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O aterro sanitário industrial de Bonfol foi despoluído depois de meio século de existência. Ele era um dos lugares mais contaminados da Suíça. O enorme buraco a céu aberto decantou toneladas de lixo químico, anos a fio. Retorno a um tema sem precedente e ao acerto de contas entre uma pequena cidade do Jura e os gigantes da indústria química de Basileia.
“O leopardo é como um bezerro: a carne é muito boa!”. Roger Bregnard, 78 anos e uma tatuagem no antebraço, sente-se orgulhoso da pele exposta na sala de sua casa. “Vem do Gabão. Guardei-a numa caixa e ninguém viu nada. Eram outros tempos”, suspira.. Sim, eram outros tempos. Como aqueles quando o jovem Roger Bregnard dirigia um caminhão e rodava entre Basileia e Bonfol, no cantão Jura. Por dois anos, no começo da década de 60, ele levou os resíduos químicos de Basileia ao lixão em seu vilarejo. “Não conhecia o conteúdo dentro dos recipientes. A minha tarefa era apenas a de carregar, transportar e jogar no lixão”. Uma vez, lembra divertido, um deles explodiu em contato com o terreno. “Começou um pequeno incêndio e vieram os bombeiros. Mas eu já tinha ido embora”..
Sai a argila, entram os resíduos
Bonfol é um povoado com 700 habitantes, na região de Ajoie, na extremidade noroeste do país. A fronteira francesa com a Alsácia fica a poucos quilômetros.
Em frente a estaçãoa ferroviária de Bonfol, leas fachadas decadentes de dois hotéis são testemunhas de uma época extinta. O período de ouro foi quando a economia local floresceu com a indústria da produção de vasilhames. A razão estava no terreno, rico em argila de qualidade.
A história da sua extração coincide com o capítulo inicial do lixão químico. Um enorme buraco sobrou ao fim deste ciclo, em meados dos anos 50. A cratera foi abandonada a poucos metros da praça local. Como cobri-la? A resposta foi imediata. As empresas químicas de Basileia procuravam um lugar para jogar fora os resíduos industriais. O velho buraco da argila de Bonfol, com o fundo impermeável, caía como uma luva aos propósitos do setor. O fato da localização estar sobre uma linha divisória – da qual a água escorre para o Ródano, ao sul, e para o RenoLink externo, ao norte – não parecia ser um problema.
Corantes, baterias e restos de animais
O descarte foi levado para Bonfol, entre 1961 e 1976. O buraco foi preenchido por recipientes cilíndricos e caixas enviados por oito empresas químicas e farmacêuticas, tais como Roche e Ciba-Geigy. A floresta recebeu 114 mil toneladas de resíduos industriais. A maioria é composta por filtros usados na produção de corantes e descartes de laboratório, além de restos de destilações. Mas ninguém conhece bem o conteúdo exato. “Nunca foi realizado um inventário sobre a natureza destas substâncias”, observa José Ribeaud, autor de um livro sobre o lixão de Bonfol, em entrevista ao jornal 24 Heures. Greenpeace fala de um “ terrível coquetel nocivo”, com ingredientes como metais pesados, pesticidas e solventes orgânicos.
O lixão recebeu ainda uma pequena mistura de descartes das empresas locais de relógios, do cantão Berna (que administrava a região até a criação do cantão do Jura, em 1979) e até mesmo do exército, que se desvencilhava de velhas baterias e munições.
“Todos jogavam fora alguma coisa”, conta um morador de Bonfol. O açougueiro do povoado lançava as vísceras e os restos. As moças da cidade iam ao lixão. Elas procuravam esmaltes para as unhas ou perfumes”.
Um lixão na vanguarda
A situação é boa para todos. A indústria química passa a ter um aterro sanitário “moderno e seguro” (era comum jogar tudo no rio Reno ou no mar do Norte, durante a década de 60). A empresa local de vasilhame, e que esburacou o solo extraindo a argila, não deve gastar nenhum centavo na revitalização do terreno e o pequeno município de Bonfol, proprietário do lugar, pode arrecadar os direitos do depósito. Jean-Denis Henzelin, prefeito de Bonfol nos anos 2000, estima as entradas totais em 1,7 milhão de francos. Por outro lado, a população não parece inquieta. Para os moradores de Bonfol, o lixão era apenas um buraco na terra, recorda o ex-motorista Roger Bregnard. “De vez em quando o ar cheirava mal, dependia do vento. Se não fosse por isso, ninguém daria maior importância. Na época, a consciência ecológica não existia. E a pouca oposição acabava diante de um copo de vinho”.
E assim, uma vez exaurido e preenchido, uma camada de terra cobria o buraco. Plantam-se árvores, o lixão desaparece sem deixar rastro, como num passe de mágica. Um dia acontece algo inusitado.
A água cristalina fica amarela
“Meu sogro se deu conta de que a água da sua piscicultura estava amarela. As carpas tinham morrido. Ele colocou as galochas, foi até o riacho que alimentava os tanques e chegou ao aterro sanitário. Ali, viu um operário que bombeava o chorume no rio”, conta em um documentário. Jean-Rodolphe Frisch, prefeito de Pfetterhouse, o município francês, do outro lado da fronteira.
"O responsável da química começou a rir. Depois me disse que jamais vamos sanear esse local."
Pierre Kohler, ex-secretário do Meio Ambiente do cantão do JuraAqui termina a citação
O lixão, de fundo impermeável tinha alagado por causa das chuvas e o líquido tóxico transbordava. A indústria química interveio com medidas de contenção: a água foi drenada; uma planta de depuração foi construída; o revestimento da lixeira foi reforçado. Tudo resolvido? Não, exatamente.
“Riram na minha cara”
A responsabilidade por uma mudança radical no lixão foi feita pelas autoridades, em 1998. Os personagens principais são dois: Pierre Kohler, Secretário do Meio Ambiente do cantão Jura, e Philippe Roch, diretor da Secretaria Federal do Meio Ambiente. Pela primeira vez, na Suíça, as autoridades intimam as grandes empresas de Basileia à limpeza completa da área.
Pierre Kohler se lembra bem do primeiro encontro com os dirigentes do setor químico da Basiliea. “Eu disse a eles que Bonfol deveria ser descontaminada. O responsável começou a rir e me respondeu que nunca iria recuperar o local do lixão”.
O sorriso logo murchou. Os dois altos-funcionários do governo sacaram uma lei do bolso, mais precisamente, o novo decreto sobre a descontaminação das áreas poluídas. O princípio é claro: quem poluiu o ambiente tem que pagar. “Finalmente, eu tinha os instrumentos legais para obrigar ao setor químico de Basileia a desarmar aquela bomba-relógio”, conta Pierre Kohler.
O encontro marcou o começo de um braço de ferro entre as autoridades e a indústria, com o envolvimento até do Greenpeace. De fato, a Ong ocupou o aterro sanitário por dois meses, a partir de maio de 2000. “A indústria química da Basileia não colocava em discussão as suas responsabilidades. Mas ela não queria ser a única culpada e protelava. Então, tivemos que intervir », explica Clément Tolusso, porta-voz do Greepeace, naquela época.
O acordo para a descontaminação definitiva do lixão foi assinado em outubro de 2000. “O pequeno município do Jura conseguiu vencer o gigante químico da Basileia”, escrevem alguns jornais daquele período.
Os trabalhos começariam apenas dez anos depois. Um galpão hermético e móvel foi construído, em 2010. A arcada tinha 40 metros de altura. A obra era inovadora, mas não foi suficiente para pôr um ponto final na história.
Um trem de resíduos de cem quilômetros
A escavação foi suspensa poucos meses depois do início dos trabalhos de descontaminação. Houve uma explosão no canteiro de obras e um operário feriu-se levemente
“A polícia científica encontrou vestígios de cloratos. Algo estranho, porque o setor químico da Basileia não usava essas substâncias nos anos 60”, observa Bernhard Scharvogel, porta-voz da bci Betriebs SALink externo, o consórcio que reúne as empresas químicas. da Basileia e que foram encarregadas pelo processo de descontaminação. “Era um período no qual no Jura aconteciam atentados com dinamite. Quem sabe, alguém se livrou do material explosivo”.
