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O presidente esquerdista da Bolívia, Luis Arce, nesta terça-feira (16) comemora 100 dias no poder em meio à ambiciosa crise da covid-19 e mantendo um delicado equilíbrio com seu mentor, o influente ex-presidente Evo Morales.
Ministro da Economia por grande parte do mandato de Morales (2006-2019), Arce assumiu a presidência em 8 de novembro do último ano, depois de derrotar seus rivais de centro e direita nas eleições de 18 de outubro, com 55,11% dos votos.
Sua chegada ao poder com as bandeiras do partido Movimento ao Socialismo (MAS) encerrou a presidência interina da direitista Jeanine Áñez e permitiu que Morales voltasse à Bolívia após um ano de exílio no México e na Argentina.
Tudo sugeria que, devido à sua forte personalidade, o ex-governante indígena e amigo leal da Venezuela e de Cuba exerceria o poder nas sombras.
Mas o novo presidente tem procurado manter distância de Morales e evitado indicar a cargos do governo pessoas próximas ao ex-presidente, que deixou o poder em meio a uma convulsão social por causa de denúncias de fraude eleitoral a seu favor quando buscava seu quarto mandato.
Durante a campanha eleitoral, Arce garantiu que Morales "não teria papel" em seu governo, e em seu discurso de posse, nem o mencionou.
E embora tenha recebido críticas de seus rivais por nomear para alguns cargos vários associados próximos do ex-presidente - sua filha Evaliz Morales agora é funcionária da Procuradoria-Geral -, a maioria foi nomeada como embaixadores e nenhum em seu gabinete.
O influente senador pró-governo Leonardo Loza respondeu às críticas afirmando que os ex-funcionários de Morales estão ajudando no atual governo e que "a direita não tem moral para criticar".
No entanto, Oscar Ortiz, ex-ministro da Economia durante o governo Áñez, afirma que o ex-presidente pensa nas questões governamentais como se estivesse dando instruções, e que finge ser "o poder por trás do trono".
- Poder das bases -
Morales, que chegou ao poder a partir do seu ativismo no sindicalismo dos produtores de folha de coca, encontrou-se com um MAS renovado, com o poder agora nas mãos da base, não mais do líder fundador.
Em várias cidades, ele sofreu a rejeição dos militantes aos seus indicados para candidatos a governadores ou prefeitos nas eleições de março, mas tudo ficou claro quando uma cadeira bateu em sua cabeça durante uma assembleia do partido em dezembro em seu reduto de cultivo de coca em Chapare.
"Há uma recuperação do poder nas mãos dos setores sociais (...), o partido está recuperando sua personalidade", explicou a socióloga María Teresa Zegada à AFP.
Morales aspira continuar liderando o partido e ser o próximo candidato à presidência do MAS em 2026, de acordo com Carlos Cordero, acadêmico da estatal Universidad Mayor San Andrés e da Universidad Católica.
A Bolívia acumula 237.000 casos da covid-19 e 11.200 mortes, com uma população de 11,5 milhões de habitantes.
Diante de uma economia atingida pela pandemia - espera-se uma retração de 8,4% do PIB e um déficit fiscal de 12,3% em 2020 -, o governo decidiu pagar um auxílio de 1.000 bolivianos (144 dólares) aos desempregados e famílias pobres.