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Natural de Affoltern e estabelecido, na época, em Basileia (noroeste), o hoteleiro Jakob Grossenbacher escreveu para o conselho comunal sobre o interesse em morar no Brasil.
Leia aqui mais uma história do especial realizado pelos estudantes de jornalismo da IELUSC sobre a colônia suíça de Joinville.
Um mês depois, em 6 de agosto 1856, partiu a bordo do navio Machtilde Cornélia com a esposa Anna Bárbara Müller e os seis filhos.
Entre 1851 e 1950 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registrou a imigração de 230 mil suíços e alemães. Mais tarde, outros grupos saíram da Suíça para fugir da recessão. Eles não registraram a data exata de chegada, mas estima-se que tenha sido na década de 1910. Para saldar a dívida com a Colônia, os imigrantes trabalhavam com agricultura e indústria. Jakob veio para trabalhar como lavrador.
“Eles ouviam falar de terras muito boas no Brasil, então vieram para condicionar um futuro melhor aos filhos. Jakob foi um dos poucos imigrantes que precisaram de empréstimos para vir, pois usou a herança dos dois filhos da primeira esposa”, esclarece Iris Grossenbacher, bisneta de Jakob. Segundo Iris, na época, havia muita pobreza na Europa. Tanto que os suíços vieram em maioria, não os alemães, como se pensa. “Eles esperavam uma coisa e encontraram outra: terras promissoras, mas era mangue”.
Dos seis filhos de Jakob, Ernest é o avô de Iris. Dono de terras na rua XV, uma das principais de Joinville, ele trabalhava como sapateiro e morava na rua 9 de março, outra via central. A neta, apesar de não ter conhecido o avô, fala dele com carinho e lágrimas nos olhos. ”Minha mãe contava que meu avô era um homem muito bom. Perto da casa dele havia uma fiação e os operários começavam a trabalhar cedo. Às cinco horas da manhã meu avô levantava, fazia fogo e os os operários vinham pedir para colocar as garrafinhas do café no muro para manter quente, cada garrafinha com o seu nome. E ele era chamado por todos de pai, eles diziam carinhosamente em alemão 'vater Grossenbacher, papai Grossenbacher'”, conta.
Iris reconhece a hospitalidade do povo suíço no avô Ernest. Com cinco filhos gerados no casamento, Ernest adotou mais três crianças. Certa vez, o genro trouxe, de Guaramirim, uma menina de dois anos chamada Nézia Silveira. Houve uma enchente e a família perdeu a mãe e a casa. Restaram somente o pai e os filhos mais velhos. O genro de Ernest, de casamento marcado, estava inseguro em adotar a criança. Iris conta que a menina olhou para o avô, sentou no colo dele e ali adormeceu. No outro dia, Ernest tinha adotado o bebê. “Ela sempre se sentiu muito filha do meu avô.”, afirma Iris.
Em outra ocasião, um amigo dele caminhava por uma rua perto de um supermercado, carregando uma criança em cada mão. A mãe havia morrido e o padrinho de uma delas as adotou, mas não falavam a mesma língua. Ernest abaixou-se e conversou em dialeto suíço. Um dos garotos agarrou a mão dele. Foi o que bastou para tornar-se um filho. Marta, a terceira filha adotiva, chegou mais velha, mas ficou com os avós de Iris até se casar.
Já Paulina, esposa de Ernest, era uma mulher muito resolvida. Segundo a neta, cultivava verduras no fundo do quintal, fazia picles e abriu uma quitanda para ajudar na renda do marido. “Veja que naquela época já existiam mulheres que se empenhavam em não ser só donas de casa”, declara Iris.
O nome desaparece, fica a origem
Um dos primos de Iris fez um estudo genealógico da família. Há registros desde 1581, o que significa que são pelo menos 430 anos de história. A última geração dos Grossenbacher tem somente três pessoas, que moram em Blumenau. Do casamento de Paulina e Ernest nasceu Eliza, mãe de Iris. Com a tradição de receber como último sobrenome o nome do marido – entre tantas filhas – o nome dos Grossenbacher pode acabar sendo extinto. Segundo Iris ainda há muitos familiares na Suíça, mas ela não tem contato.
