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Assim como as multinacionais, o CICV se internacionaliza. Com um orçamento operacional em alta de 25%, a organização humanitária aumenta os recursos para responder em tempo real às crises e conflitos armados que tendem a se agravar. Yves Daccord, diretor geral da instituição genebrina explica.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICVLink externo) planeja terceirizar alguns serviços da sua sede genebrina transferindo-os para a Sérvia e as Filipinas. Efetivamente, a partir de 1° de janeiro próximo, um plano social foi realizado para os colaboradores atingidos por uma reorganização ao longo de quatro anos. Se 49% empregados na sede são suíços, o CICV conta hoje em dia com colaboradores de 126 diferentes nacionalidades, duas vezes mais do que há dez anos.
Depois de ter sido diretor de comunicação do CICV, Yves Daccord assumiu o cargo de diretor geral da organização humanitária em 2010.
Número de empregados do CICV
Sede: 988 empregados, dos quais 49% são suíços.
Operações: 234
Recursos financeiros e logísticos: 210
Recursos humanos: 151
Comunicação e gestão de informação: 191
No terreno: 12.540, dos quais aproximadamente 15% são suíços
Delegações no mundo: aproximadamente cem em 84 países.Aqui termina o infobox
swissinfo.ch: Por que essas mudanças?
Yves Daccord: Acabamos de desenvolver uma nova estratégia para os próximos quatro anos. Acreditamos que teremos um ambiente mais difícil, com mais conflitos e crises de longa duração. As populações que tentamos atender, portanto, terão mais necessidades.
Pense na guerra na Síria, que chega ao seu quarto inverno, um país onde a economia se reduziu à zero. Pense também na Libéria atingida pela ebola, mas também fortemente desestruturada.
Por isso assumimos o risco de aumentar nosso orçamento operacional na base de 25% em relação ao de 2014 (1,4 bilhões de francos suíços). Há dois anos, estávamos a cerca de 900 milhões de francos.
Também amentaremos nossas capacidades em recursos humanos, chegando a 14.500 pessoas no ano que vem (13.500 atualmente). Nessa perspectiva, devemos gerir os recursos da forma mais inteligente possível: estamos em um programa de realocação de recursos, não de economia.
O CICV se torna uma organização global, que deve ser capaz de trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, em um campo de ação em expansão que vai das Ilhas Fiji, no Pacífico, à África, passando pela América Latina.
swissinfo.ch: O que isso significa para a sede do CICV em Genebra?
YD: A sede de Genebra continuará absolutamente central. Quanto mais nos tornamos uma organização global, mais a ancoragem genebrina ganha em importância em termos de identidade e de direção estratégica.
Preciso me assegurar de ter na sede colaboradores com o perfil adequado para conduzir as operações, realizar as nossas atividades de diplomacia humanitária e manter um nível elevado de competências jurídicas. Uma parte dos serviços, especialmente informáticos, serão transferida à Belgrado, outros à Manila, onde já realizamos uma parte da nossa contabilidade desde os anos 1990.
swissinfo.ch: Quais são os critérios de recrutamento?
YD: Somos uma organização multidisciplinar e procuramos pessoas muitos especializadas e competentes. Por exemplo, dos 100 delegados em primeira missão, 12% têm competências linguísticas de base, ou seja, dominam dois idiomas: o inglês e o francês. Mas 88% falam mais de três idiomas, dentre os quais o tailandês, o urdo e o árabe.
Os delegados da CICV trabalham efetivamente cada vez menos com tradutores, pois eles devem - em um mundo difícil - ser capazes de comunicar e trocar informações diretamente com as pessoas envolvidas no terreno.
Nossa área de recrutamento é no Oriente Médio, América Latina, Canadá, mas também na Suíça e em outras partes da Europa, onde encontramos assim as pessoas com o perfil desejado.
swissinfo.ch: Então por que um plano social?
YD: Para ser eficazes e controlar o crescimento do nosso orçamento na sede, temos de transferir um certo número de postos de trabalho nos próximos anos. Toda pessoa atingida pela perda de um emprego beneficiará de condições particulares. Temos uma convenção coletiva de trabalho, assim como uma associação do pessoal, com a qual negociamos com antecedência, pois somos empregadores responsáveis.
swissinfo.ch: A globalização do CICV leva, sobretudo, em conta a multiplicação dos locais de intervenção?
YC: Efetivamente temos cada vez mais operações. Estamos presentes em 84 países. Mas especialmente o mundo está a se polarizar muito mais desde 11 de setembro.
Não há mais convergências internacionais entre os grandes países. Não há mais um ou dois países que determinam a agenda. Nesse mundo em tensão, as relações de confiança são cada vez mais raras. A capacidade de compreender essas situações complexas é mais do que nunca importante.
Quase 70% das operações do CICV são realizadas em países muçulmanos. Nessa época de polarização, uma organização que tem como emblema uma cruz vermelha deve ser capaz de demonstrar no seu cotidiano que não faz parte dessa polarização e que é radicalmente neutra e imparcial.
Se não tivesse colaboradores de origens tão diversas, nossa presença na Síria ou no Iraque seria muito limitada. Não poderíamos intervir na Somália. Ora, na Síria ou no Iraque somos capazes de abrir portas, de ir aos limites: na Síria temos uma equipe internacional em Alepo, não apenas em Damas.
É o contrário na Líbia, um país que não conseguimos compreender. É um país totalmente novo para nós. Ora, são necessários muitos anos para compreender um país. Além disso, a Líbia encontra-se em um grande caos. Está extremamente fragmentada.
swissinfo.ch: O senhor tem a necessidade de expandir suas áreas de atuação frente às crises de longa duração?
YD: Nossa ação de base é de intervir em situações de crise grave, guerra ou crises humanitárias de grande amplitude. Mas é verdade que na última década, em todo caso, intervimos nas crises de longa duração como na Palestina, Sudão e outras.
Nossas equipes devem responder às necessidades urgentes, mas também a problemas crônicos. Seguramente não temos capacidade de reagir a todas as questões. Mas frente aos problemas crônicos, devemos levar em conta os mecanismos de reconstrução e de resiliência das populações.
Para dar um exemplo, quando comecei no CICV não havia nenhuma equipe veterinária. Hoje em dia dispomos delas na zona do Sahel, Somália e em outros lugares, pois chegamos à conclusão que levar comida ou ajuda humanitária "clássica" a certos povos nômades que sofrem de efeitos combinados de mudanças climáticas ou conflitos armados era totalmente inútil. O que pode realmente lhes ajudar é de cuidar do seu gado, que cumpre o papel de banco e reserva alimentar ao mesmo tempo.
swissinfo.ch: Mas esse não seria o papel das agências de cooperação?
YD: As agências de cooperação para o desenvolvimento procuram mudar uma situação. Esse não é o nosso caso. As agências estão envolvidas na melhora de um sistema educativo, financeiro, cultural e outros. Esse não é o caso do trabalho do CICV.
Adaptação: Alexander Thoele