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Menina internada no hospital infantil "J.M. de los Rios" em Caracas, Venezuela 22/06/ 2017. REUTERS/Marco Bello(reuters_tickers)
Por Eyanir Chinea e Andreina Aponte
CARACAS/LA GUAJIRA, Venezuela (Reuters) - Samuel Becerra, de doze anos de idade, foi ao principal hospital pediátrico da Venezuela para fazer uma diálise rotineira em março.
Dois meses depois ele estava morto, assim como três outras crianças que também desenvolveram infecções bacterianas no hospital infantil J.M. de los Rios, em Caracas.
Elas são apenas algumas das muitas crianças que morreram em meio a uma crise de saúde que vem se agravando rapidamente no país, de acordo com médicos, pacientes e dados oficiais e particulares.
Milhões de venezuelanos estão passando aperto devido à escassez de produtos e à inflação de três dígitos em um ambiente de grande turbulência política e econômica, que desencadeou meses de protestos de rua nos quais ao menos 75 pessoas foram mortas.
A produção declinante de petróleo, um grande item de exportação, está deixando o governo cada vez mais carente de recursos, e a escassez de tudo, de alimentos a equipamentos médicos, está afetando especialmente grupos vulneráveis, como idosos e crianças.
A mãe de Samuel, Judith Bront, ainda chora ao falar da morte do filho.
"Samuel tinha insuficiência renal crônica desde que nasceu", disse Judith, de 53 anos. "Ele fazia diálise há nove anos, e isso nunca tinha acontecido."
Uma dúzia de outras crianças tem a mesma infecção, que os médicos descobriram ser causada por máquinas de diálise mal preservadas por falta de recursos, de acordo com Belén Arteaga, chefe da unidade renal do hospital.
Pesquisas realizadas em outubro do ano passado pela organização católica sem fins lucrativos Cáritas em setores pobres dos quatro Estados mais populosos da Venezuela revelaram que 48 por cento das crianças com menos de 5 anos de idade estavam subnutridas. Até abril, essa cifra havia subido para 56 por cento.
"Estamos subindo 1 ponto percentual por mês!" disse Susana Raffalli, nutricionista coordenadora do estudo da Cáritas, que viu e estudou emergências humanitárias em diferentes partes do mundo.
O percentual de crianças com alto risco de morte por desnutrição subiu de 8 por cento em outubro para 11,4 por cento em abril, mostraram as pesquisas.
Muitos tratamentos no hospital J.M. de los Rios só estão disponíveis graças a doações particulares, de acordo com médicos e pacientes. É comum os próprios pais limparem os quartos rudimentares, e não há água potável.
Um levantamento feito neste ano pelo Congresso de maioria opositora mostrou que 9 dos 10 maiores hospitais do país não têm instalações de diagnóstico adequadas, como máquinas de raio X e laboratórios, e 64 por cento não oferecem alimentação aos pacientes.
Nem o Ministério da Informação nem o Ministério da Saúde responderam a pedidos de comentário.
Apesar da mortalidade infantil ter caído nos últimos anos na América Latina, na Venezuela houve um saldo de 30 por cento em 2016, de acordo com dados oficiais.
Em média, 31 crianças com menos de um ano de idade morreram por dia na Venezuela no ano passado, muitas delas vítimas de diarreia, infecções bacterianas e outras doenças que, de acordo com a sociedade pediátrica local, poderiam ser evitadas ou tratadas facilmente.
(Reportagem adicional de Lenin Danieri em La Guajira)
Reuters