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O bailarino japonês Tetsuya "Teddy" Kumakawa, membro do júri do “Prix de Lausanne” deste ano, fala à swissinfo.ch sobre a importância do reputado concurso de dança, dos bailarinos e da vida profissional desses artistas depois dos 40 anos.
Nascido em 1972, Tetsuya Kumakawa é o maior bailarino japonês e também um dos melhores do mundo.
Após seu encontro com o professor suíço Hans Meister, Kumakawa deixou o Japão aos 15 anos para estudar na Royal Ballet School (RBS), em Londres. Menos de dois anos depois, ele colecionava prêmios, incluindo a medalha de ouro do Prix de Lausanne de1989, com sua interpretação de uma variação de Dom Quixote.
Bailarino principal e diretor da companhia K-Ballet, em Tóquio, essa é a segunda vez que Kumakawa participa como membro voluntário do júri de Lausanne.
swissinfo: Qual é o significado desta competição?
Tetsuya Kumakawa: É muito especial. Para os jovens alunos esta competição significa muito, pois pode abrir novas portas para a carreira deles.
Eu estava na Royal Ballet School no ano antes de ganhar a medalha de ouro em 1989, mas a minha reputação se espalhou graças a este lugar. Isso aqui realmente significa muito para mim.
Descobrir novos talentos é sempre uma coisa difícil. Eu quero dar algo de volta para a competição que me apresentou. Eu quero tentar pagar o que ganhei. Estou muito feliz de estar aqui como voluntário e se há algo que eu possa fazer para ajudar a jovem geração, como membro sênior, eu vou fazer.
swissinfo: O que você está procurando como membro do júri?
T.K.: Estamos olhando como os alunos trabalham, o potencial e a capacidade deles, e olhamos profundamente dentro de cada candidato.
Para os alunos, tudo passa pela confiança e não ser engolido pelas pressões. Eles provavelmente treinaram para esta competição durante todo o ano.
É um longo processo que dura cinco dias. Nas competições normais você sobe no palco bem arrumadinho e apresenta lá sua performance. Aqui você está em um estúdio, sendo constantemente observado pelos juízes, que olham como você trabalha e se você pode aguentar as pressões.
swissinfo: Quando vemos vídeos de você dançando em produções como Don Quixote, seus graciosos saltos parecem desafiar a gravidade, mantendo um equilíbrio incrível durante as intermináveis piruetas. Que tipo de movimentos ou emoções você tenta transmitir quando dança balé clássico?
T.K.: A música é muito importante. Você tem que reagir instantaneamente à música. Você leva a música em seu corpo, você a digere para comunicá-la através do movimento. Você tem que criar a paixão dentro de si para reagir à música, você tem que amá-la.
Quando você é jovem, você tende a se concentrar em como saltar e girar, mas é um processo de crescimento. Quando seu corpo amadurece, você olha para coisas diferentes. Na minha idade, a técnica não é mais tão atraente. Eu estou mais interessado nas linhas ou como mostrar emoção através da música.
swissinfo: É a mesma coisa com a dança contemporânea?
T.K.: Eu sempre fui um bailarino clássico. Na dança contemporânea você tem que ser um bom filósofo, ter um lado introvertido. Você tem que ser capaz de se fechar ao que você vê. Há mais significado. Como clássico foi passado durante anos, não é um estilo muito icônico, o que não é o caso do contemporâneo. É uma abordagem totalmente diferente.
swissinfo: Há cada vez mais candidatos do sexo masculino no Prix de Lausanne. Isso reflete um maior interesse por bailarinos?
T.K.: A história do balé sempre foi uma coisa de bailarina. Mas depois do lendário bailarino Nijinsky, os bailarinos também começaram a chamar atenção. Acho que com relação à beleza, não há diferença entre bailarinos e bailarinas.
Os bailarinos têm um lado atlético mais dinâmico, que tem um impacto imediato sobre o público e as pessoas que querem se tornar “bailarinos heroicos”. Mas para as bailarinas, a beleza do estilo, a aparência profunda e emocional são mais desenvolvidas do que para os homens.
Acho que as bailarinas chegam a esse ponto de maturidade mais cedo do que os homens. Para o jovem bailarino, a técnica é mais interessante… você está cheio de energia, que só precisa ser expressada. Essa é a paixão de ser bailarino.
swissinfo: Como os estilos clássicos de dança masculina evoluíram desde que você ganhou a medalha de ouro em 1989?
T.K.: A civilização melhorou muito graças ao YouTube, todo mundo pode ver o que todo mundo está fazendo. Hoje em dia, todo mundo copia todo mundo e troca técnicas (risos).
Mas a técnica não é mais o principal, como costumava ser. Na minha época, a técnica era tudo. Quando eu era criança, tinha que procurar muito para encontrar um vídeo de Rudolf Nureyev ou Mikhail Baryshnikov para comprá-lo com meu dinheiro de bolso e tentar ser como eles.
Hoje as pessoas podem compartilhar a técnica instantaneamente. De certa forma, os bailarinos de hoje se tornam mais maduros tecnicamente mais cedo do que no meu tempo. Para eles, a técnica não é tudo. Hoje em dia eles estão olhando além das linhas e formas da dança, eu acho que é uma boa tendência.
swissinfo: Você é o dançarino principal e o diretor da Companhia K-Ballet em Tóquio. No ano passado você completou 40 anos. Você pretende continuar dançando até quando?
T.K.: Você tem que estar ciente de seus limites físicos. Na minha idade, você não pode se mover como quando você era jovem. Mas me tornei mais maduro como bailarino.
Eu abordo a dança de uma maneira diferente. Aprecio mais a música e a dança com as bailarinas e o resto da companhia. Estou sempre adaptando as peças clássicas do meu jeito, eu tento tornar a história menos complicada para que seja compreendida facilmente, acrescento mais movimentos do que bailarinos.
Há muitas maneiras diferentes de dançar e se expressar no palco, por isso se eu encontrar um repertório para a minha idade, vou continuar no palco.
Mas se as pessoas esperam que eu faça as mesmas coisas que eu fazia na minha adolescência e juventude, eu, pessoalmente, não acho isso interessante.
A Companhia K-Ballet é uma companhia muito especial. Eu me tornei uma estrela desta companhia privada e tenho que continuar dançando e vendendo ingressos como bailarino principal durante o tempo que eu puder.
Adaptação: Fernando Hirschy, Lausanne, swissinfo.ch