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René Gagnaux foi assassinado em 1990 nas últimas horas da guerra civil. O governo nunca descobriu os autores do crime.
Seus filhos não abandonaram Moçambique: eles se integraram, aprenderam os dialetos, casaram e tiveram filhos. Um deles é até um forte candidato ao cargo de prefeito de Maputo.
Em dois de maio de 1990, René Gagnaux estava a caminho de Manhiça, uma localidade próxima ao hospital de Xinavane. Testemunhas locais afirmam que um grupo de jovens armados obrigou-o a saltar do carro e depois o fuzilaram. Os autores do crime nunca foram encontrados. "Também não sabemos se foram rebeldes, tropas oficiais ou mesmo bandidos que o fizeram. Na confusão da guerra civil, tudo era possível", lembra-se Pierre.
No velório estiveram presentes a família, amigos, ministros e também muitos dos antigos pacientes. "Massassane morreu", era a frase mais repetida pelos moçambicanos que o conheciam.
O suíço foi cremado. Suas cinzas espalhadas no rio Incomati. Um ano depois, René Gagnaux recebia a título póstumo a medalha Bagamoyo, a condecoração mais importante do país, e também a cidadania moçambicana.
Integração
Nos piores anos da guerra civil, René Gagnaux enviou os filhos para estudar na Suíça e não passar a penúria do racionamento. Sua esposa também chegou a sair alguns anos do país. Porém, apesar da tragédia vivida pelo assassinato, a família decidiu se estabelecer em Moçambique.
Pierre Arthur Gagnaux, 39 anos, é o rebento mais jovem da família e também o mais nativo. "Fui o único a nascer em Moçambique e falo também os dialetos locais como ronga e xangana", explica ele num português claro e sem sotaque, como é falado pelos habitantes de Maputo.
Depois de concluir uma formação técnica de construtor de barcos em Lausanne, ele decidiu retornar para Moçambique em 1991. "Não me sentia muito à vontade na terra dos meus pais", analisa.
Casado pela segunda vez com uma moçambicana, Pierre já tem dois filhos. Além de trabalhar como chefe de logística na Cooperação Suíça em Maputo, o suíço-moçambicano também atua como cenógrafo nas produções cinematográficas realizadas no país. "Porém esse é um trabalho que ocorre não muito regularmente, mas por qual eu tenho uma grande paixão", conta. Nas próximas férias, ele irá colaborar com uma equipe portuguesa, que roda em Maputo um longa-metragem.
Família moçambicana
Também a viúva Gagnaux não abandonou Moçambique. "Há poucos anos ela conheceu um senhor e agora eles estão vivendo juntos em Matola, um bairro distante de Maputo", conta Pierre. "A vida continua", conclui.
Dos outros três irmãos, apenas Marc Arthur, 44 anos, vive na Suíça. Ele é casado com uma tailandesa, trabalha como engenheiro mecânico em Genebra e tem um filho. Luc Gagnaux, 43 anos, estudou fotografia, mas hoje em dia tem um emprego num grande supermercado em Beira, a segunda maior cidade de Moçambique. Tem dois filhos e também está casado com uma moçambicana.
O irmão mais velho, Philippe Arthur, 45 anos, é o que mais parece ter seguido os traços do pai. Depois de ter estudado medicina e pós-graduado na Suíça, ele decidiu que apenas o trabalho de curar as pessoas não seria suficiente para melhorar a situação dos moçambicanos. O caminho seria a política.
Em 1998, Philippe concorreu às primeiras eleições autárticas (municipais) realizadas em Moçambique. Sua lista eleitoral independente, chamada "Juntos pela Cidade", chegou a obter 30% dos votos em Maputo, aproveitando-se do boicote às eleições por parte da Renamo.
Um dos membros conhecidos da lista, eleito posteriormente para a Assembléia Municipal de Maputo, foi Carlos Alberto Cardoso. O conhecido jornalista moçambicano de origem portuguesa foi assassinado em 22 de novembro de 2000. Segundo a imprensa local, o crime estaria vincluado às sérias denúncias que Cardoso realizara nas páginas do seu jornal. O crime ainda não foi esclarecido.
Nas últimas eleições municipais, ocorridas em dezembro de 2003, Philipe Gagnaux também se candidatou ao governo de Maputo, ficando em terceiro lugar com 10% dos votos. Sua ligação com a terra que acolheu a família também é forte: ele é casado com uma moçambicana e tem quatro filhos.
swissinfo, Alexander Thoele