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O perito nuclear suíço Bruno Pellaud exigiu uma inspeção sistemática e independente de todas as centrais nucleares do mundo a fim de prevenir futuros desastres como o do Japão.
Apesar de criticar os erros cometidos durante a crise atual, o ex vice-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) conta à swissinfo.ch que está irritado com o pouco caso das autoridades japonesas com as falhas identificadas no passado na usina nuclear de Fukushima.
Quase três semanas após o tsunami de 11 de março que inundou a usina situada a 240 quilômetros ao norte de Tóquio, os engenheiros continuam lutando no resfriamento dos núcleos dos reatores, mas a operação não conseguiu impedir os vazamentos radioativos.
swissinfo.ch: Peter Lyons, um perito americano em energia nuclear, disse aos senadores dos EUA na terça-feira (29) que a usina japonesa estaria passando por uma "recuperação lenta". Qual é a avaliação geral do Senhor?
Bruno Pellaud: recuperação lenta pode ser um pouco otimista, pois há uma grande quantidade de radioatividade pairando sobre as usinas, tornando o trabalho muito difícil. Parece que o resfriamento de alguns reatores foi alcançado, mas ainda há material em fusão e a radioatividade continua vazando.
Se a contenção interior do reator número dois for rompida, o problema será acentuado, pois o concreto sob o reator não foi projetado para receber o metal derretido. Se o resfriamento for possível acrescentando água continuamente até a instauração de outras medidas, há esperança.
O negócio é manter a radioatividade no metal ou na água, pois o impacto é menor comparado com um vazamento pelo ar. A água do mar não é realmente um problema, pois pode incorporar bem a radioatividade e o mar é bem grande. Ela não vai se concentrar naquele canto além de alguns dias, por causa das correntes.
swissinfo.ch: Qual é a sua opinião sobre as medidas tomadas pela operadora da usina, a Tokyo Electric Power Co (Tepco), e o governo japonês? Têm sido as mais acertadas?
BP: É claro que foram cometidos erros no manejo da situação - esperaram muito tempo nos primeiros dias para tomar medidas como o resfriamento adicional – o Japão mostrou seus limites em um processo decisório muito complicado. Mas as críticas vão além disso - a manutenção se mostrou deficiente, as medidas de controle foram ignoradas, as vistorias não foram realizadas e mentiram para as autoridades.
Mas a minha raiva principal é que esses reatores em Fukushima têm pontos fracos que foram identificados há muito tempo, também em outros lugares.
Na Suíça, foram adicionados outros sistemas de resfriamento [no reator nuclear de Mühleberg], que bombeiam a água do subsolo ou de reservatórios perto de uma instalação. Muitos cabos de alimentação elétrica foram instalados e uma segunda capa dura foi posta desde o início. “Recombinadores” de hidrogêneo são comuns para evitar explosões - estes não foram instalados em Fukushima. Tudo isso foi feito na Suíça com pouco custo e poderia ter sido feito em outros lugares.
A empresa fornecedora, a General Electric, não informou suficientemente os japoneses sobre o que era feito na Europa e na Suíça.
A grande ilusão foi acreditar que os japoneses sabem mais e que seria impossível que nós tivéssemos algo melhor na Europa, o que é realmente o caso, inclusive com medidas claras que poderiam ter sido tomadas para evitar essa situação, mesmo com um tsunami.
swissinfo.ch: Qual a sua avaliação da maneira como as informações têm sido gerenciadas?
BP: Tendo em vista o estado da confusão, parece que houve uma verdadeira tentativa de informar corretamente, mas entre a cadeia de acontecimentos na usina, a avaliação das pessoas em Tóquio e uma conferência de imprensa, existem muitas possibilidades de erros.
Mas não é comparável à Chernobyl, onde houve desinformação óbvia e retenção de informações.
swissinfo.ch: E sobre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que tem sido criticada pela lentidão na reação à crise? Ela não poderia ter feito mais?
BP: A AIEA é uma organização internacional com um mandato histórico e uma função de policiamento puramente para as questões de não-proliferação. Na área de segurança, a AIEA não tem mandato oficial, exceto nas reuniões de peritos mundiais para revisão de normas de segurança. Em 2008, eles alertaram a Tepco de que as normas sísmicas estavam muito baixas em Fukushima e que algo deveria ser feito, mas não podiam fazer mais do que isso.
A única coisa que a AIEA tem feito por esta crise é transmitir informação factual e técnica, isso é tudo o que eles podem fazer.
Deveria se fazer algo mais? Sim, mas se isso cabe à AIEA, ou a outro órgão, é uma outra questão.
[Neste momento] a AIEA pode enviar uma equipa de vistoria de dez a 15 pessoas para uma usina nuclear, a convite de um país ou de uma instalação, para uma verificação geral - como ela é construída, operada e mantida - e em seguida emitir um relatório. Mas [todo ano], os convites só são feitos por uma [meia dúzia] de "bons alunos" que não têm nada a temer. Mas isso deve ser feito em qualquer lugar. Não houve uma vistoria da AIEA em Fukushima. Deveriam ser organizadas vistorias independentes e sistemáticas que expusessem as consequências aos governos e países vizinhos.
Estive no ramo nuclear por um tempo e achava que as coisas eram organizadas. Descobri com o acidente japonês que nem sempre é o caso.
Bruno Pellaud
Pellaud foi vice-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), de 1993 a 1999, tratou extensivamente a questão norte-coreana e iraniana. De 2001 a 2009, foi presidente do Fórum Nuclear Suíço.
Tem mantido um interesse estratégico nas questões da energia nuclear e da não-proliferação de armas atómicas e atualmente escreve sobre assuntos nucleares para o influente site americano
Huffington Post
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Contaminação marinha
A direção dos ventos está sendo observada com ansiedade no Japão. Até o momento ela foi bem favorável, levando os elementos radioativos emitidos pelos reatores da usina de Fukushima-Daiichi para o Oceano Pacífico, o que favorece a dispersão dos contaminantes na atmosfera e no oceano.
As principais fontes de contaminação radioativa dos oceanos são os testes nucleares atmosféricos, conduzidos em sua maior parte nos anos 1960, e as usinas de reprocessamento de combustíveis de La Hague (França) e Sellafield (Reino Unido).
Os radioisótopos podem contaminar o oceano por diversos canais: emissões diretas no mar, lixiviação da poluição terrestre para o litoral, emissões atmosféricas, imersão de resíduos.
A catástrofe de Fukushima não tem precedentes no meio ambiente marinho, que foi levemente atingido pela explosão de 1986 da usina de Chernobyl (Ucrânia). O mar Báltico e o mar Negro foram os mais afetados.
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch