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Por Tom Perry e Stephen Kalin
BEIRUTE/CAIRO (Reuters) - Em um Oriente Médio inflamado por múltiplas crises, os palestinos estão recebendo menos apoio árabe que antes no seu atual conflito com Israel na Faixa de Gaza. Pode haver mais solidariedade nas ruas de Paris e Nova York do que no Cairo ou em Beirute.
Nações árabes que há tempos advogam a causa palestina estão envoltas em suas próprias batalhas, como as guerras sectárias na Síria e no Iraque e a batalha política no Egito com a Irmandade Muçulmana, que envolveu Estados rivais do Golfo Pérsico.
O saldo de mortos na ofensiva israelense lançada em 8 de julho passa de 1.400 palestinos. Do lado israelense, 59 foram mortos, a maioria soldados. Alguns palestinos dizem ter sido abandonados.
O que antes era impensável, comentaristas no Egito direcionaram suas críticas de Israel para os palestinos. A mudança ecoa a hostilidade do governo egípcio contra a Irmandade, parente ideológica do grupo Hamas, que controla Gaza.
“Deixem Gaza arder com os que estão ali dentro”, disse Tawfik Okasha, proeminente comentarista em um programa no horário nobre da TV egípcia.
A Liga Árabe, sediada no Cairo, só fez uma reunião durante a atual crise, refletindo o atrito entre os países árabes que discordam em temas como a derrubada do presidente islâmico da Irmandade no Egito no ano passado pelas mãos dos militares.
“Não há dúvida de que desta vez os palestinos se sentem sozinhos nesta luta, que está mais violenta do que as anteriores”, afirmou o analista político palestino Khalil Shaheen, sediado em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.
Ainda assim há muitas demonstrações de apoio no mundo árabe, onde a causa palestina tem sido um clamor comum desde a criação de Israel em 1948. Como gesto de solidariedade, parlamentares libaneses convocaram uma sessão por Gaza, e a Argélia exortou sua população a observar um minuto de silêncio.
Também houve manifestações, mas o entusiasmo para tomar as ruas parece limitado.
Alguns citam o desencanto com a chamada "Primavera Árabe", que levou esperanças de democratização em 2011, mas mergulhou boa parte da região em um caos. Outros veem as mídias sociais, e não as ruas, como a melhor maneira de expressar solidariedade.
“Tanto no nível popular quanto no oficial, o apoio árabe é inadequado”, acrescentou Shaheen.
A Arábia Saudita, que incentiva a repressão egípcia à Irmandade Muçulmana, apoiou a diplomacia do Egito na crise de Gaza. Os egípcios se queixaram de que o Catar, apoiador da Irmandade, conspirou para minar sua mediação depois que o Hamas rejeitou as propostas de trégua aceitas por Israel.
“A causa palestina era algo que unia todos os árabes, mas agora há discórdia sobre tudo: sobre mostrar solidariedade, sobre a iniciativa egípcia”, declarou o destacado comentarista saudita Jamal Kashoggi.
“É fácil encontrar um artigo em um jornal árabe culpando o Hamas pela agressão israelense em Gaza. Antes, mesmo aqueles que nutriam tal ideia teriam vergonha de publicá-la”, disse.
Funcionário do Hamas sediado no Líbano, Raafat Murra afirmou que a reação no mundo árabe não está à altura da escala da destruição em Gaza por causa da “fraca posição oficial árabe, e em parte por causa das crises sociais e políticas em andamento no mundo árabe”.
(Reportagem adicional de Ahmed Rasheed, em Bagdá; de Ali Sawafta, em Ramallah; de Mohamed Abdelleh, no Cairo; de Abdelrahman Youssef, em Alexandria; de Maha El Dahan, em Abu Dhabi; de Farishta Saeed, no Barein; de Suleiman al-Khalidi, em Amã; e de Lamine Chikhi e Hamid Ould, em Argel)