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Michel Barnier, à direita, e David Davis, no dia 19 de junho de 2017, em Bruxelas(afp_tickers)
O Reino Unido cedeu nesta segunda-feira à proposta da União Europeia para suas negociações de divórcio, que deverão registrar avanços em prioridades como os direitos dos cidadãos antes de abordar um eventual acordo comercial entre ambos, desejado por Londres.
"Em um primeiro momento, trataremos as questões urgentes" para assegurar uma retirada "ordenada" do Reino Unido e, "em uma segunda fase, abordaremos nossa futura relação", disse o negociador europeu, o francês Michel Barnier, junto a seu homólogo britânico David Davis.
Este enfoque por fases, planejado há meses por Bruxelas, supõe uma pequena vitória para os europeus em relação a um governo britânico que queria negociar sua futura relação, que poderia incluir um acordo de livre-comércio em paralelo ao divórcio.
Davis, que classificou o primeiro dia de negociação com um "início promissor", negou que o Reino Unido tenha cedido nos tempos das conversações. "Essa posição não mudou. É a mesma de antes", garantiu o também ministro britânico para o Brexit.
O primeiro encontro entre os homens, que se conhecem desde meados dos anos 90 quando eram responsáveis para a Europa nos governos de seus respectivos países, chega em um momento de fraqueza para o governo da primeira-ministra britânica, Theresa May.
May passou meses insistindo em que nada frearia sua intenção de reduzir a imigração e que estava disposta a deixar o mercado único europeu, a união alfandegária e todas as instituições europeias, a fim de controlar suas fronteiras.
Seu futuro, contudo, é incerto, depois que em 8 de junho perdeu a maioria absoluta no Parlamento em uma eleição convocada antecipadamente com o objetivo de se fortalecer para as negociações do Brexit. Agora tenta uma aliança com os unionistas da Irlanda do Norte.
- May tem um plano -
As negociações dessa primeira fase acontecerão uma semana de cada mês a partir do próximo 17 de julho e contarão com grupos específicos de trabalho -compromissos financeiros, direitos dos cidadãos e outros assuntos de divórcio-, assim como um diálogo sobre o futuro da fronteira entre a britânica Irlanda do Norte e Irlanda.
"Quando registrarmos progressos suficientes" nesses assuntos, "serei o primeiro, como é minha responsabilidade, a recomendar ao Conselho Europeu que comece paralelamente a negociação para dar forma à futura relação" entre ambos os lados do canal da Mancha, prometeu Barnier.
O futuro dos 3,6 milhões de cidadãos europeus vivendo no Reino Unido e dos 900.000 britânicos residentes na UE, em sua maioria na Espanha, se impõe assim como uma das prioridades nas negociações.
Davis adiantou que a primeira-ministra britânica, que chegou a defender uma saída sem acordo para escapar de um "mal acordo", pretende apresentar a seus pares europeus sua proposta sobre os direitos na cúpula prevista quinta e sexta-feira em Bruxelas. Os planos concretos serão publicados na próxima segunda-feira.
A fatura que Londres deve pagar por seus compromissos adquiridos com os 27, que segundo as estimativas pode ultrapassar os 100 bilhões de euros, também se torna prioridade para as duas partes.
- A incógnita May -
Os negociadores têm agora até março de 2019 para chegar a um acordo, embora Bruxelas insista que, para cumprir os prazos de ratificação, as condições do divórcio devem ser concluídas para outubro de 2018.
A incógnita é a continuidade da conservadora May, cuja imagem se deteriorou ainda mais por sua reação ao incêndio em uma torre residencial de Londres e pelos três atentados no país em menos de um mês, o último deles contra uma mesquita nesta última segunda-feira.
"Existe uma enorme insegurança nos europeus que se pergunta quanto tempo (May) aguentará", confessou antes do início das negociações do Brexit um diplomata europeu de alto escalão para quem de alto um interlocutor fraco pode ser prejudicial.
As críticas também podem ser verificadas em seu país. "Se o governo não pode nem sequer fechar um acordo com [os unionistas norte-irlandeses do] DUP, como vai conseguir isso com a UE?", questionava há alguns dias o deputado trabalhista Alistair Carmichael.
AFP