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Os jornalistas africanos que reportam acerca do continente africano nos media internacionais debatem-se com um duplo problema. Por um lado, não conseguem “vender nada positivo acerca de África”, pelo que, como revela um estudo britânico realizado por Franks e as peças jornalísticas de cariz positivo são apenas publicadas pelos media africanos. Por outro lado, trabalham sob o que Gathara chama de “restrições severas impostas pelos governos” e são frequentemente acusados de antipatriotismo e de instigação à violência, por parte das autoridades dos seus países, que reclamam a necessidade de divulgar notícias positivas, para mostrar ao mundo como África está a crescer e a prosperar.
A liberdade de imprensa em África é uma questão-chave, não só em países que estão no fim da lista dos Repórteres sem Fronteiras em 2014, como a Eritreia ou a Somália, mas também no Sudão, no Djibouti, na Guiné Equatorial, entre outros. Como constata Meyers, os jornalistas, “particularmente os que investigam a corrupção, a violência patrocinada pelo estado ou que dão voz à oposição política”, vivem “com medo das detenções arbitrárias, recebem ameaças de morte por parte de políticos e de grupos armados e são regularmente assediados, bem como as suas famílias”.
De acordo com os dados mais recentes do Committee to Protect Journalists, dos 221 jornalistas que estavam na prisão em 2014, 61 pertenciam a países africanos, numa lista liderada pela Eritreia (23 presos), seguida da Etiópia (17) e do Egito (12), sendo os outros países os Camarões, Congo, Gâmbia, Mauritânia, Marrocos, Somália e Suazilândia. África tem ainda quatro países entre os 20 onde mais jornalistas foram mortos desde 1992, lista liderada pelo Iraque (166 mortos) e pela Síria (81). Os países africanos são a Argélia (60 mortos), que surge em quarto lugar, seguida pela Somália, em quinto, com 56 jornalistas mortos, enquanto Ruanda (17 mortos) e Serra Leoa (16 mortos) surgem nas 17ª e 19ª posições, respetivamente.
Se o exercício da profissão de jornalista é difícil em muitos países africanos, outras regiões têm situações similares ou até piores. Ao analisar o respeito pela liberdade de Imprensa por país, recorrendo a dados dos Repórteres sem Fronteiras e da Freedom House, em 2014, Meyers concluiu que a Ásia, o antigo bloco soviético e o Médio Oriente têm situações mais complicadas que a África subsaariana. Afirma ainda que há países africanos onde a liberdade de imprensa é garantida pela constituição, casos de Cabo Verde, Gana, São Tomé e Príncipe, Mauritânia e Namíbia. Nesses países têm media diversificados, “jornais privados e estações de televisão que, em geral, operam sem intervenção oficial (…) e existem poucas restrições governamentais no acesso à Internet”.
Estes países serão, porém, as excepções, pois, nos restantes países africanos a situação é diferente. Mas nem as prisões e ameaças impedem os que Meyers chama de “bravos jornalistas africanos e outras pessoas ligadas aos media continuem a escrever, transmitir e a escrever blogues todos os dias”, os quais considera serem um exemplo a seguir muitos outros que trabalham em África, no sentido de ser efetiva a liberdade de imprensa e de expressão. Como exemplos, apresenta o jornalista angolano Rafael Marques, que tem investigado a corrupção e o comércio de diamantes no seu país, tendo sido preso várias vezes, sobretudo na sequência do seu livro Diamantes de Sangue: Corrupção e Tortura em Angola, publicado em Portugal, em setembro de 2011. Refere ainda Jolly Kamuntu, que resiste a ameaças de grupos armados e continua a informar aos microfones da Radio Maendeleo, na República Democrática do Congo; Stanley Gama, do Zimbabwe, editor do Daily News, cujas instalações já chegaram a ser bombardeadas; o ugandês Sam Lawino, que continua a lutar por justiça para as vítimas da guerra naquele país, na qual já perdeu quase toda a sua família, ou Newton Ahmed Barry, que sobreviveu a vários atentados e continua a editar o jornal L’Evenement…
Vem aí um Wikileaks africano?
De acordo com o relatório de Rech para o Observatório da Imprensa, em 2014, o jornalismo atual é mobile first e multimédia, é um jornalismo de profundidade enriquecido pelo digital, com reportagens gigantes, baseadas em muitos gigabytes de informação, que obrigam a muito trabalho, ao recurso a especialistas de várias áreas e a muitos jornalistas. Por isso, tende a ser colaborativo e “crescem as formas autónomas de sites investigativos, que atuam de forma independente mas que também divulgam seus conteúdos nos veículos convencionais”.
Um exemplo é o International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), organização criada em 1997, com o objetivo de desenvolver jornalismo de investigação de carácter internacional e atualmente conta com a colaboração de 185 jornalistas de 65 países. Nos últimos dois anos, o ICIJ revelou vários escândalos que marcam a história recente do jornalismo mundial, como por exemplo o HSBC Swiss Leaks, que denunciou 100 entidades tinham 100 mil milhões de euros na delegação suíça daquele banco, e o Lux Leaks, relativo a acordos secretos entre 350 multinacionais e o Governo do Luxemburgo que lhes permitiram escapar a pagar milhares de milhões de euros em impostos.
Estes casos foram possíveis graças a fugas de informação de dados digitais, que se tornaram conhecidas com a Wikileaks (2011), organização criada em 2007 e que constitui um marco na história do jornalismo, não só pela informação revelada, mas porque as investigações com base nesses documentos foram desenvolvidas “por jornalistas de renome, e representam o futuro do jornalismo de investigação em tempos de orçamentos reduzidos”, refere o australiano Heemsbergen.
No início de 2015 foi apresentado a afriLeaks, plataforma que visa denunciar casos de corrupção e violação de direitos humanos no continente africano. Trata-se de um projeto conjunto do African Network of Centers for Investigative Reporting em colaboração com o Hermes Center for Transparency and Digital Human Rights, e inclui 19 entidades e órgãos de comunicação africanos, entre eles três em língua portuguesa, como os moçambicanos A Verdade e Savana e o angolano Maka Angola. Tem uma lógica diferente da organização Wikileaks, pois “a Wikileaks publica diretamente a informação”, enquanto “a afriLeaks é uma caixa de correio de alta segurança que põe em contacto os denunciantes e as organizações media que se dedicam à investigação.
Os manuais de investigação não aconselham a terminar um artigo com perguntas, mas sentimos a obrigação de o fazer, na ausência de respostas: Até que ponto, a associação de órgãos de informação africanos poderá contribuir para que a cobertura internacional dentro de África possa ser feita por órgãos africanos? Poderá essa cobertura ter eco nos media ocidentais, não centrando o foco em guerras e catástrofes, mas sim num jornalismo de banda larga, que ajude os cidadãos dos outros continentes, incluindo os políticos, a compreenderem de facto África, com efeitos nas suas representações e nas decisões políticas internacionais?
Créditos fotografia: GPE/ Deepa Srikantaiah on Flickr /Creative Commons