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Uma exposição no Museu Sasso San Gottardo relembra a história da organização secreta de resistência "P-26". Trinta anos após sua revelação e e posterior desmantelamento, o público descobre novas facetas desse capítulo apagado da história do país.
Os ventos tomaram uma nova direção. Durante muito tempo a opinião pública considerou o P-26, uma organização secreta criada nos tempos da Guerra Fria, com ceticismo e desconfiança. Na época, falava-se de um "exército secreto de espiões", cujos membros mantinham armas e explosivos mesmo em tempo de paz com o principal objetivo de assegurar resistência em caso de ocupação da Suíça por forças comunistas
Essa interpretação foi, em parte, causada pelas circunstâncias em que a existência do grupo P-26 se tornou pública, em 1990. As Comissões Parlamentares de Inquérito (CEP, na sigla em francês) criadas após a demissão da ministra Elisabeth Kopp descobriram não apenas 900 mil dossiês nos arquivos da Polícia Federal Suíça, mas também a existência de um exército secreto. Pouco depois de ser descoberto, o P-26 foi dissolvido pelas autoridades.
Nova perspectiva histórica
Muito tempo se passou até que as conclusões tiradas pelas comissões fossem relativizadas ou até reavaliadas. Hoje historiadores concluem que muitas das afirmações feitas no início da década de 1990 não correspondiam à realidade histórica. Essa nova visão surge a partir da tese de doutorado de um historiador chamado Titus Meier. Publicada em 2018 sob o título "Preparando-se para a resistência em caso de ocupação do país". A Suíça durante a Guerra FriaLink externo", a tese documenta a história do P-26 em todos seus detalhes. Para Meier, falar de exército secreto seria uma "fábula".
Organização secreta
O grupo "P-26" surgiu durante a Guerra Fria. Nessa época (entre a construção do Muro de Berlim, em 1961, até sua queda, em 1989), a Europa ocidental vivia angustiada com o perigo de invasão pelos exércitos dos países comunistas aliados no Pacto de Varsóvia. Agentes comunistas também estavam muito ativos na Suíça. Em suas ações, chegavam a medir ruas e pontes, produzir mapas detalhados para a passagem de tropas blindadas e até mesmo instalar depósitos secretos de equipamentos protegidos por explosivos.
Se as tropas do Pacto de Varsóvia invadissem a Suíça, o P-26 atuaria de diferentes formas. Dentre outros, ficaria encarregado de fornecer ao governo federal relatórios diários sobre a situação no país. O grupo foi concebido para servir de último recurso em uma situação que o país estaria ocupado por forças estrangeiras. O grupo faria uma resistência não violenta, protegeria os cidadãos ameaçados e documentaria os crimes de guerra cometidos pelos ocupantes.
O cartaz da exposição "TopSecret" mostra a Suíça pintada de vermelho, coberta de foice e martelo e presa entre correntes. Uma imagem que simboliza o temor sentido pelas populações do continente.
Com cerca de 400 membros, o P-26 era antes de tudo uma organização de liderança e treinamento. Ele deveria resistir às forças de ocupação e criar uma rede capaz manter a população informada. Sua existência era considerada sigilosa e seus membros não tinham permissão de falar nada sobre suas operações.
Na abertura da exposição "Top Secret P-26Link externo", aberta à visitação até 13 de outubro no Museu Sasso San Gottardo, na região do desfiladeiro do São Gotardo, veteranos do exército secreto deram a sua versão dos fatos. Susi Noger era professora em uma escola secundária de St. Gallen. Porém no P-26 atuava como operadora de rádio sob nome de código "Tina". Só o marido tinha conhecimento das atividades da esposa. "Não foi difícil manter o segredo. Importante para mim era não estar participando de algo ilegal", diz. No entanto, após a dissolução do grupo secreto, foi mais difícil para ela cumprir as regras: a ordem era manter tudo em segrego até 2009.
Lugar simbólico
André Blattmann, ex-chefe do Exército Suíço, descreveu corretamente o local de exposição como um "lugar simbólico". O bunker do Sasso San Gottardo se transformou em museu, mas durante muitos anos era também uma base secreta. Um corredor úmido de 400 metros leva ao espaço onde os documentos relativos ao grupo P-26. Há muita coisa para ler.
Na escadaria de acesso estão artigos de jornais de 1990 com as manchetes sobre o chamado exército secreto do "Estado bisbilhoteiro". A exposição documenta a situação tensa na Guerra Fria, quando foi criado o grupo. "Finalmente consegui acertar as minhas contas com a CEP-DMF de 1990", diz o curador da exposição, Felix Nöthiger. Ele trabalha para a Fundação Pro Castellis, que luta há anos pela reabilitação dos ex-membros do P-26. Seu balanço: "Trinta anos após o escândalo de um alegado "exército secreto privado, ilegal altamente equipado", os fatos são restaurados e a informação falsa sensacionalista geradas pelas comissões parlamentares são finalmente corrigidas."
Infelizmente a exposição não conseguirá revelar todos os mistérios que cercam o grupo P-26. Alguns arquivos desapareceram dos arquivos federais ou, no mínimo, não foram encontrados. Além disso, vários documentos originais permanecem "secretos" até 2041.
A exposição "TopSecret P-26", Sasso Gottardo, pode ser visitada até 13 de outubro de 2019. Mais informações. http://www.sasso-sangottardo.ch/Link externo
Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch