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A renúncia de Fidel Castro à presidência cubana está longe de representar uma revolução, segundo a interpretação da imprensa suíça, quarta-feira.
O primeiro teste pós-Fidel será no próximo domingo, com a eleição do sucessor pela Assembléia Nacional. O irmão de fidel, Raul, que assume como interino há 19 meses, deverá sucedê-lo.
A decisão de Fidel Castro de não disputar um novo mandato "é um momento essencial que prova a maturidade da revolução. Como Mandela na África, Fidel Castro quer subir de grado, tornar-se um estrategista continental", ousa o suíço Jean Ziegler no jornal 24Horas.
Companheiro da revolução cubana, o relator especial da ONU sobre o direito à alimentação pensa que Castro "conseguiu transmitir a experiência revolucionária e os princípios fundamentais à sucessivas gerações. É uma prova de vitalidade formidável da permanência da revolução".
No jornal Le Temps, o jornalista especista de Cuba Serge Raffy escreve: "Fato inusitado, o líder cubano conseguiu a proeza de seduzir os intelectuais europeus." Para esse autor de uma biografia de Fidel Castro, "a realidade da sociedade cubana é a submissão à polícia política onipresente (...) O exército é onipotente e gerencia totalmente o turismo, a pesquisa, a indústria açucareira. Só o exército decide. A grande interrogação é se isso vai durar.
O futuro? O irmão Raul Castro deverá ser eleito domingo pelo Parlamento. Interino há um ano e meio, ele se diz disposto a negociar com os Estados Unidos, afirma Serge Raffy. "Pode haver, portanto, uma abertura. Aliás, eu sempre achei que Raul era um gobacheviano...".
Uma nova chance
Em Zurique, o Tages Anzeiger constata que "Castro - não importa o que pensam os românticos da revolução - era um ditador. (...) 50 anos depois, Cuba tem uma nova chance (...) Castro era tão onipresente que sua renúncia criará um vácuo. Isso pode, cedo ou tarde, levar a reformas".
Mas o jornal zuriquense adverte: "A última coisa que os cubanos precisam durante essa fase de transição são conselhos do estrangeiro, dos defensores do neoliberalismo e das democracias bem-pensantes."
Para o Berner Zeitung, de Berna, a renúncia de Castro "demonstra que o guia da revolução não esta mais em condições de assumir suas funções oficiais, nada mais". Como muitos na imprensa suíça, a Basler Zeitung mantém a idéia que Cuba "encontra-se no início de uma fase de transição que não se sabe onde vai levar".
Para o jornal de Basiléia, "a pressão pela mudança é real. (...) Mas esse desejo de mudança também suscita temores. Cuba é o único país do Caribe que conseguiu bons resultados na edução pública e na saúde. Seus vizinhos não são a Suíça ou o Liechtenstein, mas países como o Haiti, entre os mais pobres do planeta"...
A idade e Hugo Chavez
Próximo dos meio empresarial, a Neue Zürcher Zeitung considera que Raul Castro deverá encontrar "a maneira de garantir a benedição petroleira do presidente venezuelano Hugo Chavez, cujo amor por Cuba é menos ligado aos ideais revolucionários do que a uma amizade por Fidel. O novo regime não resistirá muito tempo se a economia não funcionar mais ou menos - Raul é consciente disso".
O tempo de Raul também será curto, sublinha o Bund, de Berna: "Ele já tem 76 anos e não está em grande forma. O comunismo cubano tem chance a longo prazo? E se tem, sob que forma? A resposta só virá depois do fim definitivo da era dos irmãos Castro".
swissinfo, Pierre-François Besson
Reação oficial
A Suíça, que julga "boas" suas relações com Cuba, não prevê mudanças rápidas após a renúncia de Fidel Castro.
Através de um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores afirma esperar da parte de Raul Castro progressos em matéria de direitos políticos e cidadãos. Espera ainda uma transição para um regime de pluralismo democrático.
Desde 2000, a Suíça tem um programa de ajuda ao desenvolvimento na ilha comunista, no valor de 5 milhões de francos suíços.
A Suíça representa os interesses dos Estados Unidos em Havana desde 1961 e os interesses cubanos em Washington desde 1991.