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Dezenas de milhares de opositores saíram às ruas de várias cidades da Bolívia para protestar a prisão da ex-presidente Jeanine Áñez por suposto golpe de Estado contra o ex-mandatário esquerdista Evo Morales em 2019.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) e os Estados Unidos expressaram preocupação com o novo clima de tensão política na Bolívia.
"Não foi golpe. Foi fraude", diziam cartazes de manifestantes que, com a pandemia como pano de fundo, participaram de marchas, manifestações em frente ao Ministério Público e concentrações pacíficas em praças das cidades de La Paz, Cochabamba (centro), Sucre (sudeste), Trinidad (noroeste) e Santa Cruz (leste).
Em Santa Cruz, capital econômica da Bolívia e bastião da oposição, a concentração reuniu cerca de 40.000 pessoas na praça Cristo Redentor, emblemático lugar de reuniões públicas da direita, segundo estimativas de autoridades locais. Na Bolívia a polícia não realiza este tipo de cálculo.
Foi possível ouvir buzinas contra a prisão da ex-presidente interina (2019-2020) e de seus dois ex-ministros, apontada em uma denúncia apresentada em dezembro por uma ex-deputada do Movimento ao Socialismo (MAS) por conspiração para cometer um suposto golpe contra Morales.
As acusações também são dirigidas contra o líder civil de Santa Cruz e governador eleito, Luis Fernando Camacho.
Camacho, que venceu as eleições em sua região com mais de 55% dos votos, chamou Áñez e seus colaboradores de "presos políticos". “Não vamos deixá-los sozinhos”, prometeu, conclamando seus seguidores a permanecerem mobilizados e a fazer com que o governo do esquerdista Luis Arce pare com as prisões.
O governo do Peru informou que Roxana Lizárraga, ex-ministra de Áñez, solicitou asilo.
A oposição de direita e de centro acusa a Justiça de estar subordinada ao governo de Arce, o herdeiro político de Morales.
Áñez, 53, foi presa no sábado na cidade de Trinidad, capital do departamento amazônico de Beni (nordeste), e na segunda-feira foi encarcerada em uma prisão em La Paz. Ela foi condenada a quatro meses de prisão preventiva.
- Alertas no exterior -
Washington foi o último ator internacional a expressar sua preocupação, como fizeram a Comissão Europeia e a ONU no fim de semana, pelos acontecimentos na Bolívia desde a prisão de Áñez, no sábado.
"Os Estados Unidos estão acompanhando com preocupação os desdobramentos relacionados à recente prisão de ex-funcionários pelo governo boliviano", disse Jalina Porter, porta-voz adjunta do Departamento de Estado.
Já o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, destacou que "o sistema judicial boliviano não está em condições de oferecer as garantias mínimas de um julgamento justo" e pediu a liberação do detidos.
Pelo Twitter, Morales respondeu a Almagro afirmando que "ele também deve ser julgado por promover o golpe e por crimes contra a humanidade".
Um relatório da OEA encontrou irregularidades nas eleições de 2019, que Morales rejeitou.
- Oposição se organiza -
Os opositores querem impedir que as prisões continuem. A promotoria também emitiu mandados de prisão na última sexta-feira contra os ex-ministros Yerko Núñez (Presidência), Arturo Murillo (Interior) e Fernando López (Defesa), ex-militares e ex-chefes de polícia e outros civis.
Camacho é o principal alvo da denúncia da ex-parlamentar do Movimento ao Socialismo (MAS), Lidia Patty, que motivou as prisões por suposta conspiração, sedição e terrorismo para realizar um suposto golpe entre outubro e novembro de 2019.
Em 2019, Camacho, empresário de 42 anos e ex-líder do Comitê Cívico, promoveu protestos em Santa Cruz que se espalharam por todo o país, após as eleições de outubro daquele ano, denunciadas como fraudulentas em favor do presidente indígena.
O líder civil ganhou destaque durante os protestos contra Morales quando disse que se mudaria de Santa Cruz para La Paz com a Bíblia na mão direita e com a carta de renúncia de Morales na esquerda.
Camacho disputou a Presidência nas eleições de outubro, mas ficou em terceiro lugar.
- Prisão e julgamentos -
O ministro da Justiça, Iván Lima, disse que o “golpe deve ser resolvido na Justiça e não nas ruas”.
“O que buscamos não é uma detenção de quatro meses, o que buscamos é uma pena de 30 anos (na prisão), porque aqui ocorreram massacres sangrentos”, disse ele sobre Áñez, referindo-se aos incidentes violentos registrados durante o governo de transição.
Lima também informou nesta segunda-feira que o governo e outros setores apresentaram quatro ações judiciais por responsabilidades e privilégios após denúncias pelo contrato de crédito de 327,2 milhões de dólares firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), cancelado por seu sucessor, Luis Arce, e para evitar que cidadãos bolivianos voltassem do Chile em 2020, durante a pandemia.