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Fazem exatamente 65 anos nesta sexta-feira (06) que bombas nucleares lançadas pelos Estados Unidos destruíram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Foi um desastre de dimensões sem precedentes.Este conteúdo foi publicado em 06. agosto 2010 - 15:00
Desde o fim da Guerra Fria a luta contra as armas nucleares avança, mas o especialista suíço em conflitos, Kurt R. Spillmann, constata que ainda existem grandes lacunas.
Kurt R. Spillmann participou do apoio ao Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares assinado em 1970, "um instrumento essencial" para permitir à comunidade internacional de lutar contra as armas nucleares.
Apesar desse tratado, de uma convenção ainda mais restritiva prevista para as armas nucleares e da iniciativa pela interdição das armas nucleares proposta pela Suíça, somente a vontade das potências nucleares pode instituir órgãos de controle dotados de um poder real para eliminar as armas nucleares.
Esse é o ponto de vista de Kurt R. Spillmann, especialista suíço e política de segurança análise de conflitos. Ele constata grandes lacunas na luta contra as armas nucleares.
Spillmann é historiador e fundador do Instituto de Política de Segurança na Escola Politécnica Federal de Zurique (EPFZ). Ele dirigiu esse instituto até 2002.
swissinfo.ch: Sessenta e cinco anos depois de Hiroshima e Nagasaki, os problemas mundiais são o aquecimento climático, o terrorismo internacional, a pobreza, os fluxos migratórios, os conflitos culturais e religiosos, a crise econômica etc. Que espaço tem a questão das armas nucleares?
Kurt R. Spillmann: No final da Guerra Fria, essa questão perdeu um pouco do interesse público. Mas existem a exceção de três casos atuais: Coréia do Norte, o Irã e Israel. Mas, na realidade, o tema continua a ter uma grande importância.
swissinfo.ch: Pode-se atribuir ao Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, assinado em 1970, o fato que depois de Hiroshima e Nagasaki e a corrida aos armamentos nucleares durante a guerra fria, nunca mais foram utilizadas armas nucleares nos confltos?
K.R.S.: Eu não faria uma ligação tão direta. O Tratado de Não- Proliferação é um instrumento essencial para frear as aspirações de vários países em desenvolvimento que querem se tornar potências nucleares.
Mas os exemplos da Índia, do Paquistão, da África do Sul, do Brasil e de Israel mostram que o tratado não impediu certos Estados de possuir armas nucleares ou estar dispostos a obtê-las.
No entanto, o tratado resta um instrumento importante que permite às potências nucleares estabelecidas de fazer pressão contra o desenvolvimento desse tipo de armas.
swissinfo.ch: Será que uma convenção sobre as armas nucleares pode conter cláusulas concretas que eliminariam totalmente as armas nucleares?
K.R.S.: Esse instrumento ainda não existe. O fato que todos os Estados concordem com uma convenção internacional e renunciem às armas nucleares parece uma utopia.
A eficácia de tal instrumento dependeria sempre da vontade dos Estados-membros de criar instâncias de controle dotadas de um poder real de supervisão na aplicação da convenção.
Como "cão de guarda" da ONU, só existe a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, sediada em Viena) tem poder, pois assessora os membros do Conselho de Segurança da ONU.
A existência dessa instância é importante, mas não se pode esperar que o mundo seja livre das armas nucleares. Depois da descoberta da bomba atômica, não se pode voltar atrás. É extremamente difícil manter essa invenção sob controle.
swissinfo.ch: A Suíça lançou uma iniciativa por uma convenção internacional que proibiria as armas nucleares, como já estão proibidas as armas químicas e biológicas. Há chances de sucesso?
K.R.S: Por enquanto não. A iniciativa vai da mesma direção da convenção pela desnuclearização. Segundo o mesmo princípio, uma convenção funcionaria unicamente se os órgãos de controle tiverem poder. E os Estados ainda estão longe de ceder.
swissinfo.ch: Existe falta de vontade política das grandes potências nucleares?
K.R.S.: Absolutamente. É o mesmo princípio aplicado à ONU. É uma instância maravilhosa cujas regras permitem às diferentes nações de se organizarem. Graças a esse organismo muita violência foi evitada, os conflitos podem ser resolvidos através de negociações e não mais unicamente pela guerra.
Também é o caso em matéria de desarmamento nuclear. Só que o bom funcionamento depende da vontade e de acordo entre os membros para adotar medidas de controle e aplicá-las.
Como a história demonstra, manter a cooperação internacional e o respeito das regras estabelecidas tende a vacilar. George W. Bush, como outros presidentes norte-americanos antes dele, desprezaram a ONU.
swissinfo.ch: Com relação ao Irã, o que significaria para o Oriente Médio se Teerã declarasse dispor da bomba atômica?
K.R.S.: Para o Irã, país com uma cultura antiga e muito bem organizado, isso representaria um ganho de prestígio e poder.
Mas, em razão das armas nucleares existentes e dos instrumentos para controlá-las, tenho a convicção que o Irã não vai construir a bomba atômica.
Em contrapartida, existe o perigo que organizações islâmicas fundamentalistas obtenham a bomba nuclear. A Al Qaeda aspira abertamente a obtê-la. E aí o Paquistão representa um perigo muito maior do que o Irã.
Renat Künzi, swissinfo.ch
(Adaptação : Claudinê Gonçalves)
IMPACTO EMOCIONAL
Os criticos das armas nucleares afirmam que foi a declaração de guerra da Rússia que levou o Japão a capitular e não as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos em 1945 sobre Hiroshima e Nagasaki.
Kurt R. Spillmann pensa que essa teoria é falsa. “Ela leva unicamente em conta um cálculo estratégico baseado nas forças à disposição e o potencial de vitória, e descarta completamente o fator emocional.” É um fator determinante, segundo Spillmann.
“O impacto das duas bombas atômicas sobre o Japão foi esmagador. Tratava-se de uma nova arma, exceto para um punhado de especialistas. A população não tinha conhecimento de seu potencial de destruição.”
Ele acrescenta que antigamente o Japão era “armado até os dentes” e que o exército era capaz de defender eficazmente o país.
“Esses dois golpes duros e o medo de sofrer outros, fizeram com que os soldados que queriam continuar o combate , respeitassem a ordem de capitulação do imperador”, explica Kurt R. Spillmann.
A Suíça e a bomba atômica
Mesmo se pode parecer absurdo, a Suíça procurou até 1969 desenvolver a bomba atômica.
Essa política ativa em favor do desenvolvimento de armas nucleares surgiu de uma concepção militar clássica.
Até uma certa época, as armas nucleares eram consideradas como bombas clássicas, embora com uma força de destruição maior, mas das quais se sobreveria.
Portanto, não se media a dimensão de uma bomba atômica.
“Isso teria aumentado muito o perigo para a Suíça. Fico feliz de termos abandonado essa política perigosa”, afirma Kurt R. Spillmann.
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