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Mathieu Jaton conhece a fundo os mecanismos do Festival de Jazz de Montreux. Como diretor, ele não apenas pode e quer deixar a sua própria marca, mas também manter o espírito original do renomado evento cultural, como explica o sucessor do fundador Claude Nobs.
Mathieu Jaton tinha 18 anos quando Claude Nobs o contratou como auxiliar. Em 1999, logo depois de concluir a Escola de Hotelaria de Lausanne, Jaton se tornou responsável pelo marketing e patrocínio. Em 2001 ele foi promovido a secretário-geral e, há poucos anos, encarregado por Nobs para assumir a direção operativa do evento.
Claude Nobs, que fundou o festival em 1967 e o transformou no passar dos anos em um evento de amplitude internacional, foi até a sua morte em janeiro o principal responsável.
Hoje Jaton tem 38 anos e dirige uma verdadeira empresa com 25 funcionários em tempo integral, que cresce no período do festival em mais de mil funcionários e voluntários. O orçamento anual é de 25 milhões de francos.
Improvisação e espontaneidade
Lidar com Nobs como chefe não era fácil. Ele exigia lealdade absoluta, como contam muitos dos seus antigos funcionários. O fato de "Montreux" ser conhecida hoje em metrópoles como Nova Iorque, Tóquio ou Berlim deve-se ao festival de jazz e não ao tranquilo vilarejo às margens do lago de Genebra, e ao trabalho de Claude Nobs.
Mathieu Jaton, uma pessoa organizada e pragmática, vê despreocupado a sua tarefa de continuar com a obra da vida do seu mentor carismático. "Desenvolver uma assinatura própria, seja de Jaton ou Nobs, é extremamente difícil", responde ele à questão em que direção musical pretende posicionar o festival no futuro. "A assinatura 'Montreux' defendida por mim se chama qualidade. Temos de oferecer as melhores condições para os artistas, o que faz com que artistas como David Bowie deem quatro horas adicionais de concerto do que o normal. A cultura de Montreux é o inesperado, a improvisação ou os momentos espontâneos de encontro, as jam-sessions."
48 concertos
Jaton não gosta de floreios para falar da direção artística do festival. "Nós vemos quem está disponível e o que combina com Montreux. As mídias veem na nossa programação conceitos e estratégias. Porém nós não estamos de forma alguma em um mundo desses."
A posição pragmática tem suas razões: o festival mantém durante os 16 dias de duração três grandes salas de concertos têm programação com marcantes diferenças de estilo. O resultado são 48 diferentes concertos, dos quais todos precisam ter os ingressos vendidos.
Assim Montreux apresenta condições diferentes da maior parte dos festivais europeus, que geralmente são organizados em áreas abertas, com uma menor duração e apresentações de uma a duas estrelas por dia e menos grupos conhecidos. "Nos chamados open-airs, o público compra um ambiente. No nosso festival ele compra o concerto de um artista", define Jaton.
Volta às raízes
Basicamente o Festival de Jazz de Montreux de 2013 é composto por três programas em três diferentes salas de apresentação, junto com os concertos gratuitos a céu aberto. Na grande sala apresentam-se as estrelas. Na média, o "Montreux Jazz Lab", tocam os novos talentos de música eletrônica, pop e rock. E, finalmente, a pequena sala "Jazz Club", com apenas 350 lugares, é reservada a músicos de jazz ou de blues.
Até então, as estrelas do Festival de Montreux se apresentavam em duas salas com a mesma importância (Stravinsky Hall e Miles Davies Hall), sendo que a "Lab" era para os novos talentos. Com a edição de 2013, a sala Miles Davies Hall foi dividida e mudou de nome.
Com o pequeno "Jazz Club", o festival volta às suas raízes do jazz. Ao mesmo tempo a pressão de encher diariamente duas grandes salas diminuiu. "O Jazz Club foi minha ideia. Eu combinei a mudança com o Claude e a decisão acabou sendo conjunta", conta Jaton. "Assim temos uma maior flexibilidade para apresentar músicos jovens ou pouco conhecidos. Eles acabavam não tendo o destaque que mereciam nas grandes salas."
Assim apresentam-se neste ano no "club" estrelas como George Benson, David Sanborn ou Charles Lloyd, que em 1967 participou da primeira edição do festival, juntamente com um pianista chamado Keith Jarrett, que na época tinha apenas 22 anos.
O fato de muitos músicos virem há décadas com regularidade à Montreux "não foi um conceito", como ressalta Jaton. "É claro: os conceitos se limitam aos músicos que estão em turnê. Você não pode programar um artista que não está em turnê. Eu não posso dizer, por exemplo, que teremos o Herbie Hancock ou o David Bowie se eles não estiverem viajando."
Legado
A coleção de áudios e vídeos do Festival de Jazz de Montreux - também conhecida por "The Claude Nobs Legacy" - se tornou parte do patrimônio documental da UNESCO.
E a segunda contribuição suíça à lista depois dos manuscritos de Jean-Jacques Rousseau.
A herança de Claude Nobs totaliza dez mil rolos com mais de cinco mil horas de gravação de concertos, ocorridos desde a fundação do festival em 1967.
Dentre elas encontram-se gravações raras como a última apresentação de Miles Davis em 1991. Claude Nobs entregou às fitas ainda em vida para a UNESCO.
Junto ao legado de Montreux foram sugeridos em 2013 o famoso disco de Nebra, os escritos de e sobre Che Guevara e uma coleção de depoimentos de sobreviventes do Holocausto de Yad Vashem.
Membros da UNESCO podem apresentar a cada dois anos propostas para inclusão na lista de "Memória da Humanidade". Hoje ela possui 299 registros.Aqui termina o infobox
Prince queria todos os três
Há muitos anos, Montreux emprega seis programadores. Claude Nobs era responsável pelos projetos especiais, a coordenação e a visão geral. Agora Mathieu Jaton tomou o seu lugar. "O mais importante é não termos três grupos do mesmo estilo na mesma noite nas três diferentes salas. Isso iria acabar canibalizando o público. Adicionalmente cada um dos programas noturnos precisa ter uma coerência, uma história como, por exemplo, o concerto com Bobby Womack e Wyclef Jean. São duas gerações da música negra que estarão no palco em sequencia."
Antigamente Montreux era o maior festival de verão da Suíça. Hoje o país tem mais de 400, todos concorrendo pelo público e atrações. Graças à sua fama mundial, o festival às margens do lago de Genebra tem a vantagem de ter muitos músicos que querem se apresentar nos seus palcos quando estão em turnê. Assim Jaton recebeu já em fevereiro um telefonema do empresário do músico norte-americano Prince. "Nós sugerimos três possíveis datas. Ele logo respondeu que gostaria de todas as três."
Os ingressos para os três concertos do artista já estão esgotados há muitas semanas. O mesmo vale para a grande parte dos outros concertos do festival. Raramente as vendas foram tão boas como neste ano. Assim Jaton considera ter entrado com o "pé direito" como sucessor de Claude Nobs.
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch