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A Suíça costumava ser o destino ideal para as empresas multinacionais se estabelecerem, mas nos últimos anos o país está sendo ultrapassado por outros polos europeus como a Holanda.
Novas pesquisas mostram que a nação alpina caiu do primeiro para o terceiro lugar como a sede preferida das multinacionais na Europa. Será o caso de mudar o ambiente de negócios?
Em um relatório lançado na semana passada chamado “Acorda Suíça" ("Switzerland Wake Up”), a empresa de consultoria McKinsey & Co, bem como seus co-autores (incluindo as associações industriais EconomieSuisse e SwissHoldings) adverte que o país que está perdendo cada vez mais para vizinhos como a Irlanda, Luxemburgo, Reino Unido e Holanda quando se trata de hospedar grandes multinacionais.
As incertezas políticas em torno do relacionamento com a União Europeia e a reforma tributária fazem parte do problema, mas a crítica do relatório aponta para uma fraqueza mais fundamental: a falta de talento. Em particular, afirma que, “embora a Suíça tenha algumas das escolas mais prestigiadas do mundo, não parece fornecer talentos suficientes para atrair sedes multinacionais com amplos recursos”.
Multinacionais são e têm sido uma parte importante do tecido econômico e social da Suíça há anos. Apesar de representar menos de 5% de todas as empresas, as multinacionais suíças e estrangeiras criam 26% de todos os empregos e contribuem com um terço do PIB. Elas também fornecem quase metade de todas as receitas fiscais federais das empresas.Aqui termina o infobox
O efeito holandês
O grande vencedor dos últimos cinco anos é a Holanda. Enquanto tanto a Irlanda quanto a Suíça viram um declínio em suas respectivas participações em sedes de multinacionais que se mudaram dentro ou para a Europa nos últimos cinco anos (queda de três e oito pontos percentuais, respectivamente), a Holanda aumentou sua participação em sete pontos percentuais.
Isso inclui grandes nomes como Uber, Netflix e Uniqlo, que montaram sedes globais ou regionais no país nos últimos cinco anos. A Holanda também se tornou o local preferido para empresas que estão abandonando seus planos originais de se sediarem no Reino Unido por causa do Brexit, como é o caso da Panasonic.
O que falta em altas vistas alpinas, as vastas planícies baixas do vizinho do norte compensam por sua localização central, infra-estrutura forte e acesso ao mercado para o resto da Europa. De acordo com o relatório, alguns CEOs entrevistados nem sequer consideraram a Suíça por causa de uma percepção de falta de acesso ao mercado. Há também o bônus de se poder pedalar facilmente para o trabalho mesmo em grandes cidades como Amsterdã.
Vislumbres de esperança
Existem áreas onde a Suíça ainda brilha, como por exemplo em Pesquisa & Desenvolvimento, e ciências da vida. O país obteve 26% da participação de centros de P & D montados por multinacionais, o que ajudou a colocá-la em segundo lugar entre os cinco locais avaliados pela McKinsey. Boas notícias, dado que os centros de P & D contribuem mais para o PIB per capita do que outras operações. Exemplos notáveis incluem a empresa de beleza global Coty e a gigante tecnológica Oracle.
O centro de empresas farmacêuticas e de saúde, especialmente em Basileia, continua sendo uma característica atraente do país. A região da Basileia ocupa o primeiro lugar globalmente quando se trata de gastos em P & D em termos de PIB regional, e tem o maior número de patentes farmacêuticas por milhão de habitantes.
O relatório destaca estudos de caso como a Google, que considera Zurique o seu segundo lar há uma década e hoje conta com cerca de 2.000 funcionários na Suíça, tornando-se a segunda maior central da Google fora do Vale do Silício. Também há casos como o da Alcon, filhote da Novartis, que está se mudando para Genebra, e a Adidas, que está construindo sua central de operações em Lucerna.
Tarde demais para corrigir o curso?
A Suíça ainda tem uma forte reputação e alguns pontos fortes indiscutíveis, incluindo a facilidade de fazer negócios e a qualidade de vida, de acordo com os 100 executivos entrevistados para o relatório. Mas as cadeias montanhosas deslumbrantes e conexões ferroviárias (relativamente) pontuais não bastam para esse tipo de decisões.
O relatório conclui que alguns dos fatores que tornaram a Suíça tão atraente, incluindo sua confiabilidade regulatória, estão se desgastando. Ele aponta uma série de questões não respondidas, incluindo a relação da Suíça com a UE, grandes acordos comerciais, uma próxima votação sobre a reforma tributária e uma potencial votação nacional sobre uma Iniciativa Empresarial Responsável.
A área onde o país parece estar mais atrasado é a disponibilidade de talentos. A escassez é especialmente aguda no setor de tecnologia. Apenas 3% das empresas de tecnologia escolheram a Suíça nos últimos cinco anos, em comparação com 18% no Reino Unido e 11% na Holanda. A Suíça também perdeu a corrida para seduzir empresas chinesas como Alipay e Alibaba, atraindo apenas 5% das empresas chinesas, enquanto o Reino Unido conquistou 24% do bolo.
Em comparação com outros países europeus, o número de diplomados em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) é baixo, e é difícil compensar o pequeno fornecimento de talentos suíços com pessoas de fora da Europa devido a políticas de imigração restritivas para cidadãos oriundos de países fora da UE. Alguns executivos também comentaram que havia dificuldades para as mulheres trabalharem no país, encolhendo ainda mais a oferta de mão de obra.
O relatório também argumenta que a mobilidade dentro da Suíça também é percebida como limitada. Um executivo comentou que sua empresa perdeu um terço de seus funcionários quando a sede se mudou para outra cidade, que ficava a 45 minutos do local original.
Mas, deixando de lado qualquer agenda política, os autores dizem que a Suíça tem todos os ingredientes para continuar atraindo empresas. Só precisa de uma nova receita para o sucesso.