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No Salão do Automóvel em Genebra, fabricantes não pouparam esforços para ressaltar sua preocupação com o meio-ambiente. "Greenline", "Flex-Fuel", "Renault Eco2", ou "Zero Emission" eram alguns dos termos criados pelos seus especialistas em marketing.
A inflação no vocabulário é vista por algumas ONGs e especialistas como tática da indústria automobilística de "lavagem ecológica" dos seus produtos. O Greenpeace chegou mesmo a organizar a eleição dos "piores" carros da feira.
O verde estava por todos os lados na 78° Salão Internacional do Automóvel de Genebra, evento que fechou suas portas em 16 de março. No estande da Renault, um dos mais imponentes, folhas de plástico imitando touceiras de capim haviam sido plantadas em vasos e espalhados por toda sua área. Ao comando de computadores, imagens eram projetadas sobre gigantescas telas e placas decorativas de vidro colorindo de verde o espaço. No centro do telão aparecia repentinamente o logotipo "Renault Eco2", fazendo alusão à nova linha de veículos econômicos do fabricante francês.
O vocabulário "ecológico" não terminava por aí. O visitante caminhava alguns metros e já descobria uma profusão de termos quase indecifráveis como "Greenline", "Flex-Fuel", "Green Racing", "Zero Emission", "Michelin Energy Saver", "Efficient Dynamics", "Ford Sustainability" ou "BP Biofuels", todos colados em letras garrafais nos veículos expostos ou impressos em grandes cartazes. Praticamente todos os estandes exibiam exemplos de novas tecnologias ou de uso de combustíveis alternativos como hidrogênio, biodiesel, gás natural ou energia elétrica. A impressão geral era de que a indústria automobilística quer responder às críticas de ser uma das maiores poluidoras do planeta.
Para Stephen Boucher, essa nova imagem é enganadora. "Essa inflação de termos não deve nos fazer esquecer que nenhum veículo será jamais absolutamente limpo", escreve o professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), e autor do livro "A revolução do hidrogênio" numa crítica publicada no jornal suíço "Le Temps". Ele ainda ressalta as contradições da mensagem. "Essa lavagem ecológica publicitária, cada vez mais denunciada, é onipresente na Europa. O fato é que a cilindrada média aumentou 10% nos últimos dez anos e a potência máxima média em quase 30%", lembra e conclui: "A confusão é deliberada. Os esforços são reais, a técnica progride, mas a poluição também".
Veículos mais leves
De fato, a tecnologia possibilitou melhorias. Em 1996, o consumo médio dos veículos comercializados na Suíça era de 9 litros por 100 quilômetros. Em 2006, o consumo havia baixado para 7,5 litros, e a tendência é de continuar nesta direção. Vários fabricantes oferecem novas tecnologias "ecológicas" como sistemas automáticos de parada e partida do motor, motores híbridos e de melhor desempenho no consumo de gasolina ou diesel e também na aerodinâmica dos carros e utilização de novos materiais, como fibras leves.
Porém esse desenvolvimento não é suficiente na opinião de algumas ONGs. "O que queremos é que os fabricantes produzam veículos mais leves, de menor potência e que emitam menos CO2", declara Natalie Favre.
Para a porta-voz do Greenpeace na Suíça, o ceticismo é grande em relação aos esforços feitos pela indústria automobilística em produzir veículos menos poluentes. "Sabemos que os fabricantes lucram mais com grandes veículos e os das categorias de luxo. Os veículos ecológicos são produzidos em menor escala, sendo que muitas vezes eles nem chegam a ser fabricados em série", acusa.
Mais potência, mais emissões
Com o objetivo de mostrar as contradições do setor, o Greenpeace lançou durante o Salão do Automóvel uma campanha para eleger os "piores veículos do ano". Um deles, na opinião dos seus especialistas, era o BMW 135i Coupé. Com um motor de 306 PS e um preço de base na casa dos 40 mil euros, o pequeno carro esportivo expele, segundo a ONG, 220 gramas de CO2 a cada quilômetro. Isso corresponderia à mesma quantidade que alguns carros pesados, com tração nas quatro rodas, lançam na atmosfera.
No estande do fabricante, a vendedora refutou a afirmação indicando que o veículo dispõe da tecnologia "Efficient Dynamics", capaz de reduzir consideravelmente o consumo. "Para nós a redução na emissão de gases é realmente uma prioridade", disse.
Outro modelo selecionado foi o Renault Clio RS F1 2.0, um veículo cujo motor "envenenado" com tecnologia da Fórmula 1 é capaz de acelerar de 0 à 100 km/h em apenas 6,9 segundos. Para o Greenpeace, um crime ambiental. "Para que as pessoas necessitam de tanta velocidade num carro comum, que pode ser utilizado para passeio, levar crianças à escola ou ir ao trabalho?", é questionado no site.
No estande do fabricante, rapazes cercavam o veículo e abriam seu capô para admirar o motor do bólido. Apesar da ecologia ser um dos principais temas do salão, o que realmente atrai o consumidor jovem é a potência dos carros. "Ninguém pergunta sobre a emissão de gases ou se os carros poluem", explica o atendente do estande. Questionado sobre a necessidade do consumidor de comprar um carro de corrida para circular nas cidades européias, onde o limite médio de velocidade é de apenas 30 a 50 km/h, a resposta foi sucinta. "Por que a gente compra um Ferrari ou um Porsche?", retrucou incrédulo.
Um "colosso" das ruas
O Toyota Land Cruiser também foi citado como "mau" exemplo. Na sua maior versão, o 4.7 VVT-I, o veículo de tração nas quatro rodas é equipado com um motor à gasolina de oito cilindros de 212 PS e pesa pouco menos de três toneladas. Pelas grandes dimensões, o colosso emite, segundo dados do próprio fabricante, 340 gramas de CO2 por quilômetro rodado (a recomendação da União Européia é de 120). O consumo também é considerável: 19 litros por 100 quilômetros rodados.
Para o Greenpeace, a contradição no fabricante japonês é "preconizar emissão zero lançando grandes veículos poluidores". No estande, os vendedores balançaram ombros ao escutar a crítica. As estatísticas mostram que os veículos com tração nas quatro rodas continuam tendo forte demanda, sobretudo na Suíça.
No estande da Toyota uma jovem mulher sentou frente ao volante do 4.7 VVT-I e deixou-se fotografar. Perguntada se compraria um veículo com essa potência para utilizar em trabalhos rurais ou dirigir em áreas de relevo acidentado, como seria de se esperar para um "off-road", ela não teve dúvidas. "Obviamente que não, pois um carro de quase 80 mil euros não é para ser colocado na lama. Além disso, eu moro em cidade", diz. E por que comprar o carro? "Sinto-me segura dentro de um grande veículo".
O biodiesel
Outros veículos criticados pelo Greenpeace foram aqueles modelos que utilizam motores propulsionados a agrocarburantes. "Na maior parte dos casos, eles não contribuem a reduzir a emissão de gazes que produzem o efeito estufa, sobretudo devidos às emissões provocadas na sua produção, geralmente associados à conversão de terras e ao desmatamento", denuncia a ONG no seu site. Os elétricos também não foram poupados. "A quantidade de CO2 emitida por veículos completamente elétricos depende da origem dessa energia. Para serem realmente ecológicos, eles devem ser alimentados por fontes de energia completamente renováveis como a solar ou eólica. A nuclear não faz parte da lista de energias limpas".
Em meio ao debate, a questão de fundo é a mobilidade no futuro. Alguns defensores do meio-ambiente vêem a solução mais na mudança dos hábitos de locomoção do que apenas no desenvolvimento da indústria. Afinal, um veículo absolutamente neutro para o meio-ambiente é um sonho do futuro. No editorial, o escritor Stephen Boucher dá a resposta à questão. "Isso é fisicamente impossível".
swissinfo, Alexander Thoele
Fatos
78° salão de Genebra, de 6 a 16 de março:
Quase mil marcas provenientes de 30 países;
260 expositores em 77.550 m2
130 lançamentos mundiais e europeus
são esperados mais de 700 mil visitantes