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Vinte anos depois que Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev quebraram o gelo da Guerra Fria em Genebra, o diplomata suíço que organizou o encontro histórico lembra-se do evento.Este conteúdo foi publicado em 14. junho 2005 - 15:23
Edouard Brunner participou de um debate aberto com a participação do antigo líder soviético.
Como secretário de Estado no Ministério das Relações Exteriores da Suíça, Edouard Brunner recebeu o pedido das autoridades americanas para organizar o encontro histórico, realizado entre 19 e 21 de novembro de 1985.
Nesse momento as relações entre as duas super-potências estavam nas mais baixas escalas do termômetro político. Em 1983, o presidente americano havia realizado o seu famoso discurso sobre o "Império do Mal", descrevendo a União Soviética como um "centro demoníaco" no mundo.
No mesmo ano, os Estados Unidos instalam pela primeira vez mísseis nucleares de médio alcance na Europa ocidental. Os soviéticos responderam abandonando as negociações sobre desarmamento que ocorriam em Genebra.
O encontro de Genebra foi a primeira vez que Reagan e Gorbachev, eleito havia pouco tempo para a cúpula do Partido Comunista, se encontraram e começaram a tirar do gelo as relações entre Washington e Moscou.
O objetivo principal do encontro reduzir a proliferação nuclear. No final, os dois lados concordaram em acelerar os esforços para reduzir em 50% os seus arsenais nucleares.
No aniversário do encontro, diversos participantes estarão presentes como Alexander Bessmertnikh, ex-ministro das Relações Exteriores da União Soviética e Robert McFarlane, ex-secretário de Estado para a Defesa.
swissinfo: é correto afirmar que o encontro em Genebra marcou o início do fim da Guerra Fria?
Edouard Brunner: sim, acho que nós podemos afirmar isso. Os dois dirigentes estavam convencidos que era inútil continuar seguindo no mesmo caminho. Por outro lado, eles tinham nos seus países correligionários para agradar e que não eram de fácil negociação. Gorbachev tinha que convencer os membros do comitê central do Partido Comunista de que ele era capaz de fazer um acordo com Reagan.
A chegada de Gorbachev ao poder trouxe esperança, pois pela primeira vez tínhamos um líder da União Soviética que estava disposto, aparentemente, a negociar de uma maneira defensiva, estando ela num contexto de distensão.
Por outro lado, nós tínhamos Ronald Reagan que era um falcão, mas também uma pessoa inteligente o suficiente para ver que podia provavelmente por fim à Guerra Fria. Eu acredito que a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher foi a pessoa que conseguiu convencer Reagan a negociar com Gorbachev. Por isso o encontro foi realizado em junho de 1985.
swissinfo: você teve contato pessoal com Reagan e Gorbachev. E verdade que os dois tiveram um encontro privado antes das negociações?
E.B.: nosso presidente Kurt Furgler havia insistido na realização de encontros no estilo "tête-à-tête" entre Gorbachev e Reagan uma hora antes das negociações. Parece que no início eles não estavam muito bem à vontade.
No primeiro dia, segundo Edvard Shevardnadze, que eu encontrei na Geórgia, Gorbachev esta quase querendo ir embora: ele sentia muito à vontade para negociar com Ronald Reagan.
Eu acredito que a esposa e Shevardnadze convenceram o líder soviético a ficar. Por isso as conversas acabaram se realizando. No final do dia eles haviam tido um debate tão positivo e gostado um do outro, que um outro encontro foi realizado alguns meses depois em Reykjavik, na Islândia.
swissinfo: qual o papel que a Suíça e, naturalmente, você próprio, tiveram ao organizar o encontro?
E.B.: eu fui perguntado pelo negociador americano, que estava em Genebra para participar das negociações pelo desarmamento com os soviéticos, se nós estaríamos dispostos a organizar um encontro entre Reagan e Gorbachev. Nós teríamos que garantir a segurança, organizar todos os detalhes, encontra acomodação, salas de reunião, etc. Eu posso dizer: nós organizamos tudo de uma forma não-política.
swissinfo: atualmente Genebra não parece não ter mais vocação para sediar encontros dessas dimensões, ou não?
E.B.: no tempo da Guerra Fria, nós éramos um país na Europa e tínhamos um papel a representar entre as partes em conflito. Isso ocorreu na tradição de Genebra. Porém agora a neutralidade não é mais necessitada nesse contexto, afinal, não estamos mais num mundo bipolar.
Atualmente existem uma grande quantidade de países que também são tão neutros, como estamos entre as partes. Veja o conflito entre os palestinos e os israelenses. Temos também Dafur, no Sudão e o Irã. Até quando Bush encontra Putin, eles se reúnem na Eslovênia ou na Eslováquia. A Suíça já não tem o monopólio da neutralidade.
Porém Genebra continua sendo escolhida, pois as reuniões ocorrem em locais onde os dois lados têm embaixadas, missões ou outras instalações. Porém acredito que sempre que a situação está madura para negociações, uma das opções é vir para Genebra. Esse é um serviço que nós podemos continuar a oferecer para a comunidade internacional: não com a participação ativa da Suíça, mas como anfitrião.
swissinfo: na sua opinião, Genebra e a Suíça, em geral, continuam a ter um papel importante na manutenção da paz?
E.B.: sim, Genebra continua a desempenhar um papel, sobretudo pela grande quantidade de organizações internacionais que ela cedia. A cidade recebe constantemente conferências internacionais graças às estruturas oferecidas pela ONU. Porém, na época, tanto Reagan como Gorbachev negavam se encontrar sob as auspicias da ONU, pois tratava-se de um assunto bilateral. Nesse caso o único agente intermediário era a Suíça.
Nós devemos ser, como somos, ativos em tentar encontrar soluções. Veja como exemplo o acordo de Genebra: ele não teve o caráter oficial, mas ajudou tanto alguns israelenses como também alguns palestinos a escreverem esse documento e mostrá-lo ao mundo em Genebra em dezembro de 2003. Todo mundo sabe que a Suíça não tem interesses nacionais para defender nesse caso. Nossa função é apenas ajudar os outros a evitarem uma guerra e resolverem seus problemas.
swissinfo, Jonas Hughes
traduzido por Alexander Thoele
Fatos
Um encontro de cúpula realizado em 19 de novembro de 1985 aproximou pela primeira vez os chefes de governo Reagan e Gorbachev.
O encontro serviu para aquecer as relações entre os dois países, os Estados Unidos e a União Soviética.
A Guerra Fria terminou em 1991 com a dissolução da União Soviética.
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