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Como se organiza um festival internacional de cinema? Quantos filmes o comitê de seleção tem de assistir para escolher os melhores? Quais sãos as novas tendências?
Para responder estas e outras perguntas, o repórter da swissinfo encontrou Paulo Roberto de Carvalho, membro do comitê de seleção e "olheiro" do festival.
O Festival Internacional de Filmes de Locarno terminou e a pequena cidade italiana volta ao seu ritmo normal. Para o repórter da swissinfo que esteve presente nas suas coletivas de imprensa, exibições de filmes e até um pouco na noite boêmia nos bares, em meio a jornalistas, atores e diretores, sobra a pergunta: como se organiza um evento cultural de tais dimensões.
Por sorte, a pergunta a esta questão pode ser dada por um brasileiro. Paulo Roberto de Carvalho é brasileiro e vive há quatorze anos em Tübingen, na Alemanha. No Festival de Locarno ele tem a importante função de correspondente para a América Latina, Espanha e Portugal e membro do comitê de seleção.
Quando começou seu envolvimento com o Festival Internacional de Cinema de Locarno?
Ele é bem longo. Há quinze anos que eu venho. No início era para ver filmes e fazer contatos para outros festivais nos quais eu trabalho. Uma vez, soube através de um amigo que a direção do festival de Locarno estava procurando alguém para ser correspondente da América Latina, Espanha. Eu mandei o material e eles acabaram me selecionando. Nos últimos cinco anos essa é a minha função no festival. E com a mudança da direção, que agora é feita por Frédéric Maire, eu também passei a fazer parte do comitê de seleção. A prioridade continua com essas regiões, mas agora eu também vejo outros filmes com os meus colegas do comitê.
Quantas pessoas que trabalham no comitê?
São oito pessoas, incluindo o diretor do festival. Nós selecionamos os filmes para as seções principais que são a 'Competição Internacional', 'Cineasta do Presente' e 'Aqui e alhures'. Além disso, também indicamos para a Piazza Grande (n.r: a praça principal de Locarno e cartão de visita para o festival) e para a seção 'Play Forward'.
Como é o trabalho de selecionar filmes para um festival conhecido? Quantos filmes vocês têm de assistir por ano?
(Risos)...é um trabalho constante. Mantemos contato permanente com institutos de cinema, produtores e diretores. Também pesquisamos na Internet, lendo sites especializados em cinema ou de jornais diários. Mesmo na América Latina você encontra esse espaço de informação. Muito do material que chega são pedidos oficiais do festival aos produtores e diretores, mas muita gente envia diretamente. No final de maio, quando temos o nosso "dead-line", o normal é já termos uns 1.500 DVDs para assistir. Outra forma de encontrar material é estar presente nos diversos festivais de cinema como em Berlim ou Cannes. Além disso, cada correspondente visita os festivais da sua própria área.
Então cada um de nós faz uma pré-seleção, que encaminhamos à direção do festival e aos colegas do comitê de seleção. Mas quando vou para Madri, posso também estar acompanhando o Frédéric Maire (diretor) ou o chefe de programação. Nesse caso já podemos tomar uma decisão em relação a uma determinada obra. Quando não temos certeza, encaminhos a proposta para o comitê. Por isso temos reuniões em que ficamos dias em Locarno só assistindo filmes. Dessa forma as decisões são tomadas pouco a pouco.
E quantos filmes uma só pessoa pode assistir a cada dia?
Isso pode ser de dez até vinte filmes. Às vezes não os vemos até o final, pois já temos um ou dois selecionados da região e o que você está vendo pode ser interessante, mas não está acima do que já foi escolhido. Outras, trata-se realmente de um filme que não interessa. O processo é muito dinâmico, pois tem muita coisa para ver e no final vai ficando seletivo.
Mudando um pouco de tema, quais seriam, na sua opinião, as tendências do cinema no Brasil?
No Brasil temos um leque muito grande de cineastas em várias tendências. Eu acho que este ano é um ano forte na ficção. Eu pessoalmente gosto muito do Cláudio Assis, que fez o "Amarelo Manga" e o "Baixio das Bestas". Este último era um filme que queríamos ter exibido em Locarno, mas acabou indo para outro festival. Eu também gosto muito do Beto Brant, um diretor que já tem quatro ou cinco filmes muito fortes. Tem alguns cineastas que já estão seguindo o caminho deles em nível internacional, como até mesmo em Hollywood, que é o caso do Fernando Meirelles. O Brasil também tem muito bons documentaristas e aqui nós tentamos dar espaço para eles. A maior parte dos cineastas que convidamos este ano já esteve aqui outras vezes. Outros estão indo para Veneza, mas já participaram de Locarno.
