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As seis potências responsáveis pelas discussões sobre a questão nuclear iraniana e Teerã estão reunidas em Genebra. As conversações ocorrem num momento de crescente tensão, após a revelação de que o Irã estaria construindo uma segunda usina de enriquecimento de urânio.
Em entrevista à swissinfo.ch, o ex-diretor-adjunto da Agência Internacional de Energia Atômica, o suíço Bruno Pellaud, que publica um blog no influente Huffington Post (EUA), analisa a situação.
swissinfo.ch: Contestado após as eleições deste verão, o poder iraniano está enfraquecido. Isso é uma vantagem ou um obstáculo para as negociações em Genebra?
Bruno Pellaud: Na verdade, é muito difícil dizer se ele está em uma posição de força ou fraqueza, pois sobre a questão nuclear existe um amplo consenso que inclui todas as facções no Irã. Em todo caso, os iranianos manterão uma posição dura e se recusarão a abordar a questão de uma suspensão do enriquecimento de urânio no Irã, como eles repetem há anos.
Nos últimos dias, o Irã aumentou a tensão com o anúncio de que tem uma segunda usina de enriquecimento ou pela realização de testes nucleares. Trata-se simplesmente de uma tática de negociação?
Seja com mísseis ou com provocadora retórica do Presidente Ahmadinejad, os iranianos jogam pesado para mostrar que eles são donos da casa e que podem ameaçar seus vizinhos militarmente.
Mas a revelação de uma segunda usina de enriquecimento de urânio não é o resultado de uma declaração espontânea dos iranianos. Parece que os russos advertiram Teerã que as agências de inteligência ocidentais estavam dispostas a tornar pública a existência dessa usina. Então o Irã tomou a iniciativa de anunciar a sua existência para demonstrar que estão em situação legal.
Esses eventos fortaleceram a frente dos seis países negociadores frente ao Irã?
Impedir o Irã de ter armas nucleares é um objetivo muito sério. Mas as negociações são realizadas de forma muito infeliz. Nós temos cinco países com armas nucleares, além de Alemanha, que não tem. Além disso, dois participantes - China e Rússia - não têm intenção de aplicar sanções duras contra o Irã.
Na minha opinião, a Rússia participa das negociações para evitar um acordo entre o Irã e os países ocidentais, dadas as questões que envolvem o gás iraniano, que permitiria à Europa reduzir a dependência do gás russo.
Além disso, a União Europeia está profundamente dividida sobre o Irã, com países como a Itália, que têm amplas relações comerciais com o Irã e que não querem sanções, e países como a França, que defendem sanções duras.
Uma frente tão desunida não deve impressionar muito os iranianos.
Afinal, o que mudou com a mão estendeu de Obama ao Irã?
Nos últimos dias, o presidente norte-americano adotou um tom muito firme, em uníssono com o presidente francês e o primeiro-ministro britânico. E isto, para dizer que, em Genebra, o Irã será colocado contra a parede. O que não é bem uma mão estendida.
Barack Obama prometeu negociações sem pré-condição. Isto significa que para os iranianos não solicitar a cessação imediata do enriquecimento de urânio.
O verdadeiro problema desta reunião, em Genebra, é saber se será seguida por uma outra reunião ou não. Se uma tal reunião for agendada nesta quinta-feira, já será um sucesso.
O que é o que realmente está em jogo nessa queda de braço com o Irã? É a luta contra a proliferação nuclear ou bloquear o papel de potência regional do Irã?
Provavelmente ambos, mesmo que a questão da proliferação nuclear esteka em primeiro plano. Trata-se de evitar que mais um país adquirira armas nucleares.
O Irã adquiriu a tecnologia para um programa nuclear militar. Em breve terá a capacidade virtual de fabricar armas nucleares. Trata-se, portanto, de barrá-lo.
Resta saber como. Os duros querem quebrar a espinha do Irã e impedi-lo de atingir esse objetivo. Outros acreditam que, para impedir o Irã de se tornar uma potência nuclear, é preciso negociar aceitando compromisso e controlando o essencial de suas instalações nucleares para impedir a sua militarização.
Esta segunda opção permitiria ao Irã sair de cara limpa, permitindo-lhe desenvolver de forma limitada suas capacidades nucleares não militares.
A curto prazo, pelo menos, é essa questão nuclear é prioritária. Barack Obama já disse que concorda que o Irã se torne um importante ator regional, desde que ele renuncie a armas nucleares.
A opção de uma intervenção militar nas instalações nucleares do Irã ainda está sobre a mesa?
É a espada de Dâmocles que domina essa questão. Alguns círculos (republicanos) nos Estados Unidos, bem como Israel, estão convencidos de que uma opção simples e radical seria o bombardeamento das instalações iranianas.
Isto constitui um absurdo do ponto de vista prático, pois os iranianos claramente espalharam suas instalações por todo o país. Na verdade, é impossível destruir o potencial nuclear iraniano. Robert Gates - o secretário de Defesa dos Estados Unidos - também disse recentemente que um bombardeio serviria apenas para atrasar o programa iraniano por alguns anos.
Além disso, uma ofensiva militar precipitaria o Irã em um programa nuclear militar. Se não houver uma abertura com uma base mais racional para as negociações, teremos sanções mais duras. Mas, neste ponto, os países envolvidos nas negociações estão longe de um consenso.
Frédéric Burnand, Genebra, swissinfo.ch
Atualização após a reunião
Segundo o encarregado da política externa e de segurança da União Europeia, Javier Solana, o Irã aceitará inspeções em sua nova usina de enriquecimento de urânio.
Depois do encontro desta quinta-feira, em Genebra, Solana disse que, em algumas semanas, a Agência Internacional de Energia Atômica inspecionará a segunda usina nuclear do país. "Isso é só o começo", acrescentou. Até o final de outubro haverá novas conversações.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, disse que as conversações desta quinta-feira foram produtivas. "Elas abriram a porta para esclarecer as intenções atomares iranianas. Agora o Irã precisa reagir", disse.
Suíça-Irã
1919: abertura de um consulado suíço em Teerã (transformado em embaixada e 1936).
Devido a neutralidade suíça, Berna representa no Irã os interesses italianos (1946), australianos, canadenses, britânicos, irlandeses e neozelandeses (1952), sulafricanos (1952, 1979-1995) e libaneses (1984).
A Suíça assume a representação dos interesses iraninaos junto as potências do Eixo (1941-1946), de Israel (1958-1987), do Iraque (1971-1973) e da África do Sul (1979-1994).
Desde 1980, representa os interesses consulares e diplomáticos dos Estados Unidos no Irã e, desde 1979, os interesses do Irã no Egito.
Com 763,4 milhões de francos de exportações suíças em 2007 e 38,7 milhões de importações, o Irã é um dos principais parceiros da Suíça no Oriente Médio.