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Há apenas dez anos, estávamos celebrando a mídia social como uma força libertadora durante a primavera árabe. Agora, a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU está alertando sobre a disseminação do discurso de ódio pela internet.Este conteúdo foi publicado em 16. março 2021 - 15:30
A última vez que visitei a Escócia (ah, aqueles dias distantes em que podíamos viajar!), encontrei uma amiga que me perguntou animadamente se eu tinha visto "as últimas notícias". Eu não tinha certeza do que ela queria dizer. "O que aconteceu aqui, ontem à noite," ela continuou. Fiquei ainda mais curiosa. Não tinha ouvido nada na rádio local, não tinha lido nada em meus sites de notícias favoritos.
Então, qual foi a história? Alguém da comunidade foi visto e filmado em um belo local ribeirinho fazendo algo que não deveria com o parceiro de outra pessoa. O voyeur postou as fotos nas redes sociais, um pequeno jornal local pegou as imagens e republicou-as, é claro, em sua própria página do Facebook. Foi aquilo que minha amiga viu. Ela me contou a história porque sou jornalista e ela achou que eu estaria interessada nas últimas notícias. Minha reação automática foi dizer a ela que o Facebook não era uma fonte confiável de notícias e que, de qualquer maneira, a história não era realmente uma notícia.
Mas essa conversa me fez pensar sobre as big techs, as redes sociais e suas consequências para os direitos humanos e a democracia.
Nossa euforia inicial com a mídia social azedou. A atitude do Facebook em bloquear páginas de notícias na Austrália foi uma percepção chocante de quão poderosas essas plataformas de compartilhamento de informações se tornaram. O retumbante “não” de domingo retrasado à identidade eletrônica na Suíça mostra que os eleitores estão preocupados em como compartilhar seus dados, quem possui as informações e o que fazem com elas.
Sendo jornalista, penso naturalmente nos riscos para a minha profissão. Os comentários de minha amiga escocesa são prova de como as linhas são confusas entre o jornalismo real (o tipo em que verificamos os fatos, obtemos os dois lados da história e protegemos a privacidade quando necessário) e o tsunami de informações e entretenimento não verificado que aparece na rede. Mas os meios de comunicação foram pegos naquela euforia com as novas plataformas de informação - ‘são novas maneiras de divulgar nossas histórias’, pensamos. Logo percebemos que era mais uma questão de "se não podemos vencê-los, juntemo-nos a eles" ... ou melhor, já que não podemos vencê-los, deixemos eles ter nosso jornalismo de graça.
A consequência para nós? Receita de publicidade para jornais e emissoras tradicionais encolhendo a quase nada, cortes de empregos violentos entre jornalistas profissionais e insultos como "mídia" culpada de "notícias falsas".
Existem outras consequências, possivelmente ainda mais sérias. Regimes inescrupulosos usam as redes sociais para promover suas agendas - elas podem ser discriminatórias e até violentas. O Facebook bloqueou tardiamente os militares de Myanmar de usar a rede - mas eles espalharam o ódio contra as minorias étnicas de Myanmar desde pelo menos 2017. Percorremos um longo caminho desde a Primavera Árabe, quando a mídia social foi elogiada por apoiar levantes contra regimes corruptos.
Talvez devêssemos ter previsto - mas quem previu? Os monstros da mídia social de hoje foram incubados há mais de 20 anos por um punhado de pessoas na Califórnia. Talvez eles já tivessem planejando os algoritmos, a coleta de dados, o surpreendente alcance global que teriam em praticamente todas as casas do planeta. Mas o resto de nós? Os smartphones nem existiam naquela época.
Então, há algo que Genebra possa fazer sobre isso? De acordo com Scott Campbell, dos Direitos Humanos da ONU, sim. Na verdade, as coisas já estão sendo feitas. Alguns anos atrás, Scott me disse que um telefonema entre a ONU e os gigantes da mídia social seria algo raro - agora, aparentemente, há uma nova disposição para conversar.
A professora Shalini Randeria, especialista em democracia no Graduate Institute Geneva, concorda que devemos pensar agora como entendemos o verdadeiro potencial das big tech. Mas teremos que agir com cuidado - se não se pode confiar nas grandes tecnologias para se auto regularem, quem poderá regulá-las? Governos? Mas e os regimes autoritários? Não é surpresa que esses governos estejam entre os que mais clamam por controle - o que quer dizer, no fundo, o controle de si mesmos e de suas agendas.
Imogen Foulkes anima o podcast "Inside GenevaLink externo" na página em inglês de SWI swissinfo.ch
Adaptação: Clarissa Levy
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