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Comer carne de cachorro é uma questão cultural
Não é ilegal comer cachorro e gato na Suíça, algo que horroriza muitos amantes e defensores dos animais domésticos. Mesmo se não é um costume generalizado, alguns questionam a necessidade de proibir ou estabelecer diretrizes para as práticas de sacrifício de animais.
O debate começou há anos e volta e meia é retomado pelo impulso da mídia, como foi o caso depois da publicação de um artigo no diário Tages Anzeiger, de Zurique, que cita pessoas protegidas pelo anonimato que, de vez em quando, comem carne de gato e de cachorro.
“Não há nada de excepcional, carne é carne”, indica um agricultor do cantão de St-Gallen (nordeste). Por sua vez, um agricultor de Appenzell (nordeste) descreve o processo de como mata às vezes um cachorro: faz dois cortes na carne e a defuma para consumi-la posteriormente.
“Se sirvo carne defumada (normalmente de boi), ninguém nota que é cachorro”, explica uma das pessoas citadas no artigo, enquanto outras lembram que antes não era visto como tabu na Suíça comer carne de gato ou de cachorro.
É impossível saber quantas pessoas mantém esse costume, porém se o assunto entra em uma conversa, sempre alguém conta algum caso a respeito.
Como o daquela família de agricultores que defumava carne de cachorro em sua chaminé, a receita de cozido de gato que foi impressa no diário oficial do vilarejo ou o cachorro que foi morto e depois comido pela família a que o animal pertencia.
“Ouvi falar que isso acontece na parte oriental da Suíça, mas que eu saiba é muito raro; 99,5% dos suíços seriam contra comer gato ou cachorro”, afirma Dennis Turner, etólogo e psiquiatra de animais. “Como não se trata de um hábito generalizado, não creio que precisamos de uma lei proibitiva”, acrescenta.
Por falta de cifras precisas, se estima que haja aproximadamente 1,3 milhões de gatos, meio milhão de cães e 4,5 milhões de peixes como animais de companhia na Suíça.
Em 2011, os centros de acolho de animais receberam 23.400 animais abandonados, entre eles, 13.000 gatos e 4.000 cães. Cerca de 16.000 animais domésticos encontraram um novo lar em 2011.
Cachorro perdido ou comido?
Martina Karl, presidente do grupo de defesa dos animais Mensch-Tier-Spirits-Helvetia, discorda de Turner, pois calcula que cerca de 3% da população suíça come carne de gato ou de cachorro. Sua organização coleta assinaturas para obter a proibição dessa prática.
“Os cachorros e os gatos são mascotes e não devem tornar-se alimento. A criação e a captura com esse fim devem ser condenadas por lei”, afirma. Em 1993, outro grupo de proteção dos animais coletou 6.000 assinaturas para uma petição similar, porém o Parlamento decidiu que era desnecessário regulamentar os hábitos alimentares das pessoas. No entanto, está proibida na Suíça a venda de carne de cachorro e de gato em açougue ou restaurante.
Martina Karl considera particularmente preocupante o desaparecimento dos gatos. Segundo a central de informação Mascotes Extraviados, desaparecem entre 10.000 e 20.000 animais por ano, 80% gatos. No entanto, Hansuli Huber, representante da Associação Protetora dos Animais da Suíça, duvida que muitos desses gatos terminem servidos em alguma mesa.
“Talvez umas 100 ou 200 pessoas na Suíça comem carne de cachorro ou gato de vez em quanto”, relativizando os cálculos e intuitos proibitivos de Martina Karl.
Mesmo assim, ele considera necessário regulamentar o sacrifício desses animais na Suíça. “Não existe regulamento algum a respeito. Pelo menos deveria haver um que fixasse limites ao modo de sacrificar esses animais, como já é o caso para o abate de porcos, aves e gado.
Por outro lado, Huber argumenta que não existe motivo para esse consumo se generalize. “Na Suíça tem tanta oferta de carne de outro tipo, que não necessitamos comer também gatos e cachorros.”
De acordo com a associação que promove o consumo de carne na Suíça, Proviande, cada pessoa consumiu, no país, por volta de 53,7 kg de carne em 2011, 3.3% mais do que em 2010.
A carne preferida é a de porco, com um consumo anual de 25 kg por pessoa. A carne de frango e de boi ocupam o segundo e terceiro lugar, com 11,43 e 11,29 kg, respectivamente.
Mascote ou prato
O etólogo e psiquiatra animal Dennis Turner fez uma pesquisa para observar as diferenças culturais dos hábitos alimentares relativas aos animais em 12 países (incluindo Suíça e China), e as cinco principais religiões do mundo.
“A grande maioria dos adultos – em todos os países analisados – desaprova comer cães e gatos. Creio que a razão principal do rechaço é a relação que pessoas têm com esses animais.”
Ele também observou que na China o costume de ter um mascote está crescendo e provoca uma mudança de atitude entre as pessoas. Por outro lado, Turner lembra que os europeus comem coelho e vitela – mal visto em outras latitudes – sem contar a carne de cavalo, que também faz parte regularmente dos menus suíços. Enquanto na Suíça ninguém protesta por isso, a rede de supermercados Tesco está marcada no Reino Unido porque suas hamburguesas às vezes contém carne de cavalo ao invés da carne de boi.
DennisTurner, pessoalmente, considera um problema moral comer carne canina e felina em um lugar onde a maioria das pessoas têm cães e gatos como animais de companhia. No entanto, ele acha que “não podemos criticar pessoas de outras culturas, como na Coreia ou na China, que podem ter outras atitudes a respeito desses animais.”
Na Suíça, a maioria dos consumidores não tem uma relação pessoal com os animais que lhes servem como alimento. “Somente o pecuarista poderia ter uma relação pessoal, porém é raro que ele mesmo os mate.”
Martina Karl, há muito tempo vegetariana, recomenda aos que comem carne a pensar de maneira mais crítica na origem do filé que se encontra em seu prato – inclusive nos detalhes da criação e do sacrifício do animal a consumir.
Dennis Turner considera que a reação entre seres humanos e animais em geral melhorou nos últimos anos. “Há mais respeito pelos animais, mesmo que sejam produtos de consumo, reforçado por leis em vários países”. Ademais, lembra que a Suíça é um dos países que têm regras muito avançadas em matéria de proteção animal.
Em 2005, o Parlamento suíço aprovou a Ata de Proteção Animal, que inclui vários regulamentos, como por exemplo:
– os animais não podem ser transportados durante mais de 6 horas
– os porcos não podem ser castrados sem anestesia
– na área de pesquisa, as experiências com animais devem ser justificadas.
Adaptação: Claudinê Gonçalves
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