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Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, Anita Kaegi, suíça radicada na Alemanha, conta à swissinfo.ch os acontecimentos ao mesmo tempo eufóricos e confusos que levaram à reunificação do país.Este conteúdo foi publicado em 09. novembro 2009 - 11:37
Nesse outono de 1989, ela organizava uma exposição em Hamburgo.
swissinfo.ch: O que a levou você a ir viver na Alemanha?
Anita Kaegi: Fui chamada em 1988 pela prefeitura de Frankfurt, que queria criar uma feira de arte. Elaborei um conceito e organizei a primeira edição da "Kunst Frankfurt" em 1989. Depois foram surgindo outros projetos e, 21 anos depois continuo na Alemanha. Gosto muito da vida que levo aqui.
Também é verdade que posso voltar para a Suíça quando quiser, uma vez que sou voluntária e não uma exilada política! Aliás, volto sempre para visitar minha família.
swissinfo.ch: Os alemães gostam dos suíços, mais isso nem sempre é recíproco ...
A.K.: Quando estou na Suíça, sempre me perguntam porque vivo na Alemanha, como seu tratada etc. Respondo que sempre fui muito bem recebida e nunca tive problema, o que é verdade. Os alemães conhecem bem a Suíça e têm uma imagem muito positiva do país.
No início, achava que os alemães e os suíços, em todo caso os suíços alemães, eram muito parecidos, mas, pouco a pouco, constatei as diferenças. Creio que os suíços reagem de maneira severa às pessoas que são muito seguras, como é o caso dos alemães. Eles acham que isso é arrogância e têm a impressão que eles os olham de cima, que procuram diminuí-los. Por isso ficam na defensiva.
swissinfo.ch: Onde a senhora estava no momento da queda do Muro de Berlim, há exatamente 20 anos?
A.K.: Estava organizando uma exposição em Hamburgo. Na famosa noite do 9 de novembro, o rumor rapidamente deu a volta ao país. Alguns dos meus colegas partiram rapidamente para Berlim porque queriam ver a queda do Muro.
Eu fui um pouco depois. Também era muito entusiasta, mas o evento me tocava menos do que a outros, talvez por não ser a história do meu país.
Claro que acompanhei os acontecimentos quando as pessoas começaram a fugir da RDA através da Hungria, mas não fiquei tão eufórica como tantos outros, talvez porque percebi rapidamente que, para as pessoas do leste, a situação não era fácil.
Cheguei a ficar irritada ao constatar uma certa auto-satisfação, uma certa condescendência nos jornais e na televisão ocidental, enquanto a "liberação" do Leste tinha por vezes consequências dramáticas. Isso me chocou.
swissinfo.ch: A senhora até se casou com o alemão do leste?
A.K.: Pois é (rindo)! Em 1996, em Dresde, encontrei Hubert Schwarz, que era editor e dono de uma galeria em Greifswald, na região de Mecklemburg-Pomerânia-Ocidental. No início, não pensei no fato de que ele era alemão oriental. Depois, é verdade, eu constatei diferenças de mentalidade.
O alemão ocidental geralmente tem tendência a se superestimar, o que não é ocaso do alemão oriental, que tem uma espécie de realismo pragmático. Mais do que por desejo pessoal, as pessoas agem segundo uma avaliação realista do que é possível ou não. Com a reunificação, essa particularidade não mudou entre meus amigos e conhecidos. Pelo contrário, acho que aqui ainda há um grande senso de solidariedade e a sensação que muitas coisas desaparecem com a competitividade extrema da sociedade atual.
Meu companheiro mantém uma aversão furiosa a fazer fila para tudo e, felizmente, ele não teme e nem é desconfiado das autoridades, ao contrário das pessoas aqui.
swissinfo.ch: Além dos aspectos políticos, históricos e econômicos da reunificação, ela foi dolorosa para os «Ossies». As relações entre as pessoas foram complicadas, muitas tendo colaborado com a Stasi, a polícia secreta da RDA...
A.K.: Hubert, meu companheiro, hesitou bastante tempo antes de pediu seu dossiê, porque tinha medo de descobrir que seus amigos ou até membros de sua família teriam sido informantes.
Como ele nunca aderiu ao Partido Comunista (mesmo sendo prejudicado profissionalmente), um informante tentou durante três anos incriminá-lo com informações sobre pessoas próximas dele. Você imagina então sua alegria e seu alívio, quando enfim solicitou seu dossiê e descobriu que nunca tinha sido traído pelos seus amigos e parentes!
swissinfo.ch: Com o tempo que passou, como a senhora vê os efeitos da reunificação?
A.K.: Em 20 anos as coisas mudaram bastante e muita gente se adaptou muito bem. Mas vejo que liberdade tem um preço. No início, claro, o governo investiu muito dinheiro na ex-Alemanha Oriental, mas o desenvolvimento econômico não foi equilibrado.
O maior problema é o social (desemprego em torno de 25% no leste), com o fato que muita gente, sobretudo os jovens, devem procurar emprego fora das suas regiões. Isso causa problemas como a redução da população e as famílias se separam.
Também tem o fato que os menos jovens constituem uma geração sacrificada. Depois de ter uma existência garantida sob o regime comunista (com estudos, emprego e habitação garantidos), eles se sentem em total insegurança, quando não na precariedade.
swissinfo.ch: A senhora pensa em voltar para a Suíça, um dia?
A.K.: Porque não? Adoro a Suíça e meu companheiro ainda mais! Mas estou com a idade um pouco avançada para encontrar emprego. Por outro lado, com sempre trabalhei como independente, não poderia contar com uma aposentadoria suficiente. Por enquanto não faço projetos, nunca se sabe!
Isabelle Eichenberger, Greifswald, swissinfo.ch
(Adaptação: Claudinê Gonçalves)
Anita Kaegi
Nascida em Basileia, teve uma formação comercial e seminários de história da arte na Universidade.
1978-1987: trabalhou na Art Basel e estabeleceu contatos com diversos atores do mercado internacional de arte; paralelamente, trabalhou durante alguns anos como responsável da Feira de Arte e Antiguidade de Basileia
(Kunst- und Antiquitätenmesse, KAM).
1989-1991: contratada pela prefeitura de Francfurt para criar uma feira de arte, desenvolve um conceito e dirige as três primeiras edições do evento.
1992-1993: trabalha como assessora independente.
1993-1996: dirige o departamento de assessoria em arte do banco privado Grunelius.
Desde 1993: criação, desenvolvimento e direção da coleção da sociedade E.ON, em Düsseldorf.
1997: depois de ter encontrado seu companheiro Hubert Schwarz, gráfico (cartazes) e dono de galeria, voltou a trabalhar como assessora independente e especializada em Berlim e em Greifswald (Mecklembourg-Poméranie-Occidentale).
1996-2001: contratada pelo departamento cultural da cidade de Dresden para criar uma feira de artes gráficas, que hoje não existe mais.
2001: paralelamente às outras atividades, abre o Hotel Galeria em Greifswald, onde os quartos são decorados com obras originais de vários artistas, incluindo o fotógrafo suíço Stefan Rohner.
Reunificação alemã
No verão de 1989, a Hungria abriu a Cortina de Ferro, provocando um êxodo para o oeste, especialmente de milhares de alemães do leste.
O muro de Berlim cai dia 9 de novembro de 1989.
Em 18 de março de 1990, são organizadas as primeira eleições livre na Alemanha do leste. As negociações entre as duas Alemanhas são concluídas por um tratado de reunificação, dia 3 de outubro de 1990.
A Alemanha reunificada continuou membro da l'União Europeia e da l'OTAN.
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