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Ciência investiga ligação entre Covid-19 e nova doença infantil
Como explicar a doença inflamatória potencialmente vinculada à Covid-19 que afeta algumas crianças? Duas semanas após serem reportados os primeiros casos em alguns países, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a comunidade científica tentam entender a causa.
- Qual é a relação com a Covid-19?
A OMS anunciou nesta sexta-feira que estuda o possível vínculo e pediu a colaboração mundial para "entender melhor esta síndrome infantil".
Em um relatório divulgado hoje, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) classificou a nova doença de "síndrome inflamatória multissistêmica (que pode afetar todos os órgãos) temporariamente associada a uma infecção pelo Sars-CoV-2". A associação "ainda não foi estabelecida, mas é plausível", considerou o órgão.
Os casos ocorreram durante a epidemia do novo coronavírus e muitos dos pacientes testaram positivo para a Covid-19. A agência de saúde francesa, Santé Públique France, estima que a nova doença surja, "em média, quatro semanas após a infecção".
Cientistas trabalham com a hipótese de que as crianças afetadas sofram uma aceleração do sistema imunológico. "Elas tinham o vírus, o organismo o combateu. Mas agora há uma resposta imunológica diferida e excessiva", explicou à AFP o pediatra Sunil Sood, do centro médico infantil Cohen, localizado em Nova York.
Em geral, a grande maioria das crianças apresenta apenas os sintomas da Covid-19, ou mesmo nenhum sintoma.
- Quantos casos?
Na Europa, foram detectados cerca de 230 casos suspeitos da nova doença, segundo o ECDC, o qual assinalou que se trata de um mal raro e que as chances de uma criança ser afetada são muito pequenas.
Entre estes casos, houve duas mortes: uma no Reino Unido, de um adolescente de 14 anos, e outra na França, de um menino de 9 anos, anunciada hoje.
O caso fatal francês ocorreu em Marselha. A criança foi vítima de uma "afecção neurológica ligada a uma parada cardíaca", disse à AFP o médico que a atendeu, Fabrice Michel, do hospital de La Timone. Autoridades francesas reportaram 135 casos no país desde o começo de março.
Nos Estados Unidos, autoridades do estado de Nova York deram conta de três menores mortos e uma centena de casos. Também houve casos na Itália, Espanha e Alemanha, sem mortes.
- Quais são os sintomas?
Entre os sintomas, estão febre alta, dores abdominais, problemas digestivos, erupção cutânea, conjuntivite, língua avermelhada e inchada e problemas cardíacos. "Eles são uma mistura dos da doença de Kawasaki e da "síndrome do choque tóxico", segundo o ECDC.
A doença de Kawasaki afeta principalmente as crianças mais novas, com uma inflamação de seus vasos sanguíneos. Mas nos casos suspeitos de estarem relacionados à Covid-19, os problemas cardíacos e o caráter inflamatório são "mais marcados", segundo a agência sanitária francesa. Além disso, a doença pode afetar as crianças mais velhas, enquanto a doença de Kawasaki atinge essencialmente menores de 2 anos.
Um estudo italiano publicado na revista médica "The Lancet" aponta que o número de casos na região de Bérgamo se multiplicou por 30 desde o surgimento da epidemia atual, com 10 crianças de 7 anos em média diagnosticadas entre 18 de fevereiro e 20 de abril.
- Pista genética?
A causa da doença de Kawasaki é desconhecida, assim como a desta nova afecção, mas uma das hipóteses consideradas é a genética.
Na Inglaterra, seis dos oito primeiros casos observados foram de crianças negras de origem "afro-caribenha", segundo um estudo publicado na The Lancet. A criança que morreu na França era de origem africana, segundo seu médico.
Não foi reportado nenhum caso na Ásia, nem mesmo na China, onde a Covid-19 surgiu. Já a doença de Kawasaki afeta principalmente asiáticos.