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Fritz Kolbe era funcionário da diplomacia de Adolf Hitler. Por detestar o nazismo, ele decidiu colaborar com os americanos e tornou-se o mais bem-sucedido espião da Segunda Guerra Mundial.
Sem nunca ter sido descoberto, Kolbe revelou segredos como planos de deportação de judeus italianos e a construção de foguetes.
Em 1943, a Segunda Guerra Mundial já havia transformado a Europa numa gigantesca linha de frente. Graças a neutralidade, a Suíça era um dos poucos países ainda poupado pela morte e destruição.
Nesse ano, em 19 de agosto, um funcionário subalterno do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha bateu nas portas da embaixada americana em Berna. Sua missão não era oficial. Ele já havia tentado falar com outros diplomatas ingleses, que o rechaçaram por acreditar estar falando com um impostor ou louco.
O alemão estava arriscando não só seu trabalho, mas também a própria vida. Apesar da sua aparência bucólica e tranqüila, a capital da Suíça vivia a atividade frenética e obscura de centenas de espiões. Nesse território neutro, serviços secretos aliados e inimigos espionavam-se um aos outros e competiam entre si para obter informações estratégicas para a guerra.
Nasce um espião
O diplomata americano que convidou Fritz Kolbe para conversar numa sala reservada era uma pessoa muito importante: Allan W. Dulles, oficialmente assistente pessoal do embaixador americano na Suíça e inoficialmente enviado especial do presidente americano para coordenar as atividades européias do Office of Strategic Services (OSS), o órgão predecessor da CIA.
Nesse dia, Kolbe revelou a Dulles que ele abominava o nacional-socialismo e que faria tudo para colaborar com a derrocada do regime de Adolf Hitler. Como chefe de gabinete de um importante embaixador no ministério das Relações Exteriores em Berlim, por sua mesa passavam importantes documentos como a correspondência do órgão com as forças armadas alemãs ou a SS.
Ele se oferecia para copiar e trazer os papéis escondidos na sua bagagem sempre que viesse à Berna em missão de correio.
Para Dulles, tratava-se de uma oportunidade única: até então, os serviços secretos aliados não haviam conseguido infiltrar nenhum espião no coração do Terceiro Reich.
Para convencer os americanos da sua sinceridade, Fritz Kolbe espalhou na mesa diversos documentos oficiais. Eles falavam sobre a moral das tropas nazistas, o sucesso da resistência na França ou continham descrições detalhadas do quartel-general secreto de Hitler na Prússia Oriental. Uma das folhas era o protocolo do encontro entre o ministro alemão das Relações Exteriores Joachim von Ribbentrop e o embaixador japonês em Berlim.
Fritz Kolbe, aos 43 anos de idade, se tornava a partir desse momento o espião que seria um dos mais bem sucedidos da Segunda Guerra Mundial. Seu codinome: "George Wood".
Deportação e fuzilamento
Até o final da guerra, Kolbe entregou viajou seis vezes à Berna. Quando não podia vir pessoalmente, ele enviava o material secreto através de um sistema clandestino de correio montado com alguns amigos da resistência. No total, 1.600 mil documentos foram entregues aos americanos. Alguns deles eram tão sensíveis, que iam direto para as mãos do presidente americano Delano Roosevelt. Este nunca soube o verdadeiro nome do agente secreto.
O papel de Kolbe foi de vital importância para os Aliados. Através dos documentos foi possível descobrir, dentre outros, os planos alemães de deportação dos judeus de Roma para campos de concentração, a ordem pessoal dada pelo general alemão Wilhelm Keitel de fuzilar todos os oficiais italianos que debandassem para o lado dos Aliados e o desenvolvimento de armas secretas como os foguetes V1 e V2. Kolbe também deu indicações para as fábricas onde elas eram desenvolvidas, permitindo que fossem bombardeadas pelos aviões aliados.
Mesmo o antigo diretor da CIA, Richard Helms, lembra na sua biografia, publicada em 2003: - "As informações de Kolbe foram as melhores que um agente aliado conseguiu obter durante toda a Segunda Guerra Mundial".
Reportagem continua na segunda parte
Depois da guerra, Fritz Kolbe desejava ser reintegrado no serviço diplomático da recém-criada República Federal da Alemanha. Porém muitos dos seus colegas, ex-nazistas de carteira, o acusavam de traição.
Na Suíça ele reconstruiu sua vida como representante comercial e morreu esquecido em 1971. No seu enterro, a CIA envia flores.
