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O acampamento da Cruz Vermelha foi montado em um campo aberto nas vizinhanças de Solferino, no norte da Itália.
Dentro das enormes barracas brancas, jovens de todo o mundo participaram das comemorações dos 150 anos da batalha de Solferino e San Martino della Bataglia, que deram origem à Cruz Vermelha.
O acampamento da Cruz Vermelha foi montado sobre um campo nas vizinhanças de Solferino, no norte da Itália. As enormes tendas, brancas e com o símbolo da maior e mais antiga organização humanitária do planeta, eram vistas de longe. Dentro delas, jovens de todo o mundo participaram das comemorações dos 150 anos da batalha de Solferino e San Martino della Bataglia, palco de uma carnificina entre os exércitos da França, Sardenha e Piemonte, e do Império Austro-Húngaro, responsável, três anos depois, pela ideia da criação da Cruz Vermelha.
Jovens voluntários de 120 países participaram do "Youth on the Move", terceiro encontro mundial da juventude. O lema desta edição "Doing More, Doing Better. Reaching further", era um lema para se fazer mais, melhor e ir além. Durante três dias, todos ouviram o chamado para continuar na luta contra os novos desafios humanitários e a favor do aumento do corpo voluntariado, do reforço aos projetos da juventude e da presença incondicional junto às comunidades mais carentes para melhorar a vida dos seres humanos mais vulneráveis. Nobres ideais que não cessam de ser colocados à prova.
Paralelamente ao Youth on the Move, ocorreu ainda a abertura do Humanitarian Boulevard, uma vasta área dentro do acampamento, disponível para os treinamentos, exibições e exercícios práticos, como atividades físicas, simulações de atendimento e salvamento. "O meu setor foi responsável pela assistência sanitária, principalmente aos participantes do evento. Montamos dois postos médicos para dar apoio a emergências, desde mal-estar provocado pelo calor até feridas ou pequenos traumas. Ao mesmo tempo, oferecemos curso de formação e de agregação", explicou à swissinfo.ch, Matteo Visti, responsável por dois postos de atendimento.
Origem da Cruz Vermelha
A batalha de Matteo Visti e de seus inúmeros companheiros de campo pela melhoria dos serviços ocorria no mesmo cenário da disputa histórica. Entre os dias 24 e 28 de junho de 1859, as verdes colinas e as planícies da região tingiram-se de vermelho sangue. Do campo de base pode-se ver a colina dos Ciprestes, citada por Jean Henry Dunant como gloriosa "testemunha e sanguinoso teatro", no seu livro "Uma Lembrança de Solferino", publicado três anos depois. Uma cópia traduzida para o italiano estava em mostra no castelo ao lado de desenhos dos uniformes antigos e dos mapas militares da época.
Um gigantesco painel fotográfico, pendurado na velha muralha, traz a imagem do criador da organização humanitária. A reprodução foi montada na parede com vista para o Memorial da Cruz Vermelha, instalado numa clareira no topo da colina. Placas de granito com o nome de cada uma das 188 nações integrantes formam um grande mural e marcam aonde tudo começou. E o movimento de voluntários em visita é incessante. Eles são os seguidores dos 6 mil primeiros integrantes da futura Cruz Vermelha que Henry Dunant ajudou a organizar durante a batalha de Solferino, prestando os primeiros socorros na vizinha localidade de Castiglione delle Stiviere, onde hoje está o Museu da Cruz Vermelha
A via de acesso ao local chama-se Napoleão III. Ao longo da rua e de todas as outras vielas, praças da cidade e dos municípios vizinhos, bandeiras da Cruz Vermelha e da Itália enfeitam portas, janelas e muros das fachadas das casas, edifícios e prédios institucionais. Uma homenagem aos mortos, mas também aos camponeses que, heroicamente, ajudavam a tratar os feridos independentemente da qual fileira militar fizessem parte.
E foi este ato de amor a quem sofria dores atrozes, provocadas pelos ferimentos impostos pelas espadas, disparos de arma de fogo e estilhaços de balas de canhão, que serviu de estopim para o nascimento da Cruz Vermelha. Neste campo de batalha, contariam cerca de trinta mil mortos. E quantos poderiam ter sobrevivido se tivessem recebido os primeiros socorros imediatamente?
Representação histórica
Para ensinar às gerações futuras as passagens mais importantes desta história, 16 grupos culturais, dois da Franca e 14 da Itália, reviveram aqueles tempos de glória e de dor. A cavalo ou a pé, armados com velhos mosquetões, baionetas e sabres, além do uniforme completo, incluindo polainas nos pés, patrulhas inteiras batiam as ruas e as casas em busca dos inimigos escondidos. Açougueiros, mecânicos, dentistas, enfim, atores profissionais e/ou amadores, ex-militares, vestidos a caráter, incorporavam os seus respectivos personagens.
Em Rivoltella, um grupamento armado do exército aliado sardo-piemontês patrulhava as vielas da cidade a as margens do lago de Garda. A passagem deles despertava a atenção dos curiosos, dos banhistas a caminho da praia. Durante o percurso até o campo de batalha, na vizinha cidade de San Martino della Bataglia, a poucos quilômetros de marcha, eles rendiam homenagens aos monumentos e aos locais que, de uma forma ou de outra, foram erguidos ou usados pelos verdadeiros pelotões de 1859. Concentrados, eles ignoram a presença de carros e bicicletas ao redor.
A disciplina é militar. "Nós fazemos treinamento ao longo do ano. Nos sentimos realmente parte daquela época. É preciso aprender a manusear bem o mosquetão que dispara de verdade, a baioneta que pode machucar. E durante o período da batalha acampamos de verdade, como se estivéssemos naqueles dias", contou à swissinfo.ch, o lanterneiro Francesco Prestifelippi, integrante do exército aliado de Napoleão III.
As tendas foram montadas em pequenas clareiras esparsas aqui e ali, perto do cenário da batalha, e mostram a vida espartana dos soldados dos imperadores inimigos Napoleão III e de Francisco José. A comemoração do dia D de Solferino foi celebrada com uma representação histórica da batalha, com duzentos figurantes e um público estimado em milhares de pessoas. O terreno escolhido para reviver a batalha foi uma área destinada, hoje, a pic-nics das famílias que vivem nas redondezas, ao lado dos vinhedos, bem embaixo da Torre de San Martino.
A batalha de quatro dias foi resumida em duas horas. Cavalaria, infantaria e artilharia realizaram demonstrações dos combates da época. Golpes de espadas a galope, lutas de baionetas quando a munição chegava ao fim, gritos de guerra aos sons dos tambores e sob as bandeiras dos exércitos, além de barulhentos tiros de canhões, em meio a ajuda das populações locais aos feridos, deram corpo e alma aos fantasmas daquela carnificina e a esperança de que cenas como estas não se repitam nunca mais. E é em nome das vítimas indefesas de ontem, de hoje e de amanhã que a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho unem as forças para uma guerra que não conhece trégua.
Guilherme Aquino, Solferino, swissinfo.ch
Breves
Milhares de jovens de 120 países participaram das comemorações do terceiro encontro da juventude, da Cruz Vermelha, por conta do aniversário dos 150 anos da batalha de Solferino.
A Cruz Vermelha está presente em 188 nações.
As bases para a sua criação foram lançadas durante a Primeira Convenção de Genebra, em 1864.
A batalha de Solferino foi a primeira na qual as informações do front para a retaguarda foram passadas com o auxílio de telégrafo. E as tropas foram transportadas de trem, algo que nunca antes tinha sido feito.
Um bom soldado levava cerca de 20 segundos para disparar e preparar o mosquetão para um novo tiro. No meio da batalha, este tempo significava a diferença entre viver e morrer.
As atividades culturais do aniversário dos 150 anos continuam até o mês de setembro com diferentes atividades desde lançamento de livros, mostras fotográficas, a convênios e palestras.
A Cruz Vermelha, homenageia a data com uma pesquisa: "Nosso mundo. Visões do terreno", no qual alerta que 56% das populações civis afetadas diretamente pelos conflitos foram deslocadas, mais da metade perdeu contato com a família e uma em cada cinco pessoas perdeu sua fonte de sustento.