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Graças à mediação do Comitê Olímpico Internacional (COI) as equipes da Coreias do Sul e do Norte estarão disputando juntas as medalhas nos Jogos de Inverno de PyeongChang. O IOC, com sua sede na Suíça, seria um mediador em conflitos políticos? A questão provoca um grande debate no país.
"Os Jogos Olímpicos nos mostram como o mundo poderia ser se todos nos deixássemos guiar pelo espírito olímpico de respeito e compreensão", declarou Thomas Bach, presidente do COI, há três semanas em Lausanne. Nessa cidade, delegados dos dois países concordaram em permitir que seus atletas participassem dos JO.
De acordo com a Carta OlímpicaLink externo os jogos devem levar os atletas para além das fronteiras no objetivo de criar "um mundo mais pacífico e melhor". Porém esse ideal entra em contradição não apenas com os jogos como uma competição entre nações e também devido às condições políticas reais.
Moon conseguiu superar fronteiras
O próprio presidente sul-coreano Moon Jae-in viveu essa experiência na sua própria pele: sua popularidade caiu depois do anuncio histórico que em Pyeongchang haveria a apresentação de uma equipe conjunta de hóquei no gelo das duas Coreias. Especialmente os eleitores que lhe deram o voto em meio de 2017 após suas promessas de melhorar as relações com a Coreia do Norte não gostaram da perspectiva de ver suas chances diminuídas para conquistar uma medalha no esporte.
A ONU e o COI
Desde o início dos anos 2000 as relações entre a ONU e o COI se tornaram mais próximas. Em 2001, o secretário-geral da ONU na época, Kofi Annan, fundou o Escritório das Nações Unidas pelo Esporte à Serviço do Desenvolvimento e da Paz (UNOSDP) com sede em Genebra. Ele nomeou o ex-ministro suíço Adolf Ogi como primeiro embaixador do Esporte e da Paz
Em 2009 o COI se tornou observador da ONU. No mesmo ano, a ONU e o COI organizaram em conjunto o primeiro fórum internacional para esporte, paz e desenvolvimento.
Em 2014, as duas entidades assinaram um acordo de cooperação. "O esporte pode ajudar a superar barreiras culturais, religiosas, étnicas e sociais", declarou na época o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon.
Em 2017, o secretário-geral António Guterres decidiu fechar o UNOSDP e firmou uma "parceria direta" com o COI.
Fonte: UNOSDP e COI
"Dá para ver os limites que tem uma ação parecida", declarou o especialista Samuel Guex, do Departamento de Estudos do Leste Asiático na Universidade de Genebra. "Nós podemos achar que uma equipe misturada é algo positivo. Porém para muitos sul-coreanos o sacrifício esportivo é demasiadamente grande."
Americanos no Sul, programa atômico no Norte
As circunstancias politicas reais também contradizem o ideal olímpico. A esperanças de Thomas Bach de que "os Jogos Olímpicos de Inverno abram as portas para um futuro melhor ao continente" morrerão no mais tardar quando os representantes dos dois países se encontrarem na mesa de negociações para discutir o programa atômico da Coreia do Norte e a presença de militares americanos no Sul.
Para fazer um progresso real é preciso resolver esses problemas após os jogos. "Nesse sentido as Olimpíadas e também o COI não têm muito poder", considera Guex. No melhor dos cenários ele calcula que os dois países poderão reforçar os seus intercâmbios econômicos e culturais.
Que tentativas aparentemente bem-sucedidas de mediação acabem não se cumprindo após o final dos JO é uma constante nos 122 anos de histórias do Comitê Olímpico Internacional. "O esporte nunca resolveu um conflito político", declara Grégory Quin. O historiador pesquisa na Universidade de Lausanne. Porém ele considera que países em disputa têm nos Jogos Olímpicos uma possibilidade de negociar suas diferenças às margens das competições sem provocar muito alarde.
"O COI é um oportunista"
Do ponto de vista diplomático o esporte é bastante flexível e, nesse sentido, o COI aproveita dessas oportunidades", completa Quin. No início dos anos 2000, os COI e a ONU intensificaram suas relações (ver box). Por um lado, o COI quis se posicionar como promotor da paz através do esporte. Por outro lado, há também a intenção de se tornar ativo como ator diplomático a nível intergovernamental.
Essa institucionalização como "diplomata esportivo" não impede, porém, que o COI sempre ressalta que o esporte não tem nada a ver com a política. "Pois o COI só faz política o dia inteiro", reforça Quin. Essa posição "sanduíche" é proposital. Se as tentativas de melhorar as relações entre a Coreia do Sul e do Norte são bem-sucedidas, o COI não perde a oportunidade para destacar seu papel de mediador. Se depois dos JO em Pyeongchang não houver essa aproximação, então o COI lembra que a política não faz parte das suas funções. "O COI atua muitas vezes de forma oportunista", conclui o historiador.
As imagens de atletas sul-coreanos e norte-coreanos caminhando sobre uma bandeira conjunta que surgirão amanhã, na sexta-feira, no evento de abertura no estádio em Pyeongchang, serão transmitidas a milhares de telespectadores no mundo inteiro. Isso é incontestável. Talvez o significado simbólico deste momento pareça colocar as diferenças políticas, ou mesmo esportivas, em segundo plano por um momento.
Nota: O COI não respondeu às questões da swissinfo.ch sobre seu papel de mediadora em conflitos políticos.
Berset em Pyeongchang
O presidente da Confederação Suíça, Alain Berset, está atualmente em visita oficial à Coreia do Sul. Após negociações bilaterais com o presidente Moon Jae-in, ele irá participar das cerimonias de abertura. Outros encontros deverão ocorrer ao longo do evento.Aqui termina o infobox
Adaptação: Alexander Thoele