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Recentemente, presidente da Suíça, Ueli Maurer, denunciou mais uma vez diante da Assembleia Geral da Onu, em Nova Iorque, a pressão exercida pelos grandes países sobre os menores, crítica recorrente também na população suíça. Michael Ambühl, ex-secretário de Estado e estrategista da negociação, relativiza.
Michael Ambühl foi o cérebro das negociações para os acordos bilaterais II, das convenções fiscais com a Grã-Bretanha e a Áustria. O acordo firmado com Berlim foi refutado pelo parlamento alemão. Ele negociou também a convenção FACTA e o acordo bancário com os Estados Unidos e explica à swissinfo.ch que os pequenos países também têm uma certa margem de manobra frente aos mais potentes.
swissinfo.ch: Suas experiências fazem com o senhor tenha a mesma opinião do presidente da Suíça Ueli Maurer que os pequenos países sofrem da superioridade dos grandes Estados?
Michael Ambühl: É claro que os grandes têm mais influência e peso e, portanto, mais possibilidades de exercer uma pressão política. Se um pequeno negocia com um grande, isso pode chegar a uma “situação do tipo Davi contra Golias”. No entanto, nem sempre é desfavorável porque se negociamos com fineza, como Davi, podemos obter excelentes resultados de Golias.
swissinfo.ch:Quais são os países que têm mais influência e peso?
M.A.: Isso depende de fatores políticos e institucionais, mas também do tamanho da economia e da geografia, do fator militar e, enfim, do conhecimento em diferentes áreas. Se um país tem peso em vários desses setores, ele terá evidentemente muito mais influência em política internacional do que um outro que só preenche uma dessas condições ou nenhuma.
swissinfo.ch: E em que ponto a Suíça é influente?
M.A.: Se consideramos as questões atuais da política mundial, a Suíça não pode, logicamente, ter um papel principal. Mas ela pode se, ao contrário, tomamos temas em que ela é especializada como os direitos humanos, a política de paz, os bons ofícios, os direitos de codecisão ou o federalismo. Nessas áreas, ela pode ser levada muito a sério. O antigo secretário geral da Onu, Kofi Annan disse certa vez: ‘Switzerland punches above its weight’ (A Suíça pode jogar na categoria superior).
Quanto à praça financeira, ela faz parte dos atores importantes e, podemos dizer, uma pequena grande potência. Zurique e Genebra jogam na mesma categoria do que Nova Iorque, Londres, Cingapura e Hong-Kong.
swissinfo.ch: Como e onde a Suíça pode exercer uma influência?
M.A.: De um lado, onde ela é especializada e, portanto, nas áreas citadas acima. Aí ela pode tomar inciativas, colocar suas ideias na mesa e ser ativa nos organismos multilaterais.
Por outro lado, onde somos diretamente interessados. Aí devemos representar nossos interesses nacionais e trata-se de pesar se vale a pena se engajar. Não tem muito sentido, por exemplo, combater as normas internacionais, como as regras da OCDE em vigor sobre a colaboração administrativa no setor financeiro.
Quanto à elaboração de regras para o futuro, como as trocas de informações, aí tem sentido se investir ativamente nos órgãos importantes ao invés de esperar e aplicar o que os outros decidiram.
swissinfo.ch: Nos últimos anos, o senhor dirigiu diferentes negociações, notadamente durante o conflito fiscal com os Estados Unidos. Durante essas discussões, a Suíça tinha a faca e o queijo nas mãos?
M.A.: Tratávamos de fato com um ator muito grande. As discussões não foram nem simples nem rápidas. Tratava-se para nós de princípios importantes em matéria de Estado de direito. O objetivo era impedir que nossos interesses econômicos fossem indiretamente forçados por um outro Estado a violar o direito suíço.
Com o tempo, os americanos compreenderam. Ao inverso, eles queriam naturalmente que seu próprio sistema judiciário fosse respeitado e que seus contribuintes pagassem seus impostos. Agora, temos uma solução que respeita os deus sistemas e que, mesmo modificando o que podia violar o direito americano, é conforme ao direito suíço.
