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A Associação dos Arquivistas Suíços (AAS) celebra seu 100º aniversário. A assembleia geral realizada em Berna encerra um ano comemorativo que ofereceu à AAS a oportunidade se apresentar ao público em geral e reafirmar o "papel essencial dos arquivos para o Estado de direito e para a democracia". Uma campanha necessária para uma profissão em constante luta contra a falta de meios e reconhecimento, observa o arquivista Lionel Dorthe.Este conteúdo foi publicado em 30. agosto 2022 - 15:00
É do conhecimento geral que existem arquivos, mas muito menos se sabe para que são realmente utilizados. Para entender melhor sua atividade, nos encontramos com Lionel Dorthe, colaborador científico do Arquivo do Estado de Friburgo. Ele participou da redação de “A Fábrica da Memória / História dos Arquivos Cantonais de FriburgoLink externo”, uma das poucas obras na Suíça a traçar a história dos arquivos.
Centenário da AAS
A Associação dos Arquivistas Suíços (AAS) foi fundada em 4 de setembro de 1922. A principal organização da profissão inclui os arquivos dos 26 cantões suíços e Liechtenstein, 200 instituições e mais de 750 membros individuais.
Para marcar seu centenário, a associação organizou a operação "Arquivo em turnêLink externo". Uma caixa de arquivo percorreu a Suíça e Liechtenstein, parando a cada etapa para acrescentar um novo item de arquivo relacionado ao local. Ela deixou o Arquivo Federal em Berna no dia 22 de fevereiro e retornará a Berna no dia 15 de setembro para a assembleia geral centenária da AAS.End of insertion
swissinfo.ch: Qual é a origem dos arquivos como os conhecemos hoje?
Lionel Dorthe: Os arquivos surgiram indiretamente, no sentido de que foram as chancelarias estaduais ou instituições eclesiásticas que começaram a manter documentos comprovando a aquisição de direitos e liberdades. Assim que a palavra escrita se tornou fundamental para garantir um direito, foi necessário um lugar para guardar os documentos. Uma coisa levou a outra, e os arquivos incluíam então outros tipos de documentos da atividade diária do Estado como a contabilidade, atas de reuniões governamentais, etc.
swissinfo.ch: Em Friburgo, como no resto da Suíça e da Europa, este fenômeno remonta ao século 13. Isto não é coincidência...
L.D.: Com efeito, houve uma explosão de documentos em toda a Europa a partir de 1200. A palavra escrita começou então a passar para as mãos dos leigos. Não eram mais apenas os monges que escreviam, mas também os comerciantes, notários e departamentos governamentais. Na virada do século 13, os estados começaram a ser centralizados e documentos úteis tiveram que ser guardados.
swissinfo.ch: Desde então, o fluxo de documentos continuou a aumentar, até os dias de hoje. Como administrar esta massa de documentos?
L.D.: O problema do espaço para armazenar documentos, indiferentemente do meio, é o problema recorrente dos arquivos em qualquer lugar do mundo. Os arquivos sempre crescerão inevitavelmente, uma vez que seu propósito é a preservação. Quanto mais o tempo passa, mais seu volume aumenta.
Um bom arquivamento também significa saber quais documentos destruir, pois não podemos guardar tudo. É mantido um máximo de 10 a 15% da documentação produzida. O papel do arquivista cantonal é estabelecer uma política de arquivamento. Assim que um documento não é mais de uso legal ou administrativo, surge a questão sobre o que fazer com ele. Se for considerado sem valor informativo e não tiver a intenção de se tornar parte do patrimônio documental, ele é destruído.
A falta de espaço, mas também a falta de meios de arquivamento, é o resultado da falta de reconhecimento. Qual é a finalidade dos arquivos? Esta questão tem se repetido ao longo da história da instituição!
swissinfo.ch: Qual é a finalidade dos arquivos?
L.D.: Sem uma organização estruturada, uma instituição, uma empresa ou o Estado estará sempre em estágio de sobrevivência. É uma ilusão acreditar que se pode funcionar corretamente sem documentação estruturada. É uma questão de rentabilidade, pois a busca de informações requer muito tempo e recursos.
O Estado também tem a tarefa de garantir o processo democrático e a transparência das instituições e decisões. Somente os arquivos podem garantir essa rastreabilidade; sem nós, não há democracia! Parece trivial, mas não é preciso muito para que as coisas mudem. Quem é eleito e legítimo no cargo? Por que temos que pagar impostos? Os documentos que o justificam têm que ser guardados em algum lugar.
Os arquivos podem ser comparados ao deus Jano, com um rosto voltado para o passado e outro para o futuro. Uma sociedade sem memória é uma sociedade sem futuro. É fundamental poder garantir o processo democrático e a transparência das atividades, mas também devemos administrar todos os arquivos históricos.
Para o centenário da AASLink externo, escolhemos colocar simbolicamente na caixa de arquivo itinerante um registro prisional contendo as atas dos interrogatórios criminais realizados no final do século 17 em Friburgo. A ideia era mostrar a importância da preservação a longo prazo de nosso patrimônio documental e sua disponibilidade hoje. Ele tem um valor informativo muito importante, pois documenta não apenas as crônicas judiciais da época, mas também os costumes e a vida cotidiana de nossos antepassados.
swissinfo.ch: Quem são seus clientes?
L.D.: Antes de tudo, os genealogistas interessados na história de sua família. Depois há também muitas pessoas que fazem pesquisa, especialmente pesquisa histórica. Finalmente, temos também colegas de outros departamentos e até mesmo outros profissionais, como arquitetos que desejam consultar plantas antigas para uma renovação.
swissinfo.ch: Digitalizar os arquivos nos permitiria alcançar muitas pessoas a mais, não é verdade?
L.D.: A ideia de que nossos arquivos podem ser consultados em qualquer parte do mundo é atraente, mas temos que ser realistas. O processo de digitalização e o armazenamento dos arquivos em servidores é caro.
Apenas alguns estudiosos e especialistas são capazes de decifrar manuscritos antigos e compreender línguas como o latim, o alemão antigo ou o franco-provençal. Colocar tudo online exigiria muito esforço e dinheiro para pouco benefício.
Em vez de quantidade, decidimos nos concentrar na qualidade do serviço. Portanto, oferecemos edições de fontesLink externo, onde os documentos colocados on-line são contextualizados, vocabulário complicado é explicado e todos os lugares e pessoas mencionadas são identificados.
swissinfo.ch: Ainda sobre o tema TI, nossa sociedade está gerando mais e mais documentos desmaterializados. Como conservá-los?
L.D.: O escritório sem papel é uma utopia. Nunca produzimos tanto papel, apesar da disseminação dos computadores. Há ainda o velho reflexo de imprimir o que é considerado importante, mesmo e-mails, o que diz muito sobre nossa falta de confiança na desmaterialização.
O que prevalece no momento é uma conservação híbrida, onde os documentos são mantidos tanto na forma física quanto digital. No que diz respeito à preservação a longo prazo, seria ideal poder dizer que os documentos criados em formato digital serão preservados na mesma forma. Mas isto requer uma adaptação. Não vamos manter um documento em sua forma Word por causa da obsolescência do meio. Nós o transformaremos, por exemplo, em PDF, para que possa ser mantido de forma permanente e manter sua integridade.
Para o futuro, a profissão e a política decidiram se concentrar no digital. Isto continua sendo um risco, pois há falta de conhecimento e experiência. Ao contrário de um pergaminho, quem pode garantir que as informações desmaterializadas armazenadas em um disco rígido ainda possam ser lidas em mil anos?
swissinfo.ch: Se seus arquivos estivessem ameaçados de destruição, o que você salvaria primeiro?
L.D.: Duas coisas, sempre em relação a esta dupla face de Jano. No lado administrativo, teríamos que manter todas as recentes decisões governamentais, todos os documentos considerados vitais para o bom funcionamento do Estado.
No lado patrimonial, eu manteria a Carta de Franquia (Handfeste) de 1249, que constitui a base escrita da liberdade de Friburgo. Trata-se de um documento altamente simbólico. Eu também salvaria o famoso Tratado de Paz Perpétua celebrado entre a Confederação e a França em 1516. É um dos diplomas mais suntuosos que temos: os 19 selos estão em um estado excepcional de preservação.
Adaptação: DvSperling
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