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O estado de incerteza e violência persiste na Bolívia depois que Evo Morales partiu ao exílio e foi substituído por Jeanine Añez Chaves, a senadora autoproclamada presidente interina. Até então membro da Aliança Bolivariana para as Américas, o país andino seguirá o mesmo caminho que o Brasil de Bolsonaro? Marc Hufty, especialista da região no Instituto de Pós-Graduação de Genebra, comenta os desdobramentos da última semana.
Jeanine Añez Chaves, que é reconhecida pela Corte Constitucional Boliviana, União Europeia, Estados Unidos, Brasil e Rússia como presidente interina, quer agir rapidamente. A advogada de 52 anos nomeou onze ministros para formar um novo governo. Ela pretende também nomear uma nova autoridade eleitoral para convocar rapidamente novas eleições.
A nova presidente interina da Bolívia e as reações de seus apoiadores e opositores (da TV pública suíça TSR, 14.11.19)
Para isso, a nova gestão consideraria, segundo a Agence France Presse, o fechamento do parlamento e do governo por decretos presidenciais, já que o Congresso e o Senado possuem maiorias de representantes eleitos do MAS (Movimiento al Socialismo), partido do ex-presidente, que obteve 61,4% dos votos nas eleições parlamentares de 2014.
Apesar dos apelos à calma, inclusive de Evo Morales do seu exílio no México, a situação continua tensa. Os partidários de Evo Morales não pretendem aceitar a virada à direita proposta por seus opositores políticos contrariados com o primeiro presidente ameríndio do país.
Uma direita revanchista sobre os escombros da esquerda
"A política latino-americana sempre operou em ondas", diz Marc HuftyLink externo, professor do Instituto de Pós-Graduação (IHEID) em Genebra. Depois da onda socialista que seguiu
das ditaduras militares durante a Guerra Fria, é uma direita linha-dura que agora exerce sua versão de cristianismo decidida a recuperar o terreno perdido."
Fazendo coro ao mesmo refrão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, Jeanine Añez Chavez exclamou às portas do palácio presidencial: "Deus permitiu que a Bíblia voltasse ao palácio. Que Ele nos abençoe", dois dias depois da renúncia de Evo Morales, que governou o país por 14 anos.
"Habituadas a liderar o país, as famílias da elite 'branca' (na verdade mista') foram profundamente desestabilizadas pela eleição em 2005 de Evo Morales, um sindicalista aymara (o principal povo indígena da Bolívia, juntos com os quéchuas)", diz Marc Hufty. Estas elites não aceitam a partilha da riqueza e do poder, um problema recorrente em toda a América Latina."
Um estado de espírito que não augura nada de bom para o futuro da Bolívia, se não forem alcançados compromissos entre o novo governo e os apoiantes do ex-presidente, principalmente os sindicatos e os povos indígenas do Altiplano, que representam mais de 55% dos 11 milhões de bolivianos.
O modelo Lula
Mesmo antes do exílio de Evo Morales no México, a Aliança Bolivariana fundada em 2004 pelo venezuelano Hugo Chaves e o cubano Fidel Castro não passava de uma sombra de si mesma. No entanto, a Bolívia não seguiu a Venezuela ou a Nicarágua, dois países que hoje estão à beira da ruína.
"Morales seguiu os passos do brasileiro Lula brasileiro ao fazer um acordo com a comunidade empresarial", diz Marc Hufty. Isso ajudou a acalmar a região de Santa Cruz, a capital econômica do país, em polvorosa desde que Morales chegou ao poder.
"Com a sua eleição, todo um povo de excluídos foi reconhecido. Ao aumentar para 80% os royalties pagos ao Estado pelo gás, o presidente boliviano conseguiu combater a pobreza, melhorar o sistema de saúde, a educação e as estradas", explica Marc Hufty. O crescimento econômico tem sido superior a 4% há mais de 10 anos e a taxa de pobreza caiu de 60% em 2007 para 34% em 2018, segundo o Banco Mundial.
Um golpe fatal para a Aliança Bolivariana
Os problemas começaram com a queda dos preços do gás exportado da Bolívia. "O declínio no orçamento do Estado, mas também a corrupção, o nepotismo e um certo autoritarismo desviaram uma parte dos eleitores, além de uma base eleitoral que permanece em torno de 50%", estima Marc Hufty.
Ele continua: "A redução no orçamento das universidades, por exemplo, afetou diretamente a pequena classe média que finalmente teve acesso à educação. Foram os estudantes universitários que começaram a manifestar-se contra Morales, depois da sua contestada eleição para um quarto mandato."
O especialista também observa que a Central de Trabalhadores da Bolívia, o principal sindicato do país, também já havia se distanciado do presidente: "Falar de um golpe, como afirmam seus apoiadores, é um pouco exagerado."
Aumento da dependência de matérias-primas
Com a ascensão da China à proeminência econômica global, as necessidades de matéria-prima e os preços decolaram na virada do século. "Na década de 1980, a participação das exportações de matérias-primas na América Latina era de 27%, subindo para 40% em 2010. A Bolívia não é exceção a esse destino, e 60% de suas exportações são compostas por gás, minério e soja. A China também se tornou o seu principal parceiro econômico", salienta Marc Hufty.
A queda dos preços das commodities em meados da década foi ainda mais dolorosa na Bolívia que em outros países exportadores da região.
A Suíça pede o fim da violência e novas eleições. Numa declaração emitida em 11 de Novembro, o Ministério do Exterior suíço (DFAE) "pede a todas as partes para que renunciem à violência e à polícia que assegure que os direitos humanos sejam respeitados".
A renovação dos órgãos eleitorais, que desempenharam um papel importante nas irregularidadesLink externo observadas pela Organização dos Estados Americanos (OEALink externo), é um pré-requisito para a realização de eleições livres, justas e transparentes. O DFAE está pronta para facilitar a preparação de novas eleições."Aqui termina o infobox
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