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do Observatório de Geopolítica
Índia, um parceiro incerto no BRICS
por Zhengxu Wang
A influência dos BRICS está crescendo, mas o papel da Índia nesse projeto do Sul Global é bastante incerto. Desde 2014, a Índia vem seguindo um projeto nacionalista próprio. Ela quer se globalizar, mas sem comprometer seus interesses nacionais. Ao mesmo tempo, está preocupada com a influência crescente da China nesses grupos multilaterais e busca afirmar sua liderança em várias frentes o quanto possível.
Um exemplo disso é o pacto RCEP (Parceria Econômica Regional Abrangente). A Índia estava inicialmente dentro do acordo, mas saiu em 2019 no último minuto, alegando a necessidade de proteger seus setores vulneráveis. O país quer investimentos internos para impulsionar sua campanha “Make in India”, aumentar as exportações e reduzir seus déficits comerciais crescentes. Por isso, prefere acordos bilaterais em vez da cooperação econômica multilateral.
Diante disso, será difícil para os BRICS fazerem progressos rápidos em comércio e cooperação relacionados à cadeia de valor. Se o grupo quiser formar um acordo de livre comércio, por exemplo, a participação da Índia é incerta.
A economia indiana está em rápido crescimento e pode se tornar a terceira maior do mundo até 2050. No entanto, é improvável que seu PIB per capita cresça na mesma proporção. Por exemplo, ele pode continuar sendo menor que o de Bangladesh por um bom tempo. Em 2021, a Índia tinha apenas 3,1% da produção global, enquanto a China tinha 28,7%. Juntos, os BRICS representam mais de 40% da população mundial e mais de 26% do PIB global. Isso torna vantajoso para a Índia permanecer no grupo, mas também significa que ela precisa equilibrar suas ambições nacionais com os interesses mais amplos do bloco.
Geopoliticamente, a Índia está investindo em sua Política Act East e se tornando ativa no Quad, movimentos que parecem hostis à China. A rivalidade entre os dois países aumentou com os confrontos de Galwan em 2020. A Índia se sente incomodada com a presença chinesa nos portos de Hambantota, no Sri Lanka, e Gwadar, no Paquistão. Essa rivalidade interna pode enfraquecer o bloco dos BRICS.
Além disso, há a expansão dos BRICS. A Rússia quer que novos membros ampliem suas alianças e aumentem o apoio diplomático, além de expandir o mercado de petróleo e gás. A China quer expandir o bloco para promover o comércio e a desdolarização, equilibrar-se contra a hegemonia dos EUA e avançar sua Iniciativa Cinturão e Rota (BRI). No entanto, com a expansão do grupo, a Índia teme que sua influência seja diluída e que seja marginalizada diante do poder da China e da Rússia.
A Índia tem se alinhado mais com as nações ocidentais em oposição à China. Seus laços com o Ocidente têm registrado um aumento substancial em assistência econômica e acesso à tecnologia. O primeiro-ministro Modi rejeitará qualquer tentativa de tornar os BRICS um contrapeso ao G7. Isso porque a Índia não quer fazer parte de um grupo visto como anti-EUA ou rival dos EUA.
A relação entre Índia e Estados Unidos também é crucial. A Índia não quer integrar nenhum grupo que seja visto como anti-EUA ou rival dos Estados Unidos. No entanto, a Índia sempre busca um papel de liderança em plataformas globais multilaterais e jamais aceitaria uma nação rival como líder. O grande problema nessa equação é a China. A Índia se absteve de fazer uma declaração econômica significativa em uma recente reunião da SCO (Organização de Cooperação de Xangai) porque a declaração fazia referência à Iniciativa de Desenvolvimento Global de Pequim.
Em resumo, é um desafio para o governo de Modi aceitar um papel secundário em fóruns multilaterais. A Índia pode optar por se retirar de sua posição menos influente em um bloco mais poderoso para buscar uma posição de maior influência em um bloco mais fraco. Isso não é um bom sinal para o futuro papel da Índia nos BRICS.
Zhengxu Wang é professor de Ciência Política na Universidade de Zhejiang, China, e Raghuvir Kelkar é estudante de mestrado na Escola da Rota da Seda da Universidade Renmin da China.
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