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Há um ano os eleitores suíços aprovaram nas urnas a proibição da construção de minaretes, decisão que causou impacto internacional.
Em Langenthal a polêmica continua devido a uma disputa popular pela construção de um minarete que já havia sido autorizado antes do plebiscito.
Langenthal é conhecida principalmente pelo seu design e por ser considerada como uma representação "média" da Suíça germânica em todos seus aspectos. Por isso várias empresas no país a utilizam para testar novos produtos. A crença geral é que se nela as vendas são boas, elas também o serão com o resto da população de língua alemã.
Porém desde 2006, essa pequena cidade do cantão de Berna com 15 mil habitantes e terra de origem de um recém-eleito ministro (clicar no link à direita) está no centro de uma disputa. Tudo começou em 2006, quando a comunidade islâmica local entregou um pedido oficial para expandir a mesquita local, incluindo também um minarete, mas sem alto-falantes.
Rapidamente um grupo contrário à construção do minarete (torres alta e fina, com três ou quatro andares e balcões salientes, de onde o muezim conclama os muçulmanos às orações) organizou um abaixo-assinado com 3.500 assinaturas. A prefeitura de Langenthal aprovou, porém, o pedido da comunidade islâmica.
A disputa continuou, e o autodenominado "Comitê de Ação Pare o Minarete" entrou com recurso, aprovado depois no cantão (governo estadual) de Berna. Os representantes dos muçulmanos locais reformaram então seu pedido, cancelando a expansão do centro de preces. A prefeitura de Langenthal aprovou então em junho de 2009 a solicitação.
Os resultados do plebiscito de 29 de novembro de 2009, no qual os eleitores aprovaram a proibição da construção de minaretes, não vale para o caso de Langenthal, já que a decisão oficial saiu antes. Isso explica, porque a queixa feita por moradores e membros do comitê foi refutada pelo governo cantonal. Estes fizeram mais uma tentativa na Justiça bernense, mas a decisão só deve sair no verão de 2011. Muitos acreditam que o processo deve ir até às últimas instâncias, o Tribunal Federal.
Publicidade problemática
O prefeito de Langenthal, Thomas Rufener, engenheiro de profissão, não se mostra muito satisfeito com a publicidade atual. Em sua opinião, o caráter mediano da cidade que governa deve ser analisado como uma dimensão operativa: "Ela é mediana tanto nos aspectos positivos como nos negativos, ou seja, ela é uma amostra representativa da Suíça."
Dessa forma, Rufener analisa o voto dos seus cidadãos. "O comportamento eleitoral da nossa população corresponde exatamente ao voto dado pelos suíços na iniciativa popular de um ano atrás". Com isso, o prefeito afirma que não ocorreu mais ou menos apoio à proibição da construção de minaretes do que em outros lugares do país. Porém diferentes partidos agora querem tirar proveito político da publicidade trazida pelo plebiscito.
Também a mídia vê Langenthal em um prisma conversador de direita e oposta ao Islã. Mas Rufener se opõe a essa ideia, apesar de ser membro da União Democrática do Centro (SVP, na sigla em alemão), partido que lançou a famosa iniciativa. "Repentinamente muitos jornais estrangeiros passaram a se interessar por Langenthal. Agora somos associados à disputa dos minaretes, apesar dessa decisão não se limitar a nós."
Memorial
O objeto de disputa seria construído ao lado da mesquita, que está localizada em um subúrbio da cidade, em um bairro industrial. À noite, graças à iluminação amarelada, ela lembra mais um quadra esportiva do que um centro islâmico de preces com ares de uma construção oriental.
Cem metros distantes de lá, em um dos modernos salões de um novo hotel, o Comitê de Ação Pare o Minarete desvenda um modelo do seu planejado memorial.
Feito em ferro, este terá o tamanho de uma pessoa e lembra um saca-rolha de cabeça para baixo. Essa forma tem por objetivo lembrar os fiéis de outras religiões que são perseguidos em países islâmicos. No discurso, um dos presentes cita o recente ataque terrorista contra uma igreja em Bagdá, Iraque. Um cristão aramaico pede a palavra.
