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Convidado da exposição universal de Milão, o entomologista suíço Hans Rudolf Herren se diz otimista quanto à possiblidade de alimentar o planeta nas décadas futuras. A condição é transformar radicalmente o sistema agroalimentar mundial e valorizar o fruto do trabalho dos pequenos agricultores.
Como garantir à humanidade inteira uma alimentação saudável, suficiente e sustentável? Hans Rudolf Herren, présidente da fundação Biovision e do Millennium Institute em Washington, faz parte dos especialistas convidados a falar dessa questão no contexto da exposição universal de Milão. O entomologista e biólogo suíço ganhou vários prêmios internacionais por suas pesquisas e desenvolvimento de técnicas de agricultura biológica, que contribuíram a salvar milhões de vida na África.
Hans Rudolf Herren
Nascido em 1947 no cantão do Valais, Hans Rudolf Herren estudou agronomia e biologia na Politécnica Federal de Zurique e na Universidade de Berkeley, na Califórnia.
Durantes seus 27 anos de atividade junto ao Instituto Internacional de Agricultura Tropical (ITA) de Abadan, na Nigéria, e no Centro Internacional de Pesquisa de Insetos de Nairóbi, no Quênia, dirigiu os mais importantes programas de luta biológica contra parasitas, no mundo.
Ele se distinguiu, entre outros, por ter erradicado, graças à utilização de vespas, um parasita que destruía as culturas de mandioca na África e ameaçava a existência de mais de 200 milhões de pessoas.
Hans Rudolf Herren recebeu numerosos prêmios por seu trabalho de pesquisa e desenvolvimento, notadamente o Prêmio Mundial da Alimentação, em 1995, o Prêmio Brandenberger em 2002 e o Right Livelihood Award em 2013, considerado como o Prêmio Novel Alternativo. Foi eleito o “Suíço do ano” em 2014.
Em 1998, criou a Fundação Biovision, que promove a difusão e o desenvolvimento de métodos agrícolas ecológicos em diversos países em desenvolvimento, com o objeto de melhorar as condições de vida e reduzir a pobreza das populações locais.
swissinfo.ch: Segundo as projeções, a população mundial deverá ser de 9 bilhões de habitantes em 2050. O planeta pode alimentar todas essas pessoas?
Hans Rudolf Herren: Pode, porque já produzimos alimento suficiente para 10 ou mesmo 12 bilhões de pessoas. A questão é sobretudo de saber onde, como e o que produzir. Atualmente, produzimos demais em certas regiões do mundo, não muito em outras.
Nos países do Norte e em alguns países emergentes, tem um excedente na produção de certos gêneros alimentares – como o milho, os cereais, o arroz, a soja ou a colza – que são em grande parte utilizados para a fabricação de biocombustíveis, alimentação animal, amido e açúcar, que não temos necessidade. Na maioria dos países do Sul, existe ao contrário um enorme potencial para produzir mais.
Trata-se de reequilibrar o sistema alimentar e econômico mundial. A produção atual ultrapassa as necessidades em alimento, mas milhões de pessoas morrem de fome. Isso significa que o sistema atual não funciona.
swissinfo.ch: Mas como é possível mudar o sistema agroalimentar mundial?
H.R.H: Precisamos de decisões políticas claras. Este ano, dois eventos maiores estão na agenda mundial. Em setembro, a Conferência das Nações Unidas em Nova York, em que serão traçados os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (de aplicação universal) depois de 2015, e, em dezembro, a Conferência Mundial sobre o Clima, em Paris. Esses dois eventos constituem uma ocasião única de mudar radicalmente o tipo de produção agrícola e de passar de uma agricultura convencional e intensiva, que satura os solos com substâncias químicas e emite enormes quantidades de CO2, a uma agricultura sustentável, regenerativa e em harmonia com a natureza.
