Document ID: /fineweb-2-swissfilter-quality_10-filterrobots/filtered/02408.jsonl.gz/64

De dia eles são publicitários, youtubers ou trabalham na informalidade. À noite, se esquivam do gás lacrimogêneo e das bombas de efeito moral para ajudar os feridos nos confrontos entre a polícia e os jovens, protagonistas de uma inédita explosão social na Colômbia.
"Usamos a maca como escudo", relata um enfermeiro de 24 anos que há duas semanas atende os feridos nas barricadas do Portal das Américas, um ponto de transporte do sul de Bogotá.
Desde 5 de maio, manifestantes bloqueiam este ponto da capital colombiana em repúdio à denúncia de prisão ilegal de uma dezena deles. O local é conhecido agora como "Portal Resistência" e é um dos símbolos da convulsão social que há um mês desafia o governo do conservador Iván Duque.
"Via nas notícias diariamente a quantidade de feridos e me sentia impotente em casa (...) Decidi um dia pegar minha maleta e ir ajudar", relata à AFP uma chefe de enfermagem de 34 anos que prefere não revelar seu nome por razões de segurança.
Em um mês de protestos morreram 46 pessoas, a maioria civis, segundo a Defensoria do Povo. O Ministério Público estabeleceu que 15 dos casos têm vínculo direto com as manifestações, mas a ONG Human Rights Watch afirma ter "denúncias confiáveis" de 63 mortes, 28 relacionadas com a crise.
Em 24 de maio, Armando Álvarez, médico que prestava atendimento aos manifestantes na cidade de Cali (sudoeste), foi morto a tiros ao sair do trabalho. Diante de episódios como estes, os voluntários mantêm o anonimato.
De dentro de casa casa, vizinhos iluminam uma quadra de basquete onde a enfermeira improvisa seu consultório. Enquanto isso, um punhado de socorristas vai até a linha de frente, onde manifestantes armados com pedras e escudos de madeira e latão enfrentam a tropa de choque da polícia.
Ali chegam pessoas asfixiadas pelo gás lacrimogêneo ou feridas com bolas de gude, chumbo e bombas de efeito moral disparadas pela polícia. Os casos mais graves são as lesões na face e nos olhos. A prefeitura de Bogorá reporta 33 destas lesões.
- "Perdi o olho?" -
Os jovens manifestantes, que diariamente chegam às ruas para denunciar abusos policiais e exigir um Estado mais solidário diante da profunda deterioração econômica e social trazidas pela pandemia, exigem "o cessar das noites de terror".
Durante o dia, ocupam a entrada da estação de transporte. Cantam palavras de ordem, pintam a praça vizinha e mantêm uma cozinha comunitária com donativos. Quando a noite cai, chegam encapuzados que atiram pedras na instalação. Os uniformizados respondem com bombas de gás e de efeito moral. Uma dúzia de manifestantes resiste aos embates na chamada "primeira linha".
Na noite de 22 de maio, um uniformizado que policiava a estação ficou em "estado crítico" após ser atingido por uma bomba incendiária.
A brigada de voluntários se posiciona a 200 metros da área dos confrontos. O primeiro ferido chega ao ponto médico às 21h30, carregado por seus amigos. Uma bomba de gás disparada do alto de um edifício o atingiu no tornozelo, afirma.
Atrás dele vem um manifestante ferido no ombro por um projétil que não soube identificar e outro que sofreu vários arranhões quando um policial tentou prendê-lo. A multidão impediu que fosse capturado. A Defensoria do Povo está atrás do rastro de 168 pessoas cujo paradeiro se perdeu em meio às manifestações em todo o país.
Há dias piores do que outros, diz a enfermeira. "São coisas que mexem com a gente, ouvir um menino perguntar: diga-me a verdade, perdi o olho?", relata.
- Causa comum -
Por volta das 23h, os manifestantes que recuam querem erguer uma barricada com troncos acesos junto do consultório. Um voluntário se aproxima e os persuade a manter o confronto longe do ponto médico.
A brigada é formada por uma dezena de pessoas com idades entre 18 e 34 anos. Alguns têm formação em enfermagem ou medicina, outros são voluntários que aprenderam pelo caminho ou com familiares.
"Tenho conhecimentos básicos de primeiros socorros (...) e sinto a necessidade de aplicá-los em uma situação como esta que estamos vivendo na Colômbia", explica um publicitário de 32 anos. "Também protestei", continua.
"Uma amiga minha foi agredida sexualmente pelos policiais daqui", conta outro socorrista, que se junta à brigada após terminar seu trabalho em uma praça de mercado.
O jovem de 23 anos tem um emprego informal, assim como a metade dos 50 milhões de habitantes da Colômbia. A pobreza afeta 42,5% da população.
Embora os confrontos tenham afetado os bairros próximos, vizinhos continuam doando insumos médicos e alimentos para os voluntários.
"Nós estamos fazendo o que a polícia deveria ter feito: salvar vidas", assegura o socorrista.