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A elite global se reúne nos Alpes nesta semana para o encontro anual do Fórum Econômico Mundial. Segundo o jornalista Peter Goodman, autor do livro Davos Man, estes bilionários são uma “espécie separada”: eles se tornaram tão poderosos que estão ditando as regras para o resto do mundo.
O termo Homem de Davos (tradução de Davos Man) foi cunhado pelo cientista político Samuel Huntington, que o utilizou pela primeira vez num ensaio em 2004. No texto, Huntington descrevia pessoas que ficaram tão ricas devido à globalização que estavam efetivamente vivendo sem lealdade a nenhuma nação em particular. Ele estava se referindo diretamente a qualquer pessoa que viajasse regularmente para Davos a fim participar do Fórum Econômico Mundial, mais conhecido como WEF (sigla em inglês).
Desde então, o termo tem se popularizado e passou a ser frequentemente utilizado por jornalistas como Goodman para se referir àqueles que ocupam a “estratosfera da classe de bilionários que controla o mundo”.
Falamos com Goodman sobre o seu livro, a guerra na Ucrânia e por que, apesar de todos os seus defeitos, a ida a Davos ainda vale a pena.
SWI: Você já foi dez vezes ao WEF. O que o faz continuar voltando?
Peter Goodman (P.G.): Na verdade, é uma experiência muito interessante, se você se lembrar que é jornalista e que não tem que seguir as regras socialmente impostas. Você pode observar as pessoas de perto, de uma maneira que normalmente não é possível com pessoas tão ricas e poderosas. A parte difícil de aceitar é a mensagem de que “eles estão comprometidos em melhorar o estado do mundo”, como se uma reunião dos beneficiários finais do status quo fosse, de alguma forma, levar a isso.
SWI: O que o WEF já conseguiu?
P.G.: Acho que a principal conquista do WEF é ter dado aos bilionários – que continuam pautando uma estratégia de redução de impostos, desregulamentação e gestão de relações públicas – uma maneira de mostrar para o mundo que eles entendem os problemas da desigualdade econômica e da mudança climática. E que eles realmente estão comprometidos a fazer algo sobre isso.
Há várias pessoas altamente inteligentes, atenciosas e bem-sucedidas trabalhando para o WEF. Elas divulgam relatórios que são relevantes. Muitas das próprias discussões dos painéis tratam de questões importantes. Mas não vamos nos iludir. No final das contas, o WEF, disfarçado de uma empresa sem fins lucrativos, é um negócio altamente bem-sucedido dirigido por Klaus e Hilda Schwab. Nós não sabemos para onde vai o dinheiro.
SWI: No seu livro, você responsabiliza bilionários por muitos de nossos problemas. São apenas algumas más exceções ou é um problema sistêmico?
P.G.: É um problema sistêmico. Eu poderia ter escrito este livro escolhendo outros 20 personagens. Eu escolhi os cinco que achei mais convincentes. Estes são os grandes jogadores. Não é como se eu tivesse apenas escolhido alguns exemplos especificamente ruins. Steve Schwarzman é o maior magnata de capital privado do planeta e possui quantidades assombrosas de bens imobiliários em todo o mundo. Larry Fink é o maior gestor de ativos do mundo. Sua empresa, a BlackRock, administra investimentos no valor de 10 trilhões de dólares. O impacto é enorme. Jeff Bezos dispensa apresentações.
Marc Benioff é uma figura 'tech' muito importante do Vale do Silício e é o mais notório advogado do capitalismo de stakeholder. Acredito que ele seja dedicado à filantropia e acredite no ethos do Fórum. Ainda assim, apesar de se apresentar como um agente de progresso humano, ele é, em última instância, um facilitador do status quo, que é exatamente o que o Fórum é. É um facilitador do status quo sob o disfarce de um agente de mudança.
SWI: Todos estes exemplos são provenientes dos Estados Unidos. Você acha que este é um fenômeno americano, especificamente o poder crescente da classe bilionária?
P.G: Não é exclusivamente americano. Pode até ser, em seu nível mais extremo. Mas veja a França, onde Emmanuel Macron, que é um homem de Davos, assume o governo financiado por um bando de bilionários, incluindo seu amigo Bernard Arnault, com a missão de baixar ou eliminar os impostos sobre a riqueza. Ele concorreu como um agente transformador que ia espalhar oportunidades pela França e agitar esta sociedade engessada, antinegócio e excessivamente burocrática com um alto desemprego; e modernizá-la. E a primeira coisa que ele fez foi baixar os impostos sobre a riqueza e depois aumentar os impostos sobre a gasolina, para frustração da maioria das pessoas que vivem fora das grandes cidades e precisam de seus carros para chegar nos lugares. E o resultado é o movimento do coletes amarelos e uma onda de apoio ao movimento extremista de Marine Le Pen com sua demonização dos imigrantes.
