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A chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, em Santo Domingo, República Dominicana, no dia 15 de junho de 2016(afp_tickers)
A Venezuela acusou nesta terça-feira o governo do Brasil de apoiar um "complô" para impedir que ela assuma a presidência do Mercosul.
A chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, acusou o ministro brasileiro das Relações Exteriores, José Serra, por propor o adiamento para agosto da transferência da presidência do Mercado Comum do Sul do Uruguai para a Venezuela.
Qualificando Serra como "chanceler de facto", Rodríguez disse no Twitter que esta posição "viola" princípios básicos das relações internacionais.
A ministra chamou de "insolentes e amorais" as declarações de Serra após a reunião, no Uruguai, com o presidente Tabaré Vázquez e o chanceler Rodolfo Nin Novoa.
"A presidência (do Mercosul) tem que ser fruto de uma unanimidade", disse Serra nesta terça-feira, reconhecendo a falta de acordo na transferência da liderança do Mercosul em razão da situação interna da Venezuela.
Rodríguez reafirmou que no Brasil "está em curso" um golpe de Estado contra "a vontade" dos que elegeram a presidente Dilma Rousseff, afastada de maio passado em meio ao processo de impeachment.
Na reunião com Tabaré Vázquez e Rodolfo Nin Novoa, o chanceler brasileiro defendeu que o Mercosul precisa de mais tempo para decidir se a Venezuela pode ou não assumir a condução do grupo.
"O que pedimos foi mais tempo. Aguardar até agosto". "A presidência tem que ser fruto de uma unanimidade", acrescentou Serra, reconhecendo, assim, a falta de acordo sobre a mudança de comando.
O Mercosul é presidido pelo Uruguai desde o começo do ano, e, segundo seus estatutos, em julho deveria passar à condução da agenda do bloco à Venezuela.
Paraguai e Brasil se mostram claramente reativos a essa possibilidades. O presidente argentino, Mauricio Macri, em declaração reproduzida pela jornal La Nación, disse que a Argentina poderia assumir a presidência do bloco nos próximos meses no lugar da Venezuela.
O Uruguai declarou sua forte oposição à proposta brasileira, e o chanceler do país, Nin Novoa, não deu qualquer declaração durante a visita de Serra.
- Diferenças entre sócios -
"Não pensava em chegar a uma conclusão durante a visita", limitou-se a dizer Serra, perguntado sobre a resposta de Vázquez e de Nin Novoa a seu pedido.
Segundo Serra, em agosto vence o segundo prazo dado à Venezuela para cumprir os "requisitos" normativos do Mercosul. O Brasil acha que se poderia esperar até esse momento para resolver sobre a passagem da presidência temporária.
As críticas a Caracas estão cada vez mais duras do interior do Mercosul. O país ingressou como membro-pleno em 2012, em uma cúpula na Argentina que não contou com a presença do Paraguaia, na época suspenso pela deposição de Fernando Lugo por parte do Congresso. Desse modo, a entrada da Venezuela no bloco ocorreu sem a aprovação do Senado paraguaio.
Agora, o Mercosul suspendeu sua cúpula de julho em meio a essa divergência interna, com críticas de Paraguai, Brasil e Argentina à Venezuela.
O Uruguai anunciou a passagem da presidência à Venezuela semana passada e repetiu nesta segunda-feira que o faria.
"O Uruguai não vai dar um só passo para ficar na presidência do Mercosul", afirmou Nin Novoa na segunda-feira.
Nin Novoa reconhece que na Venezuela há "uma democracia autoritária", mas adverte que não houve "ruptura" da ordem institucional.
A passagem da presidência temporária do bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela é objeto de duros questionamentos por Assunção desde que foi confirmada, na semana passada, em um encontro dos chanceleres de Uruguai e Argentina, Nin Novoa e Susana Malcorra.
"Ainda não fomos informados da decisão, mas lamentamos que Uruguai e Argentina tenham anunciado publicamente, sem antes informar e consultar nosso país sobre passar a presidência pro tempore do Mercosul para a Venezuela", disse Eladio Loizaga, chanceler paraguaio, na semana passada.
Loizaga insistiu que o Paraguai não aceita que a presidência pro tempore do bloco seja passada a um Estado em que o governo "está buscando o fechamento de um Poder do Estado através do Supremo Tribunal de Justiça, o fechamento da Assembleia Nacional, que é a voz do povo".
Desde a semana passada, a postura argentina parece ter sofrido modificações.
O presidente Mauricio Macri disse em uma entrevista publicada na segunda-feira pelo jornal espanhol ABC que o governo venezuelano de Nicolás Maduro "violou todos os direitos humanos" e "levou à fome e ao abandono a população venezuelana. Por isso, precisam de eleições o mais rápido possível".
"Nós vamos presidir os próximos meses o Mercosul", disse Macri em Bruxelas, segundo o La Nación.
Uma reunião de chanceleres do Mercosul poderá acontecer no dia 11 de julho em Montevidéu.
AFP