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Nascido na Basileia no seio de uma família cabo-verdiana, Milton Gonçalves teve sempre de enfrentar alguns estigmas sociais. Fez toda a sua vida na Suíça até que chegou um dia em que decidiu partir. Cabo Verde apareceu-lhe como um lugar imemorial a regressar, mesmo quando nunca de lá tivesse partido.
Aterrou no Tarrafal em 2009 e começou a criar a sua rede de contatos até oficializar a empresa de viagens no ano seguinte. Foi numa tarde tropical que a swissinfo.ch se encontrou com ele, num bar sobre as rochas, junto ao mar.
A sua infância em Basel nem sempre foi fácil, quando algum problema acontecia, ele era de imediato apontado pelos colegas apenas porque era negro, "mas estas coisas acabaram por me tornar mais forte porque mesmo tendo passaporte suíço não me vou parecer com um suíço", ironiza. A sua mãe foi para Basel quando tinha 17 anos e juntamente com o seu pai, decidiram ficar no país. Na maioria, a comunidade cabo-verdiana na região são oriundos das ilhas de São Vicente e da Boavista. Milton acabou por crescer no sei dessa comunidade, mas cedo teve intenções de alargar os horizontes e sempre contatou com todas as pessoas.
Frequentou a escola de comércio e fez o estágio numa empresa de seguros, área que se afastou no final do estágio. Mais tarde, começou a trabalhar num centro de jovens dando apoio aos professores e ocupando-se da área administrativa.
Quando se mudou para Berna, foi chamado para integrar a agência suíça de ajuda e cooperação internacional. As suas funções eram administrativas, colocando em contato os vários atores que participam na ajuda internacional. "Há um sistema de comunicação, que apenas é usado pelos Estados, e quando um país pede ajuda à suíça, há uma reunião entre militares, cruz vermelha, entre outros, e em 12 horas o avião tem de estar a partir para o local da catástrofe".
O seu avião partiu para Cabo-Verde: mas não foi uma catástrofe
Milton Gonçalves diz-nos que não deixou o trabalho por ser desinteressante, bem pelo contrário, "foi uma experiência muito enriquecedora. Vim embora porque queria ser independente". Ao início ainda pensou em ir até à Austrália, mas as raízes falaram mais alto e tentou a sua sorte em Cabo-Verde, "o turismo estava, e ainda está a crescer e pareceu-me uma boa oportunidade". Os seus pais inicialmente ficaram apreensivos, mas Milton confessa que agora estão felizes porque ele está a dar algo ao país que eles deixaram.
Apesar de a sua família ser oriunda de São Vicente, Milton optou por viver na ilha de Santiago e o Tarrafal foi o lugar que se perfilou melhor nos seus objetivos: estar perto do mar para poder fazer surf.
O know-how de viajante
Durante o primeiro ano Milton Gonçalves estive dedicado a construir a sua rede de parceiros em todas as ilhas de Cabo-Verde. No começo, viajou para todas as ilhas e conheceu pessoalmente motoristas, para realizarem os transferes, guias, alojamentos, restaurantes. Para além desses atores, foi também importante conhecer as principais atividades em cada ilha: para desportos aquáticos nas ilhas do Sal ou Boavista. As caminhadas, são melhores nas ilhas do Fogo, Santo Antão e São Nicolau. Os programas culturais são mais comuns no Mindelo.
Na sua opinião, foi muito importante conhecer a realidade de cada ilha e ter parceiros de confiança. Em seguida, começou a criação da página da sua empresa, que é dedicado ao público de língua alemã, mas que, brevemente, irá lançar a versão traduzida em inglês para abranger mais público.
Milton tem alguns pacotes de viagens standard que lhe pareceram interessantes. Contudo, ele procura obter informações mais detalhadas dos clientes através de um formulário onde as pessoas colocam as suas preferências e através desses dados, ele monta um pacote à medida de cada um. Mesmo conhecendo bastante bem a ilha de Santiago, o nosso entrevistado prefere entregar os serviços de guia a pessoas locais, "eu já ganho dinheiro a vender estes pacotes de viagens".
