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Quinze anos atrás, os bancos suíços chegavam a um acordo em um processo nos EUA por causa do dinheiro pertencente aos sobreviventes do Holocausto e seus herdeiros. Hoje, dois diplomatas envolvidos na crise avaliam a questão de diferentes perspectivas, mas concordam que a justiça foi feita.
Em 1996, o diplomata suíço Thomas Borer servia no Ministério das Relações Exteriores da Suíça, em Berna, na mesma época em que Madeleine Kunin era nomeada pelo presidente Bill Clinton como embaixadora dos Estados Unidos na Suíça.
Ambos não sabiam que estavam prestes a se envolver em uma crise política que iria por à prova pessoas e os governos dessas "repúblicas irmãs" por vários anos.
Em entrevistas separadas concedidas ao site swissinfo.ch, os dois ex-embaixadores avaliaram os interesses e pontos de vista divergentes que causaram a controvérsia das contas inativas entre os Estados Unidos e Suíça, no final de 1990.
A conciliação de 1998
Em 12 de agosto de 1998, os bancos suíços UBS e Credit Suisse chegaram a um acordo com o Congresso Judaico Mundial em uma ação movida nos EUA em 1995. Os bancos concordaram em pagar 1.25 bilhão de dólares para as vítimas do Holocausto ou seus herdeiros.
Desse total, 800 milhões de dólares foram destinados ao pagamento para pessoas cujo dinheiro permaneceu em contas bancárias suíças depois da guerra. Outros 425 milhões foram designados aos sobreviventes do Holocausto, refugiados recusados nas fronteiras suíças e pessoas detidas para realizar trabalhos forçados. Vítimas não-judaicas também podiam exigir a indenização.
A identificação dos destinatários dos recursos foi tratada pelo Claims Resolution Tribunal, com sede em Zurique. A distribuição do dinheiro começou em 2001, e foi "quase completada" em 2013.Aqui termina o infobox
Como tudo começou
Em 1995, uma ação coletiva foi apresentada em Nova York, em nome do Congresso Judaico Mundial, alegando que estava sendo negado o acesso às contas bancárias suíças inativas dos sobreviventes do Holocausto e seus herdeiros.
Na Suíça, pouca atenção foi dada ao assunto. De acordo com Thomas Borer, "em geral, os banqueiros suíços, e os suíços em geral, achavam que todas as questões da Segunda Guerra Mundial – questão com os bancos, etc.– foram liquidadas após a guerra".
Mas não foram. Em agosto de 1996, Madeleine Kunin chegava à embaixada dos EUA em Berna. "A questão do papel da Suíça durante a II Guerra Mundial estava fervendo quando cheguei, e isso realmente ocupou quase todos os meus dias enquanto embaixadora, de uma forma ou de outra", conta.
Já no início de 1996, o senador americano Alfonse D'Amato, de Nova York, havia começado a realizar audiências sobre as contas inativas suíças das vítimas do Holocausto.
"Os bancos, em particular, levaram muito tempo para cooperar", diz Kunin. "Eles colocaram muitas barreiras burocráticas para quem estava procurando encontrar uma conta inativa."
Segundo Borer, o governo suíço achava que as exigências do Congresso Judaico Mundial deviam ser tratadas pelos bancos, já que o problema era as contas inativas. Em maio de 1996, a Associação Suíça de Banqueiros e várias organizações judaicas criaram o Comitê Independente de Pessoas Eminentes, liderado pelo ex-presidente da Reserva Federal americana, Paul Volcker, para realizar uma auditoria independente com o objetivo de identificar as contas bancárias suíças inativas.
Inércia suíça
Enquanto isso, em outubro de 1996, o presidente Bill Clinton pedia ao subsecretário de Comércio, Stuart Eizenstat, que investigasse sobre o que havia sido feito pelos americanos e as forças aliadas para recuperar e reparar o ouro e outros ativos roubados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Uma grande tempestade estava se formando. Mas demorou um pouco para o governo suíço reconhecer o problema e preparar uma reação.
"Nosso sistema político, que não tem um presidente de verdade, mas sete conselheiros federais, sete ministros, não é realmente adequado para lidar com crises políticas", explica Borer.
A questão abordava aspectos históricos, jurídicos, financeiros, econômicos e diplomáticos, cada um tecnicamente relacionado a um departamento diferente. "Havia cinco ou seis conselheiros federais envolvidos, cada um achando que os outros deveriam tomar cuidado", diz Borer.
No final, foi o ministro das Relações Exteriores, Flavio Cotti, quem assumiu o comando, e uma força-tarefa foi criada para lidar com a questão.
Desdobramento
A “Força-Tarefa Suíça Segunda Guerra Mundial” foi formada em outubro de 1996 sob a responsabilidade de Thomas Borer. "Passei a maior parte do tempo em aviões, voando para Nova York, Washington, Londres, Tel Aviv e outras capitais", conta. Como a questão se tornou política, também gerou uma implacável atenção da mídia.
"Eu diria que, a partir de outubro de 1996, havia todo dia alguma coisa na mídia relatando o caso na Suíça", lembra Borer.
Uma das funções da força-tarefa era combater a publicidade negativa gerada pelos meios de comunicação e os políticos americanos. Em depoimento perante a comissão dos bancos do Senado americano, em maio de 1997, Borer garantiu ao senador D'Amato que a auditoria da Comissão Volcker "já havia começado a dar frutos, já que os bancos haviam prometido que nenhum centavo de uma vítima do Holocausto permaneceria em um banco suíço".
Além da força-tarefa liderada por Borer, uma comissão internacional independente - liderada pelo historiador suíço Jean-François Bergier - havia sido criada pelo Parlamento Suíço, em dezembro de 1996, para estudar o papel da Suíça como centro financeiro na II Guerra Mundial. O objetivo da comissão, segundo Borer, era "encontrar a verdade histórica".
A Comissão Bergier
A Comissão Independente de Especialistas da Suíça - Segunda Guerra Mundial (ICE), dirigido pelo renomado historiador suíço Jean-François Bergier, foi criada através de um decreto parlamentar em 13 de dezembro de 1996 para "investigar o volume e o destino dos ativos transferidos para a Suíça antes, durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, a partir de um ponto de vista histórico e legal".
A “Comissão Bergier" foi composta por quatro membros suíços e quatro não-suíços (Grã-Bretanha, Israel, Polônia e EUA).
Entre os temas observados constavam o comércio de ouro e transações em moeda estrangeira, as relações de empresas industriais e comerciais suíças com a economia nacional-socialista, a exploração de trabalhadores forçados e a política de refugiados da Suíça.
Entre 1996 e 2002, a Comissão Bergier produziu uma série de relatórios contendo mais de 11 mil páginas e publicados em 25 volumes.
As conclusões da Comissão - entre outras, diz que o governo suíço e a indústria do país havia colaborado com os nazistas, e que a Suíça havia recusado milhares de refugiados judeus nas suas fronteiras - foram um choque para os suíços.Aqui termina o infobox
Atiçando o fogo
Uma versão da verdade foi lançada em 7 de maio de 1997 por Stuart Eizenstat - um relatório com base em cerca de 15 milhões de páginas de documentos classificados e armazenados no National Archives and Records Administration (NARA), em Washington.
Entre outras coisas, o relatório descrevia a Suíça como "banco da Alemanha nazista" e afirmava que a Suíça e outros países neutros se beneficiaram do comércio e das transações financeiras com os alemães, ajudando a prolongar o esforço de guerra.
Borer lembra a reação dele na época. "Eu pude ler o relatório um dia mais cedo e fiquei chocado. Naquela época, eu já era especialista da Segunda Guerra Mundial e do papel da Suíça. Os resultados de Eizenstat, e especialmente seu currículo político, estavam simplesmente errados. Mesmo se os historiadores revelaram os fatos, ele acabou inventando uma outra história com eles."
Antes do lançamento do relatório, "eu diria que a maioria dos suíços era a favor de resolver esta questão", diz Borer. “Mas acusar a Suíça de ajudar a Alemanha nazista era demais. Isso provocou uma resistência na Suíça muito, muito forte."
De acordo com Madeleine Kunin, os suíços sentiam que estavam sendo tratados injustamente. "Havia um sentimento: 'Por que estamos sendo atacados? Por que estamos sendo examinados?’ e eu acho que havia um sentimento de negação, de que a Suíça não havia feito nada de errado."
Resolução
Kunin acredita que nem todos os suíços foram contra as investigações. "Havia muitos jovens que sentiram que era hora deste capítulo da história da Suíça ser debatido e discutido", diz.
E os bancos suíços começaram a perceber que a sua reputação e futuro econômico estavam sendo ameaçados, diz Kunin. "No final, eu acho que houve cooperação, mas foi preciso muito tempo."
Em julho de 1997, os bancos suíços publicaram uma nova lista de contas inativas, permitindo que parentes fizessem reivindicações. A lista foi publicada em jornais de todo o mundo. Para Kunin, isso não foi apenas uma conquista política, mas uma revelação pessoal. Nascida em Zurique, em 1933, ela fugiu para Nova York com sua família judia em 1940.
"Um momento especial na minha vida foi quando eu encontrei o nome da minha mãe em uma das listas, como tendo uma conta inativa", diz. "De repente eu fazia parte da história."
A história levou muito tempo para chegar a uma conclusão. "No final, ambos os lados estavam exaustos", lembra Borer.
Finalmente, em 12 de agosto de 1998, os bancos suíços concordaram em devolver 1.25 bilhão de dólares às vítimas do Holocausto e seus herdeiros. O acordo foi presidido pelo juiz de Nova York Edward Korman, que segundo Borer "fez um grande trabalho de aproximação das partes."
Em 2013 - 15 anos depois - O juiz Korman apresentou contas sobre a distribuição final dos recursos das contas de liquidação e os escritórios do Claims Resolution Tribunal fecharam.
Em última análise, Thomas Borer acredita que o acordo alcançado foi "uma boa solução para ambos os lados. Ele colocou um termo a três anos de disputas."
A ex-embaixadora dos EUA, Madeleine Kunin, concorda. "Eu acho que depois de tantos anos é difícil devolver tudo para todos. Mas, considerando o quão difícil era essa tarefa, eu acho que chegou perto de ver a justiça sendo feita. Como muitos capítulos da história, foi complicado. Mas, no final, eu deixei a Suíça com o sentimento de que tinha feito a coisa certa."
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch