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(A partir da esquerda) Os jogadores Hulk, Neymar e Daniel Alves no banco do Brasil durante a disputa do terceiro lugar da Copa(afp_tickers)
Depois de sofrer a maior humilhação de sua história com a goleada de 7 a 1 para a Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo, o futebol brasileiro precisa, mais do que nunca, reinventar-se, a começar pelas categorias de base.
"A forma com a qual perdemos para a Alemanha não foi normal. Como outros países fizeram antes de nós, temos que rever muitos conceitos, sobre a organização do futebol, as nossas estruturas e a formação de jogadores", declarou à AFP o ex-jogador Raí, que participou da campanha do tetra em 1994.
Com a seleção mais vitoriosa da história, o Brasil ainda é considerado o país do futebol, mas mostrou nesta Copa que seu jogo está ultrapassado e não acompanhou as mudanças ocorridas nos outros países. A derrota de 3 a 0 para a Holanda no sábado, na disputa pelo terceiro lugar, mostrou que o 'apagão' contra a Alemanha não foi um simples acidente.
"Temos que ter a humildade de deixar de lado os cinco títulos mundiais e admitir que precisamos fazer uma revolução no nosso futebol. Precisamos de um tratamento de choque", avisou Eduardo Tega, diretor da Universidade do Futebol, que promove cursos de capacitação de profissionais do esporte.
"Todo mundo está dando muita ênfase no aspecto micro, o apagão que a seleção brasileira sofreu durante seis minutos (quatro gols dos 23 aos 29 minutos do primeiro tempo da semifinal), e ignora o macro, que é todo o processo a longo prazo realizado pela Alemanha para chegar no nível em que está hoje", explicou.
'Resgatar o que tem de melhor'
De acordo com Marcelo Lima, coordenador técnico das categorias de base do São Paulo, o futebol brasileiro deixou de ser referência e "parou no tempo".
"O mundo inteiro sempre copiou o futebol brasileiro. Na década de 70, a Holanda copiou o Brasil, atualizou, modernizou o estilo de jogo e encantou a todos na Copa de 1974. O futebol brasileiro sempre foi admirado, mas hoje está ultrapassado", lamentou.
"Tudo isso é uma bola de neve que só tende a aumentar. A seleção poderia ter vivido uma crise semelhante em 2002, mas não aconteceu porque o Brasil tinha talentos individuais fora de série. Está acontecendo agora porque a gente está parado desde 2002", enfatizou.
"Não temos que copiar o que está sendo feito nos outros países, temos que nos inspirar, aprender, e ao mesmo tempo resgatar o que tem de melhor no nosso futebol. Agora é o momento da mudança", concordou Eduardo Tega.
De acordo com o diretor da Universidade do Futebol, as categorias de base da muitos clubes brasileiro estão deixando de lado o talento natural dos jogadores para apostar na força física.
"Nas décadas de 60 e 70, o desenvolvimento das qualidades dos jogadores se fazia de forma muito espontânea. Jogava-se na rua, na praia, em campos de várzea. Hoje, com a expansão urbana, espaços naturais foram substituídos pelas estruturas rígidas dos clubes. Isso teve um grande impacto sobre a qualidade do nosso futebol. A habilidade criativa, que era a maior riqueza do nosso futebol, foi deixada de lado em prol de uma mecanização, uma robotização da formação dos jogadores", analisou.
Pressão por resultados imediatos
"Há muita gente boa nas categorias de base, mas o problema é a estrutura políticas dos clubes. A pressão é muito grande entre os profissionais da área, que precisam vencer campeonatos para se manter no cargo. Em alguns casos, o técnico do sub-13 chega a torcer pelo fracasso do colega do sub-15 para assumir o lugar dele. Por isso, muitas vezes priorizam o perfil físico ao invés da inteligência de jogo", lamentou.
"O maior problema é a ingerência política dentro das categorias de base. A dimensão técnica deveria ser a locomotiva, mas não é o caso", completou.
Já Marcelo Lima também aponta problemas na capacitação dos profissionais, que podem explicar carências táticas na formação dos jovens atletas.
"O Brasil tem um berço gigante para captação de talentos individuais, mas alguns aspectos táticos e estratégicos ficaram para trás", criticou.
Para ele, além de formar jogadores, os clubes precisam formar cidadãos.
"Com educação precária, com saúde precária no país, a gente acaba recebendo jogadores com muitas deficiências. Pouquíssimos clubes têm condições financeiras, físicas ou humanas para trabalhar em cima disso", lamentou.
"O atleta tem que ser muito bem formado para entender as questões táticas. Não começa apenas no sub-14, quando os atletas integram as categorias de base dos clubes, precisa começar nas escolinhas de futebol ou na própria escola. Os atletas vêm sendo muito mal formados no Brasil, diferentemente do que a gente pode observar na Alemanha ou na Bélgica. Lá eles têm consciência de que a escola é fundamental. Tudo isso se transfere para o futebol", resumiu Marcelo Lima.
A revolução do futebol brasileiro precisa começar no berço para que as próximas gerações possam ter chances de conquistar o hexa que escapou em casa nesta edição.
AFP