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Vendedor de frutas em Pyongyang, Coreia do Norte(afp_tickers)
Nas ruazinhas de Pyongyang começam a aparecer vendedores de verduras e até de Coca Cola, enquanto nas lojas oficiais se troca moeda ao preço do mercado paralelo, em um sinal de mudança gradual da economia do país que as autoridades não querem reconhecer.
Oficialmente, a Coreia do Norte nega estar aplicando reformas econômicas e na teoria segue o chamado Juche, também conhecido como "autossuficiência", um sistema filosófico criado pelo fundador do regime comunista Kim Il-Sung, que neste final de semana celebra o 105º aniversário do nascimento.
No comando do seu neto Kim Jong-Un — a terceira geração da dinastia —, a economia está mudando lentamente, acreditam os analistas.
A Coreia do Norte chegou a ser mais próspera do que a Coreia do Sul, mas décadas de má gestão levaram o país à fome e à escassez enquanto que seu vizinha do sul já faz parte da OCDE, que reúne os países mais desenvolvidos do mundo.
A capital, Pyongyang, continua a ter um só cartel comercial e suas longas avenidas estão cheias de propaganda com soldados heroicos e sofridos trabalhadores e slogans como "Sigamos as decisões do Sétimo Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia".
"Somos um país socialista e seguimos nossos princípios econômicos socialistas", afirma Ri Sun-Chol, chefe do instituto de pesquisa econômica da Academia Nacional de Ciências. "Não estamos aplicando reformas para adotar a economia de mercado", assegura.
No entanto, uma série de decisões de Kim Jong-Un estão levando o país nessa direção, segundo diplomatas e analistas.
Muitas das cooperativas agrícolas foram desmanteladas e a gestão agrícola é distribuída entre as famílias, chamadas "unidades de trabalho familiar", o que tem permitido aumentar a produção de alimentos.
Já os responsáveis pelas fábricas têm agora certa liberdade para buscar fornecedores e clientes, sempre dentro do chamado Sistema Socialista de Gestão Corporativa Responsável.
Foi o caso da fábrica de alimentos Song Do Won General Foodstuffs Factory, em Wonsan. Em paralelo à produção que segue as instruções do governo, "também temos uma rede comercial de vendedores que usamos para obter nossos próprios contratos", reconhece Kwon Yong-Chol, o engenheiro-chefe.
- Não interferir no setor privado -
Segundo os observadores, os responsáveis comunistas têm instruções de não interferir nos negócios do setor privado, que podem representar até 25% do Produto Interno Bruto do país.
Entretanto, esses são dados muito aproximados porque o regime não publica estatísticas. No ano passado, os especialistas no país sequer conseguiram saber se a economia cresceu ou se contraiu.
"Sempre sigo o princípio de não confiar em nenhum dado sobre a economia da Coreia do Norte", disse Marcus Noland, diretor de estudos do Peterson Institute for International Economics com sede em Washington.
As mudanças são parecidos aos primeiros passos da reforma econômica chinesa nos anos 1980, sob a direção de Deng Xiaoping, que abriram caminho para o 'boom' econômico posterior.
A China, único aliado do regime comunista, sancionado internacionalmente por seu programa de mísseis balísticos, incita o país a seguir seu exemplo, mas, em um discurso no Congresso no ano passado, Kim Jong-Un classificou as reformas de "vento asqueroso de liberdade burguesa".
Segundo Andrei Lankov, diretor da NK News e professor da universidade Kookmin de Seul, "é evidente que estão copiando a China porque a China foi um grande sucesso".
"Nunca admitirão que estão aprendendo com alguém", disse à AFP, mas Kim Jong-Un "entende muito bem" que a economia de mercado produziu um crescimento espetacular em muitos países do leste da Ásia nos últimos anos.
Ao mesmo tempo o regime não quer reconhecer isso. "Enquanto essa atividade [econômica] continuar sendo tecnicamente ilegal e em muitos casos passível de pena de morte, o regime sempre pode voltar atrás se quiser", alerta Marcus Noland.
Implementar reformas oficiais "colocaria o Estado em um terreno escorregadio que romperá sua diferença fundamental com a Coreia do Sul e a 'razão de ser' do regime estaria em questão", acrescenta.
AFP