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Há cento e cinquenta anos a Suíça não era um país próspero. Muitos começaram a emigrar para encontrar terras, riqueza e liberdade religiosa. Alguns emigrantes fundaram assentamentos e deram-lhe nomes lembrando suas terras. Por isso encontramos hoje uma Berna, uma Zurique ou uma Friburgo em outras partes do mundo.
swissinfo.ch publica regularmente artigos do blog do Museu Nacional SuíçoLink externo, dedicados a temas históricos. Os artigos são sempre escritos em alemão e também, na maioria, em francês e inglês.Aqui termina o infobox
A migração é uma questão atual. Muitas pessoas procuram uma vida melhor na Europa, também no nosso país. No entanto, a emigração no século 19 foi principalmente na direção oposta: da Suíça, que era predominantemente agrícola, para outros continentes.
Algumas autoridades cantonais apoiaram a mudança, sobretudo porque lhes permitiu livrarem-se de residentes indesejáveis e empobrecidos. Em outros cantões a emigração era proibida. Agências ou anunciantes individuais atraíram o público com falsas promessas. Frequentemente eles próprios lucraram, e os emigrantes mergulharam na miséria.
Mas os colonos eram também muitas vezes um “brinquedo” da política. Alguns governos contaram com a ajuda da colonização dos europeus para expulsar povos nativos, quer fossem eles índios norte-americanos, indígenas mexicanos e sul-americanos ou tártaros.
Século 19 - anos de emigração
Petra Koci é jornalista e autora freelancer. Em seu livro "Weltatlas der Schweizer OrteLink externo (Mapa dos locais suíços)", ela retrata as colônias fundadas pelos suíços nos cinco continentes. FotosLink externo de Benno Gut.
As catástrofes climáticas, as crises agrícolas, e as mudanças sociais e económicas também contribuíram para a emigração. Na Suíça, a industrialização no setor têxtil teve um progresso precoce. Após o levantamento de um bloqueio económico imposto pela França à Inglaterra, a Suíça também foi inundada por têxteis baratos. Perderam-se empregos, especialmente em domicílios e no artesanato.
Quando o vulcão Tambora entrou em erupção na Indonésia em 1815, a enorme massa de cinzas absorveu parte da luz solar, chegando até mesmo a “escurecer” a Europa. 1816 entrou para a história como o "ano sem verão", e levou à quebra na produção agrícola. As consequências foram inflação, pobreza em massa, fome e emigração.
Nova Friburgo no Brasil
Durante esse período ocorreu a fundação da colônia suíça Nova Friburgo no Brasil. O acordo entre o governo cantonal de Friburgo e o rei português no Brasil foi selado em 16 de maio de 1818. Mais de 2000 pessoas, principalmente de Friburgo, mas também de outros cantões, se inscreveram para emigrar. Os "sem-pátria" foram deportados pelas autoridades.
O Brasil estava interessado nos trabalhadores porque a abolição da escravidão estava em andamento. Os suíços eram considerados bons artesãos e bons soldados. Além disso, o país sul-americano se tornaria "mais branco" através dos imigrantes. O próprio rei atribuiu terras aos colonos, cerca de 150 km no interior do Rio de Janeiro. O terreno montanhoso e as condições climáticas deveriam lembrar as colinas alpinas.
Os colonos receberam algumas terras, uma habitação temporária, e dez anos de isenção fiscal - pelo menos para aqueles que chegaram até a América do Sul. Pois o enviado do governo de Friburgo e organizador da emigração era um explorador, que colocou a maior parte do dinheiro no seu próprio bolso.
Sob condições precárias, os repatriados não só tiveram de esperar semanas na Holanda para embarcar nos navios transoceânicos; as dificuldades da longa travessia e da árdua viagem para o interior também tiveram o seu preço.
Ademais, logo se descobriu que o terreno íngreme e pedregoso de Nova Friburgo era inadequado para a agricultura. Aos colonos foi dada a liberdade de decidir se queriam ficar ou seguir para cultivar terras mais férteis, mais distantes.
Após anos, alguns suíços conseguiram cultivar tabaco, cana-de-açúcar e café. Nova Friburgo ganhou dinheiro com as plantações de café ao seu redor e, mais tarde, com a indústria têxtil. Hoje, Nova Friburgo é considerada a capital da moda íntima do Brasil.
Zürichtal na Crimeia
O assentamento de Zürichtal na Crimeia foi fundado contra a vontade das autoridades de Zurique. No final do século XVIII, a população rural estava sujeita ao domínio dos "patrícios" de Zurique, a classe política no poder daquela época. A emigração foi proibida.
No entanto, após alguns anos de prosperidade, a indústria têxtil e de tecelagem estava falida. Muitos tecelões, fiadores, agricultores e artesãos queriam escapar da pobreza. Em 1783 a península tinha sido anexada pelo Império Russo. O czar prometeu terra, benefícios fiscais e dispensas do exército.
Em 1803, cerca de 60 famílias de emigrantes partiram secretamente para navegar pelo Danúbio até o Mar Negro, sob a direção do Major Hans Caspar Escher, avô de Alfred Escher.
Depois de uma longa e difícil jornada no período do inverno, eles chegaram ao sul da Crimeia com suas últimas forças, e se estabeleceram em um vilarejo tártaro abandonado. Eles lhe batizaram de Zürichtal, construíram casas de fazenda, cultivaram terras agrícolas e vinhedos. Mais tarde, emigrantes alemães juntaram-se a eles. Após a Revolução de Outubro de 1917, a aldeia tornou-se uma Sowchose – uma fazenda estatal criada pelo governo soviético daquela época, através da expropriação das terras dos camponeses nativos.
Por volta de 1930, repressões contra os alemães e os suíços da Crimeia foram iniciadas. Eles tiveram de entregar suas colheitas, casas e dinheiro, e foram deportados para a Sibéria. Em 1945 Zürichtal foi renomeada como "Zolotoe Pole" - o campo de ouro. Hoje, os tártaros da Crimeia, russos e ucranianos vivem aqui. Apenas algumas fazendas e lápides, que não foram usadas para construir muros de jardim, lembram os fundadores suíços.
Menonitas e Amish nos EUA
No meio-oeste dos EUA, em contrapartida, na pequena cidade de Berna, a herança suíça ainda é claramente visível: a torre do relógio Muensterberg é uma réplica exata do Zytgloggeturm. O "Primeiro Banco de Berna" é construído em estilo chalé. Numerosos sobrenomes suíços estão nos brasões em cartazes e em placas comerciais.
Em meados do século 19, a busca pela liberdade de religião e pela dispensa do serviço militar levou à fundação de Berna. A comunidade religiosa menonita na Suíça viveu em isolamento em fazendas, praticou o batismo adulto e recusou o serviço militar.
Na verdade, ela já não era mais perseguida oficialmente. Mesmo assim, em 1852, cerca de 70 menonitas suíços de Moutier, no Jura Bernês, partiram para a América. Encontraram terras favoráveis no estado de Indiana. Muitas delas eram selvagens e pantanosas. Os emigrantes araram, lutaram contra ursos, lobos e doenças.
Mais tarde, quando a linha férrea foi construída, o povoado foi interligado. Em 1871 o assentamento foi oficialmente registado como Berna. Os colonos cultivavam a terra e trabalhavam como artesãos. Berna tornou-se a capital do mobiliário de Indiana.
As famílias Amish instalaram-se em seu entorno. Esta estrita comunidade religiosa - o nome remonta ao suíço Jacob Ammann - vive de acordo com o Antigo Testamento, não usa motores, eletricidade ou Internet.
De vez em quando você pode vê-los passeando pela cidade em uma carruagem puxada por cavalos. Eles evitam, em grande parte, o contato com seus vizinhos, os descendentes dos fundadores menonitas. Embora ambos se voltem ao movimento Anabaptista e tenham raízes suíças.
Uma exposição (13.4. - 29.9.19) no Fórum da História Suíça, no cantão de Schwyz, lançará luz sobre a história dos suíços no estrangeiro e traçará uma linha até ao presente, o seu papel na política federal e a sua relação com a sua antiga pátria.
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos