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Registros documentam que 391 suíços foram presos em campos de concentração nazistas. Três jornalistas investigaram a biografia de algumas dessas pessoas e publicaram seu trabalho em um livro.Este conteúdo foi publicado em 10. março 2020 - 11:46
Em 10 de fevereiro de 1944, Marcelle Giudici-Foks foi transportada de trem ao campo de concentração de Auschwitz. Na França ocupada, a Gestapo forçou-a e a mais de mil outros judeus a entrarem em vagões de gado. Marcelle, uma alegre professora de dança de Royan, na costa atlântica, era casada com Jean Giudici, um suíço que vivia no estrangeiro, o que lhe conferiu a cidadania suíça. Os pais de Jean escaparam da pobreza no Ticino e tentavam a sorte como confeiteiros na França.
Quando a situação ficou perigosa para os judeus, com o início das deportações em massa a partir de 1942, Marcelle e Jean pensaram em voltar a viver na Suíça. Mas como Marcelle estava grávida, eles desistiram no último momento de tomarem um dos trens de resgate organizados pelas autoridades suíças.
No final de janeiro de 1943, o governo helvético decidiu resgatar os judeus suíços que viviam na França. Antes as autoridades haviam hesitado por muito tempo, embora o chefe do consulado suíço em Paris, René Naville, houvesse advertido várias vezes que compatriotas se encontravam sob ameaça. A repatriação chegou tarde demais para Marcelle Giudici. Ela foi morta em Auschwitz.
"Digno do nosso interesse"
René Pilloud também foi internado em um campo de concentração. O suíço do estrangeiro havia nascido em Friburgo e emigrou com seus pais para a cidade francesa de Bellegarde, perto da fronteira com a Suíça. Seu pai trabalhava em uma fábrica, e René concluiu uma formação como fabricante de ferramentas. Em fevereiro de 1944, a caminho de uma competição esportiva, o garoto de apenas 17 anos foi capturado por soldados alemães em uma missão contra a Resistência Francesa. Ele foi maltratado e levado para o campo de concentração de Mauthausen. As autoridades suíças tentaram obter sua libertação. Nos arquivos lê-se que seu caso era "particularmente digno do nosso interesse".
A certa altura foram feitas tentativas de troca de prisioneiros, mas a Suíça não as levou adiante por não querer trocar cidadãos suíços inocentes por criminosos alemães que já tinham sido condenados. A hesitação prolongou o martírio de Pilloud. No início de 1945, ele foi designado para trabalhar no crematório do campo, onde tinha de cremar centenas de cadáveres todos os dias. Somente pouco antes do fim da guerra, a Cruz Vermelha conseguiu resgatá-lo e levá-lo à Suíça. Ele estava traumatizado e doente com tuberculose. O governo deu-lhe uma indenização de 35 mil francos por ter sido vítima dos nazistas. Ele faleceu em Genebra em 1985.
Os números tornam-se pessoas
René Pilloud e Marcelle Giudici: dois nomes, duas histórias terríveis. No livro dos jornalistas Balz Spörri, René Staubli e Benno Tuchschmid, eles são retratados em detalhe. Outros destinos também são reconstruídos. Durante quatro anos os autores pesquisaram cuidadosamente arquivos e bases de dados, e conversaram com descendentes. O resultado é a primeira lista documentada de vítimas.
Segundo ela, 391 homens e mulheres com cidadania suíça foram levados à campos de concentração, dos quais 201 morreram neles. Além disso, havia 328 prisioneiros que nasceram na Suíça, mas que nunca tiveram a cidadania: 255 deles não sobreviveram. Todos os afetados foram presos na Alemanha ou em territórios ocupados e depois deportados. O caso mais frequente era a detenção na França, onde a maioria dos suíços no estrangeiro vivia na época.
Algumas das vítimas dos campos de concentração suíços eram judeus, mas também combatentes da resistência. Os autores listam todos os 391 nomes no livro como um "memorial" que vai de Abegg, Frieda, a Zumbach, Maurice. Quando disponíveis, eles dão às vítimas um rosto com fotos. "Nos campos de concentração eram números. Nos Arquivos Federais Suíços são casos de indenização", escrevem os autores, acrescentando que "no livro eles devem voltar a ser seres humanos".
Autoridades sem coragem
O público só descobriu que suíços haviam sido prisioneiros dos campos de concentração 75 anos depois dos acontecimentos. Embora sobreviventes como René Pilloud tenham falado publicamente sobre suas experiências após a guerra - e o Parlamento tenha aprovado indenizações - pouco interesse foi demonstrado.
Essas biografias estão ausentes nas obras científicas dedicadas ao tema do Holocausto. Com a descrição dos destinos, porém, os jornalistas fazem mais que apenas apresentar uma narrativa lastimando o ocorrido. Eles também levantam a questão desconfortável do papel do governo da Suíça. Sua conclusão é de que "o país poderia ter salvo dezenas de vidas se tivesse agido com mais coragem e determinação".
É claro que é "sempre mais fácil" criticar quando os fatos já passaram, diz Balz Spörri em entrevista à "Schweizer RevueLink externo". Para avaliar o que aconteceu na perspectiva daquele período, é necessário ter em conta o nível de conhecimento e o alcance dos atores à época, e isto em diferentes fases.
O livro descreve em detalhes como a política e a mídia na Suíça reagiram ao desenvolvimento dos campos de concentração pelo regime nazista. Embora houvesse indícios, os campos não foram percebidos como centros de extermínio durante muito tempo.
Cidadãos de segunda classe
Já em 1942, Heinrich Rothmund, chefe da Polícia Federal para Estrangeiros, fez um relato banalizante de sua visita ao campo de concentração de Sachsenhausen. O Conselho Federal (Poder Executivo) acreditou nele de bom grado. Os autores do livro não encontraram qualquer indicação "de que o governo como um todo tenha tratado do tema dos campos de concentração ou dos prisioneiros dos campos de concentração suíços antes de 1944".
Foram diplomatas destemidos, como o enviado suíço em Berlim, Paul Dinichert, que conseguiram a libertação caso-a-caso de cidadãos suíços presos. Após a ocupação da França pela Alemanha, porém, Berna pediu cautela. O sucessor de Dinichert, Hans Frölicher, em particular, se mostrou reservado. Ele temia que se Hitler se irritasse, ele poderia ordenar a invasão da Suíça, que era neutra no conflito. Mas na Suíça, Frölicher foi considerado um oportunista e simpatizante dos nazistas.
Havia ainda outra razão pela qual as autoridades suíças não se esforçaram em proteger os compatriotas ameaçados no estrangeiro. Algumas pessoas não eram necessariamente desejadas de volta no país. Primeiramente porque o seu alojamento teria sido um fardo para os cofres do Estado: criminosos, pessoas "anti-sociais", e deficientes não eram desejados.
Havia ainda aqueles que foram ostracizados na Suíça, como comunistas, Sintis, homossexuais e outros párias sociais. "Nos arquivos há inúmeras passagens que provam isso", diz Balz Spörri. Pierre Bonna, chefe do Ministério de Relações Exteriores em Berna, por exemplo, fez saber aos diplomatas em Berlim: "A legação não deve comprometer seu crédito em detrimento de todos os outros cidadãos suíços dignos de proteção, e em favor de elementos que, por culpa própria ou por comportamento anti-suíço são, eles próprios, a causa das dificuldades que estão enfrentando”.
"Uma mulher assim"
Esta atitude selou o destino de Anna Böhringer Bürgi, da Basileia. As autoridades avaliaram desde cedo o seu estilo de vida como "licencioso" e ela também tinha entrado em conflito com a lei. Ao casar-se com um alemão, a mãe de sete filhos perdeu sua cidadania suíça. Pouco depois do início da guerra, ela procurou refúgio na Suíça aos 54 anos de idade e solicitou a naturalização. Foi rejeitada.
Ela era "uma prostituta notória e violadora da lei", e seria prudente "evitar reintroduzir tal mulher na cidadania cantonal", de acordo com um funcionário. Anna Böhringer teve de deixar o país. Ela morreu em 1945 no campo de concentração de Ravensbrück. Mais tarde, a Suíça também rejeitou o pedido de indenização da filha. A razão dada foi que a mãe não era suíça na altura da sua prisão.
Todas as 391 vítimas de campos de concentração listadas no livro já morreram. O que eles sofreram assombrou sobreviventes como Albert Mülli até a velhice. O instalador sanitário e social-democrata de Zurique foi preso pela Gestapo em Viena em 1938 sendo, posteriormente, transferido para o campo de concentração de Dachau como prisioneiro político. Ele foi acusado de ter contatos com comunistas. Mülli sobreviveu seis anos na prisão.
Ele retornou à Suíça, construiu uma nova vida para si e foi membro do Parlamento cantonal. Mas antes de sua morte em 1997, o passado voltou para assombrá-lo. No lar onde ele vivia com demência, ele era atormentado por pesadelos. Dia e noite ele reviveu os horrores do campo de concentração. Foi muito doloroso ver isto, disse a filha de Müllis aos autores do livro.
Manter a memória viva
O livro é apenas o começo, diz Balz Spörri, e uma ampla pesquisa sobre as vítimas suíças do terror nazista ainda é necessária. Também uma reparação moral é necessária, ou seja, o próprio reconhecimento de que estas vítimas existiram, que sofreram e que lhes foi feita uma injustiça. Muitos deles tinham lutado contra o regime nazista e pagaram por isso com a vida: "Achamos que é hora de um membro do governo dizer algo a respeito”. O autor saúda o engajamento da Organização dos Suíços do Estrangeiro (OSELink externo) com o erguimento de um memorial. O Conselho Federal tem se manifestado de forma vaga até agora sobre o tema de um memorial.
Para apelar às gerações mais jovens, um memorial poderia ser combinado com formas digitais de memória, sugere Spörri. Por exemplo, na forma de um website com as histórias de vida das vítimas, como um memorial virtual. Uma coisa é clara: em breve não haverá mais testemunhas contemporâneas do Holocausto em nenhum lugar. O que torna ainda mais importante que as suas histórias sejam preservadas na memória coletiva.
Artigo publicado na Revista SuíçaLink externo.End of insertion
Nota Bibliográfica: Die Schweizer KZ-Häftlinge. Vergessene Opfer des Dritten Reichs. Balz Spörri, René Staubli, Benno Tuchschmid, NZZ Libro.End of insertion
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