Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02480.jsonl.gz/22

Por Ju-min Park
TÓQUIO (Reuters) - Ao observador casual, Lee Hak-rae, 95 anos, poderia ser apenas mais uma pessoa idosa no Japão. Cercado por imagens de sua família e desenhos de seus bisnetos, Lee caminha sobre a bagunça de sua sala de estar na periferia de Tóquio.
Mas Lee é obcecado por eventos brutais de 75 anos atrás que definiram sua vida: seu recrutamento pelo Exército japonês da então ocupada Coreia em 1942; seu papel na construção da ferrovia Thai-Burma; ser designado como criminoso na Segunda Guerra Mundial; e como, segundo ele, foi jogado na lixeira da história pelo Japão e pela Coreia do Sul.
Desde que recuperou sua soberania sob o Tratado de Paz de San Francisco assinado em 1951, e restabeleceu pensões militares em 1953, o Japão tem dado um suplemento de pensão que pode chegar a 41 mil dólares por ano a veteranos do exército.
Isso inclui criminosos de guerra e suas famílias, dizem autoridades do governo. Líderes de guerra japoneses condenados por crimes de guerra em tribunais dos Aliados são celebrados no santuário Yasukuni, de Tóquio.
O tratado também significou que coreanos que lutaram pelo Japão perderam sua nacionalidade japonesa e, portanto, o direito a essa assistência. Mais importante para Lee, os homens nunca receberam a atenção e a sensação de fechamento dadas a seus correspondentes japoneses.
“Me ouça. Por que eles estão nos tratando diferente?”, diz Lee, em uma voz quase inaudível, trocando entre coreano e japonês.
“É injusto e não faz sentido. Como posso aceitar esta situação inacreditável?”, disse Lee, enquanto pega documentos de seus anos de campanha por reconhecimento e compensação.
Lee estava entre os 148 coreanos condenados por crimes de guerra após o conflito. Agora, ele é o último sobrevivente.
Vinte e três deles foram executados, e ele também foi sentenciado à morte, sob o nome de Kakurai Hiromura, em 1947.
Na apelação, sua sentença foi transformada em 20 anos de prisão. Ele foi solto em liberdade condicional de uma cadeia de Tóquio em 1956.
Por volta de 240 mil coreanos participaram da guerra no lado dos japoneses.
Após a guerra, os governos dos Aliados reunindo suspeitos de crimes de guerra trataram homens de etnia coreana como japoneses, mas eles foram rejeitados tanto pela Coreia quanto pelo Japão, dizem historiadores.
“Os coreanos condenados por crimes de guerra passaram por tempos terríveis depois da guerra porque foram considerados colaboradores pelos coreanos, mas não foram reconhecidos pelo governo japonês como veteranos”, disse Robert Cribb, professor de história da Universidade Nacional Australiana.
O LAGARTO
Em 1943, Lee supervisionou por volta de 500 prisioneiros de guerra dos Aliados construindo o que depois ficou conhecida como a Ferrovia da Morte, entre Tailândia e Mianmar.
Por volta de 12 mil prisioneiros morreram pelo excesso de trabalho, agressões e exaustão durante a construção dos 415 quilômetros da estrada de ferro. As condições tornaram-se famosas no filme de 1957, “A Ponte do Rio Kwai”.
Registros do tribunal analisados pela Reuters mostram que prisioneiros lembram de Lee, conhecido como Lagarto, como um dos guardas mais brutais na ferrovia.
Lee disse ao tribunal que havia “os empurrado um pouco perto do ombro”, mas negou acusações de brutalidade, mostram os registros. Lee disse que os coreanos eram o grupo mais baixo da hierarquia militar do Japão e apenas cumpriam ordens.
Lee agora caminha apenas com ajuda, mas continua fazendo campanha, mesmo de cadeira de rodas. Em junho, ele foi ao Parlamento para pedir que os parlamentares propusessem uma lei que compensasse criminosos de guerra coreanos e suas famílias.
“Eu tive sorte de viver até os 95 anos. Não quero viver mais por mim, mas não posso parar de lutar pelos meus camaradas mortos”, disse.
(Reportagem de Ju-min Park)