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Entrincheirados em uma casa e armados com celulares e internet, uma dezena de jovens artistas desafiam o governo cubano há dez dias, exigindo a libertação de um deles, acusado por Havana de ser pago pelos Estados Unidos.
"Digo aos repressores: eles têm mais medo porque a nossa arma é esta, é a internet, e o mundo está sabendo de todos os abusos que eles estão fazendo aqui conosco", diz a jornalista independente Iliana Hernández, uma das jovens participantes do protesto, em vídeo postado no Facebook.
Até agora praticamente desconhecido, o Movimento San Isidro, coletivo de artistas, universitários e jornalistas, ganhou notoriedade com este protesto, amplamente divulgado online, mesmo além das fronteiras da ilha.
No total, 14 militantes do movimento estão presos desde 16 de novembro em uma casa no centro histórico de Havana.
Seu impacto de efeito responde principalmente à internet móvel, que chegou ao país há apenas dois anos, revolucionando o cotidiano dos cubanos e permitindo que vozes críticas sejam melhor ouvidas nas redes sociais.
Este episódio também ocorre após vários meses de tensões entre artistas independentes e o governo a respeito do decreto 349, que os obriga a se vincularem ao Ministério da Cultura.
As lideranças deste movimento, que surgiu em resposta a este polêmico decreto, são o artista Luis Manuel Otero (32 anos), preso por 12 dias em março por usar a bandeira cubana em uma performance degradante, segundo as autoridades; e o rapper Maykel (Osorbo) Castillo (37), condenado em 2018 a um ano de prisão por "agressão à autoridade".
Ambos tendem a lançar provocações e testar constantemente os limites da liberdade de expressão.
O escritor e jornalista cubano Carlos Manuel Álvarez, colaborador dos jornais norte-americanos The Washington Post e The New York Times, juntou-se ao protesto na terça-feira.
- "Não estão sozinhos" -
Quais são suas demandas? Denunciar a prisão de um de seus integrantes, o rapper Denis Solís, preso em 9 de novembro e condenado a oito meses de prisão por "desacato" de autoridade, sentença da qual não recorreu.
Em um vídeo, ele é visto insultando um policial que entrou em sua casa, assim como o ex-presidente e primeiro secretário do Partido Comunista (PCC, único), Raúl Castro.
Eles também exigem o fechamento de lojas que vendem em dólares e que se multiplicam à medida que o governo busca moeda forte, mas às quais muitos cubanos não conseguem acessar.
Uma parte do grupo afirma ter iniciado uma greve de fome há uma semana, algo impossível de verificar devido à forte presença da polícia ao redor da casa, que até impediu a aproximação de um jornalista da AFP.
O movimento despertou uma rara unanimidade entre as quatro principais organizações de oposição, que manifestaram seu apoio, entre elas a União Patriótica de Cuba e o Cubadecídio.
"San Isidro protesta e se sacrifica por todos", disse a Mesa da Unidade Ação Democrática, que reúne opositores moderados.
"Grupo San Isidro, vocês não estão sozinhos", escreveu no Facebook a dirigente das Damas de Branco, Berta Soler.
- "Mercenários" -
Para o governo comunista, que não reconhece legalmente nenhum movimento de oposição e qualifica seus membros como “mercenários”, por trás dessa nova ação está escondido o inimigo de sempre: os Estados Unidos.
Sob o título "A farsa de San Isidro", o site oficial Razones de Cuba divulgou um vídeo no qual Solís confessava que receberia 200 dólares de um cubano anticastrista da Flórida por cumprir suas "instruções de perpetrar ações subversivas".
As autoridades americanas reagiram rapidamente. “O mundo está assistindo” e "a comunidade internacional reconhece seu protesto pacífico", tuitou o encarregado de negócios de Washington em Cuba, Tim Zúñiga-Brown.
O secretário de Estado Mike Pompeo condenou a "repressão cruel" e exigiu a "libertação incondicional" de Solís. A resposta de Havana foi contundente: "Pompeo mente" e "os EUA devem parar de interferir nos assuntos internos de Cuba", disse o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, no Twitter.
Algumas ONGs, incluindo a Anistia Internacional, expressaram preocupação nos últimos dias, assim como diplomatas europeus na ilha.