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O que no passado era visto como um "flerte intenso", hoje já não é mais aceitável para as mulheres. Em Genebra, duas jovens estudantes organizaram uma corrida para combater comentários sexistas e recuperar o espaço público.
Elas estão fartas de comentários sexistas e de receber assobios ou buzinadas quando passam. Elas também não querem mais temer passar por lugares ermos quando estão treinando. Clémence Gallopin, 22 anos, e Juliette Radi, 25, decidiram lançar uma iniciativa para reivindicar o direito de praticar esportes, onde e quando quiserem, e com qualquer roupa.
"Estamos acostumadas a escutar comentários desagradáveis em determinadas localidades, especialmente quando íamos correr à noite. E se estávamos correndo de shorts ou com um sutiã esportivo, a situação piorava", contam as duas jovens estudantes de economia.
Após a realização de um grande protesto feminino em 14 de junho - a Greve das Mulheres - e tendo em conta o movimento #MeTooLink externo, as duas decidiram que não querem mais limitar o seu espaço de vida. E por isso trouxeram para Genebra a ideia do movimento francês "Sine Qua Non SquadLink externo". Lançado em Paris pela Associação de Luta contra a Violência Sexual e de Gênero "Tu vis! Tu dis!Link externo" (Você vive! Você diz!), a ideia é organizar corridas em grupo para encorajar as mulheres a recuperar o espaço público.
Comentários inapropriados
Numa noite ensolarada de julho, Clémence e Juliette organizam um primeiro teste. O ponto de encontro foi a pista às margens do Lago Genebra. Nesse dia, 24 pessoas se apresentaram para participar, dentre elas quatro homens.
Depois de discutir as regras, os corredores começaram a percorrer o famoso bairro do Pâquis. "Escolhemos uma localidade onde não é incomum ouvir comentários inapropriados. O objetivo era mostrar que a gente não se intimida", explicou Juliette.
Telma vem do município de Genthod, na margem norte do Lago Genebra. Ela levou a filha Lorena com ela. Originária do Brasil, ela conhece bem o problema. "Em São Paulo ou no Rio de Janeiro é inconcebível para uma mulher correr sozinha. O risco de sofrer uma agressão é muito alto. Por isso, grupos de mulheres são formados para que possam correr juntas." Na Suíça, Telma corre com seu cão e sente-se, dessa forma, mais segura.
A maioria das corredoras não ainda teve nenhuma experiência negativa. Muitas admitem planejar minuciosamente a rota de treino para evitar lugares onde não se sintam confortáveis. Esse sentimento as levou participar da iniciativa.
Raphaël e Timothé participaram da corrida para ajudar suas amigas. "Quando estávamos indo para o ponto de partida passamos pelo bairro de Pâquis. Lá percebemos que alguns sujeitos não paravam de olhar para as mulheres, um comportamento que condenamos. Os homens devem se conscientizar que isso é um problema e participem da luta contra o assédio na rua."
O poder de fazer a diferença
A diversidade de gênero também é importante para os fundadores do Sine Qua Non Squad. Eles defendem uma masculinidade positiva na luta contra desigualdade. Os treinos coletivos mostraram em Paris seus efeitos positivos. "Mensalmente escolhemos um lugar perigoso e vamos treinar por lá. É mais fácil para um grupo reagir às cantadas", explicou Mathilde Castres, presidente da associação.
De acordo com um estudo da revista norte-americana Runner's WorldLink externo, 43% das mulheres entrevistadas declararam já ter sido assediadas durante o treino. Castres acredita que as mulheres estão mais conscientes do problema. "Antes a gente precisava se adaptar. Hoje sabemos que é possível mudar a situação". O grupo organizará em Paris a segunda corrida em meados de outubro.
Sexismo e assédio também preocupam as autoridades. Entre 2016 e 2017, a cidade de Genebra realizou uma pesquisa sobre as atividades esportivas femininas: 26% dos entrevistados declararam também já ter sido alvo de algum ataque sexista na rua. A taxa chegou a 53% no caso de mulheres mais jovens. Como resultado, a cidade tomou uma série de medidas para permitir a recuperação do espaço público.
Héloïse Roman é gestora de projeto para a igualdade de gênero na cidade de Genebra. Ela considera necessário não só combater o assédio e o sexismo, mas também permitir que as pessoas se sintam seguras: "Desde a infância, as mulheres aprendem que o espaço público é perigoso. Algumas chegam até a ser acusadas de provocar."
As autoridades municipais de Genebra lançaram no início do ano um plano de ação intitulado "Sexismo e assédio nos espaços públicos", na qual são oferecidas medidas de prevenção, sensibilização, formação de profissionais, planejamento e revitalização dos espaços públicos e levantamento de dados. A iniciativa do grupo de corrida "Sine Qua Non Squad" foi apoiada nesse sentido.
Onde começa o assédio?
Depois de uma hora de corrida, em um dia de calor, os participantes fizeram um balanço. O momento escolhido foi a sessão de alongamento. Lorena foi a primeira a se exprimir: "Andamos por bairros onde eu não me arriscaria sozinha", disse, afirmando que participaria de uma segunda rodada.
Os organizadores ficaram satisfeitos. "Escutamos alguns comentários ao longo do caminho, incluindo de um homem que nos 'aplaudiu' em tom sarcástico", afirmou Juliette. "Sim, mas ele também me incentivou", observou um jovem rapaz.
"Onde começa o assédio?", perguntou um dos participantes. Talvez a definição seja uma questão de idade. "Minha mãe considera alguns comentários aceitáveis, mas eu já não penso da mesma forma", retruca.
Projeto "Gênero e Esporte"
Genebra lançou o projeto "Gênero e EsporteLink externo" que incentiva meninas a usar as pistas de skate, um espaço geralmente utilizado por meninos, através de competições e até reforma dos espaços esportivos das escolas.
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