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O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, defende o papel do Brasil na organização da Copa do Mundo 2014, inclusive a decisão de organizá-la em doze diferentes cidades. A seu ver, também a FIFA não sofre rejeição no país, mas sim da mídia. Porém lembra com nostalgia da época em que os melhores jogadores brasileiros ainda atuavam no país. "Vivemos hoje um declínio no futebol".
A porta do espaçoso gabinete em um dos blocos na Esplanada dos Ministérios em Brasília se abre e Aldo Rebelo sorri. Ele estende a mão como se tivesse querendo cumprimentar um antigo amigo e convida para entrar. Bastante informal, o atual ministro brasileiro dos Esportes e comunista de carteirinha desde 1997 traja uma guayabera, a tradicional camisa cubana larga e fresca, e sandálias de tiras de couro sem meias. Quadros coloridos cobrem a parede no canto da sala. Um deles mostra a estátua do Cristo Redentor coberta de verde-amarelo. Durante trinta minutos responde pausadamente às perguntas sob o olhar atento de um assessor de imprensa.
swissinfo.ch: Os estádios estarão prontos até o início da Copa?
Aldo Rebelo: O presidente da FIFA chegou a fazer referência a um país europeu que ainda fixava as cadeiras do estádio no dia do jogo de abertura da Copa. Certamente não chegaremos a essa ponto, mas teremos os estádios, sim, com seus sistemas de telecomunicação, transporte e de segurança, de acordo com as condições do país, em plena correspondência às expectativas da Copa do Mundo no Brasil.
swissinfo.ch: A FIFA teria exigido do Brasil a construção de um número mais reduzido de estádios, algo entre seis e oito. Isso facilitaria bastante coisa, começando pela logística para os torcedores. Por que o país insistiu em construir doze?
A.R.: Porque o Brasil insistiu em ser um país com oito milhões e meio de quilômetros quadrados. O Brasil insistiu em ser um país com dezesseis mil quilômetros de fronteiras, com dez vizinhos diferentes, em ter uma diversidade cultural, ecológica e geográfica muito grande. Não poderíamos fazer a Copa apenas em uma parte do Brasil. Se fôssemos a Alemanha, Suíça ou a França, poderíamos fazer a Copa do Mundo até em quatro estádios. Poderíamos fazer a Copa somente no Estado de São Paulo, mas a verdade é que precisamos fazê-la em todo o país. Não podemos deixar de fora da festa da Copa dois terços do território nacional, constituídos pela Amazônia. Vamos ter uma sede na Amazônia: Manaus foi assim escolhida, que é representativa do país, um bioma único, um estado que tem um milhão e 600 mil quilômetros quadrados, 98% de cobertura florestal. Ela tem três vezes em floresta o território da França. Esse é o Estado do Amazonas, numa região que constitui dois terços do território.
O Pantanal mato-grossense, a fronteira oeste do Brasil, é também um bioma único no planeta. Nela temos uma cidade (Cuiabá) de mais de trezentos anos, construída pelo esforço dos bandeirantes. Como iríamos deixar de fora toda essa região oeste do Brasil? A nossa fronteira interior, o Brasil mais profundo? Então queríamos que o país todo estivesse representado na Copa, não apenas o centro-sul, o sudeste, não apenas o litoral, e para isso fizemos a Copa em doze cidades-sedes, mas todas elas representativas daquilo que os turistas buscam no Brasil.
swissinfo.ch: Como o senhor explica a péssima imagem no Brasil da FIFA, a organização que regula a Copa do Mundo?
A.R.: A FIFA não sofre uma rejeição no país. Ela é alvo, sim, de críticas de uma parte da mídia, como o é também na Inglaterra. Nós nos relacionamos com a ela de forma institucional. Reconhecemos a FIFA como organizadora e que nos candidatamos. A Copa não nos foi oferecida. Nós disputamos com todos os países que se candidataram a recebê-la, como ocorre todas as vezes, e afinal alcançamos o direito de organizá-la. Procuramos cultivar uma relação de cooperação com a FIFA, no interesse comum do evento. Quando há diferenças, procuramos tratá-las de forma civilizada e respeitosa, sempre em função do benefício comum. Quando isso não é possível, tentamos fazer com que as posições do governo e do interesse público saiam vitoriosas, mas não temos tido nenhum tipo de confronto.
swissinfo.ch: Mas ao conversar com torcedores nas ruas, muitos citam problemas como as baianas que não poderiam mais vender acarajé na frente dos estádios ou vendedores ambulante com seus produtos não licenciados...
A.R.: Não, nós encontramos uma solução adequada, inclusive com a associação dos vendedores de acarajé. Não houve nenhuma divergência. Agora marcas de produtos que não são representados por não serem patrocinadores - e que assim não integram o circuito de vendas dos estádios e das áreas reservadas - podem também fazer uma campanha dessa natureza. Isso também se aplica às Olimpíadas. Com mais rigor ainda essas exigências são feitas pelo Comitê Olímpico Internacional, incluindo também reserva de publicidade nos aeroportos durante a realização dos Jogos Olímpicos. Mas o governo não tem tido esse confronto. Quando há um problema, procuramos resolver, protegendo os interesses públicos, não só da marca acarajé - que é a identidade Bahia. Imagine uma festa por lá sem acarajé? Aliás, quando foi feito o sorteio das chaves da Copa do Mundo lá no Costa do Sauípe, sabe qual foi petisco mais distribuído para as delegações? O acarajé!
swissinfo.ch: O Estadão anunciou que o COI está insatisfeito com os atrasos das obras das Olimpíadas no Rio de Janeiro e irá contratar um administrador independente para controlar. Isso é um mau sinal para o Brasil?
