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do Observatório de Geopolítica
Modernização Chinesa
por J.Renato Peneluppi Jr.
O processo de “modernização na China” começou há mais de 40 anos, com a Reforma e Abertura. Após a morte de Mao Zedong, Deng Xiaoping propõem o “Xiaokang Shihui” 小康社会[1] (sociedade moderadamente próspera) como orientação base para as Quatro Modernizações[2] (四个现代化) – Indústria, Agricultura, Defesa, Ciências e Tecnologia – os quatro setores internos para investir capital estatal e externo. Sendo essa a essência da Reforma e Abertura (改革开放), politica econômica que desenvolveu a China que vemos hoje, através de um processo que opera na contramão da historia e no vácuo da decadência das “democracias liberais” aceitando o papel de “chão de fábrica do mundo”.
Enquanto isso, as economias ocidentais adentravam no período de financeirização que extinguiu boa parte dos projetos nacionais de desenvolvimento, inclusive o do Brasil. Já a China aproveitou o momento para colocar em pratica ações de politica pública, com o Estado assumindo o papel de agente condutor do processo de desenvolvimento das forças produtivas e do crescimento econômico. E isso é algo que acontece até os dias atuais.
Em 2021, em plena pandemia, a China alcançou sua meta centenária[3] de eliminar a pobreza absoluta, tornando-se uma sociedade moderadamente prospera, e agora visa atingir até 2035 a meta de ser um país socialista moderno. E isso tem por base um cenário em que a maioria da população chinesa é abastada de meios confortáveis de sobrevivência. É o que eles chamam de prosperidade comum. O projeto de modernização chinesa, segundo Xi Jinping no 20º Congresso do Partido Comunista da China, realizado em 2022, é a modernização de uma enorme população, da prosperidade comum para todos, do avanço material e ético-cultural, da harmonia entre a humanidade e a natureza, e do desenvolvimento pacifico, diante dos desafios deste século.
Pude presenciar a pratica dessa teoria durante uma viagem à província de Sichuan para filmar o documentário sobre o desenvolvimento da região[4]. No distrito de Xide, na Prefeitura Autônoma da Etnia Yi de Liangshan, que era uma das três regiões mais pobres da China, o progresso econômico e o desenvolvimento das forças produtivas se materializou no cultivo de oliveiras. Através de apoio técnico-cientifico do Estado e da liderança local os trabalhadores da região passaram a garantir o sustento através das produções de azeite de oliva, agregando valor ao produto.
Esse processo também leva em conta o projeto de revitalização rural, de modo a garantir a segurança alimenta, conectando o campo as cidades, cada vez mais inteligentes, digitais e interligadas, conectando a costa desenvolvida (região Leste) ao centro e ao oeste da China dentro da nova dinâmica econômica intitulada Dupla circulação[5] (双循环). Tudo isso fomenta a demanda domestica chinesa em um ciclo de dupla circulação, que também faz ponte com o exterior diante da necessidade de exportar capital (Iniciativa Cinturão e Rota), superando a fase inicial de acumulação primitiva socialista, a China oferece os recursos necessários para construir projetos de infraestrutura em países parceiros.
E é dentro desse contexto que se insere o Brasil. Depois de passar décadas perdidas de desenvolvimento, com o desmontes de sua indústria nacional e inchaço das cidades com o surgimento de favelas e a precarização do trabalho devido a expansão de atividades do setor de serviços, o Brasil tem no seu grande parceiro comercial a chance de reassumir o controle dos modos de produção e através de uma politica de comando, também o potencial de transformação social, promovendo a inclusão de renda e combatendo a fome. Como bem referencia Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, em entrevista no Roda viva, que mostra como EUA, China e Coreia do Sul se posicionam no mercado internacional de inovação com apoio e investimento estatal.
A China segue seu curso no processo de modernização, enquanto o Brasil precisa resgatar aquilo que viveu dos anos 30 ate a década de 80, quando se tornou o principal aluno do Consenso de Washington. Essa decisão é soberana e nem a China nem ninguém pode fazer essa escolha por nós, ou por nosso país. Sendo assim o que se vê que a China oferece uma oportunidade diferente da do Ocidente. Não se trata de um sistema de exploração dos recursos naturais e nem de ameaças militares, mas sim de um sistema com “outro modelo de dinamismo econômico” na relação entre: o centro e as periferias. É uma aliança com muitos polos com ações de beneficio mutuo (ganha-ganha) e diretrizes de médio e pongo prazos, a favor de todo o planeta. E isso que a China busca uma iniciativa de competição pacifica em nível global.
[1] Resgatando o conceito confucionista, usado para descrever uma sociedade composta por uma classe média funcional. O termo é encontrado no Livro das Odes (Shijing) e descreve que “o povo está realmente sobrecarregado e agora merece algum grau de prosperidade”.
[2] Em Janeiro de 1963, Zhou Enlai convocou profissionais das ciências para realizar “as Quatro Modernizações”, na Conferência Nacional sobre Ciência Agrícola e Trabalho Tecnológico. Em 1963, Nie Rongzhen referiu-se especificamente às Quatro Modernizações como abrangendo agricultura, indústria, defesa nacional, ciência e tecnologia. Em 1975, em um de seus últimos atos públicos, Zhou Enlai apresentou novamente a proposta das Quatro Modernizações na 4ª legislatura do Congresso Nacional do Povo.
[3] Cem anos de fundação do Partido Comunista da China (PCCh), fundado em 1921.
[4] Rumo a prosperidade: azeite de oliva revigora aldeia em área montanhosa da China.
[5] Estratégia do governo chinês para reorientar a economia do país priorizando o consumo doméstico (“circulação interna”), mantendo-se aberto ao comércio e investimento internacionais (“circulação externa”). O primeiro estudo acadêmico sobre a dupla circulação a definiu como “o reequilíbrio econômico impulsionado pelo consumo doméstico para alcançar o desenvolvimento econômico sustentável”.
J.Renato Peneluppi Jr. é advogado, Doutor e Mestre em administração pública chinesa pela Huazhong University of Science and Technology. É Diretor Executivo da China University Summer School Association. Foi pesquisador na Boston University (2017-2018) e na Universidade de Oslo (2016).
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