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Na esteira da crise dos opiáceos nos Estados Unidos, alguns médicos suíços alertam para a prescrição excessiva de medicamentos que contêm oxicodona e exigem que as autoridades suíças tomem medidas para reduzir os riscos de dependência.
Na quarta-feira foi publicada uma investigação exaustivaLink externo (em alemão) sobre dependência de opiáceos e os lucros de empresas farmacêuticas pela revista Republik e pelo programa noticioso Rundschau da televisão pública suíça, SRF.
O uso de opiáceos e o vício estão em ascensão na Suíça. Segundo a Pharmasuisse, as farmácias e os consultórios médicos prescrevem três vezes mais oxicodona - o ingrediente ativo de vários opiáceos, incluindo o OxyContin - do que há dez anos atrás. Entre 2013 e 2018, as vendas de oxicodona na Suíça dobraram.
As autoridades suíças e os peritos farmacêuticos minimizaram os riscos de uma crise, argumentando que a regulamentação sobre a publicidade e a prescrição de opiáceos é mais rigorosa na Suíça do que nos EUA.
No entanto, de acordo com a investigação, alguns médicos descrevem a situação dos opióides no país como "crítica", observando que um número crescente de suíços encontra-se dependente da oxicodona.
"Os pacientes querem a droga em doses ainda maiores. Até que seja quase letal", disse Martin Sailer, médico do Hospital Bern Salem, à Republik.
Justificando a necessidade
A Agência Suíça para Produtos Terapêuticos, Swissmedic, que é responsável pela aprovação de medicamentos, argumenta que não há novos alarmes sobre reações adversas a medicamentos relacionadas a opióides que exigiriam medidas adicionais para combater o abuso.
Desde 2014, a Swissmedic aprovou dez novas drogas contendo oxicodona. Este ano, a agência aprovou a extensão de nove drogas. Estima-se que 10-15% dos pacientes que recebem opióides para dor crônica desenvolvem um vício, que é mais ou menos o mesmo nível de vício com o álcool. A autoridade relatou duas mortes por oxicodona em 2018.
A Swissmedic também argumenta que essa classe de analgésicos potentes é usada principalmente em cuidados paliativos.
No entanto, os médicos entrevistados como parte da investigação indicam um grande aumento no número de pacientes pedindo opioides para alívio da dor em comparação com o ano passado.
"Ao longo dos últimos seis anos venho registrando uma quantidade significativamente maior de pacientes vindo ao meu consultório pedindo medicação com este ingrediente ativo. E a dose diária aumentou nos últimos três anos", disse Sailer. Ele se preocupa que a oxicodona é usada com muita frequência e muito rapidamente para dores leves.
Existem atualmente 2.600 ações judiciais contra a indústria farmacêutica devido à crise de opióides corrente nos EUA. Só a Purdue Pharma tem mais de 1.000 processos por enganar o público em relação aos riscos relacionados com a OxyContin.
Transferindo a responsabilidade
Segundo o porta-voz da Swissmedic, Lukas Jaggi, "cabe ao médico utilizar os opiáceos com sabedoria e informar os doentes sobre os riscos".
Isto foi reiterado por Stephan Krähenbühl do Hospital Universitário de Basileia e conselheiro da Swissmedic. Os pacientes precisam ser informados sobre a forma como o medicamento funciona e que ele tem um elevado potencial de dependência", afirmou.
Para alguns na profissão médica, isto coloca demasiada responsabilidade sobre os ombros de médicos já muito ocupados. Os médicos muitas vezes não têm tempo para checar problemas da medicação, analisá-los e escrever um relatório para a Swissmedic.
Alguns médicos entrevistados disseram que tomaram cuidado para administrar oxicodona apenas nos primeiros dias após uma operação e não deram aos pacientes pacotes para levar para casa, por exemplo. No entanto, eles observaram que muitos doentes pediram explicitamente oxicodona.
"Decidi não usar oxicodona para meus pacientes com dor nas costas", disse Sailer. "Não consigo conciliar nada mais com a minha consciência ou com o meu Juramento de Hipócrates [para manter padrões éticos específicos]".
A Sociedade Suíça de Reumatologia recomendou recentemente que os médicos não prescrevam mais opioides para dor crônica.
Sailer insiste que se a Swissmedic não reagir, corre o risco de ser criticada pelo público e pelos políticos, argumentando que uma medida razoável seria criar uma comissão de oxicodona.
Krähenbühl também argumenta que as diretrizes para os níveis de prescrição de opioides devem ser revistas e ajustadas, se necessário, observando os riscos da prescrição de opioides para dor crônica.
Os laços suíços da família Sackler
A investigação revelou igualmente as ligações suíças da família Sackler, proprietária da empresa produtora do OxyConzin, a Purdue Pharma. Em setembro, o Procurador-Geral de Nova Iorque afirmou que a família utilizou contas suíças e outras contas ocultas para transferir um bilhão de dólares (CHF 990 milhões) para si mesmos.
A Fundação Sackler, registrada na Basiléia, também patrocina eventos culturais na Suíça.
A Mundipharma, subsidiária da Purdue, com sede em Basileia, fez grandes investimentos no sistema de saúde suíço. Entre 2016 e 2018, de acordo com o site pharmagelder.chLink externo, a empresa contribuiu com CHF 3,6 milhões na Suíça, incluindo hospitais em Genebra e Berna.
SRF/Republik/jdp