Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02403.jsonl.gz/105

O fundador e diretor do Festival de Jazz de Montreux, Claude Nobs, faleceu na quinta-feira (10) no Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça, em consequência dos ferimentos sofridos quando esquiava no dia 24 de dezembro.
Nobs, de 76 anos, permanecia em coma desde o momento do acidente, que aconteceu perto de sua casa em Montreux. Claude Nobs foi um dos fundadores, em 1967, do Festival de Jazz de Montreux, realizado nesta cidade suíça durante o mês de julho. Inicialmente, era reservado exclusivamente a artistas do jazz, mas a partir dos anos 1970 foi abrindo suas portas a outros estilos e recebeu músicos consagrados como Frank Zappa, Deep Purple, Prince, Pink Floyd e até mesmo Elis Regina.
A agenda de telefones de Claude Nobs era de dar inveja aos maiores produtores e empresários de músicos do planeta. O homem que Quincy Jones dizia ser "um dos maiores promotores da cultura da história" nasceu em Territet, a poucos minutos do centro de Montreux, na Suíça francesa. De origem modesta (seu pai era padeiro), Nobs começou sua carreira na gastronomia antes de começar a trabalhar na secretaria de turismo de Montreux. Ali, Nobs iria reinventar o conceito de festival graças a um encontro "milagroso" em Nova York com Nesuhi Ertegun, o chefão da Atlantic Records.
"Eu sonhava que os Estados Unidos conhecessem minha pequena cidade", disse, quarenta anos mais tarde, o pai do Festival de Jazz de Montreux. Amigo de lendários músicos como Miles Davis, Astor Piazzolla, Bill Evans, Tom Jobim, Freddie Mercury, David Bowie, Santana e BB King, Nobs conseguiu destacar internacionalmente o festival de Montreux e a cidade se tornou sinônimo de qualidade e consagração para qualquer músico moderno.
Swissinfo.ch esteve com o “pai” do Festival de Montreux logo após ter sido eleito pelos seus compatriotas como "o homem que mais fez pela promoção da Suíça". Esta entrevista exclusiva ocorreu em seu chalé "Le Picotin", nas montanhas de Montreux.
swissinfo.ch: Como começou a aventura de Montreux?
Claude Nobs: Eu tive um sonho em 1967, queria que a minha pequena cidade fosse conhecida nos Estados Unidos. Começamos com um orçamento inicial de modestos 6000 mil euros, e meus exemplos eram os festivais de Newport e Rhode Island. Naquela época, Newport reunia 10 mil pessoas por noite, enquanto nós ficávamos felizes se conseguíssemos reunir 600 pessoas no Casino. Agora, mais de 240 mil pessoas passam por Montreux. A ideia original era apenas de jazz, mas, depois, foi a mistura de diferentes ritmos. Comecei a trair os puristas do jazz nos anos 70, com uma programação que não era só de jazz puro. Felizmente, desde então, contamos todos os anos com cada vez mais músicos de outros horizontes.
swissinfo.ch: Muitas vezes, esses "puristas" criticam Montreux pelo seu ecletismo, onde em uma noite é possível assistir Alice Cooper e João Gilberto. Como o senhor responde aos críticos?
CN: Nós conseguimos um milagre, somos leais a três gerações de audiências. Uma família pode vir a Montreux com os avós, que vão assistir a Juliette Greco no Casino, enquanto os pais vão ver Sting no Auditório Straviniski e os filhos o Black Eyed Peas no Miles Davis Hall. E todo mundo sai feliz.
swissinfo.ch: Qual é o seu segredo? É verdade que a Suíça paga, junto com o Japão, os maiores cachês do mundo para os artistas?
CN: A magia de Montreux está nos encontros de músicos e concertos que nunca serão repetidos em nenhum outro lugar do mundo. A ideia principal é que os músicos em Montreux saiam do convencional e deixem de tocar seu repertório habitual. Os músicos não vêm aqui só pelo dinheiro, pois muitas vezes recebem melhores propostas financeiras em outros festivais. Mas nós os tratamos como reis e oferecemos as melhores condições do mundo na gravação de som e tecnologia de vídeo. Por exemplo, o pianista Bill Evans ganhou um Grammy em 1968 com um álbum gravado ao vivo em Montreux.
swissinfo.ch: Em Montreux foram gravados inúmeros discos históricos. Lembro de um concerto memorável de Elis Regina e Hermeto Pascoal.
CN: Elis Regina veio a Montreux, como Tom Jobim e Hermeto Pascoal, convidada por André Midani, presidente da WEA Brasil. Ele foi o primeiro a trazer músicos do Brasil para a Europa. No final do famoso concerto da Elis no Casino eu sugeri: "e se o Hermeto tocasse com ela?". O pessoal me disse: "você está louco? Hermeto não pode acompanhar Elis Regina". Eles não só aceitaram, como ficaram encantados em gravar algumas músicas juntos para este álbum histórico. Geralmente essas loucuras me caem bem, porque sou como uma criança que não tem medo de pedir algo que quer muito.
swissinfo.ch: O que o senhor acha da atual proliferação de festivais de música?
CN: A questão da concorrência na Europa dos festivais de verão é realmente uma loucura. Só na Suíça são mais de 100! Basta alugar um terreno e montar um palco para que qualquer um se torne promotor de shows sem ter a menor ideia sobre o assunto. Eles não têm nenhuma preparação ou critério. Esta situação não pode continuar. Cairá com seu próprio peso.
swissinfo.ch: E essa "praga" de concursos de televisão com cantores aspirantes que assola a Europa?
CN: Estes concursos são tão patéticos que não merecem mais comentários. Tudo é feito e tem cheiro de plástico. É só "look", sem coração nem talento.
swissinfo.ch: O senhor transformou o nome do Festival de Jazz de Montreux em uma marca de exportação. Uma espécie de franquia multinacional.
CN: Montreux é o único evento cultural no mundo presente em quatro continentes graças a nossas filiais em Cingapura, Tóquio, Atlanta, San Pablo e Praga.
swissinfo.ch: O senhor sempre tenta o que é mais difícil.
CN: É verdade, eu não sou produtor nem empresário. Eles só estão interessados em encher a sala e fazer dinheiro. Eu vou sempre muito mais além.
Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch