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Guaidó não descarta intervenção externa na Venezuela; Maduro bloqueará ajuda
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, prometeu que não permitirá o "show" da "falsa" ajuda humanitária, solicitada aos Estados Unidos pelo opositor Juan Guaidó, que advertiu que fará o necessário para salvar vidas, sem descartar a intervenção de uma força estrangeira.
"Nós faremos tudo o que for possível. Esse é um tema obviamente muito polêmico, mas fazendo uso de nossa soberania, do exercício de nossas competências, faremos o necessário", respondeu Guaidó em entrevista à AFP, ao ser perguntado se autorizaria eventualmente uma intervenção militar dos Estados Unidos ou de uma força estrangeira.
O líder opositor, reconhecido por meia centena de países como presidente interino da Venezuela, disse que fará "tudo o que tivermos que fazer para salvar vidas humanas".
Uma carga de remédios e alimentos enviados por Washington chegou na quinta-feira à cidade fronteiriça de Cúcuta, na Colômbia, onde foi instalado o centro de distribuição perto da ponte internacional Tienditas, bloqueado pelos militares venezuelanos com dois contêineres e um caminhão-tanque.
"A Venezuela não vai permitir o show da ajuda humanitária falsa, porque nós não somos mendigos de ninguém", sentenciou Maduro em coletiva de imprensa, ao assegurar que a "emergência humanitária" é "fabricada em Washington" para "intervir" no país petroleiro.
Na pior crise de sua história moderna, a Venezuela sofre com escassez de produtos básicos e hiperinflação que, segundo o FMI, será de 10.000.000% em 2019. De acordo com a ONU, 2,3 milhões de venezuelanos emigraram desde 2015.
- "Soldado, contamos contigo" -
Guiadó convocou duas mobilizações, uma em 12 de fevereiro e outra a definir para exigir que os militares não bloqueiem a ajuda.
"Estão em um dilema: ou se põem ao lado do povo necessitado, ou da ditadura", reiterou.
O opositor, de 35 anos, anunciou que nos próximos dias vão chegar mais remessas de ajuda e que serão instalados outros centros de distribuição no Brasil e em uma ilha do Caribe.
A resposta dos militares permitirá a Guaidó medir a unidade do comando da Força Armada, principal apoiadora de Maduro, segundo analistas.
"Soldado, amigo, contamos contigo", dizia um cartaz exibido por um venezuelano, entre um punhado de migrantes que protestaram pacificamente nos arredores da ponte Tienditas.
Em frente aos armazéns onde estão os remédios e alimentos em Cúcuta, o deputado Lester Toledo, delegado de Guaidó para coordenar a distribuição da ajuda, disse que preveem a chegada de um "tsunami de ajuda humanitária".
"Vai ser aberto um corredor humanitário e as portas à liberdade", declarou a jornalistas.
Além dos militares, Maduro "depende cada vez mais" do apoio de seus aliados Rússia, China e Turquia, mas os chineses são pragmáticos e se concentram "em recuperar seus empréstimos", o que "limita suas opções" de aguentar as sanções americanas, avaliou o Eurasia Group.
- "Santo virado" -
Enquanto a ajuda humanitária chegava à fronteira entre Colômbia e Venezuela, o Grupo de Contato Internacional (CIG), formado por países europeus e latino-americanos, se reunia em Montevidéu na quinta-feira para pedir eleições presidenciais "livres" em sua declaração final.
"Nós rejeitamos a parcialidade, a ideologização do documento do Grupo de Contato, mas estou pronto e disposto a receber qualquer enviado", reagiu Maduro nesta sexta-feira.
Guaidó comemorou a declaração do Grupo de Contato e que o Uruguai aderiu. "Eles têm o santo virado (as coisas acontecem ao contrário), porque (o governo) procurou ganhar tempo (...), para relaxar a pressão que estamos exercendo", disse ele.
Maduro acusou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, e a UE de serem "surdos à verdade da Venezuela" e de ouvir apenas a direita.
O Grupo de Contato também decidiu enviar uma missão técnica à Venezuela e instou a "permitir a entrada urgente" de assistência humanitária e coordenar com as agências da ONU, que disseram que só agirá com o acordo das autoridades.
Em uma mudança de postura, o chanceler do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, defendeu nesta sexta a proposta dp Grupo de Contato Internacional de convocação de eleições, considerando esta única saída possível para um país com dois presidentes.
"Não pode haver dois presidentes e dois governos em um país, isso irremediavelmente leva a uma escalada" da violência, disse Nin Novoa ao programa "En Perspectiva" da Radiomundo. "A única solução para dirimir isso é com eleições".
Ele esclareceu, contudo, que o Uruguai não reconhecerá o autoproclamado Juan Guaidó, como presidente encarregado da Venezuela.
Maduro já disse que está "preparado" para uma negociação, mas Guaidó novamente se recusou a aceitar qualquer "falso diálogo" que permitisse a Maduro ganhar tempo.
O presidente disse esperar que o papa Francisco concorde em interpor seus bons ofícios para um diálogo, que ele pediu em uma carta.
"Esperamos pacientemente por sua resposta e pedimos a Deus que a resposta seja muito iluminada", disse ele.
O Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela (TSJ) pediu nesta sexta à Assembleia Constituinte "decisões" sobre o Parlamento de maioria opositora e seu líder, Juan Guaidó.
A Sala Constitucional do TSJ solicitou à Constituinte "uma tomada de decisões pertinentes", após declarar a "nulidade absoluta" de uma Lei de Transição aprovada na terça-feira pelo Legislativo, que foi denunciada como "um golpe de Estado".
Segundo essa lei aprovada pelo Congresso, quando Maduro deixar o poder, Guaidó convocará eleições em 30 dias, mas, se por alguma razão técnica não o fizer, poderá ficar à frente do governo interino por 12 meses.
O TSJ classificou a lei como um "ataque ao estado de direito", pois estabelece igualmente a renovação de todos os poderes públicos.
Guaidó se proclamou presidente interino em 23 de janeiro, depois que o parlamento declarou Maduro "usurpador" por ter sido reeleito em eleições questionadas dentro e fora da Venezuela.