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O teólogo suíço Hans Küng é um dos mais brilhantes intelectuais católicos de sua geração.
Em entretista a Jonathan Summerton, de swissinfo, ele defede a necessidade de uma ética global na economia e na política.
Swissinfo: O que é a ética global?
Hans Küng:
É menos uma ideologia do que e uma superstructure que algumas pessoas se impõem. De fato, a ética global é simplesmente o mínimo moral que uma família, uma comunidade ou uma nação precisa para poder viver em harmonia.
Ela surge de um consenso que reúne os princípios morais fundamentais que encontramos, aliás, em todas as grandes tradições religiosas ou pilosóficas da humanidade.
Tomemos como exemplo o preceito "não fazer ao outro o que você não gostaria que fizessem com você ». Ele aparece nos ensinamentos de Confúcio, no judaismo, no Sermão da Montanha e na tradição islâmica.
Portanto, a ética global também não é uma religião. Ela se aplica a todos os indivíduos que vivem em sociedade.
A transparência e a responsabilidade são termos que tornaram-se comuns em política e em economia. Isso não é um simples pretexto para acalmar as exigências do público e da mídia?
H. K.: Certamente que a transparencia é pequena. Quando examinamos os escândalos recentes em Wall Street e inclusive na Suíça, você percebe que eles revelaram não somente falta de transparência mas ainda mentiras, traições e roubos.
Eu acho que muita gente sabe atualmente que a economia precisa de uma certa moralidade e de uma ética para evitar desastres comerciais como o da companhia aérea Swissair, do banco Crédito Suíço ou outros casos em que a mentira e desonestidade foram flagrantes.
Como são raramente punidos, os que detém o poder político ou económico não tendem a continuar privilegiando seus próprios interesses?
H. K.: Os acontecimentos recentes demonstram que não é dessa maneira qu se faz política e economia de qualidade. Claro, o interesse econômico é legítimo mas normas éticas devem apoiá-lo.
Fazer negocios sem critérios éticos só é possível em período de forte especulação nas Bolsas. Mas, quando um certo ponto crítico é ultrapassado, como é o caso atualmente, a bolha explode.
Mesmo quando certas empresas tentam aplicar os princípios do desenvolvimento sustentável, os anti-mundialistas criticam a falta de transparência e de responsabilidade?
H. K.: Mesmo personalidades como o Dr. Horst Köhler, diretor do FMI, reconhecem qu a maioria dos anti-mundialistas denunciam abusos justificados.
Todo mundo reconhece que que a globalização tem seu lado bom. Mas também que provoca infelizmente ganhadores e perdedores.
Hoje, nós não podemos mais seguir cegamente os princípios econômicos sem considerar que países e mesmo continentes, como a África, fiquem para trás. É preciso encontrar um equilíbrio e não esquecer que o próprio capitalismo, no início, precisou de reformas.
A globalização é freqüentemente vista como um punhado de empresas que controlam o mundo inteiro. Elas devem ser filantrópicas a ajudar outros países?
H. K.: Claro que é benéfico que certos ricos sejam filantrópicos mas é claro que essa não é a única solução.
Hoje, para evitar a dependência das flutuações dos mercados, seria necessário elaborar uma estrutura financeira válida para o mundo inteiro.
Atualmente, quando um mercado interno sobe rapidamente ou quando ele enfrenta uma crise, todos os capitais saem do país. Sem uma regulação internacional, fundada em princípios éticos, o sistema vai inevitavelmente para uma catástrofe.
Se os diririgentes políticos e econômicos continarem passivos, teremos uma crise atrás da outra. A queda recente das bolsas mostrou claramente que vivemos num período de exuberância irracional. E, como sempre, a bolha acaba explodindo.
Temos que aprender e admitir que a estrutura da economia mundial não é satisfatória. No fundo, precisamos de novos acordos como os de Bretton Woods que, na época, contribuiram para estabilizar os mercados durantes duas ou três décadas.
Espero que não esperaremos por uma quebradeira geral, como a de 1929, por exemplo, para fazer as coisas avançarem.
swissinfo/Jonathan Summerton
O livro de Hans Küng "Uma ética global para a Política e Economia", de Hans Küng, traduzido em inglês, tem o título original "Weltethos für Weltpolitik und Weltweirtschaft", München, 1997.
Breves
- Hans Küng nasceu em 1928, em Sursee, cantão de Lucerna
- Estudou Filosofia e Teologia em Roma e Paris e foi ordenado padre em 1954
- De 1062 a 1965 foi consultor do Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII
- Foi o primeiro teólogo católico romano a rejeitar a doutrina da infalibilidade do Papa, em livro publicado em 1971
- Em 1979, o Vaticano retirou-lhe o direito de ensinar Teologia
- De 1960 a 1996, Küng foi professor de teologia ecuménica na universidade de Tübingen, Alemanha.
- É presidente da Fundação por uma Ética Global.