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Marilane Borges
A Magazine, Barueri, Brazil, No 24 (2009)
Max Bill
O último Leonardo da Vinci do século 20
Seu nome é reconhecido internacionalmente como sinônimo de uma arte visionária pautada no futuro e na responsabilidade social
Goethe dizia que "a pessoa que nasce com um talento e cujo destino é usá-lo será mais feliz ao usá-lo", é isso o que pode ser constatado no filme Max Bill - A Visão do Mestre, de Erich Schmid, sobre a obra de Max Bill (1908-1994), apresentado no fim de dezembro em São Paulo durante o Panorama Sesc do Cinema Suíço 2009, mostra como a vida do artista estava centrada num campo de tensão entre a arte, a estética e a política. Bill foi provavelmente o artista suíço mais prestigiado do século 20 e o mais famoso aluno libertário da lendária escola de Bauhaus de Dessau. Antifascista de carteirinha e um inconformado por natureza, sua obra como pintor, escultor, arquiteto e tipógrafo mostrou seu pioneirismo artístico, revelando sua responsabilidade social nata e um senso de realidade humanitário que ultrapassou os ditames da sua época.
Aos 17 anos, ainda precoce, Max Bill já era um artista reconhecido quando a marchand e artista Sophie Taeuber-Arp, uma das principais representantes da Arte Abstrata, apresentou dois de seus trabalhos no Salão Internacional das Artes Decorativas de Paris, onde o mundo da elite intelectual de Le Corbusier a Melnikow, e muitos outros, ficaram profundamente impressionados com o talento do jovem artista. Oito anos depois, em 1933, com 25 anos, Bill foi admitido no grupo de artistas "Abstração-Criação", no qual apresentou suas obras juntamente com as de Piet Mondrian, Jean Arp, Sophie Taeuber-Arp e George Vantongerlo.
Mestre na sua arte - Max Bill influenciou em particular a história das artes brasileiras, tornando-se referência para a arte concreta nacional. Em 1951, ele participou da 1ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo, onde ganhou um 1º prêmio. Ele foi o principal responsável pela entrada do ideário concreto na América Latina - sobretudo na Argentina e no Brasil -, influenciando toda uma geração de artistas brasileiros como Mary Vieira, Alexandre Wollner, entre outros, que foram para a Europa e se instalaram na Suíça e Alemanha (Bauhaus), estabelecendo assim um diálogo entre as vanguardas europeias e brasileiras do período. Antes que as dicussões sobre o meio ambiente fizessem parte da agenda internacional das nações, Max Bill mostrou, por meio de sua obra, que ele já tinha essa preocupação e deixou um legado: a responsabilidade de despertar e agir em prol da conservação da natureza é uma missão pessoal e intransferível. O artista acreditava que a beleza deve balizar tudo na vida, mas ela deve estar em harmonia com o ambiente e não ser marcada pelo desperdício ou pela opulência. Seu trabalho mostra que beleza é sinônimo de redução, "eu achei na arte o que não consigo encontrar na vida", costumava dizer.
O pintor, escultor, arquiteto, diretor e artista gráfico estabeleceu valores e marcos em todas áreas onde se aventurou, por isso sua obra alcançou universalidade. Tanto que seus admiradores o apelidaram de "O último Leonardo da Vinci do século 20". Nas obras de Max Bill o que se vê são cores, formas e sua concepção da arte concreta, que pode estar representada tanto num painel como num cartaz ou ainda no mobiliário interior. É como se ele quisesse demonstrar seus valores através de sua concepção singular de mundo. Max Bill foi o aluno mais importante da Bauhaus, apesar de ter estudado por somente dois anos, entre 1928 e 1929. Ele teve que abandonar a escola porque durante uma de suas apresentações artísticas comprometeu um olho, mas isso não o impediu de prosseguir, afinal, o segredo de Bill era a sua visão absoluta. Esse olhar interno que testemunhou a força criativa e o extraordinário talento de um artista extremamente imaginativo e ousado. Depois de ter vivido um período politicamente conturbado, quando a Bauhaus foi fechada pelos nazistas em 1933, Bill decidiu se instalar em Berlim e adotou como mestres Wassily Kandinsky, Paul Klee e László Moholy-Nagy, que contribuíram como exemplos para a revolução da sua obra.
Mentor do design moderno - Após a Pimeira Guerra Mundial, ele percebeu que o mundo estava em transformação e que essas mudanças indicavam a abertura de novos caminhos para a estética do modernismo do mundo ocidental. Reconhecidamente visionário e de posicionamento político engajado, o nome de Max Bill foi cotado para uma posição determinante no âmbito do Plano Marshall, que vislumbrava a reconstrução da nova Alemanha, tanto no sentido material como imaterial. Foi então que, no início dos anos 1950, trabalhando como arquiteto sob os auspícios da Geschwister Scholl - Instituto de Ciência Política da Universidade Ludwig-Maximilians, em Munique - ele fundou e tornou-se o primeiro reitor da Alta Escola de Design, "Hochschule für Gestaltung, Ulm", uma das mais famosas instituições europeias de design. Por ironia do destino, essa escola, que tinha como base as ideias da Bauhaus, foi fechada em 1968 por Hans Filbinger, ex-juiz nazista e atual primeiro-ministro de Baden-Württemberg.
Apesar disso, a influência do design moderno difun- dido e apregoado na Ulm estendeu-se pela Europa, Japão e Estados Unidos. A imagem e a reputação da pro-fissão de designer, tal qual a conhecemos hoje, deve-se principalmente ao engajamento de Max Bill, que criou os princípios teóricos e práticos da concepção moderna de objetos e promoveu a difusão internacional de suas ideias. Bill era um defensor veemente tanto do meio ambiente como de novas propostas que pudessem melhorar a sociedade. Como membro e presidente de vários júris nacionais e internacionais, sempre participou ativamente de todos os embates relacionados à arte, à política e à responsabilidade social. Um ano antes de sua morte, Max Bill foi o primeiro suíço a receber, em Tóquio, o Praemium Imperiale, o Nobel da Arte. Em 9 de dezembro de 1994, depois de sua última reunião como presidente do Arquivo da Bauhaus, ele desmaiou e morreu assim que desembarcou no aeroporto Tegel, em Berlim.