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O suposto narcotraficante hondurenho Geovanny Fuentes Ramírez, acusado pela justiça americana de conspiração para introduzir cocaína nos Estados Unidos com a ajuda do presidente de Honduras, será julgado a partir desta segunda-feira (8) em um tribunal federal de Nova York.
O julgamento pode ter implicações para o presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández, que é identificado em documentos judiciais como "co-conspirador" de Fuentes no envio de toneladas de drogas para os Estados Unidos, mas que não foi indiciado.
Nesta segunda-feira, o juiz federal de Manhattan Kevin Castel, a promotoria e a defesa selecionaram 12 jurados titulares e vários suplentes que decidirão se Fuentes é culpado ou inocente em um processo que deve durar cerca de 10 dias úteis.
“Durante o julgamento, espero que vocês ouçam evidências sobre ações que preocupam funcionários do governo hondurenho”, disse o juiz aos jurados, antes de perguntar se isso afetaria sua imparcialidade.
Documentos apresentados pela promotoria indicam que Fuentes, preso em 1º de março de 2020 em Miami, pagou "dezenas de milhares de dólares" em propina a Hernández em troca de uma promessa de proteção e apoio militar ao seu tráfico de drogas em 2013, quando o político era presidente do Congresso e candidato à Presidência.
Os argumentos de abertura de ambas as partes começarão nesta terça-feira.
- Uma carta "alarmante" -
Fuentes, acusado de três crimes de narcotráfico e porte de armas para levar adiante crimes de tráfico de drogas, entrou no tribunal da zona sul de Manhattan com máscara, calça cinza e camisa azul claro, sem gravata.
Imediatamente, o juiz Kevin Castel anunciou que havia recebido uma carta "alarmante" dos promotores afirmando que o filho de Fuentes entrou em contato com a companheira de uma testemunha cooperante, algo "que pode ser interpretado como interferência, ameaça ou intimidação" da testemunha.
Castel alertou que essa conduta pode ser punida e resultar em novas acusações a Fuentes de obstrução da justiça ou até mesmo no aumento de sua pena, caso seja considerado culpado.
- "Droga nos narizes dos gringos" -
Nos documentos, os promotores identificam Juan Orlando Hernández, de 52 anos, como "CC-4" (co-conspirador 4) do acusado, e afirmam que ele ajudou Fuentes a enviar cocaína para os Estados Unidos, usando como intermediário seu irmão, Juan Antonio "Tony" Hernández.
Tony Hernández, de 42 anos, foi considerado culpado de tráfico de drogas em "grande escala" em Nova York em outubro de 2019 e sua sentença, adiada várias vezes, está marcada para 23 de março. Pode ser condenado a uma pena máxima de prisão perpétua.
Seu advogado durante o julgamento, Melvin Bonilla, foi morto na última quinta-feira em Honduras por homens armados.
Em reunião com Fuentes, segundo os promotores, "CC-4 disse que queria fazer a agência antidrogas dos Estados Unidos (DEA) pensar que Honduras estava lutando contra o narcotráfico, mas que na realidade eliminaria a extradição e 'meteria a droga no nariz dos gringos'".
"O réu (Fuentes) estava animado por ter a proteção e o CC-4 e concordou em trabalhar com o CC-4 e seu irmão (Tony) para importar cocaína para os Estados Unidos", segundo o documento de acusação.
Durante o julgamento de Tony Hernández, uma testemunha contou que testemunhou uma reunião em 2013, onde o ex-chefe do cartel de Sinaloa Joaquín "Chapo" Guzmán deu um milhão de dólares em dinheiro ao réu para a campanha presidencial de seu irmão José Orlando.
- "Chave mágica da mentira" -
O presidente de Honduras, advogado que assumiu o cargo em 2014 e está em seu segundo mandato, nega todas as acusações e se apresenta como um herói na luta contra o narcotráfico e as gangues violentas que espalham o terror no país.
Na segunda-feira, ele garantiu em sua conta no Twitter que as testemunhas que colaboraram no julgamento e que o acusam darão "falsos testemunhos" para se vingar por sua luta contra o narcotráfico e reduzir suas penas de prisão nos Estados Unidos.
Uma das testemunhas colaboradoras é Devis Leonel Rivera Maradiaga, líder do cartel Los Cachiros, que já testemunhou contra Tony Hernández e Fabio Lobo, filho do ex-presidente de Honduras Porfirio Lobo (2010-2014) e condenado a 24 anos de prisão por tráfico de drogas em Nova York em 2017.
"Vou manter uma aliança internacional na luta contra o narcotráfico até meu último dia como presidente em 27 de janeiro de 2022. Mas se os traficantes de drogas com a chave mágica da mentira obtiverem benefícios dos EUA por falsos testemunhos, a aliança internacional entrará em colapso com Honduras e com vários países", escreveu Hernández.
Durante o julgamento de Tony Hernández em Nova York, testemunhas também disseram que o ex-presidente hondurenho Porfirio Lobo (2010-2014) havia recebido propina de traficantes de drogas em troca de proteção.