O jornalistas francês Lucas Delattre, ex-correspondente do "Le Monde" na Alemanha e autor de uma biografia sobre Fritz Kolbe publicada em 2003, ressalta que o alemão nunca recebeu dinheiro pelas informações fornecidas. Ela teria se tornado um espião movido unicamente pela aversão extrema ao nazismo.
Fritz Kolbe entrou em 1925 para o serviço diplomático e mesmo depois da tomada de poder pelos nazistas em 1933, nunca se filiou no Partido Nacional-Socialista, ao contrário do que ocorreu com a maior parte dos diplomatas no ministério das Relações Exteriores alemão.
"Ele se considerava um democrata e queria que a Alemanha fosse liberada pelos Aliados, com medo de que ela caísse em outra ditadura através da ocupação pelas tropas comunistas".
Em 4 de abril de 1945, Fritz Kolbe realizou sua última missão de espionagem. Em meio aos combates ferrenhos conduzidos nas ruas de Berlim, ele atravessou todo o país num veículo diplomático até conseguir chegar na Suíça. Kolbe havia sido enviado por Allan Dulles para convencer o embaixador alemão Otto Köcher em Berna a revelar onde estava o ouro desaparecido do Terceiro Reich e impedir a destruição dos arquivos.
O embaixador recusou a proposta de Kolbe e o rechaçou. Depois da guerra o diplomata foi deportado para uma prisão americana na Alsácia, onde alguns meses depois se suicidou. Essa tragédia pessoal terminou selando o destino de Fritz Kolbe na Alemanha do pós-guerra.
Traidor culpado por mortes de alemães
Entre 1945 e 1948, Fritz Kolbe cooperou com as tropas de ocupação dos EUA, atuando como auxiliar no setor de imprensa, tradutor ou motorista. Além disso, ele ajudou nos preparativos do Tribunal de Nuremberg, que julgou criminosos de guerra nazistas entre 1946 e 1949
Depois de estadias na Suíça e nos Estados Unidos, Kolbe retornou a Alemanha em 1950. Ele desejava ser readmitido no novo ministério das Relações Exteriores, que estava foi criado depois da fundação da República Federal da Alemanha em 1949.
Porém, apesar do apoio direto de Allan Dulles, que havia se tornado o criador e primeiro diretor da CIA (Central Intelligence Agency), e das intervenções do governo americano frente ao chanceler Konrad Adenauer, o governo alemão se recusou veementemente a readmitir Fritz Kolbe nos seus quadros. Muitos dos seus funcionários haviam sido membros do Partido Nacional-Socialista. Eles acusavam o ex-espião pela morte de centenas de soldados alemães, assim como de civis, através das informações sensíveis fornecidas aos Aliados.
Flores da CIA
Frustrado, Kolbe voltou para a Suíça. A partir de 1953 ele se tornou representante europeu de um fabricante americano de serras elétricas. Até 1971 ele viveu com sua esposa tranqüilamente em Berna, quando faleceu. No seu enterro participaram não mais do que dez pessoas. Nesse dia dois senhores discretos apareceram e depositaram uma coroa de flores em nome...da CIA.
As lembranças do ex-espião teriam desaparecido para sempre na história, se não fosse uma reportagem de dois jornalistas alemães publicada em 2000 na revista “Der Spiegel”. Os dois autores haviam pesquisado na Biblioteca do Congresso, cujos arquivos secretos do tempo da Segunda Guerra Mundial haviam sido liberados para pesquisa pública no mesmo ano. Em 2003 foi publicada uma biografia em forma de romance sobre o espião.
Quase 60 anos se passaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até que o governo alemão resolvesse reabilitar Fritz Kolbe. Em 27 de setembro de 2004, o ministro das Relações Exteriores Joschka Fischer homenageou-o durante uma cerimônia realizada para um grande número de diplomatas, embaixadores, jornalistas e funcionários. Além de lembrar aos presentes que Kolbe havia arriscado sua vida no combate ao nazismo, ao contrário de muitos dos seus colegas na época, o ministro alemão batizou uma sala nobre com o nome do ex-espião.
Túmulo desapareceu
O atual embaixador alemão Frank Elbe até queria depositar flores no túmulo de Kolbe. Ele havia sido enterrado no cemitério de Schosshalden, não muito distante da sua antiga moradia em Berna. Porém em 1991 o túmulo e os restos mortais de Kolbe foi removido. Sem parentes na Suíça, ninguém havia pago para a permanência da lápide por um prazo maior do que vinte anos.
Os funcionários da embaixada não encontraram mais nenhuma pista do ex-espião. Como na vida, como na morte.
swissinfo, Alexander Thoele