Parece que vocês queriam ter trazido o Júlio Bressane?
Sim, mas houve um problema, pois o Walter Carvalho (cineasta) fazia parte do corpo de jurados em 2007 e havia sido, ao mesmo tempo, o diretor de fotografia do seu último filme (n.r: "Filme de Amor"). O Bressane tem um filme autoral muito forte. Na minha opinião ele é um cineasta muito particular.
E quanto ao cinema português? Quem você destacaria?
O Pedro Costa. Ele participou da mostra competitiva com um projeto de três filmes que foram patrocinados ou co-produzidos pelo Festival de Jeonju (Coréia). Ele já ganhou vários prêmios internacionais, sendo que três apenas em Locarno. Ao mesmo tempo estamos vendo alguns novos cineastas, que não são tão conhecidos, para colocar na programação. Esta é a questão de Locarno: uma busca de novas formas de cinemas, de novos talentos e que não recebem a devida atenção de outros festivais..
Como o Festival de Locarno se posiciona em relação a outros festivais internacionais?
Com relação aos outros festivais é óbvio: você tem os grandes, que são Cannes, Berlim e Veneza. Depois desses três vem Locarno. Alguns chegam a dizer que o Festival de Locarno é o menor dos grandes festivais. Temos uma grande tradição é não é à toa que estamos completando sessenta anos. Nos últimos anos ele se modificou gradativamente. Hoje temos a Piazza, que é o coração pulsante do evento, onde colocamos todo o tipo de público como o turista, o comprador, o vendedor, o cinéfilo e até mesmo políticos
Como o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, que sentou na praça quando ainda estava no governo?
Sim, este é um exemplo. Essa é a programação mais difícil em Locarno. O que fizemos, e eu acho que foi muito importante, é ter uma linha muito clara para o festival. Nós estamos entre Veneza e Cannes e isso significa uma pressão muito grande para nós. Ao mesmo tempo, queremos fortalecer algumas seções e eu acho que com isso, no ano passado e neste ano, principalmente, nós tivemos muito menos problema em obter alguns filmes para cá. Aqui existe afinal muito mais espaço para o filme autoral, mais independente, do que em outros festivais maiores. Eles dão muitas vezes valor demais a nomes ou filmes de grande porte.
E o que o Festival de Locarno oferece que outros festivais não podem oferecer?
A estrutura dos festivais internacionais acaba coincidindo muito. São muitos, com datas muito próximas. Obviamente o produtor e distribuidor querem ver seus filmes nos melhores lugares. E muitas vezes, o melhor lugar não é grande festival, pois lá a obra pode sumir com muita facilidade. Isso ocorre quando não existe um forte aparato por trás. Locarno propõe isso. Muitos compradores que vêm aqui, sabem que tipo de filme lhe espera.
Quais são os planos para o futuro do Festival Internacional de Cinema de Locarno?
Existem alguns planos, mas em nível da presidência do festival, como construir um grande centro de convenções. Mas esse é um plano para os próximos anos e exige também o envolvimento do governo local. Seria um espaço para receber melhor os filmes e o público. Isso existe em Cannes, mas falta em muitos outros festivais. Locarno ainda não chegou ao topo. No momento trabalhamos muito dentro da programação, mantendo a estrutura das seções. O que queremos fazer é dar mais visibilidade aos filmes selecionados. Por isso reduzimos o número de filmes exibidos nas mostras competitivas em relação ao ano passado.
swissinfo, Alexander Thoele
Atividades
Paulo Roberto de Carvalho é brasileiro e vive há quatorze anos em Tübingen, na Alemanha.
Dentre suas diversas atividades, ele é diretor artístico do Festival do CineLatino, um festival de cinema dedicado a filmes da América Latina e organizado em diversas cidades no sul da Alemanha, e produtor de cinema (Cachoeira Films).
Ele também é correspondente do Festival Internacional de Cinema de Locarno para a América Latina, Espanha e Portugal e membro do comitê de seleção.