SIG, na sigla em alemão), durante entrevista dada à swissinfo.
Enquanto os bancos negociaram o acordo, o governo federal e o BNS criaram independentemente disso, em 1997, um fundo humanitário de 300 milhões de francos para as vítimas do nazismo.
Um ano depois, Eizenstat mostrou-se desapontado pelo fato de o governo suíço não ter desempenhado um papel no acordo dos bancos. Em sua opinião, o Banco Nacional deveria ter assumido pelo menos parte dos custos.
"Os governos nacionais participaram dos acordos com a Alemanha, Áustria e França. No caso da Suíça, o governo e o Banco Nacional empurraram tudo para os bancos privados. Eles tiveram de carregar sozinho todo o peso. Isso foi desproporcional e lamentável", segundo Eizenstat.
Suíços "lavam as mãos"
O negociador americano, no entanto, é da opinião de que o acordo foi "justo". Até o final de junho deste ano foram pagos um bilhão de dólares a judeus, homossexuais, portadores de deficiências, testemunhas de Jeová, ciganos e seus descendentes – vítimas do Holocausto.
Segundo Bloch, os pagamentos colocaram um "ponto final financeiro, mas não moral" no passado suíço relativo à Guerra. Para Einzenstat, o acordo teve um "efeito purificador" para a nação. Além disso, ele teria ajudado os bancos suíços a agir contra a lavagem de dinheiro.
"Uma parte do problema era que a Suíça estava isolada pela opinião pública mundial e não tinha consciência do quanto isso iria prejudicar-lhe. Esse acontecimento fatal teve um efeito purificador. O fato de os suíços, no final, terem chegado a um acordo foi muito positivo", diz Einzenstat.
swissinfo, Matthew Allen
Cronologia e balanço
Em 1995, meio século após o final das Segunda Guerra Mundial, organizações judaicas pediram informações sobre contas inativas de vítimas do Holocausto em bancos suíços. Por causa do segredo bancário suíço, a resposta se tornou difícil.
Na seqüência, ações coletivas contra bancos suíços levaram à criação de duas comissões para investigar o envolvimento da Suíça com a Segunda Guerra Mundial. A política econômica e a suposta neutralidade do país durante a Guerra foram questionadas.
A chamada comissão Volker descobriu dezenas de milhares de contas supostamente pertencentes a vítimas do Holocausto.
A comissão de peritos da Suíça revela no relatório Bergier provas de que o Banco Nacional Suíço comprou ouro roubado pelos nazistas e que o país recusou a entrada de refugiados judeus.
Em 12 de agosto de 1998, foi fechado o acordo de 1,250 bilhão de dólares entre os bancos suíços e os representantes das vítimas. Até o final de junho de 2008, um bilhão de dólares foi pago a 448.703 pessoas.
Dos US$ 1,250 bilhão, US$ 800 milhões destinam-se a cobrir fundos das contas inativas. Até agora, apenas 488,7 milhões desse montante foram pagos a 17 mil pessoas.
Outros US$ 287 milhões foram para 200 mil vítimas de trabalhos forçados (570 delas trabalharam em filiais de firmas suíças na Alemanha nazista).
US$ 205 milhões foram pagos a 230 mil pessoas, das quais os nazistas tinham roubado tudo.
US$ 11,6 milhões formam para refugiados não acolhidos pela Suíça ou que foram maltratados no país.
O restante destinou-se a diferentes projetos.