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Quando ela sai todas as manhãs para protestar por seu marido preso em Xinjiang, Gulnur Kosdaulet pega um modesto táxi coletivo que passa por sua fazenda na estepe do Cazaquistão, cercada por montanhas.
Uma hora e meia depois, está em frente ao consulado chinês em Almaty, a capital econômica do Cazaquistão.
Há um mês, um pequeno grupo de manifestantes, sobretudo mulheres, tem-se reunido ali todos os dias.
"O Cazaquistão e a China são amigos. Manifestamos para que ambos os governos cheguem a um acordo e devolvam nossos entes queridos para nós", explica Kosdaulet.
Seu marido, um veterinário de 47 anos, ficou detido por mais de três anos. Agora foi libertado, mas com seu passaporte confiscado, e então não pode voltar para o Cazaquistão. Pelo menos o casal pode se comunicar por telefone.
Outra mulher começa a chorar ao seu lado, depois de ter gritado em voz alta "bostandyq!", "liberdade" em cazaque.
"Estou procurando meu marido, Jarkynbek. Ele desapareceu há quatro anos", diz a mulher, Tursyngul Nurakai, mostrando duas fotos.
"E este é meu sobrinho Kenjebek. Ele foi preso por dez anos", completa.
Em Xinjiang (noroeste), as autoridades chinesas são acusadas de prender massivamente diferentes grupos étnicos, em especial muçulmanos uigures, mas também cazaques, em sua luta contra o "extremismo".
Em janeiro, o agora ex-secretário de Estado americano Mike Pompeo chamou essas perseguições de "genocídio".
E, este mês, dezenas de especialistas garantiram em um relatório para o Newslines Institute, com sede em Washington, que Pequim viola em Xinjiang uma convenção da ONU para a repressão aos genocídios.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, chamou essas acusações de "absurdas".
Pequim afirma que esses locais de detenção são centros de formação para impedir a violência, em uma região que em 2009 viu protestos contra as autoridades.
Gulnur Kosdaulet nunca se imaginou envolvido em algo assim. Mas, desde 2017, seu marido e pai de seus três filhos, Akbar, um cidadão chinês, não voltou de Xinjiang, onde foi para um funeral.
- Milhares de cazaques presos na China -
Sem essa situação, Kosdaulet indicou que teria permanecido "tranquila" em sua fazenda e "nunca teria pensado em política, nem um segundo".
Com milhares de familiares de sua população sob custódia, o Cazaquistão se tornou uma plataforma para ativistas que protestam contra esses abusos. A situação virou um desconforto para autoridades que desejam manter boas relações com seus vizinhos.
A polícia acompanha de perto as manifestações diárias em frente ao consulado chinês e pede que os manifestantes se dispersem. Usando megafones, avisam que a manifestação é ilegal.
Para Baibolat Kunbolat, a polícia tenta "silenciar" os lemas entoados pelos manifestantes.
No mês passado, este homem de 40 anos, lutando pela libertação de seu irmão, foi o primeiro manifestante a ser condenado a uma curta pena de prisão de 12 dias.
A maioria dos manifestantes pediu oficialmente ao governo para pressionar Pequim. No final de 2018, a diplomacia do Cazaquistão anunciou que a China havia autorizado o retorno de 2.000 pessoas ao país.
Desde então, os relatos de sentenças de prisão impostas a cazaques que permaneceram na China vêm-se tornando cada vez mais frequentes. E os familiares acusam as autoridades cazaques de não fazer esforços para ajudá-los.