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Alape concede uma entrevista à AFP na Praça da Revolução, em Havana(afp_tickers)
O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, deve fazer gestos de paz contundentes para impedir que o conflito armado se prolongue por outros 51 anos, disse o chefe guerrilheiro Pastor Alape, um plenipotenciário das Farc nas negociações de paz de Havana.
"Temos que dar passos sérios para aprofundar a desescalada do conflito armado", declarou Alape em uma entrevista à AFP, enquanto as negociações destinadas a acabar com um conflito interno sangrento - iniciado em 1964 - enfrentam seu momento mais crítico após o aumento das hostilidades.
"Não podemos dar outros 51 anos de conflito, de guerra à Colômbia (...). É preciso apoiar o processo (de paz) em todo o seu sentido, insistir na necessidade do cessar-fogo bilateral para poder silenciar a guerra", acrescentou Alape, que conversou com a AFP na Praça da Revolução de Havana, em frente ao famoso retrato de Che Guevara.
Alape, de 56 anos e cujo nome real é Félix Antonio Muñoz, era um dos principais chefes militares das Farc antes de chegar a Cuba para negociar com o governo colombiano, em outubro de 2014. É um dos cinco plenipotenciários rebeldes nestes diálogos iniciados em 2012 e um dos sete membros do Secretariado das Farc, seu comitê diretor.
Alape disse que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) não pensam em deixar as negociações, apesar dos golpes recebidos recentemente, nos quais dezenas de guerrilheiros morreram.
"Nosso mandato foi vir para arriscar tudo pela paz e estamos aqui. Até o momento não pensamos nisso" (em abandonar a mesa de negociações), afirmou.
Advertiu, no entanto, que é muito difícil que as Farc declarem novamente uma trégua unilateral, como a realizada entre dezembro e maio.
O chefe negociador do governo, Humberto de la Calle, deixou aberta pela primeira vez no domingo a possibilidade de um cessar-fogo bilateral, algo que o presidente Santos havia rejeitado reiteradamente.
Hostilidades
O governo colombiano e as Farc retomaram na sexta-feira as negociações em Havana em meio a tensões sobre o processo de paz, devido à escalada do conflito armado na Colômbia.
As duas partes voltaram à mesa de negociações após um recesso de seis dias, com a expectativa de selar um acordo parcial sobre indenização às vítimas que dê fôlego ao processo de paz, que enfrenta tensões e críticas pelo recrudescimento das hostilidades após vários meses de relativa calma.
Alape culpa o anterior ministro da Defesa da Colômbia e atual embaixador em Washington, Juan Carlos Pinzón, pela escalada do conflito armado e insistiu em um cessar-fogo bilateral.
As hostilidades se intensificaram nas últimas semanas da gestão de Pinzón como ministro, depois de uma emboscada da guerrilha, que deixou 11 soldados mortos, em meados de abril. Um mês depois, os militares lançaram vários ataques nos quais morreram 27 rebeldes, o que levou as Farc a suspender sua trégua unilateral.
O conflito avançou progressivamente e as Farc retomaram os ataques contra a infraestrutura petroleira, suspensos durante sua trégua, provocando prejuízos econômicos e danos ambientais.
O presidente Santos sempre se recusou a acordar uma trégua bilateral enquanto não for alcançado um acordo final de paz.
Esta 38º rodada de diálogos de paz, celebrados desde novembro de 2012, se estendeu mais do que o normal.
O governo e a Farc entraram em acordo sobre três dos seis pontos da agenda de paz e também acordaram um programa de retirada de minas e a criação de uma Comissão da Verdade.
No entanto, ainda devem abordar o tema da justiça para os crimes cometidos ao longo do conflito armado de meio século, sobre o qual têm profundas diferenças.
Segundo cifras oficiais, o conflito deixou até agora 220 mil mortos e seis milhões de deslocados.
AFP