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O Museu de História Natural e Etnográfica de Belém, capital do Pará, adotou o nome de um naturalista e zoólogo suíço. Trata-se de Emílio Goeldi, nascido há 150 anos e um dos precursores da pesquisa da Floresta Amazônica.
Os muros da antiga casa colonial em Belém evocam o esplendor do passado. Ao admirar outras construções, como o Palácio Antônio Lemos ou o Mercado do Ver-o-Peso, o visitante começa a compreender a antiga riqueza dessa metrópole da Amazônia.
A alguns passos da Basílica de Nazaré, é possível repousar à sombra das árvores de um pequeno oásis no meio dos edifícios. Atrás das grades de uma pequena gaiola, uma pantera negra dá a impressão de não querer aceitar o seu triste destino.
Um casarão encantador, localizada no centro do parque botânico e zoológico, abriga a exposição do Museu Emílio Goeldi. Ele é uma "roçinha", uma típica construção da região e onde as ricas famílias de Belém costumavam passar os finais de semana, explica Mariana Borallo, guia do museu. "A casa foi construída em 1866 e, nessa época, ela estava no meio da zona rural", continua.
Idade de ouro
Era uma época dourada para cidades como Belém e Manaus, transformadas entre os séculos 19 e 20 em centros urbanos dentre os mais prósperos do mundo graças à "febre dos pneus", que se espalhou por volta de 1870.
Alguns anos antes, em 1839, Charles Goodyear havia inventado o processo de vulcanização no qual a borracha se tornava elástica e resistente, podendo assim ser utilizada em vários processos industriais.
O látex extraído da "hevea brasiliensis", a seringueira - e que até 1875 só crescia no Brasil – se tornou uma espécie de ouro líquido durante esses anos da revolução industrial. Porém, a prosperidade não dura muito tempo. Em 1912, a queda do preço da borracha e a concorrência asiática coloca o ponto final em uma época dourada para as duas cidades.
Porta de entrada na Amazônia
Durante esses anos de bonança, Belém deixa de ser um vilarejo para se tornar uma cidade importante. Milhares de pessoas desembarcaram no rio Guamá, atraídas pelos grandes lucros advindos do comércio da borracha. Porta de entrada na Amazônia, Belém também convida zoólogos de todas as partes do mundo a conhecer seus segredos.
Dentre eles, o suíço Emílio Goeldi. Nascido em 18 de agosto de 1859 em Ennetbühl, no cantão de St. Gallen (noroeste da Suíça), ele estudou em Schaffhausen, Neuchâtel e Nápoles. Depois concluiu sua tese de doutorado em 1833 na Universidade de Jena (Alemanha) sob a tutela do professor alemão Ernst Hack, um dos biólogos mais importantes da época.
Em 1884, Emílio Goeldi se instala no Rio de Janeiro, onde foi nomeado vice-diretor do departamento de zoologia do Museu Nacional.
Grande dinamismo
Após a proclamação da República, em 1889, o suíço perde o seu emprego, mas decide continuar no Brasil. Em 1893, o governo do Estado do Pará propõe-lhe assumir a direção do Museu Paraense de História Natural e Etnografia, fundado em 1866 por Domingo Soares Ferreira Penna.
Desde a sua chegada, Emílio Goeldi deu prova de um grande dinamismo. Em 1895, ele obtém a permissão do governo paraense para comprar uma propriedade para instalar a nova sede do museu, onde constrói um zoológico, jardim botânico e organiza também várias exposições. Ele também funda uma revista científica.
"Emílio Goeldi foi um personagem importante no mundo científico brasileiro", ressalta Marianna Bordallo. "Ele reorganiza o museu sobre bases modernas e o transforma em uma verdadeira instituição de pesquisa científica, reconhecida internacionalmente." Durante esses anos, zoólogos, botânicos e etnólogos importantes, como Jacques Huber, Emilia Snethlage, Gottfried Hagmann ou Adolphe Ducke, colaboram com o museu.
O pesquisador suíço efetua um importante trabalho de classificação, especialmente de aves e mamíferos. Ele também foi um dos primeiros a se interessar pela febre do ouro e a propor métodos profiláticos, como a luta contra os mosquitos, como exemplo.
Outras funções
Seu papel de pedagogo foi ao mesmo tempo muito importante: "Emílio Goeldi não era um sábio que ficava fechado no seu laboratório. Ele queria divulgar seus conhecimentos e sua ideia era utilizar o museu para educar a população", lembra Bordallo.
Uma ideia que fez seu caminho: em todos os cantos do parque encontram-se jovens voluntários que explicam as características da flora e da fauna aos visitantes. Os responsáveis pelo museu também mantêm diversos projetos de educação relacionados ao meio-ambiente.
A intuição do zoólogo suíço de transformar o museu em uma instituição de pesquisa renomada também se concretizou. O parque e o espaço de exposições no centro são hoje a vitrina de uma instituição bem mais importante. O museu também dirige uma estação de pesquisa na floresta de Caxiuana, distante 400 km de Belém. Ele produz grandes trabalhos científicos em Zoologia e Ciências Sociais em colaboração com a universidade local.
Hoje, após mais de cem anos, Emílio Goeldi poderia dizer com orgulho ter alcançado todos os seus objetivos.
Daniele Mariani, swissinfo.ch
Emílio Augusto Goeldi (28 de agosto de 1859 — 5 de julho de 1917), suíço-alemão, foi naturalista e zoólogo. Ele estudou na Alemanha com Ernst Haeckel, e chegou ao Brasil em 1880 para trabalhar no Museu Nacional Brasileiro no Rio de Janeiro, indo posteriormente trabalhar no Museu Paraense (que posteriormente receberia o nome de Museu Paraense Emílio Goeldi) em Belém, atendendo um convite do governador do Pará Lauro Sodré onde permaneceu de 1894 até 1907.
Durante o século XIX houve grande movimentação de naturalistas estrangeiros em solo brasileiro. Muitos deles voltaram para sua terra natal com amostras de nossa fauna e flora, além de objetos indígenas.
Goeldi chegou ao Brasil com 25 anos, na capital do Império, e foi contratado pelo Museu Imperial, em 1884. Em 1885, foi nomeado subdiretor da Seção de Zoologia onde, durante cinco anos, desenvolveu estudos sobre répteis, insetos, aracnídeos, mamíferos e aves.
Os estudos sobre zoologia agrícola também foram alvo de interesse de Goeldi que investigou as pragas que atacavam importantes regiões produtoras do Brasil, a exemplo das videiras paulistas e dos cafeeiros do Vale do Paraná.
Atraído pela história da ciência, Goeldi elaborou amplo estudo sobre o assunto, a partir de minuciosa investigação de manuscritos, livros e acervos formados por naturalistas que percorreram o Brasil nos séculos XVIII e XIX.
Como Goeldi, muitos pesquisadores entrangeiros se fixaram no Brasil. Porém, com a proclamação da república, o Museu Imperial foi transformado em Museu Nacional e passou por uma reforma administrativa que incluía um novo regulamento para o museu, nova tabela de vencimentos e a exigência de "ponto" para os naturalistas.
Goeldi estava entre os cientistas que se desligaram do Museu, junto com Orvile Derby (1890), Fritz Müller, Hermann von Ihering e Wilhelm Schwacke (1891) e Carl Schreiner (1893). Wikipédia em português