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A vida infernal nas trincheiras da Grande Guerra
Entre duas batalhas, a vida nas trincheiras foi muito dura para os combatentes da Primeira Guerra Mundial, que, além da penúria, da falta de higiene, da chuva, dos piolhos e dos ratos, conviviam com o cheiro de morte.
No verão de 1914, os combatentes partiam para uma “guerra jovial” de alguns meses. Mas a partir de novembro, dizimados pela artilharia, se enterram na frente ocidental para quatro anos de combates ao longo de uma linha de 700 km, do Mar do Norte à fronteira suíça.
Inicialmente, as trincheiras eram simples, com uma linha de frente cavada com pás e picaretas, dois instrumentos que em breve se tornariam companheiros inseparáveis. Seguiam um traçado sinuoso para evitar os disparos e eram protegidas com sacos de areia e cercas de arame farpado para impedir o avanço do inimigo, situado algumas vezes a apenas dezenas de metros.
– Trincheiras mais desenvolvidas –
Pouco a pouco, as trincheiras vão se desenvolvendo: são cavados refúgios para proteger os soldados, introduzidos postos de guarda, de comando e de socorro, além de ninhos de metralhadora, tudo isso em galerias de dois metros de profundidade e algumas dezenas de centímetros de largura.
As paredes também são reforçadas com troncos para evitar os desabamentos. E as trincheiras da linha de frente ficam unidas à retaguarda através de galerias de ligação, que criam um labirinto no qual às vezes os soldados se perdem.
Os alemães, que acima de tudo querem conservar o território conquistado no verão de 1914, cavam trincheiras mais sólidas e confortáveis do que as francesas, consideradas frequentemente simples pontos de partida nas ofensivas para reconquistar o terreno perdido.
Os alemães também usarão concreto e construirão mais refúgios para limitar o número de baixas nos bombardeios.
O dia a dia nestas galerias insalubres é infernal, e o risco de ser alvejado por disparos de fuzis ou atingido por morteiros é permanente, mesmo quando o setor está em calma.
– Chuva, frio e lama –
Mas os principais inimigos dos soldados são a chuva e a lama. A primeira consome as trincheiras e deixa os homens gelados; e a lama se acumula no fundo, complicando os deslocamentos.
Os revezamentos, a cada dois ou três dias, são um suplício. Os soldados, carregando dezenas de quilos de munições, armas e suprimentos, avançam com dificuldade pelas galerias de ligação.
No inverno, o frio é uma tortura, sobretudo para os soldados procedentes das cidades, que têm mais dificuldade para suportá-lo que os do campo.
Nos refúgios, os ratos correm livremente e se alimentam da sujeira e dos mortos. Os piolhos são outro tormento, ao qual se soma a impossibilidade de tomar banho e o estado das latrinas.
– Cadáveres putrefatos –
O mau cheiro, tanto no verão quanto no inverno, toma conta do local, principalmente na linha de frente, nos setores onde a violência dos combates não permite recuperar os corpos de todos os mortos na batalha.
Dezenas de cadáveres apodrecem, às vezes presos na cerca de arame farpado à vista de todos.
O abastecimento é essencial para manter alto o moral dos soldados, e, desse ponto de vista, os franceses e britânicos têm vantagem sobre os alemães, que sofrem com a escassez de alimentos por estarem estrangulados pelo bloqueio aliado.
No entanto, apesar dos esforços da Intendência, a sopa e o cozido, preparados à distância da linha de frente, chegam frios. E o pão é velho, além de frio.
Nas trincheiras francesas, o vinho tinto (cada combatente recebe um litro diário) e o pacote de cigarros ajudam a esquecer um pouco as dificuldades.
– A chegada do correio –
Em meio aos trabalhos cansativos, também há momentos de ócio. Os soldados se dedicam a criar objetos com tudo o que têm em mãos: madeira, trapos, balas ou cápsulas. Nasce um “artesanato das trincheiras”, do qual sairão bastões, lâmpadas, tubos, estátuas, joias e instrumentos musicais.
A distribuição do correio, diária quando o front está tranquilo, é o momento mais esperado: traz notícias da família, da esposa ou namorada, e às vezes inclusive pacotes com suprimentos e roupas.
As autoridades fazem o possível para manter esse vínculo com a retaguarda, considerando-o essencial para que os soldados suportem as condições terríveis do front.
Os soldados, para não preocupar suas famílias e diante da censura militar, dão em suas cartas uma versão amenizada do horror das trincheiras, muito distante da realidade.