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Nascido na Rússia em 1814, Bakunin foi o revolucionário anarquista que participou de quase todas as revoltas populares na Europa do século XIX.Este conteúdo foi publicado em 27. novembro 2003 - 18:29
Na Suíça, Bakunin organizou movimentos internacionais de trabalhadores em Genebra, pregou a anarquia entre os relojoeiros do Jura, publicou seus livros em Zurique e terminou morrendo em Berna.
O anarquista russo Michail Bakunin foi, junto com Karl Marx, uma dos mais influentes personagens do movimento internacional de trabalhadores no século XIX. Ele defendia o conceito de uma sociedade sem classes e sem governo. "Persona non grata" para os comunistas, Bakunin achava que o Estado socialista seria a continuação da opressão do operariado e camponeses com um outro nome.
De família aristocrática, Michail Alexandrovic Bakunin nasceu em 30 de maio de 1814 em Prjamuchino, na Rússia.
Como era comum para as elites da época, Bakunin entrou para o exército em 1829, onde chegou a alcançar o oficialato. Por detestar a disciplina militar, em 1835 ele trocou a farda e as armas pelos livros e foi estudar em Moscou e São Petersburgo. Na época, seu leitura preferida eram os textos dos filósofos alemães Kant e Fichte. Em 1836, Bakunin começou sua carreira de escritor ao traduzir alguns textos de Fichte para o russo.
Até 1839, Bakunin brilhava nos salões estudantis como um excelente debatedor dos textos do pensador alemão Hegel. Se sua família acreditava que ele faria carreira na universidade, a realidade é que o jovem estudante preferia passar seu tempo debatendo com os agitadores políticos Alexander Herzen e Nicholas Ogarev. "Eles abriram meus olhos para o mundo de pobreza e desigualdade na Rússia do Tzar".
Exílio
Bakunin abandonou a Rússia em 1840. Com 26 anos, ele partiu para Berlim, onde iniciou então sua longa carreira de estrangeiro errante. Na capital alemã, o jovem russo teve contato, sobretudo, com os hegelianos de esquerda. Suas primeiras impressões aparecem do texto “Reação na Alemanha”, publicado em 1842 sob um pseudônimo. Essa publicação marcava, pela primeira vez, a oposição dos intelectuais russos contra o sistema de governo absolutista do Tzar. Nesse momento ele fechava as portas de um possível futuro na Rússia.
Em Dresden, onde ele contribuiu para a famosa revista esquerdista de filosofia e política hegeliana “Deutsche Jahrbücher” de Arnold Ruges. Em 1843, Bakunin teve sua primeira estadia na Suíça, onde ele encontrou radicais poloneses, russos e alemães e estudou as teorias do comunismo.
Em 1844, Bakunin se mudou para Paris, onde durante três anos fez sua formação na chamada “escola revolucionária”, ou seja, através dos intensivos contatos com pessoas como Pierre-Joseph Proudhon, Alexander Herzen e Karl Marx. Na Rússia, o governo do Tzar decidiu condená-lo à revelia: Bakunin teve suas propriedades confiscadas e, caso pisasse solo russo, seria banido para a Sibéria. No final de 1847, Bakunin foi expulso da França por ter publicado declarações pouco elogiosas ao Tzar.
Apesar da estar na ilegalidade, Bakunin ainda participou no início de 1848 – o ano do Manifesto Comunista - das revoltas populares em Paris, onde ele defende a estabilização e expansão da revolução mundial, assim como pela criação de uma associação internacional das forças democráticas. Bakunin exigia a dissolução das diferenças de classes sociais através de um sistema de coletivização da propriedade, da criação de um salário de base e da extinção do absolutismo.
Banido para a Sibéria
Depois ter conflitos pessoais com os líderes da revolução popular na França, o revolucionário russo viajou em abril de 1848 para a Alemanha, onde fez contato com democratas radicais em várias cidades. Depois de uma curta estadia em Praga, Bakunin encontrou os líderes das revoltas em Leipzig e Dresden. Nesse período inicio seu contato com o compositor Richard Wagner.
Com a derrota dos revoltosos, Bakunin acabou indo para prisão em 1849. Um ano depois, ele foi condenado à morte, pena depois comutada para a prisão perpétua. Depois de passar alguns anos nas cadeias germânicas, ele foi deportado para a Rússia, onde o Tzar ainda não havia se esquecido do passado agitado do seu súdito. Em 1957 ele foi banido para os longínquos campos de trabalho forçado na Sibéria.
Quase quatro anos depois, já em 1861, Bakunin conseguiu fugir da prisão. A viagem para a liberdade foi uma odisséia que o levou atravessar o Japão, Estados Unidos, até chegar em Londres.
Na capital inglesa ele retomou suas energias para organizar a libertação dos países eslavos, uma das suas bandeiras na época. Nesse sentido, ele montou um exército de combatentes voluntários, que se dispunham a ir para a Polônia ajudar no movimento popular de independência. A viagem foi mal planejada e terminou fracassando no meio do caminho. Bakunin acabou na Suécia e, na pobre Polônia, as tropas do Tzar russo massacram os revoltosos.
Nasce o anarquista
Depois Bakunin foi à Itália tentar a sua sorte de revolucionário. Nessa fase ele dividiu seu tempo entre duas cidades: Florença (1864) e Nápoles (1865-1867). Esse período marcou uma grande reviravolta na vida de Bakunin.
Pela primeira vez ele se declarava abertamente “um anarquista”. Bakunin começava a colocar suas idéias no papel, fundava clubes secretos – as “Irmandades Internacionais” e se envolveu até com revolucionários russos como o estudante Netschajew, com quem teria escrito em conjunto os panfletos “Palavras à juventude – princípios da revolução” e “Catecismo do Revolucionário”, obras de frieza maquiavélica, onde todos os meios se justificam para se realizar a revolução.
Em 1868, Bakunin trocou mais uma vez de país. Novo destino: Suíça. Em Genebra, ele participou do congresso de fundação da Liga Internacional pela Paz e Liberdade. O objetivo da Liga era possibilitar a democratas e radicais de toda a Europa a trabalharem uma plataforma política comum. No segundo congresso, Bakunin teve todas suas propostas recusadas, o que o levou a abandonar a Liga, juntamente com mais 17 membros do seu grupo.
Um revolucionário não pára. Bakunin e seus amigos entraram logo depois na Associação Internacional dos Trabalhadores, que havia sido fundada quatro anos antes e é mais conhecida como “a Primeira Internacional”. Seu membro mais destacado era, nada mais nada menos, do que Karl Marx. Para aproveitar seu tempo na Suíça, Bakunin viajava também pelos vales do Jura, onde dava palestras nas associações anarquistas de relojoeiros.
Entre 1870 e 1871, logo após a guerra franco-alemã e a invasão por tropas prussianas, eclodiram diversas revoltas populares na França. Em Paris os revoltosos criaram a famosa “Comuna”. Talvez acreditando que sua hora tivesse chegado, Bakunin viajou para Lyon, onde ele intentava participar do levante popular. A repressão policial foi forte e acabou conseguindo massacrar o movimento. Por fim, o revolucionário russo foi obrigado a retornar a Locarno.
Os estudiosos afirmam que, durante o período passado na Suíça, Bakunin escreveu grande parte das suas obras.
Bakunin versus Marx
Do seu escritório no conselho geral da Internacional em Londres, Karl Marx observava os movimentos do inquieto russo. Nas suas cartas, o teórico alemão descrevia Bakunin como um “intrigante” ou “esse maldito moscovita”. Na queda de braço entre socialistas libertários e comunistas autoritários, dentro do movimento internacional dos trabalhadores, Marx terminou vencendo e conseguiu expulsar o grupo ligado a Bakunin e outros que criticavam o conceito da “ditadura do proletariado”. Esse momento, ocorrido em 1872, é a cisão histórica entre comunistas, sociais-democratas e anarquistas.
Apesar de estar cansado e empobrecido, Bakunin ainda circulava nos salões freqüentados pela colônia russa. Com alguns desses intelectuais e estudantes, o anarquista-mor chegou a fundar em 1873 uma editora, onde grande parte dos seus livros foi publicada como o “O Status de um Estado e a Anarquia” (Staatlichkeit und Anarchie).
Como último suspiro no seu espírito revolucionário, Bakunin ainda participou em 1874, com amigos italianos, de uma tentativa de revolta em Bologna. Depois ele voltou a Lugano, na Suíça, onde termina passando seus dois últimos anos de vida. O tempo passado em prisões, na militância política e no exílio cobravam seu preço. Doente, Bakunin foi levado por um amigo médico para ser tratado em Berna. Na capital suíça, o revolucionário russo faleceu em primeiro de julho de 1876, sendo enterrado no cemitério de “Bremgarten”.
swissinfo, Alexander Thoele
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