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O mundo protestante celebra neste ano de 2017 o meio milênio da Reforma. Foi em 31 de outubro de 1517 que o monge alemão Martinho Lutero pregou suas famosas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, na Saxônia, denunciando certas práticas da Igreja Católica da época, como a venda de indulgências.
Essa denúncia marcou o início da Reforma Protestante na Alemanha, um movimento que em breve se espalharia por grande parte da Europa e depois na América do Norte.
Mas se a Alemanha é o país de nascimento da Reforma, a Suíça também esteve intimamente associada a esses acontecimentos. Na verdade, apenas alguns anos após a ruptura luterana, os reformadores de Zurique e de Genebra deram um novo impulso ao movimento e o protestantismo, tal como o conhecemos hoje, foi fortemente influenciado pelo que aconteceu na Suíça do século XVI.
História da Reforma e do Protestantismo na Suíça
A Suíça no coração da Reforma
A Reforma Protestante começou em Wittenberg, na Alemanha, em 31 de outubro de 1517, pelo menos de acordo com a tradição. O movimento se espalha rapidamente na Europa, a Suíça se tornando um dos centros mais importantes.
Em Wittenberg, a cidade onde tudo começou, a estátua de Lutero vigia a praça do mercado
Quando o monge alemão Martinho Lutero publicou suas 95 teses contra o tráfico de indulgências, em 1517, a Europa estava sendo atravessada por profundos desejos de renovação. Muitas vozes pediam reformas na Igreja Católica. A Renascença e a invenção da impressa moderna já haviam contribuído para a circulação de novas ideias. Além disso, as descobertas geográficas começavam a mudar a percepção do mundo.
Terreno fértil
No campo e nas cidades, agricultores e novas classes sociais emergentes aspiravam a uma maior autonomia na gestão dos assuntos públicos. Na Suíça, como em outras partes do continente, a Reforma também atendeu a esses requisitos. Em Zurique e Genebra, os dois principais centros da Reforma Suíça, as novas doutrinas religiosas ajudaram a fortalecer as autoridades municipais em seus esforços de emancipação do poder de seus respectivos bispos.
O Gênesis na primeira Bíblia traduzida e impressa em Zurique
A figura central da Reforma em Zurique é o pároco de St. Gallen, Ulrich Zwingli, que chega em 1519 às margens do rio Limmat. Em alguns anos, a Igreja da cidade foi completamente reformada e, em 1525, Zurique abole oficialmente a missa católica. Zwingli também traduziu a Bíblia para o alemão ainda antes de Lutero.
Ruptura com Lutero
Com o Reformador alemão, as relações não eram fáceis, mesmo pessoalmente. Zwingli tem uma ligação mais profunda com a cultura humanista e seu trabalho de reforma é mais radical do que o de Lutero. Em 1529, em Marburg, uma tentativa de conciliação acabou fracassando por causa do desacordo sobre a interpretação do sacramento da Eucaristia.
A disputa entre Lutero e Zwingli sobre a questão dos sacramentos de acordo com uma representação do pintor alemão Gustav König (1847) ©
A ruptura com Lutero tem consequências importantes para a Reforma na Suíça. Depois de perder o reverendo alemão, a Igreja fundada por Zwingli intensificou os contatos com Genebra, onde o trabalho de reforma foi liderado por João Calvino. Em 1566, as duas igrejas chegam a um acordo doutrinal (a posterior 'Confissão Helvética') que sancionava definitivamente o papel da Suíça como o segundo pólo principal da Reforma, um pólo alternativo ao dos luteranos.
Roma Protestante
O advogado francês João Calvino chegou em Genebra em 1536. No ano anterior, em Basileia, ele publicou um dos textos teológicos mais influentes da Reforma, o “Institutio christianae religionis”. Em alguns anos, sua transformação rigorosa da Igreja fez de Genebra um dos faróis da Reforma em escala mundial. É por isso que a cidade é chamada de "Roma Protestante".
Na segunda metade do século XVI, milhares de refugiados religiosos da França, Itália e outros países buscaram refúgio em Genebra. O calvinismo logo se estende além das fronteiras da cidade. A Reforma de inspiração calvinista tornou-se o modelo nos Países Baixos e na Escócia, e foi adotada como religião de Estado no Palatinado.
Todos os anos em Genebra, durante as "Fêtes de l'Escalade", a população comemora sua resistência vitoriosa contra as tropas católicas do Duque da Saboia
Na Itália, os valdenses, membros de um movimento herético medieval, se juntaram ao protestantismo calvinista em 1536. Os calvinistas também foram engrossados pelos huguenotes franceses que, nas últimas décadas do século XVII, foram forçados a deixar a França e deslocalizar suas atividades empresariais e comerciais para vários países europeus, particularmente para Suíça, Inglaterra e Prússia.
O calvinismo também desempenhou um papel predominante na Revolução Inglesa do século XVII. E alguns anos depois, nos navios dos colonos britânicos, as ideias religiosas desenvolvidas em Genebra chegaram ao Novo Mundo, onde contribuíram decisivamente para a construção da identidade americana.
Conflitos e Mediações
Mas voltando à Suíça: Zurique e Genebra não são as únicas cidades a se juntar à Reforma. As ideias protestantes se espalham em muitos territórios da Confederação e em regiões aliadas e vassalas. No entanto, a Suíça toda não adere à nova doutrina. Muitos territórios permanecem católicos. Algumas regiões são até de confissões mistas, como os Grisões. Conflitos religiosos surgem, assim, rapidamente.
Capacete e espada usados por Zwingli na ocasião de sua morte na Batalha de Kappel
As chamadas guerras de Kappel, entre a coalizão dos cantões protestantes liderada por Zurique e os cantões católicos da Suíça Central, foram as primeiras guerras de religião na Europa. As armas são favoráveis aos católicos e Zwingli morre na Segunda Guerra de Kappel, em 1531. Este resultado estabelece as frentes nos territórios que já faziam parte da Confederação, e o Protestantismo só se estende à força nos territórios da Savoia conquistados pelo cantão de Berna (o futuro cantão de Vaud).
Tensões e mal-entendidos, no entanto, permanecem fortes durante séculos. Mas também há exemplos de conflitos resolvidos de forma relativamente pacífica: Appenzell Innerrhoden, católico, e Appenzell Ausserrhoden, protestante, se divorciam amigavelmente em 1597 sem derramamento de sangue.
Reforma e identidade suíça
Apesar dos conflitos, a extensão da Reforma Protestante acabou estreitando os laços entre os diferentes territórios que compõem a Suíça de hoje. A ruptura com Lutero afastou a Suíça de língua alemã da Alemanha, e a adesão de grande parte da Suíça francófona à Reforma aumentou a distância com a França. Os estreitos vínculos entre as igrejas protestantes da Suíça de língua alemã e a Suíça de língua francesa favorecerão a integração da Suíça francófona na Confederação.
Por outro lado, os interesses comuns dos confederados muitas vezes acabaram prevalecendo sobre os conflitos confessionais. Especialmente porque as fronteiras religiosas não correspondem exatamente às fronteiras linguísticas e políticas. Durante a guerra civil do Sonderbund de 1847, por exemplo, a divisão entre liberais e conservadores se estende só parcialmente ao longo da linha de divisão confessional e não corresponde em nada aos limites linguísticos.
A Catedral de São Vicente de Berna tem sido um lugar de culto protestante desde 1528. Hoje, o cantão de Berna é o último onde os protestantes representam a maioria absoluta da população
A ética protestante certamente contribuiu significativamente para moldar a identidade da Suíça. No entanto, durante o século XX, devido à secularização e à imigração proveniente dos países do sul da Europa, o protestantismo perdeu sua hegemonia demográfica na maioria dos cantões suíços tradicionalmente protestantes. Hoje, os protestantes não possuem mais uma maioria absoluta no cantão de Berna mas continuam sendo a confissão numericamente mais importante nos cantões de Appenzell Ausserrhoden e Turgóvia.
Genebra celebra o protestantismo na pedra
Já no século XVI, Genebra brilhava com um fulgor particular no mundo protestante, especialmente por causa da presença do grande reformador João Calvino, e graças ao acolhimento de milhares de huguenotes perseguidos e a influência intelectual e espiritual de sua Academia. No início do século XX, a "Roma Protestante" comemorava esta história numa escultura monumental.
A construção do Monumento Internacional da Reforma - também conhecido como o Muro dos Reformadores - começou em 1908 e foi concluído somente em 1917 devido a dificuldades causadas pela Grande Guerra. Financiado por fundos privados e públicos angariados na Suíça e nos principais países protestantes, a obra celebra os grandes momentos da história da Reforma.
Hoje em dia, este monumento continua sendo – junto com o famoso jato de água - o símbolo mais famoso de Genebra.
Museu Internacional da Reforma
Além do Muro dos Reformadores, Genebra também abriga um museu dedicado à história do protestantismo. O Museu Internacional da Reforma (MIR) traça essa história através de objetos, livros, manuscritos, pinturas e gravuras.
O MIR foi vencedor do Prix du Musée do Conselho da Europa de 2007. Desde 1977, esta distinção é atribuída anualmente a instituições que contribuem de forma notável para o conhecimento do patrimônio cultural da Europa.
Paisagem religiosa suíça variada
"A fé é uma visão de coisas que não são vistas"
João Calvino, teólogo protestante
Na primeira metade do século XVI, a Reforma marcou uma ruptura na paisagem religiosa suíça ao romper o quase monopólio católico que prevaleceu durante toda a Idade Média. Doravante, a Confederação Suíça é dividida entre regiões católicas e protestantes, e as regiões mistas são raras.
Durante séculos, a situação não mudará. Em virtude do princípio "cujus regio, ejus religio", os cantões não mudam mais de religião. Além disso, os movimentos populacionais permanecem baixos em uma sociedade que ainda é amplamente rural.
Mas a situação começou a evoluir em meados do século XIX. O estabelecimento do Estado federal (1848) permitiu que os cidadãos se estabelecessem livremente em qualquer lugar do país. Além disso, o desenvolvimento da indústria atraiu a mão de obra dos cantões rurais - muitas vezes católicos - para os cantões urbanos mais industrializados - geralmente protestantes.
Mas é durante a segunda metade do século XX que a mudança se acelera. O movimento de secularização da sociedade, perceptível em todas as partes do mundo ocidental, bem como a imigração maciça, especialmente do sul da Europa católica, modificaram a paisagem religiosa.
Hoje, a Suíça não é mais um país de maioria protestante. Agora, os católicos são mais numerosos, as religiões não europeias são cada vez mais visíveis, e a proporção de pessoas que se declaram sem religião - um fenômeno anteriormente praticamente inconcebível - nunca foi tão alta. Em suma, em matéria de religião, a época atual é marcada acima de tudo pela sua diversidade.
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Todas as religiões coabitam na Suíça
Do catolicismo mais rigoroso ao evangelismo mais entusiasmado, passando pelo islamismo, o hinduísmo e uma multidão de seitas, as práticas são muito diversas e a coabitação quase sempre pacífica.
O protestantismo como fonte de riqueza
A Reforma, motor do desenvolvimento econômico?
Os contemporâneos já haviam notado: desde o século XVII, as regiões protestantes da Europa são economicamente mais dinâmicas do que as regiões com maioria católica. A crise financeira de 2008 ressuscitou a ideia de uma diferença econômica fundamental entre o Norte protestante e o Sul católico do continente. Muitas pessoas lembraram o sociólogo alemão Max Weber e seu famoso ensaio sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, publicado no início do século XX. Mas a questão não é tão simples.
"Na praça principal, mansões lindas e confortáveis chamam a atenção e, nas ruas vizinhas, encontram-se casas insignificantes onde prevalece a pobreza e até mesmo a miséria", diz, em 1862, o escrivão e alpinista genebrino Jean-Louis Binet-Hentsch em um dos primeiros guias turísticos dedicado ao Val Poschiavo, no cantão dos Grisões. "Nunca a oposição tão frequentemente notada e tão frequentemente descrita entre as populações protestantes e as populações católicas em regiões mistas é tão sensível quanto aqui".
Discrepância econômica
A observação feita pelo viajante genebrino sobre o remoto vale alpino dividido desde meados do século XVI entre uma maioria católica e uma minoria protestante correspondia ao que vários cronistas e estudiosos haviam observado desde o século XVII em outras partes da Europa. A Reforma Protestante parecia ter favorecido, ou pelo menos acompanhado o desenvolvimento econômico das regiões em que havia sido estabelecida.
A fuga de populações protestantes de uma região para outra, como os huguenotes franceses para a Suíça, Holanda e Prússia, os reformados de Lugano para Zurique, ou os menonitas para a América do Norte, também resultou em uma transferência de aptidões comerciais e produtivas para os países de acolhimento, promovendo assim seu crescimento econômico.
Esta parte do Muro da Reforma em Genebra mostra o acolhimento dos refugiados huguenotes na Prússia
Tomando o caso suíço, uma prova impressionante da diferença de dinamismo econômico entre regiões protestantes e católicas é fornecida pelo cantão de Appenzell, que foi dividido em 1597 em uma parte católica (Appenzell Innerrhoden) e uma parte reformada (Appenzell Ausserrhoden). Enquanto entre 1530 e 1730 a população da parte católica aumentou apenas 30% - como o historiador e ex-deputado Jo Lang lembrou recentemente no jornal Tages Anzeiger – a parte protestante multiplicou sua população por seis, tornando-se, graças ao desenvolvimento da indústria têxtil, uma das regiões mais densamente povoadas da Europa.
As teses de Max Weber
As discussões da aparente vantagem competitiva das regiões protestantes eram conhecidas pelo sociólogo Max Weber quando ele estava prestes a escrever seu famoso ensaio "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", publicado entre 1904 e 1905. Seu objetivo, como ele afirmou nas primeiras páginas de seu ensaio, foi entender por que a economia capitalista moderna nasceu na Europa e não em outros continentes, que desenvolveram em sua história conhecimentos e técnicas pelo menos tão avançadas quanto as da Europa.
O sociólogo alemão identificou em certos conceitos elaborados pelo protestantismo as bases éticas que teriam favorecido o desenvolvimento da economia capitalista. Por um lado, o conceito de "profissão" inventado por Martinho Lutero e assumido pelas outras correntes do protestantismo, que via no trabalho uma tarefa atribuída por Deus (em alemão a palavra "Beruf" significa profissão e vocação). Por outro lado, a relação "ascética" de João Calvino com a riqueza, considerada aceitável, na medida em que não era gasta com o luxo e os prazeres mundanos, mas reinvestida na empresa.
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo permanece até hoje a mais famosa obra do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920)
A intenção de Weber não era estabelecer uma relação inequívoca de causa e efeito entre a Reforma e o capitalismo, como às vezes é sugerido na divulgação de suas teses, mas identificar analogias entre pensamento religioso e o "espírito do capitalismo". Ele próprio admitia que a evolução histórica de um sistema econômico era o resultado de uma interação complexa entre diferentes fatores.
O capitalismo antes da Reforma
As teses do sociólogo alemão despertaram e ainda dão origem a muita discussão e crítica. Foi apontado, por exemplo, que a economia capitalista começou a se desenvolver bem antes do advento da Reforma, especialmente entre as classes mercantes italianas e flamengas. As duas grandes famílias de banqueiros e comerciantes do século XVI, os Fugger e os Médici, eram de fé católica.
A ostentação de riqueza, teoricamente, não é bem vista pela ética protestante
Se olharmos para o mapa da Europa de hoje, também podemos ver que algumas das regiões mais dinâmicas e economicamente avançadas são tradicionalmente católicas: a Baviera e partes de Baden-Württemberg, na Alemanha; a Lombardia, na Itália, a Irlanda, ou considerando apenas a Suíça, os cantões de Zug e Schwyz.
Outros autores, embora reconheçam uma certa vantagem competitiva nas regiões de denominação protestante, associam-na com um melhor grau de formação e não com a ética protestante. A ideia do sacerdócio universal e, portanto, da necessidade de todos os fiéis (incluindo mulheres) de conhecer e ler a Bíblia, levou a uma rápida alfabetização das regiões que aderiram à Reforma. Isso incentivou uma melhor circulação do conhecimento.
Entre os críticos mais proeminentes das teses de Weber está o historiador suíço Herbert Lüthy (1918-2002), autor de um grande estudo sobre o banco protestante na França entre 1685 e 1794. Embora reconhecesse a importância das teses de Weber, ele era cético com as generalizações do sociólogo, que nem sempre eram apoiadas por fontes. Ele também observou que as premissas da economia capitalista já haviam sido estabelecidas entre o final da Idade Média e a Renascença.
O freio da Contra-Reforma
De acordo com Herbert Lüthy, foi a Contra-Reforma, combinada com o absolutismo emergente das cortes principescas, que sufocou o desenvolvimento econômico nas regiões católicas, enquanto a heterogeneidade do mundo protestante permitiria a sobrevivência da dinâmica nascida no fim da Idade Média. Nesse sentido, a Reforma não foi o motor do desenvolvimento econômico, mas o menor dos males.
O Palácio de Versalhes, que incorpora a ideia do absolutismo, também viu a revogação do Édito de Nantes, que permitiu o culto protestante na França
Voltando ao caso suíço, embora a industrialização tenha começado primeiro nas regiões protestantes, os cantões tradicionalmente católicos, como Zug e Solothurn, também experimentaram um rápido desenvolvimento industrial a partir de meados do século XIX. O impulso e o capital geralmente provêm de empresários protestantes, mas foi a nova classe dominante católica de inspiração liberal que permitiu que essas iniciativas se enraizassem.
"A aversão do clero à indústria poderia ter impedido a industrialização protestante se essa não tivesse sido apoiada por católicos liberais", escreve Jo Lang sobre a industrialização no cantão de Zug.
As transformações culturais e políticas que ocorreram durante o Iluminismo e a Revolução Francesa abriram espaços muito maiores para a modernização econômica do mundo do que a Reforma.
Os Estados Unidos, o Eldorado dos evangélicos
Os Irmãos Suíços
Embora o nome do vilarejo de Schlaate já não apareça em nenhum mapa, a reunião de anabatistas que teve lugar em um dia de inverno quase quinhentos anos atrás teve repercussões consideráveis. Tanto na Europa como na vida religiosa nos Estados Unidos.
No entanto, Schlaate ainda é usado no dialeto local para designar o vilarejo de Schleitheim, localizado no cantão de Schaffhausen. Suas velhas casas de enxaimel também sugerem que foi em uma delas que os Irmãos Suíços se reuniram em torno de Michael Sattler, em 24 de fevereiro de 1527, para adotar os artigos da confissão de Schleitheim.
Mas as mais antigas dessas casas, bem conservadas e cercadas por jardins bem cuidados, foram construídas apenas dois ou três séculos depois. Tudo o que resta da reunião memorável do século XVI é uma cópia impressa antiga da confissão que data de cerca de 1550 e é exibida no museu da cidadezinha.
Os Irmãos Suíços fizeram parte do movimento anabatista que surgiu dois anos antes, quando jovens seguidores radicais da Reforma romperam com Ulrich Zwingli, acusando-o de comprometer-se com as autoridades e exigindo o fim da missa e o batismo das crianças. A ruptura foi radical. Com o apoio de Zwingli, o governo local tomou medidas para silenciar esses "anabatistas" e pôr fim às suas práticas, não hesitando em executar um dos líderes que se recusou a renegar sua fé.
Longe de sufocar o movimento, a repressão provavelmente alimentou o zelo dos seguidores. De acordo com o Dicionário Histórico da Suíça, os sete artigos da confissão de Schleitheim separaram os anabatistas suíços "das outras correntes radicais e das Igrejas oficiais" e formaram "a primeira Igreja livre". O texto inclui a rejeição do batismo das crianças, a proibição de prestar juramento e a recusa de portar armas.
Construção de uma fazenda por Amishes nos Estados Unidos ©
Séculos de perseguição e exílio seguiram na Europa e em partes da Suíça. Embora o movimento tenha sido dividido, sua influência foi sentida em todo o continente. Ganhou a Holanda, chegou ao leste da Rússia e deu à luz ao hutterismo, que floresceu na Morávia (atual República Checa). Os anabatistas também teriam servido de exemplo aos Quakers na Inglaterra no século XVII.
Individualismo americano e... religioso
Nas colônias da América do Norte, é na Pensilvânia que os grupos anabatistas, hoje conhecidos como menonitas e amish, encontraram os quakers, uma reunião que afetaria toda a sociedade americana. Os quakers lideraram esta província até meados do século XVIII, o que explica por que não tinha milícia nem igreja apoiada pelo Estado, de acordo com o historiador anabatista Steven Nolt, que explica que os menonitas apoiaram e ajudaram a manter o governo quaker no poder.
Ao contrário do que estava acontecendo na Europa naquela época, os residentes da Pensilvânia poderiam ser naturalizados sem prestar juramento. Os cidadãos também não precisavam pegar em armas, já que o Estado não criou tropas.
De acordo com outro especialista, o legado mais importante deixado pelos anabatistas na América do Norte é precisamente a ideia do batismo adulto - juntar-se a uma igreja é um ato independente e voluntário - e o que isso implica. "Responde ao individualismo americano e enfatiza o fato do indivíduo ter direitos. Cabe a ele decidir sobre sua filiação religiosa, seu compromisso religioso e também seu envolvimento cívico. Essa é realmente uma ideia importante", diz Donald Karybill, do Elizabethtown College, na Pensilvânia.
Os dois historiadores, no entanto, não querem exagerar a influência dos grupos anabatistas que chegaram aos Estados Unidos. Eles fazem parte do coquetel das comunidades imigrantes que ajudaram a definir esta nação.
Nos círculos anabatistas americanos, aprender o alemão padrão ou coloquial é feito principalmente através da leitura da Bíblia
Cerca de 80 mil pessoas falavam alemão no início do século XVIII na Pensilvânia, o que representa cerca de um terço da população total. A maioria delas era luterana ou membros da Igreja Reformada. Menos de 5% eram menonitas ou amishes.
Alguns direitos reconhecidos no momento em que os quakers governaram a província foram abolidos durante a Revolução Americana de 1776, mas foram reintegrados em 1790. Durante esse período, qualquer um que se recusasse a prestar juramento de lealdade perdia seus direitos políticos.
A Velha Ordem
Os anabatistas continuaram a se instalar na Pensilvânia e região no século XIX e foram acompanhados por menonitas de descendência holandesa e russa. Como outras comunidades religiosas, eles eram livres para praticar sua religião e viver lá como desejavam. No entanto, os avanços técnicos e a introdução da educação pública abriram uma lacuna na comunidade que agora se reflete nas imagens populares dos amishes usando chapéus de palha e andando em carroças puxadas por cavalos.
"Alguns pediram para dar mais peso à experiência religiosa pessoal e reivindicaram uma espiritualidade menos restrita por tradições e usos populares", diz Steven Nolt. "Outros se uniram à Velha Ordem, uma maneira de viver de acordo com a tradição, marcada pelo ceticismo sobre os bens de consumo e pela obstinada recusa de adaptar a Igreja às formas burocráticas".
O historiador aponta que a Velha Ordem Amish rejeitou, em particular, uma concepção programática da igreja que foi incorporada na escola dominical, nas sociedades missionárias e no ensino superior. As diferenças de estilo de vida tornaram-se ainda mais pronunciadas no início do século XX com a propagação da eletricidade e o surgimento do telefone e do automóvel.
No entanto, as comunidades amish e menonita, bem como outros movimentos cristãos, sempre se enfrentaram contra o Estado para defender suas convicções pacifistas profundas. Durante a Primeira Guerra Mundial, no entanto, os Estados Unidos não ofereceram nenhum serviço alternativo, e os homens desses grupos foram enviados para campos de treinamento onde tinham que usar uniformes militares, mesmo servindo em funções de não-combate, diz Donald Kraybill. Aqueles que recusavam eram punidos.
Fila de voluntários do exército americano em 1917
Em 1935, as igrejas se reuniram e desenvolveram propostas de serviços alternativos para objetores de consciência. Elas também conseguiram convencer o governo federal a dar um passo nessa direção. "A resistência anabatista ao recrutamento durante as duas guerras mundiais galvanizou sua identidade pacifista na sociedade americana do século XX", conclui Donald Kraybill.
Cavalo e charrete
Desde a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento mais marcante foi o impressionante crescimento populacional das comunidades da Velha Ordem Amish, tanto nos Estados Unidos como no Canadá. Elas também ficaram mais visíveis por causa de seus costumes e seus trajes típicos.
A população da Velha Ordem quase triplicou nos últimos 25 anos para mais de 300 mil pessoas nos Estados Unidos. Comunidades amish se espalharam em diferentes estados longe das províncias originais da Pensilvânia, Ohio e Indiana.
Uma família amish a caminho da igreja ©
Uma família média tem seis ou mais filhos e 85% deles escolhem ficar na comunidade quando atingem a idade adulta, diz Kraybill. "Esses dois componentes precipitam seu crescimento populacional, embora não pratiquem nem evangelismo nem proselitismo".
O especialista acredita que o sucesso desses grupos também se baseia em sua capacidade de "lidar com a modernidade" quando atende às suas necessidades, por exemplo, usando algumas tecnologias informáticas, agrícolas ou comerciais. Ela permite que os grupos tradicionais floresçam, mantendo sua identidade típica da Velha Ordem".
Donald Kraybill estima o número de fabricantes amish em 12.000. Seus vários produtos são conhecidos por sua qualidade, valor e "o encanto nostálgico da América do início". Mas o vínculo que liga os amish e os menonitas ao passado não é a nostalgia. São os preceitos consignados pelos anabatistas há meio milênio no norte da Suíça.
Autores
Andrea Tognina (capítulos 1 e 3) / Dale Bechtel (capítulo 4) / Olivier Pauchard / Duc-Quang Nguyen (gráfico)
Fotos
Keystone (salvo indicação)
Adaptação
Fernando Hirschy
Produção
Luca Schüpbach, © 2017 swissinfo.ch