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A Suíça tem mais de 60 mil quilômetros de trilhas sinalizadas para caminhadas. Uma delas é o histórico Caminho da Suíça, no centro do país, um dos destaques do "Ano do Montanhismo 2010", declarado pela Suíça Turismo.
Resultado de um esforço coletivo dos 26 cantões (estados), La Via Svizzera circunda o Lago Urnersee – um braço do Lago dos Quatro Cantões – e passa por locais históricos e turísticos.
O Caminho da Suíça foi criado pelos cantões por ocasião das comemorações dos 700 anos de fundação da Confederação Helvética. A trilha custou 10 milhões de francos aos cofres públicos e se estende por 35 quilômetros às margens do Urnersee (veja o mapa na coluna à direita).
A cada suíço pertencem simbólicos 5 milímetros do caminho, segmentado proporcionalmente à população dos cantões e pela ordem de ingresso destes na Confederação.
Uri, um dos cantões fundadores do país, tem 182 metros da trilha e está logo no começo; Jura, o último a aderir em 1979, está no fim. Zurique, o cantão mais populoso, tem o maior trecho (6 quilômetros); Appenzell Rodes Interiores, o menor (71 metros) .
Segundo o presidente do Grupo de Interesse Weg der Schweiz, Christoph Näpflin, desde sua inauguração em 4 de maio de 2001, o número de visitantes caiu de 700 mil para 250 mil por ano, "mas o Caminho da Suíça ainda hoje é uma das trilhas mais percorridas do país".
Do pacto de Rütli ao autor do hino nacional
Ela começa no mitológico pasto Rütli, o berço da Suíça, acessível só de barco (veja a galeria de fotos na coluna à direita). Ali, em 1291, representantes dos cantões de Uri, Schwyz e Unterwalden teriam feito um pacto contra os "maus governantes" da dinastia dos Habsburgo, dando origem à Suíça moderna.
Para protegê-lo contra a especulação imobiliária, o terreno foi comprado em 1859, com dinheiro arrecadado por escolares, e doado ao governo. Com o tempo, o Rütli virou uma espécie de "santuário nacional", embora bastante discreto.
Hoje há um pequeno museu "Memo", um restaurante, uma churrasqueira e uma área para piquenique no local. No meio, está hasteada a bandeira suíça. Em 1° de agosto, feriado nacional, o acesso é restrito aos convidados à cerimônia que lembra a fundação do país.
Depois de uma hora de caminhada morro acima, por meio da floresta, chega-se a Seelisberg (800 metros acima do nível do mar), onde se tem uma vista panorâmica do Lago dos Quatro Cantões e das montanhas da Suíça central.
Entre Seelisberg e Bauen, há muitos bancos à beira do caminho para desfrutar a vista dos Alpes. Passa-se em frente de um centro de meditação transcendental do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, do idílico lago alpino Seeli e do castelo Beroldingen, construído em 1500 como posto alfandegário.
Após cruzar bosques e pastagens e descer 850 degraus de uma escada de pedra, chega-se a Bauen, a "Riviera do Urnersee". Neste povoado de 220 habitantes, nasceu o frei Alberik Zwyssig (1808-1854), que mais tarde compôs o hino nacional ou "Salmo Suíço". A ele é dedicado um monumento em frente à igreja, muito usada para casamentos.
Capela de Tell e Praça dos Suíços do Estrangeiro
Ainda há outras marcas históricas ao longo da trilha. No povoado Isleten, perto de Bauen, Alfred Nobel instalou em 1873 uma fábrica de explosivos. O dinamite inventado por Nobel era produzido principalmente para as obras do túnel ferroviário sob o maciço do Gotardo.
Alguns passos adiante, em Seedorf, encontra-se o castelinho A Pro, construído em 1556. Seus donos, nobres cavaleiros, conquistaram fama e dinheiro com o comércio de vinho e grãos e com serviços de guerra. Hoje o castelinho abriga o Museu de Minerais do cantão de Uri e é usado para cerimônias do governo estadual.
No porto do balneário de Flüelen, antigo centro do trânsito sobre o desfiladeiro de Gotardo, uma gigante escultura de ferro feita pelo artista bernense Werner Witschi para a Expo 1964 em Lausanne reproduz as "Mãos do Juramento" que deu origem à Confederação Helvética.
Duas das principais atrações à beira do Caminho da Suíça estão em Sisikon: a capela de Tell (Tellskapelle), construída em 1879/80 à beira do lago no local em que, segundo a lenda, Guilherme Tell teria saltado do barco para escapar dos tiranos; e o segundo maior carrilhão da Suíça, com 37 sinos, instalado um pouco acima da capela.
Depois de o pacto de Rütli ter funcionado na Batalha de Morgarten contra os Habsburgo, os representantes dos três cantões confederados teriam renovado em 1315 seu juramento contra dominadores estrangeiros em Brunnen. Uma igreja no centro do povoado, também chamada "capela federal", lembra este episódio.
O Caminho da Suíça termina em Brunnen, na Praça dos Suíços do Estrangeiro, dedicada aos quase 700 mil emigrantes helvéticos que se espalharam pelo mundo e formam a chamada Quinta Suíça ou o 27° cantão.
Nesta praça, em abril de 2011, a Associação dos Suíços do Estrangeiro e o Grupo de Interesse Weg der Schweiz vão realizar um grande evento pelos 20 anos de existência da trilha. O programa completo das comemorações será publicado em 10 de agosto próximo.
Grande utilidade para a região
Christoph Näpflin faz um balanço positivo de quase duas décadas do Weg der Schweiz (nome em alemão). "Com base em sondagens e estatísticas, pode-se dizer que mais de 5,8 milhões de visitantes trouxeram receitas superiores a 250 milhões de francos à região do Urnersee nesse período", disse à swissinfo.ch.
"Com isso, o investimento para criar o caminho à beira do lago valeu mais do que a pena", acrescentou. A agência estatal Suíça Turismo acaba de incluir o Caminho da Suíça na lista das 12 trilhas de montanhismo mais interessantes do país. Sete pontos da trilha são acessíveis de barco, o que facilita a realização de pequenas e leves excursões - ao todo, são 11 horas de caminhada.
Segundo Näpflin, muitos caminhantes vêm da Suíça, sobretudo do oeste do país, e dos países vizinhos. Enquanto uma fundação cuida da manutenção, todas as prefeituras e empresas de transporte da região fazem marketing da trilha. E o sítio weg-der-schweiz.ch, com mais de 45 mil acessos por ano, tenta atrair mais visitantes.
Geraldo Hoffmann, Lago dos Quatro Cantões, swissinfo.ch