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Uma criança síria em Raqa come no acampamento de Al Karama, a 20 quilômetros a leste do bastião do grupo Estado Islámico, no dia 13 de junho de 2017(afp_tickers)
Com a intensificação dos combates para expulsar os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) de Raqa, as organizações não governamentais enfrentam um desafio enorme para auxiliar os civis dessa região isolada da Síria.
O abastecimento "é muito, muito limitado, enquanto as necessidades são imensas", resume Puk Leenders, coordenador da Médicos Sem Fronteiras (MSF) para as operações de emergência no norte da Síria.
As ONGs procuram ajudar os milhares de habitantes que fugiram de Raqa e seus arredores desde o lançamento, em novembro, da ofensiva das Forças Democráticas Síria (FDS), uma aliança de árabes e curdos apoiada pelos Estados Unidos, para tomar a região dos extremistas islâmicos.
Mas com o avanço nas últimas semanas das FDS na cidade de Raqa, novas ondas de deslocados são esperadas.
A ajuda humanitária é difícil de ser entregue nesta região desértica e isolada do resto da Síria e dos países vizinhos, a Turquia e o Iraque.
Ancara, que considera as FDS um grupo "terrorista", fechou sua fronteira ao norte de Raqa.
A fronteira com o Iraque, cerca de 300 km ao nordeste do reduto extremista, continua aberta às mercadorias, mas, na prática, a circulação é limitada, segundo autoridades locais.
A ONU, que opera na Síria com a autorização do regime, conseguiu enviar ajuda a partir de Damasco para a cidade de Qamichli, a cerca de 300 km de Raqa.
Mas esta ajuda é "limitada e insuficiente para enfrentar todas as necessidades", estima David Swanson, porta-voz regional do Escritório de coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU (OCHA).
- 'Situação volátil' -
Cidade média na Síria, Raqa tinha 300.000 habitantes durante o reinado do EI, incluindo 80.000 deslocados de outras regiões em guerra. Mas de acordo com a ONU, cerca de 169.000 pessoas fugiram da cidade e seus arredores durante os meses de abril e maio.
Desde então, milhares de deslocados estão amontoados em acampamentos subdimensionados para abrigá-los.
Assim, em Ain Issa, cerca de 50 km ao norte de Raqa, os civis recém-chegados dormem no chão, sem colchão ou tenda.
"O acampamento tem mais de 25.000 pessoas, quando foi projetado para acomodar 10.000", diz seu diretor à AFP, Jalal Ayyaf. "As ONGs prestam assistência, mas é insuficiente para atender a todas as chegadas".
Cerca de 800 pessoas chegam todos os dias no campo, segundo Leenders da MSF. Outras dormem à beira das estradas ou sob as árvores ao norte da cidade.
Os agentes humanitários também estão preocupados com a "situação de segurança altamente volátil". Os civis são ameaçados por "minas e artefatos explosivos improvisados (...), pelos ataques do EI e bombardeios da coalizão internacional", afirma Paul Donohoe, do International Rescue Committee (IRC).
"Quase metade da população (remanescente) de Raqa poderia fugir da cidade", adverte.
A Comissão de Inquérito da ONU sobre a Síria exortou nesta quarta-feira os protagonistas a proteger a população, expressando preocupação com o crescente número de civis mortos, incluindo nos ataques aéreos.
- 'Escolha impossível' -
Aqueles que conseguem fugir, muitas vezes são feridos ou apresentam problemas de saúde, que vão de desidratação a doenças crônicas não tratadas. Mas a região carece de médicos e profissionais da saúde e as infraestruturas foram danificadas nos combates.
"Os hospitais estão cheios de minas. É muito difícil utilizá-los (...) É um imenso desafio", ressalta Leenders.
Além disso, "muitos civis em fuga desembarcam em locais muito próximos da linha de frente de combate" e, portanto, de difícil acesso para os trabalhadores humanitários, explica Donohoe.
MSF tenta estabelecer unidades médicas para tratar os feridos graves até que possam ser levados a hospitais.
Os civis em Raqa enfrentam "uma escolha impossível", alertou a ONG na semana passada.
"Ou permanecem em Raqa e expõem seus filhos à violência e aos ataques aéreos, ou tentam atravessar a linha de frente, sabendo que podem ser atingidos pelo fogo cruzado".
AFP