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A polícia de Genebra criou uma unidade especial de combate ao crime e contrata mais policiais para tentar conter uma onda de criminalidade local. No entanto, diplomatas estrangeiros declaram que é preciso fazer mais e alertam que a insegurança está ameaçando a imagem da cidade.
Genebra se classifica regularmente entre as dez cidades no mundo com a melhor qualidade de vida. Por outro lado, a cidade às margens do lago apresenta o maior índice de crimes registrados por habitante, na Suíça: 217 por mil em 2011.
No ano passado o cantão contabilizou 72.821 crimes, um aumento de 18% comparado aos números de 2010. Trata-se de um importante aumento, pois o aumento da média nacional foi de apenas seis por cento, causado em grande parte por assaltos (entre 25 a 50 por dia) e roubos de rua.
O cônsul-geral da Arábia Saudita, Nabil Mohammed Al-Saleh, representante de um grupo de trinta consulados como o da Grã-Bretanha, Bélgica, Turquia, Argélia e África do Sul, confirma que a insegurança se tornou a preocupação "número um" dos diplomatas locais junto às Nações Unidas. "O crime tem aumentado em Genebra nos últimos dez anos. Todo mundo está chateado. Todo mundo já teve alguma experiência com o problema", declara.
Seis funcionários do consulado da Arábia Saudita foram assaltados nos últimos seis meses e problemas similares foram registrados com turistas que chegam e permanecem no centro da cidade. "Meu colega que cobre a Organização Mundial do Comércio (OMC) teve o seu apartamento arrombado recentemente e nosso cônsul-adjunto também", acrescenta.
Vítimas fáceis
Os diplomatas japoneses estão também preocupados. "Vinte por cento de aumento é bastante", diz o cônsul japonês Tatsunori Ishida. "Os japoneses veem a Suíça como um país calmo e seguro, com belas paisagens campestres e um belo destino turístico. Mas a realidade aqui em Genebra é que há infelizmente muitos furtos no transporte público, no aeroporto e na estação."
Em 2011, 16 casos envolviam diplomatas japoneses: oito roubos e oito casos de furtos de carteiras. E no ano atual foram registrados um roubo e furtos com seis diplomatas. "Dezesseis é um número enorme para uma missão diplomática se você compara com lugares como Nova Iorque, Londres ou Paris. Em embaixadas por lá os números de crimes nos quais diplomatas são vítimas é de quase zero. Nesse sentido, Genebra está na liderança", critica um funcionário graduado da missão japonesa.
Ele descreve visitantes japoneses como "vítimas fáceis" em Genebra, especialmente pelo hábito de carregar consigo dinheiro em espécie e geralmente não falar outros idiomas. Por isso eles não saberiam como reagir quando confrontados a essa situação e hesitam, então, a dar queixa policial.
As estatísticas envolvendo turistas japoneses ainda são imprecisas, mas o cônsul afirma que uma pessoa por semana tem o passaporte roubado.
Setor do turismo preocupado
O diretor da Genebra Turismo, o órgão oficial do setor no cantão, revelou ao jornal Tribune de Genève que estava preocupado com a insegurança local e o seu impacto sobre os visitantes, o que pode representar uma queda de 15 mil no número de turistas em 2012.
Em 23 de abril, a embaixada da China em Berna comunicava internamente que a Suíça não estava mais tão segura como no passado, referindo-se apenas à Genebra. Uma dúzia de operadores chineses de turismo decidiu retirar Genebra dos seus programas.
Em uma entrevista, a chefe da Polícia de Genebra e secretária cantonal de Segurança, Isabel Rochat, descreveu a mensagem de Vignon como "angustiante e contraditória à sua missão". "Estou muito surpresa que ela tenha apresentado certo número de fatos que tenham sido corroborados somente pelos seus contatos na Ásia", declarou ao jornal, mas acrescentou que não era questão de aceitar a atual situação de insegurança em Genebra.
"A maioria sensível"
Entre as 173 missões presentes em Genebra, Kamisawa descreve a missão dos EUA como a "mais sensível" à questão da insegurança local. Em agosto do ano passado ela se envolveu na controvérsia relativa à agressão cometida contra o filho de um diplomata americano credenciado na ONU, no centro da cidade.
Mas o chefe de relações públicas, David Kennedy, recusou-se a comentar os últimos acontecimentos.
"A nossa política é não falar sobre questões de segurança. Não é o tema que gostaríamos de abordar. Temos boas relações com as autoridades suíças", diz, acrescentando não ter vivido pessoalmente nenhum problema durante os cinco anos que já vive na cidade.
