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O velho e bem-sucedido federalismo pode se tornar um empecilho, diz o escritor suíço Hugo Loetscher. Favorável ao ingresso da Suíça na União Européia, ele defende um novo federalismo que extrapole as fronteiras nacionais.
A Suíça não é um caso especial, ainda que o queira ser. Cada país é especial. O pior para os suíços é imaginar que são iguais à média dos outros europeus, diz.
O escritor Hugo Loetscher, de 79 anos, é um analista incansável das relações políticas e sociais na Federação Helvética. Assim como Max Frisch e Friedrich Dürrenmatt, ele têm feito análises críticas do país. Ao contrário de Dürrenmatt, porém, Loetscher não vê a Suíça como uma prisão. Ele também já escreveu um livro sobre o Brasil.
swissinfo: O senhor viaja muito, mas nunca se queixou de que a Suíça seja muito apertada. A Suíça é maior vista à distância?
Hugo Loetscher: Acredito que se tem uma relação diferente com seu país quando se conhece o exterior. E isso em sentido duplo: por um lado, se é mais crítico, por outro, se descobrem características que antes não se viram.
Ao mesmo tempo, nota-se que muito do que é visto como tipicamente suíço não é tão tipicamente suíço e sim uma variação de algo diferente.
Depois de uma palestra no Cairo sobre a situação lingüística na Suíça, sobre o alemão padrão e o dialeto, um autor egípcio me disse que no seu país há exatamente o mesmo problema entre o árabe padrão e o dialeto.
Não se perde no exterior a sensibilidade para os problemas suíços, mas eles se apresentam num outro contexto. E, no contexto, se percebe também de forma diferente a paixão pelo país.
swissinfo: Pode-se imaginar que um país tão pequeno como a Suíça possa ser governado de forma centralizada. Por que, no entanto, o país é organizado de forma tão federalista?
H.L.: Isso tem principalmente um fundo histórico. O país surgiu a partir de Estados autônomos, a união de Estados transformou-se num Estado federativo. O aspecto das diferentes culturas lingüísticas é relativamente novo. Na colina do Rütli (onde foi feito em 1291 o pacto entre os três primeiros territórios suíços que deu origem à Federação Helvética) não se falou reto-romano, também os celtas não estavam lá. Para preservar a diversidade de culturas, uma estrutura federalista foi indispensável.
Muito do que já foi importante do ponto de vista federalista está ultrapassado. O exemplo mais conhecido são as nossas escolas. Temos mais de 20 sistemas escolares. Isso hoje já é inviável simplesmente por causa da imigração.
Isso pode se tornar um empecilho também em relação à Europa. Trata-se de inventar um novo federalismo, um federalismo em nível europeu e, talvez, além do europeu. Para isso, precisamos recuar um pouco em nosso país, não podemos nos comportar de forma federalista até o último recanto.
swissinfo: A Suíça situa-se no contexto da Europa. Ela tem acordos bilaterais com a União Européia, mas não é país-membro do bloco. Isso prejudica o país?
H.L.: Toda a discussão sobre a Europa não é nova para mim e minha geração. Para nós, a Europa era o problema mais urgente, nós nunca mais queríamos guerra.
Sou daqueles que defendem o ingresso do país na UE e considero fatal se ele permanecer de fora. Como suíço sou europeu. Toda a cultura aponta para além do nacional, seja de Genebra para a França, de Bellinzona para Milão ou de Zurique para Berlim.
Nesse sentido, é decisivo para mim, que o velho paradigma de centro e periferia seja superado. Antigamente Portugal ficava distante, na periferia da Europa, agora eles acabam de exercer a presidência da UE.
Esse é o processo decisivo de mudança de pensamento num mundo globalizado – num globo, cada ponto é um centro.
A confrontação, por exemplo, com o Islã, traz a necessidade de se ocupar com o outro. E de entender que faz parte da própria identidade aquilo que define o outro.
Na Zurique protestante existia uma igreja católica, mas aos católicos era proibido construir torres. A igreja protestante mais próxima tocava o sino para os católicos. Isso seria a solução para a discussão sobre minaretes. Deixa-se construir minaretes, mas não se deve chamar para a oração – isso seria feito pela pastora da catedral (ri).
swissinfo: Qual é o papel que a Suíça poderia desempenhar na Europa?
H.L.: Há quem diga que, com suas experiências federalistas, a Suíça poderia estatuir um exemplo. Quanto a isso eu pergunto: o que nós faríamos, se os habitantes de Graubünden fossem negros e os do Tecino fossem muçulmanos? Teríamos tido então a possibilidade de tão facilmente construir um Estado federalista?
A fundação do nosso Estado ocorreu sob condições favoráveis. O país na época era relativamente homogêneo. Hoje estamos confrontados com o fato de termos de conciliar coisas muito heterogêneas, como origem e religião. Na Suíça, hoje há mais pessoas que falam albanês ou português do que reto-romano.
Minha concepção (para a Suíça) em relação à Europa é a seguinte: ser um país entre outros e, com isso, ser novamente um país.
O problema será estabelecer o equilíbrio entre o próprio e o novo. A Suíça terá de encontrar um caminho próprio, assim como outros países.
Em nossas cabeças há o fantasma de uma Suíça agrícola. Nós somos um país altamente tecnologizado, mas na nossa imaginação Heidi e as montanhas ainda desempenham um determinado papel. No entanto, o interior das montanhas está cheio de ruas comerciais.
swissinfo: A Suíça gosta de se ver como caso especial. Até que ponto isso corresponde à realidade?
H.L.: Eu não conheço nenhum país que não seja um caso especial. No caso da Suíça, isso tem a ver com a história. Na Segunda Guerra Mundial, tivemos sorte em ser um caso especial pelo fato de termos podido permanecer neutros no meio da guerra. Mas fora isso não há nada que seja tão específico a ponto de se diferenciar dos outros.
Um autor de Zurique já descreveu no final do século 18 a Suíça como caso especial. O suíço típico tem a sensação de que nós somos os eleitos, escreveu ele.
Depois que notamos que não somos os melhores, falou-se de repente, que éramos os piores. Isso novamente foi um caso especial. Realmente subversiva e provocadora no país é a frase "nós provavelmente somos tão medianos quanto o resto da Europa". Para muitos suíços é insuportável a idéia de que somos mais ou menos como os outros.
swissinfo, Corinne Buchser und Susanne Schanda
Hugo Loetscher
Hugo Loetscher nasceu em 1929, em Zurique. Ele é considerado um dos autores suíços mais conhecidos da atualidade.
Depois de estudar Ciências Políticas, Sociologia e Literatura em Zurique e Paris, foi redator literário da revista du, de 1958 a 1962. Depois foi folhetonista e integrante da chefia de redação da antiga revista Weltwoche (1964-1969).
Desde 1965, ele teve estadias regulares na Europa, na América Latina e no Sudeste Asiático. Desde 1969, é escritor e publicista. Loetscher é professor visitante de universidades da Suíça, dos EUA, de Munique e do Porto.
Em 1992, ele recebeu o Grande Prêmio Schiller da Fundação Schiller na Suíça.
Obras
Hugo Loetscher é autor de várias obras ainda não traduzidas para o português, entre elas, "Wunderwelt. Eine brasilianische Begegnung" (Mundo do milagre. Um encontro brasileiro, 1979), um livro interessante sobre o milagre econômico brasileiro.
Outros livros
Abwässer, 1963
Die Kranzflechterin, 1964
Der Immune, 1975
Herbst in der Grossen Orange, 1982
Der Waschküchenschlüssel und andere Helvetica, 1983
Die Augen des Mandarin, 1999
Es war einmal die Welt, Zürich 2004