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Refugiado em Buenos Aires, o ex-presidente da Bolívia Evo Morales mantém uma agenda política intensa, recebendo visitas de seu país e apoiadores argentinos, enquanto prepara uma grande convocação partidária para meados de janeiro, que irá eleger o candidato à presidência para as eleições de 2020.
Durante entrevista exclusiva à AFP em um escritório emprestado no bairro de San Telmo, Morales lamentou o giro na política regional promovido pelo governo interino de Jeanine Añez, que considera "de facto", e rejeitou a entrada de seu país no Grupo de Lima - por considerá-la "um retorno ao passado" - e a perda de identidade boliviana.
Pergunta: Como está vivendo esta fase política em Buenos Aires, onde se refugiou após a posse do presidente Alberto Fernández, em 10 de dezembro? Está em campanha?
Resposta: Estamos organizando reuniões, temos visitas. No próximo domingo, haverá uma assembleia em Buenos Aires, de onde iremos emitir uma convocação para eleger o candidato a presidente. A convocação calculo que será em 15 de janeiro. Será na Bolívia ou Argentina, vai ser um grande encontro. Na fronteira, há mais facilidades, mas também há uma questão de segurança.
P: Acredita que se o MAS vencer será respeitado o resultado das próximas eleições convocadas na Bolívia, ainda sem data?
R: Tem que haver uma missão internacional, órgãos internacionais, como o Centro Carter, um conselho de prêmios Nobel da Paz, o Papa Francisco, as Nações Unidas ou algum notável do mundo. Apesar de tanta difamação e perseguição, e ainda sem candidato, continuamos em primeiro nas pesquisas da direita, surpreende. Se o MAS vencer, terão que respeitar o reultado. Nós iremos respeitar.
P: Um mês e meio após a sua renúncia, e com tudo o que passou desde então, revê a decisão de ter se candidatado?
R: Ganhamos no primeiro turno, inclusive com a auditoria da Organização de Estados Americanos (OEA), os técnicos que estudaram o último relatório, onde observam 226 atas. Se esses votos tivessem ido para a direita, também teríamos ganho no primeiro turno. Grupos de estudiosos dos Estados Unidos, 98 personalidades de várias universidades do mundo pedem que a OEA se retrate e que seja investigada. Então não foi nenhum fracasso nossa participação. Mas com antecipação havia sido preparado um golpe de Estado.
P: Você diz que foi vítima de um golpe de Estado. A que o atribui?
R: Um golpe de Estado nacional e internacional. Fundamentalmente, foi um golpe contra duas coisas: que possamos ser uma alternativa, uma referência, libertando-nos das imposições do governo dos Estados Unidos. Os países industrializados não querem concorrência. Começamos a substituição das importações. E estou convencidíssimo de que é um golpe contra o lítio. Começamos a industrialização do lítio como Estado. Como um pequeno país de 10 milhões de habitantes, em pouco tempo ia definir o preço do lítio. Sabe-se que temos a maior reserva do mundo, com 16.000 km² de lítio.
P: O governo de Jeanine Añez decidiu que a Bolívia fosse incorporada ao Grupo de Lima.
R: Estar no Grupo de Lima é como estar na Área de Livre-Comércio das Américas (Alca), é estar submetido às políticas dos Estados Unidos, portanto, do FMI. É voltar ao passado na Bolívia, é perder nossa soberania e independência do Estado e perder a dignidade e identidade do povo boliviano. A região está em luta. Entendo que os Estados Unidos nos dividem e Luis Almagro e seu grupo de avaliadores são o melhor instrumento de dominação da América Latina e o Caribe. Ele merece um processo por ser responsável por tantos massacres e mortos na Bolívia.
P: O México protestou ontem ao denunciar que sua embaixada em La Paz está cercada por uma "presença excessiva" de agentes de segurança.
R: Isso é pior do que na ditadura militar, quando, pelo menos, havia salvo-condutos e respeito às embaixadas. Nosso protesto enérgico contra a forma de planejar a intervenção ou o amedrontamento, perseguição, cerco militar e paramilitar. Usar drones sobre a embaixada do México é uma agressão à diplomacia. (ndr: após o protesto, a vigilância foi relaxada nesta terça-feira)
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