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Um grupo de investigação convocado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) revelou nesta terça-feira que, durante a convulsão social do fim de 2019 na Bolívia, forças militares e policiais cometeram massacres contra civis, incluindo "execuções sumárias".
O Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI) da CIDH, que investigou os incidentes, apresentou seu relatório ao presidente Luis Arce, em La Paz. Patricia Tappatá, integrante do GIEI, disse que “37 pessoas perderam a vida em várias partes do país e centenas tiveram lesões consideráveis, tanto físicas quanto psicológicas”.
A investigação abrangeu desde o fim do governo do esquerdista Evo Morales até o início do mandato de sua sucessora, a senadora de direita Jeanine Áñez. Durante a gestão da presidente interina foram registrados dois fatos graves: no dia 15 de novembro, na cidade de Sacaba, próxima à cidade de Cochabamba (centro), e quatro dias depois, na usina de gás de Senkata, na cidade de El Alto, vizinha a La Paz.
Em Sacaba houve 11 mortes, e em Senkata, o mesmo número. Patricia Tappatá disse que o GIEI "não hesita" em classificar esses acontecimentos "como massacres".
Após tomar conhecimento do relatório, o presidente Arce anunciou reparações às vítimas. Além disso, apontou que o documento "descreve claramente as graves violações dos direitos humanos, massacres e execuções extrajudiciais que ocorreram em nosso país durante o golpe de Estado" contra Morales, seu mentor político.
Arce antecipou que seu governo promoverá um julgamento de responsabilidades ou privilégio contra Jeanine Áñez e seu governo.
- Jeanine pede julgamento justo -
Após tomar conhecimento do relatório do GIEI, a ex-governante pediu no Twitter um julgamento justo: "Exigimos o respeito à Constituição, garantias com o devido processo e igualdade de condições."
Jeanine está presa preventivamente desde março, enquanto o Ministério Público apura o ocorrido durante seu governo de novembro de 2019 a novembro de 2020.
- Opositores culpam Morales -
Opositores também emitiram suas posições sobre o relatório. O governador da rica região de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, peça-chave na saída de Morales do poder, disse que o documento "é claro, porque as mortes e violações dos direitos humanos tiveram início no governo de Evo Morales e terminaram no de Jeanine Áñez. Se ela for julgada, Evo também deve ser processado”.
O ex-presidente de centro Carlos Mesa (2003-2005) declarou que deve ser realizada uma reforma do sistema judicial como “requisito para garantir a justiça e o devido processo nos casos que devem ser julgados”.
Mesa é apontado pelo governismo como um dos responsáveis pelo suposto golpe de Estado, juntamente com a Igreja Católica, a União Europeia (UE), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e os governos do argentino Mauricio Macri e do equatoriano Lenín Moreno.
A Bolívia mergulhou em uma grave crise em 2019, após as eleições de outubro daquele ano, cujo resultado favoreceu Morales, no poder desde 2006 e com a intenção de estender seu mandato até 2025. No entanto, a oposição o acusou de ter cometido fraude e os protestos se espalharam por todo o país. A polícia e os militares retiraram o apoio a Morales, que renunciou e foi para o exílio no México.
A CIDH ressaltou que o relatório do GIEI "encerra uma etapa de trabalho realizada por especialistas independentes com idoneidade técnica, integridade e imparcialidade".