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Paulo Bezerra: o engenho da tradução
O professor, ensaísta e tradutor Paulo Bezerra nasceu na Paraíba, em 1940. Morou por quase uma década em Moscou, onde especializou-se em tradução. De volta ao Brasil, obteve o título de livre-docente em Literatura Russa pela Universidade de São Paulo (USP) e foi professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Por suas traduções, que já alcançam quase quarenta títulos, recebeu importantes prêmios, dentre eles Jabuti, APCA, Paulo Rónai e Academia Brasileira de Letras.
A tradução é de fato um instrumento indispensável para a universalidade da cultura?
Pelo simples fato de ser um diálogo de culturas, a tradução já é um instrumento de universalização de culturas. Através dela, os povos conhecem um pouco da história de cada um, os seus hábitos, a natureza e seus coloridos, sua culinária. Eu mesmo vivi um fato pitoresco: uma de minhas professoras da Universidade Lomonóssov, entusiasmada com a leitura do romance de Jorge Amado, Dona Flor e seus dois maridos, queria que eu lhe ensinasse a preparar os quitutes de Dona Flor.
Como se forma um bom tradutor? A universidade no Brasil consegue formar bons tradutores?
A universidade pode preparar o futuro tradutor, fornecendo-lhe os instrumentos necessários: conhecimento das línguas de partida e de chegada, aspectos teóricos e práticos da tradução, isto é, pode formar o tradutor. Mas ele só se tornará tradutor, de fato, na luta solitária com o texto, nos enfrentamentos das armadilhas do original e na solução dessas armadilhas na língua de chegada. A formação do tradutor é um processo contínuo, eu diria mesmo um processo eterno, que perdura enquanto o tradutor exerce sua atividade.
A qualidade das traduções publicadas entre nós melhorou nas últimas duas décadas ou os interesses mercadológicos ainda prevalecem?
Tem havido uma melhora acentuada na qualidade das traduções entre nós, principalmente porque vem crescendo a consciência dos tradutores de que a tradução é uma atividade da mais alta importância e precisa ser exercida com o máximo de competência. Hoje existe o blog “Não gosto de plágio”, organizado por Denise Bottmann, grande tradutora e batalhadora incansável por uma ética da tradução. Algumas editoras já se preocupam com a qualidade das suas traduções. Mas ainda há muitas editoras picaretas, como é o caso da Martin Claret, campeã de edições piratas, que trazem nomes fictícios de tradutores. E suas traduções costumam ser horríveis: puro interesse mercadológico.
Concorda com aqueles que afirmam que as traduções feitas pelos portugueses são mais confiáveis que as nossas ou isso é um mito?
Puro mito. As traduções do russo para o português, feitas em Portugal, por exemplo, costumam ser simplesmente horríveis. Ainda não vi nenhuma sequer respeitável.
Sobretudo no que se refere a traduções de textos da antiguidade greco-latina, ainda há lacunas imensas entre nós. Os estudiosos da área são obrigados a recorrer a traduções francesas, inglesas ou espanholas. A seu ver, as universidades não teriam um papel a desempenhar nesse sentido?
Acho que a culpa principal é dos professores da área. No Brasil, não falta mercado para boas traduções de bons autores. Veja-se o caso do grego Luciano de Samosata, o maior prosador da Antiguidade Clássica. De sua vasta obra, foram traduzidos entre nós Uma história verídica e Diálogo dos mortos. E as duas estão esgotadas.
De onde veio o interesse pela literatura russa e em especial por Dostoievski?
Foi Crime e castigo, de Dostoievski, que despertou em mim o interesse pela literatura russa. Antes eu havia lido alguns contos de autores russos, indicados por uma amiga do velho PCB, partido em que eu militava. Mas foi a leitura de Crime e castigo que efetivamente me despertou para o mundo russo. Foi o primeiro romance que li em minha vida. Não entendi nada, mas fiquei fascinado. Tão fascinado, que tão logo comecei a entender a língua russa, já em Moscou, fui logo tratando de ler esse romance no original, com o auxílio de um dicionário russo-espanhol. E foi também o primeiro romance dostoievskiano que traduzi.
Algum autor da língua portuguesa é tributário direto do legado de Dostoievski?
Não sou um perito em literatura portuguesa, mas aponto Virgílio Ferreira como um romancista com grandes afinidades com Dostoiévski. Considero Para sempre um romance de feitio dostoievskiano, pelo dialogismo profundo que ali se verifica. Outro romance profundamente dialógico, com muita afinidade com a poética romanesca de Dostoievski, é Levantando do chão, de Saramago. A meu ver, Saramago retomou uma tradição poética tributária de Dostoievski, sem se dar conta, porque não vejo como apontar influência do romancista russo sobre o português. Isto se deve ao fato de que a literatura é um sistema universal e o romance é o gênero mais adequado para dar sustentação a esse sistema.
Há hoje algum interesse pela literatura brasileira na Rússia?
Sim. Já existe um grande número de escritores brasileiros traduzidos na Rússia. José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Jorge Amado (toda a obra), Erico Veríssimo e muitos dos mais recentes. Mas Jorge Amado e Monteiro Lobato são os mais traduzidos.
Tem acompanhado as novas manifestações da literatura russa? Algum nome que mereça destaque e ainda seja desconhecido do público brasileiro?
Confesso que o que li até agora de autores recentes me deixou muito frustrado. Até traduzi dois – Nikolai Dejnióv e Boris Akúnin (este, georgiano). Foi uma tradução difícil, porque não tive nenhuma empatia com os autores. Mas sei que há bons autores.
Que herança ficou dos anos vividos na extinta União Soviética?
No campo intelectual, ficou uma grande herança; no campo político, a certeza de como não deve ser o socialismo.
Como antigo militante do Partido Comunista Brasileiro, que balanço nos faz dos acertos e erros em sua trajetória?
O Partidão deu uma imensa contribuição para que se discutissem os grandes temas brasileiros e tentou, a seu modo, muito canhestro, superficial, apontar soluções. Errou muito mais do que acertou. Também dirigido por Prestes, que primeiro ouvia os stalinistas e neo-stalinistas soviéticos e depois “analisava” a realidade brasileira! O resultado não poderia ser mais frustrante.
Acredita que com o fim da União Soviética os ideais socialistas voltaram à esfera das utopias irrealizáveis? O mundo caminha unicamente para os regimes liberais?
Não é uma questão de crença, mas de observação do processo histórico e da realidade do capitalismo ora triunfante. Nem a experiência soviética serviu, nem o capitalismo privatista será solução. Os ideais de uma sociedade solidária, capaz de oferecer o pleno emprego e condições dignas de vida, capaz de gerar felicidade, a mais ampla possível, serão sempre um guia para o sonho e a ação dos homens honestos e decentes. O tempo tratará de reatualizar aqueles ideais.
Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo(USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo(USP), professor, ator e jornalista.