Michael Ambühl
Aos 62 anos, esse diplomado em matemática e gestão pela Escola Politécnica Federal de Zurique (EPFZ), foi ativo na política estrangeira da Suíça de 1982 a 2013.
Depois de ter ocupado diversos postos no estrangeiro, desde 1992 ele foi conselheiro da embaixada na missão junto à UE e faz parte da delegação de negociação dos acordos bilaterais I.
Em 1999, o governo federal o nomeia chefe do Escritório de Integração. Nessa função, ele é responsável das negociações para os acordos bilaterais II.
Em 2005, ele é nomeado secretário de Estado no Ministério das Relações Exteriores (DFAE). Ele dirige, entre outros, as negociações com os Estados Unidos para resolver o problema fiscal do UBS, em 2009.
Em março de 2010, ele assume o posto que acaba de ser criado de secretário de Estado para Questões Financeiras Internacionais (SIF), ligado ao Ministério das Finanças. Ele dirige as negociações para diversas convenções fiscais e bancárias.
Em setembro de 2013, ele retoma a cátedra de professor de negociação e gestão de conflitos na EPFZ.Aqui termina o infobox
swissinfo.ch: Venons-en à un autre partenaire puissant auquel la Suisse a affaire: l’UE. Vous étiez en première ligne lors des négociations sur les accords bilatéraux. Était-ce aussi dur avec Bruxelles qu’avec Washington?
M.A.: Il y a des différences entre ces deux grands acteurs. Les Etats-Unis voulaient appliquer leur droit, il s'agissait de questions fondamentales.
L'UE, elle, est une réunion de 28 Etats et, à Bruxelles, la Commission doit s’efforcer quasiment chaque jour de trouver une règle commune, que ce soit sur la viande de bœuf, le tonnage des camions ou le droit du travail.
Ainsi, l'UE a un mode de pensée un peu différent. Comme partenaire de négociations, elle est considérée comme plus sensible sur les questions de l’équilibre et de la solidarité. Cela signifie que la Suisse doit se présenter comme un partenaire responsable et montrer qu'elle ne fait pas que choisir les bons morceaux mais, au contraire, qu’elle prend au sérieux ses devoirs de membre solidaire de la communauté européenne. C'est important.
swissinfo.ch:Até que ponto os países emergentes como a China, a Índia e o Brasil modificam a paisagem geopolítica? Isso também afeta a Suíça?
M.A.: Na época da Guerra Fria, tínhamos um mundo bipolar dividido, então, entre Moscou e Washington. Depois da queda do Muro de Berlim, falou-se de um mundo unipolar dominado pelos Estados Unidos. Hoje o mundo está novamente multipolar e, como países importantes como a China, a Índia ou o Brasil, ele torna-se cada vez mais multipolar.
A Suíça tem razão de acompanhar essa evolução e de não cometer o erro de se concentrar unicamente em dois ou três parceiros. Assim, o governo federal tem uma política de parcerias estratégicas. Um grande sucesso é a assinatura com a China seu primeiro tratado de livre-comércio fora do continente europeu. A elaboração de uma boa parceria com todos esses países é importante nesse mundo cada vez mais complexo, multipolar.
swissinfo.ch:Desde setembro, o senhor é professor em negociação e gestão de conflitos na Escola Politécnica Federal de Zurique. Existem receitas, estratégias para garantir o sucesso de “pequeno” frente a um “grande”?
M.A.:Não existe remédio milagroso. Cada negociação é diferente e, frequentemente também seu objeto, parceiros e circunstâncias. O importante é que um país como a Suíça tente definir exatamente onde quer agir para obter posições e normas determinadas.
Se decidimos investir, digamos no dossiê dos Estados Unidos, então é preciso fazê-lo de forma enérgica. Deveríamos sempre nos esforçar de argumentar de maneira concreta e colocar as negociações em bases objetivas para discutir questões precisas.
Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch