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Jovens suíços vindos dos quatro cantos do globo foram os convidados especiais do congresso de suíços do estrangeiro. O momento mais emocionante para eles foi poder fazer perguntas difíceis ao ministro da Justiça.
Um jovem suíço-argentino chegou a chamar a política agrária de "injusta". Outro não compreende porque a Suíça não quer se integrar à União Européia.
Durante todo o discurso do ministro da Justiça, Christoph Blocher, o grupo de jovens permaneceu sentado discretamente na última fileira. Um deles até deu uma cochilada. Outros escutavam atentamente e faziam anotações. Entre 15 e 19 anos, eles se destacavam pela enorme diferença de idade com a grande maioria das pessoas presentes no congresso de suíços do estrangeiro realizado na Basiléia.
A cada ano o grupo é formado pela Associação de Suíços do Estrangeiro (ASO, na sigla em alemão), que utiliza os próprios recursos ou a ajuda de outras instituições, para permitir que descendentes de suíços vivendo nos cinco continentes do globo possam conhecer melhor suas origens. O programa inclui passeios à museus, universidades e nas várias metrópoles helvéticas.
Pouco antes do fim do primeiro discurso, os jovens se levantaram e foram para uma pequena sala. Nela, o grupo e o ministro da Justiça teriam uma conversa direta e franca sobre temas que interessam às novas gerações. Blocher se surpreendeu com as perguntas feitas.
"Por que a Suíça ignora o que está acontecendo na Europa? Por que ela até hoje não integrou a União Européia?", foi a questão levantada com coragem por um jovem franco-suíço. Possivelmente ele sabe que o partido do ministro, a União Democrática do Centro (UDC), é um ardoroso combatente da idéia de adesão.
Blocher respondeu à questão com outra pergunta. "Você prefere tomar decisões na Suíça ou na Europa? Dou um exemplo: a União Européia diz que seus membros precisam cobrar no mínimo 16% sobre a comercialização de qualquer produto e serviço. Já o povo suíço, em plebiscito, decidiu que o governo pode cobrar no máximo 7,6%". O ministro completa a resposta declarando tacitamente: - "Os suíços preferem continuar soberanos".
Política agrária
Um dos jovens presentes veio da Argentina. O guia do grupo revela depois que essa era sua primeira visita ao país dos familiares. Ele não poupou Blocher ao levantar uma questão sobre a economia européia. Saberia o jovem que ela foi um dos fatores que levou ao fracasso da Rodada de Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC)?
"Eu acho injusta a política agrária da Suíça. Por que tanta subvenção?", disparou o jovem.
Christoph Blocher engasgou. Afinal, ele já foi um importante empresário - EMS Chemie, indústria química que hoje é administrada por sua filha, Magdalena Martullo-Blocher – e defensor fervoroso da economia de mercado, o que o coloca em choque com muitos colegas de partido que são ligados ao poderoso lobby de agricultores helvéticos. O ministro da Justiça explicou em alguns minutos o dilema da agricutura européia.
"O principal objetivo da nossa agricultura é fazer com que a terra seja trabalhada, mesmo nas regiões montanhosas mais distantes, e garantir que a Suíça consiga, ela mesma, produzir uma parte dos alimentos que consome", explica Blocher e completa, "só podemos fazer isso dando dinheiro ao agricultor para que ele possa produzir.
Vendo o rosto insatisfeito do suíço-argentino, o Blocher falou do futuro.
"Eu acho que o agricultor deve receber um mínimo para continuar produzindo e poder fazer o que quiser com esse dinheiro. Ele poderia se especializar, pesquisar novos tipos de queijo e abrir os mercados para novos produtos. O segredo é a especialização. Assim os mercados poderiam ser abertos, até mesmo para os produtos argentinos", concluiu.
Suíça egoísta?
Os jovens estavam animados de poder discutir abertamente com Blocher. Afinal, que país permite um contato tão próximo entre adolescentes e chefes de Estado?
Por isso, mais um suíço-argentino resolveu abrir espaço à crítica. "Eu considero injusta a política suíça de fechar suas portas aos estrangeiros. Venho de um país que foi feito por eles", lançou o jovem à Blocher.
A resposta deu o tom do dia e do debate lançado no congresso de suíços do estrangeiro.
"Eu não acho que a Suíça esteja fechada ao mundo. Pelo contrário, recebemos e continuamos a receber muitos estrangeiros. Mas queremos pessoas que venham para cá trabalhar. Se alguém vier ao país para montar uma empresa, então ela será bem vinda. E você precisa de dinheiro para isso? Eu não tive dinheiro e consegui criar a minha própria empresa."
O grupo de jovens agradeceu e ainda pediu ao ministro para posar com ele numa foto de grupo. Dois dos adolescentes, originários do Brasil, ainda contam ao repórter que adoraram as duas semanas passadas na Suíça. Eles até já tomaram uma decisão de futuro: vão estudar no país dos Alpes.
swissinfo, Alexander Thoele
Breves
O congresso anual dos suíços do estrangeiro representa uma plataforma importante para todos os expatriados do país dos Alpes que queiram participar do debate.
O conselho dos suíços do estrangeiro se reúne duas vezes por ano e é o órgão executivo mais importante da Associação dos Suíços do Estrangeiro (ASO, na sigla em alemão).
Considerado também o "Parlamento" da 5ª Suíça, a comunidade extraterritorial de suíços, o conselho tem como principal missão representar os interesses da comunidade helvética que vive fora do país.
Fatos
Número de suíços por países de língua portuguesa em 2005
Angola: 106
Guiné-Bissau: 1
Moçambique: 129
São Tomé e Príncipe: 0
Brasil: 13.878
Timor-Leste: 3
Portugal: 2.767
84º CONGRESSO DA ASO
84º congresso da Associação dos Suíços do Estrangeiro (ASO, na sigla em alemão) de 18 a 20 de agosto de 2006.
Tema: "Parceria entre economia e cultura: o segredo da Basiléia"
O perfil cultural da Basiléia deve-se, em grande parte, ao apoio da indústria farmacêutica.
A Basiléia também é considerada uma das capitais européias da arquitetura contemporânea.
O programa elaborado para os suíços do estrangeiro que participam do congresso incluem, dentre outros, visita às construções planejadas por arquitetos famosos como o Estádio de St. Jakob, Schaulager (Herzog & De Meuron), a Fundação Beyeler (Renzo Piano), o Museu Tinguely-Museum (Mario Botta), o novo prédio da Novartis (Diener & Diener, Adolf Krischanitz, Frank Gehry).
Também o local onde se realiza o encontro é considerado um ícone da arquitetura moderna: a torre da Feira da Basiléia, uma construção planejada pelo escritório de arquitetura Morger & Delego. Com 105 metros de altura e 31 andares, ela é o prédio mais alto da Suíça.
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