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A onda de violência na Bolívia parece diminuir depois dos acontecimentos recentes no norte do país.
"A comunidade suíça já está acostumada com esse tipo de turbulências e prefere tomar providências, como estocar alimentos e gêneros de primeira necessidade para qualquer eventualidade", segundo a Embaixada da Suíça em La Paz.
O cônsul e embaixador interino Eros Robbiani sublinhou que, apesar dos muitos sobressaltos políticos anteriores vividos pela comunidade suíça (cerca de 900 suíços e pessoas com dupla nacionalidade), a situação atual é muito preocupante pela crispação inabitual entre as partes conflitantes.
A representação diplomática continua atenta e preocupada com as conseqüências violentas, com vários mortos e feridos em algumas cidades do país. No entanto, o diplomata informou à swissinfo que não há problemas para os suíços residentes na Bolívia e que, até agora, não recebeu informações de ameaças ou de perigo para seus compatriotas.
Por outro lado, Robbiani recomenda aos turistas suíços que se encontram na Bolívia que não viajem para as regiões em conflito, ou seja, aos departamentos de Santa Cruz, Pando e Tarija.
Ele sugere, em contrapartida, visitar outras atrações turísticas, como a salina de Uyuni, o parque de Madidi e o Lago Titicaca, regiões calmas.
A comunidade suíça
Muitos suíços se sentem profundamente arraigados na Bolívia, compartem a preocupação, mas não renunciam à esperança de uma solução negociada.
O engenheiro Fred Schaub adverte para o perigo de posturas racistas e radicais que desestabilizam o país e afugentam os investidores estrangeiros. Schaub espera que o diálogo permita chegar a um consenso antes que seja tarde.
Por sua vez, o suíço George Petit (nascido em Basiléia), residente na Bolívia há mais de 40 anos e presidente da empresa alemã Hansa Lda, considera que a situação atual é um pouco mais complicada que outras do passado.
Pobres são os mais atingidos
A Bolívia sempre teve de defender seus interesses e resolver seus problemas por conta própria, mas agora "temos mais uma pessoa que está influenciando a política boliviana, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Sua influência não é necessariamente do interesse da Bolívia", afirma George Petit.
Ao comentar o início de diálogo entre o prefeito de Tarija e o governo federal, Petit opina que a esperança é a última que morre e que este pequeno sinal pode levar a um diálogo sincero com soluções adequadas para as partes em conflito.
A mesma aspiração é expressa por Mariane Hochstäter, cuja atividade principal é a solidariedade com os mais necessitados de um centro hospitalar da capital La Paz. "É importante a pacificação na Bolívia porque os mais atingidos são as pessoas humildes, os camponeses que estão sofrendo com os embates dos grupos de choque dos comitês cívicos nos departamentos do leste e do sul do país."
Hochstäter espera que o diálogo seja uma realidade e traga soluções duradouras e mudanças positivas para a Bolívia.
Pode-se dizer, portanto, que a comunidade suíça demonstra serenidade, apesar dos fatos alarmantes, sem descartar a possibilidade de recorrer aos serviços diplomáticos, se necessário. Por enquanto, todos os cidadãos helvéticos instalados na Bolívia têm esperanças de uma solução negociada e de consenso.
Atitudes recalcitrantes
Nos últimos dias, desencadeou-se uma violência inabitual nas regiões leste e sul do país, na denominada meia-lua, onde, com uso da força, foram ocupados vários edifícios estatais com um saldo de dezenas de mortes e muitos feridos.
O governo do presidente Evo Morales mantém sua decisão de não ordenar a intervenção do exército nem da polícia, para evitar confrontos maiores.
No entanto, diante da ameaça do aumento da violência, não se pode descartar a instalação de um estado de exceção para reordenar a vida no país, como ocorreu na cidade de Cobija, na região amazônica, para onde foram enviados contingentes militares, apesar da rejeição do prefeito do departamento, Leopoldo Fernández, e da resistência de alguns grupos de choque, montados pela prefeitura, e do comitê cívico.
Um pouco de esperança
Depois de oito horas de discussões, na sexta-feira e no sábado, entre o prefeito do departamento de Tarija, Mario Cossio (representante dos prefeitos da "meia-lua") e autoridades do governo lideradas pelo vice-presidente Álvaro García Linera, abriu-se um espaço para a esperança.
Outros encontros deverão ocorrer com os prefeitos de Santa Cruz, Beni e Tarija, mas em Pando ainda há dúvidas sobre a origem da última onda violência nessa região.
No sábado, o presidente Evo Morales Ayma agradeceu a solidariedade da comunidade internacional e de organismos internacionais, como a União Européia, as Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos para a pacificação do país, apoiando a gestão governamental do mandatário boliviano.
Ele ponderou, contudo, que está sempre disposto a dialogar, mas que as autoridades das prefeituras de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija terão que devolver os edifícios tomados, pôr fim à violência e julgar os responsáveis pelas mortes e pelos atos de vandalismo.
swissinfo, Félix Espinoza R., La Paz
Breves
A Bolívia é um dos países prioritários da DDC – Direção de Desenvolvimento e Cooperação, órgão do governo suíço – que, juntamente com a Secretaria Federal de Economia (SECO), investem este ano 13,4 milhões de francos suíços em programas de desenvolvimento.
A cooperação é bilateral, com entidades nacionais, e multilateral, com organizações internacionais. Além disso, diversas ONGs suíças trabalham na Bolívia, sobretudo na área rural, onde vivem 60% das pessoas mais pobres.
CONTEXTO DO CONFLITO
10 de agosto: Evo Morales obtém 67% dos votos no referendo revogatório em que em que submeteu, junto com o vice-presidente Álvaro García e os governadores provinciais, seu cargo à retificação popular. Ele convoca os prefeitos dos departamentos (estados) do leste e sul da Bolívia para dialogar sobre o texto da nova Constituição e os estatutos autônomos.
12 de agosto: encontro com os prefeitos de Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca (está ausente o prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas), mas não se chega a um acordo porque os prefeitos rejeitam a agenda proposta: compatibilizar a nova Constituição com o estatutos autônomos, pacto fiscal sobre os impostos de hidrocarbonetos e nomeação de autoridades do Judiciário e da Corte Nacional Eleitoral.
19 de agosto: começam as pressões dos comitês cívicos da "meia-lua". O Chaco boliviano declara o bloqueio das estradas. No departamento de Beni começam as invasões de edifícios públicos. Tarija segue o mesmo exemplo.
9 de setembro: começa o caos em Santa Cruz, com a tomada e o incêndio de repartições públicas e agressões de pessoas humildes, supostamente filiadas ao MAS.
11 de agosto: começa a violência no departamento de Pando. Grupos de choque da prefeitura e o comitê físico emboscam camponeses e indígenas e os transporte até o vilarejo de Filadélfia.
11 de setembro: morrem mais 4 pessoas, num total de mais de 12 vítimas.
12 de setembro: o governo decreta o estado de sítio em Pando. Na mesma noite, tenta-se estabelecer um diálogo entre autoridades federais e o prefeito de Tarija, representando os outros departamentos da "meia-lua".
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