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Nos últimos anos historiadores têm atestado o envolvimento de homens de negócio suíços no chamado comércio triangular do período colonial – entre Europa, África e América (de norte a Sul). O que inicialmente se acreditava ser apenas relações econômicas e comerciais, agora inclui administração de territórios coloniais, posse de escravizados, justificação ideológica da escravidão. O quanto esses fatos têm sido integrados à história oficial da Suíça – e à educação – ainda não está claro.
Faça um teste rápido e pergunte a um suíço ou suíça se ele ou ela conhece ou já ouviu falar de Tilo Frey. Provavelmente a resposta será negativa. Tilo Frey (1923-2008), filha de um suíço e uma mãe pertencente à nação Fula, foi a primeira mulher negra a se tornar membro do parlamento nacional suíço – eleita entre 1971 e 1975 pelo partido liberal-radical, hoje conhecido pelas siglas PLR (em francês) e FDP (em alemão).
Apesar da sua trajetória, ela praticamente desapareceu da narrativa oficial e dos livros de história da Suíça. Tilo Frey, nascida nos Camarões, foi eleita ao lado de outras 10 mulheres como conselheira nacional (deputada), num momento histórico da Confederação Helvética, em fevereiro de 1971, quando as mulheres ganharam o direito de votar na Suíça.
Em 2018, dez anos depois da morte de Tilo Frey, a cidade de Neuchâtel decidiu dedicar um espaço à política e professora, que se formou pela Escola de Comércio da cidade em 1976. Na verdade, não se criou um espaço novo dedicado a Frey. A placa em homenagem à política substituiu a do cientista suíço-americano Louis Agassiz (1807–1873), que até então ocupava aquele espaço.
Agassiz, que ganhou até nome de montanha nos alpes berneses, foi um dos cientistas mais influentes do século 19. Saiu da Europa em 1846 para ensinar história natural e geologia nos Estados Unidos. Muito conhecido na Suíça pelo seu trabalho como glaciologista, nos Estados Unidos tornou-se um dos maiores oponentes da teoria da evolução de Charles Darwin. Em seu trabalho, o naturalista defendia o poligenismo, que ficou mais tarde conhecido como chamado racismo-científico, ideia que dividia os seres humanos em espécies e os hierarquizava, determinando níveis de superioridade. Ele defendia, inclusive, a separação espacial de negros e brancos.
Mesmo se engajando, enquanto parlamentária, pelo direito ao aborto, igualdade salarial entre homens e mulheres, um exército forte e maior acesso a direitos sucessórios para mulheres, há quem diga que Tilo Frey desapareceu porque não fez um trabalho expressivo.
Amnésia coletiva e seletiva
“Tilo Frey não era uma crítica ferrenha ao racismo. Mas ela sobreviveu, num cenário nacional, à hostilidade, humilhação e violência em função de seu gênero e da racialização”, escreve Jovita dos Santos Pinto, historiadora e cientista cultural, profunda conhecedora de Tilo Frey.
Além disso, explica Pinto, o ainda muito usado argumento de que o pensamento racista era norma e moralmente legítimo no século 19 não apenas relativiza a história violenta de desumanização, genocídio, tráfico de pessoas escravizadas, exploração e sofrimento, mas também supera uma história de resistência ao racismo e de atuação dos movimentos antirracistas na Suíça e em outros lugares.
O fato é que a história dessa suíça, a primeira mulher negra numa sociedade branca, a ocupar um espaço político, desapareceu da memória coletiva. Pinto vê a homenagem a Tilo Frey como positiva. Afinal, trata-se do primeiro espaço dedicado a uma mulher não branca na Suíça. O exemplo de Tilo Frey apenas mostra o quanto é importante rever a história, trazer à luz personagens muitas vezes deixados pra trás, buscar novas perspectivas, inclusive revendo como a Suíça atuou durante os anos de colonialismo.
Esse “esquecimento histórico” não é algo exclusivo a Tilo Frey. Mais e mais historiadores têm provado que uma boa parte da atuação da Suíça no período colonial também ficou pra trás. “Houve um processo de invisibilização deste momento histórico, dessas conexões, e seu impacto no mundo atual no currículo acadêmico suíço”, explica a historiadora e socióloga Izabel Barros da fundação Cooperaxion, com sede em Berna.
