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Por Tom Heneghan e Julie Mollins
PARIS/LONDRES (Reuters) - Mesmo hoje, 150 anos após sua publicação, "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, continua a alimentar choques entre cientistas convencidos da veracidade de suas teses e críticos que rejeitam a visão da vida sem um criador.
O atual "Ano de Darwin" -- assim chamado porque 12 de fevereiro de 2009 foi o bicentenário do nascimento do naturalista britânico e 24 de novembro, o 150o aniversário de seu livro -- foi marcado por uma enxurrada de livros, artigos e conferências debatendo a teoria da evolução, de sua autoria.
Enquanto muitos cobrem terreno que já foi amplamente tratado antes, outros enveredaram por caminhos novos. Mas não há consenso à vista, provavelmente porque a evolução darwiniana é ao mesmo tempo uma teoria científica poderosa que descreve como as formas de vida se desenvolvem através da seleção natural e uma base de filosofias e visões sociais que frequentemente incluem o ateísmo.
"As pessoas estão aceitando e rejeitando a evolução não tanto com base científica, mas como filosofia", disse à Reuters Nick Spencer, diretor do instituto público de estudos sobre teologia Theos, sediado em Londres.
"Hoje os darwinianos mais eloquentes frequentemente associam a evolução ao ateísmo. . à amoralidade e à ideia de que não existe desígnio ou finalidade no universo."
Spencer disse que muitas pessoas aderiram a posições anti-evolucionistas nos EUA e Grã-Bretanha nas últimas décadas "não tanto por rejeitarem a evolução como ciência, embora em muitos casos seja assim que a posição seja apresentada, mas porque a rejeitam como filosofia de vida."
"É perfeitamente possível ser evolucionista e não seguir essa filosofia em relação à vida -- ser evolucionista e ainda assim acreditar em Deus, no desígnio e na finalidade da vida", disse.
DÚVIDAS MUÇULMANAS A RESPEITO DE DARWIN
O criacionismo, a ideia de que Deus criou o mundo conforme é descrito na Bíblia, e a visão do "desígnio inteligente", que postula a existência de um criador a quem não é atribuído nome, costumam ser vinculados a grupos protestantes conservadores nos Estados Unidos.
Uma conferência realizada na semana passada em Alexandria, no Egito, tratou da ampla presença de visões anti-evolucionistas também no mundo muçulmano, onde fiéis citam o relato da criação apresentado no Alcorão -- que é semelhante ao da Bíblia -- para rejeitar o darwinismo como sendo ateu.
O astrofísico argelino Nidhal Guessoum, da Universidade Americana de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, disse que, segundo pesquisa recente, 62 por cento dos alunos e professores em seu campus disseram que a evolução "não passa de uma teoria não comprovada."
Apenas 10 por cento dos professores universitários não muçulmanos concordaram com essa visão. Guessoum também citou uma pesquisa segundo a qual 80 por cento dos estudantes paquistaneses põem em dúvida a teoria da evolução e muitos professores têm uma visão equivocada da teoria científica.
"Será preciso um esforço longo e sustentado, além de uma abordagem de compaixão" para convencer esses muçulmanos que a evolução não precisa necessariamente desmentir a fé", disse. "'Mais biologia' não melhora a situação, e 'mais ciência' não funciona."
Reuters