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Os media ocidentais são acusados de encarar o conjunto dos 54 estados africanos como se fosse um só país e de as suas notícias sobre África não refletirem “o que realmente está a acontecer”, mas apenas as guerras, as epidemias, a fome, o misterioso, o exótico e a ajuda prestada por ocidentais, representados como os salvadores do continente.
A constatação é de Hirsch que atribui este facto à “preguiça” dos jornalistas ocidentais, à falta de “media especializados na cobertura de África” a nível internacional e à “tendência continuada para ignorar os africanos” enquanto protagonistas.
Em Março deste ano, um grupo de 159 académicos, escritores e jornalistas de vários países endereçou uma carta ao produtor executivo do programa ’60 Minutos’, Jeff Fager, da norte-americana CBS, criticando a forma “deturpada” como os africanos foram apresentados em três reportagens, duas sobre vida selvagem e outra sobre a epidemia de ébola, na Libéria. “Os africanos ficaram limitados ao papel de vítimas passivas ou, ocasionalmente, a vilões brutais, corruptos e incompetentes; foram apresentados como se não tivessem capacidade de ação ou até os normais pensamentos e emoções humanas”.
No final de 2013, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo sobre a independência do Sudão do Sul, referindo que, apesar de estrelas de Hollywood e outras reclamarem um apoio especial ao país, a verdade é que tinham tratado como um problema político o que era, afinal, um problema étnico, que esteve na base do regresso da guerra civil. O artigo, bem aceite no Ocidente, foi alvo de muitas críticas naquele país, sobretudo por bloggers e no Twitter, com o argumento que a leitura do terreno estava errada.
A escritora queniana Nanjala Nyabola escreveu então que os jornalistas ocidentais “continuam e continuarão a abordar os assuntos africanos de forma errada” por dois motivos: i) analisam a realidade em oposição ao Ocidente e não a partir da realidade intrínseca e os seus artigos são “um processo de reificação ou de menagem do que já está assumido em livros de história ou outros, acerca de África ou de fenómeno em análise”; ii) ao trabalharem em países poliglotas, necessitam de intérpretes e de contextualização, o que afeta a compreensão do fenómeno. Apontou como solução serem os jornalistas locais a reportar, em lugar de serem contratados para assessorar os jornalistas ocidentais. Mas duvida que essa possibilidade se concretize.
O consultor de comunicação queniano Patrick Gathara atribui também a culpa da situação também aos media africanos, que centram a sua cobertura nos países em que estão sediados e “não encaram África como um assunto que precisa de cobertura jornalística, mas como parte do resto do mundo, que cobrem a partir dos media ocidentais”. De facto, na maior parte dos países africanos, é mais comum os habitantes serem informados sobre África através da CNN ou da BBC e menos pelos media dos seus países, mais centrados na cobertura nacional.
Quem reporta África?
As notícias e as reportagens são fundamentais na formação da opinião pública e influenciam decisões políticas, podendo “conduzir a conclusões equivocadas, culminando com respostas políticas inúteis”, como afirma Dersso, pelo que interessa saber quem reporta sobre o Continente africano, em que condições e com que formação.
Um estudo britânico desenvolvido por Franks concluiu que, nos últimos 30 anos, assistiu-se à diminuição crescente do número de correspondentes internacionais em África e a uma redução das peças jornalísticas, sobre o aquele continente, nos media internacionais. Os media ainda tentaram combater o que Gathara chama de fenómeno dos “jornalistas que caíam de paraquedas (não literalmente) em cenários de crise e durante apenas alguns dias, para fazerem reportagens, sem terem qualquer contexto ou compreensão”. E há hoje, em África, jornalistas ocidentais que relatam o continente “em todas as suas dimensões, diversidade e nuances”, os quais “devem servir como modelos que outros devem adotar”, garante Dersso. Mas a maioria da cobertura noticiosa, refere Franks, daquele continente “reside invariavelmente na tendência de apagar fogos”, pois, “na ausência de um correspondente residente, um repórter altamente profissional”, os jornalistas são enviados “em caso de desastre”, devendo reportar “em poucos dias ou até em horas”.
O jornalista português Paulo Nuno Vicente, na sua tese de doutoramento, entrevistou 124 correspondentes internacionais em 42 países da África subsaariana, tendo concluído que 61% reconhece défices de representação em relação à imagem de África nos media. E adotam uma posição de autocrítica quando avaliam a afirmação ‘A maior parte da cobertura de África pelos correspondentes estrangeiros é equilibrada’, pois, 32% discordam, 28% não concordam nem discordam e 28% concordam.
O défice de representação é atribuído a “restrições económicas, ao nível macro, a rotinas de produção, ao nível meso, e à experiência profissional dos repórteres, ao nível micro”. A título de exemplo: aquando da independência do Sudão do Sul, um reduzido número de jornalistas, ainda que altamente profissionalizado, esteve concentrado numa pequena localidade daquele país, referindo-se ao acontecimento com as mesmas informações e imagens, pois não tinham meios financeiros suficientes e não podiam abandonar a localidade sob pena de lhes serem furtados os seus meios de trabalho.
As rotinas de produção, associadas às restrições de tempo/espaço nos media, conduzem à produção de histórias pré-determinadas pelo jornalista (e pelo editor, ou só por este), que pratica o jornalismo sentado, reciclando informação em lugar de ir procurar informação nova, não estando, muitas vezes, intelectualmente preparado para a tarefa, conclui Vicente.
A experiência profissional não é tudo, pois a juventude permite uma olhar fresco sobre a realidade, mas esse olhar está limitado pela falta de conhecimento de terreno, pelo que a tendência é copiar o que está feito, continuando a fazer passar os estereótipos sobre África. Tal ocorre num contexto em que são exigidas todas as competências técnicas próprias do jornalismo multimédia, sendo as notícias mais difíceis de produzir, pagas a preços cada vez mais baixos e os vínculos precários. Os jornalistas denunciam ainda a falta de formação e, na maior parte dos casos, de equipamento adequado.
Vicente reforça o estudo de Franks, segundo o qual, à exceção dos grandes acontecimentos, a cobertura do quotidiano do continente africano tem ficado cada vez mais a cargo de jornalistas locais avençados, cujos conteúdos têm menos importância nos media e são sobretudo considerados para publicação quando as notícias são negativas. Portanto, a crise do modelo de negócio dos media, a falta de condições de trabalho dos jornalistas e as baixas remunerações afastam os jornalistas experientes e contribuem para a sub-representação de África nos media internacionais. Mas há também uma sub-representação do continente em cada país que o compõe, o que pode ser também explicado pelas condições em que ali se faz jornalismo, que serão analisadas na segunda parte deste artigo.
Créditos fotografia: Kigali Wire – Flickr