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Os chamados a negociar e proteger a população civil do Tigré se multiplicaram nesta terça-feira, ante a expiração do ultimato dado pelo premier etíope, Abiy Ahmed, aos dirigentes daquela região para que se rendam.
A "operação militar" lançada em 4 de novembro pelo poder federal etíope contra as autoridades da Frente de Liberação do Povo do Tigré (TPLF) entrou em uma fase decisiva, segundo o governo em Adis Abeba.
O poder federal afirma que irá lançar a batalha de Mekele, capital daquela região, para expulsar os líderes da TPLF e substituí-los por um novo governo. Ahmed deu no último domingo aos líderes do Tigré um ultimato de 72 horas para que se rendessem, ao qual o presidente do Tigré e chefe da TPLF, Debretsion Gebremichael respondeu: "Somos um povo de princípios e estamos dispostos a morrer."
A comunidade internacional e os órgãos de direitos humanos se preocupam com a perspectiva de um ataque contra Mekele, que tem 500.000 habitantes, além de um número indeterminado de deslocados que se refugiaram lá desde o início do conflito.
"Enquanto as tropas federais etíopes se preparam para atacar Mekele, a Anistia Internacional lembra a todas as partes que atacar deliberadamente civis (...) é proibido pelo direito humanitário internacional e constitui um crime de guerra" afirmou em um comunicado Deprose Muchena, secretária para a África do Leste e Austral da ONG, que pede também que os civis "não sejam usados como escudos humanos".
A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, alarmou-se hoje com a "retórica altamente agressiva" das duas partes, temendo que a mesma "resulte em novas violações do direito humanitário internacional".
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU pediu às partes que permitam que os civis que buscam ajuda humanitária possam cruzar as fronteiras.
- Quarenta mil refugiados -
Na ONU, europeus e africanos mostraram suas divisões. A primeira reunião do Conselho de Segurança sobre o conflito, organizada hoje por iniciativa da África do Sul, que preside a União Africana (UA), foi cancelada em um primeiro momento a pedido dos países africanos, para dar mais tempo à mediação. Mas membros europeus do Conselho, apoiados pelos Estados Unidos, anunciaram que a reunião aconteceria.
"Os europeus manifestaram sua preocupação, condenaram a violência étnica e pediram a proteção de civis", informou um diplomata daquele continente. A UA, cuja sede se encontra na capital etíope, designou vários enviados especiais, essencialmente ex-presidentes africanos, para realizar uma mediação.
O porta-voz da célula de crise governamental para o Tigré, Redwan Hussein, reiterou ontem a rejeição do governo federal em iniciar negociações. O governo apenas "falará com esses enviados (...) por respeito aos líderes africanos", disse.
Estados Unidos e França, por sua vez, disseram apoiar os esforços da UA. Questionado sobre as dúvidas que parecem reinar no Conselho de Segurança sobre o conflito no Tigré, o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou que a UA está na linha de frente dos esforços internacionais e que o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, apoia essa proposta.
Um novo comunicado de Guterres assinala sua preocupação com uma possível ofensiva militar em Mekele. O secretário-geral "exorta os dirigentes da Etiópia a fazer todo o possível para proteger os civis, respeitar os direitos humanos e garantir o acesso humanitário" às populações, assinala o texto.
O conflito obrigou 40.000 habitantes do Tigré a buscarem refúgio no Sudão, causado inúmeros deslocamentos internos na região, embora sua magnitude seja desconhecida.
Nenhuma afirmação das duas partes pode ser verificada por fontes independentes, já que o Tigré está praticamente isolado do mundo. Também não há um balanço preciso dos combates, que causaram pelo menos centenas de mortes.