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Velho jornal ou jovem aplicativo? As discussões sobre a mídia na Suíça (e em outros lugares) muitas vezes evocam noções de uma divisão geracional, mas a maneira como consumimos informação pode transcender a questão da idade.
Quando a swissinfo.ch foi conversar recentemente sobre hábitos de mídia com um grupo de adolescentes (16-18) em uma escola secundária de Berna, o objetivo era testar algumas hipóteses. Jovens não são interessados em notícias. Eles só leem notícias gratuitas. Suas noções de "qualidade" mudaram. Eles simplesmente consomem as notícias que o Facebook lhes oferece. Essencialmente, há a hipótese geral de que os hábitos dos "nativos digitais" são marcadamente diferentes daqueles das gerações precedentes – os "imigrantes digitais".
O retorno foi um pacote de respostas misturadas que sugerem provavelmente que os jovens são mais reflexivos sobre a população em geral do que um grupo homogêneo. Joshua, 18, lê os jornais NZZLink externo e Die ZeitLink externo e a revista The EconomistLink externo (seus pais recebem essas publicações em casa); Julia vai de The GuardianLink externo (sua professora falou sobre isso); Daniel, como a maioria, lê o gratuito 20 MinutesLink externo ("Eu tenho que matar meu tempo de alguma maneira"); outro diz que 20 Minutes é "papel higiênico", mas ainda o usa para ler notícias atualizadas sem floreios.
Outros hábitos marcam uma ruptura com o passado que é natural. John, um pensativo jovem de 18 anos, prefere pesquisar em detalhe tópicos específicos usando os documentários do YouTube e o Spotify do que as fontes "tradicionais". Outros mencionam websites como o RedditLink externo e até o 9gagLink externo, onde a interação e as piadas feitas pelos usuários são mais "interessantes" do que as "velhas lojinhas". Alguns mencionaram os benefícios de interagir entre si: um deles disse que depende completamente das conversas com Joshua (o leitor da The Economist) para manter-se "no circuito".
De fato, a única coisa que se aproximou de ser um fator unificador foi a quantidade de tempo gasto para ler as notícias a cada dia: entre zero e vinte minutos, raramente mais. Dado que muitos não admitiram que se sentam diante da televisão a cada noite para assistir notícias – o clássico padrão do velho, ao lado dos jornais e do rádio – a impressão geral é que os assuntos atuais simplesmente não têm um papel muito importante em suas vidas.
Politicamente informado
Isso significa que a geração jovem está menos informada do que antes? De acordo com a versão de 2016 do Quality of the Media YearbookLink externo (Anuário da Qualidade de Mídia), um estudo anual realizado pelo Fög InstituteLink externo e pela Universidade de Zurique, os jovens estão significativamente sobre –representados na categoria denominada "privados de notícias". Cerca de 40% de jovens entres 16 e 29 anos, descobriu-se, dedicam "pouco tempo" para se atualizar; e quando o fazem, tendem a usar principalmente as fontes gratuitas e on-line.
Daniel Vogler, pesquisador que trabalhou no relatório, reluta em definir os principais efeitos desse tipo de queda no interesse pelas mídias tradicionais. Em todo caso, diz, existe uma clara correlação "entre ler somente fontes gratuitas ou de baixa qualidade e confiar no sistema de mídia de uma maneira mais geral". Quanto menos informados, menor é a confiança na mídia em geral. E isso é um problema, ele diz, por causa do papel vital que a mídia de informação desempenha no funcionamento de uma democracia saudável.
Outros impulsionaram esta lógica e estão preocupados com o efeito mais amplo da internet no engajamento político. Uma manchete no jornal Schweiz am WochenendeLink externo no ano passado alertava "como uma geração está dizendo adeus à democracia", um aceno para um sombrio desvio dos eleitores jovens nos últimos tempos. Eles acompanham eventos on-line, ficam irritados com as injustiças – mas não se levantam e votam, diz o texto. (O fenômeno é algumas vezes chamado de "cliquetivismo").
Nossos estudantes de Berna não tiveram muito tempo para tal especulação. Eles podem estar menos interessados no hard news tradicional do que grupos mais velhos, mas isso não vem necessariamente de uma escassez de mentalidade cívica. Na realidade, uma reclamação comum é que muitas questões, particularmente problemas internacionais como o terrorismo ou os conflitos armados, não são suficientemente relatadas em detalhes na mídia. "Deve haver mais tópicos sobre outros países", diz um deles – e "não somente sobre os Estados Unidos". "A política precisa ser mais bem apresentada, se tornar um assunto mais abordável", diz outro.
No que diz respeito às escolhas políticas, as respostas neste grupo (não necessariamente representativas, é claro) mostram poucos sinais de um escorregão no populismo. Falando de uma maneira geral, a informação enviada pelo governo antes de eleições é a mais importante; para mais ideias, eles exploram as fontes on-line especializadas. Um leitor do 20 Minutes ressalta, "não o uso para formar opiniões". Outro menciona a fonte de informação imparcial easyvote.chLink externo, que resume ambos os lados.
E eles realmente vão votar, eu pergunto. As respostas para isso não são comprometidas.
Mais informação, mais escolha
Sarah GennerLink externo, especialista em mídia, internet e psicologia, também hesita em definir as ramificações da mídia no comportamento jovem. Os fatos principais são claros: jovens usam principalmente telefones e fontes on-line; a televisão como fonte está desaparecendo; a noção de "notícia" está mudando, especialmente a distinção entre "hard" e "soft"; e 20 Minutes se tornou sua fonte dominante de notícias políticas. Isso nós sabemos. No entanto, "é realmente difícil generalizar sobre qualquer geração".
Em vez disso, ela diz, a natureza do ecossistema on-line de notícias mostra que as pessoas mais capazes de se adaptar não são exclusivamente nem os velhos e sábios nem as jovens raposas, mas mais geralmente aqueles que têm habilidade para distinguir a boa e a má informação. Não importa qual o meio ou a fonte, diz Genner, "se você não tem ideia do que significa propaganda, é difícil estar alerta quando se deparar com ela".
O mesmo vale para navegar na cornucópia de opções que a internet introduziu. Considerando que as notícias no passado eram editadas e publicadas em jornais de marca e claramente formatados, as comportas agora estão abertas e as informações são ilimitadas. Isso significa, para Genner, que nós estamos nos movendo de um antigo sistema de "puxar" (onde os usuários tinham controle sobre ler ou não o conteúdo que quisessem) para um sistema atual de "empurrar" que joga sobre nós toda sorte de conteúdos amadores e profissionais. Para gerenciar isso, "você agora precisa ter interesse e conhecimento para estar motivado a ir buscar a boa informação".
Mais opções são bem-vindas, é claro. Outro entrevistado, Louis, de 24 anos, assistente administrativo em Berna, toca nisso quando diz que não assiste TV, preferindo a Netflix, uma escolha orientada mais pela "flexibilidade de programação" do que pela qualidade ou tipo de conteúdo. "Eu gosto da liberdade de escolha", diz. Uma liberdade proativa que também se reflete em seus hábitos em relação às notícias: mergulhar em uma variedade de fontes de "qualidade" como NZZ, Der Spiegel, Der Bund, Die Zeit – mas sem ter realmente a assinatura de nenhum deles.
Essa ideia de autossatisfação é um refrão comum, segundo o qual nós procuramos pessoas de mentalidade semelhante, artigos específicos e, geralmente, que nos interessam, em vez de termos a informação empurrada goela abaixo. Neste novo mundo, os jovens podem realmente ser melhores que as gerações anteriores quanto à lidar com suas escolhas? Um estudante riu de seu pai, que sempre reclamou das novas tecnologias, mas foi persuadido a adquirir um smartphone e "imediatamente ficou praticamente viciado".
Cuidado com o vão
Em última análise, Genner diz que "a divisão geracional é enfatizada demais". Para determinar o uso da mídia, hábitos familiares, educação, interesses políticos e status socioeconômico são mais importantes do que a idade. Isso é repetido por Vogler, do Fög, que considera que, no futuro, a batalha contra o processo de digitalização "não será entre jovens e velhos". Essa lacuna está fechando. A divisão se dará entre "uma elite socioeconômica que beneficia e outros que lutam".
Quanto aos efeitos da mídia sobre os hábitos políticos e outros, Genner enfatiza que é difícil isolar precisamente os efeitos da socialização nas novas gerações. Uma semana um artigo parece lamentar o afogamento da juventudeLink externo na adição antissocial ao smartphone; uma visão mais ampla diz que toda geração gosta de especular sobre os hábitos do próximo enquanto persistem os valores subjacentes e a prática política.
Ou como diz Margerita, uma das estudantes: "quando eu me sento no trem, algumas vezes escuto pessoas mais velhas reclamando [sobre jovens constantemente com seus smartphones] – mas, de qualquer maneira, elas mesmas estão sempre lendo livros e jornais". Qual é a diferença?
Adaptação: Maurício Thuswohl