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Luis Lacalle Pou encerra 15 anos de governos de esquerda no Uruguai
Luis Lacalle Pou, ex-senador de 46 anos do Partido Nacional (centro-direita), foi eleito para a presidência do Uruguai após 15 anos de hegemonia da esquerda no país, e teve sua vitória reconhecida nesta quinta-feira (28) pelo candidato governista derrotado, Daniel Martínez, da Frente Ampla.
"Saudamos o presidente eleito @LuisLacallePou, com quem terei uma reunião amanhã", escreveu Martinez em sua conta no Twitter, após a apertada votação realizada no domingo, 24 de novembro, que obrigou o Tribunal Eleitoral a esperar uma recontagem antes de oficializar o resultado.
O presidente do Tribunal Eleitoral, José Arocena, disse à AFP que assim que encerrar a recontagem, a entidade irá anunciar a chapa vencedora, previsivelmente na sexta-feira.
A vitória de Lacalle Pou encerra três mandatos consecutivos da Frente Ampla, exercidos desde 2005 alternadamente pelo atual presidente Tabaré Vázquez e o ex-líder guerrilheiro José Mujica.
- Compasso de espera -
Embora as pesquisas antes da votação apontassem uma vitória confortável para Lacalle Pou, a apuração iniciada na tarde de domingo arrefeceu o entusiasmo da oposição e deu um pouco de esperança aos governistas.
Segundo a contagem inicial, Lacalle Pou obteve 1,168 milhão de votos, enquanto Martinez conquistou 1,139 milhão, uma diferença de menos de 30 mil, que é, por sua vez, inferior aos votos "observados" - quando os eleitores votam em seções às quais não pertencem ou não aparecem no registro - que totaliza 35 mil e sempre leva tempo para contar, porque a identidade do eleitor deve ser verificada no boletim eleitoral.
Esses votos geralmente reproduzem a tendência do eleitorado geral, mas tecnicamente havia uma chance remota de que o resultado pudesse ser revertido, o que impedia que o tribunal eleitoral fizesse um anúncio oficial.
A espera começou ainda no domingo, quando Martínez discursou para simpatizantes sem reconhecer a derrota. "Temos que esperar", disse.
Minutos depois, o candidato da coalizão da oposição apareceu diante dos militantes de seu partido e daqueles que apoiaram sua candidatura e recriminou o adversário, que não reconheceu a derrota perante um resultado que considerava "irreversível".
O Tribunal Eleitoral do Uruguai, observando os protocolos estabelecidos, aguardou 48 horas para iniciar a recontagem, cujo resultado oficial será apresenta nesta sexta.
Através do Twitter, Lacalle Pou se limitou a republicar duas postagens da conta oficial de seu partido, o Partido Nacional.
Em uma delas, está escrito: "O Uruguai já tem um novo Presidente !! @LuisLacallePou", acompanhado por uma imagem de Lacalle ao lado de sua companheira de chapa, a agora eleita vice-presidente, Beatriz Argimón.
Lacalle Pou já começou a trabalhar na composição de seu futuro gabinete, que contará com representantes dos partidos que participaram da coalizão eleitoral que o apoiou: Partido Colorado (centro), Partido Independente (centro-esquerda), Partido Popular (centro-direita) ) e o Cabildo Abierto (direita).
- Mudança de rumo após 15 anos de esquerda -
O Uruguai fazia parte de um grupo de países que teve na última década governos de esquerda na última década, ao lado da Argentina, com Néstor e Cristina Kirchner, Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, e Equador, com Rafael Correa.
Recentemente, a região tem sido palco da ascensão de líderes mais conservadores, como Jair Bolsonaro no Brasil e Mauricio Macri na Argentina, que entregará o cargo em dezembro novamente para a esquerda peronista.
Durante seus 15 anos no poder, a coalizão esquerdista aprovou o aborto em 2012, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a regulamentação do mercado da cannabis em 2013.
Após um período de bonança impulsionado pelos altos preços das matérias-primas agrícolas, a economia começou a exibir fraqueza: o desemprego atingiu 9,5%, em uma economia estagnada, com um déficit fiscal persistente de 4,9% do PIB.
- Herdeiro político -
Luis Lacalle Pou, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995) e da ex-senadora Julia Pou, é herdeiro de um movimento político conhecido no Uruguai como "Herrerismo", nome que é uma referência a seu bisavô paterno, Luis Alberto de Herrera, que fez parte do governo na década de 1950.
Advogado, é o segundo de três irmãos e tinha 16 anos quando seu pai assumiu a presidência do Partido Nacional, do qual hoje é líder.
Deputado entre 2000 e 2015 e senador de 2015 até renunciar ao mandato para concorrer à presidência, gosta do mar e da natureza e às vezes se define como um biólogo "frustrado".
Casado e pai de três filhos, esta foi a segunda vez que Lacalle Pou se candidatou à presidência. Na primeira, em 2014, foi derrotado no segundo turno pelo atual presidente, Tabaré Vázquez.
- Renovação -
Em seu programa de governo, propõe reduzir os gastos do Estado para superar o persistente déficit fiscal de 4,9% do PIB.
Entre outras medidas criticadas pelos adversários, está a redução de vagas no setor público para reduzir gastos em até 900 milhões de dólares em cinco anos.
A contrário de Váquez, Lacalle Pou prometeu na campanha que não vai aumentar impostos.
Sua primeira decisão será enviar uma "lei de consideração urgente" ao Parlamento, com a qual ele pretende adotar medidas rápidas em 90 dias.
Este projeto procura declarar a "emergência" da segurança e liberar a importação de combustível em um país onde uma empresa estatal detém o monopólio e os preços dos combustíveis estão entre os mais altos do mundo.
"Para muitos uruguaios, Lacalle Pou representa uma renovação geracional, proveniente dos partidos tradicionais do Uruguai, mas no século XXI", disse Daniel Supervielle, autor do livro "La Positiva", à AFP sobre a primeira campanha à presidência do ex-senador, em 2014.
A cerimônia de posse de Lacalle Pou será em 1º março para um mandato de cinco anos.