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Da cúpula do G20 sobram mais do que belos discursos? O fato de a Suíça ter sido incluída em uma lista "cinza" da OCDE é um sinal positivo ou significa o naufrágio do sistema bancário helvético?
Em entrevista à swissinfo, o economista e ex-parlamentar Rudolf Strahm dá respostas a essas e outras questões.
swissinfo: Senhor Strahm, a cúpula do G20 chegou ao final. Qual é a sua análise dos resultados do encontro?
Rudolf Strahm: Foram tomadas mais decisões e estas são mais concretas do que eu esperava. Eu acho positivo que as potências econômicas do mundo se sentaram juntas e que foi criado um programa que será implantado também nas instituições e organizações.
O senhor se surpreendeu pelo fato das posições de partida serem tão distintas? Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha queriam na realidade costurar grandes pacotes de ajuda. Já a Alemanha e a França não.
Correto! Eu tinha primeiramente um grande temor, pois 25 pontos estavam na agenda de negociações no início. E agora são menos, mas, por outro lado, com mensagens mais decididas.
No caso do programa de ajuda, precisamos analisá-los nos detalhes. Nem todos os fundos da ajuda de um trilhão de dólares são recursos a fundo perdido. Uma grande parte passa pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Não se trata de um presente, mas sim de empréstimos sobre o qual recaem juros. De qualquer maneira, o pacote ajuda a economia mundial em curto prazo a superar a recessão. Temos de reconhecê-lo.
Quais são as consequências para a Suíça? O presidente francês Nicolas Sarkozy anunciou que na questão do sigilo bancário a Suíça cairia não em uma lista "negra", mas sim em uma lista "cinza".
Uma lista cinza significa que a pressão sobre o sigilo bancário helvético continua. A Suíça permanece sob observação. Ela não pode continuar com a estratégia do presidente da Confederação, Hans-Rudolf Merz, ou seja, fazer promessas e empurrar o problema com a barriga.
Nosso país deve apresentar provas concretas através das negociações bilaterais. Eu parto do princípio que não irá ocorrer troca automática de informações. Isso não é previsto no artigo 26 do acordo-modelo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Porém, a Suíça não deve colocar barreiras elevadas aos pedidos feitos pelas autoridades estrangeiras. Ela deve aceitar pedidos simples como, por exemplo, aqueles nos quais apenas o nome do banco ou do cliente é citado, para permitir que as informações sejam recolhidas e transmitidas. Não se deve exigir que se entregue uma série de provas antes.
Além disso, deve-se limitar as possibilidades de recurso dos sonegadores estrangeiros de impostos. Também está fora de cogitação uma anistia fiscal para eles. Resumindo: a Suíça está sendo cobrada. Agora ela precisa é de liderança política.
Existe o perigo de um colapso?
Eu pessoalmente não acredito que essas exigências irão provocar um colapso da praça financeira helvética. Apenas entre 30 e 40 dos 330 bancos na Suíça serão atingidos. São aquelas instituições que fazem seus negócios através da aquisição de fundos de clientes privados originários do exterior, que também pode ser dinheiro não declarado.
Mas a praça financeira suíça não será quebrada por isso.
O UBS e o Credit Suisse, os maiores bancos do país, poderiam estar entre as instituições atingidas?
Eu não acredito que o UBS e o Credit Suisse sejam os bancos mais atingidos. Estou seguro disso em números absolutos. Mas em relação ao seu tamanho e aos outros negócios que realizam, elas irão sofrer muito menos.
Por outro lado, alguns dos 14 bancos privados terão que mudar massiçamente seu modelo de negócios.
O senhor confia nos chefes de Estado do G20, ou seja, que seus sonoros discursos serão seguidos também por grandes atos?
Tenho a tendência a acreditar, quando analiso os atuais esforços nos Estados Unidos desde que Obama assumiu o governo, o que Gordon Brown fez na Inglaterra, mas também o que a Alemanha e a França já realizaram. Esses são os quatro atores mais importantes.
Eu posso imaginar que o que eles conseguiram colocar em execução nos seus próprios países será agora coordenado para sua execução em escala internacional.
Porém, o perigo está nos detalhes. Para mim, a questão principal é saber o que irá acontecer com a imposição dessas regras de jogo e na regulação dos mercados financeiros, no controle dos hedge funds, no sistema de prestação de contas, nas agências de rating e por aí vai.
Quais são as sanções consideradas? O sistema de sanções ainda não foi esclarecido. Mas agora posso bem imaginar que os países envolvidos irão, em interesse próprio, introduzir regras de penalização.
No passado já houve uma cúpula tão importante como a que acaba de ocorrer?
Eu considero cabível a comparação com a conferência de Bretton Woods em 1944. Desde então, nunca ouve uma grande chance para modificar algo na arquitetura financeira mundial.
Pela primeira vez na história econômica será efetuada uma coordenação global na luta contra a recessão. Isso é muito diferente do que ocorreu em 1929. E pela primeira vez na história se reage de uma forma tão coordenada a um problema global.
swissinfo, Etienne Strebel
Rudolf Strahm
Nascido em 1943, em Emmental, no cantão de Berna (oeste da Suíça)
Formado em Economia e Administração pela Universidade de Berna
Foi secretário da ONG "Declaração de Berna" de 1974 a 1978
Docente na Universidade de Zurique (1977/1978)
Secretário-geral do Partido Social-Democrata (a denominação em francês é Partido Socialista) da Suíça (1978 a 1985)
Deputado federal de 1991 a 2004
Controlador nacional de preços de 1° de agosto de 2004 a outubro de 2008 (ao assumir esta função, renunciou a todos os outros cargos para impedir conflito de interesses)