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Nos anos que precederam o colapso de uma das maiores empresas da Suíça, os auditores da EY não alertaram sobre compras multimilionárias de joias e aprovaram enormes pagamentos a empresas estrangeiras obscuras.Este conteúdo foi publicado em 13. setembro 2021 - 15:00
A Zeromax, um conglomerado sediado no cantão suíço de Zug, tinha um império comercial no Uzbequistão, com interesses que iam desde o setor têxtil até a extração de gás natural, o que a tornava a maior empregadora do país asiático, sendo responsável por 10% do PIB.
Ela foi à falência em 2010, em meio a uma disputa pelo poder político em Tashkent, deixando uma dívida – só recentemente descoberta – de mais de CHF 5,6 bilhões (US$ 6,1 bilhões). Assim, tornou-se o segundo maior caso de falência da Suíça, depois da Swissair, em 2001. Pelo menos CHF 2,5 bilhões de seus ativos ainda estão desaparecidos, de acordo com os credores.
Graças ao sistema jurídico notoriamente opaco da Suíça e ao regime de divulgação de informações empresariais, apenas agora, devido à pressão de credores frustrados que desejam recuperar seus ativos perdidos, estão surgindo os detalhes da complexa estrutura do grupo e de sua rede labiríntica de holdings offshore.
Dezenas de documentos examinados pelo Financial Times – incluindo relatórios policiais, extratos bancários corporativos, e-mails internos e recibos, bem como alegações feitas em casos de litígios ainda em andamento – suscitam questionamentos particularmente acerca do trabalho da EY Suíça, que deu à Zeromax um atestado de saúde financeira em 2005, 2006 e 2007.
A empresa continuou a ser empregada como auditora da Zeromax por mais três anos, até a falência da empresa, mas não publicou nenhum outro parecer de auditoria sobre suas contas anuais.
A EY Suíça está agora sendo processada em Zug pelo fundo de hedge americano Lion Point Capital, devido a um prejuízo de US$ 1 bilhão. Após a falência da empresa, o fundo havia adquirido uma parcela de sua dívida em 2019, disseram ao FT advogados familiarizados com o caso. O Lion Point recusou-se a comentar.
Enquanto isso, a Zeromax ainda deve bilhões de dólares a centenas de credores europeus, inclusive a muitas pequenas empresas da Alemanha e da Europa Central.
A EY se recusou a responder perguntas detalhadas do FT sobre seu papel na auditoria das contas da Zeromax.
A empresa afirmou que “em 2010, decisões judiciais no Uzbequistão causaram uma expropriação de fato dos ativos da Zeromax e sua falência. Essa questão é tema de um litígio em andamento e a EY Suíça defenderá vigorosamente sua posição frente a reivindicações vexatórias. Não podemos comentar mais".
Joias no cofre de segurança
A Zeromax foi um dia estreitamente associada à Gulnara Karimova, filha do ex-presidente uzbeque Islam Karimov. Karimova – uma socialite extravagante outrora conhecida como a “princesa” do Uzbequistão – nega qualquer ligação com a empresa. Ela está presa em Tashkent desde 2015, após cair em desgraça no novo regime uzbeque.
A Zeromax foi fundada em Delaware em 1999 e realocada para a Suíça em 2005, com o objetivo declarado de encaminhar investimentos para diversos setores industriais uzbeques.
Os investidores confiaram no domicílio suíço da empresa e no fato de que ela era auditada por uma das maiores empresas de contabilidade do mundo.
No entanto, as contas mostram que, nos quatro anos anteriores à sua quebra, muitos dos fundos que passaram pela empresa entraram numa enorme rede de entidades offshore obscuras. Embora muitos desses fundos tenham canalizado dinheiro para o Uzbequistão, muitos outros não o fizeram.
Algumas transações parecem ser especialmente difíceis de caracterizar como despesas comerciais
Em 2006 e 2007, por exemplo, a Zeromax gastou mais de US$ 13 milhões em joias de luxo. Apenas na loja da Christian Dior em Genebra, foram gastos US$ 2 milhões. Nos dois anos seguintes, a empresa gastou mais US$ 25 milhões em joias, incluindo US$ 6 milhões na joalheria britânica Graff Diamonds.
Pelo menos algumas das joias adquiridas foram usadas por Karimova. Em 2016, a Polícia Federal Suíça obteve um mandado de busca para cofres alugados pela uzbeque na Lombard Odier, em Genebra. Dentro deles, foram encontradas joias de luxo – inclusive um anel de diamantes da Boucheron no valor de US$ 2,5 milhões – que haviam sido pagas pela Zeromax. De acordo com documentos policiais consultados pelo Financial Times, o proprietário de uma joalheria de Genebra disse à polícia que Karimova tinha comprado pessoalmente as joias e que o dinheiro havia sido transferido para o estabelecimento a partir de uma conta bancária controlada pela Zeromax.
Transferências irregulares para empresas offshore
A EY também não deu nenhum alerta quando foi transferido dinheiro para empresas offshore obscuras, às vezes com pretextos comerciais que pareciam levianos, tais como contratos genéricos de “serviços de consultoria”. Entre 2004 e 2007, a empresa transferiu pelo menos US$288 milhões para empresas offshore.
Em pelo menos um caso, as transferências envolveram o envio de milhões que, em última instância, foram para uma entidade supostamente envolvida em atividade criminosa. Entre meados de 2006 e 2007, a Zeromax transferiu US$ 180 milhões para a subsidiária integral Galat Enterprises, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas.
Galat, por sua vez, transferiu pelo menos US$ 5 milhões para a empresa Takilant, sediada em Gibraltar e controlada por Karimova. Em julgamentos de casos criminais nos EUA e na Suécia, a Takilant foi considerada o principal canal corporativo de um esquema de suborno maciço através do qual empresas de telecomunicações pagavam Karimova em troca de contratos lucrativos com o governo do Uzbequistão.
A Zeromax também transferiu pelo menos US$ 2 milhões para as empresas offshore Merkony e Belphil Capital, que enviaram um total de US$ 33 milhões para a Takilant, de acordo com os arquivos do tribunal sueco.
Em pelo menos uma ocasião, a EY estava ciente da natureza irregular de uma transferência offshore da Zeromax.
Em 2008, um e-mail enviado por um executivo sênior da EY à gerência da Zeromax indicava a falta de documentação para US$ 5,5 milhões enviados pela Zeromax a uma empresa chamada Ystral. O e-mail destacou a necessidade de uma “razão comercial” para a transferência, a fim de satisfazer as autoridades fiscais suíças.
“Estamos cientes de que algumas de nossas perguntas podem tocar em 'assuntos sensíveis'. Caso você queira discutir conosco os pontos acima listados (pessoalmente ou por telefone), por favor, informe-nos e marcaremos uma reunião/chamada”, escreveu o executivo do EY.
A administração da Zeromax respondeu que a razão comercial era “autoexplicativa”.
Financiamento para o futebol
Nos casos em que outras transações irregulares foram questionadas pela EY e, consequentemente, desfeitas, não houve nenhum questionamento maior sobre as operações da empresa ou sobre a confiabilidade de seus executivos.
Em 2007, a EY descobriu que a esposa do diretor executivo havia gastado 250.000 dólares no exclusivíssimo sanatório de Montreux – Clinique La Prairie. O gasto não foi objeto de nenhuma investigação após o CEO prometer reembolsar a Zeromax. “Não estamos tentando esconder nada, talvez apenas [sic] não tenha sido feito corretamente", escreveu ele à EY.
Em 2008, um ano em que a EY não emitiu nenhum parecer de auditoria sobre a Zeromax, mas ainda era sua auditora, as irregularidades financeiras aumentaram.
Por exemplo, a empresa gastou US$ 29 milhões num apartamento residencial de cobertura em Hong Kong, o qual ela declarou que seria usado como escritório. Quatro meses depois, a empresa vendeu o apartamento por 14 milhões de dólares ao então namorado de Karimova, Rustam Madumarov.
Em 2008 e 2009, ela também gastou US$ 27 milhões em futebol, financiando a contratação de alguns dos nomes mais conhecidos do esporte para trabalhar no clube uzbeque FK Bunyodkor. Nisso estava incluído um contrato de 18 meses com Luiz Felipe Scolari no valor de US$ 15 milhões, tornando-o o treinador de futebol mais bem pago do mundo. A Zeromax também pagou US$ 12 milhões para contratar o jogador brasileiro Rivaldo.
Desde a sua falência, os credores têm enfrentado uma árdua batalha para recuperar ativos e compreender a estrutura da Zeromax. A complicada situação financeira e política de Karimova se mostrou um grande impedimento.
O advogado de Karimova em Genebra, Grégoire Mangeat, disse ao FT que sua cliente “sempre negou veementemente qualquer envolvimento na empresa Zeromax”, e assinalou que em 2017 os procuradores suíços rejeitaram um caso que buscava ligá-la à empresa.
Pelo menos um funcionário dos EUA tem uma opinião diferente. De acordo com correspondências tornadas públicas como parte do vazamento do WikiLeaks, diplomatas do departamento de estado americano consideravam Karimova como um “barão ladrão”. Em janeiro de 2010, poucos meses antes do colapso da Zeromax, Richard Norland, embaixador dos EUA em Tashkent, enviou para Washington um telegrama que descrevia a empresa como a “entidade pessoal” de Karimova.
“A mensagem da embaixada para aqueles que se propõem a estabelecer acordos comerciais com a Zeromax ou com suas filiais", escreveu ele, “... é a de realizar a devida diligência”.
Copyright The Financial Times Limited 2021
Adaptação: Clarice Dominguez