Tudo isso pode ter começado nos EUA, se lembrarmos de Milton Friedman e sua teoria de maximização do lucro dos acionistas como o princípio organizador da vida comercial. Mas foi depois exportado para todo o mundo.
A elite global, cuja riqueza é difícil de ser compreendida pelo resto de nós, criou um conjunto de interesses que simplesmente são separados dos nossos. E foi por isso, em última instância, que criei este conceito do Homem de Davos como uma espécie separada, porque, para todos os efeitos, estes bilionários, que são suficientemente poderosos para ditar as regras, estão efetivamente habitando uma realidade separada da nossa.
SWI: Você acha que a Suíça teve um papel importante na emergência do Homem de Davos?
P.G.: O elemento do sigilo, como parte inerente à realização de negócios, certamente é relevante. O fato de que a Suíça tem sido, há gerações, um lugar onde pessoas ricas podem chegar, sem questionamentos, e conduzir seus negócios, encontrando uma burocracia altamente competente que protege seus segredos para movimentar dinheiro – eu não acho que isso seja por acaso.
Não é coincidência que este negócio sem fins lucrativos, que na verdade é um negócio de grande sucesso, esteja posicionado num país que apresenta o sigilo como uma vantagem competitiva.
SWI: Você escreve em seu livro que a pandemia revelou “toda a dimensão do apetite voraz do Homem de Davos". O que isso quer dizer?
P.G.: A situação da vacina é ainda pior do que eu imaginava ao escrever o livro. Com essas poucas vacinas, pelas quais somos gratos, estamos efetivamente subsidiando os lucros dos monopólios dos Homens de Davos através da perpetuação da pandemia. Por que ainda estamos falando sobre todas estas variantes? Bem, a maior parte da humanidade não tem as vacinas. Por que isso acontece?
Porque os líderes disseram: o mercado cuidará disso e a indústria farmacêutica bem intencionada protegerá a humanidade. E foi um completo fracasso. Distribuímos as vacinas de forma que os acionistas da Moderna e da Pfizer lucrassem o máximo possível. E o resultado é que, se tivermos a sorte de viver em países como os EUA ou a Suíça, temos muitas vacinas. No entanto, no Paquistão, onde ainda há médicos tratando os trabalhadores da linha de frente, não é bem assim.
SWI: Você publicou o livro em janeiro, cerca de um mês antes da guerra na Ucrânia. Se você escrevesse outro capítulo agora, o que você escreveria?
P.G.: Se eu ainda estivesse trabalhando no livro, escreveria sobre essas sanções, que são meio incríveis se pensarmos como a Europa se uniu detrás delas. Mas lembremos que o capital privado está efetivamente isento de sanções. Acabo de apontar o dedo para a Suíça, mas os EUA são o principal centro bancário offshore, porque os Homens de Davos se beneficiam ao não ter o capital privado regido pelas mesmas exigências de transparência que o sistema bancário normal. O objetivo do meu livro é dizer que isso não é por acaso. Esta é a consequência direta do lobby dos serviços financeiros e, especificamente, do entendimento do capital privado de que, quanto mais sigilo existe, mais dinheiro entra.
Vamos supor que pressionar os oligarcas russos realmente teria alguma influência em Putin... não estamos sequer pressionando os oligarcas tanto quanto podemos porque estamos protegendo nossos próprios oligarcas.
SWI: O que você acha que o WEF deveria fazer diferente?
P.G: Todas as palavras certas são ditas em Davos. Não é essa a questão. Em última instância, a questão não é a riqueza em Davos. É o resto de nós. As pessoas nas sociedades democráticas têm que superar a ideia de que podemos esperar que estes bilionários bondosos resolvam nossos problemas. Nossos problemas não serão resolvidos enquanto não exigirmos coisas como tributação progressiva, aplicação da lei antitruste e mobilidade ocupacional para que os trabalhadores possam obter a sua parte. Não se trata de reformar os bilionários.
Adaptação: Clarice Dominguez
(Edição: Fernando Hirschy)
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