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Ela se exilou na Costa Rica depois de acusar seu pai adotivo, Daniel Ortega, de estupro em 1998. Longe, mas ciente de tudo, Zoilamérica Ortega Murillo afirma que, tanto ele como sua mãe, Rosario Murillo, "arriscarão a vida" para permanecer no poder na Nicarágua.
P: Qual foi o sentimento nesses oito anos longe de seu país [deixou a Nicarágua em 2013]?
R: As formas de perseguição que vivi se repetem hoje. Minha denúncia [em 1998] foi a primeira evidência do que eles [seus pais] poderiam ser capazes. Considerar Daniel Ortega estuprador e minha mãe como cúmplice os fez ensaiar o uso do poder político para seus propósitos.
P: Como se sentiu quando sua mãe virou as costas para você?
R: Teria entendido se ela ficasse em silêncio, mas não que se tornasse minha principal perseguidora. Não que fosse capaz de negar sua maternidade. Mas o poder para ela não é negociável. Tive que entender que a pessoa que me deu à luz foi deixada para trás, para dar origem a outra cujo papel social e identidade são definidos pelo poder.
P: Via uma necessidade de poder em Murillo?
R: É preciso ter cuidado ao dizer que eles são duas pessoas irracionais. O irracional é o apego ao poder, mas os atos criminosos que cometem foram estrategicamente calculados a partir de uma visão política sem escrúpulos e humanismo. Eles treinam técnicas para anular a vontade, dignidade e integridade física das pessoas.
P: São ações planejadas ou medidas desesperadas?
R: Rosario Murillo nunca comete um ato sem saber o que acontecerá depois. Não podemos subestimar o poder destrutivo de alguém que está arriscando a vida em uma eleição (...). Aqui eles estão arriscando a vida, porque não podem sobreviver sem poder político; não criaram uma vida como seres humanos.
P: Sem uma oposição unida, há chances de vencer Ortega?
R: Se tiveram que prender líderes, é porque a oposição representou um grande risco para eles.
Meses atrás, havia desconfiança e preocupação com a falta de unidade, porque começávamos a duvidar de quem eram os aliados do governo. Agora, eles estão nos fazendo o favor de evidenciar que cada uma dessas pessoas que levantou a voz estava disposta a pagar o preço.
- "Um país refém" -
P: Qual a solução?
R: A solução não é convocar um diálogo para consertar as eleições. Não existe possibilidade de mudança se a negociação não incluir a saída do governo.
P: O que pode acontecer após as eleições de 7 de novembro?
R: As eleições não são o que mais preocupa, e sim impedir esta capacidade de Ortega e Murillo de isolar a Nicarágua como país, de gerar bloqueios que a longo prazo terão o povo como vítima.
Pode ser que chegue a um ponto em que Ortega não se importe mais em ter um país refém, capturado. Ele está preparado para um bloqueio, está preparado para tudo.
P: Existe algum cenário em que Daniel Ortega possa sair, pressionado pela comunidade internacional?
R: Eles, por vontade própria, não vão sair.