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A expulsão de refugiados judeus nas fronteiras suíças durante a II. Guerra Mundial continua a dividir historiadores. A revista francesa "História do Shoah" analisou mais profundamente o tema.Este conteúdo foi publicado em 15. dezembro 2019 - 12:45
O posto alfandegário de Caprino dá vista para o lago de Lugano. Em 1935 o espaço foi transformado no museu da alfândega. Na época, o objetivo do fundador, o guarda froteiriço Angelo Gianola, era apresentar ao público diversos objetos ligados ao trabalho diário dos agentes. Nos anos 1970, o museu local se tornou o Museu da Alfândega SuíçaLink externo. Porém um visitante pode se questionar se o único tema tratado é apenas o comércio ilegal durante os anos da guerra.
"Temos aqui os únicos registros documentados de refugiados acolhidos pela Suíça durante a guerra. Mas a lista inclui também nomes dos que foram impedidos de entrar", explica o historiador Adriano Bazzocco no artigo que publicou na revista "História do ShoahLink externo" (publicação do Memorial do ShoahLink externo, Paris), em uma edição dedicada ao tema "Suíça frente ao genocídio".
A lista nos arquivos do museu em Caprino exibe nomes de 150 judeus: 97 tiveram o pedido de refúgio aceito e 53 foram obrigados a retornar. Dos expulsos, 21 conseguiram entrar após várias tentativas. Porém 11 foram presos e deportados para Auschwitz, dos quais nove morreram nos campos. O destino dos 19 restantes é desconhecido", explica Bazzocco, que hoje escreve uma tese sobre a história do contrabando na fronteira ítalo-suíça.
Alguns escaparam aos registros
Até hoje os historiadores não conseguiram descobrir o número exato de judeus expulsos nas fronteiras helvéticas durante a II. Guerra e dos que conseguiram entrar. Se alguns fracassavam na primeira tentativa, eles procuravam outros caminhos e podiam ter sucesso.
Uma avaliação dos dados encontrados nos arquivos do cantão do Ticino revela apenas uma parte desse quadro. Aproximadamente vinte pessoas que passaram por lá desapareceram. Elas teriam conseguido atravessar as fronteiras? Foram deportadas? Perguntas difíceis de reponder com exatidão.
Porém é preciso ter números exatos a qualquer custo? Se assumirmos que o número de refugiados rejeitados chegaria a algumas milhares de pessoas, o relatório Bergier estaria correto. Esse estudo lembra que os refugiados judeus poderiam ter sido acolhidos pela Suíça sem qualquer risco político ou militar para o país", lembra Marc Perrenoud.
Discrepâncias nos números
É preciso dizer que, neste caso, as estimativas diferem. O relatório Bergier foi preparado por uma comissão independente de historiadores especializados na II. Guerra Mundial. Seu nome deve-se ao fato de ter sido presidida por Jean-François Bergier. Segundo um dos seus membros, o historiador Guido Koller, 24.500 judeus e não-judeus teriam sido barrados nas fronteiras helvéticas durante a guerra e impedidos de entrar.
No entanto, como lembra Adriano Bazzocco, a comissão chegou a declarar que uma grande parte dos civis barrados eram judeus, pelo menos até a primavera de 1944. "Isso explica por que a mídia, e até mesmo os historiadores, associavam o número de civis barrados à política discriminatória contra os refugiados judeus, causando uma grande confusão", acrescenta o historiador.
No entanto há contradições. Dos 12.508 refugiados barrados entre setembro de 1943 e março de 1944 na única fronteira do Ticino, estudada por Bazzocco, estima-se que uma grande parte eram italianos ao invés de refugiados judeus.
Ponto mais sensível
Foi na fronteira franco-suíça que selou-se o destino da maioria dos refugiados judeus. A historiadora Ruth Fivaz-Silbermann, autora de uma tese recente sobre o assunto, estima que "o número de judeus barrados nas fronteiras chega a 3.270. Na fronteira ocidental, 2.850 pessoas foram barradas e 12.675 judeus tiveram autorização para entrar no país.
O resultado difere consideravelmente das estimativas da Comissão Bergier. Onde está a verdade? Marc Perrenoud, um dos estudiosos que participou do estudo, explica a diferença vem de problemas encontrados: lacunas documentais, documentos destruídos e a falta de informações corretas sobre as pessoas barradas "impedem a compilação de estatísticas definitivas e exaustivas sobre o que ocorreu na fronteira suíça durante o período que vai de 1939 a 1945".
Na revista "História do Shoah", Marc Perrenoud não se limita a estudar apenas a história da Suíça durante a guerra, mas aborda também a política interna. De fato, a época foi marcada por uma extrema relutância das autoridades suíças em relação à imigração estrangeira, especialmente de judeus.
Rothmund, o chefe da Polícia
Em 1932 "mais de 16 mil estrangeiros foram impedidos de entrar na Suíça por não provar renda ou trabalho", escreveu o agente Samuel Haüsermann, chefe das aduanas. No contexto de uma política de reduzir a população estrangeira conduzida a partir da Primeira Guerra Mundial, o judeu não é bem-vindo.
Em 1942, Heinrich Rothmund, chefe do Departamento de Polícia no ministério da Justiça, chegou a afirmar: "O judeu sempre foi considerado um estrangeiro em nosso país e só era admitido se concordasse em se adaptar costumes locais."
Quando a pressão aumentou na fronteira franco-suíça, em 1942 após disputas diplomáticas com a Alemanha, Rothmund ordenou que "as pessoas que fugiam apenas por questões raciais, dentre eles os judeus, não deveriam ser reconhecidos como refugiados políticos."
Foi necessário esperar até ao fim da guerra, lembra Marc Perrenoud, para que a Suíça voltasse a abrir suas portas.
Arquivos do Memorial do Shoah
O acervo da instituição é composto por milhares de documentos, fotos e objetos de arquivos privados, doados através de campanhas de conscientização.
Há setenta anos, o Memorial do Shoah é o maior centro de investigação, documentação e sensibilização da Europa sobre a história do genocídio dos judeus durante a II. Guerra Mundial. Hoje conta hoje com mais de 40 milhões de documentos e artigos, 270 mil fotos - incluindo 16 mil imagens de judeus deportados da França - e 80 mil livros e periódicos.End of insertion
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