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O país também esteve envolvido na construção de uma imagem racista do homem contemporâneo e isso ainda molda nossa sociedade hoje.
Desde a morte violenta de George Floyd nos Estados Unidos, pessoas em todo o mundo foram às ruas para protestar contra o racismo estrutural. Uma breve análise nos espaços reservados para comentários online, mostram que o racismo ainda é negado, banalizado ou visto como um problema individual por muitos suíços. Por aqui impera a máxima: racistas – são os outros.
Um retrospecto torna-se útil para entender os paralelos entre a morte de um afro-americano em Minneapolis e o nome de um local em Berna como um “Bar Colonial” – e por que o racismo ainda tem um impacto na lei suíça.
Embora nunca tenha sido uma potência colonial em si, a Suíça sempre esteve econômica, política e culturalmente interligada com os estados coloniais vizinhos e, portanto, fortemente influenciada por sua mentalidade racista e colonialista.
Além disso, de muitas maneiras, os suíços foram ativos em empreendimentos coloniais e na construção e disseminação de ideias racistas.
Participação suíça no tráfico de escravos
O povo suíço esteve envolvido no comércio transatlântico de escravos desde o início. Somente na segunda metade do século XVIII, entre 15 000 e 20 000 escravos foram embarcados por 80 comerciantes suíços de escravos para o Caribe, América do Norte e do Sul em 80 expedições de navios. Mesmo meio século após a abolição da escravidão no Congresso de Viena em 1864, o Conselho Federal ainda considerava “vantajoso e contemporâneo” que os suíços que viviam no exterior “comprassem meninos negros e lhes ensinassem um ofício”.
O continente “escuro” serviu como um espelho no qual o povo suíço mede o progresso de sua própria sociedade. Além disso, quando exóticos, os africanos eram frequentemente retratados como “pagãos enigmáticos” que “deveriam ser criados de um estado intelectual infantil para uma vida adulta responsável”.
“O circo humano” que espalhou a imagem do selvagem não civilizado em pela suíça, também teve uma grande influência na representação dos africanos. Em 1960, o famoso Circus Knie realizava apresentações com animais e pessoas africanas na Sechseläutenplatz, em Zurique.
Embora a Suíça goste de se mostrar do lado de avançado, as representações racistas de africanos da época colonial ainda permanecem nos dias de hoje. Nos últimos tempos, eles até foram usados especificamente para alcançar objetivos políticos. A ascensão do grupo político SVP (abertamente racista) está intimamente ligada a uma linguagem visual que trabalha com o medo do “homem negro” e aos discursos coloniais sobre o “outro” inferior.
Para ganhar os eleitores, o SVP elaborou uma linguagem visual agressiva nos anos 90. Em numerosas campanhas de coordenação nos níveis federal e cantonal, o SVP usou um contraste em preto e branco, no qual o homem “parasita”, preto e parasitário ameaça a Suíça branca e pura.
O racismo estrutural é então definido como a formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade que coloca um grupo social ou étnico numa posição melhor para ter sucesso e prejudicar outros grupos: O Suiço ainda não aboliu a escravidão, de uma maneira geral.
Faça um teste rápido e pergunte a um suíço ou suíça se ele, ou ela conhece, ou já ouviu falar de Tilo Frey. Provavelmente a resposta será negativa. Tilo Frey (1923-2008), filha de um suíço e uma africana, foi a primeira mulher negra a se tornar membro do parlamento nacional suíço – eleita entre 1971 e 1975 pelo partido liberal-radical, hoje conhecido pelas siglas PLR.
Nomes importantes da sociedade suíça, como De Pury, Burckhardt, Sulzer, Escher, entre outros, lucraram consideravelmente com o comércio transatlântico. Muitos construíram verdadeiros impérios. Essas famílias viam esse negócio como um investimento. Imóveis que foram construídos com o dinheiro do trabalho escravo podem ser encontrados em praticamente todas as grandes cidades.
Suíços proeminentes emigraram para o Brasil em 1817 e em 1819 fundaram a fábrica de rapé Areia Preta, baseada principalmente no trabalho escravo. Se conectou a Gabriel von May e em 1826 mudou a fábrica Areia Preta para o Solar de Unhão, nos arredores da Bahia, onde hoje fica o Museu de Arte Moderna de Salvador. O negócio contava ainda com duas filiais, uma em Andarahy, próxima ao Rio de Janeiro (1832), e outra Pernambuco (1836).
A relação suíça com a escravidão estrutural precede a nossa história.