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A monarquia no Brasil deixou de existir há 130 anos. Hoje alguns brasileiros ainda sonham com o retorno dessa época de glórias, segundo um artigo do jornal suíço Tages-Anzeiger.Este conteúdo foi publicado em 28. novembro 2019 - 12:45
"15 de novembro de 1889: uma data famigerada!". Esse é o comentário encontrado no YouTube em um vídeo com o hino do império brasileiro. Outro usuário lembra nostálgico dos "tempos em que o Brasil era respeitado e até temido pelos EUA". Hoje se transformou em "uma piada", lamenta - provavelmente em alusão ao atual presidente.
Esse período glorioso terminou na noite de 14 para 15 de novembro de 1889: no Rio de Janeiro, o general Deodoro da Fonseca derrubou o governo do presidente do Conselho de Ministros da Monarquia, Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto. O golpe sem derramamento de sangue levou à abolição da monarquia e ao estabelecimento da República Brasileira.
Uma monarquia? Um império na América do Sul? E isso em um momento em que as outras colônias do chamado Novo Mundo já tinham se separado das coroas ou estavam em processo de se tornar independentes?
Um caso especial na América Latina
Na verdade, pode-se falar de um caso especial. A confusão napoleônica na Espanha e Portugal não levou diretamente à independência no Brasil. Pelo contrário: o país se tornou um refúgio e garantia de sobrevivência do rei português, D. João, que fugiu para lá com a sua corte em 1807. Depois do Congresso de Viena, em 1815, o Brasil deixou de ser colônia para passar a ser parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o Rio de Janeiro como capital de Portugal e seus territórios ultramarinos.
No entanto, a monarquia tem muito a ver com a independência do país: quando D. João regressou a Portugal, em 1821, para assegurar o trono, seu filho Pedro permaneceu no Brasil. Um ano mais tarde, ele declarou a independência e se coroou imperador, estabelecendo uma monarquia parlamentar.
Nove anos mais tarde, Pedro I seguiu o exemplo do pai: após ter de abdicar sob pressão do Parlamento, regressou à Portugal. Então seu filho, Pedro II, foi coroado imperador em 1840 com apenas 14 anos. É principalmente por causa do dignitário que alguns brasileiros ainda choram a perda do Império, 130 anos depois.
Dom Pedro II, o imperador esclarecido
O jovem imperador recebeu uma boa educação, dominava várias línguas, era um intelectual e quis modernizar seu país seguindo o exemplo dos Estados Unidos. A chegada de imigrantes europeus, trazidos pelo pai, deu início à industrialização do país, especialmente no sul. A exportação de matérias-primas importantes, como a borracha e as madeiras de lei, bem como açúcar, café e carne, trouxe uma considerável riqueza ao país. D. Pedro II mandou construir redes ferroviárias, telefônicas e telegráficas. Além disso, promoveu a cultura e a ciência no país e no estrangeiro.
Mas algo manchava a imagem do país modernizador, governado por monarca esclarecido: a escravidão. É verdade que, já nos anos 1860, havia surgido um movimento republicado e grupos abolicionistas, motivados também pela pressão externa. Porém a escravatura só foi abolida em 1888. Foi o que levou os grandes proprietários de terras a se rebelarem contra a monarquia. Em 17 de novembro de 1889, o jornal suíço NZZ analisava da seguinte forma a situação no Brasil: "A velha propaganda republicana recebeu um forte impulso graças à abolição da escravidão...", e por consequência",..." com seus interesses atingidos, os grupos escravocratas foram os que mais ruidosamente se voltaram contra a monarquia e seu humanismo, em defesa da república".
Mas esta não foi a única razão do golpe: os militares sofreram perdas pesadas na guerra contra o Paraguai devido aos baixos efetivos e mau estado dos armamentos, apesar da vitória final. Assim desenvolveram um forte ressentimento contra os políticos de casaca. O marechal Deodoro da Fonseca, líder do golpe militar de 15 de novembro, foi instigado por eles.
Dom Pedro II não quis reprimir a revolta. "Se o povo quer a República (...) e expressa claramente sua vontade, eu não ficaria então no caminho", citou o NZZ suas palavras. Dois dias depois, o ex-imperador embarcou em um navio com sua família e retornou à pátria dos antepassados. A República nasceu - o único império na história da América do Sul.
Desejo e realidade
Voltando aos comentários no Youtube: "O Brasil precisa mais uma vez de um imperador", escreve alguém. Então, o que ele clama é uma "volta ao passado" no Brasil?
O fato é que os 67 anos de Império são considerados como um período politicamente estável, que desempenhou um papel importante no desenvolvimento e no reforço da imagem do país. Não é de surpreender que, após escândalos de corrupção por parte de antigos presidentes e, agora, com a eleição de um presidente rude, ultraconservador e polarizador, os brasileiros anseiem por uma figura de integração, que tenha uma boa imagem no exterior.
Porém a imagem e a fama do império são transfigurados na memória coletiva. Pedro II era mais um esteta (n.r.: pessoa que cultiva a estética) do que um político. Suas tentativas de modernização ficaram limitadas a uma pequena parte do país. O Brasil ficou muito tempo atrás de outras nações do continente. Com suas políticas econômicas liberais e a fachada de uma "democracia com coroa", Pedro II oferecia uma imagem civilizada de seu país, que atrairia investidores estrangeiros. Mas essa imagem foi se desgastando no próprio país: no final, a monarquia era vista como anacrônica e destoada das tradições do continente por uma crescente classe média esclarecida.
Pelo menos ainda resta o consolo para os nostálgicos dos tempos imperiais: A melodia do hino da coroação de D. Pedro II é hoje a do hino nacional.
* Artigo publicado no jornal Tages-Anzeiger em 11 de novembro de 2019.
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