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A Organização das Nações Unidas completa 75 anos este ano e já teve nove secretários-gerais. Mas nenhum deles foi mulher. Em 2016, quando os candidatos à sucessão de Ban Ki Moon estavam jogando seus chapéus no ringue, havia um sentimento real de que o momento finalmente poderia ter chegado para uma ocupar a mais alta posição da ONU.Este conteúdo foi publicado em 27. abril 2021 - 08:00
Em um processo de votação que foi mais transparente e mais democrático do que qualquer concurso anterior para o cargo de secretário-geral, várias mulheres altamente qualificadas se candidataram, entre elas Kristalina Georgieva da Bulgária, Helen Clark da Nova Zelândia e Susana Malcorra da Argentina. Mas quando todos os votos foram contados, foi um homem, Antonio Guterres, quem conseguiu o cargo.
Agora Guterres está concorrendo a um segundo mandato e, embora se acredite que a seleção do próximo secretário-geral seguirá o mesmo processo transparente da última vez, isso pode ser uma espécie de exercício cosmético, uma vez que Guterres já recebeu o endosso de uma série de influentes Estados-Membros, incluindo o Reino Unido e a China.
Nesse cenário, duas perguntas martelam nossas cabeças: por que está demorando tanto para ter uma mulher no topo da ONU? E, afinal, Guterres ganhará outro mandato de cinco anos?
Heather Barr, codiretora da Divisão de Direitos da Mulher da Human Rights Watch, disse que está desapontada com o fato de a eleição para o próximo secretário-geral parecer ser uma conclusão precipitada e que espera que candidatas mulheres ainda se apresentem.
“É realmente ofensivo que uma organização que deveria estar focada em tentar corrigir as desigualdades em todo o mundo esteja perpetuando-as continuamente”, ela argumenta.
Mas o histórico da ONU sobre as mulheres é tão ruim? Embora, como aponta nosso analista Daniel Warner, no momento “dois terços dos 127 cargos principais da ONU sejam ocupados por homens”, existiram e continuam existindo mulheres em alguns cargos de alto escalão.
As principais agências de ajuda da ONU, como a Agência das Nações Unidas para Refugiados, o Unicef, o Programa Mundial de Alimentos e a Organização Mundial da Saúde, foram todas, nas últimas três décadas, lideradas por mulheres em um momento ou outro.
Michelle Bachelet é atualmente chefe de Direitos Humanos da ONU, Winnie Byanyima é líder da UNAIDS. Guterres expressa regularmente seu compromisso e o da ONU com a igualdade de gênero e tem apoiado mulheres para cargos de alto escalão, levando o jornalista de Genebra Nick Cumming-Bruce a concluir que, no mínimo, Guterres “quer marcar esse ponto”.
Na verdade, uma candidata um tanto inesperada surgiu agora para desafiar o titular. Arora Akanksha tem apenas 34 anos e passou os últimos quatro trabalhando como coordenadora de auditoria para o Programa de Desenvolvimento da ONU. Nascida na Índia, ela agora também tem cidadania canadense e diz que quer devolver a credulidade à ONU, em particular priorizando a proteção aos refugiados.
Mas Akanksha não tem experiência diplomática, e até mesmo a Índia e o Canadá, que tradicionalmente deveriam apoiar seus próprios cidadãos, se recusaram a apoiá-la.
Enquanto algumas mulheres, como Barr, acolhem a candidatura de Akanksha como uma lufada de ar fresco, outras estão desapontadas por nenhuma candidata com uma chances fortes ter se apresentado.
O processo de escolha dos principais cargos da ONU - embora tenha se tornado mais transparente - também está vinculado à tradição e às preferências regionais. O chefe do Programa Mundial de Alimentos, por exemplo, é invariavelmente um cidadão americano. A liderança do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) da ONU geralmente vai para o Reino Unido.
Agora que o chefe do OCHA do Reino Unido, Mark Lowcock, está de partida, a caça ao seu substituto começou. Os candidatos britânicos estão no topo da curta lista, nos fazendo questionar o quão apropriado é que um país que acaba de cortar publicamente seu financiamento humanitário para o Iêmen e a Síria lidere a agência de ajuda humanitária de emergência da ONU.
É uma discussão instigante e que nos lembra que, apesar de todos os seus recentes compromissos com a igualdade de gênero e com a transparência no processo de seleção de seus dirigentes, a ONU ainda tem muito trabalho a fazer. Algo então, para colocar na lista de afazeres do próximo secretário-geral.
Adaptação: Clarissa Levy