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Uma conferência de dois dias ocorre esta semana em Genebra para tentar relançar a identificação de 1.658 pessoas desaparecidas durante a guerra do Kosovo (1998-1999). Para a ocasião, as famílias de vítimas sérvias e kosovares se uniram para incitar as autoridades locais e internacionais a ultrapassar os bloqueios e as más vontades políticas.
"Nós, as mães, pais, esposas, maridos, irmãos, irmãs, filhas, filhos e outros membros da família das pessoas desaparecidas (…) não nos repousaremos até que o paradeiro da última pessoa que falta seja esclarecido. Há 18 anos, cada dia é um dia de agonia para cada um de nós."
É assim que começa o apelo conjunto que assinaram em 21 de junho último as famílias sérvias e kosovares de desaparecidos durante a guerra no Kosovo (1998-1999).
O que elas pedem mais uma vez é que os restos mortais de seus parentes executados lhes sejam devolvidos, que a verdade seja estabelecida sobre os crimes para que o luto possa enfim ser feito. O apelo conjunto é endereçado a Belgrado, Pristina e a chamada comunidade internacional durante uma reunião em Genebra.
A conferência que ocorre quinta e sexta-feira sob a égide da Missão das Nações Unidas no Kosovo (MINUKLink externo) reúne não somente as famílias das vítimas, mas também delegações governamentais sérvia e kosovares, como ainda as organizações internacionais especializadas em questões dolorosas, como o CICLink externoV e especialistas da’ONU em desaparecimentos forçadosLink externo.
Son issue dira si la demande pressante des familles a été entendue par les parties concernées et permet de relancer les recherches et les actions en justice.
Até agora, elas praticamente quase nada conseguiram. Das 6044 pessoas desaparecidas em 2002, um grande número foi encontrado nos dois anos seguintes. Depois o ritmo de descobertas baixou constantemente com somente 4 casos resolvidos em 2015, 14 em 2016 e 6 este anos, segundo dados do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
Como explicar essa situação?
Órgão encarregado de administrar o Kosovo até 2008, a Missão de Administração Interina das Nações Unidas no Kosovo (MINUK) é acusada há vários anos. Em relatório publicado em 2013, a ONG Anistia Internacional já acusava o “protetorado” da ONU: “O fato que a MINUK não investigou os ataques sistemáticos e de grande amplitude contra civis, ou mesmo crimes contra a humanidade, contribuir para o clima de impunidade que predomina no Kosovo”.
Críticas também visam o Tribunal Penal para a Ex-Iugoslávia que não teria colhido amostras de ADN nos cadáveres encontrados no Kosovo, o que provocou identificações errôneas. Trata-se de um horror adicional para as famílias que poderiam descobrir que o túmulo que elas honram é ocupado por uma outra pessoa.
Miriam Ghalmi, chefe do setor de Direitos Humanos na Missão da ONU no Kosovo, diz que o objetivo dessa conferência não é um acerto de contas. “Algumas dessas instâncias não tinham por objetivo de indentificar precisamente as vítimas, mas de encontrar e julgar seus algozes. Essa conferência é primeiro um espaço de discussão para as famílias de vítimas e a ocasião para elas de serem ouvidas no cenário internacional. A reunião permitirá aos especialistas convidados, entre eles argentinos, bósnios lituanos e suíços, de trocar experiências e contribuir a resolver a questão dos desaparecidos no Kosovo, por uma vez no centro das atenções internacionais”.
Miriam Ghalmi insiste: “Erros foram cometidos em todas as partes participantes. A conferência quer relançar o processo de identificação e de justiça, dando espaço às famílias de desaparecidos e seu calvário.”
A conferência ilustrará a que ponto as resistências políticas pode ser ultrapassadas, porque um bom número de responsáveis desses crimes de guerra anda são atores políticos importantes na Sérvia e no Kosovo. É o intransponível campo de tensões provocado pela resolução política de guerras, a necessidade de paz e de justiça, duas expectativas difíceis de coincidir.
Adaptação: Claudinê Gonçalves