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Mais uma exposição de Gerhard Richter vê o dia, mas essa, proposta pela Fundação Beyeler, é diferente. O curador Hans Ulrich Obrist realça a esquizofrenia artística que pode ter sido a chave do sucesso de um artista reverenciado no mundo inteiro.
Poucos artistas contemporâneos conseguem alcançar a fama, e os preços, do artista alemão de 82 anos. Richter quebra constantemente o recorde de preços para um artista vivo nos leilões e acumula o maior número de exposições ao longo da vida.
Richter passeava pela exposição Beyeler com um olhar distanciado. Quando o diretor da fundação, Sam Keller, anunciou: "Gerhard Richter é o artista mais influente do nosso tempo", o artista permaneceu educadamente distante.
Hans Ulrich Obrist conhece Richter há 27 anos. O curador da exposição explicou como conseguiu convencer o artista a vir à Basiléia, propondo mostrar temas que ainda não haviam sido explorados.
Obrist disse para swissinfo.ch que curadoria é sempre uma questão de diálogo. Depois de "longas, longas horas de discussão", Richter e ele chegaram à ideia de ilustrar como os ciclos, as séries e uma consciência dos espaços atravessam a obra do artista.
O paradoxo Richter
Quando um artista explora tantas técnicas e expressões, como Richter fez durante mais de 50 anos, ele acaba se confundindo. Ele pode até parecer inconsequente. Afinal, é um artista que construiu sua reputação com foto-pinturas, monocromos e borrões, o que não seria exatamente o que se poderia considerar a grande arte.
A reconstrução das séries que caracterizaram a obra de Richter e sua apresentação em conjunto nas paredes arejadas do prédio projetado por Renzo Piano formam uma exposição extraordinária.
Sam Keller explica porque considera a exposição na Beyeler a mais bela já apresentada pela fundação: "A exposição é tocada pela mão do artista. É uma das maiores obras de arte que Richter já fez".
Uma exposição obra de arte
Cada sala da exposição conta uma história diferente.
A galeria principal desafia a gravidade com uma escultura maciça de vidro intitulada 12 Panes (Row) 2013 sobreposta entre seis gaiolas monumentais chamadas Cage (2006). Diante delas, seis quadros abstratos vermelhos, Rhombus (1998), feitos para uma capela de Renzo Piano que nunca foi construída. A impressão é que a peça inteira está flutuando para o jardim. A preocupação de Richter com a relação da arte com o espaço não poderia ser melhor ilustrada.
Mas o verdadeiro toque de magia que se destaca na exposição são as pequenas pinturas figurativas que quebram a série, pelas quais Richter seja talvez mais conhecido. Obrist as chama contrapontos, emprestando o termo da música, que desempenha um grande papel na inspiração de Richter.
Dissolução
"Todas as coisas de qualidade tem uma atemporalidade", disse Richter, em uma entrevista por ocasião de sua exposição de 2011 na Tate. "Pinturas mostram o que não está lá".
As manchas marcantes e os contornos fora de foco indicam um sentido de urgência, como se Richter tentasse dissolver o tempo.
Sua mais recente incursão na arte digital impressa (Strip, 2013) trata o mesmo princípio de dissolução. Obrist explica como as cores Pantone dos anteriores 1024Colors (1973) foram digitalmente esticadas.
Junto com as esplêndidas 4900Colors (2007), que enchem a sala inteira, estes trabalhos colocam a questão do estado da arte quando não é fabricada inteiramente pelo artista. “E, no entanto, ele não tem uma fábrica como Warhol e só é ajudado por dois assistentes e um gerente de estúdio”, garante Obrist.
Lixo
Para um artista no auge da fama, Richter é excepcionalmente incisivo com a arte contemporânea. "A arte é um processo de transformação", disse na conferência de imprensa, acrescentando mais tarde: "70% do que é feito é lixo".
Já não há critérios para julgar obras-primas, explicou. Os cânones do passado, o que permitia julgar a qualidade de uma obra de arte, como no caso da Mona Lisa, desapareceram.
A crítica que faz também pode ser aplicada a sua obra, já que seria difícil identificar qualquer uma das pinturas na exposição como obras-primas, além das obras figurativas emblemáticas pelais quais ficou famoso, e adorado, como Betty (1988), Reader (1994) e Ella (2007).
A obra também não parece ter uma mensagem subjacente, porque mesmo o seu período “Exército Vermelho” veio 11 anos após que os comunistas aterrorizaram a Alemanha e nunca foi seguido por outras manifestações políticas.
Em vez disso, seus ensaios, alguns diriam mesmo sua esquizofrenia, garantiram seu lugar no panteão dos heróis de arte. Talvez isso seja o que os novos cânones se tornaram, a capacidade de um artista de ser um espelho do seu tempo, abraçando infinitamente o potencial das novas técnicas.
GERHARD RICHTER
Gerhard Richter nasceu em Dresden, em 1932. Ele fugiu da Alemanha Oriental com 29 anos, depois de estudar na Academia de Belas Artes de Dresden, onde aprendeu a pintura mural.
Mudou-se para Düsseldorf em 1961 e começou no ano seguinte uma amizade com Sigmar Polke (1941-2010), também um ex-alemão oriental. Vive agora em Colônia.
Em 1964, fez suas primeiras foto-pinturas e montou sua primeira exposição.
Desde então, de acordo com o “Artindex”, Gerhard Richter acumulou o maior número de exposições durante a sua vida (1256), antes de Bruce Nauman (1244) e Cindy Sherman (1006).Aqui termina o infobox
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch