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A Suíça apoiou regime do apartheid, inclusive numa das piores fases do regime racista da África do Sul, quando as violações dos direitos humanos e repressão chegavam ao seu ápice.
Essa é uma das conclusões do estudo realizado pelo Fundo Nacional Suíço (SNF), uma fundação financiada com verbas públicas para realização de pesquisa básica.
Devido à sua posição neutra e contrária a que foi tomada pela maioria dos países do mundo, a Suíça acabou apoiando o regime do apartheid na África do Sul. O relacionamento entre os dois países chegou a ser muito próximo nos anos oitenta, considerado por muitos historiadores como o ápice da repressão aos ativistas negros e de violações dos direitos humanos.
Exportações ilegais de armas, cooperação secreta no setor nuclear, atividades intensivas dos serviços secretos: a Suíça ajudou o regime do apartheid muito mais do que se conhecia até hoje.
Capítulo negro da história
A indústria suíça conseguiu furar o bloqueio de armas, imposto na época pela Organização das Nações Unidas (ONU) contra a África do Sul. Essa foi uma das conclusões tiradas pelo historiador Peter Hug sobre as atividades militares, nucleares e comerciais entre os dois países.
O governo helvético chegou a ser informado sobre os negócios, muitos deles ilegais, porém não tomou nenhuma providência. Pelo contrário, os historiadores descobriram também que essas atividades não apenas foram toleradas, mas também apoiadas diretamente.
A troca de informações entre os serviços secretos da Suíça e do regime do apartheid ocorreu cinco anos mais cedo do que se sabia. Ela preparou o terreno para a venda de armas e auxiliou no combate aos ativistas negros e também para melhorar a imagem da África do Sul.
Segundo o estudo, a indústria suíça também apoiou o programa nuclear secreto da África do Sul. As empresas Sulzer AG e VAT Buchs teriam fornecido peças e maquinário importantes para o enriquecimento do urânio sul-africano, que seria suficiente para a construção de seis bombas nucleares.
Ideologia da Guerra Fria
O estudo mostra também como foi amplo o apoio dado pela Suíça ao regime do apartheid. Devido a sua distância da ONU, posições racistas de muitos dos seus políticos continuaram mesmo após 1945. Elas terminaram sendo substituídas no final dos anos setenta por um anticomunismo radical.
Para muitos empresários, políticos, autoridades públicas e outras personalidades cooperar com o governo da África do Sul não era algo estranho. O cenário da Guerra Fria terminava por estrangular os argumentos contrários ao regime do apartheid. Para muitos, o país era uma ilha de combate ao comunismo no continente africano.
Lobby do apartheid na Suíça
A partir de 1980, vários adidos militares sul-africanos foram expulsos de capitais como Roma, Colônia e Viena, pois muitos países se recusavam a cooperar com o regime do apartheid. Eles terminaram se instalando em Berna, a capital suíça.
Como mostram documentos do serviço secreto militar sul-africano, contatos importantes no país dos Alpes eram com personalidades como o "caçador de subversivos" Ernst Cincera (político); o diretor do Instituto Suíço Oriental, Peter Sager e o presidente do grupo de trabalho Sul da África (ASA), Christoph Blocher, que é hoje ministro da Justiça.
Outra personalidade que ajudou a firmar bases de apoio ao regime do apartheid na Suíça junto às forças políticas de direita foi o membro da direção do ASA e, desde 1995, deputado federal Ulrich Schlüer. Esse detalhe foi revelado no livro "Dinheiro suíço no Tafelberg" (n.r: montanha na Cidade do Cabo), dos autores Hansjürg Saager e Werner Vogt, dois conhecidos críticos do movimento anti-apartheid e contras as sanções.
Outros grupos de lobby foram, na época, o Clube de Amigos da África do Sul (CFS), assim como a Associação Suíça-África do Sul (SSAA), uma espécie de Câmara de Comércio e Indústria, cujos membros eram empresas suíças ativas no país africano.
Liberdade de comércio ao invés de direitos humanos
Na condenação da África do Sul, a ONU e o movimento anti-apartheid lembravam as violações constantes dos direitos humanos e do direito internacional. As autoridades helvéticas, pelo contrário, justificavam o reforço das relações comerciais com o país africano pelas leis helvéticas, sobretudo as que defendem a liberdade comercial. Essa é a conclusão tirada pelo presidente do grupo de trabalho do estudo, Georg Kreis, no relatório final.
Porém recusa da Suíça de tomar medidas contra a África do Sul não pode ser justificada pelas leis, como lembra o jurista Jörg Künzli, membro do grupo de pesquisa.
A posição helvética deve-se, sobretudo, aos seus interesses econômicos. Por isso os membros do governo da época não tinham interesse em aplicar sanções à África do Sul, mas sim incentivar os negócios.
Um exemplo atual da participação suíça em sanções internacionais, mostrando que elas podem ser aplicadas, ocorreu apenas alguns anos depois contra o Iraque, em 1990.
swissinfo, Jean-Michel Berthoud
Fatos
O principal objetivo da pesquisa "NFP 42+" foi dar embasamento histórico à análise das relações entre a Suíça e a África do Sul no período do apartheid (1948-1994).
A pesquisa custou dois milhões de francos aos cofres públicos e contém 10 estudos sobre questões econômicas, políticas, históricas e também de direito.
O grupo de pesquisa é composto por uma equipe de 40 pesquisadores, chefiados pelo historiador Georg Kreis.
O projeto "NFP 42+" foi encomendado em 2000 pelo governo federal helvético e encerra com a publicação do relatório final.
Breves
- Durante o regime do apartheid a Suíça era um dos poucos países no mundo, que ainda mantinha relações diplomáticas com a África do Sul. Elas foram ainda mais intensivas durante os anos oitenta, exatamente quando a repressão e violações dos direitos humanos do governo sul-africano alcançavam o seu ápice.
- Essa é uma das conclusões de um estudo do Fundo Nacional Suíço (SNF), um órgão de pesquisas helvético, intitulado "Relações entre a Suíça e a África do Sul" (também conhecido pela sigla NFP 42+).
- 40 pesquisadores analisaram documentos oficiais, inclusive na África do Sul, para desvendar aspectos considerados ainda obscuro do relacionamento entre os dois países, sobretudo em questões de cooperação militar e nuclear.
- O relatório final deveria ser publicado na primavera de 2004, mas acabou sendo adiado depois que o governo federal bloqueou em abril de 2003 a análise de documentos considerados secretos.
- O governo pretendia evitar o risco de um processo coletivo nos Estados Unidos que pudesse prejudicar interesses econômicos helvéticos no país.
- Cinco dos dez estudos da pesquisa foram atingidos pela medida.
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