Na sua opinião, se os motoristas forem pontuais e os guias tiverem atenção a levar as pessoas a fazerem caminhadas interessantes, "está praticamente, ganho", as pessoas levam consigo uma experiência incrível. "Há dois anos, a National Geographic escolheu Cabo-Verde, como o novo destino turístico sustentável. É possível conhecer o país sem estar cheio de turistas". O país tem igualmente tirado vantagem da instabilidade nos países do norte de África e posicionou-se como uma alternativa turística.
O facto de viajar muito e praticamente, sempre sozinho, deu-lhe a experiência de saber como trabalhar nesta área. Não vende pacotes "tudo incluído" porque não é essa a sua filosofia. Em primeiro lugar, ele também teria de ser um potencial cliente. Por isso, nunca preenche as viagens que vende com muitas atividades, fazendo apenas sugestões para deixar as pessoas escolherem. Essas dicas vêm agregadas num ficheiro PDF que é enviado juntamente com a reserva, onde podem encontrar: programas culturais, locais de interessa a visitar, restaurantes, bares, conversor de moeda. "Eu dou-lhes um valor acrescentado à reserva porque preciso de razões para que eles reservem na minha empresa e não noutra".
Milton Gonçalves é membro da comunidade Digital Nomad e tem como princípio, "o meu computador é o meu escritório". Por isso, não importa o local onde está. Seguindo essa filosofia, trabalha com um casal, uma portuguesa e um alemão, que vivem em Portugal e se ocupam da área informática e tratamento das reservas. Felizmente, partilha conosco que tem turistas durante todo o ano.
A natureza selvagem da ilha é vibrante e isso é um ponto de atração que não há necessidade de descrever bastante. A diversidade que podemos encontrar: Montanhas, o parque natural da Serra Malagueta, o Tarrafal com a sua baía, as grutas de Ribeira Barca. Para além da natureza, a Cidade da Praia também é um ponto de visita, para quem tiver curiosidade em conhecer a capital cabo-verdiana.
Suíça e Cabo-Verde: como se veem?
Os seus pais e irmãos ainda residem na Confederação Helvética. Isso faz com que visite o país, pelo menos uma vez por ano, "mas no verão porque a última vez que lá estive no inverno voltou constipado", sorri. Se não fosse a família, não sentia necessidade de lá ir, porque gosta de ir para outros destinos e é muito caro, "mas são as minhas raízes, não é?".
A forma como ambas as populações se veem, encaixa-se na sua maioria, nos estereótipos. Em Cabo-Verde, "às vezes nem distinguem Suécia da Suíça", risos. No entanto, pensam que as pessoas são todas ricas e que os melhores relógios e chocolates vêm de lá. Por seu lado, vários suíços não sabem onde ficam, pensam que se situa no caribe e pensam que por estar em África é um país muito pobre. Contudo, aqueles que têm interesse pela world music conhecem a música cabo-verdiana, Cesária Évora, Mayra Andrade, como grandes embaixadoras culturais.
Felizmente, Milton reconhece que cada vez mais há documentários, reportagens e artigos a serem feitos por órgãos de comunicação internacionais, o que tem contribuído para que Cabo-Verde seja cada vez mais conhecido.
Os próximos passos
Milton Gonçalves sente-se feliz com a vida nômade, mas o Tarrafal continua a ser o seu lugar de partida e chegada. Quer continuar a desenvolver a sua empresa e a expandi-la. Para além disso, o seu interesse pela fotografia e botânico, fez com que reunisse fotos sobre a fauna da ilha de Santiago e publicasse um livro onde apenas tem o nome científico das plantas. "Pretende ser mais emocional. Gostaria de fazer este livro com símbolos para não o fechar às línguas". Este é sua vontade, ultrapassar fronteiras e barreiras, fazendo nos próximos tempos de Cabo-Verde a sua casa.