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(Arquivos) Atletas quenianos competem em Nairóbi no dia 13 de fevereiro de 2016(afp_tickers)
Nas colinas selvagens de Ngong, perto de Nairóbi, foragidos das milícias e da guerra em seu país, os refugiados treinam apenas com uma meta em mente: o sonho olímpico do Rio de Janeiro.
Escolhidos a dedo entre os jovens que moram nos campos de refugiados do Quênia, incluindo o de Dadaab, o maior do mundo, estes atletas buscam se classificar para os Jogos Olímpicos por uma equipe única, competindo sob a bandeira dos cinco anéis entrelaçados.
"Este será um grande momento para mim e todos os refugiados, que ficarão muito felizes de ver um de nós chegar aos Jogos", explica Nzanzumu Gaston Kiza, 22 anos, que fugiu do leste da República Democrática do Congo depois de ter os familiares assassinados em confrontos étnicos.
Enquanto que o número de pessoas obrigadas a fugir de suas casas e seu país bate recordes no mundo todo, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu, no início de março, fazer algo a respeito e financiar uma "equipe de atletas olímpicos refugiados" oriundos de diversos lugares do planeta.
Representando a bandeira e o hino olímpico, a equipe deverá desfilar à frente da delegação do Brasil durante a cerimônia de abertura dos Jogos do Rio (de 5 a 21 de agosto).
"Queremos enviar uma mensagem a todos os refugiados do planeta", declarou o presidente do COI, o alemão Thomas Bach, durante o anúncio da criação da equipe.
Cores olímpicas
Nas colinas de Ngong, cerca de 40 km ao sudoeste de Nairóbi, os atletas vindos da RDC, da Somália e do Sudão do Sul treinam duro para fazer parte desta equipe, sob o ardente sol equatorial, à altitude de 2.400 metros.
Angelina Ndai, sul-sudanesa de 22 anos, já se vê correndo pela pista do estádio olímpico do Rio para a prova dos 1.500 metros.
"Ficaria feliz de estar lá e ser reconhecida como sul-sudanesa", afirma a jovem.
Em 2012, em Londres, o sul-sudanês Gour Mading Maker (ou Gour Marial) participou da maratona vestindo as cores olímpicas.
Seu país havia alcançado no ano anterior a independência, mas ainda não era membro do COI.
Hoje é, mas Angelina, como outros dois milhões de compatriotas, precisou fugir de uma guerra civil que dura mais de dois anos e é tão mortal quanto devastadora.
Por enquanto "estamos aqui e esperamos seguir adiante", testemunha a jovem refugiada.
A transição entre o campo de refugiados e a pista de atletismo, porém, não se realiza sem dificuldades e, se nunca falta motivação, muitos atletas tiveram que renunciar ao sonho e voltar aos acampamentos, vítimas de lesões musculares provocadas por treinos intensos.
O amadorismo não tem lugar nessa preparação, garante o ex-técnico da equipe olímpica do Quênia John Anzrah, o que eleva o grau de exigência.
"Quando os atletas chegam, não têm nenhuma preparação física. Zero", explica à AFP.
"É preciso lembrar que essa gente vive em acampamentos e tivemos muito trabalho", continua.
"Há talento"
O treinador, porém, se vê otimista. "Há talento" no grupo, no qual se destaca um corredor somaliano, Mohammed Daud Abubakar.
Seus companheiros veem semelhanças entre Abubakar e o campeão britânico de origem somali Mo Farah e, por isso, o chamam de 'Mo'.
"Quero ser um dos grandes corredores do mundo e por isso o Rio significa tanto", explica Mohammed.
"Sabe, Mo é somaliano como eu e gostaria muito de ser como ele daqui a alguns anos. Se possível, já no Rio", revela o atleta.
As vagas na equipes são contadas e somente 5 a 10 atletas poderão viajar ao Brasil. A cada fim de semana, esses esportistas-refugiados se medem com os fortes corredores quenianos em provas de pista e de rua.
Os escolhidos serão revelados em junho.
O chefe do Comitê Olímpico Queniano, Kipchoge Keino, lembra que o rendimento dos atletas precisa ser muito bom se quiserem formar parte da equipe. "Poderíamos ver um desses garotos voltar com uma medalha de ouro", sonha o dirigente.
Caso isso aconteça, a bandeira olímpica será hasteada ao céu carioca durante a cerimônia de premiação, e não a do país de origem desses refugiados.
Para Keino, a mensagem seria fantástica: "As autoridades do país de origem (do medalhista) veriam que tinham talentos e deixaram escapar".
AFP