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Médicos da Nicarágua demitidos por críticas à gestão da pandemia continuam na linha de frente
Desempregados e abalados emocionalmente, os médicos nicaraguenses demitidos do sistema público de saúde por exigir equipamentos de segurança e criticar a gestão da pandemia pelo governo do presidente Daniel Ortega continuam na linha de frente contra a COVID-19.
"Transformei a sala da minha casa em consultório, o custo da consulta vai de acordo com as possibilidades das pessoas, às vezes não cobro", disse à AFP Gustavo Méndez, médico de 61 anos.
"Os pacientes com COVID-19 eu atendo por telefone, de acordo com os protocolos estabelecidos para cada fase da doença", explicou. Seu serviço "não inclui tratamento ou exames de alto custo, que devem ser cobertos pelo paciente", explicou Méndez, com mais de 30 anos de experiência.
"Recuperei três pacientes com coronavírus, dois com 40 anos e um com 83 anos", diz o médico com orgulho, que se especializou em oncologia pediátrica na Espanha e na Itália.
Méndez é um dos mais de 15 médicos demitidos do sistema público de saúde, depois de apoiar uma carta de denúncia assinada por cerca de 30 associações reclamando da falta de equipamentos de proteção nos hospitais, e outra na qual recomendavam medidas de contenção, incluindo quarentena.
A demissão de médicos está no centro da polêmica em meio à expansão da COVID-19, em um país de 6,2 milhões de habitantes, com um sistema de saúde cujos hospitais, segundo associações médicas, estão "em colapso" e não possuem medicamentos e produtos essenciais para lidar com o vírus.
Além disso, denunciam que dezenas de médicos e profissionais da saúde foram infectados com o coronavírus, com um saldo significativo de médicos, enfermeiros e técnicos falecidos.
A categoria foi abalada pela morte de integrantes renomados devido ao coronavírus, incluindo dois médicos da mesma família na cidade de León (oeste), que foram infectados ao cuidar de pacientes em casa.
As medidas do governo para conter o vírus são "fracas", segundo Méndez. "Não fornecem dados reais sobre a pandemia e os médicos são proibidos de colocar a COVID-19 nos atestados de óbito; devem colocar pneumonia atípica ou qualquer outra causa", acrescentou.
- Medicina online -
Nesta semana, o ministério da Saúde registrou 2.519 infecções e 83 mortes; enquanto o Observatório Cidadão, uma rede de médicos e outros membros da sociedade civil, registra até 24 de junho 6.775 casos e 1.878 mortes suspeitas ou associadas à pandemia.
A demissão do hospital onde Méndez trabalhou por muitos anos o impactou: "Em certo momento, senti um pouco de depressão e insônia (...) foi uma retaliação por assinar a carta".
Em sua tristeza, Méndez encontrou motivação nas palavras do ex-presidente americano John F. Kennedy: "Não pergunte o que o país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país".
"Isso me ajudou a remover meu medo e começar a lutar; isso é como um desafio", disse ele.
A medicina à distância é a maneira que os médicos demitidos em meio à pandemia encontraram para oferecer atendimento gratuito a pessoas com recursos limitados ou que não querem ir a hospitais por medo de contágio.
Carlos Quant, um dos primeiros médicos a ser demitido por criticar a gestão da pandemia pelo governo, atualmente gasta seu tempo entre trabalhar em um hospital privado e serviços de saúde por telefone.
"Como infectologista, apoio colegas no tratamento de alguns pacientes, além de dar aconselhamento médico por meio de redes sociais" sobre a pandemia, afirmou Quant.
Maríanela Escoto também foi demitida e ainda está estudando quais serão seus próximos passos. "Foi algo inesperado, foi um duro golpe para minha estabilidade no trabalho, emocional, para minha rotina de ter um trabalho com pacientes na sala de cirurgia", disse.
"Não tenho outro desejo senão ser médica, então decidi trabalhar no sistema público de saúde para pagar retribuir o povo da Nicarágua".