É uma oportunidade que tem de ser aproveitada porque não há tempo a perder, se quisermos salvar nosso solo, produzir suficientemente para alimentar o mundo e frear a mudança climática. Nós mostramos como é possível aumentar a produção graças a uma agricultura respeitosa do meio ambiente. Trata-se agora de tomar decisões rápidas e concretas. O direito a uma alimentação saudável e suficiente é um princípio fundamental reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os governos devem assumir suas responsabilidades para garantir a segurança alimentar.
swissinfo.ch: Quais são os empecilhos à transformação que o senhor defende?
H.R.H.: Possantes interesses econômicos e financeiros influenciam as escolhas políticas. Na Europa e nos Estados Unidos, a indústria agroalimentar de fortemente subvencionada, do cultivo até a exportação. No porto de Monbasa, pode-se comprar milho dos Estados Unidos que custa um terço do preço do milho cultivado no Quênia. Destrói-se a produção e o mercado local.
Nos países do Sul, numerosos governos estão sob a influência de multinacionais, de grandes fundações privadas e certos parceiros no desenvolvimento que comercializam sementes geralmente modificadas geneticamente, inseticidas, pesticidas e fertilizantes químicos.Com esses métodos de cultura, os prejuízos não são somente da natureza e da saúde, mas cria-se uma dependência financeira para os agricultores, frequentemente obrigados a se endividar para comprar esses produtos.
swissinfo.ch: Quais são as alternativas?
H.R.H.: Precisamos mudar o sistema de modelo agroalimentar. Atualmente, em escala mundial, há uma tendência crescente à simplificação. Privilegia-se, por exemplo, as monoculturas intensivas destinadas à produção gêneros alimentícios a alto rendimento econômico. Frequentemente, eles também têm um alto valor calórico, provocando efeitos devastadores sobre a saúde. Enquanto quase 800 milhões de pessoas passam fome, mais de um bilhão são obesas.
O setor agroalimentar precisa, ao contrário, de mais complexidade. Isso passa pelo apoio a uma agricultura de pequena escala, biológica e diversificada, com uma maior produção de frutas e legumes. Para isso, em particular nos países do Sul, é preciso fazer os esforços necessários para dar aos agricultores uma formação, meios de produção, acesso à terra e ao mercado.
swissinfo.ch: Mas é realmente possível alimentar toda a humanidade com uma agricultura biológica em pequena escala?
H.R.H.: A produtividade de uma pequena exploração agrícola é superior à das grandes monoculturas. Isso foi demonstrado entre outros num estudo publicado o ano passado pela FAO. Nos programas agroecológicos promovidos por Biovision, provamos que a produção pode ser dobrada utilizando sementes e espécies vegetais adaptadas às condições locais, fazendo culturas mistas com trevos ou plantas que alimentam o solo e usando insetos para combater os parasitas.
Mas a agricultura biológica ou ecológica deve ainda fazer muito progresso. Essa produção é baseada em princípios científicos, na biologia do solo. Para permitir a essa ciência de progredir, é preciso investir em pesquisa, que se dedica quase exclusivamente à agricultura convencional. Tomemos o caso da Suíça: o governo atribui 270 milhões de francos à pesquisa na agricultura convencional e somente 4 milhões na agricultura biológica. Essas proporções deveriam ser invertidas.
swissinfo.ch: Essa agricultura exige mais mão de obra num período marcado pelo êxodo rural massivo. Conforme projeções, 70 a 80% da população mundial viverá nos centros urbanos em 2050.
H.R.H.: De fato, essas previsões se realizarão se não fizermos nada. Mas não podemos cruzar os braços e esperar que esses cenários se concretizem. Devemos investir nas zonas rurais, criar comunidades econômicas locais em que os cidadãos possam ter acesso à escola, hospitais, eletricidade, internet. As zonas rurais podem ser atraentes e não somente no setor agrícola. As pessoas não querem ficar onde não tem ninguém.
Também é preciso valorizar o trabalho dos agricultores para que possam sair da pobreza. Isso é válido não somente nos países do Sul. Na Suíça também numerosos agricultores têm dificuldade de sobreviver e abandonam suas terras. O preço dos produtos alimentares não correspondem ao valor real. Como a alimentação é vital para todos, por que os agricultores não ganhariam mais do que um advogado oo de um engenheiro? O trabalho deles é certamente mais importante.
Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch