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Peritos independentes nomeados pela Assembleia Mundial da Saúde pediram uma reforma dos sistemas de prevenção e resposta à pandemia. Um trio de pesquisadores do Instituto de Pós-Graduação em Genebra argumenta que a ciência deveria estar no centro das respostas.Este conteúdo foi publicado em 03. junho 2021 - 15:15
Quando a Assembleia Mundial da Saúde (WHA) se reuniu em maio de 2020, o mundo estava lutando para responder a uma das piores crises de saúde da história recente. Um ano depois, a pandemia COVID-19 ainda infecta centenas de milhares e mata dezenas de milhares por dia. A comunidade internacional poderia ter evitado que o surto de uma nova infecção respiratória em Wuhan se tornasse um desastre global, que abalou os sistemas de saúde e empurrou milhões para a pobreza? Para responder a essa pergunta, a WHA pediu ao Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) que conduzisse uma revisão imparcial e abrangente da resposta global da saúde à pandemia e fizesse recomendações para o futuro. Em seu relatório final, o Painel Independente para Preparação e Resposta à Pandemia (IPPPR), que foi criado, clama por uma transformação fundamental do sistema internacional para prevenir uma futura pandemia. Em outras palavras: mais do mesmo não funcionará.
O desafio é enorme. Os sistemas existentes de vigilância e resposta a doenças são uma colcha de retalhos que mistura projetos desarticulados entre si. Eles foram projetados por especialistas vindos de um conjunto restrito de disciplinas e um número limitado de geografias. Estruturas internacionais que reúnem informações entre organizações que lidam com a saúde de humanos, animais, plantas e o meio ambiente, como a OMS em Genebra, a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) em Paris, a Organização para Alimentos e Agricultura (FAO) em Roma e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em Nairóbi não são fundamentados por mecanismos de implementação robustos. O compartilhamento de dados entre governos e organizações internacionais é limitado e demorado. Não existe uma rede de fluxos de dados em tempo real, como aqueles que sustentam previsões meteorológicas globais precisas. A COVID-19 expôs cruelmente como essas inadequações afetam nossa capacidade coletiva de detectar e responder de maneira decisiva às pandemias.
Por outro lado, a pandemia nos deu um vislumbre do que a ciência e a tecnologia podem oferecer na prevenção e gerenciamento de pandemias. Tecnologias como o sequenciamento de última geração de SARS-CoV-2 e seus mutantes, análise de big data, técnicas de preservação de privacidade e inteligência artificial (IA) demonstraram sua importância no apoio às respostas de saúde pública em muitos países ao redor do mundo. Para citar apenas um exemplo, as vacinas teriam levado muito mais tempo para se desenvolver sem a colaboração científica e o compartilhamento de dados sobre as sequências do genoma do vírus.
Precisamos aproveitar essa experiência rapidamente para estabelecer um esquema global de vigilância e resposta à pandemia com base científica, habilitado digitalmente e que funcione em todas as fases da pandemia, ou seja, preparação, vigilância, resposta e recuperação. A pandemia COVID-19 não será a última pandemia que o mundo testemunhará. A globalização, a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas continuarão a impulsionar novas doenças infecciosas emergentes em nosso caminho. Precisamos de uma arquitetura de ponta a ponta que seja abrangente e permanente.
O mecanismo deve desafiar o pensamento existente, examinando sistematicamente as necessidades e funções de cada uma das fases da pandemia e explorando os dados e tecnologias necessários para alcançar a mais alta qualidade de respostas exigidas. A arquitetura de dados e as fontes de informação que conectam as diferentes fases precisam ser examinadas de uma perspectiva multidisciplinar em epidemiologia e saúde pública, biologia molecular, ciências sociais e comportamentais, sistemas complexos, ciências da computação, ciências ambientais, serviços de saúde e economia em saúde. As tecnologias digitais e a inteligência artificial precisam estar no centro da amostragem, considerando a análise de dados em tempo real de fontes diversas e incomuns em toda a interface humano-animal-ambiente a fim de melhorar a apresentação de percepções políticas para tomadas de decisão eficazes e específicas ao cenário enfrentado.
Neutralidade e confiança seriam determinantes essenciais do sucesso. Para ter uma massa crítica de apoio internacional e confiança pública, acreditamos que tal sistema deve ser construído em colaboração com organizações internacionais, academia, setor privado e sociedade civil, e deve incorporar aprendizados e conhecimentos de diferentes regiões. Sua implantação deve ser viável mesmo em países com recursos limitados, pois o mundo é tão forte quanto seu elo mais fraco ao enfrentar crises de saúde. Portanto, uma arquitetura modular deve ser adotada para permitir que os países priorizem investimentos, primeiro adotando o que é viável e urgente e, subsequentemente, aumentando o esquema à medida que as capacidades e recursos se tornam disponíveis.
Em seu desenvolvimento e operação, o mecanismo deve refletir a noção de que a saúde é uma preocupação de todos e que os melhores resultados de saúde geralmente resultam da participação do cidadão e da comunidade na saúde pública. Ao normalizar processos bem governados para gerar e compartilhar dados, tornando-os aceitáveis e confiáveis para o público, o poder da ciência cidadã pode ser melhor aproveitado para preparação e resposta à pandemia.
Como uma plataforma global independente, a International Digital Health and AI Research Collaborative (I-DAIR), sediada em Genebra, está pronta para apoiar este esforço reunindo um grupo global de especialistas científicos multidisciplinares para desenvolver uma agenda de pesquisa e uma arquitetura para o mecanismo pandêmico global proposto. Acreditamos que a ciência deve conduzir livre de agendas nacionais ou comerciais estreitas. Construído de forma colaborativa e transparente, o sistema deve ser operado de forma independente e seus dados hospedados em uma infraestrutura digital neutra. Os alertas e percepções gerados por ele podem, portanto, se tornar uma fonte confiável de informações para atores locais, regionais e globais para calibrar suas respostas em tempo hábil para futuros surtos de doenças infecciosas emergentes.
Enquanto a WHA se prepara para se reunir novamente este ano, há uma breve janela de oportunidade antes de cairmos de volta no ciclo de alarme seguido de negligência. Embora as discussões políticas anunciadas pelo relatório do Painel Independente sejam importantes, e seus resultados, incluindo um novo tratado pandêmico, possivelmente valham a pena esperar, a agenda de pesquisa e desenvolvimento de um sistema de vigilância que poderia apoiar futuras decisões políticas não tolera atrasos. A ciência está oferecendo novas possibilidades. Precisamos de imaginação para alinhá-las com a política de maneiras criativas.
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Adaptação: Clarissa Levy