Para evitar outros incidentes e melhorar a segurança, opta-se por uma escavadeira acionada por controle-remoto. O braço mecânico entra na terra até uma profundidade de 12 metros. Não se separa o material recolhido no local. Ele é carregado num container especial e transportado para incineradores especializados na Alemanha e na Bélgica. Os fornos queimam tudo a uma temperatura de 1.200 °C.
A última etapa prevê a compostagem dos resíduos inofensivos, restos derradeiros da incineração. Eles acabam estocados em um depósito final. “No total, foram retiradas mais de 200 mil toneladas de material contaminado. Essa quantidade equivale a um trem de Lausanne - Berna [cerca 100 km]”, indica Bernhard Scharvogel.
Segundo os observadores, trata-se de uma descontaminação “sem precedentes” e “exemplar”. Custo da operação: 380 milhões de francos, pagos pela indústria química.
Fim do povoado-lixão
Bonfol conviveu 55 anos com o lixo tóxico, um “residente” incômodo e indesejável. O anúncio histórico sobre o fim definitivo da ameaça ocorreu apenas em 2 de setembro de 2016. “O lixão está limpo, completamente “, declara um comunicado da bci. A nota oficial lembra que foram necessários 16 anos e não cinco para a execução de todo o processo, lê-se no comunicado do cantão do Jura. Ele recorda ainda o desafio político, jurídico, técnico e financeiro do projeto.
Para o prefeito de Bonfol, Fernand Gasser, chegou a hora de virar a página. A história do lixão industrial de Bonfol acabou. Agora é a vez da imagem do povoado ser passada a limpo. A repugnante ideia de “ vilarejo-lixeira” pertence ao passado. “Todas as vezes que se falava de Bonfol associava-se o lugar aos resíduos e à poluição. Agora, queremos mudar a nossa imagem”.
38.000 áreas contaminadas na Suíça
O retorno ao estado “natural” daquela área de Bonfol ainda vai demorar alguns anos. Vai ser preciso verificar se a contaminação não “vazou” em profundidade e nem se espalhou nos arredores. Greenpeace continua atenta e lembra que Bonfol não é um caso isolado. “Em solo helvético ainda existem numerosos lixões tóxicos “, alerta a porta-voz Françoise Debons Minarro.
As áreas contaminadas na Suíça são cerca de 38.000. Na realidade, tratam-se mais de antigos-aterros sanitários, zonas industriais e estruturas de tiro ao alvo, indica a Secretaria Federal do Meio Ambiente. Desse total, cerca de 4 mil representam um perigo para o homem e o ambiente e, por isso mesmo, devem ser descontaminados.
O caminhoneiro Roger Bregnard afirma que nunca teve problemas de saúde por causa do lixão de Bonfol. O mesmo vale para o porteiro do aterro sanitário, seu amigo e que tinha o hábito de comer sua salsicha ali mesmo. “Ele morreu de velhice, aos 90 anos. Quem sabe: talvez os resíduos nem fossem tão perigosos, ou somos nós que temos a couro duro?!”.
Uma obra inesquecível
Para resolver o problema e melhorar a qualidade de vida dos habitantes, o município de Bonfol criou a associação Escale BonfolLink externo.. Ela foi financiada pela indústria química da Basileia que injetou 3 milhões de francos. A associação deve realizar projetos artísticos, turísticos e sociais.
O célebre arquiteto suíço Mario Botta, do cantão do Ticino, deverá realizar uma obra no local do lixão. A ideia é construir um lugar para a memória. “Não podemos esquecer mais de 50 anos de história atormentada nesta área. O homem foi capaz de piorar o ruim. Agora é capaz de recuperar”, aponta Yannis Cuenot, responsável pelo projeto.Aqui termina o infobox
Adaptação: Guilhrme Aquino, swissinfo.ch