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Há 450 anos, os primeiros suíços chegaram ao Brasil. Os 14 missionários calvinistas que desembarcaram perto do Rio de Janeiro em 1557 a bordo de navios franceses, foram seguidos por milhares de outros compatriotas. Durante aproximadamente 250 anos, esta imigração se caracterizou por seu caráter eminentemente missionário: aos protestantes, seguiram-se também os católicos. Citemos como exemplo, o padre jesuíta Aluízio Conrado Pfeil, que em 1685 traçou um mapa que, 200 anos mais tarde, desempenhou um papel importante durante as discussões sobre a determinação da fronteira ao longo do rio Oiapoque. Um outro suíço, o célebre naturalista Emílio Augusto Goeldi, diretor do Museu Paraense em Belém entre 1894 e 1907 (museu este que ainda hoje leva seu nome), por sua vez, assumiu um importante papel na arbitragem do governo suíço em 1º de dezembro de 1900. Essa mediação foi solicitada pela França e pelo Brasil, as partes envolvidas no conflito fronteiriço. Graças à contribuição de Pfeil e Goeldi, o Estado do Amapá hoje é brasileiro.
Além destes dois suíços que influenciaram o destino do Brasil, este livro relata a vida dos compatriotas que, durante o século XIX, aqui se instalaram e escreveram algumas páginas da história do Brasil. No início, eram agricultores, artesãos, professores e eclesiásticos, e mais tarde, empresários, cientistas e artistas que decidiram deixar a antiga pátria para construir uma nova vida deste lado do Atlântico. A decisão, no entanto, nem sempre foi voluntária, muitos fugiram da miséria: viúvas, órfãos e pobres faziam parte da lista dos primeiros imigrantes. Os que decidiram imigrar para o Brasil, fizeram-no porque a agricultura da Suíça produzia pouco ou porque sofreram as conseqüências sociais da industrialização. Muitos foram pressionados pelas autoridades que não quiseram mais subvencioná-los. Alguns foram atraídos por agentes de recrutamento inescrupulosos e por falsas promessas. Outros – uma minoria – sonhavam simplesmente com uma rápida ascensão e uma vida melhor. Todos enfrentaram a longa e difícil travessia rumo ao Brasil. Uns pereceram durante a viagem, antes mesmo de chegar à terra prometida, outros sucumbiram logo após a chegada em decorrência da fadiga e das doenças. Os sobreviventes descobriram um país fundamentalmente diferente de sua antiga pátria. Os que pensavam que o sucesso econômico e a ascensão social viriam automaticamente, decepcionaram-se. Muitos colonos, embora livres, viviam em condições análogas às da escravidão. Assim, a história da imigração suíça no Brasil não seria lida somente como um relato de sucesso.
Entretanto, muitos compatriotas felizmente conseguiram atingir uma relativa prosperidade neste país, apesar das circunstâncias às vezes adversas. Certamente, sem afinco, persistência ou sorte, eles não teriam atingido tal progressão social. A natureza brasileira, que à primeira vista era tão exuberante, tornou difícil a tarefa de quem desejava domá-la e dela tirar proveito. Assim, os primeiros colonos de Nova Friburgo encontraram enormes dificuldades em cultivar as terras cobertas de matas espessas e encharcadas por chuvas intensas. Precisaram de tempo para se adaptar às novas condições. Graças a inovações e muita perseverança, por exemplo, na criação de gado e na fabricação de queijo, conseguiram transformar a luta pela sobrevivência dos primeiros anos em uma existência digna de um ser humano.
Este livro é dedicado a estes imigrantes e a seus descendentes que, ao longo do tempo, fincaram suas raízes aqui. Ele relata a vida dos pioneiros de origem suíça que, no século XIX, criaram e dirigiram comércios ou se destacaram como fabricantes de cerveja, produtores de cacau e café ou que aperfeiçoaram a tecnologia para se obter açúcar da cana. Outros suíços ganharam renome na área de formação profissional, ciência e pesquisa. O SENAI, criado em 1942, teve como seu primeiro diretor do Departamento de São Paulo o suíço Robert Mange, originário do Cantão de Vaud, formado pela Escola Politécnica de Zurich. Julius Meili, de Winterthur, é considerado o pai da numismática brasileira, e um ornitologista suíço conseguiu dar seu nome a algumas espécies de pássaros nativos: o Papa-Lagarta-de-Euler (coccyzus euleri) é denominado segundo seu identificador Carlos Hieronymus Euler, de Basiléia. Os imigrantes suíços ou seus descendentes destacaram-se também como artistas: citemos o fotógrafo Wilhelm Gaensly, originário do cantão de Thurgau, ou o compositor Henrique Oswald, filho de um comerciante suíço, natural de Neuchâtel.
A presente obra nos conta a história destes imigrantes e de muitos outros. Ela trata de personalidades extraordinárias e da vida dos pioneiros, mas também de homens e mulheres anônimos que, sobretudo no século XIX e até o fim da II Guerra Mundial, estabeleceram-se no Brasil, ajudando a moldar a diversidade da sociedade brasileira. Todos, de diferentes maneiras, contribuíram para que o Brasil e a Suíça tenham hoje laços tão estreitas e amicais.
Rudolf Baerfuss
Embaixador da Suíça no Brasil, Agosto 2007