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Como pode-se ajudar um país do qual quase um milhão de pessoas fugiu, onde o governo está dividido entre civis e militares e onde as principais autoridades são acusadas de genocídio? Essa é a tarefa hercúlea nas mãos da diplomata suíça Christine Schraner Burgener.
Ela foi nomeada enviada especial da ONU para Mianmar em abril deste ano e recentemente discutiu seu novo papel em um café em Berna. Ela concordou em se encontrar no Einstein Café, no pitoresco centro histórico da capital. Faz muito frio lá fora, e ela diz que sim, que sente as mudanças de temperatura, especialmente depois de todas as suas viagens recentes.
Schraner Burgener, 55, chega elegante vestida de branco com uma jaqueta de couro. Ela é suíça, mas cresceu no Japão. Anteriormente, ela atuou como embaixadora da Suíça na Alemanha e na Tailândia, onde foi pioneira em um trabalho diplomático com o marido, permitindo que ambos cuidassem de seus dois filhos. Uma atípica suíça asiática, modelo da "diplomacia feminina". Toca violino e saxofone. Pode-se dizer que ela é uma pessoa clássica, com pitadas de jazz…
Agora que os dois filhos - uma filha de 22 e um filho de 19 - cresceram, ela diz que sentiu-se pronta para assumir este cargo. Mas é um enorme desafio - seria este o maior desafio que ela enfrentou até agora? Cada desafio é diferente, explica ela:
A nova enviada especial da ONU foi nomeada após uma repressão do exército, em agosto de 2017, contra os muçulmanos da etnia rohingya no estado de Rakhine, em Mianmar, depois que militantes rohingya atacaram postos policiais. Relatórios da ONU dizem que o exército, às vezes ajudado por milícias budistas locais, incendiou aldeias, cometeu assassinatos em massa, estupros e violência sexual. Cerca de 700 mil rohingya fugiram para a vizinha Bangladesh, onde agora vivem em campos de refugiados superlotados. Um relatório recente da ONU disse que o chefe do exército do país e outros cinco altos oficiais militares devem ser processados por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
O mandato de Schraner Burgener é amplo, conforme ela mesmo conta. Inclui o problema de Rakhine, o regresso dos refugiados, a promoção da democracia e dos direitos humanos e o processo de paz mais amplo. Mianmar também tem conflitos étnicos de longa data em outros estados, assim como em Rakhine. Mas sua prioridade, ela diz, são os quase um milhão de rohingya nos campos de refugiados, que precisam de “uma solução imediata”. Ela diz que eles devem ser autorizados a retornar voluntariamente com segurança e respeito pelos seus direitos humanos, mas ela reconhece que mudar as atitudes racistas em relação a eles em Mianmar pode levar gerações.
Enquanto isso, ela está tentando "construir pontes". Como facilitadora, ela precisa conversar com todos, incluindo o exército. Ela não acredita em "diplomacia de megafone" ou em fechar portas. Ela já se reuniu com oficiais do exército e grupos armados, e com a conselheira de Estado Aung San Suu Kyi, laureada com o prêmio Nobel da paz, que muitos agora veem como um ídolo de barro por se calar sobre a crise dos rohingya.
Mas Schraner Burgener acredita que Suu Kyi ainda tem um papel a desempenhar. “Ela passou 15 anos em prisão domiciliar. Eu não acredito que tal pessoa não continuaria a lutar pela democracia ”, diz ela. “Mas a situação dela é realmente difícil, ela está espremida entre o exército e também as expectativas da comunidade internacional. Minha atitude pessoal é que temos que apoiá-la. É claro que muitos ficaram desapontados por ela não se impor o suficiente para dizer que o que aconteceu é inaceitável. Mas também devemos ver que ela tem que trabalhar com o exército, porque eles também têm direito de veto para cada emenda da constituição”.
Schraner Burgener esteve em Rakhine e nos campos de refugiados de rohingya em Bangladesh. Ela descreve o que aconteceu em Rakhine como "muito, muito terrível", dizendo que o que é necessário é "responsabilidade e diálogo inclusivo". Perguntada sobre que forma essa responsabilidade deve assumir, ela diz que “a apuração de fatos é o primeiro passo e depois os tribunais precisam decidir. O importante é que haja uma pesquisa de fatos credível e transparente”.
"O governo de Mianmar foi contra o meu mandato, mas quando me encontraram pela primeira vez, a primeira coisa que disseram foi que 'lhe aceitamos porque você é suíça.'"
Mianmar impediu que a relatora especial da ONU para Mianmar, Yanghee Lee, da Coréia do Sul, visitasse o país. Mas Schraner Burgener diz que todos os pedidos de viagem dentro do país até agora foram cumpridos. Mas de fato é uma vantagem ser suíça na hora de desempenhar o papel de facilitadora?
Schraner Burgener acredita que, para ser um facilitador de sucesso, você também precisa conhecer a “mentalidade e a cultura”. Como exemplo, ela conta que as pessoas na Ásia acham que ser muito direto é um sinal de arrogância.
“Honestamente, a portas fechadas, sou muito crítica em relação ao governo de Mianmar, mas nunca farei a diplomacia do megafone - na minha posição isso não trará nenhum resultado. Pelo contrário, eles apenas fecharão as portas ”.
Para continuar progredindo, ela precisa convencer a comunidade internacional de sua estratégia de neutralidade.
Mas ela diz que às vezes se sente como um “saco de pancadas”, inclusive com estados membros da ONU. Ela tem viajado constantemente e só vê sua família em Berna cerca de quatro dias por mês. Ela também tem visto e ouvido coisas terríveis. E é assim que ela lida:
Em última análise, Schraner Burgener diz que quer ver resultados. “Embora eu tenha muita paciência, também preciso ver ações”, ela nos diz. “Se eu não vir ações suficientes em um determinado período de tempo, então [reconsiderarei] meu mandato, isso é claro. Às vezes as pessoas pensam que sou otimista demais ou paciente demais, mas também tenho meus princípios.”
Adaptação: Eduardo Simantob