Uma das descendentes dos Grossenbacher é a empresária Andréia, filha de Marcos e tataraneta de Jakob. Em Joinville, há uma galeria de arte que leva o nome da família, mas não tem nenhuma relação com seus antepassados. Gustavo Grossenbacher Junior, o avô, e Marcos Grossenbacher, o pai de Andreia, morreram quando ela ainda criança. Depois disso, a linhagem foi rompida.
A neta lamenta não conhecer todas as histórias, mas guarda com cuidado inúmeros documentos da família. Caixas com fotos e certidões resgatam alguns fatos, mas, por não estarem acompanhados de anotações, limitam o conhecimento de Andreia. O que ajuda são as viagens e as fotos das férias com os familiares na Suíça. Apesar de a emigração ter acontecido há cerca de um século, ela mantém contato com parte da família que ainda vive em Emmenthal e na Alemanha. “As histórias vão se perdendo. Tem um monte de fotos de 1800 e eu não sei quem são as pessoas, porque eles não escreviam. Aí eu pergunto se são parentes, mas quem é quem?”
Identidade nacional
Oscar, o pai de Iris, nasceu no Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 1889, dia da proclamação da república brasileira. Ela conta que, na família, diziam que de um lado Deodoro da Fonseca gritava “viva a República”, e de outro o pai dela chorava.
Iris tem 83 anos, faz trabalho voluntário uma vez por semana em um asilo, é aposentada depois de atuar 26 anos como diretora na escola Olavo Bilac e continua exercendo a profissão que ama: professora de português. “Eu sou aficcionada por língua portuguesa e acho a minha língua a mais bonita que existe. Falo alemão, leio alemão, gosto da literatura alemã, mas não é tão bonita quanto meu português”, declara. “Meu avô alemão casou com a minha avó suíça e meu avô suíço casou com minha avó alemã. Por isso que eu digo, sou fifty-fifty, cinquenta para cá, cinquenta para lá. Um dia perguntei pro meu pai sobre o que eu era, ele perguntou onde eu nasci, disse que no Brasil, então ele falou: quando te perguntarem diz que é jacaré com capivara”.
Gustavo Grossenbacher destacou-se na vida econômica de Joinville: criou a primeira companhia de táxis de bondinho puxado a burro, uma industria telefônica e a companhia Têxtil Grossenbacher, uma fábrica de cadarços e cintos de segurança.
“Eu acho que eles se sentiam inteiramente brasileiros, os meus antepassados. Eles vieram mas eles se empenharam a bem do progresso da comunidade. Tenho orgulho de ser descendente desses imigrantes” finaliza Iris.
Suíça e Brasil
O número de suíços do estrangeiro aumentou nos últimos anos. No final de 2010, 695.101 cidadãos helvéticos estavam registrados nas representações diplomáticas da Suíça no exterior, 1,5% a mais do que no ano anterior.
A primeira colônia suíça no Brasil foi estabelecida em Nova Friburgo entre 1818 e 1819. A maior onde de imigração ocorreu entre os anos 1846 e 1920.
Em 2010, as exportações da Suíça ao Brasil totalizaram 2,31 bilhões de francos. As importações somaram 849 milhões. O Brasil é o principal parceiro econômico da Suíça na América Latina.
No final de 2009, o estoque de investimentos suíços no Brasil era de 12,8 bilhões de francos.
O número de pessoas ocupadas por empresas suíças no país era de 105.900 (2009).
Número de cidadãos suíços no Brasil: 14.794. Brasileiros na Suíça: 17.455 (2010)
Fontes: Secretaria de Estado para Economia (Seco)
ASO
Fundada em 1916, a Organização dos Suíços do Estrangeiro (OSE) representa na Suíça os interesses dos compatriotas expatriados. Ela é reconhecida pelas autoridades como a porta-voz da chamada 5a. Suíça.
O Conselho dos Suíços do Estrangeiro (CSE) é considerado como o parlamento da 5a. Suíça. Ele se reúne duas vezes por ano - na primavera e durante o congresso anual dos suíços do estrangeiro
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