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Poucas mídias na Suíça mantém uma rede própria de correspondentes no exterior. Quem são essas pessoas que contam aos seus compatriotas as histórias do mundo? Hoje falamos de Valérie Dupont, correspondente do canal francófono RTS em Roma, Itália.Este conteúdo foi publicado em 02. outubro 2020 - 15:15
"La vita è bella". Com essa frase curta é possível descrever Valérie Dupont e sua vida em Roma. Essa jornalista de 50 anos conta à swissinfo.ch como foi seu percurso profissional e os últimos meses vividos na Itália, que lhe deixaram uma profunda impressão.
Antenada com o mundo
Até quase se lembra, Valérie sempre se sentiu atraída por outros países. Aos 17 anos decidiu viver nos Estados Unidos por um ano, onde frequentou a faculdade. De volta à Bélgica (ela é franco-belga) começou a estudar jornalismo e logo foi contratada por uma produtora que se ocupava de jornalistas credenciados pela União Europeia.
Então entrou para a RTBF (Rádio e Televisão Belga de língua francesa), onde trabalhou até se tornar editora-chefe do noticiário noturno. Em 2005, um encontro mudou sua vida. Hubert Gay-Couttet, então chefe dos correspondentes internacionais na Rádio e Televisão da Suíça francófona (RTS), procurava um freelancer para cobrir a Itália. Era um país que já estava na sua mira de predileção e onde conheceu o marido. Valérie diz que a vida "lhe oferece uma oportunidade". Naquela época, ela percebeu que não tinha realmente "a ambição de ser chefe", mas sim queria contar histórias. Juntamente com Hubert Gay-Couttet, convenceu a RTBF a criar uma posição conjunta de correspondente em Roma para a Suíça e Bélgica.
"Há muitas semelhanças entre a Bélgica e a Suíça", diz Valérie. Os vários idiomas, equilíbrios regionais e políticos que precisam ser conhecidos". Estas semelhanças permitem que compreenda melhor a Suíça. Ela também faz visitas regulares a Genebra, a sede da RTS, pois "acha estimulante estar próxima dos colegas de redação". Isto também lhe dá a oportunidade de visitar a filha, que hoje vive na cidade de Calvino às margens do lago Lèman.
Ela trabalha para a Suíça há 15 anos e se sente em casa no país. Embora tenha vários passaportes, Valérie Dupont sente-se europeia. "Não gosto de me identificar com o lugar de nascimento. Certamente tem uma influência na nossa cultura, mas, no final das contas, um documento de identidade é usado apenas para atravessar fronteiras". Valérie se define antes de tudo como "uma mulher que teve a oportunidade de exercer a profissão que desejava e de forma gratificante."
País de contrastes
A franco-belga também acha "insuportável" que as mulheres não tenham um lugar mais importante no mercado de trabalho na Itália. E observa: "As estruturas atuais são um obstáculo". Ela lamenta, por exemplo, que o comitê de emergência criado durante a crise do coronavírus tenha sido composto apenas por homens. Ao mesmo tempo, "foram as mulheres pesquisadoras que enfrentaram a epidemia". "É verdade que a sociedade italiana é muito machista, mas nunca senti ter sido menos considerada pelo fato de ser mulher". Ela diz que o país às vezes é mais lento do que outros em aceitar mudanças sociais, mas "há sempre uma mulher forte para colocar a igreja de volta aos seus eixos."
Quando fala da Itália, os olhos de Valérie cintilam. "Adoro a liberdade de propor reportagens para mostrar o país, que ainda é muito selvagem no Sul e muito industrializado no Norte". São os contrastes que fazem da Itália um lugar maravilhoso. Ela também gosta da ideia de ter se tornado o rosto da Itália para os telespectadores suíços, "com todos os seus aspectos positivos e negativos.
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De fato, nem sempre é fácil exercer sua profissão em um país onde "a imprensa é desacreditada pelos políticos". Quando retorna à Roma após ter escrito um artigo, não é raro que seja presa pela polícia e tenha de justificar suas ações. Um dia, enquanto filmava em frente ao Palazzo Farnese (um ponto turístico onde está localizada a Embaixada da França), a polícia veio averiguar, "embora nunca tenha pedido nenhuma explicação aos milhares de turistas que tiram fotos no local todos os dias!". Ela diz ter a impressão que a imprensa está sob controle no país.
Nos vários artigos que escreve sobre Matteo Salvini (líder da extrema direita italiana, a Lega, e ex-primeiro ministro da Itália), Valérie Dupont foi criticada por muitos suíços. Isto não a impediu de continuar a falar, justificando que se trata de uma "obrigação do jornalista de apresentar todas as facetas da realidade". Ele sorri ao falar da ironia da situação: "No Norte da Itália, bastião histórico da Lega, a Suíça é uma referência, pois é o país onde tudo funciona e as regras são respeitadas. Já a Lega no cantão do Ticino é bastante anti-italiana..."
A chegada do novo coronavírus
Para a jornalista, o clichê de uma nação caótica onde a malandragem impera, é um exagero. O governo impôs um confinamento muito rigoroso quando a pandemia surgiu e "as pessoas respeitavam as regras". Ela admite que o país não estava preparado, mas "mesmo assim sabia como enfrentar a crise e lidar com o problema."
Entre fevereiro e maio, Valérie Dupont passou todos os dias nas ruas. "No início, quando estávamos na zona vermelha, não percebíamos que a situação era potencialmente perigosa para nossa saúde". Pouco antes do confinamento, ela comprou duas máscaras de proteção FFP2. "Eu usei as mesmas máscaras por semanas."
Além do risco à saúde, houve também o impacto pessoal. "Viver ao lado de pessoas desesperadas, impedidas de ver seus familiares prestes a morrer, foi insuportável". As imagens de Bergamo permanecerão para sempre gravadas em minha memória". Valérie a coloca as lembranças em perspectiva: "Somos uma geração que viveu uma pandemia, mas também não era exatamente uma guerra."
Entretanto, diz estar chocada com a falta de solidariedade na Europa. Ela viveu a chegada de voluntários russos e depois cubanos, mas depois viu como os países vizinhos se "fechavam como ostras". Em geral, a jornalista considera que "a crise trouxe à tona o pior e o melhor da política europeia". Ela reforçou sua ideia de que as televisões e rádios públicas são fundamentais, pois "são o ponto de referência para a informação em todos os países afetados."
"A pandemia nos tirou da rotina jornalística", disse. Valérie acredita que, paradoxalmente, a crise foi benéfica para a profissão, pois a colocou novamente à frente das verdadeiras perguntas que todos os jornalistas devem fazer.
Adaptação: Alexander Thoele