Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02533.jsonl.gz/4

O discurso incendiário do presidente iraniano pode esvaziar a conferência antirracismo organizada em Genebra. Já boicotada por vários países ocidentais, a reunião está ameaçada de se tornar um fracasso.
swissinfo entrevista Doudou Diène, ex-relator especial da ONU sobre o racismo.
Nomeado relator especial sobre o racismo no dia seguinte à conferência de Durban (África do Sul) em setembro de 2001, o senegalês Doudou Diène teve um papel importante nos preparativos da conferência de seguimento organizada durante esta semana em Genebra.
Esse cientista político propôs particularmente que a extremamente problemática questão da difamação de religiões seja levada ao nível jurídico dos direitos humanos sob o ângulo da incitação ao ódio. Essa proposição permitiu superar um dos principais pontos de discórdia do esboço de declaração final da conferência de Genebra.
Como o senhor interpreta o discurso provocador do presidente iraniano?
De uma parte, esse discurso tem uma dimensão de provocação por sua análise do sionismo considerado como racismo. A questão é que o conflito entre israelenses e palestinos é político, estando longe dessa leitura étnica e racial.
Quanto à parte política do seu discurso, ela reflete as análises de alguns países do Terceiro Mundo sobre o capitalismo e o estado do mundo atual.
Os Estados Unidos, como outros países ocidentais, decidiram não participar da conferência em Genebra. Qual é a sua reação?
Essa é uma decisão incompreensível, já que existe um documento de base adotado na sexta-feira por consenso, incluindo também o consentimento de países europeus. Nele não estão incluídos nenhum dos pontos que eles consideram como inaceitáveis. As razões apegadas para não participar da conferência perdem então credibilidade.
A decisão de Washington, particularmente, é também muito lamentável, pois vem de um país – os Estados Unidos – que tem as experiências históricas mais fortes do racismo e que operou avanços extraordinários para combatê-lo, sendo que a última é a própria eleição de Barack Obama.
Essa decisão se opõe à vontade exprimida publicamente pela administração Obama de unir-se e contribuir nos trabalhos das Nações Unidas. E ela não leva em conta a opinião das minorias americanas, que se mobilizaram fortemente para que os Estados Unidos participassem da conferência em Genebra. Esse apelo foi retomado pela Câmara de representantes.
A conferência não estaria reforçando as divisões entre os países ocidentais e os países islâmicos?
Essa divisão participa do discurso sobre o choque das civilizações, uma análise errônea. A conferência mostra, ao contrário, que os direitos humanos são o principal terreno de diálogo de civilizações. A partir das posições divergentes, os diferentes países estão adotando instrumentos internacionais que engajam todo o mundo.
Esse processo é evidentemente doloroso, difícil e controverso, mas permite construir uma comunidade internacional sobre a base de princípios comuns.
O que a conferência de Durban em 2001 demonstrou e que pode ser confirmado pela conferência de Genebra é que, apesar das divisões históricas e políticas no mundo, é possível se compreender nas questões fundamentais.
Todos os países que decidem sair da conferência carregarão a responsabilidade extremamente grave de enfraquecer a mobilização contra o racismo, enquanto este fenômeno aumenta no mundo inteiro, seja o antissemitismo na Europa e nos continentes que não o conheciam historicamente, o racismo anti-negros ou anti-brancos, assim como o contra muçulmanos.
Em consequência as forças do racismo, que são potentes e que geralmente investiram no campo político, vão deduzir que podem continuar a agir. E é então que todos os países do mundo são hoje em dia multiculturais. Os velhos conceitos do norte e do sul não têm mais uma realidade profunda.
Em Genebra, um embaixador de um país árabe qualificou de provocação a comemoração frente ao Palácio das Nações do Dia do Shoah (Dia do Holocausto) paralelamente à abertura da conferência. Esse crime contra a humanidade teve, portanto, um papel essencial na adoção, há 60 anos, da Declaração Universal dos Direitos Humanos...
Absolutamente. Na declaração final de Durban I, um parágrafo lembra inclusive explicitamente que o Holocausto não deve ser esquecido e isso apesar das tentativas de alguns Estados de evitar a inclusão desse parágrafo. A comemoração do Holocausto é, portanto, perfeitamente legítima nesse contexto.
Um dos grandes obstáculos no combate universal contra o racismo é a divisão das vítimas, quando cada comunidade de vítimas considera sua memória história como única e separada das outras. O grande desafio é levar todas as vítimas da discriminação a reconhecer o caráter singular de cada uma dessas discriminações, ao mesmo tempo construindo pontes na direção de outras comunidades de vítimas, partilhando ao mesmo tempo as emoções e a compreensão dos sofrimentos dos outros.
Por isso deveria ser absolutamente normal que a comemoração do Holocausto ocorra nos países muçulmanos, assim como a comemoração da abolição da escravidão ocorra também nos países ocidentais.
Como relator especial sobre o racismo, o senhor participou nos preparativos da conferência de Genebra. Quais lições podem ser tiradas dessa experiência.
Ao nível das Nações Unidas, dois pontos me decepcionaram. O combate contra o racismo deve ser levado em duas frentes, o político e legislativo dos Estados e o que permite de tocar as raízes culturais do racismo: a sociedade civil.
O erro da ONU é de não ter dado todo o espaço à sociedade civil no processo de Durban II.
Meu segundo desgosto é que a ONU não tenha feito um balanço do que foi empreendido ou não desde a conferência de Durban contra o racismo e isso para cada país membro da ONU.
Baseado nessa tabela de medidas tomadas em nível nacional, a conferência de Genebra teria podido sair dos debates ideológicos para se voltar para situações reais. Isso, pois a maior parte dos países que adotaram a declaração de Durban não a aplicou em nível nacional.
swissinfo/Infosud, Carole Vann e Frédéric Burnand
Ahmadinejad e Israel
Racismo. Durante o discurso realizado na Conferência antirracismo da ONU (Durban II, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad criticou o estabelecimento de um "governo racista" no Oriente Médio após 1945, fazendo uma alusão clara à Israel.
Agressão. "Após a II. Guerra Mundial, sob pretexto de sofrimentos de judeus e a questão ambígua e duvidosa do Holocausto, um grupo de países poderosos recorreu à agressão militar para fazer de uma nação inteira uma população sem abrigo; eles enviaram migrantes da Europa, dos Estados Unidos e de outros lugares para estabelecer um governo totalmente racista na Palestina ocupada", afirmou o presidente iraniano, segundo uma tradução da ONU.
Protestos. Os representantes de países da União Europeia abandonaram rapidamente a sala em sinal de protesto.
Retirada. A República Tcheca, que preside atualmente a União Europeia, decidiu abandonar definitivamente a conferência Durban II.
Perucas. Pouco antes do discurso, três manifestantes fantasiados com perucas multicoloridas e narizes de palhaço gritaram "racista, racista" em direção ao presidente iraniano. Eles foram expulsos posteriormente por agentes de segurança da ONU.
Ban Ki-moon. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, criticou através de um comunicado as declarações feitas contra Israel por Mahmoud Ahmadinejad.
"Lamento a utilização desta plataforma pelo presidente iraniano para acusar, dividir e mesmo provocar", declarou M. Ban, que antes havia mesmo alertado anteriormente Ahmadinejad para evitar fazer um "amalgama entre sionismo e racismo" durante um encontro dos dois lideres.