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Em Genebra, os últimos dias foram marcados por uma campanha da ONU para captar verbas para o Afeganistão, em uma tentativa de evitar que aconteça o que entidades humanitárias classificam como “uma catástrofe humanitária iminente”. A ONU estima que 22 milhões dos 39 milhões de habitantes do Afeganistão precisam de apoio, além dos outros 5,7 milhões afegãos que fugiram para países vizinhos.
Ao lançar a campanha que visa captar US $5 bilhões (CHF 4,6 bilhões) para ajuda humanitáriaLink externo, o coordenador de ajuda emergencial da ONU, Martin Griffiths, disse: “Minha mensagem é urgente: não feche a porta para o povo do Afeganistão. As organizações humanitárias estão no território e conseguindo resultados, apesar dos desafios. Apoie os planos humanitários que estamos lançando e nos ajude a evitar a fome generalizada, doenças, desnutrição e, finalmente, a morte”.
US $5 bilhões parece muito dinheiro, mas a ONU vê isso como uma medida de emergência, projetada para atender às necessidades humanitárias imediatas em 2022.
Alguns leitores já podem estar suspirando, imaginando por quanto tempo a comunidade internacional poderá continuar enviando dinheiro a um país que parece estar em crise humanitária há décadas.
Mas aqui em Genebra, as agências de ajuda humanitária estão frustradas e até mesmo zangadas. Por 20 anos, até agosto de 2021, as grandes potências ocidentais do mundo investiram milhares de tropas e trilhões de dólares em uma estratégia que tinha como objetivo livrar o Afeganistão do Talibã e reconstruir o país de acordo com atributos mais atraentes para os governos ocidentais.
Em meados de 2021, pelo menos 75% do dinheiro para pagar os serviços públicos do Afeganistão vinha de governos estrangeiros, como um mecanismo de ajuda para o desenvolvimento. Os salários dos enfermeiros, médicos, professores, trabalhadores da água, saneamento e eletricidade, trabalhadores dos correios, polícia e serviços de segurança vinham de fora.
Mas, da noite para o dia, quando o Talibã assumiu, sanções econômicas foram impostas e esse dinheiro parou de fluir. Milhões de famílias afegãs ficaram sem renda regular.
“As tropas internacionais partiram em agosto”, disse o diretor de operações do CICV, Dominik Stillhart. “E é como se eles tivessem desligado o gerador e jogado a chave fora.”
Ajuda, desenvolvimento e dilemas
Em entrevista à swissinfo.ch, Vicki Aken, diretora do Comitê Internacional de Resgate no Afeganistão, relatou uma profunda preocupação em relação à precariedade da situação atual no Afeganistão. Aken conta que nos últimos três meses viu mais crianças severamente desnutridas do que jamais havia visto no Afeganistão Segundo ela, a crise chegou a tal ponto que as famílias estão desenvolvendo 'mecanismos negativos de enfrentamento' à precariedade da vida. “Você vê garotas sendo essencialmente vendidas. Garotas de seis, sete, oito anos. Você vê elas sendo vendidas como mão de obra.”
Para Dominik Stillhart, que esteve no Afeganistão no final de 2021, o cenário é devastador. Ela acusa a comunidade internacional de 'virar as costas enquanto o país oscila à beira de uma catástrofe provocada pela própria humanidade.
O dilema para os governos ocidentais, é claro, reside no fato de que os bilhões de dólares que seriam mandados para o governo afegão (e sejamos honestos, embora o último governo afegão possa ter sido aceitável para o Ocidente, os fundos internacionais nem sempre acabavam exatamente onde deveriam) agora iriam parar com o Talibã. E as memórias são duras: quando o Talibã esteve no poder pela última vez na década de 1990, era notório por sua brutal opressão às mulheres e muitos outros abusos violentos dos direitos humanos.
Compreensivelmente, nenhum governo quer entregar grandes somas de dinheiro a um regime como esse.
Soluções criativas
Vicki Aken diz que o Talibã não está pedindo que o dinheiro da ajuda seja canalizado através de seus departamentos. Em vez disso, as agências de ajuda estão controlando os fundos e pagando por bens, serviços e funcionários diretamente.
O CICV está liderando o que Dominik Stillhart chama de 'soluções criativas' para a crise. Vendo que o serviço de saúde do Afeganistão estava à beira do colapso porque os profissionais de saúde não eram pagos há meses, a Cruz Vermelha começou a pagar os salários de milhares de enfermeiros e médicos em 23 hospitais e clínicas em todo o país.
É um passo que Dominik Stillhart descreve como 'sem precedentes', mas necessário, e ela gostaria que os países doadores começassem a considerar essas soluções.
Para Vicki Aken, trabalhar com o Talibã 'não é fácil... nunca foi fácil no Afeganistão', mas agora com o país todo sob domínio do mesmo grupo as agências de ajuda podem acessar todas as partes do Afeganistão, algo que era impossível antes de agosto.
Ela relata também que suas colegas mulheres não tiveram problemas para voltar ao trabalho, embora, todas as agências de ajuda humanitária enfatizem que as liberdades que as mulheres têm variam em todo o país, com algumas regiões mais restritivas do que outras. Segundo os trabalhadores humanitários, essa já era a realidade antes do Talibã assumir o poder.
Evitar a crise mas, e depois?
Pouco antes do Natal, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução autorizando uma ligeira flexibilização das sanções econômicas, a fim de tentar atender ao que chamou de 'necessidades humanas básicas'. Esta foi uma boa notícia para as agências de ajuda humanitária que mostraram aos Estados membros da ONU fortes evidências de que pelo menos um milhão de crianças afegãs passavam fome.
Mas essa resolução tem um alcance muito limitado, dura apenas um ano e parece abranger apenas a ajuda humanitária mais básica – quando, na verdade, o dinheiro direcionado a “desenvolvimento” era o que sustentava os serviços públicos até agosto.
Nesse sentido, o apelo da ONU dos últimos dias é uma medida de emergência, já que diplomatas da ONU acreditam que será necessário fazer muito mais: não apenas dar dinheiro, mas se comprometer a apoiar a infraestrutura de serviços públicos do Afeganistão a longo prazo.
“Não importa a quantidade de ajuda que forneçamos, não podemos ter um país totalmente dependente dos bens que trazemos de fora. É simplesmente impossível entregar nessa escala”, diz Vicki Aken.
“Se queremos salvar o Afeganistão e a população afegã, não é apenas dando dinheiro a organizações humanitárias”, acrescenta Dominik Stillhart. “A comunidade internacional pode manter 39 milhões de pessoas reféns do fato de não quererem reconhecer as autoridades que estão agora em Cabul e no Afeganistão?”
Dominik Stillhart acha que ainda é possível evitar um desastre humanitário, desde que os governos doadores entendam que devem agir agora, com generosidade e flexibilidade. Se não o fizerem, ele adverte, “a queda livre do Afeganistão continuará. Veremos a morte, veremos o desespero e, talvez pior ainda, veremos o risco de uma grave desestabilização”.
“O desespero será tal que grupos como o Estado Islâmico não terão problemas em recrutar pessoas para suas fileiras. E isso definitivamente não é do interesse do povo afegão, não é do interesse dos vizinhos do Afeganistão e não é do interesse da comunidade internacional”.
Adaptação: Clarissa Levy
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