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A Suíça tem um fiscalizador oficial de preços. Sua principal função é combater preços altos que prejudicam os consumidores. Quem é ele e onde ele vê potencial para economizar?
Stefan Meierhans recebe muitas mensagens. São aproximadamente 2.500 cartas ou e-mails por ano escrito por consumidores preocupados ou irritados. Ele já chegou até a receber fraldas.
Isso soa terrível, mas ele é bastante objetivo ao dizer que o órgão já "teve todo tipo de experiências". Por isso tive de confirmar: eram realmente fraldas sujas?
"Não. Nunca, graças a Deus", replica com um estranhamento, mas então rindo da ideia. Ele revela que, na realidade, as pessoas lhe enviam produtos comprados no exterior para mostrar a discrepância de preços - muitas vezes entre os mesmos produtos ou, pelo menos, com a mesma qualidade.
Ele começa então a explicar porque os produtos para incontinência são tão caros na Suíça. "Os regulamentos aqui são muito explícitos. Apenas lojas especializadas podem vendê-los. Assim a concorrência é restrita, o que explica os preços mais elevados", afirma Meierhans, acrescentando que se trata de um problema sistemático: a questão é saber o que as operadoras de planos de saúde irão reembolsar ou não.
No entanto, nos dez anos em que Meierhans dirige o órgão - um período que já supera o dos predecessores - ele viu uma queda significante de preços dos bens de consumo domésticos e importados, parcialmente graças à forte valorização do franco suíço em relação a outras moedas como o euro e o dólar.
Mas há muitas situações, onde os consumidores não encontram alternativas para preços elevados. Um exemplo: bilhetes de trem para o trajeto entre Zurique e Berna.
"Nossa Constituição afirma que quando existe uma dominância no mercado e que o preço não é o resultado de uma efetiva concorrência, o consumidor tem o direito de ser defendido", explica Meierhans. "Meu papel é de proteger o consumidor quando a competição não funciona."
O fiscalizador de preços
Esse órgão suíço, chamado de "Monsieur Prix" (Sr. Preços), foi criado em 1973. Ao assumir o cargo de direção em 2008, Stefan Meierhans se tornou o sétimo servidor no cargo e também o que está há mais tempo. É uma função única, não encontrada em outros países no mundo, com exceção da Itália. Lá foi criado também, há dez anos, a função de "Mister Prezzi". Outros países têm comissões de combate aos monopólios, cartéis ou proteção de consumidor.
O serviço suíço de fiscalização de preços monitora constantemente o desenvolvimento dos preços, com vistas a evitar abusos por parte de monopólios privados ou públicos. Ele entra em ação segundo suas próprias observações ou as do público em geral. O órgão tenta obter preços justos através de acordos mútuos. Se não obtém sucesso, tem o poder de promulgar uma diretiva que pode ser contestada no Tribunal Federal Administrativo.
Quando se trata de preços determinados pelo Estado, o fiscalizador suíço de preços tem o "direito dar uma recomendação". As autoridades necessitam consultá-lo antes de aumentar os preços e este pode sugerir alternativas para evitar uma alta exagerada de preços. Ao anunciar aumento de preços, as autoridades devem citar a recomendação do Monsieur Prix e explicar por que decidiram não o acompanhar.
Em 2017, Meierhans e sua equipe trataram de temas como despesas hospitalares, medicamentos genéricos, contas de água e esgoto, remoção de lixo e taxas de rádio e televisão.
Consumo
Apesar de não parecer uma torre de marfim, há muito branco no prédio da Secretaria de Estado para Educação, Pesquisa e InovaçãoLink externo. Ele abriga as dependências do Monsieur PrixLink externo, onde trabalho o fiscalizador de preços da Suíça e sua equipe de 17 funcionários.
Simpático e de bom papo, Meierhans, 49 anos, parece gostar de receber visitantes no seu escritório claro, dominado por uma gigantesca pintura abstrata em tons de verde, azul e vermelho. Ele nos serve água mineral suíça cintilante, que sai de uma garrafa com um relevo de cabrito-montês suíço.
Ao ser questionado sobre suas primeiras más lembranças como consumidor, se lembra da decepção que teve, ainda criança, ao perceber que a mesada não dava para comprar doces na vitrine. Durante seus estudos na Noruega, cansou de ser espoliado por uma lojinha local que funcionava 24 horas por dia.
Hoje em dia sua maior preocupação é com os preços dos produtos orgânicos na Suíça. "Tudo era orgânico décadas atrás. Hoje em dia eles são produtos de rótulo especial que custam um montão de dinheiro, muitas vezes de forma até abusiva. Mas enquanto houver demanda para esse tipo de produto, o mercado é que manda", ressalta Meierhans.
Quando sai para fazer compras, ou está no transporte público, muitas vezes as pessoas o reconhecem. Alguns até se aproximam para conversar. "As pessoas me falam para fazer atenção a esse ou outro preço, mas nada impressionante. De forma geral, os suíços são pessoas muito discretas". Cada uma das 2.500 cartas de até duas páginas enviadas pelos consumidores é respondida pelo órgão.
"Tentamos mostrar às pessoas que existem alternativas. Eu pergunto-lhes se há realmente concorrência no mercado e se elas tentaram alternativas. Nós realmente apoiamos os consumidores e os cidadãos."
Informando as decisões
Em setores da economia como saúde e transporte, Meierhans considera que existe uma falta de transparência que dificulta saber se os preços cobrados são corretos.
"Quando as pessoas não sabem quais alternativas têm, elas têm dificuldade para tomar decisões. Transparência é um ingrediente essencial para a concorrência no mercado. Para mim, essa é uma parte muito importante do meu trabalho: criar transparência onde ela não existe e dar aos consumidores acesso a essas informações."
Por exemplo, em fevereiro, ele publicou uma página na internet para ajudar os consumidores a compreender os custos dos 20 procedimentosLink externo mais comuns realizados nos hospitais suíços. Os consumidores podem selecionar os dados segundo localização e operadora de seguro de saúde.
Mesmo se uma pessoa normal pode não se interessar em compreender as diferenças dos tratamentos cobertos pelo seguro de saúde, Meierhans considera que o público deve estear ciente da variação de custos. Afinal é o contribuinte que financia todo o sistema.
Segundo o fiscalizador de preços, 13% do PIB suíço é gasto com saúde, sendo que os custos aumentando cinco vezes mais rápido do que os salários. "É como uma bomba-relógio. Em algum momento ela irá explodir se você não está por dentro desses custos."
Se o órgão que dirige não tem ainda competências para regular os preços dos tratamentos normais ou os adicionais, pelo menos suas recomendações têm peso. No ano passado, Meierhans fez parte de uma comissão que apresentou 38 propostas concretas para reduzir os gastos com a saúde.
"O governo decidirá nessa primavera quais dessas medidas deverão ser implementadas ou não. Eu espero evitar pelo menos um aumento substancial nesses custos."
Questão dos transportes
A redução dos preços no transporte público é um dos principais objetivos de Meierhans. Ele se considera insatisfeito com a distribuição do dinheiro gerado pela venda dos passes anuais da Companhia Suíça de Trens (SBB, na sigla em alemão). As despesas de manutenção das transportadoras ferroviárias aumentam, mas as empresas de ônibus se aproveitam dos preços baixos do diesel. O ideal é que as empresas prestadoras recebam uma fatia maior do faturamento gerado pelas tarifas, ou seja, melhorar a distribuição dos recursos.
Mas como descobrir?
"Novos sistemas estão sendo desenvolvidos com sistemas de navegação via GPS, emissão automática de bilhetes e celulares que calculam o preço do bilhete no final de um trajeto. "Isso virá, estou certo disso", afirma Meierhans.
Economizando dinheiro
Como qualquer um, o fiscalizador suíço de preços também gosta de barganhar quando viaja. "Fui convidado para participar de um casamento no sul da França nesse verão e consegui uma passagem aérea bastante barata", diz. "Os preços das tarifas aéreas são um mistério que ninguém entende, mas existe uma regra simples: compre o ticket com a maior antecedência possível". No seu caso, o bilhete foi comprado há nove meses.
Ele não se incomoda de juntar milhas aéreas e acumular também pontos no seu cartão de cliente da rede de supermercados Migros. Ao mesmo tempo, mantém apenas dois cartões de crédito, sendo que um foi oferecido gratuitamente pela mesma rede. "Tenho um outro cartão que costumo utilizar no exterior devido às melhores tarifas de câmbio. Assim não tenho as mesmas taxas cobradas no cartão de crédito doméstico", explica Meierhans, se apressando em oferecer mais conselhos.
"Você precisa observar atentamente o que está utilizando para não ter surpresas desagradáveis. Por exemplo, a taxa dos juros cobrada se você paga uma conta mais tarde. Às vezes você só tem 15 dias para pagar e então, a partir do 16º dia, já tem taxas de juros de 50%. Você precisa fazer atenção", alerta.
Cabelo e poupança
Ele fala do seu corte de cabelo, um tema que chega no final da entrevista no momento de fazer as fotos. "Deixe verificar meu corte, pois senão as pessoas podem até me enviar cartas reclamando", brinca, abrindo um armário que esconde um espelho no fundo. Nós concordamos que o estilo combina com ele. Afinal, seria muito enfadonho se todos os homens tivessem o mesmo corte.
Ele mantém a modéstia ao falar da sua contribuição em poupar o dinheiro dos consumidores na Suíça nessa última década. "Mantenho as estatísticas, mas normalmente não as público. Quando faço uma proposição ou sugestão para a revisão de uma lei, basicamente não tomo uma decisão, mas simplesmente dou recomendações", reforça Meierhans.
Concretamente, a atuação do órgão dirigido por ele é responsável por economias na ordem de até 300 milhões de francos por ano, especialmente em áreas de influência direta do órgão como o transporte público, serviços postais, serviços públicos e transporte de lixo.
Porém o fiscalizador de preços também ajudou a reduzir as tarifas hospitalares, mais exatamente conquistando uma queda de 10% em relação aos valores de 2012, quando um novo sistema entrou em vigor. Em números: um bilhão de francos por ano.
"Mas não posso creditar essa conquista somente ao meu trabalho. Eu contribuí em algumas milhões para essas economias, mas não fui o único responsável."
Então quem foi?
"Fiz sugestões ao ministro da Economia, mas ele não ficou tão feliz com elas", ri Meierhans cordialmente.
Adaptação: Alexander Thoele