Diplomatas da Alemanha e Bélgica contatados pela swissinfo.ch também minimizam a gravidade da insegurança local.
Dante Martinelli, embaixador da Suíça junto às Nações Unidas em Genebra, afirma ter recebido queixas, mas considera que a situação está melhorando ligeiramente. "Pelo que observamos, as missões diplomáticas estão preocupadas com a questão da insegurança. Assim, estamos trabalhando em conjunto com as autoridades do cantão para melhorar a situação. Desde o início do ano as coisas melhoram um pouco em relação ao ano passado, quando houve a grande onda, mas continuamos a receber chamadas", ressalta. A residência de Martinelli em Genebra foi uma das 20 residências diplomáticas a serem arrombadas no último verão.
Varinha mágica de Rochat?
Seu escritório é normalmente o primeiro ponto de contato para diplomatas estrangeiros, mas as autoridades cantonais e a polícia tem a principal responsabilidade na solução do problema.
Al-Saleh diz que o grupo consular convidou a polícia de Genebra e a secretária cantonal de Segurança, Isabel Rochat, para almoçar há a um mês atrás. "Acreditamos que ela está fazendo o que pode, mas ela necessita um grande apoio do governo federal e a polícia e autoridades daqui. Não é o seu erro. Afinal ela não tem uma varinha mágica", declara. "Esperamos que ela consiga, já que acreditamos que esteja fazendo um bom trabalho. Porém as estatísticas continuam sendo o verdadeiro barômetro."
Depois de vinte anos de um número estável de ocorrências policiais, as autoridades de Genebra planejam contratar entre 2010 e 2013 mais 250 novos policiais para reforçar a sua equipe de 1.350 agentes. Atualmente o número é de um policial para 400 habitantes. A decisão corre paralelamente à controversa proposta de reorganizar o departamento de polícia.
Em resposta ao aumento de casos do ano passado, a polícia genebrina criou uma unidade especial de 18 agentes encarregada de tratar do grupo de 400 criminosos reincidentes, em grande parte originados da África do Norte, muitos sem documentos de estadia no país. Essas pessoas seriam responsáveis por 32% das batidas de carteira e 40% dos furtos de objetos de mochilas e bolsas através de cortes.
A chefe de polícia de Genebra, Monica Bonfanti, contou recentemente a jornalistas que estava satisfeita com os resultados obtidos: 109 detenções realizadas em um mês e 12 pessoas identificadas. Mas ela não quer ser julgada apenas pelos números.
Alain Bittar, proprietário da livraria árabe L'Olivier em Genebra e um observador aguçado da cena, sente que a nova unidade enviou um sinal claro e estaria tendo um impacto "radical". "Essa unidade prova que o problema começa a ser levado seriamente. Ela parece estar desestabilizando as estruturas criminosas que tiveram muitos anos para se estabelecer", contou ao jornal dominical "Tribune de Genève".
Porém os sauditas e os japoneses acreditam que é preciso fazer ainda mais para proteger a imagem de Genebra. "É necessário ter mais câmaras de vigilância e policiais. E um dos principais problemas é que não há mais prisões ou acordos para enviar os criminosos aos seus países de origem", inclui o cônsul-geral da Arábia Saudita.
"Genebra deveria ser o lugar mais seguro do planeta como todas essas organizações internacionais, importantes visitantes, VIPs, presidentes ou reis. É um lugar pequeno. As pessoas vêm aqui para se sentir seguras. O maior investimento que Genebra pode fazer é investir na sua segurança."
Estatísticas de Genebra
No ano passado o cantão de Genebra contabilizou 72.821 crimes, um aumento de 18% comparado aos números de 2010. Comparado com 2001 (43.798), o aumento seria de 66% .
De acordo com a polícia, o cantão está enfrentando três problemas específicos: gangues originárias dos Balcãs, especialmente da Romênia, responsáveis por uma onda de furtos e roubos no outono passado, e jovens ciganos dos Balcãs e residentes em Milão, que organizam furtos e roubos entre a Itália e Paris.
O terceiro são cidadãos da África do Norte, que residem ilegalmente em Genebra e eram ativos em crimes de rua, mas reforçados pela chegada de um grande número de pessoas egressas de países da "Primavera Árabe", que começaram a se envolver em furtos.
A polícia de Genebra afirma que eles são responsáveis por 32% das batidas de carteiras e bolsas e 40% dos casos de furtos através de cortes de bolsas.Aqui termina o infobox
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch