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Após 20 anos de trabalho no Brasil e 15 na Suíça, eis o meu testemunho sobre a qualidade da mão-de-obra nos dois países. A mão-de-obra qualificada brasileira é tão boa quanto a da Suíça.
Por Paul Ammann, Natal, Brasil
Após a 2ª guerra mundial, muitos países colonizados ganharam a independência política. De 1950 a 1965 os países industrializados apoiaram o desenvolvimento desses países novos contribuindo com um montante de 80 bilhões de dólares, pensando que, se o apoio financeiro do Plano Marshall conseguiu reconstruir em poucos anos a Alemanha destruída, recursos financeiros também poderiam desenvolver as economias dos países novos. Não deu certo.
A teoria da incapacidade de auto-administração de países do 3º mundo
Surgiram então teorias segundo as quais a cultura tradicional dos povos emergentes não estaria apta a adotar as técnicas modernas de administração pública e que esses povos não seriam capazes de absorver os conteúdos da educação profissional, sobretudo no setor industrial. Em 1970/71 testei a veracidade dessa teoria através de uma pesquisa científica, quando dirigi uma escola técnica de mecânica de precisão em Java, uma ilha com cultura milenar completamente alheia à civilização ocidental industrial. Para saber se os alunos javaneses absorveriam o ensino técnico ministrado nos modernos laboratórios e oficinas da escola, utilizei os mesmos exames rigorosos aplicados rotineiramente na Suíça. Resultado: após três anos de intensiva aprendizagem teórica e prática os estudantes javaneses alcançaram as mesmas notas na teoria e dominaram tão bem os ofícios da mecânica na prática quanto seus colegas suíços.
A mão-de-obra qualificada brasileira é tão boa quanto a da Suíça
Após curtas pesquisas sobre educação profissional em mais 10 países constatei que a mão-de-obra devidamente qualificada em todos os países analisados tem mais ou menos as mesmas qualidades e potencialidades. Os julgamentos segundo os quais os povos do sul não gostam de trabalhar ou se esforçam menos, são basicamente preconceitos. O que é verdade é que os resultados dos esforços são diferentes, mas isso se deve à negligência dos governos que não profissionalizam suficientemente sua população. É óbvio que o resultado do trabalho de um mecânico que concluiu a aprendizagem de quatro anos em oficinas modernas difere do resultado do esforço de um mecânico que fez um curso noturno durante um mês.
No Brasil trabalhei com mais ou menos 400 colegas, sobretudo de nível médio e superior. Durante 20 anos era quase sempre chefe de setor ou coordenador de uma equipe. Selecionei meu pessoal que era remunerado conforme o grau de instrução e de acordo com o mercado. Ofereci formação contínua a todos, do faxineiro ao analista de desenvolvimento científico.
O pessoal da limpeza fez o supletivo, os trabalhadores de nível superior foram encaminhados para uma pós-graduação e os pesquisadores para um ano sabático. Nunca demiti ninguém e ninguém fez greve.
Trabalhos da mão-de-obra brasileira reconhecidos
Vários trabalhos, projetos e pesquisas das equipes foram apresentados e debatidos em encontros regionais, nacionais e internacionais. O Sistema Nacional de Formação de Mão-de-Obra foi discutido em vários seminários internacionais e seus cursos reconhecidos como investimento de excelente relação beneficio-custo. Graças à formação foi possível executar obras consideradas as maiores do mundo como a represa Itaipu e o complexo de extração e transporte do minério de ferro de Carajás.
Num instituto de pesquisa do mercado de trabalho na Alemanha apresentamos um levantamento sobre necessidades de formação de técnicos nas indústrias siderúrgicas e petroquímicas brasileiras. Para discutir o problema de um cenário prospectivo do levantamento pedimos para falar com o melhor estatístico do instituto. O diretor chamou o especialista: era um brasileiro.
Na Olimpíada das Profissões de 2003 realizada em Sankt Gallen na Suíça, da qual participaram profissionais de 36 nações, os técnicos brasileiros ganharam quatro medalhas e sete diplomas de excelência. O melhor técnico em refrigeração do mundo é de Natal - RN.
A pontualidade não é monopólio suíço
Na Suíça e Alemanha era costume manter as reuniões de acompanhamento e avaliação dos trabalhos cada 2ª feira às 8 horas. Introduzi o costume em Brasília. Na hora marcada da 1ª reunião apareceram 10% dos funcionários, na 2ª, 50% e na 3ª, 90%. Um alto chefe alegou que não podia participar em reuniões neste horário, porque seu biorritmo era noturno. Pedi-lhe que delegasse a participação desta reunião ao seu substituto. Ele concordou e a partir de lá 100% dos funcionários chegaram na hora marcada, inclusive aqueles que dependiam do transporte público. Eles até brincaram e abriram uma caixinha de multa para os retardatários. A caixa ficou sempre vazia.
A carga horária semanal de trabalho
Depois de 15 anos trabalhando no Brasil voltei para trabalhar uma temporada na Suíça, sabendo que a carga horária semanal desse país é uma das mais pesadas do mundo (42 horas e 15 minutos em média).
Já no segundo mês meu chefe me avisou que o governo não paga horas extras. Perguntei a razão do aviso. Ele explicou que meu cartão de ponto – que é rigorosamente controlado – mostrou 10 horas acima da carga exigida. Respondi que simplesmente adotei o mesmo ritmo de trabalho brasileiro e prometi adaptar-me à Suíça.
Como nunca bati ponto no Brasil, somente então percebi que minhas equipes e eu trabalhávamos mais do que os suíços.
Conclusões
A mão-de-obra brasileira qualificada pelas escolas de educação profissional do governo e do setor produtivo é competitiva com a de países industrializados. Por isso os jovens brasileiros formados que procuram emprego e salário digno na Europa conseguem conquistar o mercado altamente disputado. O problema brasileiro é que a oferta dessas escolas atende a somente 20% da população jovem que ingressa anualmente no mercado de trabalho, enquanto o sistema suíço de educação profissional atende a 65% dos jovens e o sistema de educação geral a mais 25%, formando praticamente 90% da população neste nível.
Com a revogação, pelo Presidente Lula, de uma lei de 1994 que impediu o governo brasileiro de criar novas escolas técnicas federais e com o lançamento, em 2007, do Plano de Desenvolvimento da Educação, a situação da educação profissional vai melhorar significativamente, sobretudo graças à criação de 150 novas escolas técnicas.
Breves
Paul Ammann trabalhou como funcionário público nas Secretarias de Saúde Pública dos Estados de Berna e do Rio Grande do Norte, nos Ministérios do Trabalho da Suíça e do Brasil e no Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNPq).
Como consultor trabalhou nas Secretarias de Planejamento da Presidência da República e de vários Estados.
Na iniciativa privada atuou como assessor técnico do SENAI durante 14 anos e como consultor da Câmara Brasileira da Indústria da Construção e da Confederação Nacional da Indústria (Brasília).