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Suíços do estrangeiro também querem dar sua opinião
Suíços do estrangeiro não querem - ou não podem - retornar à pátria. Mas um bom número faz questão de participar da democracia helvética.
"Foi algo que sentia dentro de mim. Logo percebi que me sentia tão em casa na Holanda, que não conseguiria mais me imaginar voltando à Suíça", confessa Eliane Fankhauser, radicada na Holanda há dez anos. Ela chegou como estudante, estudou música medieval e se tornou uma especialista na área.
Fankhauser é uma dos 771 mil suíças e suíços que vivem além das fronteiras do país. "Minha visão da Suíça mudou, em vários níveis. O país, a natureza e também até ao perceber como a Suíça é limpa e tudo funciona tão bem", ressalta a emigrante, que hoje trabalha como gerente de projetos em uma empresa de software.
Números atuais
No final de 2019, um em cada 10 suíços vivia no exterior. A chamada "5ª Suíça" (n.r.: suíços fora do país são considerados membros da 5° região cultural) é formada por 770.900 pessoas, o que corresponde, em termos de população, ao quarto maior cantão do país, somente atrás de Zurique, Berna e Vaud. Algumas características dela:
- Há mais mulheres do que homens suíços no exterior.
- Dois terços das mulheres suíças no exterior se estabeleceram no continente europeu: França, Alemanha, Itália e Grã-Bretanha foram os principais destinos.
- 75% dos suíços do estrangeiro têm outras nacionalidades.
- Idade média dos homens suíços: 40 anos. Mulheres: 45 anos.
Há diferentes razões que levam pessoas como Eliane Fankhauser a emigrar. No passado, confeiteiros do Engadin (região montanhosa no leste da Suíça) emigraram para a Itália, pois não havia trabalho em casa. Nos séculos 18 e 19, eram famílias de agricultores que iam buscar sua sorte em novas terras nos Estados Unidos, onde fundaram cidades como "Nova Berna" ou "Novo Glarus".
Hoje em dia, muitos suíços são atraídos ao exterior por uma boa oferta de trabalho, explica Ariane Rustichelli, diretora da Organização dos Suíços no Estrangeiro (ASO, na sigla em alemão), sediada em Berna.
Suíça muito cara?
Embora a maioria dos suíços do estrangeiro viva em países da União Europeia (UE), um número crescente deles se volta para países na Ásia: "Além de trabalho, muitos escolhem esse continente para passar sua aposentadoria. A Tailândia é um exemplo: muitos suíços se mudaram para lá por razões financeiras e pelo respeito que a população tem pelos idosos.
Razões financeiras também desempenham um papel importante para não retornar: "Se você está registrado no sistema de assistência social de um país da UE, por exemplo, pode haver problemas ao retornar à Suíça. Há uma lacuna no sistema nacional de previdência e assistência social e o retorno não é mais atrativo financeiramente", explica Rustichelli.
Mesmo que não queiram - ou não possam - retornar à Suíça por várias razões - a maioria desses emigrantes se interessa pela política nacional.
Eliane Fankhauser participa sempre dos plebiscitos e referendos. Também se informa dos debates políticos. "Ainda me sinto dez por cento suíça. Além disso, é a única maneira de participar da democracia. Como cidadã, ficaria triste se não puder mais ser parte da democracia do meu país", diz.
Direito de voto desde 1966
Cerca de 180 mil suíços do estrangeiro mantém o direito de votar e ser votado. No entanto, isso nem sempre foi possível na história do país.
Embora a "Quinta Suíça" tenha sido reconhecida na Constituição por um adendo de 16 de outubro de 1966 (Artigo 45, que hoje se tornou o Artigo 40), o exercício da cidadania nem sempre foi garantido. O direito de voto para quem vivia no exterior só passou a ser garantido a partir de 1977, porém como exceção: a pessoa precisava estar presente no país para poder participar dos pleitos. O voto por correspondência foi criado em 1992.
Em 2015 foi eleito o primeiro suíço do estrangeiro para um assento no Parlamento federal: Tim Guldimann, que na época vivia em Berlim, Alemanha. Entretanto o diplomata renunciou ao posto após dois anos. Ele justificou sua decisão alegando ser difícil viver em um lugar e fazer política em outro.
Atualmente não há suíços no estrangeiro presentes no Parlamento. Mas a "Quinta Suíça" continua exercendo influência política através de um órgão da ASO, o Conselho dos Suíços do Estrangeiro, mais conhecido também como "Parlamento da Quinta Suíça".
Embora esse parlamento não tenha poderes, de fato, atua como uma organização de lobby. São 140 membros, dos quais 20 vivem na Suíça, mas são parlamentares. Outros 120 vivem no exterior, espalhados em cinco diferentes continentes.
Abertos ao mundo
Franz Muheim é um deles. O suíço cresceu no cantão de St. Gallen e seus hobbies são tipicamente suíços: caminhadas, ciclismo e luta suíça. Trabalha como professor de física na Universidade de Edimburgo, Escócia, desde 1999, e também faz parte da diretoria da ASO. Além disso, é membro do Conselho dos Suíços do Exterior há sete anos.
Ele conhece os problemas e as características da sua comunidade. "Somos como os suíços que vivem no país: votamos de forma semelhante, mas com uma diferença marcante. Os suíços do estrangeiro são mais abertos ao mundo. Graças ao seu peso, 10% dos votos acaba indo da direita (representada pelo Partido do Povo Suíço - SVP) a esquerda (Partido Socialdemocrata) ou para os ecologistas (Partido Verde)."
Uma das principais preocupações da "Quinta Suíça" são as relações entre a Suíça e a UE: 63% dos suíços do estrangeiro vivem em algum país do bloco (incluindo também a Grã-Bretanha). O Conselho do Suíços do Estrangeiro se empenha atualmente em assegurar que todos concidadãos tenham uma aposentadoria tão sólida e completa como os que ficaram e um acesso integral ao sistema bancário do país.
Embaixadores da pátria
Mas não se deve esquecer: o engajamento político na Suíça é apenas um lado da medalha. Para a diretora da ASO, Ariane Rustichelli, é igualmente importante que os suíços do exterior sejam percebidos em seu país de adoção.
Ela está convencida: "Os suíços do estrangeiro são um componente importante para a Suíça. Eles têm uma rede enorme de contatos e promovem os valores helvéticos lá fora".
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