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Uma exposição em Zurique mostra como o comércio de escravos, a exploração colonial e a conversão religiosa levaram à criação da indústria têxtil suíça, incrementando a sua riqueza.
No século XVII, "os indianos eram os únicos que sabiam fazer tecidos de algodão estampados", diz Pascal Meyer, curador de uma exposição sobre têxteis chamada "Indiennes"Link externo no Museu Nacional Suíço (Landesmuseum), em cartaz até 19 de janeiro. "Não havia algodão nem cor na Europa."
Como explica a exposição de Zurique, a técnica de fabrico de tecidos de algodão estampados coloridos foi copiada pelos holandeses e britânicos, que utilizaram a mecanização para os tornar mais baratos e prejudicar a indústria têxtil indiana.
Os tecidos "Indiennes", brilhantes e acessíveis, produzidos na Europa tornaram-se tão populares que o "Rei Sol" Luís XIV teve de proibi-los devido à pressão dos fabricantes domésticos de lã, seda e linho.
O "boom" suíço e o comércio de escravos
O protecionismo pode ter consequências involuntárias, e a proibição, imposta pela França no século XVII, da fabricação e importação de Indiennes foi uma dádiva dos céus para a Suíça. Os protestantes franceses, que também fugiam da perseguição religiosa, emigraram para a Suíça e estabeleceram fábricas de têxteis perto da fronteira francesa, em lugares como Genebra e Neuchâtel.
A demanda para os Indiennes estava em seu pico e os tecidos eram contrabandeados através da fronteira com a França. Em 1785, a empresa Fabrique-Neuve em Cortaillod, cantão de Neuchâtel, tornou-se a maior produtora de Indiennes da Europa, produzindo 160.000 painéis de tecido só naquele ano.
O comércio de Indiennes trouxe uma enorme riqueza à Suíça, mas tinha um lado negro. Os tecidos foram usados como moeda corrente a ser trocada por escravos na África, que eram enviados então ao Novo Mundo. Os tecidos suíços, por exemplo, representavam 75% do valor das mercadorias num navio chamado Necker que se dirigia para Angola em 1789.
As empresas têxteis também investiram seu capital no lucrativo comércio de escravos. Os registros mostram que entre 1783 e 1792, a empresa têxtil Christoph Burckardt & Cie, com sede em Basileia, detinha ações em 21 expedições de navios de escravos que transportaram cerca de 7.350 africanos para as Américas. Grande parte da prosperidade nos centros têxteis suíços em torno de Genebra, Neuchâtel, Aargau (Argóvia), Zurique e Basileia estava ligada ao comércio de escravos.
Projeto colonial
As origens do status da Suíça como um centro de comércio de commodities podem ser rastreadas até meados do século XIX, quando os comerciantes suíços compravam e vendiam mercadorias como algodão indiano, sedas japonesas e cacau da África Ocidental em todo o mundo. Estas mercadorias nunca chegaram à Suíça, mas os lucros do seu comércio acabaram no país.
A guerra civil americana e a subsequente abolição da escravatura criaram uma crise de commodities na década de 1860, especialmente para o algodão. A empresa suíça Volkart, que operava fora da Índia desde 1851, fez do algodão bruto o seu principal negócio. Ela se aproveitou dos interesses coloniais de Grâ-Bretanha de garantir o fornecimento de matérias-primas para as tecelagens de Manchester para expandir suas operações em Índia.
Sob a domínio colonial britânico, os agricultores indianos foram coagidos a produzir cada vez mais algodão em vez de alimentos, e ainda tinham que pagar um imposto sobre a terra que caía diretamente nos cofres do Raj britânico.
Graças a essas políticas e à expansão da ferrovia para as regiões do interior da Índia, a Volkart foi capaz de controlar 10% de todas as exportações de algodão indiano para a Europa. A localização central da cidade suíça de Winterthur, onde a Volkart estava baseada, significava que a empresa era capaz de fornecer fiações para o norte da França e Itália, Bélgica, região do Ruhr na Alemanha e no resto da Suíça.
Apesar de a Volkart requisitar aos seus funcionários que não praticassem qualquer preconceito racial, eles acabaram seguindo algumas das práticas coloniais da Índia.
"Aos empregados indianos não era permitida a entrada na sala de descanso. Era também um estilo colonial de viver e de trabalhar com os indianos", diz Meyer.
Zelo missionário
Outro empreendimento que floresceu durante o domínio colonial foi a Missão da Basileia. Fundada em 1815 por protestantes suíços e luteranos alemães, a missão procurava converter "pagãos" - não crentes - ao cristianismo.
O esforço foi bastante bem sucedido no que são agora os estados do sul da Índia de Kerala e Karnataka, particularmente entre os indianos das camadas mais baixas da sociedade que receberam acesso à educação e treinamento profissional pela primeira vez.
No entanto, a conversão para outra religião significava correr o risco de ser afastado da comunidade e de perder o seu sustento. A Missão da Basileia reagiu iniciando projetos comerciais na Índia, como as fábricas de tecelagem, para empregar os recém-convertidos. Na década de 1860, ela administrava quatro fábricas de tecelagem e exportou têxteis para todos os cantos distantes do império britânico, como África, Oriente Médio e Austrália.
"Parte da missão foi positiva porque proporcionaram empregos para os indianos das castas mais baixas, mas por outro lado foi uma ação eminentemente colonialista pois só ajudou aqueles que se tornaram cristãos", diz Meyer.
O objetivo da exposição "Indiennes" no Museu Nacional é justamente mostrar aos suíços como seu país e sua indústria têxtil estão ligados à história mundial e ao colonialismo. E a indústria ainda tem muitos desafios a enfrentar, diz Meyer.
"Temos muitos workshops com jovens para discutir temas como comércio justo e moda supérflua."
Fonte: "Indiennes: Material para mil histórias" publicado em 2019 pela Christoph Merian Verlag e editado pelo Museu Nacional Suíço.Aqui termina o infobox
Adaptação do original em inglês de Eduardo Simantob