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Ucrânia permanece aberta aos negócios
Abrigos antibomba, apagões, toques de recolher e funcionários na linha de frente: essas são as condições enfrentadas pelas empresas na Ucrânia. Mas uma agência de promoção comercial sediada na Suíça insiste que, a longo prazo, empresas estrangeiras ainda podem lucrar nesse mercado devastado pela guerra.
A associação Global Business for UkraineLink externo (GB4U) foi criada em setembro na Suíça para atrair investimentos do setor privado que possam ajudar a reconstruir a economia do país.
"Mesmo nas atuais circunstâncias, as empresas podem sobreviver e fazer negócios. A grande maioria está, pelo menos parcialmente, operacional. Elas permanecem otimistas quanto ao futuro da economia ucraniana", disse Anna Derevyanko, cofundadora da GB4U.
A Ucrânia está em conflito com a Rússia desde a anexação ilegal da Crimeia em 2014. Empresas como a fabricante suíça de alimentos Nestlé tinham planos de contingência preparados para um aumento da violência. Mas em 24 de fevereiro, o dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia, "nós não estávamos prontos para uma invasão em larga escala", disse o chefe regional da Nestlé, Alessandro Zanelli, em uma reunião da GB4U em Zurique, no mês de dezembro.
O choque da invasão forçou a Nestlé a fechar suas três fábricas na Ucrânia, com as duas no oeste do país reabrindo poucos dias depois. A terceira fábrica, que produzia produtos de macarrão instantâneo na cidade oriental de Kharkiv, permanece fechada por estar na linha de frente.
Nova fábrica na Ucrânia
A Nestlé anunciou recentemente que irá construir uma nova fábrica de CHF 40 milhões (US$ 43 milhões) até 2024 para substituir essa produção perdida. A empresa produz uma ampla gama de alimentos na Ucrânia, incluindo macarrão, molhos, sopas, doces e café.
A realidade da guerra transformou as operações da empresa. "No momento, planejar, produzir e fornecer é uma arte, não uma ciência", disse Zanelli. "Temos que encontrar soluções criativas para novos problemas do dia a dia."
Isso inclui a construção de abrigos antibomba em fábricas, feitos com base na planta de uma fábrica da empresa em Israel. Funcionários de áreas administrativas, como marketing, foram redistribuídos para ajudar na realocação de colegas ou em projetos de segurança. Escritórios redundantes foram convertidos em acomodações temporárias para funcionários desalojados. E o fornecimento de eletricidade é agora reforçado por geradores nas fábricas.
Dos 5.850 funcionários da Nestlé na Ucrânia, 155 estão combatendo as forças russas, 700 foram realocados para o exterior e cerca de 70% foram desalojados de suas casas.
Mas a empresa continua lucrativa na Ucrânia, apesar de uma queda de 15% no volume de vendas e da redução das margens de lucro causada pelos custos de segurança.
O ucraniano Vladimir Liulka também ficou chocado quando ouviu a notícia da invasão russa de seu país. Liulka é cofundador da startup suíça Blocksport, criada em 2019 no cantão de Zug. A Blocksport aconselha clubes esportivos sobre estratégias digitais de blockchain e emprega cerca de 20 funcionários, alguns dos quais trabalham na Ucrânia.
Trabalhando em abrigos antibomba
Originário de Mariupol, Liulka estava inicialmente preocupado em garantir a segurança de seu pessoal e em localizar seu pai, que estava temporariamente desaparecido em Mariupol, cidade que viu alguns dos primeiros combates mais pesados.
Mas as operações comerciais logo foram retomadas no departamento de pesquisa e desenvolvimento da Blocksport, que é sediado na Ucrânia. "Estou maravilhado com a coragem e a resiliência de nossos funcionários, que entregam projetos trabalhando em abrigos antibomba", disse ele.
Um funcionário perdeu um pé quando pisou em uma mina terrestre russa, contou Liulka no evento da GB4U em Zurique. Ele pediu às empresas suíças que empregassem funcionários ucranianos para ajudar a Ucrânia.
A empresa suíça de consultoria em gestão Alvicus disse que a guerra não prejudicou o acesso a desenvolvedores de TI de alto nível, que a empresa contrata na Ucrânia para a realização de projetos. "Percebemos que a melhor maneira de ajudar era dar-lhes mais trabalho. Eles continuam entregando os projetos", disse Manuel Eppert, sócio-gerente da Alvicus.
A agência de promoção comercial GB4U, que tem o apoio da Associação Europeia de Negócios, foi sugerida pela primeira vez em maio na conferência do Fórum Econômico Mundial em Davos. Ela recebeu um novo incentivo após a Conferência de Recuperação da Ucrânia, sediada em julho em Lugano.
A GB4U escolheu estabelecer sua sede na Suíça para aproveitar a estabilidade da nação alpina, sua neutralidade política e sua localização na Europa central.
Oportunidades pós-guerra
Derevyanko, fundadora da GB4U, não se ilude acerca dos problemas que as empresas que atuam na Ucrânia ainda estão enfrentando. A Rússia ainda ocupa grandes extensões do país e recentemente aproveitou a chegada do inverno para realizar uma série de ataques com drones que tinham como alvo a infraestrutura energética do país.
Há várias estimativas de qual será o custo da reconstrução da Ucrânia após a guerra, mas a maioria calcula uma despesa de pelo menos US$ 500 bilhões (CHF 468 bilhões) para reparar os danos estruturais.
"Talvez muitas empresas decidam que agora não é o momento de investir na Ucrânia", disse Derevyanko. "Mas elas precisam começar a se preparar agora para possíveis investimentos futuros na reconstrução da Ucrânia quando a guerra tiver terminado."
Ela menciona oportunidades para os setores de construção, logística, TI, energia e telecomunicações, além de possíveis contratos com militares ucranianos.
"Já houve muitas histórias de sucesso de empresas europeias que estabeleceram negócios na Ucrânia. Haverá muito mais oportunidades de negócios no futuro."
Correção: uma versão anterior deste artigo afirmava que a Nestlé havia retomado em junho as exportações de alguns produtos da Ucrânia. A Nestlé agora declara que não exporta nenhum produto da Ucrânia.
Adaptação: Clarice Dominguez
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