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Um pró-europeu contra uma nacionalista, o centro contra a extrema direita: a imprensa suíça comenta hoje cedo o resultado - amplamente anunciado pelas pesquisas - do primeiro turno da eleição presidencial francesa. Os comentaristas dão logicamente vantagem para Emmanuel Macron contra Marine Le Pen, e enfatizam a crise dos dois grandes partidos tradicionais.
Pela primeira vez na história da 5ª República, nem a direita neo-gaullista nem o Partido Socialista estarão no segundo turno de uma eleição presidencial. Com 23,9% dos votos, Emmanuel Macron sai na frente de Marine Le Pen (21,4%). Na terceira posição, o candidato dos republicanos François Fillon (19,9%) foi eliminado. Jean-Luc Mélenchon, o nacionalista de esquerda, ficou em quarto com 19,6% dos votos. Benoît Hamon, candidato do partido socialista, conseguiu apenas 6,3%. Os 47 milhões de franceses inscritos a votar (22,7% de abstenção, um aumento em relação a 2012) recusaram, portanto, a tradicional divisão esquerda-direita e os partidos que a encarnam.
Fim de jogo
"Os republicanos e o PS estão fora do jogo. É sem precedentes”, enfatizam o “La Tribune de Genève” e o “24 Heures”, que consideram errado acreditar que isso mostra apenas um acidente com Fillon. O ex-primeiro-ministro e candidato dos republicanos perdeu mais com o polêmico projeto de reforma da segurança social que seus escândalos de corrupção.
Para o “Le Temps” esta primeira rodada é clara: "Os franceses confirmaram que a onda de descontentamento que eles alimentam há anos não iria bater suavemente na praia das tardes de eleição. O programa político da 5ª República está quebrado".
O que se expressou neste domingo foi "a raiva contra os partidos tradicionais, a desilusão com políticos corruptos e a vontade de tentar outra coisa". O jornal de língua francesa lembra ainda que "os dois vencedores da primeira rodada são movimentos que nunca governaram".
"A 5ª República, fundada por Charles de Gaulle em 1958, foi abalada em seus alicerces”, acrescenta o “Aargauer Zeitung”, que considera que Macron e Le Pen têm em comum de estarem fora das duas formações que monopolizaram a vida política francesa durante 60 anos.
Vantagem Macron
Para o “La Liberté", do cantão de Friburgo, “exceto uma enorme surpresa, Emmanuel Macron alcançará o Graal presidencial dia 7 de maio, isso em apenas pouco mais de um ano após ter lançado um movimento do nada".
"O desempenho é único na história da 5ª República, mas também a nível europeu”, destaca o jornal de Friburgo.
"Emmanuel Macron provavelmente vai ganhar a eleição presidencial, diz o La Tribune de Genève e o 24 Heures - como, aliás, toda a imprensa suíça. Mas ele deve fazer ainda o mais difícil: um projeto para todos. Caso contrário, o FN de Marine Le Pen acabará chegando ao poder mais cedo ou mais tarde.
Incógnita
O Le Temps acredita no potencial do líder do movimento En Marche!. Se Macron conseguir ganhar a presidência e as eleições legislativas em junho, ele terá provado sua capacidade "em arregimentar tropas experientes de um dia para o outro. Emmanuel Macron é moderno, pró-europeu, aberto ao mundo e prefere ver o seu povo trabalhando em vez de ficar esperando o maná do Estado. Este jovem presidente potencial, que não tem nem 40 anos, pode dar uma nova fronteira para a França e melhorar a vida dos franceses".
Para o “Tages-Anzeiger”, de Zurique, e o “Bund”, de Berna, "a força de atração de Macron está em sua juventude e na dinâmica do seu movimento, criado em tão pouco tempo. Ele não representa uma ruptura radical nem um saltar para o irracional. E mesmo se a sua promessa de ir além do confronto esquerda-direita e de renovar o sistema parece vaga, ela vale assim mesmo mil vezes mais do que as visões políticas e econômicas abstrusas de Marine Le Pen".
O “Neue Zürcher Zeitung” também observa que Emmanuel Macron "é um homem de posições bastante vagas. Em querer ser nem de esquerda nem de direita, ele está em toda parte e em lugar nenhum. Seus partidários estão entusiasmados com seus impulsos juvenis, mas os céticos veem como o produto de uma estratégia de marketing, um personagem com controle remoto".
Tentação “azul Marine”
Resta ainda o Front National, cujo sucesso na primeira rodada também demonstra "o desejo dos franceses de tentar uma alternativa ao jogo de dois partidos que eles conhecem muito bem desde 1958. Nem que seja brincando com o fogo da extrema direita", diz o Le Temps.
Pois segundo o jornal da região oeste do país, a paixão sem limites pela pátria colocou, no passado, a França no lado errado da fronteira das nações. Marine Le Pen tem feito tudo contra a demonização de sua candidatura e odeia ser lembrada das raízes de seu partido, mas isso é um fato: com o FN, são os descendentes da França colaboracionistas e da Argélia Francesa que chegam às portas do poder".
Para o La Liberté, a causa é mais ampla: "O método de Marine Le Pen permite que o FN chegue novamente (depois de 2002) a um segundo turno. Um bom desempenho, certamente, mas que ainda enfrenta o famoso 'teto de vidro' que torna a extrema direita francesa uma rejeitada constante que acaba confinada à ambição regional".
Vitória pálida para a Europa
Emmanuel Macron nunca fez qualquer segredo de suas convicções europeias. O “La Regione” observa que a União Europeia irá certamente emergir mais forte da sua vitória. Mas não há espaço para complacência, considerando que os resultados acumulados dos eurocéticos (Le Pen e Mélenchon) estão quase em pé de igualdade com os favoráveis à UE (Macron e Fillon).
"Bruxelas e Berlim podem certamente dar um suspiro de alívio”, diz o jornal do Ticino, de língua italiana, mas seria irresponsável não ouvir o grito de uma França preocupada e desorientada, que a partir do mês de junho terá uma tarefa muito difícil de encontrar uma maioria parlamentar para o novo inquilino do Elysée".
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch