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Comandante Uriel, a nova geração da guerrilha mais antiga das Américas
Ele era um universitário que foi para a selva da Colômbia para empunhar armas. Agora, aos 40 anos, Uriel integra a nova geração de comandantes do Exército de Libertação Nacional (ELN), o último grupo guerrilheiro que desafia com violência um Estado nas Américas.
Após duas décadas de clandestinidade, este homem lidera a Frente de Guerra Ocidental, um grupo guerrilheiro de maior atividade e expansão após o acordo de paz com as Farc em 2016, até então a organização armada comunista mais poderosa do continente.
Em entrevista à AFP na selva do Chocó, o comandante Uriel adverte que sua organização não vai abrir mão dos recursos que recebe através da produção ou tráfico de cocaína nas zonas de influência rebelde, nem às minas terrestres, nem ao sequestro de reféns (12 reféns estão no poder do ELN segundo o governo).
"São tributos de guerra e como em qualquer outro espaço, quando os tributos não são pagos, há a privação da liberdade para forçar esse pagamento", explica em meio à ofensiva militar que veio após a ruptura das negociações de paz que por um ano e meio o ELN manteve, primeiro em Quito e depois em Havana, com o ex-presidente Juan Manuel Santos (2010-2018).
São maus indícios um conflito com vários protagonistas (forças oficiais, guerrilhas, paramilitares, narcotraficantes) que deixa oito milhões de vítimas entre deslocados, mortos e desaparecidos.
A região de Chocó é o epicentro de uma disputa territorial entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Clã do Golfo, a maior quadrilha narcotraficante do país que surgiu a partir de paramilitares de extrema-direita desmobilizados em 2006.
Também é um dos pontos estratégicos de saída de carregamentos de cocaína que partem do Pacífico colombiano para a América Central e Estados Unidos.
- "Ninguém está pressionando" -
O comandante Uriel faz parte da renovação geracional de uma organização surgida em 1964, em plena Guerra Fria, e dirigida por guerrilheiros com média de idade de 68 anos. Sobre eles pesam várias ordens de captura por terrorismo, recrutamento de menores, homicídio, sequestro, entre outros delitos.
Uriel também é o líder mais midiático e conectado a redes sociais, apesar de não mostrar o rosto diante das câmaras.
O lenço vermelho e preto, o fuzil e o tom firme traçam uma imagem de severidade diante das tropas, formada por jovens negros e indígenas do Pacífico colombiano que alegam pobreza, maus tratos na família, violência do Estado ou todas alegações juntas para integrar o grupo. Segundo as autoridades, muitos são incorporados à força, informação negada por Uriel.
"Ninguém no ELN está contra ali contra a vontade, ninguém está ali por pressões (...) Estamos por vontade própria e todos são livres para sair do ELN, quando alguém não quer pertencer mais a organização e deixa isso claro, há saída", disse.
- "Semente de revolução" -
O ELN é a última guerrilha reconhecida na Colômbia após o desarme das Farc. O presidente Iván Duque está empenhado em sua derrota militar após o ataque com carro-bomba em janeiro que matou 22 cadetes de polícia em Bogotá.
Os guevaristas são um exército de 2.300 combatentes e uma afinada rede de inteligência, que opera em 10% dos 1.100 municípios colombianos.
É uma força relativamente pequena - e com altos índices de desaprovação em pesquisas- se comparada aos 265 mil integrantes das Forças Militares, sem contar a polícia.
Então, por que seguir combatendo se não podem ganhar a guerra?
"Porque, caso contrário, não haveria esperanças. O fato de manter a luta é a possibilidade de ver uma mudança. Somos como aqueles que lutam contra os transgênicos criando bancos de sementes (...) Nós temos uma semente de revolução, temos uma semente de transformação social, nosso legado é cultivá-la, é mantê-la, é reproduzi-la".
Apesar do ELN ter um crescimento pequeno, as estruturas do grupo "foram fortemente atingidas", segundo a liderança da guerrilha.
Uriel examina com cuidado essa expansão. "Não estamos focados num crescimento que depois nos saia das mãos. Há jovens que todos os dias nos procuram para ingressar no grupo (...) Seguimos incorporando novos integrantes mas não de uma forma sem critério; não numa corrida louca para crescer (...) Caso contrário, vamos nos transformar em algo grande, mas sem liderança".
- Métodos questionados -
O comandante do grupo passa para Duque a responsabilidade de convocar uma futura negociação de paz. "A bola está com o governo, a quem cabe decidir se deve reabrir o diálogo".
Entretanto, os rebeldes continuarão no campo de batalha, cuidando, segundo ele, para afetar minimamente a população civil apesar desse cuidado não evitar o deslocamento de moradores. Entre 2017 e 2018 foram 21.100 casos em Chocó, segundo o registro oficial de vítimas.
"É critério do ELN agir de forma que suas ações impactem minimamente a população não combatente (...) As pessoas tem medo? Sim, claro, alguns preferem abandonar tudo (...) Há uma particularidade em Chocó. Muito por conta das necessidades de muitas pessoas que se mudam para buscar a ajuda".
Uriel reconhece que seu grupo não vai abrir mão das minas terrestres, uma arma usada pelos diferentes grupos ilegais durante o conflito interno e que atingiram 11.440 pessoas desde 1990.
"usamos de forma criteriosa. As comunidades estão avisadas sobre os locais onde não devem ir (...) Nós não temos aviões para bombardear as zonas, para equilibrar um pouco a força. Com 150 gramas de explosivos dentro de um frasxo paramos o avance de um exército".