No encontro, o deputado-federal Walter Wobmann (também do SVP) fala "da inacreditável arrogância" das instâncias governamentais do cantão de Berna, que permitiram a construção de um minarete em Langenthal, apesar do resultado do plebiscito.
O comitê aborda o medo de muitos suíços, sobretudo os cristãos.
Paradoxo político
Porém os membros da comunidade islâmica de Langenthal também tem medo. Em grande parte, eles são albaneses de origem macedônica, como explica seu porta-voz, Mutalip Karaademi, que também tem as mesmas origens.
Ele considera ser um paradoxo fatal que muçulmanos europeus, que também sofrem com o terror, sejam colocados no mesmo patamar de terroristas árabes. "Na antiga Iugoslávia também não existia liberdade religiosa. O imame precisava ser comunista. Na guerra dos Bálcãs, nos anos 1990, a situação ficou ainda pior para os muçulmanos."
Ele reflete sobre a situação atual. "E na época, quando chegamos como perseguidos na Suíça, uma democracia onde a liberdade religiosa é considerada, nos tornamos então mais uma vez alvo de propaganda política."
Além disso, albaneses também não poder considerados automaticamente como muçulmanos. "Sentimos-nos culturalmente mais como membros de uma comunidade, levando-se em conta que podemos ter três diferentes religiões. Entre nós esse convívio é normal", afirma Karaademi, ressaltando também desejar o mesmo para a Suíça.
Instâncias finais
A solução para a disputa em Langenthal está longe, como acredita Daniel Kettiger, o advogado da comunidade islâmica local. Para ele estava claro que os grupos contrários ao minarete iriam levar sua réplica até o Tribunal Federal, ou seja, a última instância jurídica do país.
Porém Kettiger está convencido que a proibição geral da construção de minaretes "não tem bases jurídicas" à longo prazo. "Ela cai pelo menos na Corte Europeia de Direitos Humanos."
Já no encontro de lançamento do memorial, a opinião é diferente, como considera Walter Wobmann ao lembrar a corte em Estrasburgo. "Espero que ela não condene a decisão popular clara em um Estado soberano."
Se a proibição da construção de minaretes for vista como violação dos direitos humanos, ele imagina até a possibilidade de entrar com uma queixa contra o próprio Alcorão, o livro sagrado que contém o código religioso, moral e político dos muçulmanos. "Apedrejamento, casamentos forçados e espancamento de mulheres e crianças também devem ser condenados", declara o parlamentar ao publico presente.
Globalização
Em outra ocasião, o hotel em Langenthal recebe em seu restaurante executivos de língua italiana e inglesa. Eles são atendidos por pessoal asiático, que servem pratos internacionais. Nenhum deles parece se preocupar com a discussão do minarete ou memorial.
Pelo contrário, as conversas citam mais nomes de empresas da região como Lantal Textiles, Creation Baumann e naturalmente Ammann Group, o conglomerado que era dirigido pelo novo ministro Johann Schneider-Ammann. Langenthal se mostra dessa forma como um local que abriga uma indústria globalizada, na qual política local fica em segundo plano.
A questão levantada a uma das funcionárias estrangeiras do hotel, se os protestos constantes contra os minaretes estariam prejudicando a cidade, a resposta é lapidar. "Nossa clientela de executivos vêm só durante a semana. Como os protestos ocorrem nos finais de semana, quando o hotel tem baixa ocupação, poucos percebem eles. E os suíços que nos visitam nesses dias, eles já conhecem essa historia."
Muçulmanos na Suíça
Segundo o censo 2000, havia 310.807 muçulmanos na Suíça. Em 1970 eram cerca de 16 mil, 57 mil em 1980 e 152 mil em 1990.
Em 1990, 2,2% da população suíça era de confissão muçulmana. Em 2000, a proporção subiu para 4,3%, com as guerras na antiga Iugoslávia e a chegada à Suíça de numerosos refugiados dos Bálcãs.
90% dos muçulmanos da Suíça provêm da Turquia e dos Bálcãs. Os de origem árabe são 6% e vêm de vários países. Aproximadamente 10% deles têm passaporte suíço.
Essa população é jovem e majoritariamente urbana.
Apenas uma pequena minoria pode ser considerada estritamente praticante.
swissinfo.ch