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Petista queria realinhar líderes sul-americanos ao seu pensamento ideológico, mas a iniciativa não funcionou. Ele acabou perdendo parte de seu encanto junto aos líderes do continente, avalia o jornalista Alexander Busch.Deveria ter sido, enfim, um triunfo para a política externa do governo. Após realizar sete viagens ao exterior desde que assumiu a Presidência, em 1º de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou se colocar como o líder regional inconteste na América do Sul. Para tal, convidou presidentes da região a virem a Brasília, o que, do ponto de vista da diplomacia brasileira, seria como "jogar em casa".
A maioria dos governos da região atualmente no poder são de esquerda. Em seus dois primeiros mandados (de 2003 a 2010), Lula foi uma espécie de porta-voz informal da América do Sul nas questões mundiais. Mas, dessa vez, as coisas foram de mal a pior.
Todos os presidentes da América do Sul estiveram presentes na reunião, exceto a líder do Peru, Dina Boluarte, que está proibida de deixar o país após uma decisão do Congresso peruano. A atmosfera já era tensa desde o início, uma vez que Lula não havia informado seus homólogos que ele havia convidado para o encontro o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.
Desde 2019, Maduro está na lista de sanções dos Estados Unidos em razão de suposta fraude eleitoral. Washington chegou até a divulgar uma recompensa internacional pela captura do ditador por acusações de tráfico de drogas.
Porém, nada disso seria motivo para que os presidentes sul-americanos não encontrassem seu colega venezuelano em reuniões de cúpula. Os governantes de Cuba também podem fazer aparições regulares em fóruns da América Latina.
Lula, no entanto, preparou uma recepção de gala para seu camarada venezuelano na abertura do evento; algo com o que nem mesmo Maduro contava. O brasileiro foi além de apenas restabelecer as relações oficiais com a Venezuela, que haviam sido congeladas pelo governo de extrema direita que o antecedeu.
Isso é algo que faz sentido em termos de política externa, no intuito de buscar soluções de maneira coletiva na América do Sul para a crise dos refugiados, a crise econômica e o fracasso da democracia na Venezuela.
Lula, porém, tentou retratar Maduro com um democrata. A suposta ditadura na Venezuela sob Maduro seria uma apenas questão de narrativa. As sanções americanas e europeias seriam piores do que qualquer guerra contra o país. Em suma: Maduro vivenciou com Lula uma reabilitação em larga escala.
No dia seguinte, ficou claro que Lula se isolou em sua opinião sobre a Venezuela. O presidente conservador do Uruguai, Luis Lacalle Pou, foi o primeiro a discordar, ao dizer que não existem narrativas falsas sobre a Venezuela. Ninguém deve ter ilusões a respeito disso, afirmou. Existem opiniões diferentes sobre democracia, direitos humanos e separação de poderes.
Gabriel Boric, o ex-líder estudantil que ocupa a Presidência do Chile, também alertou que é preciso reconhecer a realidade e chamar a ausência de democracia pelo nome. "Não há uma narrativa construída", disse o líder esquerdista da Colômbia, Gustavo Petro, que apesar de defender uma política de apaziguamento com a vizinha Venezuela desde o início, também não quis apoiar Lula.
Lula sofreu uma grave derrota também em outra frente. Ele queria reavivar através da reunião de cúpula a aliança regional Unasul, fundada por ele e outros presidentes de esquerda em 2008. Ao invés de 11 países, atualmente apenas sete integram o fórum.
No período conservador da América do Sul na segunda metade dos anos 2010, Peru, Paraguai, Chile e Brasil deixaram a Unasul.
Os demais presidentes disseram não à iniciativa de reavivar a aliança. Boric, Lacalle Pou e Petro declararam que a região não necessita de outra instituição ideologicamente guiada, e que preferem trabalhar especificamente em integração.
Tudo que restou do grandioso plano de Lula de reavivar a Unasul é o "Consenso de Brasília". Nem mesmo a tentativa de Lula de impulsionar uma moeda comum chegou a gerar reações.
A performance de Lula pode ser explicada, acima de tudo, pela fraqueza de sua política interna. Depois de seis meses no cargo, ele já sente que mal conseguirá implementar algumas de suas declaradas intenções políticas, ou as de seu partido. O Congresso e sua própria inabilidade em formar alianças tem evitado que isso aconteça.
De modo a manter em linha seus apoiadores de esquerda, ele deve ao menos buscar uma política externa que os agrade, o que não representará os interesses do Brasil no longo prazo. Com seus elogios a Maduro, Lula se enfraqueceu significativamente na América do Sul.
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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.
O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.