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Durante anos, Liz del Tufo se negou a seguir os passos de amigos e vizinhos brancos que abandonavam Newark, aterrorizados com os sangrentos confrontos de julho de 1967, que deixaram em ruínas a cidade, próxima de Nova York(afp_tickers)
Durante anos, Liz del Tufo se negou a seguir os passos de amigos e vizinhos brancos que abandonavam Newark, aterrorizados com os sangrentos confrontos de julho de 1967, que deixaram em ruínas a cidade, próxima de Nova York.
Cinco décadas depois, ela começa a ter, enfim, a recompensa de sua obstinação.
Junius Williams, militante da causa negra, que tinha 23 anos na época, era ligado à "rebelião" e documentava a violência policial.
Ele alega que, se os negros incendiaram as lojas ao longo da avenida Springfield de 12 a 17 de julho de 1967, depois que um motorista de táxi foi selvagemente agredido pela Polícia, foi porque "se sentiam maltratados, humilhados". E não viam, naquele momento, "outra maneira de reagir" diante de um poder local que negava um lugar a uma comunidade negra em forte crescimento em Newark desde 1960.
Os confrontos terminaram em 26 mortos e mais de mil feridos.
Meio século depois desses protestos reprimidos pela Guarda Nacional, Williams e Liz, de 73 e 83 anos, respectivamente, ficaram amigos, unidos por um mesmo laço por essa cidade deserdada, conhecida - sobretudo - por seu aeroporto internacional e pela criminalidade.
Liz preside uma associação de patrimônio. Junius estimula pais e alunos a melhorarem as escolas da cidade. Essa amizade se tornou, na verdade, testemunha dos esforços de Newark para se reconstruir e sair do círculo vicioso da miséria e da violência.
Ruas sujas, terrenos baldios, ou casas abandonadas, pessoas que vagam aparentemente desorientadas. As marcas da pobreza continuam sendo muitas na cidade mais populosa de Nova Jersey, onde cresceu o escritor Philip Roth antes que a população branca fugisse para os subúrbios vizinhos.
- Millenials -
Os sinais de uma renovação também crescem, porém: a população, que havia caído de 405 mil, em 1960, para 272 mil, em 2000, começa a aumentar. Hoje, passa de 280 mil habitantes.
Ainda que a violência das gangues e do tráfico de drogas continue sendo endêmica, no final de 2016, a criminalidade voltou a registrar seu menor nível desde 1967, afirma o diretor de Segurança Pública e braço direito da prefeita Ras Baraka, Anthony Ambrose.
Há grandes projetos imobiliários em curso no centro da cidade, ou ao longo do rio Passaic. Além disso, é aqui que começam a se instalar os jovens "millenials" espantados com os caríssimos preços imobiliários em Nova York. Com eles, chegam lojas e diferentes tipos de comércios e de moradia inimagináveis em Newark há alguns anos.
"Durante muito tempo, a cidade não melhorou", admite Liz.
Essa democrata convicta que quase se mudou após a morte do marido em 1970, diz estar "muito feliz" por ter ficado, já que "as coisas começaram a mudar".
Militante e preocupado com o que vê como um início de gentrificação, Williams também reconhece que a discriminação é "bem menos escandalosa" do que em 1967.
Três anos depois dos protestos, a cidade elegia seu primeiro prefeito negro, Kenneth Gibson, assim como todos que vieram na sequência. A população é, hoje, 52% negra e 33% hispânica. E Newark também conta com uma forte comunidade brasileira e portuguesa.
O rosto da Polícia também mudou. Agora, 78% dos policiais são negros, ou de origem hispânica.
Desapareceram os conjuntos residenciais populares e insalubres, onde a criminalidade abundava e que que estiveram no centro dos distúrbios. Foram substituídos por ruas inteiras de pequenas casas contíguas para famílias de baixa renda.
- Criminalidade e desemprego, um perigoso coquetel -
Apesar das mudanças, o desemprego permanece como um grande fantasma. Um relatório publicado em abril passado mostra que apenas 20% dos novos postos de trabalho são ocupados por moradores de Newark. Um problema prioritário para a prefeita democrata Ras Baraka.
Criminalidade e desemprego continuam sendo, afinal, uma mistura perigosa.
Para Williams, se o risco de violência diminuiu é, sobretudo, porque os negros "internalizaram sua raiva" e brigam hoje entre si - mais do que contra as persistentes injustiças, às quais são expostos todos os dias.
Nascido nessa região e chefe da Guarda Municipal local por 20 anos, Ambrose é cauteloso sobre descartar a possibilidade de novos distúrbios, como os que inflamaram recentemente as cidades de Ferguson, no Missouri, ou de Charlotte, na Carolina do Norte, em reação à violência policial contra os negros. Ele pede paciência.
"As pessoas devem se lembrar de onde partimos. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas vamos pelo caminho certo", estimulou.
AFP