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Eleitores em Berna irão decidir em 17 de maio entre o fechamento de um próspero centro cultural para 150 artistas residentes ou aprovar os planos de uma incorporadora imobiliária.
O público está em melhor posição para decidir quem deve ganhar na disputa entre arte e comércio, afirma especialistas em planejamento urbano. Porém eles alertam para que a decisão de fechar o "Progr" não seja tomada de maneira leviana.
Verdadeiros espaços culturais que são administrados pelos próprios artistas são difíceis de ser mantidos e necessitam ser protegidos, argumenta Kersten Höger, um conferencista do Instituto de Design Urbano na Politécnica de Zurique 8EPFZ). Seus defensores argumentam ainda que o centro cultural ajuda a colocar Berna no mapa cultural do país.
"Um voto público envolve as pessoas nessas questões de valor público", nota Nicolas Kretschmann, um arquiteto especializado em planejamento urbano.
A questão gira em torno de um cobiçado prédio, uma espaçosa ex-escola no centro de Berna, ocupado pelo centro cultural "Progr" em base provisória durante os últimos quatro anos. Desde então, as antigas salas de aula foram transformadas em um caleidoscópio de diferentes oficinas de artistas, indo da vanguarda, engenheiros de som e até estilistas de moda.
Com o fim do contrato de aluguel em julho, a cidade decidiu abrir uma licitação pública para encontrar um destino ao prédio e aceitou os planos de um empreendedor imobiliário de Zurique, a empresa AllReal, para transformá-lo em um centro de saúde.
Mas em uma repentina reviravolta no outono passado, as autoridades municipais decidiram oferecer ao Progr a chance de investir no mínimo 12 milhões de francos (US$ 10 milhões) para comprar e renovar o complexo histórico.
Quando eles conseguiram, decidiu-se permitir ao eleitorado de Berna dar a palavra final sobre quem poderá comprar o prédio.
Críticos afirmam que a decisão das autoridades colocou a sua reputação em risco. E também resultou em um desafio jurídico, como questiona atualmente o partido da direita nacionalista União Democrática do Centro (UDC). Seus representantes questionam atualmente a validade da rescisão da licitação pública, uma decisão que ainda está pendente.
Uso misto
AllReal descreve a situação como "extremamente negativa". "Nós participamos da competição, fomos nomeados como ganhadores e mais ou menos, de um momento para o outro, as coisas mudaram de uma forma que é realmente difícil para entender", declara o porta-voz da empresa, Matthias Meier.
O seu projeto de 25 milhões de francos, batizado de "Doppelpunkt", é a construção de um centro de saúde e uma escola, onde a oferta atual de concertos musicais poderia ser mantida. O centro de saúde iria oferecer uma opção barata para pessoas necessitando de tratamentos simples, ao invés de ir para o hospital.
"Estamos convencidos de que essa combinação de três diferentes formas de utilização irá assegurar que a população de Berna terá alguma utilização do prédio também no futuro", reforça Meier. "Iremos ver se os eleitores bernenses, ou a maioria deles, vêem a idéia da mesma maneira. No final do dia de votação teremos de aceitar o que a maioria decidir."
Na campanha para poder continuar, o Progr obteve garantias de apoio financeiro de 120 pessoas, incluindo o bilionário suíço Hansjörg Wyss, no prazo de apenas seis semanas. "Essa é a prova de que o povo de Berna quer mantê-lo e nos apoiar", afirma Peter Aerschmann, presidente da campanha em prol do Progr.
"Berna nunca teve uma cena artística antes. Todos os artistas iam para Zurique ou Berlim. Agora esse círculo está aumentando. São mais de 150 artistas nesta casa, de todo tipo. É uma mistura fantástica que eu nunca vi no mundo". Ele ainda diz que a capital de um país deve ser tão importante do ponto de vista político como cultural.
"Estamos no meio da Europa. É realmente interessante para alguém do continente estar aqui. Artistas vêm de outros países, assim como existem os artistas em residência. Para nós em Berna, é realmente importante ter essa espécie de 'networking'. Existem pequenas cidades com fama de ter bons círculos artísticos e essa também é uma chance para Berna."
Oponentes dizem que o centro cultural não é uma opção viável a longo prazo. Aerschamann é contra e justifica sua posição lembrando que o futuro do prédio está garantido contratualmente, pois se o centro não pagar o aluguel, a casa retorna à prefeitura.
Valorização de área
Em matéria de planejamento urbano, especialistas notam que, muito mais do que empreendimentos imobiliários, esse tipo de centros artísticos de baixo orçamento tem o histórico de "inflamar" o desenvolvimento em áreas urbanas.
"Esses centros culturais iniciados de forma informal são muitas vezes catalisadores urbanos e campo de reprodução para novos programas culturais melhor estabelecidos", acrescenta Kretschmann.
Sua colega, a arquiteta Höger dá o exemplo de dois casos similares em Zurique, um a oeste da cidade, onde uma subcultura artística revitalizou uma área, mas os artistas acabaram sendo expulsos de lá devido aos preços elevados do aluguel. Em um caso diferente, novas construções foram realizadas para manter os artistas na área.
Ela acredita que uma solução para a situação em Berna poderia ser reservar uma parte do prédio para os artistas.
"Essa é a tendência mundial no planejamento urbano, onde fomentadores como a AllReal descobriram que ao apoiar a cultura, oferecendo também espaços baratos para trabalho, eles podem se beneficiar também."
"Penso que isso é bom para a sustentabilidade e também para que os projetos comerciais privados se tornem mais valorizados."
Jessica Dacey, swissinfo.ch
Fatos
Preço de venda da antiga escola ginasial: 2,4 milhões de dólares.
O centro Progr é administrado por uma fundação com um conselho de curadores, que administra o prédio e assume a responsabilidade financeira. O centro inclui oficinas para artistas, área de exposições, palco para shows e um bar. O aluguel anual do espaço é de 650 mil francos.
Programa de financiamento: doações para a proposta de compra: 2.047.300 francos.
Cartas de intenção para empréstimo: 4.515.200. Empréstimos bancários garantidos: 5,5 milhões de francos.
Planos do AlReal: construção de um centro de saúde e escola para 160 estudantes. Manter o espaço de concertos. Remodelação do pavilhão público. Investimentos totais: 25 milhões de francos.
Planos do Progr: consertar o telhado e a parte externa do prédio (custos estimados em 8 milhões de francos. Reforma do pavilhão público.