“Precisamos dar voz e espaço para outros agentes da história. Entender melhor as relações de poder, as interconexões, buscar outras fontes e documentos, e rever muito do que foi contado até hoje. Isso nos ajuda a não somente compreender melhor a sociedade em que vivemos, mas a pensar outras formas de sociedade e experiências sociais”, afirma Barros.
Nos bancos escolares
Nesse caso, o papel da educação e dos livros de história passa a ser fundamental. Novas abordagens têm que chegar à sociedade, aos bancos escolares. O tema Suíça e colonialismo nem sempre é apresentado nas escolas. Segundo a Comissão Federal contra o Racismo (CFR), “a problemática do colonialismo requer mais pesquisa científica para que então se possa desenvolver os meios pedagógicos adequados.” De acordo com a CFR, de fato, a ligação entre a Suíça e o colonialismo é amplamente ignorada no país.
Soma-se a isso a diversidade dos diversos planos instrucionais na Suíça. O próprio sistema de educação suíço, em que cada um dos 26 cantões define e é responsável pelo seu sistema escolar, tem suas vantagens, mas, por outro lado, não permite facilmente uma conclusão sobre quanto certos temas chegam de fato aos estudantes.
“As regiões linguísticas são responsáveis pelo conteúdo dos planos de estudo da escolaridade obrigatória. Temas ligados a questões de discriminação racial e às habilidades que todos os alunos devem adquirir durante a sua escolaridade são definidos nos planos de estudos regionais. Os suportes (meios de ensino, material) existem e são desenvolvidos com o objetivo de atingir esses objetivos,” afirma a Comissão Federal contra o Racismo (CFR).
Para algumas disciplinas, explica a Confederação Suíça dos Diretores Cantonais da Educação Pública (em alemão, Schweizerische Konferenz der kantonalen Erziehungsdirektoren – EDK), existem recursos obrigatórios de ensino (como línguas, matemática, etc.). Para outras áreas, os professores são mais livres para escolher métodos de ensino. Esse é o caso do campo das ciências humanas e sociais, no qual o tema racismo, por exemplo, se enquadra. Muitas vezes, a apresentação do tema acaba dependendo do próprio professor, seus interesses, idade, atitudes e também do livro didático escolhido. “Não sabemos se a ‘Suíça e o comércio triangular nos séculos 17 a 19’ é um tema obrigatório”, afirma a entidade.
Foi justamente com o intuito refletir sobre a história e as relações entre os atores sociais que a Cooperaxion vem desenvolvimento desde 2005 pesquisa, com criação de um banco de dados sobre o tema, visitas guiadas em diversas cidades, material didático que será lançado em setembro 2019 e campanhas de sensibilização sobre o comércio transatlântico entre os séculos 16 e 19. Muitos ainda acreditam que a Suíça não teve envolvimento no comércio de pessoas escravizadas, muito pelo fato de o país não possuir colonias, como Portugal ou Inglaterra. “Só que a história da Suíça também passa por seu alto envolvimento comercial e econômico no desenvolvimento e manutenção do comércio de escravizados e escravizadas”, explica Barros.
A Suíça e o comércio triangular
Apesar de não ser considerada uma potência colonial, mais e mais historiadores confirmam o envolvimento da Suíça no comércio triangular – entre Europa, África e América (de norte a Sul). Algo que inicialmente envolvia operações comerciais indiretas, agora inclui investimentos em empresas coloniais e em companhias de navegação, administração de territórios coloniais, fundação de colônias, posse de escravizados, controle e serviço militar e justificação ideológica da escravidão.
Nomes importantes da sociedade suíça, como De Pury, Burckhardt, Sulzer, Escher, entre outros, lucraram consideravelmente com o comércio transatlântico. Muitos construíram verdadeiros impérios. Essas famílias viam esse negócio como um investimento. Imóveis que foram construídos com o dinheiro do trabalho escravo podem ser encontrados em praticamente todas as grandes cidades.
Personalidades como August-Frédéric de Meuron e Jacques-Louis de Pourtalès, de Neuchâtel, por exemplo, possuíam atividades e plantações no exterior que usavam trabalho escravo. August-Frédéric de Meuron, neto de um importante fabricante de tecidos (indiennes), aprendeu sobre o comércio de têxteis e bens coloniais em Paris, na empresa de Paul Coulon. Tornou-se sócio de Coulon e juntos fundaram a Coulon, Meuron & Cie.
Depois de trabalhar e fazer negócios em Lisboa, em 1816, de Meuron fundou juntamente com seus primos a casa de comércio Meuron & Cie em Salvador, na Bahia. O suíço emigrou para o Brasil em 1817 e em 1819 fundou a fábrica de rapé Areia Preta, baseada principalmente no trabalho escravo. Se conectou a Gabriel von May e em 1826 mudou a fábrica Areia Preta para o Solar de Unhão, nos arredores da Bahia, onde hoje fica o Museu de Arte Moderna de Salvador. O negócio contava ainda com duas filiais, uma em Andarahy Pequeno, próxima ao Rio de Janeiro (1832), e outra Pernambuco (1836).
A fábrica no Rio de Janeiro era chefiada por Benjamin Samuel Dapples. Em 1851, de Meuron juntou-se ao seu sobrinho James-Ferdinand de Pury como parceiro de negócios. Eles assumiram a fábrica de tabaco de Dapples no Rio um ano após sua morte. Das 24 pessoas que trabalhavam ali, 18 eram escravizadas. Meuron & Cie controlou quase metade da produção de rapé do Brasil em meados do século 19.
A família do chamado pai da suíça moderna, Alfred Escher, político suíço, fundador do banco Schweizerischen Kreditanstalt (SKA), hoje Credit Suisse, pioneiro do sistema ferroviário suíço, fundador da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), entre outros, tinha uma plantação em Cuba – chamada Buen Retiro – entre 1815 e 1845 que funcionava com trabalho escravo, ou melhor, com 87 escravos no total, sendo que 82 atuavam no campo e 5 na casa. Um documento, datado de 1822 e encontrado pelo historiador Michael Zeuske, confirma tal fato. A fazenda Buen Retiro era administrada pelos dois irmãos de Heinrich Escher, pai de Alfred Escher. Quando um dos irmãos faleceu, a propriedade foi vendida e o dinheiro foi incorporado ao patrimônio da família Escher, que então foi herdado por Alfred Escher, inclusive a Villa Belvoir, construída entre 1828 e 31, e que hoje abriga a Escola de Administração Hoteleira e restaurante.
Há quem defenda que essa e outras histórias devam ser incorporadas à história de Zurique e da Suíça, e não sejam apenas relegadas a uma nota de rodapé. Mas tal debate nem sempre é facilmente digerido pela sociedade. “O tema é difícil porque mexe com o emocional das pessoas, com seus ídolos e referências. Muitos preferem ficar no estado de negação ou minimizar a importância dos fatos, mas precisamos dar espaço para essas pessoas e histórias, ir atrás dos documentos, investigar, rever e desconstruir relações de poder”, explica Barros. Afinal, como abordamos e entendemos o passado, incluindo ou relegando fatos, relações e personagens, impacta dramaticamente como vivemos em sociedade hoje.
Cooperação em prol da compreensão
Fundada em 2015, a fundação CooperaxionLink externo atua na pesquisa e desenvolvimento de projetos focados na rota do antigo comércio triangular, entre Europa, África e América. Sua equipe investiga e promove campanhas de sensibilização sobre o envolvimento da Suíça no comércio de produtos coloniais e tráfico de pessoas escravizadas entre os séculos 16 e 19.
Além de disponibilizar gratuitamente um banco de dados online com a origem e nomes de personalidades e instituições suíças envolvidas neste comércio e suas atividades, a Cooperaxion promove visitas guiadas a diversas cidades, como Neuchâtel, Berna, Winterthur e Fribourg, nas quais conecta história e seus vestígios (propriedades) importantes ligados ao comércio triangular, ao colonialismo e à sua continuidade nos dias de hoje.
No Brasil e na Libéria, a Cooperaxion também desenvolve projetos diretamente com parceiros locais e comunidades. No Brasil, no estado do Maranhão, apoia uma dezena de comunidades quilombolas e uma cooperativa de quebradeiras de coco que extrai óleo de Babaçú. Com os projetos, a fundação visa abrir novas perspetivas econômicas e sociais dentro dos territórios tradicionais, contribuindo para autonomia das famílias e, consequentemente, redução do êxodo rural.
Na Libéria, a fundação apoia a organização de jovens YOCAD, que insere jovens das comunidades periféricas da Monróvia, Soniwein (com 29.000 habitantes) e Clara Town (75.000 com habitantes) no mercado de trabalho, gerando assim melhores oportunidades para esse grupo. No país, a Cooperaxion também apoia o programa de reciclagem de plástico desenvolvido pelo centro de reciclagem Green Cities.Aqui termina o infobox