A.R.: Ele irá controlar as obras do COI. As obras do governo federal quem controla é o governo federal. Não tem intervenção nenhuma. Não recebemos nenhuma manifestação do COI com esse tipo de intervenção. Eles podem intervir no Comitê Rio 2016, que é um órgão deles. Fora disso não há nada. Também há pressão dos patrocinadores dessas organizações, que tem os seus interesses comerciais. Em todo caso, o governo brasileiro tem a abertura de absorver as críticas que são procedentes. Ninguém pode querer uma função pública avessa a elas.
swissinfo.ch: Durante a visita ao Brasil, muitos empresários suíços perguntavam aos seus interlocutores se irão ocorrer protestos durante a Copa. O que o governo espera?
A.R.: Não haverá protestos intensos na Copa. Os protestos serão residuais e não constituirão o aspecto principal do evento. Temos de conviver com protestos em todo o mundo. Na véspera das Olimpíadas de Londres, a periferia da cidade pegou fogo, com protestos violentíssimos. Um pouco antes, a periferia de Paris entrou em convulsão, com rebelião de jovens, depredações, incêndios. Há pouco a Ucrânia se viu mergulhada em convulsões que chegaram à beira da guerra civil. Tivemos na China, antes das Olimpíadas em Pequim, protestos violentos em uma das suas províncias. Acho que esses protestos são muito mais resultados das inquietações, das frustrações, das deformidades da sociedade atual, do que propriamente por causa de um evento esportivo. A Copa do Mundo não tem responsabilidade pelos desajustes do mundo contemporâneo, mas como é um evento de muita repercussão, é natural que atraia para o seu seio essas inquietações e debates.
swissinfo.ch: Hoje em dia existe a impressão de estamos vivendo a decadência do futebol brasileiro, com estádios vazios, campeonatos confusos e a exportação crescente dos melhores talentos. O senhor compartilha essa visão?
A.R.: Nossos atletas continuam sendo excepcionais, mas o futebol como estrutura, como competição no Brasil, sofreu um certo declínio. A marca dos nossos clubes nos anos sessenta, quando se falava no Santos com o Pelé e todos os seus grandes jogadores; o Botafogo, que tinha Garrincha, Milton Santos, Zagalo; o Palmeiras, que era até chamado de "Academia"; o Flamengo, que tinha Dida e outros grandes jogadores. Eram marcas requisitadas paras as competições e amistosos de todo o mundo. Isso já não acontece mais. O brilho dos clubes está com os clubes europeus. Os grandes astros que jogavam aqui, no Uruguai ou Argentina, hoje jogam principalmente na Europa. Isso representa, de fato, um certo declínio. Esse é um problema do futebol brasileiro e do mundo. Eu alertei à FIFA que a transferência precoce desses talentos, muitos jovens, é um desserviço ao futebol mundial. A FIFA não pode pensar que esse esporte vai ter prestígio se for forte somente na Europa. O prestígio dele nasceu de uma rivalidade entre a escola europeia e a sul-americana, principalmente. Se esvaziarmos o futebol sul-americano, isso é um prejuízo para nós e para o esporte mundial. Acho que quando o futebol tornou-se alvo da cobiça dos grandes negócios - de patrocínio e direitos de transmissão - ele também foi conduzido para uma área de risco, quase a margem de um precipício. Se o futebol perder esse encanto, se for transformado simplesmente em uma mercadoria, não terá futuro. Ele não nasceu como mercadoria, pelo contrário, nasceu à margem do mercado. É uma das poucas instituições do mundo surgidas às margens dos dois grandes poderes do último século: o Estado e o mercado.
Biografia
José Aldo Rebelo Figueiredo nasceu em Viçosa, Alagoas, em 1956.
Ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1977. Na juventude, foi líder do movimento estudantil, tendo chegado à presidência da UNE - União Nacional dos Estudantes em 1980.
Sua trajetória parlamentar começou em 1988, quando foi eleito vereador da cidade de São Paulo, mantado que exerceu de 1989 a 1991, pelo PC do B. Depois foi eleito cinco vezes consecutivas como deputado-federal, tendo inclusive participado entre 1991 e 1995 da Assembleia Constituinte.
Rebelo foi presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, entre 2005 e 2007,
Foi líder do PCdoB e líder do governo Lula. Em janeiro de 2004, licenciou-se do mandato de deputado e assumiu a Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República, responsável pelas relações institucionais entre os Poderes da República e entre os entes federativos e pela articulação política do Palácio do Planalto.
Em 27 de outubro de 2011 foi empossado como ministro dos Esportes do Governo Federal.Aqui termina o infobox
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