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Ex-jogador do Grasshoper de Zurique fala sobre sua passagem pelo futebol suíço, sobre o Euro 2008 e o futuro técnico da Suíça, com quem trabalhou no Bayern de Munique.
Elber diz que o Brasil pode aproveitar experiências da Eurocopa 2008 para organizar a Copa 2014 e que os jogadores brasileiros têm uma responsabilidade social.
O paranaense Giovane Elber foi o melhor jogador estrangeiro do campeonato suíço de 1993, jogando pelo Grasshoper de Zurique. Além disso, colecionou títulos na França e na Alemanha, onde se tornou o maior artilheiro estrangeiro da Bundesliga sob o comando do técnico do Bayern de Munique, Ottmar Hitzfeld.
swissinfo: Você atuou no futebol suíço e trabalhou com Ottmar Hitzfeld no Bayern de Munique. O que acha da contratação quase certa de Hitzfeld para treinar a seleção da Suíça após a Europa?
Giovane Elber: Acho muito boa a contratação. O Hitzfeld é um excelente treinador. Tive a felicidade de trabalhar com ele durante cinco anos no Bayern de Munique. É um treinador que tem muita experiência e usa muita psicologia para ajudar os jogadores. Acho que ele tem tudo para dar certo no futebol suíço, que ele conhece bem por ter trabalhado muito tempo no país.
swissinfo: Você trabalhou com muitos treinadores. O que diferencia o Hitzfeld de outros técnicos?
Giovane Elber: Pode-se dizer que ele é um "gentlemen" dentro e fora do campo, na maneira como ele lida com os jogadores. É um treinador que sabe armar taticamente bem o time para jogar contra uma seleção ou um time mais forte do que o que ele tem.
swissinfo: Hitzfeld deve assumir com a missão de classificar a Suíça para a Copa 2010 na África do Sul. Essa é uma missão possível?
Giovane Elber: Acredito que sim. Claro, muita coisa depende agora da Eurocopa. Sendo jogada em casa, é claro que há uma pressão mais forte sobre os jogadores e o treinador da seleção suíça. Mas acho que ele tem condições plenas de realizar esse sonho suíço de, depois de 1994 e 2006, voltar a participar de uma Copa do Mundo.
swissinfo: Quais são as chances de a Suíça ser campeã da Europa?
Giovane Elber: Depende muito da sorte no decorrer do campeonato. A seleção suíça pode chegar sem problemas às quartas-de-final. Depois depende do andamento do torneio para ver se há possibilidade de chegar até a final.
swissinfo: Quais são as seleções favoritas ao título?
Giovane Elber: Portugal é a grande favorita, com o Felipão dirigindo a seleção portuguesa já há tanto tempo. Os jogadores portugueses finalmente despertaram do sonho de apenas participar de uma Eurocopa ou de uma Copa do Mundo. Hoje eles já entram em campo com o pensamento: "Nós vamos tentar chegar à final". Há muito do trabalho do Felipão nisso. Ele conseguiu despertar os jogadores e a população portuguesa para apoiar a seleção.
A outra favorita é a Alemanha, que entra em qualquer competição para ganhar. Portugal, Alemanha e França são as grandes favoritas para levar a Eurocopa.
swissinfo: A Eurocopa também é vista como uma "pequena Copa do Mundo". O Brasil pode aprender com a organização desse torneio para preparar a Copa do Mundo de 2014?
Giovane Elber: O Brasil tem muito a aprender com as competições organizadas na Europa. Ainda mais porque 2014 chega rápido. No quesito organização, os dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) devem de estar de olho para ver quais das experiências feitas na Eurocopa podem ser usadas na Copa do Mundo no Brasil.
swissinfo: Voltemos ao futebol suíço: que importância teve para você o fato de ter iniciado no Grasshoper de Zurique sua carreira na Europa?
Giovane Elber: Para mim foi excelente ter jogado na Suíça no começo da minha carreira porque pude aprender a jogar nas competições européias sem tanta pressão como se tem jogando na Espanha, na Alemanha ou na Itália. Consegui desempenhar meu papel, tentando quebrar barreiras, aprimorando meu condicionamento físico, técnico e tático. No decorrer da minha carreira, pude ver o quanto foram bons para mim os três anos que passei no campeonato suíço.
swissinfo: Quais são suas melhores lembranças dessa época?
Giovane Elber: Para mim foi tudo novo. Cheguei com 17 anos a um país onde não conhecia nada, tirando o chocolate suíço. Deparei-me com um campeonato completamente diferente do que eu era acostumado a disputar no Brasil, que era o Campeonato Paranaense e o Brasileiro da Série C. Você vê a organização que tem, os campos, a qualidade do gramado, o frio no inverno – que para mim foi a barreira mais terrível de ultrapassar –, a questão da língua... Mas, com o tempo, aprendi o idioma, aprendi a jogar a temperaturas geladas, e isso tudo ajudou na minha carreira.
swissinfo: O futebol suíço mudou muito desde aquela época?
Giovane Elber: O futebol suíço cresceu bastante. Hoje se vê vários jogadores suíços jogando fora de seu país. Houve uma melhora no campeonato suíço. Claro que você não pode comparar com a Alemanha, onde os clubes investem mais. Na Suíça, eles ainda contratam jogadores novos da América do Sul. Mas isso é válido, porque se vê que a Suíça vem crescendo. A cada ano o campeonato é mais competitivo.
swissinfo: Continuam vindo jogadores sul-americanos para a Suíça, mas entre eles há bem menos brasileiros do que no tempo em que você jogou no Grasshoper. A que você atribui isso?
Giovane Elber: É que hoje há outro mercado fora do mercado europeu, que é Alemanha, Suíça, Áustria, Itália, Espanha e Portugal. Hoje os jogadores brasileiros vão mais para a Rússia, vão atrás do dinheiro mesmo. Não se importam com o frio e a qualidade de vida. Preferem ir para times russos ou ucranianos do que para um Grasshoper, Sion ou Servette.
swissinfo: Você diz que dos brasileiros correm atrás do dinheiro. Você aplica parte do que ganhou no exterior numa fundação que ajuda crianças de rua. O engajamento social é uma obrigação para jogadores brasileiros que têm sucesso no país ou no exterior?
Giovane Elber: A gente não pode nunca se esquecer de onde vem. A gente vê um país que está melhorando, mas há muitas coisas que ainda podem ser melhoradas no Brasil. Como jogador profissional, de destaque na Europa, tem-se a responsabilidade de retornar alguma coisa às pessoas que não tiveram a mesma sorte. Há muitos jogadores que abriram um pouco a cabeça e viram que a gente tem uma responsabilidade social no Brasil, de ajudar as pessoas.
swissinfo, Geraldo Hoffmann
Ficha
Giovane Élber de Souza
Nascimento: 23.07.1972, em Londrina (PR)
Clubes em que atuou:
1990 - Londrina (Brasil),
1991 e 1992 – Milan (Itália),
1993 - Grasshoper (Suíça),
1993 a 1997 – Stuttgart (Alemanha)
1997 a 2003 – Bayern de Munique (Alemanha)
2003 a 2004 – Lyon (França
2005 - Borussia Mönchengladbach (Alemanha)
2006 - Cruzeiro de Belo Horizonte
Títulos:
Copa da Alemanha: 1997, 1998, 2003
Campeonato Alemão: 1999, 2000, 2001, 2003
Liga dos Campeões da Europa: 2001
Copa Intercontinental: 2001
Campeonato Francês: 2004
Troféu dos campeões da França: 2004
Campeão mineiro de 2006
Destaques:
Melhor jogador estrangeiro do campeonato suíço: 1993
Melhor artilheiro do Campeonato Alemão: 2003
Maior artilheiro estrangeiro da Alemanha: 133 gols
Seleção: 15 jogos e sete gols