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Há cinquenta anos, o governo suíço publicou o livreto "Defesa Civil", um manual que combina proteção civil e medidas de resistência no caso de uma invasão das tropas do Pacto de Varsóvia. Visando também certos grupos de esquerda considerados como inimigos internos, o livro provocou uma onda de indignação.Este conteúdo foi publicado em 28. outubro 2019 - 13:30
Em 1961, o Major Albert BachmannLink externo propôs ao Conselho Federal a produção de um livro sobre defesa civil.
Comunista na sua juventude, este tipógrafo nascido em 1929 tornou-se um fervoroso opositor após a invasão soviética de países-irmãos recalcitrantes, como a Hungria, em 1956. Autor de um "Livro do Soldado" publicado em 1958, Bachmann se tornou soldado profissional e veio então com a ideia de produzir um manual de proteção civil capaz de estimular o espírito de resistência da população às tentativas de infiltração comunista.
Esta ideia, inspirada no conceito de defesa espiritual desenvolvido desde a década de 1930, foi bem acolhida pelo governo, em particular pelo chefe do Departamento Federal de Justiça e Polícia, Ludwig von Moos. No entanto, o trabalho revelou-se mais complicado do que o esperado, em especial devido a diferenças no seio do Conselho Federal sobre o conteúdo do manual.
2,6 milhões de exemplares
O manual de 320 páginas foi publicado no outono de 1969 em formato de bolso, com uma capa escarlate e um tamanho comparável ao passaporte suíço, assim como ao Pequeno Livro Vermelho do dirigente chinês Mao Tse Tung, que circulava então por toda a Europa. Impresso em 2,6 milhões de exemplares, ele foi distribuído a todas as famílias do país, que então contava com pouco mais de 6 milhões de habitantes.
Além das tradicionais medidas de proteção civil em caso de guerra ou desastre natural, o livro apresenta o cenário de infiltração do país por agentes de uma grande potência, ocupação inimiga e técnicas de guerrilha para combatê-la.
Embora fictício, esse cenário identifica claramente grupos considerados inimigos internos do Estado, todos localizados à esquerda, fossem eles pacifistas, sindicalistas, anti-nucleares ou escritores.
Onda de indignação
Essa ação do governo, dada a natureza oficial da publicação, suscitou imensa indignação entre as pessoas envolvidas, mas também entre os defensores da democracia liberal.
Manifestações de protesto eclodiram por todo país, pilhas do manual foram queimadas em frente ao Palácio Federal, em Berna, onde se encontram as sedes do governo e o parlamento suíços. Algumas livrarias ofereceram até mesmo a troca gratuita do manual por livros de autores suíços que criticavam a política oficial da Confederação.
Por seu lado, a Sociedade Suíça de Escritores (SSS) registrou a demissão de autores ilustres, incluindo Max Frisch, Friedrich Dürrenmatt, Peter Bichsel e outros, para protestar contra o papel do seu presidente Maurice Zermatten, autor da tradução francesa do manual. Oficiais do exército tiveram de se defender das críticas, como mostram estes pontos de vista publicados em 1970Link externo na Revue Militaire Suisse, publicação interna da caserna.
Da defesa civil ao P26
A indignação suscitada pelo livro não prejudicou o seu autor principal. A grande maioria recebeu remuneração substancial como autores e editores do livro, sem mencionar os direitos pela sua distribuição no exterior.
Em 1976, Bachmann foi nomeado chefe dos serviços secretos do exército. Como tal, trabalhou na constituição do P26, uma unidade militar secreta semelhante às criadas pela OTAN, que deveria ter sido ativada no caso de uma invasão da Suíça. Esta perspectiva levou Albert Bachmann a adquirir uma propriedade privada na Irlanda para acolher o governo suíço no exílio.
A sua carreira terminou abruptamente em 1980, após uma desastrosa operação de espionagem na Áustria. Aos 51 anos de idade, Albert Bachmann foi aposentado antecipadamente. A Polícia Federal, por sua vez, continuou a monitorar os ambientes designados como inimigos do Estado até 1989. Isto acabou levando ao escândalo retumbante do "caso das fichas"Link externo (v. matéria abaixo)
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