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Oassassínio em massa de pessoas pela Alemanha nazi é um facto histórico tão inimaginável, incompreensível e difícil de explicar que a forma de o nomear é, necessariamente, tudo menos consensual.
Em 1978, estreou Holocausto, série televisiva norte-americana da NBC, que conta a história pela perspetiva da família Weiss, de judeus alemães, e pela de um jovem membro da SS, que se torna um impiedoso criminoso de guerra; teve como atores principais Meryl Streep e James Woods. Em 1985, foi lançado o documentário francês Sho”ah, dirigido por Claude Lanzman, constituído por nove horas de entrevistas, a sobreviventes, testemunhas e perpetradores, realizadas em diversos locais de extermínio na Polónia ocupada.
A série Holocausto terá contribuído para a internacionalização do uso do termo, graças ao seu sucesso; o documentário Sho”ah ganhou muitos prémios internacionais, foi considerado à época o maior documentário alguma vez realizado sobre a história contemporânea, mas não teve o mesmo impacto da série. Apesar de ambas as obras abordarem o mesmo facto histórico, nomeiam-no de forma diferente, o que realça a questão da dificuldade em nomear o inominável, tema desenvolvido por Leila Danziger, em “Shoah ou Holocausto: a aporia dos nomes“, interessante artigo escrito em português.
Estudiosos judeus do Holocausto atribuem à palavra conotação antissemita, dada a sua história cristã.
Ainda durante a II Guerra Mundial e nos anos imediatos, quando surgiram os primeiros relatos dos massacres perpetrados na Europa, judeus e sobreviventes da perseguição nazi chamaram ao facto Churban, termo do iídiche, significando destruição, em referência à destruição do Primeiro Templo em Jerusalém, pelos Babilónios em 586 a.C., e à destruição do Segundo Templo, pelos Romanos em 70 d.C. O “Terceiro Churban“, como é também chamado, corresponderia, assim, a uma terceira destruição do Templo de Jerusalém, metáfora do judaísmo, atribuindo ao facto histórico motivação religiosa.
A partir do final da década de 1950, é recuperado “holocausto”, que acede à categoria de nome próprio, para denominar o extermínio sistemático, com patrocínio do Estado, Alemanha nazi e seus colaboradores, de seis milhões de judeus. O extermínio levado a cabo entre 1933 e 1945 não se restringiu aos judeus, mas atingiu milhões de outras pessoas (indivíduos com deficiência, romanis, homossexuais, lésbicas, prisioneiros políticos, polacos, outros eslavos, testemunhas de Jeová); porém, só para alguns autores a denominação abrange também as demais vítimas de extermínio.
“Holocausto” provém do grego holókaustos, tradução da palavra hebreia “olah, que designa sacrifício; passou para o latim cristão holocaustum, significando sacrifício em que a vítima é imolada pelo fogo, em referência aos Hebreus da Bíblia. Estudiosos judeus do Holocausto atribuem à palavra conotação antissemita, dada a sua história cristã; além disso, autores como Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz em 1986, um dos primeiros a usá-la, pô-la de parte por “desnaturada à força de utilização”.
Em França, Israel e entre a comunidade hebraica, prefere-se a palavra Shoah, do hebreu bíblico, significando catástrofe; este é também o termo preferido por quantos querem sublinhar a experiência judaica, ou se sentem pouco confortáveis com as conotações de Holocausto: Shoah enfatiza a aniquilação dos judeus, excluindo as restantes vítimas de assassínio em massa.
Só a ignorância faz da nomeação ato fortuito. Os nomes são prenhes de significados e conotações, verdadeiros contadores de histórias. Assim, escolher um nome, qualquer nome, é tudo menos inocente.
//Margarida Correia
Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa